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Proibida toda e qualquer reprodução desta obra, sem permissão expressa do editor.
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MARCUS VINICIUS MATHIAS
AC
&
ARTE & CIÊNCIA
EDITORA
2005
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2005 by Marcus Vinicius Mathias
Direção Geral
Henrique Villibor Flory
Coordenação Editorial
Rodrigo Silva Rojas
Diagramação e Capa
Rodrigo Silva Rojas
Preparação de textos
Elis Marchioni
Revisão
R. S. Causo
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Acácio José Santa Rosa, CRB-8/157)
M431a
Mathias, Marcus Vinicius
Adolescência e família/ Marcus Vinicius Mathias. — São Paulo,
Ciência, 2005.
128 p. 21 cm — (Coleção Durma com este barulho!, 2)
Arte &
ISBN - 85-7473-286-9
1.Adolescentes – família - Influência. 2. Família – Interação com
Adolescentes – 3. Adolescentes – problemas com a família. 4. Educação
de adolescentes. 5. Pais e filhos – Relacionamentos familiares. 6.
Orientador educacional como profissão – Relatos e histórias. I. Título.
CDD
-371.4046
-371.422
-306.85
Índices para catálogo sistemático
1. Adolescentes : Orientação e aconselhamento 371.4046
2. Educação: Orientação educacional 371.422
3. Família: Relações familiares 306.85
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Todos os direitos desta edição reservados à Editora Arte & Ciência
Rua dos Franceses, 91 – Morro dos Ingleses - São Paulo – SP - CEP 01329-010
Tel.: (011) 3284-8860
Na internet: http://www.arteciencia.com.br
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Esta obra contou com o apoio, para sua publicação, da
Universidade Paulista – UNIP, conforme procedimento descrito nas
“Normas e Procedimentos para o Apoio a Publicações da
Universidade Paulista – UNIP”.
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DEDICATÓRIA
Ao meu pai, Layr Mathias, um homem forte, digno,
que viveu em função de sua família.
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AGRADECIMENTOS
A Deus, que me dá forças e inspiração para direcionar
a minha vida.
À minha família, meu pai Layr, que me deu a formação, os valores, que me transformaram em tudo que sou,
minha mãe Nilza, meu irmão César Augustus, minha cunhada Cristina, meus sobrinhos Phillipe Augustus e Patrick
Augustus, meu filho de coração Adriano Augusto. A nossa
união manterá viva a semente que meu pai plantou.
Aos amigos do Colégio Objetivo e Universidade
Paulista, pela ajuda na construção do meu trabalho.
Aos amigos pessoais, que estão sempre presentes nos
momentos alegres e difíceis de minha vida.
A todos os adolescentes e pais de adolescentes, que me
ajudaram a construir a minha trajetória profissional.
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SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ................................................................................................... 15
PREFÁCIO ............................................................................................................ 19
O ANEL DE FORMATURA ..................................................................................... 21
PARA ONDE VAI O AMOR QUE SE PERDEU? ........................................................ 25
BENDITO O FRUTO DO VOSSO VENTRE .............................................................. 29
VERGONHA .......................................................................................................... 35
MENINO DE PAU E MENINO DE CARNE-E-OSSO ................................................ 39
O CORPO QUE CAI ............................................................................................... 43
O QUINTO ELEMENTO ........................................................................................ 47
TREM DAS ONZE ................................................................................................. 53
BEM-ME-QUER, MAL-ME-QUER... ...................................................................... 57
A CHAVE .............................................................................................................. 59
A VOLTA DO SOL ................................................................................................ 63
EM BUSCA DA VIRTUDE ...................................................................................... 67
O GRÃO DE ARROZ ............................................................................................. 71
MÃO DE FADA ..................................................................................................... 75
A ESTA HORA EXATAMENTE,
HÁ UMA CRIANÇA NAS RUAS ......................................................................... 81
SOBRENOME PATERNO ........................................................................................ 85
O SEGREDO ......................................................................................................... 89
A QUEDA ............................................................................................................. 93
A AULA DE VÔO ................................................................................................. 99
A RODA DA FORTUNA ...................................................................................... 107
ELO PERDIDO ................................................................................................... 109
ÉDIPO REPROVADO ........................................................................................... 113
LUTANDO PELA VIDA ........................................................................................ 117
REI MIDAS ......................................................................................................... 121
O QUE PODE NOS SEPARAR? ............................................................................. 125
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APRESENTAÇÃO
Extraí um fragmento do meu credo pedagógico, ou
seja, aquilo que acredito na orientação de adolescentes, e
está no meu livro O mundo de um educador: Um educador
no mundo para fazer a apresentação deste livro, Adolescente
e Família.
“Creio na família como chão firme do adolescente”.
A família é um dos grupos sociais questionados pelos
adolescentes. No entanto, tenho observado que o adolescente, ao invés de desejar a destruição dessa instituição social, na verdade, deseja a sua reconstituição com base nas suas
necessidades de crescimento. Ela precisa tornar-se flexível,
ampliar seus espaços, para que o adolescente se sinta bem,
porque está crescendo.
A maioria dos casos de orientação refere-se ao relacionamento com os pais, que é muito importante na vida do
adolescente, pois é no âmbito familiar que ele se sente seguro e protegido. Na fase de transição que atravessa, a figura
dos pais é, às vezes, controvertida para o adolescente, e cabe
aos pais dar-lhe as condições para um bom relacionamento.
Nas orientações aos pais, explico que é preciso demonstrar ao filho a compreensão de que, embora não seja mais
criança, pode necessitar de ajuda e que eles estão ali para
orientá-lo, ajudá-lo a dividir com eles todas as dúvidas, ansiedades, para a resolução dos problemas que surgirem.
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Muitas vezes me vejo tendo de explicar aos pais a necessidade de que conversem sempre com o filho, procurando saber como está sua vida, não num tom desinteressado,
ou mesmo de crítica, mas sim, de vivo interesse no sentido
de dar ao filho a oportunidade de se abrir com eles. Chego
a discutir com eles que o mais importante é se preocupar
em saber se o filho é feliz, ou ainda se as experiências de
vida estão sendo positivas ou se há algo que o incomoda.
Há casos em que os pais nem sabem que os filhos namoram, ou que desejam namorar e não conseguem a atenção do ser amado....
Então, quando conquista uma certa confiança com os
pais, não reprovando seus atos ou questionando-os, consigo
fazer ver que é preciso participar da vida do filho, com diálogo e abertura, e que as interferências devem ser sutis, mas,
acima de tudo, devem gerar no filho o interesse pelo seu
futuro.
Cheguei muitas vezes a aconselhar os pais para que reservassem diariamente um tempo para o filho e aproveitassem ocasiões especiais para conversar com ele, dando-lhe atenção, como, por exemplo, nos fins de semana, momentos propícios para eles se dedicarem aos filhos adolescentes, quer viajando, quer indo almoçar fora, ou, simplesmente, ficando
em casa numa conversa à vontade, de um modo agradável,
animador, a ponto de o adolescente querer sempre mais.
Oriento os pais para que estejam abertos ao diálogo
com o filho, mas sem forçar nada, sem esperar que reaja
positivamente na primeira tentativa. Para isso, é preciso tomar cuidado para não agir de forma inconveniente como,
por exemplo, procurar conversar na hora em que ele já tem
um compromisso agendado.
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O tempo todo venho procurando criar com os pais
alternativas de comunicação, visando ao fortalecimento da
família. Se os pais trabalham fora o dia todo, que usem o
telefone para conversar com seu filho, para saber como está.
Não é porque o filho cresceu que os pais não devem
acompanhá-lo. É bom ligar ou aparecer de vez em quando
na escola, para se informar sobre o filho. Se o adolescente
pratica algum esporte, ou se dedica a algo de que gosta, os
pais devem prestigiá-lo com sua presença nas performances
do filho, para que se sinta apoiado.
Nem sempre os pais sabem que o adolescente, embora
tenha crescido, necessita das demonstrações de amor, como
beijá-lo, acariciá-lo, abraçá-lo, atitudes que refletem positivamente em seu comportamento, pois se sentirá amado pelos pais e necessita disso. Então, a minha conversa com os
pais é no sentido de que não se impressionem com a aparência de fechamento, de revolta dos filhos, pois eles estão
pedindo aos pais uma relação mais profunda, mais interessada, afetiva, e de que o bom relacionamento depende mais
deles do que do adolescente, pois este, para sentir-se completo, tem que estar bem com sua família.
Muitas vezes noto que, quando os pais fazem cobranças sem enxergar as iniciativas positivas do filho, o relacionamento entre eles torna-se tumultuado. E, quando os pais
ressaltam as qualidades do filho, reconhecem seus acertos,
sem muitas exigências, não há, por parte do adolescente,
um comportamento de revolta e de desconfiança.
Isso não significa que os pais não devam colocar limites aos adolescentes. Não estou defendendo o liberalismo,
só estou procurando mostrar que, a partir da minha experiência como orientador, a melhor maneira de colocar limites
é o diálogo. Deve-se orientar o filho, mostrar em que está
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errando, colocar regras, punir, se necessário, mas sempre
por meio de uma troca de idéias para fazê-lo compreender,
conscientizar-se.
Acredito que os pais também são um tipo de
“orientador educacional” e que precisam saber orientar, ter
sensibilidade no contato com o filho, mesmo que haja punição. O adolescente está mais receptivo à orientação familiar, num primeiro momento, pois tem uma história de vida
solidamente construída dentro dela. Então, observo que o
pai, tomado como um exemplo a ser seguido, um modelo
de vida, auxilia o adolescente a questionar o mundo em que
vive, contudo sem perder o rumo, a esperança, porque tem
onde pisar. Por outro lado, não deve estar preso a esse chão,
deve ter espaço para voar. Então, nos casos em que os pais
são os “donos da verdade”, sem abertura para discutir as
mais diversas situações e chegar a um entendimento, procuro orientá-los para que repensem suas atitudes, se quiserem auxiliar os filhos em seus problemas.
O que estou colocando em discussão é a necessidade
de a família estar em sintonia com esse processo de transformação do adolescente, reconhecendo, ao mesmo tempo, que
vivemos em um mundo em constante transformação.
Se os pais não se atualizam constantemente em relação
às mudanças do filho, estarão perdendo-o para sempre.
Mas se, ao contrário, os pais conseguem ser amigos, compreensivos, estar presentes em todas as situações da vida do
filho, aconselhando, censurando, “segurando as barras”, estarão reconquistando-o e possibilitando o seu crescimento.
A família é sempre o porto seguro do adolescente, onde
ele irá construir a sua formação e os seus valores de vida.
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PREFÁCIO
Marcus Vinicius Mathias, para muitos o Marquinhos,
para mim somente Aco.
Convivo com ele há 44 anos , pois é meu irmão e,
embora não saiba, também é meu herói.
Durante todo esse tempo de existência, aprendi com a
vida e com os exemplos de família que temos dois tipos de
pessoas em que podemos confiar cegamente.
O primeiro é aquele que chamamos de “Mito”, este
no caso foi meu Pai, aquele que sempre serviu de exemplo
para minha formação.
O segundo é aquele que chamamos de “Meu Herói”,
este, o Marquinhos.
Não seria o que sou sem sua ajuda , não teria constituído a linda família que tenho, sem seus aconselhamentos,
que, por muitas vezes, me fez enxergar o quanto estava errado em minhas decisões.
Hoje, lendo seus relatos, identifico-me em muitos deles, mas só eu sei quantas vezes peguei meu irmão pensativo,
preocupado com algum caso ainda não resolvido.
Marquinhos é um exemplo de dedicação, sensibilidade e, acima de tudo, competência.
Para ele, não existe caso sem solução.
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A prova disso sou eu, que, por muitas vezes na vida,
me achava perdido, mas de repente surgia minha luz no
fim do túnel, o meu Aco, o meu herói.
Parece incrível, mas fui convidado a fazer o prefácio
desta obra, que tem muito a ver com o que vivi ao seu lado,
Adolescência e Família.
Minha adolescência foi sempre orientada pelo autor, muitas
vezes com enormes brigas, porém, ele sempre tinha razão.
Minha família, esta sim, sempre unida, nos bons e maus
momentos.
Marquinhos transcreve, nesta obra, situações reais vividas por ele no transcorrer de sua vida profissional como
Psicólogo, Orientador, Educador.
É com real satisfação que acompanho até hoje seus exalunos, muitos deles citados em suas obras, que o procuram, para matar saudades, lembrar de casos antigos e hoje,
bem orientados, agradecendo-o pelos rumos certos que tomaram suas vidas com a ajuda do autor.
Orgulho-me de ter como irmão uma pessoa sensível e
acima de tudo capacitada, por saber separar o profissional
do pessoal, pois o nosso atual momento é de dor, por perdermos nosso mito, mas, mesmo assim, uma força interior
do autor faz com que ele não deixe de orientar seus adolescentes, seus pais e outros profissionais da área.
Recomendo esta obra, pois, com certeza, ela foi feita
com muito amor e propriedade.
Aco!!!
É muito bom ler suas histórias!
É muito bom sentir o prazer de ser seu irmão!
Você é meu Herói!!!
César Augustus Mathias
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O ANEL DE FORMATURA
O orientador educacional aprende a ver os adolescentes com outros olhos. Ele está ali para entender todos os
adolescentes, mesmo aqueles que nem sempre colaboram
com os professores, colegas e pais. Sempre trabalhei como
estimulador do diálogo, da compreensão, fazendo com que
o adolescente acreditasse em si mesmo e recuperasse a confiança perdida.
A história de Juca sempre me vem à memória quando
na necessidade do orientador educacional defender seus
adolescentes, por mais errados que estejam. É preciso dar
uma chance para acertar. Quando sua mãe me procurou
para comunicar-me que Juca seria tirado de nossa escola,
estava decidida e sua decisão era o resultado de uma discussão demorada com o marido e os filhos. Eu precisava compreender o problema de Juca conseguir ganhar a confiança
de sua mãe para que ela mudasse sua decisão.
Juca havia feito compras no cartão de crédito do irmão mais velho sem a sua autorização. E essa não era a primeira vez que fazia uma coisa dessas. Já havia feito crediário
no nome de outro irmão, sem preocupar-se em pagar um
centavo. Nenhum dos irmãos acreditavam em sua palavra e
pressionavam os pais a tomarem uma atitude. Depois de
muita conversa, decidiram que estava na hora de Juca assumir uma responsabilidade na vida. Tinha que aprender a se
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virar. Era o caçula e por ser muito paparicado, só estudava,
não trabalhava e gastava demais, pensando que era filho de
pais ricos. Resolveram que Juca deveria ser tirado da escola
e que deveria procurar um outro lugar para morar. Teria
que aprender a respeitar as pessoas, a trabalhar, dar valor ao
dinheiro, pagar uma pensão e a própria escola.
Procurei mostrar a ela que Juca era um adolescente
que fora poupado demais das responsabilidades da família.
Se todos os irmãos trabalhavam e estudavam, ele também
deveria ter sido educado para ajudar a família, nem que
fosse através de tarefas em casa. Não adiantava agora colocar as mãos na cabeça e, chocados, expulsar o filho de casa.
Aos poucos ela foi concordando comigo e ficou emocionada quando lhe disse, olho no olho. “É melhor acolher o
filho do que jogá-lo na rua para ficar mais próximo das más
companhias”.
A mãe de Juca agradeceu-me a orientação e pediu-me
que conversasse com o filho, enquanto ela tentaria convencer os filhos e o marido a dar mais uma chance ao caçula.
Juca procurou-me antes e agradeceu tudo o que havia feito
por ele. Conversamos muito e fiz com que entendesse que
se quisesse ter algo seu por toda a sua vida deveria fazer por
merecer, deveria conquistar por si mesmo, que o tempo da
“boa vida” havia acabado, pois estava passando do mundo
da infância, sem responsabilidades, para o mundo adulto.
Procurei mostrar todas as suas características positivas, pois
sempre foi um bom aluno, embora não tivesse muita responsabilidade em casa. Poderia mostrar à família que era
capaz de trabalhar, de se sustentar, fazer uma faculdade e
realizar-se profissionalmente.
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Juca era um rapaz muito iludido pela imagem, por
isso não aceitava usar roupas que não fossem de grife. Desabafou comigo, tentando mostrar que os seus valores eram
diferentes dos valores dos irmãos. Eles preocupavam-se apenas com o trabalho e iam mal nos estudos. Não gostavam
muito de estudar. Também não se valorizavam e viviam cobrando que fosse igual a eles. Não conseguia. Sonhava com
o dia em que se libertaria daquela vida de dificuldades. Faria uma faculdade de Direito e mostraria para os irmãos o
seu belo anel de formatura. Seria um dos melhores advogados do país.
Incentivei para que lutasse pela realização dos seus sonhos, mas apontei para os sentimentos negativos que poderiam levá-lo ao caminho errado. Não deveria procurar uma
faculdade apenas para “subir na vida” e fazer inveja aos irmãos. A escolha de uma carreira profissional deveria estar
relacionada a um sentimento mais humano, solidário e de
realização pessoal. Se fizesse apenas pela aparência, nada
daria certo.
Depois dessa conversa, Juca tomou coragem e pediu
desculpas pelos seus erros. Prometeu que arrumaria um emprego que pagaria todas as suas dívidas com seus irmãos.
Fez e cumpriu. Começou como boy num escritório de advocacia, foi observando como tudo acontecia ali, depois foi
aproximando-se dos advogados e perguntando sobre as dificuldades da profissão. Acabou ficando amigo de um grande
advogado, um senhor que resolveu adotá-lo como discípulo, e entrou para a faculdade de Direito. Já tinha seu caminho aberto e enquanto estudava, estagiava naquele mesmo
escritório. Sob orientação do mestre, teve acesso a uma literatura muito mais ampla e profunda sobre todos os tipos de
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assuntos do Direito. E quando já nem se importava com o
motivo inicial que o havia impelido a abraçar a carreira de
advogado, em vias de formar-se, Juca recebeu uma caixinha
das mãos de seu mestre: era um anel de formatura. Era lindo e brilhava no seu orgulho. Ficou ainda mais radiante
quando o mestre o abraçou, dizendo: “Fez por merecer,
Juca, você é um jovem advogado de grande valor”.
Ao chegar em casa com o anel no dedo, os irmãos correram para ver e os pais o abraçaram, como se tivesse esquecido daquela fase difícil do Juca quando era um adolescente. Mas, Juca não queria mais impressionar ninguém, queria apenas mostrar que era um deles, um profissional de
valor. A mãe segurou o anel no dedo e lembrou-se do dia
em que veio para conversar comigo: “É melhor acolher o
filho do que jogá-lo na rua para ficar mais próximo das más
companhias”. Não conseguiu conter lágrimas, mas não teve
vergonha de chorar na frente de todos. Todos pensavam
que chorava pela emoção de ver o filho que concluíra o
curso de Direito e transformara-se num advogado de valor,
mas na realidade, ocultava aquele sentimento terrível que
um dia lhe passara pela cabeça: abandonar o próprio filho.
Nunca devemos desistir de nossos filhos, de nossos alunos, mesmo quando as forças nos faltam. A adolescência é o
período que mais necessitam de nossa força, de nosso apoio.
Juca provou que nunca se deve julgar um adolescente pela
aparência, mas por tudo o que ele pode vir a ser um dia.
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PARA ONDE VAI O AMOR QUE SE PERDEU?
Lembro-me quando Guilherme, com 17 anos, cursando o 2º colegial, recebeu a notícia da morte de sua mãe.
Ficara irreconhecível. O doce Guilherme havia se transformado num rapaz amargo e triste. Brigava com todos, não
acompanhava as aulas, e perdera o interesse por tudo. Embora tivesse acompanhado passo a passo o calvário da mae,
desde que soubera que ela estava com câncer, não conseguiu acreditar que a mãe tivesse realmente morrido. Era
uma injustiça. Um absurdo. Como poderia deixar que a
morte levasse aquela que o tinha ensinado tão bem a amar o
mundo e a si próprio? Se durante a doença poderia sonhar
com uma melhora, já com a notícia da morte tudo perdeu
o sentido. A morte é implacável, definitiva. E Guilherme
perdeu o chão.
A revolta estava estampada no seu rosto. Ele acordava
com a revolta, dormia com a revolta e se alimentava com a
revolta. Eu tentava trazê-lo de volta. Mas esse retorno era
difícil. Era preciso que ele elaborasse a sua perda. Que conseguisse fazer o seu luto, que pudesse chorar até secar todas
as lágrimas e construir novas esperanças, sabendo colocar
aquele amor perdido em um outro lugar. E esse outro lugar
não era ao lado da mãe. Não deveria enterrar com ela o
amor que ele aprendeu a ter. E esse aprendizado é doloroso, único, pessoal. Eu sabia, ainda, que deveria ater-me aos
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problemas escolares, fazer com que que voltasse a se interessar pelas aulas, que desenvolvesse um novo gosto pelo estudo. Mas também sabia que era impossível ver a escola sem
ver a casa, ver Guilherme sem ver a perda da mãe.
