Projeto de Formação de Leitores e Mediadores de Leitura “CEJA um Contador de Histórias” www.cejaumcontadordehistorias.blogspot.com Índice 04 - Apresentação 05 - Objetivo 06 - Resultados Esperados 07 - Contar Histórias 09 - Pesquisadores da Tradição Oral 12 - Formação de Contadores de Histórias nos Cejas 18 - Aulas de Campo Educativas Cultural 18 - TEATRO DO SESC ARSENAL: Espetáculo “A Mala de Fugir” 23 - CINEMA DO SESC ARSENAL: Filme “Narradores de Javé” 26 - Biblioteca Estadual Estevão de Mendonça - Pavilhão das Artes 29 - Contextualização Histórica dos Espaços Visitados 29 - MISC (Museu da Imagem e Som de Cuiabá) e IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) 30 - Biblioteca Estadual Estevão de Mendonça 32 - SESC ARSENAL 35 - IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) 37 - Contos e Lendas da Cultura Regional 37 - O Vaqueiro do Livramento 39 - O Fantasma da Matriz 41 - O Vulto Branco 43 - Pai do Mato 45 - Minhocão do Pari Apresentação A Secretaria de Educação de Mato Grosso apresenta o projeto de fomento à leitura “CEJA um Contador de Histórias”, visando desta forma o estímulo a leitura. Esta primeira fase do projeto aconteceu nos Centros de Educação de Jovens e Adultos – CEJAs espaço de ensino aprendizagem com foco na realidade do educando, tendo como sujeitos jovens e adultos. Os CEJAs envolvidos na proposta são do município de Várzea Grande “CEJA Licínio Monteiro da Silva”, e de Cuiabá “CEJA José de Mesquita”, CEJA Almira Amorim Silva” e “CEJA Vera Pereira do Nascimento”. O presente projeto surgiu da necessidade de incentivar os educandos da modalidade jovens e adultos a tornarem-se leitores motivados e atuantes, tendo como foco a Cultura Mato-grossense. O método de Contação de Histórias mostrou-se como uma forma lúdica e estimulante no processo de alfabetização e incentivo à produção literária, por essa razão propomos esse trabalho de leitura com foco nas narrativas históricas da cultura local, partindo de uma realidade vivida pelos integrantes da proposta. 04 Objetivo A vivar a cultura regional através do registro das histórias orais em forma de documentário e revista informativa; Ampliar as formas de incentivo a leitura e formação de novos leitores conscientes do seu papel na sociedade, enquanto sujeitos transformadores; Propiciar vivência práticas em ambientes alternativos de leitura, contemplando diferentes âmbitos educativos e culturais. 05 Resultados Esperados F ortalecer nos educandos da Educação de Jovens e Adultos inseridos nos CEJAS a motivação pela leitura, alterar atitudes de baixo auto-estima, e valorizar suas produções artísticos-culturais coletivas e individuais. Beneficiar a construção de ensino-aprendizagem através de metodologias inovadoras e criativas. 06 Contar Histórias C ontar histórias é uma arte, um meio muito eficiente de transmitir uma ideia, de levar novos conhecimentos e ensinamentos. É uma forma de preservar a memória e manter a história viva em nossa sociedade. Todo bom contador de histórias deve ser também um bom ouvinte de si mesmo, do mundo e de outras pessoas. O contador deve ser sensível para ouvir e falar. Contar simplesmente porque gosta de contar. O narrador deve estar ciente de que o importante é a história. 07 Partindo da hipótese de que nas sociedades usamos a língua, cotidianamente, tanto em sua modalidade oral quanto escrita, passando, da fala à escrita e da escrita à fala, propomos durante esta primeira fase do projeto tratar os processos lingüísticos de oralidade e escrita sob a ótica de um trabalho interativo, estabelecendo relações entre suas semelhanças, diferenças e, conseqüentemente, as influências exercidas entre os mesmos, sendo muito interessante para o processo de ensino aprendizagem da língua. Por meio da narração de histórias é possível verificar os diferentes níveis de fala e de escrita, ou seja, fala e escrita influenciam-se mutuamente. Nesse processo é possível valorizar a linguagem presentes nos textos falados dos alunos, como ponto de partida para a reflexão sobre a língua escrita e falada. No primeiro momento foi apresentado aos participantes a trajetória da tradição oral e seus pesquisadores ao longo da História. 08 nanoananona O Ministério da Educação abre a estados, municípios, Distrito Federal, instituições de ensino superior e entidades sem fins lucrativos a oportunidade de apresentar projetos de incentivo à leitura dirigidos a jovens, adultos e idosos recém-alfabetizados ou em processo de alfabetização. O projeto de fomento à leitura e regulamentado pela a Resolução nº 44, publicada no Diário Oficial da União dia 17de novembro de 2008, define que as propostas devem contemplar uma entre quatro linhas de ação: promoção do acesso à leitura; formação de leitores e mediadores de leitura; produção e distribuição de tecnologias educacionais de fomento à leitura, e pesquisa e avaliação sobre leitura. Os projetos foram definidos e divulgados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), órgão do MEC responsável pelo repasse dos recursos e pela equipe técnico-pedagógica da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad). Partindo da resolução e seus critérios a Secretaria de Estado de Educação via Coordenadoria de Educação de Jovens e Adultos elabora o projeto como mais um possibilidade de implementar o curricular nos Centros de Educação de Jovens e Adultos de mato grosso. O mesmo vem sendo desenvolvido conforme demonstram os registro desta edição como mais uma ação voltada para a construção do conhecimento dos jovens e adultos. 