A LÍNGUA INGLESA AO LONGO DA HISTÓRIA E SUA ASCENSÃO AO STATUS DE LINGUA GLOBAL1 FIGUEIREDO, Allan Fontoura2; MARZARI, Gabriela Quatrin3 1 Trabalho de Pesquisa _UNIFRA Curso de Letras do Centro Universitário Franciscano (UNIFRA), Santa Maria, RS, Brasil 3 Curso de Letras do Centro Universitário Franciscano (UNIFRA), Santa Maria, RS, Brasil E-mail: [email protected] ; [email protected] ; 2 RESUMO Neste trabalho, temos como objetivo investigar a trajetória da língua inglesa ao longo da história e sua ascensão ao status de língua franca. Para tanto, foram retomados estudos de diferentes autores que abordam essa temática, tais como: Crystal (1997), Rajagopalan (2005), Le Breton (2005), entre outros. Com base nesses estudos, foi feita uma discussão sobre a influência desse status de lingua franca do inglês no contexto da sala de aula e formação de professores desse idioma. Acreditamos que, estudos dessa natureza sejam muito importantes para nós, (futuros) professores de línguas estrangeiras, para que possamos nos conscientizar sobre os papéis que a língua inglesa vem desempenhando na atualidade, a fim de trazer, na medida do possível, diferentes propostas de ensino para a sala de aula, mostrando aos alunos que a aprendizagem da língua inglesa proporciona acesso a diversas culturas, oportunidades e, consequentemente, a diferentes mundos. Palavras-chave: Língua inglesa. Lingua Franca. Formação de professores. INTRODUÇÃO O crescimento da língua inglesa, em dimensão mundial, tem se tornado importante tema de estudo. Sua formação possui grande semelhança com as línguas latinas, inclusive a língua portuguesa. Por diversos fatores, a História elegeu o inglês como a lingua franca das nações. Sua ascensão deve-se, principalmente, à Batalha de Hastings, de 1066, ao grande poder econômico da Inglaterra no século XIX, alavancado pela Revolução Industrial, à soberania político-militar dos EUA, após a II Guerra Mundial, além da grande influência econômica e cultural que esses países exerceram em relação ao mundo atual em que vivemos – um mundo globalizado que elegeu a língua inglesa como uma língua capaz de estabelecer comunicação em praticamente todos os campos conhecidos pela humanidade. Na atualidade, é inquestionável a importância e a necessidade de comunicação entre os povos linguisticamente distintos. Com o advento da globalização, bem como com os avanços tecnológicos, tornamo-nos cidadãos sedentos de informação. Para isso, usufruímos do inglês, hoje considerado a mais importante ferramenta de interação tanto acadêmica como profissional para “saciarmos” nossa necessidade. Mais do que uma questão política e social, o inglês é um facilitador e formador de pessoas bilíngues aptas a contribuírem para o crescimento e sucesso da sociedade global. No que diz respeito a isso, Crystal (1997) afirma que é interessante acrescentar que o número de pessoas que usam o inglês como segunda língua é, atualmente, maior que o número de falantes nativos, pois aprender esse idioma significa ampliar as oportunidades sociais do cidadão. Não estamos nos referindo ao inglês usado nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Austrália, entre outros, estamos falando do inglês que serve como meio de comunicação entre os povos, ou seja, a língua que percorre o mundo contemporâneo, isto é, o fenômeno linguístico chamado “World English” (língua mundial). Assim, o atual status do inglês como lingua franca e sua pluralidade são questões abordadas neste artigo. Para tanto, primeiramente abordaremos questões históricas – a fim de situar o nosso leitor, bem como evidenciar as razões históricas que possibilitaram o patamar atual da língua inglesa, a expansão da língua inglesa – abordando informações sobre algumas funções que o inglês vem desempenhando ao longo dos últimos séculos, a influência dos tópicos anteriores, mais especificamente sobre o termo língua franca, em relação à formação do professor de língua inglesa e, por último, serão abordadas as temáticas relacionadas à globalização e aos worlds englishes – com o intuito de reafirmar o papel da língua inglesa como a língua do mundo atual em que estamos inseridos. REFERENCIAL TEÓRICO Sem precedentes