Procurei Guilherme para conversarmos sobre a sua
revolta cega, e mostrei-lhe que ele estava se afastando dos
amigos e dos professores. Estava criando um verdadeiro inferno para si próprio e para as pessoas mais próximas. Sua
reação continuou a ser de revolta e nas suas palavras percebi que Guilherme estava sozinho, muito sozinho. O pai e os
irmãos, já adultos, passavam o dia inteiro fora, trabalhando,
e Guilherme ao voltar da escola encontrava a casa vazia.
Vazia, literalmente. Essa nova realidade tornava ainda maior
a saudade da mãe. Sentia-se abandonado, carente. E o vazio da casa instalara-se no peito de Guilherme. Só havia lugar para um grito, grito solitário, que ninguém poderia ouvir
e nem compreender.
Entendi que Guilherme só poderia elaborar a perda
da mãe se tivesse nossa ajuda, da família e da escola. Então,
chamei seu pai e irmãos para conversarem sobre as dificuldades vividas por Guilherme, para que o ajudassem a superar a perda da mãe. Também discuti com seus amigos e professores sobre o momento difícil que ele estava vivendo, pedindo a compreensão de todos. Por último, aceitei a revolta
de Guilherme, mas estimulei-o a vivenciar novas experiências com seus amigos – ir ao cinema, teatro, viajar, passear...
deixar de ficar trancado em casa, na casa vazia, voltando
apenas quando seu pai e seus irmãos lá estivessem.
De repente, o vazio de Guilherme se transformou
numa espécie de abraço. Durante todo o tempo ele foi envolvido por pessoas que o amavam. E foi aprendendo a co-
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locar aquele amor profundo, bonito que só a mãe de verdade sabe ensinar e construir, nas novas e antigas relações que
já havia criado. Redescobrira o pai, deixara de rivalizar com
os irmãos e passara a amar os amigos de um modo muito
especial.
Durante o luto de Guilherme, a escola cresceu, ultrapassou os limites da sua própria casa. Além do horário normal de aula, Guilherme passou a freqüentar a escola para
realizar as tarefas de pesquisa e a participar das atividades
extracurriculares. Voltou a ser o doce Guilherme de sempre, ainda mais doce porque não enterrara o amor que foi
plantado por sua mãe. Ele frutificou em Guilherme e espalhou sabores e perfumes para o mundo. E, em particular,
para o nosso pequeno mundo: a escola.
Tenho saudades de Guilherme. E quando sinto saudades da sua dor, do amor que conseguiu fazer reviver, descubro em mim um pedaço novo que Guilherme e meus
amigos adolescentes cultivaram durante todo esse tempo de
orientação educacional.
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BENDITO O FRUTO
DO VOSSO VENTRE
Eu sempre achei perigoso escrever um diário. Ali os
segredos podem ser escritos, como se falássemos baixinho
ao ouvido de um confidente. No entanto, o confidente é o
próprio escritor e a vontade de escrever talvez esteja relacionada a um desejo que algum dia esses segredos venham a
ser conhecidos. Traiçoeiros, os diários não guardam segredo algum. Mesmo aqueles que são trancados por uma pequena chave dourada... Esses são os mais perigosos, pois se
transformam num verdadeiro convite a violação... Os adolescentes gostam de escrever em seus diários todas as dúvidas, descobertas e decepções... Mas, adoram conhecer o diário alheio. A regra número um do adolescente é: tudo o
que é proibido é melhor.
Talvez o erro da mãe da Solange foi ter cultivado aquele
diário como quem constrói o mais belo jardim. Era um caderno forrado de pano verde claro, enorme, como um livro
antigo, recheado de palavras, fotos e ilustrações. E desde
pequena a filha esbarrava com o diário da mãe em algum
canto do quarto e a mãe tornava a guardar. Que perfumes
exalavam as suas páginas... que flores poderiam ter crescido
lá dentro? Durante as noites, aquele jardim parecia ter uma
luz diferente, como aquelas velas perfumadas que são acesas
em dias de festas. É claro que ali também deveriam existir
pedras, espinhos, formigas, mas devia ser muito pouco, porque o diário era uma verdadeira comemoração da vida.
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Mas, um dia, uma briga, uma desavença da mãe com
a filha adolescente... O pequeno jardim das delícias jogado
aberto em cima da cama materna... Solange não teve dúvidas, e por vingança, aproveitou para matar a curiosidade
de anos. Arrependeu-se amargamente. Algumas páginas iniciais contavam da tristeza de não conseguir engravidar, de
procurar em vários tratamentos... Ali, naquele dia e naquele ano em que deveria estar descrito o seu nascimento, havia
uma narrativa de como os pais haviam conseguido adotar
uma linda nenezinha. Confusa, imaginou que os pais tivessem tentado adotar uma criança antes do seu nascimento,
mas continuando a leitura percebeu que aquela bebezinha
que fora trazida para casa como um presente era ela mesma.
Desesperada com a descoberta, começou a chorar
como se tivesse nascido novamente e como se tivesse sido
abandonada num berçário qualquer... sem o seio materno,
sem um colo quente... Mas, em prantos, não querendo acreditar no que lera, seguiu em frente. Foi passando as páginas
rapidamente até chegar no dia do nascimento dos irmãos
gêmeos, e lá estava escrito: “Finalmente consegui gerar meus
filhos, como tanto sonhara, embora Solange tenha sido para
mim uma filha de verdade”. Jogou o diário longe e saiu pela
casa à procura de fotos, e pela primeira vez percebeu que
não havia foto da mãe com ela na maternidade e nem da
mãe grávida... Revoltada com tudo, e principalmente com
a mentira dos pais, correu para a rua chorando e não mais
voltou.
Os pais e os irmãos, desesperados, telefonaram para a
escola e nós procuramos saber se alguma amiga havia conversado com Solange durante o dia. Uma delas contou tudo
o que havia acontecido, e eu avisei a família de que a filha
encontrava-se na maternidade em que nascera. No mesmo
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instante, a família foi buscá-la e a encontrou com o rosto
colado no vidro do berçário. Havia chorado tanto que o
seu rosto estava inchado mais vermelho do que dos recémnascidos. Os pais tentaram conversar com ela, mas não foi
possível. Estava transtornada, fora de si, tratando-os como
traidores. Os irmãos tentaram uma aproximação, mas ela
tornara-se violenta. Tiveram que confiar que ela voltasse para
casa sozinha, mas quando chegou, foi direto para o quarto,
sem dizer uma palavra.
No dia seguinte, quando foi acordada para ir à escola,
virou as costas e declarou que daquele dia em diante não
estudaria. Preocupada, a mãe veio conversar comigo e pediu uma orientação. Parecia estar extremamente arrependida de ter escondido esse segredo por tantos anos. O sentimento de culpa pesava tanto, que aquela mulher alta, de
olhos lindos, encontrava-se totalmente curvada, com olheiras enormes. Como julgar uma mulher que se entregou ao
amor como ela? Qual teria sido o seu erro: querer proteger
a filha da verdade? Um erro humano, produto de um amor
desmedido. Encarei de frente o desafio e pedi: “Por favor,
traga-a aqui, imediatamente. Diga que eu quero conversar
com ela”. Feliz, enxugou as lágrimas, apertou a bolsa nos
braços e saiu dali com a maior esperança do mundo. E eu
não poderia decepcioná-la.
Seria correto ter me comprometido a devolver Solange como se fosse a sua filha querida de sempre, como se não
houvesse entre elas o sentimento de decepção, de mentira?
Seria ético um orientador envolver-se a tal ponto num relacionamento familiar? Finalmente, acalmei-me com o princípio de que se tratava de uma situação escolar, antes de
tudo: uma aluna nossa, uma adolescente, em situação de
desespero, havia abandonado os estudos e toda esperança
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de viver. Bem, então esse era o meu papel, resgatá-la para a
escola e para a vida. Era para isso que eu estaria ali todos os
dias e sempre, enquanto eu continuasse vivo e amando a
vida.
E lá me apareceu a menina mais linda do mundo,
como um bebezinho recém nascido que havia chorado de
cólica durante toda a madrugada. E, ao lado dela, a mãe,
exausta e desesperada, como aquelas mães de primeira viagem que se desesperam com o choro dos seus filhinhos como
se fossem perdê-los... E eu seria o pediatra no primeiro dia
da consulta? Bem que eu gostaria... mas, não. Eu estava diante de uma adolescente fora de si e de uma mãe que se
sentia culpada. E se eu quisesse ter Solange de volta, teria
que apagar toda culpa da mãe, sem desmerecer uma só lágrima de Solange. Esta era tarefa quase impossível:
— Solange, eu queria que você soubesse que a sua decisão de abandonar os estudos é muito precipitada... Você
está com a cabeça quente, decepcionada, e não consegue
pensar mais em nada. Não decida nada de que possa arrepender-se no futuro. Falta pouco para você terminar o colegial, prestar o vestibular, entrar numa faculdade. Se você
largar tudo agora, perderá seus amigos, terá que refazer o
último ano e o seu ingresso na vida universitária estará adiado por mais um ano. Essa situação geralmente gera um
desânimo... E isso é o que você menos merece agora.
— Marquinhos, talvez eu esteja mais decepcionada comigo mesma do que com minha família adotiva. Como pude
ser tão burra em acreditar numa mentira como essa durante tantos anos? Como não me passou pela cabeça comparar
a minha fisionomia com a dos meus pais, meus avós, meus
irmãos. Eu sempre fui a única menina morena da família.
Todos têm olhos claros, e eu não... E, mesmo assim, agora
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que eu sei que meus pais não são esses, eu gostaria tanto de
conhecer meus pais verdadeiros... saber a razão pela qual
minha mãe me abandonou entre estranhos...
E os seus olhos nadavam entre ondas de lágrimas que
iam e vinham como ondas... E, como todo orientador, eu
precisava antes entender todas as palavras da minha adolescente, para depois, poder trazê-la de volta. No balanço da
água salgada dos seus olhos, embarquei meu navio e me
coloquei no seu lugar. Era preciso ver como ela via, sentir
como ela sentia... Um arrepio percorreu a minha espinha: a
Solange havia voltado para o ventre materno. Estava lá,
encolhidinha, temerosa, esperneando por mais espaço, amedrontada pelas contrações... Estava para nascer, com medo
do mundo de fora... E imaginei que eu pudesse ser aquela
voz que sempre conversou com ela enquanto ela era aquele
bebezinho enroladinho no ventre materno. Quem sabe não
poderia ser a voz da mãe, ou a mãe carinhosa que afagava o
ventre... Ou quem sabe ela nunca tivesse tido esse carinho,
e por isso tenha sido abandonada... Mas, de qualquer modo,
era isso que eu via, um bebê à espera de uma voz macia,
feliz e encantadora.
Pedi que ela fechasse os olhos e imaginasse o mundo
sem os pais que ela tivera. Depois que ela imaginara os pais
biológicos. E nas duas situações só havia a escuridão fria da
solidão. Pedi então que me desse as suas mãos: o que sentia?
O afeto de um amigo. Em seguida, coloquei a mão da mãe
sobre a mão dela, como quem perguntasse: o que sentiria?
Era o afeto da mãe. E, por mais revolta que sentisse, deveria
ponderar que esses eram os seus verdadeiros pais. Ela havia
nascido para eles. Eles haviam esperado tanto por ela... por
ela e por mais ninguém. Quando os irmãos vieram, vieram
por causa dela. O amor foi tão forte, que havia reabilitado
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aquela mulher que estava diante dela, a ser mãe de verdade,
tanto que quando engravidou teve gêmeos. E como aprendera tão bem a ser mãe, a cuidar tão bem da nenezinha que
a transformou numa mocinha tão linda... E mesmo hoje
não há mãe tão preocupada com a filha como ela... Vive
telefonando, pedindo para saber como está indo nos estudos, se está se dando bem com os professores, com os colegas... Se está doente, pede maior compreensão... A única
coisa que deveria ser feita nesse caso era deixar a ferida sarar, conversar, conhecer sua história, amadurecer com ela,
com o carinho daqueles que a amam de verdade. E, para
isto, seria necessário a ajuda de um especialista, um terapeuta,
para orientar toda a família.
Diante dessas palavras, a mãe sentiu-se forte o bastante para enfrentar a revolta da filha, e mesmo sentindo sua
resistência, puxou-a contra si para abraçá-la o mais forte
que podia. Primeiro foi esmurrada, depois foi abraçada tão
carinhosamente, que de minha parte não havia mais nada a
ser feito, senão deixá-las a sós.
No dia seguinte, o pai telefonou avisando que tirariam
um mês de férias para retomar o relacionamento em familia.
Ao retornar, já estavam mais animados e aceitaram a idéia
de uma terapia familiar. Solange terminou os estudos, ingressou para o curso universitário e continuou agarrada ainda mais à família que ama, porque descobriu que foi escolhida por ela. E eu, como orientador, percebi que não devemos nunca temer auxiliar os pais diante de situações em
que a vida escolar do aluno está ameaçada, e principalmente diante da perigosa perda de perspectiva dos adolescentes
perante a vida. É preciso, constantemente, auxiliá-los diante da descoberta do mundo real, adulto, construindo novos
sentidos e objetivos que possam ser cumpridos.
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VERGONHA
Queria trocar de nome, de sobrenome, se esconder
dos amigos, faltar às aulas. Era uma aluna que acompanhava razoavelmente as matérias, mas que precisava dedicar-se
mais, pois estava no 3º colegial e iria prestar exames para
ingressar no curso superior. Naquele momento havia piorado em rendimento, em disciplina. Não parecia ser a Roberta
que se esforçava para aprender, mesmo com algumas dificuldades. Sua rebeldia, no entanto, parecia estar relacionada com algo fora da escola.
Procurei-a para conversar e descobri que estava extremamente infeliz com a situação de desemprego do pai. Enquanto conversávamos, notei que ela não tinha pena do pai
estar nessa situação, apenas preocupava-se com a sua aparência. Na escola, o pagamento da mensalidade estava atrasado; no prédio onde morava, o nome do pai constava de
uma lista de inadimplentes, pois não pagara mais as taxas
do condomínio; o telefone da casa não parava de tocar e
ninguém tinha coragem de atender, pois sabia que era cobrança de cheques que haviam voltado.
Percebi que tinha vergonha do pai na hora que em
ele mais necessitava do apoio da filha. Na hora senti uma
certa revolta, mas percebi que esse comportamento era resultado de um certo tipo de educação. Roberta não tinha
culpa por sentir-se envergonhada do pai estar desemprega35
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do. Era parte de uma geração de adolescentes que fora criada longe do trabalho. O suor na camisa, para eles, era apenas resultado de atividades esportivas em dias de calor. Nada
mais. Além disso, a classe média brasileira durante as últimas décadas do século XX foi bombardeada pela mídia com
os apelos do consumismo, afastando-a da realidade social
brasileira. O sonho em tornar-se elite acabou por criar uma
geração de adolescentes e jovens que mal sabem que são
brasileiros, identificados muito mais com a cultura norteamericana. Desconhecem a própria história, a própria cultura. Foram educados para tal. O resultado? Diante de uma
crise econômica avassaladora em que milhões de brasileiros
perderam os seus empregos, os filhos da classe média perdem o chão. É a primeira experiência diante do espelho:
são trabalhadores. Mesmo que com salários melhores, ainda necessitam de um emprego.
Roberta ainda não havia percebido que tudo o que
entrava em sua casa e tudo o que tinha até os seus dezessete
anos de vida foram criados com o suor de seu pai e a dedicação de sua mãe. Sentia-se envergonhada, pois quem não
tem emprego, não trabalha, não recebe, e portanto não pode
pagar suas contas. Neste país, com essa imagem de classe
média, quem não paga é caloteiro. Em outros países, quem
não paga, como desempregado, é visto como um problema
social, que deve ter uma solução num nível mais amplo, com
políticas públicas.
Resolvi ajudar Roberta a entender essa realidade simples da vida: o trabalho é a fonte da vida. Sem ele, nada
pode ser feito. Então, se o pai está desempregado, além de
economizar, talvez fosse interessante também procurar um
emprego. Nem que fosse de caixa, de balconista... Nos Esta-
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dos Unidos, todos os jovens da classe média trabalham durante o colegial. Faz parte da cultura desse país.
Comecei pelas roupas que vestia, analisando cada etiqueta, o seu preço e a relação com o tempo de trabalho de
seu pai. Devia ter trabalhado muito para mantê-la bem vestida, bem alimentada e estudando em boas escolas. Aos poucos, a vergonha foi dando lugar ao orgulho. Percebeu que
estava sendo egoísta e que não importava se o seu nome iria
parar até nos jornais. Sabia que havia, como ela, muitas outras garotas cujos pais estavam desempregados como o seu.
E que não era por falta de talento ou de vontade. Ele precisava trabalhar, mas não havia uma chance para ele.
De cabeça levantada, Roberta resolveu que iria procurar um emprego e dar força para o pai. A mensalidade
atrasada não era mais problema. Deveria se esforçar ainda
mais nos estudos para mostrar ao pai o quanto valorizava a
escola que ele tanto suou para pagar. Quem visse Roberta
sair dali com aqueles sentimentos confusos de revolta e orgulho, mas extremamente confiante, não imaginaria ser filha de um homem desempregado e desesperado diante das
dívidas que se acumulavam. Roberta resolvera fazer uma
reunião familiar para decidir cortes e comunicar que iria
trabalhar, tranqüilizando os pais. Ajudou a distribuir currículos do pai e passou a trabalhar numa lanchonete, servindo lanches no balcão. Não escondeu de ninguém e ainda
conseguiu levar algumas amigas para o mesmo emprego,
pois sabia que a situação delas era parecida.
Nunca imaginei que Roberta pudesse vencer tão rápido essa situação e servir de exemplo para outros alunos
que também sentiam-se envergonhados. Mas havia algo nela
que eu sempre gostei. Aquele sonho de menina da classe
média, não deixou de existir. Apenas fora remodelada, ade37
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quando-se à realidade. Foi assim que o sonho pode transformar-se em realidade. Roberta concluiu o colegial e passou nos exames vestibulares. Não interessava o que fosse,
descobriu que seria uma assalariada como seu pai, mas que
seria feliz na profissão que escolhera.
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MENINO DE PAU E MENINO DE CARNE-E-OSSO
Nós, educadores que gostamos de observar nossos adolescentes e procurar criar regras para alcançar bons resultados diante dos inúmeros desafios que encontramos, às vezes
nos deparamos com a perfeição. São histórias exemplares,
quase que verdadeiras fábulas educacionais. No final, conseguimos colher uma moral que agrada a todos nós:
orientadores, professores, pais e adolescentes. É uma moral
construída a partir de uma ação coletiva. Os valores não são
apenas palavras soltas, aéreas, são mais que promessas, são
resultados de uma prática.
Mas a história exemplar que vou contar ultrapassa a
fábula e a sua lição moral. Parece mais com a história de
Pinóquio, o menino de pau, criado por Gepetto. Ele teria
que provar que poderia ser um menino de carne-e-osso para
conquistar o seu lugar de filho, humano, e Gepetto o ajudaria com todo o amor de pai, além, é claro, de uma
ajudazinha de um pequeno grilo que serviria de consciência, e de uma fada, que como toda boa mãe, auxiliaria na
aproximação entre o pai e o filho.
Juca era esse menino maravilhoso, criado com todo
amor e cuidado por seu pai, Juvenal. Cada passo e cada
olhar de dúvida do filho foram acompanhados por ele como
se sua missão na vida fosse talhar o melhor filho do mundo.
E assim foi, desde pequeno até a adolescência. Mas, sempre
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chega aquele dia em que nossos meninos de pau são testados e terão que responder sozinhos, sem a nossa ajuda. Aí
sim, poderemos saber se realmente se transformaram em
meninos de carne-e-osso. E esse dia chegou muito cedo para
Juvenal, mas bem na hora para Juca.
Foi quando Juca abandonou uma amizade de anos e
passou a acompanhar outros rapazes. O pai estranhou, pensou que ele estava com algum problema, pois o antigo amigo era um excelente aluno, de boa família, sempre muito
educado e responsável. Pressionou várias vezes para saber o
que havia acontecido, e o filho não queria tocar no assunto.
