Projeto de Formação
de Leitores e
Mediadores de Leitura
“CEJA um Contador
de Histórias”
www.cejaumcontadordehistorias.blogspot.com
Índice
04 - Apresentação
05 - Objetivo
06 - Resultados Esperados
07 - Contar Histórias
09 - Pesquisadores da Tradição Oral
12 - Formação de Contadores de Histórias nos Cejas
18 - Aulas de Campo Educativas Cultural
18 - TEATRO DO SESC ARSENAL: Espetáculo “A Mala de Fugir”
23 - CINEMA DO SESC ARSENAL: Filme “Narradores de Javé”
26 - Biblioteca Estadual Estevão de Mendonça - Pavilhão das Artes
29 - Contextualização Histórica dos Espaços Visitados
29 - MISC (Museu da Imagem e Som de Cuiabá) e
IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional)
30 - Biblioteca Estadual Estevão de Mendonça
32 - SESC ARSENAL
35 - IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional)
37 - Contos e Lendas da Cultura Regional
37 - O Vaqueiro do Livramento
39 - O Fantasma da Matriz
41 - O Vulto Branco
43 - Pai do Mato
45 - Minhocão do Pari
Apresentação
A
Secretaria de Educação de Mato Grosso apresenta
o projeto de fomento à leitura “CEJA um Contador de
Histórias”, visando desta forma o estímulo a leitura.
Esta primeira fase do projeto aconteceu nos Centros
de Educação de Jovens e Adultos – CEJAs espaço
de ensino aprendizagem com foco na realidade do
educando, tendo como sujeitos jovens e adultos.
Os CEJAs envolvidos na proposta são do município
de Várzea Grande “CEJA Licínio Monteiro da Silva”,
e de Cuiabá “CEJA José de Mesquita”, CEJA Almira
Amorim Silva” e “CEJA Vera Pereira do Nascimento”.
O presente projeto surgiu da necessidade de
incentivar os educandos da modalidade jovens e
adultos a tornarem-se leitores motivados e atuantes,
tendo como foco a Cultura Mato-grossense.
O método de Contação de Histórias mostrou-se
como uma forma lúdica e estimulante no processo de
alfabetização e incentivo à produção literária, por
essa razão propomos esse trabalho de leitura com
foco nas narrativas históricas da cultura local,
partindo de uma realidade vivida pelos integrantes da
proposta.
04
Objetivo
A
vivar a cultura regional através do registro das
histórias orais em forma de documentário e revista
informativa;
Ampliar as formas de incentivo a leitura e formação de
novos leitores conscientes do seu papel na
sociedade, enquanto sujeitos transformadores;
Propiciar vivência práticas em ambientes alternativos
de leitura, contemplando diferentes âmbitos
educativos e culturais.
05
Resultados Esperados
F
ortalecer nos educandos da Educação de Jovens e
Adultos inseridos nos CEJAS a motivação pela leitura,
alterar atitudes de baixo auto-estima, e valorizar suas
produções artísticos-culturais coletivas e individuais.
Beneficiar a construção de ensino-aprendizagem
através de metodologias inovadoras e criativas.
06
Contar Histórias
C
ontar histórias é uma arte, um meio muito eficiente
de transmitir uma ideia, de levar novos conhecimentos
e ensinamentos. É uma forma de preservar a memória
e manter a história viva em nossa sociedade. Todo
bom contador de histórias deve ser também um bom
ouvinte de si mesmo, do mundo e de outras pessoas.
O contador deve ser sensível para ouvir e falar.
Contar simplesmente porque gosta de contar. O
narrador deve estar ciente de que o importante é a
história.
07
Partindo da hipótese de que nas sociedades usamos
a língua, cotidianamente, tanto em sua modalidade
oral quanto escrita, passando, da fala à escrita e da
escrita à fala, propomos durante esta primeira fase do
projeto tratar os processos lingüísticos de oralidade e
escrita sob a ótica de um trabalho interativo,
estabelecendo relações entre suas semelhanças,
diferenças e, conseqüentemente, as influências
exercidas entre os mesmos, sendo muito interessante
para o processo de ensino aprendizagem da língua.
Por meio da narração de histórias é possível verificar
os diferentes níveis de fala e de escrita, ou seja, fala e
escrita influenciam-se mutuamente. Nesse processo é
possível valorizar a linguagem presentes nos textos
falados dos alunos, como ponto de partida para a
reflexão sobre a língua escrita e falada.
No primeiro momento foi apresentado aos
participantes a trajetória da tradição oral e seus
pesquisadores ao longo da História.
08
nanoananona
O Ministério da Educação abre a estados, municípios,
Distrito Federal, instituições de ensino superior e
entidades sem fins lucrativos a oportunidade de
apresentar projetos de incentivo à leitura dirigidos a
jovens, adultos e idosos recém-alfabetizados ou em
processo de alfabetização.
O projeto de fomento à leitura e regulamentado pela a
Resolução nº 44, publicada no Diário Oficial da União
dia 17de novembro de 2008, define que as propostas
devem contemplar uma entre quatro linhas de ação:
promoção do acesso à leitura; formação de leitores e
mediadores de leitura; produção e distribuição de
tecnologias educacionais de fomento à leitura, e
pesquisa e avaliação sobre leitura.
Os projetos foram definidos e divulgados pelo Fundo
Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE),
órgão do MEC responsável pelo repasse dos recursos
e pela equipe técnico-pedagógica da Secretaria de
Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade
(Secad).
Partindo da resolução e seus critérios a Secretaria de
Estado de Educação via Coordenadoria de Educação
de Jovens e Adultos elabora o projeto como mais um
possibilidade de implementar o curricular nos Centros
de Educação de Jovens e Adultos de mato grosso. O
mesmo vem sendo desenvolvido conforme
demonstram os registro desta edição como mais uma
ação voltada para a construção do conhecimento dos
jovens e adultos.
09
Pesquisadores da
Tradição Oral
E
sopo (620 a.C.) é um lendário autor grego, que
teria vivido na Antiguidade, ao qual se atribui a
paternidade da fábula como gênero literário.
