COMUNIDADES DE AVES DE SUB-BOSQUE NA REGIÃO LESTE DE MATO GROSSO DO SUL TESE DE DOUTORADO AUGUSTO JOÃO PIRATELLI UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA INSTITUTO DE BIOLOGIA RIO CLARO - SP AGOSTO, 1999 ii COMUNIDADES DE AVES DE SUB-BOSQUE NA REGIÃO LESTE DE MATO GROSSO DO SUL Tese apresentada ao Instituto de Biologia da Universidade Estadual Paulista, Campus de Rio Claro (SP), como parte dos quesitos para a obtenção do título de Doutor em Ciências Biológicas, área de concentração Zoologia. AUGUSTO JOÃO PIRATELLI Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - Departamento de Ciências Naturais/CEUL - Caixa Postal 210 - Três Lagoas -MS ORIENTADOR: PROF. DR. LUIZ OCTAVIO MARCONDES-MACHADO Universidade Estadual de Campinas - Depto. de Zoologia/IB - Caixa Postal 6109 Campinas - SP Rio Claro (SP), Agosto de 1999 iii Aos meus filhos por opção, Anna, Felipe e Mayra À minha companheira Fatima A meus pais Antonio e Marlene A meus irmãos Toninho e Telma Dedico iv Cuitelinho “Cheguei na beira do porto onde as ondas se ‘espaia’ As garças dão meia volta e ‘senta’ na beira da praia E o cuitelinho não gosta que o botão de rosa caia quando eu vim da minha terra despedi da ‘parentaia’ eu entrei no Mato Grosso dei em terras paraguaias Lá tinha revolução Enfrentei fortes ‘bataias’ a tua saudade corta como aço de ‘navaia’ o coração fica aflito bate uma outra ‘faia’ e os olhos se enchem d’água que até a vista se ‘atrapaia” (folclore popular) Assum preto “Tudo em volta é só beleza Céu de abril e mata em flor mas assum-preto cego dos olhos não vendo a luz ai, canta de dor Talvez por ignorância ou maldade das piores furaram os olhos do assum-preto prá ele assim, ai, cantar melhor assum-preto vive solto mas não pode voar mil vezes a sina de uma gaiola desde que o céu pudesse olhar assum-preto o meu cantar é tão triste quanto o teu também roubaram o meu amor que era a luz dos olhos meus” (Luiz Gonzaga) v AGRADECIMENTOS É extremamente difícil agradecer a todos que contribuíram de alguma forma para que este trabalho se tornasse possível, uma vez que ele envolveu muita gente. Gostaria entretanto de lembrar daquelas, pessoas e instituições, cuja ausência teria tornado sua realização muito mais difícil, senão impossível. A ordem aqui apresentada não implica em ordem de importância. Me perdoem aqueles que não entraram nesta lista!!! • Prof. Dr. Luiz Octavio Marcondes-Machado (UNICAMP), pelo modo com que permitiu que eu conduzisse este trabalho, transmitindo experiência e orientação segura, sobretudo nas horas mais críticas; oferecendo sugestões precisas e oportunas. Obrigado também pela amizade já antiga. • Prof. Dr. João Augusto A. M. Neto (UFV) e Prof.a. Eliane L. Jacques (UFMS) pela identificação do material botânico. • Profs. Drs. Edwin Willis, Ildemar Ferreira, João Semir, José C. Motta-Júnior, Luiz dos Anjos e Mauro Galetti, pela leitura crítica e criteriosa por ocasião da pré-banca. • Estagiárias, bolsistas e amigas: Elaine Cícero, Fernanda Melo, Márcia Pereira, Márcia Siqueira, Mariana Mello e Roslaine Caliri, que se revezaram ao longo do trabalho, auxiliando-me em todas as etapas do estudo. E que sobreviveram aos carrapatos, pernilongos, “porvinhas” e mutucas. • Aos colegas do Departamento de Ciências Naturais/Centro Universitário de Três Lagoas que de alguma forma contribuíram para a realização deste trabalho, especialmente à laboratorista Nereida Vilalba, pelo auxílio inestimável. • Bióloga Alessandra D. Caliente, pela atenção, profissionalismo, boa vontade e por toda a infra-estrutura oferecida. • Motoristas Pedro e Lázaro, trabalhadores de campo Paulo, Jair e Juvenir e aos demais funcionários da Chamflora, por toda a ajuda prestada durante os trabalhos de campo. • Chamflora Três Lagoas Agroflorestal Ltda., Empresa que forneceu todo o apoio logístico necessário, como suporte financeiro, equipamentos; e que sempre incentivou meu trabalho. transporte, alimentação e vi • UNESP - Rio Claro, pela forma objetiva como atende estudantes de pós-graduação que trabalham em outras instituições. • PICD CAPES/UFMS, pela bolsa de Doutoramento concedida durante os dois primeiros anos. • CEMAVE/IBAMA, pelas anilhas e permissões para anilhamento. • PROPP/UFMS, pelo material de consumo fornecido. • PIBIC - CNPq/UFMS - pelas bolsas de Iniciação Científica concedidas. • Fatima, pela companhia em vários momentos e pelas sugestões e correções no trabalho; e cujo carinho diversas vezes me deu forças para suportar a ausência e a distância. • Crianças (Anna Letícia, Felipe e Mayra), já não tão crianças, agora amigos; que os percalços da vida não me permitiram uma convivência mais intensa. Obrigado por entrarem assim na minha vida e me darem tantos momentos felizes. • E, como de praxe, a todos aqueles que de alguma forma contribuíram para este trabalho! vii ÍNDICE ÍNDICE DE FIGURAS .............................................................................................................ix ÍNDICE DE TABELAS...........................................................................................................xii RESUMO....................................................................................................................................1 ABSTRACT ................................................................................................................................4 INTRODUÇÃO E REVISÃO DE LITERATURA ...................................................................7 1. A DEGRADAÇAO AMBIENTAL E AS COMUNIDADES DE AVES..........................7 2. MATO GROSSO DO SUL E O CERRADO ...................................................................10 3. A VEGETAÇÃO ..............................................................................................................14 4. OS ESTUDOS EM COMUNIDADES DE AVES ...........................................................15 OBJETIVOS.............................................................................................................................19 MATERIAL E MÉTODOS......................................................................................................20 1. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDOS ..........................................................20 2. CAPTURAS......................................................................................................................26 3. AVALIAÇAO DA OFERTA DE ALIMENTO................................................................30 RESULTADOS E DISCUSSÃO .............................................................................................32 1. CLIMA..............................................................................................................................32 2. ECOLOGIA DE COMUNIDADES .................................................................................34 2.1 Eficiência das redes ....................................................................................................34 2.2. Locais de coletas........................................................................................................36 2.3. Espécies e locais de captura ....................................................................................40 2.4. Abundância e diversidade de espécies.......................................................................55 2.5. Similaridade de espécies............................................................................................74 3. MORFOMETRIA .............................................................................................................77 3.1. Biometria ...................................................................................................................77 3.2. Biomassa....................................................................................................................95 4. AS PLANTAS ...................................................................................................................................... 101 viii 4.1 Espécies vegetais amostradas...................................................................................101 4.2. Síndromes de dispersão ............................................................................................10 4.3. Fenologia ................................................................... Erro! Indicador não definido.1 4.4. Mapas fenológicos ...................................................................................................................... 115 5. HÁBITOS ALIMENTARES - GUILDAS DE ALIMENTAÇÃO .................................120 5.1. Material fecal...........................................................................................................121 5.2. Guildas de alimentação ...........................................................................................127 5.3.Variações nos hábitos alimentares ...........................................................................133 6. REPRODUÇÃO E MUDA DE PENAS.........................................................................143 6. 1. Reprodução .............................................................................................................144 6.2. Muda de penas .........................................................................................................154 6.3. Reprodução x muda de penas ..................................................................................165 CONCLUSÕES......................................................................................................................170 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................................172 ANEXOS ................................................................................................................................190 ix ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1.1. Localização da região estudada............................................................................21 Figura 1.2. Aspecto de alguns dos pontos estudados. ..............................................................25 Figura 1.3. Medidas de: A - tarso; B - largura do bico; C - altura do bico e D - comprimento total; E - muda de penas nas retrizes; F - placa de incubação. .......................................28 Figura 1.4. Esquema de uma parcela.......................................................................................31 Figura 2. Dados climatológicos para a região estudada........................................................ 33 Figura 2.1. Eficiência de redes de malhas 36 e 61mm na captura de aves, com relação ao comprimento total (A) e ao peso (B)..................................................................................35 Figura 2.2. Abundância relativa das famílias capturadas .......................................................42 Figura 2.3. Curva de coletor para as espécies capturadas na região de Três Lagoas (MS)...50 Figura 2.4. Abundância de espécies de aves de sub-bosque capturadas com redes ornitológicas na região de Três Lagoas............................................................................55 Figura 2.5. Análise de Cluster para os locais estudados. ........................................................62 Figura 2.6. Cladograma para os 4 setores definidos pela análise de Cluster.........................68 Figura 2.7. Abundância de espécies nos setores amostrados.................................................69 Figura 2.8. Proporções de ocorrências estatisticamente significativas de espécies de subbosque com relação aos ambientes...................................................................................73 Figura 3.1. Variação do peso médio das espécies com maior número de capturas e até 25g ao longo do ano. .....................................................................................................................91 Figura 3.2 .Variação do peso médio das espécies com maior número de capturas e com mais de 25g ao longo do ano. ....................................................................................................91 Figura 3.4. Variação média mensal no percentual de gordura acumulada em aves capturadas na região de Três Lagoas (MS). ........................................................................................94 Figura 4.1. Proporção de ocorrência de síndromes de dispersão de sementes nas espécies amostradas na região de Três Lagoas (MS)....................................................................107 Figura 4.2. Proporções de ocorrência de síndromes de dispersão de sementes nas espécies amostradas em (A) Cerrado; (B) Cerradão; (C) Pesqueiro e (D) Lajeado............................................................................................................................109 x Figura 4.3. Síndromes de dispersão de sementes: A- Solanum sp. (Mastozoocoria); B Alibertia sessilis (Mastozoocoria); C - Unonopsis lindmanii (Ornitocoria); D (ornitocoria).....................................................................................................................110 Figura 4.4. Épocas de frutificação e florescimento de espécies ornitocóricas amostradas e identificadas.....................................................................................................................112 Figura 4.5. Estimativa mensal de frutos na mata ciliar. .......................................................114 Figura 4.6. Total de indivíduos amostrados nas diferentes fenofases ao longo do ano. .......119 Figura 5.1. Guildas de alimentação das espécies capturadas. ..............................................128 Figura 5.2. Guildas de alimentação por indivíduos capturados e amostrados. ....................128 Figura 5.3. Proporção das guildas de alimentação de acordo com suas respectivas biomassas.........................................................................................................................132 Figura 5.4. Percentual de biomassa de aves consumidoras primárias, secundárias e outras na região de Três Lagoas (MS). ...........................................................................................132 Figura 5.5. Variação nos valores médios mensais dos hábitos alimentares ao longo de doze meses................................................................................................................................134 Figura 5.6. Composição da dieta de Saltator similis ............................................................135 Figura 5.7. Principais itens alimentares encontrados em fezes de Momotus momota...........137 Figura 5.8. Fêmea de Pipra fasciicauda capturada transportando fruto de Curatella americana. .......................................................................................................................139 Figura 5.9. Composição da dieta de Turdus leucomelas. ......................................................140 Figura 6.1. Variação mensal do percentual de indivíduos jovens (% JOV) e de adultos com placa de incubação (%PLA) ao longo do desenvolvimento do estudo...........................144 Figura 6.2. Valores médios mensais (%) de indivíduos com placa de incubação e de jovens...............................................................................................................................146 Figura 6.3. Número de espécies reproduzindo-se ao longo do ano na região de Três Lagoas, entre 1994 e 1996. ...........................................................................................................147 Figura 6.4. Ciclo reprodutivo de aves relacionado com temperatura e pluviosidade médias anuais na região de Três Lagoas.....................................................................................150 Figura 6.5. Abertura do ninho de Monasa nigrifrons ............................................................152 Figura 6.6. Período reprodutivo das espécies de sub-bosque da região de Três Lagoas conforme seus hábitos alimentares..................................................................................154 xi Figura 6.7. Valores percentuais mensais de indivíduos com muda de penas de asa (MAS), cauda (MCA) e asa e cauda simultaneamente (MA&C) ao longo do estudo. .................155 Figura 6.8. Ciclos de muda de penas de contorno (muda corpo) e de vôo (muda vôo) em indivíduos capturados entre 1994 e 1996........................................................................156 Figura. 6.9. Ciclo de muda de penas em aves de sub-bosque na região de Três Lagoas (MS)..................................................................................................................................158 Figura 6.10. Valores médios mensais do percentual de indivíduos trocando penas de asa, cauda, asa e cauda simultaneamente e de corpo.............................................................159 Figura 6.11. Relação entre oferta de frutos ornitocóricos e reprodução e mudas em espécies frugívoras.........................................................................................................................163 Figura 6.12. Ritmo de muda de penas em machos e fêmeas de Pipra fasciicauda. ..............164 Figura 6.13. Ciclos de muda de penas e reprodução durante o período de estudos. ............166 Figura 6.14. Valores médios mensais do percentual de indivíduos com muda de penas de vôo, contorno e com placa de incubação (dados de julho/94 a dezembro/96). ......................167 Figura 6.15. Relações entre muda de penas e reprodução em espécies de sub-bosque na região de Três Lagoas (MS). ...........................................................................................167 Figura 6.16. Ciclos reprodutivos e de muda de penas em aves de sub-bosque na região de Três Lagoas divididos por setores...............................................................................169 xii ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1. Denominação adotada e localização dos pontos utilizados durante as coletas de dados..................................................................................................................................24 Tabela 2.1. Espécies, indivíduos, capturas e recapturas por Hortos e pontos de coleta. ........37 Tabela 2.2. Esforço amostral (horas-redes) empregados em todos os locais de coleta...........38 Tabela 2.3. Índice de Densidade (IDENS*) por pontos de coleta...........................................39 Tabela 2.4. Espécies capturadas por grupos taxonômicos, com nomes comuns. A classificação adotada, bem como os nomes populares, seguem Sick (1997). .................43 Tabela 2.5. Espécies capturadas, com número de indivíduos nos locais de coleta e abundância relativa. ..........................................................................................................51 Tabela 2.6. Diversidade de espécies nos ambientes estudados, calculada pelo índice de Shannon-Weaver (H’) e pela proporção de espécies/horas-rede x 100. ..........................57 Tabela 2.7. Distâncias Euclidianas para comparações de todos os locais estudados entre si.........................................................................................................................................60 Tabela 2.8. Comparações entre os quatro setores por espécies, indivíduos, capturas e recapturas..........................................................................................................................63 Tabela 2.9. Ocorrência de espécies nos quatro setores amostrados.......................................64 Tabela 2.10. Resultados do teste de Qui-Quadrado para as 31 espécies com mais de dez capturas e suas preferências pelos setores amostrados....................................................70 Tabela 2.11. Composição taxonômica (%) das aves capturadas nos quatro setores amostrados.........................................................................................................................74 Tabela 2.12. Associação das 20 espécies com maior número de capturas.............................75 Tabela 2.13. Associação entre pares de espécies e sua significância estatística....................76 Tabela 3.1. Dados de peso (g), comprimentos de asa, cauda, total, tarso, cúlmem, largura e altura do bico (mm) de aves da região leste de Mato Grosso do Sul, com tamanho de amostra (entre parênteses) e valores mínimo e máximo. ..................................................78 Tabela 3.2. Dados morfológicos (médias) comparados de Nystalus maculatus ......................87 Tabela 3.3. Variação de valores médios de peso (g), comprimento de asa, cauda, total, tarso, cúlmen, largura e altura do bico (mm) comparada entre machos e fêmeas e jovens e adultos................................................................................................................................88 xiii Tabela 3.4. Pesos médios (g) de algumas aves da região de Três Lagoas comparados com dados obtidos em outras regiões do país...........................................................................90 Tabela 3.5. Peso médio (g) e biomassa (g) das espécies capturadas. .....................................96 Tabela 4.1 Espécies vegetais amostradas nos Horto Barra do Moeda e Rio verde, por famílias e locais de ocorrência........................................................................................101 Tabela 4.2. Distâncias euclidianas obtidas para quatro locais pela presença/ausência de espécies vegetais. .............................................................................................................106 Tabela 4.3. Mapa fenológico das espécies vegetais amostradas no cerrado........................115 Tabela .4.4. Mapa fenológico das espécies vegetais amostradas no cerradão.....................117 Tabela 4.5. Mapa fenológico das espécies vegetais amostradas na mata ciliar...................117 Tabela 4.6. Mapa fenológico das espécies vegetais amostradas no Lajeado. .......................118 Tabela 5.1. Resultado das análises de fezes por espécies: .....................................................123 Tabela 5.2. Percentual de itens alimentares encontrados nas amostras de fezes por locais.130 Tabela 5.3. Variação nas proporções (%) das guildas de alimentação nos 4 setores. ..........131 Tabela 5.4. Composição da dieta de machos e fêmeas de Thamnophilus punctatus .............136 Tabela 5.5. Proporção dos itens alimentares encontrados em fezes de machos e fêmeas de Pipra fasciicauda............................................................................................................138 Tabela 5.6 Proporção dos itens alimentares encontrados em fezes de machos e fêmeas de Tachyphonus rufus..........................................................................................................140 Tabela 6.1. Proporção de indivíduos jovens e adultos capturados durante o estudo por setores. .............................................................................................................................146 Tabela 6.2. Período reprodutivo de espécies de sub-bosque na região de Três Lagoas. ......148 Tabela. 6.3. Ciclo de muda de penas em aves de sub-bosque na região de Três Lagoas (MS)..................................................................................................................................160 vi SUMÁRIO ÍNDICE DE TABELAS____________________________________________________ viii ÍNDICE DE FIGURAS ______________________________________________________ x RESUMO _________________________________________________________________ 1 ABSTRACT _______________________________________________________________ 4 INTRODUÇÃO E REVISÃO DE LITERATURA _________________________________ 7 1. A DEGRADAÇAO AMBIENTAL E AS COMUNIDADES DE AVES___________________ 7 2. MATO GROSSO DO SUL E O CERRADO________________________________________ 10 3. A VEGETAÇÃO _____________________________________________________________ 14 4. OS ESTUDOS EM COMUNIDADES DE AVES____________________________________ 15 OBJETIVOS _____________________________________________________________ 20 1. OBJETIVOS GERAIS _________________________________________________________ 20 2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS____________________________________________________ 20 MATERIAL E MÉTODOS __________________________________________________ 21 1. CARACTERIZAÇãO DA ÁREA DE ESTUDOS____________________________________ 21 2. CLIMA_____________________________________________________________________ 25 3. CAPTURAS_________________________________________________________________ 29 4. AVALIAÇÃO DA OFERTA DE ALIMENTO______________________________________ 31 RESULTADOS E DISCUSSÃO_______________________________________________33 1. ECOLOGIA DE COMUNIDADES_______________________________________________ 33 1.1 Eficiência das redes _______________________________________________________________ 33 1.2. Locais de coletas _________________________________________________________________ 41 1.3. Espécies e locais de captura _______________________________________________________ 46 1.4. Abundância e diversidade de espécies_________________________________________________ 61 1.5. Similaridade de espécies ___________________________________________________________ 79 2. MORFOMETRIA ____________________________________________________________ 83 2.1. BIOMETRIA____________________________________________________________________ 93 2.2. Peso ___________________________________________________________________________ 96 2.3. Biomassa ______________________________________________________________________ 102 3. AS PLANTAS ______________________________________________________________ 106 3.1 Espécies vegetais amostradas _______________________________________________________ 106 3.2. Síndromes de dispersão __________________________________________________________ 111 3.3. Fenologia______________________________________________________________________ 113 3.4. Mapas fenológicos_______________________________________________________________ 120 4. HÁBITOS ALIMENTARES - GUILDAS TRÓFICAS ______________________________ 124 4.1. Material fecal___________________________________________________________________ 124 4.2. Guildas tróficas _________________________________________________________________ 126 4.3. Variações nos hábitos alimentares___________________________________________________ 138 vii 5. REPRODUÇÃO E MUDA DE PENAS_________________________________________ 147 5.1. Reprodução ____________________________________________________________________ 148 5.2. Muda de penas__________________________________________________________________ 157 5.3. Reprodução x muda de penas ______________________________________________________ 166 5.4. Variação nos setores _____________________________________________________________ 169 CONCLUSÕES___________________________________________________________171 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ________________________________________ 173 ANEXOS_________________________________________________________________191 viii ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1. Denominação adotada e localização dos pontos utilizados durante as coletas de dados.___________________________________________________26 Tabela 1.1. Indivíduos (incluindo recapturas) e espécies capturadas com redes de malhas 36 e 61mm.___________________________________________________33 Tabela 1.2. Tipos de vegetação, esforço amostral e número de capturas com redes de 36 e 61mm.________________________________________________________37 Tabela 1.3. Espécies, indivíduos, capturas e recapturas por Hortos e pontos de coleta ._41 Tabela 1.4. Esforço amostral (horas-redes) empregados em todos os locais de coleta. __43 Tabela 1.5. Índice de Densidade (IDENS*) por pontos de coleta. __________________45 Tabela 1.6. Espécies capturadas por grupos taxonômicos, com nomes comuns________48 Tabela 1.7. Espécies capturadas, com número de indivíduos (1a. captura) nos locais de coleta e abundância relativa. _________________________________________55 Tabela 1.8. Diversidade de espécies nos ambientes estudados, calculada pelo índice de Shannon-Weaver (H’) e pela proporção de espécies/horas-rede x 100 ___62 Tabela 1.9. Distâncias Euclidianas para comparações de todos os locais estudados ___65 Tabela 1.10. Comparações entro os quatro setores ______________________________68 Tabela 1.11. Ocorrência de espécies nos quatro setores __________________________69 Tabela 1.12. Resultados de teste de Qui-Quadrado para 31 espécies ________________75 Tabela 1.13. Composição taxonômica (%) nos quatro setores amostrados____________79 Tabela 1.14. Associação de 20 espécies com maior número de capturas _____________81 Tabela 1.15. Associação entre pares de espécies________________________________82 Tabela 2.1. Dados de peso (g), comprimentos de asa, cauda, total, tarso, cúlmem, largura e altura do bico (mm )___________________________________________84 Tabela 2.2. Variação de valores médios de peso (g), comprimento de asa, cauda, total, tarso, cúlmem, largura e altura do bico (mm) comparada entre machos e fêmeas e jovens e adultos. ______________________________________________93 Tabela 2.3. Dados morfológicos (médias) comparados de Nystalus maculatus ________95 Tabela 2.4. Pesos médios (g) de algumas aves da região de Três Lagoas comparados com dados obtidos em outras regiões do país.____________________96 ix Tabela 2.5. Peso médio (g) e biomassa (g) das espécies capturada em todos os locais estudados .__________________________________________________103 Tabela 31. Espécies vegetais amostradas, por famílias e locais de ocorrência________106 Tabela 3.2. Distâncias euclidianas para quatro locais___________ _______________110 Tabela 3.3. Mapa fenológico das espécies vegetais amostradas no cerrado__________120 Tabela 3.4. Mapa fenológico das espécies vegetais amostradas no cerradão_________121 Tabela 3.5 Mapa fenológico das espécies vegetais amostradas na mata ciliar _______122 Tabela 3.4. Mapa fenológico das espécies vegetais amostradas no cerradão degradado _________________________________________________________123 Tabela 4.1. Resultado das análises de fezes por espécies.________________________127 Tabela 4.2. Percentual de itens alimentares encontrados nas amostras de fezes por locais ________________________________________________________________136 Tabela 4.3. Variação nas proporções (%) das guildas tróficas nos 4 setores _________137 Tabela 4.4. Composição da dieta de machos e fêmeas de Thamnophilus punctatus ____141 Tabela 4.5. Proporção dos itens alimentares encontrados em fezes de machos e fêmeas de Pipra fasciicauda.___________________________________________143 Tabela 4.6 Proporção dos itens alimentares encontrados em fezes de machos e fêmeas de Tachyphonus rufus.__________________________________________144 Tabela 5.1. Proporção de indivíduos jovens e adultos capturados durante o estudo por setores _________________________________________________________150 Tabela 5.2. Período reprodutivo de aves na região de Três Lagoas ________________151 Tabela. 5.3. Ciclo de muda de penas em aves na região de Três Lagoas ___________ 162 x ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1. Localização da região estudada. ______________________________________ 22 Figura 2. Aspecto de alguns dos pontos estudados ________________________________ 27 Figura 3. Medidas de Temperatura, umidade relativa e pluviosidade __________________28 Figura 4. Esquema de uma parcela____________________________________________ 32 Figura 1.1. Eficiência de redes de malhas 36 e 61mm na captura de aves, com relação ao comprimento total (A) e ao peso (B). ______________________________ 39 Figura 1.2. Abudância relativa das famílias capturadas ____________________________47 Figura 1.3. Curva cumulativa de espécies novas __________________________________ 54 Figura 1.4. Abundância de espécies ____________________________________________61 Figura 1.5. Análise de Agrupamento para os locais estudados. ______________________ 66 Figura 1.6. Abundância de espécies nos setores amostrados_________________________74 Figura 1.7. Proporções de ocorrência de espécies em relação aos ambientes____________78 Figura 2.1. Variação do peso médio das espécies com maior número de capturas e até 25g ao longo do ano. ____________________________________________________ 98 Figura 2.2 .Variação do peso médio das espécies com maior número de capturas e com mais de 25g ao longo do ano. ________________________________________ 98 Figura 2.3. Variação média do peso de oito espécies ao longo do dia_________________100 Figura 2.4. Variação média mensal no percentual de gordura acumulada em aves capturadas na região de Três Lagoas (MS)__________________________________102 Figura 3.1. Proporção de ocorrência de síndromes de dispersão de sementes nas espécies amostradas em dois hortos florestais na região de Três Lagoas (MS). ____ _112 Figura 3.2. Proporções de ocorrência de síndromes de dispersão de sementes por locais amostrados______________________________________________________114 Figura 3.3. Síndromes de dispersão de sementes _________________________________115 Figura 3.4. Épocas de frutificação e florescimento de espécies ornitocóricas amostradas e identificadas. ______________________________________________ 117 Figura 3.5. Estimativa mensal de frutos na mata ciliar. ___________________________ 119 Figura 3.6. Total de indivíduos amostrados nas diferentes fenofases ao longo do ano. ___ 123 Figura 4.1. Guildas tróficas das espécies capturadas.(n=103) ______________________ 133 xi Figura 4.2. Guildas tróficas por indivíduos capturados e amostrados (n=419). ________ 133 Figura 4.3. Proporção das Guildas tróficas de acordo com suas respectivas biomassas. _ 137 Figura 4.4. Percentual de biomassa de aves consumidoras primárias, secundárias e outras na região de Três Lagoas (MS). _____________________________________ 138 Figura 4.5. Variação nos valores médios mensais dos hábitos alimentares ao longo de 12 meses ______________________________________________________________ 138 Figura 4.6. Composição da dieta de Saltator similis. _____________________________ 140 Figura 4.7. Principais itens alimentares encontrados em fezes de Momotus momota. ____ 142 Figura 4.8. Composição da dieta de Turdus leucomelas. __________________________ 143 Figura 5.1. Variação mensal do percentual de indivíduos jovens e de adultos com placa de incubação ao longo do estudo ____________________________________148 Figura 5.2. Valores médios mensais (%) de indivíduos com placa de incubação e de jovens. ____________________________________________________________ 150 Figura 5.3. Número de espécies reproduzindo-se ao longo do ano na região de Três Lagoas, entre 1994 e 1996. __________________________________________ 151 Figura 5.4. Ciclo reprodutivo de aves relacionado com temperatura e pluviosidade médias anuais na região de Três Lagoas. __________________________________ 154 Figura 5.5. Período reprodutivo das espécies de sub-bosque da região de Três Lagoas conforme seus hábitos alimentares. _________________________________ 157 Figura 5.6. Valores percentuais mensais de indivíduos com muda de penas de asa, cauda e asa e cauda simultaneamente ao longo do estudo._________________ 158 Figura 5.7. Ciclos de muda de penas de contorno (muda corpo) e de vôo (muda vôo) em indivíduos capturados entre 1994 e 1996. ________________________________ 159 Figura. 5.8. Ciclo de muda de penas em aves de sub-bosque na região de Três Lagoas (MS). _________________________________________________________ 160 Figura 5.9. Valores médios mensais do percentual de indivíduos trocando penas de asa, cauda, asa e cauda simultaneamente e de corpo. _____________________________ 161 Figura 5.10. Relação entre oferta de frutos ornitocóricos e reprodução e mudas em espécies frugívoras. ____________________________________________________ 165 Figura 5.11. Ritmo de muda de penas em machos e fêmeas de Pipra fasciicauda.