Recriação de um antigo estilo de letra MANUEL RODRIGUES PEREIRA DA SILVA [5 de Junho 1930 - 16 de Maio 2008] IN MEMORIAM Em 16 de Maio de 2008 faleceu, em Lisboa, Manuel Pereira da Silva, um dos mais credenciados especialistas portugueses no estudo dos caracteres e da arte tipográfica em geral e, ainda, da letra em si e da caligrafia. Tinha nascido em 5 de Junho de 1930 na Póvoa de Varzim. Aos 25 anos, após curta experiência como tipógrafo, rumou para Lisboa, procurando encontrar um emprego estável. No ano seguinte […] frequentou “um curso de histó- ria e desenho de letra, dirigido pelo calígrafo Alberto Cardoso e supervisionado por Eduardo Calvet de Magalhães”. Em 1964 já Manuel Pereira da Silva trabalhava na Agência de Publicidade “Êxito”, então dirigida pelos escritores Alberto Ferreira e Alves Redol. No ano seguinte fundou a oficina Prograf, “pioneira na produção de provas de tipos e títulos foto compostos como actividade independente”. […] Em 1977 encontrava-se ligado à empresa Trama e, uma dezena de anos depois, dedicava-se já a exposições individuais relacionadas com a tipografia, os caracteres e a escrita. Este técnico e investigador foi, sem dúvida, repetimos, um dos mais profundos estudiosos da problemática do carácter e da letra em Portugal, tendo sido responsável pela criação de várias fontes tipográficas (Rotunda, Andrade, JVentura, Fontanela ou Tialira, entre outras), tendo dado vida, de igual modo, a várias famílias de fontes digitais. […] Manuel Silva na juventude Manuel Pereira da Silva, como investigador da arte tipográfica deixou, entre outras publicações (para além das suas históricas e Caligrafia (Lisboa, 2008, uma vez mais em edição própria folhas volantes que distribuía entre os amigos bibliógrafos), as e com circulação reduzida). edições Faces Romanas. Cem espécies de tipos com duzentas Pode dele afirmar-se, em suma parafraseando uma frase que, e cinco variedades representadas em página própria… Projecta- um dia, Ruben de Carvalho ouviu de um velho tipógrafo, do e composto por Manuel Silva - Editado por Liouher (Lisboa, o Sr. Bastos (pai precisamente do jornalista e escritor Baptista- 1996); o catálogo Rotunda, um semigótico redondo. Recriação Bastos), nas oficinas do jornal O Século que lhe “corria chumbo de um antigo estilo de letra (Póvoa de Varzim, 1997); e, há de nas veias”. uma década depois, no período que antecedeu o seu desapareCatálogo elaborado pela Biblioteca Municipal Rocha Peixoto no âmbito do 80º aniversário de nascimento de Manuel Silva, 5 de Junho 2010. Os conteúdos estão disponíveis em http://ww.cm-pvarzim.pt/biblioteca. Ficha Técnica | Coordenação editorial: Manuel Costa | Pesquisa documental: Lurdes Adriano, Ana Maria Costa | Grafismo: Rogério Nogueira | Data: Junho 2010 | Tiragem: 100 exemplares. cimento, A memória e o carácter - 500 anos de Tipografia MATOS, Manuel Cadafaz de – Manuel Pereira da Silva (1930-2008). In Revista Portuguesa de História do Livro, n.º 23 (Junho, 2009), p. 618-621. Evocação da Póvoa de Varzim […] Entre as tais coisas que para mim são extremamente importantes, está o Comércio da Póvoa. Foi nas suas oficinas que contactei pela primeira vez tinha 5 anos quando a minha incipiente memória registou o facto com os chamados tipos. Meu pai era, à data (1935), encarregado da tipografia do Comércio o contacto ajudou-me a aprender a ler e a escrever, de tal modo que, aos 6 anos, quando fui frequentar umas aulas que o prof. Leopoldino Loureiro dava em sua casa, já eu navegava por entre os “sinaizinhos mágicos”; aos 7 anos fui para a 1.ª classe da Escola Conde de Ferreira, no Largo das Dores, onde o Prof. Loureiro me aturava (ou eu o aturava a ele…) e já lia bem a minha língua; aos 8/9 anos (1939) seguia atentamente a chamada 2.