A HEGEMONIA DA LÍNGUA INGLESA NA CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE
DO ADOLESCENTE: fatores políticos, econômicos e culturais que fundamentam os
discursos dos pais
DOMINGOS CAXINGUE GONGA
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE FLUMINENSE DARCY RIBEIRO
CENTRO DE CIÊNCIAS DO HOMEM
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COGNIÇÃO E LINGUAGEM
CAMPOS DOS GOYTACAZES/RJ
JUNHO - 2012
DOMINGOS CAXINGUE GONGA
A HEGEMONIA DA LÍNGUA INGLESA NA CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE
DO ADOLESCENTE:
fatores políticos, econômicos e culturais que fundamentam os discursos dos pais
Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Cognição e Linguagem do Centro
de Ciências do Homem, da Universidade Estadual
do Norte Fluminense, como parte das exigências
para a obtenção do título de Mestre em Cognição e
Linguagem.
Orientador: Prof. Dr. Sérgio Arruda de Moura
Coorientador: Profª. Drª. Eliana Crispim
França Luquetti
CAMPOS DOS GOYTACAZES/RJ
JUNHO - 2012
FICHA CATALOGRÁFICA
Gonga, Domingos Caxingue
A hegemonia da língua inglesa na constituição da identidade de
adolescentes em fase escolar: fatores políticos, econômicos e
culturais que fundamentam os discursos dos pais/Domingos
Caxingue Gonga – Campos dos Goytacazes, RJ, 2012.
130 f.
Orientador: Sérgio Arruda de Moura
Dissertação (Mestrado em Cognição e Linguagem) – Universidade
Estadual Fluminense, Centro de Ciência do Homem, 2012-06-22.
Bibliografia: f. 130
1. Identidade. 2. Discurso. 3. Ideologia. 4. Língua Inglesa. 5.
Hegemonia. 6. Cultural Global.
2. Universidade Estadual do Norte Fluminense. Centro de
Ciências do Homem.
CDD
DOMINGOS CAXINGUE GONGA
A HEGEMONIA DA LÍNGUA INGLESA NA CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE
DO ADOLESCENTE:
Fatores políticos, econômicos e culturais que fundamentam os discursos dos pais
Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Cognição e Linguagem do
Centro de Ciências do Homem, da
Universidade Estadual do Norte Fluminense,
como parte das exigências para a obtenção do
título de Mestre em Cognição e Linguagem.
APROVADA: 22 de junho de 2012.
BANCA EXAMINADORA:
Profª. Sílvia Lúcia dos Santos Barreto (Doutora em Comunicação)
Instituto Federal Fluminense – campus Campos dos Goytacazes/RJ
Prof. Carlos Henrique Medeiros de Souza (Doutor em Comunicação e Mídia)
Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro – UENF
Profª. Eliana Crispim França Luquetti (Doutora em Linguística Aplicada)
Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro – UENF
(Coorientadora)
Prof. Sérgio Arruda de Moura (Doutor em Literatura Comparada)
Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro – UENF
(Orientador)
AGRADECIMENTOS
Toda honra e toda glória seja dada a Ti Ó Deus. Não existe o acaso. Se consegui
terminar o mestrado é porque a Sua graça se superabundou em mim, pois se assim não fosse,
não teria conseguido. Mesmo em meio às adversidades da vida Tu sempre estiveste ao meu
lado, motivando-me e ensinando-me a fórmula do próximo passo. Mesmo quando tudo
parecia perdido.
Ao orientador Sérgio Arruda de Moura, agradeço pela compreensão e apoio para que
este trabalho se concretizasse.
À CAPES, pelo investimento, e oportunidade que me permitiu chegar ao fim desta
pesquisa.
À minha eterna amiga Adriana (minha mãezona), ao seu marido Lidinei e ao seu filho
Vítor, à Edda Maria, Carla Cardoso, Ingrid Ribeiro, Karine Castelano, Solange, Drª Lilia
Sauge, Maria Cristina, Arlete Sendra, Analice, Beth Braith, Sílvia Lúcia dos Santos Bastos,
Eliana Crispim França Luquetti, Dr. Carlos Henrique Medeiros de Souza e, aos médicos, Drª
Lúcia Regina, Eliane Casarsa e ao Dr. Rafael Barreto. Meus sinceiros agradecimentos pela
compreensão, comprometimento e incentivo.
A todos os amigos que, de alguma forma, contribuíram para a constituição de valores
em minha vida.
RESUMO
O presente estudo teve como objetivo discutir a hegemonia da língua inglesa, em detrimento
de outras línguas, no discurso dos pais de adolescentes cujos filhos escolheram fazer curso de
inglês devido às exigências de mercado, à ascensão social e ao domínio cultural. Nesse
sentido, buscamos, nesta pesquisa, abordar o domínio hegemônico e sem fronteiras da língua
inglesa na constituição da identidade destes adolescentes em fase escolar, levando em
consideração fatores políticos, econômicos e culturais, que configuram os discursos dos pais
desses estudantes. Para a realização deste estudo, constituímos uma amostra de falas de pais e
de estudantes da cidade Campos dos Goytacazes/RJ, de onze escolas/cursos de língua inglesa,
totalizando vinte entrevistas, sendo quinze de pais e quinze de alunos. Além disso,
preparamos amostras de anúncios e propagandas dos onze cursos selecionados. Utilizamos
alguns teóricos da Análise do Discurso, da Sociologia, da Antropologia e outros especialistas
da área temática desse estudo, como Gramsci (1975), Althusser (1976), Nowles (1999),
Philipson (2001), Calvet (2002), Graddal (2006), Fairclough (2008) e Van Diijk et al. (2010).
ABSTRACT
This study aims at discussing the hegemony of the English language at the expense of other
languages, in speech of parents of teenagers, whose children have chosen to study English
course, due to the demands of the market, rising social and cultural sphere. Accordingly, we
seek, in this research, addressing the hegemonic dominance and without frontiers of English
language in the formation of identity of adolescents in school phase, taking into account
political, economic and cultural factors, which set the parental discourse of these students. To
perform this study, we have a sample sound clips of parents and students of the city of
Campos dos Goytacazes, eleven schools/English language courses, for a total of twenty
interviews, being ten of parents and ten students. In addition, we have prepared some samples
of announcements and advertisements of the eleven selected courses. We use some theorists
of Discourse Analysis, Sociology, Anthropology, and other experts in the thematic area of
study, such as: Gramsci (1975), Althusser (1976), Nowles (1999), Philipson (2001), Calvet
(2002), Graddal (2006), Fairclough (2008), Van Dijk et al. (2010), among others.
SUMÁRIO
CONSIDERAÇÕES INICIAIS ...............................................................................................9
1 UM POUCO DE HISTÓRIA E CARACTERIZAÇÃO DO ENSINO DE LÍNGUA
INGLESA.................................................................................................................................14
1.1 Breve história da língua inglesa ...................................................................................14
1.2 A solidificação da língua inglesa no mundo ...............................................................29
1.3 A língua inglesa nos países emergentes........................................................................39
1.4 O ensino de língua inglesa no Brasil ...........................................................................45
1.5 Cursos livres de inglês ...................................................................................................47
2 A CONSTITUIÇÃO DA ALTERIDADE NO DISCURSO DO SUJEITO ....................52
2.1 O desaparecimento do ethos e o aparecimento do outro: globalização – o meio da
constituição da identidade híbrida .....................................................................................53
2.2 As facetas da identidade ................................................................................................54
2.3 A ideologia da língua inglesa como gênese das ideias que fundamentam a
encenação do adolescente ....................................................................................................60
3 METODOLOGIA ................................................................................................................65
4 ANÁLISE DOS DADOS......................................................................................................66
4.1 As propagandas: a encenação do sujeito .....................................................................68
4.2 Os discursos dos pais .....................................................................................................78
4.3 O discurso dos filhos ......................................................................................................84
CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................................90
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................................93
APÊNDICES ...........................................................................................................................97
ANEXOS ................................................................................................................................111
9
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Nos grandes e médios centros urbanos, há uma profusão de escolas que oferecem
cursos de inglês, valendo-se das mais diferentes formas de apelo e convencimento de sua
clientela potencial sobre os benefícios de aprendizado desta língua.
Tendo isso em vista, buscamos, nesta pesquisa, abordar o domínio hegemônico e sem
fronteiras da língua inglesa na constituição da identidade de adolescentes em fase escolar, ou
seja, os fatores políticos, econômicos e culturais que fundamentam os discursos dos pais.
Estes veem no aprendizado do idioma britânico, oportunidades – profissionais e sociais – que
permitirão que os filhos conquistem um futuro de sucesso e realizações. Compreendemos o
aprendizado de língua inglesa como um vasto campo de constituição de identidades, pautado
na ideologia da necessidade da formação profissional.
Analisando a revolução tecnológica no campo informacional, verificamos o
estreitamento dos territórios. Imerso na aldeia global do ciberespaço, o mundo tornou-se
menor. Nesse novo cenário, um idioma foi eleito para ser o principal código de acesso: a
língua inglesa. Assim, a preocupação em aprender o idioma inglês foi ampliada e os pais,
temerosos de que seus filhos fiquem à margem da nova sociedade que se desenha, veem nos
cursos de idiomas uma possibilidade de prepara-los para o mercado de trabalho.
Ressaltamos que a língua inglesa está presente em diversos setores da sociedade, como
propagandas televisivas, impressas, outdoors, rótulos de produtos alimentícios, cosméticos,
vestuário, entre outros. Assim, entende-se que a língua inglesa é um veículo de comunicação
de grande valia e sem fronteiras, permeando todas as áreas dos saberes, estreitando os laços
culturais e facilitando a comunicação entre cidadãos dos quatro cantos do mundo. Em um
território cada vez mais dominado pelo idioma inglês, é importante que sejam discutidas as
relações entre língua e poder, dominantes e dominados. Para as propostas de discussões,
buscamos o entendimento do porquê de a língua inglesa ter se tornado internacionalmente
dominante.
Compreendemos que o aprendizado de língua inglesa é considerado de suma
importância para os estudantes de modo geral, pois estes acreditam que com a aquisição de
conhecimento ascenderão sociopolítico-economicamente. Assim, podemos verificar que essa
concepção contribui também para a constituição da identidade desses jovens.
10
 Problema
Fatores políticos, sociais, culturais e econômicos formam uma resistente rede de
discurso que se estabelece nos setores da vida pública e privada. Esse “discurso”, que
referenda cotidianamente suas práticas, privilegia o inglês como língua de vasto
reconhecimento utilitário e social. Nessa perspectiva, cabe questionar se as práticas cotidianas
de discurso publicitário (os folhetos das propagandas dos cursos de inglês), aliadas ao
discurso dos pais e da escola, referendam esse status de que goza a língua inglesa.
 Hipótese
Acreditamos que os fatores políticos, econômicos e culturais fundamentam o discurso
dos pais, que, por sua vez, incentivam os filhos a estudarem a língua inglesa. Esta prática
demonstra e caracteriza a hegemonia deste idioma em diversas culturas no mundo. Além
disso, consideramos que esta hegemonia possui um papel marcante na construção da
identidade do adolescente nos cursos onde estudam a língua, não somente em Campos dos
Goytacazes/RJ, cidade onde desenvolvemos este estudo, mas em boa parte da extremidade
global.
 Objetivos
Esta pesquisa tem como objetivo geral investigar de que maneira as práticas cotidianas
de discurso publicitário (os folhetos das propagandas dos cursos de inglês), aliadas ao
discurso dos pais e da escola, referendam esse status de que goza a língua inglesa.
Especificamente, pretendemos:
a) Identificar os fatores políticos, econômicos e culturais, em suas diversas vertentes, que
fundamentam o discurso de pais cujos filhos estudam a língua inglesa, reforçando a
alteridade nos sujeitos em questão;
b) Definir como se dá a influência da hegemonia da língua inglesa no discurso dos pais;
c) Analisar o discurso, o sujeito, a ideologia, a constituição do discurso, os frames, os
scripts, o saber enciclopédico que elaboram o discurso dos pais, da escola, da
educação, quando se tratam de adolescentes; e
11
d) Analisar a ideologia da língua inglesa presente em propagandas publicitárias de onze
cursos de idiomas, cujas funções são assegurar e engodar a atenção dos pais na
conquista do sucesso para os seus filhos.
 Justificativa
A proposta deste estudo é promover uma discussão sobre a hegemonia da língua
inglesa em detrimento de outras línguas. Vários foram os fatores que motivaram o
desenvolvimento desta dissertação, dentre eles, podemos relatar a experiência do mestrando
com a língua inglesa. Ele desempenha a função de professor deste idioma e busca sempre
estratégias e abordagens de se ensinar a língua, enfatizando a cultura e a sua importância na
sociedade atual.
Outro fator motivador foi as inúmeras leituras realizadas, como por exemplo, de
Philipson (1992), que considera a difusão da cultura inglesa fora da Inglaterra como um
problema de reconstrução pós-guerra. Essa temática fundamentou-se com base na
“mcdonalização” tipografada na sociedade brasileira; uma organização fundada na década de
1930 para difundir o inglês e se opor à difusão das línguas de governos fascistas, criando,
assim, um esquema de formação de profissão mundial para professores de inglês.
Engendrando-se no início de 1950, desde então, vem se difundindo nos quatro cantos do
mundo e como principal aliado dos norte-americanos, investindo nos países de Terceiro
Mundo para expandir o que hoje chamamos de second language (ou segunda língua). Assim
sendo, ter um diploma de proficiência internacional em língua inglesa seria como ter um
status supranacional.
Segundo Philipson (1992), o imperialismo linguístico do inglês é um domínio mantido
pelo estabelecimento e pela reconstituição contínua das desigualdades estruturais e culturais
entre o inglês e outras línguas.
Tsuda (1994), por sua vez, representa cuidadosamente as muitas das dimensões da
atual política linguística americana, fazendo paralelo a dois paradigmas:
 Paradigma 1: difusão do inglês – Difusão americana que leva em consideração o
capitalismo, a ciência e a tecnologia, a modernização, o monolinguismo, a
globalização
e
a
internacionalização
ideológica,
a
transnacionalização,
a
americanização, a homogeneização da cultura mundial, o imperialismo linguístico
cultural e midiático; e
12
 Paradigma 2: ecologia das línguas – Considerando o ponto de vista que diz respeito
aos direitos humanos, igualdade na comunicação, multilinguismo, preservação da
língua e culturas, proteção da soberania nacional, incentivo ao aprendizado de línguas
estrangeiras.
Outro aspecto motivador para a realização desta pesquisa foi a relação do pósgraduando, de origem angolana, com a língua inglesa na sua infância. Ele, desde sua tenra
idade, sempre ouvia falar da língua inglesa e de sua importância para a ascensão social.
Muitas vezes, o autor e os seus amigos se esforçavam para aprendê-la, memorizando frases
prontas, principalmente de músicas e trechos de filmes na expectativa de aprendê-la. Desse
modo, ele buscava, cada vez mais, conhecer esse idioma a fim de mostrar que podia assimilar
e possuir domínio eficiente do mesmo. Por vezes, fingia que cantava em inglês para
impressionar as garotas e os outros, promovendo uma sensação de engrandecimento e
sentimento de ser diferente de todos. Então, cresceu almejando ser parecido com os jovens
afro-americanos, porque, sendo igual a estes, constituiria um futuro promissor para sua vida.
Aos seus quinze anos, acreditava que lhe faltavam apenas três anos para começar a
trabalhar e, consequentemente, gozar de seu sonho, uma vez que tivesse aprendido a língua
inglesa. Devido aos domínios econômicos, políticos, linguísticos e culturais americanos,
quase todo adolescente angolano, na década de 1990, aspirava a viver nos EUA e aprender a
língua inglesa.
Além de sua política cosmopolita, percebe-se que a década de 1990 foi o auge da
música pop. A música fazia parte da vida do adolescente angolano e, muitas vezes, esta lhe
servia de aporte para os grandes dilemas da vida rotineira. Ícones como Michael Jackson,
Whitney Houston, Madonna, Mariah Carey, entre outros, levavam milhares de jovens
angolanos a se recrearem nas diferentes formas de perceber a vida e, principalmente, no meio
musical.
Com essa convulsão meteórica da música pop e das grandes inovações de Michael
Jackson, por exemplo, todos os adolescentes angolanos queriam ser iguais na capacidade de
dançar, cantar, falar inglês e se vestir. Isso porque as melhores músicas eram as americanas e
a língua inglesa se encontrava no boom de sua expansão em todo o planeta.
Já na década de 1990, a cultura americana apresentava-se na mente do jovem angolano
como a única e mais eficaz. Na realidade, muitos destes jovens não tinham pais e nem
instrução escolar, viviam à procura de transformarem a incerteza em certeza, da vida que
levavam.
13
Conforme o autor, naquela época, o seu país ainda encontrava-se no auge da Guerra
Fria. Como resultado, muitos adolescentes eram criados sem pais e, alguns, sem família
nenhuma. Assim, muitos deles eram expostos a esses conjuntos de ideologias, apresentados
por meio da cultura musical. Ao mesmo tempo em que a música lhes servia de alívio do
sofrimento trazido pela Guerra, esta lhes trazia, também, uma sensação agradável ao invés da
dor da ausência de cultura. Tudo isso porque, com a Guerra, muitos dos jovens procuravam
um lugar seguro, mesmo sem saber aonde ir, ou sem ter amigos ou familiares nos países
europeus ou americanos, buscando estudar a língua inglesa.
Somente hoje, aos seus trinta anos, o pós-graduando foi capaz de decifrar o que
sempre esteve por detrás deste grande fenômeno chamado língua inglesa, quais são os aportes
que fazem com que esta transcenda as barreiras do tempo. Ela se encontra totalmente
estruturada e com aliados muito mais fortes, como a tecnologia, que trouxe consigo as novas
tecnologias da comunicação. Estas, por sua vez, transformaram o pensar e o calcular do
homem.
Mesmo que algumas línguas tenham se reerguido, a língua inglesa sempre é
apresentada como alternativa para as melhores ocasiões, assim como no mundo acadêmico –
quase em todas as áreas – em que os melhores artigos são aqueles escritos em inglês. Por essa
razão, vemos que a língua inglesa é simplesmente sem fronteira, porque, mesmo em países
europeus como Barcelona – cujas raízes de todas as línguas são estritamente oriundas do latim
–, os grandes congressos são apresentados na língua inglesa.
Diante desses apontamentos, desenvolvemos esta dissertação em três partes, a saber:
caracterização da Língua Inglesa no Mundo, A constituição da Alteridade no Discurso do
Sujeito e Análise de Dados. No primeiro, procuramos caracterizar a língua inglesa, assim
como seu ensino e suas projeções na sociedade. Já na segunda parte, realizamos uma
explicitação dos pressupostos teóricos a serem utilizados nessa abordagem. No terceiro
capítulo, propomos uma análise das amostras constituídas a fim de evidenciar o nosso objeto
de estudo.
14
1 UM POUCO DE HISTÓRIA E CARACTERIZAÇÃO DO ENSINO DE LÍNGUA
INGLESA
Neste capítulo, buscamos abordar a história da língua inglesa, bem como sua
decadência, ascensão e difusão global. Desse modo, procuramos também ressaltar a
importância desta língua no âmbito da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
(LDB), que é evidenciada na integração de Códigos e Linguagens e Tecnologias como áreas
indissociáveis e necessárias ao desenvolvimento do educando. Assim, os Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCNs) apresentam de que forma devem ser abordadas no processo de
ensino-aprendizagem das mesmas na escola e os cursos livres de inglês buscam esses
princípios em suas metodologias pedagógicas.
Para isso, trabalhamos principalmente com as bases teóricas de Knowles (1999),
Philipson (2001), Graddol (2006) e Harmer (2008), que estudaram a respeito do processo
English language teaching (ELT).
1.1 Breve história da língua inglesa
Verificamos que Graddol (2006), em seu estudo intitulado English Next, argumenta
que a história da língua inglesa é compreendida em três períodos distintos. Porém, cada
período é composto de novos traços, novas tendências, novas ideologias e, consequentemente,
de novas concepções linguísticas.
Assim, de acordo com o autor, a estrutura da língua inglesa nos chama atenção para
três determinados eventos que mudaram sua história. Segundo Knowles (1999), o primeiro
deles foi curto, após a Conquista normanda, e é conhecido como “inglês antigo”. O período da
dominação francesa foi o segundo, chamado de “inglês médio”, e, finalmente, o momento da
introdução da impressão, quando a língua torna-se reconhecidamente semelhante à língua
inglesa moderna. Em especial, a invasão Normanda, que anunciou a rápida frenchification1 da
língua inglesa e, mais tarde, a constelação de evoluções políticas, religiosas e econômicas que
circundam o surgimento da Grã-Bretanha como um novo e moderno Estado-nação.
Segundo Graddol (2006), há, no entanto, um risco se simplesmentente acrescentarmos
um novo período histórico e constituirmos a língua inglesa como a nova língua global sem
considerarmos as mudanças ocorridas no século XIX – igualmente como ensinado em todos
1
Franchification é designador aplicado a uma série de políticas de assimilação étnica implementada pelas
autoridades francesas na Revolução Francesa para hoje em dia. O ato de se tornar francês em aparência ou
comportamento, entre outros.
15
os principais livros. De acordo com o autor, alguns arqueólogos e historiadores ainda
argumentam que a compreensão da vida medieval no mundo contemporâneo foi deturpada
pelas lentes do século XIX. Consequentemente, muitos arqueólogos e historiadores buscam
uma reavaliação do estudo desta. Assim, percebemos que a tradicional história da língua
inglesa no mundo contemporâneo é construída como uma grande narrativa.
Na verdade, a história da língua inglesa nos fornece um grande mito sobre sua origem
nacional, porque, muitas vezes, é apresentada como um conto popular de “trapos à riqueza” e
que emerge de origens humildes e obscuras no tempo antigo. Isso ocorre por se tratar de uma
língua literária, como a fundação de uma nova consciência política de anglo-saxão
(prenunciando o papel do inglês no estabelecimento de uma identidade nacional futura).
Ainda segundo Graddol (2006), na história das grandes narrativas da língua inglesa, o francês
sempre se posicionou como o vilão com quem a língua inglesa batalhava e, eventualmente,
triunfava. Dessa forma, comprendemos que, com a invasão Normanda, a integridade cultural
e linguística da língua inglesa é totalmente destruída, não pela Relexification2 do francês, mas
devido a todos os seus negócios de recriação como uma língua literária e identidade nacional.
Assim, conforme o autor, a nova era da língua inglesa toma forma no século XVI e, de igual
modo, é consolidado o triunfo final deste idioma no mundo.
Com esse triunfo, a língua inglesa supera o seu arquivilão histórico e reemerge como
uma língua nacional completa, com novas literaturas provindas de grandes escritores
dramaturgos como Dryden e Shakespeare e, já no século XVII, nas escritas científicas de
Isaac Newton e seus contemporâneos das Sociedades Reais. Logo, no século seguinte, a
língua inglesa aparece com aparatos de regulamentação provindos do primeiro dicionário
compilado por Samuel Johnson. Por fim, no século XIX, acontece a compilação do maior
monumento histórico, o chamado Oxford Dictionary. Segundo Graddol (2006), considerando
as perspectivas europeias, a história da humanidade vivenciou três grandes eventos: o prémodernismo, o modernismo e o pós-modernismo. No entanto, percebemos que cada período
tinha aspectos diferentes em relação à organização econômica e social, às crenças, às ideias e
à forma de conceber o mundo. Com isso, o marco da modernidade referente a cada um dos
períodos se espalhou em toda esfera terrestre, podendo seus desenvolvimentos serem descritos
pelos séculos.
2
Relexification é um termo na linguística usado para descrever o mecanismo de mudança de idioma pelo qual
este substitui muito ou todo seu léxico, incluindo o vocabulário básico, com o de outro idioma, sem mudança
drástica a sua gramática. Ele é principalmente usado para descrever idiomas mistos, crioulos e pidgins.
Relexification não é sinônimo de contração lexical, que descreve a situação onde uma língua meramente
complementa seu vocabulário básico com palavras de outro idioma.
16
Consequentemente, com o aparecimento do capitalismo, a expansão do colonialismo,
o protestantismo e o não conformismo no Nordeste Europeu, as guerras territoriais, o
iluminismo, a Revolução Industrial e a era urbana no século XIX, a língua inglesa alcança o
estágio de uma língua moderna. Ou seja, uma língua codificada, padronizada, simbólica e que
contribui para a unificação da identidade. O surgimento da língua inglesa como língua
moderna traz também a concepção de modernidade de novos falantes e de uma nova língua
estrangeira.
Por essa razão, asserveramos que os valores que permeiam a convencional história da
língua inglesa são oriundos dos relatos do século XIX, incluindo os conceitos vitorianos de
modernidade, e que tinha como discurso “progresso e crescimento”, bem como em relação a
fatores relevantes para a construção da moderna identidade do Estado-Nação. No entanto,
compreendemos que a modernidade linguística não era apenas uma questão de momentos
nacionais para a linguagem. Com o surgimento do dicionário Oxford, a língua inglesa se
tornaria um meio de suprir a necessidade do “fardo que existia sobre os ombros dos falantes”
da língua inglesa que consideravam o idioma como uma força civilizada ao mais longíquo do
império.
Nessa perspectiva, surgiu um novo capítulo chamado de “Inglês Global” – reflexo da
visão modernista do século XIX, que contribui para a propagação da língua inglesa. Com isso,
o idioma coopera para a transformação do mundo, sendo, também, transformado por ele.
Entendemos que muitas das tendências apresentam mudanças rápidas e extraordinárias
no mundo contemporâneo. Estas podem ser compreendidas como políticas antigas, oriundas
da modernização que foi varrida por um novo movimento, igualmente poderoso, com suas
estruturas, atitudes e a necessidade de modernidade. Estas resultam da Globalização,
adjacente às novas tecnologias e, em especial, àquelas relacionadas às novas técnicas de
comunicação e mudanças na forma demográfica do mundo. Consequentemente, no século
XIX, ocorre o boom da comunicação, que transformou a forma de pensar e calcular do
homem. Não obstante, todos os estudantes passaram a ser informados sobre os impactos e
benefícios dessas tecnologias com o telégrafo eletrônico. Assim, com a grande procura,
muitos já previam o advento do pós-modernismo – que representaria a continuidade das novas
ideias de inovações e novas tendências concomitantes na vida social.
O aparecimento deste novo período é descrito como “um novo padrão de mudanças”
nas ciências, assim, também contribuiriam, uma vez e para sempre, para o avanço das
informações e para a constituição da língua inglesa como língua global. Assim, com o
17
aparecimento dessa nova era chamada de pós-modernidade, percebemos que o mundo mudou
e nunca mais foi – ou será – o mesmo.
Nos dias atuais, vemos um grande número de pessoas aprendendo inglês ao redor do
mundo. Portanto, nota-se que a língua inglesa não é mais aprendida como língua moderna
estrangeira, levando em consideração os fatores de poder hegemônicos dos falantes nativos,
mas sim como a nova língua das ciências, das tecnologias e da globalização; logo, como a
nova língua global.
Percebemos, então, que a globalização adjacente às novas tecnologias trouxe
mudanças nos setores políticos, econômicos, culturais e linguísticos, transformando o modo
de pensar, calcular, bem como de se comunicar socialmente. E, por essa razão,
compreendemos que o aprendizado da língua inglesa nos países considerados emergentes
tornou-se sinônimo de modernidade e status para aqueles que detêm o domínio desta língua.
Além disso, notamos que o sucesso linguístico da língua inglesa é descrito como o resultado
da aspiração de grupos de estudiosos que ansiavam ter esse idioma como a língua de estudos,
escritas e que, também, almejavam tirar o domínio da aristocracia para a classe média.
Já Knowles (1999), em seu livro intitulado The cultural history of the english
language, afirma que, desde o início do século V, uma língua semelhante ao inglês moderno
já se encontrava em uso. Isto é, antes da retirada das legiões romanas na Grã-Bretanha, na
costa leste da Inglaterra, já se encontrava invadida e sitiada pelos invasores saxões, do outro
lado do Mar do Norte. Portanto, ao longo do século seguinte, os recém-chegados já estavam
instalados definitivamente e bem alojados. De acordo com o autor supracitado, Bede, um
monge de Jarrow, escrevendo no final do século VIII, declara que estes grupos pertenciam a
três tribos: anglos, saxões e jutos. Hoje, essas pessoas são geralmente referidas como AngloSaxões, mas sua língua ainda é chamada de inglês.
Esse povo conquistou a totalidade do que é hoje chamada de Inglaterra, e não obstante,
a deslegitimação da língua celta que até então era falada pela maioria da população, a
legitimação da língua inglesa como foi pelos Anglos-Saxões aos celtas. Os falantes da língua
inglesa eram submetidos a novas incursões por meio do Mar do Norte, mas, desta vez, por
dinamarqueses. Ainda segundo Knowles (1999), as primeiras incursões feitas por estes foram
datadas em 797, e, por conseguinte, os dinamarqueses conquistaram uma grande parte do
norte e leste da Inglaterra a partir da linha que ligava Chester a Thames. Não obstante, no
tempo do rei Alfred, só a terra Sul e oeste desta linha permaneceram no domínio Anglo-saxão.
