131 Letras Aprendizagem da Língua Inglesa pelos Adolescentes do Município de Osasco sob uma Visão de Mundo Globalizado Taís Fontes Nakamura Suman Pesquisadora Profª Drª Rosa Sílvia López Orientadora Resumo Este texto visa analisar o porquê alunos adolescentes de uma escola de idiomas no subúrbio do município de Osasco estudam a Língua Inglesa. Para isso, é necessário primeiro conhecer o processo pelo qual a língua passou a ser tão importante para os brasileiros, pois o motivo que muitos adolescentes possuem para aprendela é apenas uma idéia massificada. Dessa forma, propõe-se conhecer os valores da Língua Inglesa com a finalidade de descobrir a melhor maneira de propiciar uma aprendizagem da língua sem o risco de uma frustração ou de uma obrigatoriedade. Palavras-chave: Aprendizagem – Língua Inglesa. Capitalismo. Globalização. Massificação. Valor de troca. Valor de uso. Literatura. Abstract This text directs to analyze why adolescent students of a language school in Osasco study English. For this purpose, first of all, it is necessary to know the process through which the language has been too much important to Brazilians, for the motivation which many students have had to learn is to belongs to a mass produced idea. In this way, it is suggested to know the English values in order to find out the best way of giving a language learning without the risk of a frustration or an obligation. Key words: Learning – English. Capitalism. Globalization. Mass produced. Change value. Use value. Literature. Revista PIBIC, v. 1, n. 1, p. 131-139, 2004 Taís Fontes Nakamura Suman 132 Introdução de aula. Por fim, concluir-se-á uma proposta conivente A idéia de a Língua Inglesa ser atualmente a língua franca – o instrumento de comunicação que prevalece a fazer da aprendizagem da Língua Inglesa uma conquista prazerosa do conhecimento. em acordos diplomáticos, em transportes como aviões e navios em viagens internacionais e em muitas outras situações – tornou-se tão comum e aceitável que obscurece qualquer outra possibilidade de uso. Conseqüentemente, sua aprendizagem está vinculada muitas vezes à obrigatoriedade e ao utilitarismo, podendo, assim, seu conhecimento trazer uma frustração ao invés de prazer. 1 A Aprendizagem da Língua Inglesa nas Escolas O conhecimento de uma língua estrangeira na sociedade em que vivemos é um fator ligado aos nossos relacionamentos. A Língua Inglesa é o principal instrumento que conduz muitos brasileiros, em especial os adolescentes, a se dedicarem à nova Essa exigência tem mudado o conceito de conhe- ordem – a globalização. Assim, isso implica em dar cimento de uma língua estrangeira. Uma massificação mais atenção à educação brasileira em relação ao global é ocasionada pela dependência econômica, ensino dessa língua. política e também cultural de países em desenvolvimento, como o Brasil, em relação aos países de língua inglesa. Dessa forma, aprender a Língua Inglesa tem sido prioridade aos brasileiros preocupados com a sobrevivência num mundo onde a tecnologia dos meios de comunicação unifica povos e nações com muita agilidade. Nas escolas públicas e nas escolas particulares brasileiras, de ensino fundamental e médio, a Língua Inglesa é estudada como Língua Estrangeira Moderna. A importância dessa disciplina não se iguala a outras disciplinas como a Matemática ou a Língua Portuguesa. A carga horária é um exemplo, pois há quatro aulas de Língua Portuguesa por semana e Refletir sobre a aprendizagem da Língua Inglesa apenas duas de Língua Inglesa. Assim, o resultado dentro do contexto de mundo globalizado possibilita da aprendizagem da Língua Inglesa no ensino a compreensão dos motivos externos (fora da sala fundamental e no ensino médio (11 anos letivos no de aula) de adolescentes que estudam em uma escola total) pode ser questionado em relação a sua eficácia. de idiomas em Osasco. Assim, este texto tem em vista questionar se esses adolescentes estudam a Língua Inglesa ou para uma satisfação pessoal ou para ascensão social e econômica. Há também um grande número de escolas particulares de idiomas que oferecem um ensino diferenciado do trabalhado no ensino fundamental e no