09 Pesquisadores da Tradição Oral E sopo (620 a.C.) é um lendário autor grego, que teria vivido na Antiguidade, ao qual se atribui a paternidade da fábula como gênero literário. Esopo teria sido um escravo que foi libertado pelo seu dono, que ficou encantado com suas fábulas. Ao que tudo indica, viajou pelo mundo antigo e conheceu o Egito, a Babilônia e o Oriente. Concretamente, não há indícios seguros de que tenha escrito qualquer coisa. As fábulas remontam uma chance popular para educação moral de crianças hoje. Há muitas histórias incluídas nas fábulas de Esopo, tão como A Raposa e as Uvas, A Cigarra e a Formiga, A tartaruga e a lebre, O vento norte e o sol e O menino que gritava lobo, O Lobo e o Cordeiro são bem conhecidas pelo mundo afora.” 10 “Jean de La Fontaine (1621-1695) foi o mais famoso francês fabulista e um dos poetas mais lidos do século XVII. Ele é conhecido, sobretudo por suas Fábulas. Algumas fábulas escritas e reescritas por ele são A Lebre e a Tartaruga, O Homem, O Menino e a Mula, O Leão e o Rato e O Carvalho e o Caniço ”. “Os Irmãos Grimm (Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859)) foram dois alemães que se dedicaram ao registro de várias fábulas infantis, ganhando assim grande notoriedade. Os contos mais famosos escritos pelos Irmãos Grimm são: Branca de Neve, Cinderela, João e Maria, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, entre outros”. 11 “Hans Christian Andersen (1805-1875) foi um escritor dinamarquês de histórias infantis. Escreveu peças de teatro, canções patrióticas, contos, histórias, e, principalmente, contos de fadas, pelos quais é mundialmente conhecido.” Entre os contos de Andersen, destacam-se: O Abeto, O Patinho Feio,A Caixinha de Surpresas, Os Sapatinhos Vermelhos, O Soldadinho de Chumbo, A Pequena Sereia, A Roupa Nova do Rei, A Princesa e a Ervilha, dentre outros.” “Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). O conjunto da obra de Luís da Câmara Cascudo é considerável em quantidade e qualidade: ele escreveu 31 livros e 9 plaquetas sobre o folclore brasileiro, em um total de 8.533 páginas. Ninguém no Brasil, nem antes nem depois dele, realizou obra tão gigantesca com reconhecimento nacional e estrangeiro. É também notável que tenha obtido reconhecimento nacional e internacional publicando e vivendo distante dos centros Rio e São Paulo.” Câmara Cascudo, nasceu em Natal, foi historiador, antropólogo, advogado, jornalista, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e pesquisador das manifestações culturais brasileiras. 12 Formação de Contadores de Histórias nos Cejas N 1 - CEJA José de Mesquita 2, 3 - CEJA Almira Amorim Silva a Educação de Jovens e Adultos o processo de leitura parte de narrações reais, fatos ligados ao cotidiano dos educandos, histórias que falam de situações concretas, com uma simbologia própria, na busca pelo avivamento da cultura mato-grossense através da leitura da realidade. Em primeiro lugar, faz-se necessário despertar nos educandos o prazer da leitura e a descoberta de histórias através de aspectos culturais que se conhecem e que os sensibilizem. Motivá-los a descobrir (e descobrir-se em) experiências e histórias de pessoas e famílias que contribuíram para a formação do povo, das relações com o meio no qual está inserido e avivar a sua memória. Instigá-los a conhecer as histórias ou causos que muitas vezes não constam nos livros, e sim, no saber local. Com as atividades propostas, acreditamos que estaremos investindo na formação de cidadãos que valorizam a cultura local, construindo a sua autonomia literária, sendo co-autores do processo de avivamento da arte milenar das histórias orais. Redescobrir o prazer de ouvir e contar histórias como nossas avós contavam, cheios de entusiasmo, em momentos que preenchem nossos vazios urbanos de encantamento dos quais a vida moderna nos priva. 13 Considerando que a leitura e a escrita são aspectos importantes no processo de ensino aprendizagem, é de importância impar o desenvolvimento dessas habilidades. Muitos dos alunos de CEJA apresentam carência de leitura, contudo apresentam riqueza de conhecimentos e experiências de vida. Nas atividades de leitura os gêneros trabalhados foram os contos, as lendas e a poesia. Durante a leitura os participantes puderam compreender que a voz é essencial no momento de se realizar a mediação de leitura, percebendo que a entonação, inflexão e ritmo, são aspectos que dão vida à narrativa. Segundo Ong (1998, p.16) "Todos os textos escritos devem, de algum modo, estar direta ou indiretamente relacionado ao mundo sonoro, habitat natural da linguagem, para comunicar seus significados. 'Ler' um texto significa convertê-lo em som, em voz alta ou na imaginação". 1 - CEJA José de Mesquita 2 - CEJA Almira Amorim Silva 3 - CEJA Vera Pereira do Nascimento Outra característica importante da leitura é a compreensão do que está sendo apresentado e a análise das informações que a história apresenta, desde a interpretação do texto, a leitura das imagens e as discussões acerca do tema proposto pelo autor. Saber ouvir é uma das características do contador de histórias e nesta perspectiva propomos aos alunos e profissionais da área da educação, uma investigação dos sons que nos possibilitassem imaginar, criar imagens, personagens e ao mesmo tempo pudéssemos compreender a utilização desses recursos para ambientalizar uma narração. 14 Os primeiros ensaios das histórias escolhidas pelos próprios educandos, a partir de seus relatos e elaborações das possibilidades de se contar uma história, através da encenação teatral e de outras linguagens artísticas. O foco principal dessa atividade foi possibilitar o crescimento pessoal dos alunos e seu desenvolvimento cultural pelo domínio, pela fluência, pela decodificação e pela leitura crítica da linguagem teatral e da narrativa oral cênica. 