UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE BELAS-ARTES AS VARIANTES ANTROPOMÉTRICAS DA FACE NA COSTA MEDITERRÂNICA DA PENÍNSULA IBÉRICA Beatriz Manteigas Dissertação Mestrado em Anatomia Artística 2014 UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE BELAS-ARTES AS VARIANTES ANTROPOMÉTRICAS DA FACE NA COSTA MEDITERRÂNICA DA PENÍNSULA IBÉRICA Beatriz Manteigas Dissertação orientada pelo Prof. Doutor Artur Ramos Dissertação Mestrado em Anatomia Artística 2014 2 RESUMO A presente dissertação foca-se nos estudos feitos ao longo dos séculos sobre a análise antropométrica da face e suas variantes reunindo condições para analisar uma amostra real recolhida exclusivamente para esse efeito junto a cinco populações da costa mediterrânica da Península Ibérica tratando-se de um estudo que se estende não só pelo campo da Arte mas também pelos campos da História e da Ciência. Ao longo deste estudo é abordada a história dos seres vivos e, mais pormenorizadamente, a história do Homem; a sua expansão pelo planeta e consequentes estudos antropológicos; a sua natureza genética; a sua variação genética; a noção de raça, etnia e população; a história da Europa e a sua relação com a língua e por fim o estudo feito ao longo dos séculos, por cientistas e artistas, nos campos da anatomia, fisionomia, antropologia e antropometria. Estes campos são estudados, analisados e relacionados ao longo dos primeiros capítulos até culminarem no estudo em que os conhecimentos adquiridos são postos em prática. Esse estudo final prova a correlação intrínseca entre a Arte e a Ciência e procura enaltecer e incentivar esse câmbio mútuo de conhecimentos para conseguir maiores e melhores resultados. PALAVRAS-CHAVE Antropometria, anatomia, fisionomia, Arte, Ciência, Mediterrâneo, Península Ibérica. 3 ABSTRACT This dissertation focuses on studies done over the centuries on the anthropometric analysis of the face and its variants, gathering conditions to analyse a real sample collected solely for that purpose by the five populations of the Mediterranean coast of the Iberian Peninsula. It is a study which extends not only into the field of art but also into the History and Science fields. Throughout this study an approach is made of the history of living beings and, in more detail, of the history of man: his expansion through the planet and subsequent anthropological studies, his genetic nature, his genetic variation, the notion of race, ethnicity and population, the history of Europe and its relationship to language. Finally the study made over the centuries by artists and scientists in the fields of anatomy, physiognomy, anthropology and anthropometry. These fields are studied, analysed and linked throughout the first chapters to culminate in a study in which the acquired knowledge is put into practice. This final study proves the intrinsic correlation between the Arts and the Science and magnifies and encourages this mutual exchange of knowledge in order to achieve bigger and better results. KEYWORDS Anthropometry, anatomy, physiognomy, Art, Science, Mediterranean, Iberian Peninsula. 4 AGRADECIMENTOS Esta dissertação foi apenas possível graças ao contributo de todos os que acompanharam o seu processo e dos quais devo destacar o imprescindível apoio do Professor Dr. Artur Ramos que, pelo seu domínio do campo do desenho e em particular do desenho do retrato trouxe a esta dissertação um notório enriquecimento e sedimento; à Professora Dra. Isabel Ritto, pelo seu enorme apoio a nível científico, ao Professor Dr. Luís Jorge Gonçalves, pelo seu apoio nos capítulos ligados à História do Homem e da Europa; à fotógrafa Adele Gordon, pelas suas imprescindíveis indicações sobre fotografia jornalística e documental bem como à fotografa Sheila Piçarra, também uma ajuda essencial no tratamento estatístico dos dados recolhidos; à professora Maria Fernanda Lopes por disponibilizar a sua vasta biblioteca de História; à antropóloga Emily Somerville pela bibliografia disponibilizada e que me ajudou a dar início a este projeto; às Dras. Inês Marques e Águeda Pires por disponibilizarem os seus livros de anatomia e genética, às minhas amigas Tamara Garcevic e Rugitza Bozinova pelas traduções; a todos os fotografados, pela sua disponibilidade, aos meus amigos pelo seu entusiasmo e incentivo; ao Alex, por me levar a fazer intervalos, e claro à minha Mãe, por tudo. A todos muito obrigada. 5 ÍNDICE INTRODUÇÃO 9 I.O HOMEM 11 I.1.Breve introdução à origem das espécies 11 I.2.A genética humana 12 I.2.1.Conceitos 12 I.2.2.O polimorfismo e a frequência genética 14 II. A EVOLUÇÃO DO HOMEM 17 II.1. O género Homo 17 II.2. A nossa espécie: teorias do seu aparecimento 21 III. AS RAÇAS HUMANAS 23 III.1.Conceitos: raça, etnia, população 23 III.2. Estudos antropológicos 25 III.2.1. Primeiros estudos 25 III.2.2. O racismo 28 III.2.3. Teorias modernas 31 III.2.4. A história e geografia dos genes 33 III.2.5. As línguas 38 IV. VARIANTES ANTROPOMÉTRICAS DA FACE 44 IV.1. A face e a sua representação: Arte e Ciência 44 IV.2. Análise antropométrica da face 50 6 IV.2.1. Os ossos da cabeça 52 IV.2.2. Os músculos de superfície da cabeça 53 IV.2.3. Pontos notáveis em antropometria da face 54 IV.2.4. As medidas lineares, profundidade e ângulos da face 56 IV.2.5. Ângulos e inclinação do perfil 57 IV.2.6.Índice cefálico e forma do crânio 59 IV.2.7. Forma da face, fronte e mento 61 IV.2.8. Os olhos 63 IV.2.9. O nariz 65 IV.2.10. A boca 66 IV.2.11. As orelhas 67 IV.2.12. O tom de pele 67 IV.2.13. O cabelo 69 V. ESTUDO 75 V.1. Introdução 75 V.2. Contextualização 76 V.2.1. Contextualização: história e ambiente físico 76 V.2.2. Contextualização: genética 83 V.3. Método de recolha da amostra 84 V.4. Amostra 89 V.5. Análise 90 V.6. Conclusões: pontos-chave e tendências 7 110 CONCLUSÃO 115 ANEXOS 117 BIBLIOGRAFIA 142 ÍNDICE DE FIGURAS 156 8 INTRODUÇÃO O estudo que aqui se apresenta visa dar a conhecer as variantes antropométricas da face, citando e compilando desde os mais antigos tratados às suas mais recentes interpretações, aliando o olhar atento e perspicaz dos artistas ao olhar rigoroso e profundo dos homens da ciência. O que aqui expomos é a análise e o cruzamento de estudos desenvolvidos ao longo dos séculos numa tentativa de conjugar mais informação que possa aqui ser considerada de caracter científico. Este estudo visa não só organizar e analisar informação sobre as variantes antropométricas (e como estas podem ser estudadas) mas compreender esta variabilidade a partir do conhecimento do próprio Homem e da sua história, sua causadora e potenciadora. Este estudo, apesar de feito por e dedicado a todos aqueles que dão primazia ao ato de observar (neste caso o rosto humano), pretende ser atual e cientificamente correto e pertinente para todos aqueles a quem desperte interesse, sejam eles homens da história, da ciência ou outros. Os Exmos. Srs. Professores Artur Ramos, orientador desta dissertação (departamento de Desenho, professor da disciplina de Desenho de Modelo na FBAUL e autor da obra “O Retrato – o desenho da presença”, em muitas alturas citado) e Isabel Ritto (coordenadora do Mestrado de Anatomia Artística e professora de Anatomia FBAUL e médica oftalmologista) foram imprescindíveis para a realização desta dissertação e a eles se deve a legitimidade científica desta obra. Não obstante, esta dissertação estendese um pouco mais. Após os primeiros capítulos, de cariz mais científico, em que percorremos a História e natureza do Homem, falamos da intrínseca relação entre Arte (nas suas várias formas) e Ciência: a sua contribuição mútua em ambos os sentidos e a sua inquebrável relação que adquiriu várias formas ao longo dos séculos. É marcada a importância da compreensão e observação da natureza para que seja feita a sua representação corretamente e para que, a partir daí, se crie segundo uma lógica natural: Cabe ao desenho ser a forma de expressão que melhor sintetiza a nossa relação com o 1 Mundo. Analisando estudos de natureza artística e científica focados na face humana percorremo-la analisando a sua constituição, as variantes que pode adquirir, onde é que estas são mais comuns e, nos casos em que temos resposta para tal, o porquê dessas manifestações. Nos últimos capítulos é selecionada uma pequena amostra (indivíduos da costa mediterrânica da Península Ibérica) e é feita a sua análise facial. Com este estudo pretende-se demonstrar que a análise sugerida pelos mais variados autores 9 citados é pertinente, atual e interligada. Para além disso pretende-se assinalar os pontos comuns entre os vários elementos da amostra e assinalar quais destas variantes são mais representadas na área geográfica em causa, demonstrando resultados concordantes com os factos históricos (veremos que a amostra procurou consistir em indivíduos cujos antepassados habitavam já no mesmo local, tendo sido excluídos os indivíduos provenientes de migrações recentes). No entanto, fica o desejo de, em breve, realizar o mesmo estudo aplicado a uma maior área podendo comparar entre si as variantes “chave” de cada ponto geográfico e mais consistentemente cruzar essas conclusões com factos históricos, genéticos e ambientais assinalando as relações entre estes vários campos de modo a criar um estudo original e de interesse científico sobre a população mediterrânica do século XXI. Que este estudo seja dedicado aqueles que desenham e/ou pintam diariamente observando atenta e intensamente o Mundo; a todos aqueles que aceitam e se deliciam com a diversidade e riqueza humana. 1 SARAIVA, Pedro – Acerca de um Gabinete. Aparecer e Desaparecer do Desenho. In MARQUES, António Pedro Ferreira et alt. – Desenhar, saber Desenhar. Lisboa: Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2012. p.95. 10 I. O HOMEM I.1. Breve introdução à Origem das Espécies Para darmos início a este estudo será importante dominar alguns conceitos básicos e conhecer as bases do funcionamento e história da evolução do seres vivos pois, como veremos, para compreendermos as populações humanas é essencial compreender a sua origem e o modo como as espécies evoluem. No início os continentes não existiam, havia apenas uma grande massa de terra onde habitavam as primeiras formas de vida e que se começou a separar, pelo movimento das placas tectónicas, há 225 milhões de anos.1 Durante este período ter-se-ão definido as 18 ordens que conhecemos hoje. Nós pertencemos à ordem dos mamíferos descendente da estirpe que sobreviveu à catástrofe natural (mas de natureza desconhecida) que aniquilou os grandes répteis carnívoros que dominavam a Terra até então, há cerca de 65 milhões de anos. Nesta altura todo o planeta sofreu grandes alterações climáticas e apenas pequenos seres conseguiram prosperar. É quando surgem os primeiros primatas, próximos dos lémures. No início do Miocénico2 a África retoma contacto com a Arábia e com a Eurásia (massa formada pela Europa e Ásia) e começam as migrações dos animais que haviam evoluído separadamente. No entanto, no final deste período, deram-se novas alterações climáticas (a Terra tornou-se mais fria e seca) e isso fez com que os primatas ficassem restringidos à zona equatorial onde, de modo a sobreviver, se tornaram mais hábeis e maiores (período em que se considera terem começado a desenvolver a capacidade de se locomover de forma bípede). 3 Apesar das muitas interpretações e estudos anteriores, só em 1763 é que Carl Von Linné4 cria um sistema que relaciona os seres vivos consoante as suas semelhanças anatómicas (apesar de, influenciado pela religião, afirmar que as espécies seriam tantas quantas as criadas por Deus5). Só com A Teoria da Evolução atribuída a Charles Darwin6 na sua obra A Origem das Espécies7 se dá início à compreensão do Mundo Natural e, consequentemente, à história do Homo Sapiens, a espécie humana. Pela primeira vez, com a descoberta dos fósseis, os cientistas tiveram consciência de que houvera outras espécies no passado, agora extintas, mas relacionadas com as atuais. As espécies começaram a ser comparadas e foram encontrados pontos em comum nas características de seres vivos diferentes, o que indiciou um passado comum e, consequentemente, a possibilidade de mutação e evolução (processo que será aprofundado mais à frente). Para 11 além disso a compreensão do desenvolvimento dos seres desde o seu nascimento até à forma adulta mostrou que diferentes seres, bastante distintos, podem desenvolver-se de modo muito semelhante, demonstrando que mesmo quando as espécies parecem não ter qualquer relação entre si podem mostrar-se semelhantes no modo como se desenvolvem8. Nada na Natureza é imutável e nada do que conhecemos corresponde a uma forma definitiva que se irá manter no futuro. Atualmente a teoria da evolução é denominada como Neo-Darwinista pois alia a teoria original de Darwin com a teoria de hereditariedade ou seja, as características de cada ser são-lhes transmitidas pelos seus progenitores e isso acontece sucessivamente9. Uma espécie será então o nome dado ao conjunto de indivíduos com características específicas em comum e que o distinguem das outras espécies. Uma espécie possui uma unidade química e uma unidade física relacionadas e não separáveis (pois o todo de uma espécie é sempre condicionado por leis da física por intermédio de reações químicas)10. Estes indivíduos podem reproduzir-se apenas com outros da mesma espécie (salvo raras exceções) e dão origem a novos indivíduos também da mesma espécie. Os homens, mesmo possuindo características morfológicas variáveis, podem sempre reproduzir-se logo pertencem à mesma espécie. Assim, apesar de uma espécie prever as mesmas características nos indivíduos que a ela pertencem, admite pequenas variações: a variabilidade das espécies. Como veremos as variantes dentro da mesma espécie tendem a fazê-la evoluir mas não levam necessariamente à criação de uma nova. Isto acontece apenas quando a mesma espécie evolui em dois sentidos distintos que deixam de ter contacto entre si (isto normalmente acontece por fatores geográficos e espaciais que separam as populações). Note-se que serão necessários muitos milhares de anos de separação entre esses dois grupos populacionais para que se possam definir duas espécies distintas. I.2. A genética Humana I.2.1. Conceitos Para compreendermos a variabilidade das espécies devemos analisar como são transmitidos os caracteres comuns de cada espécie e como surgem as variações. Esta informação é denominada como informação genética (ou genoma) e está presente em todas as células de qualquer ser vivo em forma de cromossomas. No ser humano os 12 cromossomas estão organizados sobre a forma de 23 pares em cada célula. Estes pares são compostos por 23 cromossomas de origem materna e os restantes 23 cromossomas de origem paterna. As únicas células com um diferente número de cromossomas são os gâmetas, apenas com metade, ou seja 23 cromossomas. Em qualquer caso os cromossomas são iguais a nível morfológico mas distintos a nível químico. O principal constituinte dos cromossomas é o ADN (ácido desoxirribonucleico) organizado em nucleótidos11. Ao dividirmos o ADN em segmentos (ou seja, sequências de nucleótidos) compreendemos que cada segmento responde a uma função específica. Estes segmentos têm o nome de genes12. Matt Ridley13 simplifica esta constituição do genoma comparando-o a um livro: Existem vinte e três capítulos, chamados cromossomas. Cada capítulo contém várias centenas de histórias, chamadas genes. Cada capítulo é constituído por parágrafos, chamados Exons, interrompidos por anúncios chamados Introns. Cada parágrafo é composto por palavras, chamadas Codons. Cada palavra é escrita em letras, chamadas bases.14 Quando uma célula se multiplica, dividindo-se em duas, as duas novas células geram um ADN idêntico ao da célula original mas por vezes surgem pequenas alterações. A nova célula com pequenas alterações será matriz para as células que se formem a partir dela e assim sucessivamente. Estas mutações podem ter resultados indetetáveis ou muito notórios dependendo da função do gene que sofreu a mutação. Os genes com mutações multiplicam-se entre células do mesmo indivíduo mas só são transmitidas às gerações seguintes quanto ocorrem nas células germinais ou gâmetas15. Apesar das mutações surgirem raramente e só serem transmitidas quando presentes nos gâmetas se tivermos em conta o número elevado de indivíduos que constitui uma população, compreendemos que a probabilidade de um gene se propagar não é assim tão baixa.16 A hereditariedade é uma das condições internas dos seres vivos.17 O genoma de um indivíduo refere-se à tensão entre as características universais da raça humana e as características particulares deste. De certa forma o genoma é responsável por ambos os lados: o que partilhamos e o que nos distingue dos demais.18 13 I.2.2. O Polimorfismo e a Frequência Genética Quando um gene sofre uma mutação a esse gene chama-se alelo. É natural os genes terem vários alelos, ou seja, várias formas. Nesse caso tratam-se de genes polimórficos. Se não surgissem continuamente novos alelos e se estes não se multiplicassem pelos indivíduos, não existiria evolução. Faça-se aqui um parênteses para assinalar que o nosso aspeto físico (sob a qual se debruça esta dissertação) não é definido por um único gene mas por vários sendo o resultado ainda afinado por outros fatores sociais, nãogenéticos.19 Ao serem transmitidos, os alelos propagam-se por vários indivíduos mas tendem a desaparecer em poucas gerações. Apenas persistem os alelos que se mostrem propícios ao desenvolvimento da espécie e, se for esse o caso, acabarão por se tornar mais comuns do que o alelo original. Os elementos naturais e o meio envolvente têm uma relação estrita com as formas que os seres vivos que aí habitam adquirem.20 Isto acontece por efeito da seleção natural. Quando as mutações oferecem soluções aceitáveis às necessidades dos organismos estas são adotadas pela seleção natural..21 A propagação e sobrevivência dos alelos é assim definida por três fatores: a seleção natural, as migrações (pois um alelo mostra-se benéfico ou não consoante o ambiente onde o organismo habita) e a variação genética aleatória.22 Darwin introduziu também a noção de seleção sexual, que daria primazia por parte das fêmeas aos indivíduos mais fortes e bem adaptados, capazes de criar maior número de descendentes, como se tratasse de um ideal de beleza que, consequentemente também varia consoante o meio envolvente. A seleção sexual seria o impulsionador da seleção natural. Esta última teoria, apesar de pertinente, ainda não pode ser comprovada.23 Veremos que é comum uma população ter vários alelos de cada gene e é muitas vezes impossível compreender quais os alelos mais antigos. Devido ao efeito de todos estes fatores as espécies privilegiadamente adaptadas têm maior sucesso e eficácia na produção de descendência. A Frequência Genética é um meio de estudar uma população através dos seus genes. Ao fazê-lo podemos definir padrões associados a determinada população. Evidentemente estes estudos consideram vários alelos referentes ao mesmo gene mas, 14 cruzando essa informação com o maior número de genes possível, podemos definir os elementos genéticos mais comuns de uma determinada população e, consequentemente, comparar a frequência genética de diferentes populações. É muito importante chamar a atenção para o facto de, nos dias de hoje, as populações já terem sofrido várias miscigenações. Estudar uma amostra atual não nos garante que os indivíduos abordados têm descendência exclusivamente do povo em causa.24 Veremos que, para realizar um estudo desta natureza, uma das grandes dificuldades está em definir as populações a estudar visto estarmos em constante evolução e migração e ter em conta a questão temporal, muito importante. Só em 2007 é que se conseguiu descodificar pela primeira vez um genoma na sua totalidade. Atualmente os estudos mais avançados, e em constante evolução, conseguem já agrupar os indivíduos através de uma árvore genealógica baseada no seu ADN, relacionando-os com grupos étnicos da pré-história. Estes grupos têm o nome de haplogrupos e são de dois tipos: do cromossoma Y (ADN-Y) ou de ADN mitocondrial (mtADN) sendo que o primeiro se refere à herança paternal e o segundo à herança maternal. Destes dois o primeiro é o mais interessante para o estudo aqui desenvolvido pois é aquele que permite definir uma árvore genealógica25. Os haplogrupos são definidos por mutações ou por polimorfismos de um único nucleótido (SNP)26. Estudando-os, apesar de não conseguirmos definir o perfil genético de uma população, podemos comparar a frequência de determinado haplogrupo e através disso tirar conclusões sobre a proximidade e contacto entre os povos. Falaremos mais sobre as divergências genéticas entre indivíduos nos próximos capítulos. 1 Formando dois primeiros continentes: Laurásia a norte e Gondwana a sul. Entre 23 milhões de anos e 5 milhões de anos atrás. 3 GORE, Rick – O Poder Maternal. Fotog. Robert Clark. National Geographic. Lisboa: RBA Revistas Portugal. Vol. 3, nº25 (Abril 2003). p. 81-83. 4 Linné (1707-1778), botânico, físico e zoologista sueco considerado o pai da taxonometria das espécies utilizada atualmente. 5 FRIGOLÉ REIXACH, Juan - As Raças Humanas. Lisboa : Resomnia. Vol. 1, p. 2. 6 Charles Darwin (1809-1882), naturalista e geólogo britânico conhecido pelos seus estudos sobre a evolução das espécies e o conceito de seleção natural. 7 Cuja a primeira edição é de 1859. 2 15 8 Cfr., GORE, Rick – O Poder Maternal. Fotog. Robert Clark. National Geographic. Lisboa: RBA Revistas Portugal. Vol. 3, nº25 (Abril 2003). p. 83-101. 9 Descoberta atribuída a Gregor Johann Mendel (1822-1884), monge e botânico austríaco, que em 1868 reconheceu a existência de fatores hereditários transmitidos em pares, um da parte do pai e outro da parte da mãe e aos quais chamamos atualmente genes. 10 [S.A.] - Les Races Humaines. Premier Congrès D’AUCAM. Louvain: Éditions de L’AUCAM, 1930. p. 24. 11 Um cromossoma possui cerca de 100 milhões de nucleótidos variáveis em quatro tipos e cuja ordem pela qual se organizam é repetida infinitamente pelas várias células. 12 CAVALLI-SFORZA, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto – The History and Geography of Human Genes. 1ª ed. New Jersey: Princeton University Press, 1996. p.5. 13 n. 1958, jornalista britânico conhecido pelas suas publicações sobre ciência, ambiente e economia. 14 There are twenty-three chapters, called chromossomes. Each chapter contains several thousand stories, called genes. Each story is made up of paragraphs, called exons, which are interrupted by advertisements called introns. Each paragraph in made up of words, called codons. Each word is written in letters called bases. RIDLEY, Matt – Genome. London: Harper Perennial, 2004. p. 6. 15 Pois só na união de um gameta feminino com um masculino surge um zigoto, com 23 pares de cromossomas e a primeira célula de uma nova vida. 16 Cfr., KIMURA, Motoo – The Neutral Theory of Molecular Evolution. Cambridge: Cambridge University Press, 1983. 17 DUVAL, Mathias – Traite Elementaire de Physiologie. Paris: J-B. Baillière et Fils, 1909. p.1138. 18 The tension between universal characteristics of the human race and particular features of individual is what the genome is all about. Somehow the genome is responsible for both the things we share with other people and the things we experience uniquely in ourselves. RIDLEY, Matt, Op. cit., 2004. p.161. 19 Idem., p.66. 20 PENERTY, Antoine-Joseph – La Conoissance de l’Homme Moral par celle de l’Homme Physique. Berlin: G.J. Degred, 1776. p.68. 21 When mutations offer acceptable solutions to the needs of organisms they are adopted via natural selection. CAVALLI-SFORZA, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto, op. Cit., 1996. p.11. 22 Idem, p.11. 23 Cfr., RIDLEY, Matt – Darwins Modernos. National Geographic. Lisboa: RBA Revistas Portugal. Vol. 8, nº 95 (Fevereiro 2009). p. 36. 24 A revista National Geographic, em Novembro de 2013, publicou mesmo um artigo sobre a população americana e as respostas obtidas no inquérito Census: nos Estados Unidos da América é possível, desde o ano 2000, responder ao campo “Etnia” com uma resposta múltipla. FUNDERBURG, Lise – As Novas Faces da América. Fotog. Martin Schoeller. National Geographic. Lisboa: RBA Revistas Portugal [S.ISSN]. Vol. 13, nº152 (Novembro 2013). p. 53. 25 O mtADN, de proveniência materna, possui mais informação sobre doenças transmitidas a nível genético, provocadas por mutações. Os haplogrupos de cromossoma Y dão-nos mais informação não só porque possuem 60 milhões de nucleótidos (em comparação com as 16 569 nucleotídos dos mtADN) mas também porque, consequentemente, são mais propícios a mutações. 26 WIIK, Kalevi - Where Did European Men Come From?. Journal of Genetic Genealogy [em linha] nº4 (2008) 35-85. [Consult. 14 Fevereiro 2014] Disponível em <http://www.jogg.info/41/Wiik.pdf> p.35. 