______ 166 Figura 5.12. Ciclos de muda de penas e reprodução durante o período de estudos. _____ 167 xii Figura 5.13. Valores médios mensais do percentual de indivíduos com muda de penas de vôo, contorno e com placa de incubação ___________________________________ 168 Figura 5.14. Relações entre muda de penas e reprodução em espécies de sub-bosque na região de Três Lagoas (MS). __________________________________________ 168 Figura 5.15. Ciclos reprodutivos e de muda de penas na região de Três Lagoas divididos por setores____________________________________________________170 1 RESUMO Comunidades de aves de sub-bosque foram estudadas na região de Três Lagoas, leste do estado de Mato Grosso do Sul entre agosto de 1994 e dezembro de 1996, tendo sido obtidos dados em 14 pontos de coleta, em área de vegetação de cerrado senso stricto, floresta de galeria, eucaliptais, mata secundária e cerradão. Utilizaram-se 10 a 16 redes ornitológicas de malhas 36 e 61mm, dispostas em transectos lineares, totalizando 13467,9 horas-rede. As redes foram abertas nas primeiras horas do dia e fechadas às 15h00min. As aves capturadas, após identificadas, foram marcadas com anilhas metálicas fornecidas pelo Cemave/Ibama e tiveram seu sexo e idade determinados quando possível. Foram obtidos dados morfométricos (peso, comprimentos total, de asa, cauda, cúlmem, largura e altura do bico). Os períodos de reprodução e muda de penas foram determinados pela presença de placa de incubação de canhões de penas novas, respectivamente. Com dados de capturas e recapturas, estimaram-se abundância e diversidade de espécies, similaridade entre comunidades e entre locais estudados. A dieta predominante foi determinada através da contenção dos indivíduos capturados e coleta e triagem de fezes. A disponibilidade de frutos foi verificada através de um levantamento fenológico em quatro locais a partir de parcelas medindo 10x50m. As famílias com maior abundância relativa foram Tyrannidae (23,5%) e Emberizidae (17,5%), repetindo o padrão que tem sido encontrado freqüentemente em estudos avifaunísticos em regiões tropicais. A maioria das espécies teve reduzido número de indivíduos capturados; algumas como Basileuterus flaveolus e Cnemotriccus fuscatus entretanto, apresentaram grande número de indivíduos e alta abundância relativa (85 - 8,11% e 72 - 6,87% respectivamente). Com relação aos locais de coleta, o cerradão (Horto Buriti) apresentou o maior IDENS (Índice de Densidade) (10,66), enquanto o eucaliptal comercial (Horto Barra do Moeda) teve o menor (1,95). Já o maior índice de diversidade foi obtido no cerradão (Horto Barra do Moeda) (3,63), seguido da mata ciliar (3,31), ambos ambientes florestais que forneceriam maior quantidade de microhabitats, pela estrutura da vegetação, diversidade de fauna de invertebrados e locais para nidificação. Pelos mesmos motivos, o eucaliptal comercial apresentou o menor índice (1,71). Os locais mais semelhantes, pela distância euclidiana, 2 foram o cerrado degradado (Horto Matão) e o eucaliptal comercial, refletindo o efeito da fragmentação sobre a diversidade de espécies. Pela Análise de Agrupamento, quatro setores (A, B, C e D) foram delimitados, agrupando-se os locais conforme a presença de espécies e número de indivíduos. Com este procedimento, ficaram próximos os ambientes florestais (A), os cerrados (B) , os locais mais degradados (D) e, por fim, o denso cerrado do Horto Buriti (B). Destes setores, o com maior diversidade foi o de florestas (A - 6,36) e, o com menor, o dos ambientes degradados (D 0,65). Pela presença/ausência de espécies, determinaram-se características ecológicas de 31 espécies. Assim por exemplo, foram reconhecidas espécies típicas de áreas abertas e/ou alteradas (Saltator similis, Coryphospingus cucullatus e Columbina talpacoti), e espécies típicas de ambientes florestais (Pipra fasciicauda e Leptopogon amaurocephalus), recomendando-se seu uso como bioindicadores de fragmentação. As espécies mais semelhantes e positivamente correlacionadas foram Basileuterus flaveolus e Cnemotriccus fuscatus, ambas abundantes e ocorrentes em vários tipos de ambientes. Quanto à análise morfométrica, verificou-se uma grande variação entre os dados obtidos e os disponíveis em literatura, o que pode estar relacionado à variações quanto ao sexo, idade, status reprodutivo, época do ano ou período do dia, entre outros fatores. As espécies com maiores biomassas foram Momotus momota (6080,9g) e Turdus leucomelas (4092,5g). Os estudos sobre oferta de frutos produziram uma listagem com 67 espécies vegetais, com ampla maioria de espécies zoocóricas (77%), havendo predominância da ornitocoria em três dos quatro locais amostrados. Não foram constatados picos de frutificação evidentes para as espécies ornitocóricas. Em relação aos indivíduos, tem-se um pico de frutificação e de outras fenofases em setembro, o que coincidiu com o início da estação chuvosa. Por meio de 503 amostras de fezes, as aves capturadas foram agrupadas em nove guildas tróficas, sendo a de insetívoros a mais numerosa, em relação às espécies (62%), indivíduos (63%) e biomassa (13503,8g). O mesmo foi verificado para os quatro setores estabelecidos anteriormente. Os resultados podem refletir uma tendência em aumento de insetívoros e redução de frugívoros, efeitos da fragmentação da vegetação sobre as comunidades de aves. Ao longo do ano, observou-se que os insetívoros sempre estiveram mais representados que as demais guildas, com um pico em outubro que pode estar associado 3 à estação reprodutiva. Houve um aumento no percentual de frugívoros em abril, o que pode ser associado às estações do ano e/ou tipo de ambiente (A, B, C e D). Constatou-se no presente estudo, que as aves da região apresentaram picos reprodutivos que se repetiram por três anos entre setembro e novembro, que coincidem com o período de início das chuvas. Após os ciclos reprodutivos ocorreram aumentos nas proporções de indivíduos jovens, que declinavam até então. Espécies onívoras apresentaram o mais longo período reprodutivo, pela menor suscetibilidade à escassez de recursos. A estação reprodutiva em frugívoros coincidiu com o auge da frutificação; a dos insetívoros, embora algo mais prolongada, teve seu apogeu na estação chuvosa. Houve pouca sobreposição entre reprodução e muda de penas. Os ciclos de muda de penas de vôo sucederam os de reprodução nos três anos estudados, estando fortemente correlacionados com a troca de penas de contorno. Os gastos energéticos envolvidos tanto na reprodução quanto na substituição das penas explicariam a pouca sobreposição detectada entre estes dois eventos. Os ciclos mantiveram um padrão para toda a região, sendo que o período reprodutivo foi mais longo nos setores A (florestas) e C (cerradão denso). 4 ABSTRACT Understory bird communities were studied in the region of Três Lagoas, eastern Mato Grosso do Sul state between August 1994 and December 1996, having been obtained data in 14 collection points, in areas of cerrado stricto sensu, gallery forest, eucalyptus plantation, secondary forests and cerradão. Ten to sixteen 12-m mist nets, 36- and 61-mm mesh were used, arranged in straight lines (13,467.9 net-hours). Nets were opened just before first light and operated until 15h00min. Captured and identified birds were banded with metallic bands supplied by Cemave/Ibama, weighed, sexed and aged if possible, and had their morphometric data obtained (wing, tail and culmen total lengths; beak width and height). Reproductive status was verified by incubation patches and moulting cycle by the presence of new feathers. Capture data were also used to determine species abundance and richness, similarity among species and studied places. To determine the predominant diet, individuals were held for collection of fecal samples. Fruit offer was verified through phenology studies in four places, by means of 10x50m quadrants. The 36-mm mesh nets were more efficient in captures, as in absolute number (619 captures - 59.92% of the captures), as when weight and total length were considered. Families with larger relative abundance were Tyrannidae (23.5%) and Emberizidae (17.5%), repeating the pattern that has frequently been found in tropical bird studies. Most species had small individuals captured number; Basileuterus flaveolus and Cnemotriccus fuscatus however, presented great number of individuals and high relative abundance (85 - 8.11% and 72 - 6.87% respectively). In relation to sampled sites, cerradão (Horto Buriti) presented largest IDENS (Density Index) (10.66), while commercial eucalyptus plantation (Horto Barra do Moeda) showed the smallest one (1.95). Largest diversity index was obtained in cerradão (Horto Barra do Moeda) (3.63), followed by gallery forest (3.31), both forest that would supply larger amount of microhabitats, for the vegetation structure, insect fauna diversity and nest sites. Absence of those characteristics would influence smallest index (1.71) of commercial eucalyptus plantation. According to Euclidean Distance, the most similar places were degraded cerrado (Horto Matão) and commercial eucalyptus plantation, reflecting fragmentation effects on species diversity. Using Cluster Analysis, four sections (A, B, C and D) were defined, assembling landscapes according to species presence/absence and individuals number. By means of this 5 procedure, were joined forest habitats, cerrados, degraded places and, finally, dense cerrado (Horto Buriti). From these sections, the larger diversity index was find in forests habitats (A 6.36) and the smallest one, in degraded landscapes (D - 0.65). For the species presence/absence, ecological characteristics from 31 species were observed. For example, opened and/or altered areas typical species (Saltator similis, Coryphospingus cucullatus and Columbina talpacoti), and forest habitats typical species (Pipra fasciicauda and Leptopogon amaurocephalus) were recognized. The most similar species, with positive correlation were Basileuterus flaveolus and Cnemotriccus fuscatus, both abundant in several habitats. A great variation was found among morphometric data here obtained and that available in literature, what can be related to sex, age, reproductive status, season or day period, among other factors. The species with larger biomass were Momotus momota (6080.9 g and Turdus leucomelas (4092.5 g). Fruit offer of 67 plant species was observed, with prevalence of zoocory (77%), and ornithocory in three of four sampled places. No remarkable picks of fruit offer was verified for the ornithocory species, what can be due to several factors, as the competition among plants for disperses and the need of fruit offer to those animals during the whole year. In relation to individuals, a fructification pick occurred on September, which coincided with the beginning of the rainy season. Analysis of 503 feces samples showed that captured birds were separated in nine trophic guilds, and insectivores were more common, in relation to species (62%), individuals number (63%) and biomass (13503.8g). The same was verified for the four sections previously established. The results can reflect a tendency in insectivores increase and frugivores reduction, fragmentation effects on bird communities. Along the year, insectivores were always more represented than other guilds, with a pick in october that can be associated to reproductive station. An increase in frugivores percentage was observed in april, what can be associated to season and/or habitat type. Birds of Três Lagoas region showed repeated reproductive picks for three years among september and november, which coincides to beginning of rainy season. After than, an increase in young individuals' proportions was observed, that declined until then. Omnivores species showed the longest reproductive period, probably because their less susceptible to resources scarcity. Reproductive station in frugivores coincided with the peak of fruit offer; and the insectivores, with the rainy season. 6 There was little overlapping between reproduction and feathers moult. Flight feathers moult cycles occurred before reproduction in the three studied years, being strongly correlated with body feathers moult. The energy expenses involved as in reproduction as in the substitution of the feathers would explain the little overlapping detected between these two events. In general way, the cycles maintained a pattern for the whole region, and the reproductive period was longer in the sections A and C. 7 INTRODUÇÃO E REVISÃO DE LITERATURA 1. A DEGRADAÇAO AMBIENTAL E AS COMUNIDADES DE AVES As atividades humanas causam inúmeras alterações no ambiente. Dentre elas, a fragmentação florestal, com a criação de novas bordas e clareiras, que levam ao desaparecimento de espécies vegetais secundárias, com conseqüente invasão de pioneiras (Lovejoy et alii, 1986). A fragmentação florestal é um dos fenômenos mais graves do processo de expansão da atividade agropecuária no Brasil, presente desde as etapas mais antigas, na Mata Atlântica nordestina, até as mais recentes, no cerrado do Centro-Oeste e na Floresta Amazônica. Áreas de vegetação nativa contínuas vêm sendo transformadas em fragmentos florestais isolados (Viana et alii, 1992). Com o desenvolvimento da tecnologia, a degradação ambiental tornou-se muito mais rápida. Nas nações em desenvolvimento, normalmente situadas em regiões tropicais, a vegetação nativa está cada vez mais devastada e restrita a fragmentos, e os conseqüentes danos para a avifauna são óbvios. Por exemplo, segundo a portaria no. 1522 do IBAMA, em 1989 havia 207 espécies brasileiras oficialmente ameaçadas de extinção. Somente de aves, eram 85 as espécies nesta categoria. Segundo o ICBP/IUCN Red Data Book (Collar et alii, 1992), este número seria de 97 e dentre estas, 64 (65,97%) são endêmicas do território brasileiro. Conforme dados do IBGE de 1993, haveria no Brasil 159 aves ameaçadas de extinção. Neste cenário, espécies como aves predadoras de topo de cadeia alimentar ou predadores/dispersores de sementes, que invariavelmente necessitam de milhares de hectares para sobreviverem, rapidamente são afetadas (Terborgh, 1992). Os efeitos da fragmentação da vegetação nativa sobre a biodiversidade não são ainda claramente compreendidos. A teoria de biogeografia de ilhas proposta por MacArthur & Wilson (1967) argumenta que existe diminuição exponencial no número de espécies de acordo com a diminuição da superfície da ilha. Entretanto, Wiens (1995) adverte que a dinâmica de fragmentos florestais depende sobremaneira do mosaico de ambientes no qual ele está inserido, e entender fragmentos como ilhas é uma visão relativamente simplista. Preston (1962) sugeriu que, uma vez ocorrida a fragmentação, o desaparecimento de espécies é um fato consumado, mesmo em não mais ocorrendo interferência humana. De 8 acordo com Terborgh (1992), o número de espécies presente em um ambiente seria reduzido à metade sempre que se retirasse 90% dessa vegetação. Por exemplo, no caso da Mata Atlântica, onde restam menos de 0,1% da cobertura vegetal original, a capacidade de manutenção da diversidade seria de apenas 1/8 de suas condições originais. Há de se levar em conta também que a extinção é um fenômeno complexo, dependendo de uma série de fatores. Assim, estudos em regiões tropicais têm verificado que a maioria das comunidades apresenta muitas espécies com poucos indivíduos, enquanto que somente algumas são abundantes (Wong, 1986; Bierregaard, 1990). Portanto, estas espécies pouco abundantes, e que seriam sempre maioria, é que sofreriam primariamente os impactos da degradação. Além disso, a extinção de cada espécie provoca efeitos diferenciados nos demais elos da cadeia alimentar da comunidade (Stiles, 1985), afetando a disponibilidade de recursos alimentares no ambiente, entre outros. Loiselle & Blake (1991) e Blake & Loiselle (1991a; 1992a) constataram este fato investigando variações nas taxas de capturas de aves frugívoras conforme a disponibilidade de frutos ao longo do ano. Alternativas para estratégias de conservação têm sido propostas nos últimos anos. Uma questão que tem sido levantada é a de como deveriam ser estruturadas as áreas de preservação, se em vários fragmentos isolados ou se em grandes áreas (Lovejoy & Oren, 1981; Wilcox & Murphy, 1985; Bierregaard et alii, 1992). Simberloff & Abele (1982) questionaram o ‘dogma´ de que, para fins de conservação, uma extensa área seria mais interessante do que pequenas áreas isoladas que, no total, tivessem o mesmo tamanho. Os autores colocam várias vantagens e desvantagens das duas situações, e concluem que existem numerosas variáveis que devem ser levadas em conta quando se pretende traçar um programa de unidades de conservação. Em todos os casos discutidos entretanto, parece claro que, quanto maior o tamanho da área preservada, mais propícias as condições para a continuidade das espécies. Sobre este assunto, Zuidema et alii (1996) concluíram que a conservação de áreas de tamanho médio, estrategicamente colocadas pode ser a opção mais eficiente para a conservação da biodiversidade, levando-se em conta as limitações financeiras, sociais e logísticas. A conservação de aves envolve a preservação dos habitats e de outros recursos requeridos durante sua vida (Stiles, 1985). Outro fator vital na sobrevivência de muitas espécies de aves, principalmente para aquelas mais exigentes, seria também a manutenção daqueles ambientes e recursos explorados ainda que eventualmente (Karr, 1982). O sucesso dos esforços para a preservação depende do conhecimento das causas e extensão da variação 9 nas populações, bem como na detecção das espécies mais sensíveis às alterações em seus habitats (Loiselle & Blake, 1992). Buscando a conservação, pode-se avaliar o estado de degradação de um ambiente, utilizando-se para isso os indicadores ecológicos. Em florestas do norte da Patagônia (Argentina), por exemplo, Pietri (1992) utilizou três categorias como indicadores ecológicos: espécies-chaves (que indica a ocorrência do processo de degradação); a cobertura vegetal (indicando o estádio do processo de degradação), e o biovolume vegetal (indicando quando o processo de degradação torna-se crítico). Uma grande sobreposição na dieta de frugívoros na Mata de Santa Genebra (Campinas - SP), foi interpretada por Galetti & Pizo (1996) como indicativo do alto grau de descaracterização da mata e da comunidade de aves. Os levantamentos avifaunísticos são ferramentas bastante úteis, tanto na avaliação da qualidade de ecossistemas terrestres como em monitoramentos de alterações provocadas, em função da grande diversidade de aves e de nichos ecológicos que exploram (Andrade 1993; Sick 1997). Estudos em comunidades de aves podem detectar variações em populações e espécies, acarretadas por alterações provocadas no ambiente (Almeida, 1987). Existem diversas formas de se estudar as comunidades de aves; todas eles envolvendo levantamentos qualitativos e quantitativos. No Brasil, tem sido empregadas amostragens por pontos, sendo estes pontos definidos por sorteio (Vielliard & Silva, 1990); por transectos, que são percorridos a intervalos regulares (ex. Aleixo & Vielliard, 1995; Monteiro & Brandão, 1995); por marcação e recaptura, com uso de redes ornitológicas (Lovejoy et alii, 1986; Bierregaard. et alii, 1992). Todos estes métodos apresentam seus problemas, tais como a familiaridade com as aves e possíveis erros de estimativa de número de indivíduos para os métodos de pontos e transectos. Whitman et alii (1997) compararam, em floresta subtropical, a eficiência da metodologia de redes com a de pontos sob diversos aspectos. As redes amostraram 25% das espécies supostamente presentes no local, principalmente aves de sub-bosque, de tamanho menor. Os pontos detectaram 60% das espécies, com maior número/ponto e mais eficiência na detecção de espécies raras. Os dois métodos mostraram-se semelhantes nas proporções das famílias, abundância, status migratório, dieta, uso de habitats e guildas. Por fim, estes autores concluem que os pontos são mais eficientes quando se almeja um recenseamento de aves. MacArthur & MacArthur (1974) ressalvam as dificuldades de se fazer estimativas de populações de aves baseando-se em marcações-recapturas, porque os indivíduos, após capturados, tendem a evitar as redes (tendência esta variável entre as espécies) e também pela 10 presença das espécies em trânsito, que sempre trazem novas capturas. Os autores propuseram um método para que se estimem separadamente estes dois grupos de espécies, por regressão não-linear. Manly (1977) propôs método semelhante, através de demonstração gráfica e de duas tabelas. Críticas ao uso de redes também são feitas por Poulsen (1996) que ressalta entretanto, a possibilidade de seu uso para comparar a riqueza de espécies em diferentes locais. Remsen & Good (1996) chamaram a atenção para os possíveis erros em se associar diretamente proporção de capturas com proporção de indivíduos na comunidade, lembrando por exemplo, das diferenças de movimentação horizontal e vertical das aves e das diferentes freqüências e distâncias de vôo, o que pode resultar em taxas de capturas distintas para espécies com mesma abundância. Desenvolvida no Japão inicialmente para a captura de aves para alimentação, as redes ornitológicas revolucionaram a ornitologia quando passaram a ser empregadas para fins científicos (Ibama, 1994). Apesar de existirem restrições, seu uso traz uma série de vantagens; entre elas a de não requerer familiaridade com as aves do local e padronizar o esforço amostral (Karr, 1981). Para Wong (1986), o uso de redes representa o método mais eficiente e confiável para estimar densidade relativa e movimentos em aves de sub-bosque de florestas tropicais. 2. MATO GROSSO DO SUL E O CERRADO Com uma área de 901.420.7 km2 (10,59% do território nacional), o atual estado de Mato Grosso do Sul só foi efetivamente povoado em meados do século XIX, após a Guerra do Paraguai, quando então desenvolveram-se núcleos populacionais a partir de fortificações erguidas em Dourados, Miranda e Coxim. Após 1912, com o advento da estrada de ferro, surgiram surtos expansionistas nas vilas de Campo Grande, Cuiabá e Aquidauana. Em sua porção leste, predomina o pantanal; a oeste o domínio é do bioma Cerrado. A província do cerrado tem um clima tropical com precipitação variando de 750-2000 mm/ano em média, com estação seca durando cerca de cinco meses (meados de maio a meados de outubro), podendo ser enquadrado no clima Aw e Cwa de Köppen (Pinto, 1994). Em relação à fauna do cerrado, Sick (1965) já relatava as dificuldades em se definir uma “fauna típica do cerrado”, já que, no caso das aves, mesmo as mais características de 11 cerrado também vivem em outras paisagens abertas muito diferentes. Para Sick (1966) as aves do cerrado seriam, em boa parte, fauna arborícola de mata. Silva (1995a) reconhece para a região do Cerrado 837 espécies de aves, distribuídas em 64 famílias, das quais 759 (90,7%) aí se reproduzem. Esta grande diversidade de espécies teria sido favorecida principalmente pelo intercâmbio biótico com os ecossistemas vizinhos, como a região dos chacos, por ocasião das flutuações climático-vegetais do Quaternário. Em um estudo no cerrado do Paraná, SchererNeto et alii (1991) encontraram 155 espécies, muitas delas peculiares aos campos planálticos paranaenses e florestas com araucária da porção leste do estado. Dentre as típicas do cerrado do Brasil Central, registraram Neothraupis fasciata e Cyanocorax cristatellus. Quanto à distribuição desta avifauna, Silva (1995b) descreve sete padrões, sendo o mais comum, aquele com espécies de ampla ocorrência, seguido do de espécies periatlânticas. Em relação aos endemismos, seriam 16 as com este status. Sick (1965) inferiu que, quando se restringe o termo cerrado à vegetação típica (excluindo-se as espécies de matas e campos de gramíneas), o número de espécies de aves não chegaria a 200. Rocha et alii (1994) relatam que Snethlage em 1928 primeiramente coletou aves na região e, somente 50 anos depois, quando da construção de Brasília, uma equipe do Museu Nacional do Rio de Janeiro visitou o local novamente. As aves do Brasil Central são bem mais conhecidas pelos estudos realizados no Distrito Federal (ex.: Antas & Cavalcanti, 1988). Rocha et alii (1994) consideram que na capital do Brasil a avifauna é bastante rica, o que foi atribuído à diversidade do ambiente e à manutenção de áreas preservadas na região. A ocupação do cerrado deu-se principalmente após a construção de grandes cidades (Brasília) e estradas (Belém-Brasília), em função de sua grande oferta ambiental e potencial agrícola. Explora-se atualmente neste ecossistema minérios, agropecuária, carvão (com grandes reflorestamentos de eucalipto) e a energia dos rios (com grandes lagos artificiais). Como sempre entretanto, esta ocupação e exploração tem se dado de maneira desordenada e visando lucros imediatos, com sérias conseqüências para a biodiversidade deste ecossistema (Verdésio, 1994). Hoje, estima-se a perda de 37% da cobertura vegetal primitiva, restando 7% de paisagem natural preservada e 56% de áreas com manejo. Crê-se que a erosão destrói mais de 50 toneladas por ano por hectare de terras férteis (Pinto, 1994). O modo desordenado como as terras do cerrado vêm sendo ocupadas não difere daquele observado em outras regiões, já que a tecnologia agrícola que está sendo adotada no cerrado responde a um modelo de agricultura voltado para o lucro imediato, com pouca preocupação conservacionista a longo prazo. Extensas áreas contínuas estão sendo 12 desmatadas para a implantação de monoculturas agrícolas, sem reserva de amostras dos ecossistemas naturais, que possam funcionar como banco genético e refúgio da fauna e da flora (Pinto, 1994). A instabilidade ambiental criada pelo desmatamento e pela ação periódica do fogo pode acelerar o empobrecimento da avifauna, ocasionando o desaparecimento de mais espécies residentes no cerrado, com exigências ecológicas bem definidas, ao mesmo tempo que permite a entrada no sistema de espécies oportunistas, ecologicamente pouco exigentes (Silva, 1992). Extensas monoculturas, como os reflorestamentos com eucalipto produzem impacto sobre a fauna florestal, já que a manutenção necessária envolve limpezas regulares com tratores, impedindo a existência de sub-bosque, criando um ambiente extremamente pobre. Motta-Júnior (1990) comparou avifaunas de mata, cerrado e eucaliptal, constatando a pobreza de espécies neste último, mesmo com a presença de pequeno sub-bosque de cerrado. Marcondes-Machado & Piratelli (1992) compararam um eucaliptal com sub-bosque e um reflorestamento com nativas, observando que as duas situações seriam propícias, pelo menos para a manutenção de aves insetívoras. Piratelli et alii (1997) estudaram um eucaliptal comercial, comparando-o a outro com sub-bosque, verificando a maior diversidade de aves nesse último. A pecuária é feita de forma extensiva, com grandes latifúndios. Quase metade dos latifúndios do país (definidos como propriedades com mais de 1000 ha) estão na região Centro-Oeste. Desmatamentos e queimadas ilegais, seguidos de plantio de espécies exóticas para formação de pastos são eventos comuns, principalmente em função da fiscalização ineficaz, conforme relatos da Polícia Florestal local. Justamente pela falta de fiscalização, torna-se difícil até mesmo saber-se o quanto de vegetação nativa já foi destruída no Estado de Mato Grosso do Sul. Além da questão agropecuária, a construção de grandes represas também acarreta prejuízos para o ambiente, promovendo alterações sobre os fatores abióticos, como clima, solos e cursos d’água; e sobre fatores bióticos, como a vegetação e a fauna, tanto terrestre como aquática (Espanha, 1989). Como exemplo, a construção da hidrelétrica de Balbina, no Amazonas, acarretou alterações profundas em vários microambientes, afetando um grande número de aves locais e das circunvizinhanças (Willis & Oniki, 1988). Na região de Três Lagoas, o problema mais iminente é a Usina de Porto Primavera, cujo lago artificial inundará vastas áreas de vegetação nativa, além de áreas habitadas por famílias que vivem da pesca e 13 da extração do barro (oleiros) às margens do Rio Paraná, o que provavelmente acarretará graves problemas ambientais e sociais. Os benefícios para o estado serão mínimos, já que a maior parte da energia gerada irá para os grandes centros industriais do sudeste do Brasil. Pouco se conhece a respeito das aves silvestres em Mato Grosso do Sul. Contreras et alii (1993) mapearam a Serra de Maracaju (sul do estado), registrando 176 espécies. Silva (1995c) relacionou 85 localidades na região do cerrado consideradas “minimamente amostradas” (com mais de 80 espécimes de aves coletadas durante os últimos dois séculos). Dentre elas, apenas seis para Mato Grosso do Sul: Rio Anambaí, Fazendas Harmonia e Pitangueiras e municípios de Aquidauana, Campo Grande e Coxim. Para o pantanal, Antas et alii (1993) e Antas & Nascimento (1996) monitoraram a distribuição e os deslocamentos de Jabiru mycteria. No relatório do Censo Neotropical de Aves Aquáticas de 1994 (Blanco & Canevari, 1994), há o registro da Estância Cayman, em Miranda (19º51’; 19º58’ S; 56º17’; 56º24’W), tendo sido observados nesta ocasião, 678 indivíduos de 20 espécies de aves. Tubelis & Tomás (1999) estudaram a distribuição de aves em manchas de cerradão na região da Nhecolândia, obtendo uma listagem de 147 espécies, sendo 72 restritas a um único habitat. Os conhecimentos são mais pobres ainda para a região de Três Lagoas, no extremo leste do estado. Mesmo os grandes naturalistas do século passado e início deste quase não se aventuraram por estas paragens, dadas as grandes dificuldades que outrora se encontravam para lá chegar. Dubs (1992) relata uma das raras exceções, a passagem de Olivério Pinto em 1931 por Três Lagoas, Paranaíba e Aquidauna. Olivério Pinto publicaria em “Catálogo das aves do Brasil” (Pinto 1938; 1944), os resultados desta sua viagem de pesquisa. No “Inventario de humedales de la región neotropical”, Scott & Carbonell (1986) não conseguiram informações sobre as aves da bacia do Paraná. Silva (1995a) realizou dois períodos de um mês de estudos na região periférica da Bacia do Paraná, tendo sugerido que as matas secas seriam mais importantes do que as matas ciliares na manutenção de espécies que dependem de ambientes florestais nesta região. Buzeti (1997), Piratelli (1998) e Piratelli et alii (1998a) apresentaram listagens de espécies da avifauna da região de Três Lagoas em Congressos de Ornitologia. Em trabalho apresentado durante o II Congresso Brasileiro de Ornitologia em Campo Grande (MS), Willis & Oniki (1992) discutiram a utilização de ambientes interioranos pelo homem e conseqüente desaparecimento de aves nestes ambientes. Os autores colocam como prioridade em conservação os estudos no Mato Grosso do Sul. Também Silva (1995c) ressalta 14 que cerca de 70% da região de cerrado nunca foi satisfatoriamente amostrada em termos de avifauna; colocando Mato Grosso do Sul entre aqueles estados prioritários para estudos em ornitologia. Ainda, este autor sugere que, para a definição de áreas de conservação nesta região, são necessárias análises mais amplas, a nível de ecossistemas, em detrimento aqueles estudos que foquem apenas espécies e/ou subespécies. 3. A VEGETAÇÃO Nas comunidades vegetais, a redução da diversidade de espécies nos fragmentos florestais pode se dar pela ausência de polinizadores e dispersores e pela extinção local de populações restritas. Outros problemas que sofrem os fragmentos seriam a perda da variabilidade genética pela redução do fluxo gênico; crescimento excessivo de algumas populações em detrimento de outras; ação do vento (efeito de borda) e risco de incêndios; presença maciça de espécies vegetais pioneiras e invasoras, impedindo o processo de sucessão ecológica (Leitão Filho, 1992). O efeito de borda consiste na alteração das condições microclimáticas de temperatura e umidade, afetando o meio físico por dezenas de metros, reduzindo a fauna de invertebrados e a diversidade de plantas, acarretando por sua vez a diminuição na abundância e diversidade de espécies de aves, principalmente grandes frugívoros e especialistas (Willis, 1979; Bierregaard & Hoppes, 1986). Muitas plantas dependem de animais para transferência de pólen ou dispersão de suas sementes. Em contrapartida, as plantas oferecem “recompensas” para os animais, como pólen e néctar para os polinizadores (Piña-Rodrigues & Piratelli, 1993) e frutos com polpa carnosa ou sementes nutritivas para os dispersores e predadores (Morelatto & Leitão Filho, 1992). Conforme Howe (1984), a redução na oferta de frutos poderia ocasionar redução na biodiversidade da fauna dispersora, gerando por conseguinte, uma diminuição nas populações de plantas que dependem destes animais para disseminar suas sementes. Estudos das relações planta-animal-dispersor fornecem importantes informações para a conservação e manejo das áreas (Howe, 1984). Frutos maduros apresentam diferentes características morfológicas (síndromes de dispersão) como: cor, presença de alas, deiscência de cápsula e apresentação de sementes com arilo, que indicam adaptações para a dispersão por diferentes vetores (Van der Pijl, 1982). Os frutos de acordo com seu agente dispersor, são 15 classificados em vários grupos, entre eles, anemocóricos (dispersão pelo vento) e zoocóricos (dispersão por animais). As síndromes de dispersão apresentam-se como parâmetros promissores para a análise mais detalhada dos processos ecológicos. A presença de dominância de uma síndrome indica que estão ocorrendo condições que propiciam seu estabelecimento. É possível pois, diagnosticar as condições de conservação de fragmentos florestais com base na proporção das síndromes de dispersão das espécies vegetais presentes nestes fragmentos (Piña-Rodrigues, 1994). Segundo Gentry (1982) e Stiles (1985), até 98% das plantas de sub-bosques tropicais podem ser zoocóricas, e cerca de 1/3 das aves residentes em muitas florestas tropicais dependem de frutos para sua alimentação (Terborgh, 1980). 4. OS ESTUDOS EM COMUNIDADES DE AVES Comunidades ecológicas são coleções de espécies que co-ocorrem no tempo e no espaço e que potencialmente interagem entre si. O estudo em ecologia de comunidades focaliza os padrões entre e dentre estas coleções, bem como os processos que os geram (McPeek & Miller, 1996). A primeira linha de estudos em comunidades identificável na literatura é aquela que trabalha com ecologia teórica. No início dos anos 60, Hairston et alii (1960) comentaram sobre a estrutura de comunidades, versando sobre os fatores que limitam as populações de diferentes níveis tróficos. Segundo os autores, embora existam fatores limitantes característicos de cada nível, os recursos e, consequentemente, a competição normalmente interferem nos tamanhos de populações tanto de produtores, como de herbívoros e predadores. Ainda nesta época, MacArthur & MacArthur (1961) discutiram fatores que afetariam a diversidade de aves. Opinam que a diversidade de plantas por si só em nada afeta a diversidade das aves, exceto para casos como frugivoria. O perfil da vegetação (alturas diferentes) porém, formaria mosaicos diferentes que favoreceriam a diversidade. Também Tramer (1969) publicou uma resenha sobre diversidade em comunidades de aves ainda nesta década. Baseado em dados obtidos em literatura, o autor procurou avaliar comunidades de aves em fase reprodutiva em nove tipos de vegetação diferentes, sugerindo que a variação na diversidade de espécies seria uma estratégia útil em ambientes previsíveis; enquanto a riqueza de espécies poderia ser ajustada para ambientes imprevisíveis. 16 O conceito de competição em comunidades ecológicas voltou a ser abordado por Roughgarden (1983). Neste trabalho, o autor critica fortemente uma corrente do fim dos anos 70 e começo dos 80, quando diversos artigos questionaram a existência da competição nos processos evolutivos de comunidades ecológicas. Roughgarden (1983) discorda deste ponto de vista e afirma que tanto competição quanto coevolução entre competidores são forças evolutivas importantes e atuantes, existindo diversos casos que comprovariam isto. Voltando ao assunto de competição, Lockwood & Moulton (1994) verificaram que nas aves introduzidas no arquipélago de Bermudas que conseguiram se estabelecer, as diferenças morfológicas entre espécies eram maior do que se poderia esperar do acaso. Estas diferenças então, teriam sido causadas pela competição interespecífica e que as diferenças morfológicas teriam sido estratégias para atenuar o processo competitivo. Cotgreave & Harvey (1994) procuraram verificar se a uniformidade da abundância em comunidades de aves estaria relacionada com fatores bióticos e/ou abióticos. A partir de dados obtidos em literatura de 90 comunidades de aves, analisando parâmetros de tamanho do corpo, estrutura das guildas de alimentação e filogenia, os autores sugerem que a competição poderia explicar os padrões encontrados. Abrams (1996) discutiu as possíveis conseqüências de introdução e remoção de espécies em uma comunidade sobre as demais espécies competidoras, questionando sobre a possibilidade de se prever as alterações quanto a utilização de recursos. As alterações evolutivas esperadas seriam basicamente no sentido de explorar recursos adicionais e/ou especializações na exploração dos recursos de maior valor nutritivo Adicionalmente, o autor observou que esperam-se mudanças na densidade populacional em um sistema predador-presa quando se removem os predadores. McPeek & Miller (1996) argumentam que os padrões observados em comunidades naturais são resultantes tanto dos processos ecológicos como de sua história evolutiva. Ainda, conforme estes autores, o conhecimento dos eventos evolutivos em comunidades pode contribuir para o desenvolvimento de práticas de conservação. Recentemente também debates teóricos sobre metodologias têm sido incrementadas com uso de simulações. Assim, Remsen & Good (1996) abordam os problemas de se estimar parâmetros de comunidades de aves, principalmente abundância, somente com os resultados de capturas com redes ornitológicas. Estudos em campo perfazem a outra linha de trabalhos envolvendo comunidades de aves tropicais. Nesta linha, a disponibilidade de recursos alimentares para aves frugívoras tem 17 sido recentemente alvo de diversas investigações. Willson (1974), rescenseando aves em reprodução, encontrou correlação linear entre diversidade de espécies e altura e formação da vegetação, e que a presença de espécies arbóreas seria fundamental, permitindo novas possibilidades de exploração do ambiente e, portanto, maior diversidade de aves . Karr (1976) associou a diversidade de aves em comunidades tropicais com a sazonalidade e abundância dos recursos alimentares. Loiselle & Blake (1990; 1991a) fizeram esta relação para frutos e aves frugívoras, observando a influência do ritmo de frutificação e do gradiente altitudinal sobre a variação temporal de aves, em aspectos como abundância e ciclos de muda e reprodução. Blake et alii (1990a) revisaram comparativamente três métodos freqüentemente usados para avaliar a oferta de frutos para aves, a fenologia, a estimativa de frutos caídos e a análise da quantidade residual (frutos que permanecem na planta), ressaltando a necessidade de que estudos sobre ciclos de abundância entre frutos e frugívoros sejam simultâneos. Blake & Loiselle (1991b) observaram a existência de flutuações nas taxas de capturas com redes ornitológicas relacionadas com a variação na disponibilidade de frutos em floresta tropical na América Central. Bierregaard (1990) e Stouffer & Bierregaard (1995) classificaram as aves de subbosque capturadas com redes ornitológicas em fragmentos florestais na Amazônia, em diversas guildas tróficas, correlacionando-as com o tamanho dos fragmentos. Verificaram a predominância de insetívoros, que representaram até 92,8% de todos os indivíduos amostrados, quando se incluem todos aqueles que consomem estes artrópodes, seja primária ou secundariamente. Diversos fatores abióticos também afetam a estrutura de comunidades de aves. Karr (1980), comparou em termos de riqueza de espécies e estrutura trófica a avifauna de subbosques tropicais, observando variações entre e dentre continentes. A maior riqueza de espécies foi encontrada na região neotropical. Quanto às guildas, observou-se que a distribuição de indivíduos e espécies por guildas era relativamente estável na mesma região geográfica, mas diferente entre os continentes. Blake et alii (1990b) e Blake & Loiselle (1992b) relacionaram a estrutura trófica de comunidades de aves com o habitat. Constataram, em estudos na América Central, que a diversidade de habitats influencia fortemente o número de espécies que nele podem ocorrer. Quanto às guildas tróficas, a estação reprodutiva altera sua composição, promovendo principalmente um aumento de insetívoros. 