anteriores, a língua inglesa vem conquistando, cada vez mais, espaço nas diversas áreas do conhecimento. Além disso, não há registros históricos de outra língua que tenha atingido o patamar do inglês, sendo que há mais falantes não nativos do que nativos do idioma. Ao longo dos séculos, a língua inglesa vem assumindo diferentes papéis, desde língua falada pela sociedade inglesa menos favorecida do século XIX até língua global (LE BRETON, 2005) ou lingua franca por excelência (RAJAGOPALAN, 2005) no século XXI. Alguns acontecimentos históricos foram decisivos para o “crescimento” da língua inglesa. A Batalha de Hastings, de 1066, por exemplo, foi um dos eventos de cunho histórico-político mais relevantes para a constituição do reino da Inglaterra – nação-mãe da língua inglesa. Para Block (2006), essa batalha não apenas representou uma grande reorganização política, mas também alterou os rumos da língua inglesa, uma vez que foi a última invasão “linguística”, nesse caso de origem normanda, que a Inglaterra presenciou. Além de ter sido um importante evento político-histórico, a Batalha de Hastings introduz um período que é chamado de Middle English – período marcado pela presença e influência da língua francesa no inglês. Baugh (1957) afirma que houve uma verdadeira “imposição cultural” do francês em relação ao inglês, uma vez que a cultura franconormanda foi praticamente introduzida “da noite para o dia” à nação anglo-saxônica. A cultura franco-normanda, durante quase três séculos ininterruptos, foi o padrão utilizado e aceito pelos governantes da Inglaterra. Isso resultou, sobretudo, em um considerável número de contribuições lexicais dentro do vocabulário de língua inglesa. Esse novo vocabulário foi sendo incorporado, aos poucos, com o surgimento de novos conceitos políticos, administrativos e sociais, que não tinham equivalência no inglês. Em determinados casos, porém, já existiam vocábulos de origem germânica, os quais, ou acabaram sendo extinto pelo não uso, ou passaram a conviver com os equivalentes de origem francesa, em um primeiro momento como sinônimo e, com o tempo, adquirindo conotações diferentes, como por exemplo: answer (origem anglo-saxã) e respond (origem francesa). Entretanto, ao longo dos séculos, as disputas ocorridas entre os normandos das ilhas britânicas e os do continente geraram um sentimento essencialmente nacionalista. Já nas últimas décadas do século XV, é possível observar que o inglês, como língua em franca expansão, estava, cada dia mais, presente na vida dos cidadãos ingleses. Até mesmo na modalidade escrita, como idioma oficial para a redação de documentos, a língua inglesa já havia substituído o francês e o latim. Contudo, é preciso destacar que a língua inglesa, no período pós-batalha, estava sendo utilizada somente pelos camponeses, pois a língua oficial, tanto para a escrita quanto para a fala, adotada pelo governo, continuava sendo o francês. No entanto, esse quadro foi sendo gradativamente modificado e, como consequência, a língua inglesa foi instituída como a língua do povo da Inglaterra e, sobre pressão dessa população, foi oficializada pelos seus governantes. Como consequência, surgia nesse mesmo período na Inglaterra, uma literatura nacional, tendo William Shakespeare como ícone literário. A EXPANSÃO DA LÍNGUA INGLESA E SUAS CONSEQUÊNCIAS Por meio dessas informações político-históricas, é possível perceber como a língua inglesa, mesmo tendo sido “negada” em um primeiro momento pelos governantes normandos, se sobressaiu até chegar ao posto de língua oficial da nação britânica. Essa ascensão, desde já, demonstra a supremacia que futuramente a língua viria a desempenhar. Essa supremacia linguística se deve a inúmeros fatores, alguns já mencionados. Contudo, para Le Breton (2005, p. 14-15), o fato de o inglês ocupar uma posição de destaque em relação aos demais idiomas deve-se a algumas características que mencionam desde aspectos etimológicos até questões políticas. De modo semelhante à maioria das línguas européias modernas, talvez até mais que as outras, o inglês é uma língua compósita, que reúne contribuições celtas, latinas, francesas, germânicas, para falar exclusivamente das