16 II. A EVOLUÇÃO DO HOMEM II.1. O Género Homo Analisemos a evolução do género Homo e o surgimento do Homo sapiens, a espécie à qual todos os homens pertencem. Independentemente das nossas diferenças e das suas causas sabemos hoje que todos descendemos de um antepassado comum. A nossa espécie pertence à classe Mammalia, ordem dos Primatas, superfamília Hominoidea, família Hominidae e género Homo.1 Apesar dos estudos de Linné e Darwin terem sido publicados há vários séculos só no século XX se puderam tirar conclusões importantes e irrefutáveis sobre os antepassados do Homem. Para além do imprescindível domínio da genética e descoberta do ADN e seu comportamento, os estudiosos atuais aliam várias ciências que, ao cruzarem informação, permitem chegar a conclusões mais acertadas, congruentes e detalhadas. Se anteriormente a evolução do Homem era estudada apenas por arqueólogos (baseados em pouco mais do que artefactos, fósseis e ossos), hoje dedicam-se a este estudo antropólogos, paleontólogos, geneticistas, biólogos, físicos, químicos e até linguistas (analisaremos esta relação entre a evolução do Homem e a língua mais à frente). Hoje podemos afirmar sem qualquer dúvida que o Homem pertence à mesma superfamília dos primatas (algo impensável para os nossos antepassados relativamente recentes): a Hominoidea. Esta superfamília subdivide-se em famílias separando-nos dos restantes primatas sendo que o nosso parente vivo mais próximo é o chimpanzé, mais próximo dos humanos do que dos gorilas, em termos genéticos.2 O elo comum terá começado a evoluir em dois sentidos distintos entre há cerca de 6,3 milhões e 7,7 milhões de anos atrás.3 Da família Hominidae, o Homem é a única espécie viva. Naturalmente é impossível indicar uma data exata para o início da existência de antepassados já pertencentes à família Hominidae pelo que podemos apenas indicar um espaço de tempo na qual sabemos que esses antepassados existiram (através da análise dos vestígios encontrados). Os primeiros antepassados exclusivos da espécie Humana, são aqueles que já apresentavam certas características exclusivas do Homem: a postura bípede, o crânio globalizado com face reduzida, um dedo grande do pé não oponível aos restantes, entre outras. Respondendo a estes predicados os fósseis mais antigos foram encontrados em África e têm cerca de 6 milhões de anos4 razão pela qual África é apelidada como o berço da humanidade. No entanto, muito mais recentes são os fósseis de Austrolopitecus afarensis, o hominídeo mais antigo do qual temos conhecimento 17 suficiente para que possa ser considerado como uma espécie fóssil autónoma e antepassado exclusivo do Homo sapiens. Os seus vestígios mais antigos, também eles encontrados em África, têm cerca de 3 milhões de anos.5 O famoso esqueleto parcial de Lucy, descoberto na década de 70, faz parte desta espécie e foi o primeiro a ser encontrado. Só se tem conhecimento da presença de Austrolopitecus em África, Israel e Ilha de Java. O elo seguidor do Austrolopitecus afarensis foi descoberto na década de 60 também em África. Este possuía maior capacidade craniana6, face alta e provou-se ser o primeiro hominídeo capaz de construir ferramentas. Consequentemente batizaram esta espécie Homo habilis. Este terá vivido há cerca de 2,5 e 1,5 milhões de anos7. A espécie seguinte, e última a anteceder o Homem moderno, foi encontrada em Java: o Homo erectus.8 Considera-se que esta espécie seria capaz de desenvolver um nível básico de organização dentro de um grupo de indivíduos.9 A principal característica desta espécie seria a sua capacidade de locomoção, facto comprovado não só pela estrutura dos esqueletos encontrados mas também por se tratar do primeiro hominídeo de que se encontram vestígios não só em África mas também na Europa e Ásia (excluindo o norte da Ásia onde as condições seriam talvez demasiado rigorosas)10. O Homo erectus terá vivido até há cerca de 300 mil anos, quando apareceu o elo seguinte. O Homo sapiens primitivo foi primeiro encontrado na Europa. O tamanho dos cérebros dos primeiros indivíduos teria já o tamanho do cérebro humano atual. Desta espécie são conhecidas duas subespécies que coexistiram na Europa: o Homo Neanderthalensis (ou Homem de Neandertal) e o Homem de Cro-Magnon.11 O Homem de Neandertal (cujos primeiros fósseis foram encontrados em Neander, Alemanha) estaria já muito próximo do Homem atual, com uma capacidade craniana muito elevada12. Esta raça viveu a glaciação de Wurm e essa terá sido a razão para algumas das modificações que apresenta: tal como os arcos supraorbitários muito desenvolvidos, a face alta e maciça, a grande cavidade nasal e o corpo robusto e membros curtos para conservar o calor13. Note-se que já aqui é percetível e consequente a seleção natural. O Homem de Neandertal, apesar de se considerar que nunca teve uma população com mais de 15 mil indivíduos, dominou a Eurásia durante cerca de 200 mil anos numa altura em que o clima seria muito rigoroso, idêntico ao atual clima do norte da Escandinávia14. Sabe-se também que foi neste período que surgiram as primeiras formas de ritual (cultura) e a presença do gene associado à capacidade da fala.15 No entanto, como já foi dito, esta é uma raça fóssil sem descendência e que se extinguiu por razões ainda incertas. Nos seus últimos dias estaria apenas confinado à 18 Península Ibérica, pequenas zonas na Europa Central e costa Mediterrânica. Uma das hipóteses para o seu estranho desaparecimento é o extermínio pelo Homem de CroMagnon, o verdadeiro e último antepassado do Homem atual (de estatura elevada, sem prognatismo, crânio globalizado e grande capacidade craniana). A razão pela qual uma espécie sobreviveu e outra não ainda não é clara e é até possível que tenha havido alguma miscigenação ocasional entre as duas espécies. Atualmente alguns cientistas defendem esta hipótese. No entanto calcula-se que a grande diferença entre as duas estaria na sua organização em termos de sociedade (algo muito próprio da natureza humana): o Homem de Cro-Magnon estaria mais evoluído em termos de adaptação cultural, procura e diversidade do alimento, distribuição do trabalho pelos indivíduos (beneficiando as mulheres, os mais novos e os mais fracos) e organização em tribos com maior número de indivíduos. Calcula-se que os Neandertais, não tão bem preparados, tenham sido aniquilados pelos Homens de Cro-Magnon em alguns casos mas tenham também sido vítimas das alterações climáticas que se sucederam. No entanto o seu desaparecimento pode ter-se dado de modo diferente, em alturas diferentes e em locais diferentes.16 O Homem de Cro-Magnon possuía já conhecimentos na criação de instrumentos, usava roupas e criou as primeiras formas de Arte. Estas representavam o observado mas estavam também muitas vezes ligadas a um misticismo primitivo: algumas peças eram feitas para acompanhar os mortos na sua passagem para o outro Mundo.17 A sua especial capacidade de adaptação permitiu ao Homem espalhar-se por todo o globo e instalar-se nos ambientes mais remotos e distintos. O Homem desenvolveu características exclusivas e extraordinárias que o distanciam em muito das outras espécies, não só características óbvias (como o facto de serem bípedes) mas também outras características que facilitaram o desenvolvimento cerebral e a sobrevivência (como o cabelo, uma dentição complexa que permite extrair o máximo de nutrientes presentes nos alimentos, os seios, a nascimento placentário, uma infância longa, entre outros)18. 19 Fig.1) Crânios de 1- Chimpanzé, 2- Orangotango, 3- Austrolopitecus afarensis, 4- Austrolopitecus robustus, 5- Homo habilis, 6- Homo erectus, 7- Homem de Neandertal, 8- Homem de Cro-Magnon, 9- Homo sapiens Conclui-se que o Homem possui características biológicas e orgânicas privilegiadas que potenciam uma evolução com êxito em vários sentidos: somos um sucesso ecológico.19 Somos a única espécie que possui um processo de pensamento tão evoluído que permite a autoconsciência, a racionalidade e a sapiência e, para além disso, detemos uma característica inexistente em qualquer outra espécie, a cultura. Esta permitiu-nos a adaptação a novas situações não só através de modificações no organismo mas também através da criação de instrumentos e de novas formas de pensar, encarar e solucionar problemas. O Homem tem ainda a capacidade de criar complexas estruturas sociais cooperantes e o desejo (também inexistente nas outras espécies) de criar e de compreender a natureza.20 20 II.2. A nossa espécie: Teorias do seu aparecimento Os dados apresentados até aqui estão todos estudados e comprovados (dando sempre algum espaço a acertos especialmente temporais mediante a descoberta de novos fosseis). No entanto os antropólogos têm opiniões divergentes quanto à evolução entre o Homo erectus para o Homo sapiens. Se por um lado os cientistas defendem a evolução de uma espécie para a outra discordam na localização espacial e temporal dessa ocorrência colocando-se a existência de duas hipóteses: a evolução do Homo erectus num único local dando origem a um Homo sapiens que se espalha pelo globo - Monofiletismo; a evolução do Homo erectus em alturas diferentes em vários pontos do Mundo (ou seja os atuais povos europeus descenderiam dos Homo erectus europeus, os povos asiáticos descenderiam dos Homo erectus asiáticos e assim sucessivamente) - Polifiletismo. É também um dado aceite que o Homem de Neandertal habitou apenas na Europa e parte ocidental da Ásia pelo que neste caso seria uma evolução exclusiva do Homo erectus europeu. No entanto como já vimos, esta é uma subespécie extinta e que possivelmente não teve descendência. 21 O Monofiletismo tem, hoje em dia, uma maior aceitação por parte da comunidade antropóloga.22 1 Note-se que pertencemos à mesma ordem de qualquer mamífero por isso, retrocedendo tempo suficiente os nossos antepassados seriam os mesmos de animais tão distintos como as baleias ou os musaranhos. 2 Cfr., RIDLEY, Matt – Genome. London: Harper Perennial, 2004. p. 28. 3 Algo apenas comprovado em 1967 por Vicent Sarich e Allan Wilson da Universidade da Califórnia através de estudos genéticos mas também comportamentais. 4 SHREEVE, Jamie – A Estrada da Evolução. National Geographic. Lisboa: RBA Revistas Portugal. Vol. 10, nº112 (Julho 2010). p. 11. 5 O Austrolopitecus afarensis já possuía a capacidade de se movimentar em apenas dois membros mas media apenas cerca de 1,10m de altura, pesava pouco (peso médio de 50 quilos), possuía ainda uma fraca capacidade craniana e a sua face seria ainda muito próxima da do chimpanzé (larga, maciça e projetada para a frente, com caninos muito desenvolvidos). No entanto, apesar dos ombros se mostrarem semelhantes aos de um jovem gorila, o ângulo formado entre o joelho e a bacia é muito semelhante com o ângulo formado no joelho do Homem moderno, o que sugere uma postura bípede eficiente. SLOAN, Christopher P. - Menina de Dikika. Fotog. Kenneth Garrett. National Geographic. Lisboa: RBA Revistas Portugal. Vol. 6, nº68 (Novembro 2006). p. 5. Também em África foram descobertas outras duas espécies de Austrolopitecus que coexistiram mas que se terão extinguido há 21 cerca de 1 milhão de anos não sendo antepassados reais do Homem mas antes outras linhagens da família Hominidae que não tiveram continuidade. JOHANSON, D. C. – The Current Status of Austrolopitecus. Hominidae. Milano: Jaca Books. (1989). 6 Possuía um cérebro notoriamente maior do que o Austrolopitecus (mas ainda mais pequenos do que metade do tamanho do cérebro humano. CAVALLI-SFORZA, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto – The History and Geography of Human Genes. 1ª ed. New Jersey: Princeton University Press, 1996. p.61. 7 KLEIN, R. G. – The Human Career: Human Biological and Cultural Origins. Chicago: University of Chicago Press, 1989. 8 Este possuía um esqueleto que o permitia mover-se como os humanos atuais. O seu o crânio era largo, a mandíbula robusta e o seu queixo inexistente. Os arcos supra-orbitários continuavam proeminentes. 9 Cfr., HOWELL, F. Clark – Early Man. Netherlands: Time-Life International, 1970. p.86. 10 Cfr., CAVALLI-SFORZA, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Albert, op. cit., 1996. p.61. 11 Estas duas subespécies começam a separar-se acerca de 700 milhares de anos e há 300 mil anos eram distintas. Destas duas a primeira ter-se-á extinguido à cerca de 40 mil anos e a segunda evoluído até ao Homem moderno. HALL, Stephen S. - O Último Neandertal. Fotog. David Liittschwager. National Geographic. Lisboa: RBA Revistas Portugal. Vol. 8, nº 92 (Novembro 2008). p. 14. 12 (Portador de um cérebro ligeiramente maior do que o nosso) e um prognatismo notoriamente inferior ao apresentado pelas espécies até então. 13 MCNALLY, Joe – O Último Neandertal. National Geographic. Lisboa: RBA Revistas Portugal. Vol. 8, Nº 92 (Novembro 2008). p. 1. 14 HALL, Stephen S., op. cit., Vol. 8, nº 92 (Novembro 2008). p. 7. 15 Isto indica que possivelmente esses indivíduos seriam capazes de comunicar entre si com destreza face aos seus antepassados. Idem. p. 12. 16 Cfr., Idem. p. 21-27. 17 BLAINEY, Geoffrey – Uma Muito Breve História do Mundo. 1ª ed. Alfragide: Livros d’Hoje Publicações D. Quixote. p.24. 18 GORE, Rick – O Poder Maternal. Fotog. Robert Clark. National Geographic. Lisboa: RBA Revistas Portugal. Vol. 3, nº25 (Abril 2003). p. 83. 19 RIDLEY, Matt, op. cit., 2004. p. 25. 20 A evolução do Homem distingue-se da evolução dos demais seres vivos pela presença da cultura e durante muitos anos este facto tornou complexa a inclusão do Homem no Reino Animal. Só quando foi reconhecido o lugar que o Homem ocupa na Natureza, relacionando-o com os seus antepassados, espaço e tempo, foi possível relacioná-lo com as outras espécies (facto já referido desde a Antiguidade, desde Aristóteles, mas apenas consolidado e aceite após Darwin publicar a sua obra A Origem do Homem). 21 O Monofiletismo foi principalmente defendido pelo antropólogo francês Henri V. Vallois e o Polifiletismo pelo antropólogo alemão Franz Weidenreich e pelo antropólogo americano Carleton S. Coon. Os segundos defendiam o surgimento do Homem moderno em quatro pontos: Médio Oriente, África, Norte da China e Sudeste Asiático. 22 CAVALLI-SFORZA, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto, op. cit., 1996. p.62. 22 III. AS RAÇAS HUMANAS III.1. Conceitos: Raça, Etnia e População Neste capítulo iremos definir diferentes populações humanas e, para tal, necessitamos compreender como podemos definir os limites destas populações bem como compreender determinados termos referentes a conjuntos de indivíduos. Já vimos que uma espécie define uma entidade biológica e sabemos, até pela linguagem corrente, que uma espécie pode ter várias raças (exemplo dos cães que quer sejam Podengos ou Perdigueiros são sempre cães e podem reproduzir-se entre si). Isto quer dizer que, apesar das variações, qualquer raça é idêntica a nível biológico às demais raças da mesma espécie. Assim as diferenças entre as raças nunca são indubitavelmente corretas: raça é uma classificação taxonómica fictícia. No caso dos humanos o termo raça é utilizado há muitos anos dividindo grosseiramente os homens pela diferença entre as suas características morfológicas mais evidentes mas sem ter em conta um grande número de outros fatores importantes. O termo raça tem contornos tão indefinidos que o termo é constantemente utilizado erradamente em vez de espécie, subespécie, tribo, entre outros.1 Atualmente é um termo em desuso por três razões principais: provou-se ser impossível crer em apenas um único sistema de classificação; o estudo das populações a nível cultural e social mostrou-se muito mais eficaz para analisar as diferenças entre os povos; a perceção de que a divisão entre raças tendia ao afastamento e hierarquização dos povos.2 Quando são tidos em conta fatores ligados à cultura, à história, à língua e à organização social o termo raça é substituído por etnia3. Este é um termo mais recente e foi sugerido pela Unesco com o seu estudo The Race Question4. O pecado original da antropologia consiste na confusão entre a noção puramente biológica de raça (supondo-se que [...] essa noção pudesse pretender objetividade, o que a genética moderna contesta) e os produtos sociológicos e psicológicos das culturas humanas. 5 23 No entanto o termo etnia pode definir grupos de indivíduos provenientes de diferentes pontos do globo mas que têm uma cultura comum ou até agrupar indivíduos que dentro de uma população se distinguem dos demais em termos culturais. Digamos que enquanto o termo raça se prende apenas a fatores físicos e antropométricos evidentes, o termos etnia peca por se focar maioritariamente nas características culturais. Nenhum dos dois termos é eficaz para o estudo que pretendemos realizar. O termo raça é associado a uma ciência errónea, ligada a diferenças físicas e muitas vezes à cor da pele. É regularmente utilizado como um termo pejorativo e as ideologias nele baseadas estão ligadas a regimes de opressão. Por outro lado, o termo etnia pode ser utilizado como um termo analítico das ciências sociais, regularmente utilizado voluntariamente e de forma benigna para autoidentificação de grupos de indivíduos.6 O termo que será usado neste estudo será população. Este pressupõe um conjunto de indivíduos que se relacionam e coabitam deixando em aberto os limites a nível cultural ou morfológico. Seremos nós, ao decidirmos a população a estudar, que iremos definir quais esses limites pois consoante a população escolhida, será pertinente estudar ou não os indivíduos a nível morfológico, cultural, genético e linguístico 7. Veremos que ao cruzar todos estes campos conseguimos ter muito mais informação sobre uma população do que abordando-os separadamente). Alterações linguísticas seguem regras de alguma forma ligadas à evolução genética, diferindo desta por se tratar de um processo muito mais rápido e particularmente difícil (…). A antropologia física pode ser mal entendida porque certas características observadas nos ossos podem sofrer rápidas alterações por ação das condições ambientais (…). Apenas os genes apresentam quase sempre um nível de permanência que permite tirar conclusões quanto a cruzamentos, fusões e migrações entre povos que remontem à história das subespécies, isto é, há pelo menos 100 000 anos atrás (…).8 24 Note-se no entanto que no século XX ficou claro que havia muito mais a estudar do que as diferenças morfológicas evidentes. III.2. Estudos Antropológicos III.2.1. Primeiros Estudos Como referimos, mostra-se impossível classificar os seres humanos como pertencentes a diferentes raças pela dificuldade em definir os limites de cada uma e a pertinência dessa classificação. No entanto os estudos feitos com o propósito de catalogar essas raças levaram à observação mais ou menos cuidada das variantes antropométricas pelo que são pertinentes para o nosso estudo, apenas completo conhecendo a evolução do pensamento antropológico e antropométrico ao longo dos séculos. Desde sempre que os povos, ao serem confrontados, denotam diferenças entre si e os primeiros tratados são puramente especulativos. Os primeiros estudos conhecidos remontam aos egípcios, ao Antigo Testamento (que divide os homens como filhos de Cam, Sem ou Jafé) e à antiga Grécia onde Herodotus, no século V a.C., distinguia povos pela sua localização, costumes e aparência física9. Fig. 2) As quatro raças reconhecidas no antigo Egipto: os Líbios, os Namíbios, os Asiáticos e os Egípcios. Ilustração feita a partir de um mural da tumba de Seti I. 25 Carl von Linné foi o primeiro a criar um sistema com base científica, o Systema Naturae, com base na localização geográfica dos seres vivos, comparando-os e agrupando-os. Edward Tyson10 compara a anatomia do Homem com a dos macacos e John Ray11 cria o termo espécie. No século XVIII a Antropologia torna-se independente da Zoologia.12 No entanto a visão dos cientistas ainda não era homogénea: George Louis Leclerc, conde de Buffon13, opôs-se à sistematização de Linné afirmando que essas convenções não tinham propósito pois na natureza existem apenas indivíduos. Os homens segundo a sua cor, variam desde o branco ao negro (…) Estas são variações comuns da natureza e são causadas pelas diferenças do clima e da dieta (…) Estes homens tão diferentes na aparência pertencem todos a uma única espécie.14 No século XIX o trabalho de Charles Darwin dá o passo seguinte. Darwin foi, sem dúvida, o pai do pensamento evolutivo atual. Em The Descent of Man and Selection in Relation to Sex este afirma que as raças do homem não são suficientemente distintas para que coexistam sem se cruzarem; o não cruzamento entre indivíduos apresenta-se como a melhor prova de que estes são realmente distintos.15 Na segunda metade do século XIX Johann Friedrich Blumenbach 16 classificou pela primeira vez os humanos em raças em cinco grupos baseados na morfologia: caucásica (branca), mongólica (amarela), etiópica (negra), americana (acobreada/vermelha) e malaia (morena/parda). No entanto Blumenbach estava ciente de que as variações que à primeira vista parecem consideráveis, não têm valor absoluto e, sendo possível a sua fusão, a classificação das raças humanas seria, consequentemente, arbitrária.17 Da mesma altura são os trabalhos de Petrus Camper18, crente de que o Homem é uma criação de Deus, apontava que todas as raças humanas seriam descendentes desse primeiro Homem e, quaisquer que fossem as formas em que se apresentasse, a sua base seria sempre igual.19 Jean Léopold Cuvier (também conhecido por George Cuvier)20 simplificou esta classificação considerando apenas os três primeiros grupos. Por outro lado Louis Agassiz21 indicava nove raças pertencentes à mesma espécie, mas criadas por Deus, em diferentes alturas e em diferentes locais (uma teoria poligenista relacionando a antropologia com a ideologia cristã), uma visão bastante retrógrada em relação à de Jean-Baptiste Lamarck,22 seu contemporâneo, que afirmava que uma espécie 26 é um momento em que um equilíbrio transitório de condições e funções produz um tipo orgânico.23 Mesmo Immanuel Kant24 se dedicou a esta temática na sua obra Das Diferentes Raças Humanas de 1775. Ainda no século XIX surgem os zoológicos humanos em que pigmeus, trazidos de África, são exibidos como animais.25 É o primeiro sinal do Racismo, a hierarquização dos povos. Fig.3) Cartaz alemão de 1928 anunciando um Zoo Humano Posteriormente Ernst Haeckel26, a partir das conclusões de Lamarck, cria o termo Antropogenia, uma visão monogenista que defende a proveniência do Homem de uma única série evolutiva mas também poligenista, pois assume que quando surge a capacidade da fala já o Homem estaria dividido em doze raças. Retzius27, em 1840, parte do trabalho de Blumenbach e conclui que mesmo dentro das raças humanas definidas até então havia variações, comparando o crânio dos escandinavos com o crânio de outros povos eslavos.28 Foi também no século XIX que surgiu a primeira sociedade antropológica em Paris, fundada por Paul Broca29. Depois de Broca, Paul Topinard30, define a antropologia como o ramo da história natural que trata do homem e das raças humanas.31 Em 1881, Joaquim Pedro Oliveira Martins32 analisou detalhadamente os vários sistemas de classificação racial utilizados até então na sua obra As Raças Humanas. Oliveira Martins considerava que a divisão das raças com base no tom de pele era o método mais popular mas totalmente erróneo argumentando que o tom de pele era influenciado não só pelo clima mas também pela alimentação. Para Oliveira Martins a 27 classificação baseada na morfologia peca pela sua simplicidade, enquanto a classificação baseada na psicologia e moral dos povos falha pela sua complexidade apontando como mais indicado o método baseado na língua de cada população33 por considerar que esta possui uma base sólida que indica não só a ligação com os outros povos como também a sua evolução (explica contudo que este método não serve para a definição de um quadro atual etnográfico porque a língua falada por um indivíduo muitas vezes não corresponde à sua natureza de sangue; permite no entanto determinar a descendência dos povos sem se restringir a indicações físicas ou morais mas podendo aliar-se a estas de modo a atingir conclusões mais exatas). 34 Segundo este método as raças europeias não seriam mais do que populações unidas por religiões, línguas ou costumes comuns (cultura)35. III.2.2. O Racismo Um inimigo é alguém cuja história não foi ouvida.36 Como referido, um dos pontos que impossibilita a viabilidade da classificação dos seres humanos em raças é a tendência para a hierarquização destas. Isto prende-se com o que conhecemos como Racismo, uma realidade desde que o Homem observou diferenças entre indivíduos mas apenas considerado como um modo de pensamento e de encarar o outro a partir do século XIX. Durante este e mais de metade do século XX, em paralelo com os estudos apresentados, defendia-se a ideia de que a espécie humana estava dividida em raças completamente diferentes em termos sociais, políticos e científicos organizadas de forma hierárquica dando primazia à raça dita Europeia, Caucásica ou Branca. Esta ideia foi popularizada por Joseph Arthur Comte de Gobineau37 no século XIX, o criador do racismo e do mito ariano, considerando a mestiçagem como algo nefasto.38 O termo raça era utilizado como diferenciador não só de características morfológicas mas também para determinar a cultura, capacidades e temperamento de um povo39. Alguns defendiam mesmo uma total diferença entre os povos a nível cerebral, físico, e em termos de compreensão como resultado de diferentes construções civilizacionais com mais ou menos instrução40. 