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Mauro Mendonça
Em Busca da Perfeição
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Mauro Mendonça
Em Busca da Perfeição
Renato Sérgio
São Paulo, 2009
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Governador José Serra
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo
Diretor-presidente Hubert Alquéres
Coleção Aplauso
Coordenador Geral Rubens Ewald Filho
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Apresentação
Segundo o catalão Gaudí, não se deve erguer
monumentos aos artistas porque eles já o fizeram com suas obras. De fato, muitos artistas são
imortalizados e reverenciados diariamente por
meio de suas obras eternas.
Mas como reconhecer o trabalho de artistas ge­niais
de outrora, que para exercer seu ofício muniramse simplesmente de suas próprias emoções, de seu
próprio corpo? Como manter vivo o nome daqueles que se dedicaram à mais volátil das artes, escrevendo, dirigindo e interpretando obras-primas,
que têm a efêmera duração de um ato?
5
Mesmo artistas da TV pós-videoteipe seguem
esquecidos, quando os registros de seu trabalho
ou se perderam ou são muitas vezes inacessíveis
ao grande público.
A Coleção Aplauso, de iniciativa da Imprensa
Oficial, pretende resgatar um pouco da memória
de figuras do Teatro, TV e Cinema que tiveram
participação na história recente do País, tanto
dentro quanto fora de cena.
Ao contar suas histórias pessoais, esses artistas
dão-nos a conhecer o meio em que vivia toda
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uma classe que representa a consciência crítica
da sociedade. Suas histórias tratam do contexto
social no qual estavam inseridos e seu inevitável reflexo na arte. Falam do seu engajamento
político em épocas adversas à livre expressão e
as consequências disso em suas próprias vidas e
no destino da Nação.
6
Paralelamente, as histórias de seus familiares
se en­tre­la­çam, quase que invariavelmente, à
saga dos milhares de imigrantes do começo do
século pas­sado no Brasil, vindos das mais variadas origens. En­fim, o mosaico formado pelos
depoimentos com­põe um quadro que reflete a
identidade e a imagem nacional, bem como o
processo político e cultural pelo qual passou o
país nas últimas décadas.
Ao perpetuar a voz daqueles que já foram a própria voz da sociedade, a Coleção Aplauso cumpre
um dever de gratidão a esses grandes símbolos
da cultura nacional. Publicar suas histórias e personagens, trazendo-os de volta à cena, também
cumpre função social, pois garante a preservação
de parte de uma memória artística genuinamente
brasileira, e constitui mais que justa homenagem
àqueles que merecem ser aplaudidos de pé.
José Serra
Governador do Estado de São Paulo
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Coleção Aplauso
O que lembro, tenho.
Guimarães Rosa
A Coleção Aplauso, concebida pela Imprensa
Ofi­cial, visa a resgatar a memória da cultura
nacio­nal, biografando atores, atrizes e diretores­
que compõem a cena brasileira nas áreas de
cine­ma, teatro e televisão. Foram selecionados
escri­tores com largo currículo em jornalismo cultural para esse trabalho em que a história cênica
e audiovisual brasileira vem sendo re­constituída
de ma­nei­ra singular. Em entrevistas­e encontros
suces­sivos estreita-se o contato en­tre biógrafos e
bio­gra­fados. Arquivos de documentos e imagens
são pesquisados, e o universo­que se recons­titui
a partir do cotidiano e do fazer dessas personalidades permite reconstruir sua trajetória.
7
A decisão sobre o depoimento de cada um na primeira pessoa mantém o aspecto de tradição­oral
dos relatos, tornando o texto coloquial, como se
o biografado falasse diretamente ao leitor­.
Um aspecto importante da Coleção é que os resul­­
ta­dos obtidos ultrapassam simples registros­ bio­
grá­ficos, revelando ao leitor facetas que também­
caracterizam o artista e seu ofício. Bió­grafo e bio­
gra­fado se colocaram em reflexões que se esten­
de­ram sobre a formação intelectual e ideo­ló­gica
do artista, contex­tua­li­zada na história brasileira­, no
tempo e espaço da narrativa de cada biogra­fado.
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São inúmeros os artistas a apontar o importante
papel que tiveram os livros e a leitura em sua vida,
deixando transparecer a firmeza do pensamento
crítico ou denunciando preconceitos seculares que
atrasaram e continuam atrasando nosso país. Muitos mostraram a importância para a sua formação
terem atuado tanto no teatro quanto no cinema e
na televisão, adquirindo linguagens diferenciadas
– analisando-as com suas particularidades.
8
Muitos títulos extrapolam os simples relatos­bio­­­
gráficos, explorando – quando o artista permite –
seu universo íntimo e psicológico­, reve­lando­sua
autodeterminação e quase nunca a casua­lidade
por ter se tornado artista – como se carregasse
desde sempre, seus princípios, sua vocação, a
complexidade dos personagens que abrigou ao
longo de sua carreira.
São livros que, além de atrair o grande público,
inte­ressarão igualmente a nossos estudantes,
pois na Coleção Aplauso foi discutido o processo
de criação que concerne ao teatro, ao cinema e à
televisão. Desenvolveram-se te­mas­como a construção dos personagens inter­­pretados, a análise,
a história, a importância e a atua­lidade de alguns
dos perso­nagens vividos pelos biografados. Foram
exami­nados o relacionamento dos artistas com
seus pares e diretores, os processos e as possibilidades de correção de erros no exercício do teatro
e do cinema, a diferença entre esses veículos e a
expressão de suas linguagens.
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Gostaria de ressaltar o projeto gráfico da Coleção
e a opção por seu formato de bolso, a facili­dade
para ler esses livros em qualquer parte, a clareza
de suas fontes, a icono­grafia farta e o regis­tro
cronológico de cada biografado.
Se algum fator específico conduziu ao sucesso
da Coleção Aplauso – e merece ser destacado –,
é o interesse do leitor brasileiro em conhecer o
percurso cultural de seu país.
À Imprensa Oficial e sua equipe coube reunir
um bom time de jornalistas, organizar com eficácia a pesquisa documental e iconográfica e
contar com a disposição e o empe­nho dos artistas, diretores, dramaturgos e roteiris­tas. Com a
Coleção em curso, configurada e com identidade
consolidada, constatamos­que os sorti­légios que
envolvem palco, cenas, coxias, sets de fil­ma­
gem, textos, imagens e pala­vras conjugados, e
todos esses­seres especiais – que nesse universo
transi­tam, transmutam e vivem – também nos
tomaram e sensibilizaram.
9
É esse material cultural e de reflexão que pode
ser agora compartilhado com os leitores de to­
do o Brasil.
Hubert Alquéres
Diretor-presidente da
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo
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Introdução
Mestre Nelson Rodrigues já dizia: O ser humano
é capaz de tudo, até de amor sincero, só não é
capaz de ser imparcial. Isso é uma verdade assustadora, aliás, como tudo, ou melhor, quase
tudo que ele definiu, falando e escrevendo.
Mas há exceções, uma delas exatamente aqui.
Porque, embora admirador desse grande ator
(com alma de comediante) chamado Mauro
Mendonça, consegui ser imparcial. Deve ter sido
porque a riqueza da vida íntima e profissional
dele dispensa não só parcialidades, mas também
truques, disfarces, imagens, metáforas, adjetivos,
elogios ou críticas, cabalas, cambalachos, cambalhotas literárias, rapapés e salamaleques. Basta
ouvi-lo, ou melhor, saber ouvi-lo (é meticuloso
e detalhista, campeão dos pormenores, minúcia
é com ele mesmo: em cada reencontro tem sempre alguma pequena retificação ou acréscimo
ao que disse na conversa anterior). O problema
é conseguir ouvi-lo, coisa que no labirinto das
escalas praticamente diárias de gravações só
acontece jogando xadrez, gamão e sinuca com
o calendário e o relógio, com muito engenho e
arte, de preferência, se possível, com um duende
básico a tiracolo.
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Mas vale a pena esperar pelas brechas da agenda
e o risco que se corre de que elas sejam poucas e
breves, porque o homem tem é o que contar!
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Cercado de mães, pai, irmãos, filhos, netos e
personagens em dezenas de porta-retratos de
todos os tipos e tamanhos, ele mexe e remexe em velhos e montanhosos compartimentos
mineiros íntimos, vai ao fundo dos seus baús
internos e se desnuda como num remake de
Dona Flor em que fosse não Teodoro Madureira,
mas Vadinho, o outro marido. Então a memória
dele se acende, enquanto o cachimbo se apaga,
repetidas vezes (e o isqueiro, pléc, pléc, pléc,
custa a funcionar).
12
Na verdade, tudo nele, a vida toda, foi tão rico e
tão intenso que certas passagens seriam cômicas se
não fossem trágicas e vice-versa. De vez em quando
até dá impressão – e aqui não vai nenhum exagero – de que a gente está diante de uma sinopse
de novela. Nada mais coerente, aliás. O velho
menino tímido de Ubá transformou-se, pouco a
pouco, palmo a palmo, palco a palco, personagem
a personagem, tela a tela, tipo a tipo, em uma das
expressões mais autênticas dessa grande arte que
é fingir que somos outros. Ser e não ser.
Era uma primavera carioca suave como poucas,
nesta cidade que um dia já foi maravilhosa, com
temperaturas civilizadamente suportáveis, entre
uma e outra frente fria que – contrariando famosa frase de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta
– o Rio de Janeiro não conseguiu desmoralizar.
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Foram sempre em fins de tarde, nossas conversas,
com aquele vozeirão tonitruante ecoando pela
mata atlântica, tendo como imponente testemunha silenciosa, a Pedra da Gávea – que nasceu
com o mundo e com ele vai morrer – do alto de
seus 842 metros de altura e seu desenho nítido
de um rosto humano esculpido pela chuva, o
vento e o tempo que não pára.
Parecia um flashback. Pisando aqueles paralelepípedos, a caminho do casarão onde ele
mora, a sensação era de ter voltado a um Rio
antigo do qual não sobrou nada, só saudade.
De repente, poderia haver o olhar de mormaço da Capitu de Machado de Assis em alguma
janela do caminho, a contar meus passos. Ou,
a qualquer momento, eu poderia ter a subida
honra de cruzar com o João Romão de Aluísio
Azevedo, quem sabe até com o próprio João
Paulo Alberto Coelho Barreto – também registrado João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos
Barreto – essencialmente João do Rio, flanando
pela alma encantadora daquela rua bucólica do
bairro carioca de São Conrado, sem nem sombra
de qualquer espigão pra quebrar o encanto,
enfim o clima.
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Sensível, aplicado, buscando a perfeição em
seu ofício, eis aqui alguém que se aprimorou a
vida inteira. Assim se pode sintetizar a trajetória
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desse mineirinho danado, tão cuidadoso com
seu ofício que, texto já decorado, na ponta da
língua, passa todas as falas com outros atores,
para estar nos trinques, na hora do gravandooooo! Dono de uma incansável capacidade
de trabalho, no caso dele, de luta. Atravessou
muitos mares e vários desertos de todos os tipos
(não só os cenográficos). Enxugou tempestades
particulares, maremotos emocionais. E depois
de muitos palcos e estúdios, paulistas e cariocas,
chega agora até nós, de cabeça recauchutada e
alma reconfigurada, com a pelo menos aparente sensação do dever cumprido, portanto, bem
perto da chamada santa paz com (quase) tudo
e (quase) todos, inclusive a crítica. E principalmente – que é o mais importante – com ele mesmo, depois de 39 peças de teatro, 53 novelas,
8 minisséries, 18 teleteatros, 23 participações
em seriados, 15 Casos Especiais e 19 filmes, em
exatamente 53 anos de carreira profissional,
contados desde o dia 20 de dezembro de 1955,
quando recém-contratado pelo TBC, o histórico
Teatro Brasileiro de Comédia, ele participava
da primeira leitura da peça A Casa de Chá do
Luar de Agosto.
Esse é Mauro Pereira de Mendonça, nome de
personagem de romance água-com-açúcar,
destino de grande ator, que entre mil e uma
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façanhas cênicas exercidas no teatro, no cinema e na televisão, contracenou com Cacilda
Becker, esse sim, um dado mais que suficiente
para coroar com fecho de ouro e grand-finale,
qualquer biografia.
Mas ele tem outras cartas na manga do currículo, conforme a gente pode ficar sabendo. É
só virar a página.
Renato Sérgio
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Capítulo I
O Sonho: De Ubá ao Jardim das Delícias,
via Shirley Temple
Sem nem olhar pra trás, eu entrava depressa
no vagão vazio, mas cheio de vozes e risos. Na
minha mão esquerda, a passagem já meio amassada que eu tinha apertado tanto, com medo de
perdê-la. Na direita, a leveza da mala sem nada
dentro, embora fechada com todo cuidado, tinha até cadeado. Sentava na poltrona, suspirava
fundo e, através do vidro da janela, dava um
lento adeus para a estação deserta. Só que esse
trem imaginário apitava uma, duas, três, muitas
vezes, e não saía do lugar.
17
Mais do que um sonho, repetido várias noites,
aquilo para mim era um verdadeiro êxtase. Uma
deliciosa sensação de pura e quase palpável realidade, pena que no final virasse abóbora. Eu acordava, ofegante. Porque era tão grande e tão forte
meu desejo de um dia transformar em verdade
aquela imensa vontade de ir pro Rio de Janeiro,
que tudo parecia estar acontecendo mesmo.
Naquele tempo, a Leopoldina Railways passava
todos os dias às 10 da manhã, vinda de Ponte
Nova, rumo ao Rio, aonde chegava por volta das
cinco da tarde. Era o Expresso.
Mauro, aos 6 meses de idade
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E toda vez que não tinha aula, a gente ia ver
aquele trem passar. Meus pensamentos galopavam, tentando imaginar o que aquele pessoal
que estava dentro dele ia fazer na cidade que
um dia, se Deus quisesse, eu haveria de conhecer
(e Ele haveria de querer que eu conhecesse).
18
Eu morava em Ubá – terra de Ari Barroso – Minas Gerais, onde nasci a 2 de abril de 1931, sob
o signo de Áries, num bangalô, já derrubado,
em frente à sede da famosa Banda 22 de Maio.
Depois moramos num casarão que tinha pé de
jambo no quintal, de meu avô, um comerciante
abastado chamado Francisco Galdino da Silva
Padilha, na esquina do Beco do Padilha com
Rua Peixoto Filho. E, finalmente, na Rua Coronel
Júlio Soares, 802, no bairro do Caxangá. Sou o
último de sete irmãos sem nenhuma irmã: Francisco Galdino, Alceste, Marcelo, Euclides, Jacob,
Olavo (subcaçula que disputava comigo as prerrogativas da caçulice) e eu. Filhos de Maria dos
Santos Padilha de Mendonça, a Dona Santinha,
do signo de escorpião, viúva desde os 44 anos
do Dr. Euclides Pereira de Mendonça, escorpião
também, advogado e promotor público, homem
sério, mineirão íntegro que morreu cedo e eu
nem cheguei a conhecer.
Na verdade, tive duas mães. A outra era Francisca
de Assis Alvim, a Chica, do signo balança, criada
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desde jovem lá em casa, solteira-virgem a vida inteira, transformada em nossa mãe-preta-postiça,
de criação, solidária e amiga, embora contasse
histórias terríveis de monstros, mulas-sem-cabeça
e fantasmas de todos os tipos, ameaçando, a
cada peraltice nossa, que o perna-de-pau ia
nos pegar. Em compensação, sempre entrava
de pára-raios nas situações domésticas mais delicadas, quando a paciência de Dona Santinha
chegava perto do limite.
Os pais, Maria dos Santos Padilha de Mendonça
(Dona Santinha) e Euclides Pereira de Mendonça
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À esquerda, D. Francisca de Assis Alvim, mãe-pretapostiça; e acima, sentados, a partir da esquerda, Francisco
Galdino, o irmão mais velho e esposa Marta Azevedo
Mendonça, com a mãe entre eles; e Alceste, o 2o irmão,
em pé, a partir da esquerda; Marcelo, o 3o irmão; Euclides,
o 4o irmão; Mauro, o caçula (15 anos); Olavo, o 6o irmão; e
Jacob, o 5o irmão, em 1946
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Fui menino tímido, meio medroso até. No circo
dos Fuzaro – a família que criou o refrigerante
Mineirinho – havia uma grade na minha frente,
simbolizando a fronteira entre o mundo real e
o da fantasia, me separando daquilo do qual
eu queria participar e não conseguia. Tinha um
portão na minha vida, um portão psicológico e
também social. Então eu ficava olhando a parte
dos fundos do circo, assistindo de longe, imaginando, viajando, como se eu não tivesse acesso
àquilo do qual gostaria de participar. No trapézio,
por exemplo, nunca teria coragem de subir. De
cavalhada também não gostava, por causa dos
tiros. Tenho um troço aqui dentro de mim, devo
ter morrido violentamente na outra encarnação,
porque tenho verdadeiro pavor de violência. E,
quando criança, além de franzino, eu era assim
meio receoso, o Olavo até atiçava alguns inimiguinhos meus a me provocar, pra ver como eu reagia,
querendo que eu brigasse como ele.
Olavo era de ação, enquanto eu era de imaginação. Pra nadar, demorei, pra andar a cavalo
também, futebol, tudo, quer dizer, estava sempre na rabada. Só que tem o seguinte: eu era
retraído, mas quando me enfurecia, virava um
animal, cego de raiva. Principalmente quando
alguns meninos, pra xingar, humilhavam, me
chamando de filho sem pai.
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Morria de inveja do palhaço, quando ele entrava
em cena e as gargalhadas estouravam em ecos.
Achava que aquilo, sim, eu queria – e, principalmente, podia – fazer. À primeira vista pode
ser até que isso tenha sido o embrião da minha
vocação artística, mas não só. Porque eu era um
acanhado que procurava me desinibir fazendo
graça através de um dom de nascença: imitando
vozes, gestos, manias e cacoetes das pessoas (o
que chegou até a me causar certos dissabores e
alguns castigos, na escola e em casa). Eu queria
aparecer, então fazia graça, as pessoas gostavam, riam, e eu me sentia aceito pelos outros.
E mais. Eu conseguia imitar o som de filhote de
passarinho perdido. A mãe vinha correndo de
volta pro ninho. Foi meu primeiro sucesso.
23
Mas, pensando bem, acho que tudo começou
mesmo com a Shirley Temple. Foi a atração que
senti por aquela garotinha através da tela do
velho Cine Brasil, durante as saudosas matinês
em que soltava as rédeas de minha fantasia e
me projetava nos atores que contracenavam
com ela. Uma verdadeira paixão. Era a minha
namorada, portanto, eu é que tinha de estar ali,
junto dela. Mais ou menos o mesmo que a Mia
Farrow, no filme A Rosa Púrpura do Cairo.
Um processo que muito mais tarde, estudando
Stanislawski, fui entender que era a observação,
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a assimilação, a corporificação, a elaboração
interna, enfim, os pontos iniciais do trabalho
de ator. O se fosse. No caso, se eu fosse aquele
que estava abraçando a Shirley Temple. Essa foi
a verdadeira semente de tudo, o marco zero dos
meus caminhos profissionais.
24
Antes dela, meus personagens preferidos eram
o Vingador, o Sombra, o Anjo, e as crianças da
Escolinha da Dona Olinda, criação de Nhô Totico,
campeões de audiência no rádio dos anos 40. Eu
ouvia as histórias e criava outras, de repente o
Vingador ia a Ubá, essas loucuras. A molecada
ficava me ouvindo, meio sem saber se acreditava
ou não. Desde então, já carregando, embora
ainda impressentida, uma certa capacidade de
liderança e uma boa dose de intuição, características dos arianos. Além do temperamento
acentuadamente forte, às vezes explosivo, outra
marca desse signo.
(Embora atualmente eu esteja em plena fase light de amadurecimento de minha racionalidade.
A gente acaba percebendo que muito do que é
dito não havia necessidade de dizer. E há muito
tempo vejo que, a não ser por motivo justo e
incontrolável, não há necessidade de brigar.
Essas mudanças ocorrem com a educação de
nossa aura, através de um processo energético
de humanização).
Mauro, na primeira comunhão
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Nas horas em que não estava namorando a
Shirley na tela, me deliciava com gente como
Glenn Ford, William Holden e Evelyn Keyes.
Impossível esquecer de filmes como O Império
da Desordem. Ou de Charles Boyer, Charles Laughton, Victor Francen, Paul Robenson, Edward
G. Robinson e Rita Hayworth – minha primeira
paixão de adolescente – em Seis Destinos, onde
se contava a história de uma casaca que passava
de mão em mão, ligando os destinos de vários
personagens. Aliás, o Vicente Sesso, autor da
novela Sangue do Meu Sangue, disse uma vez
que eu era o Charles Boyer brasileiro e eu morri
de rir, achei muito engraçado, acho até hoje.
26
Eram dias ainda livres de super-heróis importados, máquinas eletrônicas individualizantes
e outras perniciosas influências deformadoras,
então eu me aprimorava nas artes e artimanhas
de uma infância mais criativa indo ao encontro
da vida, ao ar livre, pescando no riacho mais
próximo, pegando passarinho e soltando pipa
– que lá se chamava papagaio – com manivela
e rabo grande. Ou visitando quintais alheios
e escalando árvores em busca de maracujás,
araçás – roxos e amarelos – abricós e, principalmente, mangas (ubaense patriota chamava
a manga-carlotinha de manga-de-ubá, porque
as de lá nasciam com uma consistência dife-
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rente e eram mais saborosas ainda). Mas a
fruta preferida, nosso objeto de desejo, era a
grumixama – no dicionário está escrito assim
e diz que é da família das mirtáceas, mas a
gente chamava de grumichame – que, aliás,
voltei a comer depois de grande, quando estava gravando novela na Cinédia, onde havia
uma frondosa grumixameira.
Tocando na Banda Fanfarra do Colégio Regina Paris, em
Araguari, 1947 (segundo à esquerda)
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Enfim, a gente ia roubar as frutas que às vezes
brotavam também na nossa própria casa, só que
as que davam no vizinho eram sempre muito
mais gostosas.
De vez em quando, uma visita à Biblioteca Pública da cidade, onde o primeiro livro que quis
ler foi o Pimpinela Escarlate, mas desisti logo,
não me interessei nem um pouco por aquelas
aventuras dele. Acontece que eu era amigo do
Rodrigo, menino rico que tinha livros em casa,
então foi aí que comecei a me interessar pela leitura. Gostei logo dos policiais de Edgar Wallace,
antes de chegar a Monteiro Lobato.
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Mas mais ou menos aos 11, 12 anos, descobri
um novo brinquedo: as meninas. Eram aqueles
olhares compridos, de longe, sem dizer uma
palavra, nas idas e vindas do footing, homem
de um lado, mulher de outro, rodando, rodando
em torno da praça da Igreja de São Januário. Eu,
muito tímido, rodava, rodava, olhava, olhava,
quando ficava amigo, tinha acabado o namoro.
Aí nóis conversava, né?
A gente falava de algumas poucas coisas, menos
de nós mesmos. Lembro de uma garota com
quem eu flertei durante três anos. A gente só
se olhava, sem falar nada, nunca se tocava, mas
– vejam só que maravilha – trocava retratinhos.
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Um dia ela começou a namorar um outro e
me pediu pra mandar um recado pra ele, foi a
primeira e única vez que a gente se falou. E eu
levei o recado! Teve um tempo que, pra namorar, eu comungava todo dia. E não perdia uma
procissão, pra poder estar ao lado delas. Até
porque, nos bailes, eu ficava parado num canto
do salão, só olhando os meus colegas dançarem.
Saber dançar, eu sabia, mas não dançava, de jeito
nenhum. Pular carnaval, então, nem pensar. Até
que aconteceu a primeira namorada. Maria era o
nome dela, uma colega da mesma sala de aula,
que sentava um pouco à frente de mim. Pedi o
namoro por escrito (Estou gostando de você) no
lado de dentro de um papelão que virava mataborrão, anúncio do Phymatosan, aquele xarope
do homem tentando tirar a mordaça da boca e
as palavras: Larga-me, deixa-me gritar! Por mera
coincidência ou ironia do acaso, era exatamente
o que eu queria fazer: que me largassem e me
deixassem gritar. Depois de ler, ela virou-se pra
trás e deu um sorriso maravilhoso, de aprovação.
E, no recreio, ficamos conversando, embora timidamente, mas já namoradinhos.
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Assim se passaram meus primeiros 14 anos, quando o governador Benedito Valadares começou
a construir campos esportivos, com piscinas, em
várias cidades do interior de Minas Gerais, e du-
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rante 11 anos Minas foi campeã brasileira infantojuvenil de natação. O prefeito Levindo Ozanan
Coelho, então, importou um técnico de Belo
Horizonte, o sargento Rocha, logo promovido a
tenente, e nós fomos participar de um campeonato de natação, em Uberaba. Foi quando deu-se
um milagre: eu pegava o trem e ele andava!
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De uma estação chamada Astolfo Dutra, fizemos
uma baldeação para Juiz de Fora, onde conhecemos uma famosa piscina suspensa do Esporte
Clube de lá. Depois, Belo Horizonte, onde a piscina tinha 50 metros e uma água maravilhosa,
todos nós de boca aberta, um espanto. E logo
estávamos indo em direção a Uberaba, a bordo
da Rede Mineira de Viação, a RMV, que a turma
logo pegou as iniciais e apelidou de Ruim Mas
Vai, porque conseguia a façanha de ser pior
ainda do que a Leopoldina.
Na disputa contra Barbacena, Montes Claros,
Pará de Minas, Divinópolis, Juiz de Fora e outras
cidades do interior mineiro, Ubá conseguiu só
um ponto, terceiro lugar em nado livre, graças
a uma menina da qual não me lembro mais o
nome. Eu fiquei sem medalha, mas treinando,
treinando, treinando, desenvolvendo asinha
debaixo dos braços, aumentando o tórax, fortalecendo os músculos, me sentindo mais forte,
portanto, bem preparado pra briga.
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Mas o melhor de toda a excursão foi na hora
de embarcarmos num trem da Central do Brasil
em Juiz de Fora, com destino a Belo Horizonte.
Quando encarei aquela locomotiva, igual à que
eu via no cinema americano, fiquei paralisado.
Porque as máquinas da Leopoldina eram do tipo
boca de cachimbo, maria-fumaça mesmo, e as da
Central não, eram aqueles gigantes, pareciam
uns touros de aço, cheias de pose, cuspindo fogo
pelas ventas.
Time de Natação do Ubá Tênis Clube, 1945 (segundo à
esquerda)
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Bem mais pesadas do que o ar, mas mais ajuizadas
do que avião, tanto que não usavam asa alguma,
que voar, pra mim, era um fascínio, mas ainda privilégio de bicho de pena ou cheque sem fundo.
32
Eu nunca tinha tirado os pés do chão. Mas sabia
dizer a marca de alguns aviões – Spitfire, FockeWulf – que apareceram na guerra (um assunto
sobre o qual todos falavam, mas dela eu tinha
ainda apenas uma idéia longínqua e fantasiosa). Via aquelas maravilhas voadoras nas revistas e até tentava desenhá-las. Acontece que
avião, em Ubá, era motivo de festa. Cada vez
que aparecia um, todo mundo corria, levantava
a cabeça e ficava olhando pro céu. Como uns
pilotos da FAB tinham parentes por lá, então,
um dia chegaram três aviões ao mesmo tempo,
daqueles de duas asas e no meio um motor a
hélice. Ficaram sobrevoando a cidade, antes de
pousar. Para nós, ali estavam três heróis vivos,
tanto que ganharam presentes, manteiga,
queijos, mangas, antes de irem embora, no fim
da tarde. Um deles, o mais jovem, começou a
convidar as pessoas para um vôo.
E você, menino, não quer ir?
O menino era meu irmão Olavo, que balançou a
cabeça e disse não. Mas o Zizinho Brando, goleiro do Aymorés Futebol Clube, único time de Ubá,
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quis. Queria jogar uns panfletos de propaganda da
loja dele lá do alto.
Então sobe!
Ele subiu, o piloto mal esquentou o motor, decolou e logo adiante bateu num fio, espatifando-se
contra um morro próximo. Saímos correndo, todos.
E, então eu, estarrecido, vi o Zizinho no chão, ferido, mas ainda vivo, ele só foi morrer no hospital.
Ninguém sabia ainda o que tinha acontecido com
o piloto. Mas, enquanto o pessoal procurava em
volta, eu dei uma espiada dentro dos destroços e
vi o corpo preso nas ferragens. O difícil foi tirar ele
de lá, ninguém conseguia. O mais veterano dos
três, então, resolveu ir para o Rio, providenciar a
remoção do corpo do colega morto e comunicar
a ocorrência à Força Aérea Brasileira. Foi quando
a gente notou a diferença: ao contrário do companheiro, ele esperou o motor esquentar, rodou
pela pista, deu uma volta, parou, rodou mais,
acelerou bastante, deu mais uma volta testando
os instrumentos, e só então subiu e desapareceu
no horizonte. No dia seguinte, a cidade paralisada,
comovida, chocada, chega um Focke-Wulf, bimotor
alemão, no qual seria removido o corpo do piloto
morto. Esvaziou metade do velório do Zizinho
Brando, todos queriam ver o que nunca tinham
visto, um aviãozão daqueles. Menos eu. Naquele
momento, não me restava mais nenhum interesse
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pela aviação. Então continuei sentado num banco
da praça, ainda muito impressionado com o que
tinha presenciado na véspera.
(Eu só tinha tido três visões da morte. A de uma
moça chamada Marta, daquelas beatas que
gostam de cantar e decoram todas as músicas da
igreja, enormemente gorda – e isso, na minha
cabeça, era sinal de saúde – por isso, quando
a vi no caixão foi um choque. A de um amigo
epilético e a de um sapateiro muito popular na
cidade). Só que, daquela vez, eu estava ali perto
das vítimas. E vi o momento da morte deles.
34
Pois, agora, recentemete, me convidaram pra participar do júri da escolha de Miss Pólo Moveleiro (Ubá tem cerca de 400 indústrias
de móveis) e o André Luís Durmutout de
Mendonça, meu primo distante, filho do
fundador da Rádio Sociedade Ubaense,­­
me ofereceu uma carona de avião. Mas aquela
velha lembrança me voltou e tentei recusar:
Não, o tempo está ruim, vamos de carro mesmo...
Ele: Que nada, o piloto disse que o tempo lá está
bom e garante que dá pra ir numa boa.
Então fomos. Era um bimotor Cessna, quatro lugares. Lembrei imediatamente de uma frase da Rosa-
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maria, segundo a qual, Cessna sempre cai. Agora
era tarde. Decolamos com tempo encoberto no
Rio, dei uma cochilada, o céu ficou azul, olha Ubá
lá embaixo, tínhamos chegado, a pista que era de
terra estava asfaltada, enfim, tudo na mais perfeita
ordem. Fomos à festa, hotel e tal, no dia seguinte,
a volta. Chovia e muito. Eu: Vamos de carro, né?
Ele: Deixa de besteira, carro o quê, daqui até lá é
um pulinho!
O jeito era tomar umas cervejinhas. Só que não foram umas, foram umas e outras. E se a ida tinha sido
em 50 minutos, a volta foi em uma hora e 20, por
causa do vento e outras atmosferas. Detalhe: num
avião sem banheiro. O quadro era o seguinte: nuvem em cima, nuvem embaixo, e a bexiga já dando
sinal de vida, tô aqui, ameaçando ligar o sinal de
alarme. Foi fogo. Apesar do cinto de segurança
afrouxado, os minutos se esticavam igual elástico e
eu, desesperado, com uma certeza absoluta: não ia
dar tempo. Um suplício que só terminou em terra
outra vez. Mal o avião pousou, soltei os bichos,
aliviei-me ali mesmo. A pista do aeroporto Santos
Dumont tinha acabado de ser batizada.
35
Uma sensação incomparável de leveza, difícil de
descrever. Mal comparando – mas já comparando – mais ou menos como aquela, de muitos anos
antes, quando chegou a notícia que nossa casa
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tinha sido vendida e nós iríamos morar no Rio de
Janeiro! Aquilo era simplesmente fantástico, quase
inacreditável. Ah, passei várias noites sem dormir!
E no dia do embarque, minha primeira providência
foi dar-me um beliscão, aliás, tão convincente, que
a marca ficou no meu braço durante alguns dias.
Eu não conseguia acreditar que aquilo estivesse
acontecendo. O melhor é que estava. E, antes do
embarque, uma grande e grata surpresa: a presença de uma jovem em frente à casa de quem
a gente passava todos os domingos, a caminho
da missa. Ela sempre na janela, na varanda ou na
porta, sem que eu jamais percebesse qualquer sinal
de interesse, de simpatia, de apreço, de amizade,
de carinho, de qualquer coisa da parte dela e, por
isso, jamais poderia imaginar que ela estivesse na
estação, naquele dia. Pois, na hora em que eu ia
embora, era exatamente quem estava na minha
frente, perguntando:...
Mas... você vai mesmo?
Durante muito tempo me lembrei daquele mesmo,
sintomático na frase. Ali estava dito tudo. Então
veio o espanto por não ter percebido nada nela,
nunca. Os dias eram assim, as iniciativas eram
sempre nossas, nunca delas. E sem dizer nem uma
palavra, fui embora, com uma quentura no peito
doendo um pouco dentro da alegria da ida. Da
janela, dei o mais lento e prolongado adeus da
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minha vida, para todas as pessoas que estavam na
estação, uma por uma. Principalmente para ela. E lá
estava eu, passando, de trem, por Ligação, uma estaçãozinha a cinco quilômetros de Ubá, e Tocantins,
lugares próximos aonde às vezes a gente chegava a
pé pela estrada, até os riachos onde íamos pescar.
Quantas vezes, ali, parado no tempo, esperando
um peixe distraído morder meu anzol enquanto o
mundo girava à minha volta, eu me perguntava,
ao ver esse mesmo trem passar:
Meu Deus, quando será que eu vou estar lá dentro
dele?
Pois naquele instante mágico e abençoado, inacreditavelmente real, poucos eram mais felizes do que
eu, que, enfim, estava dentro dele. Eu era um dos
passageiros daquela viagem tão sonhada. Tinha me
livrado, finalmente, do pesadelo do trem que
apitava e não saía do lugar. Porque o Expresso
apitou e partiu, me levando na direção do meu
desejo principal e mais profundo até então: morar
no Rio!
37
Uma longa viagem. A chuva tinha derrubado
barreiras sobre os trilhos e tivemos de ficar parados na estrada à espera de uma solução, antes
de seguirmos por outro ramal, dando uma volta
enorme, entrando pela noite.
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Só chegamos ao Rio às seis horas da manhã do dia
seguinte, eu praticamente sem dormir. Dois irmãos
meus, Marcelo e Jacob, estavam nos esperando,
e foi difícil arranjar táxi, por causa de uma greve.
Mas estava diante de uma novidade até então
inédita para mim e fiquei extasiado: o bonde. Eu
observava e absorvia tudo e todos, a paisagem, as
pessoas, o jeito de falar e de andar carioca, a voz
de Dick Farney ao longe...
Existem praias tão lindas, cheias de luz
Nenhuma tem os encantos que tu possuis
Tuas areias, teu céu tão lindo
Tuas sereias, sempre sorrindo...