ensino médio, com uma ênfase maior na O fato é que depois de alguns semestres estudando proficiência da língua. Na maioria dessas escolas, a a Língua Inglesa, muitos alunos não se sentem proposta oferecida para o aluno é comunicar-se como satisfeitos com o aprendizado. Por isso, há um um nativo. O custo nessas escolas varia conforme a questionamento sobre a eficácia do curso, ou sendo localização, público alvo e o tradicionalismo também, o método ruim ou o professor, um incompetente. O ou seja, as escolas mais tradicionais são consideradas problema, porém, está no valor atribuído à língua. as melhores, porém com um custo mais elevado. Por conseguinte, faz-se necessário um estudo A preocupação em relação ao aprendizado da teórico e uma pesquisa de campo para contrastar Língua Inglesa no Brasil é um fator que, cada vez teoria e realidade em sala de aula. No âmbito da mais, torna-se um complexo gerador de capital, análise teórica, é importante o estudo do processo participando ativamente de nossa economia. Há pelo qual a Língua Inglesa tornou-se a língua escolas particulares de idiomas, por exemplo, estrangeira mais exigida no Brasil. Em seguida, a atendendo a um público de profissionais na área da pesquisa de campo mostra a realidade do aluno comunicação e do comércio – alunos mais adolescente em relação aos conceitos trazidos à sala preocupados com a oralidade – outras escolas Revista PIBIC, v. 1, n. 1, p. 131-139, 2004 Aprendizagem da Língua Inglesa pelos Adolescentes do Município de Osasco atendem a um público mais jovem, preparando-os Pode-se notar, por essa descrição, o ambiente de para uma universidade no exterior. No entanto, há pesquisa. Esse fator também é significativo nas escolas para um público mais restrito, a elite. E, por análises sobre a aprendizagem. Os alunos pertencem fim, há escolas, a maioria localizadas no subúrbio, a uma classe social média que também sente a para um público de classe média que também sente necessidade de aprender uma língua estrangeira para a necessidade do conhecimento de uma língua manter-se em contato com o mundo. Contudo, esses estrangeira. alunos têm um conceito equivocado do valor do Como estudo de caso, a pesquisar sobre a aprendizagem da Língua Inglesa por adolescentes foi realizada em uma escola de idiomas no município de conhecimento da língua, pois eles possuem uma visão do mundo estipulada pela mídia – uma ideologia massificadora. Osasco. Esta se localiza no Jardim Cipava, no subúrbio onde os moradores possuem várias facilidades como agências bancárias, escolas públicas e particulares, farmácias, mercados e padarias. Todavia, o bairro carece de bens culturais, pois não há cinema, teatro nem mesmo um centro cultural que poderia oferecer aulas de teatro ou aulas de instrumentos musicais. Portanto, se os moradores quiserem usufruir bens culturais, devem procurá-los no centro da cidade e mesmo assim apenas 2 Da Dependência à Massificação A Língua Inglesa no Brasil, depois da Língua Portuguesa, é a mais ouvida, lida e falada, embora o país esteja cercado de países de Língua Espanhola e a convivência de imigrantes de várias nacionalidades seja comum (ALVES: 1988). É possível, porém, perceber tal fato se observada com atenção, pois a predominância de elementos estrangeiros no cotidiano é muitas vezes encarada com naturalidade. encontrarão cinemas de circuito comercial. Por isso, produtos importados têm maior crediA escola oferece seus serviços a uma comunidade considerada classe média. As construções (casas e prédios) estão sempre em boas condições e na maioria destas há pelo menos um automóvel na garagem. Com as pesquisas em sala, foi possível observar que todos os alunos possuem aparelho de televisão e oitenta por cento deles vão bem vestidos às aulas. Por conseguinte, esse bairro concentra uma parte da sociedade que com muito sacrifício consegue bilidade do que os nacionais. Carros, aparelhos eletrônicos, alimentos e muitos outros itens importados (principalmente os americanos) são considerados melhores e até mais gostosos que os produtos fabricados ou produzidos no Brasil. Dessa forma, o país continua sendo um país dominado, um “importador