Portanto, a invasão dinamarquesa e, subsequentemente, a instalação dos dinamarqueses,
18
trazem espantosamente grandes influências na língua inglesa e, com isso, muitas palavras são
tomadas de empréstimo, especialmente, nos dialetos do norte.
De igual modo, também ocorre a invasão normanda e, logo após, a conquista da
Inglaterra, em 1066. Assim, a língua francesa torna-se a língua na discursividade da
Aristocracia na Inglaterra, enquanto o latim é adotado como a principal língua da escrita.
Entretanto, a língua inglesa continuava sendo falada por uma pequena camada da sociedade.
Com isso, os escritos tradicionais desta eventualmente entraram em colapso, e poucos
registros escritos da língua inglesa sobreviveram ao longo de 200 anos.
Todavia, a língua francesa continuou em uso por 300 anos, até que esta foi
gradualmente substituída pela língua inglesa, já em meados do século XIV. Assim, a nova
língua inglesa que emerge desse processo é fortemente influenciada pela língua francesa,
aderindo a uma grande quantia de vocabulários franceses. A influência da língua francesa
poderia ser vista no discurso de Sir Geoffrey Chaucer, um poeta inglês e autor de uma das
maiores obras da literatura inglesa, denominada The Canterbury Tales.
Como consequência das diversas mundanças ocorridas em quase todos os setores,
William Caxton introduz a impressão na Inglaterra. Isto é, já na década de 1470, os textos
escritos tornam-se muito mais amplamente disponíveis do que antes. E, assim, a impressão
torna-se o catalisador para as grandes convulsões do século XVI, que estavam ligadas nas
várias atitudes do período Renascentista e da reforma protestante. De acordo com Knowles
(1999), foi aproximadamente neste momento que os estudiosos começaram a escrever em
inglês, ao invés do latim.
Como resultado destas mudanças concomitantes em quase todos os setores, muitas
palavras do latim foram tomadas por empréstimo pela língua inglesa. Não obstante, com todas
estas mundanças também ocorre, no final do século XVI, o florescimento da Literatura
inglesa, juntamente com a era Shakespeareana (1564-1616). Por conseguinte, ocorre a
publicação da versão autorizada da Bíblia inglesa, em 1611.
Entretanto, segundo Knowles (1999), o novo e moderno padrão da língua inglesa já
podia ser rastreado a partir da era de Chaucer, pois ainda era muito pouco variável na
ortografia, no uso das palavras e nos detalhes da estrutura gramátical. Após a restauração de
Carlos II, em 1660, houve um grande interesse na definição da língua e, em 1712, Jonathan
Swift propôs a configuração de uma academia para que, assim, pudesse ocorrer a definição da
estrutura da língua inglesa. Logo, a responsabilidade de padronização desta língua foi
entregue nas mãos dos estudiosos, que tinham a finalidade de decidir sobre quais vocabulários
seriam ou não inclusos no novo inglês padrão.
19
Após o trabalho dos estudiosos surge, então, o Dicionário de Johnson de 1755, que
contribui para padronizar as grafias e corrigir os significados das palavras. Com a
padronização, diversas gramáticas foram produzidas, entre as mais influentes sendo a
gramática de Lowth, de 1762. Portanto, desde 1760, houve também o interesse crescente para
a definição de uma norma de pronúncia da língua inglesa, o que resultou na tradição de um
dicionário de pronunciação, sendo o dicionário de Walker, de 1791, o mais influente. Além
disso, Daniel Jones recebeu a pronúncia, adaptada pela BBC (British Broadcasting
Corporation; em português, Corporação Britânica de Radiodifusão) na década de 1920 como a
pronúncia padrão das transmissões.
É necessário ressaltar que, a partir dessa estrutura de tópicos, torna-se claro que a
história da língua inglesa foi definida de várias maneiras e por mudanças sociais. Embora
estas tenham durado 1500 anos, a história da língua inglesa foi submetida a partir do padrão
de mudança por pequenas escalas contínuas e interrompida pelos grandes eventos que
trouxeram mudanças drásticas e súbitas a ela. Desse modo, são estas descontinuidades que
nos permitem dividir a história da língua inglesa em convenientes “períodos”, que mudaram
sua história, como já mencionado.
É importante destacar que a conquista dos invasores estrangeiros é decisivamente
seguida pela introdução das suas línguas, podendo assumir várias formas e funções, como no
caso dos anglo-saxões, que tomaram posse da língua, ou dos dinamarqueses e normandos, que
desistiram desse idioma. Portanto, no caso de várias línguas em uso ao mesmo tempo, elas
podem ter diferentes funções. Após a conquista normanda, por exemplo, o inglês e o francês
foram usados como vernáculos e, o latim, usado como língua de registro.
Todavia, quando um idioma é cedido, seus usuários podem transferir alguns dos seus
padrões para a nova língua. Dessa maneira, segundo Graddol (1999), a influência estrangeira
atingiu seu ápice quando os dinamarqueses adotaram a língua anglo-saxônica e os burocratas
começaram a usar o inglês no lugar do francês, e, além disso, quando os estudiosos
começaram a escrever em inglês ao invés do latim.
Logo, o processo de adoção de características de outro idioma é conhecido como
“empréstimo”, sendo os vocábulos os itens mais prontamente utilizados para esse fim. Por
isso, a língua inglesa contém milhares de vocábulos emprestadas do dinamarquês, do francês
e do latim. Portanto, como resultado do contato do mercantilismo, do capitalismo, da
expansão imperial e do processo da difusão da língua inglesa – globalização adjacente ao
boom tecnológico –, o idioma toma como empréstimo vocábulos de todo o mundo. Assim, ao
consideramos a origem da língua inglesa, o contato também deve ser levado em consideração.
20
Os vocabulários e as expressões da língua inglesa vêm de uma ampla gama de lugares,
principalmente do latim, francês e germânico, mas também do hindi – idioma húngaro e de
nativos americanos e australianos. Por esse motivo, a pronúncia da língua inglesa é, em
grande parte, anglo-saxônica, mas também dinamarquesa e francesa. A gramática da língua
inglesa, por sua vez, é basicamente germânica, sendo influenciada pelo francês e latim
(KNOWLES, 1999).
1.1.1 O latim e o inglês
Os ecos das línguas celtas, apesar de terem repercurtido por toda a Europa, só ressoam
hoje nas margens do Atlântico. Entretanto, segundo Walter (1997), nada permitia supor um
destino excepcional para a língua daquele pequeno povo de agricultores estabelecidos nos
povoados que, em meados do século VIII a.C., constituíram apenas um modesto lugar de
passagem no coração do Lácio, no pantanoso vale do Tibre. Um destino cheio de
contradições, pois, na forma euridita e escrita, o latim iria se tornar por vários séculos a língua
da cultura ocidental. Esta era uma língua fixada para sempre na forma que tinha no tempo de
Cícero e, portanto, quase uma língua morta. Já em sua forma familiar, e no início apenas oral,
essa língua evoluiu e diversificou-se, permitindo o nascimento da grande família das línguas
românicas: o italiano, o espanhol, o português, o francês, o romeno, mas também o catalão, o
provincial, o languedociano, o romanche, o corso e ainda valão, o veneziano, o siciliano, entre
outros.
Ainda segundo Walter (1997), os historiadores concordam em remontar a fundação de
Roma a - 753, data em que, no entanto, a situação da cidade parecia bem crítica, cercada entre
as duas grandes potências que dominavam então a península italiana: de um lado a brilhante
civilização etrusca e, de outro lado, no sul do país, a não menos prestigiosa colonização grega.
Confrotado com essa situação geografica de desconfortável entre duas grandes
potências que mantinham intensas relações comerciais. Roma via-se condenada a desaparecer
ou desenvolver-se. Diante disso, no lugar em que o Tibre oferecia possibilidade de uma
passagem, Roma finalmente conseguiu dominar seus incômodos vizinhos.
21
A partir do século VI a.C., começou verdadeiramente a ascensão de Roma, cuja língua
se espalharia depois pela maioria das terras conquistadas.
A república durou cinco séculos (do VI ao I a.C.). A seguir veio o Império, que durou
outros cinco séculos, até a queda do Império do Ocidente (476 d.C.). O império do Oriente
permanceu ainda por cerca de um milênio, e sua queda (1450) marcou o fim da Idade Média
(Quadro 1).
-753
-616-509
-509
-390
-312
-241, -238
-197
-191
-167
-148, -146
-146
-120
-58, -50
-15
+43, +49
+106, +124
Fundação de Roma, no monte Palatino, seguida do rapto das sabinas.
Reino dos Tarquínios, reis etruscos. Construçãoda Cloaca Maxima.
Expulsão de Tarquínio o Soberbo. Nascimento da República.
Construção da primeira estrada romana, a Via Ápia, de Roma a Cápua.
Construção da primeira estrada romana, a Via Ápia, de Roma a Cápua.
Conquista da Sicília, da Sardenha e da Córsega, que são transformadas em
províncias romanas.
Conquista da Espanha.
Conquista da Gália Cisalpina (Norte da Itália).
Conquista da Ilíria (costa setentrional do Adriático).
Conquista da Macedônia e da Grécia.
Expedições na África (Tunísia).
Conquista da Gália Transalpina (provincia Narbonensis).
Conquista da Gália setentrional.
Conquista da Récia (Crisões, Tirol, Lombardia).
Primeira expedição à Inglaterra.
Conquista da Dácia (atual Romênia).
Quadro 1 – A expansão de Roma: algumas datas
Fonte: Henriette Walter
Hoje em dia, após séculos de um latim que foi considerado como protótipo da língua
erudita, é difícil imaginar que até o século III a.C. ele não passava de uma língua de
camponeses, mercadores e soldados, e que até então só servia para registrar fórmulas ou
práticas jurídicas.
Para maior esclarecimento, faz-se necessário que seja discutido também a relação
desta língua com a sociedade e com outra língua, e ressaltar como esta deixou de ser usada
como língua oficial. Para isso, nos atenuaremos nos pressupostos de Knowles (1999).
De acordo com as pressuposições de Knowles (1999), as mesmas condições que
levaram ao uso do inglês no lugar do francês também levaram aproximadamente o mesmo
tempo para a luta entre inglês e latim. Entretanto, segundo o autor, o latim, no período
medieval, era a língua de uma cultura europeia que abraçou a religião e a bolsa de estudos, e
que foi apoiado pelos poderes da Igreja e do Estado. O autor ainda argumenta que,
22
eventualmente, a mudança foi provocada por um desafio bem sucedido ao poder da igreja
medieval na Inglaterra. Como resultado, enquanto a cultura era contestada, do mesmo modo,
era desafiado o latim.
A fim de compreender como o inglês veio substituir o latim no século XVI, é
importante investigarmos os eventos anteriores e as mudanças que contribuiram para o novo
contexto social em que a língua inglesa foi percebida como a língua natural da Inglaterra.
Segundo o autor supracitado, entre esses eventos temos os Lollards, as Bolsas clássicas, a
educação medieval, as profissões, entre outros.
Os Lollards foram um dos desenvolvimentos linguísticos mais notáveis do século XIV
na Inglaterra e uma associação criada para favorecer o uso do inglês e se opor à Igreja e ao
Estado. Portanto, essa oposição à Igreja é associada ao teólogo John Wyclif Oxford, que, em
1356, atacou a Igreja em seu tratado em latim, denominado “A última era da Igreja”. Em
1370, ele voltou sua atenção às questões mais centrais da doutrina, enfatizando a autoridade
da Bíblia ao invés dos ensinamentos tradicionais da Igreja, antecipando assim os pontos de
vista dos reformadores protestantes mais tarde. A oposição política era uma reação popular à
política do governo. Em 1377, tendo em vista a necessidade de receita para combater a guerra
com a França, o governo introduziu o imposto a uma taxa fixa de quatro pence por cabeça da
população, sem levar em conta a capacidade de pagamento. E, quando o pagamento de
imposto foi elevado a um xelim (5p), em 1381, os camponeses dos municípios do sul se
rebelaram, e capturaram Londres, onde decapitaram o arcebispo de Canterbury. Até o final do
século, as questões religiosas e sociais se uniram ao movimento lolardo.
Segundo Knowles (1999), o uso desafiador de inglês pode ser rastreado até 1382,
quando John Aston foi julgado por heresia antes de o arcebispo de Canterbury, e falou em
Inglês, a fim de ser ouvido pelo público, ignorando as instruções do tribunal para falar em
latim (TREVELYAN, 1899 apud KNOWLES, 1999). Foi por volta dessa época, no final de
sua vida, que Wyclif agarrou-se ao pleno significado do uso do inglês (HUDSON, 1985). A
Bíblia era, então, disponível em francês, mas nenhuma tradução em Inglês tinha sido feito
desde antes da conquista normanda. Assim, os tradutores Lollards produziram uma versão
completa em inglês da Bíblia no final do século.
Segundo Knowles (1999), se os estudiosos fizeram o esforço de fazer esta tradução,
então deve ter havido um grupo grande e potencialmente poderoso de pessoas que eram
alfabetizados em Inglês e que tinha o dinheiro para comprar livros, da educação e de lazer.
Entre estes estavam os comerciantes alguns dos quais estavam envolvidos no comércio de
livros. De acordo com Hudson (1985), os textos dos Lollards já indicavam edição meticulosa
23
de práticas que anteciparam àquelas das primeiras casas de impressão, e pode haver tido um
centro de produção de livro em algum lugar do East Midlands. O Inglês Lolardo foi uma das
vertentes principiante do padrão adoptada pela escrita da burocracia nacional na época de
Henrique V.
A alfabetização em Inglês também foi se espalhando entre as ordens inferiores da
sociedade, na medida em que, em 1391, os Commons apelaram o rei – no caso, sem sucesso –
para torná-lo ilegal para os servos e vilões aprenderem a ler (LAWSON; SILVER, 1973 apud
KNOWLES, 1999). Os empresários e trabalhadores em geral tiveram interesses muito
diferentes, do mesmo modo como ainda é hoje, mas seus interesses eram diferentes da Igreja e
ambos tinham interesse no uso da língua inglesa.
O medo das massas e da educação em massa levou a alguns desenvolvimentos
notáveis no início do século XV. Um debate teve lugar em Oxford, em 1401 (HUDSON, 1985
apud KNOWLES, 1999) para discutir a adequação do Inglês como uma língua para tradução
da Bíblia. O estudioso ortodoxo Richard Ullerston defendeu a língua inglesa da acusação de
que era uma língua bárbara com nenhuma estrutura gramatical, e que carecia de um
vocabulário adequado para Escritura. A visão que prevaleceu, no entanto, era que o inglês não
era uma língua adequada para a tradução da Bíblia. Apesar de o Inglês já ter sido utilizado
para este fim por vários séculos, este não era claramente um julgamento linguístico, mas
político. O ano de 1401 foi também aquele em que o Parlamento aprovou a Lei para a queima
de hereges, de hceretico Comburendo, que ligada alfabetização popular à sedição: hereges
foram acusados de fazer ilegal conventículos e confederações, à criação de escolas,
escrevendo livros e perversamente instruindo e informando as pessoas (ASTON, 1977).
Em 1407, o uso do inglês em qualquer área dentro do domínio da igreja era proibido
pela legislação eclesiástica de Thomas Arundel, arcebispo de Canterbury, segundo argumenta
Hudson (1985 apud KNOWLES, 1999). A política da Igreja perante a língua inglesa provou
ser uma contramedida extremamente eficaz, pelo menos no curto prazo, uma ameaça popular
para seu poder e autoridade. A questão não era tanto o que estava sendo discutido, mas quem
estava fazendo o debate, essa se manteve legal para discutir heresia ou abusos na Igreja, desde
que era em latim. O problema para a igreja era que a versão em inglês da Bíblia já tinha sida
colocada à disposição para ser um verdadeiro pregador do evangelho, os sacerdotes pobres
itinerantes que disseminavam as ideias Lollard entre as pessoas simples e comuns. Apesar da
proibição, partes de leitura no subsolo continuavam a serem descobertas pelas autoridades
(ASTON, 1977).
24
Uma vez que a Igreja efetivamente controlava os conhecimentos dos acadêmicos,
qualquer escrita acadêmica em inglês poderia ser considerada ou estar coberta de heresia. As
obras mais surpreendentes que apareceram nessa época estavam sob suspeita de heresia.
Assim como: The Canterbury tales que foram citados em 1460, e por volta de 1520 até
mesmo versões do Paternoster – pai nosso e os dez mandamentos foram consideradas
perigosas (ASTON, 1977). Em detrimento deste fato, John Colet foi suspenso em 1513 por
traduzir o Paternoster para o inglês.
Mesmo com um bom texto, os tradutores Lollards tiveram dificuldade para transmitir
o significado exato do original. Escrevendo em inglês, enfrentaram o mesmo problema ao
expressar as ideias que anteriormente tinham sido expressas em latim e, para isso, eles
tiveram que usar palavras de inglês nativo, mas também emprestado de francês e latim para
que pudessem se expressar com maior eficácia as ideias do texto em latim.
A fim de atacar os Lollardos, Bispo de Chichester, Reginald Pecock, em sua obra The
represser of over much blaming of the clergy (1460), achou necessário escrever não em latim,
mas “em uma linguagem de pessoas comuns”. Consequentemente, ele enfrentou exatamente
os mesmos problemas linguísticos, tais como foram os seus adversários. Entretanto, este para
melhor coposição de suas ideias, teve que inventar a partir de materiais de nativos ou tomar
emprestados termos familiares de francês e latim. Entre as palavras em Inglês inventadas
temos: unstondabilnes (instability), agenseie (contradict) e untobethoughtupon (inceivable)
(GORDON, 1966). Pecock caiu em 1457 na luta pelo poder incipiente entre Lancaster e York.
Ele foi acusado de heresia, forçado a retratar-se, e morreu no anonimato por volta de 1460
(GREEN, 1945 apud KNOWLES, 1999).
1.1.1.1 Bolsas clássicas
As consequências da alfabetização mais generalizada não foram restringidas à religião.
Havia uma demanda mais geral para a educação e para obras de erudição secular em inglês.
No entanto, havia poderosos interesses investidos no uso do latim, e continuou a ser usado
como a língua das Conservativas.
25
1.1.1.2 Educação medieval
Educação típica medieval era um tipo de aprendizagem, seja para o direito ou para a
Igreja, ou para as atividades profissionais (LAWSON; PRATA, 1973 apud KNOWLES,
1999).
A formação ministrada pela Igreja começaria com as três primeiras artes liberais (o
triviwri) – ou seja, a retórica, a lógica e a gramática – e ir para os quatros finais (o
quadrivium), consistindo de aritmética, geometria, astronomia e música. Estudos superiores
incluíam a filosofia aristotélica, civil e direito canônico, medicina e teologia.
Em alguns casos, o treinamento tinha um apelo mais amplo que não era restrito aos
candidatos à profissão de intenção. As habilidades de Alfabetização, em particular,
mostraram-se de maior relevância social, e, por volta do século XV, escolas de gramática
foram sendo atendidas por meninos que não tinham intenção de se tornar sacerdotes.
Eventualmente organismos seculares, como as corporações, se interessaram na educação e em
alguns casos assumiram o controle. A Escola de São Paulo foi redoada por John Colet, 151012 e transferida do decano e seção de São Paulo para a sociedade de Mercers de Londres. O
primeiro diretor, William Lily, era um leigo (MCKNIGHT, 1928). Em longo prazo, a
formação da Igreja tornou-se o que agora consideramos como educação geral.
1.1.1.3 As profissões
No início do século XVI, houve um corpo crescente de conhecimento secular –
incluindo o conhecimento do novo mundo – que as pessoas precisavam conhecer, mas que
não foi prevista na bolsa da Igreja tradicional.
Portanto, uns devem ter esperado que a nova educação secular trouxesse no novo
currículo o conhecimento do novo mundo. Uma vez que o inglês é estabelecido como uma
língua da escrita, linguagem da bolsa clássica publica e uma língua oficial, uns poderiam ter
esperado que a língua inglesa fosse adotada como a linguagem da bolsa, mas o currículo do
latim permaneceu e gramáticas foram produzidas para ensiná-lo. Assim como à De John
Stanbridge morfologia, de 1496, que continha uma série de aforismos gramaticais que já
devem ter sido tradicionais e familiares, Thomas Linacre produziu uma gramática em 1523. O
currículo também sobreviveu à reforma protestante, e de longe o trabalho mais influente,
conhecido como a “Gramática de Lily”; uma compilação da obra de William Lily e John
26
Colet, publicada em 1549, e que se tornou obrigatória nas escolas de gramática. De uma
forma ou de outra, ela permaneceu em uso por 300 anos.
O latim foi usado não só pela Igreja e para a educação, mas por outras profissões.
Assim, o uso do inglês apresentou-se como uma ameaça óbvia, por exemplo, os médicos de
medicina. Em sua ofhelth Castel de 1541, Sir Thomas Elyot defende a escrita phisike em
englyshe, alegando que os gregos e os romanos escreveram em seus idiomas nativos. Note
que Elyot defende algo novo, não por causa do seu mérito intrínseco, mas, citando
precedentes do passado antigo.
Os tradutores de lolardos tinham expôsto uma teoria sensível e erudita da tradução,
enfatizando a importância de se ter um texto original confiável para trabalhar (HUDSON,
1986 apud KNOWLES, 1999). E, assim, mais elevados padrões de rigor em textos escritos
foram alcançados após a introdução da nova tecnologia de impressão. Em 1512-13, por
exemplo, Gavin Douglas criticou Caxton por imprecisão textual de sua tradução da Eneida
(BLAKE, 1969 apud KNOWLES, 1999), alegando que a exatidão do texto e a atenção ao
detalhe fazia parte das novas normas de bolsas estabelecida por Erasmus durante seu tempo
como professor de grego na Universidade de Cambridge, de 1509 a 1524. Entre suas
realizações, escreveu um Novo Testamento grego com uma versão latina de 1516. Entre seus
seguidores estavam os dois ingleses cuja reputação estendia-se além do canal, ou seja,
Thomas Linacre e Thomas More. Em 1524, Linacre escreveu sua obra De emendata structura
latini sermonis, que trata de estilo na escrita em latim.
A atenção de Erasmus para os detalhes dos textos gregos abrangiam à questão de
como eles deveriam ser pronunciados. De acordo com a pronúncia convencionalmente
utilizada na época, algumas vogais gregas diferentes eram pronunciadas da mesma forma.
Erasmus advogou que elas deveriam ter sido anteriormente pronunciadas de forma diferente.
Ele defendia que deveria considerava como a pronúncia original em seu Dialogus de recta
latini graecique sermonis pronuntiatione de 1528.
Depois da reforma, a lei canônica Romano foi abolida como uma disciplina de
Universidade e grego foi introduzida como uma nova materia, interessante e estimulante
(LAWSON; SILVER, 1973 apud KNOWLES, 1999). Um dos importantes pioneiro foi Sir
John Cheke (1514-57), que ensinou grego na Cambridge e foi nomeado professor de grego em
1540. Os Esforços do cheke para introduzir a pronúncia reformada em Cambridge opuseramse a Stephen Gardiner, o Chanceler da Universidade, que emitiu um decreto em 1542,
proibindo seu uso. Ele argumentou que ninguém deveria filosofar em todos os sons, mas
todos deveriam usar o presente. Pontos de vista de Erasmus sobre pronúncia também
27
encontraram oposição em Paris, onde eles foram denunciados como “heresia gramatical”.
Seus escritos foram posteriormente colocados no índice de papal de obras que os católicos
eram proibidos de ler.
É difícil acreditar que Gardiner foi ameaçado por sons e ao estudo da pronúncia. O que
representam uma ameaça, e muito grave, foi o estudo preciso de textos. Este ponto foi bem
compreendido pelos tradutores lolardo. A Bíblia foi, nesse momento, cada vez mais
proclamada pelos reformadores como a autoridade final e a mais erudita e precisa do texto
escrito; o mais eficaz que poderia ser usado para desafiar a autoridade oral tradicional da
igreja.
Gardiner foi extremamente conservador não só na língua, mas também na política e na
religião. Quando, depois de 1553, a rainha Maria procurou voltar a Igreja Inglesa para Roma,
Gardiner foi seu Chanceler; e é nesta qualidade que desempenhou um papel importante na
queima de hereges, e uma de suas vítimas em potencial – se ele não tivesse se retratado – foi
Sir John Cheke. Após a morte de Gardiner, em 1555, Cheke publicou a correspondência entre
ele e Gardiner, sob o título de Disputationes pronuntiatione graecae linguae. O que é
importante, e talvez surpreendente nesta história, é o fato de que o estudo da pronúncia pode
ser considerado como uma questão política.
Mais de uma centena de anos depois da Conferência de Oxford havia numerosos ecos
na impressão da rejeição do inglês como língua das Escrituras. Argumentava-se, que a língua
inglesa era uma língua Bárbara, imprópria para as escrituras ou as grandes obras da
antiguidade; escrever Inglês é lançar pérolas aos porcos. O poder deste argumento é
demonstrado pelo fato de que até mesmo muitos dos estudiosos que escreveram em inglês
realmente concordaram que o inglês era uma língua rude, vil, Bárbara (JONES, 1953).
Por volta do século XVI, houve uma crescente demanda por livros em inglês. Se o
inglês era uma língua pobre, isso, obviamente, apresentou-se ao escritor erudito como um
problema. Para escrever sobre temas normalmente discutidos em latim, o escritor tinha que
encontrar palavras para expressar conceitos que não tinham equivalentes convencionais na
língua inglesa. A solução adoptada – contracção ou emprestimos de latim e francês e
inventando novas palavras em inglês – eram semelhantes, àqueles utilizados pelos Lollardos e
seus adversários no século XV. Mas desta vez era em maior escala, tanto o número de
palavras, e a gama de textos.
28
1.1.1.4 Os termos Inkhorn
A nova moda para atacado de palavras do latim e no seu uso em textos em inglês é
geralmente associada com Sir Thomas Elyot, que tomou emprestado as palavras da língua
latim para cobrir a insuficiência da língua inglesa no livro denominado The gouernour (1531).
Palavras utilizadas por este autor rapidamente se tornariam familiares como outras palavras.
Entre as muitas palavras que Elyot introduzira neste livro são: abbreviate, acceleration,
accommodate,
aristocracy,
barbarously,
circumscription,
democracy,
education,
encyclopedia, historian, inflection, modesty, society, temperature, tolerate and venereal.
Todas, estas palavras sobreviveram. Todas estas sobreviveram. Palavras como comprobate e
vendicate sobriveram no século XVII e obtestation no século XIX. Outras palavras, incluindo
operatrice, rigorosity e talliation, foram introduzidas por Elyot, mas nunca usado novamente.
Consequentemente, as visões de Elyot ecoaram por Thomas Lupset em sua obra Um treatise
of charitie (1533).
Abordagem Elyot foi um compromisso entre a escrita do latim tradicional, e um tipo
de escrita que procurou ser totalmente inglês. Essa abordagem tornou-se alvo de críticas dos
conservadores, que pensavam que estudiosos nao deveriam escrever em inglês, em tudo, e
que, salientava que a língua inglesa era incompleta. Outro ponto de vista era que as palavras
poderiam ser encontradas no inglês do passado. Isto é, de acordo com Thomas Berthelette
(1532 apud KNOWLES, 1999), dedicando sua edição de Gower Confessio amantis a
Henrique VIII. Como resultado, o termo empréstimo como um todo, mais tarde, veio sob o
ataque, e os empréstimos das línguas estrangeiras foram apelidados de termos inkhorn.
Portanto, essas situações citas acima, outras não mencionadas e a serem mencionadas,
colaboraram para o sucesso da grande demanda do uso da língua inglesa como língua da
escrita; muito embora fosse esta considerada vaga ou insuficente e que necessatava de outros
vocábulos.
A língua é um fator importante para a manutenção e compreensão das relações de
poder, no sentido de rastrear a história de um idioma, de seus povos, suas crenças e valores.
No período medieval, o poder era dotado pela Igreja, a língua mais importante era a
latina, sendo o inglês escrito moldado de acordo com as práticas de linguagem da Igreja.
Portanto, a maioria de nossas práticas literárias modernas é estreitamente inspirada naquelas
originalmente desenvolvidas pelo latim. Entretanto, quando o poder da Igreja foi desafiado
pelo crescente poder do Estado, o prestígio do latim foi recriado na língua inglesa, passando,
29
esta, a ser a nova língua do poder, apesar de composta de características da língua latina
(KNOWLES, 1999).
No entanto, de acordo com o autor, na maior parte do período moderno, a língua
inglesa era falada pelo Estado nacional inglês conforme o seu crescimento, de um pequeno
reino ao grande império. O crescimento do Estado-nação, o culto do nacionalismo em
Tribunal Elizabethano, as revoluções do século XVII e a expansão no mundo todo – que
compreendia a história da língua – muda a concepção da língua, que passa a ser vista como a
língua das grandes classes. Portanto, de um simples vernáculo – que era associado a pessoas
simples, após a Revolução de 1688 – a língua inglesa é tida como a língua da “região da
nação mais educada”. Em pouco tempo, surgiu uma crença generalizada, dizendo que as
pessoas comuns não falavam o inglês dito “bom”.