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Os sons que havia em tudo, o cheiro de maresia, o
brilho no olhar das pessoas, uma cidade deslumbrante acordando! Até hoje eu me lembro, como
se fosse agora: o paraíso se mostrando pra mim.
Isso está tatuado na minha memória.
Era o inesquecível dia 6 de janeiro de 1946. Pena
que o primeiro encontro com o mar tenha sido
uma grande decepção: a água escura da praia do
Flamengo não tinha absolutamente nada a ver com
aquele incrível azul que eu via nas fotografias e
nos cartões-postais. Mas, tudo bem, porque, vinda
de uma janela qualquer, aquela música só faltou
mudar a cor daquela água...
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Copacabana, princesinha do mar
Pela manhã tu és a vida a cantar
E à tardinha o sol poente
Deixa sempre uma saudade, na gente
Copacabana, o mar eterno cantor
Ao te beijar ficou perdido de amor
E hoje vive a murmurar
Só a ti Copacabana, eu hei de amar.
Copacabana, princesinha do mar que eu haveria
de amar, ainda era apenas uma possibilidade. Eu,
minhas duas mães, Dona Santinha e Francisca, e
meus irmãos Olavo, Marcelo e Jacob, além do nosso
canarinho de estimação, estávamos hospedados
num apartamento da Rua Dois de Dezembro, no
Catete (ainda bem que eram cinco os quartos,
porque os dois irmãos da minha cunhada Marta
também moravam ali), do meu irmão mais velho, o advogado Dr. Francisco Galdino Pereira de
Mendonça. Ele e Alceste eram as figuras básicas da
nossa família, os pilares. Um de capricórnio, outro
de gêmeos, dois homens de fibra. O Dino, como
eu chamava o Francisco Galdino, estudou Direito,
casou, mas continuou colaborando no sustento da
mãe e dos irmãos menores, assim como Alceste, o
segundo na escadinha da filharada, que trabalhou
muitos anos no Banco Mineiro da Produção.
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Eles tinham status de provedores, mas para mim
eram os paizões. O Marcelo, terceiro de cima
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para baixo, era um geminiano meio mulherengo,
portanto, ligeiramente irregular no cumprimento de suas ajudas domésticas. Na contabilidade
de Dona Santinha, tanto Marcelo como Jacob,
o quinto na seqüência da prole, eram, digamos,
provedores-bissextos. Ao contrário do Dino e do
Alceste, com quem ela podia contar todo mês,
religiosamente. O Euclides – que a gente chamava
de Velho Conselheiro – não contribuía. Estava estudando para ser padre e já no noviciado.
40
O Dino depois foi Procurador do IBC, Instituto Brasileiro do Café, e mereceu até uma nota na famosa
coluna do Ibrahim Sued falando da atuação dele
naquele episódio do contrabando de café brasileiro. Era meu padrinho, isso porque minha mãe,
muito católica, não acreditava em bruxas, mas
admitia, que las hay, las hay. Então seguiu à risca
o dito popular segundo o qual todo sétimo filho
homem, se não fosse batizado pelo irmão mais
velho, seria lobisomem (depois eu soube, Evita
Perón também batizava todos os sétimos varões
argentinos que nascessem).
Pois uma noite, aos 52 anos de idade – e já com
uma respeitável folha de serviços prestados no
teatro, televisão e cinema – eu tinha participado
das novelas Brilhante, Elas Por Elas e Louco Amor e
estava numa festa na velha boate Hippopotamus,
em Ipanema, quando encontrei o Maurício Sher-
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man. Sem mais nem menos, ele me perguntou,
de estalo:
Ô Mauro, você canta?
Quer dizer, pelo menos tive aulas particulares de
canto com uma senhora chamada Macha Tchecova.
E em Oh, Que Delícia de Guerra já soltei a voz no
palco. Inclusive em Réquiem Para Uma Noite de
Sexta-Feira, cantei em hebraico, mesmo não tendo
nenhuma ascendência judaica...
... Você não quer fazer um teste amanhã, não?
Queria. E no dia seguinte, depois de cantar Torna
a Sorriento, o polegar do maestro Edson Frederico
pra cima era o sinal de que eu tinha sido aprovado.
Estava fechado, eu seria o Perón do musical Evita.
Viajei, então, para Nova Iorque – com o Sherman e
o coreógrafo Johnny Franklin – a fim de ver como
era a montagem americana. Vi duas vezes e achei
o espetáculo tão perfeito, de um nível tão alto, que
duvidei que no Brasil fosse possível fazer igual. Mas
Sherman, tranqüilamente, garantiu:
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É possível, sim! Somos capazes, sim senhor!
Fui também a Londres, assistir à montagem original, inglesa, que já estava em cartaz há quatro anos.
O único integrante do elenco da estréia era um
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figurante, me disse o diretor de cena, encarregado
da supervisão da montagem brasileira. Não deu
pra conferir a versão espanhola, porque quando
cheguei a Madri, a Evita deles estava em Barcelona.
E encerrei a viagem conhecendo Paris, afinal, isso
tudo só tinha sido possível graças ao Prêmio Air
France pelo meu desempenho no filme Dona Flor
e Seus Dois Maridos.
O curioso é que, antes de me escolherem para o
papel em Evita, muita gente, conhecida minha ou
não, inclusive de fora do meio artístico, já tinha
comentado comigo ter visto o musical em Londres
ou Nova Iorque e que havia um personagem sob
medida para eu fazer. Foram tantas pessoas e
tantas vezes, que eu passei a acreditar naquilo. A
minha sensação era de que estava sendo esperado.
Porque muita gente fez o teste, antes de mim, inclusive cantores profissionais, e o escolhido fui eu,
que não tive a menor preocupação em disputar o
papel. Caprichei, claro, afinal meu nome profissional estava em jogo, de certa forma. Mas fui como
se fosse à praia ou ao cinema e cheguei com uma
segurança enorme, parecia já saber – não sabendo
– que o personagem era meu.
43
Durante a temporada, por meio de uns turistas,
fiquei sabendo daquela história da Evita ser madrinha de todo sétimo filho homem argentino. Então,
na condição de sétimo filho homem – embora bra-
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sileiro – passei a me considerar, com todo respeito,
afilhado dela. Minha madrinha espiritual. Orava
por ela e para ela, antes de entrar em cena e pedia
sua bênção na hora de ir para o balcão cantar. Eu
realmente me sentia tenor, me sentia poderoso à
beça. Até porque ela deve ter abençoado mesmo
aquele Sucesso com S maiúsculo (o produtor inglês,
Robert Stigwood, detentor dos direitos internacionais da obra, falou para o Victor Berbara, produtor
da versão brasileira, que a Cláudia foi a melhor das
Evitas que ele viu). Então, teve a mão de Doña Evita,
sim, ela deve ter intercedido, mexido os pauzinhos
lá em cima, junto aos amigos do plano espiritual,
evidentemente. Acho que foi por aí.
44
Uma superprodução: 59 atores, cantores e bailarinos, 31 músicos, mais 8 atores-substitutos, e 58
técnicos, inclusive um diretor-técnico e dois supervisores de iluminação ingleses da montagem original.
Tudo e todos em perfeita harmonia, debaixo de
um astral maravilhoso e sob a talentosa, brilhante
e feliz direção-geral de Maurício Sherman, resultou
naquele êxito absoluto, uma temporada de oito
meses de casas lotadas, no Teatro João Caetano
– com capacidade para dois mil lugares – desde a
estréia, em 11 de janeiro de 1983.
Quanto a mim, tenho a sensação de que era meu
o papel, eu fui escolhido para aquilo! Como fui
escolhido para o Teodoro Madureira de Dona Flor
Com Cláudia, no musical Evita, 1983
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Com Cláudia e Carlos Augusto Strasser, no musical Evita
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também. Um capítulo da vida real que até parece
coisa de novela de Doña Glória Magadan. Porque
eu, naquela época, tinha contrato por novela. E,
como não recusava nenhum papel, estava sempre
renovando. Até que, um dia, me recusaram. Eu ia
fazer o papel de um voyeur impotente em O Grito,
novela do Jorge Andrade, então tinha até começado a ler livros, a conversar com psiquiatras, enfim,
começado a fazer todo um trabalho interior para
a interpretação do personagem. Já tinha acertado
o cachê e tudo, quando me ligaram avisando que
a verba de produção tinha estourado, querendo
saber se eu não queria fazer pela metade. Eu não
quis. Disseram que eu tinha de conversar com o
Walter Avancini, que ia dirigir. Eu disse que era
ele que tinha de conversar comigo. Resultado: o
Rubens de Falco acabou no meu lugar.
Acontece que nós estávamos fazendo Feira do
Adultério, uma coletânea de seis minipeças de um
ato em tom de comédia-inteligente (O Repouso
da Guerreira, de Armando Costa, com roteiro
de Paulo Pontes; A Tuba, de Lauro César Muniz;
Deus Nos Acuda, de Bráulio Pedroso; Curra na
Secretaria de Educação, de João Bethencourt; O
Flagrante, de Jô Soares, e Ejaculatio Praecox ou
Exercício para um Boulevard Carioca, de Ziraldo)
no Teatro Princesa Isabel, em Copacabana, com
casas supercheias, antes de temporadas no Teatro
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João Caetano e no Teatro Santa Rosa, no Rio, e no
Teatro Itália, em São Paulo. Foram muitas e inevitáveis mudanças – sem adulterar o adultério – na
carreira de mais de mil apresentações e algumas
remontagens, durante oito anos em vários palcos,
inclusive inaugurando um teatro no subsolo do
Centro de Formação Profissional do Senac, no
subúrbio carioca de Bonsucesso. Com mudanças
na escalação do elenco original, Rosamaria Murtinho, Arlete Salles, Jô Soares, Fúlvio Stefanini,
Osmar Prado e eu, de terça a domingo, direto,
toda semana. A receita da bilheteria era uma coisa
fantástica, basta dizer que esta casa aqui, onde
eu moro, tem muito da Feira. Quando o Osmar
recebeu o primeiro salário, quer dizer, a semana
que nós dividíamos, ficou espantado:
49
Isso é mais do que eu ganho na televisão!
A montagem foi produzida por nós mesmos, intérpretes das histórias, em regime de cooperativa
que passamos a denominar conta de participação,
inaugurando o que depois muita gente iria copiar.
Mas, oito meses mais tarde, o Jô – que dirigia e
fazia um dos gêmeos univitelinos com o Osmar
Prado, em Deus Nos Acuda, uma sátira às novelas
da Janete Clair – resolveu parar e a Arlete Salles
foi junto. Pois nenhum de nós, os que ficaram,
teve a iniciativa de tentar procurar substitutos.
Ninguém é insubstituível. Tanto que no ano se-
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Com Fúlvio Stefanini, Jô Soares, Arlete Salles, Rosamaria
Murtinho e Osmar Prado, em Feira do Adultério, 1975
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guinte remontamos a Feira em São Paulo, com o
Guilherme Corrêa no lugar do Jô, e depois com
o Rubens de Falco no mesmo papel, de volta
ao Rio, no velho e saudoso Teatro Santa Rosa,
em Ipanema.
Mas o que eu quero dizer é o seguinte: logo depois de nós termos parado, a Feira do Adultério
já fora de cartaz, chega o Barretão, Luiz Carlos
Barreto (que tinha nos assistido no teatro) e me
convida para trabalhar num filme baseado no
livro Dona Flor e Seus Dois Maridos. Isso depois
de convidar o Ari Fontoura e o Rogério Fróes,
que não puderam ou não quiseram aceitar. Ou
seja, esse papel também estava destinado a
mim! Acabei ganhando prêmio, além de um baita elogio de Jorge Amado, num telegrama, que
está guardado no meu arquivo, assim: Parabéns
pelo Doutor Teodoro pt Ninguém faria melhor.
E em entrevista a uma revista perguntaram qual
dos personagens que, em filmes, novelas ou
minisséries, mais se aproximou daquilo que ele
imaginou quando escreveu. Resposta: Teodoro
Madureira pelo Mauro Mendonça.
51
Também está arquivado. Aliás, honras das quais
nunca falei publicamente, entre outros motivos,
porque dizem que elogio em boca própria é
vitupério e eu concordo. Mas o mais curioso é
que eu estava morando no Jardim Botânico,
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no andar abaixo do secretário de Governo,
comandante Baltazar da Silveira, num prédio
dos Perlingeiro, de Campos. Ele soube que eu
ia participar da filmagem do romance de Jorge
Amado e quando eu disse qual seria o papel,
não fez cerimônia: Aquele chato?
52
Fui direto ler o livro, que eu já tinha comprado
e ainda não tinha tido tempo de ler. Ora, Jorge
Amado era um mágico, a gente lê uma história
dele e vê os personagens dançando na nossa
frente, mesmo os de menor expressão, com começo, meio e fim. E estava lá, naquelas páginas,
o sacrifício que a mãe, viúva, tinha feito para que
o filho estudasse e tudo o mais. O personagem
estava inteirinho ali, humanizado, então dava
pra gente entender o tipo de criatura que ele
era. E não o achei chato, não, achei quadrado,
repetitivo, o que é diferente. E que se sublimava
através da música. Muito bem.
Foram dois meses de Bahia, para mim, praticamente, umas férias, uma recarga nas baterias.
Quando começaram as filmagens, o Bruno Barreto quis saber de mim: Você não acha que ele
é edipiano?
Eu: Olha, eu já fiz psicanálise, mas, se fosse você,
não entraria nesse terreno. Entre outros motivos,
porque ele tem uma grande dose de reconheciDona Flor e Seus Dois Maridos, com Sonia Braga
e José Wilker
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Dona Flor e Seus Dois Maridos, com Sonia Braga e José Wilker
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mento filial, uma atitude que já foi tradição neste
país, na época em que se passa a história: os filhos
ajudando os pais que se sacrificaram por eles. Não
tinha Freud explica, não. Por isso ele não tinha
se casado, porque cuidou da mãe até a morte
dela, então ficou meio madurão, burocrático e
repetitivo, nada a ver com mais nada.
E assim fomos trocando e negociando muitas
idéias. Teve até um dia em que a Sonia Braga
ficou meio enciumada: Poxa, você só fala gênio
pra ele...
É que sempre que eu terminava uma cena, ele
dizia gênio! Bruno e eu acabamos estabelecendo
uma relação ator-diretor muito criativa, bastante
construtiva. O esquema era filmar três dias e
descansar outros três. Uma beleza, até porque
dava tempo de conversar com Jorge Amado.
55
O Teodoro Madureira dele é perfeito. Nenhum
outro ator teria feito tão bem o papel. Sou
sincero: o Mauro é um ator que dá prazer ao
diretor, porque todo trabalho dele é construído,
elaborado, minucioso. Quando dirigi o Marcello
Mastroianni – que considero um dos maiores
atores do nosso tempo – me lembrei muito do
Mauro Mendonça, nesse aspecto da montagem
do personagem. Em Dona Flor, ele ia incorporando cada detalhe sugerido pela direção e a cada
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ensaio já reagia diferentemente, dando uma
interpretação nova. E isso é o mais gratificante
que há para um diretor.
Bruno Barreto
56
Era um personagem muito bem-acabado, medido, e para interpretá-lo tive de apurar meu
senso de limites, em tudo. Inclusive nas horas
de manusear o fagote, um instrumento acima
de tudo sutil, que, apesar da aparência bruta,
pesada, exige um sopro leve. Igualzinho ao
próprio Teodoro: grande e frágil. Mas houve,
principalmente, um auxílio luxuoso, uma indicação brilhante, fundamental, da Maria da
Glória Beutenmüller, que chegou pra mim e deu
o toque: Não se esqueça que farmacêutico da
década de 40 mexia com miligramas...
Daí ele ser tão meticuloso, até quando dava
aqueles goles milimétricos no licor. Inclusive
as trepadinhas dele eram burocráticas, só às
quartas-feiras, com direito a eventuais bis nos
sábados. E, por isso, fora desses dias agendados, recolhia-se ao leito não de borzeguins,
mas de pudicos pijamas, virava pro lado e
dormia como um anjo, mesmo tendo Dona
Flor acesa, a postos, disponível, ali pertinho,
a centímetros de distância. Porque até o sexo
dele era medido em doses homeopáticas...
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Ou seja, Teodoro Madureira não era chato, era
miligrâmico.
Outro fato curioso de Dona Flor é que eu não
queria ver o filme, depois de pronto. Fiz umas
três ou quatro tentativas, cheio de dúvidas, se o
resultado tinha sido bom, se não tinha, eu não
conseguia ver aquilo como uma obra completa.
Achava que faltava muita coisa, que tinham deixado de fazer isso e aquilo, em relação ao script,
que era muito bom, essas coisas. Só na exibição
em São Paulo é que eu assisti numa boa.
Mas, voltando a Evita. O supersucesso só saiu de
cena – com casa cheia – porque o Brizola, que
tinha sido eleito para o governo do Estado do Rio
de Janeiro, queria montar a peça Getúlio, que
não fez sucesso, apesar da alta qualidade de sua
ficha técnica: Dias Gomes, autor; Flávio Rangel,
diretor; e Paulo Gracindo, protagonista.
57
Uma patriotada que Getúlio Vargas não merecia.
E mais: eles não precisavam ter soltado aquele
foguetório todo no último dia de Evita. Nunca
soubemos, nem ninguém soube, de quem foi
aquela iniciativa ridícula de festejar, afinal,
o quê? O fim de uma ou o começo de outra?
Muito barulho por nada, diria o grande mestre
William Shakespeare. Só que não foi por nada.
Mas, então, foi por quê?
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58
Pra mim, aquilo tudo foi muito estranho. E tive
dificuldade em fazer outro trabalho, que só
aconteceu dois anos mais tarde, quando fui o senador João Carioba em Direita Volver, de Lauro
César Muniz. Apesar do horário alternativo das
quartas, quintas e sextas às cinco da tarde e só
às segundas e terças às nove da noite, a peça fez
uma boa carreira durante quase seis meses no
Teatro Vanucci, mas quando foi para o horário
nobre, nove e meia da noite, foi um sucesso.
Isso antes de nós irmos para o (saudoso) Teatro
Mesbla, onde ficamos por mais quase meio ano
e depois partirmos para uma excursão a quase 90
cidades do Norte, Nordeste, Leste e Sul do País.
Mas o mais importante mesmo dessa encenação
é que permitiu uma reaproximação de nós dois,
Rosamaria e eu, que estávamos dando um tempo
em nossas vidas.
Durante seis anos, a partir de 1985, praticamente
só fiz novelas, A Gata Comeu, Cambalacho, Sinhá
Moça, Mandala, Mico Preto, Meu Bem, Meu Mal,
Lua Cheia de Amor e O Dono do Mundo.
Em setembro de 1991, fiz o personagem Igor, um
diretor, em As Atrizes, de Juca de Oliveira. Não
há muito o que comentar sobre essa montagem,
a não ser que foi um fracasso. Houve um evidente conflito de pontos de vista entre o diretorautor Juca de Oliveira e a atriz Tônia Carrero,
Direita Volver, com Rosamaria Murtinho
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que não assumia a personagem-protagonista
como ele queria. Acabou que o comparecimento
de público oscilou de bom a apenas razoável e as
melhores reações da platéia ficaram para Márcia
Cabrita, que estava realmente muito engraçada.
Osmar Prado, Lucélia Santos e eu deixamos o
elenco, quando Tônia assumiu a peça para viajar
com ela.
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Eu me sentia meio desajustado, estava sendo
difícil voltar à rotina dos palcos. Evita tinha sido
uma espécie de sonho, belíssimo, um marco na
história do Teatro Musical Brasileiro, a confirmação de que nós tínhamos competência para
montar grandes espetáculos internacionais,
o que mais tarde veio se comprovar. E eu me
considerava pronto para outras montagens do
mesmo tipo, embora de porte menor, que acabaram acontecendo mais tarde, como A Noiva
do Condutor, opereta de Noel Rosa e Arnold
Glückmann, em novembro de 1994, no Centro
Cultural da Light. Apesar de a crítica não ter
comparecido – talvez por causa do horário das
apresentações, ao meio-dia e às seis da tarde
– foi outro sucesso extraordinário, guardando
as devidas proporções. As pessoas retiravam
os ingressos (a entrada era franca) e, no final,
aplaudiam freneticamente aquela história simples, quase ingênua, mas inspiradamente dirigi-
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A Gata Comeu
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Sinhá Moça
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Mico Preto
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da pela Karen Acioly. Muita gente voltou várias
vezes e alguns até já sabiam os diálogos de cor.
Era uma alegria contagiante e isso se refletiu no
elenco, mantendo o astral sempre alto. Eu fazia
o pai da noiva e, participar de novo de um musical, voltar a ter o prazer de trabalhar cantando,
principalmente sob a direção musical do maestro
Henrique Cazes, era tudo o que eu precisava.
Pena que a temporada tenha sido curta, mas um
dia ainda vou remontar essa opereta!
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E, mais recentemente, Ópera do Malandro, de
Chico Buarque de Holanda, 11 meses no Rio e
temporadas posteriores, um mês em São Paulo
e 40 dias em Portugal. Pra tudo ser coroado com
uma frase da crítica teatral Bárbara Heliodora
impressa no jornal: Fica provado que no Brasil
já se pode fazer um musical brasileiro com a
qualidade de um musical da Broadway!
Foi assim. Um ano depois de Caixa Dois – sucesso
em São Paulo, fracasso no Rio – eu tinha sido
sondado pela dupla Charles Möeller e Cláudio
Botelho, por meio do meu empresário Marcos
Montenegro, para fazer o papel de Fernandes de
Duran numa remontagem suntuosa da famosa
obra de Chico Buarque. As condições não eram
muito atraentes, financeiramente falando, e
minha primeira reação foi não aceitar o convite,
mas falou mais alto a chance de voltar a parti-
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cipar de um grande musical, com 22 atores, 11
músicos, maestro-regente, arranjador e orquestrador, coreógrafo, desenhista de som, visagista,
diretor de cena, diretor-assistente, assistentes de
direção, assistente de cenário, figurinista, preparador vocal, pianista-ensaiador, sonoplasta,
direção e assistência de produção, iluminador,
76 figurinos, 23 perucas e uma verba de um milhão, 250 mil, 394 reais e 70 centavos. Era outro
verdadeiro presente para mim.
Logo nos primeiros ensaios, uma afinidade plena com Lucinha Lins, minha esposa na história.
E quando começaram os ensaios musicais pude
constatar a quantidade e qualidade de grandes
talentos que estavam no elenco, alguns deles
cantores e cantoras excepcionais que eu não
conhecia e dos quais não tinha nem ouvido
falar. Fiquei então plenamente convencido de
que estava diante de um grande acontecimento
teatral. Mas não poderia imaginar que fosse tão
excepcional, com o remodelado Teatro Carlos
Gomes sempre superlotado em seus 685 lugares
vendáveis – fora os camarotes de convidados da
prefeitura – desde os ensaios abertos e, a partir
da estréia, em 14 de agosto de 2003, ingressos só
com dois meses de antecedência. Uma temporada prevista para sete meses, sendo prolongada
várias vezes até quase completar um ano, saindo
de cena sem um só lugar vazio.
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E sucesso também na excursão a Portugal. Nas
ruas de Lisboa, Figueira da Foz e Porto, onde
nos apresentamos, eu era saudado nas ruas com
elogios e afagos duplos, porque estava sendo
exibida a novela Cabocla e o Coronel Justino,
que eu interpretava, era um dos personagens
preferidos deles.
Sem dúvida, Ópera do Malandro foi outro grande momento da minha vida de ator. Sob vários
aspectos, inclusive o de se transformar numa
espécie de compensação por algumas decepções
artísticas anteriores.
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Ópera do Malandro
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Ópera do Malandro, com Lucinha Lins (à esquerda), e com
as meninas do elenco (acima)
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Capítulo II
Alamares, Bombardinos, o Sapato Duas
Cores e o Veado Novo
Eu nem parecia mais aquele Mauro de anos antes, recém-chegado, literalmente embasbacado
e boquiaberto com a então Capital Federal.
Não posso esquecer do meu irmão Euclides, da
sacada, me apresentando à vizinha de baixo, do
sexto andar, um flirt (paquera, no linguajar da
época) assumido, por ele e por ela:
Esse é meu irmão menor, acabou de chegar de
Minas.
71
E eu, bem suave: Ei...
Todo mundo caiu na gargalhada. É que na minha
terra tinha muito disso, em vez de Oi, Olá, Como
vai, Muito prazer, era um Ei, mas bem baixo,
lento, cerimonioso, quase sussurrado. Além do
que, naquele momento, eu estava meio desligado, tinha acabado de acordar, ainda cansado
da viagem. Então fiquei no porco, como se dizia
na minha terra, no meu tempo, tradução, fiquei
encabulado, vermelho, cheio de vergonha.
Foi minha estréia carioca. Ainda bem que no dia
seguinte, no Leme, finalmente constatei que a
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imagem de jardim das delícias que eu tinha daquele mar azul e daquela areia branquinha e fofa, não
era exagero. Copacabana era deslumbrante.
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O Rio de Janeiro era formidável (as pessoas ainda falavam formidável diante de uma coisa boa,
bacana, do bem). Cidade maravilhosa mesmo, e
tranqüila, tinha até footing à noite na Praia do
Flamengo – onde eu e Olavo íamos mais, porque
morávamos ali perto – e também na Avenida
Atlântica, mais estreita, com menos carros e sem
nenhuma arena esportiva na praia. O Braguinha,
na voz do Dick Farney, tinha razão: aquilo era a
vida a cantar, não precisava de evento musical
nenhum! Dava pra o-u-v-i-r o som da paisagem
exuberante! E tinha bonde, meu Deus, que beleza,
indo e vindo, em duas mãos de direção, no meio
da Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Além
de tudo isso, eu afinal tive a confirmação de que
aquela água toda daquele marzão besta, era salgada de verdade. Um detalhe do qual sempre duvidei,
até aquele momento, apesar de ter estudado que
rio era de água doce e mar de água salgada. Mas,
mineiramente desconfiado, quis testar pra ver se
era mesmo. Fiquei tão hipnotizado que entrei na
onda daquele pessoal que pegava jacaré perto das
pedras, acabei pegando um caixote e me arranhei
todo. Foi a primeira lição: mar não é piscina; piscina
é uma coisa, mar é outro departamento.
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Nunca pensei que um dia pudesse chegar tão
perto daquele jardim das delícias. Eu me sentia
como se tivesse acabado de nascer, finalmente.
Apesar da importância fundamental da infância
em Ubá, parecia que minha vida estava começando ali. Ou, pelo menos, que um novo capítulo
dela estava sendo escrito.
Assim como meus irmãos Marcelo e Jacob, eu
também nadava no Fluminense e era sócio-atleta
do clube. Com uma diferença, eles eram tricolores doentes, ao contrário de mim, flamenguista
como meu conterrâneo Ari Barroso. E, num belo
domingo, lá estávamos nós três na arquibancada social do clube, assistindo a um Fla-Flu. Meu
primeiro Fla-Flu! O Flamengo com Luiz Borracha,
Nilton e Dorival; Biguá, Bria e Jaime; Adilson,
Zizinho, Pirilo, Perácio e Vevé. Nossa Senhora,
um timaço, pelo amor de Deus! O Fluminense
era um grande time também, tanto que depois
foi campeão, mas nesse jogo eles levaram de 5
a 2. Mal começou a partida, eu comecei a torcer
pro meu time e fui imediatamente contido por
uma ordem dos meus dois irmãos: Senta, senta,
senta! Torça, mas quieto, senão pode sair briga!
Você é sócio-atleta do Fluminense! Mesmo assim,
na hora que o Flamengo abriu o placar, dei um
berro, goooooollllll!!! Eu era um garoto ainda
e tinha sido levado pela minha espontaneida-
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de, apesar de que, na verdade, simplesmente
me esqueci que estava sentado no estádio do
Fluminense, cercado de tricolores, que educadamente não fizeram nada, embora visivelmente
surpresos com aquela presença insólita, inesperada, indesejada. E tive de comemorar os outros
quatro gols na base do que chamei de silêncio
de satisfação. O pior é que depois o Fluminense,
com o Pinheiro, o Orlando, o Rodrigues, o Pascoal, o Telê, o Ademir Menezes, não me lembro
exatamente de todos, devolveu esses 5 a 2 em
pleno campo do Flamengo, na Gávea. O técnico
Gentil Cardoso tinha dito: Me dêem o Ademir
Menezes que eu darei o campeonato. Deram-lhe
o Ademir e ele deu o título do chamado supercampeonato ao Fluminense.
Dias depois, presenciei também outro episódio
sensacional. É que estava passando um filme
comentadíssimo, chamado Gilda estrelado pela
Rita Hayworth, no papel de uma mulher fatal.
Então as torcidas adversárias, para provocar,
começaram a chamar de Gilda, o famoso jogador Heleno de Freitas, centroavante do Botafogo. Naquela tarde, o estádio do Fluminense
era um imenso coro de Gilda... Gilda... Gilda!
O resultado foi uma cena insólita, certamente
inédita em toda a história do futebol brasileiro.
Ninguém me contou, eu vi: em determinado
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momento, Heleno, visivelmente descontrolado,
chutou a bola com raiva, para o alto, e como
quem fosse sair de campo, foi andando em direção aos vestiários, parou ostensivamente em
frente à social do Flu, encarou aquela platéia
olho nos olhos, baixou o calção até o joelho e,
com a mão em concha, sacudiu os documentos,
lentamente e várias vezes, numa atitude que os
jornais depois chamariam cerimoniosamente de
gesto obsceno.
No Rio, minha mãe se sentia visivelmente tranqüila, perto do filho mais velho, provedor, paizão, e então nós dois, os mais moços, ficamos em
plena bonança, tinha praia, de vez em quando
aparecia um dinheirinho, não havia castigo e
não apanhávamos mais, nem de chicote nem
de nada. E não tinha mais calça rasgada, muito
menos saia (aqui tem que ter uma explicação
especial: lá em Ubá, quando elas, Dona Santinha
e Francisca, não conseguiam mais impedir que
eu e Olavo passássemos o dia desaparecidos,
sem nem sinal do nosso paradeiro, começaram a
rasgar nossas calças, mas como isso também não
adiantasse nada, apelaram para as saias. De calça
rasgada a gente continuava a fugir, mas de saia,
aí realmente já era demais, suprema humilhação,
não havia ânsia de liberdade que tirasse a gente
do tal recesso do lar...).
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Eu tinha me adaptado maravilhosamente ao
jeito carioca de viver. O único problema era
o sotaque: no primeiro dia de aula no Liceu
Franco-Brasileiro a lição foi a leitura de um
texto e antes do segundo parágrafo a sala se
transformou em uma gargalhada só. Mas logo
depois, podando os maneirismos e mineirismos,
eu era o maior palhaço da classe. Enquanto isso,
era apresentado à Coca-Cola e aos famosos ChicaBom e EskiBom, duas maravilhas, porque lá
na minha cidade, na minha infância, eram três
picolés por um tostão, mas o sabor era muito
diferente. E tomei chope pela primeira vez na
vida. Em Ubá só tinha cerveja, uma vez eu provei
e não gostei, achei amarga. Também, pra quem
só tinha acesso à doçura do Guaraná Antarctica
e do Mineirinho... Mas o chope tinha um gosto
diferente. Foi outra experiência de vida na cidade cheia de novidades. Mais uma, depois da
iniciação sexual, do entrosamento fácil com as
meninas, do Cine São Luiz, dos filmes brasileiros,
Oscarito, Mesquitinha, Modesto de Souza (em
Ubá só passavam os americanos) sobre os quais
eu fazia comparações, os bons e os ruins, e isso
foi me ensinando aquele ofício que eu achava
que podia ter. Evidentemente, Shirley Temple já
tinha ficado pra trás, agora era Rita Hayworth...
Nossa, que mulheraça!
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Um dia, um desmaio. Esquistossomose, herança
dos córregos onde a gente pescava com peneira.
Os primeiros sintomas já tinham aparecido em
Ubá, o Dr. Djalma Carneiro receitou Iodobisman
e pronto. Mas, nessa recaída, minha mãe ficou
mais preocupada. Quanto a mim, relaxei em relação aos estudos, e com exceção de geografia,
francês e uma ou outra matéria, minha aplicação
na terceira série do Liceu Franco-Brasileiro era
a palhaçada. Nisso eu era primeiro da classe.
E como chegou a um ponto que eu não podia
passar de ano mesmo, relaxei-me. Abandonei o
barco. Naquele tempo tinha exame oral, depois
da segunda prova parcial, foi quando o professor
perguntou o que era estratosfera, eu não sabia,
fez outras perguntas, tudo terminado em sfera,
e eu não respondi a nenhuma. Então ele fez a
última pergunta: Sabe o que é zerosfera?
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Isso eu sabia. Tinha tirado nota zero.
Minha vontade, mas nunca me levaram, era de
assistir um programa de auditório da Rádio Nacional, uma potência na época, com suas muitas
novelas, Mais Forte Que o Destino, O Sol Nasce
Amanhã, Em Busca da Felicidade, Ternura, Vidas
Mal Traçadas, Fracasso, Um Lírio na Correnteza,
Retrato de Cristina, O Direito de Nascer, Teatro
de Mistério, os vários programas de auditório,
de César Ladeira, de Paulo Gracindo, de Manuel
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Barcelos às quintas-feiras e de César de Alencar
aos sábados, o Edifício Balança Mas Não Cai, a
PRK-30, as Piadas do Manduca e mais Alma do
Sertão, Um Milhão de Melodias, Jararaca e Ratinho, Tancredo e Trancado, Coisas do Arco da
Velha, Gente Que Brilha, Nada Além de Dois Minutos, Canta o Seresteiro, Quando Canta o Brasil, Curiosidades Musicais, Quando os Maestros
se Encontram e os cantores, Chico Alves, Carlos
Galhardo, Orlando Silva, Sílvio Caldas, meus ídolos, todos... Em Ubá, ao meio-dia dos domingos,
passando pela rua, a gente ouvia a voz de Francisco Alves no programa Quando os Ponteiros se
Encontram, vinda de todas as casas... O curioso
é que muitos anos depois eu acabei cantando
em cena... Na carícia de um beijo, que ficou no
desejo, boa-noite, meu grande amor... na peça
Caixa Dois.
Aliás, essa montagem tem uma história à parte.
Começa quando, em 2002, o Juca de Oliveira,
autor da peça, telefonou me convidando para
substituir o Fúlvio Stefanini que não estava legal
de saúde, por isso querendo dar uma parada. A
oferta incluía porcentual e participação societária
na montagem. Aceitei de imediato, por todos os
motivos. E lá fui eu pra São Paulo, outra vez.
