GALERIA DE ARTE CELINA: CENTRO CULTURAL DE JUIZ DE FORA
PIONEIRO EM ARTE E TECNOLOGIA NA DÉCADA DE 60
Cláudia Matos Pereira*
RESUMO: O objetivo deste estudo é evidenciar o dinamismo de intelectuais e
artistas apoiados pela ação da família de Carlos Bracher, em contexto de
evolução tecnocientífica. Espaço aglutinador de visualidades impactou a época
com inventividade em slides e collages-performances. Pólo difusor de cultura e
de ecos provindos da França promoveu o curso completo de cinema, com
professores de renome nacional e projeções de filmes da Cinemateca de Paris.
Inúmeros debates equacionaram relações entre cinema, artes, literatura, música
e teatro.
Palavras-chave: Arte, Cinema, Bracher, Juiz de Fora, Tecnologia.
ABSTRACT: The aim of this study is to highlight the dynamism of intellectual
and artists supported by the action of the family of Carlos Bracher, in the context
of techno-scientific development. One agglutinating visuality space, impacted the
season with inventiveness slide show and collages-performances. Pole diffuser of
culture and echoes stemmed from France promoted the full course of cinema,
with nationally renowned teachers and projections of movies from Paris
Cinematheque. Numerous debates equated relationship between cinema, arts,
literature, music and theater.
Keywords: Art, Movies, Bracher, Juiz de Fora, Technology.
1 CENÁRIO DE EFERVECÊNCIA CULTURAL
Juiz de Fora - em 1850 um pequeno vilarejo às margens do Rio Paraibuna ganha
status de Município. Cidade polêmica, cenário em contínua mutação está situada
em Minas Gerais e, para muitos, não espelha a aura da mineiridade barroca que
navega pelo imaginário das montanhas que compõem as “geraes”. A
proximidade com o Rio de Janeiro fez com que a Manchester Mineira respirasse
ares do “carioquismo” que, para Pedro Nava, poderia ser mais uma “mineiragem”
com um pouco de malandragem. Rota de percurso do Caminho Novo, no século
XVIII, segundo Musse (2008, p.22-23), “a cidade parece sempre fugir de
qualquer definição, e seu próprio nome nos prega uma peça desse jogo sutil
entre o que está fora e o que está dentro, entre o que escapa e o que pertence”.
Berço da primeira usina hidrelétrica da América Latina, privilegiada pela primeira
rodovia aberta no país, a Rio-Juiz de Fora, tornou-se ponto estratégico de
instalação e desenvolvimento da indústria têxtil. Contraditoriamente, manteve-se
provinciana ao preservar as tradições das típicas famílias mineiras. Suas escolas
e universidades atraíram a mocidade da região. Terreno fértil para a germinação
do movimento militar de 1964 que resultou na ditadura e decorrentes embates
que marcaram toda uma geração. A Rua Halfeld concentrava estudantes e
personalidades diversas em grupos de amigos que comungavam ideais com
reciprocidade. Havia a efervescência – uma verdadeira ebulição cultural.
*
Doutoranda em Artes Visuais na UFRJ – PPGAV – EBA, linha de pesquisa: Imagem e Cultura.
e-mail: [email protected]
2
Estes encontros ocorriam continuamente em espaços específicos. A Livraria
Sagarana, aberta em 1967, na Rua São João, a um quarteirão de distância da
Halfeld, descreve Musse (2008, p.148), dispunha de um acervo ricamente
variado e atualizado, fechado posteriormente pela ditadura. A autora comenta
que Rogério Bitarelli Medeiros relembra com saudades deste espaço considerado
“antro subversivo”, cujo acervo invejavelmente fantástico mantinha-se por meio
do intercâmbio com a Editora Civilização Brasileira e permitia o acesso a
publicações de grande relevância dos “intelectuais de frente”. Outros locais de
reunião como os bares Jota Chopp, Chanan, os cafés Salvaterra e Astória
reuniam a juventude intelectualizada e participante do universo cultural em
tempos de repressão. Argan (2005, p.73) afirma que uma cidade não é apenas
“um invólucro ou uma concentração de produtos artísticos, mas um produto
artístico ela mesma”, ao explicitar a seguinte fala de Lewis Mumford: “A cidade
favorece a arte, é a própria arte”. A Galeria de Arte Celina - GAC - era a cidade
transmutada em arte.