Desde os meados do século XX, o poder político e econômico mudou da Grã-Bretanha
para os Estados Unidos. Portanto, vemos as novas tecnologias criarem novos relacionamentos
que estão transformando a língua inglesa. De acordo com Knowles (1999), toda mudança de
poder, por si só, não provoca mudança linguística, sendo esta mediada pelos intelectuais.
Esta mundaça se deve ao projeto ELT. Trata-se de uma organização que foi fundada
em 1930 para difundir o inglês e se opor à difusão das línguas de governos fascistas, criando,
assim, um esquema de formação de profissão mundial para professores de inglês.
Engendrando-se no início de 1950, desde então, vem se difundindo nos quatro cantos do
mundo e como principal aliado dos norte-americanos, investindo nos países de Terceiro
Mundo para expandir o que hoje chamamos de second language ou segunda língua. Assim
sendo, ter um diploma de proficiência internacional em língua inglesa seria como ter um
status supranacional.
1.2 A solidificação da língua inglesa no mundo
Com a chegada do capitalismo, evidenciamos a mudança considerável da história dos
homens, tendo como auxílio o boom da globalização e trazendo, consequentemente, o
monolinguismo global. Portanto, em um universo composto por diferentes continentes com
seus respectivos grupos, crenças, ideologias e línguas, como pode a língua inglesa dominar
por anos e ainda continuar no poder, transformando o mundo com os seus ideais e levando a
humanidade a uma comodificação linguística?
30
Muito temos estudado e, às vezes, não temos entendido o porquê do domínio
linguístico da língua inglesa no mundo, quais são os fatores que favorecem esse boom
internacional que levam os adolescentes dos países emergentes ao desejo de estudá-la.
Portanto, compreendemos que muitas das diversas mudanças e tendências linguísticas
que temos testemunhado no mundo nos últimos anos nas esferas econômicas, políticas e
sociais estão relacionadas às tendências populacionais. Por essa razão, o futuro de uma língua
depende do lugar onde o falante mora, quais são as suas necessidades básicas, qual o seu
trabalho e que lugar este ocupa na sociedade.
Entendemos que muitas das tendências, mudanças rápidas e extraordinárias que temos
visto no mundo contemporâneo podem ser compreendidas como uma burocracia antiga. Esta
é representada pela modernização, varrida por um novo movimento, igualmente poderoso,
com suas estruturas, atitudes e a necessidade pela modernidade que é minada pela
Globalização, pelas novas tecnologias e, em especial, aquelas relacionadas às novas técnicas
de comunicação e mudanças da forma demográfica do mundo.
Por conseguinte, de acordo com Graddol (2006), no século XIX, ocorre o boom da
comunicação. Não obstante, todos os estudantes passaram a ser informados sobre os impactos
e benefícios dessas tecnologias, tais como telegráfico eletrônico, mudanças na vida política,
econômica e social. Como grande procura, muitos já previam o advento do pós-modernismo –
que enfatizaria a continuidade das novas ideias, inovações e tendências na vida humana.
Consequentemente, aparece o momento descrito como um novo padrão de mudanças, como
nas ciências, que contribui para o avanço das informações e para a constituição da língua
inglesa como língua franca.
Com o grande número de pessoas aprendendo inglês ao redor do mundo, nota-se que a
língua inglesa não é mais aprendida como língua moderna estrangeira, levando-se em
consideração os fatores de poder hegemônicos dos falantes nativos. A língua inglesa é, hoje,
aprendida como a nova língua das ciências, das tecnologias e da globalização, ou seja, a nova
língua franca.
Percebemos, então, com essas mudanças nos setores políticos, econômicos, culturais e
linguísticos que transformaram as formas de se pensar e de se comunicar, que o aprendizado
da língua inglesa nos países considerados emergentes tornou-se sinônimo de modernidade.
Atualmente, segundo a UNESCO (2011), temos cerca de seis mil línguas no planeta.
Logo, dentro dessas seis mil línguas, dez delas conseguiram ascensão como segunda língua de
demanda internacional, tais como: mandarim, inglês, hindu, espanhol, russo, bengalês,
português, alemão, francês e japonês. Entretanto, desde 1950 até os dias atuais, foram extintas
31
230 e estima-se que, se nada for feito, mais da metade das línguas faladas no mundo
desaparecerão no fim deste século. E, com a perda dessas línguas, também ocorrerá o
desaparecimento dos relatos documentados. Assim, a humanidade perderia não apenas as suas
riquezas culturais, mas também os traços importantes de conhecimento oriundos dos seus
ancestrais, em particular, nas línguas indígenas.
Portanto, isso não é inevitável ou irreversível. Se houver uma política linguística bem
implantada, esta poderia, por sua vez, ajudar a amortecer os efeitos dos projetos em
andamento nas comunidades falantes e, além disso, a manter a revitalização das suas línguas e
passá-las adiante para as futuras gerações (UNESCO, 2011).
A fim de entendermos algumas mudanças e tendências societárias, temos que voltar
alguns séculos nos arquivos do tempo para podermos alcançar o que está acontecendo com as
línguas e qual será a visão futura dessas mudanças e tendências linguísticas.
Segundo Philipson (2008), alguns séculos atrás, tivemos as seguintes línguas no
domínio comunicativo das línguas internacionais: a árabe, chinesa, francesa, russa e
espanhola. Estas línguas são evidências de conquistas e ocupações e foram adotadas pelos
invasores devido aos benefícios que gozam os falantes quando uma língua dominante é
imposta.
Entretanto, a expansão de uma língua ocorre em conjunto com a força de formação
religiosa e comercial, aceitas, dessa forma, como atividades extralinguísticas. Mas o
significado dessa língua como ferramenta para unificação mundial, ao passar do tempo, tem
sido reconhecido como um modo da imposição do monolinguismo.
Contudo, a promoção religiosa, linguística, econômica e os interesses políticos têm,
frequentemente, “passado de mão em mão”, mesmo quando o exercício missionário girava em
torno da tríade religião, dispensário e escola. Já o reconhecimento da língua inglesa no
currículo escolar indica respeito à cultura, ao comércio, e à potência política do país onde esta
língua é falada, assegura Philipson (2008).
De acordo com os pressupostos de Graddol (2006), no mundo, há aproximadamente
sete bilhões de habitantes, e estima-se que, a cada quatro pessoas, uma delas fala um pouco de
inglês ou tem domínio desta língua. Além disso, cerca de setecentas e cinquenta milhões de
pessoas no mundo são fluentes em inglês. Portanto, entre os fluentes e não fluentes estima-se
que seja cerca de um bilhão e meio de pessoas no planeta.
Sendo assim, notamos que um quarto da população mundial tem domínio da língua
inglesa. De tal modo, afirmamos que estes relatos contribuem para muitas das dimensões da
atual supremacia da língua inglesa.
32
Compreendemos, então, que a língua inglesa se tornou um grande negócio nos
discursos acadêmicos ao redor do mundo. Não obstante, a tal língua é simplesmente
considerada a língua franca das conferências. Por exemplo, muitos artigos de revistas nos
diversos campos, tais como astrofísicos e zoologia, têm o inglês como língua principal
(HARMER, 2008).
A língua inglesa está presente no turismo mundial, nos aeroportos, em muitos
anúncios de linhas aéreas, e também é vista como a língua predileta no tráfego aéreo. Além
disso, ela também exerce domínio em assuntos culturais como na música pop que satura em
todas as ondas do planeta. Muitos, mesmo não sendo nativos da língua inglesa, tendem a
cantar as suas músicas favoritas em inglês. Que cooperam para a existência de diversos
públicos na cerimônia do Oscar anual que acontece nos Estados unidos – embora esta
cerimônia não seja tão próxima dos brasileiros, este evento sempre captura bilhões de dólares.
Portanto, precisamos nos lembrar que, assim como Bollywood, na Índia, que produz
mais filmes do que Hollywood, nos Estados Unidos, muitos outros países, tais como França e
Coréia do Sul, por exemplo, fazem o seu melhor para lutar contra a dominação cultural dos
filmes americanos. Não obstante, o advento dos filmes e a nova tecnologia de gravação
asseguram a penetração da língua inglesa no mundo inteiro.
Entretanto, de acordo com Harmer (2008), países como Estados Unidos, Inglaterra,
Canadá e Austrália fazem o máximo para promover suas culturas no exterior e, assim, atrair
muitas pessoas para escolhê-los como destino certo para sucesso nos estudos.
No entanto, vivemos num mundo caracterizado por desigualdades sociais, tanto de
gênero, nacionalidade, raça, classe, financeira, quanto de língua. Dessa forma, para tentarmos
compreender a relação entre a supremacia da língua inglesa sobre as outras línguas, bem
como a desigualdade política, econômica e cultural entre elas, é necessário que olhemos para
a teoria da legitimação do projeto ELT. Além disso, devemos perguntar a nos mesmos se este
projeto é neutro, e não uma atitude política das relações que este propõe realizar em sua
função estrutural.
Para Philipson (2008), o mais desafiante é o fato de nos parecer que não há ligação
visivelmente nenhuma entre o avanço da língua inglesa e a ocorrência da pobreza, penúria e
doenças no mundo. No entanto, ao abdicarmos que não houve uma ligação, ignoraríamos o
fato de que a língua tenha acompanhado o comércio de escravos e o imperialismo desta nas
redondezas do mundo. Isto é, igualmente como fizeram algumas línguas europeias posteriores
à língua inglesa.
33
Portanto, muitos termos usados para designar supremacia linguística são carregados de
ideologias. Pois, estes termos refletem a maneira europeia de conceitualizar os assuntos, e
tendem a reforçar o mito do estereótipo das línguas anglocêntricas, já que percebemos que
muitos conceitos europeus se condescendem como os padrões de uma única língua, ou seja, a
língua inglesa. Consequentemente, colabora para a desvalorização, a supressão, a integração
das culturas, instituições, estilos de vida e ideias dos grupos dominados. Por fim, acontece a
racionalização das relações entre ambos os grupos: dominantes e dominados. Mas sempre os
favorecidos nessa racionalização sistemática são os grupos dominantes.
A realidade sobre a língua inglesa como língua global tem levado muitas pessoas de
diferentes línguas a se preocuparem quanto ao uso desta como língua franca. Se existem no
mundo aproximadamente seis mil línguas, por que a língua inglesa é considerada língua
franca? Na verdade o status que essa língua dota – proveniente do domínio político,
econômico e cultural contribui para a ascensão global desta língua sobre as outros.
Segundo Richards, Platt e Weber (1985), o termo língua franca é usado para descrever
ou referir-se a uma língua que é utilizada para comunicação entre diferentes grupos de
pessoas, cada uma sendo falante de outras línguas. No entanto, essa terminologia é usada para
línguas utilizadas internacionalmente para comunicação, podendo designar diferentes grupos
de línguas nativas, ou ser uma língua não usada como língua nativa por um dos grupos, mas
que tenha forma, frases bem estruturadas e simplificadas, que o seu vocabulário seja uma
mistura de duas ou mais línguas. Preferivelmente, ela tem que ser uma língua promovida e
com suporte. Dois dos maiores rótulos centrais na mitologia da cultural colonialista são “(...)
as tribos e os dialetos”. Portanto, ambos os termos refletem as formas pelas quais os grupos
dominantes diferenciam-se a si mesmo dos grupos dominados.
Talvez, alguns se perguntam o que sejam tribos. A resposta é simples: tribos são
formações sociais que ainda não possuem uma estrutura de Estado. Exemplos dessas tribos
são os municípios e as sociedades sem classes, tais como foram as tribos germânicas. Hoje, no
entanto, todos os grupos étnicos na África são chamados de tribos, porque resultam da falta de
desenvolvimento social.
Calvet (1974), em seus estudos sobre língua e colonialismo, conceitua língua como um
dialeto e a diferença entre elas é o poder social. Para ele, o dialeto não é mais do que uma
língua derrotada e a língua é um dialeto que teve sucesso.
Segundo Kangas (1984 apud PHILIPSON, 2002, p. 39), “(...) o termo língua-mãe
pode ser definido pela sua identificação com os falantes, segundo a sua origem, a sua função,
e a sua identificação pessoal. Este mesmo indivíduo pode ter mais de uma língua mãe”. Já o
34
termo vernáculo é de origem germânica – é uma terminação carregada de ideologias. Oriunda
da epistemologia da palavra rootness, traduzida como raiz ou origem. De acordo com
Philipson (2008), esta mesma palavra é usada para descrever as línguas não padrão ou em
contraste com a cultura literária ocidental. O termo, portanto, estigmatiza algumas línguas e
valoriza as outras com norma culta ou padrão.
Não obstante, segundo a UNESCO (2011), o termo língua nacional é cognominado
para descrever a língua da entidade política, social e cultural. Logo, o termo língua oficial é
denominado para descrever a língua usada para negócios governamentais em ações
legislativas e exercícios judiciais, entre outros.
No entanto, a terminologia língua nacional é dotada daquelas línguas que têm
permanência no passado, no presente ou são aspiradas para a autenticidade sociocultural e na
realização étnica; muito embora as línguas oficiais tendam a ser inicialmente associadas à
operação da atual política. Contudo, ambas as línguas podem servir aos dois propósitos.
Agora, o termo língua franca é um marco ambivalente e sua história é recente. O
termo é usado para descrever as línguas de domínio internacional que acabam sendo as
línguas-colônia.
A verdade é que somos uma nação, e toda nação tem sua língua, suas crenças e seus
costumes. Igualmente, ocorrem com as tribos seus dialetos suas crenças e grupos étnicos. No
entanto, percebemos que o termo língua franca não toma em consideração que todo grupo
étnico, ou seja, grupos tribais tenham suas crenças, costumes e dialetos. Por conseguinte,
devido a esse domínio das línguas consideradas francas, nota-se que, no Continente africano,
poucas línguas nacionais são oficiais e as práticas comuns da maioria dos estados africanos
tendem a honrar as línguas estrangeiras europeias como sendo oficiais. Como consequência, a
sobrevivência das línguas africanas e as suas nações são desvalorizadas e marginalizadas.
Concomitantemente, acontecem os conflitos identitários que levam a maioria dos jovens
africanos a crescerem sobre a pressão de aprender as línguas estrangeiras, e abandonarem suas
nações, porque estas não lhes garante um suposto “sucesso” que as línguas estrangeiras lhes
permitiriam. Dessa forma, brota o espírito da rejeição da sua própria cultura e a vontade em
prol das culturas etnocêntricas e anglocêntricas que privilegiam a língua inglesa.
Sendo assim, o termo anglocentricidade tem sido cunhado por analogia com o
etnocentrismo, que se refere à prática de julgar as outras línguas ou culturas pelo padrão de
uma língua. Contudo, o termo anglocentricidade tem forma e função da língua inglesa, devido
à promessa de que essa língua é representada no cenário global como modelo pelo qual todas
35
as línguas devam seguir. Ao mesmo tempo, isso leva à desvalorização das outras línguas,
tanto implícita quanto explicitamente.
Notamos que a hegemonia linguística da língua inglesa é sustentada e mantida pelo
estabelecimento da contínua reconstituição estrutural que contribui para a desigualdade
cultural entre a língua inglesa e outras línguas. No entanto, essa reconstituição estrutural ou
propriedade material é representada por meio de instituições, alocações financeiras e de
cultura material e imaterial que são representadas por propriedades ideológicas em forma de
atitudes e princípios pedagógicos.
Para Philipson (2008), o imperialismo da língua inglesa é um padrão de linguicismo.
Ou seja, um conjunto de ideologias, de estruturas, de práticas que são usadas para legitimar,
efetivar e reproduzir uma divisão desigual de poder e recursos, tanto material quanto imaterial
entre grupos que são definidos segundo o domínio de uma língua.
Supremacia linguística é um subtipo de linguicismo que é a desigualdade estrutural e
cultural assegurada na contínua atribuição de maiores quantidade de recursos materiais para a
língua inglesa do que para outras línguas.
Portanto, entendemos que há ocorrência de linguicismo sempre que existe também
uma política de suporte a algumas línguas, mas a prioridade ao ensino de professores em
desenvolvimento curricular e horário escolar é dada apenas a uma.
Assim, compreendemos que a legitimação da preeminência linguística da língua
inglesa faz uso de dois mecanismos quanto ao planejamento escolar de ensino de língua: um
que diz respeito à cultura e língua anglocêntricas, e a outra em respeito à pedagogia do
profissionalismo que esta oferece aos aprendizes desta língua. Estes mecanismos tributam
para o contínuo avanço da língua inglesa que envolve a supressão (o deslocamento e a
substituição) das outras línguas e a derrota destas na competição imperialista das línguas.
A completa compreensão sobre os mecanismos da expansão da língua inglesa não
pode ser examinada sem se considerar a tese e a antítese, bem como o argumento da
legitimação de ambos daquele grupo que promove a língua inglesa, e o outro grupo que
protesta contra esta hegemonia linguística. Portanto, entre os grupos contra a supremacia da
língua inglesa estão as nações colonizadas, os parlamentos europeus, os inimigos políticos do
núcleo de nações inglesas, os guardiões da pureza das suas línguas com os quais a língua
inglesa se intrometeu e, também, os intelectuais dos núcleos dos países considerados
periféricos. Entretanto, o que os protestantes têm em comum é o reconhecimento da
supremacia da língua inglesa, e o domínio desta língua, assim como o grande desejo para
combatê-la (PHILIPSON, 2008).
36
Não obstante, os termos anglocentricidade e profissionalismo legitimam a língua
inglesa como dominante pela racionalização nas atividades e crenças que contribuem para a
desigualdade estrutural e cultural entre a língua inglesa e outras línguas, bem como o discurso
profissional em torno do processo ELT. Este discurso não só separa, mas também desconecta
a cultura da estrutura, por limitar o foco na pedagogia do ensino da língua inglesa em assuntos
técnicos como a língua e a educação num stricto sensu, e assim contribuir para a exclusão de
assuntos político-sociais, econômicos e culturais.
A hegemonia linguística do inglês pode ser compreendida como referência explícita e
implícita de valores, crenças, propósitos e atividades que caracterizam as profissões
constituídas pela ELT.
Por essa razão, conforme Williams (1986, p. 110), a “(...) hegemonia não é apenas
uma questão de manipulação ou doutrinação, ela é continuamente renovada, recreada,
defendida e modificada, ela é continuamente resistida, limitada, alterada e desafiada por
pressões sendo propriamente dela”. Entretanto, para o autor, a hegemonia vê as relações de
dominação e subordinação, em suas formas como uma prática de consciência, como em um
efeito de saturação de todo o processo de vida – não só da atividade política e econômica,
nem somente da atividade e manifesto social, mas de toda a substância das identidades vivas e
relações, a tal profundidade que as pressões e os limites do que pode vir a ser visto como um
sistema específicamente econômico, político e cultural que parece a maioria de nós como as
pressões e os limites da experiência simples e de senso comum.
Para Fairclough (2002, p. 117), “As ideologias são significações ou construções da
realidade que são constituídas em várias dimensões das formas ou sentidos das práticas
discursivas e que contribuem para a produção, a reprodução ou a transformação das relações
de dominação”.
Mediante estes conceitos, asseguramos que muitas das dimensões que gozam a
supremacia da linguística inglesa é fruto do boom de mais de 30 anos do projeto ELT. Este
vem se expandindo nos departamentos universitários, nas escolas de línguas, nas publicações,
nas conferências e em outros setores da vida social.
Igualmente, o projeto ELT é uma organização fundada nos anos de 1930 para difundir
o inglês e se opor à difusão das línguas de governos considerados fascistas, criando, assim,
um esquema de formação de profissão mundial para professores de inglês. Engendrando-se no
início de 1950, desde então, vem se difundindo no planeta e contribuindo para a divulgação da
cultura inglesa fora da Inglaterra, tida como uma esfinge de reconstrução pós-guerra.
37
Consequentemente, esse sucesso foi grandemente acelerado pelo aparecimento dos
Estados Unidos da América como maior poder militar do mundo, e como maior líder
tecnológico após a Segunda Guerra Mundial.
Como resultado desta aliança, temos o aparecimento dos seguintes planos: o Basic
English – British American Scientific International Commercial3 e o The diffusion of English
culture outside England4. O primeiro correspondia à estratégia engenhosa arquitetada no
período entre as duas grandes guerras mundiais. Este Basic English foi criado para auxiliar na
comunicação entre os países. Havia ainda o intuito de deslegitimar outras línguas, que
passaram a ser consideradas “menores”. O segundo plano relacionava-se à expansão da língua
inglesa fora da Inglaterra (PHILIPSON, 2008).
Entretanto, como exemplo do basic English, temos a primeira operação americana no
chamado Audiolingual, que foi amplamente disseminado no período pós-guerra.
Para disseminação destes projetos, os norte-americanos tinham como recursos
materiais, livros, professores e projeto de ajuda. Nunca se pensou que um projeto tão simples
como este poderia ser tão funcional e tão significante globalmente. Ou seja, do projeto micro
ao projeto macro, que contribuiria para a desigualdade estrutural e cultural da língua inglesa
para com as outras línguas. Assim, também é possível afirmarmos que jamais esse projeto
tomaria forma se não fosse pela audácia da instituição americana em estabelecer o ensino de
línguas estrangeiras às forças armadas americanas.
Este projeto audiolingual teve grandes impactos nos países que eram economicamente
pobres e necessitavam de uma pedagogia efetiva que serviria de contrapeso para os países
subdesenvolvidos. Já nos países ocidentais, a população era totalmente resistente quanto à
política audiolingual.
Dessa forma, o apoio dos americanos, que já eram economicamente e politicamente
ricos e, também, faziam parte de um império bélico e tecnológico, contribuiu para o
funcionamento do ELT. Não obstante, percebe-se que os agentes responsáveis e decisivos no
processo da socialização da língua inglesa foram às escolas em conjunto com os professores e
isso contribuiu preeminentemente na promoção e no processo da assimilação linguística e
cultural para diversos adolescentes conceberem os padrões anglocêntrico e etnocêntrico, tais
como apresentados nas mídias e nas culturas de massa. Como o sujeito, campeão, o
3
Que tem como tradução para a língua portuguesa: Inglês básico – Comércio científico internacional entre
ingleses e americanos.
4
Difusão da cultura inglesa fora da Inglaterra.
38
cosmopolita, o transnacional, entre outros. Contudo, percebemos que essa encenação do
sujeito é resultado do conflito entre sujeito (eu) receptor e o (outro) emissor.
Conforme Philipson (2008), como consequência dessa demanda, vemos então, uma
língua menor em 1600. A língua inglesa, com menos de quatro séculos, torna-se a língua de
liderança em comunicação internacional no mundo de hoje. Portanto, segundo o autor, esse
desenvolvimento singular é, por fim, o resultado do sucesso da conquista britânica na
colonização e no comércio dos séculos XVII, XVIII e XIX.
O autor ainda assevera que, historicamente, outras línguas se espalharam em grande
expansão geográfica para propósitos comerciais ou religiosos, assim como tivemos o latim, o
francês, entre outras. Porém, a expansão da língua inglesa é única e exclusiva, e destina-se
somente em ações de alcance geográfico, considerando o reconhecimento da inteligência de
sua perspicácia intelectual.
Não obstante, no mundo contemporâneo, o projeto ELT tornou-se comercial em todas
as extremidades terrestres. Hoje, há uma grande demanda dos produtos materiais e recursos,
tais como: livros, negócios para professores de inglês, espaço no calendário curricular e para
assuntos ideológicos, como recursos de ideias, e de ensino de princípios.
Dessa forma, sempre que pensarmos no projeto ELT, temos que considerar também os
aspectos econômicos e ideológicos. Porque, analisando esses aspectos, temos os seguintes
relatos, de acordo com os pressupostos de Philipson (2008): a primeira vez que o processo
ELT adjacente à BBC apresentou a série Follow-ME na China, havia estimadamente cerca de
100 milhões de telespectadores assistindo e fazendo uso. Isso ocorreu em meados dos anos de
1990. Semelhantemente aos feitos dos ingleses com a BBC, os americanos – Macmllan
Publishing Company Diplomacy (1986) – também começaram a trabalhar com projetos
multimídias e inovadores para atender à demanda e ao melhoramento das técnicas de ensino
que facilitariam o aprendizado desta língua nos países periféricos ou emergentes. Por
conseguinte, acabou se tornando uma disputa interna e pacífica entre americanos e ingleses,
todos a favor da difusão da língua inglesa e contra as outras línguas, que eram consideradas
uma ameaça.
Notamos, então, que a promoção da língua inglesa foi bem sucedida e adaptada ao
mercado global linguístico. Prontamente, compreendemos que um dos marcos do impacto da
língua inglesa no mundo, é o chamado empréstimo linguístico (ou tática da ideologia e, ainda,
multiculturalidade linguística). Portanto, esta multiculturalidade linguística, mesmo que
implicitamente, está arquitetada na política do ensino e aprendizado da língua inglesa. Ou
seja, uma estratégia presente dentro da pedagogia de ensino e aprendizado da língua para
39
outros povos não falantes da língua inglesa. Esta estratégia se apresenta como uma forma de
inclusão de sociolinguística e cultural, mas, na verdade, esta tem seus objetivos. Além de ser
um facilitador, a adesão da língua inglesa, também se transformou em uma arma para
deslegitimação das línguas consideradas fascistas.
A questão-chave do projeto ELT, no presente momento, está pautada na ideologia
anglocêntricas e do profissionalismo para os aprendizes de outras línguas que desejam ter
domínio sobre esta língua. Pois, para os países subdesenvolvidos e emergentes, o aprendizado
da língua inglesa para seu povo representa estar aprendendo padrões políticos, econômicos e
culturais tanto britânicos quanto americanos. Assim, adquirem uma nova identidade como
sujeitos transnacionais, cosmopolitas e supranacionais, uma vez que eles contrariam esse
conhecimento.
1.3 A língua inglesa nos países emergentes
Segundo Harmer (2008), a língua inglesa é considerada uma língua materna nos
seguintes países: Inglaterra, Estados Unidos da América, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.
Estes representam os grupos de falantes nativos da língua inglesa no mundo.
Já os países considerados periféricos são classificados em duas escalas: os países como
Japão e Escandinávia, por exemplo, têm a necessidade do uso da língua inglesa para conexões
internacionais. Nos países em que a língua inglesa foi imposta nos tempos coloniais, como a
Nigéria e a Índia, a língua inglesa ainda funciona para abranger uma gama de propósitos
internacionais.
Percebemos então que, embora alguns desses países periféricos tenham sido libertos
de seus colonizadores, eles sempre tendem a seguir as normas linguísticas de seus
colonizadores.
Segundo Philipson (2008), a metáfora que inspirou o uso da expressão periférico é
oriunda da análise de relações entre os países dominantes ricos e os países dominados pobres.
Esta é a razão do uso dessa translação linguística.
Logo, abarcamos que o uso de uma língua geralmente implica a exclusão de outra.
Portanto, Bilinguismo funcional ou Multilinguismo no indivíduo em nível social se dá por
meio das conexões mundiais. Entretanto, a padronização nos centros de falantes da língua
inglesa no mundo tem sido um dos motivos referentes ao aumento do monolinguismo. Dessa
forma, o avanço da língua inglesa, seja na Inglaterra, América do Norte, África do Sul,
40
Austrália ou Nova Zelândia, tem se concretizado invariavelmente nos custos de outras
línguas.
Para Philipson (2008), embora a língua inglesa tenha dominado as outras línguas,
ambas são imigrantes e indígenas nas sociedades europeizadas. Isto se deve, a priori, de que
as relações entre as línguas nunca são estáticas. Sendo assim, as mais fortes politicamente e
economicamente acabam convencendo as mais fracas.
Para Rose e Burgess (1985), os falantes imigrantes das línguas minoritárias na GrãBretanha trouxeram uma vasta gama de diversidades linguísticas e eles ainda estão lutando
pelo direito das línguas, porque muitos perderam as suas histórias e suas ligações
socioculturais devido à presença eminente da cultura homogênea linguística da língua inglesa.
Para Heath e Mandabach (1983),
No período inicial, os Estados unidos valorizavam as diversidades das línguas e,
conservavam os costumes legais da língua inglesa de não regular a preferência da
língua, ou rejeitando as liberdades pessoais na linguagem. Contudo, o último século
19 deu levantamento à promoção a tradição monolíngue e ênfase nos padrões da
língua inglesa como a marca da razão, ética, e estética; a tolerância à diversidade
que caracterizou o inicia da história nacional é nitidamente rejeitada. Apenas uma
língua inglesa, pregando-se então, a língua inglesa como padrão preferido na política
que foi institucionalizada embora não legalizada (HEATH; MANDABACH, 1983,
p. 102).
Percebemos, então, que a língua inglesa não é apenas de interesse daqueles que vivem
relativamente nas pequenas ilhas do Noroeste, Norte ou antípodas da Europa. Ela agora se
encontra entrincheirada no mundo inteiro, como resultado do colonialismo, da dependência
internacional, da revolução nas tecnologias, do transporte, comércio e comunicação, além
disso, porque a língua inglesa é a língua dos Estados Unidos da América, a maior economia,
política, e força contemporânea no mundo.
