APRENDIZAGEM BASEADA EM PROBLEMAS: UMA EXPERIÊNCIA NO ENSINO - APRENDIZAGEM DE LÍNGUA INGLESA NO ENSINO SUPERIOR JUNGES, Simone Santos – UNIUV [email protected] Eixo Temático: Didática: Teorias, Metodologias e Práticas Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo A globalização provocou mudanças profundas no mercado de trabalho; a velocidade com que informações e conhecimentos são produzidos é imensa. A tecnologia reduziu distâncias entre países e continentes, tornando cada vez mais importante o conhecimento de línguas estrangeiras. Questões políticas, sociais e econômicas fizeram com que a língua inglesa conquistasse o status de língua franca. Dessa forma, o ensino de língua inglesa deve acompanhar as mudanças, e é nesse contexto que o presente trabalho teve por objetivo analisar, explorar e aplicar a metodologia da Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) ao processo de ensino-aprendizagem de língua inglesa, usando recursos tecnológicos, estratégias e técnicas diversas como ferramentas para fomentar a aprendizagem significativa e colaborativa. A pesquisa, de cunho qualitativo com aporte quantitativo, teve como opção metodológica a observação participante. Apoiou-se ainda em teorias como o construtivismo, a aprendizagem significativa e a aprendizagem colaborativa, além do suporte de diversos estudos já realizados a respeito da Aprendizagem Baseada em Problemas. Para realizar esse estudo, observou-se o comportamento e o desempenho de alunos do Ensino Superior, quando submetidos a essa metodologia. Os sujeitos da pesquisa foram escolhidos de forma intencional, pelas características e necessidades que apresentavam. O grupo foi composto por um total de dezessete acadêmicos do curso de Secretariado Executivo do Centro Universitário de União da Vitória-UNIUV, localizado na cidade de União da Vitória-PR. Utilizou-se a metodologia de ensino-aprendizagem Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) – para criar e contextualizar situações que envolvessem os alunos no processo de ensinoaprendizagem, bem como identificar, avaliar e selecionar tecnologias adequadas para o ensino-aprendizagem de língua inglesa, por meio da solução de problemas, criando, assim, oportunidades de aprendizagem de língua inglesa que resultaram em construção de conhecimento significativo no ensino superior. Palavras-chave: Língua Inglesa. Aprendizagem Baseada em Problemas. Ensino – Aprendizagem. Novas Tecnologias. Introdução 5948 Sem dúvida o inglês já atingiu um status global. E, dessa forma, tem sido amplamente utilizado como instrumento de comunicação internacional em diferentes áreas (PHILLIPSON, 1992). Desse modo o conhecimento da Língua Inglesa torna-se imprescindível para quem deseja obter sucesso nesse mundo globalizado. A dificuldade de aprendizagem de língua inglesa para fins específicos no Ensino Superior tem representado um desafio considerável para o docente e para o aluno também. A busca da qualidade de ensino/aprendizagem exige a oportunização de possibilidades diferenciadas de aprendizagem, assim como diferentes modos de esclarecer dúvidas e produzir conhecimento, para que se obtenha sucesso no processo educativo. Este estudo tem por objetivo principal mostrar que a Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP), aliada às Novas Tecnologias pode otimizar o ensino aprendizagem de língua inglesa. Participaram do estudo dezessete alunos matriculados no curso de Secretariado Executivo do Centro Universitário de União da Vitória – UNIUV. Os alunos foram selecionados de forma intencional, devido a suas características e necessidades. Todos foram convidados a participar, e, depois de aceitarem o convite, permitiram, por meio de documento escrito, o uso de imagens e registros feitos durante a realização do projeto. Como Aprender? A didática de línguas progrediu e diversificou-se bastante no século XX, e várias abordagens e métodos influenciaram o ensino de línguas. Vale mencionar: Método da Gramática e Tradução, Estrutural-Situacional, Audiovisual, Abordagem Comunicativa, entre outros (JUNGES, 2003) Atualmente existe uma tendência a utilizar uma abordagem eclética, que procura selecionar o que há de melhor em cada um dos métodos desenvolvidos ao longo dos anos, buscando acompanhar o ritmo e a evolução da Sociedade da Informação, ou do Conhecimento, como também é conhecida. Dessa