DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO PROCESSOS SOCIOEDUCATIVO E PRÁTICAS ESCOLARES PRÁTICAS DE DIVERSÃO DOS ESTUDANTES DA ACADEMIA JURÍDICA NO PROCESSO DE URBANIZAÇÃO DE SÃO PAULO (1867-1878) MARINA SANTOS COSTA SÃO JOÃO DEL-REI MARÇO DE 2012 MARINA SANTOS COSTA PRÁTICAS DE DIVERSÃO DOS ESTUDANTES DA ACADEMIA JURÍDICA NO PROCESSO DE URBANIZAÇÃO DE SÃO PAULO (1867-1878) Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação: Processos Socioeducativos e Práticas Escolares, do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de São João del-Rei como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação. Orientadora: Profª Drª Christianni Cardoso Morais SÃO JOÃO DEL-REI FEVEREIRO DE 2012 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus e a Maria por me permitirem chegar até aqui e por colocarem pessoas, verdadeiramente, especiais em meu caminho... Por ter conhecido meu marido, Deivide, meu companheiro de batalha, meu verdadeiro amigo, que divide comigo as alegrias e tristezas e a quem muito admiro e amo. Pela família maravilhosa que escolheram a mim: pais com amor simplesmente incondicional, uma irmã generosa que me possibilita experimentar um amor inexplicável de ser tia e madrinha da Eduarda, cunhados verdadeiramente nota dez. Além de um sogro e uma sogra que me concedem amor de pais e familiares (avós, tios, primos, padrinhos e a Tê) que sempre confiaram em mim. Pelos companheiros, amigos e padrinhos tio Guiu e tia Dorinha que dividem comigo e Deivide momentos de muita alegria e descontração. Pelos professores da graduação e, em especial, aos meus inesquecíveis amigos de turma e de república que permitem lembranças felizes de um tempo muito importante em minha vida. Pelos professores, colegas e amigos brilhantes do mestrado. Em especial, agradeço pela Carol, grande amiga e confidente que me acompanhou neste tempo de angústias e alegrias. Pelo meu querido professor Dr. Écio Portes, que com tamanha generosidade me apresentou as memórias de Almeida Nogueira, me mostrou os caminhos da pesquisa e com quem muito aprendo, sendo presença constante em minha vida acadêmica. A você, Écio, meu carinho e admiração. Pela professora Drª. Andrea Moreno que com tanta delicadeza, gentileza e competência contribuiu com esse estudo, dando críticas e sugestões pertinentes e enriquecedoras ao mesmo. Pela minha orientadora, Drª. Christianni Morais, tão especial, dedicada e que com tanto rigor e paciência conduziu as orientações. Chris, muito obrigada pelas manhãs, tardes, noites e quase madrugadas de grande aprendizado e troca de experiências: foi uma honra trabalhar com você. Como, não me lembrar daquela deliciosa “farofinha” que você fez. Obrigada por fazer parte da minha história e ser esse exemplo de vida e de profissional. Pela CAPES, instituição que financiou esta pesquisa. Obrigada Senhor pela graça recebida. Obrigada pela vida de cada uma dessas pessoas aqui lembradas e de outras tantas que fazem parte desta história que não foram citadas, mas que nem por isso são menos importantes. SUMÁRIO TABELAS E GRÁFICOS ........................................................................................... 05 FIGURA E QUADRO ................................................................................................. 06 RESUMO ...................................................................................................................... 07 ABSTRACT.................................................................................................................. 08 INTRODUÇÃO............................................................................................................ 09 CAPÍTULO I – NOMENCLATURA, CONSTRUÇÃO FONTES, DO OBJETO RECORTE DE ESTUDO: CRONOLÓGICO E REFERENCIAIS TEÓRICO-METODOLÓGICOS ............................................... 15 1.1 – Nomenclatura e definições ................................................................................... 15 1.2 – Questões conceituais ............................................................................................ 19 1.3 – Fontes e metodologias .......................................................................................... 25 CAPÍTULO II – A ACADEMIA JURÍDICA E A CIDADE DE SÃO PAULO EM PROCESSO DE URBANIZAÇÃO ............................................................................ 41 2.1 – Brasil e São Paulo no século XIX ........................................................................ 41 2.2 – História da Academia Jurídica de São Paulo ........................................................ 49 2.3 – Os espaços de diversão para além da Academia Jurídica ..................................... 59 CAPÍTULO III – ESTUDANTADAS: AS PRÁTICAS DE DIVERSÃO DOS ESTUDANTES DA ACADEMIA JURÍDICA DE SÃO PAULO ........................... 81 3.1– As práticas de diversão em seu conjunto ............................................................... 81 3.2 – Análise qualitativa das práticas corporais e de diversão sportivas ....................... 91 CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................................... 112 FONTES...................................................................................................................... 115 REFERÊNCIAS.......................................................................................................... 116 ANEXOS ..................................................................................................................... 123 TABELAS E GRÁFICOS TABELA I – PRÁTICAS DE DIVERSÃO EMPREENDIDAS PELOS ESTUDANTES DA ACADEMIA JURÍDICA DE SÃO PAULO (1827-1878) ...... 82 TABELA II – PRÁTICAS DE DIVERSÃO EMPREENDIDAS PELOS ESTUDANTES DA ACADEMIA JURÍDICA DE SÃO PAULO (1867-1878) ...... 84 GRÁFICO I – QUANTIDADE DE PRÁTICAS DE DIVERSÃO POR PERÍODOS DA ACADEMIA JURÍDICA DE SÃO PAULO (1827-1874) .................................. 33 GRÁFICO II – PORCENTAGENS DE RECORRÊNCIAS DOS SPORTS NA OBRA DE ALMEIDA NOGUEIRA ENTRE OS ANOS DE 1827-1866 E 1867-1878 ........................................................................................................................................ 87 FIGURA E QUADRO FIGURA I – ANÚNCIO DE BAILE DE CARNAVAL NO TEATRO SÃO JOSÉ (1872) ............................................................................................................................. 74 QUADRO I – PRÁTICAS CORPORAIS E DE DIVERSÃO EMPREENDIDAS PELOS ESTUDANTES DA ACADEMIA JURÍDICA DE SÃO PAULO (18271878) ............................................................................................................................. 37 RESUMO Esta dissertação tem como objetivo compreender as práticas de diversão às quais os estudantes da Academia Jurídica de São Paulo se dedicavam ao longo do século XIX e, de modo mais específico, entre os anos 1867-1878. Busquei entender como essas práticas de diversão se inseriram no processo de urbanização que se esboçava em São Paulo nas décadas de 1860-1870. Para investigar essas práticas de diversão, tomei como fonte principal a obra do memorialista Almeida Nogueira, intitulada Tradições e reminiscências: estudantes, estudantões e estudantadas, que se refere ao período de 1827-1878 e que fora publicada em nove volumes, nos anos de 1907 a 1912. Dentre as demais fontes, utilizei as memórias de Spencer Vampré, publicadas sob o título Memórias para a história da Academia de São Paulo (1977), além da imprensa periódica e dos Relatórios dos Presidentes da Província de São Paulo produzidos nas décadas de 60 e 70 dos oitocentos. Após inventariar o conjunto dessas práticas de diversão a partir de um tratamento quantitativo, criei categorias de análise. Posteriormente, analisei de forma quanti-qualitativa uma dessas categorias, os sports recorrentes entre os anos de 1867-1878: caçadas, corridas de cavalos, natação, pesca, ginástica, capoeira, esgrima e peteca. A análise do conjunto dessas práticas de diversão e, de modo mais específico, das práticas sportivas me permitiu compreender algumas redes de interdependências e representações estabelecidas na configuração “Academia Jurídica – cidade de São Paulo”, bem como entender como essas práticas se modificaram com a urbanização que se processava na cidade. Dessa forma, foi possível constatar as tensões e conflitos que permeavam aquele espaço onde ainda não estavam definidos os limites entre o rural e o urbano e, por fim, como essas práticas de diversão participavam da dinâmica do processo de educação dos costumes vivido na cidade de São Paulo. Palavras-chave: Academia Jurídica de São Paulo – Processo de urbanização – Práticas de diversão ABSTRACT This dissertation aims to understand the practice of diversion in which students of the Legal Academy of São Paulo engaged throughout the nineteenth century and, more specifically, among the years 1867-1878. I sought to understand how these practices were included in the fun process of urbanization that was taking shape in Sao Paulo in the decades of 1860-1870. To investigate these practices of fun, I took as its primary source the work of the memoirist Almeida Nogueira, entitled Tradições e reminiscências: estudantes, estudantões e estudantadas, which refers to the period of 1827-1878 and which was published in nine volumes in the years 1907 to 1912. Among other sources, I used the memoirs of Spencer Vampré, published under the title Memórias para a história da Academia de São Paulo (1977), besides the periodical press and the reports of the Presidents of the Province of São Paulo produced in the 60s and 70s of eight hundred. After inventorying all these practices of fun from a quantitative treatment, I created categories of analysis. Later, I analyzed in a quantitative and qualitative form one of these categories, the sports applicants between the years of 1867-1878: hunting, horse racing, swimming, fishing, gymnastics, capoeira, fencing and shuttlecock. The analysis of all these practices of fun and, more specifically, the sportive practices allowed me to understand some interdependent and representative networks established in “Legal Academy – São Paulo city” configuration and understand how these practices have changed with the urbanization that was processed in the city. Thus, I could see the tensions and conflicts that permeated the space where the boundaries between rural and urban where not defined yet, and finally, how these practices of fun used to take part in the dynamics of the education of customs of São Paulo city. Keywords: Legal Academy of São Paulo - Process of urbanization - Practices of fun 9 INTRODUÇÃO Este estudo teve início com uma pesquisa de Iniciação Científica realizada entre agosto de 2007 e julho de 2008, quando de minha graduação em Educação Física na Universidade Federal de São João del-Rei. A proposta do trabalho de iniciação foi investigar as práticas de diversão dos estudantes da Academia Jurídica de São Paulo, tomando como fonte a obra do memorialista Almeida Nogueira intitulada Tradições e reminiscências: estudantes, estudantões e estudantadas, que abarca o período compreendido entre 1827 e 18781. Todavia, nesta dissertação, estabeleci como recorte cronológico os anos de 1867 a 18782. A partir do mapeamento das práticas de diversão registradas na obra de Almeida Nogueira, verifiquei que as questões acerca desta temática poderiam ser aprofundadas, o que motivou a continuidade do estudo no nível da Pós-Graduação. Após ingresso no mestrado, a pesquisa foi ampliada, tomando novos rumos. Neste trabalho, busquei compreender o conjunto das práticas de diversão empreendidas pelos estudantes da Academia Jurídica de São Paulo, mais especificamente as práticas sportivas. Nesse sentido, entendo por práticas de diversão “um conjunto de manifestações que são vivenciadas com o fim principal de entreter e divertir-se” (CUNHA JR et al, 2011, p. 15), podendo ter as mesmas uma dimensão corporal. Neste caso, as práticas corporais, que são entendidas como “um conjunto de manifestações corporais, práticas físicas, realizadas com fins diversos, institucionalizadas ou não, e que podem ser resumidas em ginásticas, esportes, danças, jogos e lutas” (Id. ibid.). Considero as práticas de diversão e o convívio dos estudantes objeto de estudo de interesse para o campo da História da Educação, a partir do momento em que tomo as práticas de diversão como uma forma de educação ampla, que se refere à educação 1 O título da referida pesquisa é As práticas de diversão dos estudantes de Direito da Academia Jurídica de São Paulo no século XIX: uma leitura a partir da obra de Almeida Nogueira, a qual fora orientada pelo professor Dr. Écio Antônio Portes do Departamento das Ciências da Educação da Universidade Federal de São João del-Rei, a quem agradeço a orientação e por ter me apresentado a obra de Almeida Nogueira. 2 As características da obra de Almeida Nogueira, bem como os critérios e justificativas para o estabelecimento deste recorte cronológico mais reduzido serão apresentados no Capítulo I e os dados obtidos a partir desta fonte documental serão analisados ao longo de toda a dissertação. 10 dos costumes3, construída no interior do processo civilizador conforme Elias (1994). A educação dos costumes é um pressuposto fundamental para meu estudo e esta visão mais ampla extrapola a ideia de educação como fenômeno limitado às salas de aulas. Utilizando-me dos dizeres de Luciano Mendes de Faria Filho, tenho como objetivo “buscar a educação que se faz nas relações sociais” (FARIA FILHO, 2005, p. 243). Para corroborar esta visão, tomo de empréstimo também as palavras de Kellen Nogueira Vilhena (2008), a qual afirma que a educação se faz a partir de diversas práticas e instituições e o “lazer, nesse sentido, também se configura como prática educativa, uma vez que os indivíduos se formam nessas experiências de sociabilidade, as quais reproduzem e produzem concepções de mundo e de sociedade” (VILHENA, 2008, p. 15). As práticas corporais e de diversão dos estudantes do ensino superior em períodos passados, assim como pesquisas que, de alguma forma, se dedicam à Academia Jurídica de São Paulo no século XIX e/ou à obra de Almeida Nogueira são pouco numerosas no campo da História da Educação. Tais afirmações se baseiam em pesquisa realizada em revistas e congressos do campo ao qual este trabalho se filia4. Ao realizar esta pesquisa bibliográfica, estabeleci alguns temas importantes para meu estudo e procurei localizar quais pesquisadores têm lidado com estes objetos que para mim se mostraram relevantes, quais sejam: ensino superior, Academia Jurídica de São Paulo, a cidade de São Paulo no século XIX. E, ademais, trabalhos que lidam com os Oitocentos, recorte cronológico ao qual me dedico. Entre os 42 números de uma das principais revistas da área da Educação, a Revista Brasileira de Educação, (publicada entre 1995 e 2009), pude mapear 412 artigos e textos publicados na seção espaço aberto. Constatei que apenas sete trabalhos (1,6%) tratam de ensino superior, outros sete (1,6%) abrangem o século XIX e somente 3 Em O processo civilizador, Elias (1994), ao analisar os manuais de civilidade, afirma que tinha como objetivo realizar uma História dos costumes, entendendo costumes como comportamento socialmente desejável. Nesta pesquisa, faço uma adaptação desta noção elisiana, a partir da expressão educação dos costumes, que será utizada ao longo do trabalho. 4 Existe, na USP, um projeto de pesquisa em lingüística denominado Edição de documentos da Faculdade de Direito, USP, 1827-1894 coordenado pelo prof. Dr. Gabriel Antunes de Araújo que tem objetivo de editar manuscritos em língua portuguesa e de levantar seus aspectos linguísticos em vários níveis de análise (fonológico, fonético, sintático e morfológico). Apesar de se dedicar à Academia Jurídica de São Paulo, tal produção não foi contabilizada na pesquisa que realizei por se tratar de área distinta da História da Educação. 11 um (0,2%) se refere à cidade de São Paulo, ao tratar da passagem de missionárias norteamericanas nas escolas de São Paulo no século XIX. Ao tomar mais especificamente o campo da História da Educação, os números não são tão superiores. Nos 23 números da Revista Brasileira de História da Educação, editados entre 2001 e 2010, contabilizei o total de 216 artigos publicados, dos quais 25 (11,5%) tratam do contexto do século XIX; 12 do ensino superior (5,5%); quatro (1,8%) da cidade de São Paulo. O único artigo publicado por esta revista que possuiu maior relação com o meu objeto de estudo foi o de Irlen Gonçalves (2008), historiador que realizou pesquisa acerca da atuação do intelectual Delfim Moreira na tramitação da Reforma de Ensino Primário (1902-1906). Neste artigo, Gonçalves fez algumas reflexões sobre a importância da passagem desse sujeito pela Academia de Direito de São Paulo, entre 1885 e 1890. Já as pesquisas que lidam com o contexto do século XIX privilegiam as escolas e as práticas educativas ocorridas no ambiente escolar. Outras publicações pesquisadas foram os cadernos de resumos e textos completos publicados em anais (CD-ROM) de dois dos principais eventos da área5. Dentre as cinco edições do Congresso Brasileiro de História da Educação, constatei que, do total de 2.466 trabalhos publicados entre os anos de 2000 e 2008, 57 (2,3%) se referem ao contexto do século XIX; 33 (1,3%) ao ensino superior; 27 (1%) à cidade de São Paulo. Nos anais das cinco edições do Congresso de Pesquisa e Ensino de História da Educação em Minas Gerais, verifiquei que, dentre os 778 resumos publicados entre os anos de 2001 e 2009, 28 (3,5%) se referem ao contexto do século XIX; 27 (3,4%) ao ensino superior; um (0,1%) à cidade de São Paulo. Realizei, ademais, pesquisa no Banco de Teses e Dissertações da Capes e verifiquei a existência de 33.206 dissertações de mestrado e de 7.217 teses de doutorado vinculadas à área da Educação e de 10.172 dissertações de mestrado e 2.425 teses de 5 Pesquisei os cadernos de resumo das seguintes edições: I ao V Congresso Brasileiro de História da Educação ocorrido nas cidades do Rio de Janeiro - RJ, 2000; Natal - RN, 2002; Curitiba - PR, 2004; Goiânia - GO, 2006; Aracajú - SE, 2008 e I ao V Congresso de Pesquisa e Ensino de História da Educação em Minas Gerais ocorridos nas cidades mineiras de Belo Horizonte, 2001; Uberlândia, 2003; São João del-Rei, 2005; Juiz de Fora, 2007; Montes Claros, 2009. 12 doutorado referentes à área da História da Educação6. Para delimitar a pesquisa, usei de expressões que, de alguma forma, auxiliaram a identificar dissertações e teses que pudessem ter relação com o meu objeto de estudo, como cultura estudantil; Faculdade de Direito; Academia Jurídica; Academia Jurídica de São Paulo. A utilização destas expressões permitiu localizar 96 dissertações de mestrado e 110 teses de doutorado, o que corresponde, em relação ao campo da História da Educação, a 0,9% e 4,5%, respectivamente. Vale ressaltar que apenas oito dissertações (8,3%) e seis teses (5,4%) se relacionam à Academia Jurídica de São Paulo no século XIX e puderam contribuir, de alguma maneira, com essa pesquisa, seja para pensar o contexto de criação dos cursos jurídicos no Brasil, por relatar atividades produzidas pelos estudantes ou mesmo por trabalhar com fontes que também utilizei. Apesar de se dedicarem à história da Academia, nenhum destes trabalhos se ocupou com o conjunto práticas de diversão empreendidas pelos estudantes. No que se refere ao recorte cronológico desta pesquisa (1867-1878), localizei três dissertações (37,5%) e quatro teses (66,5%) que abordam todo o período ao qual me dediquei e outras duas dissertações (25%) e uma tese (16,5%) que se referem a apenas parte do recorte com o qual trabalhei. Em se tratando dos temas e objetivos das dissertações e teses pesquisadas, constatei que nenhuma delas tomou como objeto as práticas corporais e de diversão empreendidas pelos estudantes da Academia em seu conjunto. Enfocam uma ou outra produção artística, jornalística ou literária vivenciada pelos estudantes, como no caso de Elizabeth Azevedo (2000)7 que buscou compreender a produção dramática dos estudantes da Academia entre os anos de 1842 e 1870 a partir dos autores das peças teatrais. Outro exemplo é a dissertação de Helder Garmes (1993), que investigou a literatura estudantil em uma fonte específica, a revista acadêmica Ensaios Literários e, ainda, procurou conhecer a história das publicações acadêmicas entre 1833-18608. 6 O Banco de Teses e Dissertações da Capes disponibiliza resumos de teses e dissertações a partir de 1987 até 2010. Vale ressaltar que o site não oferece ferramentas para se localizar estudos apenas no campo da História da Educação. Nesse sentido, optei por basear meus cálculos com os números obtidos na pesquisa a partir da expressão “História da Educação”, selecionadas pelo item “assunto” e “todas as palavras”, termos usados na busca pelo portal da Capes. Disponível em: http://capesdw.capes.gov.br/capesdw/. Acessado em fevereiro/março de 2011. 7 Utilizo, neste texto, do livro que é resultado da referida dissertação de Azevedo, intitulado: Um palco sob as arcadas: o teatro dos estudantes de direito do largo de São Francisco, em São Paulo, no século XIX (2000). 8 Há outros quatro trabalhos sobre a Academia com os quais dialogo menos, por enfocarem o papel político da sociedade secreta universitária denominada “Bucha”, entre 1889-1930 (PIZANI, 1989); laços 13 Além destes, as dissertações de Ana Paula Navarro (2010) e de Rui de Melo Cabral (2004) e a tese de Giordano Bruno Soares Roberto (2008) fornecem elementos acerca do ensino jurídico na Academia e da legislação imperial que vigorou no período e interferiam na vida acadêmica dos estudantes e professores. Há, ainda, outros quatro estudos que se referem a estudantes que passaram pela Academia. As teses de Cláudia Panizzolo (2006) e Maria Lúcia Spedo Hisldorf (1988) tratam de trajetórias de intelectuais. A de Écio Portes (2001), de trajetórias escolares, assim como a dissertação de Ricardo Cruz (2009). Todos estes trabalhos têm como objetivo compreender a relação de sujeitos históricos (no caso, ex-estudantes) com a Academia e fornecem leituras interessantes para se pensar criticamente as fontes de pesquisa com as quais trabalham, dentre elas a obra de Almeida Nogueira. Uma discussão mais aprofundada acerca das fontes históricas utilizadas nesta dissertação será realizada no Capítulo I desta dissertação. A partir desta revisão bibliográfica, não foram encontradas pesquisas que dizem respeito diretamente ao objeto de estudo ao qual me dediquei. Em minha dissertação de mestrado, investiguei o conjunto de práticas de diversão dos estudantes e mais detidamente aos sports praticados pelos estudantes da Academia Jurídica de São Paulo, práticas estas ocorridas entre 1867-1878, fora do espaço da sala de aula. Assim, acredito que meu trabalho pode contribuir para o preenchimento desta lacuna, ao lançar luzes sobre um tema pouco explorado, mas que também considero fundamental para a História da Educação brasileira. Ao analisar práticas de diversão variadas, tais como as produções jornalísticas, as produções literárias, as festas, os espetáculos, os passeios, os jogos de salão e, mais especificamente, os sports em suas múltiplas relações e não isoladamente, pretendo elucidar parte do cotidiano vivido pelos estudantes de outrora, considerando tais atividades como significativas na formação dos sujeitos. Tais aspectos do cotidiano vêm sendo pouco exploradas pelos pesquisadores do campo no qual esta dissertação se insere. Nesta dissertação de mestrado que ora dou a ler, apresento, no Capítulo I, definições acerca das classificações e da nomenclatura utilizada para apresentar as práticas de diversão analisadas. Apresento os conceitos utilizados neste estudo, tomados de sociabilidade do grupo republicano envolvido em torno do “Almanaque Literário de São Paulo”, 18761885 (MENEZES, 2006); início da literatura na cidade de São Paulo com ênfase na “Revista da Sociedade Philomathica”, 1828-1833 (TEIXEIRA, 2006); função social da mulher a partir do teatro produzido pelos estudantes da Academia de Direito, 1845-1870 (BORGES, 1986). 14 de empréstimo de pesquisadores como Roger Chartier, Michael de Certeau, Jorge Larrosa e, principalmente, Norbert Elias. Além disso, realizo uma discussão acerca das fontes nas quais o estudo se baseia e da metodologia de pesquisa empregada para analisar as mesmas. E, ainda, descrevo os caminhos trilhados para a definição do recorte cronológico da pesquisa. No Capítulo II, trato do contexto histórico de São Paulo e da criação da Academia Jurídica na cidade, desde a fundação da Academia (em 1827) até 1878, abordando os aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais do Brasil imperial e da cidade de São Paulo nesse período. Para tanto, utilizo como fontes as produções de Almeida Nogueira e Spencer Vampré, a imprensa periódica da cidade produzida entre os anos de 1867-1878, os Relatórios dos Presidentes da Província de São Paulo. Por fim, no Capítulo III, faço um levantamento quantitativo dos dados que dizem respeito às práticas de diversão que fui inventariando na medida em que lia a obra de Almeida Nogueira, fonte principal deste último capítulo. A partir deste tratamento quantitativo mais geral, que me permitiu ter uma visão de conjunto das práticas de diversão mencionadas pelo memorialista, pude estabelecer categorias de análise para agrupar as práticas de diversão que se encontravam dispersas na obra. Ao fim do capítulo, realizo uma análise quanti-qualitativa de uma categoria específica entre as várias práticas de diversão empreendidas pelos estudantes: os sports. 15 CAPÍTULO I CONSTRUÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO: NOMENCLATURA, FONTES, RECORTE CRONOLÓGICO E REFERENCIAIS TEÓRICOMETODOLÓGICOS 1.1 – Nomenclatura e definições Esta dissertação teve como objeto compreender as práticas de diversão às quais os estudantes da Academia Jurídica de São Paulo se dedicavam ao longo do século XIX e de modo mais específico entre os anos 1867-1878. Nesse tocante, fazem-se necessários alguns apontamentos acerca do uso do termo diversão neste estudo. Tendo em vista as diversas concepções e definições acerca do lazer, valho-me, neste estudo, dos apontamentos de Norbert Elias e Eric Dunning (1992), que entendem que o lazer também está inserido no processo civilizador e o identifica, como parte de um processo no qual “outras configurações de organização de poder institucional também se verificam, interagindo com processos não planejados, ‘cegos’, vividos no cotidiano e nas transformações de longa duração dos comportamentos e atitudes humanas” (GEBARA, 2006, p. 23). Nesse sentido, Elias e Dunning apontam que o lazer permite uma “agradável excitação que culmina num clímax deleitante e a libertação de tensão” que por vezes são controladas pelo processo civilizador (ELIAS; DUNNING, 1992, p. 94). Além disso, Christianne Luce Gomes (2004, p. 124) também auxilia a pensar nas questões acerca do lazer na medida em que o considera uma vivência de inúmeras práticas culturais, como o jogo, a brincadeira, a festa, o passeio, a viagem, o esporte e também as formas de arte (pintura, escultura, dança, teatro, música, cinema), dentre várias outras possibilidades. Inclui, ainda, o ócio, uma vez que esta e outras manifestações culturais podem constituir, em nosso, meio social, notáveis experiências de lazer (GOMES, 2004, p. 124). Com relação ao emprego da palavra diversão neste estudo, vale a pena, primeiramente indicar alguns apontamentos etimológicos. Segundo HOUAISS (2001 apud ROSA 2004, p. 67), a etimologia da palavra diversão, datada no século XVII, “vem do latim tardio diversio, ónis 'digressão, diversão', do verbo latim divertere 'afastar-se, apartar-se, ser diferente, divergir'”. Além disso, Maria Cristina Rosa (2004), ao citar o famoso dicionarista português D. Raphael de Bluteau, acrescenta que a diversão 16 reporta-se ao desvio de algo útil para algo inútil, ao afastamento de um trabalho precioso, de qualquer séria ocupação, para se entregar a outra ocupação menos necessária. Divertir, fazer uma diversão, ‘é tirar, ou diminuir a aplicação a algum estudo, negócio. Desviar de alguma ocupação, empresa, etc’ (BLUTEAU, 1712, apud ROSA, 2004, p. 67). No tocante à diversão Rosa (2004, p. 67) aponta algumas significações atribuídas à mesma. Dentre elas, uma que chamou atenção se refere à sua dimensão negativa vinculada ao ócio, ao vício, ao inútil – a diversão ilícita, condenada legal ou moralmente, sendo a outra a diversão lícita – “permitida, conforme a lei e aos princípios do direito”. Nesse sentido, a autora escreve que ambas “convivem, harmoniosamente ou não, nos diferentes tempos e locais” e que “a negação da diversão em benefício da racionalidade teve entre suas consequências a institucionalização do lazer – ação que reclamou intervenções e estratégias múltiplas” (ROSA, 2004, p. 67). Apesar das diferenças, é notória a estreita relação entre diversão e lazer: quando se busca a “racionalidade das experiências de diversão” tem-se um “afastamento ou distanciamento dos desvios, vícios, desregramentos e excessos, almejando um controle que ocorre simultâneo ao processo de civilização, voltado para o mundo do trabalho. Estabelece-se o que é lícito, moral, racional” (ROSA, 2004, p. 68). Ao que tudo indica, no campo do lazer, há ainda debates entorno de sua ocorrência histórica. Nesse sentido, Gomes (2004) aponta que as discussões sobre o lazer na Modernidade são mais definidas e que o mesmo não acontece quando se toma períodos anteriores ao fenômeno da Modernidade. Sobre esses dois momentos, a autora escreve que “a era moderna foi fundamental para que o lazer se estabelecesse como um fenômeno autônomo, normativo e organizado, configurando-se da forma como o conhecemos hoje” e, ao mesmo tempo, a análise de outras realidades (anteriores) auxilia na compreensão do processo de constituição do lazer (Gomes, 2004, p. 137- 138). Nesse contexto, em se tratando dos estudos históricos do lazer, Victor Melo (2011, p. 74) sugere a adoção do termo diversão, pois permite “considerar recortes temporais anteriores à modernidade”. Nesse sentido, o autor escreve que isso não significa “abandonar as discussões sobre o lazer, mas sim definitivamente considerar que esse é um possível arranjo da diversão, não o único nem mesmo na modernidade” (MELO, 2011, p. 74). 17 A partir das definições acima apresentadas, neste estudo, a opção por utilizar a nomenclatura diversão leva em conta, ainda, a própria fonte pesquisada, no caso, a obra Tradições e reminiscências..., em que o termo lazer não foi recorrente, sendo os termos diversão e divertimentos mais utilizados pelo memorialista. A opção pela diversão também se deve aos autores que me auxiliaram nas definições de minhas categorias de análise e me ajudaram a pensar nessas práticas empreendidas pelos estudantes, dentre eles Cunha Jr (2011) e Priscila Soares (2010). Faz-se importante, ainda, ressaltar que, ao utilizar a palavra de diversão, não deixo de considerar a dimensão do conflito. Levo em conta a possibilidade de que nem todos os que participavam das práticas realizadas com o intuito de diversão se divertiam de fato, podendo ser objeto de exclusão, de opressão etc. As práticas de diversão são aqui tomadas como inseridas nas dinâmicas das configurações sociais e, conforme Cynthia Greive Veiga (2005), as configurações são também relações de poder e controle e, por isso, podem gerar tensões. Outra questão importante para essa pesquisa se refere ao uso do termo sport e não esporte. Melo afirma que o surgimento dos sentidos e significados do esporte como manifestação cultural apresentam duas convergências: a primeira indica que “o esporte já existia na Antiguidade, sendo identificado em jogos que eram praticados por chineses, egípcios e gregos, entre outros”; e a segunda o compreende como um “fenômeno da modernidade, que, mesmo apresentando similaridades técnicas com antigas práticas corporais, possui sentidos e significados completamente diferenciados daqueles jogos ‘pré-esportivos’” (MELO, 2007, p. 68). Nesse contexto, para o autor, o esporte é uma prática moderna, ainda que possamos encontrar fenômenos análogos em outros momentos históricos. Suas origens se encontram na Inglaterra do século XVIII, é mais claramente sistematizado nas escolas públicas inglesas no século XIX (Bourdieu, 1983) e rapidamente se espalha por outros países, entre os pioneiramente a França e os Estados Unidos. Sua difusão tem estreitas relações com os desdobramentos da Segunda Revolução Industrial, com a procura de novos mercados e o aumento dos relacionamentos econômicos internacionais (MELO, 2009, p. 71). A partir dessa vinculação com a modernidade é que o campo esportivo se dinamizou, relacionando-se “com o crescimento das cidades e o desenvolvimento de uma cultura urbana, com o incremento das preocupações com o corpo, com a saúde e com a higiene, com a valorização das ideias de espetáculo e consumo na configuração dos novos imaginários; enfim, com as dimensões que marcam a modernidade” (MELO, 18 2009, p. 35). Uma questão que favorece a participação do esporte nesse processo de constituição da sociedade moderna é o fato de que ele “ao mesmo tempo em que ‘moraliza’ algumas atividades consideradas inadequadas, preserva elementos de ‘imoralidade permitida’”, o que possivelmente o faz tão apreciado (MELO, 2009, p. 38). De acordo com Melo (2007, p. 146), o sport “era inicialmente entendido como um espetáculo, uma forma de jogo, uma diversão. Apenas, posteriormente, já no final do século XIX, começa a ser identificado como uma estratégia de promoção da saúde, ligado a preocupações com a estética” (formato mais parecido com o qual temos hoje). Quando esse termo passou a ser usado no Brasil, ainda “não havia uma manifestação propriamente dita organizada. Um grande número de atividades era denominado como sportivas, sem que houvesse uma compreensão muito clara sobre o porquê dessa definição” (MELO, 2007, p. 146). Tal imprecisão também fora observada no período em que esta pesquisa se insere. Assim, eram dadas como práticas esportivas as mais diversas atividades: aquelas que pioneiramente se organizariam em definitivo (turfe e remo); outras que ainda demorariam um pouco mais para se consolidar (por exemplo, corridas a pé e de velocípedes, primórdios do atletismo e do ciclismo); e, por fim, algumas que, por motivos diversos, nunca se estruturariam como esportes, até mesmo porque a imprecisão era de tal ordem que até mesmo banhos de mar e jogo de bicho eram noticiados como esportes (MELO, 2009, p. 37). Tendo como referência os estudos de Melo, percebi que não há uma definição precisa do que teria sido classificado como esporte no Brasil do século XIX, pelo fato de que “chega primeiro a notícia sobre essa nova possibilidade de diversão/vivência social e somente depois se configura melhor sua organização”, ocasionando uma “convivência de diferentes práticas e uma construção tensa e paulatina de sentidos e significados ao redor do esporte” (MELO, 2009, p. 36). Assim, neste estudo optei por utilizar a palavra sport, numa tentativa de marcar as distinções apontadas anteriormente. Vale ressaltar, como aponta Melo (2009, p. 3738, 46), que algumas dessas práticas eram desenvolvidas mesmo antes da chegada da prática esportiva no país. Como exemplo, temos as touradas que já se davam desde o século XVIII e, ainda, as corridas de cavalos9 que na década de 1810 já aconteciam, 9 Segundo Melo (2007, p. 52), motivados pelos padrões de diversão e sociabilidade em seus países de origem, os imigrantes europeus, principalmente os ingleses, foram os pioneiros na organização de 19 constituindo-se uma das bases para a estruturação do turfe no campo esportivo brasileiro10. Apenas a partir de 1849, com a criação de um clube de turfe na cidade do Rio de Janeiro com objetivos de organizar competições esportivas, no caso o Club de Corridas, é que se iniciou a estruturação do campo do esporte moderno no Brasil. Vale dizer que o turfe foi “um dos primeiros esportes a serem organizados, no Brasil e no mundo, (...) [e] lançou as bases de organização do campo, o que levou as práticas esportivas subsequentes a adotarem grande parte de seu modelo de competição” (MELO, 2007, p. 155). 