Em depoimento, Affonso Romano de Sant‟Anna1, poeta, cronista e ensaísta intelectual presente neste entrelaçamento de ilações e aspirações da época
relembra:
Quando aí vivi até 57, convivi com a família Bracher. Sempre
foram os animadores culturais da cidade através da música e da
pintura. Cantei no coro regido pela Dona Hermengarda, mãe dos
Bracher. Lembro-me ter criado o CEC Centro de Estudos
Cinematográficos de onde saíram alguns críticos e jornalistas como
o Geraldo Mayrink e o Flavio Marcio. A cidade estava se
transformando [...] eu já havia saído para BH em 57 e lá fiquei até
65 quando fui para os Estados Unidos, mas recebia sempre
notícias de que a Galeria havia se transformado no point cultural
da cidade. Ao que eu sei, a Galeria foi a primeira no gênero em
Juiz de Fora: em outras partes do mundo estava ocorrendo uma
mudança quanto ao espaço cultural. Eu estava na Califórnia, vendo
surgir os hippies, tipos diferentes de lojas, roupas, contestações.
Como dizia Bob Dylan: “…something is happening here, but you
don't know what it is… Do you, Mister Jones?”
A GAC torna-se marco histórico-cultural em Juiz de Fora, criada em 18 de
dezembro de 1965 pela família Bracher. Os irmãos artistas Décio, Nívea e Carlos
Bracher, com o apoio de seus pais Waldemar e Hermengarda inauguram a
primeira Galeria de arte da região e homenageiam a irmã e filha caçula Celina,
falecida em 7 de março daquele mesmo ano . Este espaço considerado o principal
aglutinador afetivo de ideais possibilitou a formação de um público com olhar
estético mais aguçado, mediante o incansável trabalho de abertura a diversas
manifestações artísticas, debates e cursos. Situada no segundo andar da Galeria
Pio X, em um edifício construído na década de 30, (tombado pelo Patrimônio
Histórico), ocupava cerca de 109 m². A localização era privilegiada: esquina com
a parte central da Rua Halfeld, lugar em que os acontecimentos ganhavam
grande repercussão. O depoimento de Hélio Fernandes2, professor, escritor e
intelectual do grupo que manteve contato com a família Bracher até abril de
2011, revela claramente a motivação do ideário da época, configurado em forma
de Galeria:
A Galeria Celina foi uma decorrência natural de quatro fatores
simultâneos: a) a agitação cultural em que vivia um pequeno
3
grupo de jovens da cidade; b) uma resposta inconsciente contra os
desmandos da ditadura militar, ou seja, uma forma superior de
confrontar valores; c) um reflexo das transformações culturais da
década de 1960, em curso no mundo inteiro; d) uma espécie de
facilitador para a assimilação da incompreensível e prematura
morte da Celina [...] a Galeria Celina não se limitou a promover
exposições, sua função natural. O teatro também foi contemplado
– como, por exemplo, a produção do “Coronel de Macambira”, o
“Romanceiro da Inconfidência”.
Este espaço agregou a sede da Orquestra Filarmônica, o Núcleo Mineiro de
Escritores e o Centro de Estudos Cinematográficos – CEC – que promovia a
exibição de filmes recém lançados na Europa. Estas iniciativas possibilitaram à
cidade, de maneira impensável, que esta se tornasse um pólo difusor e receptor
das vibrações culturais disseminadas pela Europa, graças ao pioneirismo destes
3
jovens artistas. Olívio Tavares de Araújo , crítico de arte, curador renomado,
nacional e internacionalmente, esteve presente em alguns eventos e palestras da
GAC e comenta em entrevista:
O fato mais relevante relacionado à Galeria Celina é a própria
existência dela - uma coisa tão surpreendente e significativa que
todo o resto empalidece. Naquela época, não havia espaço nem
em cidades como Belo Horizonte para iniciativas culturais desse
tipo, imagine só em Juiz de Fora. Mercado de arte propriamente
dito era coisa incipiente em todo o país. Não se vendia obra fora
do Rio e São Paulo. Aliás, a Galeria Celina não se propunha vender
coisa nenhuma e sim, ser um ambiente de exposição, conversa e
proveito intelectual, e com certeza deu despesas e não lucro aos
Bracher. Claro que foi um pólo difusor de cultura, não só o único
na cidade, mas um dos pouquíssimos em Minas. Também em Belo
Horizonte, com perfil semelhante, só posso lembrar a Galeria
Guignard, criada na mesma época, ou até pouco depois.