forma, já não cabe mais no ambiente universitário a prática pedagógica conservadora de memorizar conteúdos para depois repetilos, ou seja, a prática da reprodução de conhecimento. O Paradigma da Complexidade 5949 Como toda inovação engendra novas formas de organização social, um novo paradigma da ciência – o paradigma da complexidade – produziu simultaneamente modificações na estrutura do pensamento, nos modos de aquisição de conhecimento, e nas interações sociais. Conforme Behrens (2003), esse paradigma busca unir três abordagens: a sistêmica, a progressista, e a abordagem do ensino com pesquisa, que vê o aluno como sujeito do processo, um indivíduo questionador, criativo, ético, autônomo, crítico, e, portanto, capaz de produzir conhecimento. A sociedade, influenciada por esse novo paradigma, exige novas características e perfis para os profissionais que atuarão no mercado de trabalho. Assim, a educação tem papel fundamental no processo de mudança, principalmente no nível universitário, fase em que o aluno qualifica-se para a vida profissional. Considerando o uso bastante limitado da informática na educação, e acreditando que, quando explorados adequadamente, os meios eletrônicos são relevantes para o processo de construção de conhecimento significativo, fez-se uma proposta pedagógica que utiliza a metodologia da Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) aliada à tecnologia, estimulando o aluno a participar, interagir e colaborar com os colegas, obtendo, como resultado final do processo educativo, a produção, ou construção, de conhecimentos significativos. Novas Tecnologias e Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) Novas Tecnologias A palavra tecnologia tem por definição básica o domínio e utilização de métodos para fazer algo, ou ainda, a aplicação sistemática de conhecimento para realizar tarefas práticas, para solucionar problemas. No entanto, neste estudo, o termo “tecnologia” refere-se a qualquer invenção humana, tanto em termos de artefatos como de métodos, técnicas ou estratégias utilizadas para estender a capacidade humana (física ou mental), com a finalidade de simplificar o seu trabalho, ampliar suas relações interpessoais ou apenas propiciando prazer. Considerando a origem da palavra tecnologia, das palavras gregas, tekhne, que significa arte ou habilidade, e logos, que significa palavra, razão, conhecimento, pode-se dizer que tecnologia vem a ser a arte de saber (como) fazer algo. As “novas tecnologias” incluem 5950 diversos recursos, tais como TV, vídeo, DVD, retroprojetor, datashow, e, é claro, o computador. Quando bem utilizadas, podem servir como apoio ou reforço dos trabalhos pedagógicos e didáticos, pois permitem a criação de situações de aprendizagem ricas e diversificadas (PERRENOUD, 2000). Fazer uso da tecnologia é natural em qualquer ambiente educacional. Desde a utilização do quadro-negro e do giz, até o uso do computador conectado à internet, passando pelos livros didáticos, retroprojetor, aparelho de som, vídeo, TV, DVD, e outros. Entretanto é necessário que se faça o uso correto das tecnologias. Garcia (2001, p. 72) corrobora com esse pensamento, quando afirma que: […] hay que aclarar que un principio en el uso de medios es el de que exista congruencia entre el modelo de enseñanza seleccionado y el medio a utilizar: es decir, seleccionar aquel medio que mejor nos sirva para como hemos organizado nuestra clase. Garcia também aconselha os professores a selecionar as tecnologias que atendam aos objetivos didáticos. O Papel das Novas Tecnologias para a Metodologia ABP Utilizou-se, durante o desenvolvimento do estudo, tecnologias como quadro branco e pincel, flip-chart, retroprojetor, livros didáticos, revistas, materiais impressos, Datashow, kit multimídia, CD player, vídeo, DVD, enfim, todos os meios disponíveis na instituição de ensino, buscando, sempre, selecionar os meios mais adequados para cada objetivo. O computador também foi uma ferramenta de grande utilidade, pois conectado à internet, permitiu realizar pesquisas a respeito de características culturais, bem como redigir cartas comerciais, além da eventual troca de e-mails entre a pesquisadora e os alunos, para tirar dúvidas e aumentar o número de contatos, que de outra forma ficariam restritos a uma aula semanal. Na função de pesquisadora-observadora, foram utilizados cadernos para as anotações, gravador para registrar conversas com alunos e com a orientadora, câmera digital para registrar momentos das aulas, e câmera de vídeo para gravar o resultado final do projeto, que consistiu em uma dramatização de todas as etapas, desde a comunicação por meio de telefone, até a visita dos representantes da empresa inglesa à empresa local. 