Esopo teria sido um escravo que foi libertado pelo seu
dono, que ficou encantado com suas fábulas. Ao que
tudo indica, viajou pelo mundo antigo e conheceu o
Egito, a Babilônia e o Oriente. Concretamente, não há
indícios seguros de que tenha escrito qualquer coisa.
As fábulas remontam uma chance popular para
educação moral de crianças hoje.
Há muitas histórias incluídas nas fábulas de Esopo,
tão como A Raposa e as Uvas, A Cigarra e a Formiga,
A tartaruga e a lebre, O vento norte e o sol e
O menino que gritava lobo, O Lobo e o Cordeiro são
bem conhecidas pelo mundo afora.”
10
“Jean de La Fontaine (1621-1695) foi o mais
famoso francês fabulista e um dos poetas mais lidos
do século XVII. Ele é conhecido, sobretudo por suas
Fábulas.
Algumas fábulas escritas e reescritas por ele são A
Lebre e a Tartaruga, O Homem, O Menino e a Mula,
O Leão e o Rato e O Carvalho e o Caniço ”.
“Os Irmãos Grimm (Jacob (1785-1863) e
Wilhelm Grimm (1786-1859)) foram dois
alemães que se dedicaram ao registro de várias
fábulas infantis, ganhando assim grande
notoriedade.
Os contos mais famosos escritos pelos Irmãos
Grimm são: Branca de Neve, Cinderela, João e
Maria, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho, A Bela
Adormecida, entre outros”.
11
“Hans Christian Andersen (1805-1875) foi um
escritor dinamarquês de histórias infantis.
Escreveu peças de teatro, canções patrióticas,
contos, histórias, e, principalmente, contos de fadas,
pelos quais é mundialmente conhecido.”
Entre os contos de Andersen, destacam-se: O Abeto,
O Patinho Feio,A Caixinha de Surpresas,
Os Sapatinhos Vermelhos, O Soldadinho de Chumbo,
A Pequena Sereia, A Roupa Nova do Rei, A Princesa
e a Ervilha, dentre outros.”
“Luís da Câmara Cascudo (1898-1986).
O conjunto da obra de Luís da Câmara Cascudo é
considerável em quantidade e qualidade: ele
escreveu 31 livros e 9 plaquetas sobre o folclore
brasileiro, em um total de 8.533 páginas.
Ninguém no Brasil, nem antes nem depois dele,
realizou obra tão gigantesca com reconhecimento
nacional e estrangeiro. É também notável que tenha
obtido reconhecimento nacional e internacional
publicando e vivendo distante dos centros Rio e
São Paulo.”
Câmara Cascudo, nasceu em Natal, foi historiador,
antropólogo, advogado, jornalista, professor da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte e
pesquisador das manifestações culturais brasileiras.
12
Formação de
Contadores de
Histórias nos Cejas
N
1 - CEJA José de Mesquita
2, 3 - CEJA Almira Amorim Silva
a Educação de Jovens e Adultos o processo de
leitura parte de narrações reais, fatos ligados ao
cotidiano dos educandos, histórias que falam de
situações concretas, com uma simbologia própria, na
busca pelo avivamento da cultura mato-grossense
através da leitura da realidade.
Em primeiro lugar, faz-se necessário despertar nos
educandos o prazer da leitura e a descoberta de
histórias através de aspectos culturais que se
conhecem e que os sensibilizem. Motivá-los a
descobrir (e descobrir-se em) experiências e histórias
de pessoas e famílias que contribuíram para a
formação do povo, das relações com o meio no qual
está inserido e avivar a sua memória.
Instigá-los a conhecer as histórias ou causos que
muitas vezes não constam nos livros, e sim, no saber
local.
Com as atividades propostas, acreditamos que
estaremos investindo na formação de cidadãos que
valorizam a cultura local, construindo a sua autonomia
literária, sendo co-autores do processo de avivamento
da arte milenar das histórias orais.
Redescobrir o prazer de ouvir e contar histórias como
nossas avós contavam, cheios de entusiasmo, em
momentos que preenchem nossos vazios urbanos de
encantamento dos quais a vida moderna nos priva.
13
Considerando que a leitura e a escrita são aspectos
importantes no processo de ensino aprendizagem, é
de importância impar o desenvolvimento dessas
habilidades. Muitos dos alunos de CEJA apresentam
carência de leitura, contudo apresentam riqueza de
conhecimentos e experiências de vida.
Nas atividades de leitura os gêneros trabalhados
foram os contos, as lendas e a poesia. Durante a
leitura os participantes puderam compreender que a
voz é essencial no momento de se realizar a
mediação de leitura, percebendo que a entonação,
inflexão e ritmo, são aspectos que dão vida à
narrativa.
Segundo Ong (1998, p.16) "Todos os textos escritos
devem, de algum modo, estar direta ou indiretamente
relacionado ao mundo sonoro, habitat natural da
linguagem, para comunicar seus significados. 'Ler' um
texto significa convertê-lo em som, em voz alta ou na
imaginação".
1 - CEJA José de Mesquita
2 - CEJA Almira Amorim Silva
3 - CEJA Vera Pereira do Nascimento
Outra característica importante da leitura é a
compreensão do que está sendo apresentado e a
análise das informações que a história apresenta,
desde a interpretação do texto, a leitura das imagens
e as discussões acerca do tema proposto pelo autor.
Saber ouvir é uma das características do contador de
histórias e nesta perspectiva propomos aos alunos e
profissionais da área da educação, uma investigação
dos sons que nos possibilitassem imaginar, criar
imagens, personagens e ao mesmo tempo
pudéssemos compreender a utilização desses
recursos para ambientalizar uma narração.
14
Os primeiros ensaios das histórias escolhidas pelos
próprios educandos, a partir de seus relatos e
elaborações das possibilidades de se contar uma
história, através da encenação teatral e de outras
linguagens artísticas.
O foco principal dessa atividade foi possibilitar o
crescimento pessoal dos alunos e seu
desenvolvimento cultural pelo domínio, pela fluência,
pela decodificação e pela leitura crítica da linguagem
teatral e da narrativa oral cênica.