Foi num teatro muito bonito da cidade de Piracicaba, durante uma excursão deles pelo interior
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paulista, que vi Caixa Dois pela primeira vez,
embora já conhecesse o texto e tivesse alguma
visão particular das cenas. Na mesma noite, logo
depois do espetáculo já troquei idéias com o
Fauzi Arap, que era o diretor, e fui sincero, tinha
achado o espetáculo meio burocrático e que o
elenco estava mecânico demais. Ele concordou
com quase todas as minhas ponderações, críticas
construtivas, todas, e disse que também achava o
espetáculo meio envelhecido. E que aproveitaria
a substituição para dar uma limpada, uma renovada em tudo. Conversou muito com o elenco
e, na noite seguinte, o resultado era outro. À
medida que corriam os ensaios comigo, o Juca
ficava mais satisfeito, dizendo que eu tinha dado
mais humanidade ao personagem. Até eu estrear
como o personagem Roberto, em Jaú, outra
cidade do interior de São Paulo, no dia 20 de
novembro de 2000. Os colegas tinham o hábito
saudável de trocar idéias sobre o desempenho
de cada um e, com humildade, ouvia todas as
observações sobre minha atuação. E, assim, de
cidade em cidade, de opinião em opinião, fui
amadurecendo meu trabalho e me preparando
para a estréia no Teatro Cultura Artística de São
Paulo, o Culturão, em 4 de janeiro de 2001. A
nova versão de Caixa Dois foi uma magnífica
temporada, lotando aquele teatro enorme praticamente todos os dias.
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Caixa 2, com Cassiano Ricardo, Juca de Oliveira, Suzy
Rêgo, Cláudia Melo e Andrei Garolli
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Juca e eu até assinamos um contrato com o
Teatro Leblon, no Rio, mas a coisa acabou não
dando certo, por falta de apoio dos hotéis contatados. Paga a multa pelo não cumprimento
do contrato, o grupo resolveu visitar outra
vez o próspero interior paulista e, em seguida,
viajar pelo Norte e Nordeste, por sugestão do
próprio Juca. Em Salvador, ele também parou,
porque ia gravar a novela O Clone. Ofereceu
então a peça a mim, se eu quisesse montá-la no
Rio. Imediatamente comecei a batalhar apoios
e patrocínios, com Marcos Montenegro e, tudo
acertado, começamos os ensaios com Oswaldo
Loureiro no lugar de Juca de Oliveira e Cláudia
Mauro no de Suzy Rêgo. Enquanto isso, prosseguiam nossas conversas com a Eletrobrás, cujo
patrocínio só foi fechado próximo à estréia. Mas
o maior problema, com o qual eu não contava,
foi a memória de Oswaldo Loureiro. Na estréia,
em 14 de maio de 2002, ele atuou na base do
ponto eletrônico e assim continuou por várias
semanas, até ganhar autoconfiança e se livrar
do aparelhinho. Discutia, teimava, discordava
da direção, dava muito trabalho, mas acabou
entrando no ritmo e, apesar de tudo, foi bem,
e teve boas críticas. O espetáculo todo foi muito
elogiado. E tudo ia bem, até eclodir a chamada
síndrome do candidato Lula, quando nas vésperas da eleição para presidente o País parece
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que ficou com medo, os negócios praticamente
pararam e, em conseqüência, as bilheterias
tiveram uma queda brusca. Final infeliz: tive
um prejuízo que não deixou saudades. Nem as
fantásticas reações da platéia compensaram a
tristeza com os últimos borderôs, magérrimos.
Um fim melancólico. Uma grande decepção.
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Antes disso tinha acontecido Intensa Magia, de
Maria Adelaide Amaral. Outra gangorra. Mas
não quero deixar de salientar que essa peça
foi um grande sucesso pessoal meu. Nas duas
montagens. Em São Paulo, em 1977, foi um êxito
absoluto, de público, de crítica, de tudo, dois
anos depois do fracasso de bilheteria no Rio,
compensado pelos espetáculos que vendemos
bem para a Unimed e fizemos em Belo Horizonte. Foi a salvação da pátria, deu pra pagar todas
as dívidas, ficamos zerados e ainda sobrou uns
tostõezinhos. Fui indicado – mas não levei – ao
Prêmio Mambembe de melhor ator; em compensação ganhei o Prêmio Shell, cuja divulgação
dos escolhidos foi feita no Palácio do Catete (eu
cheguei atrasado por causa do trânsito, e fui o
último a saber) e a entrega, no Memorial da
América Latina, em São Paulo. Isso, referente
à montagem do Rio. E, na montagem de São
Paulo, também recebi o Prêmio Shell.
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Porque foram duas encenações completamente
diferentes, nem parecia o mesmo texto. Elenco,
direção, divulgação, bilheteria, tudo. Começa
que, ao contrário do espetáculo do Rio, o de
São Paulo teve patrocínio. A autora não tinha
gostado nada da produção carioca, achando
medíocres a direção, os cenários, a iluminação,
inclusive alguns desempenhos. Acontece que a
peça tinha entrado em cena de forma precária
e precipitada, houve equívocos.
Dela, participei apenas como ator. A estréia
foi no Teatro Amazonas, em Manaus, em 15
de setembro de 1995, depois Belém, São Luiz e
Fortaleza (com alguns atores tendo gravações de
novela no Rio, uma verdadeira loucura) antes da
temporada no Rio, no Teatro Vanucci, a partir
de 10 de novembro do mesmo ano. Eu, fazendo o pai, Alberto, tive boas críticas. Mas Maria
Adelaide não queria levar Intensa Magia para
São Paulo, do jeito que estava, então ofereceu
a remontagem a mim e a Rosamaria. Aceitamos,
claro, até porque estaríamos atuando outra vez
para a platéia paulista.
83
Contratamos Montenegro&Raman para produtores-executivos e, para diretor, convidamos
Silney Siqueira, que já tinha coordenado leituras da peça, portanto, conhecia bem o texto. O
Banco Real entrou como patrocinador e a Rio-
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Sul concedeu passagens aéreas. Nina de Pádua
e Tereza Piffer aceitaram substituir Ana Maria
Nascimento Silva e Priscila Camargo. Fechado o
contrato com o Culturinha, espaço menor, 400
lugares, do Teatro Cultura Artística, os ensaios
começaram no Rio, no auditório – depois transformado em teatro – do Jóquei Clube Brasileiro,
graças à interferência de Luiz Macedo, nosso
amigo e diretor de lá. Em São Paulo, ficamos no
Hotel Excelsior, na Avenida Ipiranga, não muito longe da Rua Nestor Pestana, onde ficava o
teatro. Enfim, estava tudo pronto, nos menores
detalhes, dos cenários e figurinos de Marcos
Weinstock, à iluminação de Roberto Lima e a
trilha sonora de João Paulo Mendonça. O programa, com praticamente uma biografia minha
e da Rosa, além da saudação a São Paulo, ficou
lindo. E a estréia, no dia 22 de agosto de 1996
foi espetacular. Todos bem ensaiados, entrosados, tudo em cima. As críticas, elogiosas. Uma
mudança radical em praticamente tudo. E valeu
a pena, porque, além de tudo, ganhei o Prêmio
Shell de Melhor Ator daquele ano.
85
A luta era brava, dia e noite, sem parar. Mas
dava tempo de um flashback, de vez em quando,
até dias bem mais suaves que já eram parte do
passado: minha primeira permanência carioca,
em 1946, por exemplo. Era um refresco recordar
Intensa Magia, com Rosamaria Murtinho
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aquilo tudo. Porque foi bom, muito bom demais,
enquanto durou. Pena que depois de um ano,
nós levantamos acampamento novamente.
É que o Alceste veio nos visitar no Rio e, vendo
o sacrifício do Dino, praticamente recém-casado,
dividindo a vida dele e da mulher com aquela parentada toda, sugeriu que mamãe, Chica, Olavo
e eu fôssemos morar com ele, que vivia sozinho
em Tupaciguara, no Triângulo Mineiro, onde era
gerente do Banco Mineiro da Produção. Ali seria
nosso novo pouso. Sugestão dada, providências
tomadas. Aquela, aliás, foi a única vez que, depois de adultos, os sete irmãos estavam reunidos,
então fomos todos até um fotógrafo no Largo
do Machado e registramos o momento histórico
de nossa família para a posteridade. Essa foto,
emoldurada, está numa parede da varanda da
minha casa até hoje.
87
Mas como encarar essa nova mudança de vida?
Eu não tinha nem noção do que me esperava. A
viagem foi num Douglas DC-3 da Aerovias Brasil,
num vôo Rio-Uberaba-Uberlândia-Araguari.
Era uma novidade e o desconhecido me atraía.
O vôo tranqüilo em céu-de-brigadeiro anulou o
medo inicial de entrar num avião pela primeira
vez e passei a sentir um prazer ainda não experimentado, o de voar. Não tirei o olho da janela,
Intensa Magia, com Rosamaria, Tereza Piffer, Cyrano
Rosalém, Rodrigo Mendonça, Nina de Pádua e Silney
Siqueira
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vendo os desenhos que as nuvens faziam. Lá
embaixo era praticamente um imenso deserto,
estávamos em 1947 e o desenvolvimento ainda
não tinha atingido aquelas bandas. Até a pista
do aeroporto era de terra. Quando chegamos
no poeirol de Araguari (naquele tempo, mineiro
gozador dizia que tinha três cidades com a letra
B: Beraba, Berlândia e a bosta de Araguari), meu
irmão Alceste estava nos esperando, dormimos lá
mesmo e no dia seguinte partimos rumo a Tupaciguara, num valente Ford V-8, comendo poeira
numa estrada horrível, cheia de buracos.
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Aquilo era um desastre pra mim, um rapazinho
que tinha descoberto duas novidades maravilhosas: o mar e o prazer. E agora, José? Como
encarar a dura realidade? Havia a curiosidade
de conhecer um novo lugar, mas a tristeza de
ter deixado a capital do país pesava mais na
balança. Sair do Rio de Janeiro foi uma perda,
parecia que tinham tirado um pedaço de mim.
E a gente estava numa cidade pequena demais,
escondida na penumbra de uma iluminação
escassa. Ainda bem que tinha footing, que lá
chamavam de vai-e-vem, onde começamos a
conhecer as menininhas locais, algumas agitadas
com a chegada de dois forasteiros, irmãos do
gerente do banco, figura respeitada na cidade,
como o padre, o delegado e o prefeito. E logo
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fomos apresentados a uma delícia chamada
pão-de-queijo, especialidade do Triângulo e
de Goiás, que ubaense, da zona da mata, não
conhecia. Cada família tinha sua receita. Mas lá,
depois da sessão de cinema, sumia todo mundo
da rua. Fazer o quê? Só restavam duas opções,
dormir ou ir para a zona do meretrício, onde a
mulher mais razoável era uma morena até que
meio bonitinha, mas portadora de um papo que
lembrava uma perua.
Na falta de programa melhor, começamos a ler.
Machado de Assis, de quem meu irmão tinha
uma coleção bonita, toda encadernada de verde, e Humberto de Campos. E nos aprimoramos
numa espécie de dialeto ubaense, que mais
parecia um código secreto local. Muita gente
de lá falava, inclusive meus irmãos mais velhos,
os irmãos mais velhos do Ferdy Carneiro e de
vários outros amigos e colegas nossos. Ninguém
entendia, entretanto era português mesmo, só
que invertendo as sílabas, de trás pra frente.
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Por exemplo: Será que esse gravador está funcionando? virava Rase que esse dorvagra táes
donanciofun?
O som ficava estranhíssimo e o significado,
indecifrável. Eu e Olavo começamos treinando
com palavras longas, como completamente, ou
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seja, tementaplecom. E praticamos tanto que
chegamos a falar muito rápido, discutir até. Era
um espanto geral. Uma vez, nós dois passeando
pela Avenida Atlântica, começamos a conversar
animadamente nessa língua e um senhor com
pinta de diplomata quis saber de que região da
Europa Oriental era aquele dialeto e se ele ainda
era falado ou já tinha caído em desuso.
É guêstupor momes, ós que dolafa ao riotrácon.
(Tradução: É português mesmo, só que falado
ao contrário. )
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Diante do sorriso bem-educado dele, nós perguntamos: Deutenen? Claro que não entendeu.
E, diplomaticamente, achou melhor seguir em
frente. Ele e seu sorriso simpático.
Até que acabamos indo estudar no Colégio Regina Paces, de padres holandeses da Congregação
do Sagrado Coração, em Araguari. O uniforme
era muito bacana, todo branco, com quepe e
tudo, o da banda então, era mais emperiquitado
ainda, com alamares no peito e aquelas dragonas
de franjas em cada ombro, uma beleza. Um dia
pegamos o trem da Mogiana e fomos até Uberlândia. Na estação formamos e descemos a rua
principal, Afonso Pena, com a banda tocando pra
valer, o melhor que sabia. Botamos pra quebrar
mesmo. E foi saindo gente nas janelas e come-
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çaram os aplausos, foi a glória. Uberlândia não
tinha uma fanfarra boa, então nós mostramos
que, nesse quesito, Araguari dava de 10. Só daquele instrumento que parece tuba e bombardino, mas tem outro nome, que não me lembro
agora, aquele que dá a volta pelo ombro e sobe
igual um enorme girassol de metal, tinha quatro.
Aquilo dava um visual e um som de arrepiar!
Fora os seis clarins. E os padres, marchando com a
gente, superorgulhosos daquilo tudo. Assistimos
à missa na Matriz de Uberlândia, refizemos o
caminho de volta até a estação, e regressamos,
felizes, a Araguari.
Para espantar o marasmo dos outros dias, resolvi agitar, tentando organizar festas, jogando
vôlei e basquete (aqueles padres davam muita
importância às práticas esportivas) e, como sempre tive um bom ouvido musical, tocando tarol,
caixa, bumbão, bombardino, clarim, tudo, na
nossa fanfarra. Mas o tempo foi passando e eu
e Olavo chegamos à conclusão de que não dava
mais para continuar sujeito àquela disciplina de
mosteiro. A gente raras vezes podia sair e, quando saía, era obrigado a andar de mãos dadas,
era demais. Eu tinha sido reprovado no Liceu
Franco-Brasileiro, no Rio, porque não levava
estudo muito a sério e também por problemas
de saúde. Lá em Araguari, ao contrário, como
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não havia muita distração, aproveitei a calmaria
e comecei a estudar à beça, resultado, passei de
ano com média 9,4.
Mas apesar de bom aluno, continuei com
minhas molecagens, imitando todo mundo e
botando apelidos nos padres holandeses. Um
deles, muito louro, todo vermelhinho, olhos
azulados, comecei a chamar de Izolica, que era o
nome estranho de uma professorinha bonita do
jardim-de-infância do Regina Paces, cujos dotes
físicos os mais velhos louvavam devidamente
no banheiro.
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O Padre Izolica tinha mania de cruzar os braços
e encarar os alunos, em caso de reprimenda.
Certa vez ele chegou na minha frente, eu o encarei também, fiz uma careta e ele desmontou.
Foi uma risada geral. Ele perdeu o rebolado,
mas me mandou pra fora de aula, levei castigo
e fiquei sem sair. Outro, muito alto, virou logo
padre-foguete e passou a vítima nossa, depois
que combinei com a turma que depois do recreio ou do almoço, quando a gente entrava
em forma, coluna por três ou quatro, no pátio
enorme do colégio, os que ficassem mais atrás
começariam um murmúrio em coro, de boca
fechada, huuuuummmm, e quando ele fosse
tomar satisfações, os da frente emendariam,
huuuuummmm, e assim sucessivamente. Ele
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ficava indo de um lado pro outro, indo e vindo,
esperneando, doidinho.
Enfim, naquele ano que passei em Araguari,
era muito estudo, muito esporte e algumas bagunças, só não consegui participar do teatrinho
do colégio, privilégio dos meninos mais bem
comportados, principalmente os Congregados
Marianos, porque ali só entrava em cena aquilo
que os padres aprovavam, textos com conteúdo
moral. Fui assistir, algumas vezes, morrendo de
inveja. Mais uma porta que ficou fechada pra
mim. E não dava pra agüentar meses e meses
trancado, longe de tudo e de todos. Era muito
chato. Além disso, as professorinhas do primário
provocavam em nós uma saudade das meninas
que a gente conhecia, possíveis ou não candidatas a namoradas.
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Uma das coisas muito características da cidade
eram as duplas caipiras, por influência do interior
de São Paulo e de Goiás.
Mas eram duplas sertanejas mesmo, com viola,
tipo Tonico e Tinoco, aquelas histórias com
enredo, A Vingança do Chico Mineiro e outros
clássicos, não era esse negócio moderno, não.
Aliás, por falar nisso, eu questiono muito essa
coisa de dizer que pagode veio do Nordeste, porque quando tinha festa nas fazendas lá daquele
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pedaço de Minas, nós íamos comendo poeira
pela estrada até os arrasta-pés nos terreiros. E o
convite era verbal: Hoje tem pagode na fazenda
de fulano de tal.
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Pagode era um acontecimento festivo. Estava no
dicionário: Pavilhão onde alguns povos antigos
do Oriente rendiam culto a seus deuses, antiga
moeda da Índia. Pândega, farra, brincadeira.
Nos pagodes começaram meus namoros, pena
que as meninas de uma determinada idade,
naquela época, só pensavam em casar. E uma
namorada pela qual tive paixão mesmo, casou
é com um fazendeiro, não comigo, estudante e
duro. Mas como eu estava dizendo, eu e o Olavo
começamos a imitar as duplas caipiras... Eu tenho
uma mula preta / de sete parmos de artura... Ele
fazendo a primeira voz, eu fazendo a segunda.
Acontece que eu estava quase na idade de fazer
serviço militar e em Ubá, como em quase todas
as cidades, tinha um negócio chamado Centro de
Instrução Pré-Militar, um pré-pré serviço militar,
que o Getúlio tinha instituído para os jovens
entre 14 e 16 anos, que inclusive desfilavam nas
paradas patrióticas de Ubá. Mas em 1949, eu já
estava com 18 anos, morando em Uberlândia,
cursando o científico e fazendo o tiro-de-guerra
229, uma obrigação que rapaz de hoje não sabe,
nunca ouviu falar e nem desconfia o que seja. E
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lá tinha um sargento cujo apelido era Cobra – tinha cara do bicho e era uma verdadeira cascavel
– com quem imediatamente não simpatizei nem
um pouco e que, não por acaso, também nutria
o mesmo tipo de sentimento em relação a mim.
Então ficou aquele negócio no ar. Só me restava
caprichar em tudo, nos exercícios, na marcha, no
tiro, na bandinha, e assim me mantive até o final.
Até que tive da fazer uma prova de química,
que era meu terror, no colégio, e passei a noite
tomando Pervitin, quer dizer, não dormi nem
um instante; no dia seguinte cheguei fardado,
mas barbudo e maldormido, portanto, com o
humor no pé. Aí um outro sargento, subalterno
do meu desafeto, falou alguma coisa comigo,
a resposta foi meio atravessada e ele ordenou
que eu ficasse fora de forma. Imediatamente o
sargento Cobra pegou meus papéis e mandou
pra Juiz de Fora, sede da região militar que
Uberlândia pertencia, me expulsando do tirode-guerra. Apelei para um tenente, um coronel,
não adiantou nada, e tive o desprazer de ver todos os meus colegas receberem o certificado de
serviço militar e eu, ficar na mão. E sem aquele
documento a gente não podia fazer nada, nem
trabalhar. Então só me restava duas opções: servir o Exército em Ipameri, em Goiás, um castigo,
ou fazer o CPOR, Centro de Preparação para
Oficiais da Reserva, no Rio.
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Optei pelo Rio, onde o Olavo tinha um amigo, o
Eronildes, que conhecia um cidadão cujo nome
era Alberto de Castro Simoens da Silva, mas era
melhor chamá-lo de Bororó, senão ninguém ia
saber quem era. Era o compositor de Curare e
Da Cor do Pecado... Esse corpo moreno / cheiroso, gostoso / que você tem... Dois grandes
clássicos da música popular brasileira. Bororó,
por sua vez, tinha um cunhado que era major
do Exército e, melhor ainda, inspetor dos tirosde-guerra do Estado do Rio. Frente a frente com
o tal major, contei o que tinha se passado, com
detalhes, honestamente, sem omitir nem um só
detalhe, e ele, muito boa-praça, pediu que eu
trouxesse os papéis de Juiz de Fora. Trouxe. E
ele ficou de estudar aquela papelada, pra depois voltar a falar comigo. Nesse meio-tempo,
mandou me chamar.
E foi muito bacana comigo: Fui removido e
não conheço quem vai me substituir, mas fique
tranqüilo porque está tudo acertado. Já entrei
em contato com o tenente de Nova Friburgo,
você vai pra lá como se tivesse sido transferido
de Uberlândia. Olha, pra mim, você já prestou
o serviço militar!
Fui a Friburgo, me apresentei ao tenente, um
sargento não engoliu bem aquela história, mas
como ele tinha um superior que era o tenente,
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que por sua vez tinha que obedecer ao major,
ficou me olhando assim meio de banda e me deu
umas prensas no começo, mas acabou ficando
meu amigo, porque eu era bom de tiro, de ordem-unida e tocava na fanfarra, não era filhinhode-papai rico querendo passar no tapetão. Assim
terminei o tiro-de-guerra em Friburgo, onde
eu tinha guarida, porque meu irmão Euclides
morava lá, era professor de um colégio-modelo
da Fundação Getúlio Vargas, depois de ter feito
especialização na Sorbonne. Pouco depois já estava com o certificado de reservista na mão. Eu
era um cidadão brasileiro, apto a uma porção de
coisas, inclusive voltar a trabalhar.
E enquanto aguardava a solução dessa situação,
morei numa pensão da Rua Conde de Baependi
no Rio e comecei a trabalhar em uma agência
do Banco Nacional de Minas Gerais, graças ao
José Luiz Magalhães Lins, que era amigo do meu
irmão Jacob. E fazia o curso clássico, visando ao
vestibular de Direito, no Educandário Rui Barbosa, mais conhecido como Facilitário facilita tudo,
slogan de uma loja tipo magazine, A Exposição,
se não me engano.
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Alguns anos antes de tudo isso, com a ida do
Olavo para Belo Horizonte, continuar os estudos, depois de ter terminado a antiga quarta
série ginasial no Regina Paces, nossa dupla
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estava desfeita pela primeira vez. Ele no Banco
Mineiro da Produção, em BH, e eu estudando no
Colégio Estadual de Uberlândia. Como Alceste
tinha me alertado que já estava na hora de eu
começar a pensar em trabalhar, e na pensão
em que eu morava tinha um rapaz que era meu
companheiro no time de vôlei e funcionário da
Fábrica de Balas Imperial, conversando com ele
na hora do almoço, puxei o assunto, dizendo que
estava procurando o que fazer. Fiquei sabendo
que havia uma vaga no setor de expedição da
fábrica. Ele intercedeu por mim e de noite me
deu o recado: Amanhã dá uma passada por lá,
pra fazer uma entrevista.
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O dono tinha um filho que, por acaso, era meu
colega de colégio e do time de basquete. No dia
seguinte eu começava a trabalhar, cuidando dos
engradados e ganhando 400 cruzeiros por mês.
Ao mesmo tempo, terminava a antiga quarta
série do ginasial, com média 8,6. Pra quem tinha
sido bombasticamente reprovado três anos antes, no Rio, era um progresso extraordinário.
Em uma das pensões em que morei, aconteceu
uma cena que continua viva em minhas lembranças até agora. Foi no dia em que pedi um
guardanapo e ouvi a seguinte pérola: Nóis aqui
num tem desses luxo, não! (como guardanapo
era luxo, o jeito era o lado de fora da mão
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mesmo, a beira da toalha ou, em último caso, a
manga da camisa...).
Comparada a Tupaciguara e Araguari, Uberlândia, a antiga São Pedro de Uberabinha, era cidade grande. Tinha muitas máquinas de beneficiar
arroz, então toda a produção da região ia para
lá, onde, inclusive, havia um comércio bastante
desenvolvido. Uma espécie de entreposto para
todo o Estado de Goiás e parte de Mato Grosso.
Muito caminhão rodando. Era um pedaço de Minas altamente influenciado por São Paulo, grande respeito ao trabalho, ao contrário de Ubá,
cuja referência era o Rio de Janeiro. Quer dizer,
uma vida bem melhor, com direito até a um
bom cinema, onde os rapazes ficavam passeando
de um lado para outro na sala de exibição, pra
ver onde estavam sentadas as namoradas ou
candidatas a namoradas, até apagarem as luzes.
Aí era uma correria doida, no escuro, cada um se
ajeitando no lugar já cuidadosamente estudado e previamente combinado com elas através
de sinais em código e/ou olhares dissimulados.
Muito engraçado.
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De vez em quando aparecia uma carona, na
boléia ou em cima do caminhão, e eu encarava
quase duas horas de estrada de terra, empoeirada, até Tupaciguara, pra visitar minhas mães.
Fora isso, em Uberlândia, a diversão era jogar
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basquete. Tanta gente jogava bola na cesta
que dava pra fazer um campeonato na cidade.
Tinha o nosso time, chamado Boa Vontade, com
o Pacu, que a gente tratava à inglesa por Peiques, o Orelha, também chamado de Oreínha,
o Taioba, o Tostão, que era a minha turma, e
tinha também o Fluminense, o Uberlândia e
outros times, inclusive o dos veteranos, os véios,
a veiêra. Enfim, os dias eram mais interessantes.
Por exemplo, no verão, quase todo domingo o
pessoal botava um terno de linho branco e ia
pro clube, dançar. Aí eu já dançava também, não
ficava, como antes, num canto vendo os outros
dançarem. Pelo seguinte: durante aquele ano
que moramos no Rio, um dia houve uma festa
no nosso prédio, para a qual eu e Olavo fomos
convidados, me lembro até da data, foi no dia 6
de abril, quatro dias depois do meu aniversário.
Pra variar, me encostei na parede e fiquei só
olhando. Eu parado e o salão girando em torno
de mim. De repente, a aniversariante, ariana
como eu, moça desinibida, cheia de iniciativa,
carioca esperta, chegou perto e perguntou se eu
ia ficar sozinho a noite inteira. Dei a desculpa
de que não sabia dançar e ouvi o seguinte: Que
não sabe, o quê!
Fui arrastado pro meio da sala. Era meu primeiro
contato físico, pele na pele, com uma parceira
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Acima, quatro times de basquete do Colégio Estadual de
Uberlândia, 1948/49 (3o em pé à esquerda) e, abaixo, o
time de basquete do Boa Vontade, 1949 (1o à esquerda)
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feminina. Eu estava com 15 anos e ainda trazia
dentro de mim uma coisa muito repressora típica
daqueles tempos, ligada a proibições, mistérios,
descobertas, pecados, culpas, tudo misturado...
E olha eu agora mexendo em compartimentos
mineiros nos quais há muito tempo não mexia!...
Daí a importância daquela noite em que dancei
adoidado até o fim da festa. Pronto, nunca mais
fiquei solitário num canto. Bolero, samba, valsa,
qualquer ritmo, era comigo mesmo. Então, lá
no clube de Uberlândia, na primeira nota da
primeira música, lá estava eu, rodopiando.
102
Os homens daquele tempo, no interior, usavam
ternos, mas só azuis-marinhos, no inverno, e
brancos, no verão, outras cores... fora. E gravatas, as discretas, não muito coloridas. Sapatos,
pretos ou marrons. Uma vez, meu irmão Marcelo,
que morava no Rio, já meio cariocão, adaptadíssimo à cidade, me deu um sapato dele que eu
babava só de olhar. Era daqueles de duas cores,
marrom e branco, alinhadíssimo, que a gente só
via no cinema americano, naqueles musicais dos
anos 40/50, nos pés do Fred Astaire, ou nas ruas
da então ainda capital da República. E me deu
também uma calça de gabardine verde-chumbo
meio puxado para o cinza. É, mas só pude usar
essa toalete uma vez na vida e por pouco mais de
meia hora, porque o comentário mais elegante
que ouvi foi que tinha veado novo na praça...
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Uma senhora zona, a de Uberlândia, onde os
estudantes iam se divertir, à tarde! Nunca à
noite, que era o horário dos marmanjos endinheirados, dos coronéis. Em compensação, nas
matinês havia a possibilidade até de boca-livre,
dependendo do enrabichamento – como se dizia – de cada uma daquelas moças de fino trato
horizontal. Quer dizer, se uma delas simpatizasse
com o freguês, a festa podia ser com desconto,
ou até, às vezes, de graça, o que tornava a tarde
ainda mais gostosa.
Nessa época aconteceu uma descoberta fundamental em mim: que eu gostava de cantar e,
melhor ainda, que cantava bem.
103
Principalmente o repertório de Herivelto Martins,
tanto que quando eu chegava num bar de lá, uma
espécie de café-concerto que tinha um palquinho
com um conjunto de piano, contrabaixo, violinos
e violão, diziam logo: Lá vem o Caminhemos!
Virou meu apelido. Caminhemos era o carrochefe do meu repertório... Não, eu não posso
lembrar que te amei... Coincidência ou não,
anos depois, morando definitivamente no Rio,
conheci o Herivelto e ficamos amigos.
E graças à minha voz de barítono, ganhei o
primeiro lugar no programa de calouros Papel
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Carbono, do Renato Murce, na Rádio Nacional,
interpretando Noches de Ronda, à moda de
Pedro Vargas. Cantei também no Programa do
Silvino Neto, na Rádio Clube do Brasil, a versão
de Marta, um sucesso de Carlos Ramirez. Cada
calouro representava um time de futebol, envergando a faixa do clube, a mim coube o Bonsucesso e tirei segundo lugar. E no Calouros em
Desfile, do conterrâneo Ari Barroso, na Rádio
Tupi, PRG-3, ganhei nota 3 (a mínima era 1 e a
máxima era 5) interpretando Três Lágrimas, do
próprio. A minha sorte foi que o Ari não estava
julgando e mandando ou não o Tião Macalé
bater o gongo, naquele dia quem aprovava ou
reprovava era um calouro já gongado uma vez
e um outro, que tinha tirado nota 5. Mas, por
via das dúvidas, usei o pseudônimo de Sílvio
Keter. Só não tive coragem de encarar a Hora
do Pato, do Jorge Curi, porque achava o fim da
picada aquele qüém-qüém-qüém pra quem não
agradasse. E não era somente por causa da voz,
que o pato berrava à beça, um dia um rapaz
começou a cantar... Tu és / divina e majestosa
/ estauta generosa... Nem o pato agüentou a
estauta do cara.
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Capítulo III
Flávio, Juca, Boal, Freire e a Casa de Chá
da Rua São Luiz
Quanto à minha querida mãe, só fui tentar compreender os problemas dela já adulto, trabalhando em São Paulo, quando fiz psicanálise com o
Roberto Freire (depois autor de Sem Entrada e
Sem Mais Nada, direção de Antunes Filho, montagem da qual participei, anos mais tarde).
Eu andava meio atormentado, em busca de um
tempo perdido, talvez. Pelo menos procurando
um ponto de equilíbrio nos trauminhas decorrentes dessa espécie de dupla maternidade sob a
qual nós crescemos. De um lado, uma matriarca,
carinhosa às vezes, mas nem sempre (lembro de
um dia em que o Olavo estava levando uma coça,
o chicote resvalou nos colhões dele, o negócio
ficou roxo, ele urrando de dor, e logo depois,
arrependida, ela fazendo festinha para o filho
duramente castigado). Sozinha, viúva precoce,
com dificuldades de sobrevivência, fazendo doce
e vendendo pra fora, já que não era suficiente
a ajuda que os filhos mais velhos, as freiras do
Colégio Sacré Coeur de Marie e o padre Correia,
padrinho de um dos meus irmãos, podiam dar,
ela, como quase todas as mães daquela geração,
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era partidária da velha pedagogia infantil à
base da palmada, chinelada, ou, em casos mais
graves, da chicotada na bunda. Do outro lado,
Francisca, a Chica, entrando de mediadora, apaziguando as situações mais complicadas. Nada
de perfeição em nenhuma das duas, portadoras
de muitas, muitíssimas qualidades, mas algumas
falhas também. Ambas amparadas na religião, o
temor a Deus, os castigos, os medos, do pecado,
do inferno, de tudo.
Em matéria de sexo, então, foi uma tragédia.
Porque nós descobrimos lá em casa, em Ubá,
uma edição antiga de Quo Vadis ilustrada com
estampas da Lígia nua nos chifres do touro, o escravo abissínio e aquelas orgias todas. Escondiam
o livro, a gente achava, acabava apanhando de
chicote. E os mais velhos contando histórias das
mulheres alegres da Pensão Elite, lá do outro
lado da linha do trem. Lugar, aliás, onde nunca
estive, mesmo depois de mais crescidinho, por
motivo mais que justificado: um dia estava num
consultório e comecei a ouvir berros desesperados vindos de dentro da sala do médico. Tinham
enfiado um tubo cheio de bismuto na uretra
do coitado. Era como se tratava a blenorragia
(gonorréia) antigamente. Daí em diante, doença
venérea, para mim, passou a ser uma coisa simplesmente apavorante.
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Isso com menos de 10 anos de idade, porque
no interior, pelo menos naquele tempo, a noção de sexo vinha muito cedo, principalmente
através dos animais, livres das convenções sociais e religiosas, das regras de boas maneiras,
portanto, não obrigados a vergonhas, recatos,
dissimulações ou quatro paredes na hora em que
o instinto de procriação falava mais alto. Mas a
minha primeira noite de homem foi só aos 15
anos, no Rio, da maneira mais clássica e convencional dos adolescentes daqueles dias altamente
repressivos e castradores em matéria de iniciação
sexual: com uma empregada doméstica do mesmo prédio onde meu irmão Dino morava e nós
estávamos acampados, de bando. Apesar de eu
ser caipira, tímido, dentuço, espinhento e levemente feioso, ela me dispensou um tratamento
vip, superespecial, caprichando nas manobras
eróticas, quando soube que se tratava de uma
avant-première, minha estréia no ramo.
O mundo rodou, o tempo passou e, por volta de
1957, 58, eu e Rosamaria Murtinho, quase noivos, fomos a uma reunião na casa do Fernando
Sabino, então casado com uma grande amiga
dela, Ana Beatriz Estill, depois nossa comadre. E
lá estava o Hélio Pellegrino fazendo proselitismo
para uma confraria mineira presente, inclusive,
se não me falha a memória, o Paulo Mendes
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Campos. Apesar da psicanálise ainda não ter entrado na moda, eu já tinha idéia do que fosse. E
não me lembro mais exatamente em que termos,
mas naquela noite o Hélio defendia bravamente
os benefícios que a psicanálise podia trazer ao
ser humano, em termos de autoconhecimento,
de evolução, et cetera.
A situação, então, era a seguinte: depois de Casa
de Chá do Luar de Agosto, em julho de 1957, eu
tinha feito Rua São Luiz, 27 – 8o andar, de Abílio
Pereira de Almeida, também no TBC, em São
Paulo, muito bem acompanhado de Fernanda
Montenegro, Rosamaria Murtinho, Nathália
Timberg, Raul Cortez, Sérgio Britto, Ítalo Rossi
e outros. Considero como meu primeiro sucesso
real (enriquecido pelo fato de ali ter conhecido
Rosamaria). A peça abordava um tema controvertido na época: a chamada juventude transviada e seus pais também transviados, apesar de já
não mais tão jovens. Uma espécie de naturalismo
intimista, como sintetizou um jornalista. A vida
como ela era (é, sempre foi e deverá ser também
no futuro), mas queriam que não fosse. Eram
dias ainda sem – ou de poucas – pílulas e sem
motéis (ainda havia garçonnières).