1 - CEJA Licínio Monteiro da Silva 2 - CEJA Almira Amorim Silva 3 - CEJA Vera Pereira do Nascimento As atividade de Leitura Dramatizada das histórias elaboradas pelos educandos, está possibilitando ao poucos a perda da timidez em expor sua ideias e expressões artísticas. A palavra nesse contexto é mais que um instrumento de expressão é instrumento de interação. Nessa atividade os participantes estão trabalhando com movimentos expressivos de maior e menor intensidade. São movimentos que desenvolvem as emoções e sentimentos cotidianos utilizando a linguagem cênica. As dinâmicas em grupo possibilitam a construção e exploração das possíveis formas de interpretação, textual e gestual, a serem trabalhadas na apresentação. Após as atividades foi possível observar que a grande maioria dos participantes, estavam seguros ao interpretar seus respectivos personagens. Os participantes tiveram a oportunidade de realizarem uma leitura dramatizada a partir do texto selecionado para a montagem do espetáculo. 15 Durante o processo de ensaio dos grupos, cada participante com seu personagem definido, pôde vivenciar quais são as regras da encenação, desde o reconhecimento do palco, a marcação de cena, a configuração do cenário e a utilização de recursos. Segundo Fernandes (2002, p.28) "O 'contar histórias' não é função de uma pessoa. Arma-se uma situação na qual público e narrador comungam de um mesmo mundo, operam códigos comuns, fazem leituras e podem se revezar na imposição da voz. 1, 2 - CEJA Licínio Monteiro da Silva Não se trata simplesmente de falar, mas saber convencer. (...) o olhar, o silêncio, o franzir da testa, as mãos, o riso, objetos próximos, sons, a fala. Cabeça, tronco e membros. O corpo é um turbilhão de mensagens, que ressoa códigos impraticáveis na escrita.» A atividade proporcionou aos participantes se reconhecerem em seu potencial corporal e vocal, ao mesmo tempo em que vivenciavam o trabalho em equipe de forma cooperativa. A interação com o grupo e com o público determina a compreensão e o bom resultado de um trabalho. A partir destas vivências os participantes são contemplados por um desenvolvimento completo: cognitivo e físico que contribuirão no momento em que forem propor ou realizar qualquer atividade no cotidiano de suas vidas. Um dos objetivos desta atividade foi demonstrar as diferenças entre contar e ler um conto. 16 Segundo Gislayne Matos (2005, p.6), "Existe diferença entre contar e ler uma história, porque também existe uma diferença entre palavra oral e palavra escrita. Quando a comunicação se dá através da palavra oral, nosso centro de percepção é o auditivo”. A expressão do corpo, os gestos, o ritmo e a entonação de voz imprimem sentido às palavras e desvelam para o ouvinte as emoções por trás do texto. No caso da leitura (palavra escrita), o centro da percepção passa a ser o visual. 1, 2, 3 - CEJA José de Mesquita O ato de ouvir e o de ler exercem sobre nós funções diferentes e também acionam em nós faculdades diferentes. É fácil concluir que ambas (ouvir e ler) são experiências importantes. A arte do contador envolve expressão, improvisação, interpretação, interação com seus ouvintes. 17 O leitor, por sua vez, empresta sua voz ao texto. Pode utilizar recursos vocais para que a leitura se torne mais envolvente para o ouvinte, mas não recria o texto, não improvisa a partir dos estímulos do auditório". 1, 2 - CEJA José de Mesquita 1, 2 - CEJA Licínio Monteiro da Silva 18 Aulas de Campo Educativas Cultural TEATRO DO SESC ARSENAL: Espetáculo “A Mala de Fugir” O s estudantes, professores e coordenadores dos CEJAs Almira Amorim, José de Mesquita e Licínio Monteiro, num clima de interação tiveram a oportunidade de participarem do Evento "Semana SESC de Leitura e Literatura 2011", assistindo ao Espetáculo de Contação de Histórias "A Mala de Fugir" inspirado no livro do autor matogrossense Luiz Carlos Ribeiro da Cia Saringagá Produções Artísticas MT. A aula de campo educativa e cultural faz parte das ações do Projeto "CEJA um Contador de Histórias" SEDUC, com o objetivo de contextualizar as atividades propostas para os grupos de cada CEJA inscritos no projeto. É importante registrar que para muitos desses alunos(as) foi a primeira vez que visitaram o SESC Arsenal e assistirem a um espetáculo cultural. É perceptível a alegria estampada no rosto de cada um, como também é gratificante proporcionar a estas pessoas o acesso aos bens culturais, que por lei é um direito de todo cidadão. 19 SINOPSE DO ESPETÁCULO (Texto fornecido pela Cia Saringagá Produções Artísticas - MT) – A Mala de Fugir é um espetáculo lúdico/musical em um ato, com textura dramática a partir da seleção de contos da obra do mesmo nome. A peça reconstrói a ambiência mágica de contação de historias, causos, paródia, ancorada em elementos visuais e sonoros, selecionados da cultura e da arte popular mato-grossense e universal, que proporcionaram suporte artístico, tanto no conteúdo como na forma. O espetáculo é um convite á fantasia, á magia e ao sonho. AMala de Fugir será representada simbolicamente por uma mala cenográfica, para onde todos poderão se transportar, numa inusitada viagem ao país do faz-de-conta, esquecido dentro de nós. Mala de Fugir traz dentro de si outros mistérios que criarão asas, sons onomatopaicos, cores, melodias e fantasias. Borboletas voarão para o além-mar; mariposas encantadas contracenarão com pássaros tenores, que cantarão suas árias florestais; elementais serão transportados de outras dimensões e assumirão funções inusitadas; bruxas, figuras lendárias e mitos amazônicos habitarão terras inexploradas. 