Gab. Senador Eduardo Suplicy
UMA LEMBRANÇA DA ESCRITORA CAROLINA MARIA DE JESUS
Senador EDUARDO MATARAZZO SUPLICY
Em 14 de março de 1914, na pequena cidade de Sacramento, no
estado de Minas Gerais, nascia, numa comunidade rural, Carolina Maria de
Jesus. Filha ilegítima de um homem que já era casado, teve uma infância
difícil e sua personalidade agressiva só piorou a situação. Quando chegou à
idade de sete anos, sua mãe forçou-a a frequentar a escola, depois que a
esposa de um rico fazendeiro pagou as despesas para Carolina, bem como
outras crianças pobres do bairro. Todavia, ela parou de frequentar a escola no
segundo ano, mas aprendeu a ler e escrever.
Em 1937, sua mãe morreu e Carolina foi obrigada a se mudar
para São Paulo. Chegando à metrópole construiu, na favela do Canindé, sua
própria casa, usando madeira, lata, papelão, e qualquer outra coisa que
encontrava. Todas as noites, saía para coletar papel a fim de poder sustentar
sua família. Entretanto, quando encontrava revistas e cadernos, guardava
para escrever dentro. Foi assim, que começou a escrever sobre seu cotidiano.
Isto irritava seus vizinhos, que não eram alfabetizados, e por isso se sentiam
desconfortáveis por vê-la sempre escrevendo, ainda mais sobre eles.
Nas palavras de Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga,
professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio:
Carolina não se casou e foi mãe de três filhos: João José de Jesus,
José Carlos de Jesus e Vera Eunice de Jesus Lima. Migrou para
São Paulo em 1937 [...]. Aí trabalhou como doméstica, não se
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adaptando, contudo, a esse tipo de trabalho. Passou a trabalhar
como catadora de papel, trabalho que realizou até sua morte.
Faleceu em 13 de Fevereiro de 1977, com 62 anos de idade e foi
sepultada no Cemitério da Vila Cipó, cerca de 40 km do centro de
São Paulo.
Quem lê a escrita sensível e poética de Carolina não imagina como
sua escolaridade formal foi parca e lutada. Foi matriculada em 1923,
no Colégio Allan Kardec, primeiro Colégio Espírita do Brasil. Foi
mantida no colégio graças à generosidade de uma benfeitora, a
senhora Maria Leite Monteiro de Barros, para quem a mãe de
Carolina trabalhava como lavadeira. No Colégio Allan Kardec,
Carolina estudou pouco mais de dois anos. Toda sua educação
formal na leitura e escrita advém deste pouco tempo de estudos.
Até aqui, temos uma história que poderia ser a de qualquer outra
mulher brasileira pobre: negra, semi-alfabetizada, favelada, como
tantas que existem pelo Brasil afora, não fosse por um detalhe – a
paixão de Carolina Maria de Jesus pela leitura e pela escrita. Isso
fez toda a diferença em sua vida. Carolina dividia seu tempo entre
catar papel, cuidar dos filhos e escrever. E sua escrita acabou
sendo documento importante e parte fundamental da literatura de
denúncia feita pela mulher, objeto de estudo e pesquisa por todos
aqueles que desejam conhecer o verdadeiro Brasil que se esconde
através das fachadas das elites.
Além de Quarto de despejo, Carolina também publicou Casa de
Alvenaria (1961), Provérbios e Pedaços da Fome (1963) e Diário de
Bitita (publicação póstuma, realizada em 1982, pela editora francesa
A. M. Métailié). Há indícios, na prosa da escritora, de que ela teria
tido
acesso
a
obras
de
grandes
escritores
brasileiros,
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provavelmente nas casas em que trabalhou, o que explicaria as
menções em suas obras a poetas como Casimiro de Abreu e Castro
Alves. Em seus livros, Carolina alterna incorreções ortográficas,
sintáticas e de pontuação – reflexos da linguagem oral e da
alfabetização deficiente – com o emprego correto de termos
específicos da linguagem escrita culta.
Outro traço particular da escrita de Carolina Maria de Jesus é sua
consciência política e social. Passagens de seus livros mostram que
a escritora estava sempre informada do que acontecia não só em
São Paulo, mas também em outros Estados, provavelmente por
meio de notícias lidas em jornais que via nas bancas.
A obra mais conhecida, com tiragem inicial de dez mil exemplares
esgotados na primeira semana, e traduzida em 14 idiomas nos
últimos 35 anos é Quarto de Despejo. Lançado pela Livraria
Francisco Alves em agosto de 1960 e editado oito vezes no mesmo
ano, Quarto de despejo teve mais de 70 mil exemplares vendidos na
época, quando para se considerar uma publicação de sucesso, era
preciso alcançar a margem de, aproximadamente, quatro mil
exemplares. Nos cinco anos seguintes, Quarto de despejo alcançou
mais de 40 países, como Dinamarca, Holanda, Argentina, França,
Alemanha, Suécia, Itália, Tchecoslováquia, Romênia, Inglaterra,
Estados Unidos, Rússia, Japão, Polônia, Hungria e Cuba.