18 A questão da fragmentação florestal e suas conseqüências para as comunidades de aves tem sido abordada diversas vezes em trabalhos de campo após Simberloff & Abele (1982), quase sempre voltados para conservação. Blake & Hoppes (1986) traçaram uma relação entre a exploração de clareiras em matas fragmentadas e a oferta de alimentos nestes ambientes. Bolger et alii (1991) discorreram sobre alguns fatores que determinam os padrões de ocorrência de espécies de aves em fragmentos. Harris & Silva-Lopez (1992) discutiram diretamente as conseqüências da fragmentação sobre a conservação da biodiversidade. Kattan et alii (1994) traçaram um histórico da fragmentação florestal e extinções de espécies de aves no oeste dos Andes na Colômbia, relatando a perda de 31% da avifauna original a partir de 1911. Um fragmento florestal bem estudado é a Reserva Mata de Santa Genebra, em Campinas (SP). Neste local, Silva et alii (1992) avaliaram a avifauna, comparando seus dados, obtidos a partir de 1982, com aqueles coletados na década de 70 (Willis, 1979). Foi verificado que a maioria das aves que desapareceram neste período era de espécies insetívoras que exploram o estrato intermediário e o sub-bosque da mata. Em contrapartida, a maior parte das colonizadoras era formada por aves que exploram a periferia das matas a procura de alimentos diversos, bem mais generalistas que as primeiras. Neste mesmo local, mais recentemente, Aleixo & Vielliard (1995) relataram a redução de 54% da avifauna de interior de mata, com a extinção local de 30 espécies, restando apenas 65 espécies (48,5%) residentes na mata. O fato foi associado ao grau de isolamento e à degradação da cobertura vegetal nesta Reserva. Em recenseamentos de aves realizados no Estado de São Paulo, Willis (1979) e Willis & Oniki (1993) constataram a redução mesmo no número de espécies que habitam áreas abertas naturais (clareiras e bordas de matas), lembrando que espécies que exploram estes ambientes não necessariamente se adaptam a pastos e plantações, já que estes são ambientes recentes criados pelo homem. Na região amazônica, Lovejoy et alii (1986) e Bierregaard et alii (1992) observaram que, após a fragmentação de uma área de vegetação nativa, havia um súbito aumento nas taxas de capturas com redes ornitológicas, notadamente nos menores fragmentos restantes, mostrando o afluxo de novos indivíduos para estes fragmentos. Posteriormente entretanto, ocorria uma drástica diminuição no número de capturas, principalmente dos antigos residentes, o que refletiria a redução de suas populações, provavelmente em função do contato com estes novos indivíduos, gerando processos competitivos mais intensos. 19 Hagan et alii (1996) desenvolveram e testaram um modelo visando explicar os primeiros efeitos da fragmentação sobre a densidade de aves em reprodução. Verificaram um aumento inicial na densidade, provocada pelo deslocamento dos indivíduos para os habitats restantes. A seguir, houve correlação inversa entre densidade e sucesso reprodutivo, o que os autores explicaram pelas alterações orgânicas e comportamentais causadas pela alta densidade. Por fim, ressaltam a importância da manutenção de grandes áreas contínuas de vegetação nativa, cujos interiores estariam livres dos efeitos da dinâmica de borda. Também com uso de redes ornitológicas durante vários anos seguidos, Peach et alii (1996) estimaram o sucesso reprodutivo de diversos Passeriformes na Inglaterra e Irlanda. Neste estudo, os autores observaram as variações anuais nas populações de adultos e na taxa de recrutamento (proporção de jovens capturados) durante cinco anos. Com esforço mais concentrado (18 meses), Wunderle (1995) monitorou uma comunidade de aves em Porto Rico avaliando as conseqüências de uma grande perturbação natural - a passagem de um furacão - sobre aquela comunidade. Entre outros resultados, mostrou que a descaracterização da vegetação levou a alterações nos padrões das guildas das comunidades, que só se restabeleceria com a recuperação natural da floresta. Estrada et alii (1997) estudaram no México os efeitos da ação antrópica sobre as aves, comparando áreas perturbadas com não-perturbadas. Entre seus resultados, detectaram que 80% das espécies amostradas ocorriam em agriculturas, e 79% em ambientes florestais, e que a riqueza de espécies estava associada à distância de isolamento e à continuidade da ação humana nos fragmentos florestais. Com a utilização de ninhos e ovos artificiais, Keyser et alii (1998) avaliaram os efeitos da fragmentação sobre a predação de ovos, concluindo que a atividade dos grandes predadores aumentou conforme a floresta tornava-se mais fragmentada. Este fato poderia então ser parcialmente responsável pelo declínio das populações de Passeriformes neotropicais que aninham no solo, quando ocorre a fragmentação. Petit et alii (1999) estudaram comunidades de aves no Panamá, amostrando um gradiente desde floresta densa até áreas agrícolas. Com seus resultados, os autores concluíram que mesmo áreas alteradas teriam valor ecológico para diversas espécies de aves, e que programas de conservação em regiões tropicais deveriam também dar atenção às áreas agrícolas, observando principalmente condições de reprodução e sobrevivência das espécies que habitam estes ambientes. 20 OBJETIVOS 1. OBJETIVOS GERAIS Este trabalho tem como objetivos avaliar características ecológicas (abundância, diversidade, guildas de alimentação, oferta de recursos alimentares) e biológicas (épocas de reprodução e muda de penas e dados morfométricos) em comunidades de aves de sub-bosque de várias formações vegetais na região de Três Lagoas (MS) e suas relações com a vegetação (disponibilidade de alimentos), ambiente físico (clima) e fatores antrópicos (descaracterização da cobertura vegetal nativa). 2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS • Verificar a eficiência das redes de malha 36 mm na captura de aves de sub-bosque da região • Conhecer a avifauna de sub-bosque da região, estimando tamanho das populações • Determinar a abundância relativa das espécies e famílias capturadas • Comparar diversos tipos de ambientes quanto à abundância e riqueza de espécies • Verificar associação de aves (especificidade) com os diferentes ambientes • Observar similaridade entre espécies conforme ambientes que exploram • Obter dados morfométricos das aves da região • Determinar guildas tróficas e suas variações entre locais e estações do ano • Avaliar oferta de alimento para aves frugívoras • Determinar as estações de reprodução e substituição de penas ao longo do ano 21 MATERIAL E MÉTODOS 1. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDOS Os trabalhos de campo ocorreram entre agosto de 1994 e dezembro de 1996, tendo sido realizados em Hortos Florestais administrados pela Empresa Chamflora Três Lagoas Agroflorestal Ltda., abrangendo um total de 14 pontos de coletas (Figura 1.1). Os limites geográficos da área foram, aproximadamente, os seguintes: 20o 16’ S e 51o 14’ W (norte); 21o 00’ S e 52o 25’ W (oeste) e 21o 17’ S e 51o 51’ W (sul). O extremo leste foi o Rio Paraná.. Para a denominação destes locais, foram adotados os nomes dos tipos vegetacionais, a partir da descrição proposta por Marília Noronha (manuscrito não publicado). As coletas foram realizadas em duas etapas (Tabela 1). Na primeira etapa, de agosto de 1994 a outubro de 1995, foram marcados cinco locais diferentes, visitados mensalmente, sendo quatro pertencentes ao Horto Barra do Moeda, no município de Três Lagoas - MS, cujas coordenadas geográficas são 20o 59’ S; 51o 46’ W e um situado no Horto Rio Verde, no município de Brasilândia (MS), cujas coordenadas geográficas são 20o 55’ S; 52o 08’ W (Figura 1). 22 Figura 1. Localização da região estudada. 23 No Horto Barra do Moeda, área de 5698 ha, existem várias formações vegetais nativas, como matas ciliares, cerrado, cerradão, campos sujos, (cerca de 2000 ha de área de preservação), além de cerca de 40 talhões de eucalipto (Eucalyptus spp. – 2980 ha). Neste horto, os pontos foram definidos em áreas de cerrado sensu lato e vegetação associada a curso d’água (conforme descrição de Marília Noronha – manuscrito não publicado): 1. Cerrado: cerrado sensu stricto - situado em um fragmento com cerca de 340 ha, com árvores esparsas, cobrindo mais de 10% da área do solo; com alturas médias de 4 m aproximadamente. Os arbustos (plantas lenhosas com altura total entre 0,5 e 2 m, cobrindo mais de 40% da área do solo. O transecto foi lançado a partir de 20 m da borda em uma inclinação de 30º aproximadamente. 2. Cerradão: vegetação com predomínio de árvores, com altura de cerca de 8 m, sendo que a projeção vertical das copas ultrapassa 60%. Foi delimitado um transecto paralelo à borda, a cerca de 50 m. Está situado no mesmo fragmento onde se localiza o Cerrado. 3. Mata ciliar: floresta que acompanha o Rio Paraná, cujo dossel apresenta árvores mais altas que o cerradão, com certo grau de caducidade. A localização desta floresta a situa dentre aquela vegetação que desaparecerá com o advento do lago artificial da Usina Hidrelétrica de Porto Primavera, prevista para os próximos anos. Trata-se de uma faixa estreita de mata, cortada por uma estrada vicinal. Foram lançados transectos nos dois lados da estrada, a uma distância de 20 m um do outro, nos quais faz-se um revezamento. Dada a sua proximidade, foram considerados como um único ponto de coleta. 4. Eucaliptal: talhão de eucaliptos comercial, no qual são efetuadas limpezas periódicas com uso de tratores. A 50 m da borda, definiu-se um transecto paralelo à esta. No Horto Rio Verde (36784 ha), além dos talhões de eucalipto (27338 ha), encontramse também áreas de preservação, onde predominam cerrado, matas secundárias, cerradão e matas ciliares. Foi estudado neste Horto: 5. Cerradão degradado: existência de algumas árvores altas (“testemunhas”), com predomínio de árvores baixas e arbustos. A degradação desta área pode ser constatada principalmente pelas marcas de queimadas deixadas na vegetação. O local situa-se em uma reserva de cerca de 800 ha, cortada por uma estrada vicinal precária. A 50 m desta estrada e paralelo a ela, lançou-se um transecto. 24 A segunda etapa do trabalho foi iniciada em novembro de 1995 e concluída em dezembro de 1996. Foram amostrados dez pontos diferentes, visitados bimensalmente. Os locais estudados nesta segunda etapa foram os seguintes (Figura 2): a) Horto Barra do Moeda - com dois pontos de coleta. 3. Mata ciliar: foi dada continuidade nas coletas neste local. 6. Cerradão - na mesma reserva de 340 ha, em condições semelhantes ao cerradão da primeira etapa. O transecto foi lançado paralelamente à borda, a 300 m no interior da vegetação. b) Horto Buriti (4020 ha) (20º 50’ S; 51º 40’ W) 7. Cerradão: no Horto Buriti, foi estabelecido um ponto de coleta, situado a 300 m da borda da mata de uma reserva de cerca de 400 hectares. Trata-se de um cerrado denso, onde se observa uma grande quantidade de espécies vegetais com frutos carnosos. c) Horto Matão (16903 ha) (20º 20’S; 51º 40’W) 8. e 9. Dois pontos de coleta foram delimitados neste horto, em uma mesma reserva caracterizada por vegetação baixa e tortuosa, típica dos ambientes de cerrado. Há marcas de fogo no local. Os pontos situavam-se a aproximadamente 300 m da borda da mata. d) Horto Palmito (2081 ha) (20º 50’S; 51º 40’W) 10. Eucaliptal com sub-bosque: talhão de eucalipto onde o sub-bosque desenvolveu-se plenamente, ocorrendo espécies nativas como Miconia e Xylopia. A distância da borda era de aproximadamente 100m. e) Horto Rio Verde. Existiram dois pontos de coleta neste local. 11. Cerradão degradado (20º 50’ S; 51º 40 W): a vegetação mescla árvores baixas com outras mais altas. A presença de fogo recente era evidenciada pelas marcas de mais de 2 m de altura deixadas nas árvores e pela grande quantidade de cipós e bambus. O transecto situava-se a 300 m no interior da vegetação. 12. Mata degradada (20º 40’ S; 51º 40’ W). Um pequeno fragmento próximo à margem esquerda do Rio Verde, tendo sido isolado da mata ciliar que acompanha este rio; bastante alterado e descaracterizado. Dado o tamanho exíguo deste fragmento, o transecto tinha início a 20 m da bordadura da mata. 25 f) Horto Santa Luzia (3690 ha) (21º 00’ S; 51º 50’ W). 13. Cerrado: Situado a 200 m no interior da vegetação, cortado paralelamente à borda. 14. Cerrado degradado: local sujeito à fogo recente, com marcas de queimada nas árvores e uma grande quantidade de bambus evidenciam a degradação deste local. A distância deste transecto, paralelo à borda, era de cerca de 50m. 2. CLIMA Na região de Três Lagoas, para o período amostrado, registrou-se a temperatura média de 30,97oC. Entre os meses de julho/94 e julho/95, registraram-se as condições climáticas nos Hortos Barra do Moeda e Rio Verde descritas nas Figuras 3. A, B e C), que enquadram-se na climatologia descrita por Pinto (1994) para o cerrado. Em relação à temperatura, este último Horto apresentou valores mais elevados. Constatou-se um padrão onde as menores temperaturas ocorreram em junho e julho e as mais elevadas, em dezembro. O mês mais chuvoso foi dezembro e o mais seco, julho. Assim, ficaram caracterizadas duas estações bem definidas, inverno seco e com temperaturas mais amenas, de maio a setembro; e verão quente e chuvoso entre outubro e abril. A província do cerrado tem um clima tropical com precipitação variando de 750-2000 mm/ano em média, com estação seca durando cerca de cinco meses (meados de maio a meados de outubro), podendo ser enquadrado no clima Aw e Cwa de acordo com o sistema de Köppen (Pinto, 1994). No período de outubro a abril as precipitações em suas áreas podem variar entre 1000 a 1500 mm de chuvas, com distribuição relativamente uniforme. Durante a estação seca, que se estende por cerca de 5 meses, as chuvas são escassas, provendo umidade irregular. A temperatura média anual neste ecossistema, segundo Freitas (1971), seria de 22ºC. 26 Tabela 1. Denominação adotada e localização dos pontos utilizados durante as coletas de dados. NÚME DENOMINA VEGETAÇÃO HORTO MUNICÍPIO PERÍODO DE COLETA RO ÇÃO 01 CERRADO Cerrado Barra do Moeda Três Lagoas Julho/94 a Outubro/95 02 CERRADÃO Cerradão Barra do Moeda Três Lagoas Julho/94 a Outubro/95 03 PESQUEIRO mata ciliar Barra do Moeda Três Lagoas Julho/94 a Outubro/95 04 EUCALIPTAL eucaliptal limpo Barra do Moeda Três Lagoas Agosto/94 a Outubro/95 05 LAJEADO Cerradão degradado Rio Verde Brasilândia Agosto/94 a Outubro/95 06 HBM1 Cerradão Barra do Moeda Três Lagoas Novembro/95 a Dezembro/96 07 HBUR Cerradão Buriti Três Lagoas Novembro/95 a Dezembro/96 08 HMAT1 Cerrado Matão Selvíria Novembro/95 a Dezembro/96 09 HMAT2 Cerrado Matão Selvíria Novembro/95 a Dez/96 Dezembro/96 10 HPAL Eucaliptal sujo Palmito Três Lagoas Novembro/95 a Dezembro/96 11 HRV1 Cerradão degradado Rio Verde Brasilândia Novembro/95 a Dezembro/96 12 HRV2 Mata degradada Rio Verde Brasilândia Novembro/95 a Dezembro/96 13 HSL1 Cerrado Santa Luzia Três Lagoas Novembro/95 a Dezembro/96 14 HSL2 Cerrado degradado Santa Luzia Três Lagoas Novembro/95 a Dezembro/96 27 Figura 2. Aspecto de alguns dos pontos estudados. A = Horto Matão (HMAT); B = Horto Santa Luzia (HSL1); C = Horto Buriti (HBUR); D = Horto Rio Verde (Lajeado); E = Horto Santa Luzia (HSLUZ). 45 A Umidade relativa do ar (%) temperatura (ºC) 27 40 35 30 25 20 15 100 B 90 80 70 60 50 40 30 10 20 5 10 0 se O t ut /9 5 no v de z ju l ag o de z ja n fe v m ar ab r m ai ju n 4 ou t no v Se t/9 Ju n/ 95 5 M ai /9 5 A br /9 Fe v/ 95 M ar /9 5 Ja n/ 95 D ez /9 4 O ut /9 4 N ov /9 4 Se t/9 4 A go /9 4 Ju l/9 4 0 meses do ano B. Moeda R. Verde R. Verde 300 C 250 Figura 3. Medidas de (A) temperatura (ºC); (B) umidade relativa 200 do ar (%) e (C) precipitação (mmHg) médias registradas nos 150 Hortos Barra do Moeda e Rio Verde, de Julho/94 a Junho/95. 100 Fonte: Chamflora Três Lagoas Agroflorestal Ltda. 50 /9 5 Ju n M ai /9 5 /9 5 A br /9 5 M ar 5 /9 5 Fe v n/ 9 Ja 94 /9 4 D ez ov / N O ut /9 4 /9 4 Se t /9 4 A go /9 4 0 Ju l Pluviosidade (mmHg) B. Moeda meses do ano B. Moeda R. Verde 29 3. CAPTURAS Foram efetuadas capturas utilizando-se em cada local de 10 a 16 redes ornitológicas (“mist nets”) de 12 x 2 m, dispostas em transectos lineares (adaptado da metodologia de Bierregaard, 1990), totalizando de 100 a 188 m de redes em cada local, desde cerca de 20 m da borda até a 300 m no interior da vegetação. Para fins de comparações, foi utilizado o índice de horas-rede1. Com o propósito inicial de se reduzir a seleção de aves pelo porte, e para fins de comparação, dois tipos de malhas foram utilizadas, 36 mm e 61 mm, sempre dispostas alternadamente. As redes eram abertas ao nascer do sol, em horários que variaram conforme as estações do ano, e fechadas às 15h00min. Para se comparar a eficiência (aqui definida como o maior número de capturas e maior diversidade de espécies capturadas), consideram-se o peso e o comprimento total dos indivíduos amostrados. As anilhas metálicas utilizadas na marcação das aves foram cedidas pelo CEMAVE/IBAMA e colocadas no tarso das aves com alicate de ponta fina. Quando necessária, a identificação dos indivíduos capturados foi feita com auxílio de guias de campo (Frisch, 1981; Dunning, 1982; Meyer de Schauensee, 1982, Hilty & Brown, 1986; Dubs 1992 e Sick, 1985 e 1997), além de documentação fotográfica e coleta e taxidermia dos espécimes que morreram acidentalmente nas redes. As aves taxidermizadas foram depositadas no Laboratório de Zoologia do Departamento de Ciências Naturais da Univ. Fed. Mato Grosso do Sul, em Três Lagoas (MS). A nomenclatura e a seqüência das espécies segue o adotado por Sick (1997). Dados morfométricos como comprimentos de asa, cauda e total foram obtidos com régua metálica. Medidas de cúlmem, largura e altura do bico, e tarso foram registradas com paquímetro metálico. O peso foi obtido pesando-se as aves acondicionadas em sacos de pano, descontando-se depois o peso do mesmo, com auxílio de dinamômetros (“pesolas”), com capacidade de 50, 100, 300 e 1000g. Para anotações destes eventos, foi utilizada uma ficha de campo padrão. A diversidade de espécies foi estimada pelo Índice de Diversidade de ShannonWeaver. Para determinação de similaridade entre os ambientes foi empregada a Distância Euclidiana e Análise de Cluster (Ludwig & Reynolds, 1988). As correlações entre diversos 30 eventos foram avaliadas através dos coeficientes de Spearman e de Pearson. O teste de aderência adotado foi o Qui-quadrado e, para comparações de médias, utilizaram-se t-Student e Análise de Variância (Vieira & Hoffman, 1980; Ludwig & Reynolds, 1988; Fowler & Cohen, 1995; Sokal & Rohlf, 1995). Para determinação da dieta, as aves capturadas foram mantidas por cerca de 10 minutos em sacos de pano contendo papel filtro em seu interior. As fezes e regurgitos obtidos com este procedimento foram acondicionas em recipientes de plástico etiquetados contendo nome da espécie, sexo, data e local de coleta e trazidas para laboratório, onde foram triadas com auxílio de microscópio estereoscópico e estiletes de ponta fina. O material em bom estado foi acondicionado em formol a 10%, enquanto o material muito fragmentado foi descartado após analisado. Em relação àquelas espécies capturadas das quais não se obtiveram amostras de sua dieta, foi considerado como hábito alimentar principal o descrito por Sick (1997). Também, espécies de beija-flores de hábitos preferencialmente nectarívoros assim foram considerados, mesmo em não se encontrando néctar em suas fezes, alimento de rápida digestão. A determinação do período reprodutivo (fase de incubação) foi feita pela constatação de placa de incubação no ventre das aves, tendo sido utilizadas duas fases adaptadas do Manual de Anilhamento de Aves Silvestres (IBAMA, 1994): 1. a vascularização é evidente, algumas pregas estão presentes, e algum fluído abaixo da pele começa a tornar-se perceptível, dando à área uma coloração rosácea-opaco, contrária à coloração vermelha-escura dos músculos. 2. a vascularização é extrema, a placa de incubação é espessa e enrugada, há muito mais fluído embaixo da pele. Este é o grau máximo de extensão da placa de incubação e corresponde, aproximadamente, ao período em que a ave está de fato incubando os ovos. A muda de penas foi constatada pela presença de canhões de penas novas nas rêmiges secundárias, nas retrizes e nas penas de contorno. Considerando-se que a muda das primárias abrange todo o período individual, a substituição destas penas foi considerada como base para análise da muda de asa, tendo sido levado em conta somente mudas simétricas (mudas nãoacidentais) (Mallet-Rodrigues et alii, 1995). 1 O índice horas-rede é calculado multiplicando-se o número de horas de trabalho de cada sessão de anilhamento pelo número de redes utilizadas. 31 A maturação sexual foi determinada pela presença da comissura labial (apresentada nos jovens), estrutura de cor clara e sensível, localizada na base da maxila e da mandíbula, tendo os indivíduos sido classificados em jovens ou adultos. 4. AVALIAÇÃO DA OFERTA DE ALIMENTO Para estes estudos, apenas dois hortos foram amostrados, Horto Barra do Moeda (três pontos de coleta), e Horto Rio Verde (um ponto de coleta), no período de julho de 1994 a junho de 1995. Foram utilizadas as seguintes áreas, cujos nomes e números entre parênteses correspondem aos locais anteriormente descritos: (a) reserva de cerca de 380 ha, onde se amostrou uma área de cerrado (Cerrado - 1) e outra de cerradão (Cerradão - 2), no Horto Barra do Moeda. (b) mata ciliar (Pesqueiro - 3), às margens do Rio Paraná, no Horto Barra do Moeda. (c) Horto Rio Verde, onde foi amostrada uma reserva de cerca de 950 ha, com instalação de uma parcela em área de cerradão degradado (Lajeado - 5). Nestes locais, inicialmente foi efetuado um levantamento florístico preliminar, instalando-se em cada área uma parcela medindo 50 x 10 m dividida em sub-parcelas de 5 m de largura e 10 m de comprimento, perfazendo um total de quatro parcelas (Figura 4). Foram realizadas coletas de material botânico com podão e tesoura de poda, com os quais confeccionaram-se excicatas para posterior identificação. Este material foi enviado para especialista na Universidade Federal de Viçosa, tendo sido depositado no herbário daquela Instituição. Duplicatas foram entregues ao Departamento de Ciências Naturais/CEUL/UFMS, sendo incorporadas ao herbário local. As síndromes de dispersão foram estabelecidas com base em observações de campo e literatura (Van der Pijl, 1982; Lorenzi, 1992). Os estudos de fenologia foram realizados nas plantas ocorrentes nas parcelas anteriormente citadas, em indivíduos marcados com plaquetas plásticas numeradas. Os registros de acompanhamento fenológico foram realizados em plantas com menos de três m de altura (Loiselle & Blake, 1994). Os seguintes eventos fenológicos foram registrados (adaptado de Gribel & Hay, 1993): (a) frutos em desenvolvimento; (b) frutos maduros. 32 50m 10m 5m 10m Figura 4. Esquema de uma parcela 33 RESULTADOS E DISCUSSÃO 1. ECOLOGIA DE COMUNIDADES 1.1 Eficiência das redes Após 13468 horas-rede, obtiveram-se 1295 capturas válidas1, das quais 784 (60,6%) com redes de 36mm e 511 (39,4%) com redes de 61mm (X2 = 28,96; p = 0,01). Considerando-se 101 espécies capturadas, 92 (91,2%) foram apanhadas nas redes de malha menor, enquanto as redes de 61mm amostraram 69 (67,6%) destas espécies (Tabela 1.1). Tabela 1.1. Indivíduos (incluindo recapturas) e espécies capturadas, ordenadas conforme número de capturas, com redes de malhas 36 e 61mm. (s1% = significativo a 1%; s0,5% = significativo a 0,5%; ns = não-significativo). ESPÉCIES 36mm 61mm total X2 Significância Basileuterus flaveolus 103 43 146 12,329 s0,5% Cnemotriccus fuscatus 58 24 82 7,049 s0,5% Pipra fasciicauda 47 20 67 5,440 s1% Dysithamnus mentalis 18 3 21 5,357 s1% Leptotila verreauxi 3 14 17 3,559 s1% Poecilurus scutatus 12 1 13 4,654 s1% Vireo chivi 11 2 13 3,115 s1% Platyrhinchus mystaceus 12 0 12 6,000 s1% Camptostoma obsoletum 10 1 11 3,682 s1% Amazilia fimbriata 8 1 9 2,722 s1% Piaya cayana 0 7 7 3,500 s1% Thamnophilus punctatus 51 34 85 1,700 ns Saltator similis 42 38 80 0,100 ns 1 Não se registrou o número da rede onde ocorreram algumas das capturas, sendo então desconsideradas para esta análise. 34 ESPÉCIES 36mm 61mm total X2 Significância Turdus leucomelas 44 35 79 0,513 ns Momotus momota 31 43 74 0,973 ns Turdus amaurochalinus 23 27 50 0,160 ns Casiornis rufa 21 16 37 0,338 ns Myiarchus tyrannulus 18 16 34 0,059 ns Tachyphonus rufus 19 10 29 1,397 ns Sittasomus griseicapillus 13 11 24 0,083 ns Cyclarhis gujanensis 13 6 19 1,289 ns Leptotila rufaxilla 7 12 19 0,658 ns Claravis pretiosa 6 11 17 0,735 ns Eucometis penicillata 11 5 16 1,125 ns Dendrocolaptes platyrostris 9 6 15 0,300 ns Hemitriccus margaritaceiventer 12 3 15 2,700 ns Leptopogon amaurocephalus 11 4 15 1,633 ns Columbina talpacoti 5 9 14 0,571 ns Thamnophilus doliatus 6 8 14 0,143 ns Coryphospingus cucullatus 10 3 13 1,885 ns Nonnula rubecula 7 6 13 0,038 ns Lepidocolaptes angustirostris 6 6 12 - ns Taraba major 4 8 12 0,667 ns Cyanocorax chrysops 5 6 11 0,045 ns Automolus leucophthalmus 4 6 10 0,200 ns Arremon flavirostris 4 5 9 0,056 ns Elaenia mesoleuca 7 2 9 1,389 ns Myiodinastes maculatus 4 5 9 0,056 ns Campylorhamphus trochilirostris 2 6 8 1,000 ns Corythopis delalandi 5 3 8 0,250 ns Nystalus maculatus 2 6 8 1,000 ns Lathrotriccus euleri 4 2 6 0,333 ns Basileuterus hypoleucus 5 0 5 2,500 ns 35 ESPÉCIES 36mm 61mm total X2 Significância Elaenia flavogaster 2 3 5 0,100 ns Empidonomus varius 2 3 5 0,100 ns Monasa nigrifrons 2 3 5 0,100 ns Pitangus sulphuratus 3 2 5 0,100 ns Synallaxis frontalis 4 1 5 0,900 ns Thraupis sayaca 4 1 5 0,900 ns Elaenia parvirostris 2 2 4 - ns Galbula ruficauda 3 1 4 0,500 ns Hylocharis chrysura 4 0 4 2,000 ns Myiopagis viridicata 4 0 4 2,000 ns Tangara cayana 3 1 4 0,500 ns Veniliornis passerinus 3 1 4 0,500 ns Antilophia galeata 2 1 3 0,167 ns Chloroceryle americana 3 0 3 1,500 ns Nyctidromus albicollis 2 1 3 0,167 ns Pachyramphus polychopterus 2 1 3 0,167 ns Picumnus sp. 3 0 3 1,500 ns Thalurania furcata 3 0 3 1,500 ns Thlypopsis sordida 2 1 3 0,167 ns Thraupis palmarum 2 1 3 0,167 ns Brachygalba lugubris 2 0 2 1,000 ns Chlorostilbon aureoventris 1 1 2 - ns Colaptes melanochloros 1 1 2 - ns Coccyzus melacoryphus 1 1 2 - ns Crypturellus tataupa 0 2 2 1,000 ns Formicivora rufa 2 0 2 1,000 ns Neopelma palescens 2 0 2 1,000 ns Oryzoborus angolensis 2 0 2 1,000 ns Picumnus guttifer 1 1 2 - ns Serpophaga subcristata 2 0 2 1,000 ns 36 ESPÉCIES 36mm 61mm total X2 Significância Tyrannus melancholicus 1 1 2 - ns Zonotrichia capensis 2 0 2 1,000 ns Antrachothorax nigricollis 1 0 1 0,500 ns Campephilus melanoleucos 1 0 1 0,500 ns Chrysolampis mosquitus 1 0 1 0,500 ns Colibri serrirostris 1 0 1 0,500 ns Columbina minuta 1 0 1 0,500 ns Cranioleuca vulpina 0 1 1 0,500 ns Dendrocolaptes picumnus 0 1 1 0,500 ns Geotrygon montana 1 0 1 0,500 ns Glaucidium brasilianum 0 1 1 0,500 ns Habia rubica 1 0 1 0,500 ns Hydropsalis brasiliana 0 1 1 0,500 ns Myiarchus ferox 0 1 1 0,500 ns Myiophobus fasciatus 1 0 1 0,500 ns Phaethornis pretrei 1 0 1 0,500 ns Phyllomyias fasciatus 1 0 1 0,500 ns Picumnus cirratus 1 0 1 0,500 ns Piranga flava 1 0 1 0,500 ns Polioptila domicola 1 0 1 0,500 ns Ramphocelus carbo 1 0 1 0,500 ns Rupornis magnirostris 1 0 1 0,500 ns Synallaxis albescens 1 0 1 0,500 ns Tityra cayana 0 1 1 0,500 ns Tolmomyias sulphurescens 1 0 1 0,500 ns Trichothraupis melanops 0 1 1 0,500 ns Turdus nigriceps 1 0 1 0,500 ns Xiphorhynchus guttatus 1 0 1 0,500 ns TOTAL DE CAPTURAS 784 511 1295 TOTAL DE ESPÉCIES 92 69 101 37 Portanto, redes de malha 36mm capturaram o maior número de indivíduos e de espécies. Por exemplo, Platyrhinchus mystaceus, uma das menores espécies, somente foi capturada com este tipo de rede. Entretanto, para as maiores espécies, as redes de 61mm foram mais eficientes, como é o caso de Piaya cayana (capturada apenas nestas redes), Momotus momota, Leptotila verreauxi, L. rufaxilla e Claravis pretiosa, além de alguns Passeriformes como Taraba major e Automolus leucophthalmus. Pode-se assumir que as redes de malha 36mm foram mais eficientes para a maioria das espécies capturadas. Para nove espécies detectaram-se diferenças estatisticamente significativas quanto ao número de indivíduos capturados nos dois tipos de rede. Destas, sete foram mais capturadas com redes de 36mm (Amazilia fimbriata, Dysithamnus mentalis, Cnemotriccus fuscatus, Camptostoma obsoletum, Platyrhinchus mystaceus, Pipra fasciicauda, Basileuterus flaveolus, Vireo chivi e Poecilurus scutatus) e duas com malha de 61mm (Piaya cayana e Leptotila verreauxi). Quanto aos tipos de vegetação estudados, em praticamente todos eles as redes de 36mm obtiveram o maior número de capturas, embora nem sempre as diferenças tivessem sido estatisticamente significativas (Tabela 1.2). Tabela 1.2. Tipos de vegetação, esforço amostral e número de capturas com redes de 36 e 61mm. VEGETAÇÃO Horas- 36mm 61mm TOTAIS X2 rede Signifi cância Cerradão 3341,1 232 115 347 19,72 1% Mata ciliar 2378,0 132 123 255 0,16 ns Cerrado 3074,2 198 124 322 8,50 1% Eucaliptal comercial 770,4 8 8 16 - - Eucaliptal com sub-bosque 632,9 19 22 41 0,11 ns Cerradão degradado 1958,0 128 80 208 5,54 5% Floresta degradada 708,8 30 20 50 1,00 ns Cerrado degradado 602,0 38 19 57 3,17 ns 13465,4 785 511 1296 TOTAIS 5% 38 Jenni et alii (1996), trabalhando somente com redes de 36mm, discutiram fatores que poderiam favorecer o escape das redes, considerando-se a fuga após a captura e a evitação em vôo. Os autores concluem que espécies diferentes (morfologia e massa corporal) e condições climáticas (vento, sombra) podem proporcionar respostas de fuga distintas. Em contrapartida, o tipo de ambiente não teria influenciado, embora em áreas abertas as aves teriam mais facilidade em enxergar e evitar as redes. Em relação à morfologia, as redes de 36mm capturaram aves de comprimento total variando de 10 a 450 mm (média = 164; d.p. = 64,7), tendo sido mais eficiente para aquelas entre 100 e 149 mm. O segundo tipo de malha amostrou indivíduos variando de 83 a 490 mm (média = 199; d.p. = 80,3), com maior eficiência entre 100 e 249mm. Mesmo nesta última classe entretanto, as redes de 36mm foram mais eficientes (Figura 1.1). Quanto à massa corporal, aves de 2,5g a 265g foram capturadas com as redes de malha menor (média = 24,5; d.p. = 25,5). Com as redes de malha 61mm, as massa corporais extremas foram 4,5g e 186g (média = 36g; d.p. = 33,8g). Ambos os tipos foram mais eficientes para aves de 10 a 20g, classe em que as redes de 36mm capturaram o maior número de indivíduos. 39 número de capturas 450 A 400 350 300 36m m 250 61m m 200 150 100 50 45 050 0 40 044 9 35 039 9 30 034 9 25 029 9 20 024 9 15 019 9 m en os de 9 10 014 9 9 0 número de capturas com primento total (mm) 400 36m m 61m m 350 B 300 250 200 150 100 50 m ai sd 90 e1 -1 0 00 g 0g g -9 0 80 70 -8 0 g g 60 -7 0 g 50 -6 0 g 40 -5 0 g -4 0 30 20 -3 0 g g -2 0 10 m en os d e1 0g 0 peso (g) Figura 1.1. Eficiência de redes de malhas 36 e 61mm na captura de aves, com relação ao comprimento total (A) e ao peso (B). 40 MacArthur & MacArthur (1974) sugeriram que um dos motivos pelos quais uma ave pode não ser amostrada quando se usam redes é o tamanho; ela pode ser grande ou pequena demais para se emaranhar nas malhas das redes. Jenni et alii (1996) argumentaram que a massa corporal e o tamanho do crânio seriam mais importantes do que o comprimento total na determinação das taxas de capturas, considerando-se a probabilidade de um indivíduo ter sua cabeça emaranhada nas malhas. Karr (1981) propôs que as redes de malha 36mm seriam mais efetivas na captura de aves para a maior parte dos ecossistemas terrestres. De fato, estas redes têm sido amplamente utilizadas em trabalhos mais recentes (Karr, 1980; Blake & Loiselle, 1991a; Loiselle & Blake, 1994). Paulo T. Z. Antas (com. pessoal) pondera que redes de malha 61mm incrementariam particularmente a captura de aves de maior porte, como Columbídeos, cujo número de capturas seria subestimado utilizando-se somente redes de 36mm. Pardieck & Waide (1992) entretanto, observaram que na maioria dos trabalhos envolvendo capturas, o tipo de malha não é citado. De 20 estudos sobre comunidades de aves que os autores revisaram, em apenas três o tamanho da malha foi especificado. Estes mesmos autores compararam redes de 30 e 36mm em Porto Rico, considerando somente a massa dos indivíduos capturados. Obtiveram 530 capturas, sendo 56% delas nas malhas de 30mm. Houve também diferenças quanto às classes de peso e os autores concluem que, para estudos sobre comunidades, o tipo de malha deve efetivamente ser considerado, o que seria um fator a reduzir os erros de amostragem envolvidos nesta metodologia. O uso simultâneo de dois tipos de redes tem a vantagem de aumentar a estimativa de abundância para algumas espécies, embora na maioria dos casos, as redes de malha 36mm foram mais eficientes. Quanto à diversidade de espécies, o uso isolado das redes de 36mm pode produzir praticamente os mesmos resultados do que quando do uso simultâneo de ambas. Utilizando-se somente redes de 36mm, pode-se aumentar as taxas de capturas de uma maneira geral, particularmente quando existe grande densidade de aves de menor tamanho, o que é o caso de sub-bosques tropicais. O uso das redes de 61mm não aumentou as taxas de capturas, exceto para algumas espécies maiores e com maior massa. Neste caso particular, o uso das duas redes simultaneamente é recomendado. 41 1.2. Locais de coletas Foi realizado um esforço amostral de 13468 horas-rede, tendo sido obtidas 1306 capturas, das quais 258 (19,75%) recapturas, somando 1048 indivíduos capturados. Destes, 84 (8,01%) não foram anilhados. Portanto, 964 indivíduos (91,98%) foram efetivamente anilhados (Tabelas 1.3 e 1.4) Tabela 1.3. Espécies, indivíduos, capturas e recapturas por Hortos e pontos de coleta. LOCAL PONTO ESPÉCIES RECAP TURAS 40 50 69 % RE CAPT 18,26 27,78 26,85 Cerrado Cerradão Pesqueiro 56 29 49 HBM1 Eucaliptal 18 6 54 15 62 16 8 1 12,90 6,25 Lajeado HRV1 29 22 131 49 160 51 29 2 18,13 3,92 HRV2 17 37 50 13 26,00 HORTO BURITI HB HBUR 24 87 107 20 18,69 HORTO SANTA LUZIA - HSL HSL1 20 58 61 3 4,92 HSL2 18 46 57 11 19,30 HORTO PALMITO – HP HPAL 16 35 41 6 14,63 HORTO MATÃO – HM HMAT1 12 29 34 5 14,71 HMAT2 7 10 11 1 9,09 HORTO BARRA DO MOEDA - HBM HORTO RIO VERDE - HRV INDIVÍ CAPTU DUOS RAS 179 219 130 180 188 257 42 Dos locais estudados, obtiveram-se os maiores percentuais de recapturas no cerradão (27,8%) e pesqueiro (26,85%). Segundo Marini & Cavalcanti (1996), poderia ser considerada como amostragem ideal de uma comunidade, aquela onde houvesse uma estabilização do número de espécies capturadas, ou o número de recapturas ultrapassasse 50% dos indivíduos. As recapturas do presente estudo estariam então aquém então do que se poderia esperar como “ideal”. Também o índice geral de recapturas (19,75%) ficou abaixo dos 50% sugeridos por estes autores. Na Amazônia, após sete anos de estudos, Bierregaard (1990) efetuou 24957 capturas, das quais 10931 (43,8%) recapturas, também abaixo do índice “ideal”. Este índice na verdade, depende muito dos locais, das espécies envolvidas e até mesmo do status reprodutivo. Segundo MacArthur & MacArthur (1974) existe uma tendência em as aves evitarem as redes após a primeira captura, e esta tendência varia conforme a espécie. Além disso, espécies migrantes estão sempre acrescentando novas recapturas em um trabalho desta natureza. Em locais onde exista trânsito destas espécies, pode ocorrer um menor número relativo de recapturas. Além disso, indivíduos temporariamente territoriais na estação reprodutiva tendem a ser recapturados com mais freqüência quando, por exemplo, estão se deslocando em busca de alimento para os ninhegos, conforme pôde ser observado no presente estudo para Nyctidromus albicollis. O Cerrado (1) apresentou o maior número de espécies entre todos os pontos de coleta., o que não necessariamente espelha qualidade, pois as espécies respondem diferentemente às alterações ambientais (Berg, 1997). Ambientes degradados podem atrair diversas espécies de aves, normalmente generalistas e oportunistas (Willis & Oniki, 1993). Pela sua proximidade com a borda do fragmento onde está inserido, este local pode ser utilizado também por aves de ambientes abertos, o que explicaria em parte esta relativamente grande diversidade de espécies. Seria a diferença entre o que se conhece como espécies do interior da mata, com maior sensibilidade à fragmentação florestal, e espécies de borda, favorecidas pela fragmentação (Berg, 1997). 