ª Guerra Mundial, pelos mapas que o Primeiro de Janeiro publicava e que o meu “tio” Armando (sapateiro na esquina da rua das Hortas, na intersecção com a Avenida, casado com uma das primas directas da minha mãe), me emprestava, pois nós não dispúnhamos da c’roa para compra do jornal. Cheguei a ver o meu saudoso mestre (que não deixava de ser, de vez em quando, um tanto bruto), de componedor na mão, a “escrever” alguns dos seus artigos para o jornal. O meu pai punha-me, eventualmente, quando o jornal saía (parece-me que à sexta-feira), atrás da malfadada Marinoni, de volante movimentado pela minha avó ou por uma sobrinha, verdadeiras escravas do século vinte, a “aparar” as folhas do jornal, para isso pondo-me um caixote por baixo, para que eu a elas pudesse chegar. Pela primeira vez na minha ainda curta vida senti que através das folhas do jornal por mim mesmo manuseado havia laços fortes entre os seres, naquele caso entre mim, o meu pai, o Agonia Frasco, o prof. Loureiro, os “colaboradores”, os tipógrafos, os assinantes e por aí fora, inseridos todos em alguma coisa maior do que o meu beco (o Beco das Hortas), uma coisa definível como Vila da Póvoa de Varzim. […] Carta de Manuel Silva a Manuel Lopes em 17 de Março de 2004 Manuel Silva na sua terra natal 1983 Assessoria técnica, de propaganda e de demonstração de tecnologia de sistemas avançados de fotocomposição, a firmas representadas na FILGRÁFICA de Lisboa 1984 Estágio na IMPRINTA, Dusseldorf, Alemanha visando estudo do equipamento SCANTEX, tecnologia de ponta para tratamento de texto 1988 Escreve o livro “A Propósito da Revisão Tipográfica…”, obra não editada 1990 Dá uma lição intitulada “Uma História da Letra”, na Escola Superior de Comunicação Social 1991 Cria um catálogo para a TRAMA Artes Gráficas, exemplar considerado significativo na história da tipografia portuguesa 1991-1993 Publica, até esta altura, 2 traduções e 8 originais de uma colecção de folhetos - catálogos sobre artes gráficas, tipografia e história da letra Estes documentos e o catálogo acima referido estão representados em bibliotecas internacionais 1994-Maio Edita o 1º número da 2ª Série de Folhetos Espécime de Tipos intitulado “Joaquim Ibarra, Impressor” 1994-Agosto Atribuição de subsídio da Fundação Calouste Gulbenkian para estudo das questões relativas aos caracteres antigos, tendentes à sua digitalização para serem utilizados como fontes digitais 1994-1997 Trabalha para Richard Ramer, livreiro de Nova Iorque, como responsável gráfico na impressão dos seus catálogos bibliográficos exportados para os E.U.A. 1995 Inicia a recriação de fontes digitais a partir de tipos antigos tais como as fontes Andrade, estudadas sobre a obra de Manuel Andrade de Figueiredo calígrafo português do séc. XVIII 1995-1996 Finaliza a recriação da fonte “Rotunda: um semigótico redondo” e respectivos estudos teóricos sobre o tema 1997 Prepara e realiza os trabalhos gráficos inerentes à Exposição intitulada “A memória e o carácter I – “Rotunda: um semigótico redondo”, realizada na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, Póvoa de Varzim, entre Outubro e Dezembro Neste âmbito organiza e apresenta conferências sobre o tema e sobre outros aspectos da história da letra e da tipografia 1997-Agosto e Setembro Colabora com a revista GRAFpress que publica os seus artigos: “Gutenberg/prototipógrafo”; “Aloísio Senefelder e a litografia”; “João Baskerville de Birmingham”; “Christophori Plantini/ Labore et Constantia” 1998-Abril-27 Participa na “Comemoração do Dia Internacional do Livro – Conferências Ibéricas”, apresentando uma comunicação intitulada “A Tipografia em Portugal”, na Faculdade de Belas Artes, Porto 1999 É professor em cursos de formação profissional da disciplina de História da Tipografia, na “Alquimia da Cor”, Porto 2000-2002 Cria 6 fontes digitais J. Ventura 2003 Cria a fonte Fontanela e 3 fontes Tialira 2003-Abril Prepara e realiza os trabalhos gráficos inerentes à Exposição: “A memória e o carácter – II: Exposição de Caracteres Romanos criados no início do século XVIII pelo calígrafo português M. Andrade Figueiredo”, que decorre na Casa da Cultura da Terceira, Açores. Sobre o tema realiza uma conferência 2004 Cria 6 fontes digitais MBarata e 8 fontes JVilleneuve 2005 Cria 4 fontes digitais Elzevir 2006 Cria 4 fontes digitais Lusíadas 2007-2008 Trabalha no livro “A memória e o carácter - 500 anos de tipografia e caligrafia” sua última obra (ainda inédita) 2008-Maio-16 Falecimento em Lisboa Da paixão à imprimissão ao amor à letra Cronologia Desde o nosso relacionamento descobrimos muitas coisas comuns: na pia baptismal foi-nos dados o mesmo nome – Manuel; ambos 1930-Junho-05 Nasce na Póvoa de Varzim. Filho de Joaquim Pereira da Silva e de Deolinda Rodrigues da Silva 1937-1941 Frequenta a Escola Primária n.