Daniel Sampaio
Vozes e Ruídos
Diálogos com adolescentes
15.a edição
Índice
Nota à 2.ª edição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Nota prévia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
PRIMEIRA PARTE — VOZES. ADOLESCÊNCIA NORMAL
I — Bute falar! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Diogo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Sérgio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Ana Teresa e Diogo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Ana Teresa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
II — Adolescência e adolescentes . . . . . . . . . . . . . . . . . .
SEGUNDA PARTE — RUÍDOS. ADOLESCÊNCIA PATOLÓGICA
III — Nas margens da tristeza.
Depressão na adolescência . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
IV — «Vigiar e punir». Autópsia psicológica de um suicida . . .
V — Ele tem a mania que quer crescer. Uma história
da adolescência... e a droga . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
VI — Isabel ou o sabor da fome. Uma história
de anorexia nervosa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
VII — Alfredo: «Eles iam fazer-nos mal...»
Adolescência e esquizofrenia . . . . . . . . . . . . . . . . .
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89
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A concluir . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 211
Bibliografia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 213
Nota à 2.ª edição
O bom acolhimento da primeira edição de Vozes e Ruídos.
Diálogos com Adolescentes mostra a necessidade de continuarmos a discutir a adolescência.
Todos os dias ouvimos histórias sobre jovens e os seus problemas. Os pais vivem inquietos perante ameaças como a toxicodependência, a SIDA, a depressão e o suicídio. Mas quando nos
confrontamos directamente com os adolescentes e as sua famílias
verificamos que, na maioria dos casos, os conflitos intrafamiliares não são catastróficos e estão centrados em questões quotidianas. Diversos estudos epidemiológicos têm também demonstrado
que apenas 10% dos jovens percorrem a adolescência com perturbações emocionais graves.
Então como explicar a ansiedade de pais e professores, as dificuldades de diálogo familiar, o insucesso escolar e outros problemas
que surgem na adolescência? Penso que tal se deve sobretudo
à dificuldade em distinguir uma turbulência transitória de uma
perturbação mental a necessitar de tratamento especializado,
motivado por um conceito tão mal definido como é o de «crise da
adolescência». É devido a esta indefinição que se aceitam como
normais comportamentos juvenis indiscutivelmente patológicos,
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Daniel Sampaio
ou, pelo contrário, se deixam escapar — porque «é da idade» —
situações que necessitam de tratamento.
A adolescência normal tem tarefas a realizar, caminha para a autonomia, pressupõe flexibilidade e construção de valores próprios.
A adolescência patológica evidencia bloqueios no desenvolvimento, revela dependência, rigidez, perda de limites ou isolamento. A adolescência normal tem conflitos centrados no quotidiano,
que podem ser resolvidos através da negociação das regras familiares e da definição clara do papel de pais e filhos. A adolescência patológica deve ser avaliada psicologicamente e, no respeito
pela privacidade do jovem e da sua família, será certamente
encontrada uma solução.
Vozes e Ruídos fala de diálogo com os adolescentes. Primeiro,
com jovens que nunca tinham ido a uma consulta de Saúde Mental.
Depois, através do diálogo singular que é o encontro terapêutico.
Os técnicos de Saúde Mental que comigo colaboraram (Nazaré
Santos, Pedro Levy, Pedro Varandas e Ângelo Vieira de Sousa)
e eu próprio queremos que o diálogo possa continuar depois da
leitura que vai fazer do nosso livro.
Lisboa, Maio de 1993
Daniel Sampaio
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Nota prévia
Quem quiser encontrar neste livro longas teorias cientificas,
revisões da literatura sobre o tema ou novas descobertas teóricas, deve fechá-lo imediatamente.
Estas páginas foram escritas a pedido de alguns pais e de
muitos jovens que leram o meu anterior livro, Ninguém Morre
Sozinho, com o evidente esforço e dificuldade que implica a leitura de uma tese de doutoramento, se bem que bastante modificada
e actualizada.
O trabalho teve algum êxito, mas alguns que o leram pediram-me um livro mais fácil. Tentei fazê-lo desta vez.
Foi assim que nasceu Vozes e Ruídos. Diálogos com Adolescentes.
Comecei por falar com alguns adolescentes escolhidos ao acaso, a partir de conhecimentos meus ou dos meus filhos. Elaborei depois alguma coisa sobre o que foi dito, de modo a realçar aspectos
das entrevistas e a enquadrá-las na minha visão da adolescência.
Depois pedi a quatro técnicos de Saúde Mental que comigo trabalham directamente (Nazaré Santos, Pedro Levy, Pedro Varandas e Ângelo Vieira de Sousa) capítulos sobre temas importantes
da adolescência patológica, que ilustrassem situações diversas,
mas todas elas caracterizadas por bloqueios do processo de
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desenvolvimento. Muito lhes agradeço o terem aceitado colaborar comigo nesta tarefa de divulgação de situações da doença
mental que infelizmente ainda são pouco conhecidas.