43 Tabela 1.4. Esforço amostral (horas-redes) empregados em todos os locais de coleta. LOCAL Cerrado Cerradão Pesqueiro Jul/94 72 84 ago/94 96 96 96 set/94 96 96 96 out/94 108 120 114 nov/94 114 114 120 dez/94 120 120 120 jan/95 120 120 120 fev/95 120 120 114 mar/95 114 108 117 abr/95 108 108 105 mai/95 102 108 105 jun/95 102 108 102 jul/95 102 108 96 ago/95 111,6 108 99 set/95 108 114 114 out/95 123,6 111,6 96 nov/95 127,5 dez/95 jan/96 105 fev/96 mar/96 110,5 abr/96 mai/96 119 jun/96 jul/96 86,7 ago/96 set/96 119 out/96 nov/96 96,25 dez/96 TOTAL 1717,2 1743,6 2377,95 Eucalip Lajeado HBM1 HBUR HMAT1 HMAT2 HPAL HRV1 HRV2 HSL1 HSL2 TOTAL 156 96 384 96 84 468 108 96 546 108 96 552 120 90 570 120 480 110,4 96 560,4 108 90 537 96 417 102 417 84 396 96 402 103 421,6 102 438 108 439,2 135 113,1 123 90 588,6 115,5 140 100 355,5 126 133 113,75 130,6 95 703,35 107,2 113,7 220,9 110,5 107,2 111 119 90 648,2 119 133 104 119 475 107,4 116,2 91 112 85 630,6 104 120 94,2 318,2 104 110,5 110,5 110,5 85 607,2 97,5 119 216,5 119 97,5 99,7 80 515,2 96 90 60 246 111,6 108 93,5 90 76,5 575,85 80,3 102,3 182,6 770,4 1339 813,5 787,9 319 253 632,85 619 708,2 784,8 601,5 13467,9 44 A mata ciliar (Pesqueiro - 3) teve o segundo maior número de espécies capturadas. Apresenta um dossel bem formado, tendo maior umidade em função do Rio Paraná. Assim, torna-se um local importante para a avifauna, provavelmente oferecendo recursos alimentares, sítios de reprodução e microhabitats variados. Kellman et alii (1994) consideram que matas tropicais ciliares teriam sido importantes refúgios ecológicos durante o Pleistoceno, e que poderiam ter um papel semelhante no futuro, em função da fragmentação florestal causada por atividades antrópicas. Silva (1996) ressalta a importância das matas ciliares por introduzirem no bioma do cerrado elementos avifaunísticos atlânticos (79 taxa) e amazônicos (202 taxa), o que certamente enriquece a biodiversidade desta região. Em função do reservatório da Usina Hidroelétrica de Porto Primavera (Porto Primavera –SP), esta mata deverá desaparecer. As conseqüências de inundação de uma mata foram discutidas por Willis & Oniki (1988). O alagamento de uma área afeta primariamente as aves locais, que forçosamente deslocar-se-ão para áreas vizinhas. Estas áreas tendem a ficar saturadas, já que haverá forte processos competitivos e predatórios entre os antigos residentes e os novos ocupantes. A tendência, a médio prazo, é a redução nas populações também neste local. Fazendo-se uma analogia com a retirada de uma mata para pastoreio, podem-se citar os casos estudados por Lovejoy et alii (1986) e Bierregaard et alii (1992) na região amazônica. Estes autores verificaram que os fragmentos remanescentes recebiam um grande afluxo de indivíduos, tornando-se então superpovoados. Com o passar do tempo, a maioria das espécies tinham suas populações reduzidas, inclusive das antigas residentes. Para compensar diferenças no esforço amostral, distribuíram-se as capturas pelo número de horas-rede, utilizando-se o Índice de Densidade (IDENS) (Berndt, 1992 apud Hasui, 1994), encontrando-se a situação apresentada na Tabela 1.5: 45 Tabela 1.5. Índice de Densidade (IDENS*) por pontos de coleta. *IDENS: número de capturas (incluindo recapturas)x100/horas-rede CAPTURAS x HORAS- IDENS* 100 REDE HBUR 8400 788 10,66 Cerrado 18000 1717,2 10,48 Lajeado 13100 1339 9,78 HMAT1 2900 319 9,09 HRV1 5200 619 8,40 Pesqueiro 18900 2378 7,95 HSL2 4600 602 7,64 Cerradão 13000 1743,6 7,46 HRV2 5200 708,8 7,34 HSL1 5600 785 7,13 HBM1 5500 813,5 6,76 HPAL 3500 632,85 5,53 HMAT2 1000 253 3,95 Eucaliptal 1500 770,4 1,95 Por este critério, o local com maior número relativo de capturas passa a ser o cerradão (HBUR), seguido pelo cerrado do Horto Barra do Moeda (1). O Lajeado neste caso, teve a terceira maior proporção. O mais alto IDENS encontrado no presente estudo (10,66) foi menor do que o detectado em um fragmento de mata no Rio de Janeiro (13,84) e para uma floresta ombrófila mista no Paraná (Gonzaga, 1986 e Berndt, 1992, apud Hasui, 1994). Seis pontos de coleta apresentaram valores de IDENS maiores do que o encontrado em um fragmento de mata na Universidade de São Paulo (Hasui, 1994). No outro extremo, ressalta-se o eucaliptal comercial pelo pequeno número de capturas relativamente ao esforço amostral empregado. Isso, como será discutido adiante, reflete a ausência de sub-bosque neste tipo de ambiente, impossibilitando a presença, a 46 não ser de passagem, de aves no interior da plantação. A vizinhança deste eucaliptal com uma reserva com cerca de 340 hectares (onde se situaram três pontos de coleta, cerrado, HBM1 e cerradão), pode explicar o afluxo de aves. Entretanto, o que se verificou no campo foram espécies como Columba picazuro, Vireo chivi e diversos Trochilidae, principalmente no dossel, quase não se observando aves nos estratos mais baixos desta plantação. 1.3. Espécies e locais de capturas Representantes de 103 espécies, 12 sub-famílias, 21 famílias e 10 ordens foram detectados durante o transcorrer deste estudo (conforme classificação proposta por Sick, 1997). As 103 espécies capturadas representam aproximadamente 45% das cerca de 230 espécies amostradas na região de Três Lagoas (Piratelli et alii, 1998a). Considerando-se todo o Bioma do Cerrado, capturaram-se 12,3% das 837 espécies e 32,8% das famílias registradas para esta região (Silva, 1995a). Também trabalhando como redes, Whitman et alii (1997) amostraram em floresta subtropical, 25% das espécies do local. As famílias mais abundantes foram Tyrannidae (24 espécies, abundância relativa de 23,5%), Emberizidae (18 espécies; abundância relativa de 17,5%), Trochilidae (8 espécies; abundância relativa de 7,8%) e Dendrocolaptidae (6 espécies; abundância relativa de 5,8%) (Figura 1.2). Segundo Machado et alii (1998), a riqueza de espécies em ambiente de cerrado varia conforme a latitude e a longitude, e apenas as famílias/subfamílias Tyrannidae, Emberizinae e Furnariidae seriam bem representadas em quaisquer regiões. 47 Tyrannidae 23,3 17,5 Trochilidae 7,8 5,8 5,8 5,8 5,8 Furnariidae Columbidae 4,9 Muscicapidae 3,9 Bucconidae 2,9 2,9 Vireonidae Cuculidae Momotidae Strigidae Tinamidae 0,0 1,9 1,9 1,9 1,9 1,0 1,0 1,0 1,0 1,0 1,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 abundância relativa (%) Figura 1.2. Abundância relativa das famílias capturadas De acordo com Sick (1997), Tyrannidae é a maior família do hemisfério ocidental; suas 413 espécies representam aproximadamente 18% dos Passeriformes da América do Sul. Por isso, é comum esta família ser a mais representativa em estudos sobre aves terrestres no Brasil. No Sudoeste de Mato Grosso, Willis & Oniki (1990) levantaram 488 espécies de aves, das quais 82 (16,8%) Tyrannidae. Willis & Oniki (1991) encontraram 69 Tiranídeos (21,3% de abundância relativa) no norte de Minas Gerais. Motta-Júnior (1990) amostrou 115 espécies de aves na região central do estado de São Paulo, obtendo 27 (23,48%) Tiranídeos. No maciço do Itatiaia, estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, Pineschi (1990) estudou a frugivoria por aves em quatro espécies de Rapanea, observando 104 espécies se alimentando de seus frutos. Neste caso, também 48 os Tiranídeos predominaram (26 espécies; 25%), mesmo sobre os Thraupinae, tipicamente mais frugívoros (21 espécies; 20,19%). Na Mata de Santa Genebra, Campinas (SP), Aleixo & Vielliard (1995) registraram 134 espécies, sendo que os Tyrannidae estiveram representados por 27 espécies (20,15%). Das 837 espécies que Silva (1995a) reconhece para a região do Cerrado, 122 (14,57%) são Tyrannidae. As espécies capturadas, por ordens e famílias são apresentadas na Tabela 1.6. Tabela 1.6. Espécies capturadas por grupos taxonômicos, com nomes comuns. A nomenclatura científica adotada, bem como os nomes populares, seguem Sick (1997). ORDEM FAMÍLIA Tinamiformes Falconiformes Columbiformes Cuculiformes ESPÉCIE NOME COMUM Tinamidae Accipitridae Columbidae Crypturellus tataupa Rupornis magnirostris Columbina minuta Cuculidae Columbina talpacoti Claravis pretiosa Leptotila rufaxilla Leptotila verreauxi Geotrygon montana Coccyzus melacoryphus Piaya cayana Glaucidium brasilianum Nyctidromus albicollis Hydropsalis brasiliana Phaethornis pretrei inhambu-chintã gavião-carijó rolinha-de-asacanela rolinha pomba-de-espelho gemedeira juriti pariri papa-lagartas alma-de-gato caburé curiango bacurau-tesoura rabo-branco-desobre-amarelo beija-flor-deorelha-violeta beija-flor-preto beija-florvermelho beija-flor-tesouraverde besourinho-debico-vermelho beija-flor-dourado beija-flor-degarganta-verde martin-pescadorpequeno udu Strigiformes Strigidae Caprimulgiformes Caprimulgidae Apodiformes Trochilidae SUB FAMÍLIA Colibri serrirostris Antrachothorax nigricollis Chrysolampis mosquitus Thalurania furcata Chlorostilbon aureoventris Hylocharis chrysura Amazilia fimbriata Coraciiformes Alcedinidae Chloroceryle americana Momotidae Momotus momota 49 ORDEM FAMÍLIA Piciformes Galbulidae SUB FAMÍLIA Brachygalba lugubris Galbula ruficauda Bucconidae Picidae Passeriformes Thamnophilidae Furnariidae Synallaxinae Philydorinae Dendrocolaptidae Tyrannidae ESPÉCIE Elaeninea NOME COMUM ariramba preta bico-de-agulhade-rabo-vermelho Nystalus maculatus rapazinho-dosvelhos Nonnula rubecula macuru Monasa nigrifrons bico-de-brasa Picumnus cirratus pica-pau-anãobarrado Picumnus albosquamatus guttifer pica-pau-anãoescamado Picumnus sp. pica-pau-anão Colaptes melanochloros pica-pau-verdebarrado Veniliornis passerinus pica-pauzinhoanão Campephilus melanoleucos pica-pau-detopete-vermelho Taraba major choró-boi Thamnophilus doliatus choca-barrada Thamnophilus punctatus choca-bate-cabo Dysithamnus mentalis choquinha-lisa Formicivora rufa formigueiro-debarriga-preta Synallaxis frontalis petrim Synallaxis albescens uipí Synallaxis gujanensis pichororó Cranioleuca vulpina arredio-do-rio Poecilurus scutatus estrelinha-preta Automolus leucophthalmus barranqueiro-deolho-branco Sittasomus griseicapillus arapaçu-verde Dendrocolaptes platyrostris arapaçu-grande Dendrocolaptes picumnus arapaçu-meiobarrado Campylorhamphus trochilirostris arapaçu-beija-flor Xiphorhynchus guttatus arapaçu-degarganta-amarela Lepidocolaptes angustirostris arapaçu-docerrado Phyllomyias fasciatus piolhinho Camptostoma obsoletum risadinha Myiopagis viridicata guaracava-deolheiras Elaenia flavogaster guaracava-debarriga-amarela Elaenia parvirostris guaracava-debico-pequeno Elaenia mesoleuca tuque Serpophaga subcristata alegrinho Leptopogon amaurocephalus cabeçudo Corythopis delalandi estalador 50 ORDEM FAMÍLIA SUB FAMÍLIA ESPÉCIE NOME COMUM Hemitriccus margaritaceiventer sebinho-de-olhode-ouro bico-chato-deorelha-preta patinho Filipe enferrujado guaracuvuçu caneleiro maria-cavaleira maria-cavaleirade-raboenferrujado bentevi bem-te-vi-rajado peitica siriri caneleiro-preto anambé-brancode-rabo-preto uirapuru-laranja soldadinho fruxu-do-cerrado gralha-picaça balança-rabo-demáscara sabiá-ferreiro sabiá-barranco sabiá-poca pitiguari juruviara canário-do-mato pichito Tolmomyias sulphurescens Fluvicolinae Tyranninae Tityrinae Pipridae Corvidae Muscicapidae Sylvinae Turdinae Vireonidae Emberizidae Parulinae Thraupinae Platyrhinchus mystaceus Myiophobus fasciatus Lathrotriccus euleri Cnemotriccus fuscatus Casiornis rufa Myiarchus ferox Myiarchus tyrannulus Pitangus sulphuratus Myiodinastes maculatus Empidonomus varius Tyrannus melancholicus Pachyramphus polychopterus Tityra cayana Pipra fasciicauda Antilophia galeata Neopelma palescens Cyanocorax chrysops Polioptila domicola Turdus nigriceps Turdus leucomelas Turdus amaurochalinus Cyclarhis gujanensis Vireo chivi Basileuterus flaveolus Basileuterus culicivorus hypoleucus Thlypopsis sordida Nemosia pileata Eucometis penicillata Tachyphonus rufus Trichothraupis melanops Habia rubica Piranga flava Ramphocelus carbo Thraupis sayaca Thraupis palmarum Emberizinae Tangara cayana Zonotrichia capensis Oryzoborus angolensis canário-sapé saíra-de-chapéupreto pipira-da-taoca pipira-preta tiê-de-topete tiê-do-matogrosso sanhaço-fogo pipira-vermelha sanhaço-cinzento sanhaço-docoqueiro saíra-amarela tico-tico curió 51 ORDEM FAMÍLIA SUB FAMÍLIA Cardinalinae ESPÉCIE NOME COMUM Arremon flavirostris tico-tico-do-matode-bico-amarelo tico-tico-rei trinca-ferroverdadeiro Coryphospingus cucullatus Saltator similis Destas espécies aqui capturadas, Sick (1966) classificou como típicas de cerrado, Synallaxis albescens, Turdus amaurochalinus, Coryphospingus cucullatus e Lepidocolaptes angustirostris. Entre as observadas mas não capturadas, citam-se nesta categoria, Saltator atricollis e Cariama cristata. Daquelas consideradas mais típicas de mata úmida, destacam-se Crypturellus tataupa e Saltator similis, além de Amazona aestiva (observada). Formicivora rufa é descrita por Sick (1965) para cerradões e bordas de matas de galeria. Como ocorrentes no cerrado, mas típicas de outros biomas (conforme Sick, 1965), tem-se na região Columba picazuro (mais típico das caatingas do nordeste), Tyrannus savana (migratória) e Ara ararauna (buritizais e ambientes abertos). Antilophia galeata tem sua maior ocorrência no Brasil Central, sendo considerada por alguns autores (Marini et alii, 1997) como “quase endêmica” desta região. Dentre as espécies capturadas, detectaram-se quatro tipos de distribuição geográfica, dos sete padrões gerais propostos por Silva (1995b), que agrupou a avifauna da região do Cerrado segundo a forma e orientação de sua distribuição. Entre as espécies de ampla distribuição, Rupornis magnirostris, Columbina minuta, Columbina talpacoti, Synallaxis albescens, Camptostoma obsoletum, Pitangus sulphuratus, Tyrannus melancholicus e Oryzoborus angolensis. Quanto às peri-atlânticas, têm-se Chrysolampis mosquitus, Formicivora rufa e Neothraupis fasciata. Apenas uma espécie pode ser considerada como tendo padrão meridional de distribuição, Hydropsalis brasiliana e nenhuma das que este autor considera como endêmica foi captura, embora duas tivessem sido observadas, Saltator atricollis e Cyanocorax cristatellus. Silva (1996) pondera que as matas de galeria introduzem elementos de ecossistemas vizinhos à avifauna do Cerrado, notadamente Mata Atlântica e Floresta Amazônica. Desta forma, como elementos atlânticos, encontrou-se no presente estudo, 52 Picumnus albosquamatus guttifer, Automolus leucophthalmus, Dysithamnus mentalis, Corythopis delalandi e Habia rubica. Três espécies de Elaenia foram aqui capturadas, das oito que Cavalcanti & Medeiros (1986) descrevem como presentes no Brasil Central: Elaenia flavogaster E. parvirostris e E. mesoleuca. Estes autores observaram no Distrito Federal, agregações de espécies deste gênero, das quais faziam parte E. flavogaster, nas bordas das matas de galeria, alimentando-se de frutos. Algumas espécies observadas, como Buteogallus meridionalis, Polyborus plancus, Cathartes aura, Cariama cristata, Rhea americana e Tyrannus melancholicus podem seguir queimadas, capturando presas que se deslocam em função do fogo (Sick, 1965). Com relação a Vireo chivi, Machado (1997) considerou-a como espécie migratória, componente de bandos mistos de setembro a março no sudeste brasileiro, explorando partes intermediárias entre o sub-bosque e o dossel. Cyclarhis gujanensis na região de Três Lagoas é mais comum à média altura, ou mesmo no sub-bosque. Já Aleixo (1997), estudando a composição de bandos mistos no estado de São Paulo, classificou-a como espécie de dossel. Piaya cayana, Sittasomus griseicapillus, Dysithamnus mentalis, Leptopogon amaurocephalus, Platyrhinchus mystaceus, Tolmomyias sulphurescens e Basileuterus hypoleucus habitam o sub-bosque e o extrato intermediário, corroborando neste caso, as observações deste autor. Marini & Cavalcanti (1996) capturaram aves em mata ciliar no Distrito Federal, separando as espécies em várias categorias em relação à sua presença neste tipo de vegetação. No presente estudo, das que esses autores consideram “típicas de mata ciliar”, encontrou-se no Pesqueiro (mata ciliar), Leptopogon amaurocephalus e Eucometis penicilata que na região entretanto, ocorrem também em outros ambientes, inclusive não florestais, como o cerrado. Para a região de Três Lagoas, pode-se incluir nesta categoria, Thriotorus leucotis (não capturada), Ramphocelus carbo, Campyloramphus trochilirostris e Brachygalba lugubris. Das consideradas “principalmente” de matas de galeria (mais comumente encontradas neste ambiente, embora ocorram também em outros), tem-se Poecilurus scutatus, Turdus amaurochalinus, Basileuterus flaveolus, B. culicivorus hypoleucus e 53 Arremon flavirostris. Incluem-se ainda, no presente estudo, Momotus momota, Taraba major e Automolus leucophthalmus. Na terceira categoria, ocorrendo em mata ciliar, mas sendo mais “comuns em habitats abertos”, encontrou-se em comum, Sittasomus griseicapillus, Cnemotriccus fuscatus, e Turdus leucomelas. Salienta-se a ausência de Saltator similis, que em Três Lagoas, ocorre em vários locais e ambientes, principalmente no cerrado. Nenhuma das espécies capturadas/observadas na região constam do Livro Vermelho de Aves Ameaçadas das Américas (Collar et alii, 1992); porém chama-se a atenção para a presença de Sarcorhamphus papa, avistada em pequenos bandos por duas vezes. Segundo Sick (1997), esta espécie é mais comum no norte, longe de centros urbanos em matas e áreas abertas, com populações geralmente pequenas. Sua observação aqui pode ser o primeiro registro de sua ocorrência na região. Segundo a curva de coletor (curva cumulativa de espécies novas), a continuidade dos estudos aumentaria a quantidade de espécies capturadas, já que, após 28 meses de coletas, não foi verificada ainda a existência de um patamar (Figura 1.3), embora seja perceptível uma curva tendendo à estabilização. Em outras palavras, várias espécies que freqüentam os sub-bosques da região podem não ter sido amostradas. Detectaram-se algumas espécies muito abundantes, com alto percentual de ocorrência. Paralelamente, várias espécies foram pouco abundantes, com baixo percentual de capturas (Tabela 1.7). Remsen & Good (1996), apresentam várias restrições ao se relacionarem taxas de capturas com abundância, discutindo vários fatores que influenciam nas capturas; entre eles, o clima, a localização e a tensão das redes e as diferenças em distância e freqüência de vôo. Estudos de longa duração, associados ao conhecimento da ecologia e do comportamento das espécies envolvidas poderiam atenuar o efeito destas variáveis, fazendo com que os resultados obtidos se aproximem da abundância relativa real. Ainda segundo estes autores, a estabilização na curva de capturas representaria aproximadamente a abundância relativa das espécies capturadas. 54 Basileuterus flaveolus, Cnemotriccus fuscatus, Saltator similis e Turdus amaurochalinus foram espécies com grande número de capturas em diversos ambientes. Uma espécie que ocorre em diversos ambientes, muitos deles distintos entre si, não teria exigências ecológicas muito grandes, podendo ocorrer mesmo em ambientes perturbados, aí provavelmente encontrando recursos alimentares e locais para abrigo e reprodução. Villard & Taylor (1994) levantam a hipótese que algumas espécies florestais evitam atravessar áreas abertas entre fragmentos, mesmo tendo habilidade física para estes deslocamentos, o que afetaria sua distribuição. Também, algumas espécies são mais tolerantes à fragmentação, detectando e colonizando novos habitats mais rápido que as assim chamadas intolerantes. Este fator poderia também contribuir para a distribuição número espécies novas observada das espécies. 120 100 80 60 40 20 no v se t ju l m ai m ar no v Ja n/ 96 se t ju l m ai m ar no v Ja n/ 95 se t Ju l/9 4 0 meses de estudo Figura 1.3. Curva de espécies novas para aves capturadas na região de Três Lagoas (MS). . 55 Tabela 1.7. Espécies capturadas, com número de indivíduos (1a. captura) nos locais de coleta e abundância relativa (ordenadas pelo número total de capturas). ESPECIE Basileuterus flaveolus Cnemotriccus fuscatus Saltator similis Turdus leucomelas Thamnophilus punctatus Momotus momota Pipra fasciicauda Turdus amaurochalinus Casiornis rufa Myiarchus tyrannulus Tachyphonus rufus Sittasomus griseicapillus Leptotila rufaxilla Claravis pretiosa Dysithamnus mentalis Leptotila verreauxi Columbina talpacoti Cyclarhis gujanensis Hemitriccus margaritaceiventer Coryphospingus cucullatus Eucometis penicillata Thamnophilus doliatus Vireo chivi Camptostoma obsoletum Cyanocorax chrysops Lepidocolaptes CER PES RA QUEI RO DÃO 8 2 16 6 5 0 10 16 13 3 3 30 2 23 13 3 5 1 8 3 4 0 4 4 2 8 3 3 0 5 2 5 8 1 2 0 4 0 3 1 2 5 4 1 0 0 4 4 0 0 1 0 CER RA DO 18 1 0 14 6 11 22 4 0 0 0 4 1 1 8 2 0 0 0 LA JEA DO 8 17 21 1 8 0 0 7 8 8 10 2 0 0 0 0 1 7 3 H BUR H RV1 HSL1 HBM 1 HSL2 HRV2 HPAL 6 10 23 0 3 0 0 9 0 1 4 0 0 0 0 0 1 2 1 10 7 2 2 5 1 0 0 1 0 2 0 1 0 0 0 0 1 0 2 4 3 0 9 0 0 6 5 2 2 1 0 0 0 0 1 0 5 10 3 0 5 4 7 4 0 1 0 0 0 1 5 2 0 1 0 0 6 6 5 0 0 0 0 0 4 4 2 0 0 0 0 0 1 2 0 8 0 3 7 2 2 0 1 0 0 0 3 0 2 0 1 0 0 0 0 0 2 0 5 0 0 4 1 3 0 0 3 0 0 1 0 0 0 0 5 0 0 0 1 0 0 0 0 3 1 0 4 0 0 3 3 2 1 3 0 0 0 1 0 0 0 1 0 1 0 0 0 0 0 2 0 0 0 0 0 0 0 2 0 1 0 0 0 0 1 0 0 0 0 4 0 0 0 0 6 0 H H EUCA TOTA AB. L RELA MAT1 MAT2 LIP (%) TAL 5 2 0 85 8,11 2 0 0 72 6,87 2 1 0 67 6,39 4 0 3 62 5,92 1 0 0 59 5,63 0 0 0 54 5,15 0 0 0 51 4,87 2 1 0 50 4,77 4 3 0 33 3,15 1 0 0 30 2,86 0 0 0 24 2,29 0 0 0 18 1,72 0 0 0 16 1,53 0 0 2 16 1,53 0 0 0 15 1,43 0 1 3 15 1,43 0 0 0 14 1,34 0 0 0 14 1,34 0 0 0 13 1,24 0 0 0 0 2 0 4 0 0 0 0 0 1 0 4 0 0 0 1 0 0 12 12 13 12 11 11 11 1,15 1,15 1,24 1,15 1,05 1,05 1,05 56 ESPECIE angustirostris Dendrocolaptes platyrostris Nonnula rubecula Leptopogon amaurocephalus Taraba major Platyrhinchus mystaceus Amazilia fimbriata Myiodinastes maculatus Poecilurus scutatus Elaenia mesoleuca Nystalus maculatus Piaya cayana Arremon flavirostris Automolus leucophthalmus Basileuterus c. hypoleucus Corythopis delalandi Elaenia flavogaster Empidonomus varius Lathrotriccus euleri Monasa nigrifrons Pitangus sulphuratus Thraupis sayaca Campylorhamphus trochilirostris Galbula ruficauda Myiopagis viridicata Synallaxis frontalis Tangara cayana Veniliornis passerinus Antilophia galeata CER PES RA QUEI DÃO RO CER RA DO LA JEA DO H BUR H RV1 HSL1 HBM 1 HSL2 HRV2 HPAL H H EUCA TOTA AB. MAT1 MAT2 LIP L RELA TAL (%) 1 5 1 2 0 2 0 0 0 0 0 0 0 0 11 1,05 1 0 5 7 3 3 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 11 10 1,05 0,95 0 1 2 1 0 5 2 1 2 0 0 0 5 0 1 0 0 3 0 6 0 1 1 1 0 0 0 1 5 1 0 0 0 0 1 5 1 4 0 8 0 1 4 0 0 0 0 1 3 2 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 2 0 0 2 0 0 0 0 0 0 1 5 0 0 1 0 3 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 4 0 0 2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 1 2 3 3 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 1 0 0 0 1 0 0 3 0 0 0 3 0 0 0 1 0 1 2 0 0 0 0 2 0 0 0 0 2 0 0 0 0 0 0 0 1 0 1 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 2 0 0 0 0 0 10 10 9 9 9 8 7 7 6 6 6 5 5 5 6 5 5 5 4 0,95 0,95 0,86 0,86 0,86 0,76 0,67 0,67 0,57 0,57 0,57 0,48 0,48 0,48 0,57 0,48 0,48 0,48 0,38 1 0 2 1 0 2 2 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 2 0 0 0 1 1 0 1 0 0 1 1 0 1 0 0 2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 1 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 4 4 4 4 4 3 0,38 0,38 0,38 0,38 0,38 0,29 57 ESPECIE Elaenia parvirostris Hylocharis chrysura Pachyramphus polychopterus Picumnus sp. Thalurania furcata Thlypopsis sordida Thraupis palmarum Brachygalba lugubris Chloroceryle americana Chlorostilbon aureoventris Colaptes melanochloros Coccyzus melacoryphus Crypturellus tataupa Formicivora rufa Nyctidromus albicollis Oryzoborus angolensis Picumnus guttifer Serpophaga subcristata Tyrannus melancholicus Zonotrichia capensis Antrachothorax nigricollis Rupornis magnirostris Campephilus melanoleucos Chrysolampis mosquitus Colibri serrirostris Columbina minuta Cranioleuca vulpina Dendrocolaptes picumnus Geotrygon montana Glaucidium brasilianum CER PES RA QUEI DÃO RO 2 0 1 1 2 0 CER RA DO 0 1 0 LA JEA DO 1 0 0 H BUR H RV1 HSL1 HBM 1 HSL2 HRV2 HPAL 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 H H EUCA TOTA AB. MAT1 MAT2 LIP L RELA TAL (%) 0 0 0 3 0,29 0 0 0 3 0,29 0 0 0 3 0,29 2 1 0 3 0 0 0 0 0 0 0 0 1 1 1 1 0 0 0 0 1 2 0 0 2 3 0 1 0 1 0 2 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 3 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 2 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 2 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 3 3 3 3 2 3 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 1 1 1 0,29 0,29 0,29 0,29 0,19 0,29 0,19 0,19 0,19 0,19 0,19 0,19 0,19 0,19 0,19 0,19 0,19 0,10 0,10 0,10 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 1 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 1 1 1 1 1 1 0,10 0,10 0,10 0,10 0,10 0,10 0,10 58 ESPECIE Habia rubica Hydropsalis brasiliana Myiarchus ferox Myiophobus fasciatus Nemosia pileata Neopelma palescens Phaethornis pretrei Phyllomyias fasciatus Picumnus cirratus Piranga flava Polioptila dumicola Ramphocelus carbo Synallaxis albescens Synallaxis gujanensis Tityra cayana Tolmomyias sulphurescens Trichothraupis melanops Turdus nigriceps Xiphorhynchus guttatus TOTAL CER PES RA QUEI DÃO RO 0 0 1 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 1 1 0 0 1 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 1 0 0 1 0 1 0 0 1 180 189 CER RA DO 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 131 LA JEA DO 1 0 1 0 0 1 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 131 H BUR H RV1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 84 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 52 HSL1 HBM 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 56 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 55 HSL2 HRV2 HPAL 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 46 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 36 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 35 H H EUCA TOTA AB. MAT1 MAT2 LIP L RELA TAL (%) 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 0 0 0 1 0,10 29 10 15 1049 59 Basileuterus flaveolus foi a espécie que teve o maior número de indivíduos capturados. Isso demonstra, além de seus hábitos generalistas, suas populações com grande número de indivíduos. No trabalho de Azevedo Júnior (1986), esta espécie foi a que teve mais indivíduos anilhados, perfazendo 6,1% de todas as aves marcadas. Maia & Dente (1985), no interior paulista, observaram que as espécies com maior número de capturas foram Turdus amaurochalinus, T. leucomelas e Basileuterus flaveolus, nesta ordem. Entre as mais especializadas, citam-se Pipra fasciicauda, Momotus momota e Monasa nigrifrons, com ocorrência restrita a poucos ambientes, sendo provavelmente mais exigentes ecologicamente e que mais rapidamente sofreriam quando da alteração de seus ambientes naturais. Na região, indivíduos de Pipra fasciicauda só foram capturados no Horto Barra do Moeda, em ambientes florestais (cerradão e mata ciliar). As aves deste gênero normalmente habitam mata alta, mata ribeirinha e florestas adjacentes (Sick, 1997), não sendo encontrados em ambientes mais abertos ou mesmo em matas muito descaracterizadas. Momotus momota, na região de Três Lagoas, embora avistada em diversos ambientes, como matas ciliares, cerradões e cerrado, mostrou preferência pela mata ciliar (X2 = 42,02; signif. a 1%), onde ocorreram 63,9% de suas capturas. Foi observada também a presença desta espécie próxima à habitações humanas na fazenda do Horto Barra do Moeda, no interior de eucaliptais, possivelmente transitando entre manchas de vegetação nativa ou na caça de insetos. Sua distribuição no país é descrita para as regiões norte, nordeste (Maranhão, Piauí, Paraíba e Alagoas), centro-oeste e oeste de São Paulo (Sick,1997). Em relação a seus hábitos, Skutch (1964), estudando a espécie na América Central, concluiu que nunca ocorriam bandos. Entretanto na região de Três Lagoas, foram observadas vocalizações conjuntas pela madrugada e ao entardecer, o que pode ser considerado um bando. Provavelmente os casais se reuniriam nestes momentos para forragear juntos durante a manhã ou para encontrar abrigo, ao cair da noite (Fernanda P. Melo, com. pessoal). Monasa nigrifrons foi descrita na região pela primeira vez por Piratelli et alii (1998b). Sua ocorrência anterior no Brasil foi descrita por Meyer de Schauensee (1982) ao norte do Amazonas até o Rio Negro e Óbidos; ao sul alcançando o leste do Piauí e oeste de 60 São Paulo. No Brasil Central a espécie seria residente, ocorrendo no Pantanal e áreas vizinhas ao norte (Dubs, 1992). Foram detectadas duas populações, restritas a ambientes florestais. Uma delas, formando grupos de seis a dez indivíduos, é sedentária e habita áreas abertas da mata ciliar (Pesqueiro). A outra população habita a mata mais alta de um fragmento florestal com cerca de 340 hectares, distante cerca de 7 km da primeira (locais aqui chamados de ‘cerradão’ e HBM1). Nesta mata pode ser encontrada desde a borda (onde um indivíduo foi capturado) até a pelo menos 300 metros em seu interior, onde foram capturados mais três indivíduos. Tanto na borda como no interior da mata, os bandos freqüentam o dossel, a alturas de cerca de 8 metros, conforme também observado por Willis (1992) e Hilty & Brown (1986), que também registraram a ocorrência de pequenos bandos em matas ciliares ou várzeas. Geotrygon montana só teve um indivíduo capturado. Estudos desenvolvidos na Amazônia mostraram tratar-se de uma espécie migratória, apresentando grande variação em sua abundância ao longo do ano (Stouffer & Bierregaard, 1993), e a captura isolada aqui registrada pode expressar um indivíduo em deslocamento. Uma das críticas de Remsen & Good (1996) aos resultados dos estudos cujos dados foram obtidos com capturas em redes ornitológicas, é que na verdade, as espécies mais capturadas seriam aquelas que normalmente têm maior movimentação no sub-bosque (nãoterritoriais ou territoriais com longos vôos horizontais) e não as mais abundantes. Argumenta então estas espécies sempre seriam as “mais abundantes”, citando como exemplos, Automolus spp. e Platyrhinchus mystaceus.. O presente estudo contesta estes resultados; estas espécies não tiveram tantas capturas como seria de esperar se esta argumentação fosse sempre verdadeira. 61 1.4. Abundância e diversidade de espécies O padrão de abundância de espécies verificado corrobora o que tem sido encontrado em regiões tropicais (Bierregaard et alii, 1992), ou seja a presença de algumas espécies com grande número de indivíduos e a maioria das espécies pouco abundantes (Figura 1.4). Também Thiollay (1998) encontrou resultados semelhantes nas Guianas, ponderando que a maioria das espécies eram raras e K-estrategistas. Segundo Cotgreave & Harvey (1994), a abundância e raridade de espécies seriam determinadas pelo tamanho do corpo dos indivíduos, pela estrutura das guildas de alimentação e pela filogenia. 90 80 número de indivíduos 70 60 50 40 30 20 10 12 6 4 1 3 3 2 1 1 1 1 1 1 1 0 número de espécies Figura 1.4. Abundância de espécies de aves de sub-bosque capturadas com redes ornitológicas na região de Três Lagoas. Estimando-se a diversidade de espécies para cada local através do Índice de ShannonWeaver (Ludwig & Reynolds, 1988), nota-se que o cerradão (Horto Barra do Moeda) apresenta a maior diversidade, seguido da mata ciliar (Pesqueiro) e cerradão degradado (Lajeado) (Tabela 1.8). 62 Tabela 1.8. Diversidade de espécies nos ambientes estudados, calculada pelo índice de Shannon-Weaver (H’) e pela proporção de espécies/horas-rede x 100∗∗. LOCAL ÍNDICE DE ESPÉCIES/ DIVERSIDADE (H’) HS-REDE x 100 Cerradão 3,6324 1,66 Pesqueiro 3,3150 2,06 Lajeado 2,9208 2,17 Cerrado 2,8312 3,26 HRV1 2,8251 3,55 HSL1 2,7935 2,55 HSL2 2,7342 2,99 HBM 2,6166 2,21 HBUR 2,6003 3,05 HRV2 2,4444 2,40 HPAL 2,4339 2,53 HMAT1 2,3250 3,76 HMAT2 1,8344 2,77 Eucaliptal 1,7141 0,78 Os três primeiros locais citados (Cerradão, Pesqueiro e Lajeado) têm em comum o fato de serem ambientes florestais, ocorrendo árvores de grande porte, particularmente nos dois primeiros. Este tipo de ambiente, pelo denso sub-bosque que se forma, deve oferecer substratos adequados para o desenvolvimento de fauna de insetos. Além disso, várias das espécies vegetais presentes têm seus frutos adaptados para o consumo de aves (Mello et alii, 1996). Assim, a disponibilidade de recursos alimentares, mais a diversidade de microhabitats, que fornece sítios adequados inclusive à reprodução (Melo & Piratelli, 1997; Piratelli, 1998), podem ser fatores cruciais na determinação da diversidade de espécies presente no local. Motta-Júnior (1990) comparou avifaunas de mata ciliar, cerrado e eucaliptal, constatando a pobreza de espécies neste último. Este autor encontrou para estes ambientes, ∗∗ O valor espécies/horas-rede foi multiplicado por 100 com o propósito de tornar mais clara a leitura dos resultados. 63 respectivamente, Índices de Diversidade (H’) de 1,36; 1,25 e 1,10, todos eles menores do que matas similares no presente estudo. Segundo Willson & Comet (1996) em região temperada são vários os fatores a influenciarem a abundância e diversidade de aves de sub-bosque; a diversidade de invertebrados, a estrutura da vegetação e a disponibilidade de locais para nidificação. Em florestas tropicais, a estrutura da vegetação pode estar relacionada à capacidade e ao tempo de recuperação no caso de áreas degradadas; aquelas áreas em estádio mais avançado de recuperação suportariam uma maior diversidade de espécies de aves (Blankespoor, 1991). Assim, presume-se que os fatores levantados por Willson & Comet (1996) para regiões temperadas também se aplicam nos trópicos. Isso pode ser verificado no presente estudo quando se comparam os dois eucaliptais estudados; HPAL - eucaliptal abandonado, onde existe sub-bosque de nativas (2,43) e Eucaliptal comercial (1,71). No eucalipto comercial, foram capturadas seis espécies, sendo que a curva cumulativa de espécies estabilizou-se após 500 horas-rede; o que não ocorreu no eucaliptal abandonado, onde foram capturadas 14 espécies (Piratelli et alii, 1997). Situação semelhante foi encontrada nos estudos de Allan et alii (1997) na África do Sul, onde os autores também concluíram que a monocultura com espécies exóticas reduziu a riqueza e a diversidade de espécies. Ferreira & Cavalcanti (1998) obtiveram em fragmentos de mata de galeria no Distrito Federal, correlação positiva entre a área do fragmento e a riqueza das espécies presentes, sugerindo ser este o fator mais importante na determinação do número de espécies em cada fragmento. Também em florestas no Quênia e em Uganda, Oyugi et alii (1998) e Dranzoa (1998) concluíram que o fator fragmentação tinha efeitos mais significativos sobre a abundância de aves do que a estrutura da vegetação. Na Serra do Japi (SP), Silva (1992) observou que das cerca de 200 espécies amostradas, apenas metade era composta por espécies florestais, o que seria resultado dos diferentes graus de perturbação em que se encontra a vegetação na maior parte da Serra. O efeito da fragmentação florestal sobre a avifauna na Amazônia tem sido bem estudada por Lovejoy et alii (1986) e Bierregaard et alii (1992), entre outros. Uma boa documentação sobre perda de espécies em função do avanço da degradação está nos trabalhos desenvolvidos na Mata de Santa Genebra, em Campinas (SP) (Willis, 1979; Silva et alii, 1992; Aleixo & Vielliard, 1995). Estes últimos autores relatam que em 14 anos, a avifauna de interior de mata foi reduzida em 54% (perda de 30 espécies), principalmente 64 representadas pelos insetívoros de sub-bosque. Também constam entre as extintas localmente, os grandes frugívoros (Trogonidae, Ramphastidae e Cotingidae) e predadores (Accipitridae). Comparando-se os ambientes estudados na região aos pares pela Distância Euclidiana, nota-se que os locais mais semelhantes foram HMAT2 (cerrado) com eucaliptal comercial, HMAT1 (cerrado) com HMAT2 (cerrado) e HRV2 (mata degradada) com HMAT1 (cerrado). No outro oposto, os locais mais diferentes foram Pesqueiro (mata ciliar) com Lajeado (cerradão degradado); Pesqueiro com Buriti (cerradão) e Pesqueiro com HSLZ1 (cerrado) (Tabela 1.9). Esta proximidade espelha avifauna semelhante o que, por sua vez, refletiria ambientes parecidos. Os locais HMAT1 e HMAT2 eram áreas em avançado estado de degradação, daí provavelmente terem ficado próximos ao eucaliptal comercial. Ressalva-se entretanto que, conforme discutido, o esforço amostral nestas áreas foi pequeno. Até porque tratava-se de uma área não-protegida; e que antes do término das coletas (outubro de 1996) a vegetação deste local foi totalmente derrubada para dar lugar à plantações de eucalipto. 