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Principalmente, sem aids, quando preservativo
(bons tempos!) a gente usava apenas com as profissionais do ramo e só para evitar outras doen-
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ças do sexo, blenorragias (nome mais chique da
popular gonorréia) e similares, todas bem mais
brandas (penicilina nelas!) e nenhuma mortal,
nem epidêmica. Em um cotidiano desses, encontros escusos, sem papel assinado, só podiam
dar mesmo em acidentes de percurso, também
conhecidos pelo nome de abortos, pecado capital das capitais, pecado mortal em alguns casos,
quando matava mesmo. Por isso alguns gritinhos
abafados, na platéia. E o desespero da cena final
(Miséria, miséria, miséria!) fechando a cortina.
110
Rua São Luiz, 27 – 8o andar, era uma controvérsia
sem paralelos, no teatro brasileiro daqueles dias
menos escancarados. A crítica (Essa voz espúria
– segundo definição de Mário de Andrade) se
dividia entre a boa vontade de Luiz Giovannini
na Última Hora e a severidade de Helena Silveira e Décio de Almeida Prado em O Estado
de S.Paulo e de Delmiro Gonçalves na Folha da
Noite, enquanto o juiz de menores mandava
redobrar a fiscalização.
Menor de 21 anos não entra, de jeito nenhum!
Não assisti, mas o volume de queixas que me
chegam dão bem uma idéia da imoralidade que
deve ser o que é mostrado! O chefe da Divisão
de Divertimentos Públicos reforçava: O tema é
escabroso e eu não posso cooperar para a degradação moral de nossa gente!
Casa de Chá do Luar de Agosto, com Ítalo Rossi e Maria
Helena Dias (em pé), Célia Biar, Fregolente, Nathália
Timberg e Milton Moraes, 1956
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Rua São Luiz, 27 – 8o andar, com Fernanda Montenegro,
Sérgio Britto, Rosamaria Murtinho, Oswaldo de Abreu e
Nathália Timberg, 1957
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Enquanto o debate esquentava, o público lotava
o TBC. E a coluna Ronda, assinada por Mattos
Pacheco, no Diário da Noite, mudava de assunto
sem sair do tema: Por falar em Rua São Luiz, dizem
que está havendo um romance entre Rosamaria
Murtinho e Mauro Mendonça. Havia mesmo. Ele
era fofoqueiro, mas bem informado.
Foi em janeiro de 1958, minha estréia no Rio, em
Dama de Copas (Pif-Paf), outra peça de Abílio
Pereira de Almeida, quando tive boas críticas,
de Paulo Francis, Bárbara Heliodora, Gustavo
Dória e Brício de Abreu. Treze à Mesa e Quartos
Separados – esta, primeira direção de Fernando
Torres – vieram depois. Em Treze à Mesa, uma
comédia de boulevard, gênero considerado teste
para qualquer ator, eu estreava como protagonista, no papel de Antoine Villardier. Fiquei
feliz porque, apesar das naturais dificuldades
nos primeiros ensaios, fiquei mais à vontade
já no início da temporada, a reação da platéia
foi sempre boa e as críticas também foram favoráveis. O curioso dessa montagem é que tive
a confirmação de uma lenda, segundo a qual
o diretor Ruggero Jacobbi dormia durante os
ensaios. Eu achava que isso era pura lenda de
bastidores, mas numa tarde de verão carioca nós
ouvimos, de repente, um ronco constrangedor
em alto e bom tom. O boato estava oficializado,
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até porque aquela não foi a única, nem última
vez que aquilo acontecia...
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Muito bem. Na remontagem de Rua São Luiz, no
Rio, em outubro de 1958, no Teatro Ginástico,
entraram sete novos atores no elenco original,
Tereza Raquel, Liana Duval, Paulo Padilha, Francisco Dantas, Maria Pompeu, Moacyr Deriquem
e Sebastião Campos. Encerrada a temporada, o
TBC não renovou meu contrato. Como Rosamaria e eu já estávamos noivos, com intenção de
casar, eu precisava trabalhar urgentemente. E,
aos 28 anos de idade, participei de A Gaivota,
um texto de Millôr Fernandes, dirigido por Carlos Murtinho, irmão da Rosamaria, com o grupo Studio 53, em abril de 1959. Mas era teatro
amador, quer dizer, ninguém ganhava nem um
só tostão. O bolso começou a reclamar e daí nasceu a necessidade de tomar uma decisão. Apelei
então para a intuição, mais uma, que houve
várias em minha vida, a maioria resultando em
boas decisões.
A não ser uma, desastrosa, para confirmar a regra, quando, dois meses antes de acontecer aquela grande virada do Francisco Lopes, eu estava
com aplicações no banco e senti que seria melhor
tirar esse dinheiro e comprar dólar. O gerente
tentou me convencer: Que é isso, que bobagem
é essa, nós estamos vivendo a estabilidade, não
há surpresas mais na política econômica...
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Não segui meu insight, meu plim original, fui
atrás do papo do gerente, a moeda americana
subiu igual foguete e eu perdi uma bela bolada. Porque se eu tivesse comprado, a minha
aplicação não seria desvalorizada em 40%. O
dólar equilibrou, subiu, eu venderia os meus e
estabilizaria meu capital. No entanto, bobeei e
minhas aplicações ficaram desvalorizadas. Ou
seja, exatamente o contrário daquela intuição
divina de 1958/59, quando o TBC não renovou
meu contrato, senti que a solução estava em São
Paulo e, sem ir atrás de palpite de ninguém, me
mandei pra lá.
Na verdade, de certa forma, eu queria me afastar
do Rio também porque nessa época dois irmãos
meus, Olavo e Jacob, moravam comigo num
apartamento de quarto-e-sala da Rua Gomes
Carneiro, em Ipanema. Os dois dormiam na sala
e eu, que tinha montado o esquema, ficava no
quarto com a minha caminha de casal.
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Era uma guerra constante, e eu segurando a barra,
levando uma mordida aqui e outra ali, mas tudo
bem, afinal, irmão é pra essas coisas também.
Em São Paulo, pra mim, o campo estava aberto
e fui logo procurado pelo Antunes Filho e pelo
próprio TBC. Nem perguntei ao Antunes – que
ainda não era o enfant terrible de depois – com
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quem eu já tinha feito muito teleteatro, o que
ele tinha pra mim. Só depois me lembrei que,
além do palco, eu poderia também participar do
Teatro das Segundas-Feiras, que ele fazia toda
segunda-feira na TV Tupi Difusora, que tinha
também a TV de Vanguarda e a TV de Comédia, com elenco contratado da emissora. Mas a
intuição tinha me apontado para o porto mais
seguro e optei pelo TBC, assinando contrato
pela segunda vez. E, em julho de 1959, estava
interpretando o embaixador russo de Romanoff
e Julieta, texto do ator Peter Ustinov.
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Foi quando entrei em um boteco da Rua Major
Diogo, no ainda não badalado bairro do Bexiga,
então Bela Vista, pra tomar um cafezinho, e vejo
Flávio Rangel, Juca de Oliveira e Augusto Boal
respeitosamente ouvindo Roberto Freire, candidato a dramaturgo, discorrer sobre os benefícios
da psicanálise para as artes cênicas. Entre outros
argumentos, sintetizando, que seria muito bom
para um ator ou diretor, que ele tivesse um autoconhecimento, para, assim, penetrar melhor
nos personagens. A cena foi rápida, logo que
puderam, os três arranjaram uma desculpa e
saíram pela tangente, ou melhor, pela esquerda
(marxista). Eu então me aproximei do Roberto
Freire, me apresentei e disse que estava interessado no assunto. Ele deu o endereço, telefone,
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e marcamos uma entrevista. É que meu agudo
senso de responsabilidade me apontava para a
necessidade de estudar teatro a fundo, saber
mais sobre a profissão que eu tinha abraçado
com tanto empenho. Acreditava não estar preparado para ser colega de muita gente boa,
como senti, pouco depois, ao ser apresentado
a Cacilda Becker.
Precisava abrir meus horizontes para poder interpretar melhor os personagens, exatamente
como, de certa forma, ele tinha falado a Flávio,
Juca e Boal e foi o que calou mais fundo em mim,
então com dificuldades nos ensaios de Interesses
Criados. Não fosse o Alberto D’Aversa, além de
diretor ser um mestre paciente, eu não teria
conseguido desempenhar o papel, inclusive até
ter boas críticas. Principalmente nos textos que
estudava com a professora Maria José de Carvalho (que fazia traduções bastante eruditas das
tragédias gregas e dos clássicos ingleses e franceses, Shakespeare, Molière, Racine, assim como Gil
Vicente, Alexandre Herculano e o repertório da
Commedia Dell Arte, do qual eu ainda não tinha
conhecimento). Maria José de Carvalho foi um
marco profissional pra mim, não só porque me
ensinou a botar o personagem pra fora, como
através do trabalho sobre vários textos, conheci
a História do Teatro, que até então não tinha
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tido chance de estudar. Aliás, ela sempre falou
de mim com extremo carinho, da minha dedicação, disciplina, obstinação. Uma vez – nunca mais
me esqueci – disse que eu era um determinado,
que sabia o que queria e me empenhava para
conseguir isso. Ela sempre achou que talento,
sem determinação, não adianta nada.
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Maria José foi minha professora de aperfeiçoa­
mento vocal em várias fases, a primeira ainda
no tempo do TBC, depois em aulas particulares
na casa dela e mais tarde no curso da Comissão
Estadual de Teatro, durante praticamente um
ano, lá na Sala de Cima do Teatro de Arena de
São Paulo, na Rua Teodoro Baima. Foi então,
através de interpretações de trechos de peças,
de pequenas cenas de tragédias gregas, das
leituras do Infante, do Pedagogo, dos clássicos
todos que eu passava com ela, que realmente
construí o alicerce da minha potência vocal. Ali
foi o estalo.
E me possibilitou o estudo de textos que não
teria a menor chance de interpretar no palco.
Quando fizemos Agamemnon eu já estava madurão. Porque antes eu era muito tenso e, como
bom mineiro, falava pra dentro. Foi quando ela
me disse que isso podia até ter seu encanto,
mas que pra teatro não servia. Então eliminou
a tensão do meu maxilar.
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Na terapia com Roberto Freire, ele começou
por desbloquear o potencial que havia em mim,
então comecei aprendendo a elaborar minha
agressividade. Eu era um cabrito solto no pasto,
um cavalo, às vezes. E eu não tinha muita certeza
também de poder desempenhar um papel ainda
nem ensaiado, o de homem casado. Estava com
medo de, na vida real, assumir um compromisso
de tal importância. Primeiro, porque me achava
imaturo para encarar uma responsabilidade dessas,
constituir família, montar casa e tudo o mais que
eu imaginava que fosse um casamento com pompa
e circunstâncias, como eram as uniões desse tipo
naqueles dias. O mais grave é que não conseguia
definir claramente as raízes desse medo. Além de
detalhes como despesas, filhos e fim da liberdade,
que já estavam teoricamente claros, havia algo
mais forte que eu não sabia bem do que se tratava. Podia ser um medo já pressentido de teatro
não dar futuro a ninguém, ou seja, um senso de
responsabilidade à flor da pele. Não sei, eu não
sabia. E pra saber isso tudo foi que me apresentei
ao Roberto Freire naquele botequim em frente ao
TBC e logo começamos quatro sessões semanais de
uma hora. Assim foi. Até que, depois de um ano e
meio, ele me liberou, cortou o cordão.
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Ele foi uma das primeiras pessoas em quem
percebi uma coisa que hoje é óbvia para mim:
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há pessoas que nascem com um talento imenso
e simplesmente não se realizam por culpa de
bloqueios emocionais de repressão autoritária.
Através de uma terapia ou às vezes por acidentes
da própria vida, essa repressão cessa e o potencial da pessoa explode. No caso do Mauro, ele
era muito torturado, altamente marcado pelo
moralismo provinciano. Tinha um traço comum
a outros dois artistas, Jardel e Glauber, mas ele
se atormentava ainda mais, colocando o objetivo
artístico acima de tudo. Tinha o caminho dele,
quem ficasse na frente ele derrubava. Era capaz
de se arrebentar, ia inteiro, numa entrega total,
num vale-tudo, mas eu sabia que ele ia chegar
aonde chegou. Só não sabia quando ia ser a
erupção daquele vulcão.
Roberto Freire
Tempos depois, Roberto Freire me definia em
duas palavras, numa entrevista: Determinação, obstinação.
Só que às vezes eu levava essa determinação,
essa obstinação, às raias da obsessão. Foi assim
que cheguei a um grande fracasso – por isso
mesmo, de importância profissional fundamental – não só quanto ao espetáculo em si,
como principalmente à minha interpretação,
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como Noel Carradine, personagem principal
de Patate, de Michel Achard. Era uma unanimidade: ninguém gostou de nada. Agora sei
que fui profundamente pretensioso ao julgarme amadurecido o suficiente para encarar um
vaudeville, com os pés nas costas. Mas, apesar
de toda a amargura, tive humildade suficiente
para assimilar o resultado, as opiniões, e fazer
uma autocrítica. E pude dar a volta por cima,
transformando aquele episódio negativo em
importante lição de vida e de carreira. Afinal,
meu primeiro papel como protagonista, tinha
me mostrado que eu ainda não estava preparado para vôos maiores.
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Entrei então em um processo de auto-avaliação
e a achar que devia ver mais teatro, estudar,
me aprofundar. Meus primeiros passos no palco
teriam sido eficientes, suficientes? Tinha apenas
alguns anos de estrada, mas já algumas histórias
para contar. Inclusive um episódio curioso durante meus primeiros passos no palco, nos ensaios
de As Alegres Canções da Montanha ou Altitude
2010, quando eu a certa altura levava um soco
e caía no chão. Desconfio que fiz aquilo com tal
perfeição que meu irmão Olavo chegou a quase
entrar em cena pra me defender, pensando que
fosse briga de verdade e eu tivesse sido agredido
mesmo. Rimos muito, todos, depois.
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Em 1959, pouco antes de Patate, eu tinha me casado, ainda com o tal medo. E estava bem casado
– mas já sem medo – morando no velho e original
Bexiga dos bons tempos do Cine Rex, pagando
oito mil cruzeiros de aluguel por um apartamento
em cima da loja de um estofador chamado Pascoal
Ambrósio, vulgo Pascuá, na Via Giovanni Passalacqua, quero dizer, Rua João Passalacqua. Como eu
ganhava 20 mil, ainda dava pra de vez em quando
ir comer um macarrãozinho no Giggetto depois
da sessão do teatro. Me lembro do dia em que fui
acertar o contrato de aluguel com o Pascuá e ele
só perguntou o que é que eu fazia na vida.
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Trabalho ali no teatro.
Ele: Ah, artista...
E me apresentou ao Juca Chaves, que era cliente
dele: Conhece aqui, o artista...
Eu não tinha nem nome nem nada, eu era simplesmente – com fortíssimo sotaque napolitano
– o artista (mas só até eu e a Rosa começarmos
a aparecer na televisão e houve uma campanha
chamada Faça uma Criança Sorrir, na TV Excelsior.
Aí eles ficaram nos conhecendo. Mudou até o tratamento. Seu Antonio, que nunca tinha fiado nem
um tostão pra mim, comunicou: Olha, seu Mauro,
se o senhor quiser pagar só no fim do mês, pode
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abrir uma “cardeneta” aqui... E o dono da casa
de móveis Scarlatto até sorriu pra mim e não tirou
mais a mulher da janela quando eu aparecia).
Algum tempo depois, perguntei ao Pascuá desde
quando ele não entrava num teatro.
Acho que a última vez foi pra ver uma opereta
lá no Rex...
Então disse pra ele ir me ver no Teatro Maria
Della Costa. Mas antes, avisei: Olha, só que tem o
seguinte, teatro mudou muito, não é mais como
antigamente, não!
Claro que ele não entendeu o espírito do meu
aviso, mas balançou a cabeça e fez uma exigência: Mas tem de ser num sábado!
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Sábado era dia da filial e não da patroa. Mas dia
de casa superlotada, não tinha convite. Então
comprei duas entradas e deixei na bilheteria.
Na segunda-feira ele me chamou: Pelo amor de
Deus, artista, então quer dizer que teatro agora
é assim? Me deu vontade de subir lá e dar uma
porrada naquele cara que você bateu nele. Pensei até que fosse de verdade...
Ele tinha levado um susto. Era Plantão 21, um
primor de montagem, direção do Antunes, deze-
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Plantão 21, com Sérgio Alexandre, Elias Gleizer e Paulo
Barreto, 1960
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nas de pessoas em cena, uma beleza, num clima
que muito antes, já no histórico Teatro de Arte
de Moscou, de Constantin Stanislavski e Vladimir
Danchenko, era chamado de realismo espiritual:
despojamento total de falsas convenções para
criação de uma vida mais verdadeira e mais
emocionante sobre o palco.
Pascuá gostou tanto, que, de vez em quando,
me pedia pra recomendar-lhe outra peça. E
nunca mais deixou de ir ao teatro. Ele era estofador e alugava o andar de cima da loja para
nós, Rosamaria e eu. A gente tinha entrado
num apartamento absolutamente vazio, nem
sombra dos móveis que despacharam do Rio,
de trem. Seu Antonio, do armazém ao lado,
emprestou o telefone, eu liguei pra Central do
Brasil, expliquei a situação, o sujeito que atendeu perguntou se eu podia mandar buscar, eu
não podia, ele entendeu meu problema, sentiu
o drama, disse que ia dar um jeito, e deu, gentilmente – aquilo que existia antigamente – me
mandando três móveis pra quebrar o galho,
com os quais estreamos nosso primeiro lar de
recém-casados: uma cama, uma cômoda e um
armário. O resto ficou lá, depois fui buscar, um
sofá de palhinha que a Rosinha tinha herdado,
uma mesa de cozinha e duas ou três coisinhas
mais, tudo simplesmente precário.
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Nós já tínhamos passado a lua-de-mel com ela
gripada, tossindo, quer dizer, praticamente não
tivemos; nosso primeiro endereço era um acampamento; e, se não bastasse isso tudo, na primeira manhã fomos acordados, às sete, por um
falatório interminável na rua. Tinha feira-livre
em frente e a gente não sabia desse pequeno
detalhe geográfico-folclórico. Mas logo ficamos
fregueses, quando soubemos que eles vendiam
tudo em bacias, não tinha esse negócio de quilo.
E uma bacia de laranja por cinco cruzeiros transformava qualquer falatório em mero sussurro.
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E os pregões dos vendedores e compradores
ambulantes? Comprá... Comprá... Comprá... era
o judeu que comprava roupa velha. Olha o biscoiteeeeeiro! Mas, um dia, a gente começou a
ouvir o choro de uma mulher que se lamentava:
Aai, meu Deus, ai, minha Nossa Senhora, ele
construiu essa casa e agora não pode nem sair
dela! Era uma vizinha.
O marido tinha morrido, mas o caixão não passava pela escada, tiveram de chamar os bombeiros
para que o finado descesse pela janela, em meio
aos lamentos chorosos... Poverina, poverina. De
vez em quando passava a figura de Adoniran
Barbosa, a caminho de uns botecos ali da esquina da Rua Santo Antônio com São Domingos.
E tinha os Móveis Scarlatto, cujo dono apelidei
Saída do casamento com Rosamaria, 1959
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de Urso, porque quando eu chegava na janela
e a mulher dele também estava na janela dela,
em frente, do outro lado da rua, ele olhava pra
mim de cara feia e, enciumado, a mandava pra
dentro da casa.
Até que certa vez, acordamos, altas horas da
noite, com um grito novo, feminino, de dentro
de um táxi que dava voltas no quarteirão: Nicola
Ansermo, seu filho da puta... Corno... Seu pai é
veado, sua mãe...
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Só depois da terceira passagem da dama deselegantemente apaixonada repetindo o xingamento como um mantra, o humilhado e ofendido
resolveu sair da toca, magrinho, raquítico, com
um fio de bigodinho ridículo, um tipo, parecia
personagem saído de uma daquelas deliciosas
comédias do cinema neo-realista italiano daquele tempo. Um homem que, pelo menos teoricamente, não despertaria a atenção de ninguém;
no entanto, Nicola Anselmo era o gostosão da
mulatinha espevitada e invocada, então visivelmente indignada. Ele devia ser da pá-virada, mas
certamente tinha lá seus segredos, suas qualidades, suas habilidades, quem sabe. E porque, na
véspera, certamente cometeu alguma infração
no código lá deles, pisou na bola, quem pagou o
pato fomos nós, que tínhamos escolhido morar
ali só pra ficar perto do TBC, do Oficina e do
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Maria Della Costa, sem saber dos usos e costumes
daquele pequeno pedaço de sucursal da Calábria
encravado na cidade de São Paulo.
Esse era o Bexiga velho de guerra!
De certa forma um flashback, porque havia sido
grande a influência dos italianos que tinham
se radicado na minha cidade, tanto que entre
outros costumes deles, pelo menos um chegou
lá em casa: a gente comia macarronada todas as
quintas-feiras e todos os domingos. Daí também,
quem sabe, a grande facilidade com que eu assimilei o neo-realismo do cinema italiano, anos mais
tarde, um cotidiano mais próximo do nosso e um
rompimento com aquela máquina americana de
sonhos que não tinha nada a ver conosco.
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Eu estava começando a descobrir Stanislawski.
Antes, por exemplo, não podia nem pensar em
fazer Interesses Criados, de Jacinto Benavente.
Embora escrito por um espanhol, baseado na
Commedia dell Arte, uma forma teatral nascida
na Itália e desenvolvida, sobretudo, nos séculos
17 e 18, em que os atores improvisavam os diálogos baseando-se em um enredo previamente
combinado, explorando situações cômicas. Tudo
em tom de farsa, geralmente contendo críticas
e lições de moral, através de personagens de
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caráter bem definido, tipos como o Capitão
Fanfarrão, o Dottore, Spaventa, Pantaleone,
Scaramuccio, Arlecchino, Pietrolino, Colombina
e outros.
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Mas, em 1954, antes de me dedicar inteiramente
ao teatro, o que me sustentava mesmo era o
emprego de propagandista de produtos farmacêuticos, visitando médicos e apresentando
novos produtos (a Terramicina, um antibiótico
poderoso, estava sendo lançada e já era muito
receitada). Eu trabalhava na Pfizer, indústria
farmacêutica conceituada no mercado, com salário fixo e comissão nas vendas, que resultava
em um bom e infalível dinheirinho na boca do
caixa a cada fim de mês.
Nas horas vagas do começo das noites, batia
ponto no Vermelhinho, na Rua Araújo Porto
Alegre, em frente à ABI, Associação Brasileira
de Imprensa, no centro da cidade. Ponto de
encontro do pessoal de artes plásticas, Scliar,
Eneida, Iberê, teatro e cinema, além de alguns
jornalistas. Nelson Pereira dos Santos estava pra
fazer Rio 40 Graus e meu irmão Olavo ia ser um
dos assistentes de produção. Lembro bem como
foi apresentada a música do filme: o Zé Keti, já
com alguns sucessos, mas ainda não famoso,
chegou e fomos todos para um cantinho menos
barulhento do Vermelhinho, ele pegou a caixinha de fósforos e mandou ver...
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Eu sou o samba
a voz do morro sou eu mesmo, sim senhor
sou eu quem trago a alegria
para milhões de corações brasileiros...
Eu já tinha feito figuração em Rua Sem Sol, de
Alex Vianny, e pontas com pequenas falas em
O Petróleo é Nosso, de Watson Macedo, e em
Carnaval em Caxias, de Jorge Ilelli. Acabei tendo uma participação bem razoavelzinha, com
diálogo e conseqüências, em uma cena de Rio
40 Graus, como um turista paulista do Brás que
leva a família (um sobrinho meu, José Bonifácio
Azevedo Mendonça, filho do meu irmão Francisco Galdino, era meu filho, no filme) ao Pão
de Açúcar e acaba protegendo um daqueles
meninos vendedores de amendoim, perseguido
pelo personagem de Sadi Cabral.
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A essa altura, eu tinha abandonado os planos
de fazer vestibular para Direito.
Cinema era, então, meu sonho de realização
artística. Mas, certa vez, passeando pela Cinelândia, ali na Rua Álvaro Alvim, parei em frente
ao Teatro Rival e fiquei olhando as fotografias,
curioso, quando um sujeito assim de meia-idade
começou a se aproximar de mim. Pensei logo:
Ihhh, isso só pode ser veado...
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Não era. Devia ser da administração do teatro ou
algum empresário, com certeza alguém do meio
artístico. E como uma dessas coisas que acontecem e a gente não tem explicação, ele perguntou
se eu não queria ver a peça. Eu queria. Ele foi
até a bilheteria, pegou o ingresso e me deu. E
lá estava eu assistindo Alda Garrido em Dona
Xepa, com Glauce Rocha, recém-saída do Teatro
do Estudante, e Milton Moraes. Acontece que
Alda Garrido chanchava muito, tinha um estilo
absolutamente pessoal e intransferível de representação, uma linha assim meio Dercy Gonçalves
antes dela, brincando em cena, falando com a
platéia... Isso é hora de chegar?... O senhor aí, tá
com sono por quê?... Dentro de cada frase um
caco, enquanto o resto do elenco trabalhava sem
sair do texto, aquele teatrão altamente declamado e aqueles telões horrorosos no fundo do
palco. Não gostei do que vi, tinham me tirado a
magia da coisa. Por intuição, talvez, fazia idéia
do que poderia ser ou não um bom teatro, pelo
menos tinha essa pretensão. E, dias depois, resolvi comprar um ingresso para ver Obrigado Pelo
Amor de Vocês, com Rodolpho Mayer, Lourdes
Mayer e André Villon, no Teatro Dulcina. Aí, sim,
gostei. Ri muito, com o resto da platéia, que se
dobrava de dar risada. Acabei vendo Jaime Costa
fazendo Dom João VI. Não gostei.
Rio 40 Graus, com Martim Francisco, 1954
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Mas, de repente, estava assistindo Santa Marta
Fabril S.A., de Abílio Pereira de Almeida, no
Teatro Ginástico. Paulo Autran, Tônia Carrero,
Eugenio Kusnet e outros, num cenário para mim
maravilhoso, não tinha aquele negócio de telão
pintado, não. Aí entrei no jogo deles. Adorei. E,
absolutamente deslumbrado, pensei assim: Taí,
esse teatro, eu até gostaria de fazer...
O Paulo Autran tinha virado meu paradigma. Um
dia eu quero chegar aonde esse sujeito chegou!
Ele tinha passado a ser meu grande ídolo.
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Dias depois encontrei, no Vermelhinho, o Modesto e o Jackson de Souza, que me informou:
Mauro, o TBC está fazendo testes pra formar um
terceiro elenco e viajar com a peça Santa Marta
Fabril pelo País. Eu indiquei seu nome.
Modesto de Souza, pai dele, veterano ator de
teatro, cinema, teatro-rebolado e circo, velho
comunista, contestou: Não faça isso, Mauro, você
está trabalhando num laboratório americano,
eles vão ser donos do Brasil!
Que é isso, pai. O Mauro é jovem, tem o futuro
pela frente, o cinema brasileiro ainda está vivo,
ele vai trabalhar no Rio 40 graus. E a televisão está
apenas começando. Ele vai crescer, tem futuro!
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Nada disso... Nossa profissão é muito incerta,
insegura. Mauro, você vai passar fome!
E ficaram discutindo, pai e filho, sobre minha
vida e meu futuro. Fiquei ouvindo os argumentos
dos dois e pude medir os prós e contras para tomar uma decisão. Acabei indo fazer o teste, num
dos camarins do Teatro Ginástico, exatamente
com um daqueles monstros-sagrados que tinha
visto em Santa Marta Fabril: Eugenio Kusnet.
Frente a frente com ele, não conseguia chamálo de você, era só senhor pra cá e senhor pra lá.
Desfiei então meu ainda raquítico currículo no
teatro amador: em 1953 tinha me matriculado
na Escola de Teatro do SNT, Serviço Nacional de
Teatro, antes de participar do grupo amador
Teatro de Arte do Rio de Janeiro, onde fiz o
personagem Armando, o vilão da peça As Alegres Canções da Montanha ou Altitude 2.010,
de Julien Luchaire, tradução de Miroel Silveira,
direção de Ribeiro Fortes, quando entrei em
cena pela primeira vez, aos 22 anos de idade. Em
1954, com o mesmo grupo, tinha feito o papel
do segundo moço na montagem de A Dama da
Madrugada, de Alejandro Casona. Naquele ano
ainda, passei a fazer o curso da Escola de Teatro
Martins Pena, da então prefeitura do Distrito
Federal, participando do espetáculo A Paixão,
drama sacro em um prólogo e 14 quadros de
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Luiz Peixoto, inspirado na adaptação de Gustavo
Cohen do texto de Arnoul Greban, direção de
Gustavo Dória. Na ocasião, atuei também como
o sertanista João Camargo, na peça Frankel, de
Antonio Callado, e na montagem de Os Homens
e as Armas, de Bernard Shaw, ambas pelo Pequeno Teatro de Comédia, de Maurício Lozinsky, no
velho Teatrinho Follies, que funcionava no Posto
5 de Copacabana. Até ali, 1955, era só.
136
Meio paizão, aquele tipo de russo simpático,
Kusnet continuou o teste de reações me pedindo
que mostrasse um trecho do diálogo com um
índio que eu tinha feito em Frankel. Fui ficando
à vontade e comecei a sentir que ele foi ficando
satisfeito. Resultado: aprovado.
A etapa seguinte era mais um teste, de improvisação, com outro monstro-sagrado: Ziembinsky.
Improvisar era comigo mesmo, então comecei a
imitar pessoas, a fazer uma série de brincadeiras
que já fazia e inventei alguma coisa na hora.
Senti que tinha agradado às pessoas em volta.
Eles acharam graça. Fui o tipo do desembaraçado, a léguas de distância daquele menino de
Ubá que não entrava no circo e não dançava
com ninguém.
Muito bem. Passa-se um tempinho e a idéia
do terceiro elenco foi por água abaixo porque
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Tônia, Celi, Autran, Margarida Rey e outros, se
desligaram do TBC para formar uma nova companhia. Então ficou resolvida a montagem em
São Paulo, de um grande sucesso da Broadway,
Casa de Chá do Luar de Agosto. E tome de teste.
Dessa vez com Maurice Vaneau, que ia dirigir a
peça, apesar de não falar uma palavra sequer de
português. Mas era um grande mímico. Pra fazer
o protagonista, Capitão Fisby – quem fez o papel
no cinema foi o Glenn Ford, mas o filme ainda
não tinha sido exibido no Brasil – senti logo
que não tinha me dado bem. Em compensação,
fui aceito para um papel menor, uma patente
abaixo. Estreei como o sargento Gregovich, com
críticas animadoras e estimulantes para um iniciante, como a de Décio de Almeida Prado, em
O Estado de S.Paulo: Mauro Mendonça estréia
bem em São Paulo, embora num papel de poucas possibilidades. Mas acabei sendo promovido
depois a Capitão Fisby, inicialmente interpretado
por Milton Moraes.
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Essa promoção foi mais que merecida, uma
questão inevitável de hierarquia, e não me surpreenderia vê-lo como o general. Sorte e sucesso
é o que eu desejo a ele.
Maurice Vaneau
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Mal sabia Vaneau que acabei sendo promovido
a general, tempos depois, fazendo o Perón em
Evita... Mas, como estava dizendo, eu tinha participado da carreira toda de Casa de Chá do Luar
de Agosto, um ano e meio em cartaz, entre São
Paulo e Rio, recordista do TBC, 120 mil espectadores, número só ultrapassado 15 anos depois
com Os Ossos do Barão, de Jorge Andrade. No
entanto, na hora de acertar os ponteiros, depois
de aprovado no teste, tinham me oferecido 3.500
cruzeiros. Fui absolutamente objetivo, mostrando minha carteira de trabalho e dizendo que,
embora fosse do TBC o tipo de teatro que queria
fazer, como propagandista da Pfizer eu ganhava
exatamente o dobro, fora as comissões, o que
no fim do mês resultava em 12 ou 15 mil. O Armando Paschoal, que era secretário do TBC, fez
um silêncio, pediu licença, disse que eu esperasse
um pouco e saiu. Foi a um superior seu, talvez o
próprio Franco Zampari, dono do teatro, e voltou
com uma contraproposta: sete mil cruzeiros, mais
participação com as matinês extras e porcentual
quando eu fosse para os ensaios, em São Paulo.
Ou seja, segurança e tranqüilidade por dois
longos e sonhados anos, que era a duração do
contrato. Eu tinha ganhado a queda de braço,
o menino de Ubá não teria tido tanta firmeza,
quase audácia. Talvez a juventude – 24 anos – a
aparência, a possibilidade de me transformarem
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em galã, mas, principalmente, meu desembaraço,
tenham pesado na balança. E, moreno, alto, eu
tinha um tipo físico bom para o papel.
Vaneau depois confirmou, o tipo ajudou, sim,
mas não foi só isso. Ele tinha chegado da Europa, onde era comum fazer testes até com atores
consagrados. E tinha de conhecer com quem
iria trabalhar, então fez teste até com gente
que torcia o nariz, achava humilhante. Eu fiz
na maior boa vontade. O próprio Vaneau disse
depois que, além do aspecto físico, eu tinha mostrado um senso de humor que combinava com
o personagem, um sargento imbecil. Segundo
ele, eu transmitia aquela estupidez, apanágio
dos militares do mundo inteiro.
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E tinha mostrado que para fazer o bobo, fazer
a síntese crítica da burrice, era preciso ter uma
boa dose de inteligência.
O problema, então, passou a ser o seguinte: como
é que eu iria me acertar com o americano da
Pfizer? Acontece que, pouco antes, quando eu
fazia a peça Frankel, publicaram uma fotografia
minha no jornal, falando em um jovem promissor. E ele não sabia desse lado oculto da minha
personalidade. Na ocasião, consegui botar panos
quentes na história dizendo que aquilo era uma
experiência, uma brincadeira, que meu futuro
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mesmo estava ali, na indústria farmacêutica. Só
que tinha chegado a hora de dizer pra ele que
aquela brincadeira tinha virado coisa séria e que
meu futuro estava no palco, não nos remédios.
Fui com a sugestão de que eles me demitissem,
mas só ganhei um cala-boca. E em dezembro de
1955, estava contratado para o elenco fixo do
TBC, por dois anos, encerrando assim a fase amadorística e iniciando minha carreira profissional.
E no dia 20 de dezembro daquele ano, participei
de meu primeiro ensaio no TBC.
140
Lá estava eu, com Fregolente, Sérgio Brito, Nathália Timberg, Milton Moraes – que eu tinha
visto em Dona Xepa – Maria Helena Dias, estreando em teatro, depois de ter estudado arte
dramática nos Estados Unidos, Célia Biar, Oscar
Felipe e, meu Deus, Eugenio Kusnet, na mesma
mesa! Lendo o texto da peça e ajudando Va­neau,
que não falava português. E ele, com aquela
simpatia toda, a me apoiar e estimular, sempre
dando dicas de Stanislawski, sem eu saber bem,
ainda, quem era...