Conforme Décio Bracher4, a GAC poderia ser chamada de “Centro Cultural
Espontâneo”, espaço de congraçamento, convergência cultural e artística. Havia
valorização e incentivo a todas as linguagens e demais artistas da época, sem
restrições. Neste depoimento ele comenta: “era um espaço não excludente, e
sim de congregação”. Este é o diferencial que se percebe em relação às demais
galerias de arte existentes. Sobre o envolvimento da família nesta concretização,
Olívio Tavares complementa:
Toda a família era igualmente “louca” e contribuía para o sucesso
da Galeria Celina, inclusive os pais de Carlinhos e Nívea, que - por
exemplo - hospedavam os “conferencistas”. Por ser o mais novo,
Carlinhos talvez fosse o mais visível e engajado, mas acho que
Nívea estava igualmente no coração do movimento. A Fani Bracher
que já era namorada do Carlinhos dava a maior força.
A criação deste centro de convergência decorre da ausência de espaços culturais
específicos para exposições, mas principalmente da visão deste casal Waldemar e Hermengarda - mentores de espírito libertário, inovador e
hospitaleiro, que mantinham sempre abertos a todos, os portões de sua
residência - Castelinho dos Bracher, à Rua Antônio Dias 300, Bairro Granbery.
Diariamente lá circulavam intelectuais, astrônomos, amigos de Celina,
4
estudantes da Faculdade de Filosofia e Letras, FAFILE, que se reuniam para
constantes diálogos e concretização de ideais. Após um período, a família
construiu neste local um atelier que possibilitou aos jovens artistas de aspiração
mais modernista a formação natural de um grupo de destaque na sociedade.
Eram eles, dentre outros: Renato Sthelling, Dnar Rocha, Wandyr Ramos, Nívea
Bracher, Carlos e Fani Bracher, Ruy Merheb, Reydner Gonçalves, Décio Bracher,
Roberto Gil, Celina Bracher e Roberto Vieira. Em entrevista, Nívea Bracher5
afirma: “Nós nos aprendíamos. Pintávamos juntos e, em alguns fins de semana,
parte do grupo dirigia-se para fora do atelier a registrar cenas da cidade em
suas telas”. A GAC foi a extensão viva da atmosfera desta casa que exalava arte
através de suas paredes.
2 GALERIA DE ARTE CELINA NA DÉCADA DE 60
A Galeria era uma associação civil, sem fins lucrativos. Considerada uma
entidade cultural de divulgação das artes plásticas, cinema, teatro, música e
literatura, foi reconhecida como Utilidade Pública no Estado, conforme Lei nº 4
497/67, no Município, sob a Lei nº 2 633/66 e registrada no Conselho Nacional
de Serviço Social, sob o nº 7 042/67. Esteve em pleno funcionamento desde
1965 a 1974. Os relatórios organizados de que a família dispõe, cedidos para
este estudo descrevem aqui apenas um ano e meio de 228 promoções de
elevado gabarito, desde exposições internacionais, de Morandi, Chagall, Bissière
e Picasso, grandes gravuristas e destaques nacionais como Di Cavalcanti,
Guignard, Pancetti, Scliar, entre outros, além de valores locais. Promoveu dois
cursos de arte com o crítico Frederico Morais e o Diretor do Museu de Ouro Preto,
Orlandino Seitas Fernandes, além de inúmeras palestras, conferências e debates
com personalidades de renome nacional. Um completo Curso de Cinema, com a
participação de 18 professores, sociólogos, críticos, cineastas, como: Luciano
Gusmão, Salvyano Cavalcanti Paiva, Alex Viany, Gustavo Dahl e outros. Totalizou
168 aulas ilustradas por 1.800 slides e projeção de 164 películas da evolução
cinematográfica, desde as primeiras experiências de 1895 “aos nossos dias
(décadas de 60-70)”, com filmes da importância dos clássicos americanos,
expressionistas alemães, além de 119 sessões de 235 filmes de vários países e
nacionais – Cinema Novo. Realizou 3 festivais de cinema. Foram apresentados 48
espetáculos teatrais em Juiz de Fora, 11 apresentações em cidades de Minas e
estado do Rio e destaca-se a peça Liberdade, Liberdade, com Paulo Autran.