Consequentemente, não são somente os britânicos e americanos que gravitaram na
homogeneidade linguística, mas uma significante porção do mundo inteiro cada vez mais se
insere nesta interconexão cultural.
Philipson (2008) argumenta que, estimados 400 anos atrás, havia entre cinco e sete
milhões de falantes da língua inglesa no mundo e, agora, com os falantes dispersos em outros
lugares periféricos, são cerca de 315 milhões. Mas a crescente demanda de usuários da língua
como second language ou Foreigner Learner nos países periféricos e outros, são estimados
750 milhões de pessoas. Esta estimativa é baseada nas perdas ocorridas nos exames de
proficiência, e não considera o número total de inscritos para a definição da proficiência.
Considerando todos os usuários que se inscrevem para participar nos exames de proficiência,
41
existem aproximadamente cerca de 1 bilhão e meio de usuários de inglês. Portanto, segundo
Graddol (2008), mesmo sendo cedo demais, haverá cerca de 3 bilhões de falantes da língua
inglesa em 2040. Ou seja, cerca de 40% da população mundial.
De acordo com esses pressupostos, temos o surgimento das seguintes siglas como
facilitadores na compreensão e diferenciação de povos periféricos, os quais foram impostos
pelos colonizadores a falarem a língua inglesa: ESL e EFL. A convencional definição do
chamado English as a second language – ESL, traduzido por Inglês como segundo língua, é
usada para definir países em que a língua inglesa não é a língua nativa, mas amplamente
usada como meio de comunicação nos domínios educacionais e governamentais – como
arquétipos temos Nigéria e Cingapura.
O termo ESL é usado nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha para descrever
programas de ensino e aprendizagem para falantes de outras línguas, cuja língua mãe não é a
língua inglesa. O termo EFL é traduzido como Inglês para aprendiz de língua estrangeira, e
usado para falantes de outras línguas que fazem uso da língua inglesa. Todavia, não é usada
para a comunicação nos setores educativo ou governamental, mas aprendida nas escolas,
como é o caso da França, do Japão, do Brasil, entre outros.
Conforme Richards, Platt e Weber (1985 apud PHILIPSON, 2008), os falantes desses
países aprendem esta língua para se comunicarem com falantes da língua inglesa, ou para
leitura de textos em inglês.
Os autores ressaltam que existe diferença no ensinamento da ESL para EFL, e as
principais características são as necessidades entre os falantes. Já o termo ELT é usado para
dar cobertura em ambos os tipos de ensinos.
A língua inglesa se tornou uma pré-qualificação à alta qualificação educacional nos
discursos acadêmicos e interdisciplinares, nas conferências e nos jornais, que consideram o
inglês como uma língua relevante, sendo necessário o seu domínio.
Philipson (2008) assegura que tanto os países ESL quanto os EFL têm sido agrupados
e qualificados como países periféricos. Portanto, considerando a questão de que uma língua só
é reconhecida como nativa desde que os falantes fluam do núcleo manancial da mesma língua,
muitos dos aprendizes objetivam aprender e falar a língua inglesa igualmente aos nativos.
Diante dessa multiplicidade cultural, muitos problemas têm surgido concernentes ao
padrão correto. Que padrão deve seguir os países periféricos, ou seja, os seus que são
misturados com sotaques de suas próprias culturas e línguas, ou então, o promissório
anglocêntrico presente na pedagogia do ensino e aprendizado desta língua?
42
Para Wong (1982), essa busca incessável de se falar igual ao nativo tem causado
complicações, e muitos países em que a língua inglesa é tida como segunda língua, está no
caminho para estabelecer seus próprios padrões, tais como Índia, o Oeste da África, entre
outros. No entanto, muitos escritores, entre eles nativos e outros oriundos de países
considerados periféricos, para amenizar esses problemas, estão refazendo muitos dos seus
livros e adaptando a realidade dos usuários periféricos. Consequentemente, há o surgimento a
nomenclatura “inglês internacional”. Mas, mesmo assim, percebemos que o padrão
perpetuado é sempre dos anglocêntricos e etnocêntricos. Fairclough (2002) assegura que
(...) hegemonia é liderança tanto quanto dominação nos domínios econômicos,
políticos, culturais e ideológicas de uma sociedade. É a construção de alianças e a
integração muito mais do que simplesmente, a dominação de classes subalternas,
mediante conceição ou meios ideológicos para ganhar seu consentimento a da
dominação. Hegemonia é também foco de constante luta sobre ponto de maiores
instabilidades entre classes e blocos para construir, manter, ou romper aliança e
relações de dominação subordinação que assume formas econômicas, políticas e
ideológicas (FAIRCLOUGH, 2002, p. 328).
O privilégio da língua inglesa é, em parte, perpetuado pelo seu domínio nas mídias, e
a supervalorização desta língua diante das outras. Entretanto, a língua inglesa tem um papel
internamente dominante e ocupa os espaços que poderiam ser ocupados por outras línguas.
Ela é vista e considerada como a chave para as relações externas ou conexões externas, assim
como nas esferas políticas, nos comércios, nas ciências, nas tecnologias, nas alianças
militares, nos entretenimentos e nos turismos.
Por esses e outros motivos, para Althusser (1998), a ideologia tem existência material
e pode ser estudada. Segundo o autor, ideologia é um conjunto de práticas materiais
necessárias à reprodução das relações de produção. A ideologia tem por efeito o
reconhecimento da necessidade da divisão de trabalho, e é de caráter apropriado o lugar
determinado para cada ator social na produção.
O autor ainda ressalta que a ideologia tem duplo sentido e leva o agente social a se
reconhecer como sujeito absoluto que exerce o controle sobre suas ações, seus modos e a
maneira de conceber o mundo. Assim sendo, o condicionamento do sujeito a estes
mecanismos ideológicos não está somente nas ideias, mas existe num conjunto de práticas, de
rituais em um conjunto de instituições concretas chamadas Aparelhos Ideológicos de Estado –
AIES. Estes aparelhos têm o papel de reproduzir as ideologias, que constituem valores,
sentidos que são ocupados por entidades abstratas, como Deus, a Humanidade, o Capital, a
Nação, entre outros.
43
Consequentemente, o linguicismo – ou Supremacia linguística da língua inglesa –
opera dentro de um campo amplo da estrutura sociocultural, cuja essência é em si mesma,
completa de contradições. Em outras palavras, linguicismo é um conjunto de práticas e
crenças que representa uma experiência para aqueles sujeitos envolvidos nos assuntos da
língua, em ressignificação de um segmento de realidades complexas, que é ligado a fatores
econômicos, políticos, culturais e ideológicos. Contudo, esses fatores cooperam para a
dominação de mentes e vidas daqueles que são, ou seja, assujeitados.
Compreendemos que, a expansão da língua inglesa foi favorecida também pela
utilização da moderna tecnologia da informação, quando a quantidade de informação
necessária para ser processada veio a exceder as capacidades humanas, quando os
computadores entraram em cena, transformando o planejar e o calcular. Assim como a
necessidade para a comunicação global veio exceder os limites colocados pelas barreiras da
língua, a expansão da língua inglesa acelerou-se, transformando os padrões existentes na
comunicação internacional, ou seja, transformou o mundo em uma pequena aldeia global.
O domínio desta língua na nova aldeia global permite aos falantes a acessibilidade
intranacional nas esferas internacionais, e mobilidade em todas as regiões, como conexões
entre línguas e linguagem complementar à pluricentricidade, que resultada da nativização e
aculturação da língua inglesa nas culturas afora.
Notamos que o projeto ELT é apresentado como sendo sociocultural e este tem uma
pragmática validada. Consequentemente, torna-se uma motivação comercial, pois tende a
considerar as necessidades locais e as variadas dimensões destes no círculo internacional. No
entanto, a língua inglesa é vista pelas culturas subdesenvolvidas ou emergentes como uma
forma de unificação dos padrões nacionais e regionais do bilinguismo.
A língua inglesa é adotada, nesses países, como símbolo nacional, e o objetivo para
esses povos é a substituição das línguas locais. Assim sendo, a sociologia do ensino desta
língua oferece teorias relevantemente ricas de dados empíricos, considerando a sua expansão,
que fazem com que países subdesenvolvidos ou emergentes façam uso dela como a única
língua para comunicações amplas, permanentes para relações transnacionais.
Logo, temos o avanço material particularmente na exportação, urbanização,
desenvolvimento econômico e composições religiosas, acarretando a dependência dos países
emergentes com a língua inglesa como sendo um meio para fluxos internacionais.
Segundo Philipson (2008), a pedagogia do ensino e aprendizado da língua inglesa nas
culturas de países emergentes ou subdesenvolvidos se configura de três formas:
44
 Destina-se à expansão de legitimação da língua inglesa e à qualificação de pessoa
para construir a nação, operar tecnologia que o inglês provê acesso, e que os estados
abraçam como um meio de ressignificação da reprodução econômica;
 Está ligada à língua inglesa como ferramenta ou suporte para trazer ideias
(modernas) com ela, tornando-se canal de valores social, cultural e interpessoal. A
língua inglesa foi projetada para que se tornasse uma porta de saída para melhorar a
comunicação, a educação, e também se traduz em alto padrão de viver e melhorar a
compreensão. Portanto, o ensinamento dessa língua deveria capacitar os alunos a
serem bem informados sobre a vida e a cultura do país onde é falada.
Consequentemente, o aprendizado desta significa aos alunos estarem adquirindo o
mais sólido alicerce para a compreensão internacional; e
 A língua inglesa apresenta, dentro de sua política pedagógica, uma função
repressiva em relação a assuntos que não lhe são relevantes, como única e
exclusivamente para uso em sala de aula.
Por essa razão, a língua inglesa é aceita nestes países como uma língua cultural, pelos
modernos valores e anseios que realizam os povos que a aderem e, assim, colaboram para a
não percepção da sua política como uma forma de dominação cultural e distorção. Para essas
culturas, a língua inglesa representa valores e lhes garante status de viverem como uma
sociedade cosmopolita. Ou seja, um contrapeso para as suas economias na balança
internacional.
Portanto, asseveramos que a hegemonia linguística da língua inglesa é referência
explícita e implícita de valores, de crenças, de propósitos e de atividades que caracterizam as
profissões constituídas pela ELT.
Sumarizamos que a supremacia linguística da língua inglesa é domínio assegurado,
mantido pelo estabelecimento e contínua reconstituição da desigualdade estrutura e cultural
entre o inglês e outras línguas. Este domínio é estrutural, refere-se amplamente às
propriedades materiais como instituições, distribuições financeiras e culturais de propriedades
ideológicas, com atitude e princípios pedagógicos.
Sendo assim, a heterogeneidade cultural e estrutural da língua inglesa assegura a
contínua distribuição de mais recursos na língua inglesa do que em outras línguas. No entanto,
essa superioridade linguística do inglês sustenta o status que gozam aqueles que são fluentes
nela.
45
Para Philipson (1992, p. 75), “(...) imperialismo linguístico do inglês é domínio
afirmado e mantido pelo estabelecimento e reconstituição contínua das desigualdades
estruturais e culturais entre o inglês e outras línguas”.
1.4 O ensino de língua inglesa no Brasil
No Brasil, o ensino de língua inglesa tornou-se prioridade nos currículos escolares, de
acordo com os PCNs (2000). Com a integração desta à área de Linguagem, Códigos e suas
Tecnologias, as Línguas Estrangeiras assumiram parte indissolúvel do conjunto de
conhecimentos essenciais que permitem ao estudante aproximar-se de várias culturas e,
consequentemente, propiciam sua integração num mundo globalizado.
As novas tecnologias da comunicação e da informação permeiam o cotidiano,
independente do esforço físico, e criam necessidades de vida e convivência que precisam ser
analisadas no espaço escolar. A televisão, o rádio, a informática, entre outros meios de
comunicação, fizeram com que os homens se aproximassem por imagens e sons de mundo
antes inimagináveis. Os sistemas tecnológicos, na sociedade contemporânea, fazem parte do
mundo produtivo e da prática social de todos os cidadãos, exercendo um poder de
onipresença, uma vez que criam formas de organização e transformação de processos e
procedimentos, assim como asseguram os PCNs (2000).
Segundo os parâmetros supracitados, a relevância de se aprender uma ou mais línguas
estrangeiras remontam há vários séculos. Em determinado momento da história do ensino de
idiomas, valorizou-se o conhecimento do latim, do grego e o acesso à leitura clássica,
enquanto, em outras ocasiões, privilegiou-se o estudo das línguas modernas.
No Brasil, embora a legislação da primeira metade deste século já indicasse o caráter
prático que deveria possuir o ensino de línguas estrangeiras vivas, nem sempre isso ocorreu.
Fatores como o reduzido número de horas reservado ao estudo das línguas estrangeiras e a
carência de professores com formação linguística e pedagógica, por exemplo, foram os
responsáveis pela não aplicação efetiva dos textos legais. Assim, em lugar de capacitar o
aluno a falar, ler e escrever em um novo idioma, as aulas de línguas estrangeiras modernas
nas escolas de (nível médio), acabam por assumir uma feição monótona e repetitiva que,
muitas vezes, chega a desmotivar professores e alunos, ao mesmo tempo que deixa de
valorizar conteúdos relevantes à formação educacional dos estudantes.
Ainda segundo os PCNs (2000), além da carência de docentes com formação
adequada e o fato de que, mesmo quando a escola manifesta o desejo de incluir a oferta de
46
outra língua estrangeira, esbarra na grande dificuldade de não contar com profissionais
qualificados. Agravando esse quadro, o país vivenciou a escassez de materiais didáticos que,
de fato, incentivassem o ensino e a aprendizagem de línguas estrangeiras. Quando havia
material, o custo o tornava inacessível à grande parte de estudantes. Salvo exceções, a língua
estrangeira predominante no currículo ser o inglês, reduziu muito o interesse de aprendizagem
de outras línguas estrangeiras e a consequente formação de professores de outros idiomas.
Esta exceção se deve, por razão da política de criação de empregos presente na
pedagogia de ensino e aprendizagem dessa língua que coopera para a grande demanda desta e,
consequentemente, colabora para que esta seja inclusa no currículo brasileiro a partir do
segundo segmento até o 6º ano do ensino fundamental I ao Ensino de Jovens Adultos –
Ensino Médio.
No Brasil, muito embora o ensino da língua inglesa se encontre cada vez mais em
ascensão, o ensino ainda é muito precário. Isto ocorre por falta de profissionais preparados
nas escolas públicas. E, quando há profissionais, há escassez de estruturas para que este
aprendizado ocorra. Consequentemente, alguns alunos vão para suas escolas totalmente
desmotivadas e se interesse de ou motivação para assistir aquela aula de inglês daquele (a)
professor (a) despreparado (a). Portanto, essas e outras dificuldades não mencionadas
contribuem para o fracasso no ensino e aprendizagem desta língua na vida do adolescente em
fase escolar.
Esse fato é mais acentuado nas escolas públicas, se compararmos com escolas
particulares. Onde a evasão de ensino desta língua não é tão acentuado quanto das escolas. Já
o aprendizado nos centros de línguas é totalmente diferente, porquês estes centros visam
propriamente trabalhar as habilidades que compreende e colaboram para uma boa
comunicação, tais como: a fala, a escrita, a oralidade e a audição. Entretanto, o ensino dos
cursos livres não pode ser comparado com o ensino das instituições públicas e particulares.
Muito embora algumas instituições particulares e públicas nos dias atuais tendem a mudar
esta visão de ensino – marcado por ensino de gramática propriamente dita que,
consequentemente, torna-se um aprendizado chato, cansativo e que coopera para a grande
evasão no processo ensino e aprendizado de língua inglesa salas de aulas públicas e
particulares –, alguns adolescentes (com melhores condições financeiras) recorrem aos
centros de línguas para suprirem essa evasão na constituição das suas identidades.
A língua inglesa encontra-se cada vez mais entrincheirada e estampada em todas as
cidades do Brasil, desde pequenos centros urbanos como Campos dos Goytacazes, onde se
realiza este estudo, às grandes metrópoles, como o Rio de Janeiro.
47
Temos visto as ideias desta supremacia linguística estampadas em todos os setores da
vida, como em produtos comerciais de todos os tipos, filmes, seriados de televisão,
dominação americana sobre as telecomunicações mundiais, agências de propagandas em
quase todos os lugares (americanas, em sua maioria), cultura jovem, baterias inteiras de
atividades em diplomacia cultural no senso de financiamento de operações governamentais,
assim como: na moda, os jovens só pensam em usar as roupas de grifes como Calven Clain,
Tommy, Ralph Lauren, entre outras. Por conseguinte, mesmo as marcas nacionais, devido ao
domínio da língua inglesa, tendem a ter nomes estrangeiros, tais como: Pacific Blue, Pitchfork
e Black Jeans, entre outras.
Já em relação às marcas de calçado, temos os seguintes nomes internacionais: Adidas,
Nike, Reebock e outras que fazem a mente dos jovens, e nas mídias de entretenimento jovem
temos os seguintes seriados: Glee, Everybody Hates Chris, The Vampire Diaries,
Supernatural, Fringe, One Tree Hill, Modern Family, entre outros. Na diplomacia
transnacional, temos o Facebook, o Wikileaks, entre outros.
Ressaltamos que a língua inglesa, no Brasil, está presente em vários lugares e em
diversos setores da sociedade, como em propagandas televisivas, impressas, outdoors, rótulos
de produtos alimentícios, cosméticos e vestuário. Assim, entendemos que a língua inglesa é
um veículo de comunicação de grande valia e sem fronteiras que permeia todas as áreas dos
saberes.
1.5 Cursos livres de inglês
A grande demanda de língua inglesa no mundo e, principalmente, nos países
emergentes contribui para o surgimento de diversos cursos livres – cada um com sua
metodologia e forma de atrair a seu cliente potencial. Em Campos dos Goytacazes, cidade
onde se realiza este estudo, temos os seguintes cursos livres de língua estrangeira: CNA,
CULTURA INGLESA, INTERCULTURA, NUMBER ONE, UPTIME, WISE UP, FISK,
IBEU, RAPOSO, PBF, CCAA, entre outros. Tais cursos, apesar de não serem coordenados
pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), encontram-se amparados pela LDB nº
9394/96.
Os cursos livres de língua inglesa têm grande contribuição na propagação desta língua
no Brasil e no mundo. Além do mais, também é nesses aparelhos ideológicos onde se realiza
o processo de ensino-aprendizado da língua inglesa; onde os alunos são seduzidos. Para isso,
o ensino é feito em escala ascendente. Isto é, por meio de níveis que têm a função de
48
estimular o aluno e, também, de aguçar os desejos destes adolescentes prosseguirem com o
desejo da busca por esta língua.
De acordo com o ELT, anteriormente os níveis acadêmicos para aprendizes
estrangeiros de língua inglesa seguiam os seguintes critérios: A1 (IELTS 2.0) – para
adolescentes de 12 anos de idade, A2 (KET/IELTS 3.0) – adolescentes de 14 anos, B1
(PET/IELTS 4.0) – para adolescentes de16 anos, B2 (FCE/IELTS 5.5) – para jovens adultos
de 18 anos, C1 (CAE/IELTS 6.5) – para jovens de 20 anos, C2 (CPE/IELTS 7.0) – para
jovens de 22 anos. O nível necessário para o estudo acadêmico é o CAE – certificado
avançado da língua inglesa.
Devido à grande demanda de aprendizagem da língua inglesa, a faixa etária nos
últimos anos tem sofrido grandes alterações, levando o nível inicial do aprendizado da língua
inglesa a iniciar com 6 anos e não mais aos 12 anos. Assim, a nova sequência segue a seguinte
ordem: A1 (IELTS 2.0) – para adolescentes de 6 anos de idade, A2 (KET/IELTS 3.0) –
adolescentes de 8 anos, B1 (PET/IELTS 4.0) – para adolescentes de 10 anos, B2 (FCE/IELTS
5.5) – para jovens adultos de 12 anos, C1 (CAE/IELTS 6.5) – para jovens de 14 anos, C2
(CPE/IELTS 7.0) – para jovens de 16 anos. O nível necessário para o estudo acadêmico
continua sendo o CAE – certificado avançado da língua inglesa.
Portanto, nota-se que essas siglas contribuem para a crescente demanda da língua
inglesa e, também, fazem com que muitos adolescentes estrangeiros – isto é, de países
emergentes – desejem que sejam vistos como cidadãos cosmopolitas. Assim, sumarizamos de
que se não houvesse o domínio da língua sobre a historicidade dos homens, não haveria essa
“mcdonalização” tipografada na sociedade brasileira, e no que uma organização foi fundada
nos anos 1930 para difundir o inglês e se opor à difusão das línguas de governos fascistas,
criando, assim, um esquema de formação de profissão mundial para professores de inglês e de
uma vez e sempre contribui para no que Philipson (2008) argumenta que, estimados 400 anos
atrás, havia entre cinco e a sete milhões de falantes da língua inglesa no mundo e, agora, com
os falantes dispersos em outros lugares periféricos, são cerca de 315 milhões. Mas a crescente
demanda de usuários da língua como second language ou Foreigner Learner nos países
periféricos e outros, são estimados 750 milhões de pessoas.
Portanto, esta estimativa é baseada nas perdas ocorridas nos exames de proficiência, e
não considera o número total de inscritos para a definição da proficiência. Considerando todos
os usuários que se inscrevem para participar nos exames de proficiência e outros falantes
desta que não se inscrevem, existem aproximadamente cerca de 1 bilhão e meio de usuários
49
de inglês. Portanto, segundo Graddol (2008), mesmo sendo cedo demais, haverá cerca de 3
bilhões de falantes da língua inglesa em 2040. Ou seja, cerca de 40% da população mundial.
A Figura 1 demonstra a demanda da língua inglesa no mundo em relação às outras
línguas. Tal fato contribui para o grande desejo de os brasileiros a estudarem.
Figura 1 – GDP by Language 2003-2010.
Fonte: Graddol (2006).
50
Figura 2 – As línguas na internet 2005.
Fonte: Graddol (2006).
Muito embora a língua inglesa seja apresentada como a nova língua das relações
internacionais e também das relações transnacionais e, para 100% dos pais entrevistados,
como uma forma de prover o futuro de seus filhos, segundo Davis (2003), ela conta somente
com 28% do chamado GDP5 – Gross domestic product ou PPP – purchasing power parity6.
Mas, devido aos seus ideais e à constante demanda desta língua no mundo e no Brasil, a
língua inglesa nos é apresentada como se representasse 50% ou mais do produto interno bruto
do mundo inteiro.
A Figura 2 mostra a demanda da língua no mundo pelos usuários internautas:
5
6
Produto Bruto Interno.
Paridade de Poder aquisitivo.
51
Mesmo com o crescente uso de outras línguas na internet, a língua inglesa ainda é o
idioma dos internautas. Isso porque ela é por excelência a língua das novas técnicas da
comunicação, da programação e das ciências tecnológicas.
Entendemos, ainda, que o projeto ELT é um fenômeno sobre o qual mentes e vidas de
falantes de diversas línguas são dominadas por falantes de uma única língua, ao ponto de eles
crerem que podem e devem usar apenas esta língua estrangeira quando se referem às
transações avançadas nos aspectos educacionais, filosóficos e de políticas transnacionais.
Sabemos que a supremacia linguística é um caminho sutil e fácil que possibilita a
moldagem de mentes, atitudes, até dos mais nobres na sociedade, que lhe impossibilitam a
percepção e a compreensão dos acontecimentos em potencial (VAN DIJK, 2010).
Por meio destes pressupostos, certificamos que hegemonia linguística da língua
inglesa pode ser compreendida como uma referência a valores, crenças, propósitos implícitos
e explícitos, que caracterizam as profissões oriundas do projeto ELT, contribuindo, assim,
para a manutenção da língua inglesa como língua dominante (PHILIPSON, 2008). A
hegemonia – deslegitima, legitima e contribui para a constituição da alteridade no discurso do
leitor em jogo.
52
2 A CONSTITUIÇÃO DA ALTERIDADE NO DISCURSO DO SUJEITO
O nosso mundo, uma pequena aldeia global, é interconectado por um processo de
mudanças e sintetizado sob o termo globalização, entretanto, essa pequena aldeia encontra-se
em ritmo desenfreado e coberto de novas tendências e mudanças imperceptíveis.
Contudo, percebemos que o aprendizado de língua inglesa, em nossa realidade,
constitui um vasto campo de constituição de identidade, pautado na ideologia da necessidade
da formação profissional. Como resultado, a língua inglesa não exerce sua hegemonia
comunicativa no âmbito global por acaso e o uso deste aparato que envolve a transmissão e a
recepção de mensagens entre uma fonte emissora e um destinatário requer, no mínimo, sua
aquisição; isto é, o domínio de signos linguísticos suficientes para comunicar o que se deseja.
Partindo desses pressupostos, acreditamos que os fatores políticos, econômicos e
culturais fundamentam o discurso dos pais que incentivam os filhos a estudarem a língua
inglesa. No entanto, asseguramos que esta prática demonstra e caracteriza a hegemonia deste
idioma em diversas culturas em boa parte do mundo. Acredita-se, também, que esta
hegemonia possui um papel marcante na constituição da identidade do adolescente nos cursos
onde estudam a língua inglesa, não somente em Campos dos Goytacazes, mas em todo o país.
Por esse motivo, o impacto da língua inglesa na vida dos adolescentes tem sido
devastador, visto que, ao mesmo tempo em que os adolescentes aprendem esta língua, eles
também conhecem um estilo de vida totalmente diferente, segundo as características dessa
língua. Consequentemente, a intenção por detrás desta aprendizagem é o de moldar os
adolescentes por meio do discurso, da ação e do pensamento, a fim de serem considerados
membros predominantemente da cultura anglo-saxônica. Segundo Philipson (2008), a
aparente presunção mostra que as pessoas de outros grupos étnicos não podem ser
consideradas seres humanos, a menos que estas crianças sejam falantes da língua inglesa e
tenham um comportamento de acordo com a sociedade capitalista. Dessa forma, os
adolescentes crescem nessas escolas com confusões de valores, atitudes e de comportamentos
ensinados em casa. Ou seja, elas passam a vivenciar uma crise identitária, levando à perda da
identidade pessoal e do orgulho em relação a sua própria infância ou cultura. Além disso,
ocorre o fracasso na aprendizagem em sala de aula e, por último, crises profundas e rejeição
da sua própria cultura (PFEIFFER,1975 apud PHILIPSON, 2002).
53
2.1 O desaparecimento do ethos e o aparecimento do outro: globalização – o meio da
constituição da identidade híbrida
Nas histórias modernas, as culturas nacionais têm dominado a “modernidade” e as
identidades nacionais tendem a se sobrepor a outras fontes, mas particularistas, de
identificação cultural (HALL, 2006). Como resultado, as identidades tendem a sofrerem
deslocamentos, trazido por um complexo de processos e forças de mudanças, que, por
conveniências pode ser sintetizado sob o termo globalização, segundo argumenta Anthony
McGrew (1992). Segundo Hall (2006), àqueles processos atuam numa escala global e
atravessam fronteiras nacionais, integram e conectam comunidades e organizações em novas
combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e experiência, mais
interconectada.
Com o aumento da demanda no mercado das indústrias culturais de sujeitos
multifacetários e interdisciplinares, a identidade nacional é definida na interseção da crise de
uma política provocada pela transnacionalização e dos conflitos de uma pluralidade cultural,
revisados pelo crescimento da cultura de massa no país (LOPES, 2005).
Portanto, a globalização implica um movimento de distanciamento da ideia
sociológica clássica da “sociedade” como um sistema bem delimitado e sua substituição por
uma perspectiva que se concentra na forma como a vida social está relacionada ao longo do
tempo e do espaço (GIDDENS, 1990). Assim, segundo Hall (2006), estas novas
características temporais e espaciais resultam da compreensão de distâncias e de escalas
temporais. Não obstante, aquelas cooperam para a transformação das identidades culturais.
Em detrimento da transformação, temos: a desintegração da identidade nacional, a
homogeneização cultural e do “pós-moderno global”, as identidades nacionais e outras
identidades “locais” ou particularistas estão sendo reforçadas pela resistência à globalização.
E, por fim, as identidades nacionais estão em declínio, mas novas identidades – híbridas –
estão tomando seu lugar.
Entretanto, quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos,
lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelo sistema de
comunicação globalmente interligado, mais as identidades se tornam desvinculadas –
desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem “flutuar
livremente” (HALL, 2006).
54
Segundo o autor, acima supracitado, somos confrontados por uma gama de diferentes
identidades (cada uma qual nos fazendo apelos, ou melhor, fazendo apelos a diferentes partes
de nós), dentre as quais parece possível fazer uma escolha.