1.2 – Questões conceituais Tendo em vista o objeto de estudo desta pesquisa, as práticas de diversão, e por se constituir uma pesquisa que se insere no campo da História, faz-se necessário recorrer ao movimento que ficou conhecido como a Escola dos Annales, que ocorreu na França a partir de 1920. A partir do movimento dos Annales, uma nova concepção da História veio se estruturando, uma concepção que combate “uma história somente preocupada com os fatos singulares, sobretudo com os de natureza política, diplomática e militar” (VAINFAS, 1997, p. 130). Essa proposta de uma nova maneira de se fazer história “problematizadora do social, preocupada com as massas anônimas, seus modos de viver, sentir e pensar”, uma história “interdisciplinar” (VAINFAS, 1997, p. 130), passou a tomar por objeto de estudo temas diversos, entre eles os relacionados “ao cotidiano e às representações, na falta de expressões melhores: o amor, a morte, a família, a criança, as bruxas, os loucos, a mulher, os homossexuais, o corpo, a morte, os modos os modos de vestir, de chorar, de comer, de beijar, etc” e, porque não incluir, as práticas de diversão (VAINFAS, 1997, p. 137). Para compreender as práticas de diversão no cotidiano dos estudantes da Academia Jurídica de São Paulo, me apoiei em alguns conceitos, utilizando-me das corridas de cavalos e criação de clubes. O desenvolvimento do esporte se vinculava muito com “a possibilidade de se constituir em uma diversão, em um país ainda carente de iniciativas nesse sentido”. 10 O conceito de campo é aqui utilizado no sentido formulado por Bourdieu. Diz respeito a um espaço estruturado, com uma lógica interna própria, no qual as posições sociais são definidas de acordo com a distribuição de capitais que lhes são específicos. Para que seja possível ocupar uma posição num campo, seus agentes batalham, sendo o agente ou grupo que conseguir acumular maior quantidade de bens específicos o vencedor, passando a dominar o campo (BOURDIEU, 1990, p. 59-73). 20 contribuições conceituais de Roger Chartier, Michel de Certeau, Jorge Larrosa e Norbert Elias. A partir de uma perspectiva da História Cultural, herdeira da Escola dos Annales, os estudos de Roger Chartier (1990, p. 16-17) têm como “principal objecto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade é constituída, pensada, dada a ler”. Nesse sentido, a percepção do social a partir das práticas não pode se dar de forma neutra, o que significa estar em um “campo de concorrências e de competições cujos desafios se enunciam em termos de poder e de dominação” (CHARTIER, 1990, p. 17). Assim, as práticas também são responsáveis pela distribuição do poder e as “representações que os grupos modelam deles próprios ou dos outros” faz com que as atenções recaiam para “as estratégias que determinam posições e relações e que atribuem a cada classe, grupo ou meio um ‘ser-apreendido’ constitutivo da sua identidade” (CHARTIER, 1990, p. 23). As práticas se relacionam com o mundo social na medida em que “visam fazer reconhecer uma maneira própria de estar no mundo, significar simbolicamente um estatuto e uma posição” (CHARTIER, 1990, p. 23) e, por isso, as lutas das práticas e representações são tão importantes quanto as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo se impõe ou tenta se impor sobre outros (CHARTIER, 1990, p.17). Importante para que se entenda a perspectiva de Chartier, adotada neste estudo, é, também, o conceito de representação, pensado “quer como algo que permite ‘ver uma coisa ausente’, quer como ‘exibição de uma presença’” (VAINFAS, 1997, p. 228). Na presente pesquisa, tal conceito me permitiu compreender como os estudantes percebiam as práticas de diversão em relação si próprios, à Academia, seus professores e diretores e também à população da cidade de São Paulo. Outro conceito importante para este estudo é o de cotidiano, conforme definido por Michel de Certeau. Ao tratar de questões acerca do cotidiano, De Certeau ajudou a compreender as práticas de diversão tomadas como objeto nesta pesquisa. Este pesquisador considera as práticas cotidianas, tidas por seus praticantes como banais, importantes objetos de estudo para se entender a construção histórica dos sujeitos. Desta maneira, este autor entende o que cotidiano é aquilo que nos é dado cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos pressiona dia após dia, nos oprime, pois existe uma opressão no presente (...). O cotidiano é aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior. É uma história a meio-caminho de nós mesmos, quase em retirada, às vezes velada. 21 É (...) memória olfativa, memória dos lugares da infância, dos prazeres. Talvez não seja inútil sublinhar a importância do domínio desta história ‘irracional’, ou desta ‘não história’, como o diz ainda A. Dupont. O que interessa ao historiador do cotidiano é o Invisível... (CERTEAU, 1996, p. 31). Nesse sentido, percebe-se que o pesquisador que toma o cotidiano como objeto tem especial interesse pelas “operações e os usos individuais, suas ligações e as trajetórias variáveis dos praticantes” (CERTEAU, 1994, p. 15). Além disso, Michel de Certeau contribuiu com esse estudo na medida em que possibilita a problematização do espaço como lócus da prática e o entende como algo móvel e variado, que delimita as escolhas e práticas dos sujeitos. Jorge Larrosa também dedica especial atenção ao espaço e o toma como formador, ao sugerir o conceito de espaços intersticiais. Define como espaços intersticiais “as escadas, o pátio, a cantina, os parques e praças adjacentes, a ante-sala da biblioteca, os corredores entre a Faculdade, os bastidores das livrarias” (LARROSA, 2003, p. 81). Para este autor, diferentemente das salas de aula, esses espaços não sistematizados possibilitam a aprendizagem, que se dá de maneira “não intencional” e “não tutelada”, contribuindo para a formação dos sujeitos. Assim, apropriando-me destes conceitos de De Certeau e Larrosa, considero a Academia Jurídica e a cidade de São Paulo como espaços onde ocorriam práticas de diversão variadas. Estas práticas de diversão não se efetivavam tendo como ambiente a sala de aula, mas espaços intersticiais que, de alguma maneira, se relacionavam com a Academia, como, por exemplo, as repúblicas de estudantes e as associações jornalísticas e literárias. Além destes espaços intersticiais, outros importantes loci de diversão foram criados em São Paulo, os quais se inseriam em um processo de urbanização, um processo civilizador que a cidade vivia. Parto do pressuposto de que as práticas de diversão eram realizadas em espaços e que a contextualização destes espaços deve ser utilizada para que tais práticas sejam compreendidas. Mas para que estas práticas de diversão ocorressem, fazia-se necessário que os estudantes se organizassem em grupos. Estas formas de organização, mesmo que não intencionais ou não totalmente racionalizadas, também foram tomadas como objeto de análise. Assim, os conceitos de configuração e de redes de interdependências, bem como o de processo civilizador, conforme os define Norbert Elias, são caros a esta pesquisa. 22 De acordo com Tania Quintaneiro (2010), Elias elaborou teorias diversificadas e originais. Empenhou-se em revelar temas talvez tidos, em sua época, como banais, que “variam do futebol à morte, da formação do Estado à violência, do nojo à necessidade de sentir fortes emoções, das relações entre os profundamente desiguais aos avanços dos direitos das mulheres” (QUINTANEIRO, 2010, p. 11). No que se refere ao problema sociológico de Elias, percebe-se que o foco principal de sua produção estava em responder “como e porque se forma, durante determinada fase do desenvolvimento do Estado, uma posição social que concentra nas mãos de um único homem uma abundância de poder extraordinária” (ELIAS, 2001, p. 28). Ressalta-se que a pesquisa de Elias teve como ponto de partida a análise dos significados atribuídos aos termos civilização, civilizado e civilidade e suas fontes principais foram os manuais de etiqueta que traziam estampados os atos permitidos ou não na Europa Ocidental (França, Alemanha, Itália e Inglaterra) desde a Idade Média até meados do século XX (QUINTANEIRO, 2010, p. 75). Elias entende o processo civilizador como: um movimento de mudança de longa duração, não intencional ou planejado pelos indivíduos e grupos que nele participam. Ele não possui um ponto zero, isto é, um começo absoluto, portanto, cabe ao sociólogo [ou historiador] determinar a partir de que momento e quais os aspectos pretende analisar. Ele tampouco visa a uma finalidade, como, por exemplo, o progresso e tanto pode avançar no sentido de maior autocontrole, diferenciação e integração sociais como inverter tal direção, quando se torna descivilizador. Sua tendência tem sido à moderação dos impulsos da vida instintiva e afetiva, à pacificação das condutas a formas mais complexas de organização política e de divisão do trabalho (QUINTANEIRO, 2010, p. 71). Percebe-se, ainda, que o processo civilizador contribui para a constituição de novos comportamentos e costumes. Nesse sentido, Elias analisou a história dos costumes e mostrou que as regras de comportamentos e sentimentos se modificam ao longo do tempo. Regras que procuram moldar os sujeitos na tentativa de controlar seus impulsos, bem como buscam internalizar nos mesmos um autocontrole, a fim de adequá-los ao padrão de conduta desejado, o que se relaciona com um processo de formação dos sujeitos. Como disse anteriormente, a partir destas ideias de Elias utilizei neste estudo a expressão educação dos costumes. Também, relacionado ao processo civilizador, o conceito de configuração foi fundamental para esta pesquisa. Sobre este conceito, Elias (1994, p. 249) o define como 23 uma “rede de interdependências formadas entre os seres humanos” ou “uma estrutura de pessoas mutuamente orientadas e dependentes”. Nesse sentido, o próprio Elias (1994, p. 249) aponta que uma vez que as pessoas são mais ou menos dependentes entre si, inicialmente por ação da natureza e mais tarde através da aprendizagem social, da educação, socialização e necessidades recíprocas socialmente geradas, elas existem, poderíamos nos arriscar a dizer, apenas como pluralidades, apenas como configurações. De acordo com Chartier (1990, p. 100), Elias entende que configuração é “uma formação social cujo tamanho pode ser muito variável (os jogadores de um jogo de cartas, a tertúlia de um café, uma turma de alunos de uma escola, uma aldeia, uma cidade, uma nação), em que os indivíduos estão ligados uns aos outros”. As formas de ligação estabelecidas entre os indivíduos podem ser nomeadas como “redes de interdependências”. As relações existentes entre os sujeitos sociais engendram códigos e comportamentos originais, limitando o que é possível decidir ou fazer (CHARTIER, 1990, p. 93, 101). Assim, as redes de interdependências compreendem “na sua dinâmica e na sua reciprocidade, as relações que mantém os vários grupos, e, desse modo, evita as representações simplistas, unívocas e imutáveis da dominação social ou da difusão cultural” (CHARTIER, 1990, p. 115). Nesta pesquisa, a Academia Jurídica e a cidade de São Paulo foram tomadas como uma configuração que também integrava os sujeitos que nela vivenciavam suas práticas. Tal configuração se reproduz a partir de um equilíbrio instável, uma vez que, a ligação de um sujeito aos outros ocorre entre conflitos. Assim, considero o conceito de equilíbrio de tensões como fundamental para que sejam entendidos processos de criação das configurações. O equilíbrio de tensão caracteriza-se por “estabelecer um equilíbrio flutuante das tensões, um movimento pendular de equilíbrio das forças, que se inclina ora para um lado, ora para outro” (CHARTIER, 1990, p. 103). No caso de seus estudos, Elias percebeu que esse equilíbrio de tensões “alterou a forma e qualidade do comportamento humano, bem como toda regulação psíquica do comportamento, impelindo os homens em direção à civilização” (ELIAS apud VEIGA, 2005, p. 145). A partir daí, temas importantes são problematizados na teoria sociológica de Elias, como: pacificação, violência, coações e autocoações, entre outros que, para o sociólogo, “são elementos pertencentes a uma mesma dinâmica, constituem as fontes de 24 manutenção/desestabilização do equilíbrio de poderes entre as nações e entre os membros de uma mesma nação” (VEIGA, 2005, p. 153). Elias se esforçou para que o conceito de configuração não caísse na dicotomia indivíduo-sociedade, tão recorrente em outras teorias sociológicas. Voltou-se para a compreensão das “tramas de posições sociais mais e menos complexas, que pessoas e grupos interdependentes constituem, e seus reflexos sobre as ações, modos de pensar e sentimentos dos indivíduos, com especial atenção às instâncias de controle e autocontrole” (QUINTANEIRO, 2010, p. 50). Os termos indivíduo e sociedade não são considerados por Elias como antitéticos e unilaterais. O autor aponta para a existência de uma identidade-eu e uma identidade-nós. Essa identidade eu-nós está presente em qualquer configuração e revela os níveis de integração da mesma. Para entender essas variações de níveis, Elias sugere uma balança eu-nós que pode recair para qualquer um dos lados. Compreender o funcionamento dessa balança na configuração “Academia Jurídica – cidade de São Paulo” foi interessante para pensar as distribuições de poder nas redes de interdependências ali estabelecidas. A utilização destes conceitos de Elias possibilitou entender os grupos formados em torno das práticas de diversão desenvolvidas pelos estudantes, sejam poetas, jornalistas, boêmios, sportistas etc. Ademais, ao tomar o grupo dos estudantes como uma das partes daquela configuração, entendi que os mesmos inauguraram, naquele espaço, um novo nível de integração entre os sujeitos, modificando a balança eu-nós da cidade. Elias ainda escreveu sobre um ideal-do-nós que se refere a algo que determinado grupo deveria ser, fazer, ter. Isso foi perceptível na Academia na medida em que as autoridades desejavam controlar os estudantes em suas práticas de diversão, proibindo, por exemplo, que os estudantes saíssem de casa a não ser em dias previamente estabelecidos. Havia um “ideal-de-estudante” formulado a partir de representações da instituição. Neste estudo, entendo que a configuração estabelecida entre “Academia Jurídica – cidade de São Paulo” possibilitava a existência de redes de interdependências diversas. Ao me debruçar sobre a história da Academia, foi possível pensar nas múltiplas práticas que permitiram aos estudantes se integrar a redes de interdependências naquela configuração. O que se notou, ainda, foi que essas interdependências, estabelecidas a partir das práticas de diversão empreendidas pelos sujeitos da Academia, eram de naturezas diversas e articulavam-se de maneiras 25 complexas. Assim, procurei analisar o conjunto das práticas de diversão empreendidas pelos estudantes e também as considerei de modo isolado, sem perder de vista o contexto em que se inseriam e as tensões e conflitos que as permeavam. Considero que as práticas de diversão empreendidas pelos estudantes contribuíam para o estabelecimento dos nexos entre cidade – Academia. As produções jornalísticas e literárias com as quais os estudantes, os professores e a população da cidade de São Paulo se envolviam diretamente para debater assuntos de interesse comum são um exemplo desta interdependência entre cidade – Academia. Tais aspectos da vida cotidiana podem ser observados a partir da leitura das fontes, as quais passo a indicar com maiores detalhes. 1.3 – Fontes e metodologias Para investigar as práticas de diversão empreendidas pelos estudantes da Academia Jurídica de São Paulo no século XIX, utilizei-me da obra Tradições e reminiscências: estudantes, estudantões e estudantadas, escrita pelo memorialista Almeida Nogueira, principal fonte de pesquisa. Apesar da centralidade desta obra, outros documentos, não menos importantes, forneceram dados relevantes acerca das práticas de diversão que investiguei. Dentre as demais fontes, utilizei as memórias de Spencer Vampré, publicadas sob o título Memórias para a história da Academia de São Paulo (1977), além da imprensa periódica da época e da legislação vigente no período, mais especificamente os Relatórios dos Presidentes da Província de São Paulo. Para que uma fonte contribua efetivamente com os estudos em História da Educação, é preciso “realizar uma leitura crítica interna ou externa do documento”, tendo em vista que o mesmo “não pode ser entendido como a realidade histórica em si, mas trazendo porções da realidade” (SAMARA e TUPY, 2007, p. 124). Classifiquei as produções de Almeida Nogueira e Spencer Vampré como obras memorialísticas, por isso, tornou-se relevante fazer algumas considerações acerca desse tipo de fonte. De acordo com Regia Célia Lima Caleiro et al (2011, p. 54) o ato de lembrar e escrever sobre o passado deve ser considerado criticamente, uma vez que “questões como a seleção consciente ou inconsciente de quem se lembra e que as interpretações das lembranças estão sujeitas a diversas distorções”. Além disso, esses autores apontam para os subsídios teóricos de Maurice Halbwachs (1990) que entende que “embora sejam os indivíduos os que se lembrem, são os grupos sociais que determinam o que é 26 digno de lembrança e registro” (CALEIRO et al, 2011, p. 54), o que auxilia a pensar nas dimensões acerca dos escritos memorialísticos. Nesse sentido, há de se considerar que o memorialista escreve “a partir de suas próprias memórias individuais, memórias familiares e da memória social conjugadas a um trabalho de pesquisa de arquivos [documentais]” (MEDEIROS; CORMINEIRO, 2009, p. 2). Ao lidar com os textos memorialísticos, Caleiro et al (2011) ressaltam que apesar da credibilidade atribuída pelo leitor ao memorialista, reconhecido, geralmente, como figura “letrada” e a própria linguagem sedutora dos seus textos é preciso compreender que com o fim de “‘perpetuar uma história’, o memorialista acaba por enfatizar alguns fatos, negligenciando outros e assim vai criando novos imaginários a partir dos já existentes popularmente, construindo representações passíveis de serem investigadas pelos pesquisadores” (CALEIRO et al, 2011, p. 55). São justamente essas representações e a própria subjetividade do memorialista que tornam as memórias uma fonte riquíssima para a reconstituição realizada pelo historiador (...): sem um controle mais rigoroso de sua própria subjetividade o memorialista impregna sua obra com representações acerca das relações sociais experimentadas em seu tempo, geralmente carregadas de posicionamentos ideológicos que aparecem para o historiador como expressão do intrincado jogo de relações e interesses de uma época (MEDEIROS; CORMINEIRO, 2009, p. 7). Nesse contexto, esses autores acrescentam que ao se retirar o “véu de preconceito” que impregna os escritos memorialísticos, essas fontes “deixam entrever valores, costumes e tradições (...) bem como as tensões entre os vários grupos sociais”, contribuindo para “revestir de carne e ossos aqueles que às vezes aparecem de forma apenas espectral numa historiografia ‘tradicional’” (MEDEIROS; CORMINEIRO, 2009, p. 6, 10). A partir do exposto, é possível constatar os limites e potencialidades da obra memorialística como fontes para a História da Educação. O historiador deve se munir de um rigoroso suporte metodológico com o intuito de que sua compreensão tome o documento em seu contexto, o que permite o alcance de suas dimensões históricas. Este trabalho se vinculou a este conjunto de preocupações, uma vez que os relatos e memórias de Almeida Nogueira e Spencer Vampré foram interrogados, discutidos. Os textos produzidos por estes espectadores engajados devem ser contextualizados, no sentido de se evitar que sejam tomados como espelho do real. Este cuidado deve ser tomado com todas as fontes, uma vez que todas elas trazem as marcas de quem as 27 produziu, seja do ponto de vista individual, coletivo ou institucional. Tais marcas não invalidam as fontes documentais. Assim, as memórias de Almeida Nogueira e Spencer Vampré merecem não cair no esquecimento, pois esclarecem dimensões relevantes da História da Educação, como, por exemplo, as práticas de diversão das quais os estudantes daquele tempo se ocupavam. Como disse anteriormente, a fonte principal deste estudo é a obra do memorialista Almeida Nogueira denominada Tradições e reminiscências: estudantes, estudantões e estudantadas. Estudante da Academia em um tempo, professor da mesma em outro, o autor justificou seu empreendimento memorialístico afirmando que seu desejo era salvar do esquecimento interessantes pormenores do cotidiano em que vivia e ressaltou o “estylo despretencioso em que ellas foram traçadas (...) de proporcionar aos leitores momentos de attrahente diversão, (...) [podendo] trazer, em todo caso, uma ou outra nota biographica a respeito de nomes conhecidos ou de alguma saudosa personalidade”11 (NOGUEIRA, 1907, p. I). Segundo Vampré (1997, v. II, p. 352-354), Almeida Nogueira nasceu a 4 de fevereiro de 1851, na Fazenda Loanda, município de Bananal (SP)12. Depois de haver estudado primeiras letras, juntamente com seu irmão Pedro, a princípio, na fazenda paterna, e depois em um colégio em Barra Mansa (1859-1860), seguiu, em 1861, para a Europa. Voltou ao Brasil em 1863, prosseguiu os estudos e em 1867, tendo ido para a cidade de São Paulo, e, depois de fazer os exames de preparatórios no Curso Anexo, matriculou-se, em 1869, no primeiro ano jurídico. Em março de 1874 defendeu teses, foi nomeado professor substituto em 1890 e designado lente catedrático em 1891. De seu casamento com Maria Amélia Domingues de Castro, filha dos Barões de Paraitinga, ficaram quatro filhas, três casadas que lhes deixaram netos com os sobrenomes Almeida Nogueira Chaves, Almeida Nogueira Porto e Almeida Nogueira Junqueira (PUPO, 1978). Foi deputado provincial e geral por várias legislaturas, redator de O Correio Paulistano, senador republicano por São Paulo (1898-1903). Faleceu a 16 de julho de 1914, quando ainda exercia o cargo de professor da Academia Jurídica de São Paulo. A 11 Optei, nesse caso e ao longo de todo o texto, por respeitar a ortografia do período ao citar as fontes. 1212 Vale dizer que Spencer Vampré escreveu que a cidade de Bananal está localizada no estado do Rio de Janeiro. Entretanto, outras referências sobre o memorialista Almeida Nogueira, entre elas a de Constantino (1940), me possibilitou constatar que esta cidade se localiza no estado de São Paulo. 28 partir dessas experiências, Almeida Nogueira escreveu sobre a Academia Jurídica de São Paulo. Em se tratando de suas produções, além de diversas monografias, Almeida Nogueira escreveu Ensaios Juridicos e Sociaes (1873), dois volumes de um tratado denominado Economia Política (1905, 1906), Tratado Theorico e Pratico de Marcas Industriaes (1910) juntamente com Guilherme Fischer Júnior e os nove volumes de Tradições e reminiscências: estudantes, estudantões e estudantadas (CONSTANTINO, 1940, p. 24). Esta última certamente é a sua obra de maior fôlego e, para Vampré (1977, v. II, p. 354), constitui-se como “a mais extensa, a mais brilhante, a mais curiosa, a mais instrutiva contribuição, que até hoje se publicou sobre esta Academia”. Tantos elogios, provavelmente, se devem ao fato de que este foi o primeiro trabalho que registrou o passado da Academia Jurídica de São Paulo. Assim, Almeida Nogueira é considerado o primeiro memorialista a registrar a história da Academia e sua obra é tida como referência para a história da Faculdade de Direito de São Paulo. Os escritos de Almeida Nogueira também são relevantes por outro motivo: um incêndio que atingiu a secretaria da Faculdade de Direito em 1880 e arrasou quase todo o arquivo da instituição. Nesse sentido, sua obra possibilitou, de certa maneira, “salvar das cinzas as glórias e os tipos que a Faculdade conservou” e “impediu que ficasse hoje irremediavelmente perdida a fonte mais preciosa de investigação das eras idas” (CONSTANTINO, 1940, p. 6). O início da obra de Almeida Nogueira se deu com seus relatos em crônicas sobre as turmas da Academia, no jornal Correio Paulistano, que “sem objetivo maior que o histórico ameno, espirituoso, da vida acadêmica, (...) traçava notas biográficas ou relatos ligeiros e mesmo incompletos, sobre os bacharéis das ‘Arcadas’” (PUPO, 1978, p. 2). Estas publicações na imprensa periódica paulista foram tão bem aceitas pelos leitores que foram, mais tarde, organizadas em livros pelo autor, sendo em 1907 a publicação do primeiro volume de Tradições e reminiscências... A proposta inicial da obra era relatar crônicas da Academia Jurídica de São Paulo desde a sua fundação, em 1827, até 1890, o que pode ser verificado no prefácio de seu primeiro volume. Entretanto, os escritos de Almeida Nogueira ficaram inacabados e alcançaram até o ano de 1878, na ocasião de seu falecimento. Por este motivo, algumas turmas acadêmicas, entre os anos de 1827 e 1878, não tiveram suas 29 memórias escritas por Almeida Nogueira13. A obra que se pode acessar hoje é organizada em nove volumes, publicados entre os anos de 1907 e 1912, em sua maioria, pela Typographia A Editora14. Cada livro tem cerca de 19cm de comprimento por 12,5cm de largura e o mínimo de 275 e o máximo de 343 páginas15. Vale dizer que sua produção não segue uma ordenação cronológica. Uma leitura atenta revelou que as fontes principais utilizadas por Almeida Nogueira foram as suas próprias memórias, assim como as memórias e contribuições dos outros sujeitos que passaram pela Academia, documentos oficiais que sobreviveram ao incêndio de 1880 e jornais que circulavam no período. No prefácio do oitavo volume, o autor revelou que recorreu “a todas as fontes escriptas que ficam ao nosso alcance, alem disso, nos dirigimos ás pessoas cujo testemunho nos póde ser proveitoso” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. III). Ao avaliar a obra de Almeida Nogueira, Pupo (1978, p. 2) afirma que o mesmo historiou a própria Academia, em relatos cronológicos e contemporâneos de turmas acadêmicas, traçando perfis dos seus professores, seguidos de figuras dos estudantes, em exposição de séria visualização biográfica, ou caricatas passagens da vida acadêmica que tanto marcou a sociedade paulistana. Os nove volumes de Almeida Nogueira trazem uma compilação de variadas práticas cotidianas produzidas pelos diversos sujeitos que transitavam pela Academia, dentre elas as práticas de diversão empreendidas pelos estudantes do Largo São Francisco. Além de registrar questões acerca do contexto em que os mesmos viviam, a obra descreve as características físicas e o comportamento dos estudantes e dos outros sujeitos da Academia16, relatando também como eles se divertiam, se vestiam, se alimentavam e moravam. Seus escritos possibilitam, ainda, a identificação dos diferentes sujeitos sociais inseridos no contexto da Academia, ao fornecer nomes, datas 13 As turmas que não aparecem nos relatos de Almeida Nogueira entre os anos de 1828 e 1878 são as seguintes: 1831, 1842, 1846, 1849, 1852, 1857, 1858, 1859, 1865, 1866, 1868, 1873. 14 Exceção do primeiro volume que é publicado pela Typographia Vanorden & Co. Constam no anexo deste trabalho ficha catalográfica do segundo volume da obra, bem como imagem de Almeida Nogueira. 15 O volume I possui 326 páginas, o II possui 343 páginas, o III possui 309 páginas, o IV possui 323 páginas, o V possui 303 páginas, o VI possui 304 páginas, o VII possui 311 páginas, o VIII possui 275 páginas, o XI possui 294 páginas. Ressalto que os prefácios dos livros eram de autoria do próprio autor, com exceção do volume VII que foi prefaciado por Wenceslau de Queiroz, com quem Almeida Nogueira trabalhou no jornal Correio Paulistano quando era redator-chefe. 16 Pode-se citar, ente outros sujeitos: professores e diretores. Além da população de São Paulo, as famílias dos estudantes etc. 30 de nascimento, paternidade, naturalidade, condição social, raça, ano de entrada no curso de Direito, as possíveis ocupações profissionais seguidas pelos formados (PORTES, COSTA, 2008, p. 9). Como exemplo, veja-se parte da descrição do estudante Francisco José da Silva Ribeiro, da turma acadêmica de 1863-1867: - Mineiro, filho de Joaquim Ribeiro da Silva. Era alto, cabellos e olhos pretos, physionomia aberta e expansiva. Usava só bigode. Não se esmerava no trajar. O Chico Silva, como todos lhe chamavam, era um guapo e elegante rapaz, possante e intellectualmente, cabeça bem modelada, olhos grandes e negros, de uma vivacidade algo prejudicada pelas vigílias... Sim, pelas vigílias obrigadas dos passeios nocturnos, de carro, ao legendário luar da romântica Paulicéa de antanho, no grupo da luzida bohemia representada por Sizenado Nabuco, Luiz Veiga, (...). Seguiu a carreira da magistratura e exerceu o juizado municipal e o direito em varios termos e comarcas, entre estas, por longo tempo, a de Patos, e, presentemente, a de Bagagem, ambas do Estado de Minas (...) (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 184-186). Outra observação relevante refere-se às omissões feitas por Almeida Nogueira. Algumas vezes, o memorialista deixava de incluir, propositalmente, informações sobre determinados acontecimentos que, segundo ele, poderiam denegrir a imagem de algum colega. Como exemplo, leia-se o que escreveu sobre o apelido do estudante Joaquim Gomes de Siqueira Reis: “Tinha elle na Academia um appellido, que a gente não pode proferir e ainda menos publicar, nem mesmo em francez, como alguns mal dissimuladamente o faziam” (NOGUEIRA, 1907, v. 1, p. 315). Também se percebe certas omissões quando se faz o cruzamento de sua obra com outras fontes e bibliografias. No ano de 1871, houve uma subversão de estudantes. Todavia, em Tradições e reminiscências... Almeida Nogueira fez poucas referências ao ocorrido. O memorialista citou, no seu primeiro volume, que teve algumas divergências com o colega Candido Drummond Furtado de Mendonça e que, por isso, tiveram relações cortadas (1907, v. 1, p. 284). Ao prefaciar o sétimo volume da obra de Almeida Nogueira, Wenceslau de Queiroz revelou que, no caso em questão, da sublevação de estudantes, “o dr. Almeida Nogueira foi dissidente”, sofrendo injustiças, daí as relações cortadas com o colega (QUEIROZ, 1909, v. 7, p. XIII). Tal dissidência pode ser corroborada por outra fonte. Em ensaio sobre Almeida Nogueira, Constantino (1940, p. 11-12) alerta que este acontecimento teve bastante impacto na época, já que, por causa das alterações nos exames da Faculdade de Direito e de Medicina, com o decreto de 22 de outubro de 1871, muitos estudantes se rebelaram escrevendo um protesto acadêmico 31 e que apenas nove estudantes foram contrários ao manifesto, dentre eles Almeida Nogueira. A atitude destes nove estudantes fez com que as “colunas da ‘Imprensa Acadêmica’, jornal de Carlos de Carvalho, os [declarasse] ‘infames’ e condenados ‘à execração dos colegas’”, sendo expulsos de diversas entidades: o que não foi relatado de maneira alguma por Almeida Nogueira, por estar evidentemente envolvido no caso. Tal omissão revela que Almeida Nogueira apagou, ao longo de sua obra, passagens que poderiam denegrir sua imagem. Outra questão apontada pelo próprio Almeida Nogueira foi sobre as imprecisões das suas crônicas, prometendo publicar, no último volume, um “appendice, no qual [daria] a emenda dos erros de facto que (...) tivessem escapado nas séries anteriores” (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. I). Mas, como disse anteriormente, este volume não chegou a ser produzido. Além disso, ao longo de toda a obra, o autor relatou as dificuldades enfrentadas para buscar e agrupar tantos documentos e chegava a solicitar a benevolência do público para com seus escritos: “As difficuldades com que luctamos para colligir dados authenticos sobre tantas individualidades de épocas diferentes e sobretudo as de gerações já remotas, deveriam dar-nos direito á indulgencia do leitor” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. II). Trata-se de uma interessante estratégia de se antecipar a possíveis críticas. Nesse mesmo sentido, foi muito recorrente, nas memórias de Almeida Nogueira, a solicitação da contribuição das pessoas no sentido de auxiliá-lo a ser fidedigno em seus relatos, contendo na obra diversas cartas de elogios e críticas acerca de sua produção. Todas as dissertações e teses que abordam a história da Academia Jurídica de São Paulo, mencionadas em seção anterior deste trabalho, fazem alguma menção aos escritos dos memorialistas Almeida Nogueira e Spencer Vampré e consideram estas produções como referências para a história da Academia. Entretanto, poucos pesquisadores as tomam como fonte de pesquisa e as problematizam. Tais exceções são os estudos de Portes (2001) e Cruz (2009), que investigam trajetórias escolares e estratégias de ascensão educacional e social de estudantes pobres e negros. Ambos relatam o cuidado que tiveram na produção de suas análises a partir dessas fontes, pois, muitas vezes, elas apresentam um caráter eufemístico e funcionam para prestar homenagens e louvar os que já morreram. Cruz (2009, p. 25) afirma que Almeida Nogueira ao se referir aos estudantes negros descreveu apenas situações engraçadas em que tais estudantes estavam envolvidos e não considerou as qualidades intelectuais ao 32 descrevê-los, como fez com os estudantes brancos. Não se trata de colocar em descrédito tais obras memorialísticas, mas sim ter um olhar vigilante sobre as mesmas, uma vez que, como disse anteriormente, toda produção possui as marcas da subjetividade de seu autor, as quais devem ser filtradas pelo historiador. A partir do exposto, tomando os devidos cuidados, os escritos memorialísticos, fontes pouco convencionais para os pesquisadores da História da Educação, foram tomados como centrais em minha pesquisa, uma vez que possibilitaram lançar luzes sobre o cotidiano de uma instituição de ensino superior do século XIX e as práticas de diversão realizadas neste espaço. Sob o ponto de vista metodológico, com base nas memórias de Almeida Nogueira, realizei um levantamento quantitativo das recorrências das práticas realizadas pelos estudantes da Academia Jurídica de São Paulo que poderiam estar vinculadas à diversão. Feito isso, organizei essas práticas em um banco de dados17. Ao elaborar o banco de dados, além de informações sobre localização das referências na obra (volume, capítulo, turma, página) foram indexados os nomes e características dos estudantes. Mapeei todas as práticas que considerava vinculadas à diversão no contexto em análise, como os sports, jogos de salão, passeios, práticas musicais, produções jornalísticas, literárias e artísticas, espetáculos, festas, brincadeiras, apelidos, trotes e discursos amorosos. A partir do inventário sistemático de práticas de diversão identificadas nos relatos de Almeida Nogueira, estabeleci o recorte cronológico e as categorias de análise que servem de base para os Capítulos II e III desta dissertação, tendo o diálogo entre os dados levantados e os estudos de outros historiadores, como bússola, sem jamais perder de vista o contexto da época. A inserção das práticas de diversão no contexto histórico em que foram empreendidas é um trabalho imprescindível para o historiador, tendo em mente a perspectiva de Marc Bloch, adotada neste estudo. Segundo este historiador, um dos fundadores dos Annales, a preocupação da História não é apenas com o passado, sendo o seu objeto os homens no tempo e esse tempo não é necessariamente cronológico. De acordo com Bloch, o tempo da História “é o próprio plasma em que banham os fenômenos, e como que o lugar de sua inteligibilidade” (BLOCH, s.d., p. 30). 