20 Desse poder mágico/ iluminado que cada um poderá participar, não faltarão os sonhos, fantasias, memórias da infância de cada um e ai vai o desafio para cada espectador realizar mágicas desafiantes, como a de (re) descobrir sua própria Mala de Fugir e ir embora com o circo da sua memória infância. A partir daí... bem nada será como antes. O figurino e a maquiagem – inspirados na Comédia Dell ' Arte – trabalha a idéia de coringa, desdobrandose, a fim de ampliar a imaginação dos espectadores e verbalizar cenicamente a criatividade dos seus idealizadores. Formas, cores e sutilezas de movimentos darão suporte cênico para os atores se transformarem em novos personagens, possibilitando a criação de novas histórias e inspirando a platéia para que elabore sua própria versão. "Carlinhos Ferreira" Entrevista concedida pelo autor e ator Luiz Carlos Ribeiro. A inspiração para o conto que dá nome ao livro veio da infância do próprio autor. Nessa época, tinha ele uma mala, na qual carregava 'quinquilharias' e a qual levava quando resolvia fugir de casa, sua "mala de fugir". 21 Hoje, sua mala está cheia de personagens míticos como Corça-Encantada, a Mãe-do-Morro e o Boitatá, levando para adultos e crianças o encantamento das histórias contadas ao pé da fogueira, sob os olhos atentos do público. Não faltam alusões a figuras lendárias da cultura indígena, como o tamoin, contador de histórias do povo Kamaiurá do Xingu, que no livro aparece na figura de uma sua tia Arminda, mestre na arte de entreter as crianças com 'causos'. Mais à frente, nos deparamos com o Reino de Cuyaverá, onde habitam os descendentes dos povos Guató, Guaicuru, Coxiponé, Biripoconé, Bororo e Paiaguá. "Com esse livro, eu reconto as histórias que minha avó contava", observa o autor. E foi ao lado de dona Maximiana que, com cerca de oito anos, ele foi apresentado à sua primeira festa de santo. Momento inesquecível. "Foi o meu primeiro alumbramento com a cultura popular da minha cidade", escreve ele na apresentação do livro. A partir de então, virou freqüentador assíduo das festas, adquirindo o hábito de bisbilhotar "as envolventes narrativas dos contadores de causos". 22 Tornou-se, aos poucos, um grande contador de histórias. Histórias que hoje vão saindo de sua mala também como denúncias de cunho político contra o desmatamento, a corrupção e outros males. "Não é a lenda pela lenda. É denúncia, principalmente ambiental. Também tem muita informação histórica." Mudanças – Preservar o ofício dos contadores de histórias é uma das preocupações do autor. Ele observa que com o surgimento da televisão, os contadores de histórias foram morrendo. O desinteresse não partiu das crianças – que continuam a adorar histórias -, mas dos próprios adultos. "Sou de uma geração que não tinha televisão. Nosso passatempo era ouvir histórias", observa ele”. 23 CINEMA DO SESC ARSENAL: Filme “Narradores de Javé” S inopse do filme Narradores de Javé - " A pequena cidade de Javé será submersa pelas águas de uma represa. Seus moradores não serão indenizados e não foram sequer notificados porque não possuem registros nem documentos das terras. Inconformados descobrem que o local poderia ser preservado se tivesse um patrimônio histórico de valor comprovado em "documento científico". Decidem então escreverem a história da cidade, mas poucos sabem ler e só um morador, o carteiro, sabe escrever. Depois disso, o que se vê é uma tremenda confusão, pois todos procuram Antônio Biá, o "autor" da obra de cunho histórico, para acrescentar algumas linhas e ter o seu nome citado". 24 Sinopse do filme Narradores de Javé - " A pequena cidade de Javé será submersa pelas águas de uma represa. Seus moradores não serão indenizados e não foram sequer notificados porque não possuem registros nem documentos das terras. Inconformados descobrem que o local poderia ser preservado se tivesse um patrimônio histórico de valor comprovado em "documento científico". Decidem então escreverem a história da cidade, mas poucos sabem ler e só um morador, o carteiro, sabe escrever. Depois disso, o que se vê é uma tremenda confusão, pois todos procuram Antônio Biá, o "autor" da obra de cunho histórico, para acrescentar algumas linhas e ter o seu nome citado". Este filme contribui com a proposta do projeto "CEJA Um Contador de Histórias", pois demonstra uma perspectiva de quem conta uma história perante ao que escreve esta mesma histórias e ao mesmo tempo enfatiza a importância do conhecimento da escrita e da leitura como fator legítimo diante de uma sociedade que considera o conhecimento científico como o verdadeiro. 25 Percebe-se também que o valor de um patrimônio histórico da cidade é de primordial importância para a preservação de suas histórias. Isso demonstra que temos que, cada vez mais valorizar os nossos museus, bibliotecas e espaços culturais, por esse motivo que o projeto proporciona essas aulas aos alunos e professores do CEJA. A forma de contar as histórias também foi outro ponto a ser analisado neste filme. Acredito que os alunos e professores que participaram dessa aula puderam perceber os valores, costumes e crenças que uma comunidade pode construir a partir de suas próprias histórias, trabalho este que venho propondo aos participantes durante as atividades do projeto. Agradecemos ao SESC Mato Grosso, pela receptividade e parceria ao projeto. 