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Capítulo IV
Um E.T. na Barão de Itapetininga e a
Colega Chamada Cacilda
Com lenço e com documento, mas sem a menor
idéia da cidade de São Paulo, estava hospedado
num hotelzinho da Praça da Bandeira, trajeto
do bonde Bela Vista que, segundo me disseram,
passava pela Rua Major Diogo, endereço do teatro. Mas pouco depois eu já morava ali perto,
numa pensão da Rua São Domingos. À tarde,
fazia exercícios vocais, falando alto, com entonação de arauto, repetindo alguns textos, como
aquele de Alexandre Herculano em O Bobo, livro
que tenho guardado até hoje, com a marca da
Livraria Bertrand, Rua Garrett, 73, Lisboa... A
morte de Afonso VI, rei de Leão e Castela, quase no fim da primeira década do século 12, deu
origem a acontecimentos ainda mais graves do
que os por ele previstos no momento em que ia
trocar o brial... brial era uma túnica longa usada
tanto por homens como por mulheres da Idade
Média... de cavaleiro pelo cetro de rei, mortalha
com que o desceram ao sepulcro no Mosteiro
de Sahagun... até que um dia recebi de volta
algumas daquelas palavras, no mesmo tom de
proclamação, mas enxertadas de uma reclamação explícita... Acontece que eu não tenho nada
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a ver com a morte desse tal de Afonso, rei de
não sei onde, porque trabalho a noite toda e só
posso dormir de tarde, então, por favor, pára
com essa lengalenga, pelo amor de Deus!... Era
um motorista de táxi, também inquilino da pensão, bastante incomodado com aquele falatório,
importante para mim, mas sem o menor sentido
para ele. Depois de muitas risadas, entramos em
acordo e acabamos amigos. E passei a exercitar
minha voz em outros lugares e em tom um pouco
mais baixo e menos solene.
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Eu tinha chegado do Rio livre, leve e solto, todo
queimadinho de praia, calça de verão e camisa
de manga curta. Desci de um ônibus da Cometa
ou do Expresso Brasileiro, não me lembro mais,
numa esquina da Avenida Ipiranga quase com
São João, fui andando, Praça da República, Barão de Itapetininga, então, de repente, notei
que as pessoas me olhavam, meio como se eu
fosse quase um E.T. Aí passei a reparar em quem
me olhava como um estranho no ninho e vi que
mesmo as pessoas visivelmente mais humildes,
operários, quem sabe, andavam de paletó,
gravata e chapéu. Ainda tinha a famosa garoa
caindo no final da tarde. Fazia frio, muito frio. A
sorte foi que o Walmor Chagas estava fazendo
uma peça no Rio e me cedeu o apartamento
dele. O gauchão tinha uns casacos maravilhosos
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e nossas medidas eram praticamente as mesmas,
então, no inverno, eu passei a ser olhado pela
minha elegância, não mais como um extrater­­
restre. Eram os primeiros dias dos 18 anos que
morei em São Paulo, de 1955 a 73 (casado, de
1959 a 73).
À medida que os ensaios da Casa de Chá avançavam, eu ficava mais à vontade, cada vez me
enturmava mais, tanto que durante um ensaio
dei um palpite, que ficava bem melhor usar outra palavra nas falas da peça, no lugar de saquê,
que estava no texto original. Sugeri cachaça e
eles toparam. Eu já tinha virado uma espécie de
amigo de infância do Fregolente, ator veterano,
carioca, simpático, bonachão, que gostava de
umas e outras no boteco em frente e eu lhe
fazia companhia.
143
Um dia, Fregolente e eu subimos a escada dos
camarins em direção ao saguão de entrada e
cruzamos com Franco Zampari entrando, em
companhia de uma famosa atriz, que reconheci
logo. Virou-se para ela e disse: Cacilda, quero
apresentar seus novos colegas, Fregolente e
Mauro Mendonça.
Ele estava simplesmente nos apresentando a uma
senhora atriz chamada Cacilda Becker! Primeira
dama do teatro brasileiro, porta-estandarte do
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TBC. Já a havia visto antes no filme Floradas na
Serra, mas agora estava apertando a mão dela!
Minhas pernas tremeram, literalmente. Imagina,
eu, colega de Cacilda Becker! De repente, essa
palavra colega situou-me e, mais do que nunca,
senti um misto de medo e de enorme responsabilidade. Porque com aquele meu modesto
currículo e aquela minha pequena experiência,
estava contratado pelo nosso maior teatro, ao
lado de monstros-sagrados do palco brasileiro.
Eu precisava estudar muito, para ser digno
­desses colegas!
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Anos depois fiz A Rainha Morta com Cacilda, na TV
Bandeirantes. Eu era o rei e ela, Inês de Castro.
Comecei, então, uma série de trabalhos com
grupos independentes, como a Companhia Carioca de Comédia. Oh, Que Delícia de Guerra,
encenada no Teatro Ginástico, no Rio, em janeiro
de 1967, onde interpretei vários pequenos personagens, tinha um elenco que ia de cruuuzes!
a pôoorra!, uma mistureba danada. Mas parei
no meio da temporada. Coitado do Sérgio Mamberti, companheiro de camarim, deve ter sofrido
muito, porque eu estava desnorteado, malucão
mesmo. A peça era dirigida por Ademar Guerra,
o que fez com que o rigoroso crítico Yan Michalski, do Jornal do Brasil, a elogiasse rebatizando a
peça de Oh!, Que Delícia de Ademar Guerra.
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Oh! Que Delícia de Guerra, com Ítalo Rossi, Sérgio
Mamberti, Juju, Mauro, Carlos Eduardo Dolabella, Cecil
Thiré e Napoleão Muniz Freire
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Sobraram elogios para mim, que estaria numa
fase excelente, segundo ele. Sem saber que, sob
o ponto de vista pessoal, a fase era exatamente
o contrário.
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Entre essa peça e a seguinte, Agamemnon,
houve um intervalo de dois anos onde não fiz
nem teatro, nem cinema, nem televisão, nem
nada. Estava no fundo do poço, atravessando
um período desesperado de ateísmo, cheio de
minhoca na cabeça. Inclusive morrendo de ciúmes, querendo saber o que a Rosamaria ia fazer
toda quarta-feira de tarde, quando ela sumia
de casa. Um dia ela chegou, com a Ruthinéa de
Moraes, e me contou que estava freqüentando
reuniões espíritas numa casa de família. Uffff!,
tirei um peso de cima de mim!
Só saí dessa fase negativa com ajuda do Roberto
Freire, que me encaminhou a um clínico, Dr. Ivo
Bussoloti. E mais, depois da Medicina, graças a
um eletricista do TBC chamado André e outro,
Arquimedes Ribeiro, também do teatro, me
encaminhando para desmanchar um trabalho,
uma macumba que tinham feito pra mim na
Bahia. Aí conheci a Irmã Madalena e comecei
minha vida espiritual. Foi a grande virada, essa
descoberta, e a conseqüente solução de meus
problemas profissionais, financeiros e, principalmente, de saúde.
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Eu tive de tudo, entre 1963 e 68. Era uma folha
na correnteza. As pessoas encontravam comigo
na rua e iam dizendo logo: Seu Mauro, o senhor vai me dar licença, mas eu tenho notado
na televisão, o senhor deve estar com algum
problema...
De fato, eu já tinha ido ao médico, tinha tratado de uma porção de coisas, esquistossomose,
ameba, hipertireoidismo e até enterocolite, que
é inflamação do intestino delgado e do cólon.
Na verdade, eu estava indo para uma fase aguda
de angústia. Quando eu imaginava que morrer
era o fim, o nada, acabou, eu não existo mais,
me dava um mal-estar desgraçado.
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Dinheiro não parava na minha mão, toda hora
aparecia um problema no carro, estava agressivo,
criei várias inimizades. Pessoas me aconselhando
a procurar um centro e eu mais materialista do
que nunca, implicando com a babá quando ela
acendia velas em casa. Não quero saber dessas
coisas aqui, não! E ela era pessoa queridíssima,
uma maranhense chamada Joana de Jesus, que
foi babá da Rosamaria, cria da família dela e que,
eu sentia, gostava muito de mim.
E ela, vendo a fera que eu estava, acendia vela
era, com certeza, para mim mesmo. De uma hora
pra outra, comecei a ter taquicardia, aí fiquei
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apavorado, porque as batidas do coração eram
muito fortes. Eu estava na TV Excelsior, mas de
vez em quando ia jogar pôquer lá no TBC, com
o André Eletricista, com o maquiador Leontj
Timonszchenko e o maquinista-chefe do teatro,
Arquimedes Ribeiro. Comprava dois pacotes de
bala Toffee e ficava comendo o tempo todo,
comendo, comendo, quando via, não tinha sobrado nenhuma. E estava tão ranheta que um
dia o André, magrinho, baixinho, me agarrou e
me encostou na parede...
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Escuta aqui, você tem alguma coisa, chega, não
é possível, você é jovem, era alegre e amigo,
agora só encrenca com os colegas, com todo
mundo. Pelo amor de Deus, deixa eu levar você
lá na federação!
No auge da taquicardia, concordei. No dia seguinte, estava na fila da Federação Espírita do Estado
de São Paulo, pensando: Meu Deus, sou psicanalisado, o que é que estou fazendo aqui?
Mas uma pessoa foi me passando a mão na cabeça e ao redor do meu corpo (eu ainda não sabia
que aquilo era um passe). E quando cheguei
em casa, a Rosa quis saber: O que é que houve,
Mauro? Você está mais calmo, hoje. Eu estava
mesmo, tranqüilo. Pensei: Opa!, isso regula...
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Passado um tempinho eu ouço o Leontj, o André
e o Arquimedes conversando sobre um centro
espírita em Guarulhos, então disse que se visse
uma coisa daquelas que eles estavam relatando,
eu passaria a acreditar.
Duvidei, mas acabei indo no tal lugar, sozinho.
Era o Centro de Mamãe Iemanjá, de Pedrinho
Baiano. Na fila ouvi histórias, casos de pessoas
que já tinham desmanchado trabalhos, fiquei
impressionado. Logo eu estava em frente a uma
mulata com alguns traços de índia que foi logo
me descartando. Ihhhh, esse aí eu não atendo
não, tá muito pesteado! Intercederam: Matias,
atende, ele é gente boa!
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Matias: Tá bem, espera a sua vez.
Quando a vez chegou, Matias disse: Não vamos
perder tempo, vou logo dizendo, você está com
uma macumba pesada. Vou mandar você fazer
umas coisas, você faz?
Eu disse: Primeiro eu preciso saber o que é pra
fazer, pra saber se posso fazer.
Mandou acender uma vela, rezar assim e assim
e tomar um chá.
Daqui a três dias você volta, mas fala com aquela
moça gorda lá. Apontou e avisou:
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É um menino que está com ela, junto dela, ouviu?
E me deu um passe. Eu fui embora e, pela primeira vez em muito tempo, deixei vários carros
passarem na minha frente. Porque, até então, eu
não admitia isso, se um carro me ultrapassasse
eu ia atrás que nem um louco, pra voltar a ficar
na frente dele.
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Acendi a vela, rezei, tomei o chá, fiz tudo direitinho e fui falar com a moça gorda que hoje chamo
de Dona Iolanda. Era o menino Pedrinho que
estava dentro dela. E cada vez que ia lá, via mais
fenômenos que iam ficando comuns para mim.
Um dia, Pedrinho me disse: Agora, São Tomé, que
precisa ver pra crer, agora que você amadureceu eu
posso dizer. Tem coisa dentro de sua casa. Marca
com meu cambono pra eu ir na sua casa.
Fiz tudo conforme foi combinado e levei-a à minha casa. Depois das preces, veio o Pedrinho e foi
logo dizendo: Vocês têm um vaso... Descreveu.
Rosamaria explicou que nós tivemos o tal vaso,
mas quebrou. Como tinha sobrado a planta e a
terra, ela plantou no jardim.
É isso que eu quero – ele disse, mandando pegar
o que tinha sobrado.
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Eu fui, descobri onde estava, só tinha sobrado a
terra, ainda com o formato do vaso. Mexi, não
vi nada demais e levei para o Pedrinho, que perguntou se eu tinha achado alguma coisa.
Tem só um coquinho. Ele: É isso que eu quero.
Mandou partir o coquinho. Tentei, mas não
consegui. Era pequeno, mas muito duro.
Pega um martelo e quebra, sem muita força.
Quebrei. E dentro dele apareceu um bilhete
queimado com duas palavras escritas nas bordas:
Morram malditos. Rosamaria começou a chorar.
Ele cruzou com vela e disse que lá no nosso
quarto tinha mais.
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Rasga esse colchão! No colchão que nós dor­
míamos, uma pequena imagem de São Benedito
e uma vela roxa, lá dentro. Ele pegou tudo aquilo, cruzou, ou seja, anulou o malefício, e disse:
Joga em água corrente, rio ou córrego!
Alguém tinha pedido pra fazer, uma entidade
negativa tinha feito, e ela então tinha materializado e desmanchado.
Porque o que há é o seguinte, sob o ponto de
vista espiritual: a inveja é uma energia absolu-
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tamente negativa. Tanto que tem gente que
entra na sua casa e alguma planta murcha, é a
tal de seca-pimenteira. Tem gente que faz magia
negra, espeta boneco e tudo. E tem gente que
pede para as entidades negativas fazerem mal
a uma determinada pessoa (sem saber que está
plantando o mal pra colher depois). Aqui a gente
faz, aqui a gente paga. Agora, se a pessoa não
estiver vulnerável, não pega. Portanto, eu estava
vulnerável, altamente vulnerável.
152
Foi esse meu contato com a realidade transcendental do mundo espírita. Através de um centro,
mesa branca, as pessoas se sentindo bem, apesar
de um certo preconceito, achando que é coisa
de pobre e ignorante. Eu mesmo pensei assim.
Mas havia um impulso, uma força me levando.
E os fenômenos espiritualistas passaram a ser
uma coisa natural e concreta, para mim. Quase
científica. Uma psicoterapia espiritual.
Sou melhor médium em cena do que num terreiro ou numa mesa, mas sinto meu corpo inchar
e uma espécie de envolvimento, quando chego
lá, onde pessoas mais humildes apelam para o
sobrenatural a fim de resolverem problemas
que a psicologia não alcança. Meu caso foi exatamente esse, eu cheguei à umbanda porque já
tinha tentado tratar de meus males por outros
caminhos e atalhos, o Roberto Freire me indicou
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um clínico-geral, o Dr. Ivo Bussolotti. A gente
conversava muito, um problema atrás do outro,
uma doença seguida de outra, ele acabou descobrindo que eu estava com hipertireoidismo,
tomei mil remédios, mas só quando fui ao centro,
desmanchando um trabalho feito, é que comecei
a melhorar de saúde, a engordar, ficar tranqüilo,
corado, normal. A partir de 1968 os caminhos
se reabriram, comecei a trabalhar outra vez,
estava economizando dinheiro, cessaram todos
os fatos negativos de qualquer espécie, físicos,
emocionais, artísticos, profissionais, financeiros
e automobilísticos.
Passei a me sentir bem melhor a cada dia que
passava. Até que, depois de um tempo, o Dr.
Ivo me confessou: Mauro, eu fui seu médico,
seu psiquiatra, seu amigo, seu conselheiro, fui
tudo que podia ser pra você e seus problemas
continuaram. No entanto, você agora é outra
pessoa, depois que foi a esse lugar. Eu tenho que
reconhecer isso. E olha que sempre fui absolutamente cético em relação a sessão espírita!
153
Palavras de quem tinha se referido, meses antes, a um colega da faculdade de medicina que
acabava com qualquer sessão espírita, sob a argumentação científica de que aquilo tudo não
passava de uma grande bobagem. Mas a minha
mudança tinha sido tão radical, tão saudável –
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eu tinha me transformado numa pessoa normal,
corado, tranqüilo e robusto – que ele se convenceu de que algo de fantástico, de sobrenatural,
tinha acontecido.
Passados uns tempos, ele me chamou querendo
saber se eu podia interceder junto àquela senhora: É que meu filho não está bem, não está
estudando direito...
154
Aquela senhora era a Irmã Madalena. Fui até ela,
que recomendou ao menino uma novena para
São Luiz Gonzaga, protetor dos estudantes, e
tudo foi se normalizando. Porque a Irmã Madalena nem sempre mandava ir a um centro, muitas vezes sugeria novenas para santos católicos.
Por exemplo, no caso de casais em dificuldades,
pra São Tomás de Aquino, pros namorados,
São Tarcísio, pra desmanchar os nós da vida,
São Sebastião, pra pessoa perturbada, com má
influência, São Miguel das Almas, pros endividados, Santa Edwiges, pra causa impossível, Santa
Rita de Cássia, pros doentes, São Camilo, pra
marido que bate em mulher, Santa Catarina, e
assim por diante. Na novena, a pessoa, durante
nove dias seguidos, faz preces com as próprias
palavras, conversando com o santo, antes de um
pai-nosso e uma ave-maria. E acende velas. Mas
tem de ser nove dias seguidos, se interromper,
tem de recomeçar.
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As pessoas tinham começado a comentar comigo: Até há pouco tempo você estava magro,
pálido, cara de doente, a gente pensava até que
você estava com câncer. E agora você está calmo,
gordo, corado, o que houve?
Eu contava o que tinha havido e o fato de começar a falar no assunto fez com que muita
gente pedisse me leva lá. E eu os levei pra falar
com Matias e Pedrinho Baiano, porque essas
pessoas precisavam, como eu precisei. Mas houve um tempo em que fiquei fanático, exagerei,
esquecia até de cuidar da família, da profissão,
porque eu ia visitar muita gente necessitada de
ajuda, teve até o caso de uma moça que fui ver
na base da intuição e fiquei sabendo que ela já
tinha sentado na janela duas vezes, querendo
se suicidar. Cheguei com uma rosa vermelha, ela
chorou e sossegou.
155
Eu já tinha ido visitar Cacilda Becker também,
levando-lhe uma flor de Irmã Madalena, uma
entidade espiritual. Ela ficou tocada. E falamos
de coisas espirituais, o significado de se oferecer
uma rosa, para ter bons fluidos, boas vibrações. O
Walmor estava por perto (ele é muito cético, pelo
menos era, não sei se ainda é) quando ela me disse
que ficou emocionada com a visita e que a rosa
era uma beleza. Mas o mais interessante disso é
que alguns anos depois, em meados de 1972, eu
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estava numa reunião lá na Irmã Madalena e uma
vidente me falou assim: Olha, Mauro, quem está
aí do seu lado é a Cacilda Becker. Ela está muito
sorridente pra você, cheia de felicidade.
Salve, Cacilda – eu disse.
Porque, pra ter aparecido, ter participado de
uma reunião, ela já deve ter evoluído lá no plano
espiritual. Então me senti feliz, primeiro porque
fui assim uma espécie de agitador espiritual dela
e segundo porque ela estava numa reunião da
Irmã Madalena, quer dizer, estava na corrente,
devia estar na corrente.
156
Tempos depois, já me preparava para voltar pro
Rio, quando a Irmã Madalena me aconselhou a
ficar em São Paulo. Mas fui voto vencido, Rosinha e os meninos queriam vir, viemos, em 1973.
E aqui, na Rua Paula Freitas, 44, apartamento
102, em Copacabana, onde moravam 12 pessoas
e mais um cachorro, começaram a acontecer coisas absolutamente estranhas. Fiquei pinel, tinha
delírios, emudeci, quando as pessoas falavam,
eu ficava tonto, dormia mal, tinha pesadelos.
Acabei perdendo a noção de realidade e a capacidade de controle sobre mim mesmo. Ficava
vivenciando todos os delírios e fantasias. Era
como se você tivesse uma couraça e ela tivesse
sido retirada, como se seu anjo-da-guarda tivesse
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abandonado você. Fiquei à deriva. Então, já pensando numa reciclagem, resolvi procurar o Hélio
Pellegrino e fiquei uma hora e meia contando o
que estava acontecendo.
Você foi claro, eu entendi seu caso – ele disse. E
não é de psicanálise que você precisa, é de remédio! Vou dar o nome de um neuropsiquiatra,
vá procurá-lo, que ele resolve isso.
Cheguei em casa tontinho e fui pro quarto, me
refugiar. E dei um berro selvagem, como uma
espécie de agressão às pessoas que eu julgava
meus inimigos. A família toda veio correndo
pra ver o que tinha acontecido comigo, que já
andava meio estranho, muito quieto demais. O
jeito foi dizer que aquilo era exercício vocal. E o
alívio foi geral.
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Mas o quarto, que era refúgio, acabava me
angustiando. Baratinei. E nem procurei o tal
médico. Um passarinho voando, um esbarrão na
rua, uma pessoa na janela, tinham significados
misteriosos. Era época do universo racional e
comecei a imaginar uma outra sociedade, da
qual algumas pessoas faziam parte e eu não. Mas
que sociedade, que grupo era esse, eu não sabia.
Até que, através da Maria Inês Souto de Almeida, recebi um recado: a Fernanda Montenegro
queria falar comigo. Liguei e fiquei sabendo
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que havia planos de fazer uma peça e tal, se eu
podia ir até a casa dela no dia seguinte. Entrei
em pânico. Porque meu pensamento era o seguinte: enquanto eu estivesse saindo com minha
mulher e meus filhos, que eram protegidos da
tal sociedade, não ia me acontecer nada. Quis
que eles fossem comigo.
Que é isso, Mauro, vai sozinho!
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Suando, o organismo completamente descontrolado, assustadíssimo, vi meu irmão me dando
um adeus da janela, pensei, pronto, é que eu vou
morrer mesmo, isso é uma armadilha, a nova
sociedade não me aceita mais. E eu dirigindo um
carro, nesse estado mental, indo da Rua Paula
Freitas, em Copacabana, pela Avenida Atlântica,
o Corte de Cantagalo, até a Rua Frei Leandro,
na Lagoa, no trânsito complicado do Rio de
Janeiro. Trêmulo, consegui chegar. E ouvi: São
três personagens, é uma história muito bacana
de Dürrenmatt...
Eles nem precisavam falar nada, poxa!, fazer
uma peça com Fernanda e Fernando, por mim
já estava tudo certo, na ligação da véspera eu
já tinha topado... Até porque estava parado.
Rosamaria fazendo a novela Carinhoso, mas
eu, pirado.
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Você está muito bem, Mauro!
Por fora, Fernanda, por fora...
Tempos depois ela me confessou que ficou impressionada. Porque estava desempregado, ia à
praia todas as manhãs, então minha aparência,
queimado de sol, era a própria negação do que
estava acontecendo lá dentro de mim. Pelo meu
bom aspecto, ninguém diria que eu estava muito
mal por dentro. Além disso, a entonação que dei
ao por fora mais parecia o eco fúnebre de uma
catedral submersa...
Começamos a ensaiar. Celso Nunes era o diretor.
A peça mexia com o casamento, com a fé, com a
religião, com uma porção de coisas. E como eu
estava monossilábico, balbuciando as palavras,
Fernanda falou: Mauro, você está projetando sua
voz pra dentro! Vou indicar uma pessoa, uma
fonoaudióloga, mas não se espante, porque ela
é muito franca, o que tem de dizer ela diz, sem
meias palavras.
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Telefonei e fui. Menos apavorado, com a certeza de que estavam adiando a minha morte. As
primeiras palavras que ouvi de Glorinha Beutenmüller foram as seguintes: Você dorme mal
e acorda pior ainda!
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Aquela mulher, pra mim, era a diaba, a feiticeira,
era ela que ia me introduzir na nova ordem. Ninguém pode imaginar os nós que minha cabeça
dava. Mas fui ouvindo o que ela dizia e fazendo o que ela mandava, embora meio relutante
(sem sequer imaginar que, anos mais tarde, ela
me ajudaria tanto na composição do personagem Teodoro Madureira, em Dona Flor e Seus
Dois Maridos). Eu ainda não sabia que estava
diante de uma pessoa altamente competente,
extremamente capacitada, que tinha criado
o método do espaço direcional, uma cientista
que, através dos gestos e do som da voz de uma
pessoa, descobre quase tudo dela. Até porque
determinados problemas vocais não são apenas físicos, mas psíquicos. A maioria dos atores
realmente sérios já tinham passado por ela, um
pronto-socorro aparentemente só vocal, mas às
vezes mais mental do que outra coisa.
E a primeira coisa que fiz ao entrar de volta no
meu quarto foi dar um berro, um grito primal
que deve ter ecoado por Copacabana inteira.
Os ensaios correram, estreamos em Brasília, no
Teatro Villa-Lobos, dia 15 de março de 1973, e no
Rio, na Maison de France, 12 dias depois. Eu, sobrevivendo. Ainda pinel, mas nem tanto quanto
antes, pelo menos tinha Kurt, o personagem de
Friedrich Dürrenmatt, pra me distrair. Seria Cô-
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mico Se Não Fosse Sério era o título da peça, mas
bem que poderia ser uma síntese do que estava
acontecendo comigo. Uma atuação inconsciente,
mecânica, a minha, como se um robô estivesse
em cena, tal o processo depressivo delirante que
eu vivia. Eu, um pedaço de algodão ao vento, fazendo papel de amante. Que porcaria de amante
que eu devo ter sido! Nem sei o que foi falado,
não tenho críticas dessa peça, só sei que não fui
malhado. Mas agora, mais de 30 anos depois,
vou tentar ter acesso ao que o Gilberto Braga
– quando ainda era o crítico de teatro Gilberto
Tumcitz – escreveu no jornal O Globo.
E como as sessões eram de quinta a domingo, me
mandei pra São Paulo numa quarta-feira, fui ver
a Irmã Madalena, chorei, só sei que voltei pro
Rio mais leve e, no dia seguinte, tive uma interpretação bem melhor. Fernanda até comentou:
Você esteve muito bem, hoje!
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Na verdade eu estava mais aliviado, descarregado. E fui tocando o barco.
Ele é uma pessoa que sempre se aprimorou, pela
vida afora. E participou de muitos espetáculos
importantes que estão na História do Teatro
Brasileiro. É um homem sensível, aplicado, que
busca a perfeição em seu ofício.
Fernanda Montenegro
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Seria Cômico, Se Não Fosse Sério, com Fernanda
Montenegro e Fernando Torres, 1973
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Todo o elenco de O Espigão, 1974
Acabei indo até o centro do Herivelto Martins, a
Cabana de Pai Cipriano das Almas, em Realengo.
Na verdade, quem freqüentava era a Rosamaria
– pelo menos foi lá algumas vezes – por orientação da Irmã Madalena. Houve também alguns
trabalhos de cachoeira aqui perto. Mas uma vez,
na casa dele, na Urca, Pai Cipriano, incorporado
em Lourdes Torelli, mulher de Herivelto, me disse
simplesmente o seguinte: Zi fio tá com problema muito sério. Só zi fio sabe... Nem os seus de
sangue sabem o que está acontecendo...
Era o Preto Velho falando pra mim.
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O Rebu, 1975, com Isabel Ribeiro
...Nem parente de sangue sabe o que zi fio tem...
Mas vai ficar tudo fromoso, viu zi fio ?
Deu um passe e me mandou tomar uns banhos
de mar. Poucos dias depois, eu, Rosamaria e Ana
Beatriz conversando, ela me diz: Eu tenho notado você meio estranho. Você era conversador,
agora anda quieto demais... Olha, uma amiga
minha teve uma coisa parecida com essa que
você está tendo agora. Era um processo depressivo, ela foi a um médico e se curou. Você não
quer procurá-lo, não?
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Era o Dr. Cláudio Lins, na Rua Conde de Irajá e
tal, um neuropsiquiatra. Fui até ele e, durante
quase três horas, contei o que estava se passando comigo. Falei, falei, falei, falei... E ele disse:
Você está com um problema depressivo, manias
delirantes. Mas eu vou curar isso. Tome esse
remédio aqui, esse outro aqui...
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Fui tomando. Mantive os contatos com ele, comecei a dizer as coisas mais claramente e ele de fato
me curou. Era uma tremenda depressão. Aí veio
o convite para fazer O Espigão, de Dias Gomes,
ao lado de Rosamaria, mais Betty Faria, Milton
­Mo­ra­es, Cláudio Marzo, Débora Duarte, Ary Fontoura, Suzana Vieira, Carlos Eduardo Dollabela,
Milton Gonçalves, Mário Lago e Suely Franco.
Além de o salário ser bom, o fato de participar
pela primeira vez de uma novela completa, na
Globo, foi importantíssimo pra mim, pra consolidar minha cura. Além disso, eu finalmente estava
morando com minha mulher e meus filhos, só nós,
imagina a felicidade que foi! E meu personagem
fazendo sucesso, o Donatello, aspone – assessor
de porcaria nenhuma – de um incorporador
imobiliário sem nem sombra de qualquer sinal
de escrúpulo, interpretado pelo Milton Moraes.
Foi o Grande Otelo quem me deu a medida do
que estava acontecendo: Você, hein, chega de
mansinho e já tomou conta da novela!
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Foi gostoso fazer o Donatello, até porque o
personagem tinha um pouco do que eu sugeria,
foi o próprio Dias Gomes quem me disse. Depois
ele ficou sabendo que eu cantava e comentei
que seria engraçado se o Donatello, na noite de
núpcias, resolvesse soltar a voz. Pois isso virou
meio marca registrada e funcionou muito bem.
Era 1974 e começava minha carreira na Globo.
Logo me chamaram para participar de O Rebu,
do Bráulio Pedroso, ao lado de Ziembinsky, Lima
Duarte, Bete Mendes, Isabel Ribeiro, Edson França, Buza Ferraz, Rodrigo Santiago, Carlos Vereza,
José Lewgoy, Arlete Salles, Maria Cláudia, Yara
Côrtes, Felipe Wagner, Regina Vianna, Ruth de
Souza, Marília Branco e Tereza Rachel, contando
a história de um assassinato durante uma noitada de gala numa mansão elegante, contada
em três estágios que se intercalavam, o dia da
festa, os dias seguintes e os dias anteriores, em
flashback. E eu, felizmente, recuperado, tranqüilo, decorando fácil, com uma imagem muito
boa, absolutamente galã.
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Mas, como comecei a engordar um pouco, e
o Dr. Cláudio me receitou um outro remédio.
Quando li o nome... Hummmm, é esse, é isso...
O mesmo moderador de apetite que o Dr. Ivo
tinha me indicado.
Eu não vou tomar isso, não...
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Aquele remédio que tinha me desestabilizado. Finalmente matei a charada, depois de ter
sofrido tanto, ter tomado essa lição, feito essa
revisão interna, isso que eu chamo de verdadeiro exorcismo, embora a medicina chame de
depressão. Tinha se misturado tudo em mim, o
lado pessoal, o espiritual, o familiar, o profissional, o sentimental, foi dose cavalar. Mais tarde
procurei um analista da escola de Wilhelm Reich
e contei o que tinha se passado comigo. Ele: Mas
você foi ao inferno!
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Eu tinha ido ao inferno, mesmo. Isso tudo me
amadureceu muito, me deu mais humanidade,
mais compreensão das pessoas e das coisas. E à
medida que eu pude me recuperar, talvez tenha
me tornado um pai melhor, menos tirânico... Há
males que vêm para o bem... Passei por essa dor
imensa, sublimei esse sofrimento, e isso me deu
mais humildade. Não quero dizer que tenha me
purificado, ainda carrego meus defeitos, mas
tenho muito mais cuidado com eles, muito mais
controle sobre eles. Cuidado e controle sobre
os limites das possíveis qualidades, também. E,
posso falar disso tudo com a maior tranqüilidade, olhando para esse passado com serenidade.
Porque, afinal, essas dores passaram.
Entre 1976 e 77, eu estava fazendo Estúpido
Cupido, de Mário Prata, relembrando a juven-
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Estúpido Cupido, 1976, com Marilu Bueno
tude dos anos 60, com uma candidata a Miss
Brasil e tudo, ao lado de Françoise Forton, Ricardo Blat, Ney Latorraca, Djenane Machado,
Luiz Armando Queiroz, Elizabeth Savalla, Nuno
Leal Maia, Leonardo Villar, Maria Della Costa,
Marilu Bueno, Oswaldo Louzada e Célia Biar.
Eu era o delegado Siqueira. A próxima atração
foi Espelho Mágico, de Lauro César Muniz, em
1977, onde eu era Nelson Novaes, personagem
bem podado pela censura, numa história sintetizando o mundo da comunicação, ficção e
realidade, uma novela dentro de outra, onde eu
era gloriosamente disputado por duas mulheres,
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Vera Fischer e Pepita Rodrigues. Em 1978, Dancin’ Days, de Gilberto Braga, eu outra vez entre
duas mulheres, Joana Fomm e Sonia Braga, pra
terminar com a Danuza Leão. Tudo embalado
pelo ritmo de discoteca, então em moda. Em
Te Contei, eu ficava entre Maria Della Costa e
Ilka Soares. Quer dizer, uma fase excelente, com
parceiras maravilhosas. Em 1979, Feijão Maravilha, outra do Bráulio Pedroso, uma proposta de
brincar com as chanchadas da Atlântida, com
Lucélia Santos, Marco Nanini, Stepan Nercessian,
Felipe Carone, Cazarré, Walter D Ávila, Brandão
Filho, Ivon Curi, Grande Otelo, Anselmo Duarte,
Eliana, Adelaide Chiozzo, José Lewgoy como o
vilão Ambrósio e eu como Mr. Ziegfeld.
171
Apesar de saber que estava atingindo 30 milhões
ou mais de pessoas e que isso é impossível em
­teatro, mesmo que um ator viva 200 anos, havia
em mim uma permanente saudade do palco, meu
berço esplêndido, então a vontade de voltar era
constante. Constante e tão presente que de vez
em quando me lembrava de uma certa noite, depois que Franco Zampari me deu o imenso prazer
e a grande honra de ser apresentado a Cacilda
Becker. Eu tinha assistido uma comédia na qual
ela estava atuando, Filhos de Eduardo, e depois
da representação, quando fui cumprimentála, participei de uma cena, real e insólita, que
Espelho Mágico, 1977, com Pepita Rodrigues
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Te Contei, 1978, com Maria Della Costa e Ilka Soares
(à esquerda), e Dancin’Days, 1978, com Sonia Braga e
Joana Fomm (acima)
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Feijão Maravilha
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ficou gravada em mim para o resto da vida. Na
porta do camarim superlotado, Rubens de Falco,
Leonardo Villar, Jorge Chaia, Benedito Corsi e
Ziembinsky, que me olhou firme e disse: Você
sabia que todo ator, para ser verdadeiramente
um grande ator, tem de dar a bunda?
Fiquei chocado, paralisado, sem saber o que
dizer. Era a pergunta mais embaraçosa que até
então eu tinha ouvido na vida. Calouro, na profissão e naquele grupo, não entendi absolutamente nada. E, mineiramente, fiquei em silêncio,
sem saber se respondia ou partia pro pau. Preferi
falar que essa não era a minha ou coisa parecida.
E diante do constrangimento geral, acho que foi
o Jorge Chaia quem tentou amenizar a situação:
Ziembinski, o rapaz está chegando agora, o que
é que ele vai pensar?
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Algum tempo depois me disseram que aquilo
tinha sido brincadeira dele. Acontece que, à
luz da mineirice, acho que às vezes é brincando
que se diz aquilo que a gente pensa. Mas nunca
pude comentar isso com ele, quando trabalhamos juntos. O tempo amenizou o acontecido e
o episódio perdeu a importância.
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Capítulo V
A Bolsa da Nathália, o Doce Pássaro e o
Amargo Kowalski
Mais uns dias e o Armando Pascoal me dizia: A
temporada de Filhos de Eduardo está terminando, eles vão para o Rio, e o TBC, antes da Casa
de Chá, vai montar uma outra peça. Quem vai
dirigir é o Kusnet. O protagonista será o Maurício Barroso, e as atrizes, Célia Biar, Nathália
Timberg e Elizabeth Henreid. Mas tem um papel
que querem que você faça.