28 Fig.4) Craniómetro, inventado por Theodor Kocher nos anos 10 do século XX Note-se que o Racismo pode ser infligido não apenas contra indivíduos com uma característica morfológica evidente (como os indivíduos de origem Africana, de tez negra) mas também contra uma religião (os Judeus) ou contra uma etnia (os ciganos)41, sendo que estes dois últimos grupos foram assinalados pelos nazis como grupos a exterminar, com base em termos raciais.42 Consequentemente os grupos de indivíduos vítimas de racismo, numa tentativa de defesa, utilizam as mesmas características para se afastarem, tornando-se também eles racistas com aquele traço obstinado e irrefletido que se manifesta em Alguém Pequeno que toda a vida sofreu abusos de Alguém Grande 43. Só após a 2ª Guerra Mundial é que o pensamento das massas compreendeu o despropósito do Racismo. Concluiu-se que a conceção científica de raça, baseada na ideia de tipologias fixas e determinadas características fisionómicas, não tinha qualquer utilidade ou propósito científico e que não existe qualquer ligação entre as características físicas e genéticas e as características culturais.44 No entanto o Racismo nunca desapareceu completamente como prova o livro The Bell Curve onde Richard Herrnstein e Charles Murray, já em 1994, afirmam ter encontrado uma relação entre as raças branca e negra no que diz respeito à inteligência e estas duas raças estarem separadas por fatores de origem genética que conduzem a diferenças de comportamento a nível social.45 Apesar de todos os avanços científicos os homens ainda não compreendem na totalidade as suas semelhanças e as diferenças nem sempre são bem aceites. Hoje, no século XXI, vivemos ainda com resquícios de Racismo e de uma nova versão deste: a Xenofobia (uma espécie de racismo mais direcionado para as características culturais). 29 Fig.5) Crianças vítimas do Holocausto Fig. 6) capa do livro “Comment reconnaitre le Juif?” de George Montadon (1940) 30 Fig.7) Aviso de 1976 na África do Sul, indicando área exclusiva para o uso de indíviduos de raça branca Fig.8) Protestos em França após a deportação de uma estudante de etnia cigana III.2.3. Teorias Modernas A entrada no novo século está associada a uma busca incessante de um sistema de classificação e análise das variantes internacionais, a ser utilizado da mesma forma em todos os países. Assim, em 1912, aceita-se o Acordo Internacional para Unificação das Medidas do Indivíduo Vivo. Dezasseis anos depois Rudolf Martin46 define os pontos antropométricos que conhecemos (49 na cabeça e 71 no corpo).47 No século XX distinguem-se as classificações de Egon Freiherr von Eickstedt48, que considerava apenas três troncos raciais; Renato Biasutti49 que considerava 16 troncos; William Cloused Boyd50 que se baseia nos grupos sanguíneos (concluindo existirem cinco troncos raciais) e Desmond Morris51 que, na década de 60, agrupa o Homem em cinco 31 grupos utilizando cautelosamente o termo subespécie (em vez de raça)52. Destacam-se ainda os estudos de Carleton Stevens Coon53 defensor do poligenismo e Henri Victor Vallois54 defensor do monogenismo ou unigenismo. Devemos por último referir Theodosius Dobzhansky55 que defende a existência de 34 raças, algumas delas formadas no último milénio. Autores dedicados à Europa, focam-se nas diferenças presentes dentro do grande grupo racial europeu, tão pouco homogéneo. É o caso de Ripley (e de outros como Beddoe, Broca, Collignon, Livi e Topinard) que assumem que a Europa terá pelo menos três tipos distintos: os teutónicos, alpinos e mediterrânicos.56 Difere destes Joseph Deniker57, contemporâneo de Ripley, que considera seis: Nórdicos (Teutónicos); Ocidentais (Alpinos); Adriáticos ou Dináricos (braquicéfalos de alta estatura dos Balcãs); Atlanto-Mediterrânicos (Pirenéus, parte de Espanha, sul de França e norte de Itália); Orientais (eslavos da Bielorrússia e Ucrânia) e Ibero-insular (mediterrânicos do sul da Península Ibérica e da Península Itálica), cada grupo com algumas sub-raças.58 Apesar do estudo que realizaremos mais à frente se focar numa amostra apenas representativa de indivíduos europeus e de uma área geográfica relativamente pequena, estes apresentam um elevado número de variantes ao contrário da maioria das populações de outros pontos do Mundo59. A Europa é um verdadeiro patchwork de tipos físicos.60 Note-se que, por vezes, todas estas teorias por vezes em pouco divergem das demais e em qualquer um dos casos a definição dessas raças e da sua quantidade prendese apenas com os contornos que o cientista seu criador define e considera pertinentes. Assim, apesar dos inúmeros estudos realizados e referidos, estes não se inviabilizam uns aos outros, procurando apenas dar uma resposta mais pertinente e mais global a uma mesma realidade. No entanto, os contornos tornam-se muito menos manuseáveis tendo em conta o ADN e o código genético (de que falámos anteriormente). A sua descoberta veio deitar por terra todos os sistemas baseados apenas nos caracteres morfológicos pois não só foi impossível provar as diferenças entre os homens a nível genético como foi provada a sua semelhança. No início das pesquisas em genética, os cientistas, que tinham em mente 32 as classificações raciais herdadas do século passado, pensavam que iriam encontrar os genes dos Amarelos, dos Negros, dos Brancos... Pois bem, nada disso, não foram encontrados. Em todos os sistemas genéticos humanos conhecidos, os repertórios de genes são os mesmos. 61 Note-se que apesar de este ser um grande avanço nunca poderá trazer respostas a longo prazo porque, tal como vimos no capítulo I, a natureza dos genes é estarem em constante mutação, o princípio básico da evolução. Esta descoberta permite-nos no entanto compreender e comparar qualquer grupo de indivíduos desde que haja informação a nível genético suficiente para que seja analisada.62 Apesar de todos estes estudos não existe consenso sobre quantas divisões considerar entre os homens e atualmente a opinião dos cientistas varia entre três e sessenta ou mais divisões. Fiquemo-nos para já com a certeza que pertencemos todos à mesma espécie e que somos idênticos a nível genético. Todas as populações ou aglomerados populacionais interligam-se quando um único gene é considerado pois em quase todas as populações todos os alelos estão presentes mas em diferentes quantidades. Não existe um único gene que só por si seja suficiente para classificar as populações humanas em categorias. Em todas as populações, mesmo nas mais pequenas, existe uma enorme variação genética. Isto deve-se ao facto de a maioria dos polimorfismos observados nos humanos serem anteriores à separação dos continentes e talvez até anteriores à origem das espécies, há meio milhão de anos atrás. Os mesmos polimorfismos são assim encontrados na maioria das populações mas em diferentes quantidades.63 III.2.4. A História e Geografia dos Genes Os genes trazem-nos informação irrefutável sobre a relação entre os indivíduos e, consequentemente, entre as populações. Se por um lado os países são definições que evoluem com base em conquistas e migrações, as fronteiras de uma nação em nada se relacionam com a genética dos povos: unem subgrupos pela sua língua e facilitam a miscigenação dentro de portas. É aqui que a genética desempenha o seu papel crucial, tirando dúvidas sobre migrações e miscigenações que até aqui a história não tinha conseguido compreender. Se até aqui, como o põe Zizek64, a nossa história era baseada 33 na metáfora constitutiva da subjetividade humana: a palavra do nosso pai em como o é65, com o discurso científico essa subjetividade desvanece-se. Considera-se que, com os estudos feitos até aos dias de hoje, as frequências genéticas nos possam dar informação fidedigna sobre as migrações do Homem dos últimos 40 000 anos 66 (quatro vezes mais do que a informação que se conseguia extrair anteriormente através de estudos arqueológicos e linguísticos). Luigi Luca Cavalli-Sforza67, no prefácio da sua obra The History and Geography of Human Genes, escreve Este livro começou com o desejo de analisar a geografia dos genes humanos, utilizando novas tecnologias desenvolvidas com o propósito de estudar as antigas migrações humanas (…) mas a complexa tarefa de reconstruir a história da evolução humana dificilmente será inteiramente satisfatória se usarmos apenas as evidências provenientes dos dados genéticos. A informação que podemos extrair de outros recursos, como a história das línguas, antropologia e arqueologia são também muito úteis e devem ser comparados com os dados genéticos para que possamos tirar conclusões realmente satisfatórias.68 Cavalli-Sforza ao introduzir a premissa de que qualquer estudo desta natureza é apenas válido em relação a um determinado espaço e tempo faz-nos ressalvar que também o estudo aqui apresentado terá validade apenas relativamente ao tempo e espaço em que foi realizado. No seu estudo, Cavalli-Sforza define e compara, a nível genético, nove grandes grupos69 com 42 populações das quais 7 são europeias: os lapões, sardenhos, gregos, bascos, italianos, dinamarqueses e ingleses sendo que as restantes nacionalidades europeias que conhecemos estão muito próximas destas. proximidade mais à frente. 34 70 Analisaremos essa Fig.9) Esquema de Cavalli-Sforza demostrando a distância genética entre diferentes populações europeias Fig. 10) Esquema de Cavalli-Sforza dividindo os grandes grupos populacionais da Europa baseados na sua diferença genética 35 Cavalli-Sforza não é o único que trouxe avanços neste campo. Os estudos a nível genético estão neste momento a ser aprofundados e surgem novos dados todos os dias. Atualmente existem mapas que indicam a percentagem de incidência de cada haplogrupo (ver capítulo I) em cada país Europeu bem como mapas que indicam onde este terá surgido e como se terá propagado ao longo do tempo. Estes estudos estão numa fase de constante atualização como comprovam as variadas publicações periódicas eletrónicas mensais dedicadas exclusivamente a este tema pelo que todos os dias surgem novas descobertas e dados a analisar. Visto esta não ser a nossa área, abordaremos estes estudos de genética com cuidado apenas de modo a sedimentar o estudo que aqui desenvolvemos e propondo que, futuramente, se faça um paralelismo entre estes estudos científicos de vanguarda e este estudo mais focado na observação e análise (apesar de devidamente documentado e cuidado). Felizmente, a Europa tem a vantagem de ser o continente em que não só é mais fácil recolher informação genética fidedigna e numa quantidade considerável como é também o continente que apresenta dados mais antigos relativamente organizados. No entanto a complicada história da Europa torna-os por vezes difíceis de interpretar. As constantes migrações e rotas comerciais tornaram o Mediterrâneo um ponto de encontro de três continentes e religiões e isso reflete-se nos dias de hoje tanto a nível cultural como morfológico e genético.71 A complexidade da história genética do Mediterrâneo é também testemunhada pelo número de eventos históricos ocorridos nesta área (…). Um estudo recente da variação do cromossoma-Y nas populações mediterrânicas mostra a diferença entre os habitantes do norte de África e o resto do Mediterrâneo mas é inconclusivo como prova da heterogeneidade entre as restantes populações.72 Como já vimos, os cromossomas-Y, referentes à linhagem por transmissão paterna, dão-nos muito mais informação do que os mtDNA, de origem materna, pelo que muitos estudos assinalam com cautela e que estes dados mostram as migrações masculinas mas que podemos assumir, sem receio, que as conclusões a que chegamos estarão muito próximas das que tiraríamos caso tivéssemos acesso à informação encerrada nos cromossomas provenientes de ambos os progenitores. Atualmente considera-se que existem nove Y-cromossoma haplogrupos ou clãs 36 mais comuns na Europa.73 Estes grupos surgiram há muitos anos e atualmente já podemos alinhar os primeiros acontecimentos a nível genético da História da Europa: - há 50 000 anos os antecessores dos povos europeus ainda viviam no nordeste africano e pertenciam apenas a um haplogrupo tendo-se dado a primeira divisão há 45 000 anos, dividindo o clã E (africano) e o clã F (asiático) que migrou para a Península Arábica e Médio Oriente; - 5 000 anos depois este clã F volta a subdividir-se e surge o clã K na Ásia Central; - há 35000 anos surgem deste duas novas ramificações: R, que define a Ásia Central a Ocidente e NO, a Oriente. Seguidamente o clã R divide-se em R1 e R2. O primeiro desde dois migra para as estepes entre o Mar Cáspio e os Montes Urais. Mais de 50% da população europeia é familiar com o haplogrupo R que tem também ramificações no ocidente, centro e sul da Ásia.74 O haplogrupo R1 é o primeiro a representar homens modernos na Europa; - há 25 000 anos atrás uma subdivisão de R1, R1b, chega à costa Atlântica e à Península Ibérica e, anos depois, R1a migra para a zona da atual Ucrânia. Entretanto nos Balcãs e Anatólia surge o clã I, ramificação do clã F, ao mesmo tempo que NO se subdivide e surge o clã que se dirige para norte, o clã N, que por sua vez se subdivide em N3 e N2 que migram primeiro para Sibéria e posteriormente para a Europa Oriental. - após estas migrações dá-se a última Era Glaciar e os habitantes do norte da Europa migram para sul para quatro refúgios principais: na Península Ibérica, na Ucrânia, nos Balcãs e na Sibéria. - há 10 000 anos os clãs E3b (agricultores do Médio Oriente), G (caucasianos, descendente do clã F) e J (orientais também descendentes do clã F) migram para a Anatólia, Grécia e costa Mediterrânea. Estes três grupos formam os primeiros agricultores. No entanto, um outro clã, I, formou-se no Médio Oriente mas foram para os Balcãs antes de dominar a agricultura. Estes começaram a dominar esta técnica anos mais tarde, ensinados pelos seu “irmãos” do Médio Oriente.75 Do haplogrupo E apenas a ramificação E3b é encontrada fora do continente africano, talvez originário da África subsariana e que se expandiu para o norte de África e Médio Oriente no final do pleistoceno. 76 Como vemos podemos dividir os homens Europeus em dois grupos: aqueles que já povoavam a Europa antes da Idade do Gelo, os primeiros europeus (clãs R1b, R1a, I e N) e aqueles que migraram para a Europa posteriormente, os Primeiros Agricultores, há cerca de 10 000 anos (clãs E3b, J2 e G). Note-se que é nesta altura que começamos a ter 37 informação fidedigna proveniente dos estudos antropológicos, arqueológicos e linguísticos. Anos mais tarde novos movimentos trarão algumas alterações ao panorama genético europeu. Depois do colapso do Império Romano, por volta do século VII, os árabes trazem o haplogrupo E3b1b1b-M81 para a Europa e a nível genético essa presença está especialmente marcada nos genes da Península Ibérica e a Sicília.77 Faremos uma análise a nível genético mais específica aquando do estudo a que nos propomos nos últimos capítulos. III.2.5. As Línguas As línguas constituem um poderoso guia étnico que, ao contrário da informação estritamente etnográfica, se mostra muito completo.78 Já foi indicado atrás que o estudo das línguas nos traz um importante meio para encontrar elos de ligação entre os povos. Estudando a sua evolução podemos criar um paralelismo com os dados históricos e genéticos e chegar a novas conclusões. A língua permite-nos encontrar ligações entre povos, facilita a comunicação entre eles, e evidencia limites, mesmo quando não concordantes com os limites políticos ou antropológicos79 (note-se o caso dos bascos, numa região de Espanha, com um dialeto próprio e completamente distinto do espanhol). A proximidade entre as línguas é estudada através da análise dos cognatos (palavras semelhantes com origem comum) e, ao cruzar esta informação com as várias ciências e história consegue-se determinar a distância temporal desde a sua separação. Note-se que será mais provável o cruzamento entre indivíduos com a mesma língua e base cultural. As línguas evoluem e propagam-se muito mais depressa do que os genes. Na Europa a grande maioria das línguas pertence a uma família indo-europeia que se divide em nove ramos80 dos quais ficam de fora apenas duas línguas ainda hoje faladas: o húngaro, que terá origem na língua falada pelos Magiares, vindos dos Montes Urais e o Basco, de proveniência desconhecida, e que poderá ser uma língua antiga do tempo do Mesolítico, mas que apresenta semelhanças com línguas do norte do Cáucaso 81 e dos Berberes (línguas Afro-asiáticas)82. 38 Fig.11) Grupos linguísticos da Europa segundo Cavalli-Sforza Naturalmente, os estudos genéticos vieram confirmar que os povos e as suas línguas apresentam intrínsecas relações que nos permitem chegar mais longe em ambos os campos. Se até aqui apenas conseguíamos extrair informação através da língua pela análise da informação direta com base em registos escritos (nunca anteriores a 5 000 anos atrás)83 agora é possível ir mais além. Antes, os linguistas eram imprescindíveis para estudar a origem e a mais antiga história do povos (…) estes pensavam que conseguiam identificar a origem das línguas (…). O principal papel desempenhado pela língua era baseado no conceito de nação, de modo que as nacionalidades eram definidas pelas línguas aí faladas (…). Partia-se do princípio de que os povos e as línguas teriam uma mesma origem com base na ideia gentem facit língua (a nação é determinada pela língua). No entanto, os métodos utilizados pelos linguistas são limitados, especialmente em termos temporais. Estes conseguem apenas regredir no tempo cerca de 6 000-10 000 anos(…) não mais do que o período Mesolítico. (…) Uma mudança decisiva surgiu nos anos 80 do século XX quando os geneticistas 39 começaram a estudar profundamente as raízes das populações. Hoje a origem dos povos é definida pelos seus genes e não pela língua que falam atualmente.84 1 Cfr., MORRIS, Desmond - The Human Zoo. Tokyo: Kodansha Globe, 1996. p. 154. Cfr., FENTON, Steve – Ethnicity: Modernity, Racism, Class and Culture. London: MacMillan, 1999. p.5. 3 Idem., p.62. 4 Onde participa o antropólogo e filósofo francês Claude Lévi-Strauss) e na Declaração sobre a Raça (1949). Lévi-Strauss é o primeiro a afirmar que é unicamente pela cultura que os grupos humanos se devem dividir. 5 LÉVI-STRAUSS, Claude. - Raça e História. Lisboa: Editorial Presença, 2008. 6 The term race is associated with mistaken science, it connotes physical difference and, frequently, color. It is typically seen as malign, and racial ideologies have been associated with compulsion and regimes of oppression. By contrast, ethnic can be taken as an analytic term in social science, is often seen as the voluntary identification of peoples, and as (at least potentially) benign. FENTON, Steve, op. cit., 1999. p.69. 7 Cfr., Veremos quão útil se apresenta a língua relacionada com a história e até a comum semelhança entre o nome de um povo e o nome da língua por ele falada CAVALLI-SFORZA, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto – The History and Geography of Human Genes. 1ª ed. New Jersey: Princeton University Press, 1996. p.22. 8 Linguistic change follows rules that are somewhat analogous to those of genetic evolution, except that it is much faster and especially difficult (…) Physical anthropology can be misleading because certain physical traits observed in bones can sometimes change quickly with environmental conditions (…). Only genes almost always have the degree of permanence necessary for discussing fissions, fusions and migrations that took place during the history of subspecies, which goes back at least 100 000 years (…). Idem., p.2. 9 MYRES, J. L. - [no title] in Anthropology at Oxford: the proceedings of the five-hundredth meeting of the Oxford University Anthropological Society. (15 Fevereiro 1953). 10 Edward Tyson (1651-1708), cientista e físico britânico muitas vezes referido como fundador da anatomia comparada. 11 John Ray (1627-1705), naturalista britânico autor de importantes estudos de botânica, zoologia e teologia natural. 12 RITTO, Isabel - Antropometria : medidas dos ângulos e inclinações do perfil de uma população portuguesa e comparação com alguns cânones artísticos. Lisboa: [s.n.], 2001 [Tese de doutoramento em 2 40 Anatomia (Antropometria)]. p.190. 13 George Louis Leclerc (1707-1788), naturalista, matemático e escritor francês. O trabalho de Leclerc foi também importante por compreender a importância dos fósseis e como estes poderiam ser úteis para compreender os antepassados dos seres vivos atuais sendo também famosos os seus estudos sobre a história da Terra. 14 BUFFON, Georges-Louis Leclerc – História Natural, General y Particular. Madrid: Câmara S. M., 1785. 15 The races of man are not sufficiently distinct to inhabit the same country without fusion; and the absence of fusion affords the usual best test of specific distinctness. DARWIN, Charles – The Descent of Man and Selection in Relation to Sex. London: J. Murray, 1871. 16 Johann Friedrich Blumenbach (1752-1840), antropólogo e naturalista alemão. 17 RITTO, Isabel, op. cit., 2001, p.194. 18 Petrus Camper (1722-1789), físico, anatomista, fisiologista, zoologista, antropologista, paleontologista e naturalista holandês membro da Royal Society famoso pelos seus estudos em anatomia comparada e pela proposta da medida do ângulo facial. Também reconhecido como escultor e patrono das Artes. Os seus escritos são muitas vezes acompanhados de desenhos da sua autoria. 19 CAMPER, Peter – Dissertation sur les Variétés Naturelles qui Caractérisent la Physionomie des Hommes des Divers Climats et des Différents Ages. Paris: A la Haye. 1791.p.16. 20 George Cuvier (1769-1832), naturalista e zoologista francês famoso pelos seus trabalhos em anatomia comparada e paleontologia. Considerado fundador da paleontologia vertebrada é também famoso por ter incluído pela primeira vez fosseis no sistema criado por Linné. 21 Louis Agassiz (1807-1872), biologista, geologista e físico suíço, famoso pelos seus estudos sobre a história natural da Terra. 22 Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829), naturalista francês e um dos primeiros a considerar que a evolução era regida por leis naturais. 23 MARTINS, Oliveira - As Raças Humanas e a Civilização Primitiva. 5ª ed. Lisboa : Guimarães Editores, 1955. p.82. 24 Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão, considerado uma das figuras centrais da filosofia moderna. Famoso pelos seus estudos sobre metafísica, epistemologia, ética, filosofia, política e estética. 25 BRADFORD, Phillips Verner - Ota Benga: The Pygmy in the Zoo. Illinois:Delta Publisher, 1993. 26 Ernst Haeckel (1834-1919), biólogo, naturalista, filósofo e artista alemão. 27 Retzius (1796-1860), professor de anatomia e antropologista sueco, estudou profundamente o crânio humano e considera-se ser o criador do índice cefálico. O seu filho, Gustaf, continuou os seus estudos apesar de muito ligado ao racismo científico, defendendo a superioridade da raça ariana. 28 RITTO, Isabel, op. cit., 2001, p.196. 29 Paul Broca (1824-1880), físico, anatomista, antropologista e cirurgião francês reconhecido pelos seus estudos do cérebro e da sua ligação com a língua, estudos de antropometria e antropologia física. 30 Paul Topinard (1830-1911), físico e antropologista francês, foi diretor da École d’Antropologie e secretário-geral da Société d’Anthropologie de Paris. 31 RITTO, Isabel, op. cit., 2001, p.199. 32 Oliveira Martins (1845-1895), político e cientista social(possivelmente o português que mais se dedicou a esta matéria). 33 (Partilhando a opinião de Edward Evan-Pritchard, antropólogo britânico da Universidade de Oxford) 34 MARTINS, Oliveira, op. cit., 1955. p. 77. 35 [S.A.] - Les Races Humaines. Premier Congrès D’AUCAM. Louvain: Éditions de L’AUCAM, 1930. p. 32. 36 An enemy is someone whose story you have not heard. BROWN, Wendy – Regulating Aversion. Princeton, NJ: Princeton University Press, 2006. 37 Joseph Arthur Comte de Gobineau (1816-1882), aristocrata francês famoso pelo seu ensaio Essai sur L’inegalité des les Races Humaines e pelo desenvolvimento do mito ariano. 38 GOBINEAU, Le Comte de - Essai sur L'inegalité des Races Humaines. Carolina do Sul: BiblioLife, 2009. 39 FENTON, Steve, op. cit., 1999.. p. 4-5. 40 [S.A.] - Les Races Humaines. Premier Congrès D’AUCAM. Louvain: Éditions de L’AUCAM, 1930. p.32. 41 O termo “raça” tende a ser um termo pejorativo. A definição de raças, superiores ou inferiores, foram a razão que levou a catástrofes como a escravidão, o genocídio, o colonialismo e claro ao nazismo (onde o acontecimento do Holocausto marcou o expoente mais terrível a que o medo e a ignorância podem conduzir). 