Com a pulga atrás da orelha, passou a observar os novos
colegas. Estava muito desconfiado, pois os novos amigos não
eram tão estudiosos e não pertenciam a famílias ricas. Logo
imaginou que a amizade de Juca tivesse sido rompida por
ele ter feito alguma coisa errada. Depois, passou a criar fantasias terríveis sobre o seu envolvimento com esses rapazes.
Rapidamente concluiu que Juca estaria se envolvendo com
drogas.
Desde então, a agonia passou a acompanhar os dias de
Juvenal. Colou no filho e não desgrudou. Não conseguia
provas, evidências, mas continuava vendo sempre o mal entre
o filho e os rapazes. Resolveu baixar a ditadura: proibiu Juca
de encontrar os amigos, e exigiu que voltasse a acompanhar
o antigo amigo. Revoltado, Juca deixa de conversar com o
pai e se fecha.
Sem saber mais o que fazer, bateu em minha porta
sem hora marcada. Mas, para essas coisas não existe hora. É
bom ir mesmo antes de chegar ao desespero. Recebi-o com
muito carinho e acalmei-o, pois o considerava um dos melhores pais do colégio. Ao poucos, fui mostrando o quanto
era irreal a possibilidade de Juca estar utilizando drogas.
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Não havia motivos, nem provas, nem mesmo pela história
da família ou de algum tipo de relacionamento que levasse
a isso. Os rapazes que se tornaram amigos de Juca eram filhos de pais batalhadores, que lutavam muito para manter
os filhos em uma boa escola e tinham um excelente comportamento. Sabia do motivo pelo qual Juca havia se afastado do antigo amigo, mas pedi que o Sr. Juvenal esperasse a
hora certa para que o filho explicasse tudo. Mais tranqüilo,
voltou para casa, aguardando a resposta de Juca.
Não demorou muito e Juca sentiu que precisava falar
a verdade para o pai. Não gostaria de falar mal de ninguém,
mas era preciso esclarecer o que havia impedido de levar a
frente àquela antiga amizade. Juvenal estava preparado para
o pior, mas chorou como criança ao ouvir aquelas duras e
doces palavras:
— Pai, eu não queria falar nada, porque não tenho
nada a ver com a vida dos outros, mas sabe o Lino, que o
senhor ficava me empurrando para cima? Ele, sim, está com
problemas com drogas. Está usando e andando com uma
turma da pesada. Todo mundo já tentou ajudar, mas ninguém conseguiu. Ele conheceu essa turma no litoral e por
lá começou nesse caminho errado. Eu tentei tirá-lo disso,
mas não consegui. O comportamento dele mudou, perdeu
o interesse pela escola, está com atitudes totalmente negativas, os pais já o colocaram até num psicólogo e estão até
pensando em internar... E como não posso fazer mais nada,
porque ele me chama de careta e só vive me oferecendo e
convidando para baladas, a saída que encontrei foi me afastar.
O pai abraçou-o tão forte, que pôde sentir que aquele
seu menino de pau já era menino de carne-e-osso. Orgulhoso, pediu mil vezes desculpas e beijou-o de um jeito que
somente um pai sabe fazer. Saiu do quarto do filho em si41
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lêncio e foi dormir mais cedo que o normal, ao lado de sua
fada madrinha. Estava muito envergonhado e rezou muito,
agradecendo a Deus por ter conseguido guiar o filho para
o caminho verdadeiro da vida. Agora, daqui para frente,
era só acompanhar os passos do filho, à distância. Gepetto
sabia que seu Pinóquio já tinha consciência própria e conseguia discernir o bem do mal.
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O CORPO QUE CAI
Passara a assistir apenas vídeos trágicos. Voltava da escola e comia um lanche assistindo seus filmes favoritos. Aqueles em que havia corpos caindo eram os seus prediletos. Inicialmente não relacionavam-se com a idéia de suicídio.
Atraía-lhe a idéia da queda. Depois, os corpos que eram
lançados para fora de prédios altos pareciam ter um certo
mistério. Gostava de assistir várias vezes a esta cena, imaginando o que passaria na cabeça de quem via a sua vida terminar em apenas alguns segundos. Depois, passara a admirar aqueles filmes cujos personagens centrais tomavam iniciativa de se jogarem. Era um salto e tanto. Corajosos. Imaginava que sentiam-se leves, felizes, aliviado.
Caíco havia entrado numa depressão profunda e ninguém, em seu apartamento, percebera o que se passava com
ele. Se voltava para casa ou não, se ia ou não bem nos estudos... ninguém se interessava por ele. Podia mesmo saltar
pela janela, ninguém perceberia. Talvez no dia seguinte ficassem sabendo do que acontecera. O sentimento de abandono alimentara em Caíco esses estranhos sentimentos de
suicídio. Não era nada. Sobrara. Deveria ser jogado fora,
pela janela do apartamento, como uma bituca de cigarro.
Nem o pai notaria. Estava dormindo embriagado, como
sempre, no quarto ao lado. Trabalhava como fotógrafo, fazia suas fotos em seu laboratório durante a madrugada e
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depois bebia até dormir. Sofria de insônia desde quando a
mulher o abandonara. Mas já era alcoólatra antes de se conhecerem. Caíco resolveu ficar com o pai, decidido a tiralo do alcoolismo. Ilusão de adolescente. Depois de centenas
de tentativas, desanimou. Não agüentava mais ser o pai de
seu próprio pai. Depois de bancar o herói, não queria voltar atrás com a mãe. Julgara-a sempre a culpada pelo alcoolismo do pai, mas depois descobriu o quanto havia sido injusto com ela. Mas sua relação estava extremamente
desgastada com ela. Não via como sair dessa, a não ser pela
queda livre...
Mas no colégio os professores já haviam notado a sua
melancolia e a sua fixação com brincadeiras de suicídio.
Passara a faltar na escola, a ir mal nas provas, com notas
baixas em todas as matérias. Passei a orientá-lo e ele foi contando a sua história. Ria sempre que contava da sua vontade de jogar-se do prédio onde morava. Mas eu sabia que
era sério. Preocupado com a situação de Caíco, que não
tinha colo necessário de seus pais, resolvi eu mesmo dar colo
para ele. Inventei uma história de recuperação paralela,
pedindo aos professores que lhe dessem tarefas para serem
realizadas em minha sala após o término das aulas. Ele estudava, eu trabalhava, mostrava o que estava fazendo e conversávamos. Notei que, aos poucos, Caíco foi perdendo aquele ar triste, mas era preciso chamar os pais para que tomassem uma atitude. Conversei separadamente com eles, propondo que o pai fizesse um tratamento e acompanhasse
melhor a vida do filho, e que a mãe voltasse a visitar o filho,
que saíssem juntos, conversassem, dando-lhe o carinho que
tanto faltava a ele. Quem sabe não seria a hora de Caíco
voltar a morar com a mãe?
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Depois dessas orientações, Caíco voltou a freqüentar
as aulas e a estudar mais seriamente. Não deixou de estudar
comigo, pelo contrário transformou a minha sala em uma
biblioteca, trazendo sempre livros novos para consulta. Aos
poucos, fui transferindo essa responsabilidade para seu pai.
Juntos passaram a estudar, ver filmes e tirar fotos. Seu aproveitamento escolar mudou radicalmente.
As imagens do corpo caindo se apagaram da sua mente para sempre.
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O QUINTO ELEMENTO
Na adolescência há ainda uma passagem a ser realizada pelos ex-meninos e ex-meninas para a vida adulta: ultrapassar o mundo da fantasia e alcançar o mundo da realidade. Depois de ter conseguido alcançar o outro mundo seguro, aí sim compreenderá a arte de reinventar a vida a
cada instante em que respirar. No entanto, essa travessia não
se faz sem sofrimento.
No colégio, sempre observei o modo como meus garotos e garotas compreendiam os conceitos científicos do
mundo natural e social. Nem sempre havia uma lógica própria do campo de estudo. Ela parecia ser reinventada. Não
que quisessem criar fórmulas para decorar e tirar boas notas
nas provas. Era alguma coisa mais sofisticada, como procurar dar outros significados aos conteúdos que estavam aprendendo. Dependendo do momento, da energia, a alquimia
era mesmo louca, a lógica parecia ser mais do mundo infantil: com amor novo em folha, os elementos da tabela periódica serviam para realizar façanhas incríveis; viagens, amizades duradouras, e os cálculos sobre a velocidade dos corpos se transformavam em exercícios de relaxamento; mas,
quando pintava algum grilo, daqueles que vieram mesmo
para grilar, aí o bicho pegava: não havia nenhuma certeza
matemática, nenhuma evidência científica, nenhuma hipótese histórica a ser observada... nada! As cabeças de meus
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adolescentes estavam cheias de minhocas e tudo então se
perdia no meio do caminho. Nenhum exercício poderia
chegar ao fim. Nenhuma explicação poderia ser entendida
no seu sentido mais verdadeiro. O mundo estava em chamas e ele precisava encontrar um meio de apagá-las.
E mais uma vez eu deveria ensiná-los a entender o que
alimentava o fogo, para depois escolher o elemento certo
que apagaria o incêndio. Pegar na mão e trazê-los de volta à
escola. Tirar minhocas é mais difícil do que parece. Mas,
diante da promessa de um dia lindo de pescaria...
Carla nem parecia ter cabelos. Eram minhocas por
todos os lados. Entrava e saía do colégio com aquele olhar
ausente. Não estava lá. Onde estaria? Os professores já haviam pedido que conversasse com ela, mas ela bateu antes
em minha porta. Decidida, queria pescar e acabar de vez
com as minhocas. E para que serve um orientador educacional, senão para sentar ao lado dos seus adolescentes num
dia desses de verão e esticar a vara, colocar a minhoca no
anzol e esperar pacientemente que um belo peixe venha
morder a isca? Ela ia me contando essas histórias de pescaria, que estava preocupada com o clima entre os pais, que
andavam brigando... E aí peguei todas as minhocas num só
gesto:
— Você acha que o seu pai está saindo com outra mulher?
— Estou desconfiada e minha mãe também. Estou
muito decepcionada. Desde pequena ele ensinou-me a não
mentir, a não trair, a amar a família...
— Você deve esperar que os seus pais conversem e que
ele explique o que está acontecendo.
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— Ele foge, não quer explicar nada, diz que minha
mãe está louca!
— Mas se vocês ficarem em cima dele podem até estar
tornando o problema ainda maior. Talvez seja um stress passageiro.
— Não, ele está mentindo.
— Como você sabe?
— Eu telefono todas as tardes para ele, e ele não está
no escritório e o celular fica sempre desligado. Várias vezes
chegou de madrugada sem querer falar de onde veio. Outro dia o celular dele tocou e ele se trancou no banheiro
para atender; encostei o ouvido na porta e percebi que ele
falava bem baixinho. Que tipo de segredo você acha que
ele está guardando? Será que ele acha que eu e minha mãe
somos burras?
— Assim não dá, Carla, você está espionando o seu
pai. Aí, a situação piora tudo. Ele acaba sentindo-se mal na
própria casa em que vive e procura afastar-se ainda mais.
Por que você não o procura para uma conversa franca?
— Tudo bem. Eu vou tentar. Mas, se for verdade... eu
acho que nunca mais vou amar meu pai do mesmo jeito.
Estou muito decepcionada...
— E outra coisa, Carla. Não se esqueça de viver a sua
própria vida. Volte a pensar nas suas coisas, seus estudos,
seus amigos... Deixe isso um pouco de lado, não dê tanta
importância. O que tiver que acontecer, acontecerá, e quem
decidirá é seu pai, junto com sua mãe. Relaxe um pouco.
— Não dá, Marquinhos. Não fui educada desse jeito.
Comigo é pão, pão, queijo, queijo. Tchau.
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Demorou para que Carla voltasse a me procurar. Estava muito deprimida e sem resposta. Então, fui ao seu encontro durante um dos intervalos de aula. Dava para perceber que ela nem sabia em que dia da semana estávamos.
Nem mesmo as roupas vestia direito: vinha com meias
trocadas, cabelos mal penteados. Era preciso um tranco para
fazê-la voltar.
— Vamos, Carla, se abra comigo. Sei que você não é
desse jeito. O que está acontecendo agora?
— Ele não quis nem saber. Eu abri o meu coração,
chorei, pedi que contasse a verdade... e ele nem se esforçou... Está mentindo... escondendo coisa séria. Acho que
agora é pra valer, mesmo, Marquinhos. Estou me sentindo
carta fora do baralho.
— Não, você está entendendo tudo errado. Seu pai
não conseguiu encarar a verdade, deve estar envergonhado
do que está fazendo. Ele ensinou a amar e sempre ser fiel e
foi pego pela vida. Alguma coisa está acontecendo com ele
e não pode resolver com a mesma simplicidade com que se
ensina os filhos. E você já não é mais criança, sabe perceber
quando há algo errado. Como um pai pode suportar ser
julgado por um filho?
— Acabou. O meu vaso de cristal quebrou-se inteiro.
Não sobrou nada, não tem como colar os cacos.
— Na verdade, não é isso que você sente. Você quer o
seu pai de volta. Aquele paizão, sempre presente, que ama a
mulher e os filhos, não é? E sabe que ainda não acabou. Há
uma esperança. Ele pode ter errado, mentido, mas está confuso. Se ele estivesse certo do que está fazendo, não procuraria esconder nada.
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— E aí? Vamos viver de falsidade?
— Não é isso. Dê tempo ao tempo. Do mesmo jeito
que a tempestade veio, ela vai embora. Faz estragos, mas
também ensina a agradecer por tudo o que ainda restou. E
por pior que seja, restará só amor. E é isso o que importa.
— Não concordo. Se ele mentiu, já não é o mesmo.
— Certo. Ele não é o mesmo que você imaginava quando era uma garotinha e passeava de mãos dadas pelo parque. Ele não é só seu pai. É um homem que, como você,
também tem dúvidas, sofre e ama. Ninguém vive só de acertos e seu pai é igual.
— Você acha que estou sendo injusta?
— Não. Acho apenas que está crescendo e está aprendendo a ver o seu pai como ele é, um homem de carne-eosso. Mostre isso a ele. Fale da sua revolta, do medo que tem
de perder a família unida que tanto ama, mas deixe um
espaço para que ele respire e decida... Isso se você não quiser viver de falsidade...
— Não, prefiro ele longe, mas verdadeiro...
— Então, que tal voltar a pensar em você. Olhe ao seu
redor. O que está vendo? Há muita vida fora de casa, também. Aprenda a esperar. É difícil, mas venha, vá fazer alguma coisa melhor que ficar ouvindo conversa de gente velha,
vá conversar com suas amigas, vá.
— Falou, Marquinhos! Valeu pela força...
E só vi seus cabelos morenos, lindos, de menina virando mulher e sofrendo com as perdas, com as incertezas do
mundo adulto... Aqueles cabelos negros voando, totalmente desembaraçado, sem minhocas, sem nada. Elas estavam
ali, ao meu lado. Recolhi cada uma delas e guardei-as para
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uma pescaria como esta que estou fazendo agora junto com
você. E quantos peixes já pescamos juntos?
O que deu o final dessa história? Como eu pressentia,
aquele pai estava mesmo com medo de perder a família mais
bonita que eu já havia visto na vida. Que coisa mais linda
era poder ver todos eles juntos. A última vez foi quando os
vi na formatura de Carla. E a cena mais magnífica foi a da
valsa. Não dá para acreditar, mas eu tinha a impressão de
que Carla, ao se despedir do colégio e da infância, tinha
conseguido transformar-se numa daquelas princesas dos
contos de fadas em que dançam com príncipes que são a
imagem perfeita de seus pais.
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TREM
DAS ONZE
Ali estava Horácio, sentado à minha espera, com um
ar de coitadinho... Dava até pena. Estava muito relaxado
nos estudos e não reagia às críticas. Diante das minhas cobranças, foi logo se defendendo:
— Nada do que eu faço dá certo porque minha mãe
sempre me protegeu, nunca me preparou para enfrentar a
vida sozinho. No colégio, o ensino é mais puxado, os professores não são como no ginásio, são mais exigentes.
Argumentei que todos os alunos passavam por esse
problema de adaptação no 1º ano, mas que ele não estava
se esforçando. Então, veio com outra desculpa:
— Acontece que nem todos são filhos de pais separados. E você sabe, eu também já ouvi falar, que os filhos de
pais separados vivem uma crise e acabam não conseguindo
fazer nada certo. Você sabia que meus pais se separaram há
dois anos?
Mais uma vez entendi a jogada de Horácio.
— Eu sabia, mas você nunca reclamou de nada. Também não há uma relação entre separação dos pais e fracasso
escolar dos filhos. Pelo contrário, alguns alunos nessa situação se dedicam mais aos estudos. A sua colega, a Simone,
melhor aluna da classe, é filha de pais separados, você sabia?
— Eu, não... Mas, ela é filha única?
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— Não. O que isto tem a ver?
— Você sabia que eu sou filho único? Imagina só: filho único, morando com a mãe, mimado desde pequeno,
sem o pai para dar uma força, exigir que eu vá para frente...
Não dá, não consigo acertar. A culpa não é minha.
— Horácio, vamos ver se eu estou entendendo. A sua
história está mais para a música do Trem da onze, do
Adoniran Barbosa, do que para uma história séria. Você chega atrasado, não faz suas tarefas, não estuda, não presta atenção nas aulas, vai mal nas provas e a culpa não é de você. É
de quem?
— É dos meus pais, é lógico!
— Não, não é lógico. Não são eles que acordam atrasado todos os dias.
— A minha mãe não briga comigo para que eu acorde. Ela me chama várias vezes, mas a sua voz é tão mansinha
que me dá mais sono...
— E as tarefas, o estudo, as provas?
— Não cobram de mim com energia, com determinação. Só porque sou filho único, de pais separados, mimado pela mãe. Não dá mesmo... Não acho certo você conversar só comigo, tem que chamar meus pais para uma conversa também...
— Está bem, filho único, vai pegar o seu trem das onze,
antes que você vá chegar atrasado em casa e fazer a sua mãe
ficar preocupada...
Concordei com Horácio, mas pensando numa tática
melhor para dominar suas jogadas. Ele transferia seus problemas para os pais, culpando-se por darem excesso de amor
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e não prepará-lo para ser um aluno esforçado, e aproveitava para não assumir as suas responsabilidades.
Orientei a mãe para que tivesse uma visão mais crítica
da educação que vinha dando para o filho. O amor era
importante, mas amor demais sufoca e torna o filho irresponsável. Estava na hora de mudar de atitude, não protegêlo sempre, deixando que desse suas cabeçadas, assumindo
suas responsabilidades. Aos poucos foi entendendo o que
eu dizia e já não tinha os ombros tão caídos e os olhos tão
apagados... Sabia que estava na hora de acabar com as mordomias do filho e de pôr um fim nas paparicações. Orientei-a também para que lhe chamasse atenção sobre seu filho: o excesso de amor sufoca.
Conversei com o pai e orientei-o para que fosse mais
exigente com o filho, que não aceitasse mais notas baixas.
Deveria cobrar que o filho passasse a caminhar com as próprias pernas e que aprendesse com seus erros e acertos, sem
contar com a proteção dos pais. Seria dono do seu nariz,
mas cobraria os seus erros e elogiaria os acertos.
Era uma atitude radical e chocante, mas fazia-se necessária afim de que todos percebessem que esse tipo de relação familiar não estava sendo sadia. Mas quando as coisas
apertaram, pediu arrego, alegando ser obrigação dos pais
cuidar do filho, voltando atrás em suas reclamações. Começou a dizer que nunca foi contra o excesso de amor, nem de
paparicações, apenas queria que fossem mais exigentes, mas
estavam sendo exigentes demais.
Depois de alguns acertos, a convivência familiar melhorou muito. A minha função foi aconselhar os pais quanto ao procedimento em relação ao filho. Perceberam que
superproteção fazia com que cometesse erros, não no senti-
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do de ter dificuldade de aprendizagem, mas no sentido de
se acomodar, mentir, enganar. Horácio era um garoto inteligente e deveria ser exigido para desenvolver-se na escola e
na vida.
Ao vê-lo mudado, já empenhado nos estudo, não
agüentava passar por ele sem fazer uma provocação bem
humorada:
— Você sabia que eu sou filho de pais separados, mimado pela mãe e ainda filho único?
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BEM-ME-QUER, MAL-ME-QUER...
Deveria existir uma lei na natureza que proibisse a
morte das flores. Elas deveriam nascer, crescer e manter
intactas sua beleza e seu perfume. Mas, não é isso que acontece. Um olhar mais atento pode desnudar cada minuto do
processo de morte de uma flor. Começam perdendo o brilho, depois a cor, secando e caindo aos poucos sobre o caule.