5951 Já a expressão “Aprendizagem Baseada em Problemas”, traduzida do inglês Problem Based Learning, originou-se nos cursos de medicina da universidade McMaster, no Canadá, como uma metodologia alternativa de ensino com o objetivo de preparar estudantes de medicina para enfrentarem os problemas da vida real, criando problemas baseados em casos reais ao invés de ministrarem apenas aulas teóricas fora de contexto. Assim, conforme Treml (2003, p. 17), o objetivo principal dessa prática pedagógica é “reduzir as distâncias entre teoria e prática, [...], utilizando-se da tecnologia educacional e de inovações didáticopedagógicas”. A Aprendizagem Baseada em Problemas compreende algumas etapas que devem envolver alunos e professores: primeiro, a apresentação da idéia, a qual contém a problematização, cuja finalidade é promover estudos que envolvam conteúdos necessários à formação do aluno. Em seguida, surge a proposição do problema, simulando situações que fazem parte da realidade da profissão. Depois, o professor deve contextualizar a situação proposta para que os alunos entendam a importância de se investigar tal problema. E, sempre que julgar necessário, o professor facilitador poderá interferir e esclarecer as dúvidas existentes por meio de aula teórica. Depois de exposto o problema, incentiva-se a pesquisa individual, seguida de discussão em grupo, que, coordenada pelo professor chegará a um consenso, apresentando a possível solução para o problema. No caso da língua inglesa, esse resultado poderá ser apresentado em forma de discurso, dramatização, produção escrita, painel, entre outros. Finalmente, faz-se uma avaliação de todo o processo, momento em que professores e alunos discutem a relevância de todas as etapas, contribuindo para a revisão e melhoria do processo. A grande vantagem do uso da Aprendizagem Baseada em Problemas é que essa prática induz o aluno a criar o hábito da pesquisa, do pensamento crítico, além de ajudar a desenvolver sua autonomia em relação a seu aprendizado. A tecnologia educacional, que segundo Litwin (citado por MAGGIO, 1997, p. 13) é entendida como o corpo de conhecimentos que, baseando-se em disciplinas científicas encaminhadas para as práticas do ensino, incorpora todos os meios a seu alcance e responde à realização de fins nos contextos sócio-históricos que lhe conferem significação, 5952 e pode contribuir de forma significativa para o processo educacional. No entanto, sua contribuição depende da concepção de ensinar e aprender que o professor traz consigo (TREBIEN, 2003), pois é o professor quem orienta a utilização do computador como ferramenta educacional. Assim, o computador pode ser um mero instrumento de repassar informações, ou uma ferramenta que ajuda a construir saberes. A proposta também se apoiou no pensamento de Krashen, Chomsky, Piaget, e Vygotsky. Conforme Schütz (2004), Stephen Krashen trouxe para o ensino de línguas as teorias de Chomsky, Piaget e Vygotsky, criando novos rumos para o ensino de língua estrangeira ao estabelecer a diferença entre estudo formal da língua e assimilação natural, entre acumular informações e desenvolver habilidades. De forma geral, Piaget e Vygotsky tiveram grande participação na elaboração de teorias inovadoras que ultrapassam as existentes na escola tradicional. Ambos fazem parte das correntes interacionista e construtivista, embora possuam pontos divergentes que separam suas idéias em pontos de vista diferentes. O construtivismo, em linhas gerais, tem por base a construção do conhecimento; difere do ensino tradicional porque estimula o aluno a ser sujeito de sua aprendizagem. Esse modelo construtivista parte do conhecimento prévio do aluno e das concepções existentes e coloca-os à prova para modificá-los ou construir novos saberes a partir deles. Vygotsky (1984) afirma ainda que o conhecimento produzido pelo indivíduo resulta do desenvolvimento históricosocial da comunidade onde vive, ou seja, o desenvolvimento do aluno acontece mediante a relação dele com o professor ou