17 Foi utilizado o aplicativo Access 2007. 33 Ao analisar a distribuição das práticas de diversão ao longo do tempo abarcado por Almeida Nogueira, percebi, conforme pode ser visto a seguir, no Gráfico I, que elas foram mais recorrentes a partir de 1850. Tal constatação me auxiliou na delimitação de um recorte cronológico para a pesquisa, que tomou como referência os anos de 1867 a 1878. GRÁFICO I QUANTIDADE DE PRÁTICAS DE DIVERSÃO POR PERÍODOS DA ACADEMIA JURÍDICA DE SÃO PAULO (1828 - 1874) 60 50 40 Número de práticas de 30 diversão 20 10 0 1820 1830 1840 1850 Períodos 1860 1870 1880 práticas de diversão Série1 FONTE: NOGUEIRA, Almeida. Tradições e reminiscências. Estudantes, estudantões e estudantadas. 1907 – 1910, São Paulo, Typographia A Editora (Volumes I a IX). Organizado por Costa. O recorte cronológico construído nesta pesquisa se refere aos anos de 1867 a 1878. Essas datas se justificam, em parte, pela disponibilidade das fontes documentais. Ao estudar a obra de Almeida Nogueira, percebi que suas crônicas se iniciam com a fundação da Academia em 1827 e se estendem até 1878 e que seus relatos foram mais concentrados e apresentaram maior riqueza de detalhes a partir do ano de 1850, conforme apresentado no Gráfico I. O ano inicial do recorte, 1867, se refere à data em que Almeida Nogueira se mudou para São Paulo e ingressou no Curso Anexo de Preparatórios, tendo se matriculado no primeiro ano jurídico em 1869 (VAMPRÉ, 1977, v. II, p. 352). Isto quer dizer que os dados contidos em Tradições e reminiscências... em anos anteriores a 1867 foram coligidos por Almeida Nogueira a partir de fontes variadas, como ex-estudantes, professores, jornais. Ao ler os nove volumes da obra, 34 percebi que, a partir de 1850, os relatos sobre as práticas de diversão passaram a ser mais numerosos (Cf. Gráfico I). Todavia, vale ressaltar que nos anos posteriores ao ingresso de Almeida Nogueira na Academia Jurídica seus relatos e registros passaram a ser mais detalhados, qualitativamente mais ricos, o que me levou a considerar a entrada do memorialista na Academia como fundamental para estabelecer a data inicial para o recorte cronológico. Tal constatação me levou a considerar que a ida do memorialista para a cidade de São Paulo e o ingresso na Academia Jurídica fez com que Almeida Nogueira tivesse elementos para tornar suas narrações mais intensas e consistentes. Assim, optei por analisar as práticas de diversão que ocorreram no período em que Almeida Nogueira esteve presente na Academia, de 1867 a 187818. Cabe considerar que, mesmo estando presente naquele espaço, os escritos de Almeida Nogueira são uma versão do que aconteceu. Como todas as versões, suas memórias se encontram permeadas por suas representações. Com relação ao cotidiano da Academia Jurídica de São Paulo, já no ano de 1878 se encontrava em debate a Reforma do Ensino Livre, estabelecida legalmente em 19 de abril de 1879 pelo poder Executivo (decreto 7247). Tal reforma regulamentava o ensino primário e secundário no município da Corte e o superior em todo Império e em seu parágrafo §6 do artigo 20º regulamentava o seguinte: “não serão marcadas faltas aos alumnos nem serão elles chamados a lições e sabbatinas”. Esta norma transformou o ambiente da Academia, uma vez que a frequência dos estudantes não era mais obrigatória e os mesmos podiam comparecer só para exames e alguns concluíram o bacharelado em quatro, três e até dois anos, chamados então de “bacharéis elétricos”. Constituiu-se em toque de debandar da Academia quando feneceu o espírito de associação e a frequência aos corredores da Escola de Direito. Por vezes o professor não dava aulas por não haver sequer aluno em classe (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 91 – grifos meus). Nota-se, a partir desta citação, que a Reforma do Ensino Livre teve um impacto tanto para o ensino quanto para a vida acadêmica e para as práticas de diversão empreendidas pelos estudantes. Nas palavras de Sérgio Adorno (1988, p. 116), serviu para “despovoar as academias”. Vale ressaltar que a obrigatoriedade da frequência na 18 Os dados acerca das turmas de 1863-1867 e 1864-1868 foram incluídos no recorte da pesquisa devido à especificidade da obra de Almeida Nogueira que registra os acontecimentos conforme as turmas, ou seja, de 5 em 5 anos e, não, anualmente. 35 Faculdade de Direito de São Paulo foi restabelecida somente em 1896 (MARTINS; BARBUY, 1998, p.91). Considerando o vocabulário e as classificações utilizadas por Almeida Nogueira em seus relatos, as características históricas das práticas de diversão promovidas pelos estudantes e suas recorrências no banco de dados, foi possível estabelecer sete categorias gerais de análise, as quais são: produções jornalísticas, produções literárias, sports, espetáculos, festas, passeios e jogos de salão. Ao criar as categorias, as mesmas não foram tomadas como estanques em si mesmas. Nesse sentido, faz-se importante mencionar que tal divisão e as demais realizadas nesse estudo, foram criadas didaticamente para possibilitar a análise e não podem ser tomadas como uma classificação imparcial. Ressalto que há uma infinidade de classificações possíveis de serem realizadas e que, “sem dúvida, todo sistema de classificação arrisca-se a deformar as coisas, já que na escolha das categorias é impossível evitar o arbítrio” (DARNTON, 1992, p. 156). Cada pesquisador, dependendo de sua formação e de seus objetivos, pode gerar categorias diferentes das que apresento nesta dissertação. Entendo que as produções jornalísticas e literárias, por exemplo, poderiam tanto tratar de assuntos políticos caros para o período, quanto servir de suporte para brincadeiras e diversão. A partir da organização dessas sete categorias de práticas de diversão identificadas na obra de Almeida Nogueira e do estudo do contexto de época, estabeleci uma divisão entre elas: práticas ligadas ao universo da criação de artefatos ligados diretamente a uma cultura escrita19 específica dos estudantes e práticas corporais e de diversão das quais estes sujeitos se também se ocupavam. Nesse, sentido, as primeiras se referem às produções jornalísticas e produções literárias e as segundas aos sports, espetáculos, festas, passeios e jogos de salão. As produções jornalísticas e literárias poderiam ou não ter sido produzidas com o objetivo de divertir. Em sua maioria, tais escritos faziam menção a questões políticas e, como se verá no Capítulo II desta dissertação, em menor quantidade, a outros temas, como a própria Academia e até mesmo os encontros e desencontros amorosos. Realizei um tratamento quantitativo das recorrências dessas práticas vinculadas à cultura escrita e das práticas corporais e de diversão, tomando como referência 19 De acordo com Castillo Gómez, o conceito de cultura escrita diz respeito tanto aos diferentes suportes de escrita, quanto às diversas práticas que o produzem ou deles se apropriam, e seu estudo “se configura, enfim, como uma forma específica de elaborar a história cultural” (CASTILLO GÓMEZ, 2003, p. 105). 36 primeiramente o período abrangido por toda a obra de Almeida Nogueira (1827-1878) e, posteriormente, o período tomado como recorte cronológico nesta dissertação (18671878). Em seguida, elaborei um tratamento quantitativo das práticas corporais e de diversão dos sports empreendidos pelos sujeitos da Academia Jurídica20. Analisei os percentuais de recorrências desses sports com relação à variável tempo, entre os anos de 1827-1866 e 1867-1878. Tal movimento, que tomou como referência o período histórico, passando do todo às partes e vice-versa, trouxe “à luz dados, indicadores e tendências observáveis” (SERAPIONI, 2000, p. 188). Após realizar o tratamento quantitativo dos registros de Almeida Nogueira, passei a me dedicar de forma a realizar uma análise histórica (qualitativa) dos sports empreendidos pelos estudantes da Academia entre os anos de 1867-1878, saber: caçadas, corridas de cavalos, natação, pesca, ginástica, capoeira, esgrima e peteca. Vale registrar que, especialmente no Capítulo III, para compreender as especificidades do recorte cronológico, estabeleci comparações com os anos anteriores, que haviam ficado de fora do recorte. Essas idas e vindas ao tempo me ajudaram no entendimento do processo pelo qual perpassava a cidade de São Paulo e a Academia Jurídica. Nesse sentido, entendo que a análise qualitativa é útil, visto que a mesma “trabalha com valores, crenças, representações, hábitos, atitudes e opiniões” (SERAPIONI, 2000, p. 188) e me auxiliou a compreender as práticas de diversão produzidas pelos estudantes da Academia dentro do contexto da cidade de São Paulo. Assim, a integração de abordagens quantitativas e qualitativas de análise tornou-se interessante para essa pesquisa, pois possibilitou “arar o terreno empírico que temos em frente” (SERAPIONI, 2000, p. 189). A opção por me dedicar aos sports como objeto de estudo também teve em vista o fato de as produções jornalísticas e literárias terem sido alvo de vários trabalhos sobre a Academia21 e, como não poderia deixar de ser, minhas próprias preferências que foram construídas ao longo de minha trajetória como estudante e pesquisadora. Nesta pesquisa, as cinco categorias por mim estabelecidas que se encontram diretamente 20 O que denominei de tratamento quantitativo dos dados refere-se a técnicas de amostragem aplicadas a um estudo qualitativo, conforme define Álvaro Pires (2008, p. 157): “enfatizam-se mais as relações entre a amostra e o objeto, do que as regras técnicas de amostragem”. 21 Dentre eles: Garmes (1993); Martins, Barbuy (1998); Teixeira (2006); Menezes (2006); Pizani (1989); Adorno (1988); entre outros. 37 ligadas às práticas corporais e de diversão às quais os estudantes se dedicavam podem ser vistas no Quadro I: QUADRO I PRÁTICAS CORPORAIS E DE DIVERSÃO EMPREENDIDAS PELOS ESTUDANTES DA ACADEMIA JURÍDICA DE SÃO PAULO (1827-1878) Sports caçadas; ginástica; equitação; esgrima, capoeira; natação; cacete; pesca; canoagem; remo; corridas de cavalos; peteca; corridas; briga de galo; patinagem; futebol; boxe. Espetáculos teatro; música; circo; mágica. Festas serenatas; religiosas; profanas (carnaval, entrudo); bailes; jantares; opa (comemoração de formatura); soirées de família; saraus; encontros em estabelecimentos comerciais; em associações literárias; comemoração de datas cívicas. Passeios às margens dos rios e pontes; no Jardim Público da Luz; nos arredores da cidade de São Paulo e nas cidades vizinhas. Jogos de salão dama; paciência; bilhar; voltarete; boston; solo; queda francesa e outros jogos realizados em festas familiares, como prendas e charadas. FONTE: NOGUEIRA, Almeida. Tradições e reminiscências. Estudantes, estudantões e estudantadas. 1907 – 1910, São Paulo, Typographia A Editora (Volumes I a IX). Organizado por Costa. A princípio, pode soar estranho o fato de considerar, conforme o quadro acima, as brigas de galo e o cacete como sports. Todavia, deve-se ter em conta que estas práticas eram consideradas como tal no século XIX, visto que o esporte moderno passava por um processo de institucionalização, conforme discutido anteriormente. As Memórias para a História da Academia de São Paulo, de Spencer Vampré (1977), assim como as outras fontes deste estudo, foram utilizadas de forma qualitativa. A triangulação de fontes me permitiu estabelecer um diálogo com a obra de Almeida Nogueira e me auxiliou na compreensão do contexto histórico em que a produção do memorialista se inseria. Nesse sentido, essas fontes foram utilizadas em sua grande maioria no Capítulo II desta dissertação. Na Revista da Faculdade de Direito (1942, p. 13-15), que homenageia o professor Spencer Vampré, a redação escreveu que ele nasceu em Limeira, São Paulo, em 24 de abril de 1888, filho do Dr. Fabrício Vampré e de Dona Matilde Rodriguez de Andrade Vampré. Matriculou-se na Faculdade de Direito em 1904, bacharelou-se em 1909 e foi nomeado como professor substituto em concurso da Faculdade de Direito em 1917, sendo diretor da mesma no ano de 1938. Além de 38 professor e jurisconsulto, Spencer Vampré exerceu a advocacia e na política ocupou os cargos de deputado estadual em 1923, de sub-prefeito da Lapa em 1930. Foi membro da Academia Paulista de Letras e, dentre as suas produções, escreveu os dois volumes das Memórias para a história da Academia de São Paulo publicados em 192422, impulsionado pela obra de Almeida Nogueira e pelo seu devotado culto às tradições da Academia Jurídica de São Paulo. Nesse sentido, seu objetivo era recordar os fastos gloriosos [da] história [da Academia de Direito], que registram o balbuciar de muitas grandes mentalidades, que nos têm guiado, na poesia, no romance, na tribuna judiciária ou parlamentar, na política, nos tratados jurídicos, (...) nas mais variadas manifestações da inteligência (VAMPRÉ, 1977, v. I, p. 7). Essa obra foi importante para a pesquisa, quando percebi que Spencer Vampré alargou os anos registrados na obra de Almeida Nogueira, retratando o cotidiano da Faculdade de Direito no período de 1827 a 1922 (PORTES, 2001) e que existe uma proximidade entre essas duas produções no que se refere aos objetivos e modos de escrever as memórias. Nesse sentido, Spencer Vampré (1977, v. I, p. 8) enfatizou a importância das Tradições e reminiscências... de Almeida Nogueira, seu “precursor”, como modelo para escrever as suas memórias e, ainda, utilizou como subsídio os estudos de Afonso de Freitas, entre eles Tradições e reminiscências paulistanas (1921); a imprensa paulista, “guia seguro e amável”; o acervo da Biblioteca da Faculdade de Direito; as informações dos ex-estudantes, entre outros. Sua produção foi organizada em dois volumes23. Diferentemente da obra de Almeida Nogueira, Spencer Vampré obedeceu a uma cronologia em seus relatos acerca da Academia e, apesar de iniciar suas memórias em 1827, passou a tratar de cada turma acadêmica a partir de 1857. Vale dizer que obra de Spencer Vampré, assim como a de Almeida Nogueira, tem um cunho memorialístico e, por isso, os apontamentos acerca do uso das obras memorialísticas como fonte, discutidos anteriormente, também foram relevantes no tratamento desse material. Como dito anteriormente, para o trabalho de triangulação das fontes, além da obra de Spencer Vampré, me utilizei da imprensa periódica de São Paulo. Os periódicos 22 23 A obra da qual utilizo é a segunda edição publicada em 1977. O primeiro com 303 páginas e o outro com 553 páginas, que apresentam 23cm de comprimento por 16cm de largura. 39 tornam-se uma importante fonte para a História da Educação quando se começa a pensar a educação de maneira mais ampla, dando também atenção às suas modalidades não formais (PALLARES-BURKE, 1998). É relevante salientar, como aponta Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke (1998, p. 158) ao parafrasear Phillipe Ariés, que “é, sem dúvida, um erro descrever a educação brasileira do século XIX unicamente em termos de escola. (...). Há toda uma rede de outros agentes em plena atividade (...) que competiam pela transmissão dos valores culturais em circulação”. A historiadora indica que “romances, jornais, revistas, sermões, teatro, pinturas etc. têm tido sempre sua quota de participação no processo educacional e podem, pois, ter muito a dizer sobre o modo complexo pelo qual as culturas são produzidas, mantidas e transformadas” (PALLARES-BURKE, 1998, p. 145). As considerações acima mostram a importância dos jornais para pensar as práticas de diversão dos sujeitos que passaram pela Academia. Isso porque, nas palavras de Ana Luiza Martins e Heloisa Barbuy (1998, p. 65), os jornais acadêmicos “formigavam” no século XIX. Além disso, as autoras apontam que a “imprensa paulistana nasceu praticamente na Academia, haja vista a expressiva colaboração de exlentes no primeiro jornal e na primeira revista da capital da Província – O Farol Paulistano, de 1828 e a Revista Philomatica, de 1833, respectivamente” (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 66). Nesse sentido, percebeu-se o forte envolvimento dos estudantes – como escritores e leitores – na imprensa periódica da época. Isso foi interessante para a presente pesquisa, pois possibilitou a compreensão de elementos importantes acerca do cotidiano vivenciado por aqueles sujeitos. Um exemplo disso, de acordo com Martins e Barbuy (1998, p. 64), foi que em “1877, de 299 estudantes que cursaram as aulas da Faculdade, apenas uma dezena era alheia aos clubes políticos”, visto que esses clubes e associações eram os grandes responsáveis pela produção jornalística na cidade de São Paulo. A importância da imprensa periódica naquele contexto pode ainda ser observada a partir da própria história da obra Tradições e reminiscências... Deve-se lembrar que os escritos de Almeida Nogueira foram a lume, inicialmente, nas páginas do jornal Correio Paulistano, ganhando a forma de livro em momento posterior, conforme já mencionei. Tal caminho percorrido pelas palavras de Almeida Nogueira mostrou também como estes jornais faziam parte das práticas dos estudantes e do cotidiano daquela cidade. 40 Foram mapeados 26 jornais acadêmicos e da cidade de São Paulo que circularam entre os anos de 1867-1878, recorte cronológico da pesquisa. Todavia, não foi possível ter acesso a todos estes 26 títulos, tendo feito a pesquisa nos seguintes: A Crença (1873), A Academia de São Paulo (1876), Correio Paulistano (1872), O Catholico (1876), Onze de Agosto (1875), O Polichinelo (1876), Labarum (1877), Tribuna Liberal (1878), Almanach Litterario de São Paulo (1876, 1877, 1878)24. Vale registrar que os jornais que mais auxiliaram nesta dissertação foram Correio Paulistano e Tribuna Liberal. De maneira geral, o principal tema que permeava as discussões nos jornais da Academia Jurídica e da cidade de São Paulo era a política. Entretanto, isso não quer dizer que outros assuntos não eram tratados, como literatura, ciências, transportes, festividades, programação cultural e de diversão, anedotas sobre os acontecimentos da cidade e da Academia, entre outros. Para completar o arcabouço de fontes deste estudo, utilizei-me de documentos oficiais, no caso, os Relatórios dos Presidentes da Província de São Paulo (18681879)25. Tais documentos foram pertinentes para este estudo, pois apresentaram informações relevantes sobre a cidade de São Paulo, entre as quais, realizações de obras públicas (como no Jardim Público e no Theatro de São José) e informações policiais, financeiras, transporte, saúde, educação, entre outras. 24 A pesquisa foi realizada no Arquivo Público do Estado de São Paulo, na Biblioteca da Faculdade de Direito da USP e na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Faz-se necessário registrar a efemeridade de alguns jornais, característica comum naquele contexto. Entre os jornais disponíveis na Biblioteca da Faculdade de Direito da USP, vários não puderam ser consultados devido à fragilidade em que se encontram. Vale dizer que, no texto apresentado à banca de qualificação, indiquei que também utilizaria o jornal Diário de São Paulo. Entretanto, a pesquisa neste jornal não foi possível, visto que o equipamento de reprodução dos microfilmes do Arquivo Público do Estado de São Paulo apresentou defeito, inviabilizando a compra do microfilme e a pesquisa em tal fonte. 25 Disponíveis em: http://www2.camara.gov.br/atividade-legislativa/legislacao/publicacoes/doimperio e http://www.crl.edu/brazil/provincial/s%C3%A3o_paulo. 41 CAPÍTULO II A ACADEMIA JURÍDICA E A CIDADE DE SÃO PAULO EM PROCESSO DE URBANIZAÇÃO 2.1 – Brasil e São Paulo no século XIX Durante o século XVIII, São Paulo era uma província com características rurais. A fundação da Academia Jurídica de São Paulo, criada pela Lei de 11 de agosto de 1827, fez parte de um processo de mudança do perfil da cidade de São Paulo ao longo do século XIX e, de acordo com Adorno (1988, p. 81), “a Academia de Direito de São Paulo constituiu-se, no período compreendido entre 1827 a 1865-9, em pólo difusor de mudanças sociais”. Ao descrever a turma acadêmica de 1828-33, Almeida Nogueira relatou que mesmo em números limitados os estudantes já conseguiam movimentar as “sombrias ruas da vetusta cidade colonial (...) [dando] uma feição brazileira a uma sociedade composta em boa parte por negociantes portuguezes e francezes, (...) cuja população urbana não podia exceder de 10:000 almas” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 21). Nas palavras de Almeida Nogueira, os estudantes eram a “classe mais intelectual” e “homogênea” naquele meio, qualidades que se conservaram durante meio século “até que a introdução do ‘ensino livre’ e a enorme immigração extrangeira viessem destruir a homogeneidade academica e dar á cidade a apparencia européa e á sociedade o caracter cosmopolita, que hoje a distinguem.” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 21). O que se notou, desde a fundação da Academia, foi o envolvimento dos estudantes em discussões sobre a realidade de seu tempo. Nesse período, o memorialista destacou “dois acontecimentos (...) um de ordem geral e outro local, [que] emocionaram o espírito da classe academica, não menos que os habitantes da capital paulista” (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 2). O primeiro foi a abdicação de D. Pedro I, ocorrida no dia 7 de abril de 1831, havendo “commoções populares, arruaças, perseguições a portuguezes e a quem, no animo dos agitadores, fôsse suspeito de infenso á causa da liberdade ou mesmo de tibieza patriótica” (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 68). Já o segundo foi o assassinato de Libero Badaró, em 20 de novembro de 1830. De acordo com Martins e Barbuy (1998, p. 38), Badaró era médico, botânico e lecionou aulas de Geometria no curso preparatório. Muito aclamado pelos estudantes da Academia e pela população por defender os princípios liberais e republicanos através do jornal O 42 Observador Constitucional, fundado por ele teve “grande acção sobre o espirito publico, tornou o seu nome popularíssimo” e numa emboscada em frente a sua casa dois alemães, possivelmente a serviço do Império, fizeram “calar para sempre aquele incômodo oposicionista”, agitando a população e os estudantes do período (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 38). Após a abdicação de D. Pedro I em 1831 e até que seu filho completasse a maioridade para assumir o trono, o Império passou pelo período conhecido como Regência. De acordo com Boris Fausto (1995, p. 161), o período regencial foi um dos mais agitados e importantes da história política do país. Fausto (1995, 2002) aponta uma questão relevante acerca da preservação da unidade territorial do Império, que não se mostrava garantida mesmo com a Independência. Entre suas hipóteses, a que se refere à formação de um corpo burocrático que contribuiu para a construção de um Estado nacional se vincula aos Cursos Jurídicos: a formação de uma elite homogênea, educada na Faculdade de Direito de Coimbra e, a seguir, nas faculdades de Olinda-Recife e de São Paulo, com uma concepção hierárquica e conservadora, favoreceu a implementação de uma política cujo objetivo era o da construção de um Império centralizado. A circulação dessa elite pelo país, ocupando postos administrativos em diferentes províncias, integrou-a ao poder central, reduzindo sua vinculação com os diferentes interesses regionais (FAUSTO, 2002, p. 100). A participação dos formados nos Cursos Jurídicos de Olinda-Recife e São Paulo na vida social, política e econômica do Brasil foi percebida ao longo de todo Império. Entre as décadas de 1830 e 1840 a “pequena e modesta Paulicéa (...) mal occupava toda a collina hoje occupada pelo triangulo urbano do S. Paulo moderno” (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 107). De acordo com Almeida Nogueira, o calçamento no centro da cidade era precário e as “vias que conduziam a esses subúrbios nem mereciam o nome de ruas, eram antes estradas ou caminhos ruraes, destituidos de calçamento e de illuminação” (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 107). A iluminação urbana era feita a base de azeite de peixe, “por sombrios lampeões presos ás paredes das casas ou suspensos em desgraciosos postes de madeira, muito distanciados uns dos outros” (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 107-108). Não havia canalização de água, a não ser na represa do Tanque do Bexiga, “que trazia água impotável para um chafariz no largo da Misericordia e uma bica no largo da Memoria, proximo á ponte do Lorena!” (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 43 108). O abastecimento era em sua maioria realizado por cisternas nos quintais, fontes, tanques, bicas etc. (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 108). No que se refere ao comércio, Almeida Nogueira relatou que havia algumas lojas de fazendas, de ferragens e destacou as “casas de ‘secos e molhados’, especiais de bazar encyclopedico, com modesto sortimento, mas sem especialidade em qualquer ramo do commercio” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 97-98). Sobre as diversões realizadas entre os anos 1843-1847, Almeida Nogueira (1910, v. 8, p. 98-99) apontou que o Jardim Público da Luz era “regularmente frequentado, aos domingos á tarde” e existiam dois teatros: o do Pátio do Colégio, denominado ‘A Ópera’ e outro localizado na Freguesia de Santa Efigênia. Os bailes eram raros e existiam apenas os organizados pela sociedade Concórdia “que dava partidas dansantes mensaes, em que os chefes de família passavam o tempo em jogos de carta” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 99). Ainda segundo o memorialista, em “materias de hotéis e restaurantes era pauperrimo o S. Paulo antigo. Havia, nesse gênero, uma unica e modestissma casa de petisqueiras nocturnas, conhecida pela Casa do Charles” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 101, itálicos do autor). A cidade de São Paulo, entre os anos de 1855-1859, de acordo com Almeida Nogueira (1908, v. 5), pouco havia mudado. Sobre locais frequentados por aqueles que participavam da vida acadêmica, existiam alguns hotéis: Hotel Paulistano, Hotel do Commercio, Hotel da Providencia e, o que mais se destacava, Hotel Universal; duas livrarias, a do Bernardino José Dias Torres de Oliveira e a do José Fernandes de Souza, o Pandega; três tipografias: Typographia Imparcial, Typographia Dois Irmãos e a Typographia Literária; e entre as companhias de teatro, aquela considerada a mais organizada no período por Almeida Nogueira, era dirigida por José Joaquim de Macedo e Henrique José da Costa. Sucintamente, sobre a população da cidade de São Paulo, o memorialista a caracterizou como “pouco expansiva, retrahida” e ao retratar as famílias burguesas, disse que o “bello sexo, principalmente, era esquivo a passeios pela cidade e a ornar com sua presença as festas e diversões publicas” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 98). Os estudantes, a todo o momento, recriavam e readaptavam aquele espaço ainda em processo de urbanização que era a São Paulo na primeira metade do século XIX. As diversões se davam nos passeios pelas ruas escuras da cidade, nas repúblicas, na própria Academia, tanto que desde a sua fundação as agitações provocadas pelos estudantes eram motivo de discussão entre as autoridades, como mostrou Almeida Nogueira 44 baseando-se em diversos relatórios oficiais ao longo de sua obra. Num desses relatórios, datado de 1831, o Vice-presidente da Província, Padre José Antonio dos Reis, conta que o estudante Antônio de Oliveira “excitou os tumultos e ajuntamentos nocturnos, que tanto incommodaram e pertubaram a tranqüilidade publica”, provocando a insegurança de algumas pessoas que se queixaram com ele (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 81). Em 1840 se estabeleceu o Segundo Reinado, com o golpe da maioridade, que colocou D. Pedro II no poder. A este golpe se sucedeu uma década na qual “o espirito de insubordinação saturava todo o ambiente nacional” (NOGUEIRA, 1910, v. 2, p. 62). Em São Paulo houve a Revolução de 1842, que aconteceu por conta de conflitos entre o Partido Conservador e o Liberal, que tinham relação, de acordo com Richard Morse (1970, p. 111), com três fatores principais: a lei de 18 de Setembro (de 1841), conhecida como 'interpretação do Ato Adicional', pela qual os vice-presidentes das Província seriam nomeados pelo Imperador e não eleitos; a Lei de 23 de Novembro (de 1841), criando um Conselho de Estado, de provimento vitalício, por isso temido pelos liberais como um reduto para os oponentes despóticos; e a Lei de 3 de Dezembro (de 1841) que reformava o Código Penal e centralizava as nomeações do judiciário, ocasionando a remoção de muitos ocupantes liberais de cargos". De acordo com Almeida Nogueira (1909, v. 7, p. 41), a perda do poder político e o descontentamento com a organização do gabinete conservador fez com que o conflito culminasse em Sorocaba durando poucos dias. Esse movimento político animou a mocidade acadêmica e produziu, conforme o memorialista, além da natural emoção (...) segundo as duas correntes políticas que então se formaram, tambem, abalou a população paulistana. (...) O director da Academia, por mais de uma vez, oficiou ao governo declarando-lhe que nesta cidade – não havia perturbação da ordem publica e que nenhum perigo ameaçava os estudantes (...) para socego de espírito das respectivas familias (NOGUEIRA, 1910, v. 2, p. 64-65). A estrutura econômica do Brasil gravitava em torno das atividades agrícolas e a “grande novidade na economia brasileira nas primeiras décadas do século XIX foi o surgimento da produção de café para exportação” (FAUSTO, 1995, p. 186). A província de São Paulo se destacava na produção de café. A princípio pelo Vale do Paraíba, que chegou ao seu auge por volta de 1850. Posteriormente, pela região denominada Oeste Paulista, que, nas últimas décadas do século XIX, com uma nova classe denominada “burguesia do café”, foi responsável pelo início das transformações de cunho capitalista 45 ocorridas naquela região (FAUSTO, 1995, p. 199, 203). Além disso, a efervescência cultural produzida pelos estudantes da Academia Jurídica que vinham de diferentes regiões do país dinamizou a vida da cidade de São Paulo e “foi se formando, assim, um novo ambiente no pequeno burgo, no qual conviviam a mentalidade dos estudantes com as dos tradicionais habitantes da terra, ora chocando-se, ora penetrando-se, em rica simbiose” (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 32). Na década de 1860, São Paulo foi se tornando uma capital com maior crescimento econômico e vida cultural mais dinâmica. Na década de 1860, o estabelecimento do transporte ferroviário dinamizou ainda mais a Província (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 52, 58). Nas palavras de Almeida Nogueira: “a estrada de ferro de Santos a Jundiahy por aquelle tempo aberta ao trafego, e, logo depois, a Paulista, a Sorocabana e outras, iam sem tardança afogar a velha, poética, lendaria Paulicéa em ondas e ondas de forasteiros, e de riquezas accumuladas na terra roxa” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 126-127). Entre as estradas que transitavam os estudantes, havia a de Sorocaba, Campinas, Bragança, a estrada real do Rio de Janeiro a São Paulo ou mesmo, para quem preferisse, o trajeto marítimo do Rio de Janeiro a Santos. A principal dessas estradas era a de Santos-Cubatão, na qual “tinham de transitar, ao menos duas vezes por anno, os estudantes rio-grandenses, catharinenses, paranaenses, os do norte do Brazil, uma parte dos fluminenses e mineiros e mesmos os paulistas dos municípios do litoral” (NOGUEIRA, 1909 v. 6, p. 159). Segundo Almeida Nogueira, o trajeto de São Paulo a Santos era feito em dois dias e tinha valor de 20$000 réis, incluindo transporte e bagagem, além de jantar e parada em hospedagens pelo caminho (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 160). Havia algumas empresas que faziam o transporte entre essas localidades. Isso também se verificou nos anúncios e noticiários dos jornais, como no Correio Paulistano (n. 4.632, 19/Janeiro/1872, p. 3), a propaganda do vapor Alice, que fazia o transporte marítimo do Rio de Janeiro a Santos: Vapor „Alice” Este vapor do qual é commandante Antonio da Silveira Maciel Junior, de excellente marcha e com acomodações para passageiros, superiores as de qualquer outro da carreira, fará suas viagens d’ora em diante de Santos para o Rio de Janeiro nos dias 3, 13 e 23 de cada mez, ás 2 horas da tarde, voltando daquele porto nos dias 8, 18 e 28. Para cargas e passageiros trata-se em Santos com J. M. d’Arruda. Almeida Nogueira relatou que, por mais cansativas que fossem essas viagens “quanto compensações não deparavam aos estudantes nessas alegres jornadas! Basta 46 mencionar que para vencêl-as se combinavam na ida e na volta grupos de tres, quatro, e não raro, mais numerosos” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 161). Nesse sentido, inúmeras brincadeiras são descritas por Almeida Nogueira nessas viagens, como dar nomes “estapafurdios” de pessoas respeitáveis do Rio ou de São Paulo e, ainda, perseguir os “caloiros” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 162)26. A inauguração da ferrovia e a nomeação do ex-acadêmico João Theodoro Xavier de Mattos para Presidente da Província de São Paulo, em 1872, fez com que a cidade iniciasse as primeiras transformações em sua imagem urbana, passando, ainda nesse ano, a dispor de iluminação a gás. Logo no início de seu governo, novas ruas foram abertas, velhas estradas prolongadas, largos ampliados, a várzea do Carmo sofreu reformas, jardins públicos foram criados, mudando a paisagem da província de São Paulo (PANIZZOLO, 2006, p. 14). Almeida Nogueira descreveu com bastante ênfase as transformações na cena urbana pelas quais passava a cidade de São Paulo, apontando que, por mais favoráveis que elas tenham sido, colocavam em cheque os costumes, tradições e sentimento da antiga São Paulo, terminando, assim, o cyclo dos trovadores para começar o dos industriaes. E o príncipe perfeito, sua alteza serenissima, o estudante, ia ser deposto pelo caixeiro viajante. Cahiam as rótulas e as mantilhas, arruavam-se o campo do Chá, o Bexiga, o Zunega; entravam no alinhamento o Braz, a Moóca, a Ponte Grande. A Penha perdia o encanto, uma vez servida pela locomotiva, pelo bonde electrico e pelo gaz corrente (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 128). Assim como mudava a cidade, segundo o memorialista, mudava o perfil dos estudantes, sendo a geração de 1863-1867, de acordo com ele, a última representante do que Almeida Nogueira considerava o estudante típico do Largo de São Francisco, que leu muito, escreveu, arengou, fez versos, teve a inaudita coragem de folhear praxistas, e, ao mesmo tempo, divertia-se fazendo troça no theatrinho do Batuira, ao ar livre no café da Maria Punga, onde haveria em rigor uma dúzia de chicaras, seis cadeiras e uma ou duas mesas pequenas. Sentenciava-se soberanamente de artistas, de pregadores, de tudo... Sagrado só o Hymno Academico. Bandeira ainda não havia. (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 130-131). 