principais [...] A língua inglesa, que era uma língua nacional nos séculos XVI e XVII, tornou-se língua imperial nos séculos XVIII e XIX e, por fim, língua mundial durante a segunda metade do século XIX. O estudioso, além de citar as principais contribuições, em termos linguísticos, para a constituição da língua inglesa, refere-se ainda, mesmo que de forma implícita, à versatilidade dessa língua, que, em poucos séculos, desempenhou diferentes papéis– partindo de uma língua com representatividade local até chegar a ser a língua “de todos”. De modo geral, questões históricas de uma língua são negligenciadas, ou mesmo esquecidas, evidenciando as questões políticas. No caso da língua inglesa, isso não é uma exceção, pois é de conhecimento geral que a língua inglesa é “a língua das nações imperialistas”, porém não são todos que sabem a razão da supremacia dessa língua perante as demais. Seria de muito bom grado que as diferentes culturas “dominadas” pelo inglês soubessem que, devido a questões etimológicas, a língua inglesa é uma língua compósita, o que de certa forma facilita o seu aprendizado, visto que ela apresenta traços de várias famílias linguísticas, tornando-a, então, uma língua natural capaz de atender a demanda de um mundo que precisa estabelecer comunicação para atingir outros fins maiores, tais como fins diplomáticos e comerciais. Nesse mesmo sentido, Crystal (1997, p. 360) acrescenta: […] English has already become a world language, by virtue of the political and economic progress made by English-speaking nations in the past 200 years, […] English is used as official or semi-official language in over 60 countries, and has a prominent place in a further 20. It is either dominant or well established in all six continents1. Por meio dessa citação, pode-se ainda acrescentar que a língua inglesa é a língua que domina praticamente todas as áreas do conhecimento, pois, além de ser a língua dos livros, dos esportes, da diplomacia é também a língua da música, da ciência e da robótica, isso para enumerar apenas algumas das principais áreas e situações nas quais o inglês é determinante para o entendimento entre os indivíduos participantes desses contextos. Sabemos, no entanto, que, ao longo da História dessa língua, ocorreram vários processos, como as chamadas “invasões linguísticas”, que provocaram o aumento dessa diversidade. Nessa perspectiva, Crystal (2004, p. 04)2 enumera dois objetivos impossíveis que os linguistas do século XVIII tentaram alcançar: impedir que a língua continuasse a se alterar; e eliminar a variação linguística presente no uso da língua inglesa. Para o autor, essas tentativas falharam pelo fato de que a mudança é inerente não apenas a língua 1 A língua inglesa já se tornou uma língua mundial, em virtude do progresso político e econômico obtidos pelas nações falantes desse idioma nos últimos 200 anos, [...] O inglês é utilizado como língua oficial ou semi-oficial em mais de 60 países, e tem um lugar de destaque em outros 20. Da mesma forma, é dominante ou bem estabelecido em todos os seis continentes. (tradução nossa) 2 The eighteenth-century prescriptivists had two impossible aims: they wanted to stop the language changing, and they wanted to eliminate usage variation. In neither case were they successful. They could not have been, for it is in the nature of language to change and vary. And the evidence of their failure is all around us today, in the remarkable diversity which exists. It is moreover a diversity which is increasing, and in some unpredictable ways. inglesa, mas a todas as línguas. Crystal ainda enfatiza que hoje se tem as evidências desse fracasso: a extraordinária diversidade, que continua crescendo. Na atualidade, essa variedade linguística abre espaço para duas possibilidades de interpretação da realidade: por um lado, temos a ideia da expansão da língua inglesa como exercício de poder (econômico e ideológico) dos Estados Unidos e demais países que possuem o inglês como língua oficial; por outro lado, há quem acredite que a variedade da língua inglesa a torna “independente” dos países que a tem como língua oficial, na medida em que é utilizada pelos falantes das demais nações, os