Nunca aceitei que minhas adolescentes fossem murchando até perder o sentido da vida. No primeiro sinal, que
iam perdendo o brilho, já procurava compreender o motivo pelo qual estavam murchando. Roseane estava no 2º
colegial e com apenas 16 anos começara a emagrecer e adoecer freqüentemente. Vivia pálida, com os olhos fundos, sempre gripada, com dor de estômago, náuseas. Pedi que sua
mãe procurasse um médico para fazer uma avaliação geral
de sua saúde, e o resultado foi: problemas físicos de fundo
emocional. A mãe já não sabia mais o que fazer e pediu
minha ajuda.
Convidei Roseane para conversar comigo durante algumas tardes e ela começou a contar o que estava incomodando-a. Parecia que passava os dias despetalando-se para
saber se o pai ainda a amava ou não. Neste bem-me-quer,
mal-me-quer, sentia que estava cada vez mais fora da vida
do pai. Ele havia se casado novamente e cercava de atenções a nova mulher e suas duas filhas. Nunca mais fora o
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mesmo com ela. O ciúmes que sentia corria-lhe por dentro.
Era uma queimação, uma doença. Sentia morrer cada dia
que passava.
Ao ouvir suas palavras, imediatamente percebi que era
necessário realizar uma reunião com o pai. Liguei naquele
momento e convidei-o para um encontro. Muito solícito,
quis saber tudo o que estava acontecendo e notei o quanto
estava distante da filha, pois não percebera o quanto ela
estava doente. Ao ficar a par dos problemas de Roseane, o
pai segredou-me que andara entusiasmado demais com sua
nova vida, deixando para trás tudo o que fora seu no passado. Passou a sentir culpa pelos ciúmes doentio de Roseane,
e prometeu cercá-la de cuidados e carinhos.
Depois de algumas semanas, sempre em contato com
o pai, freqüentando a sua nova casa e tornando-se amiga de
suas enteadas, Roseane voltou a ser a mesma flor de antes.
Sentia-se acolhida num novo jardim e passara a entender a
alegria e entusiasmo do pai em sua nova vida. Há muito
tempo que não vivia bem com sua mãe, e o clima da casa
era péssimo. Sua nova esposa era também carinhosa como
sua mãe e procurava recebê-la sempre bem. A amizade com
as enteadas foi positiva para que aprendesse a se cuidar melhor e voltar aos estudos.
Bem-me-quer, bem-me-quer... Roseane passava os dias
cuidando de suas coloridas pétalas, morando num jardim
seguro, e visitando de vez em quando o jardim das novas
amizades. Seu jardineiro era carinhoso e sabia como cuidar
e regar de cada uma de suas diferentes flores. Como por
milagre, Roseane voltava para a escola como se nunca tivesse sofrido mal algum. Era novamente a flor simples, fresca e
perfumada do campo, de que eu tanto gostava.
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A CHAVE
Há muito tempo vários campos do conhecimento chegaram à descoberta de que a linguagem é uma chave. Ela
abre o caminho para a compreensão de vários processos socias
e psicológicos, em várias atividades do ser humano. Antropólogos, sociólogos, lingüistas, semiólogos, comunicólogos,
filósofos, psicólogos, entre outros especialistas, reconhecem
o papel preponderante da linguagem como fator de comunhão ou de discórdia e, principalmente, como reflexo e
como criação de novas práticas sociais.
Durante a minha experiência profissional, tenho confirmado essa afirmação: a linguagem é uma chave. Ela abre
ou fecha portas. Na escola, essa chave é trabalhada ano após
ano, procurando torná-la sempre eficiente para abrir novas
portas. E essa chave, na minha opinião, deveria ser bem
empregada também no meio familiar. Muitas vezes, a ausência da chave tem afastado pais e filhos.
A história de Danilo e de Maurício me chamou a atenção sobre esse fato. Os dois irmãos passaram a viver separados desde que os pais assinaram o divórcio. Foi um momento muito difícil para todos. Foram separados pais e irmãos.
Parecia que havia sido amputado um pedaço de cada um.
A presença do pai fazia lembrar a ausência da mãe, e a presença de um filho fazia pesar a ausência do outro. A dor da
perda parece não ter fim e precisa ser muito bem trabalha59
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da para não colocar tudo a perder. Muitas vezes, pela saudade daquele que se perdeu, aos poucos pode acontecer de
não se ter um bom relacionamento com a pessoa querida
que ficou.
Danilo tinha 15 anos e vivia com o pai, e Maurício,
com 17 anos, com a mãe. Danilo sentia que o pai era muito
exigente e que a mãe era mais afetuosa. Maurício, ao contrário, admirava o pai a achava a mãe crítica demais. É claro
que não era apenas impressão. Os pais realmente acabavam
exigindo muito mais do filho com que viviam, e protegendo muito mais o filho que estava distante. No final, os filhos
sentiam-se perseguidos por aquele com quem viviam, e atraídos por aqueles que não poderia ter sempre ao lado. Tudo
isso ia confundindo ainda mais a cabeça desses adolescentes. Sentiam-se separados e injustiçados, pois não viviam bem
com quem estavam morando.
O ciúme dos irmãos invadiram a sala de aula e abalou o relacionamento que tinham entre si e entre os amigos. Um reclamava do outro, criticando e comparando as
atenções que recebiam dos pais. Resolvi convidá-los para
uma conversa. Eu iria mostrar a chave. Ela estava guardada para estas situações, embora soubesse que ela faltava
muito mais para os pais do que para os filhos. Nos sentamos no pátio e começamos uma conversa que continuou
durante todos os intervalos da semana. Um dia serviu para
a troca de críticas. Outro dia para a troca de desabafos.
Outro, para a troca de insultos. Alguns outros, para a troca de informações e sugestões. Finalmente, tocaram na
chave e ela abriu uma porta.
Eu estava diante desses irmãos que tanto se amavam, e
que por causa da separação, tanto engoliram de ressentimento, mágoa, ciúmes e ódio. Danilo pode contar a Mau60
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rício que o pai ficava o tempo todo no seu pé, sempre exigente, colocando regras para tudo, acompanhando as tarefas da escola, não aceitando notas medianas, mas que lhe
dava todo tipo de roupa que quisesse ter. E faziam muitos
passeios legais de fim-de-semana. Maurício também contou como a mãe era com ele: cobrava tudo, queria saber
com quem andava, a que horas havia chegado da escola em
casa, fazia um terror sobre sexo, metendo medo sobre a
AIDS, e voltava das reuniões da escola pronta para colocálo do avesso. Um se surpreendeu com o depoimento do
outro, pois sempre imaginaram que o irmão levava a melhor. Maurício não entende por que o pai lhe dá tanta liberdade e dinheiro, se não faz nada disso com Danilo. E o
irmão, Danilo, não entende por que a mãe lhe dá tanto
carinho e deixa fazer tudo o que quer, sem ter horário marcado, se não trata dessa maneira Maurício...
Apenas respondi: — Falta apenas a chave. Estão batendo na porta trancada e ninguém responde. É preciso ter
a chave para que a porta se abra.
— E que chave é essa? — perguntou Danilo, intrigado.
— Essa chave que vocês usaram para abrir a porta. A
chave da linguagem. Vocês brigaram, mas conseguiram
mostrar um ao outro o ciúme que tinham e depois descobriram que os pais tratam do mesmo modo o filho com quem
moram. Estão começando a se entender e precisam fazer
com que os pais também se entêdam e usem a chave. A
linguagem é uma expressão de nossos pensamentos, sentimentos, mas não se limita às palavras. Os gestos também
comunicam. As atitudes, os objetivos. Por isso, quando um
dos pais presenteia, á liberdade, não cobra nada, vocês imaginam que estão diante de um ser amoroso, perfeito, e quan-
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do estão diante daquele com quem vivem, cheios de cobranças e de vozes ríspidas, então imaginam que estão diante de
seres duros e insensíveis... Se prestarem atenção, notarão que
a responsabilidade de educar, de ajudar, de dar apoio para
o crescimento, necessita de atitudes de exigência, de cobrança. Já aquele com quem apenas se passa um fim-de-semana
ou as férias sempre será mais tranqüilo. Não está sob pressão da responsabilidade, e pode relaxar, matar as saudades.
A partir dessa palavra compartilhada, os irmãos passaram a cuidar melhor da chave conquistada. Sempre que
estavam juntos, procuravam se tratar com carinho e atenção. Aos poucos, foram ensinando os pais a serem exigentes
também com quem estava longe de casa, e ser em mais carinhoso com quem estava mais perto, aprendendo a confiar,
não cobrando tanto. A chave ajudou a abrir a porta da confiança. E quem entrasse naquelas casas encontraria o pai ou
a mãe vivendo momentos de descontração, como se estivessem de férias com o próprio filho com quem morava.
Eu tenho essa chave e guardo-a com muito respeito.
Às vezes, tenho a sensação de tê-la perdido. Mas ao colocar
minha mão discretamente no meu bolso, respiro aliviado.
Ela está lá e sempre estará, enquanto eu precisar abrir portas. Esse é o meu ofício.
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A VOLTA DO SOL
Querido pai, é com muita tristeza que eu escrevo esta
carta para você. E sinto-me muito mal de estar escrevendo esta
carta, porque nunca escrevi nenhuma para você. Preferiria falar com você, pessoalmente, mas não tenho coragem. Esse malestar e essa tristeza começaram desde o dia em que eu fui visitálo aí na sua nova casa em Minas Gerais e descobri que você
estava tendo um caso. Acho que nem é só tristeza. É mais, é
revolta mesmo. Fiquei pensando na dificuldade que estamos
passando aqui em São Paulo, depois que você teve que vender
a empresa e começar tudo de novo aí em Minas, e me revoltei
ao ver que você não está nem aí... E a mãe, como é que fica?
Quer dizer que você começou vida nova, esqueceu da gente...
E a mãe morrendo de pena de você, chorando todas as noites,
tentando segurar a barra dos nossos irmãos que ainda não se
acostumaram com os cortes de gastos. Sabe como me sinto,
pai? Traído. Mais traído que a mãe. E olha que eu nem falei
nada para ela, só porque o orientador da minha escola me convenceu a escrever esta carta para você e ver como é que fica.
Traído por você ter mudado nossa vida, fazer a gente agüentar
a barra e ter esperança... enquanto você se diverte com seus
casos ou até iniciando nova vida... Quem vai saber? Se você
mentiu uma vez, vai mentir outras vezes, não é? Sabe, já não
sou aquele menininho que acreditava em tudo o que você falava. Agora quero ver para crer. Sabe, por causa disso eu andei
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de cabeça quente e acabei fazendo muita besteira aqui no Colégio. Briguei com todo mundo e até com a Tati, que eu amo
muito e quero que você conheça.
Bom, para encurtar o papo, quero que você me procure
e dê uma satisfação, porque afinal de contas ainda sou teu filho, o filho mais velho, e se você estiver caindo fora, que tenha
coragem de falar pra mim, pra mãe para os meus irmãos. Depois a gente vê como fica e se vira. Espero que não seja nada
disso. Eu te amo e quero voltar a ser o menino que acredita em
você.
Juliano
Quando terminei de ler a carta que eu havia ajudado a
escrever, senti que estava forte demais, mas era a pura realidade. Era o que Juliano estava vivendo e sentindo. E tudo isso
estava anulando a sua vida escolar. Ele saiu dali ainda tenso,
mas no seu rosto não havia mais a revolta de antes. O próprio
exercício da escrita havia feito com que Juliano elaborasse melhor suas preocupações. Estava feliz por poder comunicar ao
pai seus sentimentos, mas temia que a realidade fosse realmente muito difícil de ser enfrentada.
Depois de alguns dias, Juliano bateu à minha porta muito mais relaxado, porque o pai havia ligado dizendo que recebera a carta e que não havia razão para preocupar-se tanto,
que nada daquilo era sério e que viria à São Paulo para conversar melhor e matar a saudade da família. Mas ainda estava muito
inseguro e pediu a minha ajuda para continuar expressando os
seus sentimentos ao pai. Combinamos que convidaríamos o
pai para uma reunião, onde poderia discutir suas opiniões mais
à vontade. Durante a reunião, o pai de Juliano ouviu atentamente tudo o que o filho tinha para dizer e procurou convencêlo de que havia tido apenas um caso porque sentira-se muito
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sozinho. Juliano não aceitou as desculpas do pai, mostrando
que todos estavam sofrendo, principalmente a sua mãe, que
continuava à sua espera. Depois dessa conversa, o pai decidiu
retornar para São Paulo para viver junto daqueles que amava,
onde poderia sentir-se mais forte para enfrentar e vencer as
dificuldades.
A janela da escola muitas vezes se abre para um mundo
menos lógico e mais complexo. Ao viver com as costas viradas
para esse mundo e ao fechar as janelas toda vez que alguém
joga uma pedra, o orientador educacional perde a chance de
entender por que alguns de seus alunos abandonam os estudos
e se afastam dos colegas e dos professores. Por isso, aprendendo
a ouvir pessoas como Juliano, resolvi ser um orientador de janelas abertas e sem vidraça, recebendo sol, chuva e vento dentro da minha sala de orientação. Arrisco-me ao calor e ao frio,
mas sinto-me vivo e verdadeiro diante de meus adolescentes,
com minha fragilidade e minha força. Com Juliano foi assim,
ao abrir a janela, ele ganhou o sol de volta, e eu... o meu aluno.
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EM BUSCA DA VIRTUDE
Fúlvio não tem uma história muito bonita para nos
contar... nada que deva servir de exemplo para alguém. Mas,
essa história serviu de lição para Fúlvio, para o resto de sua
vida. E tenho certeza de que amadureceu com o erro.
Sabe, Marquinhos, eu estava muito bem colocado na
empresa de meu tio. Comecei a trabalhar lá quando era
ainda um adolescente, lembra? Foi uma oportunidade que
consegui logo quando terminei o Colégio. Eu tinha muita
vontade de trabalhar, e ainda mais incentivado pela necessidade: a situação financeira em casa estava péssima. Meus
pais haviam se separado, a grana estava curta, e eu tinha
que aproveitar o convite de meu tio para trabalhar em sua
empresa.
Desde o início me empolguei com o trabalho, me dediquei muito, horas e horas a mais do que deveria trabalhar,
mas valeu. Fui aprendendo muito, tomando conhecimento
quase que total da empresa e fui ganhando posições. Mas
comecei de baixo, sem proteção do meu tio. Comecei como
estoquista e cheguei a gerente geral.
Ali não tinha essa história de ser sobrinho, não. Consegui tudo isso porque me dediquei, vesti a camisa, dei o
sangue. Meu tio, é claro, ficava todo orgulhoso de mim e
dizia que eu havia puxado o seu lado, pois sua vida profis67
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sional também tinha sido feita à custa de muita luta e
trabalho.
Resolvi estabelecer metas a serem conquistadas na
empresa e fui superando, mês a mês, cada uma delas. Fiz
carreira, passei por todos os setores e sempre com muita
dedicação. Até que consegui chegar a gerente geral. O próximo passo seria conseguir o cargo de diretor, ao lado do
meu tio. Era o meu sonho e eu queria conquistá-lo, mas
com o meu suor.
Para um rapaz ainda novo como eu, meu salário era
alto, dava para ajudar minha mãe a sustentar a casa e meus
irmãos, cobrir minhas despesas com a faculdade e gastos
pessoais. Até um bom carro, eu tinha. Não era só o financeiro que contava, era também o respeito que eu tinha adquirido, ao longo dos anos de trabalho. Eu era uma pessoa
respeitada, profissionalmente.
Foi nesse ponto que conheci Sueli. Era uma moça
muito bonita, mas também muito ambiciosa. E esse foi o
meu mal: me deixar levar por uma paixão perigosa. Ela gostava de tudo o que fosse requintado e caro. O destino fez
com que eu me perdesse por ela. Não queria perdê-la por
nada deste mundo. Achava que ela seria meu primeiro, grande
e único amor. Nunca mais encontraria alguém como Sueli...
O nosso namoro ia de vento em popa, mas estar ao
lado dela me fazia gastar demais. Eu tinha que dar passos
além do tamanho de minhas próprias pernas. Foi aí que a
coisa foi complicando. Chegou um momento em que eu
estava atolado em dívidas, só para satisfazer seus desejos e
caprichos. E ela era insaciável, queria sempre mais e mais. E
a maior promessa era o casamento, estarmos juntos até o
fim de nossas vidas.
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Foi o tempo em que fiquei cego. Não conseguia enxergar nada além de Sueli. Ela era tudo para mim, minha
razão de viver. Procurei mostrar que a minha vida era modesta, sem luxo, mas ela não entendia e continuava a me
endividar. Foi aí que comecei a dar ouvidos aos seus maus
conselhos. Ela vivia dizendo que o meu tio tinha muitos bens
e que eu era bobo de trabalhar tanto para ele.
Aos poucos, ela foi em envenenando, envenenando,
dizendo que o bolo era muito grande e que eu também
tinha direito a uma grande fatia... E, por incrível que pareça, eu fui incorporando aquela idéia absurda, fui descobrindo um lado egoísta, que queria tirar dos outros para que eu
alcançasse a riqueza. Uma riqueza fácil, sem trabalho, sem
sacrifícios. Rapidamente, estava com meu caráter deformado. Comecei a desviar dinheiro da empresa para a minha
conta, e esse dinheiro era gasto com Sueli: viagens, passeios,
jóias, roupas... Uma vida de roubo e falsidade.
Meu tio, que não era nada bobo, percebeu o desvio e
me chamou para conversar. Foi uma longa discussão. Fiquei envergonhado. Ele me mostrou o quanto era honrado, enquanto eu havia me transformado em um rato dominado pelos caprichos de uma mulherzinha. Fui demitido,
mas prometi devolver com o meu fundo de garantia, a venda de meu carro e algumas promissórias, tudo o que havia
sido tirado da empresa.
Voltei à estaca zero: sem emprego, sem dinheiro e recomeçando a minha vida. Recomeçar, mesmo, porque a
Sueli também me abandonou quando o dinheiro acabou.
Foi então que caí na real. Demorou, mas a ficha caiu. Percebi que aquele romance era um castelo de areia, cairia com o
primeiro sopro.
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Foi preciso muita coragem, começar de novo com outro emprego... No mês que vem saldarei a última promissória de meu tio. Estarei com a consciência tranqüila, sem dívidas, vou continuar estudando na faculdade e retomarei
meu verdadeiro caráter: honesto. Hoje, eu poderia já estar
formado, mas por falta de maturidade, adiei, temporariamente, o meu projeto de vida.
Aprendi a lição: nada me fará ser desonesto, novamente. Também amadureci e já sei escolher a mulher que será
minha companheira, — alguém que tenha o mesmo caráter que eu. Conheci uma nova garota, batalhadora, que luta
pela vida, que tem me dado forças para levantar a cabeça e
não me envergonhar de meu passado. Todo mundo pode
errar, só não pode continuar errando. Por ela, sim, vale a
pena estar apaixonado.
Marquinhos, nunca mais esquecerei esse momento
ruim. Ele servirá para me reerguer e reconstruir meu verdadeiro caminho de trabalho e amor.
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O GRÃO
DE ARROZ
Duda tinha 15 anos quando o casamento de seus pais
esfarelara-se. Há muito tempo que acompanhava a destruição de um amor que resultara no seu nascimento. Embora
ficasse muito triste com todo o processo de separação, não
perdoara o modo como o pai passara a tratar a mãe. Acusava-a de ter se transformado em uma madame, de querer ter
a boa vida, de nunca ter valorizado o seu esforço para manter a casa. Por isso, quando a mãe decidiu pela separação, o
pai colocou vários obstáculos, negando até mesmo o pagamento da pensão. Depois de muito custo, o pai de Duda foi
obrigado a pagar uma modesta pensão ao filho. A mãe recusara qualquer outro tipo de ajuda, pois essa era a sua responsabilidade de pai.
Desde esse penoso calvário, Duda viu seu ídolo transformar-se num homem mesquinho, descontrolado, vingativo. Não era o seu querido pai. Ligava várias vezes durante
a madrugada, bêbado, para falar besteiras para a ex-mulher. Aparecia em reuniões familiares para fazer fofoca da
mulher para a ex-sogra e cunhadas. Era um desastre. Com
o tempo a poeira foi baixando, mas o último recurso a ser
utilizado pelo pai para magoar a ex-mulher foi o próprio
filho. Encontravam-se diariamente. O pai ia buscá-lo na
saída da escola e almoçavam juntos. Mas, durante todo o
almoço, o assunto era a sua mãe. E xingava, falava alto, ten-
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tava fazer com que o filho ficasse contra ela, e como o filho
não reagia, brigava com ele. Era assim todos os dias. Duda
nem tinha vontade de comer mais nada. Seu estômago virava.