26 A partir da leitura dos Relatórios dos Presidentes da Província de São Paulo e dos jornais do período, notou-se a constante preocupação das autoridades com relação às obras públicas, como escreveu o 3º vice-presidente da Província Barão de Itauna (1869), relatando que esse ramo “deve merecer a maior somma da attenção do governo”, principalmente no que concerne às condições das estradas. 47 Entre 1872-1875 São Paulo tinha na administração pública o Dr. João Theodoro Xavier, que buscava transformar a cidade com obras de segurança no Paredão do Carmo, reformas no Jardim Público, organização da Ilha dos Amores, abertura de ruas (João Theodoro e de São Caetano) e edificação do prédio “hoje occupado pela Camara Municipal e pela Prefeitura” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 266). Além disso, foram inaugurados em São Paulo os serviços dos carris urbanos (2 de outubro de 1872) e da iluminação a gás (31 de março de 1872), além dos primeiros serviços de abastecimento de água da Cantareira. O sistema de esgoto viera a ser concluído em 1883 (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 267). Nesse período, São Paulo contava com “uma população inferior a 30.00 mil almas, que se elevou a 60.000 mil no anno de 1887 e hoje se approxima de 300.000. Decuplou, portanto, em 30 annos!...” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 266). Outro acontecimento que agitou a Academia Jurídica nesse contexto histórico foi a Guerra do Paraguai27. Muitos soldados, entre eles estudantes, marcharam como voluntários da pátria para ajudar o Brasil nessa ação contra o país vizinho e tais acontecimentos também foram registrados por Almeida Nogueira. Já em 2 de fevereiro de 1870, o Presidente da Província de São Paulo, Antônio Candido da Rocha (1870, p.4) escrevia em seu relatório que o “estandarte das nações alliadas flucctua[va] vitorioso em todo o territorio do Paraguay e dentro em breve as cohortes vencedoras volverão ao territorio da patria aggradecida”. Em 1870, com o fim vitorioso contra o Paraguai, voltaram ao Brasil. Os que retornaram a São Paulo foram recebidos com festejos em praça pública e com saudações no teatro São José (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 292). De acordo com Martins e Barbuy (1998, p. 58), apesar das “enormes despesas que acarretara as dívidas para saldar, seu término trazendo a vitória, criara alento novo que a crescente produção cafeeira só vinha corroborar”. Além das mudanças econômicas, de acordo com Panizzolo (2006, p. 33), ideias novas, de cunho positivista e liberal do movimento republicano se fizeram fortemente presentes entre os bacharéis, sempre muito envolvidos nas questões políticas. Um exemplo foi a participação desses sujeitos no Manifesto Republicano de 1870, documento norteador de uma luta política, marcada pelo pensamento liberal clássico, 27 De forma sucinta, o conflito entre Paraguai e Brasil que, posteriormente, formou a Tríplice Aliança com Argentina e Uruguai e financiado pela Inglaterra se iniciou pela tentativa do ditador paraguaio Francisco Solano Lopes de possuir uma saída para o Oceano Atlântico, invadindo o Mato Grosso em dezembro de 1864, perdurando até 1870 (FAUSTO, 1995; MOTA, 1995). 48 incisivo na crítica ao Poder Moderador e mudo quanto à Abolição (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 62). Para Morse (1970, p. 216), o Positivismo era o “único conjunto formal de princípios a ganhar reconhecimento apreciável por parte dos que estavam interessados nos padrões futuros da economia e da sociedade”. Com relação à abolição da escravidão, registra-se que essa questão foi excluída das ideias do Partido Republicano e, segundo Morse (1970, p. 217-218), revela as especificidades que o movimento adquiria em terras brasileiras, que escolheu alguns dos princípios liberais. Ainda com relação a essa questão, a propagação de um ideal abolicionista não era de uma “receptividade incondicional, mesmo entre os estudantes (...) alguns deles, proprietários de terras e dependentes das lavouras, acomodados numa situação de privilégio, viam inflamação de muitos colegas como meras ‘estudantadas’” (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 81). Entretanto, é importante destacar, como apontam Martins e Barbuy (1998, p. 76) que “entrelaçavam-se, pois, em torno da questão escrava, várias gerações de bacharéis numa cadeia sem volta: Pimenta Bueno, Perdigão Malheiros, Fagundes Varella, Castro Alves, Joaquim Nabuco, Ruy Barbosa e tantos...28”. Nesse sentido, percebe-se que desde 1850 na Academia já se discutia a abolição da escravidão “valendo-se do gênero da retórica e do instrumento que lhes eram habituais: a poesia romântica, a oratória condoreira e o jornalismo” (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 76). A partir de 1860, ex-estudantes que passaram a atuar como juristas se dedicaram a pensar a abolição dos escravos sob o ponto de vista legal e, no decorrer da década de 1880, na Academia, “os estudantes fizeram do tema sua bandeira de luta, numa militância efetiva através da criação de jornais, da participação em clubes abolicionistas, mais ainda quando o Partido Republicano não assumiu a causa da ordem do dia” (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 76). No Brasil, o movimento republicano, fundamental para a compreensão do declínio da Monarquia, teve como base social os “profissionais liberais e jornalistas, um grupo cuja emergência resultou do desenvolvimento urbano e da expansão do ensino” (FAUSTO, 1995, p. 228) em que se puderam incluir os magistrados formados nos Cursos Jurídicos. O movimento ganhou mais força com a formação do Partido Republicano Paulista (PRP), fundado em 1873, constituído principalmente pela burguesia cafeeira de São Paulo, que defendia a federação como modelo de organização 28 Todos estes nomes citados, de alguma forma, apoiavam a abolição do trabalho escravo no Império do Brasil. 49 política da nação, tendo as províncias como suas unidades básicas (FAUSTO, 1995, p. 228). De outra parte, para que se possa entender o contexto deste estudo, faz-se importante pensar no declínio da Monarquia e, para tanto, há que se considerar a questão do Exército. A insatisfação dos oficiais em relação ao governo se agravou depois de 1883, mas esses desentendimentos já vinham acontecendo com a desvalorização do quadro de oficiais que com a mudança da composição social dos mesmos, contribuiu para afastar os oficiais da elite política do Império, especialmente dos bacharéis formados pelas faculdades de direito. Os “legistas”, como eram chamados os bacharéis, sintetizavam na visão militar a cultura inútil, a corrupção eleitoral e impediam com sua teia de leis e regulamentos o desenvolvimento do país (FAUSTO, 1995, p. 231). Foi nesse cenário, com o apoio dessas duas forças: Exército e burguesia cafeeira de São Paulo, organizada em torno do PRP, que nasceu a República em 15 de novembro de 1889 (FAUSTO, 1995, p. 235), período e discussão que extrapolam os limites desta dissertação. Nesse contexto de diversas transformações econômicas, sociais e políticas no Brasil e, sobretudo, na cidade de São Paulo, que esse estudo se insere, tendo como objetivo compreender as práticas de diversão produzidas pelos estudantes da Academia Jurídica de São Paulo neste local e tempo determinados. 2.2 – História da Academia Jurídica de São Paulo A Independência brasileira, em setembro de 1822, não pode ser considerada uma emancipação pacífica e, apesar de D. Pedro I ter tido problemas para conseguir aliados nesse processo, “a elite política promotora da Independência não tinha interesse em favorecer rupturas que pudessem pôr em risco a estabilidade da antiga Colônia” (FAUSTO, 1995, p. 146). Tendo isso em vista, o novo Império necessitava de uma Constituição, aprovada em 25 de março de 1824, que vigorou com algumas mudanças até o final do período imperial e era caracterizada por um governo monárquico, hereditário, constitucional, escravocrata, com voto indireto e censitário e tendo a religião católica como oficial (FAUSTO, 1995). No que se refere ao ensino superior, o inciso XXXIII do artigo 179 da Constituição, conforme José Gondra e Alessandra 50 Schueler (2008, p. 52), “se compromete com abertura de ‘Collegios’ e Universidades, onde seriam ensinados os ‘elementos das Sciencias, Bellas Letras e Artes’”. Vale registrar que, apesar de ser admitida a necessidade de criação de um curso de Direito no Brasil independente, a escolha do local onde deveria ser instalado não foi fácil. Martins e Barbuy (1998, p. 26) apontam que os debates acerca dessa questão foram intensos, por conta da consciência dos deputados em relação ao desenvolvimento que os cursos superiores trariam para a região em que fossem instalados, o que foi confirmado com a efetivação do curso jurídico de São Paulo. Entre os objetos de preocupação das autoridades também estavam as práticas de diversão por serem consideradas, à época, uma ameaça na formação dos estudantes. Nesse sentido, no momento de decidir onde seriam as Academias Jurídicas, a defesa das cidades também passava pelo fato de não possuírem diversões para os estudantes e São Paulo usava esse motivo para se destacar. Num dos discursos proferidos na Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Brasil, o deputado paulista Carneiro da Cunha ressaltava que: “Talvez olhando o objecto sómente por este lado, talvez eu preferisse S. Paulo ao Rio de Janeiro, porque não oferece tantos meios de dissipação, e até é mais proprio por ser frio” (NOGUEIRA, 1907, v. 1, p. 11). Enfim, após cinco anos de discussões e debates, foi decretada a Lei de 11 de agosto de 1827, que fundava os Cursos Jurídicos em Olinda e em São Paulo, com o propósito de “se constituir quadros para o aparelho governamental e de exercer pertinaz controle sobre o processo de formação ideológica dos intelectuais a serem recrutados pela burocracia estatal” (ADORNO, 1988, p. 88). E como apontou Almeida Nogueira, “a 1º de março de 1828, solennmente se inaugurava na cidade de S. Paulo o Curso de Sciencias Juridicas e Sociaes” (NOGUEIRA, 1907, v. 1, p. 23). Segundo Almeida Nogueira (1907, v. 1, p. 42), a solenidade de inauguração do curso na cidade de São Paulo foi concorrida. Nesse sentido, o mesmo relatou que a sala do Convento de São Francisco estava “apinhada de gente”, quando o lente e diretor José Maria Brotero fez seu discurso. Em seguida, foram todos para igreja, onde se cantou um Te Deum em ação de graças e depois “foram todos convidados pelo exmo. Director para servirem-se de doces e refrescos, que para isso estavam preparados numa esplendida mesa, a qual esteve franca a todo o povo” (NOGUEIRA, 1907, v. 1, p. 42). Sobre a sala de inauguração da Academia Jurídica, o próprio Almeida Nogueira assumiu sua “supersticiosa veneração e carinhoso affecto” por aquele local, “templo histórico da 51 nossa Faculdade, o principal scenario das nossas glorias; era antigamente, até ao anno de 1884, o salão dos gráos e de todas as festas literarias da Academia” (NOGUEIRA, 1907, v. 1, p. 41). Segundo Almeida Nogueira, o edifício da Academia manteve, até 1883, o frontispício e as divisões internas construídas pelos frades franciscanos, havendo poucas modificações arquitetônicas no prédio que anteriormente abrigava o convento (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 269). Feito os primeiros ajustamentos no convento para que se instalasse a Academia Jurídica de São Paulo, posteriores mudanças foram forçosas “para o augmento das salas de aulas, já para a installação da secretaria, da biblioteca e dos outros commodos indispensaveis, visto a diferença entre os destinos de um mosteiro e de uma academia” (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 17-18). De acordo com Almeida Nogueira, os principais reparos foram “a destruição das cellas existentes no pavimento superior, onde está hoje a Secretaria, e por muitos annos foi o salão da biblioteca, e a abertura do largo de S. Francisco, que era primitivamente quintal do convento” (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 18). Segundo o estudo de Martins e Barbuy (1998, p. 60-61), o Largo de São Franscisco era de terra batida e sem atrativos comercias, encontrando-se na frente da Academia apenas a oficina de um ferrador chamado Fabien Elichalt. A ladeira de São Francisco era estreita e tortuosa, com casinhas barrigudas e curvadas para frente, “encostando-se umas às outras para não escorregar” (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 61). Na parte posterior, encontrava-se um beco, denominado morada do Eco, “onde à noite, os estudantes aterrorizavam a população, lançando gritos horríveis” (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 61). Após discussões sobre os locais de instalação dos cursos jurídicos no Brasil e quanto ao processo de acomodação da Academia Jurídica em São Paulo, outras questões surgiam e ameaçavam o funcionamento da instituição. De acordo com Cruz (2009, p. 32), havia professores que não se apresentavam às aulas por “problemas de saúde ou por exercerem altos cargos no governo”. Muitos desses professores também não “possuíam conhecimentos e erudição suficientes para ministrarem as aulas de suas respectivas cadeiras” e, ainda, havia “insistentes investidas do governo imperial pelo controle dos conteúdos dos cursos”. Isso fez com que a Academia atravessasse, segundo Almeida Nogueira (1910, v. 8, p. 101), “um periodo de desalento”, no qual os matriculados no curso estavam em torno de 50 a 60 estudantes por ano, como se 52 verifica em 1843, com “56 em todas as aulas; em 1844 não passou de 49, em toda a Academia; em 1845 subiu a 56; em 1846 a 58, numero esse em que se conservou em 1847” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 101). Entretanto, o que se percebeu foi que, mesmo com todas essas adversidades, a Academia se mantinha como símbolo da emancipação intelectual brasileira como indicam Martins e Barbuy (1998) e os jovens da elite branca pleiteavam uma cadeira na mesma. Como sugere Adorno (1988, p. 78), neste espaço de aprendizagem do poder, os bacharéis apropriavam-se “das oportunidades de acesso e promoção nas carreiras diretivas dos órgãos centrais e regionais de governo”, vindo posteriormente a ocupar cargos do poder judiciário, executivo e legislativo. Nesse sentido, Sérgio Buarque de Holanda (1967, t2, v. 3, p. 16-17) analisando um levantamento por profissões na Câmara de São Paulo, da legislatura de 1850-1852, mostrou que dos 111 deputados, 71 eram advogados, oito eclesiásticos, quatro militares, quatro médicos e 24 outros, o que constata “o predomínio do bacharel” no Parlamento, “regra no Brasil imperial e mesmo em parte do republicano”. Tal constatação também se corrobora a partir dos escritos de Almeida Nogueira que, ao descrever as ocupações profissionais dos ex-estudantes mostrou que, na maioria das vezes, elas estavam ligadas a algum cargo político. Nesse contexto, a política era uma temática fortemente presente na imprensa periódica produzida pelos estudantes da Academia. O periodismo, por sua vez, fora considerado por Adorno (1988) um dos maiores formadores daqueles sujeitos, visto a precariedade da estrutura curricular e as condições não muito favoráveis em que se encontravam a Academia (como indiquei anteriormente): essa imprensa ensinou ao acadêmico como tomar partido, lutar e apaixonarse por uma causa, adquiriu responsabilidade moral pelos atos praticados, enfim, esse jornalismo ensinou algo além do aprendizado de sala de aula: o princípio de que a política se faz com um público e com a utilização desses dois instrumentos que são a palavra escrita e falada (ADORNO, 1988, p. 165). Com relação às produções jornalísticas, percebi como foi acentuada a presença de jornais, revistas, folhas no ambiente da Academia e na cidade de São Paulo e, ainda, como os estudantes estavam fortemente envolvidos na fundação, redação e colaboração dos mesmos, como pode ser verificado nos relatos de Almeida Nogueira sobre o então estudante José Ignacio Silveira da Motta, que já na turma acadêmica de 1829-1833 53 fundou no seu terceiro anno o Federalista. No seu quinto anno, foi, com Francisco Bernardino Ribeiro, o lente dr. Carlos Carneiro de Campos e outros, sócio fundador da Sociedade Philomatica e redactor da mesma revista, cujo primeiro volume veio á luz da publicidade em 1833 (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 73). Vinculadas a essas produções jornalísticas estavam, naquele contexto, as associações literárias, sociedades acadêmicas e científicas e agremiações políticas em que os estudantes se reuniam para debater inúmeros temas, entre eles: a política, a literatura, a ciência, a própria Academia, o amor. Todos estes temas estavam presentes também nas produções jornalísticas produzidas por aqueles sujeitos. No que se refere às produções literárias desses estudantes, outra prática ligada à cultura escrita, constata-se que poetas importantes da literatura brasileira passaram pelas arcadas da Academia Jurídica de São Paulo. Dentre eles: “Otacviano, José Bonifacio, Bernardo Guimarães e seu irmão (depois vigario de Araxá), Oliveira Araujo, Silveira de Souza e o mallogrado Alvares de Azevedo” e, ainda, Castro Alves e Fagundes Varela (NOGUEIRA, 1908, v. 3, p. 19). As terras brasileiras no século XIX não possibilitavam muitas opções aos que queriam aprofundar seus estudos e, por isso, foi tão marcante a presença desses sujeitos nos cursos jurídicos, o que também influenciou as produções literárias e artísticas do período, motivando outros estudantes a se aventurarem nessas práticas. Assim, passaram pela Academia não apenas estudantes, mas poetas – líricos, satíricos, de prosa e de verso. E, ainda, humoristas, críticos literários, contistas, cronistas, fabulistas, romancistas, o que fecundava ainda mais o espírito daqueles jovens estudantes da Academia Jurídica e da cidade de São Paulo. Vale ressaltar que há uma linha muito tênue entre as produções jornalísticas e as produções literárias, no sentido de que os jornais serviam para expor a literatura produzida pelos sujeitos da Academia. Como disse, a década de 1860 foi marcada pelo crescimento e pela transformação da cidade São Paulo, além da efervescência cultural da Academia, o que se observa a partir do que Almeida Nogueira escreveu sobre a turma acadêmica de 1863-1867, ressaltando que “foi a era de ouro das associações literárias, das pomposas sessões magnas e outras aggremiações” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 126). As sessões magnas eram celebradas no salão grande da Academia e contavam com representantes de todas as sociedades e associações para comemorar “alguma data nacional, em homenagem fúnebre a alguma conspicua personalidade fallecida, ou determinada por 54 outro motivo egualmente relevante, luziam na tribuna os grandes oradores acadêmicos” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 186). Os anos de 1870 significaram para a imprensa acadêmica o encerramento de uma fase balizada pelo “cultivo do byronismo, da boêmia romântica, do proliferar das associações científicas e literárias, para o exercício da política. As campanhas republicanas e abolicionistas passaram a presidir aquele cotidiano, manifestas na criação de clubes, associações, jornais (...)” (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 64). O que se pôde notar foi que no ambiente da Academia havia “uma proliferação de agremiações políticas, tendo cada uma seu Club e o seu órgão de imprensa” (PANIZZOLO, 2006, p. 84). Tal questão pôde ser constatada quando Almeida Nogueira tratou do quinquênio de 1874-1878 e ressaltou que, nesse período, acentuou-se a divisão da Academia em agremiações políticas e os jornais “A Reacção, O Constitucional e A Republica defendiam com calor as suas ideias; e os seus redactores davam-se recíprocas alfinetadas [principalmente] a sua seccção apimentada, (...) maior attractivo para a generalidades dos leitores” (NOGUEIRA, 1912, v. 9, p. 211). Outro indício que corrobora a efervescência da produção jornalística dos estudantes foi encontro no jornal A Academia de São Paulo do dia 2 de abril 1876 (n. I, p. 4), que anunciava uma reunião de estudantes liberais para formação de um Club Acadêmico Liberal e de seu respectivo jornal, Reunião academica- Quarta-feira, 29 do corrente, reuniram-se os estudantes liberaes da Faculdade, para tractar da organisação de um Club e creação de um jornal. A reunião prezidida pelo nosso distincto e prestimoso collega de redação, o quinto-annista sr. Edmundo da Cunha, foi bastante concorrida e animada. Desejamos aos illustres collegas feliz exito na empreza que tomaram sobre si. A política era um tema muito forte nesse período, mas não era apenas ela que causava conflito entre os sujeitos da Academia. Como exemplo desses desacordos não vinculados à questão política, cita-se a questão em torno do decreto 22 de outubro de 187129, discussão que gerou um protesto acadêmico no dia 28 de outubro. Apenas nove 29 Esse acontecimento já foi explicado no Capítulo I desta dissertação e se refere às alterações nos exames da Faculdade de Direito e de Medicina, com o decreto de 22 de outubro de 1871 em que muitos estudantes se rebelaram escrevendo um “protesto acadêmico”. Almeida Nogueira estava provavelmente envolvido no caso, mas não tratou de explicá-lo detalhadamente em suas memórias (CONSTANTINO, 1940, p. 11-12). 55 estudantes foram contrários ao manifesto escrito em decorrência do decreto, dentre eles o memorialista Almeida Nogueira. No incidente, houve quebradeira de cadeiras por parte dos estudantes, como se vê em trecho escrito por um acadêmico não identificado que comentou no jornal Correio Paulistano (n. 4645, 6/ Fevereiro/1872, p. 2): SECÇÃO PARTICULAR ____________________________________________ Aos academicos de S. Paulo ___ Subimos hoje á imprensa para avivar algumas idéas, ou melhor, para recordar uma serie de deveres que parecem esquivar-se da consciência de alguns moços. O movimento academico de 28 de Outubro do anno passado, teve, como ninguem ignora, duas faces, differentes em suas causas, e diversas em suas manifestações: uma foi o quebramento de cadeiras que teve por força motriz a indignação; a outra foi o protesto fecundado nos nossos meetings, cujas occasionaes foram o direito e a lei. Nada de mais, nada de menos. Cada uma dellas recebe o seu salvo-conducto de sua própria origem. Cada uma dellas tem a sua base um privilegio: as cadeiradas, no ardor, na precipitação, no extravasamento da continencia, nas reações muito rapidas e intempestivas, que são o privilegio da mocidade; o protesto, na discussão, na lei, na justiça de uma represalia contra o desconhecimento do direito, no abandono de calmas e reiteradas reclamações, que são o privilegio da maturidade. Estamos pois salvaguardados diante das recriminações communs. Quem nunca foi moço que não receba com um sorriso de complacencia o primeiro; quem desconhece a imparcialidade e a injustiça que não justifique conscienciosamente o segundo. Por conta desse protesto alguns estudantes sofreram processo acadêmico e não puderam pegar suas cartas de bacharel em 1872, como se vê nas linhas dos jornais do período (Correio Paulistano, n. 4657, 21/Fevereiro/1872, p. 2): Processo academico – Ao que consta, houve hontem julgamento neste estranho e já tão largamente discutido processo, feito perante a congregação. Consta que dos 11 academicos incluidos no processo foram 9 condemnados a 2 annos de suspensão de estudos, e 2 absolvidos. Além dos 9 de agora, já haviam anteriormente sido condemnados 2. Vale dizer que muitos envolvidos nesse acontecimento também fizeram seus protestos na imprensa, pedindo a união de todos para defenderem seus colegas condenados, conforme escrevia “um acadêmico” no jornal Correio Paulistano (n. 4657, 21/Fevereiro/1872, p. 2) 56 Academia de S. Paulo ____ Collegas! Os nossos companheiros, talvez aquelles que menos influiram no movimento academico de 28 de Outubro passado, foram condemnados a perda de 2 annos cada um! Isto brada aos céos! Collegas! dissestes pela imprensa, que se algum processo academico fosse instaurado, todos vós havíeis de ser processados. Chegou a hora de cumprirdes com a vossa palavra em nome de vossa honra, em nome do dever. Não pudeste fazer exames, porque não podeis abandonar os vossos collegas na adversidade. Ai, daquelle que se cobrir de ridiculo e de infamia. Sêde homens de bem, collegas – a postos!.. Note bem; nossos amigos estão condemnados. Continúa-se a calçar aos pés a lei e a justiça... E haveis de ficar tranquilos?... Em nome do vosso pudor – eia, á luta. UM ACADEMICO. As divergências entre os sujeitos da Academia também se davam entre os inúmeros grupos formados pelos estudantes, como os de caçadores, boêmios, vadios, inteligentes, calouros, veteranos, entre outros. Sobre esses dois últimos, pode-se discorrer acerca dos trotes, que já naquele período eram vistos como manifestações violentas, realizadas pelos veteranos contra os calouros da Academia Jurídica de São Paulo. Esta era uma prática reprovada, mas não combatida pelos sujeitos da Academia como se constata nos relatos de Almeida Nogueira (1907, v. 1, p. 265) que apontou que “de facto, prepararam-se, armaram-se de lado a lado e trava-se, por vezes, renhido combate, do qual resultam nuns e outros ferimentos e contusões”. Percebe-se que essa prática era vista como “natural” entre os jovens e não como uma construção social e histórica (PORTES; COSTA, 2008, p.18). Nesse sentido, os calouros eram agredidos com extrema violência através de vaias, zombarias, perseguições, brigas, agressões físicas, entre outros atos violentos e os estudantes que apresentavam alguma peculiaridade – ser mais velho, muito novo, alto ou usar roupas diferentes – eram ainda mais agredidos, tanto verbal quanto fisicamente. Houve poucas exceções com relação aos trotes e, como exemplo, cito os veteranos da turma de 1862-1864 que receberam os calouros “no primeiro dia com musica festiva e amistosas acclamações... sem embargo de espirituosos gracejos que não poderiam offender os novatos” (NOGUEIRA, 1912, v .9, p. 92). Atenta-se, portanto, para o fato de que as relações entre os estudantes das diferentes turmas, em alguns momentos, eram tensas, conflituosas e, ainda, remetiam a discriminações e preconceitos (PORTES; COSTA, 2008, p. 19). 