26 Biblioteca Estadual Estevão de Mendonça – Pavilhão das Artes O foco desta aula foi proporcionar o conhecimento sobre a Cultura Artística Mato-grossense. O Pavilhão das Artes, espaço físico situado dentro da Biblioteca Estadual Estevão de Mendonça é um ambiente onde os alunos e professores puderam contemplar várias fotos e obras de arte de artistas regionais. Esta prática possibilita através dessa vivência um olhar reflexivo sobre nossas histórias e dos nossos antepassados. Demonstrando de forma empírica como o artista interpreta o mundo em que vive e o representa através da arte, possibilitando por meio da arte um momento de sensibilização e reflexão do que vemos. O foco desta aula foi proporcionar o conhecimento sobre a Cultura Artística Mato-grossense. 27 O Pavilhão das Artes, espaço físico situado dentro da Biblioteca Estadual Estevão de Mendonça é um ambiente onde os alunos e professores puderam contemplar várias fotos e obras de arte de artistas regionais. Esta prática possibilita através dessa vivência um olhar reflexivo sobre nossas histórias e dos nossos antepassados. Demonstrando de forma empírica como o artista interpreta o mundo em que vive e o representa através da arte, possibilitando por meio da arte um momento de sensibilização e reflexão do que vemos. A exposição de fotos de Cuiabá antiga foi a que mais as pessoas se identificaram, por trazer informações visuais do ontem e ao mesmo tempo por possibilitar a comparação do que a cidade nos representa hoje. Acredito que momentos como este tornam-se significativos para o projeto, pois vivenciamos na prática a importância da preservação das histórias culturais e artísticas do nosso Estado. 28 29 Contextualização Histórica dos Espaços Visitados MISC (Museu da Imagem e Som de Cuiabá) e IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) O Museu da Imagem e do Som de Cuiabá ou MISC foi criado em 2006 para ser um centro de imagem e som das culturas de Cuiabá em Mato Grosso. A criação do museu tem como objetivo, preservar a memória da vida cuiabana e mato-grossense. Através do acervo que possui, fornecer elementos para a pesquisa sobre a história de Cuiabá e valorizar a diversidade cultural da cidade. Inaugurado em 2006, o Museu da Imagem e do Som de Cuiabá (Misc), “Lázaro Papazian Chau”, vem somar com as diversas frentes que vêm atuando pelo desenvolvimento do audiovisual em Cuiabá. O espaço é gerenciado pela Secretaria Municipal de Cultura e é um espaço para constituir importante acervo da história de Cuiabá. O espaço serve como suporte também para investir em formação, editar concursos fotográficos, oficinas, mostras, exposições e outras atividades. O Museu é um dos mais visitados equipamentos culturais do município e está localizado no coração do Centro Histórico, nas dependências do antigo Sobrado do Alferes "Joaquim Moura". 30 Em seu interior, um acervo de imagem e som de valor inestimável para a cultura regional. São aproximadamente oito mil fotos do fotógrafo Eurípedes Andreato - retratando o cotidiano, fatos, monumentos e personalidades da Cuiabá do passado. Além disso, o acervo conta ainda com outra infinidade de discos em vinil, imagens em fitas de vídeo, áudio em fitas-cassete, dentre outras preciosidades, um registro para ver, ouvir e conhecer a Cuiabá de outrora. O acervo reúne fotos coloridas e em preto e branco do século 20, desde 1910 até os dias atuais. O espaço é um dos primeiros a conter acervo digitalizado no estado. O Misc é um espaço dinâmico que preocupa pela proteção e difusão da memória da comunidade cuiabana. São aproximadamente 25 mil imagens do repórter fotográfico e cinematográfico Lázaro Papazian, que registrou pelas suas lentes boa parte da história política, cultural e social de Mato Grosso, especialmente de Cuiabá, no século passado. Papazian testemunhou e registrou momentos marcantes da história de Mato Grosso, como visitas de presidentes, a Cuiabá antiga com seus monumentos arquitetônicos, como a catedral que foi demolida, as tortuosas ruas e casarões do centro histórico, o rio Cuiabá, o cotidiano da população cuiabana. O Misc fica localizado na Rua Voluntários da Pátria, nº 75, esquina com a 7 de Setembro, no Centro Histórico da Capital. O espaço fica aberto nos dias de semana, das 14h às 18h. (http://guiadematogrosso.com.br) 31 Biblioteca Estadual Estevão de Mendonça A lém do seu acervo de aproximadamente 35 mil livros distribuídos em acervos didáticos, de literatura regional e outros, a Biblioteca possui duas amplas salas de leitura, um telecentro com o seu programa de inclusão digital, uma videoteca, auditório com 44 lugares, uma sala de obras raras, sala de braile e sala infanto-juvenil. A Biblioteca Pública foi criada em 26 de março de 1912, no governo do presidente Joaquim Augusto da Costa Marques. Leva o nome do notável escritor e historiador, e também primeiro diretor da instituição, Estevão de Mendonça. O Governo do Estado em parceria com a Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (AMPA) restaurou o Palácio da Instrução, tornando o local um genuíno Centro de Difusão Cultural, ponto de encontro de estudantes, intelectuais, pesquisadores e curiosos, ampliando significativamente seu público alvo. A Biblioteca Pública Estevão de Mendonça é o órgão central de uma agência que coordena todas as outras bibliotecas públicas do Estado. (http://cultura.mt.gov.br) 32 SESC ARSENAL I naugurado em 1832, como Arsenal de Guerra da Capitania de Mato Grosso, tornou-se um símbolo da nacionalidade brasileira e demonstrou a determinação das Forças Armadas. Em 1989 o SISTEMA FECOMÉRCIO/SESC/SENAC-MT adquiriu, através de uma permuta com o Exército, o velho prédio, que é um testemunho da cultura e beleza arquitetônica do estilo neoclássico franco-lusitano. Após grandes reformas, que respeitaram o tombamento histórico e a necessidade técnica de cada atividade cultural, o Arsenal de Guerra abre suas portas para os artistas e a população em agosto de 2001, como Centro de Atividades SESC Arsenal com belíssimos espaços para o lazer da sociedade cuiabana Espaços: Choperia – Um ambiente agradável que proporciona uma integração contínua entre as pessoas, através da valorização da boa música brasileira, do atendimento e da cortesia. Idealizado, projetado e localizado com a intenção de resgatar os finais de tarde. Centro de Realização Musical – Espaço destinado à realização de oficinas e cursos permanentes de música, com desenvolvimento de conteúdos diversos (instrumentos, prática de conjunto, percepção musical, etc), incluindo palestras, seminários e atividades de cunho prático e teórico. 