No início, Duda começou a fugir do pai, fingindo estar doente. Começou a faltar nas aulas e escapou várias vezes daquele encontro de alucinações. Chamei-o para conversar, pois notara que Duda não era o mesmo. Deixara de
ser brincalhão, de participar das atividades da escola. Procurei-o para saber o que estava acontecendo, e ele abriu-se
com muita facilidade. Estava muito tenso, pois a sua relação
com o pai depois da separação tornara-se muito difícil. O
pai estava muito agressivo, fazendo cobranças, criticando-o
a todo momento. Sentia que o pai não aceitara o fato de ele
ter escolhido ficar com a mãe. Estava jogando todo seu ódio
em cima do filho. Um dia, ao mostrar ao pai que depois da
separação não se preocupara mais em lhe dar uma mesada,
gritou: “Se você acha que não lhe dou nada, fique sabendo
que cada grão de arroz que você come sou eu que pago.
Pago cada centavo de sua pensão todos os meses com o suor
do meu rosto. E é assim que você me agradece?” Depois
desse dia, Duda resolveu que não queria mais ver o pai,
nunca mais. E pediu minha opinião.
Encontrei situações como esta muitas vezes durante
minha atividade profissional. Sabia que as palavras nem sempre ajudavam a refazer uma relação destroçada. Muitas vezes elas atrapalhavam. O corpo gritava desesperado a saudade do filho, o ciúmes e a boca diziam impropérios... Pedi
que não tomasse uma decisão precipitada antes de ter uma
conversa com o seu pai. Duda concordou. Ao encontrarme com o pai de Duda, percebi que ainda estava muito
transtornado com a separação. Deixei que desabafasse e tudo
veio à tona: a mágoa pelo filho ter escolhido ficar com a
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mãe, a decepção com o fim do casamento, a irritação ao ver
nas atitudes do filho as orientações da ex-mulher... Ficamos
mais de duas horas conversando e procurei mostrar que estava agindo com muito ressentimento, e suas atitudes o estavam afastando de Duda.
Várias vezes discordou de mim e pareceu ficar irritado. Pedi que fosse mais amigo do filho, e quem sabe um dia
eles poderiam voltar a morar juntos. Nesse momento, ficou
furioso: como ele, o pai, não era amigo do próprio filho? E
antes de bater a porta de minha sala, perguntou: “Você tem
filhos?” Respondi que não. E ele concluiu: “Como pode
querer orientar um pai se nunca sentiu a responsabilidade
de ter um filho para educar?” Meu sangue também subiu
na cabeça, me controlei, mas também fui irracional na resposta: “Aprendi a ser um pouco pai desses garotos que me
procuram quando percebem que os seus pais desistiram de
acreditar neles...” Depois que saiu, fechei os olhos e pensei:
"Estraguei tudo".
Mas parece que a vida é feita mesmo de caminhos
torturosos. Quando procurei Duda para explicar que a conversa com o pai não tinha sido muito boa, ele apertou a
minha mão com força e agradeceu por tudo. Por tudo? O
pai estava mais aberto, menos negativo, ouvindo mais suas
opiniões. Voltaram a se entender. Acredito que ele deve ter
parado para pensar depois da discussão. No fundo, sabia
que nunca deveria ter falado ao filho que devia a ele cada
grão de arroz que comia. Foi preciso fazer com que percebesse que o amor paterno não espera nada em troca, e nunca nem imagina os grãos de arroz que foi preciso conseguir
para alimentar o filho. O verdadeiro amor paterno não conta
e mede esforços, não pode se transformar em relações em
torno de mesquinharias, porque senão adoece e morre. Duda
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havia reconquistado o pai e este havia reencontrado o caminho da compreensão.
Depois de alguns anos, Duda procurou-me para contar que estava de mudança para a casa do pai. A mãe havia
incentivado esse reencontro, e notara um amadurecimento
muito grande do filho ao ter reencontrado o amor paterno.
Havia feito a travessia da infância para a adolescência com
sucesso, passando da casa materna para a casa paterna.
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MÃO DE FADA
Uma fada possui mãos especiais. Delicadas, ágeis, mágicas. Realizam tarefas que pareciam impossíveis, num piscar de olhos. Essas mãos maravilhosas são dominadas pelo
desejo ardente desse ser especial em dominar situações difíceis, para realizar o sonho das pessoas amadas.
Luana sempre foi uma fada. Desde que nasceu. Quando sua mãe a olhou com ternura, dizendo que era sua menina, já havia percebido um sorriso mágico. Foi esse sorriso
que motivou o pai a acreditar ainda mais na vida, quando
soube que sofria do mal de Parkinson. Suas mãos tremiam
tanto que mal conseguia vestir-se e alimentar-se sozinho.
Luana foi crescendo ao redor do carinho do pai e da
mãe, mas depois que a doença do pai se agravara, acostumara-se com o fato da mãe sair para trabalhar e o pai ficar
em casa. Enquanto Luana crescia e ficava mais forte, o pai
ficava ainda mais doente e dependente. Era ela quem o ajudava em todas as tarefas. Nunca medira esforços para ver o
pai sempre bem. Não existiria nunca uma enfermeira melhor que a filha, sempre compreensiva e carinhosa. Suas mãos
transformaram-se nas mãos que o pai não poderia ter nunca mais. E durante anos acostumou-se com uma rotina pesada, mas cheia de cuidados. No entanto, nunca reclamara
de cansaço, pois se acostumara com as tarefas diárias, como
se fossem naturais. Um dia faz sol, outro dia chove. E lá
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estava ela para o proteger do sol e da chuva, como uma
árvore grande e de folhas sempre verdes.
O stress de quem auxilia pessoas doentes é muito grande. Lidar com a doença sabendo que ela não tem cura, é o
pior de tudo. Além disso, há sempre uma vontade de tentar
resolver todos os problemas do ente querido, anulando toda
e qualquer vontade de sair de casa e respirar ar puro. Esse
desejo de viver sua própria vida de adolescente, sem a dura
responsabilidade de cuidar do pai todos os dias, não aparecia de forma clara para Luana. Era uma fada obstinada em
tornar o pai feliz. Amava-a muito. Eu imaginava como ele
se sentia, ali, cada vez mais doente, tendo que deixar a esposa e a filha cuidarem de tudo.
Racionalmente era assim. Mas inconscientemente há
um movimento de sentimentos confusos e rebeldes. Estão
sufocados e explodem durante as situações mais inusitadas.
E foi assim também com Luana. Em casa era a fada, a filha
encantadora, mas na escola, de um dia para o outro, passou
a aluna mais rebelde, puxando brigas e desrespeitando colegas e professores. As explosões aconteciam do nada. Era o
professor pedir para mostrar a tarefa e já ia xingando, ao
invés de explicar que não conseguiu realizar suas tarefas
porque o pai havia tido uma crise no final de semana. Se
um colega brincava com ela, vendo que chegou à escola
com uma meia de cada cor, ela já partia para cima, e dizer
depois chorava sem parar. Tinha vergonha de que perdera
a hora porque teve que ajudar o pai a trocar a roupa, pois
deixara cair café por todo lado.
Procurei Luana durante uma dessas explosões e, ao
invés de recriminá-la, sentei ao seu lado, abracei-a e deixei
que chorasse o quanto quisesse no meu ombro. Nunca foi
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uma menina mimada; ao contrário, sentia-se extremamente cansada pelo pesado fardo que lhe fora colocado. Nenhum parente ou amigo havia notado o quanto Luana andava entristecida, porque na presença do pai sempre mostrava-se feliz. Tinha tanto medo de magoá-lo, que reprimia
todos os seus sentimentos. Da porta de casa para rua, sentia-se livre para estourar com o primeiro que passasse. Eu
sabia disso e ela sentia que eu sabia. O meu abraço era um
sinal do respeito que eu tinha por tudo o quanto ela estava
passando desde de muito pequena.
Depois que já estava mais calma, conversamos
longamente. Eu falei mais do que ela, explicando-lhe que
não deveria sentir-se culpada. Era apenas uma garota, uma
adolescente, não tinha forças suficientes para suportar tanto trabalho. Era realmente admirável o amor que tinha pelo
pai, mas já estava na hora de pedir ajuda. Não seria um
sinal de fraqueza, nem de desafeto. Pelo contrário, deveria
mostrar que já estava na hora de encaminhar sua própria
vida, ter seu tempo de estudo, no futuro um trabalho, uma
vida afetiva, com amigos, namorado. Mostrei a ela que os
pais já haviam passado por isso. Também foram adolescentes e precisaram de um tempo para estudar e preparar suas
vidas futuras. Se não fizesse isso, estaria ficando para sempre presa em casa, cuidando do pai até a velhice, não faria
nenhum curso superior, não teria nenhuma preparação profissional e nem realização pessoal. Uma filha não necessita
de abandonar tudo e passar o resto de sua vida com os pais,
para provar o seu amor. Os filhos já nascem para o mundo.
Os pais sabem disso porque fizeram o mesmo caminho. Também saíram da casa paterna e construíram seus próprios lares.
Ela ia enxugando as lágrimas e balançando a cabeça,
sem dizer uma só palavra. Percebi que não teria coragem de
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pedir ajuda. Então resolvi chamar sua mãe para falar por
ela. A primeira reação da mãe de foi um choque. Nunca
imaginara que essa menina encantadora e feliz estava tão
deprimida e tinha tantos problemas na escola. Em casa tudo
estava mascarado. Depois, sentiu-se culpada por toda a situação, até mesmo por não conseguir descobrir o cansaço
da filha. Era obrigada a trabalhar por dois e restava pouco
tempo para cuidar do marido, sobrando quase tudo para
Luana. Mas as duas se davam tão bem e dividiam as tarefas
de modo tão tranqüilo, que nunca passou por sua cabeça
perguntar à filha se não queria uma ajuda, se não gostaria
de dedicar-se mais aos estudos, sair com os amigos, ter um
namorado. A mãe entendeu que Luana estava apenas fingindo ser forte, e que estava fragilizada, carente, sem coragem de se abrir. Não queria decepcionar os pais. A mãe
imediatamente se prontificou a chamar os parentes para
ajudar a cuidar do marido, mas com muita delicadeza, sem
magoar a filha. Mas Luana sabia que o pai não gostaria que
uma pessoa estranha o ajudasse, pois se sentiria muito humilhado. Luana sempre rejeitara ajuda. Queria agradar o pai.
Estava tudo resolvido do lado de lá. Do lado de cá
faltavam alguns acertos. A escola era o lugar onde sentíamos os resultados da mudança. Por isso me reuni com os
professores de Luana e expliquei que teriam que ter muita
paciência com ela, pois estava muito carente e precisaria do
apoio de todos num momento muito difícil. Era preciso
deixar passar algumas coisas, não fazer cobranças, ser mais
amigo. Eu enxergava cada dia da transformação daquela
fada numa adolescente de carne-e-osso. Quando os tios passaram a se revezar para ajudar o pai doente, Luana sentiu-se
muito envergonhada. Era o pai dela. Era ela que deveria
cuidar dele. No início do processo, sentiu-se muito brava,
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não queria conversa nem comigo. Achava que não estavam
cuidando direito do pai e ficava uma fera quando via que
alguém havia machucado o rosto do pai ao barbeá-lo. Aos
poucos foi aceitando, mas em seguida, quando tudo ia bem
e o pai estava até mais feliz por ver sua filha mais livre, independente, e que não significava um peso para ela, Luana
começou a sentir ciúme dos tios. E, no final, quando sabia
que tudo estava realmente em ordem, sentiu um vazio enorme, como se não soubesse o que fazer com aquele tempo
que sobrara sem ter que cuidar do pai.
Foi aí que ela voltou a me procurar e voltamos a nos
entender. Peguei suas mãos e disse-lhe: “Estas mãos de fada
que cuidaram durante tanto tempo do pai doente, agora
são mãos de uma adolescente. Nada de trabalho exaustivo.
Chegou a hora de viver a sua vida. É claro que sem egoísmo. Mas uma pessoa como você nunca pensará apenas em
si própria. Precisa estudar muito, recuperar o que perdeu,
preparar-se para fazer os exames vestibulares, olhar para o
futuro, fazer o seu próprio caminho”. Ela não sabia como
começar. Sempre que imaginava o que fazer, pensava nos
pais junto com ela, como se fosse apenas uma menininha.
Dei uma dica: “Comece indo ao cinema. Que tal?” Ela riu,
achando que era brincadeira, mas eu insisti. Se não gostasse
de cinema, que fosse ao teatro, a um show de música, de
dança, a uma danceteria... Teria que procurar os amigos,
ter seus compromissos, além do compromisso normal com
os estudos. Se não quisesse prejudicar a família, podia até
trabalhar, ter seu próprio dinheiro para custear seus gastos,
ficar mais bonita, arrumar-se...
Ainda tinha diante de mim uma fada. E as fadas são
tão surpreendentes! Nunca imaginam como vivem os adolescentes de carne-e-osso. Mesmo assim, já estava se sentin79
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do mais leve, mais solta. Saiu da minha sala voando e espalhando aquele pó mágico que só as fadinhas adolescentes
têm guardado em suas almas. Ainda guardo um pouco dele
num envelope escrito com tinta rosa: "Luana". E quando
estou diante de desafios, muito cansado, carente, sem acreditar que terei forças para enfrentar os problemas, abro o
envelope e espalho um pouco desse pó mágico em minha
sala. Dali a alguns minutos ouço as risadas de Luana.
Luana concluiu o colegial e ingressou na faculdade
com firmeza e alegria. Soube dividir sua atenção para a família e para sua realização pessoal. Foi difícil atravessar esse
período da adolescência, mas conseguiu. Aprendeu o caminho dos mortais.
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A ESTA HORA EXATAMENTE,
HÁ UMA CRIANÇA NAS RUAS...
Sempre que alguém tocava naquele assunto, Aline
perdia a cor, desconversava, fugia. Se alguém discutia em
sala de aula o problema dos menores de rua, abaixava a cabeça e não dava a sua opinião. Sempre foi assim em todas as
escolas em que estudou. Imaginava que todos haviam descoberto que o seu passado fora miserável e que era apenas
uma menina adotiva, sem valor algum. Em seguida, pedia
para que a mãe a colocasse em outra escola.
Quando Aline chegou à nossa escola, eu já estava a
par de toda essa problemática. Antes mesmo que ela voltasse a repetir o mesmo comportamento, resolvi me aproximar
dela e discutir mais francamente o seu problema. Convidei-a para assistir junto comigo a um documentário sobre a
vida das crianças de rua. Chorou durante todo o filme e
mal pôde enxergar o que eu procurava mostrar-lhe. Sabia
que ela não tinha memória da vida que levara, pois fora
adotada quando era ainda bebê, mas sua mãe, diretora de
uma creche pública, nunca escondera sua origem. Tinha
orgulho por tê-la adotada, pois conhecera a mãe, muito carinhosa, mas que sofria de alcoolismo e não tinha condições
de criar a filha. A mãe biológica de Aline morava embaixo
de uma ponte e nunca soube quem fora o seu pai.
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As cenas são extremamente dramáticas. Crianças seminuas, pais quase sempre alcoolizados para suportar aquela vida miserável. Outras vezes aparecem crianças maiores,
que saíram de suas casas para viver na rua. Drogados, vivem
de pequenos roubos para pagar sua doses diárias de maconha, cocaína, crack. Procurei fazer Aline entender o que
significa cada uma daquelas cenas. Dificilmente vemos estas crianças crescerem, pois a maioria não sobrevive. Quando isso ocorre, a maioria continua vivendo no submundo, e
uma minoria é levada por alguma instituição para ser reintegrada à sociedade.
Aline fazia parte dessa minoria. Sua mãe adotiva havia
trazido Aline para a creche, pedindo que salvasse aquela
linda bebezinha, tirando-a da rua. Era preciso vencer o trauma de ter nascido na rua, ser amamentada no meio da sujeira e dormir enrolada em cobertores sujos, mal protegida
dos ventos cortantes da madrugada. Mais, do que isso, era
preciso que Aline sentisse em si o amor que sua mãe biológica havia colocado nela, protegendo-a da melhor maneira
possível, mesmo com as mão nuas. Foi esse cuidado, esse
afeto, que fizeram engordar e embelezar a pequena Aline.
Quando ela havia chegado à creche, era uma bebê tão bonito, que nem poderia se imaginar que era filha de uma
mãe que vivia na rua. Depois de bem lavada, vestida e alimentada, a sua beleza tornou-se ainda mais expressiva. No
entanto, sentia a falta da sua verdadeira mãe. Chorava demais, quase não dormia, mas aos poucos foi se aproximando
de sua nova mãe.
Fiz com que Aline ouvisse novamente a sua própria
história. E mostrei que ela havia sido salva pelo amor imenso que sua mãe biológica tinha por ela. Todo o sofrimento
que passara não deveria ser esquecido, mas deveria ser guar82
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dado de maneira especial, para que pudesse aprender a construir sua nova vida. Suas condições atuais eram excelentes,
e ele era cercada de atenção e amor, além da lembrança do
sacrifício da mãe para que tivesse todo o conforto material.
Nunca deveria esquecer que a esta hora exatamente, há uma
criança na rua... há uma criança na rua... há milhares de
crianças em todas as ruas do Brasil, em pleno início do século XXI. Todo o seu sofrimento cessaria ao pensar que poderia, como suas duas mães, por amor e generosidade, fazer
com que essa realidade fosse transformada.
Quando o filme terminou, Aline já estava com os olhos
secos e a respiração mais tranqüila, mas sabia que apenas
superaria seu trauma se tivesse o apoio de uma terapia. Depois de alguns meses, Aline procurou-me para dizer que
estava mais segura e que não se preocupava com o que as
pessoas pensavam dela. Era uma filha adotiva, mas não pertencia mais à rua. Durante toda a sua vida, não se esqueceria disso. Não voltaria para lá, e lutaria para que um dia
todos tivessem uma vida digna e feliz, com suas famílias, em
suas casas. Em seguida, abraçou-me, agradecendo os meus
conselhos, e presenteou-me com uma fita gravada com uma
música interpretada por Mercedes Sosa. “A esta hora exatamente, há uma criança na rua...”
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SOBRENOME PATERNO
Sentado no banco do pátio da Universidade, fui surpreendido pela voz de um ex-aluno do Colégio, sentandose ao meu lado:
— Marquinhos, lembra-se de mim? O Cláudio Soares? Meu nome agora é Cláudio Soares Bragança. No registro de nascimento, eu só tinha o nome de minha mãe. Nunca soube quem foi o meu pai, e agora, aos 21 anos, ganhei o
sobrenome de meu pai, Bragança. Além disso, Marquinhos,
agora eu tenho um pai. Conheci a minha verdadeira história. Quando era adolescente, minha mãe teve um namorado e ficou grávida. Mas, meu pai viajou para o exterior e
minha mãe nunca mais teve notícias dele.
"Minha infância foi difícil. Na adolescência, foi pior...
Saber que os outros meninos tinham pai e mãe e eu só tinha
mãe... Mas não revoltado. Minha mãe sempre me deu muito amor, sempre preencheu esse meu vazio, nunca deixou
que me faltasse nada.
"Ser tímido, calado... Acho que, no fundo, eu me envergonhava de não ter um pai... mas não tinha coragem de
cobrar isso de minha mãe, que sempre foi tão dedicada a
mim...
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"Depois ela se casou e aí veio uma outra história. Meu
padrasto até que foi um cara legal, sempre me tratou bem,
sempre ajudou minha mãe a cobrir minhas despesas... Mas,
sabe, não era a mesma coisa, não. Ele não era o meu pai.
Mas, o que eu podia dizer? O nosso relacionamento sempre
foi legal, ele era muito amistoso.
"Eu cresci... passei da adolescência para a infância,
como uma pessoa normal que estuda, não dá nunca problemas maiores... Mas eu sofria calado, sentia que faltava
algo em mim... Não era só no nome ou no registro, era na
vida... Faltava um pai.
"Na época do Colégio, você sempre elogiou a minha
educação, a minha formação, a minha dedicação aos estudos, lembra Marquinhos? Isso tudo, era a minha mãe. Ela
sempre foi uma heroína em minha vida. Ela fazia de tudo
para me educar e preencher a falta que o pai fazia em minha vida. Ela trabalhou, lutou para me dar uma boa escola,
para que eu fosse alguém na vida. Hoje, vejo que a luta de
minha mãe não foi em vão, porque hoje eu estou bem encaminhado.