Era um garçom que entrava em cena e dizia
uma pequena e única frase: Cárpano, Vermute
ou Cinzano?
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No entanto, não sei por que motivo, que tipo de
inflexão eu usava, sei é que a platéia dava muita
risada. O Maurício Barroso até falou (de uma
forma simpática, não agressiva, foi um comentário, de certa forma uma espécie de elogio até):
Poxa, tenho piada o tempo inteiro, chega esse
rapaz, diz três palavras, e é a maior gargalhada
da peça inteira!
E eu ali, toda noite, perguntando: Cárpano,
Vermute ou Cinzano?
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Existe uma tradição em teatro, a pergunta:
Como é que você estreou? E a resposta: Ah, eu
comecei carregando uma bandeja. Pois eu estreei, classicamente, carregando uma bandeja!
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Tudo corria muito bem pra mim, mesmo no dia
em que entornei a tal bandeja na roupa da Elizabeth, ela me deu uma bronca em cena e passei
a maior vergonha. Afinal, O Sedutor, de Diego
Fabri, um autor italiano, era minha primeira
experiência profissional no palco. As críticas
não foram muito boas, em compensação houve
uma cena real, maravilhosa, fora do palco, no
dia da estréia, 12 de janeiro de 1956. Eu tinha
uma entrada só, então ficava nos bastidores um
tempo enorme. De repente, vi um estranho por
perto, me olhando meio assustado, de um jeito
que me pareceu bastante suspeito. Os camarins
do TBC ficavam dos dois lados de um corredor
comprido, debaixo do palco. A ligação entre
os camarins e o palco era feita por uma escada
e, debaixo dela, havia um banheiro. O sujeito
entrou lá. Aí, eu, mineiro velho, garotão sagaz,
me levantei, fingi que subia a escada, com passos
imaginários, fiquei olhando, pela fresta, e vi a
sombra dele caminhar em direção aos camarins.
Fui pé ante pé e peguei o homem com a mão na
botifa dentro da bolsa da Nathália. Agarrado a
ele, pedi a alguém que chamasse a polícia, veio
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um maquinista, me ajudou a segurá-lo. Era um
daqueles famosos ratos de teatro. O Lima Barreto, cineasta, diretor de O Cangaceiro, apareceu
e me perguntou se eu tinha certeza. Ora, eu vi o
cara com a mão na massa, minha convicção era
total! Tanto que depois, pelo delegado, a gente
ficou sabendo que se tratava de um marginal já
conhecido, que entrava nos teatros assim como
quem não quer nada, pra roubar os camarins.
Pois no dia seguinte, Mattos Pacheco, um irreverente, mordaz e temido colunista – que Deus
o tenha, tinha mais inimigos do que amigos na
classe teatral paulistana da época – escreveu uma
nota altamente venenosa:
É preciso falar de Mauro Mendonça, que estreou
numa ponta dizendo o pior texto da peça. O
importante mesmo que ele fez foi fora do palco:
surpreendeu um ladrão roubando a bolsa de
Nathália Timberg no camarim dela. Não deixa
de ser uma estréia sensacional e, talvez, o fato
mais importante ocorrido ontem no teatro da
Rua Major Diogo.
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Eu tenho esse recorte até hoje!
O pobre Kusnet ficou arrasado com as críticas
nada favoráveis a O Sedutor. Fiquei triste também,
afinal ele era meu paizão teatral. Mas, enquanto
isso, comecei a ficar bem chegado, muito amigo,
do pessoal do chamado Elenco A do TBC.
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Já fui considerado meio malucão, em São Paulo,
criei até a fama de agressivo e criador de casos,
naqueles dias. Acontece que eu tinha mesmo
um jeito meio agressivo de reivindicar, talvez
baseado num conceito rígido de correção, de
honestidade, então dizia as coisas com absoluta
clareza e honestidade. Isso chocava. É que eu
tinha meu caminho e quem ficasse na frente eu
derrubava. Alguns colegas – depois fiquei sabendo – comentavam que eu ficava doido em cena.
Só que, no fundo, todos respeitavam, quando
eu estava assim. Quando eu saía do palco era
uma coisa terrível, porque estava absolutamente eriçado, os nervos esticados até o limite. Se
alguém me dissesse alguma coisa, eu tinha uma
reação ou uma resposta explosiva, abrupta. Claro
que as pessoas achavam isso ruim. É que eu não
desligava imediatamente. Ora, eu tinha estado
em cena num estado emocional imaginário, mas
estava num estado emocional! E saber desligarse, só o tempo ensina.
Em 1960, tinha deixado, amigavelmente, o TBC
depois de uma pequena participação como Trillini, em Quando Se Morre de Amor, onde tive a
chance de pôr em prática alguns ensinamentos
de Stanislawski. Serviu ainda para me dar um
certo equilíbrio artístico, além de aguçar-me o
desconfiômetro, pra medir minhas limitações.
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Embora, na ocasião, eu estivesse partindo para
um gigantesco desafio: assumir o papel principal de Plantão 21, à frente de um elenco de
quase 40 atores, a convite de Ademar Guerra,
do Pequeno Teatro de Comédia, de Armando
Bógus, Nagib Elchmer, Felipe Carone e Antunes
Filho. Uma montagem grandiosa, num cenário
glorioso, em dois andares, de Túlio Costa reproduzindo a delegacia de polícia de um bairro
pobre de Nova Iorque. A oferta era irrecusável:
de 18 mil cruzeiros, eu passaria a ganhar 25. Mas
era trocar o certo, TBC, pelo duvidoso, PTC. A
hesitação durou só um minuto, como acontece
a todo bom ariano. Tudo na vida resolvi assim,
no corte rápido, me separar de meus irmãos,
desistir do vestibular de Direito para estudar
teatro, trocar o Rio por São Paulo, fazer análise,
casar, e, naquele dia, largar uma carreira certa
e tranqüila no TBC.
181
Quem fazia o papel era Jardel Filho. Eu soube
que no dia da estréia houve uma festa na casa
do Carone, que acabou tarde, mas eles queriam
esticar e foram até o restaurante Parreirinha,
aberto dia e noite, para esperar o Estado de
S.Paulo chegar às bancas, com a crítica do Décio de Almeida Prado. Jardel meteu-se em uma
briga com o cozinheiro e, na confusão, o guarda
que veio prendê-lo, quebrou-lhe a cabeça. A
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peça saiu de cartaz no dia seguinte. E enquanto
resolviam o que fazer com Plantão 21, remontaram Alô 36-5499, do Abílio Pereira de Almeida,
que tinha saído com casas cheias. Até o Ademar
Guerra me chamar.
Ele já era um ator de verdade, mas ainda não
tinha nome nenhum. Hesitou, claro, ia entrar
numa substituição, sem garantia de continuidade, sem segurança alguma, mas acabou topando a parada e entrando no lugar de Jardel
brilhantemente.
Ademar Guerra
182
Era 1960 e, sinal dos tempos, a platéia ficava
escandalizada com um palavrão do texto, termo
que hoje está até em capa de livro: puta. Uma
época cheia de contradições hipócritas, em que
o título de um filme baseado em obra de Sartre
chamada La Putaine Respecteuse foi traduzido
para A P... Respeitosa, embora Leonardo Villar e
Egídio Eccio se beijassem todas as noites no palco
do TBC, em Panorama Visto da Ponte.
Eu estreei impondo emoção demais ao personagem, imprimindo talvez doses exageradas
à figura do Detetive MacLeod, cujo problema
era que a mulher dele tinha feito um aborto.
Depois fui equilibrando, limpando aquilo que
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estava over na interpretação. Mas, se por acaso
caísse uma cadeira em cena, fora da marcação
da direção, eu imediatamente pediria para alguém botar ela de pé novamente. Mais uma vez
Stanislawski: a ação que acontecer no palco, sem
querer, fora do que estava previsto e ensaiado,
pode ser transformada numa ventilação da cena.
Entretanto, os atores caíam na risada. E tinha
aqueles – me contaram – que faziam coisas exageradas só pra me provocar. Porque eu estava
ainda me iniciando no método de vivenciar o
personagem. Estava apaixonado pelo teatro e o
sujeito apaixonado é meio cego. Então não via
malícia nos outros.
Ainda bem que uma noite ouvi o seguinte: Você
não tem idéia do que fez no palco, hoje!
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A frase, do Roberto Freire, me deu a dimensão
de como estava sendo bom o meu desempenho.
Uma proeza. Afinal, o trabalho do Jardel tinha
sido superelogiado pela crítica. Mas desde a minha entrada no papel, as casas estiveram sempre
lotadas. Era um grande sucesso. Minha decisão
tinha valido a pena. Estava aberto meu caminho
para Doce Pássaro da Juventude, como Chance
Wayne – que Paul Newman estava fazendo na
Broadway – protagonista masculino da peça de
Tennessee Williams, ao lado de Glauce Rocha
como a Princesa Kosmonópolis, no Teatro Maria
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Della Costa. Consta que não foi uma escolha
fácil, porque o personagem era um homem
belíssimo. Eu era pesado e peludo, mas Ademar
Guerra apostou no que ele chamava de bonito
por dentro. Na dúvida, resolveram clarear um
pouco meu cabelo, pelo menos. Durante muito
tempo, Ademar lembrava, rindo, que a montagem foi um fracasso (naqueles bons tempos,
fracasso era quando os corredores laterais não
se enchiam de cadeiras extras): lotava só às sextas, sábados e domingos, de terça a quinta dava
apenas 300 espectadores.
184
Mas o que Doce Pássaro teve de melhor foi a
confirmação da idéia que eu já tinha sobre o
Mauro: um ator muito bom e, melhor ainda,
extremamente disciplinado, humilde, disposto
inclusive a se submeter à direção de alguém
como eu, que estava começando.
Ademar Guerra
Desde então, trabalhamos muito, juntos, inclusive na televisão, que eu fazia pouco. Não por
espírito de panelinha, mas porque a alma do
teatro é a emoção, e nós dois, Ademar e eu,
éramos afinados.
Ainda em 1960, eu faria o John Proctor de As
Feiticeiras de Salem, dirigido pelo Antunes Filho,
Doce Pássaro da Juventude, 1960, com Glauce Rocha
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186
que tinha acabado de chegar da Europa, graças
a um Prêmio Molière. Foi o primeiro diretor que
voltava de lá enlouquecido, pelo menos era o
primeiro com o qual eu trabalhava. Depois eu
encontraria outros, mas o primeiro é sempre
mais traumático, a gente não esquece. Antunes
falava muito de um francês, Planchon, de Brecht
e do Berliner Ensemble. Ainda engatinhando em
Stanislawski, eu tinha de pegar umas apostilas,
estudar, entender e digerir Brecht, por exemplo.
Então fazer Arthur Miller criou muita confusão.
Porque ao imaginar um trabalho absolutamente
crítico e distanciado, ele fundiu algumas cucas,
inclusive a minha. O resultado, claro, foi insatisfatório, tanto de crítica como de público.
Eu sempre fui louco e acredito em qualquer jovem, até prova em contrário. No caso do Mauro,
ele provou que eu estava certo em acreditar no
seu potencial, porque revelou-se um grande
profissional, um ator excepcionalmente bom.
Antunes Filho
E, um ano mais tarde (depois de Sem Entrada
e Sem Mais Nada, de Roberto Freire, com um
cenário exuberante de quatro andares e mais de
30 pessoas em cena, inclusive eu) o PTC, Pequeno Teatro de Comédia faliu. O crítico Décio de
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Almeida Prado chegou a dizer que tinha havido
um equívoco no nome da companhia, porque
nada que Antunes Filho fazia era pequeno, tudo
era colossal. Na verdade, Sem Entrada e Sem
Mais Nada, que estreou em abril de 1961 em São
Paulo, foi um fracasso colossal.
Dois anos depois eu estava em Um Bonde Chamado Desejo, no Oficina, a convite de Augusto
Boal. Levando em consideração as inevitáveis
comparações com Marlon Brando, que fazia o
mesmo papel no cinema, minha interpretação
de Stanley Kowalski teve muito boas críticas.
Mas o melhor dessa temporada foi a notícia do
nascimento de meu primeiro filho, João Paulo,
na Casa de Saúde São José, no Rio, pelas mãos
santas do tio de Rosamaria, Dr. Carlos Hastings
de Melo. Recebi a maravilhosa notícia por meio
de um bilhetinho que Maria Fernanda me passou, em pleno palco e tive de fazer um grande
esforço para me controlar e levar a peça até o
fim. Só pude soltar a emoção que estava sentindo, quando a peça terminou e, outra vez, Maria
Fernanda anunciou a novidade, publicamente,
para a platéia, que aplaudiu muito, com direito
até a parabéns pra você.
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Aí fiquei sabendo que os propagandistas, meus
ex-colegas, estavam ganhando muito bem, 150
mil cruzeiros – e os inspetores, de 180 a 200 mil –
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Um Bonde Chamado Desejo, 1962, com Maria Fernanda
em comparação com os salários nossos, de atores.
Eu recebia 35 mil como Kowalski (e Maria Fernanda 50 mil, como Blanche Du Bois), enquanto um
auxiliar na farmácia da esquina ganhava 45 mil.
Entrei em parafuso. E fui conversar com o John
Herbert, que era sócio da Associação Brasileira
de Atores de Cinema.
Ele foi muito legal comigo, intercedeu, como se
fosse meu empresário, e acabei sendo aumentado para 47 mil e 500. Já melhorou um pouquinho. Mas me lembrei dos antigos companheiros
da Pfizer e fui até uma agência de propaganda
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onde Juca de Oliveira e Gianfrancesco Guarnieri
tinham trabalhado, a Rino Publicidade. Na função de contato, a tarefa que me coube foi a de
buscar anúncios relativos ao 25º aniversário de
A Gazeta Esportiva. Peguei as Páginas Amarelas
e pesquisei os endereços de lojas especializadas
em material ligado a esportes, fabricantes de
troféus, bolas, chuteiras, tênis, acabei indo até
em metalúrgicas que fabricavam arame para
alambrado de campo de futebol. Durante três
meses, rodei São Paulo inteiro, Lapa, Jabaquara, Brás, Mooca, Penha, Butantã, Freguesia do
Ó, o diabo, onde houvesse uma fabriqueta, um
revendedor, lá estava eu. Resultado: consegui
vender duas páginas e meia, quase três, de gente
saudando publicitariamente aquele tradicional
jornal de esportes. Acabei encontrando pessoas
maravilhosas, figuras incríveis. E fiquei conhecendo a cidade como a palma da minha mão.
De volta à agência ouvi: Mas... Só isso?
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Charme do dono da agência. Malandragem.
O tom de voz era de tristeza, mas pra enganar
trouxa. Eu tinha conseguido uma coisa espantosa, segundo me disse depois um outro contato,
que já conhecia os truques de lá. Mas tudo bem,
porque o Alberto D’Aversa me salvou, chamando
pra fazer Seara Vermelha, adaptação para cinema
do romance de Jorge Amado e receber 200 mil
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cruzeiros. Gritei obaaaa e parti pra Joazeiro da
Bahia, onde ganhei de prêmio mais uma dose
de esquistossomose e recebi um telegrama da
Rosamaria dizendo que a TV Excelsior estava interessada em nós dois. Voltei de lá devidamente
macumbado – sem saber, claro – mas com um
contrato de dois anos e salário mensal de 180
mil cruzeiros – que, corrigidos, chegaram a 250
mil – esperando minha assinatura. (Rosa assinou
por 150 mil), seis meses depois passou para 180
e, no segundo ano do contrato, para 250. Dava
até pra comprar carro, um possante Volkswagen
alemão, dourado, estofamento verde, que a gente
chamava de Pátria Amada. Aí já dava até pra ter
mais filho, então Rodrigo e Maurinho nasceram,
também cariocas. Era 1963 e eu estava na TV Excelsior de São Paulo, participando do elenco de duas
novelas, Aqueles Que Dizem Amar-se e Corações
em Conflito. Em 1964, mais duas, Os Irmãos Pereira
e Uma Sombra na Minha Vida. E, em 1965, outras
quatro, Eu Quero Você, como assistente de direção do Walter Avancini, Ontem, Hoje e Sempre e
Aquela Que Deve Voltar, como diretor, além de
A Grande Viagem, voltando como ator.
Tinha havido uma virada. Os salários subiram
igual foguete e nosso poder aquisitivo, claro,
subiu junto. Os maiores salários da televisão
naquela época somavam 50, no máximo 60
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mil cruzeiros, Lima Duarte, Glória Menezes, na
Tupi. E a Excelsior vinha com 180, 200, 250, 300
mil na mão! (Saí de lá ganhando – embora não
recebendo – 600 mil). Era salto triplo de Ademar
Ferreira da Silva. E tudo com grandes planos na
retaguarda, inclusive o Teletatro 63, com Túlio
de Lemos e Walter George Durst como autores.
Tinha o Teatro 9, anunciado como tentativa de
criação de uma dramaturgia brasileira de televisão. A proposta em si já era motivo de estímulo.
E a iniciativa acabaria lançando pelo menos dois
autores de talento, então desconhecidos: Lauro
César Muniz e Walter Negrão. Ao lado de autores
consagrados e que também colaboravam, Jorge
Andrade, Roberto Freire, Gianfrancesco Guarnieri, Marcos Rey, Antonio Callado, Dias Gomes, Lygia Fagundes Telles e Oduvaldo Viana Filho. Um
timaço. Incluídas no projeto, adaptações de obras
literárias de Machado de Assis, Gonçalves Dias,
Martins Pena e Aluízio de Azevedo. Alto nível.
Diretores: Flávio Rangel e Ademar Guerra. Além
de um elenco variado, pela ordem alfabética:
Célia Biar, Cleyde Yáconis, Elísio de Albuquerque,
Eugenio Kusnet, Felipe Carone, Flávio Migliaccio,
Glauce Rocha, Juca de Oliveira, Leonardo Villar,
eu, Milton Gonçalves, Nathália Timberg, Raul
Cortez, Rosamaria Murtinho e Stênio Garcia. Na
programação, Tarcísio Meira e Glória Menezes
em 25944 Ocupado, a primeira novela diária,
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dirigido pelo argentino Tito di Miglio, que Dulce
Santucci havia adaptado de um original também
argentino de Alberto Migré.
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Acontece que quase todos nós já tínhamos uma
posição definida em teatro, Armando Bógus,
Fúlvio Stefanini, Jairo Arco e Flexa, Geraldo del
Rey, eu, e outros, que nos reuníamos todas as
noites ao redor de uma mesa do velho restaurante Giggeto, na Rua Nestor Pestana, numa
casa enorme em frente ao Teatro Cultura Artística.
E toda noite o tema em discussão era o mesmo:
Vocês são malucos... Fazer novela, essa subliteratura... O comentário era esse. E com direito a
cobrança. Vocês não têm vergonha, não?
Era um elitismo deslavado, um preconceito explícito do pessoal de teatro contra a televisão e,
principalmente, contra a novela. Contudo, eu,
apesar de ser ator de teatro, tinha um motivo
mais do que suficiente para não pensar assim:
meu padrão de vida, nosso – da Rosamaria junto – tinha mudado. Inclusive o nosso endereço
também era outro, de um pequeno apartamento
na sobreloja de um estofador na Rua João Passalacqua, no Bexiga, fomos para uma casa com
quintal na Rua Nhambiquaras, em Indianópolis.
E foi isso que, pouco a pouco, amenizou a fúria
antieletrônica daquela gente. Porque, automaticamente, os que ainda não estavam fazendo
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novela, foram sendo chamados também. E,
docemente constrangidos, mas regiamente recompensados, mudavam de opinião.
Ainda bem, porque Ivani Ribeiro – pseudônimo
de Cleyde de Freitas Alves Ferreira – experiente
autora de histórias radiofônicas, já tinha começado a escrever para a TV Excelsior a primeira
superprodução no gênero, em 1965: A Deusa
Vencida, com Glória Menezes, Tarcísio Meira,
Edson França e a estreante Regina Duarte. E, um
ano depois, ela seria a responsável pela primeira
novela com texto brasileiro: Ambição – na qual
eu fazia um vilãozinho, o Doutor Ulisses – focalizando o cotidiano de uma família de classe
média com seus acertos e desacertos. Um dia, no
meio da novela, o Dionísio de Azevedo foi ao noticiário do Kalil Filho, um Jornal Nacional da época, e convidou o público a ajudar na figuração
de um casamento que ia acontecer na história.
Simplesmente a igreja da Consolação superlotou,
o trânsito nos arredores ficou engarrafado, nós
todos tivemos de sair de radiopatrulha e fomos
parar no parapeito do Teatro Cultura Artística,
com a multidão toda lá, gritando o nome dos
personagens principais.
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Tudo no Canal 9 de São Paulo, onde, em 1964,
a Rosamaria era uma empregada doméstica que
mantinha um romance afetivamente incorreto
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com o filho do patrão, interpretado pelo Hélio
Souto, em A Moça Que Veio de Longe. Um sucesso tão estrondoso que resolveram comemorar
o último capítulo à altura, programando três
grandes festas populares, com a presença do
casal principal. A primeira, em São Paulo, lotou
o estádio do Pacaembu; a segunda, parou Ipanema, interrompendo o trânsito na Rua Visconde
de Pirajá em frente à TV Excelsior do Rio (onde
tinha funcionado o Cinema Astória) e, a terceira,
na praia do Gonzaga, em Santos, que juntou
mais gente do que um histórico comício de Luís
Carlos Prestes tinha conseguido, anos antes. Essa
era a TV Excelsior. Através dela, o Brasil tinha
entrado na Idade da Tela. E estava começando
a se encerrar o ciclo Glória Magadan, autora de
uma frase no mínimo emblemática: Meu ofício
é fabricar evasão!
Confesso que fui meio visionário. Eu falava assim, pro pessoal de teatro: Olha, nós perdemos
o mercado de trabalho de cinema. A Vera Cruz
e a Maristela faliram. E a televisão é exatamente
uma abertura de mercado, pode dar trabalho
pra muita gente. Ali pode, realmente, estar
nosso futuro.
A reação era: Que nada... Que futuro o quê...
Isso é passageiro, vai acabar logo, como a
Vera Cruz acabou!
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A telenovela ainda era discriminada. Para um
ator de palco, aderir ao gênero era se prostituir. Mas eu já tinha aderido, depois de sentir
os primeiros resultados na própria pele, aliás,
no bolso também. Daquela turma de palco, só
eu acreditava no novo veículo, inclusive, que o
nível das novelas fosse melhorar. Na verdade, a
qualidade na feitura das novelas foi melhorando mesmo, pouco a pouco. Começaram a fazer
adaptações de romances clássicos, escritores já
aceitavam as propostas de trabalho, até que em
1968, no meio (antes e depois) de dramalhões
exóticos como O Direito de Nascer, Paixão de
Outono, Eu Compro Essa Mulher, O Sheik de
Agadir, O Rei dos Ciganos, A Sombra de Rebeca, A Rainha Louca, Sangue e Areia, O Santo
Mestiço, O Passo dos Ventos, A Gata de Vison,
A Última Valsa, Rosa Rebelde, A Ponte dos Suspiros, A Cabana do Pai Tomás, et cetera, surgiu
aquele que eu considero o primeiro personagem realmente brasileiro, um marco histórico:
o Beto Rockefeller, do Bráulio Pedroso.
195
Cinco anos antes do Beto, entrava no ar a campanha Eu Estou no 9, que era o número do canal
da TV Excelsior. Tudo bem, eu também estava
no 9, porém, completamente despirocado,
magérrimo, criando um caso atrás do outro,
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experimentando dirigir novelas quatro vezes,
mas não gostando daquilo.
Não gostando também das histórias que tinha
de participar como ator, detestando os enredos
e os papéis que me davam, louco pra deixar de
fazer televisão. Só quero saber de teatro!
196
Fiquei lá até 1965, um ano antes da Excelsior
lançar Redenção (adaptação de uma história
de Raimundo Lopes sobre o cotidiano de uma
cidade do interior paulista, transmitida em
1957 pela Rádio Mayrink Veiga), um tipo de
épico caipira, como alguém a chamou, gravada
na primeira cidade cenográfica da TV brasileira, erguida em São Bernardo do Campo com
réplica de estação ferroviária e tudo. A previsão era de 100 capítulos, segundo o contrato
com a Gessy-Lever, mas a novela foi esticada
para 596 capítulos, ficando no ar de 16 de
maio de 1966 até 2 de maio de 1968, recorde
de persistência, de fidelidade do público. E
como telespectador também tem imaginação,
acabou inventando uma história paralela: um
ator, abstêmio, que fazia o filho bastardo e
renegado do prefeito, criado por uma cigana,
e por isso chegado a um gargalo, depois de
beber durante tanto tempo, acabou alcoólatra, na vida real...
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Em 1966, o Zé Celso tinha me chamado para
participar da Campanha de Salvação do Grupo
e para participar de montagens retrospectivas
deles, depois do incêndio que destruiu o Teatro
Oficina. Aquele pessoal ainda dava valor a Stanislawski e ao Eugenio Kusnet, que ensinou o
método a todos eles. Então participei de A Vida
Impressa em Dólar, no papel de Moe Axelroad,
no auditório da sede da Federação Paulista de
Futebol. Em seguida, Andorra, também dirigido pelo Zé Celso, no mesmo espaço, depois na
Maison de France, no Rio. Eu fazia um soldado e
a minha crítica cênica aos militares tinha um retorno enorme. Em crítica no Jornal do Brasil, Yan
Michalski escreveu: Em destaque, o desempenho
de Mauro Mendonça, pela sua comunicabilidade
histriônica e pelo extraordinário efeito crítico
da abjeta figura do soldado, que compõe com
admirável vulgaridade.
197
Passada minha fase pessoal negativa, voltei
para a Excelsior, em 1968, quando ela estava
verdadeiramente lançando a telenovela no Brasil. Peguei a grande virada da televisão. Aí aconteceu o que sempre considerei um divisor de
águas na minha carreira: A Muralha, adaptação
de Ivani Ribeiro do romance de Dinah Silveira
de Queiroz contando a Guerra dos Emboabas,
acontecida em São Paulo de Piratininga, em
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A Vida Impressa em Dólar, com Chico Martins, Célia
Helena, Eugenio Kusnet e João José Pompeu (acima),
e Andorra, com todo o elenco (abaixo) e como o militar
(à direita)
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conseqüência da ambição de aventureiros portugueses e brasileiros do Norte que tentaram se
apoderar de terras e minas conquistadas pelos
bandeirantes paulistas, um dos quais, Dom Braz
Olinto, que eu interpretava. A novela mais cara
produzida no Brasil até então: 200 mil cruzeiros
novos mensais. E a mais premiada da temporada. Dezenas de figurantes, cenas externas,
cenários fiéis à época, mais de 100 figurinos
e um elenco que tinha Fernanda Montenegro
(Mãe Cândida), Nathália Timberg (Basília), Nicette Bruno (Margarida), Gianfrancesco Guarnieri (Leonel), Paulo Goulart (Bento Coutinho)
e Rosamaria Murtinho (Isabel, de cabeleira
negra, lentes de contato azuis e um filhote de
onça a tiracolo, uma semi-selvagem, órfã de
um bandeirante que tinha morrido no sertão,
solitária, agressiva, que preferia a companhia
dos índios, quer dizer, um papel oposto ao das
moças meigas e sonhadoras que tinha feito
até então). E eu, de cabeleira, bigode e longas
barbas brancas, tudo postiço. Mas, logo que
me olhei no espelho pela primeira vez, acreditei naquele personagem. Hoje, com essa alta
resolução da imagem, aquele Dom Braz ficaria
meio ridículo, mas a cor nem tinha chegado
ainda e, em preto-e-branco, certos defeitos de
caracterização nem eram percebidos.
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A Muralha, TV Excelsior, 1968, com Sílvio de Abreu
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A Muralha, TV Excelsior, 1968, com Rosamaria Murtinho
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Pena que a emissora estivesse começando a
entrar na fase de decadência pré-falimentar e
quem pôde ir para a TV Tupi, foi, quem pôde
vir para a TV Globo, veio. Regina Duarte, Cuoco,
Glória e Tarcísio vieram. Rosamaria e eu ficamos em São Paulo, fazendo O Preço, de Arthur
Miller – pela primeira vez juntos em cena – ao
lado de Jaime Barcellos e Luís de Lima, que
também dirigiu a montagem. Uma produção
independente de Antonio Abujamra e Roberto
Vignatti. Peça extraordinária, trabalho de mestre, na linha divisória entre o drama psicológico
e o melodrama doméstico, que o autor preferia
chamar de dramaturgia social.
206
Obra exemplar onde valia o que se dizia, não o
que se fazia, os diálogos sobrepondo-se à ação,
a palavra sobrepujando o gesto, quando dois
irmãos que pouco se viram durante 15 anos, voltam a se encontrar em plena crise econômica dos
Estados Unidos e, separados por uma barreira de
velhos ressentimentos, travam uma das mais intensas batalhas verbais do teatro contemporâneo.
Embora não fosse a mensagem explícita do texto,
ficava no ar uma conclusão, a de que cada um
paga o preço de suas opções de vida. E eu estava
pagando um preço muito alto por ter optado
pela televisão: passamos por uma fase dificílima,
vendemos os carros e passamos a andar de ôni-
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bus, ficamos devendo dois meses de mensalidade
da escola dos três filhos, algumas prestações da
casa que estávamos comprando na rua Arizona,
no Brooklin Novo, atrasaram. Eu e Rosamaria
estávamos vivenciando o tema da peça.
O Preço, com Jaime Barcellos e Rosamaria Murtinho
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Foram seis meses de O Preço em cartaz em São
Paulo, no Teatro Maria Della Costa, no Teatro
da Aliança Francesa e no TBC. Até que Rosamaria começou a trabalhar na TV Cultura e eu fui
fazer novela e teleteatros – o Teatro Aplauso
– com direção de Carlos Manga, na TV Record.
Depois participei de A Idade do Lobo, com Walter Avancini, na TV Tupi, em 1972. E na noite
de 16 de julho de 1979, O Preço era mostrado
na tela da TV Globo, como uma das atrações da
série Aplauso, com Rosamaria, Paulo Gracindo,
Leonardo Villar e eu.
208
Estava criado o hábito da novela (criado, não,
transferido, do rádio para a televisão). Tanto
que uma revistinha especializada, a InTerValo,
da Editora Abril, que só publicava duas ou três
páginas sobre a nossa TV, o resto era território privativo do Doctor Kildare, Ben Casey, Os
Intocáveis e outras séries importadas, inverteu
as prioridades editoriais dela, a partir das telenovelas, com fotos, entrevistas e matérias. As
outras emissoras, então, vendo que ali estava um
grande filão, que aquele era o mapa da mina,
seguiram o exemplo da Excelsior. E aquilo não
era mais do que uma redescoberta, porque já
se fazia novela antes, mas não diárias e ainda
debaixo de um esquema pouco comercial da
fase pré-industrial, pouco lucrativo. Antes de se
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transformar nessa grande indústria de entretenimento popular que é hoje. Quer dizer, apesar
de tudo, apesar do preço pago por encarar o
preconceito antinovelesco, eu estava certo, no
meu pioneirismo (mas isso eu ainda não sabia,
só soube depois).
Em 1966, o Antonio Abujamra tinha me convidado pra fazer José, do Parto à Sepultura e eu
recusei. Ele se espantou com meu não e quis
saber o motivo. Porque você voltou da Europa
e quem volta de lá vem fazendo loucuras.
Logo o Zé Celso Martinez Corrêa também voltaria assim. Era mais um diretor que ia à Europa
e vinha doidão de lá. O fato é que todos eles
acabavam assistindo ao Berliner Ensemble, da
Alemanha Oriental, que fazia um teatro social
evidentemente marxista, sob o prisma de Brecht, e se fanatizavam pela crítica à burguesia
e ao capitalismo. E aí, fazer certos autores,
criava um tipo de confusão política, estética
e artística, inclusive no público e na crítica (o
público não aceitando ser julgado e a crítica
julgando contra).
209
Enlouquecido, Zé Celso queria fazer o teatro do
gesto crítico. E como em Os Inimigos eu fazia um
promotor, o Nikolai – que era uma espécie de
Carlos Lacerda do Górki – ele dividiu uma frase
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minha de três linhas em 18 gestos críticos. Depois
resolveu perguntar ao Líbero Rípoli o que achava
daquilo. Acho chato.
Na minha vez eu disse: Estou fazendo profissionalmente, não estou sentindo nada.
Depois de mais dois ou três atores, ele quis saber
a opinião da camareira. Não consigo entender.
Do rapaz da iluminação. Eu também não.
210
Aí ele entrou em parafuso. Zé Celso tinha visto
o filme Diário de uma Camareira, do Buñuel, e
chamou o Kusnet pra dizer que o trabalho de
representação seria dramático, mas com a crítica
por trás e dentro do Método de Stanislawski. O
Kusnet começou a trabalhar todo mundo e a
peça foi bem aceita, tanto em São Paulo, em janeiro de 1966, como no Rio, em maio do mesmo
ano. Com elogios da crítica.
A partir daí, encerrei a fase de contratos com
companhias permanentes, passando a trabalhar
com grupos independentes, em teatro, cinema,
televisão e comerciais de publicidade. Fiz então
o personagem Sholem de Réquiem para uma
Noite de Sexta-Feira (Kidush), em maio de 1968,
no Teatro Itália, uma tragédia religiosa em que
há um conflito entre pai e filho.
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Os Inimigos, com Chico Martins, Rolando Boldrin, Beatriz
Segall, Sílvio Rocha, Etty Fraser, Paulo Villaça, Ednei
Giovenazzi e Célia Helena
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Eu cantava em hebraico e assumia a figura de um
hazan, na liturgia judaica, companheiro do rabino
e cantor do templo. Alguns patrícios não acreditaram que eu fosse gói; no entanto, era tudo fruto
de uma profunda e intensa pesquisa por todas as
sinagogas mais ortodoxas de São Paulo.
212
Até que, em dezembro de 1968, associei-me a
Lélia Abramo e minha mestra Maria José de Carvalho – ela estreando na direção – para produzir
um clássico do teatro grego: Agamemnon, de
Ésquilo. No elenco, alguns atores novos, como
Carlos Augusto Strazzer, Edwin Luisi, Rui Rezende e Lu de Moraes. Uma aventura. A peça era
linda, os desempenhos maravilhosos, figurinos e
cenografia elogiadíssimos, mas era uma tragédia
grega em montagem rigorosamente clássica. E o
público, não acostumado a esse tipo de alimento
cultural, reagiu negativamente. No entanto, só o
fato de botar Agamemnon em cena (no Teatro
da Federação Paulista de Futebol, mais tarde,
Teatro Cacilda Becker) já tinha sido uma epopéia. Lélia Abramo teve, inclusive, de empenhar
o apartamento dela junto à Comissão Estadual
de Teatro.
Uma das maiores dificuldades da empreitada foi
que Lélia tinha que apresentar dez espetáculos em
dez cidades, como parte daquele compromisso.