de manufaturados, tecnologia e capitais do país dominador” (Ibidem, p.35). manter um estilo de vida mediano, mas não há acesso Isso causa uma dependência econômica, política a bens culturais para oferecer-lhes arte, literatura ou e conseqüentemente cultural, transformando o povo até mesmo um lazer que não esteja ligado à televisão. brasileiro numa sociedade consumista. Essa trans- Na maior avenida do bairro, ela dispõe de quatro salas de aulas, uma recepção, uma sala para a coordenação e dois banheiros. Em cada sala de aula, há carteiras almofadadas (no máximo 15 por sala), mesa do professor, aparelhos áudio-visual, lousa branca e em apenas uma sala, um ar condicionado. As paredes internas são brancas e as externas amarelas com alguns detalhes em azul. No geral, a formação iniciou-se com a dependência econômica para com os norte-americanos, que aumentou a partir de 19211, com a crise do café, tendo o Brasil que recorrer a constantes empréstimos (PAIVA, 1998). Por conseguinte, o governo americano com seu poder de país dominador começa a influir sobre assuntos políticos brasileiros e interferindo na emancipação do país. escola está sempre limpa e organizada, oferecendo Objetivando a conquista de mercados na América sempre aos alunos um ambiente agradável para Latina, os americanos planejam uma estratégia de estudar. penetração cultural. Em 1940, o então presidente Revista PIBIC, v. 1, n. 1, p. 131-139, 2004 133 Taís Fontes Nakamura Suman 134 Franklin Roosevelt criou um “Birô” conhecido oficial- nizados e repetitivos, são resultados da produção de mente por “Office of the Coordinator of Inter- mercadorias culturais por meio de formas de manu- American Affairs” (ALVES, 1988, p.40-41), cuja fatura rotineiras, seriadas, especializadas e fragmen- finalidade oficial foi a “cooperação interamericana e tadas. [...]”. a solidariedade hemisférica”. Essa idéia de solidariedade hemisférica foi transmitida através de recursos oferecidos para o setor de informações, educação, saúde e alimentos. A cultura de massa2 passa a ser vista como um produto que deve ser consumido como qualquer outra coisa (COELHO: 1996). O cinema americano é um exemplo, pois através dos filmes é introduzido entre O setor de informações, através dos meios de nós o American Way of Life, convencendo nos que comunicação de massa (rádio, cinema, imprensa), suas músicas, roupas, comidas e costumes são facilitou a disseminação do American Way of Life. melhores que os nossos. Esse estilo de vida americano, explica Alves (1988, p.41), é “oferecido como modelo de modernidade e progresso, e utilizado como estímulo para o consumo [...]”. É o que em outras palavras Strinati (1999, p.36) escreve: Muitos adolescentes sentem-se motivados para aprender a Língua Inglesa assistindo aos enlatados americanos (filmes holywoodianos). Esse é o caso de uma aluna, que chamaremos de Luciana, de 16 anos, que tem consciência da influência da cultura [...] Por ser concebida como resultado da produção industrial e do consumo de bens culturais, é relativamente fácil identificar os Estados Unidos como a terra natal da cultura de massa, uma vez que é a sociedade capitalista mais associada a tais processos. Uma grande quantidade de produtos culturais vem dos Estados Unidos, portanto a americanização torna-se também uma ameaça, um perigo não só para os padrões estéticos e os valores culturais, mas para a própria cultura nacional. Assim, tanto os bens materiais como também a própria cultura recebem um tratamento industrial. Em seu livro, Coelho (1996, p.10) observa que é a industrialização: [...] através das alterações que produz no modo de produção e na forma do trabalho humano, que determina um tipo particular de indústria (a cultural) e de cultura (a de massa), implantando numa e noutra os mesmos princípios em vigor na produção econômica em geral: o uso crescente da máquina e a submissão do ritmo humano de trabalho ao ritmo da máquina; a exploração do trabalhador; a divisão do trabalho. Estes são alguns dos traços marcantes da sociedade capitalista liberal, onde é nítida a oposição de classes e em cujo interior começa a surgir a cultura de massa. americana em