com outros colegas, com interiorizações que permitem formar abstrações, isto é, construir novos saberes. Vygotsky também influenciou Krashen no que diz respeito ao aprendizado de língua estrangeira. A hipótese de input de Krashen é semelhante ao conceito de zona de desenvolvimento proximal de Vygotsky. Para Krashen (1987), o aprendizado ideal envolve a exposição à língua (input) em um nível imediatamente superior ao que ele se encontra (input + 1). O conceito de zona de desenvolvimento proximal de Vygotsky pressupõe que todos têm uma zona de desenvolvimento autossuficiente, em que são independentes, e uma zona de desenvolvimento proximal, que os torna dependentes da ajuda de alguém que tenha maior conhecimento sobre determinado assunto, o que corresponde à teoria do input +1 de Krashen (SCHÜTZ, 2004). 5953 Uma Experiência Bem-sucedida A ideia de se elaborar um projeto de pesquisa sobre o ensino-aprendizagem de língua inglesa surgiu da necessidade que a pesquisadora sentia de inovar sua prática docente, sanando dificuldades identificadas nos alunos, otimizando a carga horária limitada de língua inglesa nos cursos de graduação, além de promover uma diversidade de contextos para a utilização da língua inglesa de forma significativa. O projeto foi realizado no Centro Universitário de União da Vitória – UNIUV, situado no município de União da Vitória, Paraná, região sul do Brasil. Participaram do projeto dezessete alunos matriculados no curso de Secretariado Executivo. Foi escolhido esse curso pelas características e necessidades que ele apresenta: com uma carga horária anual de 72 (setenta e duas) horas/aula repetidas nos três primeiros anos, os alunos têm a necessidade de concluir o curso com um conhecimento básico de língua inglesa, para atuar com sucesso num mercado de trabalho em que o conhecimento de língua inglesa é um pré-requisito para conquistar a posição de secretário(a) executivo(a). Considerando a reduzida carga horária, faz-se necessário o uso de criatividade e de metodologia especial para que adquiram autonomia e independência no aprendizado de língua inglesa e construam o máximo de conhecimento em um curto período de tempo. O grupo de alunos foi convidado a participar do projeto, e todos demonstraram interesse em fazer parte do estudo. Em seguida, o projeto foi apresentado à coordenação do curso, e mediante autorização da coordenadora foi elaborado um documento de autorização de uso da imagem e das informações coletadas durante a aplicação do projeto. Todos os alunos assinaram as autorizações, e assim deu-se início à realização do projeto. Seleção dos Participantes Tendo em vista os objetivos formulados, a seleção dos sujeitos deste estudo se deu de forma intencional, não probabilística, conforme definição de amostragem não-probabilística ou dirigida de Sampieri, Collado e Lucio (1998, p. 207-208): […] la elección de los elementos no depende de la probabilidad, sino de causas relacionadas con las características del investigador o del que hace la muestra […] El procedimiento no es mecánico ni con base en fórmulas de probabilidad, sino que depende del proceso de toma de decisiones de una persona o grupo de personas. 5954 Entretanto, a seleção intencional dos sujeitos levou em consideração alguns critérios: a) ser aluno do Ensino Superior, no Centro Universitário de União da Vitória – UNIUV, onde trabalha a pesquisadora; b) ser aluno de um curso de graduação que oferecesse língua inglesa por um período superior a um ano, para que se pudesse acompanhar o processo por um período mais longo; c) conteúdo programático que consta na Matriz Curricular do curso; d) a existência de rapport entre a pesquisadora e a população estudada. Coleta de Dados A coleta de dados teve início com a busca de material bibliográfico para fundamentar e organizar as diferentes fases da pesquisa. Apesar da flexibilidade da pesquisa qualitativa, foi preciso sistematizar o trabalho de coleta de dados para que as informações fossem registradas com exatidão e correção. Diferentes técnicas de coleta de dados foram utilizadas. Inicialmente foi aplicado um pré-teste, com os conteúdos que eles deveriam aprender ao longo do semestre, para registrar o conhecimento dos alunos antes de serem submetidos a essa metodologia. Os resultados do pré-teste foram mais tarde comparados com os resultados do pós-teste, realizado ao fim