"Minha mãe me educou tão bem, que quando as coisas apertaram financeiramente, aceitei prontamente a necessidade de procurar emprego. E lá fui eu trabalhar. E foi
muito bom, bom mesmo. Ocupado com os estudos e o trabalho, a minha cabeça não tinha tempo para pensar em
coisas erradas. E o tempo preenchido com estudo e trabalho amenizou bastante aquele vazio doído de meu pai.
"Eu já estava com dezenove anos e nunca soube o que
era ter um pai, e perguntei para minha mãe: Por que isso,
mãe?' Mas, ela tinha uma surpresa para mim: 'Seu pai voltou do exterior e quer conhecer você...'
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"Que coisa estranha, Marquinhos... Depois de
dezenove anos, quando eu quis me abrir com minha mãe e
falar do sentimento que eu tinha de vazio, da falta de meu
pai... E ela vinha com essa notícia. Marquinhos, por incrível que pareça, eu não senti nenhuma revolta dentro de
mim e depois nenhum ato de rancor, não. Era maravilhoso.
Eu queria conhecê-lo. Disse logo: 'Sim, quero conhecer meu
pai.'
"E conheci meu pai. Ele é jovem, muito alegre e simpático. Rapidamente ficamos amigos. Ele explicou que era
muito imaturo quando soube da gravidez, e fugiu... Não
tinha estrutura para assumir o que tinha feito. Egoísta, não
quis interromper os seus planos para assumir o filho que
estava a caminho.
"Parecia castigo, a vida foi dura com ele. Viveu sozinho no exterior, e a solidão fez com que amadurecesse mais
rápido. Passou momentos difíceis e, ao voltar, quis reparar
todo o mal que tinha feito. Me reconheceu como filho seu.
Hoje, ele está bem de vida, tem um bom emprego, não se
casou, não teve outros filhos. Sou seu único filho. Foi ele
quem sugeriu entrar na justiça com um pedido de reconhecimento, e eu concordei.
"Minha mãe é que não gostou muito de me ver tão
amigo daquele que me abandonou e só me reconheceu depois de tantos anos. Ela sempre me perguntava: 'Será que
vale a pena ter o sobrenome de um pai que só o procurou
depois de tantos anos sem nenhuma notícia?' Sabe,
Marquinhos, tomei todo o cuidado para não magoá-la, para
não feri-la... Ela é tudo em minha vida, foi ela quem fez o
Cláudio que sou hoje.
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"Mas eu tinha esse direito, o direito de ter um pai e de
ter o nome do meu pai. A vida me devia isso, poder conviver com um pai, poder trocar idéias com um pai, poder ter
um amigo que eu chamasse de pai. E agora tenho.
"O juiz deu sentença positiva e passei a usar o sobrenome de meu pai. Mudei a certidão de nascimento e todos
os meus documentos. Agora, assino Cláudio Soares
Bragança. Um Bragança que fez minha vida se transformar.
Nossa convivência tem sido bárbara, sempre com muitas
descobertas e muita curtição. Não tenho nenhum sentimento de rancor, porque não posso julgar meu pai. Quem sou
eu para julgar as atitudes de meu pai no passado? Como
posso saber tudo o que aconteceu entre meu pai e minha
mãe, suas dificuldades e imaturidades? Quem sou eu para
julgar as atitudes dele no passado e tudo que aconteceu em
nossas vidas?
"O destino deu voltas, atrasou um pouco seu percurso, mas finalmente nos descobrimos, nos amamos e nos curtimos muito. Isso é o que importa. Não vivo de mágoas do
passado... vivo de felicidades do presente... A felicidade de
ter um pai e uma mãe que me adoram e fazem tudo para
que eu seja feliz.
"Marquinhos, quero lhe dizer que hoje sou muito feliz".
Vi Cláudio se afastar com os passos de uma pessoa segura e feliz.
A vida tinha lhe feito justiça.
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O SEGREDO
Amo todas as histórias de meus adolescentes porque
elas são verdadeiras e como tudo o que é verdadeiro e está
entre a vida e a morte, entre o amor e o ódio, resulta de
crescimento. Mas, entre todas elas, a que mais me tocou foi
a de Ana Helena. Ela sempre me fez lembrar as personagens dos contos de suspense e terror de Edgard Alan Poe.
Ana Helena era pálida, triste, calada, não se enturmava e
deixava claro a vontade de não se enturmar. Vivia solitária
pelos corredores da escola e na sala de aula. Havia um segredo e eu sentia-me atraído a desvendá-lo. Talvez assim,
pudesse ajudá-la a se aproximar dos colegas e a ser mais feliz.
As meninas e os meninos de sua sala eram todos muito
amigos, saíam juntos, um ia na casa do outro, sempre se
comunicavam por telefone. Havia um clima social muito
bom entre eles. Só Ana Helena destoava. O pessoal a convidava, tratava bem, mas ela não correspondia. Não que os
tratasse mal ou simplesmente os rejeitasse, evitava-os com
muita sutileza. Não dava espaço para a aproximação. Fazia
questão de estar sempre sozinha.
Passei a observá-la e percebi que ela acompanhava as
atividades dos colegas à distância, como que almejando estar junto com eles. Tentei uma aproximação, mas também
fui rejeitado. Mas era uma rejeição doce, sutil, como se dissesse: “Eu quero, mas não posso”. Aquilo me intrigava mais
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ainda. Por que ela agia daquela maneira? Fiz novas tentativas, não desisti como os demais. Um dia, Ana Helena deu
espaço. Aí eu entrei. Começamos a conversar, fomos nos
aproximando, devagarzinho. No início, falávamos de banalidades, comentários sobre notícias importantes e sobre preferências culturais. Depois desse primeiro passo, ousei um
segundo, perguntando direta e francamente: “Por que você
rejeita todas as pessoas que se aproximam de você?” Imediatamente, Ana Helena caiu em prantos, como se eu tivesse
tocado e aberto a sua ferida. Acalmei-a, consolei-a e disse:
— Ana Helena, se abra comigo, fale o que acontece
com você. Deixa eu te ajudar.
— Eu não posso ter amigos, pois o normal, entre amigos, é um ir na casa do outro, um ligar para o outro, os pais
levarem e ir buscarem nos lugares, etc, como todos os outros adolescentes. Mas eu não posso, pois minha mãe é alcoólatra, e ela morre de vergonha de mostrar essa realidade
aos meus amigos. Eu já tive amigos, mas eles se afastaram,
por causa das atitudes descontroladas de minha mãe. Passei
muita vergonha, sofri muito e agora desisti de ter amigos. Já
houve épocas em que ela estava bem, mas tem época que
amanhece e anoitece numa chácara, e que na casa deles não
ia ninguém. Meu pai pediu-me que não levasse ninguém lá
e nem deixasse ninguém telefonar.
Bom, eu tinha mexido na ferida da menina. Ela não
tinha pedido, fui eu que procurei, agora era minha obrigação tentar ajudá-la. E tinha nas mãos um grande problema.
Em primeiro lugar, procurei mostrar a Ana Helena que o
alcoolismo poderia ser minimizado, que hoje em dia tinha
até cura, que haviam programas como o Alcoólicos Anônimos, clínicas de desintoxicação e tratamento com psicólo-
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gos e terapias específicas, etc. Animei-a com a idéia de que a
doença da mãe poderia ser resolvida. Era preciso conversar
com o pai para que ele procurasse um desses programas
para a mãe.
Depois dessa conversa, chamei o pai na escola, mostrei
a ele a infelicidade da menina, e que ele tinha a obrigação
de ajudá-la. O pai revelou-me que queria se separar e ir
embora com a filha, mas que Ana Helena não queria. Ponderei com o pai o amor da menina pela mãe, e também da
mãe pela filha, e que a situação poderia ficar muito pior
com a separação, pois aí sim a mãe iria se afundar na bebida. Aconselhei o pai a procurar ajuda para a esposa. Ao
mesmo tempo, fui aconselhando Ana Helena a fazer amizades, sem que precisasse comentar o seu problema com eles
ou levá-los em sua casa. Ela poderia ter amigos na escola e,
enquanto não conseguisse tratar a mãe, a gente poderia arrumar uma desculpa para manter os amigos afastados de
sua casa.
Eu havia interferido em seus problemas familiares,
dando-lhe esperanças de ver tudo resolvido, e agora tinha
que ajudá-la, senão sua vida ia ficar mais difícil ainda, pois
antes ela e o pai tinham encontrado uma maneira de viver
sem expor o problema. Depois que eu trouxe o problema à
tona, tinha obrigação de tentar resolver.
Encontrei uma série de programas de tratamento, alguns gratuitos, outros pagos — e muito bem pagos. Fiz uma
relação e encaminhei ao pai da menina. Ele me pediu que
conversasse com a esposa, convidando-me para ir à chácara. Aceitei o convite e fui visitá-la num sábado pela manhã.
Encontrei Dona Lívia bem, ainda não tinha bebido. Depois das apresentações, pedi para falar a sós com ela. Expli-
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quei todo o problema de Ana Helena, suas dificuldades, o
seu amor pela mãe e do sofrimento que o alcoolismo estava
causando a toda família. Dona Lívia chorou muito, disse
que não era sempre assim, que estavam exagerando, mas
concordou em fazer um tratamento. Ana Helena levou a
mãe para freqüentar os A.A e continuou acompanhando-a
nas reuniões.
Com muita paciência, pai e filha apoiaram a mãe no
difícil processo de abandono do vício. Aos poucos a família
foi conseguindo uma certa tranqüilidade. Minha Ana Helena, que era muito doce, já conseguia sorrir novamente.
Logo fez amigos e até um namorado arrumou. Durante o
tratamento a mãe dela teve recaídas, e foi motivo de muito
desgaste na família, mas se conscientizou de que era uma
dependente do álcool e com o tempo aboliu de vez.
Para mim, o caso de Ana Helena foi um dos mais difíceis, pois me sentia na obrigação de ajudar aquela família,
uma vez que tinha sido eu a mexer na ferida. Mas a minha
vitória foi muito grande, quando no baile de formatura do
3º colegial de Ana Helena, encontrei-a desfilando com a
mãe pelo salão. No copo de Dona Lívia havia só coca-cola.
Sentei em uma daquelas cadeiras macias dos salões de festa
e fechei os olhos: Eu havia conseguido! Podia relaxar.
Tempo depois, eu soube que a mãe passou a ser a coordenadora de um A.A. e que Ana Helena estava cursando
psicologia. Ela havia encontrado o caminho para poder ajudar todas as pessoas que sofriam caladas, sem acreditar que
sempre havia uma solução para todos os problemas.
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A QUEDA
Peter estava passando por uma situação nova e difícil
em casa. Qualquer professor poderia ver isso em seus olhos,
em suas palavras e nas dificuldades por que passou ao apresentar durante as avaliações. Estava extremamente inseguro. Nós nos conhecíamos desde o primário. Sempre foi um
menino alegre, confiante em si mesmo. Mas, quando chegou a 2º colegial, mostrou-se acabrunhado, infeliz. Marcamos uma entrevista com a mãe, pois Peter não queria tocar
no assunto.
Fiquei surpreso quando fiquei sabendo que Peter estava infeliz porque o pai havia voltado para casa. O pai era
aviador e sempre trabalhou como instrutor de vôo em várias cidades. Era um homem muito dedicado e apaixonado
por seu trabalho. Durante vários anos, esteve ausente da
educação do filho e agora, aposentado por apresentar problemas de saúde, convivia com Peter sem conhecê-lo e também sem aceitá-lo. A mãe segredou-me que o marido, além
de sentir-se frustrado por ter sido aposentado e estar sofrendo de labirintite, sentia ciúmes do filho. Queria atenção somente para si, e reprovava todas as atitudes do filho e
o modo como ela o protegia. Do outro lado, Peter irritavase com a presença do pai, que tirou a liberdade que tinha
em sua própria casa.
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Era preciso desatar esse nó, com a ajuda dos três. Comecei o processo de orientação com Peter. Expliquei que
sua mãe havia me contado as dificuldades que estavam vivendo, e perguntei-lhe por que não quis contar-me nada.
Irritou-se com a atitude da mãe e desabafou dizendo que
depois que o pai viera viver novamente com eles, a mãe já
não era a mesma. Não confiava mais nela, só procurava ver
os motivos do pai. Senti que havia ali uma pontinha de ciúme. Viviam um triângulo amoroso. Os dois não queriam
dividir as atenções da mãe. Os papéis estavam muito confusos: quem era o marido? Quem era o filho? E a mãe? Com
quem desempenhava as atenções de mulher e de mãe?
Além disso, em tudo havia um problema muito sério
de falta de relacionamento entre pai e filho. E para complicar tudo, um estranhava o outro porque amava voar, e o
outro nunca pensara em não ficar com os pés presos no
chão. Peter nunca conseguiu gostar de aviões, porque eles
haviam lhe roubado o pai desde menino. A escola sempre
representou para ele o chão com seguro que preencheu
aquele vazio que lhe faltava. Os carinhos da mãe tornaramse excessivos para compensar a ausência do pai, e ele acostumara-se a ser sempre um menino bem cuidado e mimado.
Chinelos nos pés, refeição colocada no prato, café na cama,
banho preparado...
A chegada do pai causou um estranhamento nesse relacionamento tão afetuoso e intenso. Já chegou cortando
esses cuidados extremos, brigando sempre, mostrando que
o filho já era quase um homem, que não era mais um bebezinho. Mas, por outro lado, reclamou para si esses mesmos
cuidados: chinelos nos pés, refeição já pronta no prato, café
na cama, banho preparado, roupa na mão, sobremesas especiais, medicamentos dados na boquinha... Aí Peter não
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agüentou: deveria haver pelo menos justiça. Ou os mesmos
cuidados deveriam continuar para os dois, ou para ninguém,
porque a mãe não era escrava dele. A mãe passou a intervir,
notando que faltava um relacionamento de afeto entre eles.
Mas, quanto mais procurava aproximá-los, pior ficava.
Na primeira orientação com Peter, procurei fazer com
que buscasse lá no fundo da memória o pai que estava adormecido. Aquele estranho um dia fora o seu herói. Um homem que tinha o dom de voar e que um dia mostrara ao
filho como era bonito o mundo visto de cima. Foi se recordando de como o céu estava limpinho, azul e como as nuvens branquinhas passavam pelo avião como algodão doce.
Estava sentado no colo de sua mãe e todos riam muito.
Quando voltou ao presente, ressentiu-se de não poder ser
assim para sempre. Não poderiam estar sempre juntos, porque não estariam sempre voando. O pai sempre estava longe, sempre. Acostumara-se com a idéia e sentia-se magoado
por não ter um pai morando com ele, como todos os outros
meninos. Nunca mais quis voar, nunca. Orientei-o a olhar
para aquele homem como o pai que o pegou pela mão e
levou-o para passear no céu. Combinamos que eu conversaria também com ele, para que pudessem se conhecer e se
relacionar como antes.
Mesmo muito doente, o pai de Peter aceitou meu convite. Chegou um pouco antes e aguardou em minha sala,
observando tudo em volta. Parecia querer saber tudo sobre
o filho, e chegara a envergonhar-se por reconhecer que um
orientador educacional conhecia melhor Peter do que ele.
Foi muito sincero e direto, desde o início. Sempre sonhou
com um filho corajoso, aventureiro, um aviador como ele,
mas descobriu muito tarde que a mãe havia arruinado a
educação do filho. Era muito mimado, pouco criativo, in95
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seguro, nunca seria um bom aviador. O pior de tudo é que
nem se interessava por saber das suas histórias de instrutor
de vôo e nem queria aprender nada sobre aviação. Diante
de suas queixas, apresentei os relatórios dos professores sobre Peter, desde o primário. Era um aluno dedicado, exemplar, carinhoso, querido por todos. Sempre esteve rodeado
de amigos e ajudava a criar um clima de confiança entre
professores e alunos. Expliquei que Peter nunca havia apresentado nenhum problema escolar até o dia em que o pai
havia regressado para casa. E isso era muito estranho. Todo
filho quer o pai de volta. O que estava acontecendo? Não
estaria sendo muito rigoroso com um adolescente que mal
conhecia o pai? Não estaria rejeitando o filho que não tivera
o tempo suficiente para ajudar a educar? Não seria um pouco
de ciúmes o que sentia com relação ao amor que a mãe havia dedicado ao filho durante todos esses anos? Ou não seria um certo arrependimento tardio por ter se dedicado à
atividade profissional, deixando de lado a esposa e o filho.
Sentia-se muito mal, mas queria continuar a conversa.
Respondeu a todas as questões, refletindo sobre cada uma
delas. Era a primeira vez que fazia um balanço de sua situação. Passara tantos anos voando, conhecendo novas cidades, morando um pouco aqui, um pouco ali, sendo hospedado por outras famílias ou dormindo em camas impessoais, inodoras, de hotéis. Nunca tivera um canto que fosse
seu. Conheceu todos os cantos do céu de nosso país, mas
passou despercebidamente sobre a sua própria terra natal e
os seus entes queridos. Tornou-se um homem desconhecido de si próprio. Havia perdido a raiz, e alimentava-se com
a idéia de que era um homem diferente, especial, que amava voar e que havia conquistado o céu mais do que muitos
homens. Ao descer para terra, observava atentamente os pi96
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lotos que retornavam para casa. Recusavam muitos convites
para trabalhos extras, pois queriam estar junto à mulher e
aos filhos. Ele, não inventara a desculpa de que deveria dar
um ótimo padrão de vida para a família, mesmo que tivesse
de ausentar-se durante quase todo o ano. Voltava para os
dias de comemoração de aniversário, Natal, Ano Novo. Era
como se fosse um estranho caridoso que trazia presentes.
Interrompi-o várias vezes para que não se cansasse e
para que não imaginasse que eu estaria ali para reprovar
suas atitudes e valorizar as atitudes do filho. Sabia que tinha
razão sobre o fato de Peter ser muito inseguro, mas mostreilhe que deveria seguir em frente e conquistar o filho novamente. Teriam muito que aprender um com o outro. Saiu
de minha sala ainda muito confuso, e pediu que eu conversasse também com sua esposa.
Durante todo esse processo, procurei não perder de
vista que eu precisava reatar os laços de Peter com a escola.
Meus cuidados com a família não deveriam ser exagerados,
mas havia uma grande abertura para que eu fizesse um bom
trabalho com todos eles. Ao retornar o contato com a mãe
de Peter, pedi que ela fosse um pouco mais exigente com o
filho e mais carinhosa com o marido, pois ele retornava para
casa sentindo-se como se fosse um estranho, mas amava muito
os dois e queria reconquistá-la. O pai deveria passar a
censurá-la no sentido de não exigir demais do filho, passando a protegê-lo. Parecia um bom plano, mas eu necessitava
de reforçar o tripé.
Convidei Peter para mais um encontro e mexi um
pouco mais na sua ferida. Não poderia continuar se esquivando de conhecer melhor o pai e nem de apóia-lo num
momento em que se sentia por demais fragilizado, pois estava doente e afastado do trabalho que tanto gostava. Enco97
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rajei-o recuperar o pai que um dia fora seu herói. Estava
mais aberto, depois que a mãe começara a fazer cobranças e
a ter o pai como seu aliado. Segredou-me que perdera o
medo de voar e que um dia aprenderia a pilotar como pai.
Nesse dia, levaria o pai para rever o céu distante dos seus
sonhos. Sentia muita pena do pai não poder mais pilotar.
Talvez aí esse menino feliz e seu pai herói se reencontrem e
aprendam a retomar o caminho seguro do amor.
Algumas semanas depois, recebi o telefonema da mãe
de Peter, agradecendo-me por ter auxiliado Peter a aproximar-se novamente do pai e a retomar os estudos. Rimos
muito ao descobrirmos que o pai havia aprendido a amar a
terra e o filho fora conquistado pelos mistérios do céu. A
queda do pai iniciara um processo complexo, difícil, mas
saudável. Um voltava, o outro ia. O coração da mãe recuperava o seu ritmo desacelerado. A lei da vida havia recuperado o amor naquela família. Um adolescente perdera o
medo de voar. Um pai tomara coragem para retornar à família para ser amparado por ela e para ampará-la. Uma escola havia conquistado seu adolescente novamente para a
vida acadêmica.