57 As divergências, ainda, podiam ser vistas a partir dos apelidos postos naquele espaço da Academia. Almeida Nogueira apresentou em sua obra uma diversidade de apelidos conferidos aos estudantes, professores e outros sujeitos da Academia que podiam ser o diminutivo do nome, o apelido usado desde a infância ou mesmo para diferenciar os que tinham o mesmo nome. Na obra, Almeida Nogueira elucidou, muitas vezes, o motivo desses apelidos, algumas vezes não tinha conhecimento da procedência dos mesmos e outras vezes não os apresentava pelo receio de denegrir a imagem dos estudantes que se tornaram advogados e políticos influentes. Neste caso, cito o que Almeida Nogueira escreveu sobre o apelido do estudante Joaquim Gomes de Siqueira Reis quando exemplifiquei as suas omissões ao longo da obra no Capítulo I desta dissertação. Os apelidos eram inventados e reinventados na Academia e se vinculavam às representações postas e/ou impostas naquele espaço, funcionando para exaltar ou denegrir, ou mesmo para evidenciar uma característica física, de comportamento ou de uso de algum objeto específico (PORTES; COSTA, 2008, p. 18), o que, certamente, interferia nas redes de interdependências estabelecidas naquele espaço. A partir do exposto, apesar das fortes vinculações políticas a que estavam ligados os estudantes e do futuro quase que garantido na política ao se tornarem bacharéis, constata-se que a Academia também funcionava como espaço permeado por outros tipos de ações e relações, entre elas as práticas de diversão, objeto principal desta dissertação. Nesse sentido, esses sujeitos não se furtavam de realizar inúmeras estudantadas, como sugere Almeida Nogueira no título de suas Tradições e reminiscencias..., sendo um dos objetivos de sua obra descrever tais empreendimentos. A produção do memorialista ofereceu narrativas diversas, como casos de brincadeiras, pilhérias, travessuras, brejeirices, gaiatices, pândegas e rolos em que os estudantes se envolviam cotidianamente na própria Academia, nas repúblicas, nos teatros, hotéis e cafés, nas praças e ruas a qualquer hora do dia ou da noite, dependendo, portanto, da imaginação e da vontade dos mesmos (PORTES; COSTA, 2008, p. 17). Nesse tocante, vale ressaltar que a própria Academia se constituía como um espaço de diversão para os estudantes. Os nove volumes de Almeida Nogueira narraram diversas brincadeiras empreendidas pelos estudantes nesse espaço, como no caso dos estudantes João Floriano Martins de Toledo e João Moraes da turma de 1864-1868 que “faziam ás vezes juntos algumas travessuras, como fossem – tirar ou pôr em falso o assento da cathedra de algum lente antipathico, ou troças, como essa, algum tanto 58 infantis” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 208). Além dessas diversões de cunho infantil, outras, muitas vezes, serviam para ridicularizar os sujeitos da Academia, como exemplo, o caso das “broteradas”, termo utilizado pelos estudantes para chacotearem o Brotero, professor da Academia desde a sua fundação até 1871, por trocar as sílabas das palavras ao falar. Almeida Nogueira (1907, v. 2, p. 28) registrou algumas clássicas “broteradas”: “cidadeiro brazilão – vidrada quebraça – limenta com pimão – palavras moucas ouvidos loucos – Sayato Lobão, por Sayão Lobato – C. Mastro, por Magalhães Castro – Mouto...galhães, por Couto Magalhães” (PORTES; COSTA, 2008, p. 17). Nesse sentido, a Academia era um espaço de convivência dinâmico, no qual os estudantes tinham a oportunidade de marcar e organizar as reuniões, festas e quaisquer outras diversões. Além disso, havia neste espaço sessões de associações literárias e acadêmicas, a cerimônia da colação de grau, os trotes, servindo a todo tipo de realização, desde (...) a instalação da primeira biblioteca pública, em 1825 (anexada à Academia em 1827), até a montagem da Exposição Provincial de produtos agrícolas e industriais de 1875, passando por uma luta de esgrima entre um mestre de armas francês, Monsieur Perogout e um aluno da Academia” (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 21). Com relação à diversão dos estudantes, percebe-se um esforço contínuo dos professores e diretores no sentido de cerceá-las, tanto que os mesmos não podiam sair de casa a não ser nos dias previamente estabelecidos. Porém, isso não era levado em consideração pelos estudantes, como se lê a seguir: essas diversões sómente se faziam aos sabbados e quartas-feiras, depois da aula. Nos outros dias, a essas horas, quasi não appareciam os estudantes nas ruas e praças ou noutros passeios, nem tão pouco espectaculos, bailes ou quaesquer outros divertimentos publico ou semi-publico. E assim se abstinham de qualquer dessas exhibições para prevalecer a presumpção de que estavam applicados ao estudo. Isto não significa que não houvesse, então como hoje, vadios e calaceiros. A vadiagem, porém, fazia-se a caseira. Ficava a contar as táboas do tecto em reclusão voluntaria na republica (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 171). Vinculadas à diversão, nota-se as questões acerca da disciplina dos estudantes. O memorialista Almeida Nogueira ressaltava que os estudantes dados às diversões, boêmios não eram em geral aplicados aos estudos, sendo raras as exceções. Diversas passagens mostram isso, como as que se seguem: “(...) tinha entretanto, muita propensão aos divertimentos e era de um genio franco e alegre. Já se vê que não podia ser demasiado intensa a sua applicação ao estudo” (NOGUEIRA, 1907, v. 1, p. 160). E 59 ainda: “um vadio original desses que ficam em casa, deitados, sem abrir o livro quasi sem falar, a contar as taboas do tecto” (NOGUEIRA, 1907, v. 2, p. 186); “cuidava mais de divertir-se do que de estudar” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 275); “quanto á assiduidade ás aulas, foi sempre um devoto dos 39 pontos. (...) Não podia ser um bom estudante pela intuitiva razão - de que não estudava” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 186). Almeida Nogueira se referiu ao número 39, pois este era o máximo de faltas que um acadêmico poderia ter no período. Apesar das recomendações oficiais para punir esses estudantes, ao efetuarem suas trocices, como bem colocou Almeida Nogueira, os mesmos tinham um privilégio em comparação ao restante da população de São Paulo, pois os delegados de polícia no século XIX eram, em sua maioria, professores da Faculdade de Direito. Por isso, como eram “amigos dos rapazes, dispensando-lhes attenções e trato affavel, fechando os olhos antes as estroinices mais ou menos veniais de um e de outro” (NOGUEIRA, 1907, v. 2, p. 66), sempre lhes defendiam e lhes amenizavam as punições. No que se refere à relação dos estudantes com a população de São Paulo, ao tratar do quinquênio da turma de 1860-1864, Almeida Nogueira (1909, v. 6, p. 157-158) relatou que, pelo fato de a cidade ser pequena e todos conhecidos uns dos outros, a presença de “uma nova physionomia causava estranheza” e as famílias se retraíam diante dos forasteiros e também dos acadêmicos. Entretanto, o próprio memorialista indicou que “varios estudantes conseguiram captar a confiança dos paulistanos e privar com elles; alcançavam então cordial acolhimento no lar domestico, e, não raro, contrahiam enlace matrimonial com alguma das formosas filhas da poética Paulicéa” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 157-158). 2.3 – Os espaços de diversão para além da Academia Jurídica Como já apontado anteriormente neste capítulo, além da Academia Jurídica, outros espaços da cidade de São Paulo serviam para divertir e entreter os estudantes, sendo um deles as repúblicas. As repúblicas eram espaços de convivência que tinham vinculação estreita com a Academia, visto que só existiam por conta do afluxo de estudantes para a cidade. E, sob este aspecto, podem ser tomadas como espaços intersticiais. Nos dizeres de Almeida Nogueira (1909, v. 6, p. 166), havia 60 na vida domestica do estudante de S. Paulo, um quê de particular e característico, que algures não se notava – a moradia em commum e autônoma. Constituiam-se em grupos de tres a cinco, raramente seis, alugavam casa, nella organizavam summariamente todos os serviços domesticos, e alli conviviam alegres, descuidosos, em perfeita harmonia, sob regimen democrático. Essas casas eram, por isso, denominadas republicas. Um dos motivos que fizeram com que as repúblicas se formassem em São Paulo, de acordo com Martins e Barbuy (1998, p. 98), foi a precariedade das moradias, hospedarias e mesmo hotéis. De acordo com as autoras, nesta “‘célula plurifamiliar’ tão singular, coabitada por grupos sociais a fins e que, pelas características de juventude, inquietação, inconformismo e de sede de viver de seus moradores estimulava e enriquecia o convívio daqueles que a coabitavam” (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 98). Nesse mesmo sentido, outro motivo apontado por Almeida Nogueira (1908, v. 5, p. 109) como responsável pela formação das repúblicas na cidade eram as modestas mesadas recebidas mensalmente pelos estudantes que, entre os anos de 1837 e 1841, estavam entre os valores de 30$000 e 50$000 réis, fazendo com que o agrupamento desses sujeitos fosse uma saída para viabilizar a permanência dos estudantes em São Paulo. Para as despesas comuns a todos que moravam nas repúblicas, havia o que eles denominavam de bolsa, ou seja: uma contribuição “com uma quota mensal para as despesas geraes” (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 109). Ao alugarem a casa, os estudantes se distribuíam por diversos cômodos da mesma, sendo “reservados os de serventia geral – a saber, unicamente sala de jantar e cozinha – os mais eram occupados de modo a accumularem para cada estudante as funcções de quarto de dormir, sala de visitas, gabinete de estudo, gabinete de toilette, etc” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 167). Vale ressaltar que “os melhores commodos competiam aos veteranos e os menos confortaveis aos cailoros e aos bichos”30 (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 167). No que se refere à mobília das repúblicas, Almeida Nogueira relatou que esta não excedia de uma peça, a mesa de jantar; e a privativa de cada inquilino – de cama, mesa para estudo e uma cadeira. A estas peças accrescentavam os mais estudiosos uma estante e os mais commodistas alguma cadeira preguiçosa ou de balanço. Ninguem estava prohibido, já se deixa ver, de prover-se de divans, tapetes, guarda-roupa, etc.; mas esse luxo era o apanágio 30 “Bicho” era o termo utilizado na Academia para designar os estudantes de preparatórios (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 129). 61 dos nababos... por tão pouco assim qualificados na bohemia acadêmica (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 167-168). Sobre este assunto, pode-se acrescentar que os estudantes mais abastados possuíam ainda “casa luxuosa, piano, passeio a cavallos em vistosos ginetes, etc.” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 224). Em relação às despesas das repúblicas, o “preço do aluguel da casa regulava por 30 a 50$000 réis, pagos com egualdade pelos moradores” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 168). As cozinheiras cobravam cerca de 15 a 20$000 réis e, geralmente, eram “sempre uma preta liberta, affeiçoada ao serviço dos estudantes e que rejeitava empregos noutras casas” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 168). Sobre as refeições, tais cozinheiras preparavam o trivial: “feijão, arroz, carne de vacca ou de porco e algum legume (cujo mercado não era farto), café e chá paulistano” (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 109). Mas era preciso fazer com maestria o “picadinho” – prato tradicional no qual todas as cozinheiras paulistanas tinham de ser peritas. Na sobremesa, doces de batata, figo ou arroz de leite (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 100). Almeida Nogueira ressaltou que, com o desenvolvimento das estradas de ferro a partir da década de 1860, “uma das transformações ocorridas nas republicas foi com relação ao que se comia: seriam substituídas a partir daí o famoso picadinho, a couve mineira, o doce de batata, o chá de cartucho pelo macarrão, minestra, polenta” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 128). Outra questão que se vincula às repúblicas era a limpeza da roupa dos estudantes, que Almeida Nogueira apontou como “uma das principaes industrias da economia domestica das familias paulistanas”, havendo disputas por essa freguesia que pagava cerca “de 1$000 réis pro dúzia, contando-se as indistinctamente todas as peças de vestuario, roupa de cama, toalhas, etc.” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 169). As repúblicas, ainda, contavam com os “creados de estudantes” que eram escravos que vinham acompanhar e auxiliar os estudantes de fora que mudavam para São Paulo e “accumulavam a tarefa de copeiro, camareiro e outras mais de toda a casa, e, senão pagamento, percebiam espórtulas espontâneas que lhes davam os estudantes” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 168). Interessante perceber que, juntamente com seus amigos estudantes, os criados também eram calouros, depois veteranos, formando entre eles um grupo, “uma sub-classe academica, á sombra dos seus senhores” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 168). Almeida Nogueira indicou que a relação entre os estudantes e seus criados era, muitas das vezes, de amizade, tanto que “quando o estudante recebia a sua 62 carta de bacharel, outorgava ao seu fiel creado a carta da liberdade. Perdia o escravo, mas conservava o amigo” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 168). Isso também foi constatado em notas no jornal Tribuna Liberal (n. 303, 06/Novembro/1878, p. 2): Liberdade. – Hontem por occasião de tomar gráo de bacharel em direito, na nossa Faculdade, o sr. Leonce Augusto P. da Silva concedeu carta de liberdade sem onus algum a um seu escravo menor. Esse facto corrobora a nobreza de caracter que todos reconhecem na pessoa do sr. dr. Até os anos de 1876, ainda predominava o sistema mais econômico das repúblicas e começava a se popularizar entre os estudantes a “casa de pensão. Havia uma pensão nobre, a da Viuva Reis, e outras, muito poucas na verdade, de tratamento e preço democráticos” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 270). De acordo com Martins e Barbuy (1998, p. 102), eram nas repúblicas que os estudantes avessos ao livro se viam obrigados a “percorrê-lo para aproximar-se do colega, integrar-se ao convívio comum; local de intercâmbio literário, uma verdadeira bolsa de livros (...)”. Mas era também nesse espaço que eles “corriam as existências soltas, as transgressões da mocidade precoce dos acadêmicos” (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 102). As repúblicas foram palco de memoráveis atividades desenvolvidas pelos estudantes, indicadas por Almeida Nogueira ao longo de toda a sua obra, como festas, ceias, serenatas, brincadeiras impagáveis com os amigos, discussões literárias, jogos de salão, entre outras. Entre as anedotas, cito as ceias e jantares realizados nesses espaços, nos quais os pratos eram, em sua maior parte, adquiridos por meio das caçadas realizadas pelos estudantes na cidade e em seus arredores e, ainda, os finais das serenatas que, “algumas vezes se encaminhavam a alguma republica amiga, que acolhia os serenos com agrado, e prevenida, offerecia-lhes frugal refeição, ou simplesmente uma chávena de chocolate (entendia-se então – gemmada), com biscoitos” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 172). Além disso, nas repúblicas os estudantes treinavam e executavam diversos sports e Almeida Nogueira registrou que “a maioria dos estudantes se dedicavam a esses exercícios, [sendo] rara era a republica que não tinha barra-fixa e trapezio volante” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 134). Estas práticas de diversão serão analisadas com mais profundidade no Capítulo III desta dissertação. Inúmeros tipos frequentavam as casas de estudantes e, nas repúblicas, preferencialmente os boêmios que, segundo o memorialista, se caracterizavam por não 63 possuírem moradia fixa e, ainda, “comiam e dormiam onde se encontrassem” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 209). Esses estudantes tidos como vadios viviam perambulando pelas repúblicas dos colegas e eram muito festejados nesses espaços. O motivo do entusiasmo da presença desses estudantes nas repúblicas era porque eles movimentavam e davam nova vida a esses espaços, incentivando as diversões. No período tomado como análise neste estudo, cito entre os estudantes boêmios notáveis que passaram pela Academia, os poetas Castro Alves e Fagundes Varella. O primeiro chegou a São Paulo em 1865 (VAMPRÉ, 1977, v. II, p. 166). O segundo foi poeta da geração de 1863-1867 e “seguiu regularmente o curso até ao terceiro anno” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 126). Além dos estudantes vadios e boêmios, outros tipos interessantes conviviam e eram muito bem quistos nas repúblicas, como o “Zé Poeta”, que decorava “versos e discursos bestialógicos que os estudantes lhe ensinavam. (...) Fez-se dramaturgo e representava nas republicas, fazendo elle só todos os personagens, scenas inteiras de suas burlescas composições dramaticas” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 128). Esse gênero bestialógico era “um discurso em prosa ou composição em verso, de estylo empolado e com propositaes absurdos, engraçados pela extravagancia” ou “quaesquer orações academicas, por pouco que se resentissem do tom emphatico” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 209). Almeida Nogueira, ao tratar do estudante João Corrêa de Moraes da turma de 1863-1867 escreveu que na república deste, “uma das mais endiabradas da Paulicéa, succediam-se os bestialogicos a propósito de qualquer incidente”, principalmente nas ceias frutos das caçadas empreendidas por grupos de estudantes (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 209). A partir do exposto, apropriando-me dos conceitos de Larrosa (2003), as repúblicas eram espaços intersticiais, constituindo-se espaços muito fecundos de ensino informal, permeados por histórias com relação à vivência e aprendizagem dos estudantes, oferecendo estímulos constantes e diversificados àqueles sujeitos que frequentavam a Academia. Interessante perceber, que, por vezes, havia opções de diversão na cidade. Nesse sentido, quando havia mais de uma diversão programada para o mesmo dia, os jornais davam a ler notas curtas resumindo a programação do que iria ocorrer, como se constata a seguir (Tribuna Liberal, , n. 331, 08/Dezembro/1878, p. 2): 64 Divertimentos hoje. – Haverá: No Circo Casali função em despedida, com um variado espectaculo. No Theatro S. José, espectaculo com o drama – O Guia da Montanha. No Rink patinação ás horas do costume. No Jardim, á tarde concerto musical pela banda de Permanentes. Na Ilha dos Amores, a banda musical dos menores artifices fará as delicias dos que lá forem tomar fresco. Além das repúblicas, os teatros e circos eram outros espaços de diversão frequentados pelos sujeitos da Academia. Os espetáculos – teatrais, musicais, circenses e de mágica - que aconteciam na cidade de São Paulo e em seu entorno encantavam os estudantes desde a fundação da Academia. Algumas companhias de circo e de teatro se apresentavam nos barracões de lonas e nos teatros, entre eles: o Teatrinho do Pátio do Colégio, o Teatro Acadêmico, o Teatro de São José (PORTES; COSTA, 2008, p. 15). Os circos ginásticos, equestres e de touros eram opção de diversão para os estudantes. Estes “installavam-se, como ainda hoje, em vastos barracões de lona, e armavam-se quase sempre no largo de S. Bento, uma outra vez no Bexiga, hoje Praça do Riachuelo” e, ainda no Largo dos Curros (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 175). Ainda, de acordo com Almeida Nogueira, a “entrada para as archibancadas era de 1$000 réis por pessoa e 2$000 para as cadeiras. Os estudantes affluiam a esses espectaculos e nelles tomavam parte como ruidosos espectadores” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 175). Como exemplo desse encantamento dos estudantes por esses espetáculos, cito uma companhia de cavalinhos que chegou a São Paulo na quadra acadêmica de 1863-1867, em “cujo elenco se contava uma linda artista de nome Alegria”. Almeida Nogueira afirmou que muitos se apaixonaram por ela, entre eles o poeta Fagundes Varella (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 260). Diversos anúncios desses espetáculos foram encontrados nos jornais pesquisados, como no jornal a Tribuna Liberal, do dia 04 de julho de 1878 (n. 199, p. 3): CIRCO CASALI LARGO DE S. BENTO Grande Companhia Equestre, Gymnastica e Acrobatica Director LUIZ CASALI HOJE QUINTA-FEIRA Extraordinario espectaculo EM BENEFICIO DA VIUVA 65 D. LUIZA CASALI ___ Ao publico A beneficiada conta com a protecção deste indulgente philantropico e hospitaleiro publico para este beneficio antecipando-se em agradecer desde já ás pessoas que concorrerem a este beneficio. No recorte cronológico estabelecido para esta pesquisa, foi possível mapear o funcionamento do “Theatrinho Batuira” na quadra acadêmica de 1863-1867. Seu proprietário era o português Antônio Gonçalves Batuíra, que montou o teatrinho na Rua Cruz Preta, hoje Quintino Bocayuva (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 130). Além deste, funcionou o “antigo e classico” Teatro São José, inaugurado em 1864, o pequeno Teatro Minerva construído em 1873 (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 267). Também existiu em São Paulo o Teatro Provisório, conforme informação obtida através de anúncios de espetáculos no jornal Tribuna Liberal (n. 200, 5/Julho/1878, p. 4), como se vê a seguir: THEATRO PROVISORIO Novidade ! Dois unicos espectaculos Em despedida Pela companhia dramatica do theatro S. Pedro de Alcantara da Côrte. DIRIGIDA PELO ARTISTA GUILHERME DA SILVEIRA SABBADO 6 DE JULHO Unica representação do extraordinariamente applaudido drama de espectaculo em 5 actos e 6 quadros, que tanto agradou quando foi n'outra épocka exhibido n'outro theatro : A AVO' O importante papel da protogonista é desempenhado pela actriz ESMENIA Os outros papeis pelos artistas Dias Braga, Leopoldo, Joaquim Augusto, Adolpho, Leolinda, Gilda, Luiza e Ignez. ___ DOMINGO, 7 DE JULHO UNICA REPRESENAÇÃO do celebre drama de grande espectaculo em 4 actos e 1 prologo, musica do distincto maestro Cyriaco de Cardoso: A FILHA DO MAR Tomam parte os artistas: DD. ISMENIA, Leolinda, Ignez, Gilda, Luiza, Guilherme da Silveira, Dias Braga, Eugenio de Magalhães, Leopoldo, Domingos Braga, Ferreira, Teixeira, Joaquim Augusto, Antonio, Adolpho, Figueiredo, etc., etc. ___ O empresario escolheu muito de proposito estes dosi escellentes dramas para a despedida da companhia por serem os melhores do repertorio e os que mais desejados são pelo publico. As pessoas que encommendaram bilhetes para estes espectaculos, podem procurar até sexta-feira no theatro Provisoripo. O pequeno resto de bilhetes, está desde já a disposição do publico. 66 Vale ressaltar a relevância do Teatro São José nas quadras acadêmicas. Sua inauguração se deu em 1864, mesmo antes do fim de sua construção, devido ao enorme desejo de se deixar o “velho e historico theatrinho da Opera, do pateo do Collegio, que mesmo como estava foi acceito o vasto e desgracioso casarão do largo S. Gonçalo, para nelle desde logo se exhibirem as representações dramáticas” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 175). Entretanto, por meio dos Relatórios dos Presidentes da Província de São Paulo, constata-se certo descaso das autoridades com relação ao término da obra, o que se verifica com as palavras do Presidente da Província de São Paulo, Dr. Antonio da Costa Pinto Silva (1871, p. 56): “Francamente confesso-vos que faltou-me tempo para cuidar dessa materia”. Vale dizer que o término da obra se deu 1877, depois de acordo firmado com o Dr. Antonio da Silva Prado, como relatou o Presidente da Província Dr. Sebastião José Pereira em fevereiro de 1877 (p. 31): Theatro de S. José De conformidade com contrato celebrado, conclui o dr. Antonio da Silva Prado o theatro de S. José. E’ um edificio digno da capital. A despeza realizada excedeu a orçada ; procede-se ao exame das contas para fixar-se o numero de anos que o contratante usufruirá o theatro. Segundo Almeida Nogueira (1909, v. 6, p. 176), a década de 1860 foi muito fecunda em relação às companhias dramáticas que passaram pela cidade e alguns de seus artistas ganhavam notoriedade entre os estudantes, como Eugenia Câmara, que de acordo com Vampré era a grande paixão de Castro Alves (1977, v. II, p. 53) e João Eloy Quesedo. Este, segundo Almeida Nogueira (1909, v. 6, p. 176), de gênero cômico, era muito popular entre os estudantes. Tal fama ganhava a cidade, sendo corroborada pelos anúncios de suas representações teatrais, sempre muito elogiadas pelos redatores dos jornais, como se constatou em nota no Correio Paulistano do dia 10 de janeiro de 1872 (n. 4.624, p. 2): O beneficio do Eloy ____ Há um actor querido do publico por seu talento e estimado de quantos o conhecerem de perto. E’ o actor João Eloy Quezedo. 67 Em verdade, não se sabe o que mais estimar no distincto artista, se o talento, se as belissimas qualidades que o ornam. João Eloy Quezedo faz hoje o seu beneficio. Será mais uma noite de o publico aplaudir um verdadeiro artista. Quando esta razão bastasse, ha aquella de ser o drama - Os Pobres de Pariz, que será representado. Vale dizer que muitos eram os anúncios nos jornais para divulgar as companhias líricas, teatrais e circenses na cidade e foi interessante perceber que, na maioria das vezes, esses espetáculos, bem como seus atores, eram comentados positiva ou negativamente pelos redatores dos jornais, como se viu no caso do ator João Eloy. Era tão grande o fascínio dos estudantes por essas práticas que, quando eles gostavam dos espetáculos, logo tratavam de imitar os trejeitos e a maneira de vestir dos atores e “não poupavam applausos enthusiasticos aos melhores artistas, aos quaes por vezes offereciam mimos de valor” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 175). No que se refere à imitação dos artistas por parte dos estudantes, há caso de uma companhia lírica que em 1875 fez com que fosse “substituido o chapéo molle pela cartola, e sobre a cervejaria do Jacob predominou o Café Europeu” (NOGUEIRA, 1912, v. 9, p. 210). Muitos estudantes, ainda, se envolviam na produção e representação desses espetáculos, o que o estudante João José Frederico Ludovice, da turma acadêmica de 1870-1874, fazia com entusiasmo, visto sua “verdadeira paixão pela arte dramatica; aprazia-lhe muito a companhia de actores e a frequencia dos bastidores (...) [chegando] a tomar parte em representações particulares” (NOGUEIRA, 1907, v. 2, p. 338). Nesse tocante, de acordo com Azevedo (2000, p. 40), “os acadêmicos conquistaram também os teatros da cidade, fazendo igualmente o papel de autor, platéia, ator e crítica. Dos anos 1820 até cerca de 1870, foram a Faculdade de Direito e seu corpo de estudantes que deram forma e vida à cidade”. A autora ainda afirma que a partir do final da década de 1860, mais e mais companhias de fora começaram a se apresentar em São Paulo e dentre elas as líricas caíram no gosto popular, destacando-se, particularmente. Era o início de um novo período para o teatro paulista. (...) São Paulo queria e podia (...) receber as mesmas estrelas que brilhavam na corte e também na Europa [e] os sinais de todas essas mudanças são as tournées de Eleonora Duse e Sarah Bernhart que estiveram em São Paulo nas décadas de 1880 e 1890 (AZEVEDO, 2000, p. 40). Tudo isso indica que a década de 1860 “foi fértil para o teatro acadêmico em São Paulo”, naqueles anos especialmente efervescentes (MARTINS; BARBUY, 1998, p.52). 68 Importante destacar também a presença corriqueira, nas palavras de Almeida Nogueira, do policiamento no teatro, isso porque os estudantes faziam “algazzara infernal” caso a “orchestra se recusasse a attender aos pedidos de repetição do hymno academico ou da polka Bourroul” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 179). Um acontecimento que também revelou essa necessidade da presença policial foi um conflito ocorrido em 1868 entre portugueses e estudantes. “Os estudantes haviam pateado o actor portuguez Mattos”31 e, em represália, a colônia portuguesa, bastante expressiva em São Paulo, vaiou a atriz brasileira Adelaide Amaral. Por conta disso, no teatro São José “houve muita pancada, cacetadas a valer, tiros de revólver, de modo que, entre mortos e feridos... sempre se apuraram algumas contusões e ligeiras excoriações em duas ou três pessoas” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 242). Além da confusão no teatro, houve conflitos pelas ruas, o que teve fim apenas com a chegada da força policial, que acompanhou os estudantes até suas repúblicas (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 242). Fez referência sobre esse fato o relatório policial, publicado juntamente com o Relatório do Presidente da Província de 1868, o Conselheiro Joaquim Saldanha Marinho, no qual o chefe de polícia Daniel Accioli de Azevedo relatou que, depois do espetáculo, um grupo de mais de cem academicos que, com a multidão desciam as ruas do Imperador e do Rosario, foi aggredido, nas proximidades da travessa da rua Boa Vista, por homens mal trajados, na maior parte por portuguezes de baixa condição, travando-se uma lutta da qual resultou ficarem levemente feridos alguns indivíduos de parte a parte, e gravemente o estudante Maximiano de Freitas Valente. Durante o conflito foi disparado um tiro de revolver, por pessoa que não se descobrio, o qual a ninguém offendeu. Auxiliado pela força publica estabeleci a ordem, que não foi mais alterada e fiz prender os delinquentes, que foram submetidos a processo (RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA, 1868, p. 7). Os estudantes também eram presença marcante nas casas comerciais que, de algum modo, também eram espaços de diversão na cidade de São Paulo. Como exemplo, tem-se o caso do estudante Antonio Muniz de Souza da turma de 1874-1878, que era freqüentador do Jacob, do Fisher, do Levy, do Café Europeu e da Ilha dos Amores; não deixava comntudo, de fazer boa figura nas aulas, tal a ductilidade e agudez do seu talento. Para acompanhar a moda, affectava maior vadiação que a real. Cedia assim á mania da época: ser intelligente e 31 Os relatos de Almeida Nogueira (1908, v. 4), acerca desse acontecimento mostraram que “patear” significa “vaiar”, “reprovar”, “bater os pés”. 69 fazer figura – sem estudar (NOGUEIRA, 1912, v. 9, p. 229, itálicos do autor). Na década de 1860, ao dissertar sobre a turma acadêmica de 1860-1864, Almeida Nogueira relatou que havia na cidade “quatro confeitarias, das quaes duas na rua do Commercio, as do Jacob Loskiel e do Pereira Junior, uma na rua Direita, de Gaspar Leonard, onde foi posteriormente, a Stadt Coblentz, de Jacob Friedericks; e a de Rodovalho e Irmão, na rua do Imperador” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 169-170). O memorialista destacou em seus escritos que “a melhor e mais do tom era de Pereira Junior, Confeitaria do Leão, que veio a pertencer, alguns annos depois, a Liborio Lino, e ficava bem na esquina da rua da Quitanda” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 170). Além das confeitarias, havia muitas doceiras pela cidade, entre elas as Lessas, “moradoras na rua Boa Vista, que, por encommenda, forneciam os mais exquisitos doces, geleias, bolos, pudins e confeitos para as festas familiares e as opas ou festins de formatura” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 170). A de maior prestígio e popularidade na Academia era “Nha Umbellina, estabelecida no Largo S. Francisco, em casebre que ainda existe, em frente á Academia” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 170). Maria Punga, como era alcunhada pelos estudantes, de acordo com Almeida Nogueira (1909, v. 6, p. 170; 1910; v. 8, p. 131), servia aos estudantes na varanda de sua casa as bebidas e as comidas de acordo com a estação do ano, entre elas: café, chocolate, mingau, refrescos, bolos, mães bentas, cocadas, geléias, doces de abóbora e de batatas, pastéis, amendoim torrado. Os registros de Almeida Nogueira apontaram que jogos de salão também faziam parte dos espaços comerciais. Com relação ao jogo de bilhar, Almeida Nogueira escreveu que estava muito em voga naquelle tempo (...) e constituia um dos principais divertimentos da mocidade academica. Ás quartas e sabbados fiacavam a regorgitar os salões do Hotel de Italia e do Hotel Brasil, na rua Direita, do Lefebre no largo do Colllegio, do Fretin e do Planet na rua do Rosario (depois Imperatriz, hoje, Quinze de Novembro) (NOGUEIRA, 1907, v. 2, p. 241). Foi possível constatar que o jogo de bilhar também se realizava no Recreio Paulistano, á rua da Imperatriz, no Hotel Universal, no Hotel Paulistano, no “Café da Providencia, de madame Felicia Lagarde, á rua do Commercio e num outro salão de bilhar, na mesma rua, pertencente a Galdino & Geryn” (NOGUEIRA, 1908, v. 3, p. 254). 70 Além do jogo de bilhar, verifiquei que a dama, a paciência, o voltarete, o boston, o solo, a queda francesa, as prendas e as charadas também foram recorrentes nos relatos do memorialista. Assim, notei que esses jogos de salão, de certa maneira, aproximavam os estudantes e a população da cidade de São Paulo, como se vê na citação abaixo, em que o estudante Antonio Dias Novaes, da turma acadêmica de 1855-1859 foi nomeado por uma roda de velhos apreciadores do voltarete, para lhe reformar as regras, simplificando o compilado systema das pagas e remissas. Fizeram parte, com elle, dessa commissão, os drs. Martin Francisco e Bento de Paula Souza. O resultado dessa reforma foi publicado num livrinho que é, presentemente, o codigo do voltarete, como se joga no Brazil (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 170). Na São Paulo de 1870 “os mascates, as vendas, as tamancarias, as forjas de ferreiros, os talhos de carne verde, acotovelavam-se, ainda, nas ruas de S. Bento, Direita, e Imperatriz” (VAMPRÉ, 1977, v. II, p. 204). O estabelecimento que mostrava certo pioneirismo na época era “a Sereia Paulista, do alemão Fischer, casa de banhos, famosa também pelos bifes a cavalo, regados a generoso vinho húngaro, que bocas maledicentes diziam, entretanto, nunca haver atravessado o Atlântico” (VAMPRÉ, 1977, v. II, p. 204). Além desses, os estudantes que podiam arcar com as despesas tinham outras opções, como “a Casa Levy; a Casa Lebre, a Casa Garroux, e a Relojoaria do Henrique Fox à Rua da Imperatriz, sendo este o mais hábil consertador de relógios da cidade; e a Cervejaria do Corvo, de Henrique SCHOMBURG, à Rua do Ouvidor” (VAMPRÉ, 1977, v. II, p. 204). Sobre o proprietário da Sereia Paulista, localizada no largo São Francisco, o húngaro Fischer, Almeida Nogueira (1912, v. 9, p. 224-225) relatou que o mesmo era um tipo apreciado pelos estudantes e que “não tolerava na sua casa que alguem falasse mais alto que elle”, o que atraia os estudantes trocistas, que elevavam de maneira proposital a voz no estabelecimento para que o mesmo se irritasse. Já com relação a Jacob Friederiks, dono de um bar e confeitaria na Rua Direita, viu-se que este tinha trato afável com os estudantes a ponto de emprestar dinheiro aos mesmos e apresentava em seu estabelecimento “o melhor presunto afiambrado, boa cerveja em chops, e excellentes sandwichs” (NOGUEIRA, 1912, v. 9, p. 225, itálicos no original). A partir das fontes pesquisadas foi possível mapear outros estabelecimentos comerciais frequentados pelos estudantes, como o Hotel Paulistano, o Hotel Itália (que depois veio a se tornar Hotel da França), Grande Hotel, Hotel do Globo, Restaurante 71 Universal, como segue abaixo no jornal Polichinelo do dia 23 de abril de 1876 (n. 2, p. 7): Lê-se no Jornal para Todos: << ATTENÇÃO A mui distincta corporação academica não estará esquecida do bom café e chocolate que sempre forneceo o Marinho no Restaurant Universal e Hotel do Globo. No Deposito de Cerveja da Gloria á rua da Boa-Vista n. 70, estou ás ordens com aceio, prontidão e modicidade.......>> __ Pois que lhe faça bom proveito ; e que seja para muitos annos. Os estudantes também se envolviam na realização ou mesmo na participação de festas. Organizavam-se nas confeitarias as opas para festejar a formatura e, ainda, as associações literárias e as sociedades acadêmicas promoviam festas e bailes para comemorar datas consideradas à época importantes, como por exemplo, o dia sete de setembro, a data da fundação da Academia e do Colégio Pedro II. Além disso, quando autoridades chegavam à cidade, os estudantes promoviam jantares e ceias nos hotéis, principalmente às quartas-feiras e sábados, dias em que tinham autorização da Academia para saírem de casa. Alguns bailes aconteciam na cidade de São Paulo, dentre eles, os anunciados pelo jornal Correio Paulistano nos dias 6 de outubro de 1872 (n. 4.841, p. 4) e 24 de dezembro de 1872 (n. 4.908, p.3), respectivamente: Cassino Paulistano Em nome da directoria do Cassino Paulistano, participa o abaixo assignado que a terceira partida terá logar sabbado, 12 do corrente mez, nos salões da mesma sociedade, casa em que funccionava a secretaria de policia. Só terá ingresso, o socio que apresentar cartão. São Paulo, 4 de Outubro de 1872: O 1º secretario, J.S. Gonçalves. CONCORDIA PAULISTANA Terá lugar sabbado 28 do corrente a 3.