nossa sociedade, mas, mesmo assim, adora filmes e muitas outras coisas americanas. No trecho a seguir, ela cometa sua visão sobre a Língua Inglesa no mundo e justifica a razão de aprender tal língua: [...] Most of the movies that are seen around the world are North American movies, so they are originally in English. [...] With the invasion of North American products, people in many countries started to follow the American culture, and the world became a kind of ‘americanized’. I am not proud to say that I am one of those people. I wish I could fight against the USA culture imposition, but I can not. They have already ‘corrupted’ me. I love their music, I love McDonald’s and I am crazy about their movies and TV shows. Well ... if you can not fight the enemy, join him! I want to take part in the world. [...]3 Esse depoimento é muito comum entre os adolescentes. Eles reconhecem que a Língua Inglesa é muito importante nos dias de hoje, mas não mostram preocupações com a massificação cultural causada pela nossa dependência econômica e política. Eles assistem aos filmes, cantam (repetem) as músicas e A literatura, a arte, a religião, a ciência, as atividades comem McDonald’s sem saberem que estão inge- lúdicas, o humor, etc são considerados possibilidades rindo uma cultura que é imposta de maneira tão de produção de lucro. Isso significa que através de natural que não causa revolta e sim prazer. Em suma, um interesse capitalista há uma padronização Strinati (1999) explica que o objetivo da cultura de seguindo as regras do mercado. (ALVES: 1988, massa é definir a realidade social para um público p.61). Com isto está de acordo Strinati (1999, p.28) massificado, simplificando o mundo real e encobrindo que diz: “[...] Os produtos da cultura de massa, padro- seus problemas. Revista PIBIC, v. 1, n. 1, p. 131-139, 2004 Aprendizagem da Língua Inglesa pelos Adolescentes do Município de Osasco E uma das estratégias que a cultura de massa usa que não pode ser ignorado, é o patrocinador. Como para alienar as pessoas é o divertimento. De acordo uma jogada de marketing, uma empresa de bebida com Coelho (1996, p.23), “procurando a diversão, alcoólica financia um evento de dois dias para a indústria cultural estaria mascarando realidades adolescentes com o objetivo aparente de fornecer intoleráveis e fornecendo ocasiões de fuga da música, mas com o intuito de vender muita cerveja. realidade”. Depois do cinema, outro item de diversão Poderia ser tudo normal se não fosse um festival para que a indústria cultural oferece principalmente para adolescentes, a maioria menor de 18 anos, que, por o público jovem é a música – muitas são divulgadas fim, consideram consumir bebida alcoólica algo normal nos próprios filmes e em seriados para televisão. para suas idades. Dessa forma, a empresa consegue entrar na mídia, fazendo propaganda de seu produto, The strongest force in international youth culture today is pop music. Music has universal appeal. The popularity of the satellite TV channel MTV is evidence of this: their pop videos play in every corner of the planet, from Stockholm to Sofia, from Athens to Atlanta, and since most of the songs are in English, kids from all over the world learn to sing in English too4. e conquistar um público consumidor jovem, disposto a se tornar um consumidor fiel. Conclui-se, então, que a indústria cultural não oferece nada que desperte a consciência crítica das pessoas contra a massificação em que a nossa Muitos adolescentes cantam e dançam músicas sociedade encontra-se. na maioria em inglês. Assim, com elas eles aprendem a língua ou apenas cantam repetindo as canções sem saberem ao certo o que significam. Com seus ritmos dançantes, as músicas, às vezes, repetem sempre o mesmo refrão, isto é, não há conteúdo. Os adolescentes, porém, adoram ouvir esse tipo de música passando horas ouvindo rádio, os CD preferidos ou assistindo aos programas de televisão que transmitem os clips, shows ou entrevistas de seus grupos e 3 Uma Língua Global Outro recurso oferecido pelo Birô foi para o setor da educação. Estudantes latino-americanos foram para os Estados Unidos com o objetivo de conhecerem