33 Centro de Difusão Musical – Sala de música, atuando no campo da formação orientada de leitores e ouvintes, enfocando a totalidade da produção histórico-musical disponível em registros literários, discográficos, fonomecânicos e digitais. Banco de Textos – Espaço de excelência para estudos e pesquisas em Artes Cênicas e Literatura, com acervo de peças de teatro, livros e todo tipo de impressos sobre o ofício cênico para a comunidade em geral. Direcionado para se tornar área de convivência e estudos coletivos. Teatro – Integra a Rede SESC de Artes Cênicas, que abriga salas de espetáculos por todo o Brasil. Atende produções nas áreas de teatro, dança, música, literatura e outras expressões artísticas. Possui uma platéia de 261 assentos, com ótima visualização do palco, excelente qualidade acústica e qualidade térmica controlada. Biblioteca – Atende as necessidades de lazer, pesquisas e estudos da comunidade em geral, disponibilizando excelente acervo de livros, periódicos e jornal, além de acesso à Internet. Salão Social – É um espaço destinado a bailes, recitais, lançamentos de livros e para troca de idéias em torno das expressões artísticas. Sala de Dança – Objetiva abrigar e difundir a dança como forma de expressão, através do desenvolvimento de cursos de dança, além de servir como espaço de pesquisa aos interessados desta arte. 34 Oficina de Idéias – Voltado ao exercício da imaginação e da criatividade. As atividades priorizam o fazer, o criar, o descobrir, o redescobrir e o ato de brincar como encontro com o lúdico, oportunizando a interação entre a cultura e a educação. Galeria de Artes – Espaço para apreciação da obra de arte, reflexão, expressão e o exercício do olhar numa perspectiva crítica. Abriga exposições, intercâmbios e informações, visando uma ação capaz de promover a articulação do desenvolvimento da produção e de uma linguagem visual e artística. Cinema – Sala de exibição com 78 lugares, som digital, equipamento de projeção em 16mm, VHS e DVD. Ponto de Artesanato – Expõe e comercializa a singularidade da produção artesanal do Estado de Mato Grosso, tempo em que, processa a ampliação do acervo para outros estados, com intenção de oportunizar ao turista, no mínimo, o contato imediato com as diferenças nas tendências regionais. (http//.sescmatogrosso.com.br) 35 IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) A criação do organismo federal de proteção ao patrimônio, ao final dos anos 30, foi confiada a intelectuais e artistas brasileiros ligados ao movimento modernista. Era o início do despertar de uma vontade que datava do século XVII em proteger os monumentos históricos. A criação da Instituição obedece a um princípio normativo, atualmente contemplado pelo artigo 216 da Constituição da República Federativa do Brasil, que define patrimônio cultural a partir de suas formas de expressão; de seus modos de criar, fazer e viver; das criações científicas, artísticas e tecnológicas; das obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artísticoculturais; e dos conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. A Constituição também estabelece que cabe ao poder público, com o apoio da comunidade, a proteção, preservação e gestão do patrimônio histórico e artístico do país. História da Instituição O Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional foi criado em 13 de janeiro de 1937, no governo de Getúlio Vargas. 36 Já em 1936, o então Ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, preocupado com a preservação do patrimônio cultural brasileiro, pediu a Mário de Andrade a elaboração de um anteprojeto de Lei para salvaguarda desses bens. Em seguida, confiou a Rodrigo Melo Franco de Andrade a tarefa de implantar o Serviço do Patrimônio. Posteriormente, em 30 de novembro de 1937, foi promulgado o Decreto-Lei nº 25, que organiza a “proteção do patrimônio histórico e artístico nacional”. O Iphan está hoje vinculado ao Ministério da Cultura. Rodrigo Melo Franco de Andrade contou com a colaboração de outros brasileiros ilustres como Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Afonso Arinos, Lúcio Costa e Carlos Drummond de Andrade. Técnicos foram preparados e tombamentos, restaurações e revitalizações foram realizadas, assegurando a permanência da maior parte do acervo arquitetônico e urbanístico brasileiro, assim como do acervo documental e etnográfico, das obras de arte integradas e dos bens móveis. A próxima etapa consistiu na proteção dos acidentes geográficos notáveis e paisagens agenciadas pelo homem. Há mais de 60 anos, o Iphan vem realizando um trabalho permanente de identificação, documentação, proteção e promoção do patrimônio cultural brasileiro. (http//portal.iphan.gov.br). 