Assim sendo, ao invés de pensarmos na identidade global como uma forma da
substituição da identidade local, seria mais sensato pensarmos numa articulação entre “o
global” e o “local”. Mas, este “local” não deve, naturalmente, ser confundido com as velhas
identidades, firmemente enraizadas em localidades bem delimitadas. Porque, para Hall
(2006), o local atua no interior da lógica da globalização.
Portanto, segundo o autor acima supracitado, a globalização tem, sim, o efeito de
contestar e deslocar as identidades centradas e “fechadas” de uma cultura nacional. Segundo o
autor ainda, a globalização tem um efeito pluralizante sobre as identidades, produzindo uma
variedade de possibilidades e novas posições de identidades mais posicionais, mais políticas,
mais plurais e diversas; menos fixas unidades ou trans-históricas.
Assim, as pessoas pertencentes a essas culturas híbridas têm sido obrigadas a
renunciar ao sonho ou à ambição de redescobrir qualquer tipo de pureza cultural “perdida” ou
de absolutismo étnico. Elas são irrevogavelmente traduzidas e pessoas da nova diáspora,
criadas pelas migrações pós-coloniais.
2.2 As facetas da identidade
Sempre que pensarmos sobre o substantivo identidade, temos que considerar também
os seguintes itens: discurso, interdiscurso, saberes enciclopédicos, linguísticos, frames, scripts
e o arquivo. Portanto, estas instâncias cooperam para a transformação e constituição da
identidade, não obstante, a identidade um substantivo singular ganhe conotação heterogênea.
Entretanto, essa heterogeneidade identitária se constrói por viés do que professor
Maingueneau (2008) denomina por interdiscursos. Segundo o autor supracitado, sempre
pensarmos em interdiscursos faz-se necessário à consideração à heterogeneidade enunciativa
da presença do “outro” em um discurso como: a heterogeneidade “mostrada” e a
heterogeneidade “constituída”. Portanto, na heterogeneidade mostrada, ocorre a manipulação
da alteridade no discurso citado, autocorreção, palavras entre aspas, entre outros, e existem
marcas visíveis: as palavras, os enunciados de outrem estão tão intimamente ligados aos
textos que eles não podem ser aprendidos por uma abordagem linguística stricto sensu. A
heterogeneidade constitutiva amarra, em uma relação inextricável, o mesmo do discurso e seu
outro.
55
Para Maingueneau (2008), o interdiscurso tem precedência sobre o discurso. Isso
significa que a unidade de análise pertinente não é o discurso, mas um espaço de trocas entre
vários discursos convenientemente escolhidas. Segundo o autor, o caráter constitutivo do
interdiscurso faz a interação semântica entre os discursos parecer um processo de tradução, de
intercompreensão regulada. Consequentemente, cada um introduz o outro em seu fechamento,
traduzindo seus enunciados nas categorias do mesmo e, assim, sua relação com esse outro se
dá sempre sob a forma do “simulacro” que dele constrói.
Passemos agora a questões propriamente ligadas ao discurso. De acordo com
Maingueneau (2002), toda a comunicação verbal é regida por leis do discurso. Essas leis se
aplicam a todas as atividades verbais e têm como objetivo a adaptação da comunicação à
especificidade de cada gênero do discurso, Por exemplo, as competências genéricas são
componentes essenciais de nossas competências comunicativas. Ou seja, são as nossas
habilidades de produzir e interpretar os enunciados de forma adequada às múltiplas formas e
situações de nossa existência. Contudo, para Maingueneau (2002), essas habilidades não
implicam uma aprendizagem explícita; nós a adquirimos por impregnação. Além disso, ter
domínio das competências comunicativas não é suficiente, mas implica a necessidade de
outras competências como a linguística, ou seja, o domínio da língua em questão, e, por
conseguinte, um número considerável de conhecimento do mundo, como as competências
enciclopédicas.
Logo, percebemos que o uso dessas três instâncias contribui para produção e melhor
interpretação dos enunciados. Além do mais, elas cooperam para o domínio da língua, o
conhecimento do mundo e aptidão para se inscrever no mundo por intermédio da língua.
Portanto, de acordo com Maingueneau (2002), o conhecimento enciclopédico é um conjunto
virtualmente ilimitado e, consequentemente, esse conjunto varia de acordo com a sociedade
em que se vive e das experiências de cada indivíduo. A aquisição do sujeito sobre este
conhecimento se dá ao longo da comunicação e, uma vez que o homem o aprende em seu
curso, tal conhecimento fica armazenado e se torna um ponto de apoio para a compreensão
dos enunciados posteriores.
Segundo o autor, nos conhecimentos enciclopédicos não existem somente saberes, mas
também os scripts – aptidões para encadear as ações de forma adequada a alcançar certo
objetivo. Ou seja, uma espécie de roteiros que são sequências estereotipadas de ações.
Portanto, os scripts são responsáveis para a interpretação de textos narrativos.
Igualmente às competências enciclopédicas, também temos a competência genérica,
que diz respeito à capacidade de discernirmos a que gênero o discurso se dirige e à qual
56
destinatário. Entretanto, esta competência varia de acordo com os indivíduos envolvidos na
enunciação.
Segundo Maingueneau (2008), o discurso não deve ser pensado somente como um
conjunto de textos, mas como um conjunto de práticas discursivas. Essa prática não define
apenas a unidade de um conjunto de enunciados, ela também pode ser considerada como uma
prática intersemiótica que integra a produção pertencente a outros domínios semióticos
(pictórico musical). Tal extensão torna-se necessária pelo fato de que o sistema de restrições
que funda a existência do discurso pode ser igualmente pertinente para esses outros domínios.
Consequentemente, percebemos que essas competências trabalham com os frames:
(quadro ou moldura) – representa a cada um dos quadros ou imagens fixas de um produto
audiovisual. Ou ainda frame – unidade de tempo que colaboram para a encenação do sujeito
em jogo, assim como os interdiscursos – que são as inúmeras vozes, provenientes de textos,
de experiências, que se entrelaçam numa rede, em fios, se mesclam e se entrelaçam. Essa rede
conforma e são conformadas por valores, crenças, ideologias, culturas, que permitem ao
sujeito ser, ao mesmo tempo, semelhantes e diferentes. Além disso, ela se faz corpo a corpo
no discurso do sujeito, (re)velando marcas indeléveis de singularidade.
De igual modo, não devemos esquecer-nos do arquivo, que, segundo Foucault (1969),
é, pois, aquilo que justifica – sem que se saiba a sua razão imediata – o que pode ser dito num
dado sistema da discursividade; enfim, o que dá sentido ao que é dito, pois o arquivo é a lei
do que pode ser dito, seria o sistema que rege os aparecimentos dos enunciados como
acontecimento singular. O arquivo é responsável por modificar que alguns dizeres, longínquos
no tempo, permaneçam em outros mais recentes, esfumem-se e até desapareçam. Os arquivos
são responsáveis pela guarnição das tradições, tratando da orla do tempo que cerca nosso
presente, que domina e que indica em sua alteridade.
Conforme Foucault (1969), os arquivos são a soma de todos os textos que uma cultura
guardou em seus poder, como documentos de seu próprio passado ou como testemunha de sua
identidade mantida. Dessa forma, Trata-se, antes, do que faz com que tantas coisas ditas por
tantos homens, há tantos milênios, não tenham surgido apenas segundo as leis do pensamento,
ou do que se pôde desenrolar na ordem das coisas ditas. Ou apenas segundo o jogo das
circunstâncias, que não sejam simplesmente a sinalização, no nível das performances verbais,
do que se pode desenrolar na ordem do espírito ou na ordem das coisas, mas que tenham
aparecido graças a todo um jogo de relações que caracterizam particularmente o nível do
discurso; que em lugar de serem figuras adventícias e como que inseridas, um pouco ao acaso,
em processos mudos, nasçam segundo uma regularidade específica. Em suma, que se hão
57
coisas ditas – e somente estas –, não é preciso perguntar suas razões imediatas para as coisas
que aí se encontram ditas ou os homens que as disseram, mas ao sistema da Discursividade, às
possibilidades e às impossibilidades enunciativas que ele.
O arquivo é de início, a lei do que pode ser dito e o sistema que rege o aparecimento
dos enunciados como acontecimento singular. Mas o arquivo é, também, o que faz com que
todas as coisas ditas não acumulem independentemente em nossa amorfa, não se inscrevam,
tampouco, em uma linearidade sem ruptura e não desapareçam ao simples acaso de acidentes
externo. Pelo contrário, é preciso que se agrupem em figuras distintas, componhem-se umas
como as outras segundo relações múltiplas, mantenham-se ou esfumem-se segundo
regularidades especificas. O arquivo faz com que não recuem no mesmo ritmo que o tempo,
mas que os que brilham muito forte como estrelas próximas venham até nós, na verdade, de
muito longe, quando outras contemporâneas já estão extremamente pálidas.
Em outras palavras, o arquivo não é o que protege, apesar de sua fuga imediata, o
acontecimento do enunciado e conserva, para as memórias futuras, seu estado civil de
foragido; mas sim o que, na própria raiz do enunciado-acontecimento e no corpo em que se
dá, define, desde o início, o sistema de sua inumerabilidade. O arquivo não é tampouco o que
recolhe a poeira dos enunciados que novamente tornam-se inertes e permite o milagre ritual
de sua ressurreição; mas o que define o modo de dualidade do enunciado coisa, bem como o
sistema de seu funcionamento.
Longe de ser o que unifica tudo que foi dito no grande murmúrio confuso de um
discurso, o meio do diverso discurso mantido é o que diferencia os discursos em sua
existência múltipla e os especifica em sua duração própria. Entre a língua, é o que define um
nível particular: o de uma prática que faz surgir uma multiplicidade de enunciado como tantos
acontecimentos regulares, como tantas coisas oferecidas ao tratamento e à manipulação. Não
tem peso da tradição, não constitui a biblioteca sem tempo nem lugar de todas as bibliotecas;
e não é, tampouco, o esquecimento acolhedor que abre a qualquer palavra nova. O campo de
exercício de sua liberdade, entre a tradição e o esquecimento, fez aparecerem às regras de uma
prática que permitisse ao enunciador subsistir e, ao mesmo tempo, manifestar-se
regularmente. É o sistema geral da formação e da transformação dos enunciados.
Asseverados no que diz Foucault (1987) em suas narrativas sobre arqueologia do
saber, os arquivos são responsáveis para a materialização das práticas discursivas, pois nos
revelam o dito e o não dito na alocução por meio da memória cognitiva. São descritos por
Coracini (2007) como fragmentos que recebemos de heranças maternas e paternas, e por meio
desta somos transformados e modificados e regidos por intermédio de regras. Portanto,
58
segundo a autora, estas regras configuram valores, crenças e ideologias culturais que
permitem ao sujeito ver o mundo de determinada ângulo e não de outro; que lhe permite ser,
ao mesmo tempo, semelhantes e diferentes. Essas redes são responsáveis pela constituição da
identidade. Portanto, no quarto capítulo, também esquadrinharemos a forma pela qual o ethos
se transforma em alteridade nos discursos dos sujeitos cosmopolitas, instituídos a partir da
pedagogia do ensino da língua inglesa.
Para Hall (2006), a identidade é constituída dentro de dois eixos paradigmáticos:
diacronia e sincronia. Nos estudos diacrônicos, procura descrever as suas histórias, as
mudanças sofridas ao longo do tempo e os fenômenos sociais, culturais e políticos que
fundamentam esta identidade. Já nos estudos sincrônicos, o autor traz a identidade indicando
fatos concomitantes ou contemporâneos passados em lugares diferentes, sem considerar o
processo evolutivo deste.
No Iluminismo, a identidade passa a significar um ser concreto, cheio de si mesmo, o
homem como centro, um ser cheio da razão, consciência, ação. Este sujeito crescia e se
desenvolvia; ao passar do tempo, permanecia o mesmo: idêntico e sem nenhuma alteridade.
Em seguida, o autor elabora o conceito de sujeito sociológico como um ser
estritamente dependente do outro, um sujeito em conflito e incapaz de caminhar só. Este
sujeito sente que o núcleo interior é insuficiente e, por isso, necessita do outro, pois o outro
ser lhe é importante e se traduz em valores ideológicos e culturais dos mundos que o cercam.
Hall (2006) conclui que a identidade do sujeito social é formada na interação entre o
“eu” e a sociedade. Este sujeito não tem uma forma própria. Por conseguinte, a identidade
deste sujeito, de acordo com o autor, é pautada e constituída na enunciação contínua com os
universos culturais “exteriores” e as identidades que esses universos lhe apresentam. Além
disso, o autor ainda afirma que a identidade sociológica ocupa o espaço entre o interior e o
exterior, ou seja, entre o mundo pessoal e o mundo público.
Por fim, chegamos ao conceito do terceiro sujeito, o pós-moderno, cuja identidade é
conceitualizada como não tendo traços próprios, fixos ou estáveis. Este sujeito se encontra em
constantes mudanças, formado e constituído em relação às formas pelas quais é representado
ou interpretado nos sistemas culturais que o rodeiam.
A identidade é uma espécie de contrato temporal. Um sujeito em constantes atritos
com o “eu” interior a fim de satisfazer o “exterior” é capaz de fazer sacrifícios para a
satisfação da constante demanda desenfreada das necessidades do “eu”, motivado e
predatoriamente legitimado na sombra do outro.
59
Entretanto, a relação entre os sujeitos em questões se fazem por intermédio do ethos.
Segundo Amossy (2008), o ethos é a imagem do sujeito no discurso e, para Barthes (1970
apud AMOSSY, 2008) é o seu jeito, destinado a garantir o sucesso da enunciação ao receptor.
No entanto, não tem como estudar o ethos fora do contexto. Desse modo, faz-se necessário
que se estude dentro de contextos como “hegemonia”, que produz um conjunto de ideias,
descritas como ideologias. Por outro lado, essas ideias apresentam-se como formações
discursivas, ou seja, o discurso como prática produz diferentes formas ideológicas. Logo,
dentro dos enunciados, cooperam para a encenação do sujeito.
Segundo Althusser (1998), as ideologias são fatos de consciência por serem formadas
na infraestrutura, na base econômica, ou seja, na unidade de força produtiva e de relações de
produção. Já a superestrutura é formada por instâncias jurídico-políticas que compreendem o
direito, o Estado e a ideologia. Ou seja, abrangem as diferentes formas de ideologias. Estas,
por sua vez, cooperam com o ethos para a transformação do sujeito “tu” receptor. Além disso,
o ethos abarca o logos – racional, o pathos – sincero e o ethos – solidário. Não obstante, o
logos é inferencial, raciocínio e argumentação, responsabilizando-se por garantir o sucesso do
sujeito enunciador na oratória. Portanto, o ethos está ligado ao locutor como a origem da
enunciação e se investe de certos caracteres que, tornam essa enunciação aceitável ou
recusável.
Assim, como as diferentes formas ideológicas contribuem para a transformação dos
sujeitos em jogo, por meio dos discursos que não param no tempo. Consequentemente, as
ideologias fazem uso dos discursos autoritários, e estes, segundo Citelli (2005), têm
formações discursivas persuasivas. Além disso, é aqui onde se instala a força máxima de
dominação por meio da enunciação, convencionado como: Eu + Tu = Eu. Em outras palavras,
se o sujeito receptor não tiver orientação, este se torna uma presa fácil do discurso do sujeito
emissor, cheio de ideologias, que colaboram para o desaparecimento do “tu” receptor e tornase um mero espectador. Assim, acontece a acomodação do “tu”, sem possibilidade de
interferir ou modificar aquilo que está sendo dito. Não obstante, ocasionam o
desaparecimento do ethos do receptor e a constituição do ethos do emissor – alteridade, e o
sujeito “Tu” apropria-se do discurso do enunciador “Eu” como se fosse um simulacro.
60
2.3 A ideologia da língua inglesa como gênese das ideias que fundamentam a encenação
do adolescente
Nesse tópico, buscaremos analisar a ideologia da língua inglesa e seus valores na vida
social. Segundo Chauí (1997), o termo ideologia teve seu primeiro estudo realizado por
Destutt de Tracy, em seu livro intitulado Eléments d’ideologie (Elementos de ideologia),
publicado em 1801, juntamente com os médicos Cabanis e De Gérando Volney. No entanto,
Destutt de Tracy almejava elaborar uma ciência da gênese das ideias capaz de explicar a
teoria sobre as faculdades sensíveis, responsáveis pela formação de todas as nossas ideias,
com o querer (vontade), o julgar (razão), o sentir (percepção) e o recordar (memória). Do
mesmo modo, ele desejava entender a forma com a qual se formalizava a nossa capacidade de
discernimento das coisas que nos rodeiam.
Dessa forma, contra a educação religiosa e a metafísica, Tracy aspirava constituir
pensamentos capazes de perceber a decomposição e recomposição dos fatos. Já Cabanis,
desejava reconfigurar as ciências morais, baseando-se na natureza. Portanto, ele esperava que
este estudo trouxesse a felicidade dos grupos sociais, que, consequentemente, acarretaria o
fim dos dogmas e não colocaria o estudo das funções fisiológicas em risco.
Até o presente momento, o conceito de ideologia tinha um propósito pedagógico
educativo. Preocupados como os preceitos da vida, estes dois pensadores buscavam na
ideologia uma maneira de enxergar as mudanças sociais. Assim, apenas em 1812 é que a
palavra ideologia ganha uma nova configuração. Foi no discurso de Napoleão Bonaparte, se
opondo a uma pequena massa de intelectuais conhecida até então como os ideólogos,
referindo-se a eles disse que “muitas das desgraças que a sociedade francesa sofria” era
proveniente dos ideólogos considerados tenebrosos metafísicos e formadores de ideias.
Assim, o termo ideologia, que inicialmente designava uma ciência natural da aquisição
pelo homem das ideias calçadas sobre o próprio real, passa a designar, daí por diante, um
sistema de ideias condenadas a desconhecer sua relação real com o real.
A ideologia é o conjunto de fragmentos oriundos da hegemonia – ocorre com mais
frequência em discursos autoritários, gêneros predominantemente publicitários. No entanto, as
ideologias não podem ser estudadas como um conjunto de ideias vazias. Segundo descrito por
Tracy (1801 apud CHAUÍ, 1997), mas sim como um conjunto de práticas que nos
determinam os ditos e os não ditos na discursividade. As ideologias transformam,
deslegitimam e legitimam os grupos sociais. Além disso, não são neutras, e nem podem ser
descontextualizadas, mas sim contextualizadas. Para Althusser (1998), as ideologias têm
61
existência material e pode ser estudada, mas não enquanto ideias apenas, pois são conjuntos
de práticas materiais necessárias à reprodução das relações de produção. As ideologias tem
por efeitos o reconhecimento da necessidade da divisão de trabalho, e é de caráter apropriado
o lugar determinado para cada ator social na produção.
Bakhtin (2004), em “Marxismo e filosofia da linguagem”, argumenta que todo signo é
ideológico. Entretanto, a ideologia é um reflexo das estruturas sociais e, assim, toda
modificação da ideologia acarreta uma modificação da língua. Em outras palavras, trata-se de
um produto que faz parte de uma realidade (natural ou social), possui um significado e remete
a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideologia é um signo, e sem
signo não há ideologia. O signo nasce e se desenvolve em contato com as organizações
sociais. Portanto, pode ser pensado socialmente e contextualmente.
Observamos que a ideologia da língua inglesa tem sido um aporte para a ancoragem
das propagandas publicitárias, nos cursos de idiomas, trazendo a língua inglesa como a única
alternativa para se obter sucesso na vida. Como os fragmentos dessa ideologia são estampadas
em todos os setores da vida social, consequentemente, este discurso leva os pais a
incentivarem os filhos ao estudo da língua como uma forma de garantir um futuro promissor.
Alguns, mesmo sem noção desta ideologia, são levados a estudar esta língua, levando em
consideração a imperatividade dos discursos dos seus pais. Outros cedem ao apelo dos pais
simplesmente. Consequentemente, os discursos dos pais levam os adolescentes a um estado
de comodificação. Fairclough (2001, p. 255), em seus estudos sobre a Análise Crítica do
Discurso, explica que a comodificação: “(...) é o processo pelo qual os domínios e as
instituições sociais, cujo propósito não seja produzir mercadorias no sentido econômico
restrito de artigos para venda, vêm, não obstante, a ser organizados e definidos em termos de
produção, distribuição e consumo de mercadorias”.
Segundo Bhabha (2007), os homens não desejam que sejam examinadas
desapaixonadamente as crenças às quais atribuem grande significação moral, não importa
quão puro seja o propósito. Entretanto, quando estes homens são altamente ideológicos, eles
podem achar difícil acreditar numa abordagem desinteressada de assuntos críticos de
convicção social e política, vendo-a apenas como impostura escolástica.
De acordo com Bhabha (2007, p. 174), “(...) o pensamento ideológico é algo
indefinível, algo que deve ser superado e banido de nossa mente”. Do mesmo modo, o
pensamento ideológico é bastante diferente de uma mentira, pois, para o autor, o mentiroso
atinge pelo cinismo, já o ideólogo permanece apenas um tolo. Portanto, ambos preocupam-se
com uma inverdade, mas enquanto o mentiroso tenta falsificar o pensamento dos outros, e seu
62
pensamento continua certo, enquanto ele mesmo sabe qual é a verdade, a pessoa que aceita
uma ideologia se ilude no seu próprio pensamento e, se consegue convencer outros, o faz sem
querer e sem consciência. Portanto, todas as formas de pensamento são condicionadas
socialmente na própria natureza das coisas, mas o que a ideologia tem como acréscimo é a
infeliz qualidade de ser psicologicamente “deformada”, (“deformada”, “contaminada”,
“falsificada”, “distorcida”, “sombreada”) pela pressão das emoções pessoais, como o ódio, o
desejo, a ansiedade ou o medo. Entretanto, as ideias e crenças podem ser relacionadas com a
realidade numa dupla forma: com os fatos da realidade ou com os anseios que essa realidade
ou reação dessa realidade. Dessa forma, onde existe a primeira conexão, descobrimos um
pensamento que em principio é verdadeiro; onde aparece, também, a última relação,
enfrentamos as ideias que só podem ser verdadeiras por acidentes e que são passíveis de
estarem viciadas por preconceitos, sendo esta palavra tomada em sua acepção mais ampla
(BHABHA, 2007).
Tendo isso em vista, é possível afirmar que as ideologias são multiformes, cada uma
correspondente a sua singularidade. As ideologias desenvolvem-se no meio social e no
psicológico, por onde se manifestam cada uma com a sua singularidade e estruturas. De
acordo como as hipóteses de Bhabha (2007), existem dois tipos de abordagens das ideologias:
uma chamada de teoria do interesse e, outra, de teoria da tensão. A primeira apresenta-se
como uma máscara e uma arma e a outra se apresenta como um sintoma e um remédio.
Portanto, na primeira, os pronunciamentos são vistos contra o pano de fundo da luta universal
por vantagens; já na segunda, a ideologia é contra um pano de fundo referente ao esforço
crônico para corrigir o desequilíbrio sociopsicológico. Isto é, em uma delas os homens
perseguem o poder e na outra eles fogem da ansiedade.
Ainda de acordo com Bhabha (2007, p. 174), “(...) o pensamento ideológico é visto
como uma espécie de resposta ao desespero: a ideologia é uma reação padronizada as tensões
de um papel social”. As ideologias fornecem saída simbólica para as perturbações emocionais
geradas pelo desequilíbrio social. Segundo o autor, “(...) o conceito de tensão não é, em si
mesmo, uma explicação dos padrões ideológicos, mas um rótulo generalizado para as espécies
de fatores a buscar na elaboração de uma explicação” (p. 175).
Portanto, de acordo com as hipóteses de Bhabha (2007), o pensamento ideológico
consiste na construção de manipulação dos sistemas simbólicos que são empregados como
modelos de outros sistemas – físicos, orgânicos, social, psicológico e assim por diante – numa
forma tal que a estrutura desses outros sistemas é, por assim dizer, “compreendida” – e, na
melhor das hipóteses, como se pode esperar que eles se comportem. Segundo Bhabha (2007),
63
os padrões culturais-religioso, filosófico, estético, científico e ideológico são “programas”:
eles fornecem um gabarito ou diagrama para organização dos processos sociais e
psicológicos, de forma semelhante aos sistemas genéticos que fornecem tal gabarito para a
organização dos processos orgânicos. Portanto, segundo o autor, o comportamento humano é
extremamente plástico, não sendo controlado estritamente, mas apenas de modo amplo, por
programas ou modelos genéticos-fontes intrínsecas de informações. Tal comportamento, caso
tenha que produzir algum resultado, tem que ser controlado, numa extensão significativa, por
fontes extrínsecas. No entanto, para o autor, a extrema generalidade, disseminação e
variabilidade da capacidade inata de respostas do homem significa que o padrão particular que
o seu comportamento assume é guiado, predominantemente, por gabaritos culturais ao invés
de genéticos, estabelecendo nestes últimos o contexto geral psicofísico dentro do qual as
sequências precisas de atividade são organizadas pelos primeiros.
Tendo isso em vista, a ideologia é a soma das tensões culturais, social e psicológica.
Para Bhabha (2007), trata-se da perda de orientação que dá origem mais diretamente à
atividade ideológica, uma incapacidade, por falta de modelos utilizáveis, de compreender o
universo dos direitos civis e das responsabilidades no qual as pessoas encontram-se
localizadas. Segundo o autor, as ideologias, por sua vez, tentam dar sentido a situações sociais
de outras formas incompreensíveis, de construí-las de tal forma a tornar possível a atuação
propositada dentro delas, que dá conta tanto da natureza altamente figurativa das ideologias
como da intensidade como são mantidas, uma vez aceitas. Da mesma forma que a metáfora
amplia a linguagem, alargando seu alcance semântico, permitindo-lhe expressar significados
literais, na ideologia – a ironia, a hipérbole, a muito apelada antítese – fornece novos quadros
simbólicos contra os quais se pode combinar a miríade de coisas não familiares que são
produzidas por uma transformação na vida política, como uma viagem a um país estranho.
Portanto, as ideologias – projeções de medos não reconhecidos, disfarces de motivos
ulteriores, expressões fictícias da solidariedade de grupo – elas são, bem distintamente, mapas
de uma realidade social problemática e matrizes para a criação da consciência coletiva. As
ideologias levam à confusão mental, porque ela resulta das tensões culturais, sociais e
psicológicas.
A ideologia está transformando o mundo. As pessoas tornaram-se “escravas” desses
novos ideais – oriundos da hegemonia americana – e o sujeito que não estiver usando as
últimas invenções, tais como Ipad 2, Galaxy 2, Macbook, Ultrabook, TV em 3D, entre outros,
ou então não assistir aos famosos seriados americanos, é visto como ultrapassado.
64
Assim sendo, concebemos que a supremacia econômica, política e cultural constitui,
transforma, deslegitima e legitima as crianças nas mais diversas formas de configuração no
mundo. Esta supremacia americana, adjacente aos discursos dos pais e que se apresentam
como forte aliado da ideologia americana, contribui para a constituição da alteridade na vida
do adolescente pós-moderno.
De tal modo, o projeto ELT consolidou-se após a Segunda Guerra Mundial, com a
entrada dos EUA como a maior e mais forte força política, econômica, bélica e cultural no
mundo, assegurado pelo complexo processo descrito por Hall (2006) como globalização.
Adjacente ao boom dos meios de comunicação desde então, ela tem contribuído para a
transformação do mundo.
Portanto, para que os adolescentes desse novo universo estejam cientes desse projeto,
faz-se necessário que estes sejam altamente instruídos sobre estas mudanças. Além disso, é
interessante saber o porquê dessa acomodação de seus pais sobre as ideologias anglocêntricas
e etnocêntrica – sobre as quais estes asseguram seus discursos, com as quais estes pais pautam
os sonhos de seus filhos. É importante que tanto os pais quanto os (as) professores (as) sejam
bem informados sobre essas ideologias e como elas contribuem para a alienação de valores,
crenças e culturas desses adolescentes.
A seguir passa-se a análise dos resultados da pesquisa, que confirmam a hegemonia
da língua inglesa como fator relevante na constituição da identidade do adolescente.
65
3 METODOLOGIA
Para realização deste estudo, constituímos duas amostras de análises. Uma delas
consiste em vinte entrevistas com a fala de pais e estudantes, de dois cursos de língua inglesa,
dos onze escolhidos, localizados na cidade de Campos dos Goytacazes, no Estado do Rio de
Janeiro, distribuídas da seguinte forma: dez falas de pais e dez de alunos; enquanto, a outra
amostra, constituiu-se de anúncios e propagandas dos onze cursos selecionados, a saber:
SKILL, CNA, CULTURA INGLESA, FISK, RAPOSO, PBF, CCAA, INTERCULTURA,
IBEU, UPTIME e NUMBER ONE. É necessário ressaltar que a escolha das escolas, bem
como a cooperação da direção, dos pais e dos (as) filhos (as), contribuiu para a eficácia da
realização das entrevistas.
Para análise dessas amostras, utilizamos os teóricos da Análise do Discurso, da
Sociologia, da Antropologia e outros especialistas da temática abordada, tais como: Gramsci
(1975), Althusser (1976), Nowles (1999), Philipson (2001), Calvet (2002), Graddal (2006),
Fairclough (2008), Van Dijk et al. (2010), entre outros.