1 - CEJA Licínio Monteiro da Silva
2 - CEJA Almira Amorim Silva
3 - CEJA Vera Pereira do Nascimento
As atividade de Leitura Dramatizada das histórias
elaboradas pelos educandos, está possibilitando ao
poucos a perda da timidez em expor sua ideias e
expressões artísticas.
A palavra nesse contexto é mais que um instrumento
de expressão é instrumento de interação.
Nessa atividade os participantes estão trabalhando
com movimentos expressivos de maior e menor
intensidade. São movimentos que desenvolvem as
emoções e sentimentos cotidianos utilizando a
linguagem cênica.
As dinâmicas em grupo possibilitam a construção e
exploração das possíveis formas de interpretação,
textual e gestual, a serem trabalhadas na
apresentação.
Após as atividades foi possível observar que a grande
maioria dos participantes, estavam seguros ao
interpretar seus respectivos personagens.
Os participantes tiveram a oportunidade de realizarem
uma leitura dramatizada a partir do texto selecionado
para a montagem do espetáculo.
15
Durante o processo de ensaio dos grupos, cada
participante com seu personagem definido, pôde
vivenciar quais são as regras da encenação, desde o
reconhecimento do palco, a marcação de cena, a
configuração do cenário
e a utilização de recursos.
Segundo Fernandes (2002, p.28) "O 'contar histórias'
não é função de uma pessoa. Arma-se uma situação
na qual público e narrador comungam de um mesmo
mundo, operam códigos comuns, fazem leituras e
podem se revezar na imposição da voz.
1, 2 - CEJA Licínio Monteiro da Silva
Não se trata simplesmente de falar, mas saber
convencer. (...) o olhar, o silêncio, o franzir da testa,
as mãos, o riso, objetos próximos, sons, a fala.
Cabeça, tronco e membros. O corpo é um turbilhão
de mensagens, que ressoa códigos impraticáveis
na escrita.»
A atividade proporcionou aos participantes se
reconhecerem em seu potencial corporal e vocal, ao
mesmo tempo em que vivenciavam o trabalho em
equipe de forma cooperativa.
A interação com o grupo e com o público determina a
compreensão e o bom resultado de um trabalho.
A partir destas vivências os participantes são
contemplados por um desenvolvimento completo:
cognitivo e físico que contribuirão no momento em que
forem propor ou realizar qualquer atividade no
cotidiano de suas vidas.
Um dos objetivos desta atividade foi demonstrar as
diferenças entre contar e ler um conto.
16
Segundo Gislayne Matos (2005, p.6), "Existe diferença
entre contar e ler uma história, porque também existe
uma diferença entre palavra oral e palavra escrita.
Quando a comunicação se dá através da palavra oral,
nosso centro de percepção é o auditivo”.
A expressão do corpo, os gestos, o ritmo e a
entonação de voz imprimem sentido às palavras e
desvelam para o ouvinte as emoções por trás do texto.
No caso da leitura (palavra escrita), o centro da
percepção passa a ser o visual.
1, 2, 3 - CEJA José de Mesquita
O ato de ouvir e o de ler exercem sobre nós funções
diferentes e também acionam em nós faculdades
diferentes.
É fácil concluir que ambas (ouvir e ler) são
experiências importantes. A arte do contador envolve
expressão, improvisação, interpretação, interação
com seus ouvintes.
17
O leitor, por sua vez, empresta sua voz ao texto. Pode
utilizar recursos vocais para que a leitura se torne
mais envolvente para o ouvinte, mas não recria o
texto, não improvisa a partir dos estímulos do
auditório".
1, 2 - CEJA José de Mesquita
1, 2 - CEJA Licínio Monteiro da Silva
18
Aulas de Campo
Educativas Cultural
TEATRO DO SESC
ARSENAL: Espetáculo “A Mala de Fugir”
O
s estudantes, professores e coordenadores dos
CEJAs Almira Amorim, José de Mesquita e Licínio
Monteiro, num clima de interação tiveram a
oportunidade de participarem do Evento "Semana
SESC de Leitura e Literatura 2011", assistindo ao
Espetáculo de Contação de Histórias "A Mala de
Fugir" inspirado no livro do autor matogrossense Luiz
Carlos Ribeiro da Cia Saringagá Produções Artísticas
MT.
A aula de campo educativa e cultural faz parte das
ações do Projeto "CEJA um Contador de Histórias" SEDUC, com o objetivo de contextualizar as
atividades propostas para os grupos de cada CEJA
inscritos no projeto.
É importante registrar que para muitos desses
alunos(as) foi a primeira vez que visitaram o SESC
Arsenal e assistirem a um espetáculo cultural.
É perceptível a alegria estampada no rosto de cada
um, como também é gratificante proporcionar a estas
pessoas o acesso aos bens culturais, que por lei é um
direito de todo cidadão.
19
SINOPSE DO ESPETÁCULO (Texto fornecido pela
Cia Saringagá Produções Artísticas - MT) – A Mala de
Fugir é um espetáculo lúdico/musical em um ato, com
textura dramática a partir da seleção de contos da
obra do mesmo nome.
A peça reconstrói a ambiência mágica de contação de
historias, causos, paródia, ancorada em elementos
visuais e sonoros, selecionados da cultura e da arte
popular mato-grossense e universal, que
proporcionaram suporte artístico, tanto no conteúdo
como na forma.
O espetáculo é um convite á fantasia, á magia e ao
sonho. AMala de Fugir será representada
simbolicamente por uma mala cenográfica, para onde
todos poderão se transportar, numa inusitada viagem
ao país do faz-de-conta, esquecido dentro de nós.
Mala de Fugir traz dentro de si outros mistérios que
criarão asas, sons onomatopaicos, cores, melodias e
fantasias. Borboletas voarão para o além-mar;
mariposas encantadas contracenarão com pássaros
tenores, que cantarão suas árias florestais; elementais
serão transportados de outras dimensões e assumirão
funções inusitadas; bruxas, figuras lendárias e mitos
amazônicos habitarão terras inexploradas.