o “alto nível” da civilização americana para que na volta divulgas-sem as “maravilhas” lá encontradas (ALVES: 1988). Esse intercâmbio cultural promovendo a divulgação dos interesses cantores favoritos. capitalistas dos Estados Unidos tem estabelecido o Em São Paulo, no dia 20 de abril de 2002, houve o Skol Beats – considerado o maior festival de música conceito de que a Língua Inglesa está se tornando a segunda língua universal. eletrônica da América Latina. O artigo “Batidas em alta rotação” de Garcia na revista Época (2002), Atualmente, a Inglaterra, país de Língua Inglesa e explica um pouco sobre o festival e suas atrações. que também tem interesses capitalistas, auxilia os Segundo Garcia, o público estimado em 40 mil Estados Unidos nesse intercâmbio. Paiva (1998, pessoas fica das 16 horas do dia 20 até às 10 do dia p.14) explica que ambos países “contribuem para a seguinte acompanhando as 54 atrações, entre elas promoção da língua através de organismos como o nacionais e internacionais (para isso a pessoa deve Conselho Britânico e o USIS (Departamento de desembolsar R$ 45,00). Uma dessas atrações mais Divulgação e Relações Culturais dos Estados Unidos populares é a dupla inglesa Groove Armada, que teve da América)”. Assim, a Língua Inglesa fica respon- o sucesso “My Friend” incluído na trilha da novela O sável em carregar conceitos de civilizações ocidentais Clone e vem dominando as pistas com “Superstylin”. para vários povos do mundo. Assim, o Skol Beats é um exemplo de produto da indústria cultural com o objetivo de manter principalmente o público jovem em contato com as tendências nacionais e internacionais. Depois da Segunda Guerra Mundial, Institutos Brasil – Estados Unidos incentivaram o ensino da Língua Inglesa organizando cursos e escolas. Com o tempo, o inglês foi substituindo o francês como língua de Outro ponto de vista sobre esse festival de música, maior prestígio da elite. E como símbolo de status, Revista PIBIC, v. 1, n. 1, p. 131-139, 2004 135 Taís Fontes Nakamura Suman 136 saber inglês tem sido associado a sucesso profissional. A este respeito, Hamer (1996, p.1) diz: A internet é um exemplo de tecnologia moderna que tem sido um modo de intercâmbio entre os povos. Ela também é responsável pela união da informática Some people want to study English (or another foreign language) because they think it offers a chance for advancement in their professional lives. They will get a better job with two language than if they only know their mother language. English hás a special position here since it hás become the international language of communication5 . e a Língua Inglesa, pois para um simples bate-papo ou uma conferência, a internet facilita a comunicação entre as pessoas de qualquer lugar do mundo e, o que é mais interessante, no conforto de seus lares ou em qualquer lugar que se encontre um computador. Contudo, o sucesso profissional não está apenas na satisfação pessoal, mas também no objetivo de se receber um bom salário. Por isso, num mundo capitalista, a Língua Inglesa é um bom investimento para se crescer financeira e socialmente. Essa é a idéia de mais de 50% dos alunos entrevistados que responderam a simples pergunta: Por que você estuda inglês? Isso significa globalização. Strazzacappa e Montanari (2000, p.11) definem em poucas palavras esse fenômeno como uma ”tendência crescente de unificação de todos os povos e países da Terra, tornandoos cada vez mais interdependentes, tanto em termos econômicos quanto socioculturais”. Portanto, para que o indivíduo consiga seu lugar A seguir, temos os respectivos depoimentos de Aline, Paula e Gustavo6, que estão entre os 14 aos nesse mundo globalizado, deve preocupar-se com a manutenção de sua educação. Os intercâmbios econômicos, políticos e culturais são considerados 17 anos, sobre o assunto: importantes para as relações humanas nesse mundo [...] No mundo existem diversas línguas, mas só o inglês conseguiu se tornar uma língua universal. Posso dizer que é um privilégio estar aprendendo esse idioma, pois sei que no futuro vou precisar muito e assim ter novas oportunidades na área do trabalho. rápido, onde a comunicação tem um papel funda- O inglês é uma das línguas mais faladas e importantes do mundo. O inglês é a língua da informática, dos negócios e da tecnologia. Ter conhecimento desse idioma facilita bastante a entrada no mercado de trabalho. Aprender idiomas, além de nos colocar em contato com outros povos e culturas, nos qualifica para obter um bom emprego [...]