Os discursos publicitários e os discursos autoritários dos pais – que impulsionam
jovens para os cursos de inglês – constituem corpora de análise. Buscamos evidências que
comprovassem a hegemonia da língua inglesa na constituição da identidade dos adolescentes,
assim como a identificação de características que possam ser associadas ao sucesso da grande
demanda desta língua na vida desses indivíduos.
Para a coleta de dados das entrevistas, foi utilizado um gravador digital da marca Sony
para melhor captura e detalhamento no processo de transcrição dos dados. Fizemos alguns
questionamentos que foram dirigidos aos pais e igualmente a seus filhos, a fim de demonstrar
de que forma aqueles se dirigem a estes em relação ao aprendizado de língua inglesa e,
também, qual tem sido a reação desses jovens no que diz respeito a essa aquisição de
conhecimento e suas projeções para o futuro.
Todos os dados envolveram a temática: constituição da identidade e a necessidade da
segunda língua, ressaltando a importância de se levar adiante esse conhecimento adquirido
para o mercado de trabalho.
A partir dos resultados obtidos, tornou-se então possível determinar como se
constroem os discursos dos pais na formação da identidade de jovens em cursos de inglês na
cidade de Campos dos Goytacazes, como veremos no próximo capítulo.
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4 ANÁLISE DOS DADOS
Neste capítulo, buscamos examinar os discursos dos pais e de seus respectivos filhos,
assim como também analisamos as propagandas de onze cursos, a saber: SKILL, CNA,
CULTURA INGLESA, FISK, RAPOSO, PBF, CCAA, INTERCULTURA, IBEU, UPTIME,
NUMBER ONE, a fim de constatarmos o status presente na pedagogia do ensino da língua
inglesa que contribui para grande demanda.
As onze escolas de idiomas, com seus respectivos panfletos de propagandas, foram
analisadas para a coleta de corpora e, dentro deste número, selecionamos duas escolas que
nos serviram de aporte para análise dos dados, com entrevistas dos pais e de seus respectivos
filhos. Optou-se por entrevistar apenas dez alunos e dez pais do CNA e da Intercultura, devido
à semelhança entre os discursos destes. Selecionamos seis diálogos de pais e seis de alunos,
totalizando doze discursos. Isto é, seis pais e seis alunos, de ambos os cursos.
CURSOS LIVRES
PAIS
ALUNOS
PROPAGANDAS
2
10
10
11
Tabela 1 – Número total de cursos, informantes e propagandas.
Fonte: dados da pesquisa.
A Tabela 1 acima representa o número de cursos, pais, alunos e de propagandas usadas
na análise.
Alguns responsáveis trabalham com a língua inglesa e a escolha foi intencional, pois
almejávamos, também, saber a visão dos pais como educadores. Segundo Philipson (2001), os
(as) professores (as) desempenham um grande papel no processo de difusão e ensinoaprendizado da língua inglesa no mundo, por isso a intenção por detrás da escolha dos
candidatos. Assim, os pais/responsáveis apresentam-se como fortes aliados desta língua por
estarem cientes dos benefícios que dotam aqueles que a dominam. Notamos que, além do
aprendizado da língua inglesa assegurar o futuro dos filhos, para alguns pais, ver os filhos
sendo capazes de se comunicarem já é motivo de grande felicidade. Assim sendo, abaixo
seguem os nossos procedimentos neste estudo.
a) Primeiramente, buscamos entender qual é o conhecimento dos pais sobre o
domínio linguístico da língua inglesa e, também, qual a importância do
aprendizado desta para os seus respectivos filhos. Além disso, questionamos a
67
respeito do aprendizado desses alunos – se este é feito por livre escolha ou para
agradar os seus pais;
b) Já na segunda etapa, desenvolvemos alguns questionamentos que foram dirigidos
aos pais e aos seus respectivos filhos. Desse modo, verificamos a forma pela qual
estes pais se dirigem aos filhos e qual tem sido a reação destes perante a aspiração
dos pais;
c) Os pais foram submetidos às seguintes perguntas: por que é importante estudar a
língua inglesa; e qual é a importância desta para os seus filhos. Já para os filhos, a
questão colocada foi: por que você estuda a língua inglesa?; e
d) Depois de avaliados os discursos dos pais e submetidos os seus “filhos” aos
questionários, a próxima etapa consistiu na coleta de dados midiáticos da oferta de
proposta de ensino de idiomas em cursos e em escolas, onde as publicidades têm
se ancorado.
A partir dos resultados obtidos das análises, fomos capazes de expor como se
constroem os discursos dos pais na constituição da identidade dos adolescentes, em cursos de
Campos dos Goytacazes, que contribuem para a constituição da alteridade no discurso do
adolescente.
Um fato marcante nesta entrevista foi o entusiasmo dos pais e alunos entrevistados.
Alguns vibravam quando eram entrevistadas, demonstrando a real importância de seus filhos
estarem aprendendo uma língua de conexão cultural, estreitamento do universo e como forma
de “garantia” de um futuro mais sólido.
Contudo, muito embora alguns pais não saibam o real sentido do aprendizado da
língua inglesa, estes veem no aprendizado dos filhos uma forma de realizar um sonho não
concretizado devido a fatores político-sociais e econômicos. Além disso, este aprendizado é
visto como uma forma de assegurar um futuro brilhante para os seus filhos, por considerarem
que o aprendizado da língua inglesa dá status àqueles que a aprendem.
Não obstante, notamos que muitos pais levam em consideração também a atual
dimensão política dos nativos, não se esquecendo do grande evento que tomará forma em
2014 no Brasil: a Copa do Mundo. Alguns deles alegam que o aprendizado da língua inglesa
viabiliza a abertura de grandes oportunidades – quase em todos os setores da vida, seja ele
político, econômico ou cultural.
Um dos depoimentos mais marcantes foi o de um pai que tem dois filhos. Segundo
ele, o seu filho mais velho estuda a língua inglesa, mas não gosta tanto quanto o mais novo.
Este, uma vez, deparou-se com o seu pai conversando com alguns americanos e ficou tão
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orgulhoso que saiu falando que o seu pai falava muito bem inglês. Segundo o pai, seu filho
hoje estuda com grande euforia, porque quer falar inglês igualmente como seu pai.
As análises seguirão as seguintes sequências: as propagandas, os discursos dos pais e,
por último, os discursos dos adolescentes. No subtópico a seguir, primeiramente traremos um
pouco da vida do ator Rodrigo Santoro. Em seguida, traremos as análises das propagandas.
4.1 As propagandas: a encenação do sujeito
Rodrigo Junqueira dos Reis, o Rodrigo Santoro, nasceu em Petrópolis, no dia 22 de
agosto de 1975. Trata-se de um premiado ator brasileiro e fez história ao passar do cinema
nacional para o cinema hollywoodiano.
O ator teve trabalhos de destaque na TV Globo, mas a sua preferência é a carreira mais
voltada para o cinema. Desde criança Rodrigo já sonhava com a carreira de ator. Filho de um
engenheiro italiano e uma artista plástica, Rodrigo Santoro nasceu em Petrópolis, onde morou
até se mudar para o Rio de Janeiro, aos 18 anos. Seu sobrenome Santoro é apenas artístico.
Aos 17 anos, ele estudou na Oficina de Atores da Rede Globo por um ano e depois começou a
cursar Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. Santoro
chegou a ser rejeitado em um teste para a minissérie “Sex Appeal”, mas não desistiu e, em
1994, aos 19 anos, foi convidado para atuar em seu primeiro trabalho na novela "Olho por
Olho" e, depois, "Pátria Minha". Porém, seu primeiro papel de destaque foi na telenovela
“Explode Coração” em 1995. No ano seguinte, Santoro estreou no cinema atuando no curtametragem "Depois do Escuro".
Ao analisarmos a imagem visual, consideramos necessária a percepção de quem e para
quem. Ou seja, do emissário para o destinatário, pois toda imagem constitui sempre uma
mensagem para o outro. Percebemos que qualquer mensagem exige, em primeiro lugar, um
contexto chamado referente, ao qual remete; em seguida, exige um código pelo menos em
parte comum ao emissário e ao destinatário; também precisa de um contato, canal físico entre
os protagonistas, que permita estabelecer e manter a comunicação. Este canal pode ser a mídia
ou a publicidade, ou seja, um meio por onde se estabeleça este relacionamento.
Antes de começarmos a descrição é necessário destacarmos os tipos de mensagem que
constituem a mensagem visual. Esta é composta por mensagem plástica, mensagem icônica e
mensagem linguística. Analisando cada uma delas e o estudo de sua imperatividade, é
possível detectar a mensagem geral e implícita da propaganda.
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A peça publicitária do curso de idiomas WISE UP é um importante exemplo de
ideologia, pois trabalha com o slogan “Inglês transnacional”, associada à figura do ator
Rodrigo Santoro (Figura 3), demarcado como um sujeito supranacional. Entendemos que este
status de transnacionalidade de que o ator desfruta é um direito que ele possui assegurado nos
quesitos políticos e econômicos, que servem de alicerce para o ator exercer este domínio.
Consequentemente, a supremacia lhe garante o status de que goza como cidadão cosmopolita.
Figura 3 – Campanha publicitária WISE UP (2011).
Fonte: <http://ometzonline.com/pt/operacional/noticia/santoro-e-porchat-juntos-pela-wise-up>. Acesso
em: 09 mar. 2012.
Esta ótica assegurada ao ator Rodrigo Santoro, visto como sujeito cosmopolita e
transnacional que está em ascensão no cenário mundial, exerce a função de fiador e se reveste
das lógicas econômicas e simbólicas; tem status e é um ícone da sociedade mundial. Por essa
razão, está presente em todos os países, de norte o sul e de leste a oeste. Portanto, entende-se
que este fiador possui domínios linguísticos e é engendrado na lógica simbólica, “(...) que faz
com que todo o sistema de informação tenha por vocação participar da opinião pública”
(CHARAUDEAU, 2010, p. 21). Maingueneau (2002), por sua vez, afirma de que “(...) um
texto não é um conjunto de signos inertes, mas o rastro deixado por um discurso em que a fala
é encenada” (p. 85). Vejamos o trecho a seguir:
Sempre que começa um novo ano todo mundo coloca os seus sonhos no
papel. Falando inglesa muita gente esta tirando do papel e realizá-lo que
excelente. Na wise up você fala inglês em um ano e oito meses e ficam bom
para compensar, e aí, seus desejos finalmente vão se tornar realidade. 2011 é
a sua vez, chegou a hora de tirar os seus sonhos do papel
(http://ometzonline.com/pt/operacional/noticia/santoro-e-porchat-juntospela-wise-up>. Acesso em: 09 mar. 2012).
70
Olhando para essa transcrição da peça de propaganda da WISE UP, onde Rodrigo
Santoro é apresentado com o grande fiador de ambos os sonhos, tanto do próprio autor quanto
dos ouvintes em questões, ou seja, o alvo imaginado. Percebemos que a língua inglesa é
apresentada pelo discurso do ator como a única forma de tornar os seus sonhos reais. Assim,
segundo este, uma vez que você estuda inglês na WISE UP, todos os seus sonhos saem da
imaginação para prática. Além do mais, o tempo perdido não existe neste curso, porque seus
sonhos se tornam reais em apenas um ano e oito meses. Consequentemente, o mercado de
trabalho que parecia estar tão distante, com o inglês aprendido no curso em questão o aluno é
capaz de recuperar todos os sonhos que anos atrás se encontravam apenas no papel. Sendo
assim, em 2011, caso o aluno aprenda inglês na WISE UP, este irá conquistar o mundo da
mesma forma que o ator Rodrigo Santoro. Sem o inglês da WISE UP não há sucesso.
Com base nesses pressupostos, podemos afirmar que as mídias, para suscitarem as
paixões em seus clientes potenciais, os circunscrevem em três cenários distintos. A cena
englobante é responsável por tornar o discurso positivo e objetiva o alvo imaginado. Esta
interpela o leitor. A cena englobante é a que corresponde ao tipo de discurso. Quando
recebemos um folheto na rua, nos permite determinar a que tipo de discurso ele pertence:
religioso, político, publicitário, entre outros. Ou seja, qual é a cena englobante onde é preciso
que nos situemos para interpretá-lo, em nome de quê o referido folheto interpela o leitor, em
função da qual finalidade ele foi organizado.
A cenografia, por sua vez, é a forma pela qual o leitor enfrenta o discurso, a arte de
jogos dos signos. A ambivalência semântica entra em ação para manipular ou ludibriar o
leitor, levando o quadro cênico a se deslocar para o segundo plano. O leitor da publicidade cai
numa espécie de cilada, pois recebe o texto inicialmente como uma conversa telefônica, e não
como uma propaganda de um gênero determinado. A cenografia não é simplesmente um
quadro, um cenário, como se o discurso aparecesse inesperadamente no interior de um espaço
já construído e independente dele: é a enunciação que, ao se desenvolver, esforça-se para
construir progressivamente o seu próprio dispositivo de fala. A cenografia implica, desse
modo, um processo de enlaçamento paradoxal. Logo de início, a fala supõe uma certa situação
de enunciação que, na realidade, vai sendo validade progressivamente por intermédio da
própria enunciação. Assim, a cenografia é ao mesmo tempo a fonte do discurso e aquilo que
ele engendra; ela legitima um enunciado que, por sua vez, deve legitimar a cena validada.
Segundo afirma o autor, esta não é propriamente um discurso, mas um tipo de ramificação
autonomizada, descontextualizada, disponível para reinvestimento. Tal estereótipo encontrase já instalado na memória coletiva.
71
O ator Rodrigo Santoro é apresentado como fiador destas três instâncias.
Primeiramente como representante duplo: do grupo dominante e dos dominados que buscam
ascensão global. Mas, para alcançar a hegemonia, o sujeito tem que fazer inglês no curso
WISE UP, assim, realizará os seus sonhos. Percebemos, aqui, que a supremacia linguística da
língua inglesa constitui natureza, deslegitima e legitima sociedades e seus habitantes em
diversos setores da vida.
De acordo com Fairclough (2002), cremos que cabe a reflexão de que hegemonia é
liderança, e também dominação nos domínios econômicos políticos, cultural e ideológico de
uma sociedade. Hegemonia é o poder sobre a sociedade como um todo, de uma das classes
economicamente deferidas como fundamentais em alianças com outras forças sociais, mas
nunca atingida senão parcialmente e temporariamente, como instável. Todavia, a hegemonia é
foco de constante luta sobre pontos de maiores instabilidades entre classes e blocos para
construir, manter ou romper alianças e relações de dominação e subordinação.
No caso dos cursos de inglês, o ensino da língua, que não tem genuinamente um
caráter mercadológico, transforma-se em meio de obtenção de lucratividade. E a educação, tal
como explicada por Fairclough (2001), é comodificada pelos cursos de inglês para servir ao
capitalismo.
A peça publicitária da escola de idiomas SKILL é um importante exemplo de
comodificação, pois trabalha com o slogan “Inglês campeão”, associada à figura do campeão
olímpico César Cielo. A ideia da escola é fazer com que seu público alvo acredite que, se fizer
inglês na SKILL, será campeão.
A ideia proposta pela peça publicitária divulgada pelo CNA não é muito distinta da
SKILL, pois também trabalha com a paixão humana referente à ascensão social. O CNA
pretende vender com o seu curso o sucesso. Por esta razão, apresenta o slogan: “CNA, pra
quem é apaixonado por sucesso”. Vale ressaltar que o desejo de obtenção de sucesso é
transtemporal, inerente ao ser humano. A escola quer fazer com que as pessoas acreditem que,
apesar de todos quererem o sucesso, só quem fizer CNA o terá.
72
Figura 4 – CNA - Inglês Definitivo.
Fonte: <htpp://www.cna.com.br>. Acesso em: 14 mar. 2012.
A Figura 4 refere-se à publicidade do CNA, que visa trazer tranquilidade ao ambiente
e boa convivência entre os adolescentes, além do principal: “O sucesso já começa na
matrícula”. As cores harmoniosamente combinando com a figura do coração significam vida,
e a cor branca na frase de seu slogan mostra a paz no aprendizado da língua inglesa no centro
de idiomas CNA. Portanto, o objetivo desta imagem é criar proximidade e tranquilidade para
os pais e também abrandar o temor em prol da criança quanto ao local desconhecido.
A escola de idiomas CULTURA INGLESA mostra o status e a formação de um
sujeito cosmopolita. Segundo a publicidade, quem aprende o inglês na referida escola é capaz
de transcender às barreiras territoriais, passa a ser um humano sem fronteiras, sem restrições
ou impedimentos. A ideia que a CULTURA INGLESA pretende vender é que quem é
formado pela sua escola tem possibilidades não só no Brasil, mas em todo o mundo.
A escola de idiomas FISK oferece um aprendizado que se adapta às necessidades do
sujeito. Ou seja, o aluno aprende do seu jeito, quando quiser e como desejar, dando a entender
que o aluno é o chefe majoritário e eles são os seus funcionários, prontos para fazerem a sua
vontade.
Já a escola RAPOSO trabalha com o discurso inovador, qualidade e credibilidade no
ensino e leva o aluno aonde ele desejar. Portanto, quem aprender inglês em apenas dois anos e
meio nesse estabelecimento terá mais oportunidades no cenário mundial.
O curso de idiomas PBF apresenta-se como a saída para as situações embaraçadas
como, por exemplo, no cinema. Enquanto todas as crianças estão felizes, devido ao
entendimento do idioma do filme, outra criança está triste porque não consegue entender o
filme. Apresenta essa criança como se fosse a única que não tem domínio da língua inglesa,
ou seja, todos que fizerem PBF compreendem a língua. Assim, para este curso de idiomas,
todos aqueles adolescentes que fazem o curso com eles são mais felizes.
73
Já o slogan do CCAA é: “O inglês que você aprende e nunca mais esquece!”. Tendo
isso em vista, o ensinamento proveniente do CCAA é eterno, isto é, algo que não se esfuma e
que é transtemporal. Portanto, não importa o lugar, a época em que se encontra, o inglês do
CCAA sempre estará presente.
A INTERCULTURA, por sua vez, faz o uso de sua própria relação pragma-semântica.
Seu nome faz analogia às relações ou trocas entre culturas, ou seja, é sinônimo de
transculturalidade. A escola apresenta-se como a melhor e mais eficaz forma de aprendizado
de um idioma por intermédio de relações com falantes nativos e não nativos e, também,
apresenta-se como um curso inovador e interativo. Isso porque faz o uso dos chamados iboards para melhorar o ensino da língua. Além disso, afirma ser “A melhor forma de
aproveitar cada minuto do seu aprendizado” e “Sua única oportunidade de fazer um
intercâmbio”. Consequentemente, conhecer aqueles lugares dos sonhos, antes tão distante,
agora será uma realidade, pois, por meio da INTERCULTURA, o aluno torna-se um cidadão
do mundo.
O curso de idioma IBEU trabalha com o seguinte slogan: “O nosso inglês todo mundo
U.S.A.”. Todo mundo usa, considerando a tradição de mais de 50 anos e mais de três gerações
no Brasil e, também, levando-se em conta o domínio supremo da sigla em inglês de Estados
Unidos. Ou seja, o domínio da língua inglesa no mundo, bem como as diferentes formas de
ideologias oriundas da supremacia americana, e que quase todo mundo faz o uso. Entretanto,
alguns países, mesmo relutantes, acabam aderindo a essas ideologias.
Já a UPTIME faz uma alusão ao New York Time – um jornal famoso norte-americano
–, trazendo, também, figuras de alunos e de personagens famosos como Bernardinho, o
técnico da seleção brasileira de voleibol, que está presente no cenário mundial como um
grande vencedor. O curso apresenta aos adolescentes e aos seus pais que, uma vez que os
adolescentes façam parte desse curso, também estarão fazendo parte do cenário de mundial e
de notícias de grandes jornais como o New York Time, entre outros. Não obstante, a escola
também é uma espécie de centro de treinamento. Ou seja, um facilitador para os adolescentes,
porque, ao mesmo tempo que estes alunos aprendem a língua inglesa, tornam-se reprodutores
de saberes, podendo ser os próximos instrutores da mesma instituição. O curso se apresenta
como uma forma de se obter sucesso e constituir caráter e personalidade de melhor
adolescente, que tenham o prazer de ajudar os necessitados. Consequentemente, a UPTIME
pode ser associada à cultura, educação e experiências multiculturais.
74
Figura 5 – NUMBER ONE Idiomas.
Fonte: <htpp://www.cna.com.br>. Acesso em: 14 mar. 2012.
A NUMBER ONE idiomas apresenta-se como a única que é a completa saída para
você aprender um idioma. O curso traz o seguinte slogan: “Essencial é ter um inglês
completo, e esse inglês completo, você o encontra somente no NUMBER ONE idiomas”.
Nesse sentido, o NUMBER ONE é completo porque abarca todas as habilidades linguísticas
como: reading, writing, speaking, listening e a última descrita como joy, ou seja, a alegria no
aprendizado. Todavia, uma vez que o aluno estuda neste curso de idiomas, ele se torna o
único, porque, além da felicidade que este curso proporciona aos adolescentes ou aos sujeitos
em jogo, também se apresenta como uma ferramenta necessária para os diversos setores da
vida.
Além disso, o NUMBER ONE prepara o aluno para os mais importantes exames de
proficiências britânicos e americanos, tais como: PET, FCE, CAE; e os americanos, como:
TOEIC e TOEFL. Além de se apresentar como uma alternativa para empresários que não
querem sair de suas empresas, já que o NUMBER ONE idiomas trabalha a favor do
empresário com a opção de chamado on demand – uma alternativa de inglês de negócios que
atende a necessidade e as exigências do mercado de trabalho. Portanto, o slogan do curso em
questão foi criado para os sujeitos na discursividade como a única saída para se tornar
completo, devido às suas inovações no ensino e, também, como o único curso de idiomas que
faz o uso dos meios tecnológicos – games em conjuntura com o lúdico.
Em outras palavras, o NUMBER ONE é a sua opção mais completa e essencial para
adquirir sucesso no cenário nacional e internacional. Consequentemente, ser NUMBER ONE
é sinônimo de praticidade na aprendizagem, ser objetivo e, por último, estar pronto para o
grande evento esportivo que estará acontecendo no Brasil daqui a quatro anos. Desse modo, o
curso apresenta-se como uma porta para o sucesso do adolescente, porque todos aqueles que
fazem NUMBER ONE adquirem as seguintes habilidades: compreensão geral, acuidade
gramatical, vocabulário relevante, eficiência na leitura, pronuncia e entonação, fluência oral e
75
ritmo, fluência global, nas quatro habilidades, capacidade de lidar com os fatores culturais e
sociais de comunicação, redação e apresentação profissional e, por fim, o sujeito torna-se
autoconfiante e seguro na comunicação. Desse modo, o NUMBER ONE idiomas transformase em sua única alternativa para fazer um upgrade profissional, ou seja, para sua ascensão
profissional.
Portanto, como apresentado, as peças publicitárias das escolas de idiomas fazem uso
da comodificação do ensino da língua inglesa. Esse tipo de educação não somente trabalha
com as paixões pelas quais estão submetidos os seus possíveis clientes como criam, nas
pessoas-alvo, necessidades e prometem realizá-las pessoal e profissionalmente. Dessa forma,
o aluno é contraditório, pois pensa escolher entre as opções de escolas, mas cede às
necessidades criadas pelo capitalismo.
Por essa razão, Fairclough (2002) afirma que a publicidade é um discurso
“estratégico” por excelência, em termos da distinção feita por Habermas entre a linguagem
(estratégica) e a “comunicativa”. Isto é, uma questão de construir “imagens” noutro sentido –
modos de apresentar publicamente as pessoas, as organizações e as mercadorias e a
construção das identidades ou personalidades para ela. Tendo isso em vista, o que os
publicitários conseguem das imagens visuais é sua capacidade de evocar sentido de estilo de
vida, capacidade que é geralmente mais poderosa e imediata que a língua. Em outras palavras,
pode-se criar instantaneamente um mundo que os consumidores potenciais, produtores e
produtos podem conjuntamente ocupar, antes que os leitores possam ler a linguagem da
publicidade. Semelhantemente a isso, veremos no tópico seguinte, o ator Rodrigo Santoro
reproduzindo o papel de fiador, consumidor e produtor.
Portanto, o domínio que a língua inglesa exerce sobre as outras, adjuntos ao poder
político, econômico, bélico e cultural, faz com que esta dite e transforme o mundo nas mais
vis percepções da vida do sujeito contemporâneo.
Tendo isso em vista, o meio usado por estas instituições é a publicidade. Esta é
descrita por Fairclough (2001) como discurso estratégico por e modos de apresentar
publicamente as pessoas, as organizações, as mercadorias e a construção de identidades ou
personalidades. As condições de mercado contemporâneas requerem que uma série de
empresas comercialize produtos bem semelhantes para estabelecer seus produtos como
diferentes. Sua identidade tende a ser construída. Ao mesmo tempo, as categorias de
potenciais compradores frequentemente não são explicitáveis em termos de grupos sociais
existentes independentemente do segmento social (classe, grupo regional e étnico, gênero,
entre outros): eles também tendem a ser construídos no discurso. E assim também ocorre com
76
os produtores e vendedores do produto, cuja imagem tende a ser feita para harmonizar com as
imagens do produto e de seus consumidores potenciais. Produtor (a), produto e consumidor
(a) são reunidos como coparticipantes em um estilo de vida, uma comunidade de consumo
(LEISS; KLINE; JHALLY, 1986) que a publicidade constrói e simula.
De acordo com os aportes de Fairclough (2001), o que os publicitários obtêm das
imagens visuais é sua capacidade de evocar na simulação de estilo de vida – capacidade que é
geralmente mais poderosa e imediata em relação à da língua. Se uma imagem visual funciona,
pode criar instantaneamente um mundo que consumidores potenciais, produtores e produtos
podem conjuntamente ocupar, antes que os leitores possam ler (ou os telespectadores ouvir) a
linguagem da publicidade. Desse modo, a maioria das fotografias, nesse prospecto da
universidade, apresenta alunos fazendo coisas (sentados em aula, utilizando equipamento,
conversando, entre outros), oferecendo aos alunos potenciais um ambiente físico e social no
qual eles podem encaixar-se segundo a imaginação.
Figura 6 – Alunos em potencial.
Fonte: <http://resumododia.com/idade-minima-para-fazer-intercambio-high-school.html>. Acesso em:
14 mar. 2012.
Segundo Fairclough (2001), a Figura 6 não representa as atividades dos alunos, mas
oferece um ambiente natural de uma beleza fora do comum para os alunos potenciais
ocuparem imaginariamente (passando um ano numa universidade americana como parte do
curso). A imagem visual projeta o “produto”, isto é, o esquema do curso e para o (a) aluno (a)
potencial como parte dele.
Alguns alunos, mesmo sem conhecer estas ideologias, são levados a estudar esta
língua, levando em consideração a imperatividade dos discursos dos seus pais, e as diferentes
formas ideológicas desta língua. Consequentemente, os discursos dos pais levam os
adolescentes, a um estado comodificação. Descrito por Fairclough (2001, p. 255), como “(...)
o processo pelo qual os domínios e as instituições sociais, cujo propósito não seja produzir
77
mercadorias no sentido econômico restrito de artigos para venda, vêm, não obstante, a ser
organizados e definidos em termos de produção, distribuição e consumo de mercadorias”.
No entanto, percebemos que a língua inglesa torna-se, no século XXI, a língua
internacional por excelência porque conta com a posição dominante na ciência, na tecnologia,
na medicina e como auxílio dos computadores para facilidade nas pesquisas, nas publicações
de livros e de periódicos, bem como na fabricação de programas computacionais; nas
negociações transnacionais, como comércio, expedição, aviação; nas diplomacias e
organizações internacionais; nas mídias de entretenimentos de massas como novas agências, e
jornalismo; nas culturas de jovens e esportes; e por fim, nos sistemas de educação. Além
disso, conta com a vantagem da língua inglesa se tornar a língua estrangeira mais aprendida,
tendo como benefício à estimativa de 115 milhões de aprendizes nos níveis escolares no início
de 1970.
Entretanto, vemos que a ideologia da língua inglesa tem sido um aporte para
ancoragem das propagandas publicitárias, nos cursos de idiomas, trazendo a língua inglesa
como a única alternativa para se obtiver sucesso na vida. Não obstante, como os fragmentos
dessa ideologia estampada em todos os setores da vida social, consequentemente, estes
discursos, levam os pais, a matricularem os seus filhos, como uma forma de garantir um
futuro promissor. Com base nestas ideologias da língua inglesa, muitos pais e responsáveis
acabam incentivando os filhos em consonância com o que Fairclough (2001, p. 68) denomina
ser a principal hipótese de Foucault (1972): a formação de modalidade enunciativa. Segundo
Foucault (1972), o sujeito social que produz um enunciado não é uma entidade que existe fora
e independentemente do discurso, mas é, ao contrário, uma função do próprio enunciado. Isto
é, os enunciados posicionam os sujeitos – aqueles que os produzem, mas também aqueles para
quem eles são dirigidos – de formas particulares; logo, “(...) descrever uma formulação como
enunciado não consiste em analisar a relação entre o autor e o que ele diz (ou quis dizer, ou
disse sem querer), mas em determinar a posição que pode e deve ser ocupado por qualquer
individuo para que ele seja o sujeito dela” (FOUCAULT, 1972, p. 95).