Carolina não era alienada. Tinha consciência de sua condição e da
injustiça que lhe fazia levar aquela vida. Em seu diário escrevia:
“Hoje em dia quem nasce e suporta a vida até a morte deve ser
considerado herói.” Desânimo, desespero, tentação de suicídio,
tudo isso rondou Carolina durante sua vida. Mas também se pode
ver em seu livro que Deus não a abandona e continua a dar-lhe
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coragem para a luta de cada dia. E mesmo a deslumbra com
sonhos e visões encantadas que lhe aquecem a alma poética.
Por isso, se podem ver em seu diário trechos como este, do dia 2 de
setembro:
"...Eu durmi. E tive um sonho maravilhoso. Sonhei que eu era um
anjo. Meu vistido era amplo. Mangas longas côr de rosa. Eu ia da
terra para o céu. E pegava as estrelas na mão para contemplá-las.
Conversar com as estrelas. Elas organisaram um espetaculo para
homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco
luminoso.
Quando despertei pensei: eu sou tão pobre. Não posso ir num
espetaculo, por isso Deus envia-me estes sonhos deslumbrantes
para minh'alma dolorida. Ao Deus que me proteje, envio os meus
agradecimentos."
Aguerrida, Carolina em meio a seu indizível sofrimento, mantinha a
esperança. Sonhava com o dia em que seu país, seu povo, iam
melhorar. E produzia escrita profética. Prova disso é o que escreve
em seu diário: “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já
passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome
aprende a pensar no próximo, e nas crianças.”
No ínicio dos anos 60, tive um comovente encontro com Carolina
Maria de Jesus, quando ela tinha acabado de publicar o seu romance Quarto
de Despejo.
Em seu livro Casa de Alvenaria – Diário de uma ex-favelada,
Carolina relata nosso encontro da seguinte forma:
10 de Setembro ... Hoje eu vou autografar na livraria da Rua
Augusta, a convite da irmã do senhor Giacomo de Camillis. Quando
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cheguei na livraria era 8 e meia. Comecei a autografar o meu livro.
Ao meio dia eu despedia, chegou um jovem e pediu-me para eu
autografar-lhe o livro. Deu-me o seu nome: Eduardo Suplicy
Matarazzo. E convidou-me para eu ir almoçar na sua casa. Aceitei o
convite. Êle foi telefonar a sua irmã Marina Suplicy Matarazzo, para
vir buscar-me de automóvel, porque êle estava de lambreta. A dona
da livraria ofereceu-me dinheiro, eu não aceitei. O que eu notei de
espetacular foi uma senhora que trabalha na livraria. Ela fala sete
idiomas e canta e toca piano. É do Egito. Disse-me que descende
dos faraós. Que vivia na opulência. Descreveu-me seus castelos e
os seus criados. E a sua queda financeira, que a política derrotou-a.
Que eles eram refugiados e permaneceram em vários países e ela
aprendeu os idiomas. Chega um inglez, ela fala inglez, chega um
russo, atende em russo. É viúva e foi empregar-se para viver. Ela é
inconformada com a existência.
Pediu-me para arranjar-lhe um emprego na televisão. E deu-me o
seu cartão.
O automóvel chegou. Despedi e dirigi para a mansão da Avenida
Paulista. Eu ia conversando com a jovem Marina Suplicy Matarazzo,
que ia relatando as belíssimas qualidades de sua mãe que tem 11
filhos.
Que é muito sensata e que é boa para o seu pai. Admira o seu pai,
que tem coragem de criar 11 filhos com todo o conforto. Que seu pai
é um herói.
Quando cheguei na belíssima residência do senhor Paulo Suplicy
fiquei abismada vendo aqueles quadros. Mas que quadros! Fui
apresentada a senhora Filomena Suplicy Matarazzo, vi a sua nora e
os outros filhos foram chegando. (...) Estava presente o senhor
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Coriolano de Araujo Goes. Quando pronunciaram o seu nome na
mesa, fiquei surpreendida e perguntei-lhe:
- Então é o senhor que foi comissário no Rio de Janeiro?
Êle confirmou. Falamos de sua luta e êle está horrorizado com o
custo de vida para os pobres.
... A refeição estava ótima. A D. Filomena foi mostrar-me a casa e
os criados. Pretos e brancos. A cosinheira é preta e o senhor Paulo
Suplicy disse-me que gosta muito dela porque ela está sempre
alegre e é de confiança.
Despedi de D. Filomena, porque precisava falar com o repórter. O
senhor Eduardo Suplicy prontificou-se a levar-me na Livraria
Francisco Alves. Quando chegamos a livraria estava fechada,
porque hoje é sábado. Mostrei minha vitrina para a senhorita
Marina, que ficou horrorizada, porque ela ignora os dramas dos
pobres.
Neste ano, em que se comemora o centenário de Carolina Maria
de Jesus, ontem, foi lançada, na Câmara Municipal de São Paulo, pela
Editora Mepario Revolução, uma edição comemorativa do livro “Onde estais
Felicidade?”, realizada com apoio do Ministério da Cultura, por meio da
Fundação Palmares, que reúne dois textos inéditos de Carolina, além de
ensaios sobre a autora.
Continuando com os festejos do centenário de nascimento de
Carolina Maria de Jesus, o prefeito de Sacramento, no estado de Minas
Gerais, Senhor Bruno Scalon Cordeiro, inaugura com o nome de Carolina
uma Escola Técnica Federal, para 1200 alunos.
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26/11/2014 Publicação Número 1 Carolina Maria de Jesus foi