. nicação entre povos com interesses diversos. O inglês é muito importante atualmente para você construir seu futuro. Na busca por empregos quem tem a Língua Inglesa no currículo tem mais crédito nas empresas. Atualmente, você é quase obrigado a falar inglês. Mas nunca esquecendo da nossa língua portuguesa que também tem sua importância. Dessa forma, é possível perceber a ligação da língua com um futuro profissional promissor. Esta vinculação mental – não há sociedade sem comunicação (PETTER, 2002, p11). Assim, a Língua Inglesa como língua franca (língua global) faz parte dessa comu- 4 Os Valores do Conhecimento da Língua Inglesa A aprendizagem da Língua Inglesa no ensino fundamental e no ensino médio, tanto nas escolas públicas como também nas escolas particulares, não é semelhante à aprendizagem nas escolas particulares de idiomas. Isso ocorre por motivos diversos, mas o mais relevante está na valorização da língua dentro de cada escola. da Língua Inglesa com os negócios dá-se também Nas escolas particulares de ensino fundamental e pela história do deslocamento do eixo econômico médio, a disciplina “Língua Inglesa” é lecionada para para os Estados Unidos e a evolução tecnológica. uma sala com média de 30 a 40 alunos. Entre eles a “No fim dos anos 60 e início dos 70”, explica Gomes grande maioria já estudou ou está estudando a língua (1997, p.134), “com a crise do petróleo e a nova em uma escola de idiomas particular, facilitando, tecnologia emergente fizeram do inglês uma língua assim, o trabalho dos professores. Contudo, dentro de comércio e também veículo de informações da da instituição, a disciplina sofre uma desvalorização recente tecnologia”. em relação às outras disciplinas, como a Língua Portu- Revista PIBIC, v. 1, n. 1, p. 131-139, 2004 Aprendizagem da Língua Inglesa pelos Adolescentes do Município de Osasco guesa e a Matemática. apenas para que no futuro ele satisfaça o que o Essa comparação e desvalorização da Língua Inglesa com as outras disciplinas também acontecem nas escolas públicas. Nas salas com a mesma média de alunos, porém, não há muitos alunos que têm a oportunidade de estudar em uma escola de idiomas. Assim, o professor encontra dificuldades quando mercado pede-lhe, este é um grande candidato a fazer parte de uma massa coisificada. Coelho (1996, p.11) explica-nos que “para uma sociedade, o padrão maior de avaliação tende a ser a coisa, o bem, o produto; tudo é julgado como coisa – inclusive o homem”. numa mesma sala apenas 20% (por exemplo) já Em sala de aula, os exercícios de repetição e estudaram ou estão estudando a língua enquanto a conseqüentemente a memorização de diálogos e maioria tem a oportunidade de estudá-la apenas em frases são exemplos de atividades que favorecem o sala de aula. utilitarismo da língua. Não se pode considerar os Dessa forma, os alunos adolescentes que conseguem estudar em escolas de idiomas são privilegiados pela condição econômica. Mesmo havendo as escolas de idiomas nos subúrbios que oferecem cursos com um baixo custo, ainda não são todos os adolescentes que têm a chance de estudar a língua que é considerada o instrumento de comunicação global. É aqui que se encontra a questão da aprendizagem da Língua Inglesa com valor de troca. Como símbolo de status, aprendê-la não abrange apenas uma imposição curricular, mas sim uma relação de compra e venda de um produto que oferece prosperidade na alunos papagaios que sempre repetirão as palavras, frases e expressões sem saberem ao certo o que significam ou sem sentirem o que falam. Muitas vezes, isso resulta em usarem o significante sem o significado. Então, o conhecimento da Língua Inglesa não está apenas na utilidade no mundo externo. Para isso, deve-se reconhecer que o conhecimento de uma língua estrangeira vai além do valor de troca e