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A AULA DE VÔO
Passava horas com o olhar fixo na lousa. Era dessas alunas que não deixava passar nada. Estudiosa, dedicada. Copiava tudo o que os professores escreviam, mas... mecanicamente. E esperava que as palavras brotassem da lousa com o
gesto mágico de mãos e giz. Preferia o giz branco, que se
destacava no quadro negro. Mas também gostava do giz
colorido, principalmente quando faziam desenhos. Aqueles desenhos desajeitados de professor, quase garatujas de
crianças. Aí, às vezes, ria sozinha. E pensava no mundo maravilhoso de lousa. Ali se faz e desfaz, ali se escreve e se apaga, ali erra e acerta... Um verdadeiro universo com milhares
de galáxias e o pó branquinho do giz a se insinuar como
poeira estelar... Tão lindo. Quando a professora de Literatura apagava rapidamente a lousa, levantava os olhos para
ver o pó se espalhar pelo ar e depois cair lentamente, cobrindo o chão. Nesses momentos, caía na realidade dura,
porque seus olhos esbarravam com as pernas e os pés da
professora, andando pra lá e pra cá... incansavelmente.
Depois, olhava para os seus pés e as suas pernas esticadas
sobre a cadeira de rodas e suspirava. Suspiro longo. E voltava a copiar, mecanicamente.
Nos intervalos, continuava dentro da sala de aula. Ficava de longe observando o burburinho dos colegas que
acordavam para o intervalo. As risadas, as fofocas, as brin-
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cadeiras pareciam estar muito longe. Denise continuava a
fazer anotações, fingindo não estar interessada no que acontecia ao seu redor. E, embora as amigas a chamassem para
sair da sala, permanecia em sua cadeira de rodas como se
estivesse pregada nela e como se ela estivesse pregada ao
chão. Chegar e sair eram, para Denise, movimentos pesados, difíceis, quase impossíveis. Só saía mesmo de casa porque tinha que estudar, vir para a escola. Se não fosse isso
ficaria em casa para sempre, não sairia dali. O seu ninho,
seu aconchego... Apenas lamentaria o fato de não se divertir com a sua amiga lousa. De resto, embora gostasse dos
colegas, das amigas, dos professores, pareciam não fazer falta.
Várias vezes passei pela classe e encontrei Denise ali,
sozinha em sua sala de aula. Parecia estar tão só e tão
envelhecida que até a sala parecia estar mais escura e fria.
Suas roupas eram escuras e os cabelos estavam sempre presos. Havia nela alguma coisa de contido, não sei bem explicar. Talvez fosse um hábito que desenvolvera de economizar
esforços, movimentos. Como se estivesse sempre exaurida,
como se o fato de ter que movimentar as rodas fosse algo
extremamente penoso. Tantas vezes a vi ali que me acostumei a tê-la como um objeto precioso, enigmático, exótico,
de nosso mobiliário escolar. Algo como uma estátua antiga,
daquelas que tempo implacável não teve pena de mutilar. E
embora parecesse morta, havia nela um pulsar, uma estranha energia, como toda obra de arte que nos faz querer
tocá-la, como se estivesse viva.
Vida. Onde Denise estaria escondendo a sua porção
mágica de vida? Como conseguia sobreviver nessa rotina
trancada de casa/escola,escola/casa? Para mim, algum dia
tudo isso viria à tona. O adolescente tem dentro de si uma
bomba relógio, passando dos 15 anos explode com tal vio100
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lência que faz abalar e por abaixo tudo aquilo que pareceia
ser sólido. A cadeia que criara para si própria logo seria
destruída... não sobraria nenhum tijolo, nenuma grade,
nada. Era o destino de Denise. Não adiantava ser deficiente
física, nada a protegeria de ter que viver a vida tal como ela
é, livre, aberta, perigosa... e maravilhosa.
Mas, a escola tem um papel fundamental para fazr
essa bomba relógio explodr. É preciso manter o relógio funcionando e... se preciso for, colocar um especialista em explosões no comando da operação. E ali estava eu,
Marquinhos, o orientador educacional, para manter a rota
do destino de Denise, crescer e ser feliz. E quando eu entrei
naquela sala escura e fria, pensei comigo: "Vamos lá, Denise, está na hora de acordar." Tinha comigo uma boa maneira de começar a minha tarefa explosiva: pedir que fosse a
minha sala para explicar porquê não tem participado das
atividades culturais e esportivas da escola. Fui seco e direto,
como quem estivesse zangado com um aluno indisciplinado:
— Denise, aproveite o intervalo para passar na minha
sala, estou aguardando-a. Por favor, não se demore.
Ela, assustada, perguntou:
— O que aconteceu? Não pode explicar aqui?
— Não, terá que descer como todos. Vai ter que explicar porque é que você anda faltando nas atividades extraescolares.
— Se quiser, explico aqui mesmo. Será que não dá para
adivinhar?
— Estou falando sério.
Virei as costas e saí. Ela ficou emburrada, mas depois,
como toda mocinha disciplinada, resolveu ir até a minha
sala. Parecia que estava descobrindo um mundo novo. Sair
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do caminho de sempre, ter que procurar outros corredores, outras rampas, elevadores diferentes. Quando chegou,
brava, encontrou-me ocupado, escrevendo e sem levantar a
cabeça, falei rapidamente:
— Assine este comunicado para ser entregue aos seus
pais. Aqui estou pedindo que venham conversar comigo para
resolver o problema das suas faltas.
Indignada, Denise gritou:
— Eu nunca faltei às aulas! Isto é um absurdo,
Marquinhos. Eu não vou assinar nada e nem ou pedir para
os meus pais virem aqui.
— Você tem faltado em várias atividades importantes
para uma aluna de 2º grau. O professor de Literatura reclama que você não foi com a sua turma assistir à peça de
teatro que ele recomendou para fazer o trabalho de análise.
O professor de História também notou a sua falta quando
levou os alunos para assistir ao filme sobre a Revolução Francesa. O professor de Geografia não sabe como vai avaliar a
sua participação no trabalho sobre ecologia, porque você
não foi ao Estudo do Meio em Angra dos Reis. Quer mais?
— Só falta você falar que eu estou deixando de participar das atividades de Educação Física?
— Ah, é... ia me esquecendo! Os seus amigos vieram
reclamar que convidaram você para participar da quadrilha da festa junina, que foi organizada pelo professor de
Educação Física, e você virou as costas e nem agradeceu ao
convite.
— Que ridículo! Qual é a de vocês? Resolveram me
atormentar? Logo eu? Já não basta o castigo que me acompanha? Para que forçar a barra? Me deixem em paz!
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— Olha aqui, mocinha... Se você sabe gritar, eu também sei. Não a a chamei aqui para ouvir desaforos. Que
história é essa de mandar para deixá-la em paz? Com quem
você pensa que está falando? Com seus pais, que já se acostumaram com o seu teatrinho de coitadinha? Aqui eu sou
orientador educacional e você é mais uma aluna, como todos. Você não é nem mais e nem menos. Vai continuar gritando? Então, pode pegar o papel e sair. Se quer conversar... e eu acho que você está precisando de uma boa conversa... então, pode ficar.
— Desculpe Marquinhos. Não sei o que deu em mim.
Não sou disso. Eu nunca gritei com ninguém. Ainda mais
com você, uma pessoa que eu respeito tanto! Desculpe...
Já ia começar a chorar, a se maldizer, a cair na acomodação, na rotina de coitadinha... explicando que não agüenta
essa vida de deficiente físico... Então, resolvi disparar o relógio da bomba:
— Você já pensou que poderia viver sem as suas
pernas?
— O quê?
— Isso mesmo. Já pensou que não é bem a deficiência
que está atrapalhando a sua vida?
— Como assim?
—Olhe para você. Faça de conta que é uma pessoa
que pode andar, correr, pular, como qualquer um. As suas
roupas são de uma adolescentes da sua idade? Você não terá
envelhecido demais sem necessidades? Por que não é possível ir a um teatro, a um cinema, viajar, brincar com os amigos na festa junina? Será a deficiência, a cadeira de rodas, a
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falta de infra-estrutura, de auxílio... ou será que você afundou a si própria nessa sua dificuldade?
Ia chorar novamente, sempre balançando a cabeça,
fazendo que sim, concordando com tudo o que ia dizendo.
Então, detonei a bomba, estava na hora de explodir:
— Na realidade, Denise, você é muito covarde. E dificilmente conseguirá prosseguir seus estudos se continuar
assim. Veja, não se trata apenas de ficar olhando para a lousa, de anotar o que os professores falam ou de ler os livros.
Estudar, de verdade, requer mais paixão, ir ao mundo,
conhecê-lo tal como ele é. Teatro, cinema, viagens, festas...
depois palestras, congressos, pesquisas em bibliotecas distantes, análise de documentos em arquivos que não estão
disponíveis na sua casa... Para quê fazer um 2º grau, sem a
pretensão de ir à frente, de constuir uma carreira, de cursar
uma faculdade, uma universidade? E, depois, crescer numa
profissão. Existirá alguma profissão que possa ser levada a
sério se tiver que ser exercida apenas dentro de casa. E o
que a impede de ir ao mundo, de vivê-lo intensamente? E as
pessoas ao seu redor? Não se importa com elas? Não gostaria de acompanhá-las e de viver com elas outras emoções?
Por que fazê-las viver uma vida de clausura, se foi apenas
você que escolheu isso? Me desculpe a sinceridade, Denise,
mas isso é covardia. Você tem medo de viver.
A palavra covarde bateu fundo em Denise. E aquela
máscara de menininha inocente, coitadinha, caiu. E eu tinha diante de mim a Denise/Denise, não a Denise/deficiente. Sim, porque não existe o deficiente, existe uma pessoa. Uma pessoa inteira. Uma pessoa que se quer inteira e
muito mais. Ninguém quer ser apenas um, quer ser mais,
quer ser mil, um milhão. E por isso, quando o adolescente
explode nessa sensação maravilhosa de querer conquistar o
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mundo, não há quem o segure, nem mesmo uma cadeira
de rodas.
Pela primeira vez, não chorou e nem teve pena de si.
Mas, explodiu, e é claro, contra o primeiro adulto que estava diante de si:
— Covarde, eu? Agora é você que está sendo grosso,
Marquinhos. Eu deixei a minha sala, sossegada que estava,
e venho até aqui só para ouvir isso? E é isso que você chama
de conversa? Ora, essa... sabe de uma coisa, vou voltar para
onde eu estava... Dá logo esse papelzinho e essa caneta para
assinar.
No dia seguinte eu tinha diante de mim uma mãe feroz, que queria saber porque eu havia ofendido a sua filha.
Expliquei com toda paciência o meu ponto de vista, de alguém que estava vendo de fora o problema da deficiência
física e da necessidade de fazer Denise continuar crescendo
e se realizando como pessoa. A mâe de Denise compreendeu rapidamente a minha preocupação, porque ela mesma, há muito tempo, estava notando que a filha se tornara
muito amarga e solitária. Prontamente dispôs-se a ajudá-la
e a ajudar-me no plano da explosão. E, de repente, eu não
tinha apenas um filha a descobrir-se e a descobrir as maravilhas da vida... vi também uma mãe, uma mãe incrível, solidária, companheira, carinhosa, forte e muito viva... que
junto com a filha voltava a viver.
De todas as minhas lembranças da minha relação
orientador educacional com a família, esta é a mais bonita.
é a que carrego como quem carrega um objeto querido.
Quando vi Denise libertar-se da cadeira de rodas, voando
por sobre a cidade, sobre o país, junto com ela estava a sua
mãe. Uma mulher de mais de quarenta anaos que havia
conquistado uma beleza que apenas aquelas que sofreram
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demais e encontraram a felicidade podem conquistar. E fico
pensando na dor de todas as mães de todos os adolescentes
deficientes físicos do mundo, com a esperança que um dia
também realizem o milagre de tirar os filhos da cadeira de
rodas, sem, no entanto, terem deixado de estar em uma.
Descobrir que a liberdade está na nossa cabeça e que não
há quem possa nos aprisionar se não quisermos, nem mesmo uma cadeira de rodas...
Depois da explosão, Denise ganhou o mundo. Ou será
que foi o mundo que ganhou Denise? Não sei. Só sei que a
lousa deixou de ser para Denise o universo para voltar a ser
apenas uma lousa. Depois disso, deixou de copiar tudo e a
perguntar mais, a questionar, a dar novas interpretações às
explicações dos professores. Afinal de contas, sabia voar e
trazer para dentro de sala de aula informações colhidas em
outros mundos.
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A RODA DA FORTUNA
A classe média brasileira experimentou nas últimas
décadas do século XX o gosto amargo da crise. Na escola,
encontrei vários alunos que vivenciaram essa crise justamente
no período conturbado da adolescência, quando estão afirmando suas personalidades, opções e projetos de vida. No
entanto, alguns adolescentes conseguem passar por essa dura
prova, tornando-se mais ricos como pessoas, aprendendo a
ver o mundo da maneira diferente, de forma mais simples,
e, ao mesmo tempo complexa. Aprenderam a dura lição da
vida: na roda da fortuna, hoje se tem tudo, amanhã pode
não se ter mais nada. Mas, desta vida não se leva nada. O
mais importante é salvar as relações familiares, apoiando os
pais e os irmãos.
Mas, com Arlito não foi assim. Continuava achando
que poderia manter o padrão de vida anterior e irritava-se
com os pais e os irmãos. Ele, que sempre vestira roupas de
grife, freqüentara bons clubes, academias de ginástica, cursos de inglês, perdeu tudo isso e ainda a sua residência luxuosa. A família teve que ir morar numa casa mais simples,
emprestada por parentes. Aos poucos foi se afastando dos
amigos da classe, pois não poderia continuar freqüentando
os mesmos lugares, e apegou-se mais ainda à namorada. À
distância, Arlito observava os amigos marcando os compromissos de lazer e sentia uma inveja muito grande. Fecha-se e
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tornava-se agressivo. Não queria mostrar que não tinha mais
o mesmo padrão de antes. Em casa, tornou-se amargo, nenhuma proposta dos pais servia, tudo se tornara banal, ridículo. Então, a mãe, desesperada, resolveu me procurar.
Ouvi os pedidos da mãe para que o orientasse no sentido de aceitar a situação e ajudar o pai, pois o clima familiar estava realmente muito difícil. Seria necessário muita
união para enfrentar essa situação de crise. Tranqüilizei a
mãe e chamei Arlito para uma conversa. Mostrei a ele que
ali onde ele estudava existiam inúmeros caso como o dele,
mas que ele nunca prestara atenção. Na sua classe mesmo,
havia uns quatro colegas nesta mesma situação. Era preciso
pensar em como ajudar o pai e não trazer mais preocupações. Sugeri que não se afastasse dos amigos e que trabalhasse para pagar os seus próprios gastos.
Durante todo esse período de crise, Arlito conversou
comigo inúmeras vezes e nem sempre sentia-se encorajado
a enfrentar as dificuldades. Mas, depois de muito tempo,
Arlito aprendeu a conviver com a nova situação, tornandose mais econômico, trabalhador, sem sentir-se inferiorizado
e invejoso. Substituiu o seu antigo orgulho pelo sonho de
conquistar uma vida melhor através do seu próprio esforço,
do seu próprio trabalho. Mas, mesmo assim, nunca perdeu
aquela pose de quem está do outro lado da roda da fortuna.
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ELO PERDIDO
Faltava algo que não saberia explicar, ao notar o baixo
rendimento escolar de Patrícia. A falta de atenção, o desinteresse, a dificuldade de aprender, estavam relacionados com
alguma causa misteriosa. Aquela tristeza que trazia nos olhos
talvez fosse o sinal de um elo que se perdeu na história de
sua vida. Eu precisava encontrá-lo, se quisesse ajudar Patrícia a se interessar pelos estudos e pelo seu futuro.
Primeiro procurei vasculhar a história da sua família e
descobri que era filha de pais separados. O pai havia saído
de casa quando Patrícia era ainda bebê. A mãe nunca escondera esse fato de Patrícia, mas também nunca se animara a procurar o pai para que ela o conhecesse.
Aos poucos fui me aproximando de Patrícia e fomos
criando uma espécie de amizade quase muda, mas envolta
num sorriso puro e sincero que eu nunca vira em seu rosto.
Dividíamos o lanche, falávamos sobre o tempo, sobre as
aulas, os professores, os colegas. Não queria que se sentisse
fracassada, sem condições de acompanhar as matérias. Por
isso, não reforçava suas atitudes de desânimo. Ao contrário,
buscava conhecer seus interesses, as músicas que gostava de
ouvir, os filmes, os livros... Depois voltava a orientá-la para
que anotasse as informações das aulas, que fizesse os exercícios, pedindo que me mostrasse sempre seus cadernos.
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Patrícia foi ligando a mim como uma filha que obedece e quer agradar o pai. Passou a estudar com interesse e
mostrava as melhores notas que tirava nas provas. Como pai
atento, descobria aquelas que ela escondia no fundo da
mochila para que eu não visse que ainda tinha muita dificuldade de aprender. E quando eu brincava com ela sobre
suas malandragens, ela ria sem parar, como eu nunca vira
antes na escola.
Mas quando eu voltava a observa-la à distância, notava que continuava tristonha. Sabia que, com atenção, carinho e incentivo, poderia recuperar-se nos estudos, mas havia ainda aquele elo misterioso que havia se rompido. Resolvi ser mais atrevido e puxar conversa sobre a sua vida familiar. Ela mostrou-se mais reservada, tímida, não querendo
falar muito sobre sua vida, mas notei que amava muito sua
mãe e que também era muito amada por ela. Então, o que a
tornava tão tristonha? Sem graça, segredou-me que desde
muito pequena sonhava conhecer seu pai. Nunca pedira
isso antes para a mãe para não aborrecê-la, imaginando que
se ele nunca mais a procurara... Incentivei seu sonho, mostrando-lhe que era muito humano, principalmente durante a adolescência, quando olhamos para o nosso passado,
nossa infância e queremos construir um novo futuro na vida
adulta. Prometi que conversaria com a sua mãe e ela despediu-se animadíssima.
Conversei com sua mãe e pedi que mostrasse à Patrícia
as dificuldades que poderiam encontrar, mas que estaria ao
seu lado. Informou-me que o pai de Patrícia morava em
outro estado, e entrei em contato com ele por telefone. Atendeu-me com frieza, mas para minha surpresa, atendeu ao
meu pedido e compareceu a uma reunião com a ex-mulher
e a filha. Patrícia nem dormira na noite anterior, pois sentia
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que sonhava acordada. A mãe conversou com ela durante
horas, mostrando-lhe que aquele homem não a conhecia e
não se sentia pai dela. Nunca se importara por saber como
viviam, mas poderia mudar de atitude diante dessa reunião.
Não queria que a filha nutrisse esperanças demais e se machucasse, mas também estava surpresa por ver o pedido da
filha sendo atendido por ele.
Quando se encontraram, Patrícia estava com uma baita
vontade de abraçar o pai. Mas, ele apertou a sua mão com
frieza e sentou-se. Procurei criar um clima agradável,
descontraído, para que ficassem à vontade, mas foi difícil.
Aquele homem estava ainda muito distante. Ouvia tudo
com interesse, mas não se colocava. Queria saber, por mim,
e não pela mãe e nem pela própria Patrícia, quem era a sua
filha. Fiz uma descrição comovente da adolescente meiga e
carinhosa, mas ele parecia acreditar em apenas 10% da
minha fala. Era um homem comedido, de bom senso, e
desejava saber o que queriam dele. A mãe explicou que nunca
o procuraria se não fosse pelo pedido da filha. Ele pareceu
envergonhado, pois pensara que seria cobrado de alguma
responsabilidade. Nada. Aquelas duas criaturas estavam ali
apenas para olhar o homem que ajudara trazer Patrícia para
o mundo.
Diante da frieza do pai, Patrícia se encolheu e apenas
observou intrigada aquele homem que supostamente seria
seu pai. Queria apenas certificar-se de que havia alguma
coisa nele que estava marcada nela: formato do rosto, talvez
o tamanho das orelhas, o perfil do nariz, ou o desenho da
boca... No final da reunião, menos entusiasmada, mas bem
preparada pela mãe, sentia-se recompensada por ter matado a sua curiosidade. Talvez a partir desse dia deixasse de
ficar sonhando com um pai imaginário e nunca se esquece111
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ria daquele homem que fugiu de casa porque não saberia
ser seu pai, indo de encontro ao abraço quente da mãe.
E talvez, diante daquela cena tão comovente, de uma
mãe que nunca havia guardado rancor e de uma filha que
nunca havia julgado o homem que a abandonou desde bebê,
o pai resolveu deixar uma porta aberta para um novo relacionamento. Pediu que Patrícia lhe telefonasse quando quisesse e marcasse um novo encontro para conversarem mais
tranqüilamente. Havia muito o que dizer e aquele não era o
momento certo.