Então estive em São José dos Campos, São Caeta-
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no, Santos e várias outras cidades paulistas para
tentar vender o Agamemnon, enquanto mexia
com os contratos e administrava a companhia.
É aí que entra a história do Dr. Antonio, um
advogado amigo dela, que estava tratando do
aspecto jurídico dos contratos dos atores, em
regime de cooperativa. Um senhor muito simpático, que durante nossas primeiras conversas, me
falou que era Rosacruz e até conversamos sobre
o assunto e tal. Muito bem. Um dia, cheguei no
escritório dele e perguntei para a secretária: Por
onde anda o Dr. Antonio? Há seis dias que eu
estou procurando por ele!
Ela ficou meio pateta, gaguejando, sem saber me
responder direito, quando surge um cavalheiro
falando grosso, dizendo-se major e que aquilo
era um caso de segurança nacional. E que eu me
dirigisse para a outra sala. O senhor pode me
explicar o que é que está havendo? Ele:
213
Lá dentro eu explico.
A outra sala estava toda revirada. E eu já em pânico, porque tinha ido buscar os contratos para
registrá-los em cartório e vejo aquela papelada
toda, pastas, livros, arquivos, tudo revirado.
Preo­cupado com isso, até esqueci que o que estava acontecendo, naquele escritório de advocacia,
era um caso de segurança nacional.
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214
O Dr. Antonio estava detido e quem chegava
– inclusive o sócio dele – era submetido a averiguações. Pensei: E agora, nessa bagunça, como é
que vou achar o que me interessa? De repente,
pura sorte, verdadeira loteria, reconheci o envelope com os contratos, jogado num canto, no
chão. Não tive dúvida, peguei aquela papelada,
joguei dentro da minha pasta 007, e me afundei
na poltrona mais próxima. A aflição era tanta
que acabei dormindo. E ronquei. Foi o bastante
para me considerarem inocente, porque quem
por acaso tivesse culpa no caso, numa situação
daquelas podia ter qualquer reação, menos a de
dormir tão profundamente, como um anjo. Até
que, horas depois, chega um delegado da Operação Bandeirantes e nos libera a todos, entre
eles, eu e a secretária do Dr. Antonio.
Podem ir embora, os senhores estão liberados. Peço
desculpas, é um caso de segurança nacional.
Eu quis saber: Mas pelo menos o senhor pode nos
dizer, afinal, o que é que está acontecendo?
Senhor Dom Braz Olinto... (Eu estava fazendo
a novela A Muralha e já tinha sido identificado
como meu personagem, minha ficha certamente
já devia ter sido consultada até no SNI).
... o Dr. Antonio homiziou o Capitão Lamarca
na casa dele.
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Eu já sabia mais ou menos que os dois tinham
algum tipo de ligação, mas, cinicamente, fingi
surpresa: O Dr. Antonio? Mas ele me disse até
que era Rosacruz!
Ele e eu já tínhamos conversado muito sobre
assuntos espirituais. Nem uma só palavra sobre
política, nem municipal, nem estadual, nem nacional, nem mundial. Eu tinha dito que freqüentava reuniões na Irmã Madalena, numa casa de
família, onde a gente ficava reunido em torno
de uma mesinha, na chamada mediunidade tiptológica, ou seja, de efeitos físicos, numa espécie
de psicoterapia espiritual. Contei casos em que
Irmã Madalena encaminhava para o Pedrinho
Baiano, quando a pessoa tinha trabalho feito,
macumba e tal. Dias depois a senhora do Dr.
Antonio esteve lá, se apresentou, enfim, ficamos
nos conhecendo. E achei que ela devia estar com
alguma dificuldade. Então, dias depois, peguei
uma rosa vermelha da Irmã Madalena, igual à
que tinha dado para a Cacilda Becker, e levei
para ela. Toquei a campainha, quem atendeu
foi o Dr. Antonio: Foi bom você ter vindo. Quero
apresentar um amigo meu, gaúcho...
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Estendemos as mãos e depois do muito prazer
de um lado e de outro, eles foram lá pros fundos
da casa. Entreguei a rosa e fui embora.
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Pois dias depois vejo na primeira página do jornal:
Capitão Lamarca atira num guarda-civil. Olhei
para a foto e reconheci: o amigo gaúcho que
estava na casa do Dr. Antonio era o Lamarca!
Em abril de 1972, na peça Em Família, de Oduvaldo Viana Filho, Antunes Filho já não dirigia
mais com aquela paranóia européia (apenas os
cenários criticavam e traziam mensagens sociais)
e passou a trabalhar os atores escrevendo a
gênese dos personagens. Paulo Autran até comentou, um dia: Quero ver essas gênesis todas
na hora do vamos ver mesmo!.
Ensaio de Em Família, 1972, com Isadora de Faria,
Antunes Filho e Paulo Autran
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Eram uns ensaios de mesa muito demorados e eu
tinha preguiça de fazer aquilo, então aproveitava
que os colegas iam falando do meu personagem,
Jorge, e assim construí a imagem dele. A estréia
foi em 26 de abril de 1972, no Teatro Itália, em
São Paulo, a temporada foi muito boa e eu ganhei
o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante, da APCA,
Associação Paulista de Críticos de Arte. No elenco
estava o Walter Stuart, um comediante circense.
Muita criatividade e um altíssimo astral, uma
pessoa naturalmente engraçada, em cena e fora
dela. Mas o Antunes não conseguia segurá-lo e
o Paulo Autran, que contracenava com ele, era
quem mais sofria. Um dia, o Walter Stuart, em vez
do cinzeiro, usou o jato de água daquela seringa
em forma de bola de borracha vermelha usada
antigamente em lavagens íntimas femininas, para
apagar o charutinho com que entrava no palco. O
pior era que, na cena seguinte, ele vinha pro meu
lado. Meu personagem estava com um problema
seriíssimo e ia ter uma conversa definitiva com a
mulher, sobre o pai e a mãe. Ali o Vianinha mandava uma de suas mensagens. Foi difícil começar
o diálogo, a platéia não parava de rir. Esperei
um pouco. Mas um sujeito não acabava mais de
rir, então eu encarei. Um outro personagem deu
a deixa duas vezes, e eu lá mudo, olhando pro
homem. Só quando ele ficou quieto, nós recomeçamos. E foi uma das noites em que a cena
funcionou melhor. O palco tem dessas coisas.
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Em 1973, eu tinha voltado para o Rio, definitivamente (na bagagem, 11 salários para receber
da TV Excelsior). Sobre Crimeterapia, encenada
no Teatro Glória em outubro daquele mesmo
ano, não tenho muito que comentar, a não ser
que a peça era fraca e o desempenho do elenco
foi burocraticamente profissional, enfim, um
espetáculo ruim e fim de papo. Aliás, Fim de
Papo, uma comédia de autor argentino, levada
ao palco do extinto Teatro Serrador, no centro
da cidade, em julho de 1977, que fiz com Arlete Salles, Jayme Barcelos, Edson França e Lícia
Magna, também não deu certo, embora o tema
fosse muito interessante: a terapia que um casal
aparentemente harmonizado é obrigado a fazer
depois de dez anos de vida em comum, depois
que a televisão da casa apresenta um defeito e
não tem mais conserto. Os conflitos vão surgindo e provocam uma lavagem de roupa suja, um
verdadeiro exorcismo.
A televisão lá de casa estava funcionando perfeitamente, em 1980, e eu fazia a ensolarada
Água Viva, de Gilberto Braga, onde aconteceu o
primeiro topless da teledramaturgia nacional.
Em 1983, com os ensaios de Evita, uma participação em Louco Amor, no papel de um embaixador
que vai salvar o neto, cai do telhado e morre.
Depois, A Gata Comeu, reedição de A Barba
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Azul, de Ivani Ribeiro, que até hoje é lembrada
e apreciada por muita gente. Sinhá Moça, em
1986; Vida Nova, em 88; Mico Preto, em 90. E,
em 1997, Anjo Mau, de Maria Adelaide Amaral,
baseada num original de Cassiano Gabus Mendes, que considero um dos bons trabalhos que
fiz em telenovelas, ganhei até prêmio da APCA,
Associação Paulista de Críticos de Arte. Sem
esquecer de Cabocla, em 2004, um verdadeiro
presente, um prazer enorme de fazer, uma equipe maravilhosa, os dois coronéis, o Tony Ramos
e eu, um elenco de primeira, tudo dando certo.
Ainda hoje, quando a gente encontra alguém
da equipe, é aquele abraço, aquela alegria,
porque houve um entrosamento tão grande,
tão feliz, e deu tudo tão certo que o trabalho
ficou inesquecível.
E teve também as minisséries, com destaque
para A-E-I-O-Urca, primeira e única vez que fui
dirigido pelo Mauro Mendonça Filho. E o remake
de A Muralha, em 2000, na Globo, eu outra vez
como Dom Braz Olinto, mas com barba autêntica, uma cabeleira muitíssimo bem-feita que nem
a televisão em cores revelava.
Aquela primeira versão, da Ivani Ribeiro, na Excelsior, se passava no tempo dos bandeirantes
com os emboabas, que é onde o romance da Dinah Silveira de Queiroz se situava, e, nessa relei-
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Louco Amor, com Tereza Rachel (acima), e Vida Nova,
com Lauro Corona e Iara Jamra (abaixo)
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Vida Nova, com Irwing São Paulo
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Anjo Mau, com Licurgo Spinola
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Anjo Mau, com Luiza Brunet (à esquerda), e Cabocla, com
Tony Ramos (acima)
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A, E, I, O... Urca
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tura da mesma história, Maria Adelaide Amaral
adaptou para o começo da colonização do Brasil,
alguns anos depois. E gostei muito também de
fazer alguns episódios de A Vida Como Ela É,
principalmente aquele em que faço o dono de
uma frota de lotações, um cafajeste-padrão.
Assim, passei por quase todas as emissoras, fazendo teleteatro ou novela, Excelsior, Tupi de
São Paulo, Record e Globo. Um ou outro insucesso, poucos, entre muitos sucessos.
No palco, insucesso mesmo foi em maio de 1980,
no Teatro Copacabana. Era A Longa Jornada
Noite Adentro, de Eugene O’Neill, que tinha
tudo para emplacar, no entanto teve muita coisa
negativa. Um problema de saúde de Nathália
Timberg interrompeu a temporada, pensou-se
até que fosse enfarte. Eu, interpretando o James
Tyrone, Otávio Augusto e Wolf Maia testamos
todos os uísques nacionais no chá de cena e no
segundo ato já estávamos meio de pileque. A
tradução de Ana Golombek e Roberto Vignatti
era primorosa, mas o público, de um modo geral,
estava viciado nos diálogos da televisão, tinha
perdido o contato com uma linguagem poética
e rebuscada como aquela de autores do quilate
de O’Neill, que levou 30 anos pra escrever essa
peça sobre aquele homem que tinha a mulher
com problemas, um filho tuberculoso, outro,
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A Muralha, TV Globo, 2002, com Alessandra Negrini
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A Muralha, TV Globo, 2002, com Alessandra Negrini,
Leonardo Brício e André Gonçalves
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A Muralha, TV Globo, 2002, com Vera Holtz (à esquerda),
e em um dos episódios de A Vida Como Ela É, da TV
Globo (acima)
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A Longa Jornada Noite Adentro, 1982, com Cláudia Costa,
Wolf Maia, Nathália Timberg e Otávio Augusto
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beberrão, que se amavam, porém se agrediam.
Na vida real mesmo, dele, uma família complicadíssima, meio maldita, com uma grande carga
de sofrimento, inclusive com o suicídio do irmão
mais velho. Pra fazer um O’Neill, o ator tem de
ter uma enorme dose de estoicismo, porque vai
sofrer, e se mergulhar dentro daquilo não vai
sair incólume, alguma marca pode ficar. Por isso,
todas as noites eu chegava em casa e tomava um
banho com sal grosso, pra relaxar e, principalmente, descarregar.
Pior do que com A Longa Jornada Noite Adentro tinha sido com A Corrente, de Consuelo de
Castro, Jorge Andrade e Lauro César Muniz, em
setembro de 1981, no Teatro Senac, no Rio, e
em 1982, no Teatro FAAP, em São Paulo. Tenho
até dificuldade de falar sobre isso, por uma série
de razões, pessoais e profissionais, portanto, o
silêncio, aqui, é o mais aconselhável.
235
(Mas Lauro César Muniz não tem nenhuma dificuldade, muito pelo contrário, em falar sobre
Mauro Mendonça):
Da farsa à comédia sofisticada, do humor estilizado à graça sutil naturalista, um autor tem sempre
nele o ator ideal para a deflagração do riso. Se
Mauro se destacou pela criação de personagens
dramáticos, na comédia ele se impõe pelo ab-
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soluto domínio de uma técnica de humor rara,
ou seja, a economia e precisão em sintetizar o
gesto e a fala cômicos. Em tudo, a revelação de
um excepcional comediante. Em vez de atrair o
personagem para seu universo pessoal, Mauro
dá a ele características próprias, máscaras autônomas. É um ator que não usa de suas idiossincrasias pessoais em cima do personagem.
Lauro César Muniz
236
Teatro tem também o seu lado insólito. Há pouco tempo, por exemplo, em dezembro de 2004,
interpretei o Ebenezer Scrooge de Um Conto de
Natal, de Charles Dickens, na Praça Padre Miguel,
em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição,
em Realengo, no Rio, e em mais outros 13 lugares
públicos da cidade. Representar para aquele tipo
de platéia, em cima de um caminhão transformado em palco, foi uma experiência absolutamente
inédita em minha carreira. Era a história de um avarento que perdia completamente a sensibilidade e,
sem qualquer sinal de justiça, desprendimento ou
bondade, se transformou num patrão desalmado
que não mais se comovia com o Natal, apesar dos
apelos do sobrinho. Até que acontece a aparição
de seu falecido sócio, aconselhando a não seguir
o mesmo caminho dele, senão iria sofrer muito. E
dizendo que Scrooge ia receber a visita de três espí­
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ritos bons que mostrariam o presente, o passado
e o futuro dele. Os espíritos então aparecem e lhe
dão uma lição de vida. Arrependido, ele implora
para recomeçar, sem que lhe aconteça o que o
espí­rito do futuro havia mostrado. E ele se modifica
mesmo, decide comemorar outra vez o Natal, vai à
casa do sobrinho, pede perdão, ajuda um filho do
empregado, doente, enfim, muda completamente,
transformando-se num novo homem. Um relato
simples, mas de belo conteúdo moral e sob medida para os tempos materialistas em que estamos
vivendo. Depois de vaiá-lo no começo, o povão o
perdoava e cantava Noite Feliz com ele, no final.
O mais interessante aconteceu na Ilha do Governador, quando a chuva quase provocou um
adiamento, mas vendo tanta gente de guardachuva aberto, esperando por nós, acabamos representando, também de guarda-chuva na mão.
E fomos duplamente aplaudidos.
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Nunca mais vou esquecer a sensação de dar esse
tipo de emoção àquela gente que não tem acesso a nenhum outro tipo de teatro tradicional. E
também por uma cena fora do roteiro, quando
uns rapazes, estudantes, chegaram e começaram
a perturbar. Eu saí do meu papel e avisei: Olha
aqui, se vocês continuarem assim, chamo a segurança. Ou eu mesmo vou aí e então o pau vai
quebrar pra valer!
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Pedi desculpas à platéia e todos me aplaudiram.
Os moleques sentiram que todos estavam contra
eles, foram saindo de fininho e simplesmente
sumiram, no ato. Porque acontece uma coisa:
no palco, você fica investido de um tipo impressionante de autoridade.
238
Um mês depois, em janeiro de 2005, participei
de outra iniciativa semelhante, no papel do governador Daciano, num espetáculo também em
lugar público, na arena erguida pela prefeitura
de São Vicente na Praia do Gonzaguinha. Era
Fundação da Vila de São Vicente, com centenas
de atores e figurantes, roteiro de Cláudio Botelho e direção de Charles Möeller (os mesmos de
Ópera do Malandro ). Choveu todos os dias, então nós – menos os índios,claro – terminávamos
a representação molhados e suados ao mesmo
tempo, porque as roupas eram de tecido grosso
e de couro. Em cena, Vicente, João Ramalho,
Bartira, Dom Valério, Valéria, Martim Afonso,
Padre Gonçalo Montrito, governador Daciano
e outros personagens históricos daquela cidade
do litoral paulista, diante de várias multidões,
na areia, um recorde que foi para o Guinness.
Detalhe: sem absolutamente ninguém do Ministério da Cultura presente...
*
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Foi de repente. Só tive certeza de que era mesmo
um ator, vendo a reação das pessoas, o feed-back
delas. Nunca mais me esqueço daquele belo dia
do final de 1959 ou começo de 60, quando o
Augus­to Boal, o Zé Renato e o Dionísio Azevedo
subiram aos pulos a escada do Teatro de Arena
de São Paulo até a Sala de Cima, quando comecei a declamar um trecho do Infante, príncipe
da Inês de Castro... que direi, que farei, que
clamarei, ó fortuna, ó crueza, mal tamanho... e
minha voz chegou até onde eles estavam. Porque
saiu-me uma voz tão potente, tão sonora, tão
redonda, que mesmo eu percebendo que os três
vieram e ficaram me assistindo atentamente,
mesmo assim continuei inteirado, em perfeita
comunhão com o personagem. Ao mesmo tempo, podendo vê-los, sentindo a reação deles e da
Lélia Abramo, do Renato Borghi, do Jairo Arco
e Flexa e do cangaceiro Milton Ribeiro, meus
colegas do curso da professora Maria José de Carvalho. E, com a mesma emoção, poder continuar
a interpretação. Ali, naquele momento, estava
acontecendo o nascimento de um ator!
239
Boal, Zé Renato e Dionísio tinham subido pra ver
o que estava acontecendo, enfim, o que significava aquele vozeirão, o que ele queria dizer. Mal
sabiam que simplesmente era mais um ator que
estava surgindo. Foi um desses tais momentos
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mágicos. Stanislawski explica isso muito bem: o
ator está viajando, com sua sensibilidade à tona,
à flor da pele, mas sem perder a consciência, nem
virar sonâmbulo. E isso é emocionante em nossa
profissão: atingir aquela enorme felicidade que
é estar interpretando uma personalidade e não
perder o domínio do resto. Eu estava dentro de
outra pessoa, mas não tinha saído do Mauro
Mendonça. Ou seja, meu consciente alimentando o inconsciente fez com que houvesse uma comunhão, que é quando irradiamos uma emoção
e recebemos um retorno, de quem está contracenando a gente e de quem está nos assistindo.
Uma situação artificial, claro, um fingimento,
mas é um ponto em que você tem a sensação de
que pode até voar. É o estado de ser em cena,
como dizia mestre Constantin.
Quando cheguei a esse ponto, ah, aí tive plena
certeza de que eu era um ator e que não ia parar
nunca mais! Estava consumado. Mas, para ser
ator, um bom ator, é preciso ter saúde! Se tiver vocação e talento, melhor. Mas, mais do que tudo, é
fundamental que tenha saúde. Se tiver um desempenho físico de decatleta ou astronauta, melhor
ainda. Porque nosso trabalho, embora seja uma
viagem maravilhosa, consiste em experimentar
o que a gente seria, como pessoa, se fôssemos
aquele ser imaginário que estamos encarnando.
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Um processo de autoconhecimento que acaba
sendo quase uma purificação. Uma evolução pessoal, através do contato com outras pessoas – os
personagens e os demais atores – mas que encerra
um grande componente sadomasoquista. Isso, às
vezes, cansa, muito. É que através desse caminho
da imaginação, do se fosse, do faz-de-conta, nós
podemos chegar ao fundo das emoções, a dor, o
sofrimento, a lágrima ou a grande gargalhada de
alegria extrema do personagem. Quando o ator
estiver lá no fundo dos problemas de quem está
fingindo ser, quanto mais doer-lhe o corpo e a
alma, quanto mais desconfortável se sentiu em
cena, melhor ele terá desempenhado seu papel,
melhor terá exercido sua função.
241
Em 1972, por exemplo, entre O Preço e Seria
Cômico Se Não Fosse Trágico, eu fiz Em Família,
de Oduvaldo Viana Filho, que apesar de ter uma
grande dose de amor é bastante dramática. E isso
me afetou. Fiquei envolvido emocionalmente e
tive problemas. Por isso, não aceitei fazer uma
peça excelente que me propuseram em seguida,
sobre um policial inglês. Tive uma reação física
contra a história. Não suportaria interpretá-la. E
passei uma temporada preferindo fazer trabalhos
sérios, mas que tivessem pelo menos uma pequena
dose de humor, uma certa leveza. Sem uma anestesia de vez em quando não dá pra agüentar!
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Porque aí está a dimensão do bom intérprete:
ao realizar aquele ato de mentira, vivenciar sentimentos em toda sua mais profunda plenitude,
mesmo que isso seja profundamente doloroso,
dolorido. E esse mecanismo meio alucinante é
nosso instrumento de trabalho. Quer dizer, tratase de uma coisa meio maluca, uma profissão de
doido mesmo. Mesmo assim, pretendo trabalhar
como ator – que é a única coisa que sei fazer – até
onde der. Aliás, quem quiser que tire conclusões:
por mera coincidência ou não, a maior parte dos
atores é caçula (inclusive eu) ou filho único, o
que significa ter sido centro de atenção desde
pequeno. Assim será, se lhes parecer.
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Moral da história: embora sendo um tipo incomum de orgasmo – no sentido de atingir a plenitude das sensações – trata-se de um ofício com
altas taxas de insalubridade. É uma atividade
simplesmente diabólica. Eis, pois, uma profissão
que exige sacrifícios e, que se não for exercido
com amor, a pessoa larga e foge dele, correndo.
Eu fiquei. Paguei esse preço. E, apesar de tudo,
acho que valeu a pena, porque, entre mil e muitos motivos, pelo menos, quando a cortina fecha
tem o aplauso que sopra a ferida!
The Fim
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Resumo da Carreira
Teatro
1956
• Sedutor, de Diego Fabri – Direção de Eugênio
Kusnet
• Casa de Chá do Luar de Agosto, de John Patrick
– Direção de Maurice Vaneau
1957
• Nossa Vida com Papai, de Howard Lindsay e
Russel Crouse – Direção de Gianni Ratto
• Rua São Luiz, 27 – 8o andar, de Abílio Pereira
de Almeida – Direção de Alberto D’Aversa
245
• Interesses Criados, de Jacinto Benavente – Direção de Alberto D’Aversa
1958
• Dama de Copas (Pif-Paf), de Abílio Pereira de
Almeida – Direção de Armando Paschoal
• Treze à Mesa, de Marc Gilbert Sauvajon – Direção de Ruggero Jacobbi
• Quartos Separados, de Saint Garnier e Philippe
Bonnières, Direção de Fernando Torres
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Dois momentos com Rosamaria e os filhos Rodrigo, João Paulo
e Mauro Filho
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1959
• A Gaivota, de Millôr Fernandes – Direção de
Carlos Alberto Murtinho
• Romanoff e Julieta, de Peter Ustinov – Direção
de Alberto D’Aversa
• Patate, de Marcel Achard – Direção de Alberto
D’Aversa
• Quando se Morre de Amor, de Giovanni Patroni Griffi – Direção de Alberto D’Aversa.
1960
• Plantão 21, de Sidney Kingsley – Direção de
Antunes Filho e Ademar Guerra
247
• Doce Pássaro da Juventude, de Tennessee
Wiliams – Direção de Ademar Guerra
• As Feiticeiras de Salem, de Arthur Miller – Direção de Antunes Filho
1961
• Sem Entrada e Sem Mais Nada, de Roberto
Freire – Direção de Antunes Filho
1962
• Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee
Williams – Direção de Augusto Boal
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1965
• A Vida Impressa em Dólar, de Clifford Odets –
Direção de José Celso Martinez Corrêa
1966
• Andorra, de Max Frisch – Direção de José Celso
Martinez Corrêa
• Os Inimigos, de Maximo Górki – Direção de
José Celso Martinez Corrêa
1967
• Oh! Que Delícia de Guerra, de Charles Chilton
e Joan Littlewood – Direção de Ademar Guerra
248
1968
• Réquiem Para Uma Noite de Sexta-Feira
(Kidush­), de Germán Rozenmacher – Direção de
Roberto Vignatti
• Agamemnon, de Ésquilo – Direção de Maria
José de Carvalho
1970
• O Preço, de Arthur Miller – Direção de Antonio
Abujamra e Roberto Vignatti
1972
• Em Família, de Oduvaldo Vianna Filho – Direção
de Antunes Filho
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1973
• Seria Cômico Se Não Fosse Sério, de Friedrich
Dürrenmatt – Direção de Celso Nunes
• Crimeterapia, de Dennis Wentworth (Edgar da
Rocha Miranda) – Direção de João Bittencourt
1976
• Feira do Adultério, Seis peças de um ato, de Armando Costa/Paulo Pontes, Lauro César Muniz,
Bráulio Pedroso, João Bethencourt, Jô Soares e
Ziraldo – Direção de Jô Soares
1977
• Fim de Papo, de Sérgio de Cecco e Armando
Chulak – Direção de Eloy Araújo
249
1980
• A Longa Jornada Noite Adentro, de Eugene
O’Neill – Direção de Roberto Vignatti
1982
• A Corrente, de Consuelo de Castro, Lauro
César Muniz e Jorge Andrade – Direção de Luís
de Lima
1983
• Evita, de Tom Rice e Andrew Lloyd Webber –
Direção de Maurício Sherman
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1985
• Direita Volver, de Lauro César Muniz – Direção
de Roberto Frota
1991
• As Atrizes, de Juca de Oliveira – Direção de
Juca de Oliveira
1994
• A Noiva do Condutor, de Noel Rosa e Arnold
Glückmann – Direção de Karen Acioly
250
1995/1996
• Intensa Magia, de Maria Adelaide Amaral –
Direção de Paulo Cezar Saraceni
2001/2002
• Caixa 2, de Juca de Oliveira – Direção de Fau­
zi Arap
2003/2004
• Ópera do Malandro, de Chico Buarque de
Holanda – Direção de Charles Möeller e Cláu­
dio Botelho
2004
• Um Conto de Natal, de Charles Dickens – Direção de Gustavo Paso e Alexandro Bordallo
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2005
• Fundação da Vila de São Vicente, de Cláudio
Botelho – Direção de Charles Möeller
2007
• Um Barco para o Sonho, de Alexei Arbuzov
– Tradução de Cécil Thiré – Direção de Carlos
Artur Thiré
252
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Televisão
Novelas
1963
• Aqueles Que Dizem Amar-se, de Alberto Migre
– Direção de Tito di Miglio – TV Excelsior
• Corações em Conflito, de Ivani Ribeiro – Direção de Dionísio de Azevedo – Personagem:
Rodolfo – TV Excelsior
1964
• Os Irmãos Pereira, direção de Waldemar de
Moraes – Personagem: Irmão mais velho – TV
Excelsior
253
• Uma Sombra na Minha Vida, de Cristina Leblon
(pseudônimo de Ivani Ribeiro em novelas de
rádio) – Direção de Dionísio Azevedo – Personagem: Reinaldo – TV Excelsior
1965
• Eu Quero Você, de Vitor Martins – Direção de
Walter Avancini e Mauro Mendonça (assistente
de direção e depois diretor) – TV Excelsior
• Ontem, Hoje e Sempre, de Fernando Bacelar –
Direção de Mauro Mendonça – TV Excelsior
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• Aquele Que Deve Voltar, Direção de Mauro
Mendonça – TV Excelsior
• A Grande Viagem, de Ivani Ribeiro – Direção
de Walter Avancini – Personagem: Júlio – TV
Excelsior
1966
• Ambição, de Ivani Ribeiro – Personagem: Dr.
Ulisses – TV Excelsior
1968
• A Muralha, de Ivani Ribeiro (do romance de
Dinah Silveira de Queiroz) – Direção de Sérgio
Brito e Gonzaga Blota – Personagem: Dom Braz
Olinto – TV Excelsior
255
1969
• Sangue do Meu Sangue, de Vicente Sesso –
Direção de Sérgio Brito – Personagem: Conde
Giorgio de la Fontana – TV Excelsior
1971
• Editora Maio, Bom Dia!, de Walter Negrão –
Direção de Carlos Manga – Personagem: Vicente
– TV Record
• O Príncipe e o Mendigo, de Marcos Rey (do
livro de Mark Twain) – Direção de Dionísio
Azevedo – Personagem: Mister Canty, o rei dos
mendigos – TV Record
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256
Sangue do Meu Sangue, com Fernanda Montenegro
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1972
• A Idade do Lobo, de Sérgio Jockyman – Direção
de Walter Avancini e Carlos Zara – TV Tupi
1973
• Carinhoso, de Lauro César Muniz – Direção de
Walter Campos – Personagem: Vicente, o pai –
TV Globo
1974
• O Espigão, de Dias Gomes – Direção de Régis
Cardoso – Personagem: Donatelo – TV Globo
• O Rebu, de Bráulio Pedroso – Direção de Walter
Avancini e Jardel Melo – TV Globo
257
1976
• Estúpido Cupido, de Mário Prata – Direção de
Régis Cardoso – Personagem: Delegado Circulando Siqueira – TV Globo
1977
• Espelho Mágico, de Lauro César Muniz – Direção de Daniel Filho e João Gabriel – Personagem:
Nelson Novaes – TV Globo
1978
• Te Contei, de Cassiano Gabus Mendes – Direção de Régis Cardoso – Personagem: Rogério
– TV Globo
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• Dancin’Days, de Gilberto Braga – Direção de
Daniel Filho e Gonzaga Blota – Personagem:
Artur – TV Globo
1979
• Feijão Maravilha, de Bráulio Pedroso – Direção
de Paulo Ubiratan – Personagem: Mister Ziegfeld
– TV Globo
1980
• Água Viva, de Gilberto Braga, com colaboração de Manoel Carlos – Direção de Roberto
Talma e Paulo Ubiratan – Personagem: Evaldo
– TV Globo
258
• As Três Marias, de Wilson Rocha e Walter
Negrão (da obra de Rachel de Queiroz) – Direção de Herval Rossano – Personagem: Conrado
– TV Globo
1981
• Brilhante, de Gilberto Braga, com colaboração
de Euclides Marinho e Leonor Basseres – Direção
de Daniel Filho, Marcos Paulo e José Carlos Pieri
– Personagem: Fernando – TV Globo
• Jogo da Vida, de Sílvio de Abreu – Direção de
Roberto Talma, Guel Arraes e Jorge Fernando –
Personagem: Álvaro Pires Camargo – TV Globo
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1982
• Elas Por Elas, de Cassiano Gabus Mendes – Direção de Paulo Ubiratan, Wolf Maya e Mário Márcio Bandarra – Personagem: Átila – TV Globo
1983
• Louco Amor, de Gilberto Braga – Direção de
Paulo Ubiratan, Wolf Maya, Ary Coslov e José
Wilkar – Personagem: Embaixador André Dumont – TV Globo
• Champagne, de Cassiano Gabus Mendes – Direção de Paulo Ubiratan, Wolf Maya e Mário Márcio
Bandarra – Personagem: Jurandir – TV Globo
259
1985
• A Gata Comeu, de Ivani Ribeiro, com colaboração
de Marilu Saldanha – Direção de Herval Rossano –
Personagem: Horácio Penteado – TV Globo
1986
• Cambalacho, de Marilu Saldanha e Sílvio de
Abreu – Direção de Jorge Fernando – Personagem: Testamenteiro (participação) – TV Globo
• Sinhá Moça, de Benedito Ruy Barbosa (do livro
de Maria Dezone Pacheco Fernandes) – Direção
de Reinaldo Boury e Jayme Monjardim – Personagem: Doutor Fontes – TV Globo
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Jogo da Vida, com Carlos Vereza e Rosamaria Murtinho
(acima), e Elas por Elas (à direita)
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1987
• Mandala, de Dias Gomes, com colaboração
de Marcílio de Morais – Direção de Ricardo
Waddington e José Carlos Pieri – Personagem:
Adroaldo – TV Globo
1988
• Vida Nova, de Benedito Ruy Barbosa, com
colaboração de Edmara Barbosa – Direção de
Reinaldo Boury e Luís Fernando de Carvalho –
Personagem: Coronel Antenor – TV Globo
262
1990
• Mico Preto, de Marcílio de Moraes, Leonor
Basseres e Euclydes Marinho – Direção de Dennis Carvalho e Denise Saraceni – Personagem:
Honório – TV Globo
• Meu Bem, Meu Mal, de Cassiano Gabus Mendes
– Direção de Paulo Ubiratan e Reinaldo Boury –
Personagem: Padre (participação) – TV Globo
• Lua Cheia de Amor, de Ana Maria Moretzson,
Ricardo Linhares e Maria Carmen Barbosa, com
colaboração de Márcia Prates e supervisão de
Gilberto Braga (da peça Dona Xepa, de Pedro
Bloch) – Direção de Roberto Talma – Personagem: Maurício – TV Globo
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1991
• O Dono do Mundo, de Gilberto Braga – Direção
de Dennis Carvalho, Mauro Mendonça Filho e Ricardo Waddington – Personagem: O debatedor
(participação) – TV Globo
1992
• Despedida de Solteiro, de Walter Negrão –
Direção de Reinaldo Boury, Carlos Manga Jr. e
Cláudio Cavalcanti – Personagem: Sirineo Farfan
– TV Globo
1993
• O Mapa da Mina, de Cassiano Gabus Mendes,
com colaboração de Maria Adelaide Amaral,
Gugu Keller e Walquíria Portero – Direção de
Denise Saraceni, Flávio Colatrelo e Paulo Ubiratan – Personagem: Rodolfo Torres de Almeida
– TV Globo
263
• Sonho Meu, de Marcílio Moraes e Lauro César
Muniz, com colaboração de Margareth Boury
e Maria Adelaide Amaral (adaptação de A Pequena Órfã e Ídolos de Pano, de Teixeira Filho
e Carmen Lídia) – Direção de Reinaldo Boury,
Roberto Naar, Cláudio Cavalcanti e Marcelo
Travesso – Personagem: Carlos – TV Globo
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Despedida de Solteiro, com Ana Rosa e Helena Ranaldi
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Sonho Meu, com Françoise Fourton
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1994
• Pátria Minha, de Gilberto Braga, com colaboração de Leonor Basseres, Sérgio Marques, Alcides
Nogueira e Ângela Carneiro – Direção de Dennis
Carvalho, Roberto Naar, Ary Coslov, Alexandre
Avancini e Mauro Mendonça Filho – Personagem: Doutor Olavo, dono de jornal – TV Globo
1995
266
• A Próxima Vítima, de Sílvio de Abreu, com colaboração de Maria Adelaide Amaral e Alcides
Nogueira – Direção de Jorge Fernando, Rogério
Gomes e Marcelo Travesso – Personagem: Otávio – TV Globo
• Irmãos Coragem (remake do original de Janete
Clair), de Dias Gomes e Marcílio Moraes – Direção de Luís Fernando de Carvalho e Mauro
Mendonça Filho, depois Reinaldo Boury, Carlos
Araújo e Ary Coslov – Personagem: Guimarães
– TV Globo
• Cara & Coroa, de Antonio Calmon, com colaboração de Ângela Carneiro, Lílian Garcia e
Eliane Garcia – Direção de Wolf Maya, Carlos
Magalhães, André Schultz e Ignácio Coqueiro –
Personagem: Kleber – TV Globo
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A Próxima Vítima
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Cara & Coroa (à esquerda) e Meu Bem Querer, com
Cláudio Corrêa e Castro, Bia Nunes e Arlete Salles (acima)
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1996
• O Fim do Mundo, de Dias Gomes, com colaboração de Ferreira Gullar – Direção de Paulo
Ubiratan e Gonzaga Blota – Personagem: Lawyer
– TV Globo
• Anjo de Mim, de Walter Negrão, com colaboração de Elizaberh Jhin, Ângela Carneiro. Lílian
Garcia e Eliane Garcia – Direção de Ricardo
Waddington, Roberto Naar, Edson Spinello e
Alexandre Avancini – Personagem: Coronel José
Balbino – TV Globo
270
1997
• Anjo Mau, de Maria Adelaide Amaral (do original de Cassiano Gabus Mendes), supervisão de
texto Sílvio de Abreu, colaboração Bosco Brasil,
Vicenti Villari e Djair Cardoso – Direção de Carlos
Manga, Denise Saraceni, José Luis Villamarin,
Carlos Araújo e Emílio de Biasi – Personagem:
Rui Novaes – TV Globo
1998
• Meu Bem Querer, de Ricardo Linhares, com
colaboração de Leonor Basseres, Nelson Nadotti
e Maria Elisa Berred – Direção de Marcos Paulo,
Roberto Naar, Luis Henrique Rios, Alexandre
Avancini e João Camargo – Personagem: Pastor
Bilac Maciel – TV Globo
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2003
• Kubanacan, de Carlos Lombardi, com colaboração de Emanoel Jacobina, Margareth Boury e
Thiago Santiago – Direção de Wolf Maya, Alexandre Avancini e Marco Rodrigo – Personagem:
Sandoval – TV Globo
2004
• Cabocla, de Benedito Ruy Barbosa (da obra
de Ribeiro Couto), com colaboração de Edmara
Barbosa e Edilene Barbosa – Direção de José Luiz
Villamarim, Rogério Gomes, Frederico Mayrinque, Pedro Vasconcelos e André Binder – Personagem: Coronel Justino – TV Globo
2005
• Bang-Bang, de Mário Prata, com colaboração
de Felipe Miguel, Ana Ferreira e Reinaldo Mo­
raes – Direção de Ricardo Waddington, José Luiz
Villamarim, Paulo Silvestrini e Cláudio Boeckel
– Personagem: Paul Bullock – TV Globo.