20
Desse poder mágico/ iluminado que cada um poderá
participar, não faltarão os sonhos, fantasias, memórias
da infância de cada um e ai vai o desafio para cada
espectador realizar mágicas desafiantes, como a de
(re) descobrir sua própria Mala de Fugir e ir embora
com o circo da sua memória infância. A partir daí...
bem nada será como antes.
O figurino e a maquiagem – inspirados na Comédia
Dell ' Arte – trabalha a idéia de coringa, desdobrandose, a fim de ampliar a imaginação dos espectadores e
verbalizar cenicamente a criatividade dos seus
idealizadores.
Formas, cores e sutilezas de movimentos darão
suporte cênico para os atores se transformarem em
novos personagens, possibilitando a criação de
novas histórias e inspirando a platéia para que
elabore sua própria versão. "Carlinhos Ferreira"
Entrevista concedida pelo autor e ator Luiz Carlos
Ribeiro.
A inspiração para o conto que dá nome ao livro veio
da infância do próprio autor.
Nessa época, tinha ele uma mala, na qual carregava
'quinquilharias' e a qual levava quando resolvia fugir
de casa, sua "mala de fugir".
21
Hoje, sua mala está cheia de personagens míticos
como Corça-Encantada, a Mãe-do-Morro e o Boitatá,
levando para adultos e crianças o encantamento das
histórias contadas ao pé da fogueira, sob os olhos
atentos do público.
Não faltam alusões a figuras lendárias da cultura
indígena, como o tamoin, contador de histórias do
povo Kamaiurá do Xingu, que no livro aparece na
figura de uma sua tia Arminda, mestre na arte de
entreter as crianças com 'causos'.
Mais à frente, nos deparamos com o Reino de
Cuyaverá, onde habitam os descendentes dos povos
Guató, Guaicuru, Coxiponé, Biripoconé, Bororo e
Paiaguá. "Com esse livro, eu reconto as histórias que
minha avó contava", observa o autor.
E foi ao lado de dona Maximiana que, com cerca de
oito anos, ele foi apresentado à sua primeira festa de
santo. Momento inesquecível.
"Foi o meu primeiro alumbramento com a cultura
popular da minha cidade", escreve ele na
apresentação do livro. A partir de então, virou
freqüentador assíduo das festas, adquirindo o hábito
de bisbilhotar "as envolventes narrativas dos
contadores de causos".
22
Tornou-se, aos poucos, um grande contador de
histórias. Histórias que hoje vão saindo de sua mala
também como denúncias de cunho político contra o
desmatamento, a corrupção e outros males.
"Não é a lenda pela lenda. É denúncia, principalmente
ambiental. Também tem muita informação histórica."
Mudanças – Preservar o ofício dos contadores de
histórias é uma das preocupações do autor.
Ele observa que com o surgimento da televisão, os
contadores de histórias foram morrendo.
O desinteresse não partiu das crianças – que
continuam a adorar histórias -, mas dos próprios
adultos. "Sou de uma geração que não tinha
televisão.
Nosso passatempo era ouvir histórias", observa ele”.
23
CINEMA DO SESC
ARSENAL: Filme “Narradores de Javé”
S
inopse do filme Narradores de Javé - " A pequena
cidade de Javé será submersa pelas águas de uma
represa.
Seus moradores não serão indenizados e não foram
sequer notificados porque não possuem registros nem
documentos das terras.
Inconformados descobrem que o local poderia ser
preservado se tivesse um patrimônio histórico de valor
comprovado em "documento científico".
Decidem então escreverem a história da cidade, mas
poucos sabem ler e só um morador, o carteiro, sabe
escrever.
Depois disso, o que se vê é uma tremenda confusão,
pois todos procuram Antônio Biá, o "autor" da obra de
cunho histórico, para acrescentar algumas linhas e ter
o seu nome citado".
24
Sinopse do filme Narradores de Javé - " A pequena
cidade de Javé será submersa pelas águas de uma
represa.
Seus moradores não serão indenizados e não foram
sequer notificados porque não possuem registros nem
documentos das terras.
Inconformados descobrem que o local poderia ser
preservado se tivesse um patrimônio histórico de valor
comprovado em "documento científico".
Decidem então escreverem a história da cidade, mas
poucos sabem ler e só um morador, o carteiro, sabe
escrever.
Depois disso, o que se vê é uma tremenda confusão,
pois todos procuram Antônio Biá, o "autor" da obra de
cunho histórico, para acrescentar algumas linhas e ter
o seu nome citado".
Este filme contribui com a proposta do projeto "CEJA
Um Contador de Histórias", pois demonstra uma
perspectiva de quem conta uma história perante ao
que escreve esta mesma histórias e ao mesmo tempo
enfatiza a importância do conhecimento da escrita e
da leitura como fator legítimo diante de uma
sociedade que considera o conhecimento científico
como o verdadeiro.
25
Percebe-se também que o valor de um patrimônio
histórico da cidade é de primordial importância para a
preservação de suas histórias.
Isso demonstra que temos que, cada vez mais
valorizar os nossos museus, bibliotecas e espaços
culturais, por esse motivo que o projeto proporciona
essas aulas aos alunos e professores do CEJA.
A forma de contar as histórias também foi outro ponto
a ser analisado neste filme.
Acredito que os alunos e professores que participaram
dessa aula puderam perceber os valores, costumes e
crenças que uma comunidade pode construir a partir
de suas próprias histórias, trabalho este que venho
propondo aos participantes durante as atividades do
projeto.
Agradecemos ao SESC Mato Grosso, pela
receptividade e parceria ao projeto.
26
Biblioteca Estadual Estevão de Mendonça
– Pavilhão das Artes
O
foco desta aula foi proporcionar o conhecimento
sobre a Cultura Artística Mato-grossense.
O Pavilhão das Artes, espaço físico situado dentro
da Biblioteca Estadual Estevão de Mendonça é um
ambiente onde os alunos e professores puderam
contemplar várias fotos e obras de arte de artistas
regionais.
Esta prática possibilita através dessa vivência um
olhar reflexivo sobre nossas histórias e dos nossos
antepassados.