Este livro tem, deste modo, dois objectivos fundamentais. Em
primeiro lugar, dar a voz aos adolescentes, em vez de falar por
eles. No que me diz respeito, estou completamente farto de discursos sobre a «irreverência da juventude», feitos por pessoas que
não sabem o que significa «bute», «bué», «curtir», «andar com»
e que nunca se sentaram a ouvir um adolescente. Por isso começo
por dizer «bute falar!» (quem não souber o que significa que pergunte a um jovem).
Em segundo lugar, pretendemos mostrar um pouco como certas
situações patológicas podem surgir na adolescência e serem erradamente confundidas com «problemas da idade». Estou também
cansado de ver adolescentes normais considerados «drogados»,
esquizofrénicos ou depressivos sem o estarem, ou adolescentes
doentes tratados como se estivessem em «crise da adolescência».
A segunda parte deste livro tem, pois, como objectivo contribuir
para a prevenção de algumas situações de perturbação mental
características da adolescência.
A quem se destina este livro? A todos aqueles que tenham algum interesse pela juventude e algum dinheiro para o comprar.
Mas sobretudo aos pais e aos jovens que vivem este período com
maior ou menor alegria, aos professores do ensino secundário
que diariamente estão perante o problema e aos técnicos de saúde que não fogem dele.
Perguntar-me-ão: por que não ouviu os pais? Respondo: o que
eles dizem é mais conhecido e está em tudo o que escrevi, visto
que sou pai de adolescentes e terapeuta familiar. Mas se alguns
pais lerem este livro, prometo que para a próxima serão eles a
ter directamente a palavra. Desta vez vamos sobretudo ouvir os
vossos filhos.
Não posso terminar esta nota sem agradecer mais uma vez a colaboração dos meus colegas, sem a qual o livro não seria possível.
Um obrigado especial à Sofia Oliveira por todo o trabalho
que teve na desgravação das entrevistas.
Lisboa, Janeiro de 1993
Daniel Sampaio
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Primeira parte
Vozes.
Adolescência normal
I
Bute falar!
Numa conversa com os meus filhos e alguns dos seus amigos,
pedi-lhes que me indicassem um rapaz e uma rapariga de dezasseis, dezassete anos que não se importassem de conversar comigo
sobre a adolescência. A única condição exigida é que nunca tivessem ido a uma consulta de Saúde Mental. Foi assim que o Diogo
e a Ana Teresa surgiram neste trabalho.
Com o Sérgio foi diferente. Conheci-o em Itália, a passear
nos intervalos de um Congresso Médico, e acho que gostámos
um do outro à frente de um refresco de menta. Mais tarde perguntei-lhe se aceitaria conversar comigo sobre os problemas dos
jovens.
São três adolescentes muito diferentes. A Ana Teresa é a mais
velha, tem dezassete anos e um sorriso cheio de ternura. É a mais
solidária dos três, a que mais se preocupa com os outros e quer
ajudar. Nas duas conversas que neste capítulo se transcrevem sempre se preocupou em marcar bem a diferença entre os rapazes e as
raparigas, lutando para que eu não o esquecesse.
O Diogo é firme e convicto. Não tem problemas em dizer o
que pensa sobre as coisas e parece adorar discutir os temas que
lhe proponho: Tem dezasseis anos, um olhar inteligente e irónico
e um sorriso que se esconde atrás de uns óculos de intelectual. Na
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discussão com a Ana Teresa esteve atento e combativo, na conversa comigo não perdia tempo em expor o que pretendia.
O Sérgio é o mais novo dos três. No momento da entrevista
tinha acabado de fazer quinze anos. É musculado mas não muito
alto e tudo nele parece estar a explodir e a transformar-se. Vê-se
que o seu corpo está em crescimento, que a sua cara em breve
terá barba e perderá em parte aquele sorriso de criança e a firmeza
com que fala ganhará consistência. O que mais me impressiona
no Sérgio são uns vivos olhos azuis que me olham directamente,
um pouco a ver o que eu pretendo com isto tudo.
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Diogo
Falei primeiro com o Diogo, no fim do ano lectivo de 1991/1992.
Chegou à hora marcada, aceitou o gravador sem problemas e fomos directos ao tema.
Aqui está a nossa conversa, tal qual como se realizou.
DANIEL: Olá Diogo. Por onde queres começar? O que achas
mais importante? A família? A escola? O grupo de amigos?
DIOGO: Acho que é tudo importante. Tanto me faz.
DANIEL: Então podemos começar pelo grupo de amigos. Na
tua idade, tens 16 anos feitos há pouco tempo, achas que é importante ter um grupo de amigos?