42 FONSECA, Isabel – Bury me Standing. London: Vintage, 2006. P.308. 43 ROY, Arundhati – O Deus das Pequenas Coisas. Porto: Público Comunicação Social, 203. P.189. 41 44 Cfr., MILES, Robert. - Racism.1ª ed. Nova Iorque: Routledge, 1989. p. 37. HERRNETEIN, Richard, MURRAY, Charles.- The Bell Curve. Nova Iorque: Free Press Paperback, 1996. 46 Rudolf Martin (1864-1925), antropologista suíço, especialista em antropologia física. 47 RITTO, Isabel, op. cit., 2001, 221. 48 Egon Freiherr von Eickstedt (1864-1925), antropologista suíço especializado em física antropologista. 49 Renato Biasutti (1892-1965), físico antropologista alemão conhecido pela sua classificação das raças humanas. 50 William Cloused Boyd (1878-1965), geografo e antropologista italiano conhecido pelos seus estudos em antropologia física. 51 Desmond Morris (1903-1983), imunoquímico americano conhecido pelos seus estudos sobre a distribuição dos tipos sanguíneos. 52 MORRIS, Desmond - The Human Zoo. Tokyo: Kodansha Globe, 1996. p.155. 53 Carleton Stevens Coon (n. 1928), zoologista e etnólogo inglês famoso pelos seus livros sobre sociobiologia. É também conhecido como pintor surrealista. 54 Henri Victor Vallois (1904-1981), antropologista físico americano. 55 Theodosius Dobzhansky (1889-1981), antropólogo e paleontólogo francês. 56 William Z. Ripley (1867-1941), economista e teórico racial Americano, famoso pelo seu trabalho sobre as raças da Europa. RIPLEY, William Z. - The Races of Europe : a Sociological Study. New York: D Appleton & Company, 1915. p.104. 57 Joseph Deniker (1852-1915), naturalista e antropologista francês conhecido pelos seus estudos sobre as raças europeias. 58 RIPLEY, William Z. - The Races of Europe : a Sociological Study. New York: D Appleton & Company, 1915. p.597. 59 Se pensarmos por exemplo no grande tronco racial que engloba os asiáticos (a chamada raça amarela), a semelhança entre os vários povos é muito maior do que se compararmos um indivíduo da Sardenha com um indivíduo da Suécia, apensar de ambos terem ao longo dos tempos considerados parte do mesmo tronco racial, fosse ele definido como branco ou europeu. 60 Idem., p.56. 61 LANGANEY, André - Tous Parents, Tous Différents, Baiona: Chabaud, 1992. 62 Os pioneiros desta abordagem foram Karl Landsteiner e os irmãos Hirszfeld que no início do século XX compararam os grupos sanguíneos dos exércitos da 1ª Grande Guerra Mundial (através do Sistema ABO). No entanto só na década de 50 é que foi publicada a primeira tabela de frequência genética moderna com uma interpretação a nível evolutivo que indicava que a variação era bem mais complexa do que apenas alguns grupos sanguíneos. MOURANT, A. E. – The Distribuition of the Human Blood Groups, and other Polymorphisms. London: Oxford University Press, 1976. 63 All populations or population clusters overlap when single genes are considered and in almost all populations all alleles are present but in different frequencies. No single gene is therefore sufficient for classifying human populations into systematic categories. There is great genetic variation in all populations, even in small ones. This individual variation has accumulated over very long periods because most polymorphisms observed in humans antedate the separation into continents and perhaps even the origin of the species, less than half million years ago. The same polymorphisms are found in most populations but in different frequencies in each. CAVALLI-SFORZA, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto – The History and Geography of Human Genes. 1ª ed. New Jersey: Princeton University Press, 1996. p.19. 64 Slavoy Zizek (n. 1949), filósofo marxista, psicanalista e crítico cultural esloveno. 65 ZIZEK, Slavoy – In Defense of Lost Causes. London: Verso, 2009. p.32. 66 Cfr., WIIK, Kalevi - Where Did European Men Come From?. Journal of Genetic Genealogy [em linha] nº4 (2008) 35-85. p.35. 67 Um dos geneticistas mais importantes do século XX em especial no que toca à genética das populações, nasceu em Itália em 1922, lecionou na Universidade de Stanford, é membro pontífice da Academia Francesa das Ciências e vencedor dos prémios Balzac e Kistler pelos avanços que trouxe para a ciência da origem do Homem. 68 This book was started with the desire to analyze the geography of human genes, using new techniques we have developed for the purpose studying ancient human migrations (…) but the challenging task of reconstructing the history of human evolution can hardly be entirely satisfactory using only evidence provided by the genetic data. Information from historical linguistic, anthropological and archaeological sources is also useful and it should be compared with the genetic evidence if we wish to reach fully 45 42 satisfactory conclusions. CAVALLI-SFORZA, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto – The History and Geography of Human Genes. 1ª ed. New Jersey: Princeton University Press, 1996. p.1. 69 Que serão os Africanos; os caucasóides europeus; os caucasóides extra europeus; os mongóis do Norte; as Populações do Ártico; os mongóis do Sul; os Australianos e populações da Nova Guiné; as populações das Ilhas do Pacífico e por fim os Americanos. 70 CAVALLI-SFORZA, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto, op. cit., 1996. p.78. 71 ABULAFIA, David – The Mediterranean in History. London: Thames & Hudson Ldt, 2003. p.23. 72 The complexity of Mediterranean genetic history is testified also by the number of historical events occurring in this area (…). A recent study of Y chromosome variation in Mediterranean populations showed the distinctiveness of North Africans compared to the rest of the Mediterranean, but failed to find any heterogeneity among other Mediterranean populations. CAPELLI, C.; REDHEAD, N.; ROMANO, V. et al. - Population Structure in the Mediterranean Basin: a Y Chromosome Perspective. Annals of Human Genetics [em linha] (2005). p.2. 73 Que, por ordem alfabética são E3b, G, I1a, I1b1-P37, I1b2-M223, J2, N3, R1a e R1b vindos de seis ramos principais: R1, I, N, E, J e G WIIK, Kalevi, op. cit., 35-85. 74 MYRES, Natalie M.; ROOTSI, Siiri, LIN, Alice et al - A major Y-Chromosome haplogroup R1b Holocene era founder effect in Central and Western Europe. European Journal of Human Genetics [em linha] nº19 (Agosto 2010). 95-101. 75 WIIK, Kalevi, op. cit., p.36. 76 CRUCIANI , Fulvio; LA FRATTA, Roberta; SANTOLAMAZZA, Piero et al. - Phylogeographic Analysis of Haplogroup E3b (E-M215) Y Chromosomes Reveals Multiple Migratory Events Within and Out of Africa. American Journal of Human Genetics [em linha] 74:5 (Março 2004) 1014-1022. p.1014. 77 CAPELLI, Cristian; ONOFRI, Valerio; BRISIGHELLI, Francesca et al - Moors and Saracens in Europe: estimating the medieval North African male legacy in southern Europe. European Journal of Human Genetics [em linha]. 17:6 (Janeiro 2009) 848-852. p.849. 78 Languages offer a powerful ethnic guide book, which is essentially complete, unlike strictly ethnographic information. CAVALLI-SFORZA, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto, op.cit., 1996. p.23. 79 RIPLEY, William Z., op. cit.,1915. p.17. 80 A língua arménia, albânica e tocharian (extintas), indo-iraniana (que se divide em 93 línguas atualmente faladas no Irão, Índia, Afeganistão e Paquistão), grega (que se divide em duas línguas), italiana (de onde descende o latim, extinto, e as línguas romanas), celta (quatro línguas faladas nas ilhas britânicas), germânica (onze línguas do norte e centro da Europa) e balto-eslávica (treze línguas do oriente europeu). RUHLEN, M. – A Guide to World’s Languages. Califórnia: Stanford University Press, 1987. 81 GAMKRELIDZE, T. V.; IVANOV, V.V. – The Early History of Indo-European Languages. Scientific American. United States of America: Nature Publishing Group, 1990. Vol. 262, nº3. p. 110-116 82 ALLIÉRES, J. – Manuel Pratique de Basque. Paris: Picard, 2011. 83 ROSSER, Zoe H.; ZERJAL, Tatiana; HURLES, E. et al - Y-chromosomal Diversity in Europe is Clinal and Influenced Primarily by Geography, Rather than by Language. American Journal of Human Genetics [em linha] 67:6 (Dezembro 2000). 1526-1543. p.1527. 84 Earlier, linguistics played a key role in studying the origin and early history of peoples (…) linguistics thought that they could arrive at the original homes of languages (…). The special part played by languages was largely based on the concept of the nation state, according to which nations were decided on the basis of the languages they spoke (…). The point de depart in looking for a common origin of peoples and languages, often even unquestioningly self-evident, was the idea that gentem facit lingua, or “language determines the nation”. However, the methods used by linguists have their limitations, especially when it comes to time. The farthest back in time that linguists can go is usually regarded as 6 000-10 000 years (…) no farther than Mesolithic time. (…)A decisive change came about when geneticists started in the 1980’s to seriously study peoples roots. Now it came the time when people’s origins were decided according to their genes rater that the language they spoke. WIIK, Kalevi, op. cit. p.82. 43 IV. VARIANTES ANTROPOMÉTRICAS DA FACE IV.1. A Face e a sua representação: Arte e Ciência Na pintura do nu, o artista necessita de partir do estudo do interior do corpo para o exterior (…) só assim se conseguirá atingir a perfeição.1 Feito o reconhecimento do que envolve, causa e alimenta as variações antropométricas, analisemos agora as formas em que se manifestam passando pelos vários tratados sobre essa temática ao longo dos tempos e seguidamente organizando essa informação de modo mais sucinto e objetivo. Concentremo-nos no que vemos, na anatomia de superfície do rosto e nos caracteres morfológicos variáveis faciais fazendo a ponte entre a Ciência e a Arte pois, como vimos, este é um tema há muito estudado não só por homens de ciência mas principalmente por artistas através do desenho, raiz e desígnio que interliga as ciências, as artes, e estas entre si.2 Os traços do rosto que fazem a fisionomia e são, por conseguinte, constitutivos do retrato, confundem-se com os traços do próprio desenho.3 É tal a relação entre estes campos que parece não haver apenas relação no seu conteúdo mas também na sua natureza e na dos que as estudam, com as mesmas ânsias: A frustração é uma das grandes coisas em arte, a satisfação é nada.4; O combustível que alimenta a ciência é a ignorância. (…) Um verdadeiro cientista aborrece-se com o conhecimento.5 Entusiasmados em compreender e representar a natureza humana com destreza, os artistas há muito que compreenderam a necessidade de desenhar a partir do natural e de estudar as relações e funções das formas naturais. Desenhar é agir a partir do visível ou do experienciado, ou da combinação de termos.6 Há muito que se concluiu que o retrato jamais pode ser praticado levianamente 7 e a importância de compreender antes de intervir (como nos conta o caricato episódio contado por Almada Negreiros, nos seus Textos de Intervenção, entre Picasso e um entrevistador, que pergunta qual a primeira 44 coisa que o mestre fazia ao pintar, à qual este responde “sentar-se” mas quando questionado se pintava sentado este respondeu: - Não, eu pinto em pé8). A Arte do Retrato é a mais natural, a mais nobre e a mais útil de todas as Artes – é a mais difícil, por mais fácil que pareça e que deveria ser. (…) Sem um conhecimento exato das relações que existem entre as diversas partes do rosto, entre os olhos e a boca, por exemplo, será por puro acaso, e por um enorme acaso, que o Pintor consiga deixar marcas destas relações nas suas composições.9 Deixaremos aqui de lado, tanto quanto nos for possível, o sentido do olhar que está subentendido no modo como se retrata, o modo como o retratado é visto e dado a ver pelo artista10. Apesar de, como sabemos, o conceito de Desenho não se esgotar nas certezas que acompanham os modelos de representação exata11 (os seus limites são muitos, para arrumar ou estragar de vez a cabeça dos mais confusos12), foquemo-nos na análise transparente e científica deste, utilizando todos os meios que a prática do desenho, da pintura e da sua observação subjacente implicam. Para o nosso estudo interessa-nos um olhar e desenho científico capaz de eliminar as ambiguidades da linguagem onde a exatidão é prioridade.13 Isso, certamente, não teria razão de ser se não se lamentasse antigamente que a natureza não tivesse criado uma janela para ver o que vai no coração dos homens, os seus pensamentos e desígnios (...) ela espalhou toda a sua alma no exterior, e assim não há necessidade de qualquer janela para ver os seus movimentos, tendências e hábitos, uma vez que eles se expressam no rosto, e estão descritos em caracteres de forma tão visível e tão óbvia.14 No entanto os intelectuais sempre tiveram dificuldade em chegar a um consenso quanto ao carácter científico destes estudos. Se já na Antiga Grécia, Plínio censura Aristóteles por dar demasiada importância a esta falsa ciência15 outros, séculos mais tarde, consideravam que se havia uma ciência que estudava a divindade (a Teologia) naturalmente teria de haver uma ciência que estudasse os homens criados à imagem de Deus. 45 A Fisionomia, como todas as outras ciências, pode até certo ponto, reduzir-se a determinadas regras, ter características que poderão ser aprendidas e ensinadas, comunicadas, recebidas e transmitidas.16 Ao longo dos séculos, para sustentar as várias teorias (mais ou menos científicas) até aqui enumeradas, foram desenvolvidos vários meios de comparar essas variantes. Apesar destes estudos, uns mais do que outros, terem sido criados para distanciar as raças, e muitas vezes hierarquiza-las, a verdade é que hoje podemos aproveitar muitos dos métodos e estudos realizados para os cruzar com os outros dados de que temos vindo a falar até aqui. Se até ao século XVIII a antropometria era um estudo maioritariamente executado por artistas, a partir daí dedicam-se a este tema os homens das ciências. 17 Durante muitos anos a Arte e a Ciência foram inseparáveis porque, qualquer que fosse a descoberta, seria necessário ilustrá-la e para isso o próprio artista teria de compreender o que estava a representar. Com altos e baixos, em muitos casos ditados pela moda da altura, o estudo do corpo humano nunca deixou de ser recorrente e pertinente18. Se na Antiguidade a mimesis19 era considerado o grande expoente da Arte, alturas houve em que correntes artísticas renegavam esta prática20, enquanto que outros a desenvolviam e aprofundavam. Na disciplina de Modelos do 2º ano do curso de Pintura da faculdade de Belas Artes de Lisboa, o programa do ano em que ingressei na faculdade, regido pelo Professor Catedrático Lima de Carvalho, afirma que esta cadeira é herdeira de um processo de aprendizagem que vem dos primórdios do Ensino da Pintura (…). Ver e analisar modelos muito especialmente o corpo humano, foi sempre muito importante para um profissional e apesar de tudo ainda hoje continua a ser.21 Também na faculdade de Belas Artes de Lisboa podemos encontrar uma obra de Joaquim Rafael intitulada Elementos do Desenho Coligidos e Adotados pela Academia das Bellas Artes de Lisboa para uso dos seus discípulos (Lisboa, 1840), reunindo lições dedicadas à observação do corpo humano e em especial à cabeça.22 Esta obra terá sido vastamente utilizada pelos alunos e deixa-se aqui a sugestão de que volte a cumprir o seu propósito e seja de novo disponibilizada. Desde o Antigo Egipto era comum o estudo e representação do corpo humano bem como a sua sistematização e idealização. Com os gregos e os romanos, procurando 46 atingir a mimesis absoluta, surge o primeiro tratado sobre anatomia de que há Memória – o Cânone de Policleto23. Se nos seculos IV e III a.C. Herophilo e Erasistratus24 faziam estudos complexos, quatro séculos mais tarde Galeno25 publica uma vasta obra dedicada à anatomia (mesmo que muitos dos estudos se baseassem em corpos de animais), obra que só foi devidamente reconhecida no século XIII26. Esta evolução foi adormecida durante a Idade Média em que era proibida a dissecação de cadáveres humanos e, curiosamente, adormecida a prática do desenho, ambas retomadas em força no Renascimento. Nesta transição surgem os trabalhos de Giotto27 e a sua reforma nas artes teorizada no final do século XIV por Cennino Cennini.28 Fig. 12) O Beijo de Judas, Giotto, fresco da capela Scrovegni, Pádua, Itália Durante o Renascimento os artistas eram cientistas e vice-versa. Os artistas perdem o carater de artesãos e, com os estudos que desenvolvem noutros campos da ciência, aliam a Arte à geometria e à matemática e fazem profundos estudos anatómicos e científicos (veja-se o caso de Leonardo da Vinci29 que, sabemos pelos seus desenhos e escritos, ter feito dissecação de cadáveres). Durante este período ter-se-á dado um dos maiores e primeiros avanços na anatomia quando Andries van Wezel (Vesalius) 30 em 1543 publicou De Corporis Humani Fabrica Libri Septem31. Este terá sido o arranque para anatomia moderna científica derrubando na totalidade o pensamento medieval sobre o funcionamento do corpo humano.32 Vesalius encara o corpo de um modo inovador, como uma realidade estática e arquitetural e cria uma disciplina independente debruçada unicamente na descrição anatómica do corpo.33 47 Fig. 13) Estudos anatómicos do ombro, 1510-1511, Leonardo Da Vinci, Royal Library, Windsor É também durante o Renascimento que surgem os mais brilhantes trabalhos de pintura, escultura e desenho a nível anatómico e os nomes dos artistas deste período são familiares a todos. Albert Durer34 considerava a Arte como um dom divino aliado a uma conquista intelectual que exigia instrução humanística e conhecimentos matemáticos e que a Arte sem conhecimento científico não passa de imitação irrefletida, fantasia irracional e prática cegamente aceite. Apesar de Durer se dedicar principalmente ao estudo e representação do “ belo”, encorajava o artista a conhecer os extremos da natureza humana para que lhes pudesse fugir sempre que quisesse e assim obter a forma bela.35 O conhecimento da anatomia teria tanto peso para os pintores do Renascimento que são prova disso as várias obras que apresentam esses estudos. Na mesma época Vasari36 vem afirmar que o desenho é o pai das três belas artes (arquitetura, escultura e pintura).37 48 Fig. 14) A aula de anatomia de Dr. Tulp, Rembrandt, 1632, óleo sobre tela, 169,5x216,5 cm, Maurtshuis, A Haia, Países Baixos Deixemos claro que para o estudo que aqui desenvolvemos de pouco nos servem os estudos das proporções e ideais de beleza: este estudo nada tem a ver com a busca de cânones ou medidas ideias. No entanto os estudos da face, qualquer que fosse o seu propósito, apresentam-se muito úteis pelos meios e técnicas que utilizam para comparar os rostos. Estes estudos foram maioritariamente desenvolvidos entre o século XVI e XVIII e pretendiam não só associar os traços de um indivíduo ao seu temperamento como assumir conclusões tão assertivas que deveriam conduzir à constituição de uma ciência: a Fisiognomia (que, a partir das conclusões fisionómicas as associa a determinado temperamento).38 Estes estudos teriam uma relação estrita com a Pintura que Jean Gaspard Lavater39 (que em muito se empenhou para que a Fisiognomia tivesse o carácter de Ciência) considera sua mãe e sua filha. Para Lavater, o paralelismo entre o génio e os traços faciais era verdadeiro e científico.40 49 Fig. 15) Os quatro temperamentos, ilustração de Jean Gaspar Lavater, 1783 Era sabido que estes estudos, quando associados ao temperamento, estavam em muito relacionados com as artes divinatórias tão difundidas até ao Renascimento o que lhes tirava credibilidade. Michele Savonarola41, no século XV, tentou atenuar este facto aproximando o seu estudo Speculum physionomiae ao campo da medicina.42 A partir deste surgiram vários tratados fisionómicos sendo que os primeiros a dedicarem parte dos seus escritos diretamente à Fisiognomia serão Gaurico43 e Francisco d’Holanda.44 Este segundo afirmava que o pintor muito fielmente há de entender de anatomia, se quer seguir os preceitos dos antigos na perfeição da pintura”45. IV.2. Análise Antropométrica da Face De todas as formas (…), o corpo do outro permite-me formar a ideia do meu próprio organismo corporal mediante o contacto e a contemplação. 46 Conhecido o percurso que a Anatomia e a Arte percorreram, umas vezes mais outras vezes menos ligadas, com um propósito mais ou menos científico ou mais ou menos artístico deixemos uma advertência trazida por Francisco de Assis Rodrigues47 que nos faz ponderar quando afirma que não basta saber o nome dos ossos e dos músculos e as suas proporções: nada disso nos vale se não forem estudados os trabalhos de autores clássicos e se não aplicarmos os nossos conhecimentos no estudo do modelo vivo.48 Posto isto, observemos a base fisionómica da cabeça (toda a parte do corpo sobre o pescoço 49) 50 e a face (vista anterior da cabeça, entre a raiz do cabelo e o mento). A cabeça humana, longe de ser um objeto frio e inexpressivo é talvez um dos temas mais difíceis de se adaptar aos limites da representação, por isso mesmo se torna num tema tão propício a diferentes estratégias de construção.50 Mais à frente capítulo apresentaremos as variantes que cada elemento facial pode adquirir apontando, quando pertinente, onde é que estes carateres estão mais presentes ou até mesmo onde são exclusivos (em termos geográficos). Deixaremos de fora a análise de variantes que surgem nos indivíduos por algum tipo de doença ou má formação. Consideremos a cabeça na vertical, posição determinada pelo eixo vertical médio da face e pela horizontal de Frankfurt que passa pelo rebordo inferior da órbita até ao orifício de entrada do conduto auditivo externo e tenhamos em conta duas vistas: frontal e de perfil. 51 IV.2.1. Os ossos da cabeça Fig. 16) 1 - Frontal; 2 - Nasais; 3 - Maxila; 4 - Mandibula; 5 - Zigomatico; 6 - Esfen6ide; 7 - Temporal; 8 - Parietal 52 IV.2.2. Os mtisculos de superficie da cabe a Fig. 17) 1- Occipitofrontal; 2- Supraciliar ou corrugador; 3- Orbicular dos olhos; 4- Nasal; 5Levantador do labio superior e da asa do nariz; 6- Levantador do labio superior; 7- Pequeno zigomatico; 8- Grande zigomatico; 9- Ris6rio; 10- Orbicular da boca; 11- Depressor do fmgulo da boca; 12Depressor do labio inferior; 13- Musculo do mento; 14- Masseter; 15- Estemocleidomast6ideo; 16Dilatador da asa do nariz 53 Perante essa base, comum a todos os homens, os estudos feitos ao longo dos séculos definiram vários meios de analisar as variantes que ocorrem em cada individuo. Note-se que são inúmeras as propostas que foram surgindo ao longo dos séculos e que fazemos aqui apenas referência às mais importantes, corretas e pertinentes, mais originais ou que se mostram mais úteis para o estudo que aqui desenvolvemos, não seguindo exclusivamente nenhum modelo ou autor. IV.2.3. Pontos notáveis em antropometria da face Estes pontos, que procuram situar os sinais exteriores mais pertinentes, foram definidos para que mais facilmente e universalmente se pudessem estudar as variantes que o corpo humano assume. No entanto estes pontos são muitas vezes difíceis de localizar rigorosamente uma vez que a sua determinação está interligada com uma estrutura semi-invisível e parcialmente sujeita a alterações pela natureza mole dos tecidos. A nomenclatura aqui utilizada une os termos mais tradicionais com alguns outros, provenientes da obra de Leslie Farkas51, tal como sugere Artur Ramos.52 54 Fig. 18) Pontos notáveis na vista frontal . Fig. 19) Pontos notáveis na vista de perfil 55 IV.2.4. As medidas lineares, profundidade e ângulos da face Fig. 20) Medidas lineares da face 56 Fig. 21) Medidas de profundidade da face IV.2.5. Ângulos e Inclinações do Perfil Para se fazer uma análise de perfil é necessário que a cabeça do indivíduo esteja colocada de modo a que a linha média do perfil (que passa pela raiz nasal, base do septo nasal e bordo inferior da mandíbula) fique na vertical e a linha que une o rebordo inferior da órbita e o orifício de entrada do conduto auditivo externo esteja na horizontal.53 Nesta posição podemos definir e comparar determinados ângulos e inclinações muito próprios de cada indivíduo. Peter Camper definiu, no século XVIII, um meio de analisar estes ângulos do perfil facial. Para isso começou por definir o plano de Camper (que passa pelo meato auditivo externo e pela base do nariz) e, ao estudar a sua relação com um segundo plano definido pela glabela e bordo alveolar do maxilar superior, obteve o ângulo facial. Apesar 57 de Camper ter iniciado este estudo para comparar diferentes espécies, na busca de um índice de inteligência relacionado com a amplitude deste ângulo, acabou por comparar também indivíduos de diferentes proveniências definindo que este ângulo se aproxima dos 80º nos Europeus, 70º nos Africanos, 58º nos Orangotangos e 90º no ideal de beleza representado nas estátuas da antiga Grécia: as faces que apresentem um ângulo maior do que 80º desviam-se dos cânones da Arte enquanto que as que apresentam um ângulo menor do que 70º apresentam semelhanças com os primatas.54 Os europeus tendem a ter a fronte mais desenvolvida para a frente55 (estes apontamentos e estudos sobre as características próprias do europeu têm validade não somente para os indivíduos que vivem na Europa política que conhecemos mas também para os habitantes da Síria, Egito, Etiópia e Norte de África56). Estes estudos foram desenvolvidos sobre os ossos da cabeça (desprovidos de partes moles) pelo que a medição do ângulo de Camper, a partir de fotografias ou desenhos de rostos de indivíduos, como acontece no estudo que se segue, nos permite apenas chegar a valores aproximados. 