ª partida da mesma sociedade na casa da rua Direita n.7.. Vale dizer, conforme afirmou Almeida Nogueira, que os bailes organizados pela Sociedade Concordia, pelo Cassino Paulista ou mesmo por particulares eram quasi totalmente fechados para os estudantes. Mas... como lá diz o adagio: não ha regra sem excepção. E, neste particular, excepções sempre houve (...) a população da orbe terrestre dividia-se em duas classes – a primeira era a dos academicos, e o resto a dos futricas. Estes, diziamos nós, acolhiam de 72 máu humor a competencia dos academicos, sempre vencedora nos bailes. As damas preferiam habitualmente o poetico e delicado galanteio dos estudantes á linguagem menos figurada dos outros pares (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 173). Para além dos espaços mencionados anteriormente, os estudantes frequentavam locais de diversão ao ar livre. Nesse sentido, não apenas os lugares, mas ainda as condições climáticas poderiam favorecer ou prejudicar o acontecimento de algumas práticas de diversão na cidade e região. A chuva, característica marcante do clima de São Paulo, fazia com que festividades, reuniões e espetáculos fossem cancelados ou mesmo adiados, o que se percebe através de notas dos jornais, como a que se segue sobre a possibilidade de realização de uma tourada (Tribuna Liberal, n. 284, 13/outubro/1878, p. 2): “Touradas – Se o tempo permitir haverá hoje à tarde corridas de touros” (negrito no original). Os estudantes participavam das quadrilhas, páscoa, procissões, cavalhadas, carnavais, entrudos realizados na cidade e em seus arredores. Entre os festejos religiosos da cidade apontados por Almeida Nogueira havia o da Penha, o de Pirapora e “festas de devoção da Santa Cruz da Tabatinguera, Santa Cruz do Arouche, Santa Cruz do Bexiga, em Sant’Anna, no Cambucy, no Tatuapé, etc., etc.” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 180). Vampré relatou que até 1870 “realizava-se a procissão do enterro com solene aparato, iluminando os moradores as frentes das casas (...) [e] a festa do Divino, com o Imperador do Divino, o cavalo de S. Jorge, e outros costumes da época” (VAMPRÉ, 1977, v. II, p. 206). Os jornais também noticiavam essas festividades, como se vê em convocação na Tribuna Liberal do dia 12 de julho de 1878 (n. 206, p. 4) Festividade A officialidade e praças do Corpo Policial Permanente tendo de festejar no dia 21 do corrente a sua oraga Nossa Senhora do Carmo, com missa cantada, exposição do SS. Sacramento e procissão á tarde, convidam a todos os fieis a assistirem a esses actos e aos moradores das ruas por onde tem de passar a procissão, que tambem percorrerá as das Flôres e Boa-Morte, a ornarem as frentes de suas casas. A procissão sahirá ás 4 horas e na vespera (20) á noite, no largo do Carmo a banda de musica do Instituto de D. Anna Rosa tocará, obsequiosamente algumas peças de seu repertorio. S. Paulo, 6 de julho 1878. Tenente Francisco Augusto de Azevedo. Tenente André Barbosa Corrêa. Alferes Benedicto Gonçalves de Figueiredo. 73 A presença dos estudantes, entretanto, poderia expressar ameaça aos festejos religiosos e populares, tanto que numa festa religiosa na Sé os estudantes foram impedidos de entrar na igreja, o que os incentivou ainda mais a fazer presença. Quando o estudante Anastacio Teixeira de Souza Bittencourt, da turma de 1864-1868, tentou entrar, foi “impellido materialmente pelos que lhe ficavam á retaguarda. (...) Travou-se o conflicto. Os estudantes, afinal, penetraram na egreja, onde se armaram com os castiçaes dos altares, para a continuação do combate” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 157). Esse acontecimento deixa à mostra os conflitos existentes entre os estudantes e a população e autoridades da cidade e permitem perceber que as redes de interdependências estabelecidas a partir da configuração “Academia Jurídica – cidade de São Paulo” eram permeadas por tensões e por uma dinâmica interessante, visto que em certos momentos os estudantes eram bem aceitos e em outros não. O carnaval e o entrudo também eram festejados no período pesquisado. De acordo com Almeida Nogueira (1909, v. 7, p. 290), o “Carnaval não havia substituido o Entrudo, o qual, a despeito de todos os editaes de policia, permanecia arraigado nos hábitos da população paulistana”. Foi percebido que o entrudo, nesse período, possuía um caráter mais ligado à violência, tanto que o estudante Eduardo de Almeida Magalhães Sobrinho, da turma de 1871-1875, “victima de um accidente occasionado pelas phreneticas selvagerias do Entrudo (...) viu cahirem-lhe todos os dentes da frente” (NOGUEIRA, 1909, v. 7, p. 290). Com relação ao carnaval, havia muitas notícias publicadas pelos jornais do período, desde os preparativos até os bailes mascarados, os quais poderiam ser realizados pelas ruas da cidade, nos teatros e nos salões das sociedades carnavalescas. O Correio Paulistano noticiava com frequência esses bailes, como se vê em anúncio no dia 4 de fevereiro de 1872 (n. 4.644, p. 4): 74 Figura 1: THEATRO DE S. JOSE’ Grandes e pomposos BAILES MASCARADOS nos dias - 11 – 12 - e – 13 – Rapaziada! Chega á fórma! Sentido á voz! Nos dias acima mencionados abrir-se-hão as portas do carunchoso S. José, que nesse dia, de barba feita, collarinho em pé, cabello penteado, e vestido com mais aprimorado gosto, receberá em seu vasto e sumptuoso recintho, os filhos predilectos do DEOS MOMO Que, saltando, Gritando, Cantando, Dansando, Arfando, Namorado, Intrigando, Ceiando, e finalmente NADANDO na confusão dos Chicards Titis Debardeurs, Pierrois, Dominós e tudo o mais que termina em O’S, poderão mostrar para quanto prestam os que andam com as molas desenferrujadas. AVIZO AOS GASTRONOMOS Havera’ com abundancia Sôpa de Polkas, Rosbeef de Mazurcas, Guizados de Contradanças, Rabioli de Walsas, Cuscús de Galope Infernal, sem contar o que há de mais saboroso em SOBREMESAS!!! Onde todos os diabos armados com um palito terão de mecher a sallada carnavalesca entre os mascaras do ambos os sexos. Além de trazer a programação dos dias de carnaval, a imprensa periódica relatava o que acontecia em cada um dos dias dessas festividades, o que é apontado no Correio Paulistano do dia 7 de março de 1872 (n. 4.670, p. 3). A citação a seguir é longa, mas traz detalhes tão interessantes sobre o festejo que merece atenção: NOTICIARIO GERAL Carnaval - As festas carnavalescas andaram no 2º dia brilhantemente. Tanto nas ruas á tarde como á tarde como á noute no theatro foi muito maior que no 1º dia o concurso de mascaras, e maiores portanto o enthusiasmo e alegria geral. No theatro não havia um camarote vasio, e no salão houve seguramente cerca de mil e quinhentas pessoas entre mascarados e não mascarados. Aos Fenianos, á Euterpe, aos Thesouras e mais bandos mascarados accresceu um grupo que á maior simplicidade reunia chistosa satyra a uma das mais arraigadas doenças do nosso tempo. Referimo-nos ao bando de beatas de mantilha, precedidas do competente fradalhão capucho. Corôava a satyra o seguinte lettreiro que lia-se na bandeira da turma: _ O seculo das luzes. 75 Ha muitos annos não concorre a nossa população em sua generalidade, como agora, para semelhantes folguedos, que sem duvida são preferiveis aos encommodos e asperezas do maldito e perigoso entrudo. O entrudo é além do mais brinquedo obrigatorio, pois os que não brincam são muita vez forçados a pagar o tributo em molhadelas e constipações ; e a não ser a do ensino primario, bem se sabe que não ha obrigatoriedade que seja aceita de boa mente. Parece que desta feita aclimata-se entre nós o masquê, e consignando o facto não devemos esquecer os merecidos louvores ao Club dos Fenianos, que desde sua organisação teve por fito principal estes folguedos, cabendolhe portanto a iniciativa. O successo ha de por certo dar ao Club novo vigor e tambem concorre para a installação de novas soceiedades. Corrreram as festas em paz neste ultimo dia. Sómente ao findar o baile uma disputa entre dous individuos produzio certo sussurro. Foram elles separados pelos amigos, mas chegaram nesse interim alguns soldados, com a costumeira e arrogante imprudencia desembainharam as bayonetas, tornando a indignação deste facto maior o tumulto. Os soldados nada conseguiram senão isso, e o que é certo é que a turba indignada cercou-os e tomou de muitos d'elles as bayonetas acabando assim a tragedia em força burlesca. Vale dizer que as festas mudavam o cotidiano da cidade e da região, tanto que as empresas de transporte disponibilizavam mais trens e bondes para os locais de festa, como se verifica no anúncio abaixo, retirado do jornal Tribuna Liberal (n. 230, 09/Agosto/1878, p. 4) ESTRADA DE FERRO SOROCABANA Trens especiais durante as festas de Pirapora DE S. PAULO A BARUERY nos dias 12 á 17 do corrente as 8 30 horas da manhã. DE BARUERY A S. PAULO Nos dias 19 á 22 do corrente as 2 horas da tarde. Sorocaba, 1 de agosto de 1878. G. OETTEX ER Inspector geral. As serenatas também estavam muito em voga no período tomado como referência: “quando era tudo silencio na terra, sahia a serenata, tocando musicas e arias lindissimas do repertorio brazileiro, sempre repassados de sentimental melancolia” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 172). Os estudantes faziam esses concertos nas noites de luar “que attrahiam áquella praça varias familias, as quaes se conservavam assentadas nas escadarias da Sé ou em passeio pelo largo até alta noite, presas pelo encanto da musica dos (...) rapazes” (NOGUEIRA, 1908, v. 3, p. 247). Com essa prática das serenatas, pude perceber a integração que os estudantes estabeleciam com a São Paulo 76 daqueles tempos, na medida em que se apropriavam dos espaços públicos da cidade para empreenderem suas diversões. Para além dessas possibilidades de integração, os estudantes também se envolviam em muitos rolos e algazarras pelas ruas da cidade. O grupo boêmio formado nos anos de 1863-1867 pelos estudantes Sizenando Nabuco, Luiz Veiga, Acacio Corrêa Ribeiro, Ferreira de Menezes, Francisco José da Silva Ribeiro e o fotógrafo Gaspar passeavam de carro, cortando o “silencio da noite com a grita ecoante e alentada dos seus pulmões... Seguiam caminho da Ponte Grande, a contemplar (...) aquellas noites friorentas do S. Paulo antigo” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 185). No Correio Paulistano datado de 22 de fevereiro de 1872 (n. 4.658, p.2) verifica-se uma reclamação feita por alguns moradores contra as arruaças feitas por um grupo de estudantes: REPARTIÇÃO DA POLICIA ________________________ CAPITAL Procedeu-se a auto de corpo de delicto nas ofensas que em Joaquim Pinto Ferraz foram feitas pelo estudante Jacintho de tal residente no Arouche. Informou Ferraz que o dito estudante e o de nome Penteado, e dous companheiros perturbam o socego da vizinhança. Officiou-se ao subdelegado. Outro caso irreverente que os estudantes protagonizavam eram as idas em noite de luar na biquinha do Miguel Carlos para buscar água: “munia-se toda a república [do estudante João Corrêa de Moraes] de jarros, bacias, baldes e mais vasilhames, e, mais ou menos em trajes de Adão, a saber, uns em fraldas de camisas, outros em ceroulas(...)” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 215). Utilizando os espaços da cidade, os estudantes ainda realizavam seus passeios nas margens dos rios, nas pontes, no Jardim Público e nos arredores da cidade, indo a cavalo, de carroça ou mesmo a pé às vilas próximas, chácaras e sítios. Esses passeios aconteciam em diferentes horas do dia e eram feitos individualmente ou em grupos e não apenas por estudantes, o que revela que essas práticas auxiliavam no estabelecimento de relações sociais entre os próprios estudantes, entre eles e os professores da Academia, ou ainda com parte da população de São Paulo que também praticava este tipo de atividade e se encontrava nesses locais. Nos passeios, os estudantes flertavam com as moças pelas janelas e nas praças públicas e, posteriormente, as visitavam em suas casas, declamando versos para tentar se relacionar 77 amorosamente com as mesmas. Para os passeios feitos a cavalo, de acordo com Almeida Nogueira (1909, v. 6, p. 172), era comum que os animais fossem alugados por valores que variavam entre 3$000 e 4$000 réis. Ainda, segundo o mesmo, os passeios “extendiam-se até á Penha, a Pinheiros, a Sant’Anna. Dirigiam-se ao Ypiranga no dia 7 de setembro, ou ao Barro Branco e á Bella Cintra, no tempo das jaboticabas”, onde os estudantes pagavam 1$000 réis de entrada, “com direito a abarrotar-se de fruitas e a levar em cestas, ou por outro modo, a quantidade que quizesse e pudesse carregar” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 171). Entre os sports desenvolvidos pelos estudantes, alguns eram realizados nas ruas e arredores da cidade. No que se refere à natação, a quadra de 1864-1869 registrada por Almeida Nogueira revelou que os estudantes nadavam “pouco abaixo do porto dos Inglezes ou na Fortunata Lopes, onde se inclinava sobre o ribeirão, acariciando-lhe com as folhas a limpida superfície e mirando-se no espelho das aguas, grande e frondosa figueira, depositaria discreta de poeticas recordações...” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 225). Além disso, foi possível encontrar o registro da realização de passeios fluviais pelos rios da cidade, como se vê a partir do anúncio que se segue (Correio Paulistano, n. 4859, 27/10/1878, p. 1): “Passeio fluvial - Conforme está annunciado, o vaporsinho Progresso largará hoje as 9 1/2 da manhã, da Ponte-Grande, em viagem de recreio até a Penha, voltando á tarde. E’ uma novidade, e mais uma aprasivel diversão para os habitantes da capital” (negrito no original). No que se refere às corridas de cavalos, mesmo antes da construção do Hipódromo em 1876 as mesmas também eram apreciadas e realizadas nas ruas, mesmo sem os “clubs de corridas, nem hipodromos, nem mesmo raias em fórma circular. Nem, por isso, entretanto, deixavam a população paulistana e a mocidade academica de apreciar o explendido espectaculo das corridas e de interessar-se no resultado dellas por avultadas apostas” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 179). No ano de 1876 foi inaugurado o hipódromo de São Paulo e, em 1878, o de Campinas. Nos dias de corridas havia maior circulação de trens nessas regiões para levar os espectadores e apostadores aos hipódromos, como se verifica no anúncio do jornal Tribuna Liberal (n. 248, 31/08/1878, p. 3): 78 ESTRADA DE FERRO DE S. PAULO HIPPODROMO PAULISTANO CORRIDAS NO DIA 1º DE SETEMBRO Faço publico que nas proximas corridas haverá trens das estações da Luz e Braz para o hippodromo, nas seguintes horas : Da Luz e Braz PARTIDAS Do Hippodromo PARTIDAS 11 – 0 11 – 30 12 – 0 12 – 30 1–0 1-30 3 – 45 4 – 15 4 – 45 5 – 15 5-3 11 - 15 11 - 45 12 - 15 12 - 45 1 - 15 2 - 15 4-0 4 - 30 5-0 PREÇO Bilhetes de ida e volta. . . . 1$000 Os bilhetes acham-se, desde já, á venda nas estações da Luz e Braz. Superintendencia, 30 de Agosto de 1878. D. M. FOX, superintendente. As matas e arredores da cidade de São Paulo e, também, nos quintais e praças públicas foram palco dos estudantes caçadores que não apenas caçavam, mas também furtavam nas ruas e nos quintais galinhas, porcos, cabritos, perus e outros animais para serem ceados nas repúblicas estudantis. Sobre essa questão vê-se no jornal Correio Paulistano (n. 4.688, 3/Abril/1872, p. 3) nota em que o dono dos animais furtados solicitava o pagamento do furto: Cavalleiros da noute: roga-se aos 3 senhores que na noite de 31 de março pelas 11 horas ao clarão do novo gaz, furtaram 6 gallinhas de um quintal que tem portão na rua da Tabatinguera, vão quanto antes pagal-as sob pena de serem publicados seus nomes; e proceder-se criminalmente, visto que a forma bem conhecidos todos, e principalmente o que 5 minutos depois voltou ao lugar do delicto á serrar o portão que deixaram aberto com a pressa. Entre os caçadores havia o José Manuel Freire Júnior, da quadra acadêmica de 18641868, que caçava na própria janella da sua republica. Acontecia isto (...) sob o peso das rogativas dos companheiros de casa, famintos de uma ceia appetitosa, infallivel, e, o que lhe augmentava o saber – á custa alheia (...) a pesca, em sêcco, a anzol, cuja a isca era um grão de milho (...) e o peixe eram gallinhas, mas daquellas que sempre se nos afiguram as mais gordas (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 224-225). 79 O Jardim Público de São Paulo era outro espaço utilizado pelos sujeitos da Academia e da cidade para empreender suas diversões, como se constata em nota no Tribuna Liberal (n. 338, 15/Dezembro/1878, p. 2): “Jardim Publico – Concurrencia enorme de familias que lá estiveram apreciando a bela tarde de domingo” (negrito no original). Segundo Almeida Nogueira (1910, v. 8, p. 99), o Jardim Público foi inaugurado em 1790 por Antonio Manuel Castro e Mendonça com a denominação de Horto Botanico. Constituía-se como a única diversão pública gratuita da cidade São Paulo, pelo menos até 1875, ano em que foi aberta ao público a Ilha dos Amores. O Jardim Público sofria pela falta de estrutura e verbas para sua manutenção e melhorias. O que se nota através dos Relatórios dos Presidentes da Província, entre os anos 18681879, é que ele recebeu maior atenção das autoridades em dois momentos. O primeiro em 1869, com encanamento de água em alguns pontos, restauração do chafariz, reconstrução das paredes do lago do jardim, construção de alguns muros para evitar a passagem de animais, entre outras. Uma das justificativas relatadas pelos responsáveis pelo relatório de 25 de abril 1869 (p. 40) para realização dessas obras dizia que E entretanto o jardim publico era e é o unico recreio, a unica distracção que por ora esta capital póde offerecer á sua população ; distracção inocente, onde todos, sem distincção de riquezas e jerarchias, podem ir esquecer as fadigas do dia e respirar o ar puro e livre das flôres ; é um ponto de reunião, onde as familias encontraráõ outras familias, estabelecendo assim uma permuta de affeições, que estabelece a harmonia, que gera a amizade, que firma as relações, e que, por um troco fecundo de idéas, altamente concorre para enriquecer o espirito, fortificar a fraternidade e dar côr, harmonia e força á população. Somente a partir de 1872 com a administração João Theodoro Xavier foi que o Jardim Público ganhou novos cuidados e atenção por parte das autoridades da província, como se constata no relatório de 14 de fevereiro de 1875 (p. 121): JARDIM PUBLICO As grandes transformações que recebeu, com especialidade durante o anno precedente, tanto em obras de arte, como no desenvolvimento da cultura e plantação de algumas centenas de arvores, tem produzido o resultado satisfatorio de affluencia da população, principalmente nos domingos e dias santos, áquelle lugar de recreio publico, elevando-se ordinariamente de duas a tres mil pessoas. Este resultado, que nas grandes Cidades contribue poderosamente para amenização dos costumes e salubridade publica (...). 80 A contextualização histórica realizada neste capítulo através do diálogo entre a obra de Almeida Nogueira e as outras fontes, não menos importantes nesta pesquisa, me permitiu constatar que a inauguração da Academia Jurídica em São Paulo possibilitou uma nova configuração naquele espaço. Nesse sentido, diversas redes de interdependências se estabeleceram naquele contexto: dependências que eram dinâmicas, complexas, mutáveis e sobrepostas. Os estudantes criavam e recriavam, a todo o momento, o espaço da Academia e os espaços da cidade, participando, assim, do processo de transformação de São Paulo. As fontes pesquisadas possibilitaram, ainda, perceber que a Academia, bem como a cidade, iniciaram um processo de mudança no decorrer da década de 1870 no que se refere às maneiras de pensar, aos modos de convivência e de diversão. A partir daí, foi possível problematizar diversas questões acerca das ações e relações postas naquela configuração, como as formas de morar, por exemplo, nas repúblicas, além de tratar dos outros espaços que possibilitaram a diversão e o envolvimento dos sujeitos daquela configuração. 81 CAPÍTULO III ESTUDANTADAS: AS PRÁTICAS DE DIVERSÃO DOS ESTUDANTES DA ACADEMIA JURÍDICA DE SÃO PAULO 3.1 – As práticas de diversão em seu conjunto Neste capítulo, primeiramente busquei realizar uma análise do conjunto das práticas de diversão contabilizadas na obra de Almeida Nogueira, a partir de um tratamento quantitativo dos dados. Comecei minhas apreciações abarcando toda a produção do memorialista, que abrange os anos de 1827 a 1878 e, posteriormente, enfatizei o recorte cronológico específico de minha pesquisa: 1867-1878. Isso permitiu a problematização dos dados obtidos e me auxiliou a estabelecer comparações, aproximações, diferenciações entre as práticas de diversão no seu conjunto e no contexto tomado como referência. Em um segundo momento do capítulo, realizei uma análise qualitativa das práticas corporais e de diversão denominadas sports, inserindo-as no contexto histórico. Dessa forma, busquei compreender as redes de interdependências estabelecidas e permeadas pelo de processo de urbanização da cidade que se intensificou a partir de 1870, como tratado no Capítulo II desta dissertação. Entendo as práticas de diversão como atividades que promoveram a integração dos sujeitos envolvidos na configuração “Academia Jurídica – cidade de São Paulo” a partir das diversas e complexas redes de interdependências que se estabeleciam naquele espaço. Nesse sentido, essas práticas de diversão também possibilitavam a formação dos sujeitos que passaram pela Academia na medida em que faziam parte de uma educação mais ampla realizada em “espaços intersticiais” (LARROSA, 2003), uma educação dos costumes. Os sports foram tomados, neste trabalho, como práticas que favoreciam a criação e manutenção de redes de interdependências na configuração em análise. A urbanização da cidade de São Paulo deve ser entendida como um processo conflituoso, dinâmico, permeado por mudanças, ausências, permanências, sobreposições. As práticas de diversão dos estudantes eram estabelecidas no interior desse processo de urbanização da cidade e, assim, como as demais relações sociais, faziam parte de redes de interdependências. No período abarcado pela obra de Almeida Nogueira (1827 a 1878), contabilizei o total de 686 registros de práticas de diversão. Tais práticas foram classificadas em dois grandes grupos: as que se encontravam vinculadas à produção de uma cultura 82 escrita específica dos estudantes e as práticas corporais e de diversão empreendidas pelos mesmos sujeitos. O modo como se distribui o conjunto de todas as práticas de diversão levadas a termo pelos estudantes pode ser observado na Tabela I, que cobre 51 anos de registros: TABELA I PRÁTICAS DE DIVERSÃO EMPREENDIDAS PELOS ESTUDANTES DA ACADEMIA JURÍDICA DE SÃO PAULO (1827-1878) CATEGORIAS NÚMEROS PORCENTAGENS ABSOLUTOS Produções Jornalísticas 169 24.7 Sports 142 20.7 Produções Literárias 139 20.2 Festas 95 13.8 Espetáculos 72 10.5 Passeios 43 6.3 Jogos de Salão 26 3.8 686 100% TOTAL FONTE: NOGUEIRA, Almeida. Tradições e reminiscências. Estudantes, estudantões e estudantadas. 1907 – 1910, São Paulo, Typographia A Editora (Volumes I a IX). Organizada por Costa. Conforme a Tabela I, as produções jornalísticas foram as práticas mais mencionadas por Almeida Nogueira ao longo de toda sua obra, sendo contabilizadas 169 vezes, o que representa 24,7% do total. Em segundo lugar, vinham os sports com 142 (20,7%), seguidas pelas produções literárias, as quais foram identificadas 139 vezes (20,2%) e as festas, com 95 indicações (13,8%). Na quinta posição estavam os espetáculos, os quais foram registrados 72 vezes (10,5%). Em penúltimo lugar ficaram os passeios que aparecem em 43 recorrências (o que equivale a 6,3% do total) e, por fim, os jogos de salão, com 26 registros (3,8%). Os historiadores da Academia Jurídica de São Paulo, dentre eles Martins e Barbuy (1998) e Adorno (1988) destacam, em seus trabalhos, que os estudantes de tal instituição se encontravam muito envolvidos com as produções jornalísticas e literárias e com o mundo da política. Realmente, ao serem somadas as menções sobre produções jornalísticas com aquelas sobre produções literárias, chega-se ao número de 308, o que 83 equivale a 44,9%. Tais cifras levam a pensar no contexto da época e nos objetivos dos estudantes ao ingressar na Academia. Não há dúvida de que este era um espaço de saber, de formação para o mundo do trabalho, que enfatizava a produção escrita e almejava a criação de uma elite política. Todavia, esta elite política não se dedicava apenas às letras e à futura carreira. Partindo dos dados coligidos na Tabela I e somando as práticas exclusivamente dedicadas ao corpo e à diversão (ou seja, os sports, as festas, os espetáculos, os passeios e os jogos de salão) foram contabilizadas 378 indicações, o que equivale a 55,1% do total de 686. Estes dados devem ser lidos considerando-se a obra de Almeida Nogueira, que tinha como objetivo relatar, entre outros temas, as estudantadas empreendidas pelos sujeitos que se encontravam na Academia Jurídica de São Paulo. Assim, um dos objetivos do autor, era relatar o cotidiano, aquilo que, aparentemente, não possuía importância diante de questões políticas da época nas quais os estudantes estavam envolvidos. Dessa forma, se não fosse a visada peculiar de Almeida Nogueira, que salvou do esquecimento tais práticas que poderiam ser tidas como irrelevantes, não seria possível recuperar, pelo menos em parte, esta faceta que também constituía a vida estudantil daqueles tempos. O cotidiano, assim como diria Michel de Certeau (1994), merece ser tomado como objeto de estudo na medida em que permite compreender as escolhas e práticas dos sujeitos nos espaços que são móveis e variados. Ao redefinir o recorte cronológico conforme discuti no primeiro capítulo desta dissertação, que toma como referência os anos de 1867 a 1878 (11 anos), foram contabilizadas 187 indicações de práticas com as quais os estudantes se envolviam. Tais cifras correspondem a 27,3% em relação às 686 recorrências de práticas que constam da Tabela I. A distribuição das práticas jornalísticas, literárias, corporais e de diversão e suas porcentagens podem ser vistas na Tabela II, que se refere ao recorte cronológico estabelecido como central neste trabalho de pesquisa: 84 TABELA II PRÁTICAS DE DIVERSÃO EMPREENDIDAS PELOS ESTUDANTES DA ACADEMIA JURÍDICA DE SÃO PAULO (1867-1878) CATEGORIAS NÚMEROS PORCENTAGENS ABSOLUTOS Produções Jornalísticas 61 32.6 Produções Literárias 44 23.6 Festas 24 12.8 Sports 22 11.7 Espetáculos 21 11.3 Passeios 12 6.4 3 1.6 187 100% Jogos de Salão TOTAL FONTE: NOGUEIRA, Almeida. Tradições e reminiscências. Estudantes, estudantões e estudantadas. 1907 – 1910, São Paulo, Typographia A Editora (Volumes I a IX). Organizada por Costa. A partir da Tabela II, percebe-se claramente que as produções jornalísticas e literárias sobressaíam nos relatos de Almeida Nogueira, entre 1867 e 1878, ficando aquelas com 61 indicações (32,6%) e estas com 44 (23,6%). Somadas, totalizam 105 ou 56,2% das práticas realizadas pelos estudantes segundo a fonte em análise. Tal constatação pode ser entendida na medida em que, a partir de 1870, os estudantes começaram a envolver mais fortemente com as questões políticas de seu tempo. Ao mesmo tempo, conforme citado no Capítulo II desta dissertação, no decorrer da década de 1870, com o crescente processo de urbanização da cidade de São Paulo, inicia-se também uma mudança nas atividades empreendidas pelos estudantes. Eles passaram a balizar sua produção escrita em questões acerca das campanhas republicanas e abolicionistas. Tal mudança exprimia o fim da “fase romântica” e o início de uma imprensa acadêmica de caráter políticopartidário que fez proliferar associações, clubes e jornais mais vinculados às ideias acerca de temáticas políticas. Dessa maneira, esses sujeitos foram deixando de lado as associações científicas, literárias, teatrais e, ainda, a boemia, as práticas corporais e de diversão. Tal mudança, observada a partir dos anos de 1870, é perceptível tanto na obra de Almeida Nogueira, conforme pode ser corroborado pelos dados apresentados nas Tabelas I e II, quanto por trabalhos de historiadores que se dedicaram ao estudo da Academia – entre eles, Martins e Barbuy (1998), Panizzolo (2006). 85 Ainda considerando a Tabela II, no que se refere às práticas corporais e de diversão, as festas foram contabilizadas como a terceira categoria mais recorrente: 24 vezes (12,8%); os sports tiveram 22 indicações (11,7%); os espetáculos 21 (11,3%); os passeios 12 (6,4%); os jogos de salão três (1,6%). Somando as recorrências destas práticas corporais e de diversão, cheguei a 82 indicações, o que equivale a 43,8% do total de 187 referências feitas por Almeida Nogueira no período central deste trabalho. Ao comparar os dois períodos compreendidos pelas Tabelas I e II, percebe-se que as práticas escritas tiveram 308 (44,9%) indicações para o primeiro período e 105 (56,2%) para o segundo. Com relação às práticas corporais e de diversão, foram encontrados 378 (55,1%) registros para o primeiro período e 82 (43,8%) para o segundo. Percebe-se, considerando os números relativos, que houve praticamente uma inversão nas recorrências das práticas em análise: as jornalísticas e literárias passam à frente das práticas corporais e de diversão. Tal constatação corrobora a análise feita anteriormente de que os estudantes passaram, ao longo do tempo de existência da Academia, a se dedicar cada vez mais ao universo da política. Além disso, ao longo da década de 1870, a cidade de São Paulo se tornava cada vez mais urbanizada e, de acordo com Martins e Barbuy (1998, p. 58) datam daí as alterações entre a presença acadêmica na cidade e a preliminar dinâmica urbana da capital. O crescimento desta última e sua diversificação de funções alteraram a relação do estudante com a comunidade. O acadêmico, até então, figura proeminente local, passou a interagir com seus diversos segmentos, identificando-se e dissolvendo-se na nova paisagem. Nesse mesmo sentido, Bruno (1984, p. 1.261) aponta para a “redução da importância da Academia de Direito como consequência do próprio crescimento da cidade e da complexidade cada vez maior da estrutura da sociedade paulistana depois de 1870”. Diferentemente de Bruno (1984), entendo essa mudança não como uma “redução da importância da Academia” naquele contexto, mas, sim, como uma mudança na configuração estabelecida entre “Academia Jurídica – cidade de São Paulo”, o que não significa que ela passa a ser menos importante, mas, sim, que as redes de interdependências e as relações estabelecidas aí passam a ser diferentes. Ressalto, ainda, que entendo que essas mudanças não se constituíram como uma ruptura, mas sim como um processo de transformação da cidade. Tomando como referência Elias (1993, 1994) na medida em que a cidade se modificava, ao mesmo tempo, a inserção dos estudantes 86 naquele espaço urbano sofria transformações. Tal processo era complexo, permeado por tensões e conflitos e não se deu de maneira unilateral. Nesse contexto, é possível compreender que, na medida em que a década de 1870 avançava e a cidade começava a ganhar novos ares, mais urbanizados e civilizados, como mostrado no Capítulo II, um processo de modificação na configuração “Academia Jurídica – cidade de São Paulo” também se operava. Tal hipótese ganha força principalmente quando são tomadas como comparação as primeiras décadas de instalação do Curso Jurídico, uma vez que, até por volta de 1860 os estudantes se apropriavam dos espaços da cidade de São Paulo de forma mais intensa. Ademais, a partir da década de 1870, a própria população da cidade, inserida no processo civilizador que ocorria naquele período e espaço, passou a participar com mais constância das atividades vistas como “civilizadas”, como as apresentações teatrais e concertos musicais que chegavam à cidade e, também, das práticas sportivas, que foram se institucionalizando no decorrer do século XIX. No que se refere especificamente às práticas sportivas, objeto central deste capítulo, a partir do Gráfico II (a seguir), observa-se suas oscilações e ausências, tendo em vista os números percentuais dos sports entre anos de 1827-1866 e entre 1867-1878. 87 GRÁFICO II PORCENTAGENS DE RECORRÊNCIAS DOS SPORTS NA OBRA DE ALMEIDA NOGUEIRA ENTRE OS ANOS DE 18271866 E 1867-1878 Caçadas Ginástica Equitação Esgrima Capoeira Natação Cacete Pesca Canoagem Sports Remo Corridas de cavalos Peteca Corrida Briga de galo Patinagem Futebol Boxe 22,7 29,2 15 9,1 10,9 0 4,6 8,3 7,5 9,1 6,7 13,6 6,7 0 4,2 13,6 2,5 0 0 2,5 1,7 0,8 0 0 0 0 0 0 1827-1866 22,7 1867-1878 4,6 0,8 0,8 0,8 0,8 0,8 10 20 30 Porcentagens de recorrências (%) FONTE: NOGUEIRA, Almeida. Tradições e reminiscências. Estudantes, estudantões e estudantadas. 