No dia 03 de junho de 1967, Otto Maria Carpeaux deixa seu depoimento nos
arquivos da GAC – momento de agradecimento pela oportunidade de ser
recebido por obras de arte moderna, música de Vivaldi, bons amigos e relata
com emoção: “Acho verdadeiro milagre o que os amigos realizam: manter
certamente com sacrifícios incomensuráveis uma instituição cultural de tão alto
nível, inspirados por um idealismo sem limites”. No Rio, no dia 16 do mesmo
mês, o Chanceler Magalhães Pinto, impressionado por este empreendimento,
dizia que a Galeria realizava “um excelente trabalho cultural, não só no terreno
das Artes Plásticas, mas também com a difusão do Cinema, Teatro, Música e
Arquitetura em Juiz de Fora e na região circunvizinha”. Sobre a freqüência aos
eventos propostos pela Galeria e a participação do público, Olívio Tavares revela:
Fiz algumas palestras e dei aulas em alguns cursos, mas me é
impossível dar mais detalhes [...] Não sou de Juiz de Fora e
nunca vivi lá. Quanto ao público, sim, era absolutamente incrível.
A começar pelo interesse e pela quantidade. „Jovenzíssimos‟
5
intelectuais como eu, que lá
acabávamos falando para mais de
nos anos 70 e 80 cansei de fazer
'famosos' para públicos duas ou
Galeria Celina fazia era sucesso.
aparecíamos para palestras,
40 pessoas. Só para comparar,
palestras em locais muito mais
três vezes menores. O que a
A GAC trazia à cidade novas mensagens visuais que interagiam com as pessoas
por meios audiovisuais disponíveis.
2.1 Arte e tecnologia?
A tecnologia é extensão do homem. A raiz grega da palavra tecnologia –
τεχνολογία, conforme Rajah (2003, p. 167-168), refere-se ao “tratamento
sistemático de uma arte ou artesanato”, o que aproxima as relações entre
tecnologia e arte. O autor afirma embora haja uma visão de submissão da
tecnologia em relação à arte e à ciência, ela é, “na verdade, formadora dessas
duas categorias de conhecimento”.
A transição perceptível desde meados do século XX e início do século XXI
caracteriza-se pela imersão do ser humano na revolução biotecnológica. No
universo da cultura digital, onde inúmeras terminologias como biocibernética,
ciborgue, corpo protético, pós-orgânico, pós-biológico, pós-humano, se
disseminam globalmente em dimensões virtuais, por meio de redes e interfaces
entre os mais recônditos locais, como se pode abordar um tema referente à
década de 60 - predominantemente analógica - neste contexto?
Poderia se pensar em um discurso nostálgico, mas o que se pretende é
estabelecer paralelos que possibilitem a visualização do espírito de vanguarda
que aquela geração demonstrou na luta para ultrapassar barreiras de forma
criativa, com a tecnologia e recursos existentes na época. A capacidade de criar
é infinita. Não se percebe uma quebra neste processo de evolução, mas sim um
continuum que move o homem desde o início de sua existência. Segundo
Mariátegui (2003, p. 159) em abordagem sobre o futuro da arte e da ciência
através da inventividade humana:
Historicamente, a arte midiática não pode ser representada apenas
a partir do início da vanguarda; precisamos considerar que a arte
midiática tem estado presente desde tempos remotos. Dos rituais
xamânicos, que nem poderiam ser comparados às atuais imersões
da realidade virtual, até desenvolvimentos musicais, artísticos e
técnicos.
O homem sempre se utilizou de ferramentas para realização e concretização de
idéias elaboradas pelo cérebro, seja para adaptação, criação ou sobrevivência.
São interfaces entre o ambiente interno e externo. Questões de ordem
antropológica e filosófica permeiam estas interações do que é virtual, efêmero e
artificial. Ao retornar a uma primeira tentativa de representação concreta do
sentimento ou emoção humana observa-se que um traço feito a carvão da arte
rupestre é a manifestação do gesto manual de aplicação do pensamento
científico, revelador de uma linguagem simbólica.