quais são em maior número. Ou seja, nós falantes ditos “não nativos” de língua inglesa, por sermos em maior número, podemos, por direito adquirido, tratá-la como nossa, o que desassocia a ideia que a língua inglesa é a línguas dos EUA ou da Inglaterra e países que foram colonizados por essas nações. Para Salles e Gimenez (2010, p.27), a língua inglesa “vem perdendo seu caráter de língua estrangeira para se tornar língua franca”. Isto se deve também ao fenômeno denominado “World Englishes”, que é caracterizado, justamente, por essa variedade dialética nos diferentes lugares em que a língua inglesa é falada. O ENSINO DE INGLÊS COMO LINGUA FRANCA NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES O ensino de língua inglesa ainda está muito ligado à concepção de inglês como língua estrangeira (English as a Foreign Language). Aceitar as mudanças nas normas e competências, de que o inglês como lingua franca necessita, é visto com certa resistência por parte dos modelos pedagógicos existentes, posto que essas mudanças requerem a valorização das variadas possibilidades de se falar inglês, ao invés da supervalorização de um inglês padrão, falado por nativos. O homem, como ser social, necessita interagir, seja de forma oral ou escrita, com seus semelhantes. Para que isso seja possível, é fundamental que haja uma ferramenta, ou seja, um idioma eleito que lhe assegure a conservação da identidade nacional de seu povo, respeitando suas crenças e tradições, mas que também lhe proporcione a comunicação com outras nações. Com a globalização, povos de diferentes culturas e idiomas passaram a pertencer a um todo. Dessa forma, as distâncias já não são relevantes, perderam a sua importância, pois o que está sendo apresentado no mundo atual em que vivemos é o fim das fronteiras, tanto culturais quanto físicas, uma vez que elas, num mundo globalizado, são formas simbólicas e sociais. “a distância é um produto social; sua extensão varia dependendo da velocidade com a qual pode ser vencida” (BAUMAN, 1999 p. 19). Este encurtamento das distâncias e o fim da geografia de fronteiras é uma consequência observada sobre a velocidade que informações e dos meios de comunicação nos atingem, bem como um desenfreado desenvolvimento de novas tecnologias que diminuem os espaços das diferenças. Isso assegura uma liberdade para se locomover, adaptar e agir à distância. Contudo, esse processo fez com que ocorresse uma “padronização cultural”, na qual todas as pessoas necessitam falar a mesma língua para se comunicar e assim pertencer ao grande grupo. No entanto, Kumaravadivelu ressalta que: [...] o processo de globalização resultou em maiores contatos entre as pessoas de culturas diferentes, levando a uma melhor consciência dos valores e visões de cada um e a uma decisão mais firme de preservar e proteger a própria herança lingüística e cultural. (KUMARAVADIVELU, 2006, p.135) Isso acontece, segundo o autor, porque há uma “americanização” associada ao uso do inglês como segunda língua, e a mídia é uma das grandes responsáveis por isso, uma vez que vê o ensino de inglês como uma mercadoria e, para vendê-la, não mede esforços em valorizá-la. Nesse sentido, Rajagopalan afirma que: Em matéria de ensino de língua estrangeira, tal concepção do nativo, marcada por um grau de veneração desmedida, só deu ampla vazão ideologia neocolonialista que sempre pautou o empreendimento. O que se viu foi uma verdadeira „apoteose do nativo‟. (RAJAGOPALAN, 2004, p.68) Durante muito tempo, a língua inglesa foi - e ainda é - tratada como língua internacional. Por isso, é vista como sendo padronizada (homogênea) e pertencente a certos países vinculados a ideia de colonizadores, como os Estados Unidos e a Inglaterra. Essa crença faz com que se acredite que, para aprender inglês, o aprendiz deve se comportar como o falante nativo do idioma. Sobre esse assunto, Moita Lopes (2008, p. p. 328-329) argumenta que a língua inglesa já não pode mais ser considerada patrimônio de um único país, já que já há mais falantes não nativos do que nativos de inglês, o que nos deixa “livre” desse embate sobre o nosso comportamento linguístico. Entretanto, é necessário que tenhamos em mente que o