º 1, na Póvoa de Varzim 1941-1944 Frequenta o Curso de Comércio na Escola Comercial Rocha Peixoto, Póvoa de Varzim 1936-1944 Aprende com o pai o ofício de tipógrafo na oficina gráfica do Jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim” e na Tipografia do Patronato de S. José, locais chefiados pelo pai 1945 Inicia a profissão de tipógrafo a tempo inteiro na Tipografia e livraria de A. C. Calafate na categoria de aprendiz de 3º ano 1948 Na mesma firma é promovido a meio-oficial tipógrafo compositor; responsável pela composição, paginação e impressão de um jornal semanal local 1951-Junho-13 O pai Joaquim Pereira da Silva emigra para o Rio de Janeiro, Brasil 1952 Faz parte do “Teatro Experimental do Sporting Clube da Póvoa de Varzim” 1953 Contratado como encarregado geral das oficinas tipográficas da Livraria Vasconcelos na Póvoa de Varzim 1955-Maio-30 Preso pela primeira vez pela PIDE. Segue-se Dezembro de 1961 e posteriormente Julho de 1963 1955-1956 Frequenta no Centro Técnico Profissional, em Lisboa, um Curso de História e Desenho da Letra, dirigido pelo calígrafo Alberto Cardoso e Supervisionado por Eduardo Calvet de Magalhães 1956-1965 Inicia a actividade de Cineclubista no Cineclube Imagem 1963-Novembro-30 Casamento Civil com Maria Manuela dos Reis Baptista Cruz 1964-Abril-22 Julgado no Tribunal Plenário da Boa Hora e defendido pelo Dr. Salgado Zenha 1964-Outubro-31 Libertado da cadeia do Forte de Peniche Trabalha na agência de publicidade “Êxito”, com Alberto Ferreira e Alves Redol 1966 Industrial gráfico. Cria a PROGRAF. Pequena oficina de tipografia vocacionada exclusivamente para provas de texto para publicidade, litografia, offset, serigrafia; a 1ª em Portugal com estas características 1966-1967 Assistente numa exposição bibliográfica na sede da Gulbenkian, Paris 1968 Adquire a fotocompositora tituleira “Starlet – Graph”, a 1ª a funcionar em Portugal 1970 Vai à Casa Berthold, em Berlim, comprar a “Diatronic” - a 1ª fotocompositora automática com teclado e computador integrado que veio para Portugal 1970-Abril Funda com os irmãos a sociedade por quotas PROGRAFE, Lda, 1ª empresa em Portugal a vender só fotocomposição para o mercado de arte e indústria gráfica 1971 Funda com o sócio gerente da Trama Artes Gráficas, a empresa de fotocomposição FOTOTEXTO, Lda. Especializada em livro e revista, equipada com o 1º computador para composição de textos “ao quilómetro” que veio para Portugal; uma “VIP” da “LINOTYPE” 1974 Funda com a mulher, irmãos e população da zona o Infantário Popular Ribeiro Santos 1976 Trabalha como profissional liberal na produção de objectos gráficos e também na redacção de textos para os mesmos 1977-Setembro Ensina e demonstra o uso pedagógico da imprensa escolar Freinet 1980 Direcção técnica da secção de fotocomposição da TRAMA Artes Gráficas éramos profundamente anti-fascistas; os dois gostavam da mesma indústria – a tipografia. E aqui tem lugar um esclarecimento: enquanto eu gostava da tipografia como uma forma estética de trabalho realizado com o material existente, pois era filho do dono de uma pequena oficina, Manuel R. Silva não limitava a sua actuação profissional a declarar loas à “menina dos seus olhos”, procurando modernizar o seu funcionamento e considerando úteis as acções tendentes a desenvolver, melhorando, todos os “ensinamentos” positivos recebidos, com o fim de atingir os objectivos projectados. Estas declaradas afinidades (outras, sem interesse, poderiam ser referidas) trouxeram à memória um episódio que seria ridículo se não