Demonstrando de forma empírica como o artista
interpreta o mundo em que vive e o representa
através da arte, possibilitando por meio da arte um
momento de sensibilização e reflexão do que vemos.
O foco desta aula foi proporcionar o conhecimento
sobre a Cultura Artística Mato-grossense.
27
O Pavilhão das Artes, espaço físico situado dentro
da Biblioteca Estadual Estevão de Mendonça é um
ambiente onde os alunos e professores puderam
contemplar várias fotos e obras de arte de artistas
regionais.
Esta prática possibilita através dessa vivência um
olhar reflexivo sobre nossas histórias e dos nossos
antepassados.
Demonstrando de forma empírica como o artista
interpreta o mundo em que vive e o representa
através da arte, possibilitando por meio da arte um
momento de sensibilização e reflexão do que vemos.
A exposição de fotos de Cuiabá antiga foi a que mais
as pessoas se identificaram, por trazer informações
visuais do ontem e ao mesmo tempo por possibilitar
a comparação do que a cidade nos representa hoje.
Acredito que momentos como este tornam-se
significativos para o projeto, pois vivenciamos na
prática a importância da preservação das histórias
culturais e artísticas do nosso Estado.
28
29
Contextualização
Histórica dos Espaços
Visitados
MISC (Museu da Imagem e Som de Cuiabá)
e IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional)
O
Museu da Imagem e do Som de Cuiabá ou MISC
foi criado em 2006 para ser um centro de imagem e
som das culturas de Cuiabá em Mato Grosso.
A criação do museu tem como objetivo, preservar a
memória da vida cuiabana e mato-grossense. Através
do acervo que possui, fornecer elementos para a
pesquisa sobre a história de Cuiabá e valorizar a
diversidade cultural da cidade.
Inaugurado em 2006, o Museu da Imagem e do Som
de Cuiabá (Misc), “Lázaro Papazian Chau”, vem
somar com as diversas frentes que vêm atuando pelo
desenvolvimento do audiovisual em Cuiabá. O espaço
é gerenciado pela Secretaria Municipal de Cultura e é
um espaço para constituir importante acervo da
história de Cuiabá. O espaço serve como suporte
também para investir em formação, editar concursos
fotográficos, oficinas, mostras, exposições e outras
atividades.
O Museu é um dos mais visitados equipamentos
culturais do município e está localizado no coração do
Centro Histórico, nas dependências do antigo
Sobrado do Alferes "Joaquim Moura".
30
Em seu interior, um acervo de imagem e som de valor
inestimável para a cultura regional.
São aproximadamente oito mil fotos do fotógrafo
Eurípedes Andreato - retratando o cotidiano, fatos,
monumentos e personalidades da Cuiabá do passado.
Além disso, o acervo conta ainda com outra infinidade
de discos em vinil, imagens em fitas de vídeo, áudio
em fitas-cassete, dentre outras preciosidades, um
registro para ver, ouvir e conhecer a Cuiabá de
outrora.
O acervo reúne fotos coloridas e em preto e branco do
século 20, desde 1910 até os dias atuais.
O espaço é um dos primeiros a conter acervo
digitalizado no estado. O Misc é um espaço dinâmico
que preocupa pela proteção e difusão da memória da
comunidade cuiabana.
São aproximadamente 25 mil imagens do repórter
fotográfico e cinematográfico Lázaro Papazian, que
registrou pelas suas lentes boa parte da história
política, cultural e social de Mato Grosso,
especialmente de Cuiabá, no século passado.
Papazian testemunhou e registrou momentos
marcantes da história de Mato Grosso, como visitas
de presidentes, a Cuiabá antiga com seus
monumentos arquitetônicos, como a catedral que foi
demolida, as tortuosas ruas e casarões do centro
histórico, o rio Cuiabá, o cotidiano da população
cuiabana.
O Misc fica localizado na Rua Voluntários da Pátria, nº
75, esquina com a 7 de Setembro, no Centro Histórico
da Capital. O espaço fica aberto nos dias de semana,
das 14h às 18h. (http://guiadematogrosso.com.br)
31
Biblioteca Estadual Estevão de Mendonça
A
lém do seu acervo de aproximadamente 35 mil livros
distribuídos em acervos didáticos, de literatura
regional e outros, a Biblioteca possui duas amplas
salas de leitura, um telecentro com o seu programa de
inclusão digital, uma videoteca, auditório com 44
lugares, uma sala de obras raras, sala de braile e sala
infanto-juvenil.
A Biblioteca Pública foi criada em 26 de março de
1912, no governo do presidente Joaquim Augusto da
Costa Marques. Leva o nome do notável escritor e
historiador, e também primeiro diretor da instituição,
Estevão de Mendonça.
O Governo do Estado em parceria com a Associação
Mato-grossense dos Produtores de Algodão (AMPA)
restaurou o Palácio da Instrução, tornando o local um
genuíno Centro de Difusão Cultural, ponto de
encontro de estudantes, intelectuais, pesquisadores e
curiosos, ampliando significativamente seu público
alvo.
A Biblioteca Pública Estevão de Mendonça é o órgão
central de uma agência que coordena todas as outras
bibliotecas públicas do Estado.
(http://cultura.mt.gov.br)
32
SESC ARSENAL
I
naugurado em 1832, como Arsenal de Guerra da
Capitania de Mato Grosso, tornou-se um símbolo da
nacionalidade brasileira e demonstrou a determinação
das Forças Armadas. Em 1989 o SISTEMA
FECOMÉRCIO/SESC/SENAC-MT adquiriu, através
de uma permuta com o Exército, o velho prédio, que é
um testemunho da cultura e beleza arquitetônica do
estilo neoclássico franco-lusitano.
Após grandes reformas, que respeitaram o
tombamento histórico e a necessidade técnica de
cada atividade cultural, o Arsenal de Guerra abre suas
portas para os artistas e a população em agosto de
2001, como Centro de Atividades SESC Arsenal com
belíssimos espaços para o lazer da sociedade
cuiabana
Espaços:
Choperia – Um ambiente agradável que proporciona
uma integração contínua entre as pessoas, através da
valorização da boa música brasileira, do atendimento
e da cortesia. Idealizado, projetado e localizado com a
intenção de resgatar os finais de tarde.