do projeto. Além de pré e pós-teste, a coleta de dados deu-se por meio do preenchimento de formulários, questionários, avaliações, e a realização de observação constante por parte da pesquisadora. Foram feitas anotações durante a aula, ou logo após o término da aula, conforme a atividade realizada e o tempo disponível durante as aulas. Este, segundo Babbie (2000, p. 271) é o procedimento correto: La mayor ventaja de los métodos de investigación de campo es la presencia en el lugar de la acción de un investigador que observe y piense. Sí es posible, tome notas de sus observaciones a medida que observa. Cuando no sea posible esto, escriba sus notas tan pronto como pueda. O Centro Universitário de União da Vitória – UNIUV oferece o curso de Jornalismo, e por esse motivo dispõe de um estúdio de TV. Com a colaboração da equipe do curso de jornalismo, da coordenadora do curso de Secretariado Executivo, e do Diretor-Presidente da empresa Pormade Portas de Madeiras Decorativas foi possível dramatizar as etapas do 5955 projeto, bem como utilizar como cenário da dramatização, a empresa escolhida para fazer parte do projeto. A etapa de dramatização e filmagem possibilitou a observação da interação entre os sujeitos, lideranças, inseguranças, cooperação, e trabalho em equipe. Ao fim do projeto, além do pós-teste, foi feita uma auto-avaliação, Os alunos fizeram também uma avaliação do desempenho dos colegas. Finalmente, os sujeitos avaliaram o projeto, cujos resultados estão exibidos na análise de dados. Análise dos Dados Pré-teste e Pós-teste O pré-teste foi aplicado no início do projeto, e teve por objetivo verificar o conhecimento mínimo que os sujeitos tinham sobre os conteúdos que seriam abordados durante o projeto. O pós-teste, aplicado dois meses depois do início da intervenção, avaliou o conhecimento máximo construído pelos sujeitos após o uso da ABP. As notas poderiam variar de 0,0 (zero) a 10,0 (dez). No pré-teste a nota mais baixa foi 1,0 (um vírgula zero) e a mais alta 9,5 (nove vírgula cinco); a média aritmética foi 5,4 (cinco vírgula quatro). No pós-teste a nota mínima foi 3,0 (três vírgula zero) e a máxima foi 10,0 (dez vírgula zero); a média aritmética foi 6,47 (seis vírgula quarenta e sete). Observou-se que, mesmo elaborado com um grau de dificuldade maior, os resultados no pós-teste, com poucas exceções, foram melhores que no pré-teste, que exigiu conhecimentos mínimos dos conteúdos a serem trabalhados. O percentual de melhora nos resultados variou de aluno para aluno, e em alguns casos o resultado no pré-teste foi superior ao do pós-teste. Verificou-se que nos dois casos em que a diferença foi maior, os sujeitos apresentaram um percentual alto de faltas, o que pode explicar a diferença nos resultados. Questionário Para avaliar a metodologia utilizada, bem como sua atuação como mediadora do conhecimento, a pesquisadora inspirou-se no Student Course Experience Questionnaire (OXFORD..., 2007), questionário desenvolvido pela Oxford University, com o objetivo de avaliar a experiência e o nível de satisfação dos alunos durante o programa de estudos. Foi então elaborado um questionário com 38 (trinta e oito) afirmações fechadas. Para as 5956 alternativas, foi utilizada a escala Likert, que, de acordo com Cea D’Ancona (1998), é uma das escalas mais utilizadas quando o objetivo é fazer várias perguntas que tenham as mesmas opções de resposta. Para evitar um problema comum que ocorre com esse modelo de escala, que é a descoberta, pelo sujeito, da atitude que está sendo medida, e, consequentemente a possibilidade de alterar sua resposta para satisfazer o pesquisador ou para que sua resposta fique dentro do nível socialmente aceitável, a mesma afirmativa foi apresentada mais de uma vez, com enunciados diferentes. As alternativas de resposta eram as seguintes: concordo totalmente; concordo; neutro; discordo; discordo totalmente. Foram elaborados vários grupos de afirmativas relacionadas a diferentes itens. O primeiro grupo referiu-se à motivação gerada pela metodologia ABP. Das nove afirmativas sobre motivação, em apenas três delas um sujeito assinalou a alternativa “discordo totalmente”; em quatro afirmativas todos os sujeitos assinalaram “concordo” ou “concordo totalmente”; em quatro alternativas o número de sujeitos que assinalou a opção “neutro” variou de um a quatro sujeitos por afirmativa. A