58 Fig. 22) Ilustração de Peter Camper, 1971 Com o mesmo propósito Jean Gaspard Lavater, contemporâneo de Camper, cria um sistema de linhas cujos cruzamentos indicam os vários ângulos da cabeça de perfil. Este sistema indica o desenho das seguintes linhas: bbb horizontal definida pela raiz dos cabelos, eeee horizontal entre o sobrolho e a raiz do nariz, fff horizontal que passa pela ponta do nariz, ggg horizontal que passa pelo meio da boca, cc vertical tangente à ponta do nariz, ii vertical tangente ao mento, hhhh vertical tangente à raiz dos cabelos na fronte, aaa tangente à ponta do nariz e ao mento e ddd tangente à ponta do nariz e à fronte. Fig. 23) Análise de perfil segundo Lavater 59 A inclinação geral do perfil poderá, por sua vez e segundo os estudos de Albert Durer, indicar um perfil direito (traços num plano vertical), convexo (em que o topo da cabeça e mento estão retraídas em relação ao nariz, proeminente) ou côncavo (em que nariz se apresenta deprimido face à linha tangente à fronte e mento). 57 A convexidade da face, segundo Legan58, pode ser medida pelo ângulo formado pela glabela, subnasale e pogonion. Um ângulo de 12º indicará uma convexidade normal (perfil direito) mas que pode variar entre os 8º e os 16º.59 Fig. 24) Ângulos da cabeça de perfil IV.2.6. Índice cefálico e forma do crânio A forma do crânio difere de povo para povo, nas suas linhas gerais e detalhes, em cada indivíduo.60 O índice cefálico é definido por uma equação que divide a largura da cabeça pelo 60 seu comprimento e cujo resultado se multiplica por cem. Estas medidas são estudadas pela Antropometria que utiliza o método definido por Retzius que separa os indivíduos em três grupos: os dolicocéfalos (de cabeça comprida e estreita), os mesocéfalos (de cabeça intermédia) e os braquicéfalos (de cabeça curta e larga). Assim, nos primeiros o comprimento está para a largura em 100:75, nos mesocéfalos em 100:88 e nos braquicéfalos em 100:80. 61 Analisando o crânio de perfil, o Europeu será aquele onde o comprimento da cabeça assume valores mais baixos. 62 Por outro lado a parte posterior do crânio é mais arredondada nos indivíduos de proveniência africana.63 É nos caucasoides que surgem os crânios mais volumosos.64 No entanto, só na Europa é possível encontrar qualquer um dos tipos enumerados por Retzius: nos Alpes, do noroeste italiano, bem como nos Balcãs, o índice cefálico ronda os 89 (cabeça extremamente arredondada) com uma frequência inexistente em qualquer outra parte do Mundo. Por outro lado, na Córsega, relativamente próxima e também ela no Mediterrâneo, o índice ronda os 73 (cabeça extremamente longa).65 Também no norte, entre os teutónicos, prevalece a cabeça longa. A distância de algumas centenas de quilómetros pode separar índices cefálicos completamente diferentes, mesmo dentro da mesma nacionalidade (como acontece em França e Itália, por exemplo). Ripley assinala a correlação entre as proporções da cabeça e a forma da face como uma forma rápida e assertiva para identificar o tipo racial de um indivíduo (ao mesmo tempo que defende a relação entre as formas ósseas destas: cabeça longa – face oval, cabeça curta – face arredondada). Para além disso aponta como a forma da cabeça se mostra imune a alterações a nível ambiental e circunstâncias locais, alimentação ou estilos de vida.66 61 Fig. 25) Esquema do índice cefálico distribuído em Espanha segundo Ripley No estudo que apresentamos mais à frente os desenhos feitos a partir das fotografias recolhidas não apresentam todo o comprimento da cabeça vista de perfil. Esta simplificação mostrou-se pertinente para que a comparação do rosto em ambas as vistas fosse mais direto. No entanto o comprimento da cabeça foi medido a partir das fotografias e assim calculado o índice cefálico de cada indivíduo. . IV.2.7. Forma da face, fronte e mento O rosto pode apresentar diferentes formas que podemos simplificar como sendo oval, redonda, retangular, entre outras67, forma esta normalmente relacionada com a forma do crânio, seguindo a lei da concordância, não aprofundada no nosso estudo mas que sustenta a ideia de que as várias partes do corpo de um indivíduo têm relação em termos de proporção.68 Em termos geográficos podemos no entanto considerar que indivíduos mais expostos ao frio tendem a apresentar maior quantidade de gordura na face e, por outro lado, o prognatismo é associado a indivíduos provenientes de África. A face europeia tende a ser oval e menos larga do que nos outros povos.69 É no entanto na Europa que se encontram faces mais compridas e onde há mais relevos ósseos (como as apófises mastoides, mais salientes).70 62 Uma das partes da face a analisar com atenção, por influenciar em grande parte a forma do rosto, será a fronte a que Cícero71 chama a porta da alma e do espírito. A análise desta parece tão importante para o conhecimento geral de um rosto que Lavater inventa o “frontómetro”, instrumento que permite medir com mais facilidade a dimensão da fronte.72 Esta, correntemente assinalada como testa, deve a sua forma ao osso frontal que varia em altura e largura e forma geral (mais plana ou mais arredondada).73 Nela podemos encontrar uma ou duas bossas (sobre as arcadas supraciliares). Nos lados laterais a fronte é arredondada para trás (de forma mais ou menos acentuada) e na sua junção com os ossos temporais formam-se normalmente duas concavidades, as fossas temporais. A fronte poderá então adquirir diferentes formas: quadrada (com depressões notórias na zona das têmporas); redonda (mais convexa no seu centro); aberta (mais longa e com uma depressão entre as têmporas); pequena ou baixa (em que representa menos do que um terço da altura da face) ou estreita ou fechada (quando o cabelo avança sobre a face tornando-a aparentemente mais estreita).74 A fronte é preenchida na totalidade pelo músculo frontal. A inclinação da fronte também varia estando a inclinação mais comum compreendida entre os 10 e os 30º. Se a inclinação for inferior a 10º trata-se de uma fronte vertical e se for superior a 30º trata-se de uma fronte recessiva.75 Também responsável pela forma que o rosto adquire é o mento, na parte inferior da face, e que varia em forma e tamanho. Este é toda a parte compreendida deste o sulco mentolabial até à extremidade inferior da face. A notoriedade deste sulco é definida pela saliência deste e acentuada pela inclinação entre o labiale inferius e o sublabial que pode ser mais ou menos notória. A sua forma define, em conjunto com o nariz, o perfil de um indivíduo. A extremidade do mento pode apresentar uma cova ou uma prega no seu eixo médio vertical. Lavater assinala três tipos de mentos: aqueles que recuam (que este associa a mentos femininos e que apresentam uma prega pouco profunda ou inexistente); os que de perfil se apresentam na mesma vertical do lábio inferior e aqueles que ultrapassam essa vertical (mentos pontiagudos).76 No estudo realizado mais à frente classificamos os mentos respetivamente como fracos, regulares ou fortes. Identificamos ainda um quarto tipo de mento, a que chamamos estreito, e que se refere a mentos que apresentam uma altura particularmente inferior aos outros dois terços da face. A forma da face, que já vimos ter relação com a forma do crânio, distingue-se deste a nível de variação pois a face, com os seus vários pontos e ângulos, mais facilmente 63 adquire novas características que se podem mostrar representativas de pequenas localidades ou mesmo famílias.77 IV.2.8. Os olhos Os olhos são a imagem e espelho mais energético e expressivo da alma e podem variar quanto à cor, forma, forma da pálpebra e sobrancelhas.78 Estes encontram-se nas partes laterais do rosto e no centro da cabeça e estão incrustados nas órbitas e protegidos pelas pálpebras. O arco superior da órbita nasce na raiz do nariz, segue a direção do sobrolho e dissipa-se exteriormente para se juntar à apófise orbital. Estes arcos unem-se nas suas extremidades exteriores enquanto que as suas extremidades interiores se dissipam com a face lateral do nariz. O bordo das pálpebras é grosso e talhado em bisel e sobre a sua aresta externa dispõem-se as pestanas a partir de uma certa distância da comissura interna.79 Naturalmente, pela sua orientação, vemos mais facilmente o bordo da pálpebra inferior, que reflete luz. A pálpebra superior faz ainda uma prega denominada de sulco palpebral superior. O espaço entre o sulco palpebral superior e o contorno da órbita é constituído por uma parte de gordura a que damos o nome de eminência infraciliar. A relação desta eminência com a pálpebra superior é variável, podendo cobri-la na sua totalidade. Fritz Lange80, que estuda cuidadosamente a forma das pálpebras, indica seis grupos de pálpebras: em forma de pêssego (em que a eminência cobre ligeiramente a zona cartilaginosa e onde as linhas da sobrancelha e o sulco palpebral são maioritariamente paralelos e arredondados); tarsal (em que não existe quase gordura na eminência infraciliar e a zona cartilaginosa vê-se na totalidade); em maça ou moca (em que a porção interna apresenta menos tecido adiposo do que a externa); tarsal em pêssego (intermédio entre o primeiro e o segundo tipo); tarsal em moca (intermédio entre o segundo e o terceiro tipo) e angusta ou estreita (pálpebras pouco evidentes em que o espaço entre a sobrancelha e o olho é muito curto em relação aos outros tipos de pálpebra).81 64 Fig. 26) Tipos de Pálpebras segundo Lavater: 1 – em pêssego, 2 – tarsal, 3 – em maça ou moca, 4 – tarsal em pêssego, 5 – tarsal em moca, 6 – estreita ou angusta A fenda palpebral, a porta entre o olho e o Mundo, é comandada pela ação do músculo orbicular das pálpebras. Quando esta está aberta enquadra o globo ocular que apresenta uma forma ovoide que forma dois ângulos. O ângulo externo é mais agudo e chama-se canthus e o ângulo interno, maior, chama-se lacrimal. Ao observar este ângulo com atenção observamos que o seu vértice não é acentuado mas antes prolongado e arredondado formando um arco que circunscreve a carúncula. Entre a carúncula e a parte mais interna da esclerótica encontramos a membrana semilunar. Acima dos olhos e sobre as arcadas supraciliares estão as sobrancelhas, conjuntos de pelos com função protetora. Estas variam em forma e robustez mas variam dentro de todas as raças de indivíduo para indivíduo. Ferembach82 afirma que os Europeus (a que chama Leucodermes) possuem glabelas e arcadas supraciliares mais proeminentes.83 As arcadas supraciliares juntamente com o bordo superior da arcada orbital, a porção superior do músculo orbicular das pálpebras e ao volume das sobrancelhas definem a chanfradura frontal que pode ser mais ou menos volumosa. Entre as arcadas supraciliares encontramos a depressão designada como bossa nasal. A cabeça da sobrancelha, ou seja, a extremidade interna, mais próxima do eixo do rosto é normalmente mais grossa e mais pilosa e os pelos orientam-se a partir daqui para cima e para fora. À medida que se afastam do eixo médio da face os pelos ganham uma posição cada vez mais horizontal terminando por vezes mesmo a nascer de cima para baixo (mas sempre de dentro para fora), na cauda da sobrancelha. A sobrancelha está quase sempre colocada em baixo da parte interna da arcada supraciliar e não sobre ela.84 65 Rudolf Martin estuda os tons da íris e afirma serem 16.85 Estes podem todos ser encontrados na Europa. A forma dos olhos é determinada pelo clima de modo que tendem a ser mais pequenos em climas mais frios. Em qualquer ponto do Mundo a pupila é habitualmente percebida como negra e o globo ocupar branco (desde que o indivíduo em causa seja saudável). Façamos um parênteses para assinalar que as variantes a nível dos tons dos olhos, pele e cabelo funcionam exatamente da mesma forma e pelas mesmas razões entre todos os seres vivos pelo que é uma questão que desperta interesse em biólogos mesmo que não ligados à evolução humana.86 IV.2.9. O Nariz Entre os olhos e abaixo da fronte o nariz, o honestamentum faciei87, encontra-se no eixo médio da face e a sua forma deve-se à forma dos seus ossos próprios e das cartilagens. A parte superior deste, que está ligada à bossa nasal e à fronte é denominada raiz do nariz e a sua parte inferior é denominada base. A partir da raiz do nariz define-se a forma deste que lateralmente pode ser confundido com parte das faces ou bochechas. Na parte inferior formam-se as asas do nariz que apresentam com as ditas bochechas um sulco semilunar provocado pela sinuosidade das cartilagens nasais. Entre a base do nariz e os lábios surgem saliências, correspondentes aos músculos elevadores da asa do nariz e do lábio superior e entre elas a prega naso-labial.88 Os orifícios da base do nariz variam em forma, largura e direção. De dentro para fora, a forma destes orifícios é sempre convergente podendo apresentar-se divergente apenas em indivíduos provenientes de África. Estes orifícios também não costumam apresentar-se num plano horizontal visto que o septo nasal costuma apresentar-se num plano mais abaixo do que o das asas do nariz. Para analisar o nariz podemos ter em conta a sua largura, a profundidade da raiz nasal e o seu contorno (que pode ser retilíneo, convexo ou aquilino ou côncavo). Delaistre89 assinala a existência de quatro tipos de nariz (admitindo haver muitos estados intermédios entre estes): direito (que segue o alinhamento da fronte), aquilino (quando a forma geral do nariz se apresenta mais convexa), chato (quando a forma geral do nariz é concava) e largo (convexo e extenso).90 O ângulo nasal é assinalado pelas linhas que seguem a direção geral do septo e dorso nasais. A ponta do nariz pode ser regular, aguda, achatada ou bífida91 e tem a sua própria 66 inclinação: se tivermos em conta a linha que une o subnasale e a base da ponta do nariz passando pelo bordo inferior do septo nasal veremos que esta pode adquirir uma posição horizontal ascendente, logo de um nariz arrebitado, ou descendente, logo de um nariz adunco (algo também tido em conta quando calculamos o ângulo naso-labial de que falamos a cima).92 O ângulo naso-labial de que já falamos pode ser agudo (70º-80º), médio (90º-100º) ou obtuso (quando ultrapassa os 112º).93 Segundo Camper o nariz Europeu tende a ser mais direito, estreito e/ou mais aquilino. No caso das cabeças da Arte Antiga o nariz é caracterizado como estando no mesmo alinhamento que a fronte, ultrapassando a linha do lábio superior. 94 O plano do nasion é posterior em relação ao plano da glabela, a chanfradura nasal é a mais leptorrímica e os bordos laterais são cortantes.95 Dentro da Europa a forma tende a tornarse mais plana e com asas mais largas à medida que nos dirigimos para sul. 96 Esta forma está ligada ao clima: narizes de pequenos orifícios e compridos estão mais bem adaptados ao frio enquanto que maiores orifícios funcionam melhor em climas secos. No estudo realizado adiante classificamos o nariz pelo seu perfil, inclinação da sua ponta e ainda pela largura da sua base. Esta última é assinalada como estreita sempre que não ultrapassa as verticais tangentes a ambas as carúnculas. IV.2.10. A boca A boca, circunscrita pelo músculo orbicular labial, é toda a superfície compreendida entre a base do nariz e o mento97 e é considerada por Lavater como o mais expressivo de todos os órgãos.98 O comprimento da boca pode ser medido pela distância entre os dentes caninos. Por outro lado os cantos da boca situam-se no mesmo sítio que os primeiros molares.99 A forma e tamanho dos lábios determina a forma e tamanho da fenda labial. Este tamanho é também coincidente com a distância entre as pupilas ou entre os cantos internos dos limbos esclero-corneanos.100 O lábio superior aproxima-se da forma M e na sua parte média encontramos a goteira ou philtrum, rodeada por bordos salientes. O lábio inferior adapta-se à forma do primeiro e também ele apresenta duas saliências denominadas de toros. A sua forma assemelha-se à da letra W. Ambos os lábios ficam mais finos à medida que se aproximam das comissuras labiais. A arcada dentária superior excede normalmente a inferior o que faz com que lábio superior seja o mais saliente. A dimensão dos lábios, mais ou menos 67 carnudos varia; igualmente varia o seu tom, sempre mais avermelhado do que o tom geral do rosto.101 Nos europeus a boca é normalmente de tamanho médio e os lábios tendem a ser finos e pouco salientes.102 Os lábios grossos, tal como o prognatismo, estão associados a indivíduos africanos (apesar da razão desse facto ainda não estar clara) enquanto que nos asiáticos os lábios tendem a ser bastante finos. No estudo que apresentamos são assinalados alguns indivíduos com o lábio superior, inferior ou ambos finos. Estes foram assinalados quando foi feita a comparação com os demais indivíduos uma vez que sobressaem pela sua finura. IV.2.11. As orelhas A orelha tem a curiosa particularidade de, apesar das variadas formas que assume, refletir sempre os ângulos e inclinações do perfil, nomeadamente do nariz.103 O nível do bordo superior do pavilhão auricular não tem uma posição definida: pode estar situado acima da linha das sobrancelhas, ao nível da cauda desta ou ao nível da pálpebra superior. Já o bordo inferior do lóbulo pode estar acima da asa do nariz, ao seu nível, ao nível do lábio superior ou ao nível da comissura labial. Os lóbulos podem ser livres os aderentes e o tragus e antitragus podem adquirir formas muito diferentes de indivíduo para indivíduo. O hélix pode ser enrolado ou extenso cobrindo a fosseta escafoide. 104 Nos europeus o diâmetro ou diagonal da orelha é sempre um pouco oblíqua e nunca paralela à linha facial.105 IV.2.12. O Tom de pele A pigmentação da pele, transmitida através da hereditariedade, une o tom rosado dos vasos capilares com a ação da queratina (de tom amarelado) e da melanina, o protetor natural da pele contra os raios solares (e o principal responsável pelo tom que esta adquire).106 A variação da concentração deste pigmento na pele é o que faz com que existam tons de pele diferentes: indivíduos mais expostos à radiação solar necessitam de maior concentração de melanina (para que se protejam, por exemplo, de doenças cancerígenas causadas pelos raios solares malignos, como os ultravioletas que podem causar danos irreparáveis no ADN das células cutâneas107) enquanto que indivíduos que 68 habitam ambientes onde a radiação solar é deficiente devem apresentar menos desta substância na pele para que a passagem dos raios solares através dela seja facilitada (podem assim sintetizar a vitamina D, essencial ao bom funcionamento do organismo). Como já vimos os povos do Ártico são uma exceção a esta regra pois a sua alimentação, à base de peixe, é de tal modo rica em vitamina D que não necessitam de uma pele clara para a sintetizar. Os tipos de pele serão então o leucoderme (pele branca), melanoderme (pele negra) e xantoderme (pele amarela, também com algumas capacidades como filtro solar). Ferembach classifica os grupos humanos segundo a sua cor de pele definindo os melanodermes (indivíduos de pele escura), os flavodermes (indivíduos de pele clara asiáticos) e os leucodermes (indivíduos de pele clara europeus) e afirma que estes últimos possuem uma derme relativamente fina, daí ser possível ver os vasos capilares e a tez adquirir um tom rosado.108 O curioso trabalho e ainda em desenvolvimento Humanae, da artista brasileira Angélica Dass109, apresenta-nos a amplitude da escala cromática da pele humana numa série de fotografias. Apesar de esta frisar não relacionar os retratos com diferentes etnias, raças, nacionalidades ou religiões, o seu trabalho remete o observador para esse imaginário e é pertinente assinalar a semelhança entre as suas fotografias e as que utilizamos na amostra do estudo aqui apresentado. Não podemos deixar de reparar na diferente pigmentação da pele, cabelo e olhos no norte e sul da Europa. Estes são mais claros no norte, principalmente à volta do mar Báltico, e mais escuros no sul, no Mediterrâneo. São exceção a estas regras o povo da Sicília e Médio Oriente (onde os olhos claros são muito comuns, no caso da primeira talvez pelas invasões normandas, e no caso da segunda pelas invasões das cruzadas cristãs) e os povos do Ártico (de pele escura que assumimos ser resultado da sua dieta rica em vitamina D, processo de que já falámos). Como vimos, estas predominâncias estão particularmente ligadas à melhor adaptação ao meio ambiente, a seleção natural. 69 Fig. 27) Ilustração de Ripley assinalando a distribuição dos “traços morenos” na Europa Camper, que observava com atenção os diferentes homens que chegavam ao porto de Amsterdam, assinala que nem sempre os homens diferem em tom de pele de uma forma fácil de compreender (como no caso dos lapões, do norte da Europa, que têm uma pele mais escura do que muitos africanos ou os índios americanos com feições aparentadas com o norte asiático). Cada nação tem no seu rosto algo de distintivo que se perpetua e se reproduz constantemente, até que a eventual mistura dos diferentes povos entre si vem alterar ou mesmo apagar completamente esse sinal característico.110 IV.2.13. O Cabelo A tonalidade do cabelo está também ligada à melanina. É também esta substância que, quanto mais presente mais escuro se apresenta o cabelo. Normalmente a quantidade 70 de melanina presente na pele será equivalente à presente no cabelo e é por isso que individuos leucodermes têm uma vasta gama de tonalidades de cabelo (podendo ser quase branco) mas os melanodermes possuem cabelo negro. Existem duas exceções: os albinos, que não sintetizam a melanina, e os ruivos, cuja cor do cabelo está ligada à presença de um outro pigmento chamado rodoqueratina. Para a forma dos cabelos (mais ou menos ondulados e mais ou menos grossos) existem também várias explicações relacionadas, mais uma vez, com o clima. Cabelos mais grossos e escuros protegem melhor a cabeça do sol, e cabelos encaracolados facilitam a passagem do ar para refrescar o couro cabeludo. Cabelos mais claros tendem a ser mais finos e frágeis pois normalmente não precisam de criar uma barreira de proteção tão forte. Assim, em indivíduos de pele escura encontramos cabelos muito grossos, encaracolados e escuros; nos povos orientais cabelos lisos e negros e nos caucasoides lisos, finos e em vários tons e formatos. Note-se que só surgem cabelos loiros, castanhos-claros e ruivos nos caucasoides. O embranquecimento precoce e a calvície estão também mais presentes nos europeus.111 Em termos de textura podemos considerar a Europa como uma zona intermédia entre os típicos cabelos lisos asiáticos e os cabelos encrespados africanos. Faça-se um parênteses para assinalar que, ao contrário da face e do crânio que apresentam uma relação intrínseca entre si, isto não acontece entre o tom do cabelo e o tom dos olhos. A definição de alguém como “moreno” ou “loiro” têm muitas variantes e níveis que apesar de ligados à pigmentação estão mal definidos. Se no norte da Europa encontramos cerca de um terço de loiros puros e 10% de morenos puros, no sul essa percentagem desce para apenas 3% de louros puros na Sardenha. 112 Em Portugal, um estudo feito pelo Dr. Ferraz de Macedo,113 com uma amostra de 1800 indivíduos, identificou menos de 2% destes com cabelos loiros, um quinto com cabelos negros e os restantes apresentando variações de castanho.114 71 1 ALBERTI, Leon Battista – On Painting. New Haven and London: Yale University Press, 1966, p.73. QUARESMA, José – Zonas mais que comuns do Desenho e da Gravura .in MARQUES, António Pedro Ferreira et alt. – Desenhar, saber Desenhar. Lisboa: Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2012. p.142. 3 RAMOS, José Artur - Retrato : o Desenho da Presença. Lisboa : Campo da Comunicação, 2010. p.11. 4 Philip Guston in JACINTO, João – Do Verídico ao Verdadeiro. In MARQUES, António Pedro Ferreira et alt. – Desenhar, saber Desenhar. Lisboa: Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2012. p.123. 5 The fuel on which science runs is ignorance. (…) A true scientist is bored by knowledge. RIDLEY, Matt – Genome. London: Harper Perennial, 2004. p. 271. 6 GANTES, Manuel – O Desenho em Aberto. In MARQUES, António Pedro Ferreira et alt. – Desenhar, saber Desenhar. Lisboa: Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2012. p.127. 7 RAMOS, José Artur, op. cit., 2010. p.37. 