Centro de Realização Musical – Espaço destinado à
realização de oficinas e cursos permanentes de
música, com desenvolvimento de conteúdos diversos
(instrumentos, prática de conjunto, percepção musical,
etc), incluindo palestras, seminários e atividades de
cunho prático e teórico.
33
Centro de Difusão Musical – Sala de música, atuando
no campo da formação orientada de leitores e
ouvintes, enfocando a totalidade da produção
histórico-musical disponível em registros literários,
discográficos, fonomecânicos e digitais.
Banco de Textos – Espaço de excelência para estudos
e pesquisas em Artes Cênicas e Literatura, com acervo
de peças de teatro, livros e todo tipo de impressos
sobre o ofício cênico para a comunidade em geral.
Direcionado para se tornar área de convivência e
estudos coletivos.
Teatro – Integra a Rede SESC de Artes Cênicas, que
abriga salas de espetáculos por todo o Brasil. Atende
produções nas áreas de teatro, dança, música,
literatura e outras expressões artísticas.
Possui uma platéia de 261 assentos, com ótima
visualização do palco, excelente qualidade acústica e
qualidade térmica controlada.
Biblioteca – Atende as necessidades de lazer,
pesquisas e estudos da comunidade em geral,
disponibilizando excelente acervo de livros, periódicos
e jornal, além de acesso à Internet.
Salão Social – É um espaço destinado a bailes,
recitais, lançamentos de livros e para troca de idéias
em torno das expressões artísticas.
Sala de Dança – Objetiva abrigar e difundir a dança
como forma de expressão, através do
desenvolvimento de cursos de dança, além de servir
como espaço de pesquisa aos interessados desta arte.
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Oficina de Idéias – Voltado ao exercício da
imaginação e da criatividade. As atividades priorizam
o fazer, o criar, o descobrir, o redescobrir e o ato de
brincar como encontro com o lúdico, oportunizando a
interação entre a cultura e a educação.
Galeria de Artes – Espaço para apreciação da obra de
arte, reflexão, expressão e o exercício do olhar numa
perspectiva crítica. Abriga exposições, intercâmbios e
informações, visando uma ação capaz de promover a
articulação do desenvolvimento da produção e de uma
linguagem visual e artística.
Cinema – Sala de exibição com 78 lugares, som
digital, equipamento de projeção em 16mm, VHS e
DVD.
Ponto de Artesanato – Expõe e comercializa a
singularidade da produção artesanal do Estado de
Mato Grosso, tempo em que, processa a ampliação
do acervo para outros estados, com intenção de
oportunizar ao turista, no mínimo, o contato imediato
com as diferenças nas tendências regionais.
(http//.sescmatogrosso.com.br)
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IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional)
A
criação do organismo federal de proteção ao
patrimônio, ao final dos anos 30, foi confiada a
intelectuais e artistas brasileiros ligados ao movimento
modernista.
Era o início do despertar de uma vontade que datava
do século XVII em proteger os monumentos históricos.
A criação da Instituição obedece a um princípio
normativo, atualmente contemplado pelo artigo 216 da
Constituição da República Federativa do Brasil, que
define patrimônio cultural a partir de suas formas de
expressão; de seus modos de criar, fazer e viver; das
criações científicas, artísticas e tecnológicas; das
obras, objetos, documentos, edificações e demais
espaços destinados às manifestações artísticoculturais; e dos conjuntos urbanos e sítios de valor
histórico, paisagístico, artístico, arqueológico,
paleontológico, ecológico e científico.
A Constituição também estabelece que cabe ao poder
público, com o apoio da comunidade, a proteção,
preservação e gestão do patrimônio histórico e
artístico do país.
História da Instituição
O Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
foi criado em 13 de janeiro de 1937, no governo de
Getúlio Vargas.
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Já em 1936, o então Ministro da Educação e Saúde,
Gustavo Capanema, preocupado com a preservação
do patrimônio cultural brasileiro, pediu a Mário de
Andrade a elaboração de um anteprojeto de Lei para
salvaguarda desses bens.
Em seguida, confiou a Rodrigo Melo Franco de
Andrade a tarefa de implantar o Serviço do
Patrimônio.
Posteriormente, em 30 de novembro de 1937, foi
promulgado o Decreto-Lei nº 25, que organiza a
“proteção do patrimônio histórico e artístico nacional”.
O Iphan está hoje vinculado ao Ministério da Cultura.
Rodrigo Melo Franco de Andrade contou com a
colaboração de outros brasileiros ilustres como
Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Afonso Arinos,
Lúcio Costa e Carlos Drummond de Andrade.
Técnicos foram preparados e tombamentos,
restaurações e revitalizações foram realizadas,
assegurando a permanência da maior parte do acervo
arquitetônico e urbanístico brasileiro, assim como do
acervo documental e etnográfico, das obras de arte
integradas e dos bens móveis.
A próxima etapa consistiu na proteção dos acidentes
geográficos notáveis e paisagens agenciadas pelo
homem. Há mais de 60 anos, o Iphan vem realizando
um trabalho permanente de identificação,
documentação, proteção e promoção do patrimônio
cultural brasileiro. (http//portal.iphan.gov.br).
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Contos e Lendas da
Cultura Regional
O Vaqueiro do Livramento
S
erapião era vaqueiro toda a vida, levando em conta
que este substantivo qualificativo não era restrito a
manipulação de vacas, muito menos vacas leiteiras se
se emparelhava melhor como sinônimo de boiadeiro,
homem destro em lidar com rezes, qualquer espécie
de bovino, fosse masculino ou feminino.
Parece até que o nome influiu na sua profissão.
Serapião. Nome que sua própria madrinha no seu
falar pausado, traduziu para Serapião e o afilhado
acabou sendo peão dos bons.
Gado desgarrado era com ele só.