Os “meios visuais ilusionísticos”, conforme Grau (2003, p. 286-287), apresentam
neste percurso de evolução, o “desejo de seu criador de dominar sensivelmente
o espectador através das imagens”. Historicamente tentativas de criação de
espaços visuais ilusórios surgem na tradição da arte européia, bem como nas
imensas pinturas nos tetos das igrejas barrocas. Eventos repletos de
6
dramaticidade, cor e emoção eram propostos por monges que levavam romeiros
à noite nas capelas, para visitação à luz de tochas, com o objetivo de ampliar a
sensação “ilusória do vivo”. Assim, “esse ilusionismo enganava a presença real
com todos os recursos midiáticos da época”. O autor comenta que sempre
ocorreram tentativas de aproximação entre arte e ciência no decorrer dos
tempos e cita Sergej M. Eisenstein: “Da perspectiva dos anos 40 do século XX,
ele avaliou o filme como o estágio supremo da evolução artística”. A arte
midiática vem em um crescente, desde então, compondo tramas sutis entre
ciência e arte.
Santaella (2007) defende a tese de que a “técnica hoje transmutada em
tecnologia” demonstra a continuidade de um princípio já instaurado no ser
humano, como fio condutor de desenvolvimento da complexidade originária da
constituição humana. Diz a autora que “a primeira tecnologia simbólica está no
nosso próprio corpo: a tecnologia da fala.[...] o artifício da maquinaria simbólica
que está instalada em nosso próprio corpo. (SANTAELLA, 1994, 2003). Ela
assinala que as novas tecnologias não causam estranhamento, sob o ponto de
vista de que são os prolongamentos do corpo e da mente dos seres humanos. O
neocórtex continua em crescimento de forma extracorpórea por meio de
tecnologias simbólicas que possibilitam processos de inserção no corpo. Relata
que estas tecnologias da inteligência são “extrassomatizações” do cérebro
humano. “Desde as primeiras imagens nas grutas e das primeiras formas de
escritura, o neocórtex vem crescendo, expandindo-se na biosfera, fora da caixa
craniana”.
Para Berger (2003, p.39-44) aqueles que rompem com as normas e estruturas
organizacionais pré-estabelecidas, sendo capazes de elaborar o futuro como
metamorfose, são denominados por ele como “primitivos do futuro”. Em
contraposição, classifica como “sobreviventes do futuro” os que se conformam
comodamente à realidade pré-existente, como garantia de prolongar o “capital
de vida”. Constata a dinâmica de um duplo movimento: liberação do passado
sem negá-lo e construção do futuro sem pré-determinações. Afirma que “os
próprios cientistas não se submetem mais exclusivamente à Verdade científica”.
Para ele, o futuro se constrói “pelos „primitivos‟ que somos capazes de nos
tornarmos” e para que haja a passagem de uma condição para a outra se faz
necessária a mudança e revisão de modelos de pensar e agir. As novas relações
possíveis de inclusão do mundo como o mundo nos inclui, para que o homem se
torne um “primitivo do futuro” somente podem ocorrer através da criatividade.
Ressalta que “somente a criatividade pode nos conduzir”.
2.2 GAC – espaço midiático de criatividade
O século XX espelha o progresso tecnológico por meio dos avanços das
máquinas, indústrias, medicina e todo um arsenal multifacetário, onde a imagem
reina como encantamento, informação e transformação de conceitos e costumes,
através das projeções do cinema, TV em cores, demais recursos midiáticos,
computadores e posteriormente a internet. O objetivo de se falar da Galeria de
Arte Celina neste contexto é apresentá-la como um espaço midiático e interativo,
“antenado” com o espírito da época - bem como suas atividades propostas e
realizadas pelos artistas nas áreas de cinema, collages-performances,
happenings e teatro - um “mix” metafórico de arte e imprevisibilidade. Atividades
que merecem ser registradas por sua relevância e pioneirismo na região. O
espaço permitia a conjunção entre exposições, teatro de arena, painel móvel
para projeções de filmes e slides, cursos e debates.