Para Fairclough (2001), essa visão da relação entre sujeito e enunciado é elaborada por
meio de uma caracterização de formação discursiva, constituída por configurações
particulares de modalidades enunciativas. Estas são tipos de atividades discursivas, como
descrição, formação de hipóteses, formulação de regulações, ensino, entre outros, cada uma
das quais tem associadas suas próprias posições do sujeito.
Segundo o autor supracitado, o discurso é determinado de fora: a posição
predominantemente tomada sobre a relação entre a prática discursiva e não discursiva sugere,
78
ao contrário, que a primeira tem primazia sobre a última. Segundo Foucault (1972 apud
FAIRCLOUGH, 2001, p. 68), refere-se primeiro à função do discurso num campo de práticas
não discursivas, tais como “a função exercida pelo discurso econômico na prática do
capitalismo emergente”; segundo, para as “regras e processos de apropriação” do discurso, no
sentido de que o “direito de falar” e a “habilidade para entender”, tanto quanto o direito de
recorrer ao “corpus de enunciados já formulados”, são desigualmente distribuídos entre
grupos sociais; e terceiro, para as posições passíveis de desejo em relação ao discurso: o
discurso pode de fato ser o lugar para uma representação ilusória, um elemento de
simbolização, uma forma do proibido, um instrumento de satisfação derivada.
4.2 Os discursos dos pais
O Gráfico 2 se refere aos dez pais entrevistados, sendo cinco do CNA e cinco da
Intercultura. Todos os pais foram submetidos às seguintes perguntas: Por que é importante
estudar a língua inglesa? Qual é a importância desta para os seus filhos?
No gráfico abaixo, podemos ver o domínio da língua inglesa sobre os pais
entrevistados. Verificamos que, nas entrevistas dos pais, todos foram favoráveis nas respostas
dadas sobre a importância desta língua. Segundo eles, o conhecimento dessa língua
promoveria uma ascensão social.
Gráfico 2 – Discursos dos pais
Fonte: dados da pesquisa.
79
Muitos foram os pontos marcantes encontrados nas entrevistas. Alguns responsáveis
vibravam quando eram entrevistados, devido à relevância que estes consideram em relação ao
domínio desta língua na vida de seus filhos.
Em uma das entrevistas, pudemos enxergar a felicidade de um responsável e professor
de uma escola de inglês quanto à importância de saber que o seu filho mais novo admira a
língua estrangeira. Além disso, o seu filho mais velho, que antes detestava estudar o idioma,
hoje, devido ao status e à habilidade que dota em sala aula em relação aos outros, sente-se
feliz e motivado a estudar cada vez mais. Tal fato, para o Responsável 6, significa dever
cumprido e, segundo este, ele fará o que puder para que os filhos alcancem o sucesso no
mercado de trabalho. Abaixo segue o relato deste pai quando perguntado sobre a importância
da língua inglesa na vida de seus filhos:
R6: bem... é... pra mim fica muito difícil... é... analisar essa pergunta sem me ver
respondendo como não somente profissional... mas como pai também... ah... é... a
minha resposta vê os dois lados... profissionalmente falando... porque eu trabalho
com o inglês... e porque eu vejo que no mercado quem não tem inglês... tem muitas
dificuldades em se projetar no mercado... e... como pai... eu já fico prevendo nem...
como que vai ser o futuro dos meus filhos... se eles não se dedicarem a aprenderem a
língua inglesa... que a gente vê por aí... é que... alguns anos atrás... quando alguém ia
pro mercado de trabalho... normalmente se perguntava se essa pessoa dominava uma
língua estrangeira... e normalmente quando diziam uma língua estrangeira é o
inglês... hoje em dia isso mudou um pouco... quando alguém vai pro mercado de
trabalho e perguntam se essa pessoa tem uma língua estrangeira... é uma língua
estrangeira além do inglês... o inglês já é... parte-se do pressuposto de que todo
mundo domina geral... é que a gente tem percebido por aí... e... aí... cara... como pai...
fico muito preocupado de como os meus filhos vão estar de aqui alguns anos
chegando no mercado de trabalho... hein... eu quero melhor pra eles... eu quero que
eles tenham todas as facilidades possíveis... pra se projetarem no mercado de
trabalho... e... então... desde pequenininho tento oferecer a eles não só uma boa
educação em nível de escola... mas também uma boa educação dentro da
aprendizagem da língua inglesa...
Já em relação à imposição de seus filhos estudarem a língua, a maioria respondeu que
os jovens, num primeiro momento, se recusam a cursar, mas, com o decorrer do tempo,
acabaram se envolvendo no processo de ensino-aprendizagem do idioma e reconhecendo seu
valor:
R6: engraçado... o mais velho de catorze anos... é... quando ele começou a estudar
inglês tinha aquela curiosidade... e aí o tempo foi passando... e... ele foi tipo...
enjoando... se cansando daquilo... eu digo isso... porque o vi várias vezes... ele
comentando pra gente da família que ele fazia o inglês porque o pai gosta (risos)...
mas agora que ele está no nível avançado de inglês... já vai fazer 15 anos de aqui a
pouco... ele já vê a importância do inglês... não só quando... eu estou com algum
colega de trabalho... que estrangeiro... ele tenta se comunicar para essas pessoas em
80
inglês... e... também o uso da... internet aonde ele acaba tendo utilizar alguma coisa
de inglês lá... eu vejo que ele se sente importante... diferente da maioria dos colegas
nem... então... ele já... apesar de não estar apaixonado pela sala de aula... ele curti
saber que... ele tem um conhecimento maior do que a maioria dos colegas...
Para alguns pais, o projeto ELT apresenta-se como uma eminente e promissora
alternativa de emprego para os seus filhos. Consequentemente, embora estes não concordem
com os discursos autoritários de seus pais, vimos que acabam reproduzindo os discursos como
resultado de valores e de veneração de seus pais.
Existe, também, uma grande semelhança entre os discursos dos pais. Tanto para o
Responsável 6 quanto para o Responsável 5, o desejo é o mesmo. Ambos estão preocupados
com o futuro e com a forma como é dirigido o mundo pelas ideologias da língua inglesa.
Entretanto, ao contrário do Responsável 5, para o Responsável 6 (ver grifos no trecho acima),
o domínio da língua inglesa se tornou uma obrigação, pois esta língua já faz parte do currículo
do sujeito contemporâneo e quando relata sobre uma língua estrangeira, na verdade, quer falar
sobre uma língua além da inglesa.
Outro ponto interessante no discurso do Responsável 6 é a relevância da internet.
Hoje, quase todos os adolescentes fazem uso desta ferramenta, não só na comunicação, mas
também na aprendizagem de outras habilidades, tais como melhorar a pronúncia por meio da
música, se comunicar com pessoas de outras culturas, entre outros. Por fim, o desejo de seus
pequenos filhos e os seus já concretizados, o fazem sonhar e continuar instruindo os seus
filhos.
Existe, também, uma grande semelhança entre os discursos dos pais. Tanto para o
Responsável 6 quanto para o Responsável 5, o desejo é o mesmo. Ambos estão preocupados
com o futuro e com a forma como é dirigido o mundo pelas ideologias da língua inglesa.
R5: olha... hoje em dia... o mercado de trabalho grita por isso... então se... o jovem
nem... vamos colocar assim... não tiver apto... ele realmente vai perder... vai ficando
pra atrás... é muito importante...
R5: eu acho importante porque dessa forma ele vai trabalhar o futuro dele nem... eu
vou estar...
Já para o Responsável 5, além de aspectos abordados acima pelo Responsável 6,
ressalta muito a questão referente ao mercado de trabalho. Ele acredita que as pessoas devem
se preparar para que não sejam deixadas “para trás” pelo mercado, que “grita”, ditando as
regras e mudanças neste novo cenário mundial:
81
Conforme vimos no discurso deste responsável, a língua inglesa se apresenta como
recurso ambivalente, porque ao mesmo tempo em que se constitui um meio de prover o futuro
para aqueles (as) alunos (as) que a aprendem, ela também se apresenta como uma alternativa
para ausência dos pais, uma vez que, enquanto estes estiverem trabalhando, esta ocupará o seu
tempo, evitando a ociosidade dos filhos.
Notamos também que, a partir das entrevistas, que muitos destes pais levam os seus
filhos para estudar a língua inglesa, não propriamente para realizarem desejos de seus filhos,
mas sim para realizar seus próprios desejos e sonhos que não foram concretizados quando
eram mais novos. Hoje, estes pais, devido a diversos motivos, não têm tempo para tornar
esses sonhos reais. Com isso, veem nos (as) filhos (as) a “obrigação” de concretizarem seus
anseios.
Abaixo, iremos apresentar alguns dos depoimentos de responsáveis. Ambos foram
questionados sobre a importância da língua inglesa como forma de constituir o futuro. Como
podemos verificar no trecho a seguir:
R7: penso que... hoje o fator preponderante a questão do mercado do trabalho... e...
também essa questão de possiblidade de se comunicarem com pessoas do mundo
inteiro... através da internet com a língua inglesa... assim meu filho estuda música e
consegue conversar com várias pessoas sobre assuntos de músicas em inglês...
também ele já comprou várias obras em inglês que nem se quer existem publicadas em
português... também a minha filha conhece pessoas em várias partes do mundo
através da prática da língua inglesa...
Outro aspecto abordado, nas entrevistas aos pais, foi se exigiam que seus filhos
estudassem inglês. Muitos disseram que em princípio os jovens se opunham, mas depois
acabavam gostando e se interessando pela língua. Vejamos:
R7: bom... no começo quando eles eram novos doze e treze anos... Lucas o menino foi
mais espontâneo... Bárbara foi a mais pressionada... mas acabou se apaixonando pelo
estudo... então hoje eles estudam sem pressão e por conta própria...
Outra perspectiva apresentada nas entrevistas foi à preocupação com o aspecto da
comunicação intercultural promovida pelo estudo da língua. Além disso, os responsáveis
ressaltaram a importância de seus filhos obterem o domínio da língua inglesa na atualidade,
pois os levaria a adquirir outros conhecimentos de áreas diversas. Como podemos verificar
abaixo:
R4: Como educador... acho que realmente que... além de construir e constituir uma
questão cultural... porque a gente quando estuda a língua... a gente estuda a cultura
do país onde esta é falada... a gente traz essas pessoas para sala de aula e se torna
uma ferramenta importante... para se ensinar a esse idioma... se não o ensino fica
82
muito fora da realidade aqui... a forma que o nativo fala... e... termos culturas... abre
o leque do horizonte do conhecimento do aluno...
R4: Vou dar dois exemplos aqui... eu tive um exemplo de um nosso aluno... se eu não
me engano... acho que ele fez curso de medicina... preciso durante a faculdade
dele... depois não preciso mais... mas... quando ele começou a fazer sua
especialização... apareceu aqui dizendo: “não sei nada... não estou me lembrando
de nada... estou precisando começar de novo para poder participar de algumas
coisas fora do Brasil...” então... percebe que ele teve um início... com pensamento
assim... eu vou precisar para a minha faculdade. usou por alguns minutos e depois...
por algum motivo pessoal... esqueceu... e... quando surgiu a necessidade
novamente... ele procura o idioma... esse é o perfil do aluno que aprender pela a
necessidade... e... só usa a língua... quando a necessidade se apresenta... mas...
também existe aquele aluno que se realiza com o aprendizado... para esse perfil de
aluno... aquilo para ele é uma vantagem pessoal... independente da aplicação que
ele vai dar na vida pessoal dele... então... ele aprende o inglês e vai continuando se
dedicando neste...
Já para o Responsável 3, além de questões relativas ao mercado de trabalho, em suma,
ela também destaca a importação de seu filho ter o domínio da língua inglesa no currículo.
Ter o domínio da língua inglesa representa ter um domínio cultural. Ou seja, a língua inglesa
no currículo se torna uma espécie de fiador para que um jovem adulto consiga um ótimo
emprego:
R3: o estudo da língua inglesa é muito importante... hoje em dia o mercado d trabalho
está exigindo... mas uma língua... e... além disso... acho que é importante é cultura
também... eh... é diferente da nossa língua... então acho que é necessário hoje em
dia... porque assim... o estudo da língua inglesa... eles terão muito mais oportunidades
na vida, tanto profissional quanto cultural nem... pra que isso possa preencher mais o
seu currículo...
Perguntado sobre a importância de seus filhos estudarem a língua inglesa, a
Responsável 2 fala que, apesar dos seus filhos no momento ainda não saberem do real valor
de se ter o domínio da língua inglesa, esta assevera que, como mãe e responsável, tem o
conhecimento dessa importância, como pode ser visto no trecho abaixo:
R2: porque... eu sei que a criança não entende muito num início... mas a gente que é
mãe sabe que no futuro... a vida vai exigir muito dele... e... ele inclusive já gosta muito
e tem muita facilidade e isso pro futuro dele vai ser bem melhor e com certeza novos
horizontes serão abertos...
Por último, temos o relato da Responsável 1. Segundo esta, da mesma forma que ela se
comunica com as pessoas, vê em seus filhos sua alteridade. Uma vez que esses adquirem o
domínio da língua inglesa, futuramente terão grandes oportunidades de morarem no exterior.
Consequentemente, aumentaria o nível de seu conhecimento, não apenas em relação à língua
83
inglesa, mas também no que se refere a outras questões da vida cotidiana, como a capacidade
de relacionar-se consigo – inteligência intrapessoal – e a capacidade de relacionar-se com o
seu próximo – capacidade interpessoal. Vejamos:
R1: bem... eu penso que eles são pessoas nem... pessoinhas muito comunicativas...
assim como eu... então... vão ter acesso... a maior conhecimento através do idioma e...
também podem ter oportunidade de estudar fora... conhecendo novas pessoais
aumentando o nível de conhecimento deles em gerais...
A relação entre os discursos dos pais é tão intrínseca que é difícil distinguir quem está
falando e qual é sua classe, vimos o mesmo nos discursos de alunos. Nesse sentido, podemos
afirmar, segundo os pressupostos de Fairclough (2001), sobre a tecnologização discursiva.
Para o autor, as sociedades modernas são caracterizadas por uma tendência relacionada ao
controle sobre partes cada vez maiores da vida das pessoas, assim como a comodificação que
sugere um aspecto discursivo de colonização pela economia. Segundo Foucault (1972), essa
tendência geral cataloga as “tecnologias” e as “técnicas” que estão a serviço do “biopoder”
moderno. Este termo refere-se a essa forma moderna de poder, que emergiu no século XVII.
Para Fairclough (2001), o termo “(...) trouxe a vida e seus mecanismos para o terreno dos
cálculos explícitos e tomou o conhecimento/poder um agente de transformação da vida
humana” (1981, p. 143).
Para melhor entendimento do discurso pronunciado por este responsável é necessário
que atentemos ao que Fairclough (2001) argumenta sobre a prática social. Segundo o autor,
tal prática tem várias orientações, tais como: econômica, política, cultural, ideológica. Assim,
o discurso dos pais pode estar implicado em todas elas, sem que se possa reduzir qualquer
uma dessas orientações do discurso. Por exemplo, há várias maneiras pelas quais se pode
dizer que o discurso é um modo de prática econômica: o discurso figura em proporções
variáveis como um constituinte da prática econômica de natureza basicamente não discursiva,
como a construção de pontes ou a produção de máquinas de lavar roupa; há formas de práticas
econômicas que são de natureza basicamente discursiva, como a bolsa de valores, o
jornalismo ou a produção de novelas para a televisão. Além disso, a ordem sociolinguística de
uma sociedade pode ser estruturada pelo menos parcialmente como um mercado onde os
textos são produzidos, distribuídos e consumidos como “mercadorias”, em “indústrias
culturais”, segundo Bourdieu (1982).
Segundo já argumentamos acima, alguns filhos estudam porque gostam e outros
porque os seus pais querem. Assim, embora estejam contrários à opinião de seus pais, acabam
84
acatando os seus discursos imperiosos. Por conseguinte, alguns acabam gostando e outros
aprendem forçadamente.
No próximo tópico, analisaremos em especial os discursos dos alunos/filhos.
4.3 O discurso dos filhos
Nos discursos dos pais, verificamos que todos foram favoráveis na resposta dada sobre
a importância da língua inglesa, sendo categóricos em relação a este assunto.
Já nas entrevistas com os seus respectivos filhos, houve algumas divergências (Gráfico
3). Mas, apesar de alguns sejam contrários ao aprendizado desta língua, cedem aos discursos
imperiosos de seus pais, que consideram que o conhecimento dessa língua promoveria uma
ascensão social na vida destes.
Gráfico 3 – Figura dos filhos.
Fonte: dados da pesquisa.
Dos 10 alunos entrevistados, somente um demonstrou ser contrário ao aprendizado
desta língua, representando 1% dos entrevistados. Os outros 9% são totalmente favoráveis ao
aprendizado desta língua. Como verificamos nos trechos abaixo:
A7: oh... eu já estudei espanhol... hebraico e agora estou estudando inglês...
Já em relação à imposição de seus pais estudarem a língua inglesa, a maioria
respondeu que, num primeiro momento, se recusam a cursar; com o decorrer do tempo,
acabam se envolvendo no processo de ensino-aprendizagem do idioma e reconhecendo seu
valor:
85
A7: Sou obrigado... minha mãe quer que eu faça o inglês porque ela acha que é
importante pra mim...
Notamos que, o aluno posiciona o enunciado em relação ao discurso produzido por sua
mãe e esta, por sua vez, reproduz o discurso dos enunciados midiáticos. A mídia, em suma, se
investe das diversas ideologias da língua inglesa estampada em todos os setores da vida
cotidiana.
Outro fator raro deste aluno para com os outros é de que este representa um por cento
dos alunos entrevistados. Mas mesmo este, contrário quanto ao desejo de aprender a língua, é
obrigado a estudá-la. Assim, percebe-se que ele estuda por causa dos discursos imperiosos de
sua mãe. Outro fator formidável no nosso contato com este aluno foi à forma pela qual este
nos perguntou se haveria algum problema caso nos afirmasse que não gosta da língua inglesa.
Respondemos que não e que queríamos que ele fosse sincero em suas respostas.
É importante ressaltarmos que este tipo de motivação não é muito significativo. Este
aluno, na verdade, aprende as regras que não geram significados, conhecimentos estes que lhe
conduziram ao futuro brilhante.
Outro item que nos marcou foi o fato deste sempre estudar línguas. Parece-nos que a
vida deste adolescente, penas compreende-se de estudos de línguas. Segundo nossa
experiência quanto ao ensino de línguas estrangeiras, nos países não nativos, a média de
tempo para uma assimilação constitutiva é, no mínimo, de quatro anos. Isto também
dependerá da facilidade e do interesse do (a) aluno (a). Mesmo com a criatividade dos cursos
e o advento das novas tecnologias da comunicação, não se pode deixar de levar em conta que
nem todos os alunos têm as mesmas facilidades quanto à aprendizagem destas línguas.
Portanto, uma das questões intrigantes na vida deste aluno é a forma pela qual os
valores são constituídos. Os jovens, muitas vezes, são contrários aos desejos de seus pais, mas
precisam correspondê-los. Os pais, por sua vez, também são expostos à manipulação dos
discursos publicitários. Percebemos, aqui, a ambivalência discursiva na vida destes sujeitos:
da mídia para os pais e dos pais para com os seus respectivos filhos. Percebemos, assim, o
jogo das ideias do discurso. Mas mesmo assim, é necessário ressaltar que os discursos dos
pais são comodificados. Ou seja, uma nova forma de expressar a democratização. Fairclough
(2001) caracteriza as tendências de democratização e comodificação em linhas gerais como
propriedades da ordem de discurso societária contemporânea. Segundo o autor, seu impacto
sobre as diversas ordens de discurso mais locais e institucionais é variável: algumas ordens de
discurso estão se tornando fortemente democratizadas e/ou comodificadas, outras nem tanto.
86
Não obstante, o que está chamando a atenção e a onipresença das tendências é a facilidade
com que elas aparentam transcender as fronteiras entre as instituições e os domínios. A
importância atual dessas tendências parece corresponder não apenas aos modelos de
autoimagem que elas implicitamente projetam, mas também a um estado ou condição
particular da ordem de discurso societária na sociedade contemporânea, que torna possível a
projeção de novos modelos.
Notamos que em todas as falas dos (as) alunos (as), os pais são os principais aliados.
Por isso, mesmo que os alunos não gostem tanto, acabam reproduzindo o discurso de seus
pais. Assim, como resultado desse outro dominante, temos a mímica. Trata-se de uma forma
de discurso colonial que é proferido interdicta: um discurso na encruzilhada entre o que é
conhecido e permitido e o que, embora conhecido, deva ser mantido oculto, um discurso
preferido nas entrelinhas e, como tal, tanto contra as regras quanto dentro delas. Segundo
Bhabha (2007), o desejo da mímica, que é o traço marcante de Freud, não é simplesmente o
desejo do outro que repetidamente resiste à significação. Esse desejo está explícito nos
discursos dos alunos do CNA e da Intercultura.
Logo abaixo temos vários trechos tirados dos discursos de alunos dos dois centros de
idiomas escolhidos. Para esta aluna, um fator marcante é a ressalva que faz em relação ao
mercado de trabalho e a preocupação com o futuro. Perguntada por que estudar a língua
inglesa e se ela estuda por que gosta ou para fazer a vontade dos pais, ela nos respondeu:
A6: porque eu acho essencial para a formação... acho que o mercado de trabalho está
cada vez mais... é... essencial e... é necessário que você fale fluentemente a língua.
Já em relação à imposição de seus pais quanto ao estudo da língua inglesa, ela nos
respondeu o seguinte:
A6: porque gosto e... os meus pais apoiam... eles acham muito importante...
Para a Aluna 6, a língua inglesa é essencial para a formação, para o mercado de
trabalho e é necessário se ter fluência deste idioma na sociedade contemporânea.
De igual modo, encontramos nos discursos desta aluna a preocupação com o futuro
como sendo um dos seus grandes enfoques. Podemos considerar que tal posicionamento é
oriundo dos enunciados dos discursos de seus responsáveis. Logo, estes discursos são
reproduzidos pelos seus filhos como resultado da presença da alteridade na vida destes.
A4: eu estudo inglês porque eu acho que é importante pro futuro... nem porque
praticamente toda a profissão naturalmente... se... já é necessário nem... um
87
conhecimento... da... de idioma fluente... tem que falar fluente... eu acho importante
apesar de não... gostar... me esforçar tanto... eu acho importante...
Já em relação à imposição de seus pais quanto ao estudo da língua inglesa, esta nos
respondeu o seguinte:
A4: meus pais acham muito importante... acham que é essencial...
E: você estuda por que quer... ou por que os seus pais querem?
A4: eu gosto e eles também dão aquela força...
Para o Aluno 1, é importante estudar inglês porque se trata do idioma mais falado no
mundo, abre portas para o mercado de trabalho e, além disso, os Estados Unidos são a maior
potência do mundo.
A1: porque o inglês é a língua mais falada... e... também porque ela abre portas para
os empregos...
Questionada sobre o motivo pelo qual ela prefere estudar a língua inglesa e não a
espanhola, nos respondeu:
A1: por que... sei lá... ah... porque os Estados Unidos é uma potência mundial e... por
falar o inglês... isso ajuda também e em qualquer lugar que você for no... no mundo
você vai falar o inglês... porque tem gente que fala o inglês...
Abaixo separamos alguns trechos das entrevistas com alunos do CNA, bem como as
de alunos da Intercultura, referindo-se ao domínio desta língua no Brasil e no mundo.
Analisando o discurso do Aluno 2, percebemos que, mesmo já tendo estudado várias
línguas, ele vê a inglesa como a mais importante na atualidade. Além disso, considera ser esta
a língua preferida entre todas que ele já tinha estudado. Vejamos:
A2: já estudei francês e agora estudo o inglês e já estudei o espanhol...
E: das três... qual é a sua língua predileta?
A2: o inglês...
Quando questionado a respeito de sua preferência, ele nos respondeu:
A2: por que... eu acho que é uma língua mundial e mais bonita do que as outras
línguas que já estudei... por que... como eu disse é uma língua universal nem... então
todo o mundo fala que é bom pro emprego e pro futuro nem...
Já em relação à imposição de seus pais quanto ao estudo do idioma, ele disse:
A2: meus pais me apoiam a estudar o inglês e as outras línguas também...
O Aluno 3 também se preocupou com a questão de oportunidade que a língua inglesa
oferece, uma vez que se tenha o domínio dela. Mas, uma das grandes ênfases no discurso
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deste aluno é quando ele menciona o advérbio de tempo “hoje”, mostrando que na vida
moderna, se a pessoa não tiver o domínio da língua inglesa, ficará “esquecido”. Ainda
segundo ele, o inglês possibilita ao sujeito muito mais oportunidade de trabalho.
A3: eu acho importante... porque... poder falar outra língua hoje em dia... é muito
importante... é essencial para te formar um emprego... a língua inglesa abre mais
portas...
Já para o Aluno 5, existem dois fatores importantes a considerarmos. Primeiro, ele
estuda porque gosta e, segundo, os desejos dos pais estão em jogo. Quando perguntado sobre
a importância da língua inglesa, este respondeu que, para o mercado de trabalho, é necessário
ter o domínio de outros idiomas além da sua língua nativa.
No que diz respeito à imposição de seus pais quanto ao estudo da língua inglesa, este
nos respondeu o seguinte:
A5: eu gosto... mas os meus pais me apoiam... quer dizer... porque eles não sabem
falar inglês e querem que eu fale...
Questionado o motivo do estudo da língua inglesa e não da língua espanhola, este nos
respondeu:
A5: para o mercado de trabalho além do inglês outras línguas para o mercado de
trabalho é necessário ter outros idiomas...
Em relação aos alunos entrevistados, a maioria disse estudar a língua inglesa porque
gosta e, também, porque se trata da nova língua das comunicações internacionais, dos
intercâmbios culturais. Outros afirmaram que a língua inglesa está presente em todos os
lugares; com ela você pode aprender músicas e acessar a internet, se comunicar com pessoas
de outras culturas, entre outras possibilidades.
Notamos que, nos discursos dos alunos, os pais se apresentam como fortes fiadores da
língua inglesa. Consequentemente, eles contribuem para a constituição da alteridade na vida
destes adolescentes.
Quando analisamos os diálogos, percebemos que na fala dos alunos há uma
aproximação entre os vocábulos utilizados pelos grupos entrevistados no que se refere à
ênfase da língua inglesa em suas vidas. Além disso, o uso de vocábulos como “fluentemente”,
“essencial”, “necessário”, “importante” “futuro” “conhecimento” e “mercado de trabalho”
mostram visões oriundas da pedagogia de ensino da língua inglesa no mundo. Notamos que a
necessidade de formação de um futuro coopera para a grande demanda desta língua no Brasil
e no mundo.
89
Não obstante, vemos e percebemos a mesma relação dentro dos discursos dos pais,
tendo como única diferença entre os seus discursos os gêneros, as diferentes formações e as
classes. Por isso, notamos que os discursos de alguns pais são mais ricos em variedade
linguística em relação a outros. Entretanto, o objetivo é semelhante: todos eles estão
preocupados com o futuro de seus filhos neste novo horizonte que se desenha.
Buscamos ressaltar a importância de um ensinamento constitutivo, onde os alunos
aprendam para a vida e também sejam capazes de discernir o real significado das conjecturas
ideológicas que movem o mundo nas mais vis diásporas da modernidade líquida em que os
jovens se encontram. Desse modo, de uma forma ou outra, queremos frisar a importância de
se ensinar uma educação significativa.
É importante destacar que todos os alunos e responsáveis entrevistados fazem parte de
uma camada elitista de diferentes oportunidades e também de qualificações diferenciadas. Por
isso, não devemos compará-los os alunos de escolas públicas quanto à forma de aprendizagem
e motivação. Muito embora estes tenham os mesmos desejos, a motivação é totalmente
diferente dos alunos de escolas privadas. Além do mais, os alunos de escolas privadas têm a
oportunidade de terem centro de línguas e professores profissionalmente instruídos para
ensinar os alunos a se comunicarem e não somente ensino de gramática.
90
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Acreditamos que fatores econômicos, culturais e políticos fundamentam os discursos
dos pais, que, por sua vez, incentivam os filhos a estudarem a língua inglesa. Esta prática
demonstra e caracteriza a hegemonia deste idioma em diversas culturas, assim como em
Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, Brasil, cidade onde se realizou esta pesquisa. Além
disso, consideramos, também, que esta hegemonia possui um papel marcante na constituição
da identidade do adolescente nos cursos onde estudam a língua, não somente na cidade onde
desenvolvemos este estudo, mas em todo o país.