Num átimo reconduzia a rez fisgada pelo chifre, num
laço de puro couro. Também não escolhia onde pisava:
campo liso de terra, chão de gravatá, roça de coivara,
terreno pedregoso ou laje escorregadia, gravatazal,
campo de areia quente ou peitado de cupim, ele
varava com agilidade de um veado galheiro, saltando
macegas, ou pulando de rocha em rocha.
Certa vez, a sua agilidade foi posta prova.
Fugira o taludão do compadre Zacarias. Na roça
vocês sabem, a palavra Cumpadre ajoujada com o
nome, já vira nome próprio.
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O boi do compadre Zacarias não amansava nunca,
era um belo animal, porém rebelde que só ele. Os
alambrados do compadre eram muito limitados para
ele, que só pensava em fugir.
Parecia que o boi queria conhecer o pólo norte, pois
recalcitrava, pulava cerca, queria ganhar o mundo
parecia.
E numa destas fugas o Serapião, como o batuta no
ofício, foi mais uma vez solicitado para reconduzir o
desviado.
E assim; pulando de macega em macega, de
espinheiro a espinheiro, se desvencilhando do cipoal,
já noitinha vem ele arrastando aquele monstro de boi
já domado.
Todos que o esperavam, mesmo de antemão sabendo
que ele conseguiria dominar o bicho, se espantaram
da sua reconhecida habilidade e destreza, porque, boi
como aquele não era para qualquer.
Mas alguém logo notou que um lado do rosto de
Serapião sangrava e perguntou;
-Que é isto homem, você foi chifrado?
Passando a manga da camisa e verificando que
perdera um olho, apenas retrucou: -“Ah! Dois óio é
luxo”.
Livro: Lendas de Mato Grosso – Dunga Rodrigues
(Contada pelo deputado Octacílio Silva que a ouvira
do próprio peão na cidade de Livramento
39
O Fantasma da Matriz
Q
uando eu disse que, em Cuiabá cada rua tem seu
fantasma particular, não estava exagerando.
Nem a praça da Matriz escapou a este misterioso
encantamento.
Era uma praça inclinada, pavimentada de irregulares e
escorregadias pedras cristais. Os trilhos do bonde que
surgiram da Rua de Cima, atravessavam-na de viés,
desembocando na rua 13, onde os trilhos do bonde se
alongavam até o Porto, no 2º Distrito.
Em frente à Matriz, a casa de morada e a loja do Sr.
Francisco Martiniano de Araújo, o simpático “Seu
Chico”, acolhia com um largo e franco sorriso a sua
clientela.
As gostosas risadas do seu Chico, tornava-o a pessoa
mais interessante da família, sempre bem humorado,
dando muita atenção até para as crianças.
Embora ele tivesse duas filhas quase da minha idade,
eu gostava de entrar na loja, só para ver seu Chico.
Não é que, um belo dia este senhor sai para dar umas
voltinhas e regressou já noite fechada.
As dez horas, pouca gente se atrevia a ficar fora de
casa.
A iluminação precária (lampeõezinhos de querosene),
calçamento irregular, animais dormindo na rua, aquele
silêncio que a dez horas parecia noitão.
O que teria ido fazer Seu Chico, assim tão tarde?
Maçonaria não era desse lado...
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Certo é que ao passar em frente à Matriz para
atravessar o largo e alcançar a casa, Seu Chico viu
um vulto branco de mulher.
-Quis fazer uma peraltagem, não é seu Chico?
Naturalmente querendo certificar-se de quem se
tratava, uma mulher a esta hora sozinha na rua...
Foi aproximando daquele vulto branco.
Mas...à medida que ele se aproxima, aquele vulto
branco ia crescendo, crescendo de maneira
descomunal.
Seu Chico não vacilou. Deu no pé, desceu quase
correndo, equilibrando-se nas pedras cristais que se
tornavam escorregadias ao atrito dos seus sapatos
novos de verniz.
Livro: Lendas de Mato Grosso – Dunga Rodrigues
História fornecida pela – Drª Ilma Avelino de Araújo
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O Vulto Branco
O
vaqueiro era valentão de fama, na antiga vila de
Várzea Grande. A inigualável perícia em conduzir o
gado de um roteiro para outro, mesmo para as bandas
do Livramento e Poconé, tornava-o muito solicitado
para tal fim. Era eficiente e responsável.
Quando ia chegando ao largo das fazendas, nos
limpados do seu terreiro da frente, seu vulto
desempenado, de chapéu de abas reviradas, se
projetava com simpatia e a acolhida era das mais
efusivas.
Havia sempre um benze para retemperar a fadiga de
uma caminhada longa, bolinhos de fubá, ou quebratorto ao pé dos tacurus, no puxado de trás, perto do
galpão, para o destemido vaqueiro forrar o estômago.
Mas, daquela vez, a sua chegada foi bem diferente.
Intempestiva, atrabalhoada, o chapéu que compunha
uma peça única junto ao vulto, sempre ereto e
aprumado, cara na poeira da estrada, apresentando
desalinhou até a própria montaria.
Daquela vez ele saíra a noite, conduzindo as vacas do
retiro para aleitação. Ao transpor o córrego, em sítio
afastado e deserto, um vulto de camisa branca
acenava-lhe os braços abertos, como a impedir-lhe a
passagem. Visão ou medo, quanto mais se
aproximava mais os membros se estendiam, como se
pretendessem agarrá-lo.
Apenas seis passos estava na aparição quando,
resoluto, meteu a mão no gatilho e desfechou o trinta
e oito quatro vezes. O vulto branco não arredou o pé,
permaneceu no mesmo lugar.
42
Cabelos eriçados, tremendo feito vara verde,
esporeou fundo a barriga do animal, galopando ligeiro,
sem se incomodar de jogar por terra todo a proverbial
valentia.
Ainda como os olhos esbugalhados atingiu a fazenda,
contando o sucedido ao capataz.
-Volte lá durante o dia, disse este. O lugar não é tão
ermo quanto parece. Há moradores isolados, beirando
o córrego. Deve ser alguma peça de roupa a secar,
pendurada em algum galho de pau.
Como ele era um tira-teima de primeira, não pôs
dúvida. Voltou lá e decepcionado, constatou a
suspeita do nosso capataz; algumas camisas estavam
especadas nos ramos de pau seco, a baloiçar com a
aragem da manhã.