65 Tabela 1.9. Distâncias Euclidianas para comparações de todos os locais estudados entre si. Cerrado Pesquei Lajeado cerradão HBUR HRV1 HSL1 HBM1 H SL2 HRV2 HPAL HMAT1 HMAT2 ro cerrado pesquei 46,27 Eucali ptal 26,96 38,68 30,33 27,89 25,10 29,61 29,02 30,07 30,77 29,82 33,23 33,48 54,57 31,73 52,11 45,55 47,06 38,39 46,55 43,07 46,39 45,37 46,42 45,56 46,47 43,54 33,29 37,23 26,21 36,63 30,92 37,70 34,34 36,63 36,78 18,73 29,17 28,05 34,55 26,78 33,18 33,35 31,11 34,01 36,14 25,46 24,98 30,02 22,72 26,72 27,33 25,67 27,60 29,55 15,62 13,45 12,08 12,00 16,70 12,21 13,93 16,09 18,95 18,95 16,67 15,26 13,96 14,07 16,52 16,34 11,27 18,71 14,07 15,65 16,31 13,56 15,39 10,34 11,05 14,04 15,26 9,33 11,22 11,79 13,04 10,54 11,40 7,55 10,39 ro lajeado cerradão HBUR HRV1 HSLZ1 HBM1 HSL2 HRV2 HPAL HMAT1 HMAT2 Eucalip tal 7,42 66 Através da Análise de Agrupamento (“Cluster Analysis”), foi possível determinar quatro grandes grupos em relação aos pontos estudados (Figura 1.5), considerando-se a presença de espécies e o número de indivíduos capturados. A B C D Figura 1.5. Análise de Agrupamento para os locais estudados. 1 = cerradão (Cerradão); 2 = mata galeria (Pesqueiro); 3 = cerrado (Cerrado); 4 = cerradão degradado (Lajeado); 5 = cerradão (HBUR); 6 cerradão degradado (HRV1); 7 = cerrado (HSL1); 8 = cerradão (HBM1); 9 = cerrado degradado (HSL2); 10 = mata degradada (HRV2); 11 = eucaliptal abandonado (HPAL); 12 = cerrado (HMAT1); 13 = cerrado (HMAT2); 14 = eucaliptal comercial (Eucaliptal). O primeiro deles (Setor A) reúne o Cerradão e o Pesqueiro, ambos ambientes florestais que ficaram bastante isolados dos demais locais no dendograma. O segundo grupo (Setor B) é formado pelo cerrado e lajeado, ambos caracterizados, conforme descrito, pela presença de diversas espécies típicas de cerrado, constituindo-se em vegetação baixa e aberta, com grande insolação. O terceiro grupo (Setor C) isolou o Horto Buriti dos demais locais. Suas características, conforme descritas, de um cerrado denso, aliadas ao tamanho do fragmento (cerca de 400 hectares) podem ter contribuído para isso. Historicamente, esta área foi fazenda de gado; o 67 fragmento em questão foi mantido quase intacto pela lei da obrigatoriedade em se manter os 20% de vegetação nativa. Finalmente, os demais pontos formam o quarto grande grupo (Setor D), cuja primeira subdivisão separa o Ponto 2 do Horto Matão (HMAT2) e o Eucaliptal (comercial) do Horto Barra do Moeda) dos demais. Por este procedimento, percebe-se a pobreza de espécies neste ponto do Horto Matão, tendo se assemelhado, quanto à avifauna, a um eucaliptal comercial. Na ramificação seguinte, vê-se o cerrado do Horto Santa Luzia (HSL1), cerradão do Horto Barra do Moeda (HBM1), cerradão degradado no Horto Rio Verde (HRV1) e cerrado degradado no Horto Santa Luzia (HSL2) formando um grupo, sendo os dois primeiros mais próximos. Esta proximidade, possivelmente deve-se ao fato de ambos apresentarem características de ambientes florestais, abrigando então composição avifaunística semelhante. O outro grupo nesta ramificação mostra a mata degradada próxima ao Rio Verde (HRV2), o eucaliptal abandonado (HPAL) e o cerrado do Horto Matão (HMAT1) como ambientes similares. Aqui, ressalta-se o eucaliptal abandonado (HPAL) que, pela presença de um subbosque bem constituído, foi agrupado com locais de vegetação nativa, ainda que degradada. Machado & Lamas (1996) constataram, em região de Mata Atlântica, que eucaliptais onde se desenvolveram sub-bosques também abrigavam avifauna, onde estes autores encontraram 126 espécies (16% do total listado para aquele bioma), sendo duas ameaçadas de extinção. Demonstra-se com isso duas situações, o favorecimento do sub-bosque em eucaliptais para atração de avifauna e o prejuízo da degradação de vegetações nativas para estes vertebrados. No caso dos eucaliptais comerciais, Machado & Lamas (1996) chamam também a atenção para a necessidade de uma fonte colonizadora próxima (que seria uma área de vegetação nativa utilizada para abrigo noturno e nidificação por exemplo, sendo os eucaliptais apenas sítios de alimentação) e que nem todas as espécies podem utilizar estas plantações como área de forrageamento, mesmo com a presença de sub-bosque. Para se constatar a diversidade de espécies em cada um destes quatro grupos, denominados setores, inicialmente compararam-se o IDENS entre os grupos, demonstrando-se que o grupo C apresentou o maior número proporcional de capturas, seguido do B, A e D (Tabela 1.10). Em relação ao número de espécies/horas-rede (Chi-Quadrado = 2,40 não signif.), o grupo C também tem o maior valor (0,1079), seguido de A (0,01889), B (0,0095) e por último D (0,0015). Os dados mostram novamente a importância dos ambientes florestais para a 68 diversidade de aves da região, bem como, particularmente do Horto Buriti, ressaltando-se que este deveria ser mantido o mais próximo possível de suas condições quando da coleta destes dados, evitando-se alterações súbitas, que provavelmente proporcionariam redução da diversidade de aves da região. Tabela 1.10. Comparações entre os quatro setores delimitados na região de Três Lagoas por espécies, indivíduos, capturas e recapturas. SETOR A B C D Espécies 52 64 24 62 Indivíduos 319 312 84 334 Capturas 437 379 107 376 Recapturas 119 69 20 42 Esforço Amostral (horas-rede) 4121,5 3056,2 787,9 5502,3 Capturas/horas-rede) x 100 10,60 12,40 13,58 6,83 Quando se faz a comparação da diversidade entre os grupos através do Índice de Shannon-Weaver, o setor A aparentemente torna-se aquele com maior diversidade (6,3589), ressaltando novamente os ambientes florestais. Em seguida, tem-se o setor B (5,3976), C (2,6003) e novamente por último, D (0,6490). É possível portanto inferir um gradiente de diversidade de espécies a partir dos ambientes florestais, passando pelos de cerrado, indo até um cerradão e finalmente chegando aos locais mais perturbados (Tabela 1.11). As diferenças encontradas quanto à avifauna destes quatro setores podem estar relacionadas à presença de corpos de água e à interferência humana, dentre outros fatores que Karr et alii (1990) atribuíram como responsáveis por determinar diferenças na avifauna de lugares distintos. Áreas menos alteradas e próximas a grandes rios como o Paraná podem suportar uma maior diversidade de aves. Berg (1997) estudando comunidades de aves em reprodução em floresta temperada observou que a abundância e a diversidade dependiam do tamanho do fragmento, de sua proximidade com áreas de florestas contínuas e da qualidade do habitat (composição florística). 69 Quanto à composição florística, Willson (1974) encontrou correlação positiva entre diversidade de espécies de aves e a altura e diversidade da vegetação, em Illinois (EUA). A autora sugere que os ambientes florestais criariam novas possibilidades de exploração espacial, proporcionando maior variedade de nichos a serem ocupados e, portanto, suportando maior diversidade. A exemplo do que já havia sido encontrado quando se considerou globalmente as comunidades da região, nota-se a presença de várias espécies com poucos indivíduos e poucas espécies com muitos indivíduos (Figura 1.6). Tabela 1.11. Ocorrência (número de indivíduos) das espécies nos quatro setores determinados pela Análise de Cluster (Distância Euclidiana), para a região de Três Lagoas (MS), com Índice de Diversidade (H’) calculado. Ordem taxonômica segundo Sick (1997). ESPÉCIES SETORES A B C D Crypturellus tataupa 2 0 0 0 Rupornis magnirostris 0 0 0 1 Columbina minuta 0 1 0 0 Columbina talpacoti 1 9 1 3 Claravis pretiosa 4 3 0 9 Leptotila rufaxilla 9 2 0 5 Leptotila verreauxi 7 2 0 6 Geotrygon montana 1 0 0 0 Coccyzus melacoryphus 0 1 0 1 Piaya cayana 0 1 0 6 Glaucidium brasilianum 0 0 0 1 Nyctidromus albicollis 2 0 0 0 Hydropsalis brasiliana 0 1 0 0 Phaethornis pretrei 1 0 0 0 Colibri serrirostris 0 0 0 1 70 ESPÉCIES SETORES A B C D Antrachothorax nigricollis 1 0 0 0 Chrysolampis mosquitus 0 0 0 1 Thalurania furcata 2 1 0 0 Chlorostilbon aureoventris 0 0 0 2 Hylocharis chrysura 2 1 0 0 Amazilia fimbriata 1 2 0 6 Chloroceryle americana 3 0 0 0 Momotus momota 41 3 0 10 Brachygalba lugubris 2 0 0 0 Galbula ruficauda 2 1 0 1 Nystalus maculatus 0 4 0 3 Nonnula rubecula 8 1 0 2 Monasa nigrifrons 2 0 0 3 Picumnus cirratus 1 0 0 0 Picumnus a. guttifer 0 1 1 0 Picumnus sp. 1 2 0 0 Colaptes melanochloros 1 1 0 0 Veniliornis passerinus 1 0 1 2 Campephilus melanoleucos 0 0 0 1 Taraba major 6 0 3 1 Thamnophilus doliatus 4 2 3 4 Thamnophilus punctatus 9 21 3 26 Dysithamnus mentalis 13 0 0 2 Formicivora rufa 0 0 0 2 Synallaxis frontalis 0 2 1 1 Synallaxis albescens 0 0 0 1 Synallaxis gujanensis 0 0 0 1 Cranioleuca vulpina 1 0 0 0 71 ESPÉCIES SETORES A B C D Poecilurus scutatus 5 0 0 4 Automolus leucophthalmus 6 0 0 0 Sittasomus griseicapillus 8 6 0 4 Dendrocolaptes platyrostris 6 3 0 2 Dendrocolaptes picumnus 0 0 0 1 Campylorhamphus trochilirostris 4 0 0 0 Xiphorhynchus guttatus 1 0 0 0 Lepidocolaptes angustirostris 0 4 3 4 Camptostoma obsoletum 0 5 2 4 Myiopagis viridicata 0 0 1 3 Elaenia flavogaster 0 5 0 0 Elaenia parvirostris 0 3 0 0 Elaenia mesoleuca 0 5 0 3 Phyllomyias fasciatus 0 1 0 0 Serpophaga subcristata 0 1 0 1 Leptopogon amaurocephalus 10 0 0 0 Corythopis delalandi 2 0 0 3 Hemitriccus margaritaceiventer 0 7 1 5 Tolmomyias sulphurescens 1 0 0 0 Platyrhinchus mystaceus 8 1 0 1 Myiophobus fasciatus 0 1 0 0 Lathrotriccus euleri 0 6 0 0 Cnemotriccus fuscatus 7 33 10 22 Casiornis rufa 1 13 0 19 Myiarchus ferox 0 1 0 0 Myiarchus tyrannulus 3 16 1 10 Pitangus sulphuratus 5 0 0 0 Myiodinastes maculatus 2 3 1 3 72 ESPÉCIES SETORES A B C D Empidonomus varius 0 1 0 4 Tyrannus melancholicus 0 1 0 1 Pachyramphus polychopterus 0 2 0 1 Tityra cayana 1 0 0 0 Pipra fasciicauda 45 2 0 4 Antilophia galeata 1 2 0 0 Neopelma palescens 0 1 0 0 Cyanocorax chrysops 2 1 1 7 Polioptila domicola 0 1 0 0 Turdus nigriceps 0 1 0 0 Turdus leucomelas 30 11 0 21 Turdus amaurochalinus 7 20 9 14 Cyclarhis gujanensis 0 9 2 3 Vireo chivi 0 8 3 1 Basileuterus flaveolus 20 16 6 43 Basileuterus culicivorus hypoleucus 4 0 0 2 Thlypopsis sordida 0 0 3 0 Nemosia pileata 0 1 0 0 Eucometis penicillata 9 1 0 2 Tachyphonus rufus 0 14 4 6 Trichothraupis melanops 0 1 0 0 Habia rubica 0 1 0 0 Piranga flava 0 0 0 1 Ramphocelus carbo 1 0 0 0 Thraupis sayaca 1 4 0 0 Thraupis palmarum 0 3 0 0 Tangara cayana 0 3 0 1 Zonotrichia capensis 0 0 0 2 73 ESPÉCIES A B C D Oryzoborus angolensis 0 1 1 0 Arremon flavirostris 1 2 0 3 Coryphospingus cucullatus 0 3 0 9 Saltator similis 0 26 23 18 6,36 5,40 2,60 0,64 H’ . SETORES 74 Setor A S etor B 50 35 45 30 35 n'mero de indiíduos n'mero de indiíduos 40 30 25 20 15 25 20 15 10 10 5 5 3 3 8 10 7 9 9 26 2 2 1 1 2 1 4 número de espécies 1 1 2 1 1 1 1 0 18 2 10 4 2 3 3 3 3 1 1 1 1 1 1 0 núm ero de espécies S e tor C Setor D 50 25 número de indivíduos 45 15 10 5 40 35 30 25 20 15 10 5 nú m ero d e esp écies Figura 1.6. Abundância de espécies nos setores amostrados. número de espécies 19 1 2 2 1 1 1 1 1 1 10 2 6 1 1 1 1 1 0 0 1 número de indivíduos 20 75 Com base na ocorrência nos setores, pode-se agora inferir a respeito das características ecológicas de 31 espécies com pelo menos 10 capturas, testando-se a significância dos resultados pelo Teste de Qui-Quadrado (Tabela 1.12). Tabela 1.12. Resultados do Teste de Qui-Quadrado para as 31 espécies com mais de 10 capturas e suas preferências pelos setores amostrados g.l.=3; **=significativo a 1%; *=significativo a 5%; ns=não significativo. Espécie Qui-Quadrado calculado Pipra fasciicauda 109,39** Momotus momota 78,59** Basileuterus flaveolus 34,58** Turdus leucomelas 32,32** Casiornis rufa 31,36** Dysithamnus mentalis 31,13** Leptopogon amaurocephalus 30,00** Saltator similis 24,28** Cnemotriccus fuscatus 23,67** Thamnophilus punctatus 22,83** Myiarchus tyrannulus 18,80** Coryphospingus cucullatus 18,00** Tachyphonus rufus 17,33** Eucometis penicillata 16,67** Platyrhinchus mystaceus 16,40** Nonnula rubecula 14,00** Cyclarhis gujanensis 12,86** Vireo chivi 12,67** Columbina talpacoti 12,29** Leptotila rufaxilla 11,50** Claravis pretiosa 10,50* 76 Espécie Qui-Quadrado calculado Hemitriccus margaritaceiventer 10,08* Cyanocorax chrysops 9,00* Leptotila verreauxi 8,73* Taraba major 8,40* Turdus amaurochalinus 8,08* Sittasomus griseicapillus 7,78ns Dendrocolaptes platyrostris 6,82ns Camptostoma obsoletum 5,36ns Lepidocolaptes angustirostris 3,91ns Thamnophilus doliatus 0,85ns Camptostoma obsoletum, L. angustirostris, D. platyrostris, T. doliatus e S. griseicapillus não demonstraram preferência por setores específicos. Porém, algumas delas evitaram determinados ambientes, como no caso de C. obsoletum e L. angustirostris, não capturados em ambientes florestais (Setor A). Isso que pode refletir a tendência destas duas espécies em explorarem áreas mais abertas; no caso de L. angustirostris, principalmente cerrados. Segundo literatura, Thamnophilus doliatus seria mais comum em capoeiras; S. griseicapilus em qualquer tipo de mata e D. platyrostris em matas e cerrados (Sick, 1997). Taraba major, C. chrysops, H. margaritaceiventer, L. verreauxi, C. pretiosa e T. amaurochalinus mostraram alguma preferência por determinados ambientes. Taraba major foi mais capturada em A (florestas). Claravis pretiosa e L. verreauxi não foram capturadas em C (evitariam este ambiente), o mesmo ocorrendo para H. margaritaceiventer em A (caracterizando-a como espécie preferencialmente de áreas nãoflorestais). Para aquelas espécies cujas preferências foram estatisticamente significativas, tornou-se possível agrupá-las em categorias, adaptadas de Aleixo & Vielliard (1995); Marini & Cavalcanti (1996) e Sick (1997), fornecendo as proporções apontadas na Figura 1.7: 77 •Espécies generalistas, ocorrendo principalmente nos ambientes mais alterados: Thamnophilus punctatus Basileuterus flaveolus • Espécies tipicamente de ambientes abertos/alterados: Saltator similis Coryphospingus cucullatus Casiornis rufa • Espécies de ambientes abertos, principalmente cerrado: Cnemotriccus fuscatus Myiarchus tyrannulus Columbina talpacoti • Espécies de ambientes abertos/cerrado: Cyclarhis gujanensis Tachyphonus rufus Vireo chivi • Espécies principalmente de ambientes florestais: Dysithamnus mentalis Eucometis penicillata Leptotila rufaxilla Momotus momota Nonnula rubecula Platyrhinchus mystaceus Turdus leucomelas • Espécies tipicamente de ambientes florestais: Pipra fasciicauda Leptopogon amaurocephalus 78 tipicamente cerrado 15% ambientes alterados 25% tipicamente florestais 10% principalmente cerrado 15% principalmente florestais 35% Figura 1.7. Proporções de ocorrências estatisticamente significativas de espécies de subbosque com relação aos ambientes. Quarenta e cinco por cento das espécies testadas mostraram alguma preferência por ambientes florestais. O resultado não é surpreendente se considerarmos que, segundo Silva (1995a), 51,8% das espécies de aves que se reproduzem na região do cerrado são fortemente dependentes de florestas. Segundo o mesmo autor, quando se consideram aquelas que dependem ainda que parcialmente destes ambientes, obtém-se 552 espécies que, em algum grau, estão associados às florestas. Portanto, a amostra aqui detectada estaria refletindo a situação majoritária para a região do cerrado. Quanto à composição taxonômica nestes setores, houve o predomínio de Oscines em B e C e de não-Passeriformes em A e D (Tabela 1.13). 79 Tabela 1.13. Composição taxonômica (%) das aves capturadas nos quatro setores amostrados. GRUPOS TAXONÔMICOS/ A B C D Tyrannoidea 23,64 31,25 29,17 23,44 Oscines 18,18 31,25 37,50 25,00 Furnarioidea 14,55 9,38 16,67 18,75 Não-Passeriformes 43,64 28,13 16,67 32,81 SETORES Segundo Willis (1979), um dos fatores alterados pela fragmentação seria a relação entre não-Passeriformes, Furnarioidea, Tyrannoidea e Oscines. De acordo com este autor, em áreas mais fragmentadas ocorreria um aumento no número de espécies de Tyrannoidea e Oscines, simultaneamente com a redução em não-Passeriformes e Furnarioidea. Por este critério, os setores B e C seriam aqueles mais descaracterizados, enquanto A e D conteriam áreas de vegetação mais contínuas, o que não corresponde à situação real, conforme discutido anteriormente. Estas relações não puderam ser diretamente associadas à fragmentação no presente estudo, possivelmente pela maior heterogeneidade dos ambientes aqui estudados. 1.5. Similaridade de espécies Na Tabela 1.14 observa-se que, pelo número de co-ocorrências em todos os locais amostrados, constatou-se que os pares de espécies mais similares foram: B. flaveolus - C. fuscatus (91%); C. fuscatus - C. talpacoti (88%); B. flaveolus - T. punctatus (87%), T. leucomelas - B. flaveolus (86%); P. fasciicauda - D. mentalis (86%) e C. talpacoti - M. tyrannulus (86%) (Tabela 1.12). Os primeiros quatro pares mostraram-se semelhantes provavelmente por serem espécies pouco exigentes ecologicamente, ocorrendo em ambientes diversificados. A semelhança P. fasciicauda - D. mentalis por outro lado, se deve ao fato de que ambas são espécies de ambientes florestais, tendo também maiores 80 exigências ecológicas. Podem ser consideradas bons indicadores bióticos, notadamente para estes ambientes. Quanto à significância destas associações de pares de espécies (Tabela 1.15), daquelas cujo número de capturas permitiu análise estatística, nota-se que T. punctatus não se associou positivamente com as espécies testadas (B. flaveolus e C. fuscatus). Basileuterus flaveolus apresentou correlação positiva com C. fuscatus, mas não com T. leucomelas. Columbina talpacoti e M. tyrannulus também correlacionaram-se positivamente. Entre as espécies de ambientes florestais, encontram-se correlacionadas C. pretiosa - M. momota e D. mentalis - P. fasciicauda. 81 Tabela 1.14. Associação das 20 espécies com maior número de capturas. Dados padronizados baseados em número de co- ocorrências (n.º. ocorrências x 2)/ (total ocorr sp1 + total ocorr sp2)x100 (Digby & Kempton, 1987). ESPÉCIES 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 1. Basileuterus flaveolus 100 2. Cnemotriccus fuscatus 91 100 3. Saltator similis 82 70 100 4. Turdus leucomelas 86 74 53 100 5. Thamnophilus punctatus 87 86 76 80 100 6. Momotus momota 67 63 38 80 71 100 7. Pipra fasciicauda 50 57 14 62 53 80 100 8. Turdus amaurochalinus 82 70 80 63 86 50 43 100 9. Casiornis rufa 82 80 80 63 76 50 43 70 100 10 . Myiarchus tyrannulus 70 78 78 35 74 29 33 78 67 100 11. Tachyphonus rufus 67 75 75 40 59 33 20 50 63 71 100 12. Sittasomus griseicapillus 67 63 50 67 71 67 60 75 50 57 50 100 13. Claravis pretiosa 56 50 25 80 47 83 60 50 25 29 17 67 100 14. Leptotila rufaxilla 67 63 38 67 71 67 80 50 63 43 33 50 67 100 15. Dysithamnus mentalis 40 46 - 50 43 67 86 31 31 18 - 44 67 67 100 16. Leptotila verreauxi 53 35 47 63 56 62 55 71 47 40 15 62 77 62 40 100 17. Columbina talpacoti 78 88 63 53 59 50 60 63 75 86 67 67 50 50 44 31 100 18. Cyclarhis gujanensis 59 67 67 43 50 36 22 40 53 62 73 36 18 36 - 17 73 100 19.Hemitriccus margaritaceiventer 50 57 57 31 53 20 25 57 29 67 80 60 20 20 - 18 80 67 100 20. Thamnophilus doliatus 56 63 50 40 59 50 40 63 50 71 67 67 50 33 22 46 83 55 60 100 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 82 Tabela 1.15. Associação entre pares de espécies e sua significância estatística. Teste de Qui-Quadrado, onde X2 = N(ad-bc) 2 /mnrs. *=significativo a p=0,05; **=significativo a p=0,01; ns=não significativo (Ludwig & Reynolds, 1988). X2 calculado significância C. fuscatus - B. flaveolus 5,84 * C. talpacoti - M. tyrannulus 4,67 * C. talpacoti - C. fuscatus 4,46 * D. mentalis - P. fasciicauda 9,54 ** C. pretiosa - M. momota 7,02 ** T. punctatus - B. flaveolus 1,14 ns T. punctatus - C. fuscatus 2,71 ns T. leucomelas - B. flaveolus 1,93 ns Par 83 2. MORFOMETRIA No presente estudo, foram obtidos dados de 95 espécies (Tabela 2.1). Como o número de repetições para cada característica nem sempre foi o mesmo dentro e cada espécie, apresenta-se também o tamanho da amostra para cada caso, adicionado dos valores máximos e mínimos. Informações sobre biometria de aves no Brasil ainda são escassos, havendo inclusive dificuldades em se obter literatura relacionada. Winker (1998) ressalta o fato de não existir de modo geral, uma literatura que padronize e discuta adequadamente os métodos de obtenção de dados morfométricos em aves, o que poderia levar a uma série de distorções. Bierregaard (1988) publicou dados de peso e comprimentos de asa e cauda de 150 espécies de aves de sub-bosque de mata de terra firme da Amazônia central Silva et alii (1990) apresentaram uma relação de pesos de 149 espécies da Amazônia Oriental, sendo que para aqueles com seis ou mais indivíduos, é fornecida a variação média em gramas. Dubs (1992) relacionou para 698 espécies do sudoeste do Brasil (Pantanal e cercanias) medidas de comprimento total, bico, asa e cauda, obtidas em peles oriundas desta região. Para a Mata Atlântica, no Paraná, Reinert et alii (1996) publicaram uma listagem de 508 medidas de pesos em 74 espécies de aves, além de medidas de asa, cauda, tarso e bico de 14 espécies consideradas pouco conhecidas. Casos mais específicos são conhecidos por exemplo, os trabalhos de Grantsau (1988) para beija-flores, Novaes & Lima (1991) para Selenidera gouldii; Silva (1991) para Nystalus maculatus e Piratelli et alii (1998b) para Monasa nigrifrons com dados obtidos em Mato Grosso do Sul. 84 Tabela 2.1. Dados de peso (g), comprimentos de asa, cauda, total, tarso, cúlmem, largura e altura do bico (mm) de aves da região leste de Mato Grosso do Sul, com tamanho de amostra (entre parênteses) e valores mínimo e máximo. C.TOTAL = Comprimento total; L.BICO = largura do bico. Espécies ordenadas conforme classificação taxonômica proposta por Sick (1997). ESPÉCIE Crypturellus tataupa Columbina minuta Columbina talpacoti PESO _ - ASA CAUDA 124,5 (2) 122,0 - 27,0 - - 49,7 (4) 93,2 (13) 69,9 (12) 47,5 - 51,0 85,0 - 112,0 62,0 - 78,0 C. TOTAL - TARSO 37,3 (2) 36,5 - 38,0 CÚLMEM 21,9 (2) 21,0 - 22,8 L BICO ALT. BICO 12,9 (2) 12,7 7 (2) - 13,0 7,0 - 7,0 - 18 (1) 12,4 (1) 6 (1) 4,5 (1) 167,4 (13) 155 - 186 17,5 (14) 16,1 - 20,0 13,1 (14) 11,9 - 14,9 6,6 (14) 5,9 - 7,6 4,7 (14) 3,8 - 6,3 Claravis pretiosa - 116,3 (14) 106 - 122 74,4 (14) 68 - 82 184,1 (12) 178 - 196 18,5 (13) 17 - 21 13,9 (13) 12 - 16 7,1 (12) 6,1 - 8,2 5 (14) 4-6 Leptotila rufaxilla 153,3(7) 130 - 168 144 (19) 135 - 155 103,2 (18) 84 - 111 254,9 (17) 206 - 275 31,2 (18) 27 - 35,3 16 (17) 14,8 - 17,9 9,4 (15) 8 - 12 5,5 (19) 4,4 - 6,7 Leptotila verreauxi 154,1 (5) 146,3 (15) 105,8 (13) 144,5 -172 139 - 158 96 - 115 257,5 (13) 243 - 275 31,4 (15) 28,4 - 35 16,5 (14) 15,5 - 18,8 8,7 (14) 7 - 10 5,9 (14) 4,9 - 8,0 57 (1) 180 (1) 25 (1) 12,5 (1) 9 (1) 5,2 (1) 305,2 (7) 290 - 330 474,2 (6) 445 - 490 41 (7) 32 - 45,5 27,9 (6) 25 - 30 19,4 (6) 17 - 21,3 12 (6) 11,1 - 14 126,5 (2) 125 - 128 255,5 (2) 248 - 263 25,9 (2) 25,9 - 25,9 22,8 (2) 20,9 - 24,8 15,4 (2) 13,8 - 16,9 8,2 (2) 8 - 8,5 Geotrygon montana Piaya cayana Coccyzus melacoryphus - 127 (1) 118,2 (4) 160,2 (7) 102,5 - 132 152 - 175 44 (2) 44 - 44 117,5 (2) 117 - 118 85 ESPÉCIE PESO ASA CAUDA C. TOTAL TARSO CÚLMEM L BICO ALT. BICO Glaucidium brasilianum 64 (1) 91 (1) 58 (1) 162 (1) 25 (1) 15 (1) 16,5 (1) 11 (1) Nyctidromus albicollis - 179,5 (2) 177 - 182 161,5 (2) 152 - 171 302,5 (2) 275 - 330 277,5 (2) 265 - 290 13,7(2) 13 - 14,5 29,7 (2) 29,5 - 30 4,5 (2) 4-5 Hydropsalis brasiliana - 172 (1) 133 (1) 290 (1) 22 (1) 145 (1) 28 (1) 44 (1) Phaethornis pretrei - 60 (1) 70 (1) - 3 (1) 28 (1) - - Colibri serrirostris 6,5 (1) 67 (1) 41 (1) 108 (1) 6 (1) 21 (1) 12,5 9 (1) 4 (1) 56 (1) 30 (1) 90 (1) 4,3 (1) 11 (1) 4,7 (1) 2 (1) 4,8 (3) 4,5 - 5 60,7 (3) 60 - 61 37,3 (3) 37 -38 99,3 (3) 98 - 111 4,8 (3) 4 - 6,3 19,9 (3) 19,4 - 20,9 5,1 (3) 4,5 - 5,5 2,5 (3) 2,5 - 2,5 Chlorostilbon aureoventris 4,5 (2) 4,5 - 4,5 49 (2) 49 - 49 24 (2) 22 - 26 85,5 (2) 83 - 88 5 (2) 4-6 17,8 (2) 17 - 18,5 5 (2) 5-5 2,5 (2) 2-3 Hylocharis chrysura 3,2 (3) 2,5 - 3,5 52 (3) 50 - 54 30 (3) 29 - 31 85,7 (3) 84 - 87 4,7 (3) 4,5 -4,8 20,6 (3) 20,3 - 21 5,6 (3) 5,1 - 6,4 2,1 (3) 1,9 - 2,4 4,3 (9) 3 - 5,5 54,8 (9) 50 - 60 29,5 (8) 25 - 32 90,25 (8) 81 - 98 5,2 (8) 4-7 18,4 (8) 17,0- 19,5 5,3 (9) 4,6 - 6 2,2 (9) 2 - 2,6 36,8 (3) 36,5 - 37 76,5 (3) 71 - 82 61 (3) 60 - 62 198 (3) 195 - 201 12,5 (3) 12 - 13 35,5 (3) 30,9 - 40 16,5 (3) 15 - 18 10 (3) 10 - 10 391,8 (48) 335 - 430 27,6 (51) 24 - 31 35,9 (52) 30,5 - 42,6 21,3 (46) 16 - 23,9 13,5 (49) 8,8 - 16,5 165 (2) 13,2 (2) 42,6 (2) 10 (2) 6 (2) Chrysolampis mosquitus Thalurania furcata Amazilia fimbriata Chloroceryle americana Momotus momota Brachygalba lugubris 112,6 (15) 138,5 (51) 214,6 (46) 96 - 134 125 - 147 200 - 245 17,5 (2) 69,5 (2) 49 (2) 86 ESPÉCIE PESO 17,5 - 17,5 ASA 69 - 70 CAUDA 48 - 50 C. TOTAL 163 - 167 TARSO 12,3 - 14,2 CÚLMEM 41,3 - 43,9 L BICO 10 - 10,1 ALT. BICO 5,8 - 6,3 Galbula ruficauda 25,1 (4) 21 - 30 80 (4) 76 - 83 88 (4) 83 - 91 215,5 (4) 190 - 225 12,8 (3) 12 - 14 51,7 (2) 50,6 - 52,5 10 (4) 6,9 - 13,5 13 (2) 10 - 16 Nystalus maculatus 42,5 (6) 38 - 46 78,7 (7) 76 - 80 64 (7) 60 - 70 179,7 (7) 172 - 182 21,6 (7) 18,2 - 24,3 32,4 (7) 29,2 - 34 17,6 (7) 14,4 - 19,9 13,3 (6) 11,3 - 15 Nonnula rubecula 16,6 (9) 14,5 - 19 66,7 (10) 63 - 75 59,1 (9) 55 - 65 145,9 (10) 135 - 150 14,4 (10) 13,7 - 16,5 19,9 (10) 18,9 - 21,6 11,4 (10) 10 - 13 7,1 (10) 6,4 - 8 Monasa nigrifrons 82,7 (3) 75 - 87 131 (5) 123 - 135 123,6 (5) 117 - 130 277,4 (5) 270 - 285 22,2 (5) 19,5 - 26 33,4 (5) 31 - 37,5 17 (5) 15 - 19 13,1 (5) 11,5 - 14,5 Picumnus cirratus 10 (1) 58 (1) 36 (1) 120 (1) 14 (1) 12 (1) 11 (1) 11 (1) Picumnus guttifer 12,8 (2) 12,5 - 13 57,5 (2) 57 - 58 30,5 (2) 28 - 33 96,5 (2) 93 - 100 15,3 (2) 13,5 - 17 11,5 (2) 11 - 12 8 (2) 7,5 -8,5 5,5 (2) 5,6 - 6 - 131,5 (2) 127 - 136 83,5 (2) 73 - 94 226,5 (2) 215 - 238 25 (2) 25 - 25 27 (2) 27 - 27 13,3 (2) 12,5 - 14 8,5 (2) 8-9 30,5 (4) 29 - 33 90,3 (4) 89 - 92 45,5 (4) 38 - 51 142,8 (4) 137 - 150 16,8 (4) 16 - 17,3 19,5 (4) 18 - 21,5 12 (4) 10,7 - 13 6,4 (4) 6-7 53,6 (4) 45,5 - 59,5 94,3 (10) 85 - 98 82,6 (10) 71 - 90 209,1(9) 200 - 218 36,3 (10) 32 - 39,9 24,4 (10) 21 - 27 15,7 (10) 14 - 17,7 10,7 (10) 9 - 12,5 29,1 (10) 24 - 32 79,4 (14) 75 - 84 64,5 (14) 60 - 70 162,3 (14) 149 - 178 28,1 (14) 25,6 - 31,9 17,9 (14) 17 - 21,7 11,9 (14) 10 - 13,4 7,6 (12) 7,1 - 8,3 19,3 (56) 10,5 - 22,5 68,1 (56) 58 - 78 53,9 (55) 39 - 65 137,6 (55) 122 - 177 23,1 (54) 16 - 19,5 16,1 (51) 12 - 21 11,3 (52) 8 - 15 6,5 (59) 5,2- 8 Chrysoptilus melanochloros Veniliornis passerinus Taraba major Thamnophilus doliatus Thamnophilus punctatus 87 ESPÉCIE PESO ASA CAUDA C. TOTAL TARSO CÚLMEM L BICO ALT. BICO Dysithamnus mentalis 14 (15) 12 - 16 61,4 (15) 59 - 65 41,5 (13) 38 -45 107,5 (13) 102 - 105 19,3 (14) 18 - 21,2 14,5 (14) 13,4 - 19 9,8 (14) 7,7 - 11,2 5,4 (14) 4,7 - 6 Formicivora rufa 10,8 (2) 10,5 - 11 52 (2) 49 - 55 62,5 (2) 60 - 65 141 (2) 140 - 142 22,4 (2) 19,8 - 25 14,6 (2) 14,3 - 15 8,4 (2) 8 - 8,8 4,6 (2) 4,2 - 5 Synallaxis frontalis 15,5 (4) 14 - 17,5 57,5 (4) 53 - 61 71,5 (4) 70 - 73 145 (4) 140 - 150 20,5 (4) 18,9 - 23 11,1 (4) 10 - 12 9,3 (4) 7 - 10,1 4,5 (4) 4-5 Synallaxis albescens 12,5 (1) 54 (1) - - 19,2 (1) 11,8 (1) 8 (1) 4,1 (1) Poecilurus scutatus 13,7 (9) 10 - 19 57,1 (9) 54 - 60 66,1 (9) 62 - 78 136,4 (9) 125 - 159 19,2 (9) 17,5 - 21,2 11,9 (9) 11 - 13,6 8,8 (9) 6 - 10,2 4,5 (9) 4-5 Cranioleuca vulpina 20,5 (1) 70 (1) 69 (1) 140 (1) 23,4 (1) 13,4 (1) 9,2 (1) 4,3 (1) Automolus leucophthalmus 30,7 (10) 22,5 - 33,5 85,3 (10) 79 - 92 76,3 (10) 71 - 82 175,5 (10) 169 - 189 22,8 (10) 21 - 25,2 20,3 (10) 19 - 22 12,6 (10) 11,5 - 13,8 9,4 (10) 7 - 18,9 Sittasomus griseicapillus 12,7 (17) 10,5 - 15,5 76,1 (18) 67 - 85 71,4 (17) 64 - 77 148,6 (17) 134 - 165 16,1 (18) 15,2 - 18 13 (18) 11 - 14,5 8,2 (16) 8 - 10,5 4,3 (16) 3-6 Dendrocolaptes platyrostris 64,1 (5) 56 - 70 122,8 (10) 107,8 (10) 109 - 131 82 - 119 258,4 (9) 230 - 283 27,8 (8) 26,3 - 32 34,3 (10) 31 - 38 17,6 (9) 16,4 - 21 9,3 (10) 6,3 - 11 Campylorhamphus trochilirostris 45 (4) 44 - 46 104,5 (4) 95 90,3 (3) 88 - 110 - 93 241 (4) 220 - 252 20,8 (4) 20 - 21,5 58,3 (4) 50,8 - 62 13,9 (4) 11,5 - 15,3 7 (4) 6 -8 Xiphorhynchus guttatus 34 (1) 125 (1) 110 (1) 258 (1) 34 (1) 40 (1) 14 (1) 10 (1) 28,7 (9) 25 - 31,5 97,1 (10) 90 - 101 78,6 (11) 71 - 90 192,5 (11) 180 - 220 20,2 (11) 19,5 - 21 29,8 (11) 24 - 32,8 11,8 (11) 9,5 - 13,8 5,9 (11) 5-7 Lepidocolaptes angustirostris 88 ESPÉCIE PESO ASA CAUDA C. TOTAL TARSO CÚLMEM L BICO ALT. BICO Myiopagis viridicata 11,8 (3) 11,5 - 12 63 (3) 60 - 66 54 (3) 52 - 57 124,3 (3) 123 - 127 15,4 (3) 14,5 - 16,7 9,9 (3) 9 - 10,4 7,7 (3) 5 - 9,7 4,2 (3) 4 - 4,4 Elaenia parvirostris 15,7 (3) 15,5 - 16 75,7 (3) 72 - 80 63,7 (3) 60 - 66 132,3 (3) 132 - 133 16,3 (3) 16 - 17 9,7 (3) 9 - 10,5 11,4 (3) 11 - 12,1 4,4 (3) 3,8 - 4,8 Elaenia mesoleuca 9,9 (4) 9 ,0- 10,5 75,3 (7) 60 - 96 59,4 (7) 49 - 75 131,4 (7) 110 -158 18,7 (8) 16 - 21,5 10,3 (8) 9,2 - 11,7 9,7 (8) 7,9 - 13 4,4 (8) 3,5 - 5 17,4 (2) 15,8 - 19,0 9,8 (2) 9,5 - 10,2 9,6 (2) 9,6 - 9,6 3,96 (2) 3,9 - 4,0 Serpophaga subcristata 9 (2) 8,5 - 9,5 54 (2) 49 (2) 112 (2) 53,0 - 55,0 48,0 - 50,0 110,0 - 114,0 Phyllomyias fasciatus 3,5 (1) 64 (1) 58 (1) 118 (1) 17 (1) 10 (1) 8,9 (1) 4 (1) Leptopogon amaurocephalus 11,4 (9) 10 - 13 65,6 (9) 62-70 58 (9) 52 - 67 125,4 (9) 115 - 135 15,8 (10) 13 - 17,3 13,2 (10) 11,5 - 17 10,3 (10) 9 - 12 4,6 (10) 4 - 5,3 Corythopis delalandi 13,7 (5) 9,5 - 17 67,8 (5) 65 - 69 50,6 (5) 32 - 68 121,6 (5) 105 - 131 22,9 (5) 21 - 24 14,5 (5) 13 - 15,1 9,6 (5) 9 - 11,1 4,3 (5) 4 - 5,1 Hemitriccus margaritaceiventer 9 (13) 6 - 13 50 (13) 47 - 53 41,8 (13) 36 - 47 103,1 (13) 99 - 112 19,9 (13) 17,8 - 22,5 12,2 (13) 7 - 13,5 8,8 (13) 7,5 - 10 3,8 (12) 3,4 - 4 Tolmomyias sulphurescens 11 (1) 63 (1) 51 (1) 128 (1) 16 (1) 12 (1) - - Platyrhinchus mystaceus 9,6 (8) 8 - 11 55,7 (9) 50 - 61 28,4 (9) 26 - 32 89,9 (9) 83 - 100 15,9 (9) 11 - 17,7 10,5 (9) 8 - 12,1 10,3 (8) 8,7 - 12 3,6 (8) 3 - 4,2 Myiophobus fasciatus 15 (1) 68 (1) 57 (1) 130 (1) 12 (1) 7 (1) 7 (1) - Cnemotriccus fuscatus 13,9 (67) 10 - 25,5 67,9 (67) 57 - 80 61,9 (67) 40 - 76 134,5 (65) 113 - 153 18 (66) 15,5 - 21,8 12 (66) 9,5- 14 10,3 (67) 8 - 15 4,4 (65) 3,7 - 6 89 ESPÉCIE Casiornis rufa Myiarchus ferox PESO ASA CAUDA C. TOTAL 21,1 (28) 82,7 (29) 76,4 (32) 164,4 (32) 16,5 - 24,0 63 ,0- 89,0 71,0 - 83,0 155,0 - 176,0 TARSO CÚLMEM L BICO ALT. BICO 19,4 (31) 16,7 - 22,0 14,5 (31) 10,5 - 16,0 12,1 (31) 9,0 - 15,0 5,7 (31) 5,0 - 7,0 24 (1) 95 (1) 85 (1) 178 (1) 19,2 (1) 16,2 (1) 12,5 (1) 6 (1) Myiarchus tyrannulus 26,5 (20) 23 - 32,5 91,5 (29) 78 - 97 81,6 (29) 67 - 87 185,2(28) 165 - 206 20,9 (29) 18 - 23,9 18,3 (28) 15 - 22,3 13,1 (28) 11,7 - 15,1 6,5 (26) 4,5 - 8,2 Pitangus sulphuratus - 119,8 (5) 112 - 124 88,8 (5) 86 - 94 225,8 (5) 217 - 230 27,1 (5) 26 - 29,3 28,3 (5) 26,2 - 31,5 17,4 (5) 16,5 - 18,2 10,1 (5) 9 - 11 52 (4) 48 - 57 106,6 (9) 97 - 110 84,1 (9) 78 - 89 202,9 (8) 194 - 211 20 (9) 15 - 25,3 22,4 (8) 20,5 - 24,5 17 (9) 14,5 - 19 8,8 (9) 5,7 - 10 26,6 (5) 24,5 - 29 97,2 (5) 94 - 101 78,8 (5) 75 - 83 171,6 (5) 165 - 180 16,1 (5) 13,4 - 18 13,6 (4) 12,5 - 14,9 11,9 (5) 11 - 13 5,6 (5) 4,5 - 6,2 - 114 (2) 113 - 115 80 (2) 75 - 85 210 (2) 198 - 222 18,9 (2) 18 - 19,7 24,9 (2) 22,7 - 27 14,6 (2) 14,2 - 15 7,6 (2) 7,8 - 8 20,2 (2) 19 - 21,5 83,5 (3) 81 - 85 60,5 (3) 59 - 61 144 (3) 140 - 148 18,8 (3) 18 - 19,9 12,8 (3) 12 - 13 11,4 (3) 9,6 - 12,8 6 (3) 6 - 6,5 75 (1) 122 (1) 72 (1) 213 (1) 23 (1) 26,5 (1) 22,4 (1) 11,5 (1) 17,5 (5) 15,5 - 21,5 74 (6) 61 - 81 63,3 (6) 55 - 69 138,3 (6) 117 - 148 15,9 (6) 13 - 17,5 9,7 (6) 9,1 - 10,4 9,8 (6) 8,9 - 10,3 4,4 (6) 4-5 15,7 (48) 11,5 - 19 64,9 (50) 60 - 76 29,1 (48) 26 - 34 104,2 (50) 95 - 118 16,1 (51) 14 - 21 10,2 (49) 8,9 - 14,5 10,5 (47) 7 - 13,5 4,6 (48) 4 - 9,5 Myiodinastes maculatus Empidonomus varius Tyrannus melancholicus Pachyramphus polychopterus Tityra cayana Lathrotriccus euleri Pipra fasciicauda 90 ESPÉCIE Antilophia galeata PESO 21,8 (3) 21,5 - 22 ASA 79,3 (3) 77 - 83 CAUDA 61,7 (3) 60 - 63 C. TOTAL 154,3 (3) 145 - 166 TARSO 19 (3) 19 - 19 CÚLMEM 7,5 (2) 7,5 - 7,5 L BICO 13,7 (3) 11 - 17 ALT. BICO 4,5 (3) 4,5 - 4,5 Neopelma palescens 20,5 (2) 19,5 - 21,5 81,5 (2) 80 - 83 64,5 (2) 61 - 68 144 (2) 143 - 145 18,6 (2) 18,2 - 19 12,2 (2) 11,4 - 13 11,4 (2) 11,3 - 11,5 5 (2) 5-5 Cyanocorax chrysops 140,3 (8) 127 - 158 336,3 (11) 325 - 350 45,4 (11) 41,6 - 49 27 (9) 25,5 - 29,8 16,6 (11) 12 - 19 11,9 (11) 9,3 - 13 152,1 (11) 155,5 (11) 138 - 158 138 - 160 Polioptila dumicola 6,5 (1) 64 (1) 54 (1) 120 (1) 17 (1) 12 (1) 12 (1) 3 (1) Turdus nigriceps 49 (1) 115 (1) 84 (1) 194 (1) 28 (1) 16 (1) 12 (1) 6,5 (1) Turdus leucomelas 67,1 (21) 61,5 - 78 118,6 (59) 95 (57) 104 - 127 81 - 107,0 222,3 (58) 210 - 245 31,6 (59) 27,5 - 37 19,8 (60) 17 - 24 13,7 (54) 10,3 - 18,0 7,5 (54) 6,5 - 10,1 Turdus amaurochalinus 57,1 (23) 48,5 - 67 114,9 (51) 100 - 128 91,2 (51) 80 - 102 216,1 (50) 195 - 235 31,2 (50) 26,5 - 35,6 19,3 (51) 17 - 22,5 13,2 (47) 10 - 16,5 7,1 (49) 5 - 8,5 Cyclarhis gujanensis 27,2 (11) 25 - 30 76,1 (14) 72 - 85 60,4 (14) 53 - 65 150,5 (14) 144 -160 23,4 (13) 21 - 27,6 16,5 (14) 11,5 - 19 12,1 (14) 9 - 14,8 9,7 (14) 8,8 - 11 Vireo chivi 15,3 (12) 14 - 18 70,1 (12) 65 - 75 47,8 (12) 37 - 55 124,2 (12) 115 - 135 18,1 (12) 17 - 19,4 13,3 (12) 11,9 - 15,5 9,3 (12) 7,1 - 11 4,7 (12) 4-5 Basileuterus flaveolus 13,7 (66) 11 - 16 64,7 (76) 59 - 74 60,8 (76) 46 - 69 137 (76) 122 - 150 22,8 (75) 19 - 26,3 12,1 (75) 10,2 - 15,5 8,2(75) 6 - 11 4,2 (76) 3,5 - 5 Basileuterus c. hypoleucus 10,3 (6) 9,5 - 11 57 (6) 53 - 60 51,8 (6) 47 - 55 117,2 (6) 111 - 122 19,4 (6) 18,8 - 20,4 10,5 (6) 9,7 - 12 7,9 (6) 7,5 - 8,7 4 (6) 3,3 - 5 Thlypopsis sordida 14,0 (3) 12,5 - 15 68 (3) 65 - 71 58 (3) 54 - 60 130 (3) 123 - 135 21,6 (3) 20,2 - 23,5 11,2 (3) 10,8 - 11,6 8,8 (3) 8 - 9,7 4,9 (3) 4,7 - 5,2 91 ESPÉCIE PESO ASA CAUDA C. TOTAL TARSO CÚLMEM L BICO ALT. BICO Eucometis penicillata 26,8 (8) 23 - 29 90 (12) 84 - 96 80,9 (12) 75 - 86 174,7 (12) 165 - 185 20,7 (12) 20 - 21,5 16,3 (12) 22,4 - 18,2 12,4 (12) 10,7 - 14,3 8,2 (12) 7,3 - 9 Tachyphonus rufus 31 (13) 26 - 34 84 (24) 80 - 95 73 (24) 73 - 87 182,6 (23) 170 - 194 23,6 (22) 21 - 28 18,6 (23) 16,6 - 20,8 10,6 (23) 8,9 - 12,6 8,9 (23) 6 - 10 Trichothraupis melanops 19,5 (1) 80 (1) 65 (1) 149 (1) 17,9 (1) 12,1 (1) 11,9 (1) 4,8 (1) Habia rubica 12 (1) 69 (1) 63 (1) 150 (1) 17,8 (1) 14 (1) 7,7 (1) 5,5 (1) Piranga flava 24 (1) 90 (1) 85 (1) 185 (1) 19 (1) 18 (1) 9 (1) 7,5 (1) - 90 (1) 87 (1) 173 (1) 21,6 (1) 14,7 (1) 12,6 (1) 8,6 (1) Thraupis sayaca 30,1 (5) 27,4 - 33,5 92,2 (5) 88 - 97 62,4 (5) 58 - 68 151 (5) 149 - 155 19,4 (5) 18,2 - 20 14,3 (5) 13,1 - 16,5 10,9 (5) 9,7 - 11,9 7,6 (5) 6,8 - 8,6 Thraupis palmarum 40,5 (2) 38,5 - 42,5 103 (3) 101 - 106 77,3 (3) 74 - 79 170 (3) 160 - 176 20,8 (3) 20 - 21,2 14,6 (3) 13,5 - 15,5 11,1 (3) 7,5 - 14 7,1 (3) 7 - 7,2 Tangara cayana 19,3 (3) 17,5 - 21 77,3 (4) 73 - 80 52,5 (4) 52 - 53 129,3 (4) 123 - 135 18,6 (4) 17,3 - 19 12,6 (4) 10,6 - 16,5 8,8 (4) 8 - 9,4 6,4 (4) 5,9 - 7 Zonotrichia capensis 14,8 (2) 10,5 - 19 67 (2) 66 - 68 63,5 (2) 60 - 67 138,5 (2) 137 - 140 20,4 (2) 20 - 20,7 13,1 (2) 13 - 13,3 8,5 (2) 8 - 8,9 7,7 (2) 7,4 - 8 Oryzoborus angolensis 17,25 (2) 12 - 22,5 67 (2) 60 - 74 62,5 (2) 58 - 67 135,5 (2) 122 - 149 18 (2) 16 - 20 13,05 (2) 11 ,6 - 14,5 11,25 (2) 10,5 - 12 11,25 (2) 10,5 - 12 Arremon flavirostris 25,2 (5) 25,5 - 27 72,8 (5) 66 - 77 64,2 (6) 59 - 73 149,2 (6) 141 - 160 24,9 (6) 23,5 - 27,9 14,1 (6) 12,7 - 15,3 9,4 (6) 8 - 10,3 7,9 (6) 7,7 - 8,2 Ramphocelus carbo 92 ESPÉCIE Coryphospingus cucullatus PESO 15,6 (11) 14 - 18 ASA 65,4 (11) 60 - 70 CAUDA 57,5 (11) 53 - 63 C. TOTAL 132,8 (11) 120 - 144 TARSO 18,7 (11) 17,1 - 21,2 CÚLMEM 11,9 (10) 8,6 - 13,3 L BICO 8,5 (11) 6,2 - 10 ALT. BICO 7 (11) 6,2 - 8,5 Saltator similis 43,2 (48) 37 - 48 98,8 (65) 90 - 112 90,2 (63) 74 - 100 204,2 (63) 170 - 230 25 (67) 21,8 - 31,2 18,9 (65) 16,2 - 21,2 13 (65) 10,5 - 16 12,3 (65) 11 - 14 93 2.1. Biometria Fontes de variação em características biométricas podem ser raças geográficas (nas espécies politípicas), idade (jovem ou adulto) e sexo. Nas espécies onde o dimorfismo sexual não é evidente, os estudos com marcação e recapturas não detectam variações quanto ao sexo, não se podendo portanto, controlar esta variável. Quanto às médias entre jovens e adultos e entre machos e fêmeas para quatro espécies cada um (Tabela 2.2), verificou-se que em nenhum caso o valor calculado de t foi significativo (Vieira & Hoffmann, 1980). Assim sendo, pelo menos para estas espécies, os dados obtidos não variaram em função da idade ou do sexo. O critério para escolha destas quatro espécies foi o número suficiente de capturas e medições. Tabela 2.2. Variação de valores médios de peso (g), comprimento de asa, cauda, total, tarso, cúlmem, largura e altura do bico (mm) comparada entre machos e fêmeas e jovens e adultos. pes = peso; cau = cauda; ctot= comprimento total; tar=tarso; cul=cúlmem; lbi=largura do bico; altbi=altura do bico; AD=adulto; JOV=jovem; F=fêmea; M=macho, t = valor de t calculado (teste de t – student) pes 14,0 13,8 0,6 asa 64,3 64,4 0,9 cau 60,4 61,4 0,3 ctot 137,2 133,1 0,2 tar 22,8 23,0 0,5 cul 12,2 11,8 0,1 lbi 8,4 8,3 0,7 altbi 4,3 4,2 0,9 AD JOV t 20,9 20,5 0,6 82,0 83 0,9 68,4 75,9 0,3 163,1 164,9 0,2 19,8 18,8 0,5 15,2 14,3 0,1 11,7 12,6 0,7 6,0 5,7 0,9 Cnemotriccus fuscatus AD JOV t 13,8 13,7 0,9 68,4 67,5 0,5 60,1 60,6 0,9 135,1 133,8 0,6 18,2 17,8 0,3 11,6 12,0 0,3 9,5 10,4 0 4,7 4,6 0,8 Saltator similis AD JOV t 43,0 43,2 0,9 98,3 96,6 0,6 89,3 89,9 0,7 200,3 204,0 0,4 25,3 24,8 0,3 19,1 18,8 0,4 12,8 13,1 0,4 12,4 13,7 0,5 Pipra fasciicauda F M 15,7 15,8 64,5 65,1 29,4 28,0 102,5 102,4 15,9 16,5 13,4 14,1 10,7 10,1 4,4 5,0 Basileuterus flaveolus AD JOV t Casiornis rufa 94 Thamnophilus punctatus Tachyphonus rufus t pes 0,9 asa 0,4 cau 0 ctot 1,0 tar 0,2 cul 0,9 lbi 0,2 altbi 0,1 F 19,4 68,0 54,5 137,7 23,0 16,1 10,9 6,7 M t 19,2 0,7 68,3 0,7 53,2 0,2 137,1 0,7 22,7 0,6 15,2 0,1 11,1 0,8 7,2 0,2 F M t 30,7 31,3 0,84 84,7 89,0 0,01 78,4 82,7 0,02 F M t 27,0 29,6 0,2 79,3 79,2 0,9 67,0 64,0 0,3 82,2 23,5 18,4 11,4 72,0 22,8 18,2 21,0 0,31 0,46 0,66 0,28 9,2 9,0 0,80 Thamnophilus doliatus 169,0 161,6 0,5 28,7 28,0 0,7 17,6 18,1 0,5 11,9 11,9 0,8 8,0 7,5 0,2 Bierregaard (1988) determinou dimorfismo sexual no gênero Deconychura por medidas de asa e cauda. Counsilman et alii (1994) utilizaram dados morfométricos para a distinção de sexo em duas espécies do gênero Acridotheres, concluindo que os caracteres morfométricos mais eficientes na discriminação foram tamanho da cauda, largura do bico e cúlmem. Lockwood & Moulton (1994) utilizaram-se de diversos dados morfométricos medidos em espécimes de museus (envergadura de asa, largura e comprimento do bico) para comparar a morfologia de Passeriformes introduzidos no arquipélago de Bermudas, obtendo variações maiores do que se poderia atribuir como sendo ao acaso, concluindo existirem adaptações morfológicas aos diferentes ambientes. Variações morfológicas na mesma espécie podem ocorrer em curto espaço de tempo, quando há isolamento geográfico. Em Zosterops lateralis foram verificadas diferenças significativas nos valores médios de asa, cabeça, cauda, tarso e bico e nas variâncias da asa, bico e cabeça, quando compararam-se populações de novos e antigos colonizadores de ilhas do sudeste do Pacífico (Clegg et alii, 1998). Mesmo em raças simpátricas, podem ocorrer variações morfométricas, conforme Friesen et alii (1998) observaram para Oceanodroma castro. Nesta espécie, indivíduos que se reproduzem na mesma época são semelhantes morfológica e geneticamente, sendo entretanto distintas fenotipicamente daquelas que se reproduzem em estações diferentes.Comparando-se por 95 exemplo, algumas características morfológicas de Nystalus maculatus (comprimentos de asa, cauda e bico) obtidas por Silva (1991) com os do presente estudo, tem-se a situação da Tabela 2.3. Tabela 2.3. Dados morfológicos (médias) comparados de Nystalus maculatus (valores em mm). PROCEDÊNCIA Asa Cauda Três Lagoas (MS) 78,7 (n=7) 78,1 (n=14) 77,8 (n=15) 77,3 (n=7) 77,4 (n=5) 64,0 (n=7) 69,2 (n=13) 70,1 (n=14) 68,7 (n=7) 72,7 (n=4) Centro-Oeste (sul do PA, MG, GO e MT) Nordeste (MA, CE e BA) Santarém (PA) Marajó (PA) Bico (cúlmem) 32,4 (n=7) 33,1 (n=14) 33,9 (n=15) 29,5 (n=7) 39,7 (n=5) Dados biométricos podem também ser usados para separar espécies semelhantes dentro de um gênero. Com os resultados deste estudo, observa-se que, para duas espécies cuja identificação é confusa mesmo na literatura, Leptotila verreauxi e L. rufaxilla, podem-se utilizar medidas de comprimento total, cauda e asa para auxiliar a identificação, já que a segunda espécie foi maior em média, nestas características. Para Elaenia parvirostris e E. mesoleuca, os melhores parâmetros distintivos foram peso, comprimentos de cauda, tarso e a largura do bico. Alves (1986) considerou medidas de bico, principalmente largura e altura, como caráter biométrico forte no auxílio da identificação de espécies do gênero Elaenia. Bierregaard (1988) separou espécies dos gêneros Pipra e Myrmotherula através de medidas de asa e cauda. 