julgar pelos resultados encontrados neste grupo de afirmativas, a metodologia ABP pode contribuir para manter e gerar a motivação nos alunos. O segundo grupo de afirmativas visava verificar se a quantidade de atividades e tarefas, bem como o nível de exigência estava em um nível adequado. Apenas um sujeito discordou totalmente, enquanto 14 sujeitos (82,35%) acreditam que o projeto era viável. Apenas dois sujeitos ficaram neutros. O terceiro conjunto de perguntas serviu para avaliar o trabalho da pesquisadora. Ribeiro (2008, p. 37) afirma que ao contrário do papel tradicional docente, de transmitir conhecimentos, o professor deve “interagir com os alunos no nível metacognitivo, ou seja, fazendo-lhes perguntas (...) e questionando seu raciocínio superficial e suas noções vagas e equivocadas”. Esse papel de mediador do conhecimento é um grande desafio que a ABP traz para os docentes. Por se tratar de um estudo em que se buscou testar o uso de uma metodologia, foi feito constantemente um trabalho de reflexão sobre os prós e contras de cada atividade, dos problemas propostos e do papel docente. Assim, considerou-se fundamental avaliar a atuação da pesquisadora no papel de tutora. As respostas dos sujeitos foram extremamente positivas. Vale ressaltar que lhes foi garantido o anonimato; houve cuidado especial para que não se pudesse identificar o sujeito por sua folha de respostas. Nas cinco oportunidades de avaliação, 16 sujeitos (94,11%) 5957 assinalaram as opções ‘concordo’ ou ‘concordo totalmente’, registrando alto nível de satisfação quanto à atuação da mediadora, e um sujeito ficou neutro (5,89%). O quarto grupo de afirmativas visava verificar se os alunos perceberam uma melhoria em suas habilidades gerais, como por exemplo, a habilidade de planejar e organizar os estudos, habilidade de comunicação, confiança para lidar com desafios da aprendizagem, habilidade de analisar criticamente situações, ou ainda a habilidade de trabalhar em equipe. De forma geral, os sujeitos (100% em três das cinco afirmativas) perceberam que o aprendizado foi além dos conteúdos descritos no plano de ensino do curso, e contribuiu para o aprimoramento de habilidades gerais e de sua formação enquanto cidadãos. Para facilitar a compreensão dos sujeitos, em todas as etapas da pesquisa buscou-se esclarecer os objetivos de cada atividade e o que era esperado de cada sujeito e do grupo. Para verificar se a transparência dos objetivos foi alcançada, foram incluídas afirmativas como “Ficou bastante claro, desde o início, o que era esperado dos alunos”, “Em geral era fácil entender o que era esperado de mim.” ou “Eu normalmente tinha uma ideia clara dos objetivos das atividades ou do que era esperado de mim.” As respostas assinaladas pelos alunos mostram que os sujeitos realmente estavam informados do que se passava em cada aula, e o que se esperava deles – 100% de acordo com as duas primeiras perguntas, e 88,23% de acordo com a terceira. A avaliação constitui uma das tarefas mais importantes do exercício docente; por essa razão, os professores dedicam boa parte de seu tempo a essa atividade. O mesmo ocorre com os alunos. Azar (2005, p. 160) afirma que: constantemente observamos en las aulas cómo el trabajo de los alumnos está, de alguna manera, condicionado por la evaluación. Los estudiantes trabajan pensando en ella y sólo lo hacen si su esfuerzo se verá recompensado con una mejor calificación […] El profesor se convierte entonces en una fuente de retribuciones sobre el buen o mal desempeño de los estudiantes, y la evaluación parece volverse un verdadero obstáculo para el conocimiento, dado que los estudiantes, lejos de valorarlo en si mismo, lo hacen sólo en función de lo que significa en términos de los mecanismos de medición escolar. A concepção de avaliação como medição é limitada, pois a avaliação deve ter outras funções, como identificar áreas em que o aluno deve esforçar-se mais e em que o professor deve intervir para juntos obterem melhores resultados. Um grupo de afirmativas buscava especificamente analisar a opinião dos sujeitos a 5958 respeito do sistema de avaliação utilizado durante o projeto. Como as respostas ficaram relativamente equilibradas, foi pedido aos sujeitos que comentassem suas respostas, em uma conversa informal. Alguns sujeitos disseram que em geral memorizam conteúdos quando precisam passar por