7
Cinema novo, bossa-nova, tropicalismo, golpe militar, pílula anticoncepcional,
mini saia, censura, passeatas, Hollywood, hippies, Beatles, a ida do homem à
Lua e toda a sorte de acontecimentos mundiais influenciaram a mocidade. Estes
jovens juizforanos podem ser considerados intelectuais orgânicos, segundo
Gramsci (1978, p.14) ao formarem grupos sociais não somente pela ideologia
política, mas, sobretudo pela visão filosófica, artística e participativa na
sociedade vigente. Fato curioso é a convivência livre e despojada de radicalismos
que permitia a integração dos ditos revolucionários com os reacionários em um
mesmo ambiente cultural caracterizado pelo espírito de Alegria, Alegria, música
de Caetano (HOLLANDA, 1982, p.59), que bem ilustra este caminhar contra o
vento, “nada no bolso ou nas mãos”, mas com “o peito cheio de amores” e “os
olhos cheios de cores”.
Com a determinação comparável à de Glauber Rocha cujo lema: “Uma câmera
na mão e uma idéia na cabeça” (MEDEIROS, 1993, p.4), este grupo imbuído de
intenso vigor partia para a produção cultural, com os mínimos recursos
disponíveis. Assim, uma lata de Neston transformava-se em spot de luz para
iluminar quadros e obras. Uma idéia na cabeça, algumas latas de Neston e um
espaço – assim criava-se uma Galeria de Arte.
Nostalgia? Não, tecnologia da época. Projetor de slides, TV, telões móveis,
gravador, toca-discos, long plays, projetor de filmes (empréstimo realizado pela
Aliança Francesa), mimeógrafo, papéis coloridos, grude, tintas e telas de
serigrafia para execução de cartazes de propaganda, tablado para teatro de
arena, cadeiras e - vontade, muita vontade. Um enorme querer os sensibilizava
para um se instalar um espaço aberto ao conhecimento, à invenção, ao diálogo,
à provocação saudável, sempre à busca de alternativas inovadoras para a
expressão cultural e existencial. Carlos Bracher6 afirma que “ali existia o
exercício verdadeiro da transcendência da arte. A Galeria foi a digital de tudo
isso [...] Éramos como um coral de pessoas encantadas pelo sentir e pelo fazer”.
2.3 Collages - performances 66
Eventos performáticos sobrepunham, em uma atmosfera estética inovadora e
midiática, diálogos conscientes ao abordar a platéia num jogo de encenações
simultâneas às projeções de slides com acontecimentos de época, nas paredes,
teto, piso e nos atores. Segundo Júlio Mackenzie7, diretor e intérprete dos
poemas contextualizados, as apresentações eram “colagem de palavra X cor X
expressão” apresentadas em estilo pop – “uma nova maneira de dizer as coisas”.
Realizaram-se na GAC, em um período de 3 meses, 26 apresentações, de agosto
ao outubro de 1966, com textos de Vinícius de Morais, Carlos Drummond de
Andrade, Cecília Meireles, Manuel Bandeira e Affonso Romano de Sant‟Anna.
Nesta quinta Collage, Mackenzie afirma que temas como Vietnã, Hiroshima,
Alabama, Marlyn Monroe e diversas catástrofes do século XX, “são lamentadas
em poemas de Affonso [...] tentando um protesto, ainda que tímido, sem
denúncias, pois estas são de estrita competência dos juízes: aos atores cabe o
seu papel e interpretá-los até o fim”. Em entrevista, Affonso revela que a
questão do Vietnã, o marcou profundamente: “enquanto nos EUA eu acompanhei
mais de perto esse drama, alunos que iam para guerra, cemitério de soldados na
frente da minha casa, manifestações nas ruas”... Toda esta carga emocional
espelha-se intensamente nas palavras e silêncios do poeta. O Alabama – expõe a
chaga aberta nos sonhos da época, provocada pelo assassinato de um dos
pioneiros na luta pelos direitos humanos: o negro Medgar Evers. Segundo Nívea,
estes espetáculos provocavam a interatividade com o público e relata que em um
8
deles, talvez sob a égide de sentirem-se em uma atmosfera transgressora, a
emoção elevou-se a tal ponto, que “as pessoas gritavam como se fosse um grito
de guerra”.