DIOGO: Acho que sim porque uma pessoa que está sozinha
fica... Os jovens, normalmente, costumam ter o seu grupo de amigos, alegre, para se irem divertindo. Acho que um jovem sozinho
não passa por uma parte da adolescência... podendo talvez passar
directamente à parte adulta sem...
DANIEL: E achas que é possível um jovem isolado fazer uma
boa adolescência?
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DIOGO: Eu acho que não. Quer dizer, não faz uma boa adolescência, nem sequer faz a adolescência porque o grupo de amigos
faz parte da adolescência em si.
DANIEL: O que é que é importante nesse grupo de amigos? Por
que é que achas isso importante?
DIOGO: Porque debatem-se temas, fala-se dos mais diversos
temas e há sempre aqueles amigos mais velhos que nos vão ensinando coisas. Assim como temos amigos mais novos a quem
vamos ensinar coisas. Eu acho que uma pessoa estando sozinha
não aprende quase nada. Só aprende o que aprende com a família.
Acho que é pouco porque a família não ensina o principal.
DANIEL: Explica lá essa frase melhor: «A família não ensina o
principal».
DIOGO: A família ensina a educação, como é que uma pessoa
se deve comportar. Também é conforme a família. Os meus pais,
por exemplo, ajudam-me quando é preciso. Só que há conversas
que, por muito liberais que sejam os pais, não consigo ter com
eles. E com os meus amigos tenho à-vontade.
DANIEL: Que tipo de conversas?
DIOGO: Sei lá... Conversas de ter estado na noite anterior com
uma rapariga. De ter ido a um bar e estar lá uma data de gente
e de me ter divertido muito. Acho que os meus pais são assim
de conversas de tipo ou política ou economia, qualquer coisa
assim.
DANIEL: Ou estudos...
DIOGO: Ou estudos. Embora eu também converse sobre os
estudos com os meus colegas, mas a amplitude dos temas com os
colegas é maior.
DANIEL: Achas que é importante essa aprendizagem que se tem
com o grupo?
DIOGO: Sim. Acho que é muito importante. Se não tivesse um
grupo com quem me desse, acho que... É pá, que paranóia. Se
estivesse sozinho... Se saísse das aulas e fosse para casa, estudar
ou fazer outra coisa, eu ficava completamente paranóico.
DANIEL: Tens irmãos?
DIOGO: Tenho uma irmã.
DANIEL: Com que idade?
DIOGO: Com 14.
DANIEL: Não anda no teu grupo...
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Vozes e Ruídos
DIOGO: Anda às vezes. Normalmente não anda mas às vezes
vamos sair à noite e tenho que estar com ela porque é ainda muito
nova e então tenho que ir com ela para casa. E às vezes os grupos misturam-se um bocado. Não muito. Imagine-se que o meu
grupo é isto e o grupo da minha irmã isto, só uma parte é que
coincide. Normalmente sou eu porque conheço gente dos dois
grupos.
DANIEL: Como é que é o teu grupo? Fala-me lá um bocadinho,
não só do teu grupo mas dos grupos em geral, porque isso é um
tema que me interessa muito.
DIOGO: Na minha escola há vários grupos. Há o chamado...
que as pessoas que costumam estar de lado chamam o «grupo dos
betos», que costuma estar cá fora. Embora não me englobe nele,
estou nele. É um bocado confuso. Eu não me considero englobado nele, só que os meus amigos fazem todos parte do que os
outros chamam esse grupo. Portanto, provavelmente eles também
me englobam nesse grupo.
DANIEL: Como é que tu definirias esse grupo de betos?
DIOGO: O grupo dos betos considerado o meu grupo?
DANIEL: O grupo dos betos em geral. Esse grupo onde alguém
te pode incluir. Por que é que chamas a esse grupo o grupo dos
betos?
DIOGO: Eu não chamo. Os outros é que chamam. Eles consideram que os grupos dos betos são aqueles meninos que se
vestem bem, que se portam bem (o que não é verdade), que não
se interessam por cultura (o que às vezes é verdade). Por isso é
que eu não me englobo muito nesse grupo. Porque eu acho que
me interesso por cultura. Só que é um facto que a maioria das
pessoas que costuma estar cá fora não tem o mínimo de cultura.
Nas pessoas que costumam estar cá fora há vários subgrupos e há
alguns que se interessam por cultura e por outros temas importantes. E depois há aqueles que não se interessam minimamente.
As conversas deles são: «O que vamos fazer sexta-feira à noite?
A festa que o meu pai vai dar. A festa da minha mãe», coisas
assim. E esse, sim, é o grupo dos betos.
DANIEL: Quais os valores desse grupo dos betos? O que é que
é importante para eles?
DIOGO: Dinheiro, antecedências, famílias...
DANIEL: Antecedências assim ao nível da nobreza?