8 SABINO, Isabel – A Pintura depois da Pintura. Lisboa: Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2000. p.10. 9 L’Art du Portrait eft le plus naturel, le plus noble, & le plus utile de tous les Arts – il en eft le plus difficile, quelque facile qu’il paroiffe & qu’il devroit être. (…) Sans une conoiffance exacte du rapport qui fe trouxe entre les parties du vifage, entre les yeux & la bouche par exemple, ce ne fera qu’un pur hazard, & un très-grand hazard , fi le Peitre réuffit à marquer ces rapports dans fes compofitions. LAVATER, Jean Gaspard - Essai sur Physiognomie, Destiné a Faire Connoitre l`Homme & à le Faire Aimer. Paris: A La Haye, 1783.p.214-219. 10 Cfr., MARCELINO, Américo – O Saber Secreto de Hockney, in MARQUES, António Pedro Ferreira et alt. – Desenhar, saber Desenhar. Lisboa: Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2012. P.72 11 Cfr., MARQUES, António Pedro Ferreira et alt. – Desenhar, saber Desenhar. Lisboa: Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2012. p.107. 12 SABINO, Isabel, op. cit., 2000. p.227. 13 Cfr., MARQUES, Diana – Desenhar a Ciência, Saber o que se Desenha. In MARQUES, António Pedro Ferreira et alt. – Desenhar, saber Desenhar. Lisboa: Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2012. p.150. 14 Celui-lá, certainement n’avait pas raison qui se plaiguait autrefois de ce que la nature n’avait pas mis une fenestre au-devant du coeur pour voir les pensées et les desseins des hommes (…) elle a répandu toute son âme au dehors, e til n’est point besoiu de fenestre pour voir ses mouvemens, ses inclinations et 2 72 ses habitudes, puisqu’elles paraissent sur le visage et qu’elles y sont écritès en caracteres si visibles et si manifestes. CHAMBRE, Marin Cureau de la – L’Art de Connoistre les Hommes. Amsterdam: Chez Iacques le Jeune, 1660. p.123-124. 15 RAMOS, José Artur, op. cit.,, 2010. p.193. 16 La Physiognomie , comme toutes lesa utres Sciences, peut jufqu’à un certain point, être réduite en règles déterminées, avoir des caractères qu’on pourra enfeigner & apprendre, communiquer, recavoir, & tranfmettre. LAVATER, Jean Gaspard, op. cit., 1783. p.63. 17 RITTO, Isabel – op. cit., 2001, p.191. 18 Esfolado apresenta-se como o modelo mais próximo do corpo humano dissecado pelo que é um objeto de estudo essencial. (veja-se o caso do LÉcorché (esfolado) de Houdon de 1767 estudado na maioria das academias europeias incluído a FBAUL) FARIA, Alberto – O estudo da anatomia na colecção de Desenho Antigo da FBAUL. in TAVARES, Cristina Azevedo, et alt. – Representações do Corpo na Ciência e na Arte. Lisboa: Fim de Século Edições, 2012. p.134. SCHREF, Guilhem et alt. – Jean-Antoine Houdon: sculptor of the enlightenment. London: University of Chicago Press, 2003. p. 63. 19 Termo utilizado desde a antiga Grécia referente à representação e imitação da Natureza. 20 The technological manifesto of Futuristic painting – whose claim was: “We demand, for ten years, the total suppression of the nude in painting” MARCO, Silvia Di – Naked to the Flesh. Some Notes on Medical Imaging, Modernism and Body Art in TAVARES, Cristina Azevedo, et alt. – Representações do Corpo na Ciência e na Arte. Lisboa: Fim de Século Edições, 2012. p.42. 21 CARVALHO, Lima – Programa da Disciplina de Modelos (Curso de Pintura) da FBAUL. 2007-2008. 22 ARRUDA, Luísa – Imagens do Corpo na Academia de Belas-Artes – Método de Aprender o Desenho. In TAVARES, Cristina Azevedo, et alt. – Representações do Corpo na Ciência e na Arte. Lisboa: Fim de Século Edições, 2012. p.140. 23 CALADO, Margarida – Desenhar o Corpo – uma Metodologia de Ensino Constante na Arte Ocidental in TAVARES, Cristina Azevedo, et alt. – Representações do Corpo na Ciência e na Arte. Lisboa: Fim de Século Edições, 2012. p.110. 24 Médicos gregos do II século a.c., fundadores da Escola de Medicina de Alexandria e os primeiros a fazer dissecação de corpos humanos. 25 Galeno, 129-217 d.c., médico e filósofo romano. 26 VELOSO, António José de Barros – André Vesálio: a Descoberta da Anatomia in TAVARES, Cristina Azevedo, et alt. – Representações do Corpo na Ciência e na Arte. Lisboa: Fim de Século Edições, 2012. p.16. 27 Giotto (1266-1337), pintor e arquiteto italiano considerado o introdutor da perspetiva na pintura da época. 28 Cennino Cennini (1370-1440), pintor italiano influenciado por Giotto, CALADO, Margarida, op. cit.,, 2012. p.113. 29 Leonardo Da Vinci (1452-1519), cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico italiano; uma das figuras mais importantes do alto Renascimento. 30 Vesalius (1514-1564), anatomista e físico belga. 31 Sete livros ilustrados com rigor sobre a constituição do corpo humano. 32 RITTO, Isabel, op. cit., 2001, p.185. 33 VELOSO, António José de Barros, op. cit., 2012. p.17. 34 Albert Durer (1471-1528), gravador, pintor, ilustrador, matemático e teórico de Arte alemão; uma das figuras marcantes do Renascimento nórdico. 35 RITTO, Isabel – Albretch Durer: um Pioneiro da Antropometria. In TAVARES, Cristina Azevedo, et alt. – Representações do Corpo na Ciência e na Arte. Lisboa: Fim de Século Edições, 2012. p.104. 36 Vasari (1511-1574), pintor e arquiteto italiano. 37 CALADO, Margarida, op. cit., 2012. p.115. 38 RAMOS, José Artur, op. cit., 2010. p.191. 39 Gaspard Lavater (1741-1801), filósofo, poeta e teólogo suíço, fundador da Fisiognomia. 40 LAVATER, Jean Gaspard, op. cit., 1783.p.65. 41 Michele Savonarola (1452-1498), padre dominicano dedicado à filosofia e medicina. 42 GAURICO, Pomponio, Sobre la escultura, Madrid: AKAL publicaciones, 1989. p. 104. 43 Gaurico (1475-1558), astrólogo, astrónomo e matemático italiano. 73 44 Francisco d’Holanda (1517-1584), humanista, arquiteto, escultor, desenhador e pintor português considerado uma das figuras mais importantes do Renascimento em Portugal. RAMOS, José Artur Retrato : o Desenho da Presença. Lisboa : Campo da Comunicação, 2010. p194. 45 HOLANDA, Francisco de –Da Pintura Antiga. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984, p.107. 46 ALBRECHT, Hans Joachim – Escultura en el siglo XX. Barcelona: Editorial Brume, 1981. p.87. 47 Francisco de Assis Rodrigues (1801-1877), escultor português envolvido na fundação da Academia de Belas-Artes de Lisboa. 48 RODRIGUES, Francisco de Assis – Methodo das Proporções, e Anatomia do Corpo Humano, Dedicado à Mocidade Estudiosa, que se aplica às Artes do Dezenho. Lisboa: Typographia de A.S. Coelhos & Comp.ª, 1836. p.18. 49 PENERTY, Antoine-Joseph – La Conoissance de l’Homme Moral par celle de l’Homme Physique. Berlin: G.J. Degred, 1776. p.94. 50 RAMOS, José Artur - Retrato : o Desenho da Presença. Lisboa : Campo da Comunicação, 2010. p.57. 51 Leslie Farkas (1915-2008), médico húngaro pioneiro da antropologia craniofacial moderna. 52 RAMOS, José Artur, op. cit., 2010. p.63. 53 RITTO, Isabel, op. cit., 2001, p.203. 54 CAMPER, Peter – Dissertation sur les Variétés Naturelles qui Caractérisent la Physionomie des Hommes des Divers Climats et des Différents Ages. Paris: A la Haye. 1791.p.41. 55 DELESTRE, Jean-Baptiste – De la Physiognomie. Paris: Jules Renouard Library Editeur, 1866.p.65. 56 CHAUSSIER, François – Noveau Manuel du Physionomiste et du Phrénologiste. Paris: Librairie Enciclopédique de Roret, 1838.p.222. 57 DELESTRE, Jean-Baptiste, op. cit., 1866.p.138. 58 TOLLETH, H. – Parameters of Caucasian attractiveness. In MATORY, J. R. – Ethnic consideration in facial surgery. Philadelphia. Lippincott-Raven. 1998. 59 RITTO, Isabel – op. cit., 2001, p.223. 60 Le forme du crâne différe de peuple à peuple, dans ses généralités et par les détails, chez individus. DELESTRE, Jean-Baptiste, op. cit.,.p.160. 61 RITTO, Isabel, op. cit., 2001, p.221. 62 CAMPER, Peter, op. cit., 1791.p.48. 63 LAVATER, Jean Gaspard, op. cit., 1783. p.145. 64 RITTO, Isabel – op. cit., 2001, p.204. 65 RIPLEY, William Z. - The Races of Europe : a Sociological Study. New York: D Appleton & Company, 1915. p.55. 66 Cfr., Idem. p.39-52. 67 LAVATER, Jean Gaspard, op. cit., 1783. 68 Cfr., RAMOS, José Artur, op. cit., 2010. p.237. 69 CAMPER, Peter, op. cit., 1791.p.55. 70 RITTO, Isabel, op. cit., 2001, p.204. 71 Cícero (106-43 a.c.), filosofo, orador, escritor, advogado e político romano. 72 RAMOS, José Artur, op. cit., 2010. p.222. 73 FAU, Julien – Anatomie des Formes du Corps Humain, a lÚsage des Peintres et des Sculpteurs. Paris: [s.n.], 1865. p.171. 74 PENERTY, Antoine-Joseph, op. cit., 1776.p.97-103. 75 RAMOS, José Artur, op. cit., 2010. p. 106. 76 RAMOS, José Artur, op. cit., 2010. p.228. 77 Cfr., RIPLEY, William Z., op. cit., 1915. p.50. 78 PENERTY, Antoine-Joseph, op. cit., 1776.p.110. 79 RAMOS, José Artur, op. cit., 2010. p.79. 80 Fritz Lange, médico alemão do século XX. 81 LANGE, Fritz – El Language del Rostro. Barcelona: Luis Miracle, 1942. p.174. 82 Ferembach (1924-1994), antropologista francês, especializado em antropologia física. 83 RITTO, Isabel, op. cit., 2001, p.219. 84 RAMOS, José Artur, op. cit., 2010. p.75. 85 RITTO, Isabel, op. cit., p.216. 86 Cfr., RIDLEY, Matt – Darwins Modernos. National Geographic. Lisboa: RBA Revistas Portugal. Vol. 8, nº 95 (Fevereiro 2009). p. 34. 74 87 Ou seja “o mais honesto da face”, RAMOS, José Artur - Retrato : o Desenho da Presença. Lisboa : Campo da Comunicação, 2010. p.228. 88 RAMOS, José Artur, op. cit., 2010. p.76. 89 Louis Delaistre (1746-1832), escultor francês. 90 DELAISTRE, Louis – Cours Méthodique du dessin et de a Peinture. Paris: Imprimerie de Hennuyer, 1842.p.155. 91 RITTO, Isabel, op. cit., 2001, p.243. 92 RAMOS, José Artur, op cit., 2010. p.106. 93 RITTO, Isabel, op. cit., 2001, p.245. 94 CAMPER, Peter, op. cit., 1791.p.45. 95 RITTO, Isabel, op. cit., 2001, p.245. 96 RIPLEY, William Z., op. cit.,1915. p.122. 97 RAMOS, José Artur, op. cit., 2010. p.77 98 Idem., p.225 99 CAMPER, Peter, op. cit., 1791.p.44. 100 RITTO, Isabel, op. cit., 2001, p.240. 101 RAMOS, José Artur, op. cit., 2010. p.78 102 DELESTRE, Jean-Baptiste, op. cit., 1866.p.65. 103 RAMOS, José Artur, op. cit., 2010. p.77. 104 RITTO, Isabel, op. cit., 2001, p.248. 105 Cfr., CAMPER, Peter, op. cit., 1791.p.44. 106 BREATHNACH, A. S. - Melanin Pigmentation of the Skin. Oxford : Oxford University Press,1971. p.3. 107 SWERDLOW, Joel, L. – Desmascarar a Pele. National Geographic. Lisboa: RBA Revistas Portugal. Vol. 2, Nº 21 (Dezembro 2002). p. 2. 108 FEREMBACH, Denise – L’Homme, son Évolution, sa Diversité. Paris: CNRS Editors, 1998. p.502. 109 n. 1979, artista brasileira, vive e trabalha em Madrid, Espanha. 110 Chaque people a donc dans la figure quelque chofe de difinctif qui fe perpétuo & fe reproduit conftamment, jusqu’à ce que le mêlange éventuel des differénts peuples entre eux vienne altérer ou même effaçer entièrement ce figne caractèriftique. .CAMPER, Peter, op. cit., 1791.p.14. 111 Cfr., RITTO, Isabel, op. cit., 2001, p.226. 112 Cfr., RIPLEY, William Z., op. cit., 1915. p.65-70. 113 Ferraz de Macedo (1845-1907), medico português; desenvolveu complexos estudos antropométricos sobre a população portuguesa. 114 RIPLEY, William Z., op. cit., 1915. p.71. 75 V. ESTUDO V.1. Introdução Compreendidos todos os conceitos e dominados todos os meios de interpretação e análise das variantes antropométricas da face resta-nos aplicar todos estes conhecimentos a uma amostra real e atual. Este estudo inicialmente idealizado para uma amostra de todo o Mediterrâneo Europeu acabou por ser confinado à costa Mediterrânica da Península Ibérica pela complexidade do estudo e pelas premissas de uma tese de mestrado que implicam ser realizada em determinado tempo e com uma determinada extensão. Assim este estudo é uma amostra do que pode ser feito em maior escala (desejo que fica para já por realizar mas que esperamos ser completo em breve). A restrição à Península Ibérica pareceu-nos lógica por, para além de ser o espaço do Mediterrâneo em que nos inserimos ser uma área definida não só a nível geográfico mas também a nível de história, migrações, invasões e cultura comuns bem como ser o espaço geográfico a que mais facilmente temos acesso para uma amostra fidedigna e reunida exclusivamente para este estudo. Definido o espaço restam-nos dois passos: conhecer bem a amostra, isto é, os indivíduos que habitam na costa mediterrânica da Península Ibérica, a sua história, o seu passado, antepassados e cruzamento entre povos que aí habitaram, bem como todos os dados que possamos recolher a nível genético; definir o método de recolha da amostra, quais os parâmetros para que esta amostra se mostre válida e a sua extensão para que o estudo possa ter validade. Precorridos todos estes passos a análise da amostra deverá ser correta, pertinente e conclusiva não só a nível anatómico mas também em relação aos campos da história e da genética. Deixemos aqui uma nota para explicar que a inclusão da costa sul de Portugal como costa mediterrânica, apesar de não ser banhada por este mar, se mostra pertinente não só para o nosso estudo mas também para outros anteriores a este, visto partilhar com o resto da costa mediterrânica da península (bem como com outros pontos do mediterrâneo) o mesmo envolvimento histórico e ambiental, social, cultural e religioso.1 Esta costa sul das terras lusitanas tem muito mais parecenças, a todos os níveis com os da costa sul espanhola do que com as da costa oeste portuguesa devido às migrações que por aí passaram, os portos que aí foram instalados ao longo dos séculos, clima (ainda protegido pela costa africana, ao contrário de toda a costa oeste portuguesa fustigada pelo 75 Atlântico),costumes e noção de honra e orgulho tão marcantes nesta área e reconhecidos como marcos da população mediterrânea por organizações como a UNESCO.2 Apesar de estarmos aqui apenas perante uma fronteira, Portugal e Espanha, é importante referir o quanto estas delimitações políticas são despropositadas para um estudo de natureza científica que visa estudar os caracteres faciais que como vimos são transmitidos de geração em geração e que, como tal, refletem a genética de um povo. Deixemos para já claro que as fronteiras não têm, na maior parte das vezes, nada a ver com a genética dos povos e são definidas por razões tão simples como um rio ou uma massa montanhosa. Estas divisões, de natureza política, unem muitas vezes regiões distintas, algumas delas com culturas e dialetos próprios, e separam povos com uma história e antepassados comuns (consequentemente se conhecermos apenas uma cidade ou um região de um país, estamos longe de o conhecer na sua totalidade). A geografia estabelece sempre, e independentemente das convenções humanas, certas relações físicas entre esta enorme massa de território a que chamamos Estados: indicaremos, com base no mapa, o que há de evidente nestas relações naturais.3 V.2. Contextualização V.2.1. Contextualização: História e Ambiente Físico A Europa, que já vimos ser como um patchwork de povos, é também um patchwork a nível climático dividindo-se em quatro zonas4. Se na Andaluzia (sul de Espanha) o clima pode mesmo ser considerado subtropical, no extremo norte a neve e o gelo são uma constante durante quase todo o ano enquanto que as ilhas diferem muitas vezes do continente e são verdadeiro microclimas5 Quanto à vegetação, a Europa é maioritariamente constituída por zonas agrícolas intercaladas por flora mediterrânea (rasteira e perene) nos países do sul, floresta temperada mista na Europa Central e Ilhas Britânicas, Dinamarca e parte da Rússia e floresta boreal na Escandinávia e Rússia e estepes também na Rússia. Mas, mesmo em pequenas distâncias, as diferenças podem ser abruptas. Só no Mediterrâneo encontramos uma grande riqueza e diversidade a nível físico variando entre as quentes e secas planícies do sudoeste espanhol e as costas insalubres da Albânia.6 Na costa mediterrânica da Península Ibérica, a que aqui nos dedicamos, 76 encontramos planícies quentes e secas e uma vegetação perene e rasteira com invernos temperados e curtos. A única massa montanhosa a referir serão os Pirenéus, que definem a fronteira entre Espanha e França, no nordeste, e que consequentemente marcam um limite para o nosso estudo7. Todos estes predicados marcaram esta região como extremamente propícia à vida humana e, consequentemente, os fósseis e vestígios da vida pré-histórica são aqui facilmente encontrados (bem como muitos vestígios de civilizações posteriores que uma após outra colonizaram a região e de que iremos agora falar). Já vimos, de uma maneira geral, como é que os antepassados do Homem moderno saíram de África e se espalharam pelo globo mas parece-nos pertinente, como já foi referido atrás, conhecer a história não só da região que aqui estudamos mas também a história dos povos envolventes para que possamos compará-los em termos de proximidade ou movimentos populacionais comuns.8No Paleolítico (há aproximadamente 700 mil anos)9 a Europa era povoada pelo Homo erectus e pelas primeiras formas de Homo sapiens onde se inclui o Homem de Neandertal. Este teve o seu reinado até há 40 mil anos quando o Homo sapiens moderno se começou a instalar, acabando o primeiro por se extinguir. Como já vimos, os cruzamentos poderão ter ocorrido mas pontualmente. Dentro desta espécie de Homo sapiens sapiens encontramos já algumas variantes, diferentes raças que apresentavam índices cefálicos diferentes e variantes antropométricas marcadas e distintas sendo que destas a raça mais marcada e conhecida é o Homem de Cro-Magnon. No último período glaciar, a Glaciação de Wurm, já os vários tipos ancestrais de nórdicos, mediterrâneos e outros (à exceção dos alpinos que terão vindo para a Europa mais tarde) habitavam a Europa e apresentavam características distintas, apesar de todos apresentarem características ainda hoje associadas aos caucasianos.10 Este período define-se como o Mesolítico (entre à 12 e 10 mil anos atrás).11 Talvez possamos afirmar que, durante este período, a população Europeia seria dolicocéfala até às migrações vindas da Ásia, de povos mesocéfalos para a Europa Central, hoje representados pelas comunidades alpinas.12 Em termos culturais os vestígios deste período encontrados em todo o Mediterrâneo, desde Israel à Península Ibérica, são muito semelhantes.13 Seguiu-se o Neolítico que se distingue pelo domínio da agricultura que se considera ter surgido no Crescente Fértil, no sudoeste asiático. Surge a base da economia pela troca de produtos e consequentemente surge a cerâmica (para transporte e armazenamento). Estes povos seriam indo-europeus.14 77 O inicio da agricultura permitiu o aumento da densidade populacional e torna a migração dispensável. Começam a criar-se tribos associadas a determinados locais, estabelecem-se as primeiras aldeias e definem-se fronteiras (que aumentam lentamente para que seja cultivado cada vez mais terreno). Se antes os mais fracos, mais velhos e doentes eram deixados para trás por se tratarem de um fardo para as migrações, agora deixam de o ser. É possível que, no Mundo, tivessem apenas existido 10 milhões de pessoas, na altura em que foram feitas as primeiras experiências de cultivo e de criação de rebanhos. Contudo em 2000 a.C. a população do Mundo estava, possivelmente, a chegar aos 90 milhões. 2000 anos depois, na época de Cristo, esta população situava-se perto dos 300 milhões.15 O conhecimento da agricultura rapidamente se espalhou (primeiro nos climas mais propícios, mediterrâneo e parte central e ao longo do curso de rios). Visto que algumas ilhas eram também já povoadas podemos concluir que se dominaria já algum tipo de embarcação primitiva.16 Começa aqui começa o período da Antiguidade, desde a invenção da escrita, pelos sumérios, até à queda do Império Romano do Ocidente e início da Idade Média. Entre 4000 e 3000 a.C. descobre-se o uso do cobre, fácil de extrair e trabalhar e constroem-se machados e ornamentos. São também deste período a maioria dos monumentos megalíticos que conhecemos como as antas, dolmens e menires (e o tão conhecido Stonehenge). A localização destas descobertas comprova como os agricultores de então já povoavam grande parte da Europa. Por esta altura algumas civilizações europeias eram já notórias.17 No início do terceiro milénio a.C. terá sido domesticado o cavalo e criadas as primeiras carroças e, a partir daí, toda a transmissão de técnicas e conhecimento foi acelerada. 18 No final do Calcolítico (Idade do Cobre) a Península Ibérica seria povoada por fortes cidades de comércio costeiras provenientes do norte de África.19 Por volta do ano 2000 a.C. surgem as primeiras dinastias de tribos pastorais falantes de línguas indo-europeias. No mesmo período assinala-se a Era do Bronze em que as civilizações europeias mais avançadas, tanto a nível cultural como social e político, estariam sediadas na Grécia (minoas e micénicos) 20 , a par com os impérios Hitita da Anatólia, Faraó do Egipto e civilizações da Mesopotâmia.21 78 Neste período a civilização egípcia estava no seu auge. Era sem dúvida a civilização mais avançada até então com brilhantes médicos e engenheiros (tal como Homero indica na sua obra Odisseia). Estas três grandes potências mundiais eram, no entanto, constantemente ameaçadas por imigrantes errantes e bélicos vindos especialmente das estepes onde continuavam a praticar o nomadismo. 22 Durantes estes ataques as civilizações terão sido lentamente empurradas para sul. A Idade do Ferro (primeiro milénio a.C.) surge primeiro entre os egeus e depois mais a norte, no centro da Europa, com a Cultura de Hallstatt.23. Quando chega ao mediterrâneo o trabalho do ferro desenvolve-se particularmente em Itália onde surge o povo etrusco falante de uma língua extraindoeuropeia (e cuja proveniência é desconhecida).24 Também durante o primeiro milénio a Península Itálica é invadida a norte por um povo aparentado com o Etrusco e por emigrantes vindos da Gália, a civilização Hallstatt, celta. A sua fusão originou os celtaiberos. Estes não chegaram à Espanha meridional onde se iriam estabelecer portos fenícios.25 Por volta de 750 a.C. os Gregos colonizam grande parte do território mediterrâneo pela mesma altura em que os Fenícios colonizam ilhas agora espanholas e italianas e a costa oriental de Espanha e norte de África (tal como contam a Ilíada e a Odisseia). Estes acabariam por não vingar face às opressões gregas mas uma das suas cidades, Cartago, impõe-se e dela proveem os cartagineses.26 No final do primeiro milénio a.C. o oriente mediterrâneo era inteiramente controlado pelos gregos (formados pela civilização helénica originária de Creta e pelos os etruscos) e a decadência do império hitita estava eminente. No entanto os Romanos, fortes em termos sociais, políticos e culturais, rapidamente começaram a tomar conta da Europa Central e Mediterrâneo.27 É durante o este império que se populariza a alcunha de “o Grande Mar” ou Mare Nostrum (o nosso Mar).28 Este foi o período histórico em que o Mediterrâneo esteve mais unido a nível político.29 No entanto o Império Romano teve como principal oponente os movimentos bárbaros que no século IV d.C. fizeram sucumbir a parte ocidental do Império30. Destes movimentos bárbaros destacaram-se alguns, mais poderosos: os Godos estabeleceram-se no sudoeste russo; os Ostrogodos em Itália; os Visigodos no Sudoeste Francês e Península Ibérica (século VI31); os Anglo-saxões na Alemanha e Países Baixos e mais tarde (século V d.C.) na Inglaterra. Os bárbaros acabaram por afetar toda a Eurásia de forma semelhante: as suas técnicas agrícolas eram rudimentares pelo que necessitavam de vastas terras e nunca deixam de ser povos seminómadas. 79 Não há, portanto, qualquer pureza racial nestes bárbaros que pisam o solo chinês ou romano, mas antes o resultado composto de uma longa fermentação.32 Fig. 28) Expansão Romana e movimentos Bárbaros na Europa segundo Cavalli-Sforza Note-se que nos referimos apenas aos maiores movimentos e que o seu início, duração e local exato não estão ainda definidos. As invasões bárbaras não afetam no entanto os Balcãs, parte do Império Romano do Oriente o que leva o Imperador romano Constantino, no século III, a transferir a capital para Bizâncio (mais tarde com o nome de Constantinopla) e surge o Império Bizantino (dos resquícios do Império Romano). Em 476 d.C. a parte ocidental do Império tem o seu fim.33 Nos séculos que se seguiram a Península Ibérica é invadida por muçulmanos que confinam os Visigodos à zona das Astúrias. Estes viriam a controlar todo o Mediterrâneo. 34 No século IX d.C. os Árabes (ou Sarracenos) vêm do norte de África para as ilhas do Sul de Itália e Península Ibérica onde estarão até serem completamente banidos pelos reinos cristãos em 149235. 