2.4 Liberdade, liberdade – teatro e a “maratona publicitária”
Peça de teatro que segundo Nívea Bracher8, foi um dos espetáculos de maior
relevância naqueles “anos de chumbo”. Grande espetáculo com Paulo Autran e
Teresa Rachel, era peça de Millor Fernandes do Grupo Opinião. Assistida por ela
em Belo Horizonte relata, em depoimento, ter dito ao gerente que seria ideal
trazê-la para apresentação em Juiz de Fora. Semanas após, este gerente chega à
sua porta e diz que dali a três dias estaria chegando com os atores para a
realização do espetáculo na cidade. Ela, perplexa, teve que assumir sua palavra
e com poucas pessoas, houve a multiplicação de esforços para a realização.
Complementa dizendo: “acho que a parte da tecnologia mais fundamental
encontra-se inserida dentro do próprio ser humano, na sua energia, capacidade
de realizar e de multiplicar as habilidades”. Ela, Carlos, Fani, Ricardo e Paulo
Augusto criaram um teatro de arena no último andar do edifício Clube Juiz de
Fora. Os espaços Casa de Itália, Círculo Militar e Cine Teatro Central estavam
indisponíveis para esta realização. Carlos Bracher foi para a serraria fazer vários
tablados de diferentes alturas em madeira. Paulo Augusto criou spots com
lâmpadas pisca-pisca, para um painel luminoso de divulgação, em plena rua.
Nívea buscou slides antigos em casa, tipo fotogramas, rasurou-os e raspou-os
com estilete escrevendo “Liberdade, liberdade”, espetáculo a realizar-se nos dias
20, 21 e 22 de Novembro, às 21 horas, no local já acima mencionado. Assim, ela
realizou uma “verdadeira maratona publicitária”. Percorria todas as sessões de
cinema da cidade para colocar seus slides artesanais no início da sessão, com
suas próprias mãos à frente do projetor – momento que em que havia
propagandas e noticiários antes da projeção dos filmes. Os funcionários dos
cines: Palace, Festival e Central permitiam que assim ela o fizesse, de forma
manual, projetando até mesmo os seus dedos nesta divulgação. Fato que se
repetiu em todos os cinemas nas três sessões da tarde e na noturna também.
Como os jornais divulgavam notícias da cidade nos cadernos de domingo, não
haveria tempo hábil para disseminar esta notícia com tamanha urgência.
“Tivemos que utilizar uma argumentação inteligente para driblar a censura na
cidade”, comenta. Usaram recursos de mídia da época: carros com autofalantes, como também, em equipe, fizeram impressões artesanais com tinta em
“papéis de venda”, comuns e coloridos para realizarem inúmeros cartazes. Em
casa fizeram grude e saíram juntos pela madrugada com as trinchas para colálos em todos os espaços possíveis do centro da cidade - uma realização de
grandes mosaicos em cores diversas. Dois dias - era o tempo para toda a
concretização: cenário, espaço e publicidade. Ela relata que Paulo Autran, se
hospedou no Hotel Imperial e se espantou, pela manhã, ao ver toda aquela
divulgação emocionante, pois seu gerente só havia enviado meia dúzia de
pequenos cartazes prontos e aqueles jovens realizaram tudo aquilo de uma
forma incrivelmente veloz e criativa. Com os esforços das pessoas da Galeria de
Arte Celina, o espetáculo contou com um público de 3.200 pessoas. O ator
sentiu-se gratificado com tamanha audiência e fervor, que retornou à Juiz de
Fora somente para realizar o espetáculo “Paulo Autran – Prosa – Poesia – Teatro”
no dia 30, às 21 horas no Círculo Militar, promovido com a colaboração da
Galeria de Arte Celina. Realmente um sucesso.