inglês deixa, então, de ser exclusividade do império (americano/britânico) e passa a ser patrimônio de todos os falantes, inclusivo nosso, tornando-se a língua das nações (World English). Para que o ensino de inglês como idioma padrão, elitizado seja desmistificado, é preciso concebê-lo como lingua franca. Para tanto, torna-se necessário rever alguns preconceitos sobre aprender/ensinar a língua inglesa. “Erros” típicos, tais como, por exemplo, o “s” da terceira pessoa, preposições redundantes, falhas nas tag questions, ligados a ideia de que há um inglês padrão e que é necessário corrigir tais erros para que haja uma boa comunicação em inglês, devem ser banidos da mente do educador, uma vez que eles não atrapalham o entendimento e sucesso da conversação. Segundo Pennycook (2001, p.76), o que se faz necessário enfatizar nesse momento não são as competências técnicas e linguísticas, que fazem com que os aprendizes tentem eliminar traços de sua língua/identidade, mas sim “[...] possibilitar que os alunos possam aprender e consequentemente se comunicar (geralmente depois de deixar a escola) com qualquer variedade nativa ou não nativa [...]”. Para que haja uma comunicação em nível global, é necessário que professores e alunos aprendam e aceitem a pluralidade da língua inglesa, suas similaridades e diferenças em relação ao inglês padrão. Sob essa perspectiva, a língua local, neste contexto, mesclase com a língua inglesa, e os educadores passam a perceber a mistura de variedades de inglês de forma positiva, quebrando o tabu de que a língua inglesa falada com sotaque local é inferior em termos de qualidade se comparado o sotaque de um professor que morou durante certo tempo nos EUA, por exemplo. Os professores, mais do que serem apenas ensinados a trabalhar com técnicas préformuladas, deverão ter a consciência de que aprender a falar uma língua estrangeira não significa ser o outro (o nativo), mas sim se comunicar com o outro. O objetivo principal, ao se ensinar uma língua estrangeira, é torná-la acessível ao nosso aluno, tornando-a fácil de aprender para que ele possa se comunicar através desse novo instrumento de comunicação, que passa a ser familiar, oportunizando ao aprendiz condições de questionar e interagir com o mundo e não com um país específico. As línguas evoluem com o passar do tempo. Algumas delas, devido ao não uso, se extinguem, outras se sobressaem. Tudo isso ocorre de formal natural e espontânea. Além disso, isso se faz necessário para que a comunicação acompanhe a “evolução” que o nosso mundo sofre e sofrendo. No caso do inglês, enquanto lingua franca, percebemos que é a língua atual que mais se adapta ao contexto global em que vivemos, pois permite que a identidade local seja preservada através da multiculturalidade desencadeada pela globalização. E, dessa maneira, a formação de professores deve estar voltada à valorização das várias identidades, atendendo a necessidades pessoais dos aprendizes, bem como a sua emancipação cultural, por meio da língua que têm como alvo de aprendizagem. A LÍNGUA INGLESA COMO MEIO DE ACESSO A OUTRAS LÍNGUAS E CULTURAS O fato de que a língua inglesa está se tornando cada vez mais uma língua mundial permite que esse idioma sirva de mediação para a comunicação interlingual e intercultural. No que diz respeito à comunicação, que aqui definimos como interlingual, pode-se afirmar que o inglês possui as características de uma língua-ponte, ou seja, uma língua intermediária, que permitirá a pessoas que não possuem a mesma língua materna, aprenderem um segundo idioma, tendo em comum a língua inglesa. Para que isso ocorra, porém, é necessária a observação de alguns aspectos, levando-se em conta que qualquer idioma não pode ser separado da cultura em que está inserido. De acordo com Crystal (2008, p. 01), a possibilidade de alcançar a compreensão da língua inglesa em diversas partes do mundo está mais ligada à questão sócio-políticocultural de cada região em que a língua está inserida do que à questão de forma certa ou errada de se utilizar a língua inglesa. Nesse sentido, as diferentes culturas anglófonas podem se sentir autônomas, uma vez que, se por exemplo um norte-americano visitasse