do valor de uso, isto é, o aluno pode aprender uma língua pelo prazer de expressar os seus mais profundos sentimentos e pensamentos. vida das pessoas. De acordo com Gomes (1997, Segundo Severino (1994, p.30), “é preciso ter o p.136), “primeiro, o aluno aprende e depois verá em conhecimento, o saber, para que se possa decifrar que usará o conhecimento”. os enigmas que oprimem a humanidade”. E a Língua Contudo, como homens, o indivíduo consegue se distanciar do objeto e assim admirá-lo, pois essa é a “práxis humana”, explica Freire (1980, p. 25-26), Inglesa pode ser o conhecimento que pode ajudar a decifrar algum desses enigmas. Junto com a arte, a língua pode ser um instrumento de transformações. “os homens são capazes de agir conscientemente O professor deixa de ser aquele fornecedor de um sobre a realidade objetiva”. Dessa forma, tomando produto e passa a trabalhar de maneira que propicie distância da questão da aprendizagem da Língua habilidades reflexivas aos seus alunos. O professor, Inglesa, observamos que seu conhecimento não está na opinião de Chalita (2001, p.168), precisa ter vinculado apenas ao valor de troca, mas ao valor de convicção em seus ensinamentos para que os alunos uso. acreditem e se sintam envolvidos e para isso é preciso A utilidade da Língua Inglesa numa sociedade capi- preparo para atingir os objetivos almejados. talista é medida pela necessidade que o mercado de No desenvolvimento afetivo, o aluno através da trabalho determina. Assim, o indivíduo preocupado aprendizagem da Língua Inglesa consegue ampliar em se manter integrado nesse mundo globalizado sua visão de mundo. Quando estimulado, aprende a tem como propósito de se aprender uma língua analisar e valorizar sua sensibilidade individual em estrangeira para satisfazer uma necessidade extrín- relação às coisas ao seu redor. seca, ou seja, a língua tem apenas um valor de uso. Portanto, o aluno adolescente que aprende a língua Trabalhar com a arte é a melhor maneira de fazer o aluno encontrar na Língua Inglesa a possibilidade Revista PIBIC, v. 1, n. 1, p. 131-139, 2004 137 Taís Fontes Nakamura Suman 138 de observar a realidade com outros olhos. É através Dessa forma, o aluno terá uma nova visão da rea- dela que o indivíduo consegue sair de um estado de lidade se trabalharmos a língua com a arte. A literatura inconsciência e partir para um mundo no qual valoriza- é a melhor opção, pois nela há sempre algo a ser se o belo, ou seja, o verdadeiro prazer da descoberta descoberto. O tempo, porém, é o inimigo dos irres- de algo que lhe faça sentir uma excitação. Burgess ponsáveis na escolha das obras, portanto, deve-se (2001, p.10) explica essa excitação com a história haver cautela. Isso significa que trabalhar com um de Arquimedes que, ao descobrir seu famoso princípio trecho de um romance pode oferecer mais resultados durante o banho, saiu gritando “Eureka!” (“Achei!”), positivos do que o trabalho com o romance inteiro. sem se preocupar em estar nu: Outra opção dentro da literatura é o teatro. Esse oferece além da oportunidade de se trabalhar com a O artista quer fazer algo capaz de produzir esse tipo de excitação nas mentes das pessoas – a excitação de descobrir algo novo sobre X, sobre a realidade. Ele pode estar criando uma pintura, uma peça, um poema, ou um palácio, mas seu desejo é fazer com que as pessoas que vejam ou ouçam ou leiam sua criação se sintam excitadas e digam a seu respeito ‘Isto é belo!’. Portanto, a Língua Inglesa pode ser excitante ao arte da palavra, a oportunidade da atuação. Dessa forma, os alunos aprendem sobre as obras, épocas, autores e principalmente conseguem através das falas expressar na língua estrangeira sentimentos e vontades. Nessa atividade, o aluno pode descobrir suas habilidades que muitas vezes as desconhecem. momento que seu conhecimento ultrapasse a barreira Os alunos adolescentes, às vezes, são os conside- da obrigatoriedade, do utilitarismo e do capitalismo. rados rebeldes e difíceis de se ensinar, mas ao mo- É importante que o professor de Língua Inglesa mento que o professor dispõe-se a compreendê-los consiga trabalhar com a arte da palavra, isto é, cons- e dialogar