80 Durante a Idade Média o Mediterrâneo atravessou uma época de profundas alterações marcadas pelo avanço dos reinos de ocidente e do declínio da ocupação muçulmana bem como a conquista de Constantinopla pelos turcos em 1453.36 Note-se que todos estes movimentos e invasões contínuas durante séculos foram prejudiciais à evolução da economia e cultura da Europa (que havia evoluído tão rapidamente até à queda do Império Romano). Só no início do segundo milénio, sob a visão do Papado e da Igreja Católica Romana, é que algumas cidades-estado começaram a renascer da escuridão e durante o tempo que se seguiu, até ao século XX, a Europa do Norte e Centro e o Mediterrâneo tiveram um contacto reduzido entre si, evoluindo de forma distinta a nível sociológico e cultural, aumentando o seu contacto, com o põe Abulafia37, com duas invenções (para além da revolução tecnológica): o avião e o bikini.38 A história prova-nos que o cruzamento entre os povos foi sempre uma constante. No entanto podemos afirmar que estes invasores, apesar de poderosos guerreiros, nunca seriam muito numerosos em relação às populações residentes pelo que de um modo geral podemos considerar que as populações (e os seus genes) sediados há mais tempo prevalecem ou seja, em termos genéticos, estes cruzamentos não serão muito profundos.39 Não devemos acreditar nas migrações dos povos senão com base em provas muito positivas, e nos limites rigorosos que advêm destas provas. As migrações de hordas asiáticas pouco modificaram a população e menos ainda as línguas; quanto às migrações das nações europeias, não serão mais que expedições de exércitos conquistadores; elas formaram castas e modificaram as línguas; mas as populações, no fundo, permaneceram as mesmas.40 Podemos assim resumir a história da costa mediterrânica da Península Ibérica nos seguintes acontecimentos e factos: a península sempre possuiu um clima quente de invernos pouco rigorosos em planícies propícias à agricultura e pastorícia. Nela já habitavam as primeiras formas de Homo sapiens e estas já apresentavam traços faciais distintos das povoações mais a norte (são encontrados numerosos vestígios da sua presença, como esqueletos, que nos dão a certeza da sua natureza dolicocéfala). O domínio da agricultura foi abraçado rapidamente na região e durante o Calcolítico surgem já fortes cidades de comércio marítimo provenientes do norte de África. Durante a Idade do Ferro estabelecem-se portos fenícios fustigados pelos ataques gregos e no final do 1º milénio a área é já dominada pelos romanos. No século VI esta parte do império sucumbe 81 face aos ataques dos Visigodos (povos bárbaros) a norte e dos sarracenos a sul. Estes últimos ficam na Península até 1492 quando são banidos pelos reinos cristãos. Quer isto dizer que, como vimos, apesar de tratarmos de uma pequena área os cruzamentos possíveis são numerosos e a descendência que chega até aos dias de hoje pode ter antepassados do norte de África, Celtas, Fenícios, Bárbaros, Cartagineses, Gregos, Romanos e até Vikings (que pontualmente saquearam e pilharam a costa mediterrânica). Apesar da influência destes ser em muitos casos mínima notemos toda e tão antiga miscigenação (inexistente, pelo menos a este nível, na maior parte dos cantos do Mundo). Em termos linguísticos as línguas faladas atualmente na Europa dividem-se em quatro grupos principais41 sendo que todos os dialetos falados na Península Ibérica (à exceção, como vimos, do basco) fazem parte das línguas indo-europeias, descendentes do romano, ou seja, impostas durante o domínio romano. No entanto sabemos que tanto o Castelhano como o Português incluem em si muitas palavras de origem árabe e isso prova, como referimos anteriormente, a função da língua enquanto método de estudo das populações. Apesar da língua para este estudo, não acrescentar muito (visto que as populações em causa têm línguas muito semelhantes, resultado de um passado também muito semelhante), ela vem confirmar essa proximidade e o contacto com o Império Romano e com o norte de África. Antes de avançarmos para o estudo, e apesar de este não ter em conta a estatura dos indivíduos constituintes da amostra, devemos fazer ainda referência a alguns factos sobre a antropologia física da Europa. Apesar das variantes antropométricas da face terem sido estudados aprofundadamente no capítulo anterior, devemos sublinhar que nem todos os sinais antropológicos/ antropométricos que vemos nos dias hoje são resultado de séculos de interação com o ambiente em questão. Alguns são resultado de descobertas tecnológicas e científicas recentes como é o caso da alta estatura europeia (mais notória nos países do norte) e que se prende com a revolução industrial e melhores condições de vida e alimentação das grandes massas. Com este exemplo compreendemos como o corpo humano pode responder aos fatores envolventes de forma relativamente rápida, sem que haja qualquer alteração a nível genético. Não existe garantia de que as observações da variação antropométrica no espaço e tempo sejam reflexo de diferenças genéticas mas antes de fatores socioeconómicos, nutricionais, ambientais e históricos (…). No últimos dois 82 séculos a população Europeia esteve especialmente exposta às recentes alterações ambientais, que afetam a antropometria. A Europa é provavelmente o local do Mundo onde será mais perigoso tirar conclusões a nível genético a partir de medições antropométricas.42 V.2.2. Contextualização: Genética Se acima fizemos referência à história geral da genética Europeia façamos aqui um rápido apanhado da costa mediterrânica da Península Ibérica (aqui fazemos apenas referência ao nome dos vários haplogrupos pelo que é recomendada a consulta do capítulo dedicado à genética para compreender a história e proveniência destes). Em termos genéticos o haplogrupo mais representado é sem dúvida o R1b, mais evidente no nordeste, na zona do País Basco (com frequência de 90%) mas nunca a baixo dos 40% no resto da Península. A forte presença deste haplogrupo reflete o facto de esta zona ter sido um dos quatro refúgios da Idade do Gelo e podemos afirmar que esta frequência representa os homens que para aqui vieram há cerca de 35 000 anos. Estudos recentes comprovam que a população que aqui habitava no neolítico e a atual não apresentam diferenças muito significativas.43 Segue-se o haplogrupo E com frequência genética de 32% no noroeste e quase inexistente a nordeste com um pico no distrito de Málaga a sul o que nos leva a concluir que este haplogrupo, que representa indivíduos vindos de África, chegou à península por duas vias: uns atravessando o mediterrâneo e outros por terra, vindos do Médio Oriente. O haplogrupo J, dos primeiros agricultores, atinge os 20% no sul e diminui em direção a norte e o haplogrupo I atinge os 30% no centro da península. Faça-se um apontamento para dizer que em França as frequências genéticas assemelham-se às ibéricas. O haplogrupo ibérico R1b é aqui também muito comum, sempre acima dos 50%. Aqui os haplogrupos E3b e J2 estão espalhados de forma mais ou menos homogénea por todo o país atingindo os 6% no primeiro caso e os 8% no segundo.44 83 V.3. Método de recolha da amostra Definido o espaço a abordar e conhecido o seu envolvimento foi necessário definir alguns limites que distinguissem os elementos da amostra válidos dos demais. Assim, definiu-se que seriam apenas objeto de estudo os indivíduos entre os 18 e os 35 anos, idade entre as quais o corpo já sofreu todas as alterações provocadas pelo crescimento mas ainda não sofreu alterações provocadas pelo envelhecimento45. Destes, as duas gerações anteriores deveriam ter nascido no mesmo local (dada uma margem de 100 kms), visto que os entrevistados na grande maioria não conseguiam indicar a proveniência dos seus antepassados mais antigos. Ambos os sexos deveriam estar representados mais ou menos no mesmo número e as amostras deveriam ser tantas quanto as necessárias para que se pudesse tirar conclusões. Estas deveriam também excluir indivíduos com algum tipo de má formação ou deformação a nível facial. Selecionados os indivíduos a fotografar estes, idealmente, deveriam ser fotografados sobre fundo branco, com uma mesma luz suave e geral, sem sombras, com tripé, com um objeto de um cinzento-médio (que permitisse comparar tons de pele), em formato RAW (que mantivesse toda a informação e tons originais) e à mesma distância da objetiva (no mínimo 1,50 metros, de modo a evitar distorção). Para além disso cada indivíduo deveria ser fotografado igualmente de perfil e na vista frontal para que se pudesse extrair o maior número de informação possível de cada rosto. A face deveria apresentar-se sem expressão e segundo a horizontal de Frankfurt, como referimos no capítulo anterior. Estes predicados foram concluídos após o estudo do trabalho de vários fotógrafos que, de algum modo, se aproximam do nosso estudo (dos quais devemos referir August Sander, Sebastião Salgado, Robert Frank, Edward S. Curtir e, em especial, os trabalhos de Richard Avedon e Thomas Ruff). No entanto, no terreno, numa primeira experiência no sul de França, concluiu-se que seria demasiado difícil seguir alguns deles: logisticamente apresentou-se impossível montar uma espécie de estúdio com as condições ideais em cada local pois a disponibilidade dos abordados não era suficiente para que estes fossem até esse determinado local para recolha da amostra fotográfica. Para além disso, excluídos turistas, não são muitos os indivíduos que encontramos na rua com disponibilidade para conhecerem o projeto e serem devidamente fotografados. Assim, após as primeiras horas falhadas no sul de França (em particular em Marseille, cuja população é quase na totalidade imigrante de África), concluiu-se que as fotografias 84 teriam de ser tiradas na rua. Foram sentidas algumas dificuldades em explicar o projeto e este foi muitas vezes olhado com desconfiança acontecendo que, por vezes não compreendendo o seu propósito, os indivíduos preferiam não colaborar. O processo fotográfico teve de ser o mais simplificado possível. Não obstante, a cada um dos indivíduos abordados foi entregue um texto explicativo, com o carimbo da faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, em francês ou espanhol respetivamente, onde se podia ler: Olá! O meu nome é Beatriz Manteigas, sou pintora, nascida em Portugal, e estou atualmente a escrever a minha tese de mestrado em Anatomia Artística pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa. A Tese tem como título As Variações Antropométricas da Face nos Povos da Costa Mediterrânica da Península Ibérica. A parte teórica desta tese engloba vários campos entre eles a anatomia, a história e a genética dos povos em causa. Proponho-me, após estudar estes campos detalhadamente, aprofundar o estudo das variantes antropométricas dos atuais habitantes da costa mediterrânica da Península Ibérica. É aqui que solicito a sua ajuda. Em cada localidade em que passo estou a pedir aos habitantes locais, com idades entre os vinte e os trinta e cinco anos e que se saibam descendentes de pelo menos duas gerações habitantes deste mesmo local, que me permitam tirar duas fotografias, uma frontal e uma de perfil. Estas serão analisadas a nível científico e comparadas com outras de modo a procurar padrões referentes a determinadas áreas e distinções evidentes entre outras. As fotografias serão apenas utilizadas com este caracter científico podendo vir a ilustrar a tese que poderá, eventualmente, ser editada. A tese estará terminada e será entregue até Janeiro de 2015. Posteriormente, caso seja do vosso interesse, poder-lhes-ei enviar a tese terminada via email. Caso esse seja o seu desejo envie-me um email através do meu website onde poderá também consultar os meus trabalhos. www.beatrizmanteigas.weebly.com Obrigada pela sua ajuda! Beatriz Manteigas Abril 2014 Apesar de se ter mantido o objeto cinzento-médio (uma folha de cartão), que 85 podemos ver nas fotografias originais, concluiu-se que comparar de tons de pele seria inconclusivo e pouco pertinente visto que muitos dos indivíduos apresentavam maquilhagem ou estavam queimados pelo sol, não apresentando o seu tom de pele natural. A questão da luz e das sombras foram parcialmente esquecidas, o tripé foi abolido e a questão da posição da face foi cumprida grosseiramente tendo sido compensado este facto posteriormente, aquando do tratamento das imagens e do seu desenho. Manteve-se no entanto cuidadosamente a distância entre o modelo e o fotógrafo (para eliminar problemas de distorção), a expressão neutra, o intervalo de idades válido e a naturalidade dos antepassados dos fotografados. Fig. 29) Exemplos da amostra recolhida em Nice, Sul de França Posto isto conseguiu-se uma amostra válida e coesa mas que imperativamente teve de ser abordada através dos meios do desenho e da pintura para que a sua compreensão e análise fosse mais fácil (como vimos, a Arte tem dado tanto à Ciência como esta lhe tem dado a si e aqui encontramos mais um desses casos em que as duas áreas se apoiam 86 mutuamente para chegar mais longe, uma das ideias fundamentais sobre a qual gira toda esta dissertação). Assim, nos cinco locais eleitos (Tavira, Tarifa, Almeria, Valência e Tarragona), todos a menos de 500 kms entre si, foi recolhida uma amostra de vinte indivíduos em cada cidade que preenchiam as anteriores premissas, dando um total de cem indivíduos abordados. Fig. 30) Exemplos da amostra recolhida na costa mediterrânica da Península Ibérica A amostra traduz-se assim fisicamente em duzentas fotografias (cem frontais e cem de perfil) que foram alinhadas e impressas de modo a serem mais facilmente comparadas e, a partir destas, foram realizados duzentos desenhos respetivamente (simples e à base de linha e com o auxílio de uma mesa de luz, de modo a facilitar a compreensão de cada rosto). Sobre estes, foram tiradas medidas e ângulos (como indicam os vários estudos referidos no capítulo anterior) e estes foram organizados na tabela que 87 se segue. Dos parâmetros a analisar foram apenas excluídos os que se apresentaram desinteressantes para o estudo em causa (caso de alguns ângulos de perfil e das medidas lineares da face, muito próprios de cada um e de cada família e muito variáveis), e aqueles que não podiam ser devidamente estudados através da amostra recolhida (referimo-nos ao tom de pele e também ao formato do cabelo, que muitas vezes não se apresenta na sua forma natural). Foi também excluído o estudo da orelha. Fig. 31) Exemplo do tratamento feito a partir das fotografias recolhidas 88 V.4. Amostra Índice Cefálico (nº de indivíduos) Dolicocéfalo Mesocéfalo Braquicéfalo Fronte (nº de indivíduos) Quadrada Pequena Redonda Estreita Aberta Pálpebras (nº de indivíduos) Em pêssego Tarsal Em moca ou maça De tarso em pêssego De tarso em moca Estreita ou Angusta Cor dos Olhos (nº de indivíduos) Azul Verde Castanho Claro Nariz (nº de indivíduos) Retilíneo Convexo Côncavo Base Nasal (nº de indivíduos) Estreita Ponta do Nariz (nº de indivíduos) Ascendente Descendente Queixo (nº de indivíduos) Fraco Forte Regular Estreito Lábios (nº de indivíduos) Finos Superior Fino Inferior Fino Cabelo (nº de indivíduos) Preto Castanho-claro Loiro-escuro Inclinação frontal (em graus) Máxima Tavira Tarifa Almeria Valência Tarragona 13 7 0 13 7 0 10 9 1 15 5 0 10 8 2 6 0 8 0 6 3 5 7 0 5 1 2 10 0 7 4 3 6 1 6 5 3 10 2 0 3 1 3 1 2 10 1 0 11 0 1 7 5 0 6 1 3 5 6 0 6 2 0 6 6 1 5 0 2 6 2 3 4 1 0 4 3 0 3 4 2 3 1 1 0 11 8 1 12 5 3 12 8 0 14 5 1 12 6 2 1 2 2 2 1 3 4 5 2 1 1 5 0 5 1 5 1 9 5 6 3 8 3 5 1 10 4 5 1 9 5 6 0 9 5 0 0 0 0 3 0 5 0 0 3 0 0 1 1 1 3 1 1 2 1 0 4 3 0 3 3 2 1 3 0 28 27 26 26 23 89 Mínima Média Ângulo de Camper (em graus) Máximo Mínimo Média Convexidade do perfil (em graus) Máxima Mínima Média 7 17,3 12 18,35 8 18,15 2 18,95 -4 11,5 81 70 75,15 78 66 74,35 83 72 76,35 84 69 77,65 82 72 77,4 21 0 11,25 18 2 10 14 1 9 21 3 11,4 19 1 9,95 V.5. Análise Organizados os dados recolhidos averiguamos o seguinte: - em todos os locais visitados há mais dolicocéfalos (61% da amostra total), seguindo-se os mesocéfalos (33% da amostra total) e por fim os braquicéfalos, apenas encontrados em Almeria (5%) e Tarragona (10%). Nestes mesmos locais a quantidade de mesocéfalos aproxima-se muito da quantidade de dolicocéfalos concluindo-se que haverá uma tendência para que o índice cefálico aumente à medida que nos dirigimos para oriente. 90 Fig. 32) Exemplos de indivíduos dolicocéfalo, mesocéfalo e braquicéfalo respetivamente (Tarragona) - A forma da fronte mais comum em todos os locais é a redonda, presente em 41 % da população total; seguida da fronte aberta que representa 24%, a quadrada 19%, 91 pequena 13% e estreita 3%. Estes últimos 3% foram encontrados em Valência e Tarragona (os locais mais a oriente) e neste último local não foram encontradas frontes abertas. 92 93 Fig. 33) Exemplos de frontes aberta, redonda, quadrada, pequena e estreita respetivamente (Valência) - as pálpebras mais comuns na população total são as em forma de moca e estreita representadas em 31% e 34% respetivamente. A primeira encontra o seu expoente máximo em Tarifa, presente em 55% da população desta região e a segunda em Tavira, 50% da população. Os tipos de pálpebra em que a parte tarsal é mais visível são pouco comuns sendo que, se considerarmos estes três tipos (tarsal, tarsal em pêssego e tarsal em moca) estes representam apenas 14% da população total. Assinalemos que o tipo de pálpebra em pêssego é mais comum à medida que nos dirigimos para oriente, onde o tipo estreito se torna ligeiramente menos comum. 94 95 96 Fig. 34) Exemplos dos tipos de pálpebras: em pêssego (Valência), tarsal (Tarragona), em moca (Tarifa), tarsal em pêssego (Tavira), tarsal em moca (Tarifa) e estreita (Tarifa). - a cor dos olhos predominante é sem dúvida o castanho-escuro que representa 69% da população total. Os outros 31 % dividem-se entre olhos azuis (11%), olhos verdes 97 (6%) e olhos castanho-claros (14%). O maior número de olhos azuis foi encontrado em Valência representando 20% da amostra e o local onde a percentagem de olhos claros é, curiosamente, o local mais a norte, Tarragona (com apenas 90% de olhos castanhoescuros). Estarão os olhos claros encontrados no sul da Península Ibérica associados ao norte de África? - O nariz retilíneo é o mais comum representando 61% da população total. Seguese a este o nariz convexo (33%) e por fim o nariz côncavo que apresenta o seu máximo em Tarifa (o ponto mais a sul e mais próximo de África) e mínimo em Almeria onde não foram encontrados indivíduos com esta característica. 98 Fig. 35) Exemplos de nariz retilíneo, convexo e côncavo (Tavira) - a base nasal, que foi considerada estreita sempre que não ultrapassava uma vertical tangente ao ponto mais interno da carúncula, foi apenas encontrado em oito 99 indivíduos nunca ultrapassando os 10% da população. - A ponta do nariz ascendente atinge os 25% em Tarifa, Valência e Tarragona mas apenas os 5% em Almeria e 15% em Tavira. Esta é no entanto mais comum do que a ponta descendente, associada ao nariz adunco, mais presente em Tavira (25%) mas apenas representada por um ou dois indivíduos nos restantes locais, sendo mesmo inexistente na amostra recolhida em Valência. - o queixo regular é o mais comum em toda a amostra representando 46% da população. Segue-se o queixo fraco, ou seja em que o sulco mento labial e o respetivo ângulo é pouco profundo e muito obtuso (aproximando-se dos 180%) representando 27 % da população total e não sendo encontrado em nenhum local com uma percentagem inferior a 25%. Segue-se o queixo estreito que está presente em 22% da amostra total e o queixo forte em apenas 6% com uma representação mais marcada apenas em Tarifa (15%). 100 101 Fig. 36) Exemplos de queixo regular, forte, fraco e estreito respetivamente (Almeria) - os lábios mais finos surgem nos locais mais a oriente com expoente máximo em Valência com uma representação de 15%. A restante população apresenta lábios regulares e em nenhum caso se mostrou pertinente assinalar a presença de lábios especialmente volumosos. O prognatismo é inexistente na amostra recolhida. - os cabelos são castanhos em 84% da amostra e 73% apresenta um tom escuro. No entanto 13% da população apresenta cabelo preto e apenas 3% cabelo loiro (escuro). A percentagem de cabelo preto é menor a norte, em Tarragona, e atinge o seu máximo em Almeria. Nos três locais mais a oriente é onde surge uma percentagem mais elevada de cabelos castanho claros e loiros representando o total de 11% da amostra. - a inclinação frontal tem uma média constante em todos os locais visitados variando entre os 17º e os 19º à exceção de Tarragona onde a média da inclinação frontal é de 11,5 º. É também em Tarragona que surgem os valores mais baixos tanto para a inclinação máxima como para a inclinação mínima encontradas (23º e -4º respetivamente). Este é também o único local onde surge um indivíduo que apresenta uma inclinação negativa, relativa a um índice braquicéfalo. 102 Fig. 37) Indivíduos encontrados com a inclinação frontal máxima (28º, Tavira) e mínima (-4, Tarragona) - a média do ângulo de Camper nos vários locais varia entre os 74,35º e os 77,65º apresentando-se maior para oriente. O ângulo de valor mais baixo surge em Tarifa (66º) e 103 o ângulo de valor mais elevado em Valência (84º), sendo no entanto os valores muito próximos em todos os locais. Relembremos que estes valores são aproximados pois o ângulo de Camper deve ser medido no esqueleto desprovido de partes moles. Fig. 38) Indivíduos encontrados com o maior e menor ângulo de Camper: Valência, 84º e Tarifa, 66º 104 - a convexidade do perfil atinge a média mais alta em Valência (11,4º) e mais baixa em Almeria (9º) apesar de a diferença não ser significativa entre os vários locais. Fig. 39) Indivíduos, encontrados em Tarifa, com a convexidade de perfil máxima (21º) e mínima (0º) 105 Para terminar foram traçadas as tendências referentes à amostra total, representando a costa mediterrânica da Península Ibérica na sua totalidade. Para isso foram construídos os seguintes gráficos organizando cada uma das variantes estudadas, de modo a que cada uma destas seja facilmente compreendida em termos percentuais tendo em conta a população total. Índice Cefálico Dolicocéfalo Mesocéfalo Braquicéfalo Tipos de Fronte Quadrada Pequena Redonda 106 Estreita Aberta Tipos de Pálpebras Pêssego Tarsal Moca Tarso em pêssego Tarso em moca Cor dos Olhos Azul Verde Castanho Claro 107 Castanho Escuro Estreita Tipos de Nariz Rectilíneo Convexo Côncavo Inclinação da Ponta do Nariz Ascendente Descendente 108 Sem inclinação Tipos de Queixos Fraco Forte Regular Estreito Grossura do Lábios Finos Lábio superior fino Lábio inferior fino 109 Regulares Cor do Cabelo Preto Castanho Claro Loiro Escuro Castanho Escuro V.6. Conclusões: pontos-chave e tendências Após a análise cuidada dos dados concluímos: - tal como indicado nos estudos citados nos capítulos anteriores, os dolicocéfalos são predominantes em toda a península, representando 61% da população total da amostra. Para além disso, este índice aumenta ao aproximarmo-nos da Europa Central e dos Alpes confirmando os estudos que referem os habitantes desta área como apresentando um índice cefálico particularmente mesocéfalo (ou seja, cabeça é mais arredondadas). Este é o dado de todo o estudo mais proeminente e mais notório o que confirmando os estudos citados que consideram a estrutura óssea do crânio como uma das variantes antropométricas mais fiáveis e imutáveis face ao tempo, espaço e meio ambiente; - a fronte mais comum na amostra total, representando a população de toda a costa mediterrânica da Península Ibérica, é a fronte redonda presente em 41% dos indivíduos; - a análise da forma das pálpebras, apesar de não trazer conclusões importantes entre as populações abordadas, indica-nos que nesta região os tipos mais comuns são, com um destaque notório, a forma em moca e estreita ao contrário dos tipos tarsais muito pouco representados; - a cor dos olhos mais predominante confirma-se ser o castanho-escuro representado em cerca de 70% da população total da amostra, seguido do castanho-claro, mais presente no sul podendo talvez confirmar o contato mais próximo com o norte de África (onde os 110 olhos claros são também comuns). A mais elevada presença de olhos verdes e azuis em Tavira poderá ser indicador de uma menor influência dos povos do mediterrâneo oriental e um maior contacto com povos vindos do Atlântico como é o caso dos Vikings. No entanto os dados são pouco marcantes e apresentam os mesmos resultados em Valência para a qual não encontrámos razão aparente. Na amostra total, representando a população de toda a costa mediterrânica da Península Ibérica, a cor mais comum é sem dúvida o castanho-escuro presente em 69% dos indivíduos abordados; - apesar de o nariz retilíneo ser o mais representado (em 61% da população total), e o segundo ser o convexo, associado aos europeus, é de notar a maior presença do nariz côncavo no ponto mais a sul da península, Tarifa, levando a crer que este será um traço comum com o norte de África; - a ponta do nariz apresenta-se sem inclinação em 73% da amostra total, representando a população de toda a costa mediterrânica da Península Ibérica; - a forma do queixo não apresenta grandes discrepâncias entre as populações estudadas mas devemos referir a maior presença do queixo forte em Tarifa, mais a sul. Tendo em conta a amostra total, representando toda a população da costa mediterrânica da Península, o queixo regular é o mais comum, presente em 45% dos indivíduos; - os lábios finos são pouco representados na população total abordada confirmando que este será um traço particular do norte e centro da Europa e não da Península Ibérica. Considerada a amostra total 86% dos indivíduos possuem lábios com uma grossura regular; - o tom dos cabelos mais comum foi também confirmado como sendo o castanho-escuro. Para além disso a presença de cabelos pretos é mais notória a sul, mais próxima de África e onde a presença muçulmana foi mais duradora. Também podemos apontar a maior presença de cabelos claros à medida que nos aproximamos de França e dos Alpes (apesar de se tratar de uma amostra mínima). Considerando a amostra total, representando a população de toda a costa mediterrânica da Península Ibérica, 73% da população apresenta cabelos castanhos-escuros. - a inclinação frontal, que se mantém semelhante em todos os locais visitados, mostra-se particularmente baixa na localidade mais a norte onde também se encontra o maior número de indivíduos não-dolicocéfalos confirmando a proximidade com as populações alpinas e a notória persistência dos traços a nível ósseo. 