1907 – 1910, São Paulo, Typographia A Editora (Volumes I a IX). Organizado por Costa. Para construção do Gráfico II, ao tomar como referência os relatos de Almeida Nogueira entre os anos de 1827 e 1866 e comparando tal período com o recorte cronológico que vai de 1867 a 1878, percebe-se que houve importantes mudanças com relação às práticas sportivas realizadas pelos estudantes nestes dois intervalos de tempo. No período de tempo mais expandido (1827-1866), as caçadas aparecem 35 vezes (o que equivale, em termos percentuais, a 29,2%) e nos anos de 1867-1878, cinco vezes (22,7%). Em segundo lugar, apresentam-se a ginástica com 18 registros (15%) e dois (9,1%), respectivamente nos dois intervalos de tempo. Em seguida, têm-se a equitação, com 13 (10,9%) indicações e nenhuma quando se verifica os anos 1867 e 1878. A esgrima, quarto sport indicado no Gráfico II, é mencionada 10 vezes (8,3%) e uma vez (4,6%), seguida pela a capoeira, com nove (7,5%) e duas (9,1%) indicações nos respectivos períodos. Posteriormente, tem-se a natação, prática sportiva com oito (6,7%) e três (13,6%) recorrências. Em seguida, tem-se o cacete, que apresenta oito 88 (6,7%) e nenhum registro de acordo com os recortes em tela. Na sequência, aparece a pesca com cinco (4,2%) e três (13,6%) menções. A canoagem e o remo, ambos foram registrados três vezes (2,5%) na produção do memorialista, somente nos anos de 18271866. A seguir, têm-se as corridas de cavalos com dois (1,7%) registros entre os anos de 1827-1866 e cinco (22,7%) entre 1867-1878. As práticas sportivas menos recorrentes foram a peteca, indicada duas vezes (0,8%) ao longo de toda a obra, sendo uma delas no recorte cronológico de 1867-1878, o que representa 4,6%. Por fim, os cinco últimos sports mapeados – corrida, briga de galo, patinagem, futebol e boxe – foram referidos uma vez cada modalidade, entre os anos de 1827-1866, o que representa 0,8% do total e não aparecem no recorte cronológico que vai de 1867 a 1878. As oscilações percebidas nas recorrências das práticas realizadas pelos estudantes nos dois períodos considerados no Gráfico II serão analisadas em momento posterior deste capítulo. Como se observa no Gráfico II, alguns sports citados por Almeida Nogueira nas primeiras décadas do século XIX não foram mencionados pelo memorialista entre os anos de 1867 e 1878, sendo eles: equitação, cacete, canoagem, remo, corrida, briga de galo, patinagem, futebol e boxe. Com relação à equitação, pode-se justificar sua ausência nas memórias de Almeida Nogueira no período de 1867-1878 por uma questão de época. Provavelmente, ela não deixara de ser praticada. Todavia, os olhos dos estudantes e da população de São Paulo estavam mais direcionados às corridas de cavalos, ou mesmo ao turfe, que, a partir do final de 1840 se estruturava no Brasil. As bases do esporte moderno em nosso país se encontram ligadas à prática do turfe e, no transcorrer dos oitocentos e, especialmente, no último quartel do século XIX, este era um esporte muito praticado (MELO, 2007, 2009). Deve-se considerar, ainda, a construção do hipódromo em São Paulo, no ano de 1876. Além disso, percebe-se ao longo do século XIX e XX que a equitação “ficava mais restrita a uma compreensão de importante prática educacional para as elites, e menos a uma forma de espetáculo” (MELO, 2007, p. 66)32. Com relação ao cacete, o possível motivo do seu não aparecimento em finais do século XIX se dá por essa prática se relacionar a um período específico, que ocorreu nas eleições de 1840, conhecida como eleições do cacete: daí, possivelmente, a designação de cacetista dada por Almeida Nogueira a alguns sujeitos da Academia. As eleições do 32 As sociedades hípicas foram criadas em várias cidades especialmente na década de 20 do século XX (MELO, 2007, p. 66). 89 cacete aconteceram quando o Brasil passava por um período de agitação política por conta do estabelecimento do Segundo Reinado, com o golpe da maioridade de D. Pedro II (questão apontada mais detalhadamente no Capítulo II desta dissertação). De forma sucinta, essas eleições receberam esse nome por conta das arbitrariedades e violências perpetradas pelos liberais que queriam se garantir no poder, uma vez que D. Pedro II havia instituído o Gabinete Liberal e convocado novas eleições para retirada dos conservadores, maioria da Câmara naquele período, o que desfavorecia a aprovação de deliberações do Ministério da Maioridade, composto por liberais (LEAL, 1986). Essa prática era apontada por Almeida Nogueira como um sport, possivelmente pelo fato de se relacionar com a força física, o que se nota na descrição do estudante José Bassom de Miranda Osorio da turma de 1855-1859 como “destro e valente cacetista33” (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 209). No caso dos outros sports que não aparecem entre os anos de 1867 e 1878 – canoagem, remo, corrida, briga de galo, patinagem, futebol e boxe – foram pouco mencionados ao longo de toda a obra de Almeida Nogueira, com cifras que variam entre 0,8% e 2,5%, o que indica que eram realizados por algum estudante ou mesmo por determinado grupo de acadêmicos de um período. As corridas, o futebol e a patinagem, aparecem apenas no relato de Wenceslau de Queiroz, que prefaciou o sétimo volume da obra Tradições e reminiscências..., em 1909, no qual afirma que Almeida Nogueira não desconhecia “as mil espécies de sport: a esgrima, a gymnastica, as corridas a pé, a patinagem, a equitação, o foot-ball, a athletica, a timonagem, a caça, etc” (QUEIROZ, 1909, v. 7, p. XII). Tal afirmação de Wenceslau de Queiroz deve ser relativizada, uma vez que apenas em 1877 foi inaugurado um rinque de patinação em São Paulo (FRANZINI, 2010, p. 51) e que em fins do século XIX começaram a ser organizadas corridas no país e mesmo o futebol, que chegou a São Paulo em 1894 com Charles Willian Miller (MELO, 2009)34. A partir do prefácio escrito em 1909, não se pode afirmar que estes sports eram praticados quando Almeida Nogueira ainda frequentava dos bancos da Academia. 33 Ressalto que essas práticas são recorrentes na obra nas décadas de 1840, 1850 e 1860. Considero a ocorrência de tal fato pelo caráter violento de outras eleições que aconteceram no período como apontado por Leal (1986), fazendo com que o memorialista identificasse os sujeitos como cacetistas. 34 Vale dizer que Melo (2009, p. 112) aponta para a existência de alguns poucos registros dessa prática na década de 1880. 90 As brigas de galo foram outro sport pouco recorrente nos relatos de Almeida Nogueira. Todavia, Melo (2007) afirma que essa era uma prática considerada sportiva no século XIX e muito popular no período. Entretanto, “o movimento de moralização e construção de novos discursos ao redor da prática esportiva, observável em final do século XIX, quando as apostas ganharam o centro do debate como exemplo de algo negativo” fez com que as brigas de galo passassem a ser consideradas “bárbaras e violentas”, o que não significou que essa prática desapareceu (MELO, 2007, p. 21). Portanto, considerando o contexto que se apresentava em São Paulo nas décadas de 1860 e 1870, as brigas de galo poderiam ser vistas como uma prática que não era condizente com o processo de urbanização que a cidade vivia. Com relação ao remo, outro sport que não fora mencionado nos relatos do memorialista entre os anos de 1867-1878, como visto no Gráfico II, sabe-se que sua prática começou a ganhar espaço no Brasil em fins do século XIX e tornou-se um dos esportes mais importantes do século XX, na medida em que estabeleceu de maneira definitiva a ligação entre esporte, atividade física, saúde e educação moral. Sobre a canoagem, prática sportiva que também não fora indicada por Almeida Nogueira entre os anos de 1867-1878, segundo Melo (2007), era uma diversão de meados do século XIX e fora vinculada ao remo, pois as canoas possibilitaram as primeiras competições de remo com alguns “desafios individuais ou de turmas” (MELO, 2007, p. 43). Em se tratando do boxe, outro sport não registrado por Almeida Nogueira no recorte cronológico de 1867-1878, Melo (2007, p. 21) escreve que havia lutas desde o quartel final do século XIX nas ruas, circos e rinques de patinação. Entretanto, no Brasil, essa prática corporal demorou muito a se institucionalizar como esporte moderno, possivelmente por estar muito relacionada às camadas populares e à capoeira, que era muito perseguida no período. Por fim, têm-se as corridas, que não foram registradas por Almeida Nogueira entre os anos 1867-1878. De acordo com Melo (2007), foi a partir de 1878 que começa a se desenvolver o hábito de correr no país e, também, as competições de corridas a pé com programas diversos que variavam na distância, na faixa etária e no gênero, havendo, ainda, registros até mesmo de corridas com pernas de pau. A ausência de determinadas práticas sportivas nos relatos do memorialista, entre os anos 1867-1878, permitem pensar na dinâmica da cidade que se processava no século 91 XIX. Todavia, as ausências nos relatos não significam que essas práticas foram abandonadas pelos estudantes. 3.2 – Análise qualitativa das práticas corporais e de diversão sportivas No que se refere às práticas sportivas relatadas por Almeida Nogueira entre 1867-1878, a distribuição das mesmas pôde ser observada conforme Gráfico II, anteriormente apresentado. Os sports relacionados no referido gráfico e analisados mais detidamente neste item são os seguintes: caçadas, corridas de cavalos, natação, pesca, ginástica, capoeira, esgrima e peteca. Ressalto que, ao abordar cada um deles, tratei também de entender as oscilações identificadas no Gráfico II. O primeiro sport recorrente nos relatos de Almeida Nogueira entre os anos de 1867-1878 são as caçadas. De acordo com Franzini (2010, p. 51), na cidade de São Paulo, as caçadas eram práticas sportivas desenvolvidas na cidade ao longo do século XIX. Em sua época, Almeida Nogueira considerava as caçadas como um sport muito praticado e afirmou que “até 1880, e quiçá mesmo depois de 1890, estavam ainda em voga esses emocionantes exercicios cynergeticos” (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 215). A partir desta afirmação e também dos dados anteriormente apresentados no Gráfico II, percebe-se que as caçadas eram uma das práticas sportivas mais empreendidas pelos estudantes quando se considera o período abarcado entre os anos de 1827-1866 (29,2%), o que também se observa entre 1867-1878 (22,5%). Entretanto, nota-se uma diminuição quando comparados os dois períodos abrangidos pelo Gráfico II (18271866 e 1867-1878). Mesmo havendo uma pequena diminuição nos relatos sobre esta prática sportiva, sua constância ao longo do século XIX pode estar vinculada ao que Martins e Barbuy (1998) apontam sobre a cidade de São Paulo que, na década de 1870, não esboçava ainda limites definidos entre o rural e o urbano, “vendo-se de certo modo entre duas tendências, que oscilavam entre o meio rural e a urbanização com todas as suas implicações [e nesse sentido] as caçadas representavam, por certo, momentos de sincera distensão para aqueles meninos vindos das fazendas do interior do Brasil” (MARTINS; BARBUY, 1998, p. 44). As caçadas eram organizadas pelos grupos de estudantes e empreendidas nas matas e arredores da cidade de São Paulo, entre eles: no bairro do Chá, no Cambucy, Campos Elyseos, na lagoa da Rua Victoria e, ainda, nas praças públicas, nos adros das igrejas do Carmo e de São Francisco, no Braz e na Luz (NOGUEIRA, 1907, v. 1; 1908, 92 v. 4; 1908, v. 5). Sobre os utensílios utilizados para se caçar naqueles tempos, Almeida Nogueira, ao se referir à turma de 1839-1843, dizia que os estudantes iam “a cavallo ou a pé, de caminho para montes e valles, através de campos e mattas, de espingarda ao hombro, polvarinho e mais petrechos a tiracolo” (NOGUEIRA, 1907, v. 3, p. 58). As caçadas dos estudantes não se restringiam à captura de animais selvagens nos arredores da cidade. Uma de suas características era, segundo Almeida Nogueira, o furto de animais criados nos quintais e/ou que se encontravam soltos pelas ruas de São Paulo. Nos quintais das casas, nas praças públicas e nos arredores da cidade, os estudantes furtavam galinhas, porcos, cabritos, perus, marrecos e outros animais para serem ceados em suas repúblicas. Tais práticas causavam, não raramente, conflitos dos estudantes com autoridades e a população da cidade. O que pode ser lido nos relatos de Almeida Nogueira quando o mesmo narrou a caçada do estudante José Basson de Miranda Osório da turma de 1855-1859 que, incumbido de apoderar-se de um peru num quintal vizinho, foi surprehendido, quando já havia deitado a unha na cubicada presa. Apesar da chuva de pancadaria que lhe cahiu sobre o coitado, não largou o peru, raciocinando, explicou elle depois, que – peor seria apanhar a sova e ainda ficar privado do peru. Teve que guardar a cama, não satisfeito dos carinhos contundentes com que fora mimoseado (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p.209-210). Outros casos exemplares desses conflitos foram as prisões dos estudantes Antonio Ricardo, Antonio José de Figueiredo Vasconcellos e Serafim de Andrade no quinquênio de 1828-1832 que, nas palavras do responsável pelo processo referenciado por Almeida Nogueira (1908, v. 4, p. 121), deixavam “inquietos os habitantes das circunvizinhanças desta cidade e tornando-se uma espécie de salteadores teem invadido casas, insultado e ameaçado os proprietários para roubarem aves e outras criações”. Vale lembrar que as punições conferidas aos estudantes, como apresentado no Capítulo II desta dissertação, geralmente não eram muito severas, uma vez que os estudantes eram tratados com certos privilégios, tendo em vista que os delegados de polícia de São Paulo no século XIX eram, em sua maioria, professores da Academia Jurídica. De volta ao caso da prisão dos estudantes da turma 1828-1832, segundo Almeida Nogueira, os habitantes da cidade ficavam inquietos com relação à prática das caçadas. A partir dos relatos de Almeida Nogueira notou-se que a população manteve-se resistente em relação a essa prática desde a chegada dos estudantes em 1827, o que também revelou as 93 tensões que por vezes marcaram as relações sociais estabelecidas naquele espaço, que começava a perder suas características de cidade pacata com a presença dos estudantes. As discordâncias com relação à prática das caçadas aconteciam também entre os próprios estudantes, o que poderia levar a embates, visto que dentro da Academia, nem todos os estudantes se dedicavam a essa diversão ligada ao furto de animais. Segundo Almeida Nogueira, em 1831 o Presidente da Província, Vicente Pires da Motta, escreveu que “a muito grande maioria da mocidade academica, composta de jovens de educação, é incapaz de commetter actos tão despreziveis e degradantes, e de ligar-se com alguns poucos de viciosos perdidos, a que mostram o maior desprezo e de cuja companhia fogem” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 122). Entre os estudantes, não havia consenso sobre as caçadas. Almeida Nogueira (1907, v. 2, p. 188). afirmava que “não comporta meio termo: ou a gente se aborrece ou é por ellas apaixonado” e relatou que outros estudantes eram tão envolvidos em tais empreendimentos que por vezes perdiam o ano, como no caso do estudante Antonio Gomes dos Reis Júnior, da turma acadêmica de 1862-1866, que levou muitos anos para se formar, sendo um dos motivos de sua reprovação “os seus deveres de caçador [que não] lhe deixavam tempo para (...) apparecer nas aulas” (NOGUEIRA, 1907, v. 4, p. 188). Em certas passagens da obra do memorialista, os caçadores foram apresentados como muito queridos pelos estudantes mais próximos, visto que as “repúblicas irmãs” se fartavam de ceias e jantares, frutos dessas arriscadas empreitadas: “não foram avarentos os caçadores na distribuição da sua presa ás repúblicas irmãs. A do Domingos Marcondes e a do Juca Paranhos foram contempladas com dois alvíssimos lombos de exquisito sabor, pois era fama que os frades engordavam os seus cevados a fubá mimoso” (NOGUEIRA, 1907, v. 2, p. 221-222). Outro atrativo dessas práticas eram as festas proporcionadas pelo sucesso das expedições. Na república do estudante João Corrêa de Moraes da turma de 1863-1867, uma das mais endiabradas da Paulicéa, succediam-se os bestialogicos a propósito de qualquer incidente e em particular nas noites destinadas aos grandes banquetes obrigados a zurrapa, cabritos e gallinhas, apanhados na rua, á luz meridiana, sob as vistas e os protestos mais vehementes dos donos. Estes, por bem entendida deferencia, figuravam, amiúde, para maior brilho do acto, entre os convidados ao festim (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 209-210). 94 A partir do exposto também se identifica que eram atribuídas aos caçadores representações que os identificavam como aqueles que capazes de se arriscar e corajosos, que enfrentavam o medo e os perigos de tais empreitadas. Estas representações são relevantes quando se pensa que os estudantes constantemente precisavam comprovar sua valentia diante dos grupos formados na Academia. O medo como um atrativo pode ser percebido em trechos de conversas descritas pelo memorialista com estudantes que, em seus tempos de Academia, foram caçadores: —V. não imagina os sustos que tem a gente... — Mas, então, porque se mettem nisto? — Exactamente para os experimentar. E um mêdo delicioso... — Mêdo delicioso! — Sim, o minimo rumor na sombra nocturna produz sobressalto, faz bater o coração e agitado o organismo. As cautelas que se tem, as informações que se colhem previamente, os perigos que se arrostam, a saber — os dentes afialos dos cães de guarda, a contundencia de cacêtes e quiçá de balas... — E conflictos perigosos... — Conflictos, não! A palavra de ordem, no caso de qualquer alarma, é — pernas, para que vos quero? — Comprehendo. O perigo mais temido deve ser o da descoberta, da divulgação dessas caçadas... — Eis ahi! — ...para que não venham á publicidade: tantos nomes de estadistas em embryão, austeros magistrados e outras graves summidades sociaes ... de próximo futuro. — Sim, este escândalo seria a maior penalilade, mas é também um attractivo. (NOGUEIRA, 1907, v. 1, p. 130). Com tudo o que foi dito sobre as caçadas, vê-se que as representações dos estudantes sobre esta prática eram diversas e, até mesmo, contrapostas, o que pode ser notado através de alguns estudantes que simplesmente não se dedicavam a essas atividades de caça e outros que as admiravam e as praticavam. As impressões de Almeida Nogueira em relação aos furtos mostram que, para ele, essas reclamações da população eram uma grande “hyperbole”, um “catonismo deslocado, em se tratando de meras brejeirices de estudantes, ávidos de se divertirem e destituidos de dolo mau” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 121-122). Entretanto, ao mesmo tempo, para se esquivar dos possíveis prejuízos de ter sua imagem atrelada aos furtos, o memorialista continuou escrevendo para que não imagine o leitor que, assim nos exprimindo, propugnamos causa própria; não. Nunca nos envolvemos, na nossa vida academica, em pandegas dessa natureza ou quaesquer outras; tivemos sempre, porém, a necessaria 95 indulgencia na apreciação das brincadeiras, mais ou menos anodinas, dos colegas (NOGUEIRA, 1908, v.4, p. 122). A partir do que foi exposto anteriormente sobre as reclamações das autoridades e da população e tendo-se em vista esses apontamentos de Almeida Nogueira, vê-se que os furtos empreendidos nas caçadas eram considerados recrimináveis, comportamento inadequado, pois causavam, além de prejuízos materiais aos sujeitos roubados, incômodos com a afronta dessas estudantadas, que invadiam os espaços privados da população da cidade. As representações acerca dos caçadores também eram importantes para caracterizar um bom ou mau estudante, como se verifica na descrição que o memorialista fez acerca do estudante Bento Rodrigues Freire da turma acadêmica de 1864-1868: “Estudante regular. Mais propenso ás diversões venatorias que a caçar objecções para as sabbatinas” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 182). Ressalta-se, ainda, que Almeida Nogueira tentou mostrar que esses furtos não passavam de meras brincadeiras e travessuras de estudantes e a principal justificativa dada por ele para não caracterizar essa prática como leviana era por serem os donos dos animais furtados convidados para os jantares e ceias, como se constata a partir dos relatos sobre o quinquênio de 1854-1858: tal pratica antes constituia espirituosa brincadeira, do que, propriamente, furto, e menos ainda roubo, apesar das apparencias; pois quantas vezes o proprio dono do animal furtado era amavelmente attrahido a vir saboreal-o numa alegre ceia!,.. E era mesmo este facto um sainete a mais de taes travessuras. O seu principal attractivo, porém, não era nem a gastronomia, nem esse engraçado lôgor; eram, sim, as emoções que se experimentavam nas arriscadas aventuras (NOGUEIRA, 1907, v. 1, p. 130). Foi possível identificar que algumas pessoas da cidade não viam a prática do furto dos estudantes com maus olhos, a partir da situação ocorrida em 1864 em que “contam que, certa vez, um dos proprietarios roubados... porque lhe não mencionaremos o nome? — o dr. Camillo Gavião, tendo surpreendido os caçadores, quando ja levavam o objecto ahi rehendido, divertiu-se muito com o caso e lhes pediu que o convidassem para a ceia. Este bom humor, porem, não era geral” (NOGUEIRA, 1907, v. 1, p. 132). 96 Interessante perceber que as caçadas não alteraram suas características ao longo do tempo abarcado pela pesquisa, permanecendo incorporados a essa prática de diversão os furtos, as ceias, as festas. Isso mostra que tal prática passava de geração em geração acadêmica, caracterizava os estudantes e fazia parte das representações daqueles sujeitos. Os estudantes se organizavam, geralmente, em grupos para as caçadas. Isso auxiliou a revelar que de certa maneira havia um trabalho de equipe, questão que revelou uma atitude voltada para o outro, uma dependência entre aqueles sujeitos, já que todos deveriam voltar salvos dessas empreitadas. A partir desses apontamentos acerca das caçadas foi possível constatar que as redes de interdependências estabelecidas entre os sujeitos na configuração “Academia Jurídica – cidade de São Paulo” eram complexas e mutáveis e permeadas por representações diversas e, até mesmo, opostas. No que se refere às corridas de cavalos, outra prática sportiva, indicada no Gráfico II deste capítulo, percebeu-se que houve um aumento significativo no percentual de seus registros na obra de Almeida Nogueira, passando de 1,7% entre 1827-1866 para 22,7% entre 1867-1878, períodos de tempo abarcados no Gráfico II. A elevação em mais de 1.000% da recorrência desta prática deve ser entendida ao se levar em conta a importância que a mesma tomou no contexto do século XIX. Conforme apresentado na discussão acerca da estruturação do esporte moderno no Brasil, realizada no Capítulo I, as corridas de cavalos contribuíram para a constituição dos sentidos e significados conferidos ao “esporte moderno” no Brasil, especialmente a partir da década de 1840 (MELO, 2007, p. 44). Melo (2007) afirma que desde a década de 1810 algumas corridas de cavalo já aconteciam no Rio de Janeiro. Na cidade de São Paulo, de acordo com relatos de Almeida Nogueira, as corridas de cavalos, até 1876, eram apreciadas pelos estudantes e pela população da cidade. Como visto no Capítulo II desse estudo, eram realizadas nas ruas, em raias, as quais eram “preparadas em linhas rectas e parallelas na avenida da Luz. Não havia archibancadas, nem fecho de espécie alguma”. Mesmo não havendo muito conforto, “para lá affluiam nas tardes de corridas damas e cavalheiros da melhor sociedade paulista, e alli, em pé ou em cadeiras próprias, assistiam ao alegre e pittoresco divertimento, apostando mutuamente em todos os pares” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p. 179). As apostas aconteciam nas corridas de cavalos e atraíam a população da cidade, tendo sido importantes “para garantir a continuidade do 97 turfe, por possibilitar a aquisição dos recursos financeiros necessários para manutenção dos clubes” (MELO, 2007, p. 5). Ainda segundo Melo (2007), as apostas eram muito comuns no século XIX: “não se falava em turfe sem que se citasse a questão das apostas”, o que foi fundamental para desenvolvimento deste esporte no país (MELO, 2007, p. 5). Outra questão interessante que merece destaque neste estudo se refere aos espaços onde eram realizadas essas corridas e as possíveis relações de interdependências construídas a partir desta prática. Como dito anteriormente, em São Paulo, mesmo antes da inauguração do hipódromo, em 1876, as corridas eram realizadas e atraíam a população. De acordo com Melo (2007, p. 117), esses eventos passaram a ser “considerados uma prática saudável e familiar, a presença feminina tornou-se mais aceita”. Nesse sentido, Melo (2009) e Lucena (2001), ainda, afirmam que diversas relações sociais eram estabelecidas nos espaços entorno das corridas de cavalos: comerciais, de sociabilidade, inclusive flertes e namoros, sobretudo a partir da construção dos hipódromos, os quais eram considerados locais adequados para a prática do turfe, normalmente constituídos de uma pista oval ou quadrangular (de diferentes dimensões e formatos), arquibancadas, uma estrutura para preparação dos cavalos para as corridas (local do encilhamento), as casas de apostas, além da parte de convívio e parte social (bares e/ou restaurantes) (MELO, 2007, p. 83). No Brasil, os hipódromos foram as primeiras instalações especificamente dedicadas à prática esportiva moderna e permitiam as pessoas verem e serem vistas, pois criavam lugares e modos de comportamento. Nos hipódromos é que as relações sociais estabelecidas são mais facilmente entendidas ao ser verificado que as arquibancadas eram separadas e, ao se perceber que havia toda uma preparação que envolvia “bandeiras e arquibancadas, a elegância das vestimentas e a grande assistência, (...) [demonstrando] o que os indivíduos [esperavam] dessa nova forma de divertimento” (LUCENA, 2001, p. 109). Nesse mesmo sentido, vê-se que as corridas de cavalos realmente atraiam muito a atenção da população ao se perceber, a partir dos anúncios nos jornais do período, um fluxo maior de trens nos dias em que elas eram realizadas, o que foi mostrado no Capítulo II desta dissertação. Em São Paulo, o hipódromo foi criado em 1876 no bairro da Mooca e se tornou “rapidamente em ponto de atração pública e referência de uma sociabilidade urbana 98 para a Pauliceia em transformação” (FRANZINI, 2010, p. 52). O seu maior idealizador fora estudante da Academia: “Rafael Aguiar Paes de Barros, que morava na Europa e de lá trouxera o desejo de organizar o turfe em São Paulo” (MELO, 2007, p. 95). Sobre esse estudante do quinquênio 1853-1857, Almeida Nogueira escreveu que ele e seu irmão eram “apaixonados pelo sport hippico e mui dados á creação e educação de cavallos, dos quaes tinham bellos typos de raça apurada, proprios para corridas, para sella, etc” (NOGUEIRA, 1909, v. 7, p. 270-271). Tais preferências podem ter contribuído para o seu envolvimento com esta prática e ajudam a compreender seu interesse em criar um clube de corridas, o Club de Corridas Paulistano (em 1875) e, no ano seguinte, o hipódromo na cidade de São Paulo. A construção do hipódromo de São Paulo se insere em um movimento maior, de urbanização e civilização daquela cidade que foi se constituindo ao longo do tempo. Neste processo, foram criados novos espaços de diversão e, com relação ao hipódromo, pode-se perceber que os estudantes também o frequentavam, conforme apontado no Capítulo II desta dissertação. Nesse sentido, baseando-me nas afirmações de Lucena (2001, p. 9), pode-se dizer que “mudanças na forma de passatempos compõem também um quadro de mudanças nas formas de morar, nos processos educativos, nas formas de trabalho, nas relações familiares e entre grupos distintos”. O terceiro sport tratado nesse capítulo é a natação. Sobre este sport, vale ressaltar que este termo utilizado por Almeida Nogueira, se refere aos banhos de rio efetuados pelos estudantes, já que a natação como esporte não era ainda desenvolvida e institucionalizada no Brasil. De acordo com os historiadores do esporte, entre eles Melo (2007, p. 121) e Franzini (2010), a organização da natação ocorreu em fins da década de 1870, com a criação de uma agremiação exclusiva para a prática, o Club de Boiton (em 1877) e com uma licença dada a Joseph Fogliani pelo governo imperial para aplicar aulas de natação para a população carioca em 1878, na tentativa de assegurar os banhistas, devido à propagação dos banhos de mar na cidade. A prática do remo também contribuiu para a constituição da natação como esporte, já que eram comuns as dificuldades com o barco no mar. No caso da cidade de São Paulo, Franzini (2010, p. 53) aponta que a institucionalização da natação se deu quando os clubes Espéria, Regatas de São Paulo e Regatas Tietê voltaram suas atenções ao remo e à natação, entre os anos de 1890 e 1900, já entendida como uma prática elegante e civilizada, utilizando as palavras de Franzini: “portanto, mais apropriado a uma cidade que, àquela altura, já 99 estava impregnada de “progresso” e de fumaças modernas, nem que fossem mais simbólicas que concretas” (FRANZINI, 2010, p. 53) e que começava a se preocupar com as questões acerca da saneabilidade e da saúde da população. Nesse sentido, a utilização do termo natação por Almeida Nogueira pode ser justificada pelo período em que sua obra foi escrita (a partir de 1890), e mesmo publicada (entre 1907 e 1912), quando a natação passou a se institucionalizar. A partir do exposto, optei por empregar neste estudo a terminologia utilizada por Almeida Nogueira na maior parte de sua obra, no caso, natação para designar esses banhos de rio praticados pelos estudantes da Academia quando ainda eram permitidos pelas autoridades. Ao que tudo indica, com base nos relatos de Almeida Nogueira, a natação era uma prática de diversão à qual os estudantes se dedicavam, como, por exemplo, o Freire, da turma acadêmica de 1864-1869: Na arte de natação não tinha o Freire competidor. Não somente era infatigável, como sabia nadar por todos os modos conhecidos e desconhecidos, em pé, de costas, lateralmente, de cócoras, na superfície ou no fundo da agua; mergulhava e boiava até com pés e mãos atados. Era de vêr-se o goso com que elle se atirava ao rio, que nem um cão da Terra Nova, salvo a comparação, e se banhava nas limpidas aguas do Tamanduatehy, em companhia de alegre bando de colegas (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 225). As memórias de Almeida Nogueira revelam que os estudantes eram bastante assíduos no exercício da natação. Como exemplo da frequência na execução dessa prática apresento o caso do estudante Ignacio de Loylola Gomes da Silva, da turma acadêmica de 1863-1867 e de seu amigo Corrêa de Moraes que “inverno ou verão, sob garoa paulistana ou com intenso frio, eram assiduos os passeios matinaes os dois estudantes ás margens do Tamanduatehy, para se deleitarem no appetitoso banho” (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 201). Esse tipo de prática sportiva era efetuada geralmente pela manhã e propiciava a organização dos estudantes “em grupo de quatro, cinco ou mais, e alegremente procuravam aquelles sítios onde as margens grammadas, o leito arenoso, as limpidas aguas e a regular profundidade do ribeirão lhes proporcionavam as gratas diversões de exercicios recreativos aquaticos” (NOGUEIRA, 1907, v. 2, p. 289290). Os locais preferidos para a natação eram alguns pontos do rio Tamanduateí, “onde havia para esse regalo dos estudantes pontos apropriados, como fossem os 100 Inglezes e a Figueira ou a Fortunata Lopes, pouco acima da ponte da Tabatinguera” (NOGUEIRA,1907, v. 2, p. 289). Nestes banhos de rio, os estudantes se apresentavam “innocentes como Adão antes do peccado, punham-se no mesmo traje do nosso primeiro pae... [e] pouco se lhes dava a presença das lavadeiras que estacionavam naquelles pontos. Nem elles cogitavam disso, nem ellas por sua vez extranhavam jamais aquelle desembaraço” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 225-226). O nudismo incomodava as autoridades, certas de que essa prática comprometia o cotidiano da cidade, por conta dos costumes comedidos daqueles tempos e “desencadeava polêmicas, era motivo de protestos, era alvo de ação policial” (MELO, 2007, p. 26). De acordo com Bruno (1984, p. 1.241), “o banho de rio (...) [era] ainda comum entre os estudantes em 1878”. A partir do Gráfico II apresentado anteriormente, observou-se um aumento das recorrências dessa prática na obra do memorialista, passando de 6,7% para 13,6% nos dois períodos que constituem o referido gráfico, o que representa um significativo aumento de mais de 100% de menções a este sport. Para que esta elevação seja compreendida, deve-se considerar que, conforme aludido no Capítulo II desta dissertação, no ano de 1875 a Ilha dos Amores, fora aberta ao público. Segundo Bruno, neste período, “uma parte da várzea do Tamanduateí reconquistou sua posição de local de recreio, com a construção da chamada Ilha dos Amôres, com banhos e outros passatempos” (BRUNO, 1984, p. 1.225). A criação da Ilha dos Amores em 1875, assim como o Hipódromo em 1876 deve ser compreendida como inscrita no processo civilizador pelo qual São Paulo passava na medida em que se urbanizava. A cidade buscava novos padrões de comportamento e os estudantes também iam se integrando a esses novos espaços, visto que frequentavam esses ambientes como apontado anteriormente e no Capítulo II. Todavia, as mudanças ocorridas na cidade a partir de 1870 não podem ser lidas como uma ruptura total. Outro sport ao qual os estudantes se dedicavam era a pesca, quarta prática sportiva mais referenciada na obra de Almeida Nogueira. A pesca era considerada um sport por Almeida Nogueira pela sua vinculação com as caçadas, já que ambas apresentam objetivos semelhantes – todavia utilizando espaços distintos de captura de suas presas – e também pelo fato de sua aproximação com outros sports, como a natação, e, até mesmo, o remo e a canoagem, o que pode ser observado a partir da descrição do estudante José Joaquim Ferreira da Veiga, da turma acadêmica de 18551859. Segundo o memorialista, “dominava-o intensa affeição pelas diversões fluviaes, 101 como sejam banhos nos rios, exercicios de natação e de submersão, passeios em canôa, pesca de anzol, de rede, de tarrafa, de fisga e até de frecha (sic). Não havia, para elle, nesse divertido sport nenhum segredo” (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 233). De acordo com Almeida Nogueira, a pesca era um “divertido sport” e podia ser realizada de diferentes maneiras, visto, a partir da citação anterior, as diversas possibilidades de se pescar. Nesse sentido, Jorge (2006, p. 4) afirma que, em fins do século XIX e início do XX, havia muita improvisação quanto aos utensílios usados como vara, podendo as mesmas ser feitas com galhos arrancados à beira do rio, os anzóis com alfinetes retorcidos e as iscas de minhocas ou miolo de pão. O mesmo autor ainda aponta que “apanhava-se lambaris, guarus, traguiras, piabas, tabaranas, trairões, bagres, mandis e cascudos” em São Paulo (JORGE, 2006, p. 4). A partir dos registros de Almeida Nogueira, foi registrada a prática constante da pesca pelo estudante Carlos Mariano Galvão Bueno, da turma de 1856-1860, que tinha por habito inveterado ir todas as tardes ás margens do Tamanduatehy divertir-se em pescas de anzol. Foi encontrado um dia nas proximidades da Ponte da Tabatinguéra o seu cadáver a sobrenadar nas aguas. O desastre, segundo parece, foi motivado por uma syncope que precipitara no rio o pescador, pondo termo por asphyxia áquella preciosa existência (NOGUEIRA, 1908, v. 3, p. 232-233). Ao que tudo indica, a prática da pesca por parte dos estudantes também estava relacionada à vadiagem, como no caso de estudante José Domingues dos Santos Júnior (da turma de 1862-1866), que “levou mais de um quinquennio bacharelar-se; não, certamente, por falta de talento, mas de esforço e de applicação. Além da literatura preferia ao Direito a caça, a pesca e o bilhar” (NOGUEIRA, 1907, v. 2, p. 240). Não foi encontrada na obra de Almeida Nogueira menção ao que era feito com os peixes que os estudantes conseguiam apanhar, se serviam como prato para jantares e festejos em repúblicas, como acontecia com as caçadas. Considerando os números relativos, a pesca foi uma prática que aumentou de 4,2% para 13,6% no decorrer dos anos contidos no Gráfico II. Esse aumento considerável de 300% reafirma a constatação encontrada também no que se refere às caçadas, de que a cidade de São Paulo, nesse período, mesmo passando por um processo de urbanização, conservava vínculos com o meio rural. 