Livro: Lendas de Mato Grosso – Dunga Rodrigues
(Fornecida por Ubaldo Monteiro na obra: No Portal da
Amazônia – Editora Bonito – Av. Goiás, 1525, GoiâniaGO).
43
Pai do Mato
A
mata da Poaia, no município de Barra do Bugres, é
ainda um relicário florestal e recinto de muitas lendas,
por assim dizer, ecológicas, para empregarmos a
palavra do momento.
Embora a sua exploração date do século passado até
nossos dias, ela não foi tão devastadora e naquela
região ainda se encontram muitas manchas de
vegetação compacta e fértil, para o nosso gáudio e o
dos defensores do meio ambiente.
Os seus mitos e crendices são derivados dessa
natureza, no sentido de protegê-la de uma radical
derrubada, só hoje alertada por um pequeno grupo de
acendrado civismo.
É mais fácil e vantajoso cremar tudo, ou dilapidar,
para que a madeira nos devolva uma riqueza
imediata, que conservar nossas matas pela beleza
estética e pelos eflúvios benéficos do ar purificado que
irá refazer a força dos pulmões de uma população
remota, ou num próximo futuro.
Foi nessa terra edêmica que apareceu o Pai do Mato.
Entidade fabulosa, metade gente, metade bicho,
oculta-se entre o cipoal intricado que enlaça as
árvores seculares. Talvez possua olhos de lince,
porque está sempre atento aos acontecimentos da
floresta.
A fera que danifica a planta, os pássaros que são
veículos de plantas daninhas, as serpentes que
inoculam o seu vírus para causar dano, enfim.
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Até quando há indícios de tempestade, o Pai do Mato
sai sacudindo as árvores, uma por uma, para testar as
que resistirão ao vendaval.
Procura proteger as mais tenras e frágeis, castigando
também impiedosamente o homem que pratica uma
derrubada inconsciente.
Livro: Lendas de Mato Grosso – Dunga Rodrigues
(Fornecida por Toninho (Antônio João de Jesus),
funcionário da FUNAI, com sede em Barra do Bugres)
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Minhocão do Pari
E
ste rio tem histórias!
Quando estiver manso e silencioso, não se iluda com
ele.
A minha avó me contava e eu mesma vi coisas de
arrepiar e de dar carreira no homem mais valente aqui
da povoação.
Quantas vezes não descíamos, em bando, às
margens do Rio Cuiabá, com as trouxas de roupa na
cabeça ou simplesmente uma bacia equilibrando-se
na rodilha que amortecia o peso.
Depois de um esvaziamento do rio, só vendo a
algazarra quando o barranco escorregadio provocava
até quedas acompanhadas de risadas alegres e
caçoadas inofensivas.
A dizer a verdade, não sei bem como saiu a conversa
do minhocão. Acho que foi a Merenciana que
descobriu uma loca desbeirada e começou a teimar
com a Tininha, que aquilo era morada de sucuri.
É casa do minhocão, disse esta. Eu conheço bem. Do
lado da Conceição já vi igual e isso é sinal certo de
que ele anda ou andou por aqui.
-Virge!!!
Algumas se benzeram amedrontadas.
Enquanto outras começaram a mofar da pobre da
Tininha que, por mais que pedisse às companheiras,
“não zombar de coisas misteriosas”, pois provocaria a
ira do bicho, não pôde abafar a incredulidade de
algumas desencadeara.
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Eu, que acredito piamente na voz do povo que é a voz
de Deus, não disse palavra. Apenas curtia um medo,
cá por dentro, de que o bicho no auge do seu ódio
viesse levar uma daquelas moças, dançadoras de
siriri, para a festa de sua barriga, engolindo-a viva.
Pois o minhocão do Pari, assim chamado por ter o seu
ninho nas praias daquela região, era uma espécie de
serpente, longa e cabeçuda.
Sua cor não se distinguia ao certo; deslizando em
baixo do barro das barrancas, vivia sempre coberto de
terra, deixando, ao passar, o chão solapado e cheio
de socavões em forma de sua descomunal cabeça.
Quando o minhocão se zangava ou saia para catar
alimentos, dava cambalhotas no rio. Devorava
pescadores, virava canoas, mesmo embarcações
pesadas não agüentavam com ele.
Mas, voltando ao assunto, minha Nossa Senhora do
Muquém! Veja como eu me arrepio só de lembrar do
caso.
A Merenciana, que até se afoga de rir, chegando
mesmo a desafiar o bicho, para que nos desse, ali,
sua prova de valentia, quase....
Bem, vale dizer que, entre nós, quando se conversava
sobre cobra ou minhocão, costumava-se designá-los
por “esse bicho”!
Pois a própria palavra atrai uns animais tão malévolos.
Nisto um eco de voz conhecida reboou ao longe.
-É o Zé Timote, disse lampeira a moça, reconhecendo
a voz do namorado.
Apesar do lusco-fusco, pois ia anoitecendo rápido,
reconhecemos o vulto do Zé Timote em pé, na poupa
da embarcação.
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Ele voltava de um frete que fizera até a Volta Grande.
Os olhos de Merém se iluminaram. Aquilo que era
físico, o mais, conversa fiada. Bom pescador, bom
violeiro, bom cantador de Cururu! Zé Timóte era
bamba em tudo.
Seus lisongeiros pensamenteos foram quebrados por
um ruído estranho e medonho. E não vinha da terra,
vinha da água.
Parece que a canoa guindou para um lado. Mas Zé
Timote lá estava firme.
Esfregou o olho para ter certeza do que vira, mas
novo e forte ruído ecoou fortemente, ao mesmo
tempo que uma laçada negra fez um oito no ar,
afundando com fragor e carregando para as
profundezas do rio, canoeiro, canoa e tudo, ainda
salpicando água a muitos metros de distância.
-Foi o Minhocão.
Não havia dúvida. Eu vi, com esses olhos que a terra
há de comer.
Por esta luz Santíssima como não minto!
Dunga Rodrigues
Livro: Lendas de Mato Grosso
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