37 Contos e Lendas da Cultura Regional O Vaqueiro do Livramento S erapião era vaqueiro toda a vida, levando em conta que este substantivo qualificativo não era restrito a manipulação de vacas, muito menos vacas leiteiras se se emparelhava melhor como sinônimo de boiadeiro, homem destro em lidar com rezes, qualquer espécie de bovino, fosse masculino ou feminino. Parece até que o nome influiu na sua profissão. Serapião. Nome que sua própria madrinha no seu falar pausado, traduziu para Serapião e o afilhado acabou sendo peão dos bons. Gado desgarrado era com ele só. Num átimo reconduzia a rez fisgada pelo chifre, num laço de puro couro. Também não escolhia onde pisava: campo liso de terra, chão de gravatá, roça de coivara, terreno pedregoso ou laje escorregadia, gravatazal, campo de areia quente ou peitado de cupim, ele varava com agilidade de um veado galheiro, saltando macegas, ou pulando de rocha em rocha. Certa vez, a sua agilidade foi posta prova. Fugira o taludão do compadre Zacarias. Na roça vocês sabem, a palavra Cumpadre ajoujada com o nome, já vira nome próprio. 38 O boi do compadre Zacarias não amansava nunca, era um belo animal, porém rebelde que só ele. Os alambrados do compadre eram muito limitados para ele, que só pensava em fugir. Parecia que o boi queria conhecer o pólo norte, pois recalcitrava, pulava cerca, queria ganhar o mundo parecia. E numa destas fugas o Serapião, como o batuta no ofício, foi mais uma vez solicitado para reconduzir o desviado. E assim; pulando de macega em macega, de espinheiro a espinheiro, se desvencilhando do cipoal, já noitinha vem ele arrastando aquele monstro de boi já domado. Todos que o esperavam, mesmo de antemão sabendo que ele conseguiria dominar o bicho, se espantaram da sua reconhecida habilidade e destreza, porque, boi como aquele não era para qualquer. Mas alguém logo notou que um lado do rosto de Serapião sangrava e perguntou; -Que é isto homem, você foi chifrado? Passando a manga da camisa e verificando que perdera um olho, apenas retrucou: -“Ah! Dois óio é luxo”. Livro: Lendas de Mato Grosso – Dunga Rodrigues (Contada pelo deputado Octacílio Silva que a ouvira do próprio peão na cidade de Livramento 39 O Fantasma da Matriz Q uando eu disse que, em Cuiabá cada rua tem seu fantasma particular, não estava exagerando. Nem a praça da Matriz escapou a este misterioso encantamento. Era uma praça inclinada, pavimentada de irregulares e escorregadias pedras cristais. Os trilhos do bonde que surgiram da Rua de Cima, atravessavam-na de viés, desembocando na rua 13, onde os trilhos do bonde se alongavam até o Porto, no 2º Distrito. Em frente à Matriz, a casa de morada e a loja do Sr. Francisco Martiniano de Araújo, o simpático “Seu Chico”, acolhia com um largo e franco sorriso a sua clientela. As gostosas risadas do seu Chico, tornava-o a pessoa mais interessante da família, sempre bem humorado, dando muita atenção até para as crianças. Embora ele tivesse duas filhas quase da minha idade, eu gostava de entrar na loja, só para ver seu Chico. Não é que, um belo dia este senhor sai para dar umas voltinhas e regressou já noite fechada. As dez horas, pouca gente se atrevia a ficar fora de casa. A iluminação precária (lampeõezinhos de querosene), calçamento irregular, animais dormindo na rua, aquele silêncio que a dez horas parecia noitão. O que teria ido fazer Seu Chico, assim tão tarde? Maçonaria não era desse lado... 40 Certo é que ao passar em frente à Matriz para atravessar o largo e alcançar a casa, Seu Chico viu um vulto branco de mulher. -Quis fazer uma peraltagem, não é seu Chico? Naturalmente querendo certificar-se de quem se tratava, uma mulher a esta hora sozinha na rua... Foi aproximando daquele vulto branco. Mas...à medida que ele se aproxima, aquele vulto branco ia crescendo, crescendo de maneira descomunal. Seu Chico não vacilou. Deu no pé, desceu quase correndo, equilibrando-se nas pedras cristais que se tornavam escorregadias ao atrito dos seus sapatos novos de verniz. Livro: Lendas de Mato Grosso – Dunga Rodrigues História fornecida pela – Drª Ilma Avelino de Araújo 41 O Vulto Branco O vaqueiro era valentão de fama, na antiga vila de Várzea Grande. A inigualável perícia em conduzir o gado de um roteiro para outro, mesmo para as bandas do Livramento e Poconé, tornava-o muito solicitado para tal fim. Era eficiente e responsável. Quando ia chegando ao largo das fazendas, nos limpados do seu terreiro da frente, seu vulto desempenado, de chapéu de abas reviradas, se projetava com simpatia e a acolhida era das mais efusivas. Havia sempre um benze para retemperar a fadiga de uma caminhada longa, bolinhos de fubá, ou quebratorto ao pé dos tacurus, no puxado de trás, perto do galpão, para o destemido vaqueiro forrar o estômago. Mas, daquela vez, a sua chegada foi bem diferente. Intempestiva, atrabalhoada, o chapéu que compunha uma peça única junto ao vulto, sempre ereto e aprumado, cara na poeira da estrada, apresentando desalinhou até a própria montaria. Daquela vez ele saíra a noite, conduzindo as vacas do retiro para aleitação. Ao transpor o córrego, em sítio afastado e deserto, um vulto de camisa branca acenava-lhe os braços abertos, como a impedir-lhe a passagem. Visão ou medo, quanto mais se aproximava mais os membros se estendiam, como se pretendessem agarrá-lo. Apenas seis passos estava na aparição quando, resoluto, meteu a mão no gatilho e desfechou o trinta e oito quatro vezes. O vulto branco não arredou o pé, permaneceu no mesmo lugar. 