96 2.2. Peso Quanto ao peso médio, os dados aqui apresentados variaram bastante em relação aos obtidos por Bierregaard (1988), Silva et alii (1990) e Oniki (1990) para as mesmas espécies (Tabela 2.4). Tabela 2.4. Pesos médios (g) de algumas aves da região de Três Lagoas comparados com dados obtidos em outras regiões do país. ESPÉCIE Região de Três Lagoas (MS) Amazônia Oriental2 Amazônia Central3 4,8 (n=3) Estação Ecológica Serra das Araras (MT)1 - Thalurania furcata Colibri - 4,02 (n=121) 6,5 (n=1) 5,0 - - 112,6 (n=15) - - 134,84 serrirostris Momotus momota Nonnula (n=95) 16,6 (n=9) - - 20,55 (n=2) 82,7 (n=3) 87,0 - - 12,7 (n=17) 13,3 - 13,74 (n=36) Casiornis rufa 21,1 (n=28) 23,5 - - Pipra 15,7 (n=48) 15,5 14,44 - 26,5 (n=20) 25,5 - - 13,7 (n=66) 14,9 - - rubecula Monasa nigrifrons Sittasomus griseicapilus fasciicauda Myiarchus tyrannulus Basileuterus 1 Oniki (1990) - obtidos logo após a captura (n=1). Silva et alii (1990) - média de machos, fêmeas e sexo desconhecido (n não fornecido) 3 Bierregaard (1988) 2 97 ESPÉCIE Região de Três Lagoas (MS) Estação Ecológica Serra das Araras (MT)1 Amazônia Oriental2 Amazônia Central3 19,3 (n=58) - 19,5 - 31,0 (n=13) - 36,5 - 17,25 (n=2) - - 12,79 (n=7) flaveolus Thamnophilus punctatus Tachyphonus rufus Oryzoborus angolensis Para entender a variação do peso das espécies capturadas na região de Três Lagoas ao longo do ano, fez-se a média mensal para as espécies com maior número de capturas, obtendo-se os resultados mostrados nas Figuras 2.1. e 2.2. Observa-se nestes casos que, aparentemente, não houve grandes variações nestes valores ao longo do ano. Houve uma tendência a ligeiro declínio em agosto, o que ficou evidente em T. amaurochalinus, C. fuscatus, B. flaveolus e S. griseicapillus. O peso médio de P. fasciicauda e T. leucomelas caiu em outubro; o de T. punctatus teve uma queda mais acentuada em maio. O peso é uma característica cujos valores podem mudar em pouco espaço de tempo. Oniki (1990) verificou para 15 espécies que seus pesos corporais variaram de 0,8 até 15,5g em uma noite, sendo que as com menos de 20g perderam proporcionalmente, menos peso do que aquelas cujos pesos excediam este valor. Neste estudo, foi verificado que espécies como Monasa nigrifrons e Myiarchus swainsoni mostraram queda de peso em magnitudes semelhantes (7 e 6,8g respectivamente); entretanto, esta última mostrouse mais debilitada, já que isso proporcionalmente é mais significativo. 98 peso médio (g) 25 20 15 10 5 C. fuscatus P. fasciicauda B. flaveolus S. griseicapilus C. rufa T. punctatus 0 j f m a m j j a s o n d meses do ano Figura 2.1. Variação do peso médio das espécies com maior número de capturas e até peso médio (g) 25g ao longo do ano. 80 70 60 50 40 30 20 S. similis T. leucomelas 10 M. tyrannulus T. amaurochalinus 0 j f m a m j j a s o n d meses do ano Figura 2.2 .Variação do peso médio das espécies com maior número de capturas e com mais de 25g ao longo do ano. 99 Variação de massa corporal foi tema de estudos na Suíça. Turrian & Jenni (1991) relacionaram a variação da massa corporal de Sylvia atricapilla com tamanho, época de ano e de mudas e horas do dia. Wendeln & Becker (1996) estudaram a variação da massa corporal de Sterna hirundo na Alemanha durante três anos, detectando, nos dois primeiros anos, um aumento no peso das fêmeas antes do período de postura de ovos, seguido de um declínio durante a incubação, mantendo-se constante no terceiro ano, a exemplo dos machos, cujas massas nunca se alteraram neste período. Também foi visto neste estudo que indivíduos incubando ovos eram mais pesados do que aqueles cuidando de ninhegos. As variações de peso observadas neste caso foram atribuídas ao estresse e às condições de forrageamento. Das oito espécies em que foi possível avaliar a variação no peso médio ao longo do dia, constatou-se uma tendência em aumento progressivo em A. leucophthalmus, B. flaveolus, L. amaurocephalus, P. fasciicauda, M. momota e S. griseicapillus. Somente em D. mentalis e T. punctatus esta tendência não ficou claramente definida. Em D. mentalis, a tendência foi inversa, decaindo o peso até próximo das 15hs, a partir de quando houve um ganho de peso (Figura 2.3). 100 B. flaveolus 36 14,6 35 14,4 34 14,2 33 14 peso médio peso médio A. leucophthalmus 32 31 30 13,8 13,6 29 13,2 28 13 27 5 as 6:59 7 as 8:59 9 as 10:59 11 as 12:59 N=38 13,4 N=10 12,8 5 as 6:59 15 o 13 as 14:59 7 as 8:59 horas do dia 9 as 10:59 11 as 12:59 13 as 14:59 15 ou + horas do dia D. mentalis L. amaurocephalus 15 16 14 14,5 12 10 peso médio peso médio 14 13,5 8 6 13 N=14 4 N=20 12,5 12 5 as 6:59 7 as 8:59 9 as 10:59 11 as 12:59 13 as 14:59 2 15 ou + 0 5 as 6:59 horas do dia Figura 2.3. Variação média do peso de oito espécies ao longo do dia. 7 as 8:59 9 as 10:59 11 as 12:59 horas do dia 13 as 14:59 15 ou + 101 M. momota P. fasciicauda 126 124 122 15,8 120 peso médio 16 15,6 N=58 15,2 N=9 114 112 15 14,8 5 as 6:59 118 116 15,4 7 as 8:59 9 as 10:59 11 as 12:59 13 as 14:59 110 5 as 6:59 15 ou + 7 as 8:59 9 as 10:59 11 as 12:59 13 as 14:59 15 ou + horas do dia horas do dia T. punctatus S. griseicapillus 21 14,5 20,5 14 20 peso médio 13,5 peso médio peso médio 16,2 13 12,5 19 18,5 N=11 N=11 18 12 11,5 5 as 6:59 19,5 7 as 8:59 9 as 10:59 11 as 12:59 horas do dia 13 as 14:59 15 ou + 17,5 5 as 6:59 7 as 8:59 9 as 10:59 11 as 12:59 horas do dia Figura 2.3 (continuação). Variação média do peso de oito espécies ao longo do dia. 13 as 14:59 15 ou + 102 As estações do ano também podem afetar o peso, uma vez que podem ocorrer variações temporárias no acúmulo de gordura ao longo do ano, conforme demonstraram os dados coletados no presente estudo (Figura 2.4). Observa-se que o maior acúmulo médio de gordura deu-se em abril e maio, precedendo a estação seca, quando então constatou-se o menor acúmulo (junho-julho). Segundo Winker (1998), o peso de um único indivíduo pode variar muito ao longo do ano, e esta variação pode ser diferente entre sexos e espécies. Como exemplo, o autor cita migrantes continentais de pequeno porte que, no outono, dobram sua massa corporal devido ao acúmulo de gordura para migração. 35 %médio de acumilo de gordura 30 25 20 15 10 5 0 JAN FEV MAR ABR MAI JUN JUL AGO SET Mes es Figura 2.4. Variação média mensal no percentual de gordura acumulada em aves capturadas na região de Três Lagoas (MS). Dados obtidos de 877 capturas e 95 espécies. 2.3. Biomassa Um outro aspecto que pode ser avaliado na determinação dos parâmetros das comunidades é a biomassa, calculada pelo peso médio dos indivíduos de cada espécie multiplicado pelo número de indivíduos capturados. De acordo com este procedimento, 103 observa-se que algumas espécies, como Basileuterus flaveolus e Cnemotriccus fuscatus, apesar de individualmente apresentarem pequeno peso médio, resultam em grande biomassa na comunidade em função do grande número de indivíduos capturados. Outras como Momotus momota têm um grande número de indivíduos capturados e alto peso médio. Há ainda aquelas com grande valor de peso médio que possuem alta biomassa, mesmo em não terem sido capturados muitos indivíduos (Tabela 2.5). Tabela 2.5. Peso médio (g) e biomassa (g) das espécies capturada em todos os locais estudados. Espécies ordenadas em ordem decrescente pela biomassa. ESPECIE Momotus momota Turdus leucomelas Saltator similis Leptotila rufaxilla Turdus amaurochalinus Leptotila verreauxi Cyanocorax chrysops Basileuterus flaveolus Thamnophilus punctatus Cnemotriccus fuscatus Claravis pretiosa Pipra fasciicauda Myiarchus tyrannulus Piaya cayana Tachyphonus rufus Casiornis rufa Columbina talpacoti Dendrocolaptes platyrostris Taraba major Monasa nigrifrons Myiodinastes maculatus Cyclarhis gujanensis Thamnophilus doliatus Lepidocolaptes angustirostris Nystalus maculatus Rupornis magnirostris Sittasomus griseicapilus Eucometis penicillata N PESO MÉDIO (g) BIOMASSA (g) 54 62 67 19 51 15 11 85 58 72 16 51 30 7 24 33 14 10 10 5 9 13 12 11 7 1 18 12 112,6 66,0 43,1 144,8 53,9 157,7 140,3 13,9 19,3 13,7 54,3 15,7 26,5 111,1 31,2 20,6 46,7 51,7 53,6 92,0 47,2 28,8 29,1 28,7 42,5 265,0 12,7 26,8 6.080,9 4.092,5 2.888,9 2.751,4 2.749,9 2.363,5 1.542,9 1.184,8 1.120,9 989,7 868,9 801,6 794,0 777,7 748,4 681,1 652,0 568,8 536,1 460,0 424,8 402,0 377,9 315,4 297,5 265,0 228,1 214,5 104 ESPECIE N PESO MÉDIO (g) BIOMASSA (g) Dysithamnus mentalis Coryphospingus cucullatus Campephilus melanoleucos Vireo chivi Automolus leucophthalmus Nonnula rubecula Thraupis sayaca Elaenia flavogaster Arremon flavirostris Empidonomus varius Poecilurus scutatus Veniliornis passerinus Thraupis palmarum Elaenia mesoleuca Hemitriccus margaritaceiventer Leptopogon amaurocephalus Camptostoma obsoletum Galbula ruficauda Coccyzus melacoryphus Tangara cayana Lathrotriccus euleri Platyrhinchus mystaceus Tityra cayana Chloroceryle americana Corythopis delalandi Antilophia galeata Glaucidium brasilianum Dendrocolaptes picumnus Synallaxis frontalis Basileuterus hypoleucus Pachyramphus polychopterus Turdus nigriceps Elaenia parvirostris Thlypopsis sordida Neopelma palescens Myiopagis viridicata Amazilia fimbriata Picumnus sp. Brachygalba lugubris Oryzoborus angolensis Xiphorhynchus guttatus Picumnus guttifer 15 12 1 12 6 10 5 5 6 5 9 4 3 8 13 10 11 4 2 4 5 9 1 2 5 3 1 1 4 6 3 1 3 3 2 4 9 3 2 2 1 2 14,0 15,6 186,0 15,4 30,7 16,6 30,1 28,8 23,5 26,6 13,6 30,5 40,5 15,6 9,0 11,4 9,6 25,1 44,0 22,0 17,5 9,6 75,0 36,8 13,7 21,8 64,0 62,0 15,5 10,3 20,3 49,0 15,7 14,0 20,5 9,9 4,3 11,8 17,5 17,3 34,0 12,8 210,0 187,6 186,0 185,3 184,0 166,1 150,4 144,1 141,0 133,0 122,7 122,0 121,5 117,0 116,5 114,4 106,0 100,5 88,0 88,0 87,5 86,1 75,0 73,5 68,5 65,5 64,0 62,0 62,0 62,0 60,8 49,0 47,2 42,0 41,0 39,5 38,5 35,5 35,0 34,5 34,0 25,5 105 ESPECIE Piranga flava Myiarchus ferox Formicivora rufa Cranioleuca vulpina Thamnophilus punctatus Trichothraupis melanops Serpophaga subcristata Myiophobus fasciatus Synallaxis gujanensis Hylocharis chrysura Synallaxis albescens Habia rubica Tolmomyias sulphurescens Zonotrichia capensis Picumnus cirratus Chlorostilbon aureoventris Polioptila dumicola Colibri serrirostris Antrachothorax nigricollis Chrysolampis mosquitus Phyllomyias fasciatus Tyrannus melancholicus Ramphocelus carbo Pitangus sulphuratus Phaethornis pretrei Nyctidromus albicollis Nemosia pileata Hydropsalis brasiliana Geotrygon montana Crypturellus tataupa Columbina minuta Colaptes melanochloros Campylorhamphus trochilirostris ** Dados perdidos N PESO MÉDIO (g) BIOMASSA (g) 1 1 2 1 1 1 2 1 1 4 1 1 1 1 1 2 1 1 1 1 1 2 1 5 1 2 1 1 1 2 1 2 4 24,0 24,0 10,8 20,5 20,0 19,5 9,0 15,0 14,0 3,3 12,5 12,0 11,0 10,5 10,0 4,5 6,5 6,5 6,5 4,0 4,0 ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** 24,0 24,0 21,5 20,5 20,0 19,5 18,0 15,0 14,0 13,0 12,5 12,0 11,0 10,5 10,0 9,0 6,5 6,5 6,5 4,0 4,0 ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** 106 3. AS PLANTAS 3.1 Espécies vegetais amostradas Foram amostrados, para fins de acompanhamento fenológico, 66 taxa vegetais, representando 32 famílias, sendo 56 delas no Horto Barra do Moeda e 15 registradas para o Horto Rio Verde (Tabela 3.1). Tabela 3.1 Espécies vegetais amostradas nos Horto Barra do Moeda e Rio Verde, por famílias e locais de ocorrência. Cerrado Cerra Mata ciliar - Pesqueiro (1) dão (2) (3) Cerradão degradado Lajeado (5) FAM. ANACARDIACEAE Spondias lutea x Tapirira guianensis x FAM. ANNONACEAE Annona crassiflora x Duguetia furfuracea x Unonopsis lindmanii Xylopia aromatica x x x FAM. APOCYNACEAE Aspidosperma tomentosum x FAM. BIGNONIACEAE Tabebuia aurea x Tabebuia ochraceae Zeyheria tuberculosa x x FAM. BOMBACACEAE Pseudobombax longiflorum x FAM. CAESALPINOIDEAE Bauhinia rufa x 107 Cassia rugosa Cerrado Cerra Mata ciliar - Pesqueiro (1) dão (2) (3) x Cassia sp. Cerradão degradado Lajeado (5) x FAM. CECROPIACEAE Cecropia sp. x Cecropia pachystachya x FAM. COMBRETACEAE Terminalia brasiliensis x FAM. CONNARACEAE Connarus suberosus x x x x FAM. DELLENIACEAE Curatella americana FAM. ELAEOCARPACEAE Sloanea sp. x FAM. ERYTHROXYLACEAE Erythroxylum campestre x Erythroxylum suberosum x FAM. EUPHORBIACEAE Mabea fistulifera x Actinospermon communis x FAM. FLACOURTIACEAE sp1 x sp2 x FAM. GUTTIFERAE Kielmeyera variabilis x FAM. LAURACEAE sp1 x sp2 x Nectandra lanceolata x Nectandra megapotamica x 108 Nectandra cessifolia Cerrado Cerra Mata ciliar - Pesqueiro (1) dão (2) (3) x Cerradão degradado Lajeado (5) FAM. LEGUMINOSAE – MIMOSOIDEA Enterolobium contortisiliquium x FAM. MALPIGUIACAE Byrsonima intermedia x Byrsonima coccolobifolia x x FAM. MELASTOMATACEAE Miconia albicans x FAM. MELIACEAE Trichilia pallida x Trichilia hirta x x Guarea macrophyla x x FAM. MIMOSACEAE Anadenanthera falcata x Anadenanthera sp. x x Inga sp. x Opuleia leiocarpa x Plathymenia reticulata x Stryphnodendron polyphylum x FAM. MYRTACEAE Eugenia aurata x Eugenia gorderiana x Campomanesia adamantinum x Myrcia bela x Myrcia sp. x Eugenia bimarginata x FAM. MYRSINACEAE Rapanea guianensis x x 109 Cerrado Cerra Mata ciliar - Pesqueiro (1) dão (2) (3) Cerradão degradado Lajeado (5) FAM. OCHRACEAE Ouratea spectabilis x FAM. PAPILIONOIDEAE Plapodium elegans x FAM. PIPERACEAE Piper sp. x x FAM. PROTEACEAE Roupala montana x FAM. RUBIACEAE Alibertia lanceolata x Randia armata x Tocoyena formosa x FAM. SAPINDACEAE Dilodendron bipinatum x Cupania sp. x Matayba eleagnoides x x sp1 FAM. SAPOTACEAE sp1 Pouteria torta x FAM. ULMACEAE Trema micrantha x FAM. VOCHYSIACEAE Qualea grandiflora TOTAL DE ESPÉCIES x 23 20 17 15 110 Comparando-se os quatro locais através da Distância Euclidiana, levando-se em conta somente a presença/ausência de espécies vegetais, tem-se que cerrado e lajeado foram os locais mais semelhantes, enquanto os mais díspares foram cerradão e cerrado; curiosamente, localizados dentro da mesma reserva (Tabela 3.2). Tabela 3.2. Distâncias Euclidianas obtidas para quatro locais pela presença/ausência de espécies vegetais. LOCAIS CERRADÃO CERRADO PESQUEIRO LAJEADO 6,24 5,48 6,08 5,92 5,10 CERRADÃO CERRADO PESQUEIRO 5,48 LAJEADO Estes valores foram semelhantes quando se calculou a Distância Euclidiana entre os diversos locais com base na avifauna (ver Tabela 1.9). Em relação a estes quatro pontos, os mais semelhantes em avifauna foram Lajeado e Pesqueiro (4º posto quanto à vegetação). O segundo, terceiro e sexto postos foram os mesmos nos dois casos (respectivamente: cerradão lajeado; cerrado - pesqueiro e cerrado - lajeado). Nestes casos, fica evidente a associação entre a avifauna e o tipo de vegetação. Das espécies aqui amostradas, 14 também foram registradas por SilberbauerGottsberger & Eiten (1983) no estado de São Paulo e apenas três por Pinto et alii (1997) em duas matas de galeria no estado de Mato Grosso, Tapirira guianensis, Cecropia pachystachya e Matayba eleagnoides, embora diversos gêneros tenham sido comuns. Ë possível que existam mais espécies comuns nos dois casos, não identificadas a este nível no presente estudo. 111 3.2. Síndromes de dispersão Frutos são grandes fontes de recursos alimentares (Loiselle & Blake, 1990), e suas características morfológicas externas como cor brilho e cheiro funcionam como sinalizadores - as síndromes de dispersão - podendo refletir processos coevolutivos entre plantas e seus dispersores (Van Der Pijl, 1982; Piña-Rodrigues & Piratelli, 1993). O contraste de cores (devido ao amadurecimento diferencial) representam sinalizações de palatabilidade (GautierHion et alii, 1985), reduzindo a predação de frutos cujas sementes ainda não estejam totalmente maturas. Nas áreas aqui estudadas, verificou-se o predomínio de zoocoria sobre as demais formas de dispersão de sementes (Figura 3.1). Segundo Gentry (1982) e Stiles (1985), a zoocoria tende a predominar em sub-bosques de regiões tropicais, o que pode ser devido, entre outros fatores, à sua composição florística, formando vegetação densa e permitindo pouca circulação de vento neste extrato da vegetação, dificultando portanto, a colonização por espécies vegetais anemocóricas. Considerando-se que no presente estudo foram amostradas principalmente plantas com menos de três metros de altura, o padrão encontrado coincidiu com o esperado. Em floresta pluvial na Colômbia, Hilty (1980) constatou que apenas 3% das espécies tinham suas sementes dispersas pelo vento, enquanto cerca de 89% produziam frutos adequados ao consumo por aves. Em estudo na Nova Zelândia, Burrows (1994) observou que 86% das espécies arbóreas e 80% das arbustivas tinham frutos carnosos, dos quais, 40% de cor preta-brilhante e 25% vermelhos, o que foi associado à ornitocoria. Foi observado o consumo destes frutos por Turdus merula e Zosterops lateralis, havendo recuperação de sementes de 33 espécies vegetais (80%) após sua passagem pelo tubo digestivo das aves. A predominância de zoocoria nas áreas aqui estudadas pode representar, sob este aspecto, pouco efeito da fragmentação já que, conforme Santos & Telleria (1994), esse fenômeno alteraria as comunidades animais o que, por sua vez, poderia comprometer a capacidade de dispersão das plantas. Em outras palavras, áreas mais fragmentadas tenderiam a ter menos espécies zoocóricas em função da redução de seus agentes dispersores. Conforme compilação efetuada por Piña-Rodrigues & Aguiar (1993), a dispersão por animais predominou em floresta primária - Ibicatu - SP (62% das espécies amostradas) e em floresta de transição - Linhares - ES (74%). Já em locais mais perturbados, a dispersão abiótica torna- 112 se mais importante (ex.: Mata de Santa Genebra, Campinas - SP; 51% das espécies amostradas eram dispersas por fatores abióticos). Relacionando as bordas criadas pela ação antrópica com a abundância de frutos e de aves frugívoras na Colômbia, Restrepo et alii (1999) verificaram que as aves frugívoras não responderam às variações na abundância de frutos, mas sim aos efeitos da borda. Estes efeitos, por sua vez, estão relacionados à idade das bordas; quanto mais antigas, menor a influência sobre a diversidade, tanto de aves quando de frutos. zoocoria 77% N=48 autocoria 2% anemocoria 21% Figura 3.1. Proporção de ocorrência de síndromes de dispersão de sementes nas espécies amostradas em dois hortos florestais na região de Três Lagoas (MS). N=48 Dentre as espécies zoocóricas, a ornitocoria predominou sobre a mamaliocoria (aqui incluindo-se a Quiropterocoria, a dispersão por morcegos) em todas as áreas, exceto no cerradão degradado (Figura 3.2). As espécies ornitocóricas diferenciam-se das mamaliocóricas pois, normalmente possuem frutos carnosos, sem odor aparente e com cores vistosas que se sobressaem da vegetação (Figura 3.3). Neste local, observa-se um grande número de indivíduos de Alibertia lanceolata (Quiropterocoria). Em relação ao tipo de formação vegetal, constataram-se índices de zoocoria de 100% para mata ciliar e 83% para o cerradão. A zoocoria neste caso, aparentemente esteve mais 113 representada na mata ciliar estudada na região de Três Lagoas (X2 = 8,92; sig. a 5%). No cerradão degradado, observou-se a maior proporção da anemocoria, superando inclusive o cerrado, também ambiente aberto. Durigan (1991) verificou que em mata ciliar na região de Assis (SP), a zoocoria podia ocorrer em até 95% das plantas. Em vegetação de cerradão, na mesma região, este índice caiu para 35%. 3.3. Fenologia O estudo fenológico focaliza o comportamento dos organismos vivos em relação às variações dos fatores abióticos com as estações (Morellato & Leitão-Filho, 1992), tendo sido considerado um dos melhores parâmetros para caracterizar ecossistemas (Lieth, 1974). Em ambientes tropicais, existe periodicidade nas fenofases de espécies vegetais, e quanto mais sazonal o clima, maior a sincronização e adaptações a estacionalidade climática (Richards, 1952 apud Morellato & Leitão-Filho, 1992). A disponibilidade de frutos, por sua vez, pode determinar quais animais têm condições de viver na comunidade, assim como a disponibilidade de agentes dispersores determinará quais plantas vão colonizar e se reproduzirem em novos ambientes (Hasui, 1994). Há várias formas de se estudar a oferta de frutos para aves, seja com a delimitação de uma área, de onde se obtém amostras dos frutos caídos, por vezes denominada “armadilha” (Charles-Dominique et alii, 1981), ou com o acompanhamento de um certo número de indivíduos para cada espécie (Wheelwright, 1986). Porém, os estudos fenológicos mais recentes tem sido realizados com a utilização de parcelas ou transectos, obtendo-se bons resultados ao relacioná-los com estudos avifaunísticos (Blake et alii, 1990a; Loiselle, 1991a). Blake & 114 anem ocoria 11% m am aliocoria 22% anemocoria 27% autoc oria 6% mamaliocoria 20% A ornitoc oria 61% B ornitocoria 53% anemocoria 36% ornitocoria 70% C D mamaliocoria 30% ornitocoria 27% mamaliocoria 37% Figura 3.2. Proporções de ocorrência de síndromes de dispersão de sementes nas espécies amostradas em (A) cerradão – n=18; (B) cerrado – n=15; (C) mata ciliar – n=10 e (D) cerradão degradado – n=11. 115 Figura 3.3. Síndromes de dispersão de sementes: A – Solanum sp. (Mamaliocoria); B – Alibertia sessilis (Mamaliocoria); C – Unonopsis lindmanii (Ornitocoria – foto de F. P. Melo); D – Psicotia sp. (Ornitocoria). 116 Nos trópicos, muitos vertebrados dependem de frutos para sua alimentação, pelo menos em alguma época do ano (Foster 1978; Howe 1984), e a variação sazonal na disponibilidade deste alimento pode gerar padrões em comunidades animais. Peres (1994) verificou alterações em comunidades de primatas na Amazônia brasileira em função da fenologia das espécies vegetais. Loiselle & Blake (1994) detectaram a relação entre a disponibilidade de frutos e a estrutura de comunidades de aves na América Central. Pachecho & Grau (1997) verificaram no nordeste da Argentina, a importância da disponibilidade de frutos em clareiras para manutenção de aves dispersoras, principalmente no inverno, quando a oferta de frutos carnosos era menor. Relacionar a fenologia com a oferta de alimentos para aves frugívoras pode ser uma importante ferramenta em estudos que visem a preservação de ambientes como o cerrado, pois a organização de comunidades de aves depende, entre outros fatores, da disponibilidade de alimento. Blake & Loiselle (1991a, 1992a) verificaram, com a utilização de redes ornitológicas, que as taxas de captura de aves frugívoras variaram diretamente com a disponibilidade de frutos ao longo do ano. Galetti & Pizo (1996) estudaram a frugivoria em 32 espécies de aves e 36 espécies vegetais em um fragmento de mata no sudeste brasileiro (Mata de Santa Genebra), constatando principalmente a presença de pequenos Passeriformes o que, segundo os autores, refletiria o empobrecimento da avifauna no local. No presente trabalho, as espécies vegetais ornitocóricas apresentaram os seguintes ritmos de frutificação e floração (Figura 3.4): 117 espécies com frutos 7 espécies com flores 6 número de espécies 5 4 3 2 1 m Ju n/ 95 a m f j d n o s a Ju l/9 4 0 meses do ano Figura 3.4. Épocas de frutificação e florescimento de espécies ornitocóricas amostradas e identificadas. Não se estabeleceram picos pronunciados de frutificação (rS = 0,215; p = 0,1 ns.) entre as espécies estudadas, embora aparentemente setembro e janeiro tivessem mais espécies frutificando. De acordo com Oliveira (1990), a fenologia de plantas do cerrado seria regulada por fatores abióticos como o fogo e a sazonalidade climática. Assim, nos períodos mais chuvosos, ocorreria uma concentração de espécies frutificando. Por outro lado, neste período haveria uma competição muito intensa entre plantas pelos animais dispersores, o que causaria o deslocamento da frutificação para outras épocas do ano (Foster, 1982). Conforme Piña-Rodrigues & Piratelli (1993), a sazonalidade da frutificação de espécies zoocóricas depende de uma série de fatores. Dentre os fatores bióticos, são destacados por estes autores, a pressão dos agentes dispersores e a necessidade de oferta de alimento ao longo do ano todo, gerando picos mais modestos; e a época mais propícia 118 ao estabelecimento das sementes. Com relação aos fatores abióticos, citam-se o teor de umidade do solo e a temperatura. Quanto à necessidade da oferta de alimento para os animais dispersores ao longo de todo o ano, vários autores têm verificado a frutificação seqüencial em grupos de plantas relacionando este fato à pressão de animais dispersores (Hilty, 1980; MarinhoFilho, 1991), o que pode ser o caso também no presente estudo. Howe (1984) postulou que existem espécies que frutificam o ano todo, mantendo assim a população de frugívoros. Este autor as denomina de espécies-chaves, e cita como exemplos, Virola sebifera e Casearia spp. Revisões mais recentes têm questionado o conceito de espécieschaves, já que normalmente o uso deste termo seria feito baseado em estudos com observações e conhecimentos botânicos precários (João Semir, com. pess.). Araújo et alii (1997) também constataram a ausência de sazonalidade na frutificação em mata decídua em Uberlândia (MG), o que foi atribuído a um provável longo período de retenção de frutos em algumas espécies vegetais. Naquele estudo, a época de maior florescimento coincidiu com a estação chuvosa. Já na Amazônia, em áreas de pastagens abandonadas, foi observado que enquanto o florescimento de Cordia multispicatta ocorria ao longo do ano todo, sua frutificação mais intensa ocorria entre o fim da estação seca e o meio da estação chuvosa (Vieira & Silva, 1997). Frutificação pouco mais intensa na estação chuvosa também foi registrada por Hilty (1980) na Colômbia, embora este autor destaque que no sub-bosque foi constatado que, proporcionalmente, houve maior quantidade de espécies ornitocóricas frutificando no sub-bosque do que no dossel ao longo do ano todo. A estimativa de frutos ornitocóricos obtida no presente estudo permitiu detectar o grande número de frutos disponíveis durante todos os meses amostrados na mata ciliar (Figura 3.5). Isto ressalta a importância deste local para a manutenção da avifauna e a conveniência de chamar a atenção para o impacto ambiental a ser ocasionado pela formação do lago artificial da Usina Hidrelétrica de Porto Primavera, já em andamento, que nos próximos anos deverá submergir esta área. número estimado de frutos 119 800 700 600 500 400 300 200 100 0 jul ago set out nov dez jan fev mar abr mai meses do ano Figura 3.5. Estimativa mensal de frutos na mata ciliar*. A fase de floração nem sempre precedeu a de frutificação, a exceção de um pico de floração em agosto seguido de frutificação em setembro. A época de floração pode não ser tão importante na determinação da frutificação porque estas duas fenofases estariam sujeitas à pressões de seleção muito diferentes (Morellato et alii, 1990), principalmente nos aspectos de polinização e disseminação de sementes. Especificidade de agentes polinizadores e dispersores e a dependência das plantas destes agentes podem ser fundamentais na determinação de sua fenologia. Além disso, existe uma perda natural entre as fases de flor e fruto, ou seja, uma grande quantidade de flores não chegará a formar frutos. Este descarte natural seria uma perda esperada, acarretada por diversos fatores, como a alocação de energia na produção dos frutos e a destruição de flores por furtadores e pilhadores de néctar (Piña-Rodrigues & Piratelli, 1993). Em Cistus albidus por exemplo, essa quantidade chega a quase 35% (Blasco & Mateu, 1995). * Em julho e agosto não foram coletados dados. 120 3.4. Mapas fenológicos De todas as espécies identificadas, os mapas fenológicos encontrados foram os seguintes (Tabelas 3.3 a 3.6). Os números no interior dos quadrados indicam o total de indivíduos na fenofase representada. Legenda: Fruto maduro Fruto senescente flor Fruto Botão floral Broto foliar i Tabela 3.3. Mapa fenológico das espécies vegetais amostradas no cerrado. ESPÉCIE Anadenanthera falcata Anadenanthera sp. Byrsonima intermedia Byrsonima coccolobifolia Campomanesia adamantinum Connarus suberosus Curatella americana jul/94 ago set out nov dez jan/ fev mar abr mai jun 95 1 1 1 1 1 3 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 Duguetia furfuracea 2 1 Erythroxylum suberosum Erythroxylum campestre Matayba elaegnoides 1 1 1 1 1 4 2 2 2 1 2 1 2 1 4 121 ESPÉCIE Matayba guianenses Miconia albicans Myrcia bela Myrcia multiflora Myrcia sp Plathymenea reticulata Psidium incanescens Roupala montana Tabebuia caraiba Xylopia aromatica jul/94 ago set out nov dez jan/ fev mar abr mai jun 95 1 1 1 3 1 4 3 1 1 1 1 1 1 1 6 1 6 5 4 2 1 2 2 1 2 1 1 1 3 1 1 Tabela .3.4. Mapa fenológico das espécies vegetais amostradas no cerradão. ESPÉCIE Actinostermon communis jul/ ago 94 1 Dilodendron bipinatum 1 2 1 1 1 1 Inga sp Nectandra lanceolata Tapirira guianensis Trichilia pallida 1 1 5 set out nov dez 13 1 48 1 3 jan/ fev mar abr mai jun 95 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 Tabela 3.5. Mapa fenológico das espécies vegetais amostradas na mata ciliar 4 122 ESPÉCIE jul/94 Celtis iguanae Unonopsis lindmanii 1 5 Randia armata Spondias lutea Trema micrantha Trichilia pallida ago set 1 1 1 3 4 8 4 2 out nov 3 4 3 14 4 1 1 1 dez 8 13 jan/ fev mar abr mai jun 95 8 11 1 1 10 2 4 10 2 5 8 5 3 3 3 3 5 1 1 1 1 2 1 1 1 1 1 Tabela 3.6. Mapa fenológico das espécies vegetais amostradas no Lajeado. ESPÉCIE Alibertia lanceolata Bauhinia sp. Byrsonima coccolobifolia Campomanesia adamantinum Curatella americana Eugenia aurata Himenea sp. Miconia albicans jul/ ago set out nov dez jan/ fev mar abr mai jun 94 95 11 2 3 1 9 5 5 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 3 6 1 4 4 1 2 30 1 1 1 Por estes mapas fenológicos, foi possível a determinação de como se comportam os indivíduos amostrados em relação às suas fenofases (Figura 3.6). número estimado de frutos 123 60 frutos maduros frutos secos 50 flores frutos imaturos 40 botões florais 30 20 10 0 jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez meses do ano Figura 3.6. Total de indivíduos amostrados nas diferentes fenofases ao longo do ano. Pelos mapas fenológicos e pela figura acima, nota-se que em setembro ocorreu a maior quantidade de indivíduos com frutos maduros, botões florais e frutos imaturos; o maior pico de floração deu-se em outubro. A co-ocorrência de diversas fenofases em setembro parece coincidir com o início da estação chuvosa. A assincronia verificada entre floração e frutificação pode estar relacionada a uma provável variação ano a ano no ritmo fenológico das plantas estudadas, o que estaria associada às condições ambientais (Fisher 1962, apud Gorchov, 1987). Como diversos autores ressaltam, a definição exata dos padrões de oferta de frutos ao longo do ano dependem de estudos de longa duração. Wheelwright (1986) não conseguiu representar adequadamente os ciclos de produção de frutos de 16 espécies de Lauracea mesmo após sete anos de estudos. Gorchov (1987) sugere inclusive que esta imprevisibilidade temporal não seria favorável ao desenvolvimento de processos coevolutivos de competição entre os agentes dispersores. 143 4. HÁBITOS ALIMENTARES - GUILDAS TRÓFICAS O alimento é considerado por vários autores como o aspecto mais importante para determinação de processos ecológicos e evolutivos dentro de uma comunidade (Wong, 1983; Simberloff & Dayan, 1991) e a análise fecal é uma ferramenta útil para detectar o consumo de frutos, principalmente porque, em condições naturais, isto nem sempre pode ser observado, como quando se trabalha por exemplo, em florestas tropicais como a Amazônia (Blake & Loiselle, 1992c). Os estudos sobre hábitos alimentares das aves brasileiras tiveram uma importante contribuição na década de 60, quando Schubart et alii (1965) publicaram seus resultados sobre conteúdo estomacal de cerca de 1900 indivíduos, representantes de 600 espécies e subespécies da avifauna brasileira, a partir de espécimes coletados desde 1939 em diferentes regiões do País. Os frugívoros participam da dispersão de sementes de diversas espécies vegetais e sua morfologia influencia o tipo de fruto consumido e a eficiência como agente dispersor, notadamente em função da morfologia do bico. Aves com bico mais largo consumiriam uma maior diversidade de frutos, além de serem dispersores mais eficientes, já que teriam condições de engolirem os frutos inteiros. (Hasui,1994). Muitas aves, ao se alimentarem de frutos do cerrado, participam do processo de dispersão de sementes. Mendonça & Piratelli (1997) verificaram a provável participação de aves como Crax fasciolata, Penelope obscura e Ramphastos toco na dispersão de sementes de diversas espécies vegetais do cerrado da região de Três Lagoas (MS) e Ilha Solteira (SP), entre elas, Alibertia sessilis (a princípio com síndrome de Chiropterocoria) e Syagrus romanzofiana (utilizado como alimento por Chirópteros, Marsupiais e Psitacídeos (João Semir, com. pess.). 