fosse pungente para os nossos “verdes anos” (verdes mas não irresponsáveis). Contemos; a PIDE, a maléfica e desumana polícia que sustentava a ditadura, procurava desmantelar o MUD juvenil, aprisionando os elementos denunciados à custa de sevícias e outros tratamentos cruéis. Buscava na Póvoa um Manuel Tipógrafo e, na sua arbitrariedade (abuso de autoridade, despotismo, prepotência), enclausurou o Manuel Silva, tipógrafo de profissão mas, que na altura, não era membro de qualquer oposição organizada, não “desconfiando” (?) que na Póvoa de Varzim havia outro Manuel também anti-fascista, também “tipógrafo”. Ou algo de semelhante. Prossigamos. O incansável desejo de Manuel Silva para aprofundar e diversificar o seu já grande conhecimento de tipografia e do que a ela dissesse respeito e fosse importante levou-o a estudar as diferentes e sábias descobertas experimentadas e divulgadas ao longo dos séculos, tanto na impressão como na composição – e na encadernação – mas, principalmente, no desenho da letra. Terá nascido desse laborioso estudo a colecção dos seus desdobráveis/pedagógicos que se iniciou com a publicação do artigo intitulado “Tipografia Disciplina do Espírito” a que se seguiu um outro sobre a “Origem do sinal de parágrafo”, sinal gráfico que chegou até nós vindo do distante século XV, sem desdenhar, contudo, do desenho e do emprego que lhe era dado pelos copistas – antes da invenção e boa aplicação da tipografia; estes artigos didácticos e de divulgação, prosseguiram com outros versando sempre a tipografia e suscitando por vezes, o seu pertinente comentário como este sobre as letras: Nos tempos modernos, os caracteres ”grotescos” conhe- ceram uma grande voga, revolucionando profundamente o aspecto do livro e do impresso. Manuel Silva orientou a sua atenção para o percurso previamente “desenhado” e onde se situam os artistas que maior impacto tiveram quer no florescimento quer na renovação da tipografia ou, mesmo, no desenho da letra: “O impressor João Baskerville”, “João Baptista Bodoni, tipógrafo”, “Aloísio Senefelder e a litografia”, “Christophori Dlanti-Labore et Constantia”, Didot, Nicolau Jenson, “Joaquim Ibarra, Impressor”, e outros que graças à sua inventiva e trabalho (compositores, impressores, desenhadores…) souberam abrir uma frutuosa “janela” no edifício da arte negra e que são, nos dias de hoje ainda, reconhecidos orientadores de trabalhos gráficos: livros, folhetos, impressos vários, jornais, publicidade inclusive. A necessidade de fazer disciplinar o estudo da tipografia e da letra levou-o a participar na sua divulgação pedagógica, pugnando pela importância cultural desta profissão, direccionando a sua intervenção para os estudiosos, divulgando, na medida do possível, os seus conhecimentos. O que, presumimos, o terá levado a organizar, a primeira (e única, pensamos) exposição realizada na Póvoa, recriando um “antigo estilo de letra”, iniciativa que teve por “palco” o átrio da Biblioteca Municipal Rocha Peixoto e deixou como lembrança um “texto de apoio à exposição “Rotunda – um semigótico redondo”. […] Contudo, a especial atenção por si dedicada à tipografia e a todas as coisas que a rodeiam levaram Manuel R. Pereira da Silva a elaborar um pequeno e não exclusivo Glossário que ocupa as três páginas finais de um trabalho sobre “as técnicas e os materiais da imprensa escolar”. Essencialmente destinado a preservar algumas designações utilizadas profissionalmente nos dias de hoje – será difícil, sobretudo neste tempo de manifesta “invasão tecnológica encontrar-se quem saiba o que é um compenedor, ou o que é o original, ou então, um quadrilongo, etc. – é, ao mesmo tempo, um sereno aviso para quem tem responsabilidade de salvaguardar os termos utilizados pelos nossos avoengos, termos caídos em desuso, muitos foram esquecidos, mas que, a nosso ver, continuam a pertencer ao nosso património. […] Terminamos este apontamento relembrando que no dia 20 do passado mês de Abril, em Castelo Branco, durante a realização do I Congresso Internacional de Investigadores de História e Artes Visuais, um grupo de amigos de Manuel Rodrigues Pereira da Silva homenageou postumamente o “mestre” gráfico poveiro, estando a cargo do Prof. Doutor J. Antero M. Ferreira, seu excelente amigo, a apresentação da vida e da obra do nosso conterrâneo. E perguntamos: “Manuel Silva não merecerá que na Póvoa de Varzim lhe seja prestada idêntica homenagem?”