271
2006
• O Profeta, de Ivani Ribeiro – Adaptação: Duca
Rachid e Thelma Guedes. Escrita por: Duca
Rachid, Thelma Guedes e Julio Fischer. Colaboração: André Ryoki e Tereza Falcão. Supervisão
de texto: Walcyr Carrasco. Direção de Alexandre
Boury e Vinícius Coimbra. Direção geral: Mário
Márcio Bandarra. Direção de núcleo: Roberto
Talma – Personagem: Francisco – TV Globo
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Bang-Bang, com todo o elenco da novela
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2008
• A Favorita, novela de João Emanuel Carneiro.
Escrita por João Emanuel Carneiro. Colaboração
Marcia Prates, Denise Bandeira, Fausto Galvão,
Vincent Villari. Direção de Paulo Silvestrini, Roberto Vaz, Gustavo Fernandez, Isabella Secchin.
Direção-geral: Ricardo Waddington. Núcleo:
Ricardo Waddington – Personagem: Gonçalo –
TV Globo
Minisséries
274
1983
• Moinhos de Vento, de Daniel Más e Leilah
Assumpção – Direção de Walter Avancini,
Adriano Stuart e Hugo Barreto – Personagem:
Fausto – TV Globo
1989
• República, de Walter Avancini e Wilson Aguiar
Filho (roteiro), com colaboração de Joel Rufino
dos Santos – Direção de Walter Avancini – Personagem: Benjamin Constant – TV Globo
1990
• A, E, I, O... Urca, de Doc Comparato, Carlos
Manga e Antonio Calmon – Direção de Dennis
Carvalho e Mauro Mendonça Filho – Personagem: Ministro Damasceno – TV Globo
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1992
• Tereza Batista, de Vicente Sesso (do romance
de Jorge Amado), Direção de Paulo Afonso
Grisolli e Fernando Rodrigues de Souza – Personagem: Hipólito – TV Globo
1994
• Incidente em Antares, de Nelson Nadotti e
Charles Peixoto (do livro de Érico Veríssimo) –
Direção de Carlos Manga, Paulo José e Nelson
Nadotti – Personagem: Geminiano Ramos, presidente do Sindicato – TV Globo
1995
• Engraçadinha... Seus Amores e Seus Pecados,
de Leopoldo Serran (da peça Asfalto Selvagem,
de Nelson Rodrigues), com colaboração de Carlos
Gerbase – Direção de Carlos Manga, Denise Sara­
ceni e Johnny Jardim – Personagem: Benedito
Valladares – TV Globo
275
2000
• A Muralha, de Maria Adelaide Amaral (do
romance de Dinah Silveira de Queiroz), com
colaboração de João Emanuel e Vicenti Villari –
Direção de Denise Saraceni, Carlos Araújo e Luís
Henrique Rios – Personagem: Dom Braz Olinto
– TV Globo
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Tereza Batista
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Incidente em Antares, com Eva Todor
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2002
• O Quinto dos Infernos, de Carlos Lombardi
(dos livros O Chalaça, A Imperatriz no Fim do
Mun­do e As Maluquices do Imperador), com
cola­bo­ração de Margareth Boury e Thiago Santiago – Direção de Wolf Maya – Personagem:
Pa­dre Melo – TV Globo
278
2004
• Um Só Coração, de Maria Adelaide Amaral,
Alcides Nogueira e Lúcio Manfred, com colaboração de Rodrigo Arantes – Direção de Carlos
Araújo, Marcelo Travesso e Ulisses Cruz – Personagem: Coronel Bento de Carvalho – TV Globo
Teleteatros
1955
• Teatro Cacilda Becker – Direção de Ziembinsky
– TV Record
1956
• Teatro das Segundas-Feiras – Direção de Antunes Filho – TV Tupi
1956/57/58
• Grande Teatro Tupi – Direção de Sérgio Brito
– TV Tupi Rio
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Engraçadinha... Seus Amores e Seus Pecados
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O Quinto dos Infernos
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1957/58
• Câmera Um – Direção de Jacy Campos – TV
Tupi Rio
1957/58
• TV Mistério – Direção de Moacyr Masson –
TV Rio
1958
• Grande Teatro Infantil Trol – Direção de Fábio
Sabag – TV Tupi Rio
• Teatro Moinho de Ouro – Direção de Vitor
Berbara – TV Rio
281
1959
• Teatro das Segundas-Feiras – Direção de Ademar Guerra – TV Tupi
• Teatro de Comédia – Direção de Ademar Guerra – TV Tupi
1960
• Caminhos da Medicina – Direção de Antunes
Filho e Geraldo Vietri – TV Excelsior
1961/62
• Teleteatro 9 – Direção de Ademar Guerra e
Flávio Rangel – TV Excelsior
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282
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1963
• Teatro Bibi Ferreira – Direção de Bibi Ferreira
– TV Excelsior
• Teleteatro 63 – Direção de Walter George Durst
e Túlio de Lemos – TV Excelsior
1964
• Teatro Como no Teatro – Direção de Alberto
D’Aversa – TV Excelsior
1968
• Grande Teatro Cacilda Becker – Direção de
Walter George Durst – TV Bandeirantes
1970/71
• Teatro Aplauso – Direção de Carlos Manga –
TV Record
283
1972
• Teatro 2 – Direção de Ademar Guerra e Antonio
Ghigoneto – TV Cultura
Seriados
1958
• Falcão Negro, de Péricles Leal – TV Tupi
1972
• Jerônimo, Herói do Sertão – TV Tupi
A Rainha Morta, com Cacilda Becker, 1968
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1973
• Shazan & Sherife – Direção de Reinaldo Boury
– TV Globo
1978
• Ciranda, Cirandinha, de Antonio Carlos da
Fontoura e Euclydes Marinho
Episódio: Momento de Decisão – Direção de
Daniel Filho e Paulo José – TV Globo
• Sítio do Picapau Amarelo, de Marcos Rey
Episódio: Quem Tem Boca Vai a Roma – Direção
de Geraldo Case e Reinaldo Boury – TV Globo
284
1979
• Malu Mulher, de Armando Costa
Episódio: O Doce Inferno da Burguesia – Direção
de Paulo Afonso Grisolli – TV Globo
• Carga Pesada, de Péricles Leal
Episódio: O Arrocho – Direção de Alberto Salva
– TV Globo
1981
• Plantão de Polícia, de Doc Comparato
Episódio: Sangue, Calçada e Milk-Shake – Direção de Luís Antonio Piá – TV Globo
1982
• Sítio do Picapau Amarelo, de Marcos Rey
Episódio: Ali-Babá e os 40 Ladrões – Direção de
Roberto Vignatti – TV Globo
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1988
• Tarcísio & Glória
De Cassiano Gabus Mendes – Episódio: As Duas
Faces de Eva – Direção de José Carlos Pieri
De José Antonio de Souza – Episódio: Romance
de um Triste Viúvo – Direção de Tarcísio Meira
– TV Globo
1990
• Delegacia de Mulheres, de Maria Carmen
Barbosa, Patrícia Travassos, Charles Peixoto e
Ronaldo Santos
Episódio: Um Dia a Casa Cai – Direção de Denise
Saraceni – TV Globo
285
1996
• A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues, adaptação de Euclides Marinho, com colaboração de
Denise Bandeira e Carlos Gregório
Episódios: O Monstro – Cheque de Amor – Pai por
Dinheiro – Mártir em Casa e na Rua – A Grande
Mulher – Dama do Lotação – Direção de Daniel
Filho – TV Globo
1998
• Mulher, de Maria Helena Nascimento
Episódio: Ética – Direção de Daniel Filho – TV
Globo
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2001
• Brava Gente
Da literatura de cordel, adaptação de João Emanuel Carneiro
Episódio: A Moda do Chifre – Direção de Carlos
Araújo
De Altimar Pimentel, adaptação de Fausto Galvão e Carlos Alberto Ratton
Episódio: O Diabo Ri Por Último – Direção de Luís
Henrique Rios – TV Globo
286
• A Grande Família, de Oduvaldo Viana Filho,
com texto de Cláudio Paiva, Bernardo Guilherme
e Marcelo Gonçalves
Episódio: Quem Manda Aqui é Ela – Direção
de Mauro Mendonça Filho e Maurício Farias
– TV Globo
2003
• Os Normais, de Alexandre Machado e Fernan­
da Young
Episódio: É Uma Questão de Química – Direção
de José Alvarenga Jr. – TV Globo
2007
• Toma Lá, Dá Cá, de Maria Carmem Barbosa e
Miguel Falabella
Episódio: Nem Tudo é Realidade – Direção de
Mauro Mendonça Filho
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Episódio: O Seqüestro – Direção de Mauro Mendonça Filho – TV Globo
Especiais
1974
• Caso Especial
Episódio: Confissões de Uma Mãe de Família na
Véspera de Natal – De Janete Clair – Direção de
Herval Rossano – TV Globo
1975
• Caso Especial
Episódio: O Remate – De Leilah Assumpção – Direção de Antonio Abujamra – TV Globo
287
1981
• Caso Especial
Episódio: O Último Desejo – De Nelson Rodrigues (adaptação de Antonio Carlos da Fontoura) – Direção de Antonio Carlos da Fontoura
– TV Globo
1982
• Caso Verdade
Episódio: O Menino do Olho Azul – De Walter Negrão – Direção de Walter Campos – TV Globo
Episódio: Simone – De Alberto Salva – Direção
de Milton Gonçalves – TV Globo
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Episódio: A Grande Promessa – De Walter Negrão
– Direção de Walter Campos – TV Globo
Episódio: Um Amor Sem Limites – TV Globo
1983
• Quarta Nobre
Episódio: A Dama das Camélias – De Alexandre
Dumas Filho (adaptação de Doc Comparato) –
Direção de Dennis Carvalho – TV Globo
1984
• Caso Verdade
Episódio: Perdoa Teus Inimigos – De Margareth
Boury – Direção de J. Marreco – TV Globo
288
1990
• Teletema
Episódio: O Guru – De Ben Johnson – Direção de
Walter Campos – TV Globo
1992
• Você Decide
Episódio: Armadilha do Destino – De Charles
Peixoto – Direção de Marcos Paulo – TV Globo
1994
• Você Decide
Episódio: Premonição – De Antonio Carlos da
Fontoura
Episódio: O Bêbado e o Biscate – De Fernando Rabelo – Direção de Flávio Colatrelo – TV Globo
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1995
• Você Decide
Episódio: O Motim – De Tiago Santiago – Direção
de Fábio Sabag – TV Globo
1997
• Sai de Baixo
Episódio: Caco, o Magnífico – De Cláudio Paiva,
Flávio de Souza, Flávio Marinho, Juca Filho,
César Cardoso, Mauro Wilson e Jorge Fernando
– Direção de Dennis Carvalho, Daniel Filho, José
Wilker e Jorge Fernando – TV Globo
289
Cinema
1952
• O Petróleo é Nosso, direção de Watson Macedo
• Rua Sem Sol, direção de Alex Vianny
1953
• Carnaval em Caxias, direção de Jorge Illeli
(primeiro papel com pequenas falas)
1955
• Rio 40 Graus, direção de Nelson Pereira dos
Santos (primeiro pequeno personagem)
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1957
• Uma Certa Lucrécia, direção de Fernando de
Barros
1960
• Dona Violante Miranda, direção de Fernando
de Barros
1962
• Seara Vermelha, direção de Alberto D’Aversa
1973
• Maria Sempre Maria, direção de Eduardo
Llorente
290
• O Descarte, direção de Anselmo Duarte
1976
• Dona Flor e Seus Dois Maridos, direção de
Bruno Barreto
1978
• Os Embalos de Ipanema, direção de Antonio
Calmon
1982
• Amor Estranho Amor, direção de Walter Hugo
Khouri
1983
• Doce Delírio, direção de Manoel Paiva
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291
Seara Vermelha, com Marilda Alves
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1988
• Natal da Portela, direção de Paulo César Saraceni
1989
• Kuarup, direção de Rui Guerra
1991
• A Grande Arte, direção de Walter Salles
2003
• Benjamin, direção de Monique Gardenberg
• Didi, o Cupido Trapalhão, direção de Paulo
Aragão e Alexandre Boury
292
• O Redentor, direção de Cláudio Torres
Cursos
1953
• Escola do Serviço Nacional de Teatro, Rio de
Janeiro
1954
• Escola Martins Pena, da prefeitura do Distrito
Federal, Rio de Janeiro
• Curso de Canto com a professora Marsha
Tchekova Kelner, Niterói
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1956
• Aperfeiçoamento vocal com a professora Maria
José de Carvalho, da Escola de Arte Dramática
de São Paulo, ministrado inicialmente no Teatro
Brasileiro de Comédia
1958/59
• Aperfeiçoamento vocal, ainda com a professora Maria José de Carvalho, patrocinado pela
Comissão Estadual de Teatro do Estado de São
Paulo. Estudos de textos desde as tragédias gregas, as tragédias românticas, a Commedia dell
Arte, Shakespeare, clássicos italianos, franceses,
portugueses, de Gil Vicente e Alexandre Herculano a Molière e Racine até Ionesco, além de
poetas e dramaturgos brasileiros modernos
293
1965
• Curso de iniciação ao Método de Stanislawski,
pelo ator e professor Eugenio Kusnet
1967
• Trabalho de corpo com a coreógrafa Marika
Gidali, durante os ensaios da peça Oh, Que Delícia de Guerra!
1968
• Estudo de canto em hebraico para a peça Réquiem Para Uma Noite de Sexta-Feira ou Kidush
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1973
• Trabalho vocal dentro do método de Espaço
Direcional com a fonoaudióloga Maria da Glória
Beutenmüller (que prosseguem até hoje)
1983
• Estudo de canto para o musical Evita, com o
professor José Spinto
1991
• Expressão corporal, com Joel Rocha
1994
• Preparação musical para a opereta A Noiva do
Condutor, por Márcia Cabral e Henrique Cazes
294
2003
• Preparação vocal para a peça Ópera do Ma­
landro, com Cláudio Botelho e a cantora Alessan­
dra Verney
Prêmios
Teatro
1973
• Melhor Ator Coadjuvante, Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, na peça Em
Família, de Oduvaldo Viana Filho
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• Melhor Ator Coadjuvante, Prêmio Governador
do Estado de São Paulo, na peça Em Família, de
Oduvaldo Viana Filho
1996
• Melhor Ator, Prêmio Shell do Rio de Janeiro,
na peça Intensa Magia
1997
• Melhor Ator, Prêmio Shell de São Paulo, na
peça Intensa Magia
2004
• Prêmio Qualidade Brasil do Estado de São
Paulo. Prêmio Especial de Teatro, pelo conjunto
da obra
Recebendo o Prêmio Shell, com Maria Alice Vergueiro
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Televisão
1997
• Prêmio da Associação Paulista de Críticos de
Arte, pelo trabalho na novela Anjo Mau, como
o personagem Rui Novaes
Cinema
1976
• Melhor Ator de Cinema, Prêmio Air France,
pela atuação como Teodoro Madureira em Dona
Flor e Seus Dois Maridos
296
• Melhor Ator Coadjuvante, Prêmio Governador
do Estado de São Paulo, pela atuação como Teodoro Madureira em Dona Flor e Seus Dois Maridos
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Índice
Apresentação – José Serra
5
Coleção Aplauso – Hubert Alquéres
7
Introdução – Renato Sérgio
11
O Sonho: De Ubá ao Jardim das Delícias,
via Shirley Temple
17
Alamares, Bombardinos, o Sapato
Duas Cores e o Veado Novo
71
Flávio, Juca, Boal, Freire e a Casa de Chá
da Rua São Luiz
105
Um E.T. na Barão de Itapetininga
e a Colega Chamada Cacilda
141
A Bolsa da Nathália, o Doce Pássaro
e o Amargo Kowalski
177
Resumo da Carreira
245
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Créditos das fotografias
David Drew Zingg - capa
Adriana Pitigliane 84, 86
Anna Janini 216
Câmara Três 164
Campelo Neto 282
Cedoc / TV Globo 61, 165, 173, 174, 221, 222, 223,
254, 260, 261, 264, 265, 267, 269, 272, 273, 277,
279, 280
Cláudia Ribeiro 68
Correio Braziliense / Armando Favaro 295
Ed. Abril / Adhemar Veneziano 170
Ed. Abril / Joel Maia 169
Ed. Abril / Paulo Salomão 202, 201, 203, 204, 205
Ed. Abril / Robson de Freitas 172
Guga Melgar 69
Hago 188
J. Kunis 106, 124
Mazzei 16, 25
O Globo 225
Paulo Lorgus 145
Regina Helena Paiva Ramos 246
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Sebastião Barbosa 234
TV Globo / Bazilio Calazans 226, 233
TV Globo / Jorge Baumann 63, 224, 276
TV Globo / Nelson Di Rago 62, 228, 229, 230, 231,
232, 268
A presente obra conta com diversas fotos, grande parte de autoria
identificada e, desta forma, devidamente creditada. Contudo, a despeito dos enormes esforços de pesquisa empreendidos, uma parte das
fotografias ora disponibilizadas não é de autoria conhecida de seus
organizadores, fazendo parte do acervo pessoal do biografado. Qualquer informação neste sentido será bem-vinda, por meio de contato
com a editora desta obra ([email protected]/ Grande São
Paulo SAC 11 5013 5108 | 5109 / Demais localidades 0800 0123 401),
para que a autoria das fotografias porventura identificadas seja devidamente creditada.
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Coleção Aplauso
Série Cinema Brasil
Alain Fresnot – Um Cineasta sem Alma
Alain Fresnot
Agostinho Martins Pereira – Um Idealista
Máximo Barro
O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias
Roteiro de Cláudio Galperin, Bráulio Mantovani, Anna Muylaert­
e Cao Hamburger
Anselmo Duarte – O Homem da Palma de Ouro
Luiz Carlos Merten
Antonio Carlos da Fontoura – Espelho da Alma
Rodrigo Murat
Ary Fernandes – Sua Fascinante História
Antônio Leão da Silva Neto
O Bandido da Luz Vermelha
Roteiro de Rogério Sganzerla
Batismo de Sangue
Roteiro de Dani Patarra e Helvécio Ratton
Bens Confiscados
Roteiro comentado pelos seus autores Daniel Chaia e Carlos
Reichenbach
Braz Chediak – Fragmentos de uma vida
Sérgio Rodrigo Reis
Cabra-Cega
Roteiro de Di Moretti, comentado por Toni Venturi e Ricardo
Kauffman
O Caçador de Diamantes
Roteiro de Vittorio Capellaro, comentado por Máximo Barro
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Carlos Coimbra – Um Homem Raro
Luiz Carlos Merten
Carlos Reichenbach – O Cinema Como Razão de Viver
Marcelo Lyra
A Cartomante
Roteiro comentado por seu autor Wagner de Assis
Casa de Meninas
Romance original e roteiro de Inácio Araújo
O Caso dos Irmãos Naves
Roteiro de Jean-Claude Bernardet e Luis Sérgio Person
O Céu de Suely
Roteiro de Karim Aïnouz, Felipe Bragança e Maurício Zacharias
Chega de Saudade
Roteiro de Luiz Bolognesi
Cidade dos Homens
Roteiro de Elena Soárez
Como Fazer um Filme de Amor
Roteiro escrito e comentado por Luiz Moura e José Roberto
Torero
Críticas de Edmar Pereira – Razão e Sensibilidade
Org. Luiz Carlos Merten
Críticas de Jairo Ferreira – Críticas de invenção:
Os Anos do São Paulo Shimbun
Org. Alessandro Gamo
Críticas de Luiz Geraldo de Miranda Leão – Analisando Cinema: Críticas de LG
Org. Aurora Miranda Leão
Críticas de Ruben Biáfora – A Coragem de Ser
Org. Carlos M. Motta e José Júlio Spiewak
De Passagem
Roteiro de Cláudio Yosida e Direção de Ricardo Elias
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Desmundo
Roteiro de Alain Fresnot, Anna Muylaert e Sabina Anzuategui
Djalma Limongi Batista – Livre Pensador
Marcel Nadale
Dogma Feijoada: O Cinema Negro Brasileiro
Jeferson De
Dois Córregos
Roteiro de Carlos Reichenbach
A Dona da História
Roteiro de João Falcão, João Emanuel Carneiro e Daniel Filho
Os 12 Trabalhos
Roteiro de Cláudio Yosida e Ricardo Elias
Estômago
Roteiro de Lusa Silvestre, Marcos Jorge e Cláudia da Natividade
Fernando Meirelles – Biografia Prematura
Maria do Rosário Caetano
Fim da Linha
Roteiro de Gustavo Steinberg e Guilherme Werneck; Story­
boards de Fábio Moon e Gabriel Bá
Fome de Bola – Cinema e Futebol no Brasil
Luiz Zanin Oricchio
Geraldo Moraes – O Cineasta do Interior
Klecius Henrique
Guilherme de Almeida Prado – Um Cineasta Cinéfilo
Luiz Zanin Oricchio
Helvécio Ratton – O Cinema Além das Montanhas
Pablo Villaça
O Homem que Virou Suco
Roteiro de João Batista de Andrade, organização de Ariane
Abdallah e Newton Cannito
Ivan Cardoso – O Mestre do Terrir
Remier
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João Batista de Andrade – Alguma Solidão e
Muitas Histórias
Maria do Rosário Caetano
Jorge Bodanzky – O Homem com a Câmera
Carlos Alberto Mattos
José Antonio Garcia – Em Busca da Alma Feminina
Marcel Nadale
José Carlos Burle – Drama na Chanchada
Máximo Barro
Liberdade de Imprensa – O Cinema de Intervenção
Renata Fortes e João Batista de Andrade
Luiz Carlos Lacerda – Prazer & Cinema
Alfredo Sternheim
Maurice Capovilla – A Imagem Crítica
Carlos Alberto Mattos
Mauro Alice – Um Operário do Filme
Sheila Schvarzman
Miguel Borges – Um Lobisomem Sai da Sombra
Antônio Leão da Silva Neto
Não por Acaso
Roteiro de Philippe Barcinski, Fabiana Werneck Barcinski e
Eugênio Puppo
Narradores de Javé
Roteiro de Eliane Caffé e Luís Alberto de Abreu
Onde Andará Dulce Veiga
Roteiro de Guilherme de Almeida Prado
Orlando Senna – O Homem da Montanha
Hermes Leal
Pedro Jorge de Castro – O Calor da Tela
Rogério Menezes
Quanto Vale ou É por Quilo
Roteiro de Eduardo Benaim, Newton Cannito e Sergio Bianchi
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Ricardo Pinto e Silva – Rir ou Chorar
Rodrigo Capella
Rodolfo Nanni – Um Realizador Persistente
Neusa Barbosa
O Signo da Cidade
Roteiro de Bruna Lombardi
Ugo Giorgetti – O Sonho Intacto
Rosane Pavam
Vladimir Carvalho – Pedras na Lua e Pelejas
no Planalto
Carlos Alberto Mattos
Viva-Voz
Roteiro de Márcio Alemão
Zuzu Angel
Roteiro de Marcos Bernstein e Sergio Rezende
Série Cinema
Bastidores – Um Outro Lado do Cinema
Elaine Guerini
Série Ciência & Tecnologia
Cinema Digital – Um Novo Começo?
Luiz Gonzaga Assis de Luca
Série Crônicas
Crônicas de Maria Lúcia Dahl – O Quebra-cabeças
Maria Lúcia Dahl
Série Dança
Rodrigo Pederneiras e o Grupo Corpo – Dança
Universal
Sérgio Rodrigo Reis
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Série Teatro Brasil
Alcides Nogueira – Alma de Cetim
Tuna Dwek
Antenor Pimenta – Circo e Poesia
Danielle Pimenta
Cia de Teatro Os Satyros – Um Palco Visceral
Alberto Guzik
Críticas de Clóvis Garcia – A Crítica Como Oficio
Org. Carmelinda Guimarães
Críticas de Maria Lucia Candeias – Duas Tábuas e
Uma Paixão
Org. José Simões de Almeida Júnior
João Bethencourt – O Locatário da Comédia
Rodrigo Murat
Leilah Assumpção – A Consciência da Mulher
Eliana Pace
Luís Alberto de Abreu – Até a Última Sílaba
Adélia Nicolete
Maurice Vaneau – Artista Múltiplo
Leila Corrêa
Renata Palottini – Cumprimenta e Pede Passagem
Rita Ribeiro Guimarães
Teatro Brasileiro de Comédia – Eu Vivi o TBC
Nydia Licia
O Teatro de Alcides Nogueira – Trilogia: Ópera
Joyce – Gertrude Stein, Alice Toklas & Pablo Picasso
– Pólvora e Poesia
Alcides Nogueira
O Teatro de Ivam Cabral – Quatro textos para um tea­
tro veloz: Faz de Conta que tem Sol lá Fora – Os Cantos
de Maldoror – De Profundis – A Herança do Teatro
Ivam Cabral
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O Teatro de Noemi Marinho: Fulaninha e Dona
Coisa, Homeless, Cor de Chá, Plantonista Vilma
Noemi Marinho
Teatro de Revista em São Paulo – De Pernas para o Ar
Neyde Veneziano
O Teatro de Samir Yazbek: A Entrevista – O Fingidor – A Terra Prometida
Samir Yazbek
Teresa Aguiar e o Grupo Rotunda – Quatro Décadas em Cena
Ariane Porto
Série Perfil
Aracy Balabanian – Nunca Fui Anjo
Tania Carvalho
Arllete Montenegro – Fé, Amor e Emoção
Alfredo Sternheim
Ary Fontoura – Entre Rios e Janeiros
Rogério Menezes
Bete Mendes – O Cão e a Rosa
Rogério Menezes
Betty Faria – Rebelde por Natureza
Tania Carvalho
Carla Camurati – Luz Natural
Carlos Alberto Mattos
Celso Nunes – Sem Amarras
Eliana Rocha
Cleyde Yaconis – Dama Discreta
Vilmar Ledesma
David Cardoso – Persistência e Paixão
Alfredo Sternheim
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Denise Del Vecchio – Memórias da Lua
Tuna Dwek
Elisabeth Hartmann – A Sarah dos Pampas
Reinaldo Braga
Emiliano Queiroz – Na Sobremesa da Vida
Maria Leticia
Etty Fraser – Virada Pra Lua
Vilmar Ledesma
Ewerton de Castro – Minha Vida na Arte: Memória
e Poética
Reni Cardoso
Geórgia Gomide – Uma Atriz Brasileira
Eliana Pace
Gianfrancesco Guarnieri – Um Grito Solto no Ar
Sérgio Roveri
Glauco Mirko Laurelli – Um Artesão do Cinema
Maria Angela de Jesus
Ilka Soares – A Bela da Tela
Wagner de Assis
Irene Ravache – Caçadora de Emoções
Tania Carvalho
Irene Stefania – Arte e Psicoterapia
Germano Pereira
Isabel Ribeiro – Iluminada
Luis Sergio Lima e Silva
Joana Fomm – Momento de Decisão
Vilmar Ledesma
John Herbert – Um Gentleman no Palco e na Vida
Neusa Barbosa
Jonas Bloch – O Ofício de uma Paixão
Nilu Lebert
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José Dumont – Do Cordel às Telas
Klecius Henrique
Leonardo Villar – Garra e Paixão
Nydia Licia
Lília Cabral – Descobrindo Lília Cabral
Analu Ribeiro
Lolita Rodrigues – De Carne e Osso
Eliana Castro
Louise Cardoso – A Mulher do Barbosa
Vilmar Ledesma
Marcos Caruso – Um Obstinado
Eliana Rocha
Maria Adelaide Amaral – A Emoção Libertária
Tuna Dwek
Marisa Prado – A Estrela, O Mistério
Luiz Carlos Lisboa
Miriam Mehler – Sensibilidade e Paixão
Vilmar Ledesma
Nicette Bruno e Paulo Goulart – Tudo em Família
Elaine Guerrini
Nívea Maria – Uma Atriz Real
Mauro Alencar e Eliana Pace
Niza de Castro Tank – Niza, Apesar das Outras
Sara Lopes
Paulo Betti – Na Carreira de um Sonhador
Teté Ribeiro
Paulo José – Memórias Substantivas
Tania Carvalho
Pedro Paulo Rangel – O Samba e o Fado
Tania Carvalho
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Regina Braga – Talento é um Aprendizado
Marta Góes
Reginaldo Faria – O Solo de Um Inquieto
Wagner de Assis
Renata Fronzi – Chorar de Rir
Wagner de Assis
Renato Borghi – Borghi em Revista
Élcio Nogueira Seixas
Renato Consorte – Contestador por Índole
Eliana Pace
Rolando Boldrin – Palco Brasil
Ieda de Abreu
Rosamaria Murtinho – Simples Magia
Tania Carvalho
Rubens de Falco – Um Internacional Ator Brasileiro
Nydia Licia
Ruth de Souza – Estrela Negra
Maria Ângela de Jesus
Sérgio Hingst – Um Ator de Cinema
Máximo Barro
Sérgio Viotti – O Cavalheiro das Artes
Nilu Lebert
Silvio de Abreu – Um Homem de Sorte
Vilmar Ledesma
Sônia Guedes – Chá das Cinco
Adélia Nicolete
Sonia Maria Dorce – A Queridinha do meu Bairro
Sonia Maria Dorce Armonia
Sonia Oiticica – Uma Atriz Rodrigueana?
Maria Thereza Vargas
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Suely Franco – A Alegria de Representar
Alfredo Sternheim
Tatiana Belinky – ... E Quem Quiser Que Conte Outra
Sérgio Roveri
Tony Ramos – No Tempo da Delicadeza
Tania Carvalho
Vera Holtz – O Gosto da Vera
Analu Ribeiro
Vera Nunes – Raro Talento
Eliana Pace
Walderez de Barros – Voz e Silêncios
Rogério Menezes
Zezé Motta – Muito Prazer
Rodrigo Murat
Especial
Agildo Ribeiro – O Capitão do Riso
Wagner de Assis
Beatriz Segall – Além das Aparências
Nilu Lebert
Carlos Zara – Paixão em Quatro Atos
Tania Carvalho
Cinema da Boca – Dicionário de Diretores
Alfredo Sternheim
Dina Sfat – Retratos de uma Guerreira
Antonio Gilberto
Eva Todor – O Teatro de Minha Vida
Maria Angela de Jesus
Eva Wilma – Arte e Vida
Edla van Steen
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Gloria in Excelsior – Ascensão, Apogeu e Queda do
Maior Sucesso da Televisão Brasileira
Álvaro Moya
Lembranças de Hollywood
Dulce Damasceno de Britto, organizado por Alfredo Sternheim
Maria Della Costa – Seu Teatro, Sua Vida
Warde Marx
Ney Latorraca – Uma Celebração
Tania Carvalho
Raul Cortez – Sem Medo de se Expor
Nydia Licia
Rede Manchete – Aconteceu, Virou História
Elmo Francfort
Sérgio Cardoso – Imagens de Sua Arte
Nydia Licia
TV Tupi – Uma Linda História de Amor
Vida Alves
Victor Berbara – O Homem das Mil Faces
Tania Carvalho
Walmor Chagas – Ensaio Aberto para Um Homem
Indignado
Djalma Limongi Batista
Formato: 12 x 18 cm
Tipologia: Frutiger
Papel miolo: Offset LD 90 g/m2
Papel capa: Triplex 250 g/m2
Número de páginas: 316
Editoração, CTP, impressão e acabamento:
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo
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Coleção Aplauso Série Perfil
Coordenador Geral
Coordenador Operacional
e Pesquisa Iconográfica
Rubens Ewald Filho
Marcelo Pestana
Projeto Gráfico
Editor Assistente
Felipe Goulart
Editoração
Selma Brisolla
Tratamento de Imagens
Revisão
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Carlos Cirne
José Carlos da Silva
Dante Pascoal Corradini
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©
2009
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação
Biblioteca da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo
Sergio, Renato
Mauro Mendonça: em busca da perfeição / Renato
Sergio – São Paulo : Imprensa Oficial do Estado de São Paulo,
2009.
316p. : il. – (Coleção aplauso. Série perfil/ Coordenador
geral Rubens Ewald Filho)
ISBN 978-85-7060-719-5
1. Atores e atrizes de teatro – Brasil. Atores e atrizes
de cinema – Brasil 3. Atores e atrizes de televisão – Brasil
4. Mendonça, Mauro, 1931. I. Ewald Filho, Rubens II. Titulo.
III. Série.
CDD 791.092
Índices para catálogo sistemático:
1. Atores brasileiros : Biografia e Obra 791.092
Proibida reprodução total ou parcial sem autorização
prévia do autor ou dos editores
Lei nº 9.610 de 19/02/1998
Foi feito o depósito legal
Lei nº 10.994, de 14/12/2004
Impresso no Brasil / 2009
Todos os direitos reservados.
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03103-902 São Paulo SP
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www.imprensaoficial.com.br/livraria
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