uma avaliação, por isso assinalaram “concordo” ou “concordo totalmente” na afirmativa que diz que é preciso ter boa memória para obter bons resultados ou na que diz que houve avaliação de conteúdos memorizados; outros sujeitos ficaram em dúvida, e por isso assinalaram a opção “neutro”; outros interpretaram da forma esperada as assertivas, e assinalaram “discordo” ou “discordo totalmente” para as frases “Para obter bons resultados com essa metodologia, você só precisa ter boa memória” e “Houve mais avaliação das coisas que memorizei do que das coisas que compreendi”, resposta considerada ideal, pois o objetivo da metodologia é favorecer a resolução de problemas por meio da compreensão e uso espontâneo do conhecimento construído. Quanto à segunda frase, “As atividades e tarefas sugeridas eram relevantes para mim” as respostas foram bastante satisfatórias, pois 70,58% dos sujeitos concordou que as tarefas foram importantes para eles. Buscou-se sempre oferecer materiais de pesquisa relevantes e cuidadosamente selecionados. As respostas dos sujeitos confirmam esse fato, pois 16 sujeitos num universo de 17 concordaram que os materiais eram relevantes e atualizados, e apenas um sujeito assinalou a opção “neutro”. A ABP apoia-se nos conceitos de construção de conhecimentos para solucionar problemas, e vai mais além, pois postula que esses conhecimentos construídos devem ser significativos e duradouros. Isso justifica a necessidade de incluir no questionário questões sobre a relevância da aprendizagem para a vida. Nesse quesito, a totalidade dos sujeitos concordou que os conhecimentos construídos são valiosos para seu futuro. As duas afirmativas – “Considero o que aprendi valioso para o meu futuro” e “Os conhecimentos que adquiri durante o projeto poderão ser utilizados em novas situações” – não se aplicam apenas aos conteúdos previstos no programa de língua inglesa, mas também a outras habilidades, como trabalho em equipe, organização, cooperação, elaboração de objetivos, a importância do relacionamento interpessoal e da interação, entre outras. De acordo com o grupo de perguntas sobre a satisfação geral, dezesseis sujeitos (94,11%) concordaram que foi válido participar do projeto, quatorze deles (82,35%) assinalando a opção “concordo totalmente”, e isso se deveu à sua percepção de que realmente 5959 se construiu conhecimento significativo e duradouro. Considerações Finais Em suma, esse trabalho não pretendeu apresentar, de forma acertada e definitiva, a solução ou o caminho que todos, ligados ao ensino de língua inglesa, devem seguir. Mas sim, apresenta um possível caminho, inspirado pelo método de Aprendizagem Baseada em Problemas e pela inserção de novas tecnologias na prática pedagógica. A proposição de problemas e a construção de saberes a partir deles é uma motivação para que os alunos trabalhem individualmente e em equipe na busca de conhecimentos que os capacitem a discutir e encontrar soluções para os problemas apresentados. Com isso, há uma inversão do formato tradicional de ensino/aprendizagem, que parte da teoria para o exercício das atividades práticas. Com essa metodologia inovadora, a prática é o caminho que leva até a teoria, e a distância entre as duas se reduz. Além disso, o papel do professor também sofre profundas alterações. O professor não “dá aula”; ele interage com os alunos, criando meios que possibilitem a pesquisa e a comunicação, orientando-os nas discussões e levantamento dos dados necessários para propor soluções para os problemas, ao mesmo tempo em que esclarece as dúvidas decorrentes do processo. O professor passa a ser, assim, um facilitador. E como tal, muitas vezes precisa ter um domínio maior do tema abordado do que deveria se fosse apenas repassar informações. O professor facilitador deve conhecer o conteúdo, saber utilizar o material, reconhecer e atender as necessidades dos alunos, e estar preparado para lidar com situações imprevistas e dúvidas que surgem durante as atividades. REFERÊNCIAS BABBIE, Earl. Fundamentos de la investigación social. México: Thomson Editores, 2000. BEHRENS, Marilda Aparecida. O paradigma emergente e a prática pedagógica. 3.ed. Curitiba: Champagnat, 2003. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Pesquisar – participar. In: BRANDÃO, C. R. (Org.) Pesquisa participante. 6.ed. 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