9
2.5 Cursos de Cinema
As centenas de aulas ministradas, com projeção slides e filmes, já supracitadas
pelo relatório fornecido, (janeiro de 1966 a abril de 1967), se realizaram com
uma proposta não meramente de conhecimento histórico, mas relacionando
implicações técnicas, a estética e a linguagem cinematográfica. O cinema
brasileiro também foi contemplado com as exibições de: O Pátio, de Glauber
Rocha; Rio 40 º, de Nelson Pereira dos Santos; A Aldeia, de Sanz; Olho por olho,
de Andréia Tonacci; Produto de exportação, de S. Ferreira, dentre outros. Para
exibição de filmes de arte e documentários foram realizadas 26 sessões de 39
filmes sobre a obra de Leonardo da Vinci, Rembrandt, Albert Dürer, Franz Hals,
La Tour, Delacroix, Van Gogh, Gauguin, Roualt, Rousseau, Rodin, Leger, Karel
Apell e Aleijadinho. Além dos filmes do curso de cinema, foram realizadas 44
sessões com 67 filmes de curta e longa metragem e inclui-se também o “Festival
de Clássicos do Cinema Americano”, “Festival Buster Keaton”, “Festival de
Clássicos do Cinema Francês”, “Festival de Cinema de Arte Francês”, em copromoção no Cine Palace. Exibições não relacionadas, com filmes de Embaixadas
foram feitas, com projeção de películas de aspectos culturais de diversas nações
da Cinemateca do MAM. Segundo Nívea Bracher9, os filmes mais importantes
eram rolos trazidos do Rio de Janeiro por ela, em sacolas, (todos devolvidos ao
José Sanz sem pedido de recibo algum), estes, previamente fornecidos por
Langlois, diretor da Cinemateca de Paris. O CEC foi uma das iniciativas mais
emblemáticas da época. Seus principais líderes como Luis Afonso, Rogério
Bitarelli Medeiros, Moreno, apaixonados cinéfilos, conseguiram exibir filmes
inéditos, raramente vistos em outras cidades. O ponto alto foi o encerramento do
curso que contou com a projeção de um único filme – Un Couer Battant, com
Jean Louis Trintignant, que jamais foi exibido em qualquer outro lugar do país e
chegou ao CEC apenas alguns dias após ser finalizado. O acesso a esta película
ocorreu sem visto de entrada e de censura no Brasil, o que causou alguns
problemas para exibição. Fato que permite observar a medida da eficiência e do
prestígio que o CEC gozava na época. Esta foi a sua primeira exibição no mundo.
Considerações finais
O sucesso alcançado pela Galeria decorre do carisma, do envolvimento dos
artistas e de seus insights criativos. Barthes (1977, p.40) diz que o semiólogo
seria um artista, pois “ele joga com os signos como um logro consciente, cuja
fascinação saboreia, quer fazer saborear e compreender”. Complementa ao dizer
que “o signo que ele vê é sempre imediato, regrado por uma espécie de
evidência que lhe salta aos olhos, como o estalo do Imaginário”. Duvignaud
(1970, p.10-46) assinala que grandes períodos criadores situam-se, quase todos,
em momentos de rupturas. O artista intervém, prolonga e modifica a natureza a sociedade imposta. Sobre a existência do homem diz que “o imaginário,
portanto, é muito mais que o imaginário”. Nestas trajetórias e intervenções por
que não, utilizar-se das ferramentas de que a tecnologia dispõe? Criatividade e
intuição são os pilares constitutivos do cerne existencial, característico do ser
humano. Para Arnheim (2004, p. 45), ilusoriamente o computador já foi
comparado ao cérebro, porém não possui a inventividade do homem. Para ele,
quando a intuição controla um projeto, as formas tecnologicamente criadas
poderão exercer fascínio e enriquecer a expressão artística. Pode-se dizer que os
“primitivos do futuro” poderão passar por estas metamorfoses, corajosamente
abertos às inovações científicas para a manifestação artística, sem desconsiderar
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o passado. A arte, disse Glauber Rocha, não é só talento, mas, sobretudo
coragem.
Referências Bibliográficas
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Entrevista com Affonso Romano de Sant‟Anna em julho de 2011, Rio de Janeiro.
Entrevista com Hélio de Almeida Fernandes em 13 de setembro de 2010, Juiz de Fora.
Entrevista com Olívio Tavares de Araújo em julho de 2011, São Paulo.
Entrevista com Décio Bracher em 18 de agosto de 2010, no Castelinho dos Bracher, Juiz de Fora.
Entrevista com Nívea Bracher em 18 de agosto de 2010, no Castelinho dos Bracher, Juiz de Fora.
Entrevista com Carlos Bracher em 08 de fevereiro de 2011, no Castelinho, Juiz de Fora.
Cartaz Collage 66: arquivo fornecido por Nívea Bracher, que contém o texto de Júlio Mackenzie.
Entrevista com Nívea Bracher em 30 de maio de 2011, no Castelinho dos Bracher, Juiz de Fora.
Entrevista com Nívea Bracher em 26 de agosto de 2010, no Castelinho dos Bracher, Juiz de Fora.
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Galeria de Arte Celina: centro cultural de Juiz de Fora pioneiro em