Analisando a ideologia da língua inglesa presente em propagandas publicitárias de
onze cursos de idiomas, a saber: SKILL, CNA, CULTURA INGLESA, FISK, RAPOSO,
PBF, CCAA, INTERCULTURA, IBEU, UPTIME e NUMBER ONE, percebemos que elas
têm como função assegurar e engodar a atenção dos pais na conquista do desejado sucesso
para os seus filhos.
Não obstante, dos dez alunos entrevistados, somente um demonstrou ser contrário ao
aprendizado desta língua, representando 1% dos entrevistados. Os outros 9% são totalmente
favoráveis ao aprendizado desta língua.
Já em relação à imposição de seus pais estudarem a língua inglesa, a maioria
respondeu que, num primeiro momento, se recusam a cursar; com o decorrer do tempo,
acabam se envolvendo no processo de ensino-aprendizagem do idioma e reconhecendo seu
valor.
Desse modo, os alunos posicionam os enunciados aos discursos produzidos por seus
pais e estas, por sua vez, reproduzem os discursos dos enunciados mediáticos. Já a mídia, em
suma, se engoda das diversas ideologias da língua inglesa estampadas em todos os setores da
vida cotidiana.
Consequentemente, pudemos enxergar a felicidade de um pai e professor de uma
escola de inglês quanto à importância de saber que o seu filho mais novo admira a língua
estrangeira. Além disso, o seu filho mais velho, que antes detestava estudar o idioma, hoje,
devido ao status e à habilidade que dota em sala aula em relação aos outros, sente-se feliz e
motivado a estudar cada vez mais. Tal fato, para o Responsável 6, significa dever comprido e,
segundo este, ele fará o que puder para que os filhos alcancem o sucesso no mercado de
trabalho.
Na verdade, para alguns pais, o projeto ELT apresenta-se como uma eminente e
promissora alternativa de emprego para os seus filhos. Consequentemente, embora estes não
91
concordem com os discursos autoritários de seus pais, vimos que acabam reproduzindo os
discursos de seus pais, como resultado de valores e de veneração a estes.
Outros aspectos marcantes nestas alocuções são as semelhanças entre os discursos dos
filhos e dos pais. Apesar das entrevistas serem feitas em diferentes momentos, lugares,
gêneros e ocupações, a sincronia era veementemente igual a um simulacro. Isso é resultado do
que Fairclough (2001) denomina de comodificação, ou seja, o processo pelo qual os domínios
e as instituições sociais; cujo propósito não é produzir mercadorias no sentido econômico
restrito de artigos para venda, mas sim organizados e definidos em termos de produção,
distribuição e consumo de mercadorias.
Assim, a comodificação tem sido o meio de ancoragem para a reprodução da
alteridade. Isto é, a mímica do colonialismo. Segundo os aportes teóricos de Bhabha (2007), o
discurso do colonialista inglês pós-iluminismo pode ser comparado a uma língua que é
bipartida, e não falsa. Dessa forma, se o colonialismo toma o poder em nome da história,
exerce repetidamente sua autoridade por meio das figuras da farsa. Consequentemente, a
mímica aparece como uma das estratégias mais ardilosas e eficazes do poder e do saber
colonial. Said (1993) descreve esse processo como a tensão entre a visão panóptica sincrônica
da dominação: a demanda pela identidade; além da contraposição da diacronia da história: a
mudança, a diferença, a mímica, representando um acordo irônico. Assim, alguns alunos,
mesmo capazes de remoldar os discursos de seus pais, acabam aceitando esses discursos,
tornando-se reprodutores destes.
É importante ressaltarmos que muitos desses adolescentes, mesmo não tendo muito
conhecimento a respeito do mercado de trabalho, reproduzem os discursos como se estes
tivessem experiência há muitos anos. Em suma, é necessário observarmos a relação de um
discurso com o outro. Isto é, a historicidade e a interdiscursividade. Esses dois paradigmas
têm a capacidade de reproduzir os discursos por intermédio do que Maingueneau (2002)
denomina de conhecimentos enciclopédicos.
As significações/construções da realidade contribuem para a legitimação da língua
inglesa como a nova língua internacional e global, bem como suas conjecturas e engodos,
presentes nas diversas publicidades de cursos de idiomas. Estes, apresentados nas mais
diversificadas formas, permitem e cooperam para a grande demanda da língua inglesa como
língua global e de grande status.
Segundo Fairclough (2001), o discurso como prática política estabelece, mantém e
transforma as relações de poder e as entidades coletivas (classes, blocos, comunidades,
grupos) entre as quais existem relações de poder. O discurso como prática ideológica
92
constitui, naturaliza, mantém e transforma os significados do mundo de posições diversas nas
relações de poder. Como implicam essas palavras, a prática política e a ideológica não são
independentes uma da outra, pois a ideologia é o significado gerado em relações como
dimensão do exercício do poder e da luta pelo poder. De tal modo, a prática política é a
categoria superior.
Além do mais, asseveramos que fatores políticos, sociais, culturais e econômicos
formam uma resistente rede de discurso que se estabelecem nos setores da vida pública e
privada. Esse “discurso”, que referenda cotidianamente suas práticas, privilegia o inglês como
língua de vasto reconhecimento utilitário e social. Assim, as práticas cotidianas de discurso
publicitário (os folhetos das propagandas dos cursos de inglês comercial), aliadas ao discurso
dos pais e da escola, referendam esse status de que goza a língua inglesa.
Buscamos, com esta pesquisa, de alguma forma, arguir e contribuir para desconstruir a
ideia do sujeito ingênuo, entender a concepção do sujeito sob influência da ideologia;
perceber a relação entre o discurso e o interdiscurso; conceber a participação do sujeito na
interpretação da mensagem; e averiguar a construção da alteridade do locutor por meio da
enunciação.
Notamos que a ideologia está longe de ser meramente uma “ideia” descorporificada;
mas ocorre em formas materiais. Além disso, a ideologia funciona pela constituição
(“interpelação”) das pessoas em sujeitos sociais e sua fixação em “posição” de sujeito,
enquanto ao mesmo tempo lhes dá a ilusão de serem agentes livres.
Não obstante, sumarizamos que é na relação entre historicidade e interdiscursividade
que se transcreve e se configura a difusão ideológica da língua inglesa. Assim, a língua
transforma os homens e do mesmo jeito os homens a transformam. A língua, portanto, é o
meio pelo qual as ideologias são constituídas. De tal modo, estas se transformam em
aparelhos inevitáveis, que cooperam para a encenação dos homens.
A língua pode ser considerada como um fator importante para a manutenção e
compreensão das relações de poder, no sentido de rastrear a história de um idioma, de seus
povos, suas crenças e valores e, consequentemente, esta contribui para a difusão das
diferentes formas ideológicas. A linguagem permite ao homem pensar e agir, assim, não há
ação sem pensamento, nem pensamento sem linguagem.
93
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WEEDWOOD, B. História Concisa da Linguística. Tradução: Marcos Bagno. São Paulo:
Parábola Editorial, 2002.
WILLIAMS, R. Base and superstructure in Marxist cultural theory. Oxford University press,
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WONG, I. Native-speaker English for the Third World today? In: Pride (Ed.). p. 259-286,
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WYLD, H. C. 1920: A history of modern colloquial English. Oxford: Blackwell.
WYLD, H. C. 1934: The Best English: a claim for the superiority of Received Standard
English. Proceedings of the Society for Pure English 4.
97
APÊNDICES
98
APÊNDICE A – Entrevistas com os alunos
ALUNO 1 – Manuel
Idade: 16 anos
Sexo: feminino
Escolaridade: 2º ano do Ensino Médio
Local da entrevista: CNA (Campos dos Goytacazes/RJ).
Entrevistador: Oi... tudo bem?
Aluno 1: Tudo bem...
E: Qual é o seu nome?
A1: Manuel
E: Qual é a sua idade?
A1: 16
E: Você estuda algum idioma?
A1: Estudo inglês...
E: Por que o inglês?
A1: Porque eu gosto de inglês
E: Por que você acha importante estudar a língua inglesa?
A1: Porque o inglês é a língua mais falada... e... também porque ela abre portas para os
empregos...
E: Por que especificamente o inglês e não o espanhol?
A1: Por que... sei lá... ah... porque os Estados Unidos é uma potência mundial e... por falar o
inglês... isso ajuda também e em qualquer lugar que você for no... no mundo você vai falar o
inglês... porque tem gente que fala o inglês...
E: Que coisas te marcam na cultura americana?
A1: A música... os filmes...
E: Seus pais te obrigam a estudar o idioma?
A1: Não... eles me motivam... porque será bom para o meu futuro...
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ALUNO 2 – Priscila
Idade: 14 anos
Sexo: feminino
Escolaridade: Ensino fundamental II - 9ºano
Local da entrevista: CNA (Campos dos Goytacazes/RJ).
Entrevistador: Oi... tudo bem?
Aluno 2: Tudo bem...
E: Qual é o seu nome?
A2: Priscila...
E: Em que série?
A2: Oitavo ano...
E: Você estuda algum idioma?
A2: Já estudei francês e agora estudo o inglês e já estudei o espanhol...
E: Das três qual é a sua língua predileta?
A2: O inglês...
E: Por quê?
A2: Porque... eu acho que é uma língua mundial e mais bonita do que as outras línguas que já
estudei...
E: Por que você acha importante estudar a língua inglesa?
A2: Porque... como eu disse é uma língua universal nem... então todo o mundo fala que é bom
pro emprego e pro futuro nem...
E: O que os seus pais acham disso?
A2: Meus pais me apoiam a estudar o inglês e as outras línguas também...
ALUNO 3 – Guilherme
Idade: 17 anos
Sexo: Masculino
Escolaridade: 3º ano do Ensino Médio
Local da entrevista: CNA (Campos dos Goytacazes/RJ).
Entrevistador: Oi... tudo bem?
Aluno 3: Tudo bem...
E: Qual é o seu nome?
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A3: Guilherme...
E: Qual é a sua idade?
A3: Tenho 17 anos e estou no primeiro anos do ensino médio...
E: Você estuda algum idioma?
A3: Sim... estudo o inglês...
E: Faz quanto tempo em que você estuda a língua inglesa?
A3: Aproximadamente uns quatro anos...
E: Você gosta ou é obrigado pelos seus pais?
A3: Eu gosto e estou bem... e me dou bem...
E: Porque você acha importante o estudo da língua inglesa?
A3: Eu acho importante... porque... poder falar outra língua hoje em dia... é muito
importante... é essencial para te formar um emprego... a língua inglesa abre mais portas...
E: O que os seus pais dizem sobre isso?
A3: Eles me apoiam nem... a partida foi deles... a partir daí... eu comecei a gostar e eu não
quis mais parar...
ALUNO 4 – Luísa
Idade: 14 anos
Sexo: feminino
Escolaridade: Ensino fundamental II - 9ºano
Local da entrevista: Intercultura (Campos dos Goytacazes/RJ).
Entrevistador: Tudo bem?
Aluno 4: Tudo bem...
E: Qual é o seu nome?
A4: Meu nome é... Luísa...
E: qual é a sua idade?
A4: Catorze anos... estudo aqui no Intercultura...
E: Você estuda inglês ou outro idioma?
A4: Estudo inglês... só inglês...
E: Por que você estuda o inglês?
A4: Eu estudo inglês porque eu acho que é importante pro futuro... nem porque praticamente
toda a profissão naturalmente... se já é necessário nem... um conhecimento... da... de idioma
101
fluente... tem que falar fluente... eu acho importante apesar de não... gostar... me esforçar
tanto... eu acho importante...
E: O que os seus pais dizem sobre isto?
A4: Meus pais acham muito importante... acham que é essencial...
E: Você estuda por que quer... ou por que os seus pais querem?
A4: Eu gosto e eles também dão aquela força...
ALUNO 5 – Tomás
Idade: 13 anos
Sexo: masculino
Escolaridade: Ensino fundamental II - 8º ano
Local da entrevista: CNA (Campos dos Goytacazes/RJ).
Entrevistador: Qual é o seu nome?
Aluno 5: Tomás
E: Qual é a sua idade?
A5: 13 anos...
E: Você estuda inglês por que você gosta... ou por que os seus pais querem?
A5: Eu gosto... mas os meus pais me apoiam... quer dizer... porque eles não sabem falar inglês
e querem que eu fale...
E: Qual é a importância da língua inglesa pra você?
A5: Para o mercado de trabalho além do inglês outras línguas para o mercado de trabalho é
necessário ter outros idiomas...
ALUNO 6 – Letícia
Idade: 14 anos
Sexo: feminino
Escolaridade: Ensino fundamental II - 9º ano
Local da entrevista: Intercultura (Campos dos Goytacazes/RJ).
Entrevistador: Olá... Tudo bem?
Aluno 6: Tudo bem...
E: Qual é o seu nome e sua idade?
A6: Meu nome é ah... Letícia... tenho catorze anos.
102
E: Por que você estudar o inglês?
A6: Porque eu acho essencial para a formação... acho que o mercado de trabalho está cada vez
mais... é... essencial e... é necessário que você fale fluentemente a língua...
E: Você faz por que os seus pais querem ou por que você gosta?
A6: Porque gosto e... os meus pais apoiam... eles acham muito importante...
ALUNO 7 – Robson
Idade: 14 anos
Sexo: masculino
Escolaridade: Ensino fundamental II - 9ºano
Local da entrevista: Intercultura (Campos dos Goytacazes/RJ).
Entrevistador: Qual é o seu nome?
Aluno 7: Meu nome é Robson...
E: Qual é a sua idade?
A7: Catorze anos...
E: Você estuda algum idioma?
A7: Oh... eu já estudei espanhol... hebraico e agora estou estudando inglês...
E: Por que você estuda o inglês?
A7: Sou obrigado... minha mãe quer que eu faça o inglês porque ela acha que é importante pra
mim...
103
APÊNDICE B – Entrevistas com os responsáveis
RESPONSÁVEL 1 – Eva
Idade: 39
Sexo: feminino
Escolaridade: Ensino Superior completo
Local da entrevista: CNA (Campos dos Goytacazes/RJ).
Entrevistador: Boa tarde Eva... tudo bem?
Responsável 1: Tudo bem... sou coordenadora do CNA e... trabalho aqui acerca de vinte
anos...
E: Qual é a importância da língua inglesa pra você?
R1: A língua inglesa pra mim... é muito importante... porque ela... abre portas... janelas para o
mundo... nem... é uma forma pra gente aumentar o conhecimento... estar relacionando com
pessoais diferentes e culturas diferentes... então é muito importante...
E: Você tem filhos?
R1: Sim...
E: Quantos?
R1: Tenho dois...
E: Eles estudam inglês?
R1: Bem... o mais velho sim... que tem onze anos nem e... a pequena tem seis e... já vai iniciar
no próximo ano...
E: Qual é a importância da língua inglesa para os seus filhos?
R1: Bem... eu penso que eles são pessoas nem... pessoinhas muito comunicativas... assim
como eu... então... vão ter acesso... a maior conhecimento através do idioma e... também
podem ter oportunidade de estudar fora... conhecendo novas pessoais aumentando o nível de
conhecimento deles em gerais...
RESPONSÁVEL 2 – Eliza
Idade: 43
Sexo: feminino
Escolaridade: Ensino Médio completo
Local da entrevista: CNA (Campos dos Goytacazes/RJ).
104
Entrevistador: Olá... tudo bem?
Responsável 2: Tudo bem...
E: Qual é o seu nome?
R2: Eliza...
E: Qual é a tua profissão?
R2: Sou mãe... e professora de inglês há muitos anos...
E: Quanto tempo você trabalha com a língua inglesa?
R2: Há... dezoito anos...
E: Porque você acha importante estudar a língua inglesa?
R2: É importante porque hoje em dia qualquer entrevista de emprego é necessário ter domínio
de uma língua... e a língua inglesa é aqui lidera nem...
E: Então sem a língua inglesa a pessoa não consegue passar na entrevista?
R2: Não... passar... passa... mas tem mais portas abertas em relação aquém tem um domínio
da língua estrangeira... o inglês...
E: Quantos filhos você tem?
R2: Tenho um...
E: Por que você acha que importa que ele estude a língua inglesa?
R2: Porque... eu sei que a criança não entende muito num início... mas a gente que é mãe sabe
que no futuro... a vida vai exigir muito dele... e... ele inclusive já gosta muito e tem muita
facilidade e isso pro futuro dele vai ser bem melhor e com certeza novos horizontes serão
abertos...
RESPONSÁVEL 3 – Cíntia
Idade: 41
Sexo: feminino
Escolaridade: Ensino Médio completo
Local da entrevista: CNA (Campos dos Goytacazes/RJ).
Entrevistador: Boa tarde...
Responsável 3: Boa tarde...
E: Você é mãe?
R3: Sim...
E: Você tem quantos filhos?
R3: Duas filhas...
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E: Qual é a idade delas?
R3: Quatorze e dez...
E: Qual é a sua profissão?
R3: Sou professora de matemática...
E: Onde estudam as suas filhas?
R3: No CNA...
E: Elas estudam inglês ou espanhol?
R3: Inglês...
E: Por que você acha importante que elas estudam a língua inglesa?
R3: O estudo da língua inglesa é muito importante... hoje em dia o mercado d trabalho está
exigindo... mas uma língua... e... além disso... acho que é importante é cultura também... eh...
é diferente da nossa língua... então acho que é necessário hoje em dia... porque assim... o
estudo da língua inglesa... eles terão muito mais oportunidades na vida... tanto profissional
quanto cultural nem... pra que isso possa preencher mais o seu currículo...
E: E você fala inglês ou não?
R3: Não falo...
E: Tem vontade de aprendê-la?
R3: Já tive e hoje não...
RESPONSÁVEL 4 – Márcio
Idade: 45
Sexo: masculino
Escolaridade: Ensino Médio completo
Local da entrevista: CNA (Campos dos Goytacazes/RJ).
Entrevistador: Boa tarde...
Responsável 4: Boa tarde...
E: Qual é o seu nome?
R4: Márcio...
E: Qual é a sua função?
R4: Professor de inglês...
E: Quanto tempo você trabalha com a língua inglesa?
R4: Vinte e quatro anos...
E: Qual é a importância do estudo da língua inglesa?
106
R4: Como educador?
E: Sim...
R4: Como educador... acho que realmente que... além de construir e constituir uma questão
cultural... porque a gente quando estuda a língua... a gente estuda a cultura do país onde esta é
falada... a gente traz essas pessoas para sala de aula e se torna uma ferramenta importante...
para se ensinar a esse idioma... se não o ensino fica muito fora da realidade aqui... a forma que
o nativo fala... e... termos culturas... abre o leque do horizonte do conhecimento do aluno...
E: Esse é o seu ponto de vista como educador... e como pai... qual é a sua visão sobre o ensino
de língua inglesa?
R4: Eu não sou pai... (risos)... mas vou tentar me colocar assim... no lugar dos pais... percebo
que... os pais procuram muito qualificar os filhos com o conhecimento de um idioma...
especificamente o inglês... porque eles dizem sempre que é necessário...
E: Por exemplo... eu vejo sempre aqui na propaganda de você que é... Inglês e o espanhol...
por que percebo que a procura do espanhol é inferior do que do inglês?
R4: O espanhol no Brasil... ele teve uma tendência mercadológica... voltada mais para as
comunidades fronteiriças e nós não fazemos parte dessa fronteiriça... Porque América do sul...
principalmente o Mercosul... foi feito uma propaganda meio que... faltando informação para
as pessoas quando... o governo começou a falar que o espanhol seria importante... seria
importante para quem? e... aí... falta a questão dos pais do próprio aluno que procura entender
assim... eu vou precisa do espanhol pra que não minha vida... é como se eu no meu curso
profissional... de repente eu decidisse estudar física espacial... porque alguém falou que vai
ser importante... e aí? eu vou fazer o quê? Realmente... com a formação do Mercosul... houve
essa necessidade... mas para quem? não para nós... já o inglês não... o inglês já é bem a nossa
área...
E: Dentro da vossa área... o inglês está relacionado a fatores políticos e econômicos?
R4: Sim... mas vejo mais a questão cultural que é a minha realidade...
E: Dentro de sua experiência como educador... qual é a visão dos alunos sobre o estudo da
língua inglesa?
R4: Bem... eu tive a oportunidade ao longo desse tempo de receber feedback dos alunos
depois que eles se formaram... então... no... durante o decorrer do curso... eles não tem muita
noção... mas... às vezes... a gente tem a oportunidade de conversar com os pais... e alguns
alunos nos dão o retorno... voltam pra gente assim... oito anos depois... cinco anos depois... aí
vem e dizem... estou trabalhando com o inglês... o inglês tem sido muito bom pra mim...
consegui uma vaga assim... assim... por causa do inglês... esses alunos colocaram em prática o
107
que aprenderam... ou o investimento que eles fizeram no conhecimento da língua. alguns
alunos... não trabalham com a língua e acabam esquecendo o que aprenderam...
E: Mas por que alguns botam em prática e outros não... isto... por que estudam... por que são
obrigados ou fazem por livre espontânea vontade?
R4: Vou dar dois exemplos aqui... eu tive um exemplo de um nosso aluno... se eu não me
engano... acho que ele fez curso de medicina... preciso durante a faculdade dele... depois não
preciso mais... mas... quando ele começou a fazer sua especialização... apareceu aqui dizendo:
“não sei nada... não estou me lembrando de nada... estou precisando começar de novo para
poder participar de algumas coisas fora do Brasil...” então... percebe que ele teve um início...
com pensamento assim... eu vou precisar para a minha faculdade. usou por alguns minutos e
depois... por algum motivo pessoal... esqueceu... e... quando surgiu a necessidade
novamente... ele procura o idioma... esse é o perfil do aluno que aprender pela a necessidade...
e... só usa a língua... quando a necessidade se apresenta... mas... também existe aquele aluno
que se realiza com o aprendizado... para esse perfil de aluno... aquilo para ele é uma vantagem
pessoal... independente da aplicação que ele vai dar na vida pessoal dele... então... ele aprende
o inglês e vai continuando se dedicando neste...
RESPONSÁVEL 5 – Maria
Idade: 45
Sexo: feminino
Escolaridade: Ensino Superior completo
Local da entrevista: Intercultura (Campos dos Goytacazes).
Entrevistador: Olá... boa tarde... tudo bem?
Responsável 5: Tudo bem...
E: Qual é o seu nome?
R5: Ah... Maria
E: Qual é a sua função?
R5: Mãe e professora...
E: Qual é a importância de estudar o inglês?
R5: Olha... hoje em dia... o mercado de trabalho grita por isso... então se... o jovem nem...
vamos colocar assim... não tiver apto... ele realmente vai perder... vai ficando pra atrás... é
muito importante...
E: Por que você acha importante que o seu filho estude inglês?
108
R5: Eu acho importante porque dessa forma ele vai trabalhar o futuro dele nem... eu vou star
ajudando em relação ao futuro dele... não só isso acha que pro o jovem uma ocupação é
importante... nem... nessa fase em que eles vivem... é importante o jovem ter uma ocupação...
na verdade é juntar o útil e o agradável... a língua inglesa é que vai trabalhar o futuro dele vai
aprendendo outra língua e vai ocupando o tempo dele...
E: O seu filho estuda porque ele quer ou porque você quer?
R5: Às vezes ele diz que é porque eu quero... mas eu sinto que ele quer também... se interessa
pelas músicas porque ele toca guitarra... então ele tá sempre buscando outras palavras novas
de uma música quando ele não sabe... então na verdade... no fundo no fundo ele gosta...
RESPONSÁVEL 6 – Fernando
Idade: 48
Sexo: masculino
Escolaridade: Ensino Superior completo
Local da entrevista: Intercultura (Campos dos Goytacazes).
Entrevistador: Boa tarde...
Responsável 6: Boa tarde...
E: Qual é o seu nome?
R6: Meu nome é Fernando... eu sou o diretor administrativo do Intercultura... tenho dois
filhos... um de catorze anos e um garoto de sete...
E: Qual é a sua visão sobre a importância do estudo da língua inglesa?
R6: Bem... é... pra mim fica muito difícil... é... analisar essa pergunta sem me ver respondendo
como não somente profissional... mas como pai também... ah... é... a minha resposta vê os
dois lados... profissionalmente falando... porque eu trabalho com o inglês... e porque eu vejo
que no mercado quem não tem inglês... tem muitas dificuldades em se projetar no mercado...
e... como pai... eu já fico prevendo nem... como que vai ser o futuro dos meus filhos... se eles
não se dedicarem a aprenderem a língua inglesa... que a gente vê por aí... é que... alguns anos
atrás... quando alguém ia pro mercado de trabalho... normalmente se perguntava se essa
pessoa dominava uma língua estrangeira... e normalmente quando diziam uma língua
estrangeira é o inglês... hoje em dia isso mudou um pouco... quando alguém vai pro mercado
de trabalho e perguntam se essa pessoa tem uma língua estrangeira... é uma língua estrangeira
além do inglês... o inglês já é... parte-se do pressuposto de que todo mundo domina geral... é
que a gente tem percebido por aí... e... aí... cara... como pai... fico muito preocupado de como
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os meus filhos vão estar de aqui alguns anos chegando no mercado de trabalho... hein... eu
quero melhor pra eles... eu quero que eles tenham todas as facilidades possíveis... pra se
projetarem no mercado de trabalho... e... então... desde pequenininho tento oferecer a eles não
só uma boa educação em nível de escola... mas também uma boa educação dentro da
aprendizagem da língua inglesa...
E: Eles gostam de estudar inglês... ou você os motiva a estudar o inglês?
R6: Engraçado... o mais velho de catorze anos... é... quando ele começou a estudar inglês
tinha aquela curiosidade... e aí o tempo foi passando... e... ele foi tipo... enjoando... se
cansando daquilo... eu digo isso... porque o vi várias vezes... ele comentando pra gente da
família que ele fazia o inglês porque o pai gosta (risos)... mas agora que ele está no nível
avançado de inglês... já vai fazer 15 anos de aqui a pouco... ele já vê a importância do inglês...
não só quando... eu estou com algum colega de trabalho... que estrangeiro... ele tenta se
comunicar para essas pessoas em inglês... e... também o uso da... internet aonde ele acaba
tendo utilizar alguma coisa de inglês lá... eu vejo que ele se sente importante... diferente da
maioria dos colegas nem... então... ele já... apesar de não estar apaixonado pela sala de aula...
ele curti saber que... ele tem um conhecimento maior do que a maioria dos colegas... agora... o
mais novo só tem sete anos e vai fazer oito anos... esse vibra... esse adora... e... eu acho que
tem muito haver de modelo nem... eu lembro da primeira vez... que ele me viu falando
inglês... a gente... estava no restaurante em búzios... e aí tinha um americano do lado... e eu
comecei a puxar conversa com esse americano lógico em inglês... e de repente... os olhinhos
dele brilharam e vira pra mãe e diz... mãe... meu pai fala muito inglês (risos)... ele não época
podia ter uns quatro anos... mãe meu pai fala muito inglês... então... ele começou se mostrar
curioso... interessado e um dia falar inglês como o pai... nem... então desde pequenininho com
quatro anos ele já começou a estudar inglês. e... ele curti... pra minha surpresa... ele absorve
bastante... tem um conhecimento muito bom pra uma criança de sete anos...
RESPONSÁVEL 7 – Luiz
Idade: 46
Sexo: masculino
Escolaridade: Ensino superior completo
Local da entrevista: Intercultura (Campos dos Goytacazes).
Entrevistador: Bom dia...
Responsável 7: Bom dia...
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E: Tudo bem...
R7: Tudo bem...
E: Qual é o seu nome?
R7: Luiz
E: Qual é a sua profissão?
R7: Advogado... estudante de línguas... estuda inglês... francês e espanhol... no momento...
estou me dedicando ao estudo da língua inglesa...
E: Por quê?
R7: Bom... porque... a língua inglesa tem uma vasta gama de publicações em assuntos do meu
interesse que eu não encontro na língua portuguesa... além do que... essa universalidade da
língua inglesa... mesmo indo à Itália... França... ah... Espanha... os hotéis e o turismo está bem
mais preparada a receber turistas de língua inglesa... por isso acho muito importante estudar
inglês... atualmente...
E: Qual é a sua visão quanto ao estudo das línguas para os seus filhos?
R7: Penso que... hoje o fator preponderante a questão do mercado do trabalho... e... também
essa questão de possiblidade de se comunicarem com pessoas do mundo inteiro... através da
internet com a língua inglesa... assim meu filho estuda música e consegue conversar com
várias pessoas sobre assuntos de músicas em inglês... também ele já comprou várias obras em
inglês que não se quer existem publicadas em português... também a minha filha conhece
pessoas em várias partes do mundo através da prática da língua inglesa...
E: Então... eles estudam por que gostam ou são obrigados?
R7: Bom... no começo quando eles eram novos doze e treze anos... Lucas o menino foi mais
espontâneo... Bárbara foi a mais pressionada... mas acabou se apaixonando pelo estudo...
então hoje eles estudam sem pressão e por conta própria...
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ANEXOS
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A HEGEMONIA DA LÍNGUA INGLESA NA CONSTITUIÇÃO