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DIOGO: Sim. Elitismos. É um grupo bastante irritante e é por isso
que eu não me deixo envolver nele. Não se interessam por nada que
tenha a ver com cultura ou política, por exemplo. Isso para eles não
interessa. Querem a mota deles, a roupa deles, coisas assim.
DANIEL: Há diferenças entre os rapazes betos e as raparigas
betas, em termos de valores e comportamentos?
DIOGO: Há. Os rapazes betos gostam de andar sempre à tareia,
adoram beber muito, ou seja, de fazer tudo o que os pais deles
faziam e que agora os pais não deixam. Eles detestam ser atinadinhos e então contrariam absolutamente o que consideram beto.
Eles consideram que um beto é uma pessoa muito quietinha, que
se porta muito bem. Então eles fazem o contrário. Adoram andar
à tareia e não fazem mais senão isso. Saem todas as sextas-feiras,
sábados (sempre que possam), andam sempre com o seu grupo de
amigos, a criticar os outros, a dizer mal de toda a gente. Adoram
praticar rugby. E eu também já pratiquei e sei como era aquilo.
Saí de lá por isso mesmo. Porque era insuportável estar naquele
grupo. A vida deles é muito trivial.
DANIEL: E as raparigas?
DIOGO: As raparigas preocupam-se com a roupa, com a vida
dos outros, com as festas de uns e outros e... algumas raparigas
que são englobadas nesse grupo são muito simpáticas... só que há
certas conversas que não é possível ter com elas. Conversas mais
adultas, que elas não compreendem. É bom estar com eles quando
já bebemos um bocadinho de mais. Eles fazem-nos rir. Rimos.
Num dia normal estar com eles é insuportável. Não é possível ter
uma conversa com eles.
DANIEL: E então o teu grupo? Define-o. O que é importante
para ti e para os teus amigos? É um grupo de rapazes e raparigas também?
DIOGO: Sim. Interessamo-nos por tudo. Por tudo o que seja
importante. É verdade. Os que não fazem parte do grupo dos betos
consideram-nos betos. Só que isso não é verdade. Podemos tentar
vestir bem ou vestir bem mas eu acho que as pessoas não devem
ser definidas pelo aspecto físico. É isso que algumas pessoas não
compreendem. Interessamo-nos por tudo. Também saímos, é claro,
depende das vezes. Há sempre uma altura para uma coisa. Às vezes
andamos a divertir-nos, a rir e a dizer piadas e há outras em que
falamos de assuntos sérios.
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Vozes e Ruídos
DANIEL: Tu há um bocado falaste na cultura. O que é que querias dizer com isso? Isso pressupõe interesses, pressupõe...
DIOGO: Cultura para mim é tudo o que tenha a ver com Arte,
seja ela literatura, pintura, escultura, sei lá… Por exemplo, eu leio
jornais e sou capaz de estar minimamente informado, enquanto
que essas pessoas do grupo dos betos não se interessam por isso.
Se lhes disserem que o Primeiro-Ministro ou que o Presidente da
República morreu, são capazes de dizer... «ah, está bem». Ficam
assim completamente desligados do assunto.
DANIEL: O que pensas da cultura em relação aos jovens em
geral?
DIOGO: É conforme os grupos. Há grupos que se interessam e
grupos que não. Acho que os alunos que costumam estar no bar
interessam-se. Eu conheço muitos deles porque eu faço parte do
grupo de teatro da escola e há muitos que andam no grupo de
teatro. E eu vejo que eles se interessam por cultura, enquanto
que há outros grupos que não se interessam minimamente, que
são aqueles que eu disse há um bocado. Portanto está um bocado
dividido.
DANIEL: As actividades do teu grupo de teatro têm boa aceitação na escola?
DIOGO: Para alguns grupos.
DANIEL: Aí também se notam grupos?
DIOGO: Sim. É esse o problema da nossa escola: está toda dividida. Totalmente dividida. As pessoas do bar não são capazes de
se dar com as pessoas que estão cá fora e as pessoas que estão cá
fora não são capazes de se dar com as que estão no bar. Eu devo
ser das poucas pessoas que é capaz de estar com os dois grupos,
que conhece pessoas dos dois grupos. Eu acho isso óptimo. E o
problema da nossa Associação de Estudantes (AE) é esse. Eu para
o ano queria ver se formava uma lista para a AE e é fácil porque
basta eu... Eu conheço pessoas cá de fora e lá de dentro...
DANIEL: Passaste para o 11.º ano?
DIOGO: Passei... Portanto, às pessoas cá de fora basta-lhes dar
uns autocolantes, que eles nem precisam de saber o programa da
lista. Basta ter uns autocolantes e votam. Aqueles de quem tiverem mais autocolantes é naqueles que votam. Ou se conhecem
uma pessoa de uma lista votam nela. Eu acho que uma pessoa
deve saber o programa, deve interessar-se, aprofundar um bocado
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