111 1 ABULAFIA, David – The Mediterranean in History. London: Thames & Hudson Ldt, 2003. p.17. GODDARD, Victoria A.; et al. – The Anthropology of Europe: Identities and Boudaries in Conflict. Oxford: Berg Publishers Ltd, 1994.P.59. A sociedade do Mediterrâneo funcionará como uma “república de primos”, em contraste com a “republica de cunhados” das sociedades primitivas e da “república de cidadãos” dos países mais desenvolvidos. Idem., p.84. 3 La géographie établit toujours, et indépendamment des convetions humaines, certains rapports physiques entre ces masses de territoire que nous appelons Etats: nous indiquerons, la carte à la main, ce qu’il y a de manifeste dans ces relations naturelles. MALTE-BRUN, Conrad – Geographie Universelle. 6ª ed. Paris: Garnier Fréres Libraires-éditeurs, 1853.p.52. 4 O clima mediterrâneo no sul (subtropical com invernos húmidos e temperados e verão muito quente e seco); clima oceânico nos países com costa atlântica excluindo Portugal (com invernos mais frios e verões quentes mas bastante precipitação durante todo o ano); clima central ou sub-oceânico nos países interiores (com invernos mais rigorosos); clima continental nos países a este e norte (com invernos muito intensos, longos e nevosos), clima boreal em grande parte da Península da Escandinávia e norte da Rússia Europeia e clima de estepe em redor do Mar Negro e sul da Rússia Europeia (clima húmido todo o ano com invernos rigorosos) [S.A.] – Atlas National Geographic – Europa. Lisboa: RBA Colecionáveis, S.A. 2005. p.19. 5 Creta, por exemplo, é um mini continente com as suas próprias montanhas, desertos e selvas e muitos animais e plantas nativos e exclusivos da ilha. Mesmo ilhas próximas, como a Córsega e a Sardenha, apresentam notórias diferenças a nível geológico; ABULAFIA, David, op. cit., 2003. P.33. 6 Idem. p.20. 7 MALTE-BRUN, Conrad, op. cit., 1853. p.46. 8 Os próximos parágrafos sobre a História Europeia podem à primeira vista parecer demasiado extensos (apesar de que muito resumidos em termos históricos), mas o seu conhecimento parece-nos pertinente para compreender a história particular da costa mediterrânica e em especial, da Península Ibérica, em paralelo com as civilizações vizinhas e com que tiveram contacto ao longo dos séculos pois, como veremos, as civilizações em muito se enriqueceram e influenciaram entre si e nenhuma delas evoluiu autónoma das outras: todas elas beberam descobertas e costumes entre si. 9 GAMBLE, C. – Cambridge World Archaeology- The Paleolithic Settlement of Europe. Cambridge: Cambridge University Press, 1987. 10 HAWKES, Jacquetta; WOOLLEY, Leonard – Histoire du Developpement Culturel et Scientifique de l’Humanite: Volume I, La Prehistoire et les Debuts de la Civilization. Paris: UNESCO, Robert Laffont, 1967. p.70. 11 CAVALLI-SFORZA, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto – The History and Geography of Human Genes. 1ª ed. New Jersey: Princeton University Press, 1996. p.256. 12 RIPLEY, William Z. - The Races of Europe : a Sociological Study. New York: D Appleton & Company, 1915. p.470. 13 ABULAFIA, David, op. cit., 2003. p.69. 14 Falantes de uma língua que é antepassada comum da grande maioria das línguas faladas nos dias de hoje desde a Irlanda até à Índia e, desde há pelo menos 8 000 anos ter-se-ão começado a expandir, provenientes da sua terra-mãe na atual Ucrânia e Turquia. As palavras constitutivas e mais utilizadas por cada povo indiciam os seus hábitos: dos povos indo-europeus e da sua língua provêm palavras ligadas à agricultura enquanto que povos não falantes de línguas indo-europeias (como o turco e o urálico), que chegaram à Europa mais tarde, possuíam um vocabulário que nos remete à domestica do cavalo (no caso dos turcos); RIDLEY, Matt – Genome. London: Harper Perennial, 2004. p.186. No entanto, deixemos uma nota para afirmar que, se retrocedermos bastante no tempo, cerca de 15 000 de anos, podemos encontrar laços entre estas línguas. No entanto, existem línguas que, tanto quanto sabemos, não apresentam qualquer afinidade com esta superfamilia linguística, como por exemplo o basco, restrito a uma pequena área, curiosamente coincidente com uma notória quantidade de cavernas pintadas por homens de Cro-Magnon. Será que esta, entre outras, é uma língua proveniente desses tempos, anteriores ao homem atual? Idem., p.188. 15 BLAINEY, Geoffrey – Uma Muito Breve História do Mundo. 1ª ed. Alfragide: Livros d’Hoje Publicações D. Quixote. p.48. 16 Cavalli-Sforza afirma que, no decorrer destas migrações, os agricultores homens tenderiam a criar relações com as mulheres caçadoras-recolectoras locais, mas não o contrário (tal como acontece na 2 112 África central entre os agricultores e os pigmeus) o que em termos genéticos cria uma variabilidade do cromossoma Y notoriamente superior à dos demais, algo que podemos comprovar atualmente em povos como os finlandeses. RIDLEY, Matt, op. cit., 2004. p.190. 17 A oriente, a sudeste da Hungria até à Macedónia reinava a cultura Vardar-Morava, uma cultura possivelmente mais antiga do que a cultura suméria; a nordeste da Hngria povos da cultura Bukk, ainda muito primitivos viviam em cavernas e subsistiam da caça e pesca; a oeste, até Koln, os Danubian I, os mais evoluídos, vindos de sul ou talvez da Anatólia (atual Turquia); povos do mediterrâneo ocidental bastante evoluídos vindos também da Anatólia e do Norte de África e que migraram também mais para norte, pela costa Atlântica, entre outras, mais pequenas. As zonas mais a norte, como a Escandinávia, estariam entregues a grupos mesolíticos de caçadores-recolectores até mais tarde. Em paralelo, nas estepes, surge outro tipo de economia, a pastorícia (em particular na atual Ucrânia e a norte do Cáucaso). HAWKES, Jacquetta; WOOLLEY, Leonard, op. cit., 1967.p.214. 18 CAVALLI-SFORZA, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto, op. cit., 1996. p.258. 19 Durante o mesmo período os Fenícios, vindos do Golfo Pérsico, instalam-se na costa da Síria. Em Creta, povoada por imigrantes da costa meridional asiática e egípcios fugidos das guerras civis, surge uma cultura original que se estende pela Grécia. HAWKES, Jacquetta; WOOLLEY, Leonard, op. cit., 1967.p.696. 20 WHITEHOUSE, D; WHITEHOUSE, R. – Archaeological Atlas of the World. San Francisco: W.H. Freeman, 1975. 21 Neste período há também grandes migrações de povos vindos do sul da Rússia e estabelecem-se os primeiros impérios marcadamente mercantes: os micenos e os fenícios. ABULAFIA, David, op. cit., 2003. p.73. 22 Pelos artefactos encontrados, concluímos que teriam contacto com civilizações europeias a oeste e com mongóis a este. HAWKES, Jacquetta; WOOLLEY, Leonard, op. cit., 1967.p.343. Esta civilização Hitita, nunca referenciada nos textos gregos, seria uma das principais potências durante o segundo milénio a.c., dominando a Ásia Menor, e foi apenas descoberta no final do século XIX. ABULAFIA, David, op. cit., 2003. P.72. A razão para o seu desaparecimento é nos entanto ainda negada se bem que muitos ligam este acontecimento às invasões dos “povos do mar” (Sea Peoples), povos do mediterrâneo, nomeados segundo as suas proveniências e que saqueavam e atacavam a costa. Textos egípcios consideram o segundo milénio a.c. como o era destes povos desordeiros. Idem., 2003. p.96. 23 Também neste período dá-se o apogeu das culturas celtas que apesar de provenientes de zonas diferentes encontravam semelhança e uniam-se pela língua. Se inicialmente estes se confinavam à zona dos Alpes aqui penetram na parte este da Gália, até à Bélgica. Destes, os mais a norte misturaram-se com os povos germânicos primitivos. Outro acabam por voltar à sua origem, nos Alpes e, a partir daí espalham-se pelos e para lá dos Balcãs. PARETI, Luigi - Histoire du Developpement Culturel et Scientifique de l’Humanite: Volume II, La Antiquite, de 1200j.c.à 500 de notre ère. Paris: UNESCO, Robert Laffont, 1967.p. 46. 24 CAVALLI-SFORZA, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto, op. cit., 1996. p.260. 25 PARETI, Luigi, op. cit., 1967.p.47. 26 Durante este período os etruscos, uma das potências do ocidente mediterrânico, muito influenciados pelos gregos, mantêm fortes rotas marítimas comerciais com estes. Todos estes, bem como os cartagineses, competiam o domínio das rotas marítimas. ABULAFIA, David, op. cit., 2003. p.94. 27 . Se no século VI a.c. Roma, a Cidade Eterna, era apenas uma pequena cidade-fortaleza nos séculos II e III a.c. apoderou-se de todo o Mediterrâneo. PARKER, Geoffrey – The Times Compact Atlas o World History. 1ª ed. – London: Times Books, 1995. p.34. 28 ABULAFIA, David, op. cit., 2003. p.15. 29 Idem. p.125. 30 Estes atacaram e saquearam por todas as frentes os territórios até então homogeneamente romanos e como os navios saqueados atacaram também as ilhas. Estes povos eram nómadas e originários das estepes do norte e oriente europeu e asiático. Não demorou até todo o Império Romano se desmoronar e o Mar Mediterrâneo deixar de ser um lago do império. 31 ADAMS, Susan M.; BOSCH, Elena; BALARESQUE, Patricia L. et al. - The Genetic Legacy of Religious Diversity and Intolerance: Paternal Lineages o Christians, Jews, and Muslims in the Iberian Peninsula. The American Journal of Human Genetics [em linha] 83:6 (Dezembro 2008) 725-736. p.726. 32 Aucune pureté raciale, donc, chez ces Barbares qui foulent le sol chinois ou romain, mais le résultat composite d’un long brassage. ELISSEEFF, Vadime; NAUDOU, Jean; WIET, Gaston; WOLFF – Histoire du 113 Developpement Culturel et Scientifique de l’Humanite: Volume III, Les Grandes Civilizations du Moyen Age.. Paris: UNESCO, Robert Laffont, 1969.p.46. 33 A partir do fim do século V os eslavos penetram nos Balcãs e estabelecem-se em toda essa zona, até à Grécia e no século VII os búlgaros estabelecem-se a sul do Danúbio mostrando-se um forte ameaça contra Constantinopla e o Império Bizantino começa a perder força. ABULAFIA, David, op. cit., 2003. p.155. 34 Ao mesmo tempo que os Lombardos invadem o norte de Itália (pouco interessados na costa e no domínio das rotas marítimas, não afetando o império de oriente) e que a Inglaterra é repartida em reinos instáveis e que os Francos dominam a Germânia. Estes últimos formavam o império Carolíngio que acaba por restabelecer o Império Romano de Ocidente sob o poder do Rei dos Francos, o Imperador Carlos Magno. Estes acabariam por ser muito atacados pelos normandos e, numa destas batalhas, acaba por se assinar o Tratado de Verdun (843 d.c.) que assinala o nascimento da França e da Alemanha. ELISSEEFF, Vadime; NAUDOU, Jean; WIET, Gaston; WOLFF, op. cit., 1969.p.145. 35 Durante o mesmo período os Magiares, vindos dos montes Urais, vêm ocupar a zona da atual Hungria e os Vikings, vindos da Escandinávia, criam rotas marítimas comerciais a sul até ao Mediterrâneo e a norte até à Rússia. Estes eram especialmente violentos e pilhavam as cidades por onde passavam. PARKER, Geoffrey, op. cit., 1995. p.50. 36 ABULAFIA, David, op. cit., 2003. p.183. 37 n. 1949, historiador britânico especialista na história do Mediterrâneo. 38 Idem., p.312. 39 CAVALLI-SFORZA, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto, op. cit., 1996. p.262. 40 Il ne faut croire à des migrations des peuples que sur des preuves très positives, et das les limites rigoureuses qui résultent de ces preuves. Les migrations des hordes asiatiques n’ont que peu changé la population, et moins encore les langues; quant aux migrations des nations européennes, ce sont plutôt des expéditions d’armées conquérantes; eles ont formé des castes et modifié les langues; mais le fond des populations reste le même. MALTE-BRUN, Conrad, op. cit., 1853. p.46. 41 Indo-europeu (subdividido em germânico, báltico, eslávico, romano, celta, albanês e grego), basco, fino-úgrico (língua urálica subdividida em línguas do norte e centro europeu como finlandês e húngaro) e turco (em pequenas regiões e na Turquia, neste estudo não considerada). 42There is therefore no guarantee that the observations of anthropometric variation in space or ti me reflect genetic differences than socioeconomic, nutritional, or other environmental and historical factors (…). In the last two centuries, European population, more than other aboriginal groups have been exposed to recent environmental changes affecting anthropometrics, Europe is probably that part of the World in which it would be most dangerous to rely on genetic conclusions based on anthropometric measurements. CAVALLI-SFORZA, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto, op. cit., 1996. p.266. 43 Cfr., SAMPIETRO, M. L.; LAO, O.; CARAMELLI, D. et al. - Palaeogenetic evidence supports a dual model of Neolithic spreading into Europe. Proceeding of the Royal Society B: Biological Sciences [em linha] 10:1098 (Setembro 2007) 2161-2168. p. 2165. 44 WIIK, Kalevi - Where Did European Men Come From?. Journal of Genetic Genealogy [em linha] nº4 (2008) 35-85. p.76. 45 FARKAS, Leslie – Anthropometry of the Head and Face. Nova Iorque: Raven Press, 1994. 114 CONCLUSÃO O presente estudo, realizado fisicamente entre janeiro de 2014 e setembro do mesmo ano (apesar de incluir uma pesquisa realizada durante mais de dois anos) abordou com profundidade as variantes antropométricas da face da população da costa mediterrânea da Península Ibérica e, através da recolha de factos reais recolhidos no local para base do estudo, confirmou a unidade desta área geográfica, apresentando uma amostra em muitos pontos coesa e semelhante em toda a sua extensão. A amostra recolhida mostra-nos que, na área abordada, os indivíduos partilham grandes semelhanças. No entanto, foram assinalas e confirmadas divergências representantes não só da variação individual herdada dos antepassados, representando características familiares que não se mostram relevantes para a análise de uma população, mas também outros pontos que, como vimos, estão muitas vezes associados à estrutura óssea da cabeça representando indícios reais de diferentes passados (não a nível familiar mas a nível de população, referentes a milhares de anos). Essas diferenças são reflexo da relação com outras populações, diferentes ambientes e história. Apesar de a amostra não ser muito extensa tendo em conta cada população abordada de per si, esta foi suficiente para encontrar discrepâncias que não só fazem sentido entre si como confirmam estudos de vários autores citados ao longo da dissertação. Em breve pretende-se estender este estudo ao restante mediterrâneo e/ou ao norte de África de modo a aplicar o estudado nesta dissertação sobre uma amostra maior pois, num estudo que abranja uma área mais extensa, será possível não só confirmar a homogeneidade entre os povos mas também as grandes discrepâncias notórias a olho nu mas ainda pouco estudadas a nível científico. Os estudos citados, mesmo quando feitos há vários séculos, mostraram-se pertinentes e atuais quando utilizados aliados às descobertas mais recentes. Por vezes a pertinência de um estudo não está totalmente em si mesmo mas na forma como é abordado: mesmo estudos que sabemos estarem ultrapassados e não terem valor científico foram-nos úteis a nível de dados de observação e método, ou seja, nem sempre conclusões erradas partem de observações ou métodos errados. Note-se que na bibliografia encontramos obras científicas da última década confrontadas com obras escritas há vários séculos e que, hoje em dia, são questionáveis a nível científico. Mais uma vez a correlação inquestionável entre a Arte e a Ciência mostrou-se uma mais-valia, relação sem a qual este estudo não teria sido possível. Mesmo se não 115 tivessem sido utilizados métodos de representação tradicionais, como o desenho, a utilização de um outro meio para a simplificação de informação iria sempre recair sobre o domínio das artes; por outro lado o tratamento dessa informação é indiscutivelmente mais preciso quando estudado por alguém que domine esse campo, dando primazia à observação, numa perspetiva independente e neutra. …desenhar é uma forma de pensamento que se dá de um modo muito particular, que nos ilumina, nos esclarece e nos aproxima não só do mundo visível mas para lá dele, o mundo da vida.1 Nunca a Ciência poderá ser estudada sem o auxílio das Artes. Que este estudo inspire outros e todos aqueles que se interessam pelos campos das artes, das ciências e, mesmo que em menor escala, da história; acima de tudo, que encoraje o ver o outro, a observação cuidada do corpo e, de uma forma mais abrangente, num olhar inteligente, fundamentado e intrigado; que este olhar se alie cada vez mais às novas descobertas, as complemente e corrija, que se auto aperfeiçoe sem nunca se esconder por trás destas. O olhar inteligente é o que nos traz novas descobertas e garante a sua validade. O conhecimento do Mundo e o autorreconhecimento, o “eu” no Mundo, são os maiores feitos da qualidade da observação e do pensamento; são o que nos distingue dos outros seres vivos. É imprescindível que estas qualidades do Homem sejam sempre exaltadas e motivadas pois sem elas a Ciência estagna e a Arte morre e, nestes dois passos, perdemos o que nos caracteriza como seres humanos e pomos fim à Humanidade. Sem eles e sem a correlação entre ambos não existiria Arte ou Ciência. 1 RAMOS, Artur – Prefácio, in MARQUES, António Pedro Ferreira et. alt. – Desenhar, saber Desenhar. Lisboa: Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2012. p.10. 116 ANEXOS Apresentamos aqui os restantes desenhos feitos durante o decorrer do estudo apresentado mas que não foram introduzidos no corpo de texto. Estes estão organizados segundo a população a que os representados pertencem. 1. Tavira 117 118 119 120 2. Tarifa: 121 122 123 124 125 3. Almeria: 126 127 128 129 130 131 4. Valência: 132 133 134 135 5. Tarragona: 136 137 138 139 140 141 BIBLIOGRAFIA ABULAFIA, David – The Mediterranean in History. London: Thames & Hudson Ldt, 2003. ISBN 0-89236-725-3. ALLIÉRES, J. – Manuel Pratique de Basque. Paris: Picard, 2011. ISBN: 9782708400382. ANDERSEN, Margaret L. - Race, Class & Gender: An Anthology. 8.ª ed. California: Wadsworth Publishing, 2012. ISBN 1111830940. 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Fig. 2) [s.a.] As quatro raças do Mundo: os Líbios, os Namíbios, os Asiáticos e os Egípcios (ilustração feita a partir de um mural da tumba de Seti I, Vale dos Reis, Egípto). (Apud The Book of Gates [em linha] (7 Setembro 2014). [Consult. 2 Outubro 2014]. Disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Book_of_Gates). Fig. 3) Cartaz alemão anunciando um Zoo Humano, 1928. (Apud Human Zoo [em linha] (12 de Outubro de 2014). [Consult. 19 Outubro 2014]. Disponível em < http://en.wikipedia.org/wiki/Human_zoo>). Fig. 4) Craniómetro, fotografia da primeira década do século XX. (Apud History of Anthropometry [em linha] (16 Setembro 2014). [Consult. 2 Outubro 2014]. Disponível em < http://en.wikipedia.org/wiki/History_of_anthropometry>). Fig. 5) Crianças vítimas do Holocausto, fotografia dos anos quarenta. (Apud Holocaust Victims [em linha]. [Consult. 16 Setembro 2014]. Disponivel em < http://www.trueactivist.com/first-they-came-for-the-roma-is-history-repeating-itself-forthe-forgotten-victims-of-the-holocaust/ créditos: ceskapozice.cz>). Fig. 6) Capa do livro Comment reconnaitre le Juif?de George Montadon (1940). (Apud Confederation aime et sers [em linha]. [Consult. 16 Setembro 2014]. Disponível em < http://der-stuermer.org/french/comment-reconnaitre-le-juif.pdf>). Fig. 7) Aviso indicando uma área exclusiva para o uso de indivíduos de raça branca, fotografia, África do Sul, 1976. (Apud Holocaust Victims [em linha]. [Consult. 16 Setembor 2014]. Disponível em < http://www.trueactivist.com/first-they-came-for-theroma-is-history-repeating-itself-for-the-forgotten-victims-of-the-holocaust/>). Fig. 8) Protestos em França após a deportação de uma estudante de etnia cigana, fotografia [s.d.]. (Apud Holocaust Victims [em linha]. [Consult. 16 Setembor 2014]. Disponível em < http://www.trueactivist.com/first-they-came-for-the-roma-is-historyrepeating-itself-for-the-forgotten-victims-of-the-holocaust/>). Fig. 9) Cavalli-Sforza, ilustração, 1996. (Apud Cavalli-Sforza, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto – The History and Geography of Human Genes. 1ª ed. New Jersey: Princeton University Press, 1996. P.262). Fig. 10) Cavalli-Sforza, illustração, 1996. (Apud Cavalli-Sforza, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto – The History and Geography of Human Genes. 1ª ed. New Jersey: Princeton University Press, 1996. P. 263). Fig. 11) Cavalli-Sforza, Ilustração, 1996. (Apud Cavalli-Sforza, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto – The History and Geography of Human Genes. 1ª ed. New Jersey: Princeton University Press, 1996. P. 263). Fig. 12) Giotto, O Beijo de Judas, fresco, 200x185cm, 1304, capela Scrovegni, Pádua, Itália. (Apud Kiss of Judas [em linha]. (15 Outubro 2014). [Consult. 19 Outubro 2014]. Disponível em < http://en.wikipedia.org/wiki/Kiss_of_Judas>). 156 Fig. 13) Análise Anatómica dos Movimentos do Ombros e do Pescoço, pena e aguada sobre pedra negra, 292x198mm, Windsor Castle, Royal Library, Londres. (Apud Zollner, Frank, Leonardo da Vinci – Pintura, Desenhos e Esboços. Koln: Tachen, 2007. p.300) Fig. 14) Rembrandt, A Lição de Anatomia de Dr. Tulp, óleo sobre tela, 169,5x216,5cm, 1632, Maurtshuis, A Haia, Paises Baixos. (Apud A Lição de Anatomia de Dr. Tulp [em linha]. (7 Junho 2014). [Consult. 15 Setembro 2014]. Disponível em < http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Li%C3%A7%C3%A3o_de_Anatomia_do_Dr._Tulp>). Fig. 15) Lavater, Os quarto temperamentos, ilustração, 1783. (Apud Lavater, Jean Gaspard - Essai sur Physiognomie, Destiné a Faire Connoitre l`Homme & à le Faire Aimer. Paris: A La Haye, 1783). Fig. 16) Desenho da autora, aguarela sobre papel, 21x29cm, 2014. Fig. 17) Desenho da autora, aguarela sobre papel, 21x29cm, 2014. Fig. 18) Desenho da autora, grafite sobre papel, 21x14cm, 2014. Fig. 19) Desenho da autora, grafite sobre papel, 21x14cm, 2014. Fig. 20) Desenho da autora, grafite sobre papel, 21x14cm, 2014. Fig. 21) Desenho da autora, grafite sobre papel, 21x14cm, 2014. Fig. 22) Camper, ilustração, 1971. (Apud Camper, Peter – Dissertation sur les Variétés Naturelles qui Caractérisent la Physionomie des Hommes des Divers Climats et des Différents Ages. Paris: A la Haye. 1791). Fig. 23) Desenho da autora segundo Lavater, grafite sobre papel, 21x14 cm, 2014. Fig. 24) Desenho da autora, grafite sobre papel, 21x14 cm, 2014. Fig. 25) Ripley, Cephalic Index Spain. Ilustração, 1915. (Apud Ripley, William Z. - The Races of Europe : a Sociological Study. New York: D Appleton & Company, 1915. P.274. Fig. 26) Desenho da autora segundo Fritz Lange, grafite sobre papel, 15x23cm, 2014. Fig. 27) Ripley, Relative Frequency of Brunet Traits. Ilustração, 1915. (Apud Ripley, William Z. - The Races of Europe : a Sociological Study. New York: D Appleton & Company, 1915. P.67). Fig. 28) Cavalli-Sforza, ilustração, 1996. (Apud Cavalli-Sforza, L. Luca; MENOZZI, Paolo; PIAZZA, Alberto – The History and Geography of Human Genes. 1ª ed. New Jersey: Princeton University Press, 1996. P. 261). Fig. 29) Fotografias da autora, Junho 2014. Fig. 30) Fotografias da autora, Julho 2014. Fig. 31) Fotografias (Almeria, Julho 2014) e desenho da autora (grafite sobre papel 21x29 cm, Agosto 2014). 157 Fig. 32) Desenhos da autora, grafite sobre papel, 21x29 cm, Agosto 2014. Fig. 33) Desenhos da autora, grafite sobre papel, 21x29 cm, Agosto 2014. Fig. 34) Desenhos da autora, grafite sobre papel, 21x29 cm, Agosto 2014. Fig. 35) Desenhos da autora, grafite sobre papel, 21x29 cm, Agosto 2014. Fig. 36) Desenhos da autora, grafite sobre papel, 21x29 cm, Agosto 2014. Fig. 37) Desenhos da autora, grafite sobre papel, 21x29 cm, Agosto 2014. Fig. 38) Desenhos da autora, grafite sobre papel, 21x29 cm, Agosto 2014. Fig. 39) Desenhos da autora, grafite sobre papel, 21x29 cm, Agosto 2014. 158