42 Cabelos eriçados, tremendo feito vara verde, esporeou fundo a barriga do animal, galopando ligeiro, sem se incomodar de jogar por terra todo a proverbial valentia. Ainda como os olhos esbugalhados atingiu a fazenda, contando o sucedido ao capataz. -Volte lá durante o dia, disse este. O lugar não é tão ermo quanto parece. Há moradores isolados, beirando o córrego. Deve ser alguma peça de roupa a secar, pendurada em algum galho de pau. Como ele era um tira-teima de primeira, não pôs dúvida. Voltou lá e decepcionado, constatou a suspeita do nosso capataz; algumas camisas estavam especadas nos ramos de pau seco, a baloiçar com a aragem da manhã. Livro: Lendas de Mato Grosso – Dunga Rodrigues (Fornecida por Ubaldo Monteiro na obra: No Portal da Amazônia – Editora Bonito – Av. Goiás, 1525, GoiâniaGO). 43 Pai do Mato A mata da Poaia, no município de Barra do Bugres, é ainda um relicário florestal e recinto de muitas lendas, por assim dizer, ecológicas, para empregarmos a palavra do momento. Embora a sua exploração date do século passado até nossos dias, ela não foi tão devastadora e naquela região ainda se encontram muitas manchas de vegetação compacta e fértil, para o nosso gáudio e o dos defensores do meio ambiente. Os seus mitos e crendices são derivados dessa natureza, no sentido de protegê-la de uma radical derrubada, só hoje alertada por um pequeno grupo de acendrado civismo. É mais fácil e vantajoso cremar tudo, ou dilapidar, para que a madeira nos devolva uma riqueza imediata, que conservar nossas matas pela beleza estética e pelos eflúvios benéficos do ar purificado que irá refazer a força dos pulmões de uma população remota, ou num próximo futuro. Foi nessa terra edêmica que apareceu o Pai do Mato. Entidade fabulosa, metade gente, metade bicho, oculta-se entre o cipoal intricado que enlaça as árvores seculares. Talvez possua olhos de lince, porque está sempre atento aos acontecimentos da floresta. A fera que danifica a planta, os pássaros que são veículos de plantas daninhas, as serpentes que inoculam o seu vírus para causar dano, enfim. 44 Até quando há indícios de tempestade, o Pai do Mato sai sacudindo as árvores, uma por uma, para testar as que resistirão ao vendaval. Procura proteger as mais tenras e frágeis, castigando também impiedosamente o homem que pratica uma derrubada inconsciente. Livro: Lendas de Mato Grosso – Dunga Rodrigues (Fornecida por Toninho (Antônio João de Jesus), funcionário da FUNAI, com sede em Barra do Bugres) 45 Minhocão do Pari E ste rio tem histórias! Quando estiver manso e silencioso, não se iluda com ele. A minha avó me contava e eu mesma vi coisas de arrepiar e de dar carreira no homem mais valente aqui da povoação. Quantas vezes não descíamos, em bando, às margens do Rio Cuiabá, com as trouxas de roupa na cabeça ou simplesmente uma bacia equilibrando-se na rodilha que amortecia o peso. Depois de um esvaziamento do rio, só vendo a algazarra quando o barranco escorregadio provocava até quedas acompanhadas de risadas alegres e caçoadas inofensivas. A dizer a verdade, não sei bem como saiu a conversa do minhocão. Acho que foi a Merenciana que descobriu uma loca desbeirada e começou a teimar com a Tininha, que aquilo era morada de sucuri. É casa do minhocão, disse esta. Eu conheço bem. Do lado da Conceição já vi igual e isso é sinal certo de que ele anda ou andou por aqui. -Virge!!! Algumas se benzeram amedrontadas. Enquanto outras começaram a mofar da pobre da Tininha que, por mais que pedisse às companheiras, “não zombar de coisas misteriosas”, pois provocaria a ira do bicho, não pôde abafar a incredulidade de algumas desencadeara. 46 Eu, que acredito piamente na voz do povo que é a voz de Deus, não disse palavra. Apenas curtia um medo, cá por dentro, de que o bicho no auge do seu ódio viesse levar uma daquelas moças, dançadoras de siriri, para a festa de sua barriga, engolindo-a viva. Pois o minhocão do Pari, assim chamado por ter o seu ninho nas praias daquela região, era uma espécie de serpente, longa e cabeçuda. Sua cor não se distinguia ao certo; deslizando em baixo do barro das barrancas, vivia sempre coberto de terra, deixando, ao passar, o chão solapado e cheio de socavões em forma de sua descomunal cabeça. Quando o minhocão se zangava ou saia para catar alimentos, dava cambalhotas no rio. Devorava pescadores, virava canoas, mesmo embarcações pesadas não agüentavam com ele. Mas, voltando ao assunto, minha Nossa Senhora do Muquém! Veja como eu me arrepio só de lembrar do caso. A Merenciana, que até se afoga de rir, chegando mesmo a desafiar o bicho, para que nos desse, ali, sua prova de valentia, quase.... Bem, vale dizer que, entre nós, quando se conversava sobre cobra ou minhocão, costumava-se designá-los por “esse bicho”! Pois a própria palavra atrai uns animais tão malévolos. Nisto um eco de voz conhecida reboou ao longe. -É o Zé Timote, disse lampeira a moça, reconhecendo a voz do namorado. Apesar do lusco-fusco, pois ia anoitecendo rápido, reconhecemos o vulto do Zé Timote em pé, na poupa da embarcação. 47 Ele voltava de um frete que fizera até a Volta Grande. Os olhos de Merém se iluminaram. Aquilo que era físico, o mais, conversa fiada. Bom pescador, bom violeiro, bom cantador de Cururu! Zé Timóte era bamba em tudo. Seus lisongeiros pensamenteos foram quebrados por um ruído estranho e medonho. E não vinha da terra, vinha da água. Parece que a canoa guindou para um lado. Mas Zé Timote lá estava firme. Esfregou o olho para ter certeza do que vira, mas novo e forte ruído ecoou fortemente, ao mesmo tempo que uma laçada negra fez um oito no ar, afundando com fragor e carregando para as profundezas do rio, canoeiro, canoa e tudo, ainda salpicando água a muitos metros de distância. -Foi o Minhocão. Não havia dúvida. Eu vi, com esses olhos que a terra há de comer. Por esta luz Santíssima como não minto! Dunga Rodrigues Livro: Lendas de Mato Grosso 48