102 Outra prática registrada nas Tradições e reminiscências... era a ginástica, também considerada por Almeida Nogueira como um sport pelo fato de esses exercícios esboçarem traços identificados com o espetáculo e a diversão, o que aponta para a conflituosa e paulatina constituição dos sentidos e significados atribuídos ao sport, como dito anteriormente no Capítulo I, além da dimensão física atribuída a essa prática, como se observará a seguir. Cunha Júnior et al (2011), apresentam o esporte e a ginástica como categorias de práticas corporais distintas, entretanto pude perceber que isso não acontecia na obra de Almeida Nogueira. O memorialista considerava a ginástica como um sport. Nesse sentido, outra questão importante se relaciona ao tipo de exercício que tomo como ginástico nesta dissertação. Almeida Nogueira apontou como ginástica não as práticas com a finalidade de ordenar, de disciplinar e de adestrar os corpos a partir de métodos científicos e de origem militar (conforme definição de SOARES, 2002). A ginástica descrita por Almeida Nogueira estava na contramão dessa vertente e se ligava à ginástica circense, com seus acrobatas, funambulistas, contorcionistas, equilibristas, palhaços, gigantes, anões e bailarinas que faziam rir e despertavam aplausos em espetáculos que combinavam medo, surpresa, liberdade (SOARES, 2002). Nesse tocante, Soares (2009, p. 133) aponta a heterogeneidade que a categoria ginástica pode abarcar, sendo ao mesmo tempo feminina e viril, definida como arte e como ciência, ela frequenta os foros científicos, é constitutiva de projetos singulares que se debruçam sobre o estudo do movimento humano, integra espetáculos do corpo em demonstrações atléticas e cívicas, em exercícios artísticos do mundo do teatro e da dança, é parte de currículos escolares. A contextualização histórica desse estudo mostrou que os espetáculos – teatrais, musicais e circenses – faziam parte do cotidiano dos estudantes da Academia na São Paulo daqueles tempos e interferiu de modo significativo nos exercícios ginásticos praticados pelos estudantes da Academia. Foi possível verificar que, quando os estudantes gostavam dessas apresentações, passavam a imitar os artistas na maneira de agir, de ser, de vestir. Essa influência também passava pelo crivo das práticas corporais empreendidas nos espetáculos, o que foi registrado por Almeida Nogueira ao afirmar que, se no “circo de cavallinhos” um artista fizesse “piruetas na corda bamba ou esticada, logo appareciam nas rodas academicas numerosos Blondins a imitar-lhe o exemplo, e em todas as republicas armavam-se os necessários apparelhos para a dança 103 na corda, sem embargo das formidaveis quedas” (NOGUEIRA, 1909, v. 6, p.174-175). Essa citação revela indícios do que poderiam ser os exercícios de ginástica empreendidos pelos estudantes, prática sportiva que não contava com o incentivo das autoridades da Academia, que preferiam ver seus estudantes envolvidos em outras práticas mais condizentes com a posição que iriam ocupar após se formarem. O circo, naquele período, era considerado uma “diversão das camadas populares” (MELO, 2007, p. 34). Esse tipo de ginástica guardava em si elementos de barbárie e de civilização (SOARES, 2002). Nesse sentido, Duarte (1995, p. 115) aponta que os artistas circenses eram considerados “bárbaros” por serem “nômades, sem vínculos sociais, quase vagabundos” e, ao mesmo tempo, “civilizados” por serem também “pessoas que viajavam, conheceram várias cidades e até mesmo outros países, elegantes, com posses e vestes admiradas e invejadas”. Essas características, possivelmente, faziam com que os estudantes fossem atraídos e procurassem estreitar suas redes de sociabilidade com esses artistas, na medida em que novas referências culturais se abriam aos mesmos. Na Academia, os estudantes que efetuavam práticas corporais identificadas com o mundo circense eram tidos como desordeiros, vadios, pouco aplicados às aulas. Isso se percebe quando o memorialista tratou do acadêmico José Maria Corrêa de Benevides da turma de 1850-1854, que “em sciencias e letras tinha (...) a primazia; mas a musica, o desenho e a gymnastica deixaram-no em lastimavel bagagem e roubavam-lhe o primeiro premio” (NOGUEIRA, 1912, v. 9, p. 162). No que se refere às redes de interdependências estabelecidas entre os próprios estudantes, observa-se que a prática da ginástica era desejada e aceita. Isso é corroborado quando Almeida Nogueira apontou que a maioria das repúblicas de estudantes possuía equipamentos para realização de exercícios, como visto no Capítulo II desta dissertação e, ainda, quando se lê as caracterizações feitas ao estudante Alfredo Rodrigues Fernandes Chaves do quinquênio de 1863-1867 que dispunha de grande agilidade e força adquiridas nos exercicios gymnasticos a que se dedicava e em que eram então celebres varios academicos, entre os quaes, em primeiro logar, o Elias Chaves, reputado tão eximio acrobata como qualquer dos melhores artistas da companhia Buislog, que fazia então furor em S. Paulo, e era muito festejado dos acadêmicos (NOGUEIRA, 1910, v. 8, p. 133-134). Todavia, ao longo do tempo coberto pelas descrições do memorialista, como verificado no Gráfico II, a ginástica foi uma prática à qual os estudantes se dedicaram 104 com menor intensidade ao longo tempo, passando de 15% para 9,1% as indicações na obra de Almeida Nogueira. Com relação a essa diminuição, considera-se, de acordo com Bruno (1984) e Martins e Barbuy (1998), que a cidade de São Paulo passou, a partir da década de 1870, a receber novas companhias teatrais, líricas o que pôde ter contribuído para o maior interesse dos estudantes para com estes espetáculos. Isso não significa que os espetáculos circenses tenham cessado, sendo possível mapear através dos anúncios e comentários dos jornais da época que os circos ainda faziam parte da diversão e do cotidiano de São Paulo, como visto no Capítulo II desta dissertação. A ginástica relacionada ao mundo circense, vista como uma prática sportiva efetuada pelos estudantes da Academia, revela como foram se processando os interesses dos sujeitos naquele contexto que se encontrava em processo de transformação. A capoeira é outro sport a ser analisado neste estudo. A primeira questão a ser apontada quanto a esta prática se refere à categorização da capoeira como um sport. As representações acerca da capoeira até por volta de 1930 eram fortemente vinculadas à criminalidade e é a partir desta década que se inicia o processo de legalização da mesma, sendo a sua institucionalização como esporte oficial muito recente, datada nos anos de 1970 (BRUNHS, 2000, p. 24). Mesmo carregada de preconceitos no período em que se baseia este estudo e tida como uma prática marginalizada, alguns pesquisadores (SOARES; ABREU, 2009) apontam que as discussões acerca da capoeira como uma “ginástica brasileira” e/ou “ginástica nacional” aparecem desde a década de 1900, na qual alguns intelectuais e parte da elite da época “reclamavam que a capoeira fosse justada a um modelo esportivo, a exemplo de outras modalidades do tempo, como o jogo do pau português e a savata francesa, o boxe inglês e o jui-jítsu japonês” (SOARES; ABREU, 2009, p. 251). A partir desse contexto, não foi possível afirmar se Almeida Nogueira fazia parte desses intelectuais que reivindicavam a posição de ginástica brasileira para a capoeira. Em seus relatos, compreendeu-se que suas representações sobre a capoeira estavam mais relacionadas ao que foi apontado por Brunhs (2000, p. 28), ou seja: a capoeira vista como “coisa de negro, de vadio, de malandro”. Assim, entendo que Almeida Nogueira apontava essa prática como um sport em sua obra, visto a sua dimensão física, já que o capoeira possuía habilidades corporais de destreza, força e agilidade, apesar da carga de preconceito que pesava contra este sport. 105 De acordo com Melo (2007, p. 24) a capoeira constituiu-se uma prática característica da cultura popular brasileira, com base cultural africana e se vinculava ao regime escravocrata, na medida em que era “não apenas (...) instrumento de resistência física, mas também (...) um movimento de resistência cultural, de uma necessidade do negro de reconstruir sua identidade, de se fazer humano” (MELLO, 2002, p. 9). As características atribuídas à capoeira como atividade de vagabundos fizeram com que esta fosse proibida e muito perseguida nos finais do século XIX e início do XX. Entretanto, isso já acontecia no Rio de Janeiro desde 1821 (MELO, 2007, p. 23). Nesse sentido, Melo (2007, p. 24) afirma que sua proibição pode ser entendida no contexto de controle das camadas populares e eliminação de atividades consideradas ‘bárbaras’ e ultrapassadas, processo que também atingiu as brigas de galo e as touradas, bem como o Carnaval. O nome capoeira era sempre relacionado ao bandido, ao malandro, ao desocupado. Essa perseguição era bastante acirrada na corte carioca e Almeida Nogueira citou, com tom elogioso, os feitos de um ex-estudante, José Batista de Sampaio Ferraz, da turma de 1874-1878. Após sair da Academia Jurídica de São Paulo e ocupar cargo de chefe de polícia no início da República na cidade do Rio de Janeiro, “tornou-se memorável e digna do reconhecimento da população fluminense a sua acção efficazmente repressora da capoeiragem, flagello tradicional que deshonrava a capital brazileira e constituia uma força temerosa que zombava de todos os governos” (NOGUEIRA, 1912, v. 9, p. 259). Desse modo, vê-se que as representações sobre a capoeira no século XIX e inícios do XX ainda tinham o medo como elemento de destaque (MELLO, 2002, p. 3), o que também se corroborou nos relatos de Almeida Nogueira, que relatou casos em que a população de São Paulo se mostrava temerosa e atribuía aos capoeiras muitos dos “tumultos e ajuntamentos nocturnos que tanto incommodaram e perturbaram a tranquillidade publica” (NOGUEIRA, 1908, v. 4, p. 81). Apesar dessas questões, foi possível identificar que a capoeira, tão perseguida e proibida, também foi utilizada para algumas causas nacionais, como no caso da participação de alguns capoeiristas na Guerra do Paraguai (MELO, 2007, p. 24) e servia, ainda, como defesa para as próprias autoridades que as combatiam. No caso do próprio Sampaio Ferraz, que por conta da perseguição aos capoeiristas muitas vezes “arriscou a vida, e não raro teve de defenderse pessoalmente, empregando os próprios recursos da coragem, da força e da destreza 106 physica, que adquirira, tornando-se ele mesmo, segundo era fama, um valente capoeira” (NOGUEIRA, 1912, v. 8, p. 259). Os dados coligidos no Gráfico II mostraram que a capoeira pouco alterou seu percentual de recorrências ao se comparar os dois períodos marcados no gráfico, passando de 7,5% para 9,1%. Os relatos de Almeida Nogueira apontaram, ainda, que a capoeira estava muito em honra entre os estudantes. Na giria hodierna poder-se-ia dizer que estava — na ponta! Houve, mesmo, quem se lembrasse, tempos depois, de fundar em S. Paulo uma escola de capoeiragem. E era um capitalista importante, então na sua completa integridade mental — o general Couto de Magalhães (NOGUEIRA, 1907, v. 1, p. 205). Nesse sentido, obra de Almeida Nogueira auxilia a pensar sobre as representações postas na Academia acerca daqueles estudantes capoeiristas, como no caso do estudante José Joaquim Ferreira Veiga, da turma de 1832-1836, que tanto pelo seu physico, como pela força de que era dotado, tinha feito jus (...) a um appellido, que o popularizara. O Boi — era como toda a gente lhe chamava. Até em documentos officiaes elle era assim designado (...). De facto, destro capoeira, de espirito irrequieto e animo alevantado, elle constituira-se chefe de numeroso bando de populares (NOGUEIRA, 1909, v. 7, p. 69). A partir desses apontamentos e da leitura do conjunto da obra do memorialista foi possível notar que entre os estudantes a capoeira representava certo “status”, funcionando, dentro da Academia, como elemento de distinção. Esta visão se distanciava das representações estigmatizantes das autoridades e sociedade daqueles tempos, quando vinculavam a figura do capoeirista à do vadio, delinquente. Essas relações podem ser feitas ainda se for levado em conta alguns espaços frequentados pelos estudantes daqueles tempos de Academia que circulavam por bares, pelas ruas, festas populares. Sendo um bom capoeirista, o estudante poderia fazer uso do conhecimento da capoeira em defesa própria, caso algum conflito ocorresse. Assim, vê-se que as representações sobre a capoeira se davam de maneira conflituosa e, até mesmo, distinta se for levado em conta a percepção dos estudantes, da população e das autoridades naquele período. Dessa forma, constata-se que essa prática não era característica apenas de escravo, de pobre, de vadio, mas, também, de estudantes da elite que a viam como instrumento de defesa e “status” e, mesmo, das próprias autoridades que a combatiam. Entorno da Academia, as representações acerca 107 da capoeira eram diversas. Vale considerar, ainda, as redes de interdependências existentes entre estudantes e escravos, apresentada no Capítulo II desta dissertação. Essa questão ajuda a levantar a hipótese de que havia alguma proximidade entre os futuros bacharéis e seus “criados de república”, o que pode ter contribuído para a disseminação da capoeira entre os estudantes. Outro sport praticado pelos estudantes era a esgrima. De acordo com Soares (2002, p. 20), a ginástica também abarcava a esgrima como uma de suas práticas. Entretanto, Almeida Nogueira, faz referência à esgrima como um sport distinto do que ele considerava como ginástica. Conforme discuti anteriormente, Almeida Nogueira entendia por ginástica práticas que se ligavam ao mundo circense. A esgrima estava mais vinculada à ginástica militar e de cunho mais elitizado, o que explica a opção por analisá-las separadamente neste estudo. Melo (2007, p. 67) aponta que apenas no final do século XIX é que a esgrima teve uma organização mais voltada para o campo esportivo: em “1898, na cidade de São Paulo, quando três italianos abrem uma sala de armas” (MELO, 2007, p. 67-68). Segundo Campos e Ribeiro (2007), a esgrima constituiu-se, ao longo dos tempos e de diferentes maneiras, como instrumento histórico, visto que sua utilização foi necessária ao longo dos tempos para sobrevivência, defesa, caça, conquista de territórios. Campos e Ribeiro (2007, p. 68), afirmam, ainda, que a esgrima foi perdendo sua característica bélica, ficando reservada ao campo esportivo. No Brasil, a prática da esgrima foi identificada, sobretudo, no Império, por conta do interesse de Dom Pedro II e, em 1858, foi “estabelecida a esgrima regimentalmente para os cursos de Infantaria e Cavalaria da Escola Militar de Realengo, havendo, inclusive, a fundação de uma escola de esgrima no Batalhão de Caçadores de São Paulo” (MELO, 2007, p. 67). Na obra de Almeida Nogueira, fonte principal deste capítulo, constatei que a esgrima fez parte do cotidiano na Academia Jurídica de São Paulo e, a partir do Gráfico II anteriormente apresentado, foi possível notar que houve uma diminuição no percentual de recorrências dessa prática entre os anos de 1827-1866 e 1867-1878, passando de 8,3% para 4,6%. Essa redução pode se relacionar à questão das novas práticas culturais que passaram a circular na cidade com seu desenvolvimento a partir de 1870, o que corrobora com a constatação de que Almeida Nogueira não fez nenhuma referência em sua obra acerca dessa prática sportiva na década de 1870. Os relatos de Almeida Nogueira possibilitaram identificar alguns “assaltos d’armas” na 108 própria Academia. Dentre eles, um que aconteceu na quadra acadêmica de 1855-1859, desafio que ocorreu entre o estudante Leopoldo Henrique Castrioto e o professor de esgrima Perigout. De acordo com Almeida Nogueira (1908, v. 5, p. 242), esse assalto d'armas convergiu a attenção de toda a Academia e de grande parte da população paulistana, e o seu desenlace assignalou ruidoso successo para o Castrioto, que por muitos pontos levou de vencida o professor de esgrima. Não parou ahi a caipora do velho mestre d'armas, pois foi mais tarde batido egualmente pelo commendador Felicio noutro assalto que também se tornou afamado. Ao que parece, estudantes e professores, juntamente com os mestres de esgrima, se envolviam nessa prática sportiva, formando grupos, como constatado em trecho da descrição acerca do estudante Joaquim Mendes Malheiros, do quinquênio de 18481852, que “gostava de esgrima e tinha como companheiros e adversarios nesse sport o Chico Gomide, o Francisco Bueno (mais tarde Visconde da Cunha Bueno), o Gil, o Porfyrio de Lima e o Benicio, todos, como elle, moços valentes” (NOGUEIRA, 1909, v. 7, p. 131-132). Além disso, percebe-se, ao longo das narrativas de Almeida Nogueira, que havia algumas diferenças entre esses grupos que se formavam, como se verifica na exposição do caso do estudante José Calmon Valle Nogueira da Gama, da turma de 1855-1859, que “primava na arte da esgrima, a ponto de ter discipulos, entre os quaes se distinguiu o Basson, seu companheiro de casa. Acostumado aos habitos da Corte, acoimava de barbara a escola do Jesuino de Almeida” (NOGUEIRA, 1908, v. 5, p. 215). Na produção de Almeida Nogueira, as representações acerca dos praticantes da esgrima se relacionam aos que têm “força hercúlea”, “ágil, forte, destro e valente”. Entretanto, essa prática não era tida como bárbara, como no caso da capoeira e, ao contrário, era a autorizada e mesmo requerida dentro da Academia, como pode ser visto anteriormente quando os assaltos d’armas eram realizados naquele espaço. Isso porque a esgrima era considerada uma prática da elite e entendida como elemento importante de formação (MELO, 2007, p. 67). Um exemplo dessa prática que se insere na educação da elite e de influência europeia pode ser verificado com a exposição do memorialista sobre o estudante Clemente Falcão de Souza Filho, do quinquênio de 1851-1855: O seu velho e extremoso pae havia-lhe dado primorosa educação, não somente literaria como também artistica e mesmo physica. Assim, além de versado nas letras clássicas, e conhecendo a fundo todas as disciplinas da 109 instrucção secundaria, o Falcãozinho, como lhe chamavam, sabia musica, tocava piano com maestria, conhecia a dansa, o desenho, a esgrima, a natação, cavalgava segundo a alta escola, etc, etc (NOGUEIRA, 1908, v. 3, p. 151-152). Apesar de estar historicamente ligada às elites bem educadas, isso não significava que parte da população menos favorecida não praticasse esse sport, como se notou em trechos das descrições do memorialista sobre o estudante de 1854-1858, Luiz Joaquim Duque-Estrada Teixeira. Nos anos de 1876-1877, em contato com Almeida Nogueira, Duque-Estrada fizera um relato sobre sua experiência com a esgrima. Afirmava que, devido à falta de adversário entre as pessoas da sua cattegoria social, esgrimia-se Duque-Estrada com um empregado da Camara dos Deputados, de nome Romualdo, seu protegido e a elle dedicadissimo. Quando o Romualdo era surrado, corria tudo muito bem e, não raro, era gratificado com algum presente. Si, porém, elle estava com a mão feliz o conseguia attingir com o botão do florete o plastron de Duque-Estrada, irritava-se este: — Espera, mulato atrevido! Tu me pagas neste instante... Immediatamente o Romualdo se retrahia e, magoado com a invectiva, recusava continuar o combate. — Vamos, insistia o Duque-Estrada, desesperado pela desforra, toma o florete! — Não senhor, sr. doutor. O sr. offende a gente ... — Deixa disto! Não está ouvindo? Toma o florete, dizia elle, menos iroso; põe-te em guarda! E não havia resistir. Continuava, pois, a peleja até que o Duque-Estrada com a sua real superioridade acabava batendo o seu respeitoso adversario (NOGUEIRA, 1907, v. 1, p. 201-209). Foi possível constatar que a esgrima, por ser uma prática vinculada à elite, não sofria resistência dentro da Academia e que, mesmo sendo uma prática “civilizada”, por vezes sujeitos de categorias sociais consideradas “inferiores” praticavam este sport, conforme a citação acima. O último sport a ser tratado nesta dissertação é a peteca. Esta prática sportiva apresentou no Gráfico II poucos registros, que variaram entre 0,8% e 4,6% nos dois espaços de tempo marcados no gráfico mencionado. Como nos casos de alguns sports que não apareceram entre os anos de 1867 e 1878 (canoagem, remo, corrida, briga de galo, patinagem, futebol e boxe) a peteca foi pouco praticada pelos estudantes, visto o baixo número de suas recorrências ao longo de todo obra, mencionada apenas duas vezes. Isso mostra que essa prática foi realizada por algum estudante ou mesmo por determinado grupo de acadêmicos de um período. Nesse sentido, essa prática sportiva 110 não pode ser tomada como as caçadas, a natação ou a pesca, sports que agregavam muitos grupos de estudantes e que foram mencionadas em números muito superiores ao longo da obra. Esse jogo possivelmente foi considerado um sport por Almeida Nogueira visto a sua vinculação com a diversão, como será visto a seguir. De acordo com (HORDONES e BARBOSA, s/d, p. 3), a peteca era praticada como passatempo pelos nativos indígenas, mesmo antes da colonização portuguesa e este vocábulo tem como raiz a palavra “peté”, que no tupi significa bater com as mãos. Sobre a feitura da peteca, os mesmos autores (s/d, p. 4) indicam que ela poderia ser feita com palha de milho, pano ou couro, recheada de algodão ou cortiça, com penas de variadas espécies, como galinhas e perus, coloridas ou não. Através dos estudos de Bruno (1984, p. 1.175), foi possível verificar que na década de 1870 existiam, em São Paulo, pequenas oficinas de trabalhos manuais destinadas à produção de petecas de couro. Assim, apesar da sua pouca recorrência na obra de Almeida Nogueira, deve-se pensar que a prática da peteca como diversão se encontrava enraizada na cultura brasileira. A primeira referência de Almeida Nogueira a este sport diz respeito a Antonio Augusto da Fonseca, da turma de 1845-1849: apezar de toda a sua gravidade e do seu physico pesadão, o dr. Fonseca era muito dado ao jogo da peteca [...]. Entregava-se em casa a esse exercicio, de parceria com a sua esposa. Não tinham filhos. Frequentemente neste entretenimento, elle se esquecia de visitas e clientes (NOGUEIRA, 1907, v. 1, p. 92). A partir dos relatos do memorialista, nota-se que a essa prática de diversão estava, aos olhos do mesmo, vinculada às brincadeiras infantis, como pode ser percebido na narrativa que se segue sobre o estudante Durãozinho, da turma de 18691873, que mesmo depois de formado manteve “alguns habitos da meninice, por exemplo — o jogo da peteca [...] e quem fosse á sua casa, era pr'alli! havia de jogar petéca com elle. Uma vez, disse-nos elle que até ao vigário reduziria, ou antes, induziria áquella diversão” (NOGUEIRA, 1907, v. 1, p. 308). O caráter infantil relacionado à peteca por parte de Almeida Nogueira pode estar relacionado ao fato de essa prática ainda não ter iniciado sua organização como esporte quando sua obra foi escrita, o que só aconteceu muito mais tarde35. E, ainda, percebe-se 35 A institucionalização da peteca só aconteceu por volta de 1920 na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais (HORDONES e BARBOSA, s/d). 111 que não havia espaços públicos destinados à pratica da peteca, constituindo-se este um sport praticado no âmbito privado. Após investigar as práticas de diversão empreendidas pelos estudantes da Academia Jurídica de São Paulo, a partir do tratamento quantitativo e da análise histórica dos indícios qualitativos levantados na obra de Almeida Nogueira, pude compreender a dinâmica pela qual passou o conjunto das práticas de diversão empreendidas pelos sujeitos da Academia, sem perder de vista o contexto histórico vivido, que se inseria em um processo civilizador, de urbanização. Ao analisar as práticas de diversão em seu conjunto e perceber como elas se distribuíam ao longo do tempo, percebi que as práticas vinculadas à produção de artefatos da cultura escrita passaram a ser mais recorrentes que as corporais e de diversão, especialmente após a década de 1860. Todavia, como pôde ser visto neste último capítulo, as práticas corporais e de diversão continuaram a ser recorrentes entre os estudantes. Os sports apresentados neste estudo possibilitaram o entendimento de muitas das representações estabelecidas entre os sujeitos envolvidos na configuração “Academia Jurídica – cidade de São Paulo”. As representações sobre as práticas de diversão eram diversas, podendo ser até mesmo opostas. Além disso, os embates vividos entre os estudantes e a população da cidade de São Paulo puderam ser problematizados e melhor compreendidos. Nesse contexto, percebi que as redes de interdependências estabelecidas entre os sujeitos na configuração em estudo eram complexas e mutáveis. Ainda, os espaços em que se produziam diversão também eram espaços intersticiais, que cotidianamente possibilitavam algum tipo de aprendizado. Nesse sentido, considero que as práticas de diversão constituíam parte do processo educativo daqueles sujeitos, entendendo a educação de uma forma mais ampla, como educação dos costumes, que se dá para além das salas de aula. 112 CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise histórica dos indícios levantados a partir da obra de Almeida Nogueira, através de uma abordagem quanti-qualitativa das práticas de diversão dos estudantes da Academia Jurídica, permitiu a compreensão da dinâmica pela qual passaram essas práticas e como as mesmas se inseriam no contexto histórico de civilização e urbanização que vivia a cidade de São Paulo. A inauguração da Academia em 1827 fez com se formasse uma nova configuração na cidade e, por isso, a instituição de novas redes de interdependências e níveis de integração foram estabelecidas entre os sujeitos nela envolvidos. Nesse sentido, a balança eu-nós da cidade iniciou um processo de mudança com a presença dos estudantes, o que foi visto no Capítulo II desta dissertação, que mostrou que os estudantes passaram a ser presença constante em espaços da cidade que, antes da inauguração da Academia, eram frequentados quase que exclusivamente pela população local. Os estudantes participaram da criação do espaço da Academia e recriaram os espaços de diversão em seu entorno e na cidade de São Paulo, constituindo-se a própria Academia Jurídica como um desses espaços de diversão. As redes de interdependências estabelecidas na configuração “Academia Jurídica – cidade de São Paulo” eram complexas, mutáveis e permeadas por tensões, conforme inspiração encontrada nas obras de Elias (1994, 1993). A partir da análise das práticas de diversão e, mais especificamente dos sports, foi possível compreender muitos dos embates vividos entre os estudantes e a população da cidade, como mostraram, por exemplo, as análises sobre as caçadas e a capoeira. Constatei a atuação pouco coerente das autoridades policiais com relação às estudantadas, na medida em que alguns estudantes recebiam punições mais severas e outros não. A vida de estudante permitia os excessos, um afastamento autorizado das normas. Nesse sentido, sendo um tempo de passagem, permitia-se que se cometessem algumas estudantadas. Socialmente, o tempo de estudante não é só o da seriedade, do comprometimento, sendo também o tempo no qual são permitidos alguns excessos. As estudantadas eram, portanto, autorizadas, dentro de certos limites e mesmo assim não sem tensões, uma vez que a Academia tentava moldar os futuros bacharéis. As descrições de Almeida Nogueira acerca dos sports mostraram que as práticas de diversão ganhavam sentidos e significados diversos, dependendo de suas origens e de 113 suas ligações com o contexto da época. Práticas sportivas distintas, como a equitação, a ginástica, a capoeira e a esgrima ganhavam significados variados a partir dos sentidos que os grupos lhes atribuíam. A dinâmica da configuração “Academia Jurídica – cidade de São Paulo” era permeada por redes de interdependências que se modificavam e se sobrepunham. Nesse sentido, pude perceber que as representações acerca dos sports eram diversas e que essas práticas de diversão interferiam na distribuição de poder entre os próprios estudantes e entre esses e o restante da população, movimentando as redes de interdependências estabelecidas no ambiente da Academia e em seu entorno. A pesquisa me permitiu descobrir que entre os próprios estudantes havia embates e que estes não ficavam apenas no crivo das questões políticas, especialmente quando se toma como objeto de análise as outras práticas de diversão vivenciadas por aqueles sujeitos. Pude perceber que, na medida em que essas questões ganharam força no cenário histórico brasileiro, houve uma maior dedicação dos estudantes à cultura escrita vinculada à política, com a produção de uma imprensa periódica própria dos estudantes. Entretanto, isso não significou que os estudantes cessaram com as outras práticas de diversão, mas, sim, que essas estudantadas, mudaram suas características tendo em vista, também, o processo de urbanização e de civilização pelo qual passava a cidade de São Paulo. As questões históricas tratadas nesta dissertação revelaram as mudanças pelas quais a cidade e a Academia passaram ao longo do período abarcado pela obra de Almeida Nogueira e que essas transformações se intensificaram a partir de 1870. As mudanças trazidas por esse processo dinâmico também puderam ser observadas quando realizei o tratamento quantitativo dos dados referentes aos sports. Algumas das práticas sportivas realizadas pelos estudantes passaram por oscilações quanto à sua indicação na obra de Almeida Nogueira, desaparecendo ou mesmo aumentando suas recorrências ao longo do tempo. Essas mudanças estavam intimamente vinculadas ao contexto histórico pesquisado. A análise do conjunto das práticas de diversão ao longo do tempo mostrou que os limites entre o rural e o urbano não estavam bem definidos na cidade de São Paulo. Foi possível perceber que a cidade encontrava-se em processo de urbanização (como pôde ser visto com a construção da Ilha dos Amores no ano de 1875 e do Hipódromo em 1876) e, ao mesmo tempo, guardava algo de rural (como revelaram as práticas das caçadas e da pesca). Nesse sentido, Elias auxiliou-me a pensar nesse processo de 114 mudança que se esboçava na cidade na década de 1870. Mudanças que não eram planejadas, nem mesmo isoladas, mas, sim, conflituosas, tensas e sobrepostas. Ainda percebi que, na medida em que a cidade se civilizava, a população e os estudantes compartilhavam mais espaços de diversão e interesses. Espaços que propiciavam o convívio e o estabelecimento de relações sociais diversas. Com o processo de urbanização da cidade, tais espaços foram se especializando, como a aludida construção da Ilha dos Amores e o Hipódromo, eventos que se inseriam em um processo civilizador. Faz parte deste processo civilizador uma educação dos costumes, entendida neste trabalho como tentativa de padronização de comportamentos e de refinamento de práticas que buscam a disciplina dos sujeitos a partir de critérios de época, considerados então como civilizados. Assim, as regras que procuram moldar os sujeitos na tentativa de controlar seus impulsos e de adequá-los ao padrão de conduta desejado de civilização e de civilizado são construídas de modo processual, historicamente. As práticas de diversão se inserem nesses processos históricos, que se relacionam com um processo de formação dos sujeitos. 115 FONTES A Academia de São Paulo. São Paulo: 2 abril de 1876, ano I, n. I. (Arquivo Público do Estado de São Paulo- SP). Almanach Litterario de São Paulo. Publicado por José Maria Lisboa. São Paulo: Typographia da Província de São Paulo, Anos: 1876, 1877, 1878. O Catholico. São Paulo: 22 de junho de 1876, ano I, n. I. (Arquivo Público do Estado de São Paulo- SP). 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