Ali mesmo e num clima frio, nascia um pai tardio.
Feliz, eu sentia-me no direito de distribuir charutos a todas
as pessoas que eu encontrasse no meu caminho. A minha
pequena Patrícia havia realizado o seu sonho e sentia-me
responsável por isso. Era possível vê-la com um brilho renovado no olhar, carregando sua mochila recheada de cadernos bem organizados e de exercícios completos e perfeitos.
Havia descoberto naquele dia que aquele homem não era o
pai com quem sonhara, mas que havia dentro dela um pai
tão mais lindo e perfeito, que a encaminharia para um futuro brilhante.
O elo perdido de Patrícia não estava no passado e nem
no pai que a abandonara, mas no presente e em si própria.
Muitos encontros foram realizados a partir daquela reunião,
mas o pai real se tornara um bom amigo. O pai sonhado,
ela ia mantendo vivo em sua memória, através da mão amiga de um orientador, de alguns bons professores, de um
velho amigo de classe e até, quem sabe, de um namorado
da mãe...
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ÉDIPO REPROVADO
Cássio sempre me lembrou o mito de Édipo. No mito,
o filho reencontra a mãe, sem saber quem era, apaixona-se
por ela, mata o pai desconhecido e é punido com a morte
da sua amada e com a perda da visão. Mas, na história de
Cássio, o seu castigo foi a separação dos pais quando ele
tinha 13 anos. Justamente no momento em que está preparando-se para a fase adulta, mas com uma grande margem
para viver ainda de forma infantil e até irresponsável, com
suas fantasias, seu círculo de amigos e segredos. Desde a
separação fora proibido de viver sua vida de adolescente.
Deixava de ser o filho para encenar o papel do pai ausente.
Na escola, observei que Cássio estava extremamente
agressivo com todos, afastava-se dos amigos e desinteressouse das aulas. Meu Édipo estava preocupado com os problemas familiares, as tarefas de casa, as angústias da mãe. Deixara de ser meu aluno, para ser um adulto forçado. Suas
palavras eram duras. O assunto sempre girava em torno de
problemas adultos.
Chamei Cássio para uma conversa e notei que ele insistia em manter-se neste papel. No entanto, observei que
não procurara assumir o papel do pai por conta própria.
Sempre havia uma referência às opiniões da mãe. Na verdade, Cássio estava reprimindo uma revolta contra as atitudes
da mãe angustiada. Sentia muita pena da solidão da mãe e
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procurava fazer tudo o que ela mandava, mas ao mesmo
tempo odiava viver apenas para isso. Queria voltar a viver a
vida que tinha antes, menos tensa.
Mostrei-lhe que deveria rever o papel que estava assumindo. Não poderia nunca assumir o papel do pai em casa.
Essa lacuna continuaria existindo. Apenas poderia colaborar com a mãe, mas como filho. A responsabilidade maior
seria dela, não dele. Mas de nada adiantou colocar-se ao
seu lado, pois a mãe mantinha as mesmas cobranças. Ele era
um adolescente inútil, que nunca conseguia realizar as tarefas como ela queria. Nada estava bom para ela.
Pedi que a mãe viesse conversar comigo e informei-a
sobre a situação de Cássio na escola. Ele estava extremamente tenso, agressivo e deixava de estudar. Orientei-a a
rever sua relação com o filho, pois ele nunca poderia chegar a ajudá-la a resolver os problemas de casa como um adulto, como se estivesse no lugar do pai. Também chamei o pai
para uma conversa e apresentei um quadro da situação em
casa e na escola. Era preciso estar mais presente na vida do
filho e procurar assumir, à distância, a responsabilidade que
estava caindo sobre os ombros frágeis de um menino de 13
anos.
Ambos entenderam a situação e procuraram melhorar, mas a difícil situação da separação não poderia ser resolvida apenas através de atitudes racionalizadas. O clima
continuava tenso. Cássio continuava a ser um Édipo reprovado pela mãe. Então orientei a mãe a fazer uma terapia
junto com Cássio. No início houve resistência, mas em seguida ela aceitou, por não ver outra saída. Logo observamos as mudanças: Cássio havia voltado a se interessar pelos
estudos, e a mãe estava refazendo a sua vida, mais positiva e
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segura. Cássio estava mais calmo, relacionando-se melhor
com os amigos e professores, além de assumir um namoro.
A mãe também encontrara um novo amor e estava muito
feliz.
O trabalho conjunto do orientador com a família, professores, alunos e especialistas pode contribuir para avaliar
a situação de excesso de cobrança dos adultos sobre o adolescente. Este é o meu papel, o de garantir os direitos dos
meus adolescentes, mas compreendendo as delicadas relações afetivas e sociais que estão envolvidas nesse trabalho de
orientação.
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LUTANDO PELA VIDA
Roberta apareceu no colégio com a perna engessada.
Como sempre faço, fui logo perguntando, na entrada,
como tinha quebrado a perna. Ela pediu para conversarmos a sós, pois esta não era mais uma história de aventura
de adolescente:
— Marquinhos, vou lhe contar um segredo e preciso
de seu total sigilo. Confio em você, mas sinto-me traindo
minha família... Eu, meu pai, minha mãe e meu irmão combinamos que não abriríamos isso para ninguém!
"Meu irmão tem Aids... ou melhor, é soropositivo. Ele
contraiu o vírus numa transa rápida, mas errada... porque
não se preveniu. Não desenvolveu a doença ainda, está fazendo o tratamento com os coquetéis, e apoio médico e
terapêutico.
"Mas, está difícil, Marquinhos... É um pesadelo. Meu
irmão não consegue aceitar. Ele se tranca em casa, nunca
mais saiu nem para um passeio, festa, cinema, nada... A
terapeuta já tranqüilizou minha família de que esse momento de reclusão é normal, influenciado até pela reação
provocada pelos medicamentos. Amigos, nenhum. Todos
ficaram distantes, ele tem tratado todos muito mal. Evita
até uma conversa por telefone. Ninguém entende por que
de uma hora para outra ele se fechou assim.
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"É triste, Marquinhos, a gente ver aquele irmão forte,
cheio de vida, alegre, ali, enfiado dentro de casa. Ele passa o
dia dormindo, lendo, ouvindo música. Só sai mesmo para ir
à terapia e, quando suporta, para a faculdade. Todos nós
entendemos o que ele está passando. Sofremos com ele. Eu
entendo, meus pais entendem, com uma paciência sem
tamanho...
Mas, é aí que vem a história da minha perna quebrada. Estamos sofrendo também com a agressividade dele.
Meus pais são carinhosos, fazem tudo para agradá-lo. Ele
tem tudo na mão, nunca foi tão mimado como agora... mas
ele reage com raiva. Ficou insuportável, está sempre amargo e vive implicando comigo o tempo todo.
"Ontem, na hora do almoço, mais uma vez tive que
suportar seus maus tratos e xingamentos. Foi me chamando
de folgada, espaçosa, me provocando, humilhando... Fui
ficando magoada, depois senti muita raiva e me deu uma
vontade danada de bater nele, de chutá-lo com muita força. Corri para o meu quarto, chorando, bati a porta e chutei a parede sem perceber que estava me ferindo. Já não
suporto mais essa situação, não posso gritar, nem brigar com
ele, que também não tem culpa da sua reação... E acabei
quebrando minha perna.
"Diante dessa situação de sufoco, resolvi mentir e dizer que quebrei a perna ao cair da escada de casa. Mas,
Marquinhos, eu tenho que suportar tudo isso, aprender a
conviver, porque tenho muita pena de meu irmão. Como
será sua vida se ele desenvolver a doença? Não quero que
isso aconteça. Não quero que sua vida seja interrompida no
meio do caminho. Imagino o quanto deve ser difícil conviver com tudo isso...
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"Quero lutar junto com meu irmão, lutar por sua vida.
Ele não merece, ninguém merece, perder a vida assim. É
preciso brigar contra a doença. E eu tenho que ajudá-lo a
superar tudo isso. Sei o quanto ele precisa de ajuda, de carinho. Cheguei até a ler alguns livros sobre essa doença. Descobri que em muitos casos, o amor faz verdadeiros milagres,
que o amor pode retardar tudo e quem sabe até impedir
que a doença se desenvolva... Não sei se é bem isso, foi o que
eu entendi.
"Mas, às vezes, a tensão é muito grande. Sinto ódio,
pena e culpa. Sinto-me culpada por ter raiva dele e ele...
coitado, assim, doente... Meus pais me pedem compreensão, pois ele está muito folgado, mesmo. Eles também sofrem com isso. Você conhece bem meus pais, Marquinhos,
eles não são só amor? Então, imagina só, o quanto devem
estar sofrendo... Acho que até choram escondidos durante
a noite, enquanto dormimos.
"Entendo a amargura de meu irmão, tento ser sua amiga, mas ele me rejeita e diz que não precisa da minha piedade. Sua raiva se voltou contra mim. Parece que é o jeito de
pôr para fora a revolta que ele sente. É só eu botar os pés
dentro de casa e ele já vai começando. Ele implica com tudo
em mim. Sei lá, parece ter raiva de eu ser sadia e ele estar
doente. Será?
"Não tenho resposta para nada. E estou me apegando
a Deus, tenho rezado muito. Foi Ele quem me ajudou a não
estourar com meu irmão, mas acabei ferindo a mim mesma. Quando voltava do pronto-socorro com meu pai, contei toda verdade e ele sugeriu que eu fizesse uma terapia. É
o que eu vou fazer. Não posso e não devo estourar assim e
também não quero ficar louca com essa situação.
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"Pronto, Marquinhos, contei a minha história. Agora
você já sabe por que quebrei a perna. Obrigada por me
ouvir... E não se esqueça... sei que não vai esquecer... sigilo,
sempre, tá? Um dia, escreva a minha história em um de seus
livros... sei que tudo isso já terá passado".
Deu-me um beijo carinhoso e saiu mancando com a
perna engessada. O gesso ainda estava branquinho, à espera dos desenhos e palavras carinhosas dos amigos. Roberta
sabia que ali, no colégio, também poderia sentir-se mais segura e querida. Com aquela conversa ela já havia dado o
primeiro passo: o desabafo. Agora, a ajuda viria com a terapia e com Deus. Teria que ser ainda muito forte para suportar o que viria pela frente. E seria, eu sei.
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REI MIDAS
Nunca se deixe enganar diante de um adolescente rebelde. Nem aceite o rótulo de “aluno problema”. Só usa
esse tipo de vocabulário o educador que deixou de acreditar nos adolescentes. Diante de adolescentes que desafiam a
autoridade, eu prefiro fazer com que experimentem o quanto antes as responsabilidades do mundo adulto, passando a
respeitar as necessidades de regras. Tratá-los como se fossem
criancinhas apenas retarda o processo de amadurecimento
e reforça sua necessidade de enfrentar os pais, professores e
demais representantes das gerações mais velhas. Flávio teve
que aprender a viver com os desafios do mundo adulto, para
colocar de lado a rebeldia e descobrir seu lado dourado.
Flávio entrou para o colégio aos 16 anos. Logo de início percebi que tinha muitos problemas de relacionamento
familiar, pois indispunha-se contra o pai e a mãe
freqüentemente. Na escola, era muito rebelde, não aceitava
hierarquias , autoridade. Com jeito, conseguia-se tudo dele,
mas quando entrava a autoridade, havia atrito. Inteligente,
aprendia com facilidade, mas era problemático em relação
à disciplina. A minha relação com ele era tranqüila. Ele aceitava conselhos e obedecia, era confiante e franco comigo.
Eu ficava entre Flávio e seus pais, tentando orientá-los
e criando alguns momentos de trégua, de paz entre eles.
Mas as crises familiares eram tão violentas, que uma vez che121
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gou a sair de casa por uns tempos, indo morar com os tios.
Depois de muita interferência minha, muitos conselhos,
aceitou voltar para casa, mas resolveu trabalhar como
motoboy para ser independente dos pais. Durante esse período, descobriu que poderia ter uma liberdade relativa.
Trabalhando com a moto, realizava todos os serviços rapidamente e depois se divertia. Fazia verdadeiras loucuras na
moto, mas trabalhava duro, com responsabilidade. O serviço de moto servia mais como uma válvula de escape, como
aqueles meninos da periferia que gostavam de surfar em
cima dos trens em movimento. Na moto em alta velocidade, sentia-se um vencedor que não conhecia obstáculos para
chegar ao seu destino.
No entanto, na escola, continuou na mesma: saía-se
razoavelmente; às vezes tinha que fazer recuperação de várias matérias, mas sempre conseguia passar de ano. Devido
ao seu temperamento, muitos desacreditavam na possibilidade de Flávio conseguir se realizar no futuro; eu, pelo contrário, sempre acreditei nele, pois era do tipo de adolescente que brigava pelo que queria. No entanto, era preciso saber direcionar esse talento para que não se perdesse em brincadeiras e brigas inúteis. Ouvi os apelos do pai e pedi para
que Flávio abandonasse o trabalho de Motoboy. Mostrei a
ele que era um serviço arriscado, pois era obrigado a fazer
suas entregas mesmo sob fortes chuvas e com muito frio.
Com o apoio da família, consegui demovê-lo da idéia de
continuar esse emprego.
Depois dessa fase em que experimentou a sensação de
responsabilidade e de liberdade, Flávio procurou um trabalho onde pudesse crescer e se firmar financeiramente, sem
depender do pai. Logo em seguida, encontrou outro trabalho, numa loja de carros, iniciou como aprendiz e logo “es122
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tourou” como um dos melhores vendedores da loja, ganhando muito dinheiro. Tendo encontrado sucesso, experiência
e maturidade, decidiu trabalhar em outra loja maior, pois
aquela tinha se tornado muito pequena para sua ambição.
Já experiente, uma vez mais consegue dar-se bem e continua ganhando muito dinheiro.
Ao concluir o colegial, Flávio agradeceu minhas orientações e o meu apoio, afirmando a sua confiança em mim.
Mesmo não estudando mais conosco, continuou a me procurar para orientar-se. Flávio havia conquistado um bom
relacionamento com os pais, mas reconhecia que poderia
melhorar ainda mais. As discussões ainda existiam, como se
fosse um velho costume, mas ele sabia responder com mais
respeito, apenas argumentando sobre os seus anseios, direitos, de um modo mais amadurecido.
Um dia entrou em minha sala com alguns projetos na
cabeça e discutiu comigo a viabilidade de realizá-los. Encorajei-o, mostrando que tudo o que fazia com garra e determinação dava certo. Logo em seguida, decidiu abrir sua própria firma com um sócio e conseguiu penetrar no mercado
paralelo de automóveis. Rapidamente se transformou no
maior sucesso do mercado de automóveis: a firma prosperou, a partir das inovações que realizara na administração
dos negócios. Depois de um tempo, voltou a me procurar
para saber se deveria arriscar em novos investimentos, e mais
uma vez dei sinal verde. Sua estava ligada a grandes negócios. Decidi acabar com a sociedade e dirigir sozinho a empresa, que torna a prosperar mais ainda.
Era um verdadeiro “Rei Midas” — sabia diversificar
seu ramo de atuação e, num bom momento, construiu uma
empresa de aviação para a prática de pára-quedismo. Nem
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é preciso dizer que também nessa área continuou a ter sucesso profissional. Toda aquela energia e aquele comportamento agressivo acabou sendo canalizado para a vida dos
negócios, e depois de sentir-se totalmente realizado profissional e pessoalmente, construiu um relacionamento mais
positivo com os pais. A mãe sempre costumava dizer-lhe
que, quando rezava por ele, rezava também por mim, pois
eu o tinha impulsionado para o sucesso, acreditando em
seu potencial.
Hoje, dez anos passados, o relacionamento com os pais
é muito bom, e profissionalmente também está indo muito
bem. Se quando começaram os problemas, não tivesse sido
orientado e amparado, tudo poderia ter sido muito diferente. Por isso preciso acreditar no adolescente, mesmo que
ele aparentemente se mostre como um ser problemático.
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O QUE PODE NOS SEPARAR?
Adriano sempre foi aquele tipo de adolescente que
adora a família e a coloca acima de tudo. E sua família era
enorme. Vivia com os pais, mas durante as tardes ficava com
seus avós. Tinha uma grande admiração pelo avô, com quem
aprendeu tudo, desde os primeiros passos. Meigo e dócil,
conviveu com uma disciplina de anciãos, com uma família
tradicional que o diferenciava radicalmente da educação
da maioria dos adolescentes.
Um dia esse amor e docilidade foram colocados em
xeque. Mal acabara de colocar os pés na casa dos avós, e
deu de cara com um olhar de repreensão do avô. Depois
lembrou que havia furado a orelha e estava de brinco. Talvez fosse isso. O avô não deixou por menos: perguntou nervosamente o que aquele brinco estava fazendo na orelha do
seu neto. E ele explicou que era moda e achou interessante
ter um brinco também. Enfurecido, o avô afirmou que neto
seu não usava brinco porque era homem, não era mulher,
nem era afeminado. O neto retrucou afirmando que isso
era coisa do passado, que homem também ficava bonito de
brinco.
O avô não acreditava nas palavras que iam saindo da
boca do neto; pareciam absurdas; não imaginava que ele
poderia ter educado um neto que fosse contra a sua visão
de mundo, de homem, de beleza e de orgulho. Sentia-se
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ferido, mortalmente ferido. Atacou com um golpe baixo,
daqueles que se usa quando agente sente que está perdendo
a partida: liga para o filho e avisa que o neto estava usando
brinco. Mas, deu zebra: o filho informara que havia dado
permissão para que Adriano furasse a orelha. Último golpe.
O avô desligou o telefone na cara do filho e ordenou que o
neto tirasse aquele brinco se quisesse continuar sendo neto
dele. O garoto, que nem havia tirado a mochila das costas,
virou-se com os olhos cheios de lágrimas e voltou para casa,
deixando atrás de si os soluços e os pedidos da avó para que
perdoasse as palavras duras do avô.
Pensava em ir para casa, mas os seus pés o levaram de
volta para o colégio. O coração pesado, cheio de mágoa,
indicava o caminho: vamos falar com o Marquinhos. Bateu
em minha porta, e logo estranhei aquele brinco miudinho
em sua orelha. Não parecia ser alguma coisa que combinasse com ele. Pediu para sentar e desabafar. Pediu um conselho. Pensei muito antes de falar, pois não queria que eu pensasse que o seu avô tinha toda a razão. Queria que ele entendesse que o avô tinha a razão dele, de alguém que viveu
com uma moral e uma educação em que o homem tem que
ser forte, aparentar masculinidade. O brinco é um tipo de
enfeite que, para a visão de mundo dele, é totalmente desnecessário e, pior, impróprio, pois reforça a vaidade, tributo feminino. Mas antes perguntei qual era a razão do meu
aluno. Por que Adriano teria escolhido usar brinco?
Pensou sobre a vida que levava com a família, seus hábitos disciplinados, sua conduta dentro de normas préestabelecidas, e invejou os amigos que levavam uma vida
sem regras, sem o controle de pais e avós. O brinco foi o
início de um ato rebelde, não contra o avô que tanto amava, mas contra si próprio. Queria ser diferente do que era,
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ser igual aos colegas. Todos estavam usando brinco. Por que
não poderia usar?
Voltamos a pensar sobre o amor que sempre teve pelo
avô e o quanto sentiu-se desapontado ao vê-lo gritando com
ele. Era a primeira vez. Foi horrível. Pior que brigar com o
pai. Então, foi percebendo que não gostaria de vê-lo desapontado, que não merecia ser desrespeitado em sua visão
de mundo e que deveria mantê-lo sempre em seu lugar de
autoridade na família. Era simples. O mais difícil era entender que netos, pais e avós se amam e se desentendem com
freqüência, mas quando conhecem melhor os seus limites,
podem conviver harmoniosamente mesmo com as diferenças. O segredo estava em recuar.
Recuar. Onde e como? Essa era a tarefa que eu havia
deixado para Adriano. Pensar em como poderia conviver
com seu avô sem deixar de ser quem era e sem desrespeitálo. Resolveu que deveria reencontrar com o avô naquele
mesmo dia. Ele estava muito magoado e mais chateado ainda por saber que seu pai havia dado permissão para usar
brinco. No caminho, deveria pensar no que fazer, mais do
que falar. As pernas se incumbiram de o levar de volta, e a
cabeça de fermentar idéias estrambóticas e simples. Quando tocou a campainha, já tinha a resposta: tirou o brinco,
guardou no bolso e esperou pelo olhar de aprovação do
avô. Foi aprovado.
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