. FRASCO, Manuel – Da paixão à imprimissão ao amor à letra. In O Comércio da Póvoa de Varzim, ano 105, n.º22, (4 de Junho de 2009), p. 6. Um tipógrafo completo Conheci o Manuel numa sexta-feira chuvosa (seria água benta?!) na Póvoa de Varzim, em 1997, por ocasião da sua exposição de redesign digital de caracteres antigos. Depois de ouvir atentamente as suas palavras vigorosas e genuínas, dirigi-me a ele e disse: Acabou de me sair o Totoloto! Na verdade, naquele momento tinha acabado de conhecer o português que mais me iria marcar no doutoramento que tinha iniciado na Universidade de Barcelona (em finais de 1955) sob a orientação do professor Enric Tormo, um “guru” da tipografia mundial. Desde esse encontro até ao dia em que “partiu”, nunca mais deixámos de nos falar, ajudar, confidenciar, apoiar mutuamente; numa relação de mestre-discípulo e amizade profunda. Apesar do enorme respeito que tínhamos um pelo outro, eu sempre considerei, e considero, o Manel a pessoa que mais sabia sobre a arte e paixão que nos unia: a letra, a escrita, a caligrafia e a tipografia. Em Portugal, tudo o que aprendi de mais significativo nestas áreas foi por seu intermédio. Foram inúmeros os encontros (Lisboa, Porto, Póvoa de Varzim), os telefonemas (pela noite dentro…), a correspondência trocada, os quais acabaram por me valer uma “segunda” licenciatura aquela que nunca tive, porque os meus professores, com o devido respeito, sabiam de tudo menos de tipografia como o Manel sabia. Isto não tem preço, nem propinas! Tratava-se de uma relação única, de dar e receber constante em que eu me aperceberia mais tarde, e como ele me alertava constante e paternalmente que teria de “pagar” com uma exemplar tese de doutoramento; igualmente, sentia que o meu eu (nesta investigação) era uma espécie de prolongamento do seu pensamento e labor. Graças ao persistente apoio e às rigorosas revisões ortotipográficas que penhoradamente recebi do Manel, em Junho de 2003, finalmente defendi publicamente a “nossa” tese (Antero/Tormo/Manel), contando mais uma vez, com a sua presença, assim como com a da sua maravilhosa esposa, Manela. […] O Manel partiu (16 de Maio de 2008), mas a sua presença mantém-se viva na minha memória. “Falo” com ele quando penso, comunico, trabalho, investigo; continuo a sentir a sua herança, presença e sábias opiniões. As letras que recriou e desenhou, os escritos, os livros que produziu (edição do autor) e coleccionou são um legado único para a história da tipografia portuguesa; os livros ímpares que criteriosamente juntou ao longo da sua vida representam um valor incalculável, no sentido em que foram apadrinhados estrategicamente com um único objectivo indivisível e humanista: servi-lo, a ele e a quem os procurar! Por outro lado, a sua biblioteca inclui não só os maiores paradigmas da tipografia nacional e mundial, como servirá de exemplo a todos os bibliófilos, pois todos os livros estão irrepreensivelmente cuidados, restaurados e conservados, muitos deles pelas suas próprias mãos. Termino com uma das opiniões (minha interpretação) mais lapidares do Manel e que retrata a sua personalidade convicta e inamovível. Num texto, um único erro ortográfico é uma vergonha, é inaceitável torna o texto, o livro e o trabalho do tipógra- fo e do designer em absolutamente nada! […] Obrigado, Manel! FERREIRA, Antero – Um tipógrafo completo. In O Comércio da Póvoa de Varzim, ano 105, n.º 17 (30 de Abril de 2009), p. 6-7. . Aspecto do gabinete e da Biblioteca particular de Manuel Silva Manuel Silva junto à exposição “Rotunda - um semigótico redondo”, da sua autoria (Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim, 1997)