4.1. Material fecal Entre as técnicas que têm sido utilizadas para determinar o hábito alimentar quando da captura de uma ave, sem que seja necessário seu sacrifício, cita-se a administração de tártaro emético, para provocar o regurgito, o que tem sido feito com sucesso para diversas 143 espécies de famílias distintas (Herrera, 1975; Poulin et alii, 1992, 1994b; Poulin & Lefebvre, 1995). Recentemente, no Brasil, Mallet-Rodrigues et alii (1997) têm utilizado esta técnica com sucesso no estado do Rio de Janeiro, com maior eficiência em Tyrannidae e Emberizidae. Outra técnica, adotada neste estudo, é a coleta e análise de fezes. Segundo Remsen et al (1993), apesar de existirem modificações causadas pelo processo digestivo, o que dificulta a identificação taxonômica das amostras obtidas, a análise do conteúdo estomacal e de fezes forneceria os melhores dados sobre a composição da dieta para a classificação em guildas. Taylor & O’Halloran (1997) buscando determinar a dieta de Cinclus cinclus através da análise de fezes e regurgitos, compararam estes dois métodos. Encontraram itens de maior tamanho em quantidade ligeiramente maior no material fecal, embora a nível taxonômico, os dois procedimentos não produziram diferenças significativas. No presente trabalho, do total de 1306 capturas e 1048 indivíduos, foram analisadas 419 amostras de fezes, representando 32,13% das capturas e 46,79% dos indivíduos capturados. Em relação às 103 espécies capturadas, 57 foram amostradas (55,34%). Para aquelas espécies de que não se obtiveram amostras, utilizaram-se dados de literatura e observações no campo para determinar sua dieta. Por vezes, quando a amostra foi pequena (p.ex. n=1), a determinação do hábito alimentar levou mais em conta relatos já existentes e observações do que a amostra simplesmente (Tabela 4.1). Determinaram-se seis categorias em relação ao material encontrado: (1) inseto, (2) fruto, (3) inseto/fruto (ins/fruto), (4) fruto/inseto (frut/inset), (5) sementes e (6) outros. Insetos foram determinados pelos restos de exoesqueleto ou de apêndices articulados, sempre muito fragmentados para que se pudesse proceder sua identificação. O item fruto foi identificado pelos resíduos de polpa carnosa, por vezes com pequenas sementes aderidas. A diferença inseto/fruto para fruto/inseto, foi determinada pela quantidade relativa destes dois itens, predominando insetos no primeiro caso e frutos no segundo. As sementes eram normalmente grandes, isoladas, caracterizando tipicamente que esta parte, e não a polpa foi ingerida. No item outros, colocou-se material não identificado, vários itens conjuntamente, sem que se pudesse determinar predominância de algum deles. 143 4.2. Guildas tróficas O conceito de guilda foi definido por Root (1967) como sendo um grupo de espécies que exploram a mesma classe de recursos do ambiente de modo semelhante. Barbuio (1994) classificou as aves amostradas em guildas conforme hábito alimentar, tamanho da espécie e extratos da vegetação onde forrageiam. Em um sentido mais restrito, uma guilda seria um grupo de espécies que se alimenta do mesmo recurso alimentar em proporções semelhantes (Simberloff & Dayan, 1991). No presente estudo, a exemplo do estudo de Poulin et alii (1994a) foi adotado o conceito de Simberloff & Dayan (1991). Associando-se os itens encontrados com hábitos alimentares, classificou-se as espécies em nove guildas tróficas (Figura 4.1): (1) carnívoros (consumo de pequenos vertebrados), (2) frugívoros (predomínio na dieta de polpa carnosa de frutos); (3) granívoros/frugívoros (sementes secas e frutos); (4) granívoros (somente sementes); (5) insetívoros/frugívoros (insetos predominando sobre frutos); (6) insetívoros (ampla predominância de insetos, ou somente estes artrópodes); (7) nectarívoros (espécies que dependem do néctar como principal item da dieta); (8) onívoros (vários itens nas diferentes amostras) e (9) piscívoros (peixes como alimento básico). Em todas as localidades estudadas, houve um amplo predomínio de espécies insetívoras, seguido daquelas frugívoras e onívoras, embora a proporção das diferentes guildas tenha variado. Quando se discutem guildas e fragmentação, Kattan et alii (1994) demonstraram que as espécies mais suscetíveis à extinção local seriam os insetívoros de subbosque e os grandes frugívoros de dossel. 143 Tabela 4.1. Resultado das análises de fezes por espécies, ordenadas taxonomicamente conforme Sick (1997) dentro de cada categoria de hábitos alimentares HÁBITO ESPÉCIE PREDOMINANTE Carnívoro Carnívoro frug/inset Frugívoro Frugívoro Frugívoro Frugívoro Frugívoro Frugívoro Frugívoro Frugívoro Frugívoro Frugívoro Frugívoro Frugívoro gran/frug Rupornis magnirostris Glaucidium brasilianum Crypturellus tataupa Leptotila rufaxilla Pipra fasciicauda Antilophia galeata Turdus nigriceps Thlypopsis sordida Nemosia pileata Trichothraupis melanops Habia rubica Piranga flava Ramphocelus carbo Thraupis palmarum Tangara cayana Claravis pretiosa INSETO FRUTO 1 INS/ FRUT/ SEMEN FRUTO INSET TE 5 17 OU TROS 2 8 3 1 1 1 1 1 1 1 1 1 TOTAL TOTAL % DE DE AMOSTRA AMOS CAPTU (N amostra/ TRAS RAS N capturas) x 100 0 1 0 1 0 2 7 19 36,84 29 69 42,03 0 3 1 1 100 1 3 33,33 0 1 1 1 100 0 1 1 1 100 1 1 100 1 3 33,33 3 4 75 0 17 - 143 HÁBITO ESPÉCIE PREDOMINANTE gran/frug Granívoro inset/frugív. inset/frugív. inset/frugív inset/frugív. insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro Geotrygon montana Oryzoborus angolensis Momotus momota Campylorhamphus trochilirostris Turdus amaurochalinus Saltator similis Coccyzus melacoryphus Piaya cayana Nyctidromus albicollis Hydropsalis brasiliana Brachygalba lugubris Galbula ruficauda Nystalus maculatus Nonnula rubecula Monasa nigrifrons Picumnus cirratus Picumnus a. guttifer Picumnus sp. Colaptes melanochloros INSETO FRUTO 1 15 2 8 22 2 3 2 6 3 1 INS/ FRUT/ SEMEN FRUTO INSET TE 8 9 12 3 1 1 1 2 OU TROS 4 1 TOTAL TOTAL % DE DE AMOSTRA AMOS CAPTU (N amostra/ TRAS RAS N capturas) x 100 0 1 1 2 50 35 74 47,3 4 8 50 17 43 1 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 2 0 50 81 2 7 3 1 2 4 8 13 5 1 2 3 2 34 53,09 50 42,86 50 66,67 - 143 HÁBITO ESPÉCIE PREDOMINANTE insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro Veniliornis passerinus Campephilus melanoleucos Taraba major Thamnophilus doliatus Thamnophilus punctatus Dysithamnus mentalis Formicivora rufa Synallaxis frontalis Synallaxis albescens Synallaxis gujanensis Cranioleuca vulpina Poecilurus scutatus Automolus leucophthalmus Sittasomus griseicapilus Dendrocolaptes platyrostris Dendrocolaptes picumnus Xiphorhynchus guttatus Lepidocolaptes angustirostris Camptostoma obsoletum Myiopagis viridicata INSETO FRUTO 3 3 37 6 2 3 9 3 3 2 INS/ FRUT/ SEMEN FRUTO INSET TE 1 1 1 OU TROS TOTAL TOTAL % DE DE AMOSTRA AMOS CAPTU (N amostra/ TRAS RAS N capturas) x 100 0 4 0 1 3 12 25 4 14 28,57 41 85 48,24 6 22 27,27 0 2 0 4 0 1 0 1 0 1 2 13 15,38 3 10 30 9 25 36 3 16 18,75 0 1 0 1 3 12 25 0 11 0 4 - 143 HÁBITO ESPÉCIE PREDOMINANTE insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro Elaenia mesoleuca Elaenia flavogaster Phyllomyias fasciatus Serpophaga subcristata Leptopogon amaurocephalus Corythopis delalandi Hemitriccus margaritaceiventer Tolmomyias sulphurescens Platyrhinchus mystaceus Myiophobus fasciatus Cnemotriccus fuscatus Casiornis rufa Myiarchus ferox Myiarchus tyrannulus Myiodinastes maculatus Empidonomus varius Tyrannus melancholicus Pachyramphus polychopterus Tityra cayana INSETO FRUTO INS/ FRUT/ SEMEN FRUTO INSET TE 1 1 2 4 2 9 1 13 4 3 1 1 OU TROS TOTAL TOTAL % DE DE AMOSTRA AMOS CAPTU (N amostra/ TRAS RAS N capturas) x 100 1 9 11,11 1 5 20 0 1 0 2 2 15 13,33 0 8 4 15 26,67 0 2 0 0 10 1 14 4 3 0 0 0 1 12 1 82 38 1 34 9 5 2 3 1 16,67 26,32 100 41,18 44,44 60 - 143 HÁBITO ESPÉCIE PREDOMINANTE insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro insetívoro nectarívoro nectarívoro nectarivoro nectarívoro nectarívoro nectarívoro nectarívoro nectarivoro onívoro onívoro onívoro Neopelma palescens Polioptila dumicola Cyclarhis gujanensis Vireo chivi Basileuterus flaveolus Basileuterus c. hypoleucus Eucometis penicillata Tachyphonus rufus Arremon flavirostris Phaethornis pretrei Colibri serrirostris Antrachothorax nigricollis Chrysolampis mosquitus Thalurania furcata Chlorostilbon aureoventris Hylocharis chrysura Amazilia fimbriata Columbina minuta Columbina talpacoti Leptotila verreauxi INSETO FRUTO INS/ FRUT/ SEMEN FRUTO INSET TE OU TROS 1 10 4 39 1 1 4 11 4 1 1 1 1 3 2 1 1 4 1 1 3 1 1 2 TOTAL TOTAL % DE DE AMOSTRA AMOS CAPTU (N amostra/ TRAS RAS N capturas) x 100 1 2 50 0 1 11 19 57,89 5 13 38,46 40 148 27,03 1 6 16,67 6 16 37,5 17 29 58,62 5 9 55,56 1 1 0 1 0 1 0 1 0 0 0 2 0 4 1 9 11,11 1 1 100 8 14 57,14 3 17 17,65 143 HÁBITO ESPÉCIE PREDOMINANTE onívoro onívoro onívoro onívoro onívoro onívoro onívoro piscívoro Elaenia parvirostris Lathrotriccus euleri Pitangus sulphuratus Cyanocorax chrysops Turdus leucomelas Thraupis sayaca Zonotrichia capensis Chloroceryle americana INSETO FRUTO INS/ FRUT/ SEMEN FRUTO INSET TE OU TROS 1 1 1 1 1 1 4 2 1 1 1 2 4 1 1 4 4 9 1 3 2 TOTAL TOTAL % DE DE AMOSTRA AMOS CAPTU (N amostra/ TRAS RAS N capturas) x 100 3 4 75 3 6 50 3 5 60 8 11 72,73 26 80 32,5 3 5 60 0 2 0 3 - 143 Considerando-se as guildas tróficas pelo número de indivíduos, nota-se que neste caso os insetívoros continuam predominando praticamente nas mesmas proporções (Figura 4.2). insetívoros 62% pisc ív oros os 7% or ne ct ar ív n/ f ru g gr a on ív or 2% os or iv 1% rn s1 ca ro vo 1% gí s ro vo ní a gr fru 2% 4% ug os 10 % fr et/ ins 1% Figura 4.1. Guildas tróficas das espécies capturadas.(n=103) Insetívoros 63% outros 7% frug/inset 6% frugívoros 12% Inset/frug 12% Figura 4.2. Guildas tróficas por indivíduos capturados e amostrados (n=419). 143 Como se pode observar, os insetos predominaram na dieta das aves em todos os ambientes estudados (Tabela 4.2). Na mata ciliar (pesqueiro), houve também uma maior representatividade de frugívoros, o que pode ser associado à maior disponibilidade de frutos neste local, conforme verificaram Mello et alii (1996). Em estudo semelhante realizado no Estado de São Paulo, Motta-Júnior (1990) constatou o predomínio de insetívoros em áreas de mata ciliar e cerrado, enquanto os onívoros predominaram no eucaliptal com sub-bosque. No cerrado, houve mais representatividade de granívoros, enquanto na mata ciliar, de frugívoros. Bierregaard (1990), após sete anos capturando aves de sub-bosque na região Amazônica, concluiu que 85,4% das capturas e 80,4% dos indivíduos eram primariamente insetívoras (como seguidores obrigatórios de formigas de correição e componentes de bandos mistos). Quando o autor considerou todos os insetívoros (primários ou secundários, esse índice atingiu 92,8%. Segundo Motta-Júnior (1990), o registro do número de indivíduos, como foi feito no presente estudo, daria uma representação mais real do uso de recursos alimentares. Assim, utilizando-se este critério, os resultados aqui encontrados podem refletir a degradação dos fragmentos estudados e o efeito de borda, já que vários pontos de coleta situavam-se próximos da periferia dos ambientes analisados. Vários autores relacionam a dieta com o tipo de ambiente. Silva (1986) propôs que uma dieta mais variada seria favorecida em ambientes perturbados. Para Almeida (1982), levando-se em conta somente o número de espécies, as insetívoras aumentariam em matas mais alteradas, enquanto que as onívoras nas matas menos alteradas. Willis (1979) estudando a avifauna em fragmentos florestais no sudeste paulista, classificou as aves por ele registradas em 20 guildas. Aquelas com maior numero de espécies foram os onívoros ou frugívoros de borda de mata (21), seguidos dos insetívoros de borda (19) e aves florestais que ingerem frutos e insetos grandes (17). Além desse resultado geral, que espelha o predomínio de aves de borda de matas (o que denuncia degradação dos ambientes florestais), este autor observou também uma tendência em redução dos frugívoros e aumento nos onívoros nos menores fragmentos, enquanto os insetívoros sempre predominaram. Em relação ao numero de indivíduos observados, os de sub-bosque que ingerem pequenos artrópodes nas folhagens predominaram amplamente, sendo as espécies mais abundantes, Basileuterus hypoleucus, Thamnophilus caerulescens e Dysithamnus mentalis. Entre suas conclusões, o autor menciona a semelhança entre as menores áreas e a 143 zona temperada, com predomínio dos Oscines do dossel e de borda de mata e das espécies migratórias, simultaneamente a perda dos frugívoros. Em relação aos quatro setores estabelecidos anteriormente pela análise de cluster, temse a situação apresentada na Tabela 4.3. Observa-se por esta tabela que, de modo geral as guildas mais representativas nos quatro setores foram os insetívoros seguidos dos frugívoros exclusivos, cujas proporções não variaram substancialmente para cada setor. Os frugívoros estiveram menos representados no setor ‘D’, justamente onde se concentram os ambientes mais degradados. No setor ‘A’ não foram capturados representantes dos onívoros, o que pode refletir a maior especialização das aves que habitam os sub-bosques dos ambientes florestais. Este resultado diverge de Almeida (1982), o qual concluiu que matas menos alteradas tendem a ter maior número de onívoros. Já para Silva (1986), dieta mais variada é favorecida em ambientes perturbados, o que parece mais condizente com o presente estudo, já que nos cerrados e nas áreas encontraram-se as maiores proporções de onívoros. A comparação entre os eucaliptais no presente estudo não é passível de ser realizada, já que o pequeno número de capturas no eucaliptal comercial não suporta inferências conclusivas. Machado e Lamas (1996) compararam, quanto às guildas tróficas, uma área de vegetação nativa com três eucaliptais com diversos níveis de presença de sub-bosque. Estes autores verificaram pouca variação nas proporções das guildas entre a vegetação nativa e os eucaliptais com sub-bosques mais densos. As maiores diferenças foram detectadas entre o eucaliptal com menos sub-bosque e as demais áreas. 143 Tabela 4.2. Percentual de itens alimentares encontrados nas amostras de fezes por locais. LOCAL INSET FRUG SEM FRU/INS SEM/FRU FRUT/ SEM INSE/ FRUT INS/FR/ INSET/ FRU/SEM/ SEM/ SEM SEM INSET INSET N DE FEZES HBUR 74,42 6,98 - 9,30 - - 4,65 4,65 - - - 43 Cerrado 59,77 17,24 5,75 12,64 - - 2,30 1,15 - - 1,15 87 Eucaliptal 66,67 16,67 - 16,67 - - - - - - - 6 HMAT1 66,67 - 16,67 - 16,67 - - - - - - 6 HMAT2 100,00 - - - - - - - - - - 2 MOED1 66,67 13,33 - - - 6,67 13,33 - - - - 15 Pesqueiro 39,42 22,12 8,65 0,96 - 6,73 13,46 3,85 3,85 0,96 - 104 Cerradão 58,93 14,29 5,36 8,93 - - 10,71 - 1,79 - - 56 HPAL 46,15 7,69 - - - - 38,46 - 7,69 - - 13 Lajeado 79,22 10,39 1,30 5,19 - 1,30 2,60 - - - - 77 HRV1 87,50 6,25 - - - - 6,25 - - - - 16 HRV2 70,00 10,00 - 5,00 - - 15,00 - - - - 20 HSL1 85,71 - - 7,14 - - 7,14 - - - - 14 HSL2 80,00 - - 4,00 - - 16,00 - - - - 25 143 Tabela 4.3. Variação nas proporções (%) das guildas tróficas nos 4 setores. GUILDAS/ SETORES (%) A B C D (FLORES (CERRA (CERRA (DEGRA TAS) DOS) DÃO) DADAS) carnívoros 0 0 0 3 frugívoros 9 12 8 5 granívoros/frugívoros 5 2 0 2 granívoros 0 2 4 0 insetívoros/frugívoros 7 2 8 5 insetívoros 74 67 72 69 nectarívoros 5 5 0 8 onívoros 0 10 8 8 Quando se considera a biomassa (calculada pela média do peso de cada espécie) das espécies amostradas, encontramos novamente o predomínio de insetívoros, agora em proporções semelhantes aos insetívoros/frugívoros. A importância dos frugívoros exclusivos aumenta um pouco (Figura 4.3). Agrupando-se todos aqueles que se alimentam no primeiro nível trófico (frugívoros exclusivos ou não + granívoros) tem-se que este nível apresenta uma maior biomassa do que aqueles exclusivamente insetívoros (Figura 4.4). biomassa (g) outros - 514,4 gran/frug - 868,9 onívoros - 4817 frugívoros - 6675,4 inset/frug. - 13062,3 16000 14000 12000 10000 8000 6000 4000 2000 0 insetív - 13503,8 Figura 4.3. Proporção das Guildas tróficas de acordo com suas respectivas biomassas. 143 cons. secundários 34% outros 14% cons. primários 52% Figura 4.4. Percentual de biomassa de aves consumidoras primárias, secundárias e outras na região de Três Lagoas (MS). 4.3. Variações nos hábitos alimentares A variação mensal na proporção dos itens alimentares mais representativos nas amostras encontra-se na Figura 4.5. 35 30 percentuais valores médios 25 20 15 10 5 0 ja n fe v m ar a br m ai ju n ju l ago se t ou t n ov de z m eses do an o i n s e tí vo ro i n s e t/fru g fru g í vo ro fru g /i n s e t o u tro s Figura 4.5. Variação nos valores médios mensais dos hábitos alimentares ao longo de 12 meses. As médias foram calculadas a partir de dados médios mensais de três anos (1994 a 1996). 143 Observa-se que a insetivoria foi o hábito predominante durante todo o ano, seguido da insetivoria/frugivoria. Constata-se um pico em junho e outro em setembro-outubro. Este último pico pode estar associado à estação reprodutiva, que nas aves da região ocorre principalmente entre agosto e novembro (fase de incubação). Adultos que estejam cuidando de prole necessitam de uma demanda energética maior, tanto para si quanto para seus ninhegos (demanda protéica associada ao crescimento); quando então espera-se um aumento no consumo de insetos. O aumento no consumo dos frutos em fevereiro e março pode também estar associado à reprodução e/ou à necessidade de acúmulo de reservas para o evento da muda, já que muitos frutos supririam as necessidades protéicas e/ou de gorduras. Em estudo realizado na América Central, Blake et alii (1990b) verificaram que a preferência alimentar pode variar em função do status reprodutivo. Assim, a proporção de espécies essencialmente frugívoras foi muito maior entre aquelas em reprodução; ao passo que os insetívoros estiveram sempre bem representados, estando ou não em reprodução. O grande aumento na representatividade de frugívoros entre os meses de fevereiro e abril não pôde ser estatisticamente relacionado com o ritmo de frutificação de espécies ornitocóricas estudadas em dois Hortos (rs=-0,1014; p=0,01), o que pode ser também explicado pela quantidade restrita de locais onde se realizaram os estudos fenológicos. Também, o regime de chuvas aparentemente não interferiu nas proporções de alimentos encontradas no decorrer do ano (para insetívoros e chuvas, p. ex.; rs = -0,20979; p=0,01). Entretanto, lembra-se que os dados pluviométricos disponíveis para a região não cobriram todo o período estudado. Provavelmente então, este pico de frugivoria esteja mais associado à reprodução ou a substituição das penas do que propriamente à frutificação das plantas. Existem também outros fatores que podem influenciar o forrageamento das aves. Foster (1978) relata que para aves frugívoras podem existir diferenças até na mesma espécie vegetal e, neste caso, o tamanho do fruto seria um fator de seleção. Ainda segundo esta autora, o grau de frugivoria pode variar ao longo do ano em uma mesma espécie de ave. Como exemplo, cita os sabiás (Turdus spp.) e outras espécies que são mais frugívoras durante o fim da estação seca, o que estaria relacionado ao acúmulo de gordura para a migração. Para Poulin et alii (1992), as modificações sazonais na dieta das aves não dependem apenas da oferta de alimento no ambiente, mas também de suas necessidades fisiológicas, como aquelas associadas aos ciclos de muda de penas e reprodução. Também o ambiente pode afetar a dieta das aves. Algumas espécies, ditas oportunistas, mudam a composição de sua dieta conforme o local onde estão, provavelmente 143 influenciados pela disponibilidade deste recurso. Poulin et alii (1994a) citam como exemplos de espécies oportunistas, Thamnophilus doliatus e Vireo chivi. Os deslocamentos das aves podem influenciar a variação nos hábitos alimentares. Poulin et alii. (1994a) relatam que espécies insetívoras são favorecidas pela territorialidade, em função da natureza críptica dos insetos e de sua distribuição espacial relativamente uniforme. Já as frugívoras tenderiam a tornarem-se nômades em função da abundância, conspicuidade e distribuição territorial e espacial dos frutos. 4.3.1. Saltator similis Pelas 43 amostras analisadas no presente estudo, foi verificado que a dieta de S. similis consistiu predominantemente de insetos, complementada por frutos (Figura 4.6). A Subfamília Cardinalinae, à qual pertence Saltator similis, é descrita como granívora, apresentando o bico altamente especializado para este tipo de dieta. Porém, Sick (1997) ressalva que a grande variação de bicos cônicos que se observa nesta família reflete também adaptações múltiplas às mais variadas condições tróficas, tais como dureza e tamanho das sementes ou consistência de brotos e frutos consumidos. Este autor relata também que esta ave, temporária e ocasionalmente, torna-se insetívora, como foi aqui verificado. Esta insetivoria pontual pode estar relacionada à reprodução. Os dados individuais coletados para cada espécie entretanto, são insuficientes para relacionar estes dois fatores. insetos 52% outros 2% sementes 2% fruto/inseto 9% frutos 7% insetos/frutos 28% . Figura 4.6. Composição da dieta de Saltator similis (n=43). 143 4.3.2. Thamnophilus punctatus Nas amostras analisadas para esta espécie (41), encontrou-se o predomínio de insetos (87,8%), com pequena participação de frutos exclusivamente (4,87%) e insetos/frutos conjuntamente (7,31%). A família Thamnophilidae, à qual pertence, é reconhecidamente insetívora, com várias espécies seguidoras de formigas de correição (Sick, 1997). Por sexo, praticamente não existiram diferenças na dieta, prevalecendo sempre os insetos (Tabela 4.4.). Nas analises de Schubart et alii (1965), o fator sexo não foi levado em conta porque, segundo os autores, não influenciaria a escolha do alimento. Tabela 4.4. Composição da dieta de machos e fêmeas de Thamnophilus punctatus SEXO FÊMEA INSETO 10 INS/FRU FRUTO 0 0 (100%) MACHO INDETERMINADO 12 1 2 (80%) (5%) (15%) 14 2 0 (87,5%) (12,5%) 4.3.3. Basileuterus flaveolus Em praticamente todas as amostras obtidas para B. flaveolus, encontrou-se somente restos de insetos (40 amostras; 39 exclusivamente com insetos; uma com material não identificado). Assim, pode-se afirmar que sua dieta constituiu-se praticamente somente destes artrópodes. Sick (1997) considera sua sub-família (Parulinae) como insetívora, e para Dubs (1992), esta espécie é também insetívora. 4.3.4. Momotus momota Para o udu-de-coroa-azul foi constatado o predomínio de insetos e frutos em sua dieta (Figura 4.7) o que concorda com Dubs (1992) que o considera consumidor de insetos e frutos. Pode ser considerado dispersor de sementes, já que entre as 21 amostras que continham frutos, mesmo que misturados com insetos, 23,8% intactas. continham sementes, aparentemente 143 inseto 42% fruto 9% outros 26% inset/fruto 23% Figura 4.7. Principais itens alimentares encontrados em fezes de Momotus momota (n=35). Segundo Skutch (1964), coleópteros (besouros) parecem ser o item preferido na dieta de Momotus momota, , composta também de grandes cigarras, bichos-pau, grandes ortópteros verdes (grilos e gafanhotos) e larvas de vários tipos. A presa é batida contra o poleiro até tornar-se dilacerada, antes de ser ingerida ou levada ao jovem. Skutch (op. cit.) observou M. momota seguindo, juntamente com outras aves, formigas de correição, para capturar insetos espantados por elas, comportamento também observado no presente estudo. Neste caso, foi avistado um indivíduo forrageando como integrante de um bando misto, juntamente com Tachyphonus rufus e Piaya cayana, entre outros. Aranhas e pequenos lagartos são ocasionalmente capturados, mas pouco freqüentemente. Como um grande consumidor de insetos, é importante sugerir sua importância como potencial controlador biológico das pragas dos eucaliptos. 4.3.5. Pipra fasciicauda O uirapuru-laranja apresentou uma dieta principalmente frugívora, tendo sido encontrados em suas fezes principalmente frutos digeridos e sementes. Sua família (Pipridae) é reconhecida como frugívora por Sick (1997), mas ressalta-se aqui a necessidade da complementação de sua dieta com outros itens, como insetos, que provém as proteínas. Esta ave pode retirar o fruto da árvore e carregá-lo, apresando com o bico. Assim, pode ser um agente dispersor de sementes. Em uma ocasião, foi capturada uma fêmea com um fruto de Curatela americana. 143 Para esta espécie, onde o dimorfismo sexual é evidente, foi possível estudar separadamente as dietas de machos e fêmeas, obtendo-se os resultados apresentados na Tabela 4.5. Nota-se por esta tabela, que praticamente não houve diferença da dieta entre machos e fêmeas. Tabela 4.5. Proporção dos itens alimentares encontrados em fezes de machos e fêmeas de Pipra fasciicauda. SEXO Fêmea FRUTO FRU/SEM SEMENTE FRU/INS 8 1 4 0 (61,5%) (7,69%) (30,77%) Macho 2 0 1 0 (50%) (25%) Indeterminado* 7 1 3 2 (50%) (7,14%) (21,42%) (14,28%) TOTAL 17 2 8 2 * indivíduos nos quais não foi possível precisar o sexo; p.ex. machos jovens. INSETO 0 SEM/INS 0 1 (25%) 0 0 1 1 (7,14%) 1 4.3.6. Turdus leucomelas Espécie que na literatura é descrita como onívora T. leucomelas apresentou neste estudo uma dieta diversificada, constituída principalmente de insetos e frutos. (Figura 4.8). Em ambientes perturbados, esta espécie deve ser favorecida, já que conseguiriam explorar diversas fontes de recursos alimentares. fruto/inseto 12% insetos/frutos 35% frutos 15% sementes 8% insetos 15% outros 15% Figura 4.8. Composição da dieta de Turdus leucomelas. 143 4.3.7.Tachyphonus rufus Espécie considerada frugívora, como a maioria dos Thraupinae, o tiê-preto alimentouse predominantemente de insetos (64,7% das amostras), complementando sua dieta com frutos. Não foi possível detectar diferenças na dieta entre machos e fêmeas (Tabela 4.4) em função da amostragem relativamente pequena para este fim (n=17). Tabela 4.6 Proporção dos itens alimentares encontrados em fezes de machos e fêmeas de Tachyphonus rufus. SEXO INSETO SEMENTE FRU/INS FRUTO Fêmea 3 0 0 0 Macho 1 1 1 1 Indeterminado 7 0 2 0 TOTAL 11 1 3 1 4.3.8. Turdus amaurochalinus Também neste Turdinae houve predomínio de insetos e de frutos em proporções semelhantes em sua dieta. 4.3.9. Outras espécies Algumas observações adicionais permitiram incrementar os conhecimentos sobre a dieta das aves de sub-bosque dos locais estudados. Nystalus maculatus é descrito na literatura como insetívoro, podendo eventualmente predar lagartos. Neste estudo, foi capturado um indivíduo que continha em sua boca uma serpente Colubridae, Chironius flavolineatus, tendo já ingerido 1/3 da serpente quando da captura, iniciando a deglutição pela cabeça do réptil. A serpente coletada foi depositada no Museu de História Natural da Universidade Estadual de Campinas, sendo o primeiro registro para esta espécie de predação de serpentes (Piratelli et al., 1996). 143 Galbula ruficauda foi visto apanhado insetos em pleno vôo com o bico, após sair de um ramo na vegetação. A seguir, retornava ao mesmo local e batia a presa contra o galho, sugerindo intenção de quebrar e matar o inseto. Monasa nigrifrons vive em bandos de cerca de 6 a 10 indivíduos. Quando buscam presas, os indivíduos permanecem pousados em galhos a altura de cerca de 5 metros. Avistando lagartas no solo, investem contra elas em vôo rápido, pousando no chão, apanhando-as com o bico e levando-as até o poleiro de onde partiram. Antes de ingeri-las, batem as presas contra o galho, provavelmente para parti-las em pedaços menores. Por diversas vezes foi observado este comportamento, e as lagartas capturadas tinham normalmente cerca de 4 cm de comprimento (Piratelli et alii, 1998b). Melo & Marini (1999) relatam como itens da dieta de M. nigrifrons, insetos das ordens Orthoptera, Lepidoptera, Hemiptera e Homoptera, com tamanhos variando de 1 a 4 cm, capturados a até 5 m de altura na vegetação, no ar, em troncos e no chão. Sherry & McDade (1992) observaram que, em Monasa morpheus, o tamanho da presa e a largura do bico afetam o tempo de preparação da presa, principalmente no caso daquelas engolidas inteiras. Para Trichothraupis melanops, que teve uma amostra identificada contendo frutos e insetos, Martins & Mallet-Rodrigues (1998) encontraram resultados semelhantes através da administração de tártaro emético. Das 27 amostras analisadas por estes autores, 17(63%) foram classificadas como de origem vegetal e 10 (37%) de origem animal. Dentre os insetos, predominaram coleópteros (54%). Através de amostras de fezes (n=17) e conteúdos estomacais (n=2), Rodrigues & Nascimento (1997) detectaram uma alimentação mista para Coryphospingus pileatus, composta principalmente de sementes (35%) e insetos (20%). Para C. cucullatus1, encontrouse no presente trabalho o predomínio de insetos (n=5) nas 6 amostras analisadas. Tanto nas amostras analisadas, como na proporção de hábitos alimentares das espécies capturadas, constatou-se o predomínio da insetivoria em todos os locais e ao longo do ano todo. Portanto, os sub-bosques de matas nativas abrigam uma considerável quantidade de aves que são potenciais controladoras de pragas, tanto de monoculturas como o eucalipto, quanto de pastagens. Assim, enfatiza-se a importância da conservação da vegetação nativa, consorciada com as necessidades comerciais humanas. 1 Coryphospingus pileatus é por vezes considerada subespécie de C. cucullatus, visto que os híbridos são férteis (Marcondes-Machado, 1980). 143 A frugivoria foi o segundo hábito alimentar mais significativo, estando especialmente representada na mata ciliar. Entre os locais amostrados, foi o que apresentou uma maior disponibilidade de frutos ornitocóricos. Em termos de conservação de aves, ressalta-se portanto a importância deste local para a avifauna regional e alerta-se para os graves prejuízos ocasionados pelo lago artificial da Usina de Porto Primavera, que cobrirá a referida mata. A coleta e análise de fezes, regurgitos e conteúdos estomacais mostrou-se uma ferramenta útil para a avaliação dos hábitos alimentares das aves, já que o material encontrado neste tipo de análise quase sempre corroborou com a literatura. Porém, não representou a importância da onivoria, detectada quando se leva em consideração somente as espécies, e não o número de indivíduos. Para contornar este problema, sugere-se o aumento nas amostragens, principalmente para aquelas espécies pouco capturadas. 5. REPRODUÇÃO E MUDA DE PENAS A reprodução nas aves compreende o período que vai desde a procura de parceiros coespecíficos até quando se encerram os cuidados parentais (Andrade, 1993). Em regiões tropicais, o regime de chuvas condiciona a oferta de recursos alimentares o que, por sua vez, determinaria os ciclos reprodutivos. Segundo Sick (1997), o fim da estação seca proporciona maior abundância de frutos, favorecendo a reprodução em frugívoros como Thraupinae e Cotingidae. O começo das chuvas provoca aumento nas populações de insetos, favorecendo a reprodução para muitos Passeriformes florestais. Durante a fase de incubação, desenvolve-se muitas vezes a placa de incubação na parte inferior do corpo, quando as penas caem e a pele torna-se intensamente vascularizada e com temperatura mais elevada, facilitando a transferência de calor corporal para incubar os ovos (Ibama, 1994). Segundo Andrade (1993), a placa de incubação é comum nas famílias Trochilidae, Turdinae, Thraupinae, Emberizinae, Tyrannidae e Formicariidae, entre outras. Entre as que não desenvolvem esta placa, mencionam-se Columbidae e Apodidae. A fase de incubação é crítica para as aves; a sujeição à predação é grande, tanto ficar no ninho incubando os ovos como buscando alimento para a prole. Ainda, fêmeas nesse período tendem a ganhar massa corporal (acúmulo de gordura), em detrimento à eficiência do vôo (Slagsvold & Dale, 1996). Associada ao ciclo reprodutivo, está a fase de muda de penas. As penas são estruturas que derivaram de escamas de répteis, e sua origem exata é desconhecida (Ginn & Melville, 1995). A reposição das penas dá-se devido ao desgaste proporcionado pelas diversas atividades das aves. A muda é o processo completo de substituição da plumagem, incluindo a perda das penas velhas e o crescimento das novas. Sick (1997) define duas mudas anuais, a pré-nupcial, quando são substituídas as penas do corpo, promovendo muitas vezes alteração do colorido, e a muda pós-nupcial ou muda de descanso, repouso ou inverno, quando todas as penas são trocadas. A muda de penas afeta o vôo, o repertório comportamental, o isolamento térmico e a higrofobia. Para beija-flores, os gastos energéticos durante a muda podem representar até 40% do metabolismo basal (Chai, 1997). Rymkevich & Bojarinova (1996) demonstraram, estudando Parus major em cativeiro, que a duração do processo de muda pode ser fotoperiodicamente controlada. A troca de penas e a migração (Merila, 1997) são eventos, como a reprodução, onde de maneira geral há um grande consumo energético. 