sem preconceitos, a situação modifica-se. cientizar seus alunos encontrarem a satisfação, o Sabe-se de suas mudanças físicas e psicológicas – prazer e a excitação de falar a língua na literatura. da crise de identidade – mas, o mundo também está em constante mudança. Por conseguinte, lecionar adolescentes uma língua estrangeira requer também Conclusão do professor uma disposição a mudanças. A aprendizagem da língua deve oferecer algo além das atividades gramaticais. Isto é, os alunos precisam de oportunidades para descobrir valores maiores do que ter a língua apenas como um conhecimento útil para uma profissão. Assim, as atividades em sala devem sair da rotina e oferecer mais reflexão, ou seja, o professor não pode privar seus alunos de encontrarem na língua a verdadeira motivação de sua aprendizagem. Como experiência adquirida com esse estudo, percebe-se que o diálogo é outro instrumento para melhorar a aprendizagem. Dessa forma, os alunos conseguem expressar seus sentimentos, opiniões e principalmente compartilhar de seus pensamentos mais profundos. O professor também compartilha seu conhecimento tanto de língua como de mundo, propiciando aos seus alunos várias oportunidades de observar a realidade de outra maneira – uma visão mais crítica. Revista PIBIC, v. 1, n. 1, p. 131-139, 2004 Aprendizagem da Língua Inglesa pelos Adolescentes do Município de Osasco Notas 1 É importante aqui citar que antes dessa dependência econômica com os americanos, em 1860, o Brasil tinha 55% suas importações vindas da Inglaterra, contra apenas 33% de suas exportações. Alves (1988, p.34) explica que essa hegemonia política e econômica inglesa foi posta em risco pelos americanos. 2 Dominic Strinati observa que a cultura de massa a cultura popular produzida pelas técnicas de produção industrial e comercializada com fins lucrativos para uma massa de consumidores. 3 “A maioria dos filmes que passa no mundo é norteamericana, então, eles estão originalmente em inglês. [...] Com a invasão dos produtos norte-americanos, muitas pessoas em muitos países começaram a seguir a cultura norte-americana e o mundo tornou-se americanizado. Não estou orgulhosa em dizer que sou uma dessas pessoas. Eu gostaria de poder brigar contra a cultura imposta pelos Estados Unidos, mas não consigo. Eles já me corromperam. Eu amo suas músicas, McDonald e sou louca por seus filmes e programas de TV. Bem ... se você não consegue derrotar o inimigo, junte-se a ele! Eu quero aprender inglês para fazer parte do mundo [...]” 4 “A força maior na cultura jovem internacional hoje é a música pop. A música tem um agrada universal. A popularidade do canal MTV, TV por satélite, é evidente pelos: seus vídeos pop que tocam nos quatro cantos do mundo, de Stockholm até Sofia, de Atenas até Atlanta, e desde que muitas canções estão em inglês, crianças de todo o mundo aprendem cantando em inglês”.Trecho retirado do texto “Teenagers of the world unite!” do livro didático Rising Star (2000, p.8). 5 Algumas pessoas querem aprender a Língua Inglesa (ou outra língua estrangeira) porque pensam que ela oferece uma chance de avanço em suas vidas profissionais. Elas terão um melhor emprego com duas línguas do que se elas apenas saberem sua língua mãe. A Língua Inglesa tem uma posição especial aqui desde que esta tenha se tornado uma língua internacional de comunicação”. 6 Nomes fictícios. Referências ALVES, Júlia Falivene. A invasão cultural norte-americana. São Paulo: Moderna, 1988. HAMER, Jeremy. The practice of english language teaching. 3.ed. New York: Longman, 1996. BURGESS, Anthony. A literatura inglesa. 2. ed. São Paulo: Ática, 2001. MEDEIROS, João Bosco. Redação científica: a prática de fichamentos, resumos, resenhas. 4. ed. São Paulo: Atlas, 200 0. CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. 4. ed. São Paulo: Gente, 2001. COELHO, Teixeira. O que é indústria cultural. São Paulo: Brasiliense, 1996. PAIVA, Vera Lúcia Menezes de Oliveira. A língua inglesa no Brasil e no mundo. In: ________ (Org.). Ensino de língua inglesa reflexiva e experiência. 2. ed. Minas Gerais: Ponta, 1998. FREIRE, Paulo. 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