a República Checa, certamente não entenderia algumas situações em função da forma de organização que esse povo possui e que não corresponde ao mesmo sistema de organização da cultura de seus visitantes. O mesmo poderia ocorrer se houvesse o movimento contrário, e habitantes desse lugar visitassem certa região dos Estados Unidos. Assim, pode-se falar que a diferença lingüística não consiste apenas na utilização de palavras que estão em dicionários, mas também em vocabulários locais específicos que vão surgindo na medida em que a comunidade os vai inventando e inserindo ao léxico já existente. A língua inglesa, assim como qualquer outro idioma, não é estática, pois quanto mais se expande, mais está sujeita a sofrer alterações devido às características que as culturas de diferentes regiões lhe vão imprimindo na medida em que fazem uso do inglês. Crystal (2008, p. 01) chama essa peculiaridade da língua inglesa de “Local Englishes”, sem opor, entretanto, esse conceito ao status de lingua franca, mas justamente para esclarecer que a língua inglesa não é mais “pertencente” a um país específico, ela passa a fazer parte de toda e qualquer cultura que faz uso desse idioma e que o modifica com seus modos de ver e de agir no mundo. De acordo com Crystal (2008, p. 01), felizmente, nos dias de hoje, existe a possibilidade de falar sobre inglês britânico, americano, australiano, sul-africano, indiano, e outros tantos “Englishes”. O linguista afirma também que já estão sendo compilados dicionários com léxicos distintos encontrados nessas regiões. O autor (2008, p. 03) conclui seu artigo dizendo que, de certa maneira, essas novas culturas que fazem uso da língua inglesa tomam esse idioma como sua propriedade. Crystal argumenta que o fato de a língua estar intimamente unida à cultura colabora com os diferentes povos anglófonos, uma vez que ninguém no mundo conhece sua variedade local de inglês3 tão bem quanto os próprios moradores daquele local. CONSIDERAÇÕES FINAIS 3 Homegrown variety of English Alguns acontecimentos históricos foram decisivos para o “crescimento” da língua inglesa, sendo esse “crescimento” podendo ser explicado tanto pelo viés estatístico, bem como pelo geopolítico. De forma natural, as populações humanas foram crescendo e, consequentemente, a língua que eles falavam também – tornando essa língua mais representativa e diplomática em âmbito internacional. Por isso, é de fundamental importância conhecer a história da língua inglesa, a fim de que entendamos o motivo do aprendizado da língua inglesa – a língua estrangeira mais ensinada no mundo. Da mesma forma, serão os processos político-culturais que justificarão o status atual dessa língua. Além disso, atentamos para a importância de se estudar os papéis que a Língua Inglesa desempenhou, e vem desempenhando, durante os últimos séculos. Isso se faz necessário uma vez que desempenharemos o papel de professores de língua inglesa, seremos mediadores do conhecimento que passaremos aos nossos alunos. Parte de nós, como pesquisadores, também, inserir o público leigo essas informações a fim de que o inglês seja visto como uma língua capaz de aproximar pessoas. Por fim, destacamos a importância de sabermos o processo evolutivo da língua inglesa, pois é impossível negar que vivemos em um mundo globalizado, no qual se anulam as fronteiras geográficas e culturais. A língua inglesa, como lingua franca, favorece a nossa inserção nesse novo contexto mundial. E, além disso, melhor do que qualquer outra língua natural supre todas, ou se não quase todas, as necessidades comunicativas desse novo contexto. REFERÊNCIAS BAUGH, Albert C. History of the English language. New York: Appleton-Century-Crofts, 1957. BAUMAN, Zygmunt. Globalização: As conseqüências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. BLOCK, R. Howard. A needle in the right hand of God: The Norman Conquest of 1066 and the Making and Meaning of the Bayeux Tapestry. New York: Random House, 2006. CRYSTAL, David. Local Englishes. Europa Vicina, 2008, 17, 3-5. Disponível em <http://www.davidcrystal.com/DC_articles/English123.pdf> acesso em 03/11/2011. ________David. 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