5.1. Reprodução Durante o transcorrer deste estudo, o ritmo de reprodução, com conseqüente taxa de recrutamento, ocorreu na região conforme a Figura 5.1. Constatou-se a existência de picos de reprodução que se repetiram por três vezes, de agosto a novembro em 1994; outubro a novembro em 1995 e setembro a novembro em 1996. Essas pequenas diferenças nos picos reprodutivos poderiam estar associados a variações climáticas, afetando a disponibilidade dos recursos alimentares. % jovens % placa de in cubação 90 50 35 60 30 50 25 40 20 30 15 Nov/96 Set/96 Jul/96 Mai/96 Mar/96 Jan/96 Nov/95 Set/95 Jul/95 0 Mai/95 0 Mar/95 5 Jan/95 10 Nov/94 10 Set/94 20 Jul/94 percentual de capturas de jovens 40 70 percentual de capturas de indivíduos com placa de incubação 45 80 Figura 5.1. Variação mensal do percentual de indivíduos jovens (% JOV) e de adultos com placa de incubação (%PLA) ao longo do desenvolvimento do estudo. Pela media mensal, observa-se que a época de reprodução das aves da região, notadamente a fase de incubação, parece estar bem determinada entre agosto e novembro (Figura 5.2), justamente o período de início das chuvas. Após o ciclo reprodutivo, verifica-se um aumento na participação de jovens nas populações, que declinava gradativamente até então. O acentuado aumento de indivíduos jovens deu-se de dezembro a fevereiro, após o pico de reprodução, coincidindo com os meses de maior precipitação, havendo uma tendência de declínio nos jovens ao longo do ano. Este fato sugere que a reprodução nas aves da região estaria associada ao clima. Assim, haveria uma tendência de que o período reprodutivo ocorresse antes do início das chuvas. Desta forma, o início das chuvas e conseqüente aumento na oferta de recursos alimentares seria propício e suportaria o aumento expressivo de indivíduos nas populações determinado pelos jovens. O processo evolutivo neste caso, estaria deslocando a reprodução para a época seca, sendo vantajoso mesmo considerando-se a provável escassez de alimentos neste período do ano. Houve porém, uma fraca correlação entre variação no percentual de jovens e precipitação, estatisticamente não significativa (rs=0,273; p=0,1). Entretanto, a exemplo de quando relacionou-se o aumento da representatividade de frugívoros com as chuvas, lembra-se que os dados climáticos disponíveis para a região não cobriram todo o período estudado. valoes médios mensais de % de capturas Jovens Placa 80 70 60 50 40 30 20 10 dez nov out set ago jul jun mai abr mar fev jan 0 Figura 5.2. Valores médios mensais (%) de indivíduos com placa de incubação e de jovens. A maior proporção de jovens ocorreu no setor B, onde mais da metade dos indivíduos capturados foram assim classificados (Tabela 5.1), embora em relação aos demais setores, esta proporção não tenha sido estatisticamente significativa (X2 = 4,04). O setor D, considerado mais degradado, apresentou a menor proporção. Considerando-se que, pela técnica de marcação e recaptura, não foram detectados deslocamentos de indivíduos entre os setores, essas proporções sugerem taxas de recrutamento, ou seja, sucesso reprodutivo. Tabela 5.1. Proporção de indivíduos jovens e adultos capturados durante o estudo por setores. SETOR B C A D % jovens 51,99 39,62 36,43 36,27 % adultos 48,01 60,38 63,57 63,73 Também em relação às espécies, e não somente aos indivíduos como considerado até agora, houve uma sincronização no período reprodutivo, sendo que a maioria das espécies reproduziu-se entre setembro e novembro (Figura 5.3). As espécies cujos ciclos reprodutivos foram determinados, encontram-se na Tabela 5.2. número de espécies 30 25 20 15 10 5 0 J F M A M J J A S O N D meses do ano Figura 5.3. Número de espécies reproduzindo-se ao longo do ano na região de Três Lagoas, entre 1994 e 1996. Tabela 5.2. Período reprodutivo de espécies de sub-bosque na região de Três Lagoas. Ordem taxonômica segundo Sick (1997). ESPÉCIES/ MESES DO ANO J Leptotila rufaxilla Piaya cayana F M A M J J A S O x x Nyctidromus albicollis Amazilia fimbriata N x x x D ESPÉCIES/ MESES DO ANO J F M A M J J A S Momotus momota x Veniliornis passerinus x Campylorhamphus trochilirostris x Taraba major x x x Dysithamnus mentalis x Automolus leucophthalmus x x x x x x x x x x x x x x x Sittasomus griseicapilus x Dendrocolaptes platyrostris x Leptopogon amaurocephalus x x Lathrotriccus euleri x Cnemotriccus fuscatus x Casiornis rufa x Myiarchus tyrannulus Pitangus sulphuratus x x x x x x x Empidonomus varius x Pipra fasciicauda x x x Cyanocorax chrysops x x x x x x x x Vireo chivi Basileuterus flaveolus x x Myiodinastes maculatus Cyclarhis gujanensis x x Platyrhinchus mystaceus Turdus amaurochalinus x x Hemitriccus margaritaceiventer Turdus leucomelas D x x Thamnophilus punctatus N x x Thamnophilus doliatus Poecilurus scutatus O x x x x x x x x x x x ESPÉCIES/ MESES DO ANO J F M A M J J A Eucometis penicilata x x N D x x Coryphospingus cucullatus x Saltator similis TOTAL O x Tachyphonus rufus Arremon flavirostris S x 1 O maior número de espécies 1 1 2 0 1 1 x 8 20 18 20 3 em fase de incubação ocorreu até o mês de novembro, o que corresponde ao início das chuvas (Figura 5.4). O maior volume de chuvas e as temperaturas mais elevadas ocorrem em janeiro, e nesta época há, como já foi visto, um aumento na população de jovens, oriundos provavelmente deste último ciclo reprodutivo. Portanto, considera-se que a fase onde existem mais jovens na população coincide exatamente com a época onde espera-se encontrar a maior disponibilidade de recursos alimentares. Não foi detectada entretanto, correlação direta entre variação na temperatura e espécies se reproduzindo (rs = 0,1399; p=0,1) ou entre chuvas e espécies em reprodução (rs = 0,112; p=0,1). Portanto, poderia também estar determinando o início da fase de incubação, o maior comprimento do dia, com temperatura, que traria o início das chuvas. conseqüente aumento da temperatura núm. spp. pluviosidade 250 40 200 Temperatura média ºC 30 25 150 20 100 15 pluviosidade (mmHg) 35 10 50 5 0 0 j f m a m j j a s o n d meses do ano Figura 5.4. Ciclo reprodutivo de aves relacionado com temperatura e pluviosidade médias anuais na região de Três Lagoas. Na literatura, a época de reprodução é indicada no Brasil como sendo de setembro a janeiro. No Brasil Central (alto Xingu, Mato Grosso) a reprodução das aves estaria em pleno desenvolvimento em julho (Sick, 1997). Em Nova Friburgo, RJ (1497,0 mm de precipitação anual) e em Belém, PA (2760,9 mm de precipitação anual) a maior atividade de reprodução concentra-se também em outubro, enquanto que sua maior redução ocorre de abril a maio, correspondendo à primavera e ao outono austrais, respectivamente (Euler, 1900 e Pinto, 1953 apud Sick, 1997). Em estudo realizado na Fazenda Jatobá, Correntina, Bahia, Antas et alii (1992) verificaram que uma boa proporção das aves capturadas apresentou placa de incubação em setembro, indicando que a reprodução estava em andamento. Entretanto para Zonotrichia capensis, uma das espécies mais capturadas, não se obteve nenhum indivíduo com placa de incubação ao longo de todo o trabalho, com uma pequena proporção apresentando muda de penas de contorno. Na espécie mais capturada, Elaenia cristata, houve uma pequena proporção de indivíduos com placa em setembro indicando, segundo os autores, o início da reprodução para esta espécie. Havia também um número proporcionalmente maior de indivíduos com muda de pena de contorno. Finalmente, os autores concluíram que, de acordo com as informações advindas das espécies mais capturadas, não há evidências a respeito de diferenças no ritmo de reprodução em cada formação vegetal estudada. A época de reprodução de Myiarchus tyrannulus na região de Três Lagoas coincidiu com a estação reprodutiva de Myiarchus swainsoni e M. ferox estudadas por Tubelis (1998) em mata alterada no interior paulista, tendo o autor observado que esta última espécie nidificou na primavera (outubro e novembro) em caixas artificiais de nidificação. Os ovos (n=3 por ninho) eclodiram em meados de novembro, e os ninhegos foram alimentados por ambos os pais. A reprodução de Corythopis delalandi foi estudada em Viçosa (MG) por Simon & Pacheco (1992), que encontraram um ninho desta espécie em outubro de 1991. Pacheco & Simon (1992) localizaram 16 ninhos de Leptopogon amaurocephalus entre outubro e fevereiro na mesma região, sugerindo um período mais longo e tardio do que o observado no presente estudo (de setembro a novembro). Para esta espécie, Aguilar & Marini (1997) verificaram que o período reprodutivo (início da construção do ninho até a saída dos filhotes) foi de 67,6 dias, com variações de 2,4 dias para mais ou para menos. Estes últimos autores capturaram cinco indivíduos com placa de incubação entre agosto e outubro de 1995 e 1996 na região de Belo Horizonte. Ainda em Viçosa, Pacheco & Simon (1993) detectaram 13 ninhos de Platyrhinchus mystaceus entre outubro e fevereiro, que no presente estudo nidificou entre outubro e novembro. Em Belo Horizonte, Anciães et alii (1997) monitoraram 29 ninhos de Tolmomyias sulphurescens entre agosto e dezembro, observando que cada ninho produziu 3,5 ovos em média com período médio de incubação de 21,3 dias. Destes, 48% obtiveram sucesso. No presente estudo, foi registrada a construção de ninho Monasa nigrifrons. O ninho típico descrito para a família por Sick (1997) é escavado em barrancos. Encontrouse em maio de 1996, um ninho em fase de escavação em um barranco em terra firme, na beira de uma estrada pouco movimentada próxima ao Rio Paraná. A escavação é executada por um casal, que se reveza na retirada de terra do túnel, o que é feito com os pés alternadamente, em movimentos antero-posteriores. Quando um dos indivíduos está escavando, orientado para o barranco, o outro coloca-se em um galho próximo, a cerca de 2m de altura e, perante alguma ameaça, inicia uma vocalização curta e com poucas notas, que é prontamente atendida pelo indivíduo escavador, o qual se retira imediatamente do local. Esta tática de vigília mostra-se bastante eficaz, já que dentro do túnel, o indivíduo perde a visão à sua volta, expondo-se a predadores. Passada a ameaça, o casal volta às suas atividades, que se desenrolam durante todo o dia, sempre com o revezamento. Dois meses depois, verificou-se que o ninho estava abandonado e, nas visitas seguintes, constatou-se que o buraco não foi reutilizado (Piratelli et alii, 1998b). Nyctidromus albicollis bota seus ovos no chão e a camuflagem é a maior estratégia de defesa contra predadores, já que seus dois ovos e ninhegos apresentam coloração que se confundem com a serapilheira. Turdus amaurochalinus por duas vezes construiu seu ninho em forma de taça sobre ramificações de árvores como a mangueira (Mangifera indica), a uma altura de cerca de 2 metros do solo. Também ninho de Momotus momota foi detectado, sendo seu ninho escavado em barrancos próximo ao rio (F. P. Melo, com. pess.). Quando se leva em conta os hábitos alimentares das espécies (ver Parte 5), das consideradas insetívoras, só não se detectou atividade reprodutiva em maio e junho; sendo o período mais intenso, o mês de novembro, já em plena estação chuvosa. Quanto às frugívoras, houve reprodução de setembro a novembro, sendo o auge no primeiro mês, no inicio da estação de chuvas. Os onívoros começaram a se reproduzir em pleno agosto, mês mais seco do ano, enquanto os nectarívoros restringiram sua reprodução aos meses de outubro e novembro (Figura 5.5). Com isso, sugere-se que os onívoros foram menos susceptíveis a escassez de recursos, justamente pela plasticidade ecológica peculiar a este grupo. Os frugívoros associaram sua reprodução ao início das chuvas e ao mês de setembro, quando se constatou também a maior oferta de frutos maduros. O auge da reprodução detectada para os nectarívoros não coincidiu com a maior oferta de flores, que se deu em agosto. Neste caso, sendo o numero de espécies nectarívoras amostradas pequeno, pode ter havido variação de um ano para outro na floração, ou ainda, a possibilidade destas aves complementarem suas dietas com insetos. Os insetívoros, por serem mais numerosos em espécies, e por incluírem espécies generalistas, tiveram um longo período de reprodução; mesmo assim, a maior intensidade ocorreu em plena estação chuvosa, quando era de se esperar encontrar maior quantidade de insetos. nectarívoros 20 insetívoros frugívoros 18 inset/frug percentual de capturas 16 onívoros 14 12 10 8 6 4 2 0 j f m a m j j a s o n d Figura 5.5. Período reprodutivo das espécies de sub-bosque da região de Três Lagoas conforme seus hábitos alimentares. 5.2. Muda de penas Para as penas de vôo, foram constatados ciclos que se repetiram todos os anos aproximadamente na mesma época (Figura 5.6), havendo sincronização das mudas nestes períodos. Entretanto, existiram algumas variações neste padrão. No primeiro ciclo detectado houve uma tendência em troca simultânea de asa e cauda, concentrada principalmente em março de 1995. No segundo ciclo, em fevereiro e março de 1996, predominaram mudas isoladas de asa e cauda, sem ocorrência conjunta. Segundo Bierregaard & Downer (1986) a muda de penas das asas ocorreria em um período mais curto do que as da cauda, já que a primeira afeta mais intensamente a eficiência do vôo. %M ASA 40 %M CAUDA %M ASA & CAUDA 35 percentual de capturas 30 25 20 15 10 5 Nov/96 Set/96 Jul/96 Mai/96 Mar/96 Jan/96 Nov/95 Set/95 Jul/95 Mai/95 Mar/95 Jan/95 Nov/94 Set/94 Jul/94 0 Figura 5.6. Valores percentuais mensais de indivíduos com muda de penas de asa (M ASA), cauda (M CAUDA) e asa e cauda simultaneamente (M ASA & CAUDA) ao longo do estudo. Considerando-se agora a muda de penas de vôo como um todo e comparando-se com as de contorno, observam-se que os ciclos e os picos se sobrepõem, sendo que o período de muda de penas de corpo é mais extenso (Figura 5.7). Com relação às espécies amostradas, verifica-se que muda de penas de vôo e de corpo estão fortemente relacionadas (rs= 0,827; p=0,01), ocorrendo em sincronia ao longo do ano. 90 muda vôo muda corpo 80 percentual de capturas 70 60 50 40 30 20 10 Nov/96 Set/96 Jul/96 Mai/96 Mar/96 Jan/96 Nov/95 Set/95 Jul/95 Mai/95 Mar/95 Jan/95 Nov/94 Set/94 Jul/94 0 Figura 5.7. Ciclos de muda de penas de contorno (muda corpo) e de vôo (muda vôo) em indivíduos capturados entre 1994 e 1996. Os valores médios demonstram que ao longo de um ano, a maior atividade de muda de cauda ocorre em fevereiro, estendendo-se porém até maio (Figura 5.8). As penas das primárias são trocadas principalmente em janeiro e fevereiro, indo até abril. Asa e cauda conjuntamente são trocadas especialmente em abril. A muda de corpo ocorre ao longo do ano todo, sendo muito mais significativa entretanto, em dezembro e janeiro (Figura 5.19). Percebe-se a associação entre o regime de chuvas e as mudas de penas, que ocorrem principalmente na estação chuvosa (novembro até abril). Entre muda de penas de corpo e pluviosidade, existiu correlação modesta (rs=0,61189; p=0,1), sendo mais forte a correlação entre a muda de penas de vôo e as chuvas (rs = 0,769; p=0,05). Há atividades de muda de corpo nos meses de seca (junho a setembro, principalmente), o que pode estar relacionado à muda pré-nupcial. Na Europa, Matthynsen (1986) observou que indivíduos de Sitta europea podem apresentar variação na sincronia de muda de penas, sendo as populações da Bélgica mais sincrônicas que as da Inglaterra. Morton & Morton (1990) demonstraram que a muda de penas em Zonotrichia leucophrys dura em média 17 dias, e que sua duração não foi afetada pela idade nos dois sexos, tendo os jovens e os machos mudado antes dos mais velhos e das fêmeas. Jakober & Stauber (1997) constataram a muda tardia de retrizes em Lanius collurio, mesmo quando danificadas. Eles atribuíram esta característica à uma adaptação contra aderência em aves predadoras de vegetação densa, ou seja, melhor manobrabilidade nos deslocamentos no sub-bosque. Em região tropical, na África, Craig (1996) concluiu não existir um padrão sazonal bem definido de muda e reprodução em Creatophora cinerea, existindo diferenças regionais e pouca, se alguma, sobreposição entre estes eventos. Neste mesmo continente, Sylvia nisoria foi estudado por Lindstrom et alii (1993), constatando-se que a muda de inverno dá-se principalmente em novembro e dezembro, Ainda, foram constatados padrões diferentes na substituição de penas entre jovens com menos de um ano e adultos, notadamente nas asas. penas de vôo 30 penas de corpo número de espécies 25 20 15 10 5 0 j f m a m j j a s o n d m eses do ano Figura. 5.8. Ciclo de muda de penas em aves de sub-bosque na região de Três Lagoas (MS). M . a sa M . ca uda M . as e ca M . corpo 30 80 70 25 20 50 15 40 30 % médio muda corpo perceuntual médio 60 10 20 5 10 dez nov out set ago jul jun mai abr mar fev 0 jan 0 Figura 5.9. Valores médios mensais do percentual de indivíduos trocando penas de asa, cauda, asa e cauda simultaneamente e de corpo. Considerando-se agora o número de espécies e seus ciclos de muda de penas, obtiveram-se documentação de 75 espécies (Tabela 5.3). Os estudos de Bierregaard & Downer (1986) desenvolvidos na Amazônia central mostraram que certos Formicariidae não apresentaram periodicidade de mudas; nos Dendrocolaptidae, observou-se padrões anuais bem distintos (de agosto a novembro), enquanto que nos beija-flores, a muda de asas ocorreu em um período mais curto (agosto e setembro) do que a da cauda, sem que ocorresse sobreposição, o que estaria associado à eficiência do vôo. Tabela 5.3. Ciclo de muda de penas em aves de sub-bosque na região de Três Lagoas (MS). A ordenação é alfabética. v = muda de penas de vôo (rêmiges e/ou retrizes); c = muda de penas de contorno. ESPECIE Amazilia fimbriata Arremon flavirostris Automolus leucophthalmus Basileuterus flaveolus Basileuterus hypoleucus Brachygalba lugubris Campephilus melanoleucos Camptostoma obsoletum Campylorhamphus trochilirostris Casiornis rufa Chloroceryle americana Chlorostilbon aureoventris Chrysolampis mosquitus Chrysoptilus melanochloros Claravis pretiosa Cnemotriccus fuscatus Coccyzus melacoryphus Columbina minuta Columbina talpacoti Coryphospingus cucullatus Corythopis delalandi Cranioleuca vulpina Crypturellus tataupa Cyanocorax chrysops Cyclarhis gujanensis Dendrocolaptes picumnus Dendrocolaptes platyrostris Dysithamnus mentalis Elaenia mesoleuca J F M A M J J A c v,c v v,c v v,c v,c v,c v,c S O c N D c, v v c c c c v c c c c c c v c v,c v v c v v,c v,c v,c c v,c c v,c v v,c v,c c v v,c c c c v v,c v,c v v,c v,c v,c c v,c v v,c v,c c v c c v v c c c v v,c c v ESPECIE Elaenia parvirostris Empidonomus varius Eucometis penicillata Formicivora rufa Galbula ruficauda Geotrygon montana Glaucidium brasilianum Hemitriccus margaritaceiventer Hylocharis chrysura Lepidocolaptes angustirostris Leptotila rufaxilla Leptotila verreauxi Momotus momota Monasa nigrifrons Myiarchus ferox Myiarchus tyrannulus Myiodinastes maculatus Myiopagis viridicata Nonnula rubecula Nyctidromus albicollis Nystalus maculatus Piaya cayana Picumnus cirratus Picumnus guttifer Pipra fasciicauda Piranga flava Platyrhinchus mystaceus Poecilurus scutatus Saltator similis Serpophaga subcristata Sittasomus griseicapilus Synallaxis frontalis Tachyphonus rufus Tangara cayana J F v,c M A M J J A S O N D v,c v,c c v,c v,c v,c c v,c v,c v v,c v,c v,c v,c c v v v,c c v,c v,c c c c v c v,c v,c v,c c v v,c c v v,c v,c c v,c v v,c c c v,c v v,c c v,c c v c c c v c v c v,c v v,c v,c c c c v,c c v,c v,c v,c v,c v v,c v v,c v,c c v,c c c c v c v c v,c v,c c v v,c c v v ESPECIE Thamnophilus punctatus Taraba major Thamnophilus doliatus Thlypopsis sordida Thraupis palmarum Thraupis sayaca Tityra cayana Turdus amaurochalinus Turdus leucomelas Veniliornis passerinus Vireo chivi TOTAL MUDAS DE VOO TOTAL MUDAS DE CORPO J v,c F v v,c v,c M c A v,c M v,c J J c A v v,c S c O v N v,c v,c c D v,c c v,c v c v,c v v,c v,c 26 26 v,c v v,c v,c c v,c c c c c c v 18 11 19 27 9 19 8 10 2 6 1 9 1 8 2 8 3 4 21 18 c v,c c c 18 18 Em relação às espécies frugívoras, setembro foi o mês com maior número de espécies ornitocóricas frutificando. Quatro espécies cujas dietas dependem sobremaneira de frutos tiveram seus períodos reprodutivos determinados, e todas elas estão se reproduzindo em setembro, coincidindo portanto com o mês de maior oferta deste recurso (Figura 5.10). Entretanto, talvez pelo pequeno número de espécies amostradas, a correlação entre estes dois eventos foi apenas modesta (rs=0,461), não sendo estatisticamente significativa. A muda de penas parece estar menos associada à oferta de frutos, havendo sim uma tendência em não sobreposição dos picos de reprodução e de muda, como já discutido. Não houve correlação entre muda de penas de frugívoros e oferta de frutos ornitocóricos (rs=0,3164; não-significativo). espécies ornitocóricas com frutos 6 aves em reprodução aves com muda de penas 5 4 3 2 1 0 j f m a m j j a s o n d Figura 5.10. Relação entre oferta de frutos ornitocóricos e reprodução e mudas em espécies frugívoras. Considerando-se uma das espécies com dimorfismo sexual aparente e com grande número relativo de capturas, observa-se que em Pipra fasciicauda, as fêmeas trocaram as penas de corpo praticamente durante o ano todo; enquanto os machos o fizeram durante Percentual de capturas um tempo mais restrito (Figura 5.11). machos 120 fêmeas 100 80 60 40 20 ND96 SO96 JA96 MJ96 MA96 JF96 ND95 SO95 JA95 MJ95 MA95 JF95 ND94 SO94 JA94 0 Figura 5.11. Ritmo de muda de penas em machos e fêmeas de Pipra fasciicauda. 5.3. Reprodução x muda de penas Foi possível verificar pouca sobreposição entre a reprodução e a substituição de penas (Figura 5.12). Os picos de reprodução e muda se alternam, o que em parte pode ser explicado pelo fato de muitas aves adquirirem uma plumagem nupcial, utilizada em comportamentos sociais durante a reprodução. Finda a reprodução, estas espécies trocam novamente de penas, adquirindo a plumagem de repouso, mais críptica (Sick, 1997). % muda corpo 50 % placa 80 45 70 40 35 60 25 40 % placa 30 50 20 30 15 Nov/96 Set/96 Jul/96 Mai/96 Mar/96 Jan/96 Nov/95 Set/95 Jul/95 0 Mai/95 0 Mar/95 5 Jan/95 10 Nov/94 10 Set/94 20 Jul/94 % mudas de corpo 90 Figura 5.12. Ciclos de muda de penas e reprodução durante o período de estudos. Nas regiões temperadas, onde estes ciclos têm sido mais bem estudados, muda e reprodução são eventos que não se sobrepõem significativamente. Isso se deve às condições ambientais e ao elevado consumo energético requerido durante a muda, já que é necessário produzir penas novas, enquanto há um maior gasto energético para regular a temperatura corpórea, dado a diminuição do isolamento térmico promovido pelas penas (Ginn & Melville, 1995). Adicionada à questão energética, a muda de penas, a exemplo da reprodução, também aumenta a vulnerabilidade à predação (Slagsvold & Dale, 1996). Alguns autores consideram que, nos trópicos, a sobreposição destes eventos biológicos seria mais significativa, já que nestes ambientes haveria períodos relativamente mais curtos de escassez de alimento (Ginn & Melville, 1995), o que não foi observado no presente estudo. Quando se obtém as médias mensais e sobrepõem-se os ciclos de muda e reprodução, nota-se que a atividade de muda de penas de corpo ocorre antes da estação de reprodução, tanto a nível de indivíduos (Figura 5.13) quanto a nível de espécies (Figura 5.14). Existe pequena sobreposição entre muda e reprodução na região, principalmente no mês de novembro, de onde se conclui ser este o mês mais crítico para estas aves. Novembro é um mês com elevados índices pluviométricos, e a oferta de alimentos neste período parece suportar a simultaneidade destes eventos. M. corpo 80 Placa penas vôo 70 60 50 40 30 20 10 dez nov out set ago jul jun mai abr mar fev jan 0 Figura 5.13. Valores médios mensais do percentual de indivíduos com muda de penas de vôo, contorno e com placa de incubação (dados de julho/94 a dezembro/96). espécies em muda de penas de vôo espécies em muda de penas de corpo espécies em reprodução (choco) 30 número de espécies 25 20 15 10 5 0 j f m a m j j a s o n d meses do ano Figura 5.14. Relações entre muda de penas e reprodução em espécies de sub-bosque na região de Três Lagoas (MS). 5.4. Variação nos setores Considerando-se os quatro setores descritos (ver Parte 2), encontrou-se pouca variação nestes ciclos durante o ano (Figura 5.15). O ciclo reprodutivo teve duração maior nos setores A e C (cinco meses), tendo iniciado mais cedo em C (julho). Nos setores B e D capturaram-se indivíduos com placa de incubação somente durante três meses. Estes dois últimos setores ficaram mais próximos no cladograma da Figura 2.7. Em todos os setores exceto o D, o período de muda de cauda foi mais longo do que o de asa, iniciando-se em setembro. A muda de penas de corpo sempre ocorreu após a reprodução. 90 80 SET OR B SET O R A 80 70 70 % sobre capturas 50 40 30 60 50 40 30 20 20 10 10 %m cauda m eses do ano 90 % m corpo % plac a JO VENS M.ASAmeses do M.CAU ano M.CO R dez nov OUT SET AGO JUL JUN MAI ABR FEV JAN DEZ NOV OUT SET AGO JUL JUN MAI ABR %m asa 0 MAR %jov MAR FEV 0 JAN PLACA SET OR C 80 90 70 80 60 70 SET O R D 60 50 50 40 40 30 30 20 20 10 10 %jov M.AS M.CAU M.COR PLACA %JO V M ASA M.CAU M .CO R dez nov out set ago jul jun mai abr mar fev 0 jan dez nov set jul mai mar 0 jan % sobre capturas 60 PLACA Figura 5.15. Ciclos reprodutivos e de muda de penas em aves de sub-bosque na região de Três Lagoas divididos por setores. 171 CONCLUSÕES • Diversos padrões observados nas comunidades de aves da região de Três Lagoas coincidiram com aqueles descritos para outras regiões do País. Assim por exemplo, temse a maior abundância relativa para a família Tyrannidae e a maioria das espécies apresenta poucos indivíduos. Estes padrões, comuns em ambientes tropicais, também se repetem mesmo quando se agruparam os pontos estudados em setores, de acordo com sua composição avifaunística. • A composição avifaunística (abundância e diversidade de espécies) espelhou por sua vez os tipos de formações vegetais. Através da avifauna, foi possível agrupar quatro tipos de vegetação; as matas, os cerrados, o cerradão mais denso e, por fim, os ambientes degradados. Os ambientes florestais e os menos degradados apresentaram maiores índices de diversidade e densidade de espécies; os mais degradados foram agrupados com um eucaliptal comercial, com nítida pobreza de espécies. . • Os dados refletem os efeitos da ação antrópica sob diversos aspectos; a descaracterização da vegetação nativa e sua substituição por pastos ou plantações como o eucalipto, estariam empobrecendo a avifauna da região a medida que reduzem-se os ambientes naturais e amplia-se a área agropecuária. Para ilustrar esse fenômeno, constatou-se que 25% de 31 espécies (com mais de 10 capturas) são comuns em ambientes alterados, uma proporção bem próxima dos 30% de espécies de cerrado, a vegetação original. 172 • As espécies vegetais ornitocóricas amostradas não produziram picos evidentes de frutificação, embora houvesse um maior número de indivíduos frutificando no início da estação chuvosa. Entretanto, as aves frugívoras foram mais capturadas proporcionalmente em abril, sugerindo que outros fatores, como as estações do ano e/ou tipo de ambiente, também podem acarretar alterações nas proporções das guildas tróficas. Os insetívoros sempre predominaram, o que também pode refletir um dos efeitos da fragmentação. • Reprodução e muda de penas foram eventos com pouca sobreposição, ocorrendo em épocas bem determinadas, provavelmente em função do gasto energético envolvido nestes eventos e da oferta de recursos pelo ambiente. Os onívoros foram aqueles com períodos reprodutivos mais longos; os frugívoros tiveram o pico da reprodução na época de maior oferta de frutos ornitocóricos e, os insetívoros, no apogeu da estação chuvosa. Estes fatores podem também espelhar a relação com os recursos alimentares e a nítida dependência das aves destes recursos. 173 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAMS, P. A. Evolution and the consequences of species introductions and deletions. 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Mapa fenológico dos indivíduos amostrados no Horto Rio Verde - cerradão degradado .Legenda: fr = fruto; frv = fruto verde; frm = fruto maduro; frs = fruto seco; bo = botão; br = broto; fl = flor nº /nome da espécie Alibertia - 495 Alibertia - 107 f Alibertia - 108 f Alibertia - 174 f Alibertia - 175 f Alibertia - 176 f Alibertia - 178 f Alibertia - 179 f Alibertia - 180 f Alibertia - 181 f Alibertia - 472 Alibertia - 493 Alibertia - 494 Alibertia - 576 Alibertia - 577 Alibertia - 585 Alibertia - 65 f Alibertia - 66 f Alibertia - 72 f Alibertia - 75 f Alibertia - 77 f Alibertia - 777 Alibertia - 79 f Alibertia - 805 Alibertia - 809 Alibertia - 82 f Alibertia lanceolata 572 Alibertia lanceolata 611 Alibertia lanceolata 438 Alibertia- 127 f jul ago 1994 1995 set out nov dez jan fev mar abr mai jun frv fr frv fr frv frv frv frv frv frv frv frv frv frv; frm frv frv; frm frv frv frv frv frv frv frm frv frm frm frv frv fr frv fr frv fr fl frv frv frv fr frv frv 192 nº /nome da espécie Byrsonima coccolobifolia - 790 Curatela americana 566 Curatela americana 173 f Eugenia aurata - 565 Alibertia - 74 f Himenea - 747 Miconia albicans - 71 f Miconia albicans - 64 f Miconia albicans - 824 Alibertia lanceolata 437 Miconia albicans - 446 Miconia albicans - 455 Miconia albicans - 460 Miconia albicans - 461 Miconia albicans - 462 Miconia albicans - 463 Miconia albicans - 464 Miconia albicans - 468 Miconia albicans - 476 Miconia albicans - 478 Miconia albicans- 480 Miconia albicans - 570 Miconia albicans - 571 Miconia albicans - 584 Miconia albicans - 587 Miconia albicans - 591 Miconia albicans - 592 Miconia albicans - 595 Miconia albicans - 612 Miconia albicans - 613 Miconia albicans - 614 Miconia albicans - 621 Miconia albicans - 622 Miconia albicans - 625 Miconia albicans - 629 Miconia albicans - 648 Miconia albicans - 67 f Miconia albicans - 68 f Miconia albicans - 69 f jul ago 1994 1995 set out nov dez jan fev mar abr mai jun bo frm; frs fr frs frv; frs fl frv frv fl frv frm frm fl; fr frm fr fl frv frv frm bo frm frm frm frm frm frm frm frm frm fr; fl fl; fr frs fl; fr fr frm frm frm frm frm frm frm frm fr frm frm frm frm bo bo bo fl fl fl; fr 193 nº /nome da espécie Miconia albicans - 76 f Miconia albicans - 771 Miconia albicans - 78 f jul Miconia albicans - 786 Miconia albicans - 80 f Miconia albicans - 845 Birsonima coccolobifolia - 602 Tabebuia ochracea 583 Aspidosperma tomentosum - 597 Pseudobombax sp. - 627 Campomanesia adamantinum- 567 Bauhinia sp. - 623 70 f 73 f 79 f 81 f 105 f ago 1994 1995 set out nov dez jan fev mar abr mai jun frm frm frv; frm frm frm frv frm fl fl fl fl frv frm fr frs bo; fl bo; fl 106 f 115 f 177 428 444 450 473 509 573 608 609 617 618 769 776 784 804 810 811 827 830 fl frv fl frm fl fr fr fl fr; fl frv fl frv frv frv fl fr fl 194 Anexo 2. Mapa fenológico dos indivíduos amostrados no Horto Barra do Moeda Cerradão. Legenda: fr = fruto; frv = fruto verde; frm = fruto maduro; frs = fruto seco; bo = botão; br = broto; fl = flor 1994 nº /nome da espécie jul ago ou nome comum Actinostemon comunis - 01 f Actinostemon comunis - 132 Actinostermon fl communis - 244 Dilodendron bipinatum - 180 Dilodendron fr; fl bipinatum - 107 Dilodendron frm; frs bipinatum - 85 Dilodendrum bipinatum - 241 Inga sp - 234 fl Inga sp. - 242 Nectandra lanceolata fl; fr - 196 Tapirira guianensis - fl; bo 191 Trichilia palida - 183 fl fr; frv Trichilia pallida - 144 f Trichilia pallida - 226 fl Trichilia pallida - 190 f Trichilia pallida - 239 fl Trichilia pallida - 258 fl fl Trichilia pallida - 259 fl 02 f 03 f 04 f 05 f 06 f 07 f 1995 set out nov dez jan fev mar abr mai jun bo bo; fl bo; fl frv frv frs frm frs frm br; frv frv frv frv fr; frv bo bo bo bo; fl bo bo frv 195 1994 nº /nome da espécie ou nome comum 08 f 09 f 10 f 11 f 12 f 13 f 14 f 15 f 16 f 17 f 18 f 19 f 20 f 21 f 22 f 23 f 24 f 25 f 26 f 27 f 28 f 29 f 30 f 31 f 32 f 33 f 34 f 35 f 36 f 37 f 38 f 39 f 40 f 41 f 42 f 44 f jul ago 1995 set out nov dez jan fev mar abr mai jun bo bo bo bo bo bo bo bo bo; fl bo; fl bo bo bo; fl bo bo bo bo bo bo bo bo; fl bo bo; fl bo bo bo bo bo bo bo bo; fl bo; fl bo bo frm bo; fl frv 196 1994 nº /nome da espécie ou nome comum 45 f jul ago 48 f 67 90 f 104 f 116 119 f 126 133 134 136 143 f 145 f 146 f 147 f 152 154 185 f 208 214 223 224 236 243 set out nov dez jan fev mar abr mai jun bo; fl bo bo; fl bo 46 f 47 f 1995 frv; frs fr frm fl; fr frv frv bo bo bo bo frm frm frv frm fl frv frm frv fr frv;fr m fl frm bo bo fl frs Anexo 3. Mapa fenológico dos indivíduos amostrados no Horto Barra do Moeda Cerrado. Legenda: fr = fruto; frv = fruto verde; frm = fruto maduro; frs = fruto seco; bo = botão; bro = broto; flo = flor n° /nome da espécie Anadenanthera falcata 301 Anadenanthera falcata 325 1994 1995 jul ago set out nov dez jan fev ma abr mai jun r fl fl 197 n° /nome da espécie 1994 1995 jul ago set out nov dez jan fev ma abr mai jun r bo Anadenanthera falcata 357 Anadenanthera falcata 364 Anadenanthera falcata 368 Anadenanthera falcata - frs 430 Anadenanthera sp. - 56 f Anadenanthera sp. - 168 f Birsomina intermedium 84 f Birsonima coccolobifolia - 339 Birsonima intermedia 99 f Campomanesia adamantinum - 103 f Campomanesia adamantinum-83 f Curatella americana 130 f fl frs frs frs fl fr fl fl fl; fr frv frv fl; frv frv frv fl frv bo; frv; frm frv frv; frs frm; frs fr Curatella americana 133 f Curatella americana 156 f Curatella americana 158 f Curatella americana 164 f Curatella americana 167 f Curatella americana 188 f Curatella americana 399 Curatella americana 58f Dugetia furfuracea - 187 f Dugetia furfuracea - 118 f frs bo frs fl frv frs bo bo; fl frv; frs frs frs frv fl frv 198 1994 1995 jul ago set out nov dez jan fev ma abr mai jun r Dugetia furfuracea - 160 frv frv f Dugetia furfuracea - 186 frv f Dugetia furfuracea - 276 frv Dugetia furfuracea - 276 fl fl; fr Dugetia furfuraceae fl; fr fl 159 f Eryhroxylum suberosum frv - 102 f Erythroxylum campestre frv fl br br br - 100 f Erythroxylum suberosum fl frv - 92 f Matayba elaeaguoides fl; fr 96 f Matayba elaeguoides frm 111 f Matayba guianenses frs 279 Miconia albicans - 330 bo; fl frs fl Miconia albicans - 331 bo fl frs frm Miconia albicans - 332 bo fl frs Miconia albicans - 333 fl Myrcia bela - 87 f fl Myrcia bela - 97 f fl;fr Myrcia multiflora - 52 f ? bo Myrcia sp. - 98 f fl; fr Platymenea reticulata - frs; frs frs frs frs frs frs frv 284 frv Platymenea reticulata - frs; frs frs frs frs frs frs 307 frv Platymenea reticulata - frs; frs frs frs frs frs 308 frv Platymenea reticulata frs 334 Platymenea reticulata - fr;fr 349 v/s Platymenea reticulata - frv; frs frs 362 frs Platymenea reticulata - frv; frs 363 frs n° /nome da espécie 199 n° /nome da espécie Psidium incanescens 101 f Roupala montana - 54 f Roupala montana - 432 Roupala montana - 57 f Tabebuia caraiba - 366 Xylopia aromatica - 329 49 f 50 f 51 f 53 f 55 f 60 f 85 f 86 f 88 f 89 f 90 f 91 f 109 f 110 f 112 f 113 f 114 f 116 f 117 f 128 f 129 f 131 f 132 f 134 f 155 f 157 f 161 f 162 f 163 f 165 f 166 f 169 f 170 f 171 f 172 f 1994 1995 jul ago set out nov dez jan fev ma abr mai jun r fl fl fl fl fl fr frv frs frv frs fl frs; fl fl fl fl fl frv fr frs fl fl fl fl fl fl br fl frm frv fl bo frv fl fl; frv frv bo fl frv br; fl bo; fl bo; fl bo; fl fl frv br bo; fl fl bo; fl fl 200 n° /nome da espécie 189 f 293 302 345 361 374 387 391 429 1994 1995 jul ago set out nov dez jan fev ma abr mai jun r fl fl bo fr; frv fl fl frm;f frm rs bo frm fl Anexo 4. Mapa fenológico das espécies vegetais amostradas no Horto Barra do Moeda Mata ciliar. Legenda: fr = fruto; frv = fruto verde; frm = fruto maduro; frs = fruto seco; bo = botão; br = broto nº /Nome da espécie ou nome comum Celtis iguanae 524 Unonopsis lindmanii - 107 f Unonopsis lindmanii - 121 f Unonopsis lindmanii - 122 f Unonopsis lindmanii - 123 f Unonopsis lindmanii - 124 f Unonopsis lindmanii - 125 f Unonopsis lindmanii - 126 f jul ago 1994 set out nov dez jan 1995 fev mar abr mai jun frs fr; frv; fm frm;. frm;f frm; frv rv frv frm frv frm frs frm;. frv frm;f frv; frm frm frs rv frm frv frv frs frm;. frm frm frm frv frs frm;. frm frm frv; frs frs 201 nº /Nome da espécie ou nome comum Unonopsis lindmanii - 192 f Unonopsis lindmanii - 538 Unonopsis lindmanii - 547 Unonopsis lindmanii - 61 f Unonopsis lindmanii - 62 f Unonopsis lindmanii - 63 f Unonopsis lindmanii - 634 Unonopsis lindmanii - 639 Unonopsis lindmanii - 640 Unonopsis lindmanii - 641 Unonopsis lindmanii - 642 Unonopsis lindmanii - 645 Unonopsis lindmanii - 659 Unonopsis lindmanii - 663 Unonopsis lindmanii - 708 Unonopsis lindmanii - 719 Unonopsis lindmanii - 723 Unonopsis lindmanii - 733 Unonopsis lindmanii - 734 Unonopsis lindmanii - 735 jul ago 1994 set out nov dez jan 1995 fev mar abr mai jun frv frv frs frv fr; frv fr; frv frv frv frm frm frm; frm; frv; frv frm ;frv frs; frv frm frm frv frs fr; frv fr; frv frs frs frm frm fr; fr; frv; frv; fl fm frv fr; frv; fm frm frv; frv; frv; fl fl frm frv frv; frm frv frv; frm frs frv; frm .frs frv frv frm; frv frs frs frs frs frm frs frs frs frv frs frv; frm; frs frv frv frm frm frm; frs frs 202 nº /Nome da espécie ou nome comum Unonopsis lindmanii - 738 Unonopsis lindmanii - 746 Unonopsis lindmanii - 748 jul ago 1994 set out nov dez fr; fr; fl frv frv frm Unonopsis fl lindmanii - 753 Unonopsis lindmanii - 755 Unonopsis lindmanii - 758 Unonopsis lindmanii - 762 Unonopsis lindmanii - 807 Unonopsis lindmanii - 93 f Unonopsis lindmanii - 94 f Unonopsis lindmanii - 533 Unonopsis frs; frm frm; frs lindmanii - 636 Unonopsis lindmanii - 533 Unonopsis lindmanii - 517 Unonopsis lindmanii - 646 Randia armata 545 Spondias lutea - 120 f Trema micrantha - 750 Trichilia pallida bo frv - 722 Trichilia pallida - 749 142 f 182 f frv jan 1995 fev mar abr mai jun frm frv; frv fl frv; frv frm; frm; frm; fl frv frv frs frm frm frm frm frv frv frs frs frm frs frm; frv frv frv frs frv fr; frv fr; frv frm frv frv frm frv frv frm frv frm; frm; frv frv fr; frv frv frs; fr; fl frv frv; frm frv frm bo fl frv frv frv frs frs frs frv frv frv 203 nº /Nome da espécie ou nome comum 191 f jul ago 1994 set out nov dez 522 frv 527 fl; frv 595 617 635 643 644 657 660 665 695 707 136 f 137 f 138 f 139 f 622 732 146 f 140 f 141 f frv; frs frm frm frs frv frv frv; fl fl fl frv frv frm fl fl fl frv; frm frm frs frs frv 763 779 799 135 f 1995 fev mar abr mai jun frm 729 743 760 jan fr; frv frv frv frv frm frm; frs frm frm; frv frs frs frv frv fl frv frv frm frs frv frm frv frv frv frm frv frm frm frv frs frs frm frv bo frv frs frs 204 nº /Nome da espécie ou nome comum 142 f 148 f 149 f 134 f 150 f jul ago 1994 set out nov dez jan 1995 fev mar abr mai jun frv 151 f 152 f 153 f 154 f 182 fl 183 f 184 f frv frv frm frv frs frv frm frv frv frm br frv frv frv frv frv Anexo 5. Valores percentuais médios mensais (1994 a 1996) de mudas e reprodução. * JOV ASA JAN 24,65667 25,70571 MCAU MCORP MA&C MCAUD PLAC 23,7425 29,10444 27,194 24,90364 24,90364 FEV 34,97429 34,76875 34,60889 39,481 35,89182 32,90083 32,90083 MAR 25,76571 24,33125 22,76111 26,607 25,30091 ABR 26,32714 23,39375 22,06444 24,715 22,72818 21,54833 21,54833 MAI 18,24375 16,81778 18,109 16,70818 15,54083 15,54083 JUN 16,79857 14,69875 13,06556 12,259 11,14455 10,21583 10,21583 20,85 23,3625 23,3625 JUL 10,54083 9,985 9,985 11,37417 10,49923 10,86538 11,77083 AGO 13,015 11,515 11,515 12,81917 11,83308 11,83308 10,81917 SET 11,2825 7,6075 7,72 8,283333 7,646154 10,14077 8,929167 OUT 13,5625 9,806667 9,806667 10,35333 9,556923 11,85231 NOV 14,3725 11,36833 11,34667 12,545 11,70846 14,99462 15,36667 18,3025 21,1375 20,47308 20,04538 21,56167 DEZ 23,22167 16,91333 10,845 *jov = jovens; ASA= muda de rêmiges; MCORP= muda de penas de corpo; MA&C=muda de penas de asa e cauda conjuntamente; MCAUD=muda de retrizes. 205 Anexo 6. Valores percentuais mensais de jovens (%JOV), indivíduos com mudas de asa (%MAS), de cauda (%MCA), de corpo (%MCPOR), de asa e cauda conjuntamente (%MA&C) e com placa de incubação (%PLA) sobre o total de capturas (CAPT). MÊS CAPT %JOV %MAS %MCA jul/94 15 6,67 0 0 - 0 0 ago/94 50 18,00 0 2,00 - 0 24,00 set/94 77 45,45 0 0 - 0 24,68 out/94 71 45,07 0 2,82 - 1,41 23,94 nov/94 76 46,05 5,26 3,95 - 3,95 10,53 dez/94 54 77,78 16,67 5,56 - 5,56 1,85 jan/95 33 63,64 24,24 0 - 6,06 0 fev/95 32 71,88 21,88 21,88 21,88 37,50 3,13 mar/95 43 39,53 11,63 6,98 53,49 27,91 0 abr/95 30 43,33 10,00 10,00 56,67 6,67 3,33 mai/95 36 50,00 2,78 19,44 27,78 0 0 jun/95 27 59,26 0 7,41 22,22 0 3,70 jul/95 37 56,76 2,70 0 27,03 0 0 ago/95 43 44,19 0 0 18,60 0 2,33 set/95 41 0 0 24,39 4,88 0 out/95 62 29,03 0 0 6,45 1,61 27,42 nov/95 76 35,53 6,58 3,95 30,26 3,95 15,79 dez/95 45 48,89 8,89 2,22 64,44 11,11 4,44 jan/96 50 54,00 32,00 10,00 72,00 10,00 2,00 fev/96 6 66,67 33,33 33,33 0 0 mar/96 49 40,82 14,29 10,20 61,22 12,24 2,04 abr/96 35 54,29 2,86 11,43 48,57 2,86 8,57 mai/96 37 45,95 0 5,41 29,73 2,70 2,70 jun/96 20 25,00 0 0 5,00 0 0 17,07 %MCOR %MA&C 83,33 %PLA 206 MÊS CAPT %JOV %MAS %MCA %MCOR %MA&C %PLA jul/96 42 33,33 0 0 16,67 0 4,76 ago/96 17 47,06 0 0 17,65 0 0 set/96 74 18,92 1,35 1,35 6,76 0 32,43 out/96 32 25,00 0 0 9,38 0 31,25 nov/96 60 6,67 10,00 5,00 18,33 1,67 46,67 dez/96 16 31,25 18,75 0 56,25 12,50 0 ERRATA • • Página 63 – segundo parágrafo – suprimir a citação Piratelli et alii (1997). Página 112, último parágrafo – deve ser suprimido e substituido por: Em relação ao tipo de formação vegetal, constataram-se índices de zoocoria de 100% para mata ciliar e 83% para o cerradão. A zoocoria neste caso, aparentemente esteve mais representada na mata ciliar estudada na região de Três Lagoas (X2 = 8,92; sig. a 5%). No cerradão degradado, observou-se a maior proporção da anemocoria, superando inclusive o cerrado, também ambiente aberto. Durigan (1991) verificou que em mata ciliar na região de Assis (SP), a zoocoria podia ocorrer em até 95% das plantas. Em vegetação de cerradão, na mesma região, este índice caiu para 35%.