CÁPITULO I
ERAM CINCO HORAS DA TARDE, um pouco mais que isso – uma
leve inclinação do ponteiro grande para a direita –, quando,
no dia 16 de janeiro, a sra. Monde irrompeu, junto com
uma corrente de ar gelado, na recepção do comissariado
de polícia.
Devia ter saltado de um táxi, talvez de um carro
particular, atravessado como uma sombra a calçada da
Rue La Rochefoucauld e subido confiante uma escada mal
iluminada. Empurrou a porta com tal autoridade que as
pessoas olharam com espanto o batente cinza-sujo, munido de um sistema de fechamento automático, se fechar
com uma lentidão que, parecia ridícula – a tal ponto que
uma mulher humilde, de xale e sem chapéu, esperando
há mais de uma hora em pé, empurrou um dos garotos
agarrado a suas saias, murmurando:
– Vá fechar a porta.
Até sua chegada, todos estavam entre iguais. De um
lado do balcão, os funcionários, com uniforme da polícia
ou casaco, escreviam ou aqueciam as mãos na estufa; do
outro lado, pessoas sentavam num banco ao longo da
parede, outras esperavam de pé; quando alguém saía com
um papel novo nas mãos, todos avançavam um lugar, o
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SIMENON
primeiro funcionário erguia a cabeça; todos aceitavam o
cheiro ruim, a iluminação precária de duas lâmpadas em
abajures verdes, a monotonia da espera ou da tinta de
reflexos violeta usada para preencher os formulários; e,
com certeza, se uma catástrofe imprevisível tivesse isolado por certo tempo o comissariado do resto do mundo,
aqueles que ali se encontravam reunidos teriam acabado
por viver juntos, como uma tribo.
Sem empurrar ninguém, a mulher caminhou até o
primeiro lugar da fila, vestida de preto, com pó-de-arroz
no rosto, muito branco, o nariz um pouco avermelhado
sob o pó. Sem olhar para ninguém, vasculhou em sua
bolsa com os dedos enfiados em luvas pretas, duros como
ébano, precisos com um bico de ave de rapina; e todos
esperavam, todos a olhavam, enquanto ela estendia por
cima do balcão um cartão de visita.
– O senhor poderia fazer o favor de me anunciar
para o comissário?
Todos tiveram todo o tempo do mundo para examiná-la com atenção, mas mesmo assim só guardaram dela
uma impressão de conjunto.
– Uma espécie de viúva – disse o funcionário ao
comissário de polícia que, em seu gabinete cheio de fumaça de charuto, conversava com familiaridade com o
secretário-geral do Théâtre de Paris.
– Num minuto.
O outro veio repetir, antes de voltar a sentar e pegar
as carteiras de identidade que lhe eram passadas:
– Num minuto.
Ela continuou em pé. Seus pés com calçados finos, de
saltos desmesuradamente altos, tocavam o assoalho sujo;
tinha-se a impressão de que estava empoleirada sobre uma
pata só, como uma garça. Ela não via ninguém. Seu olhar,
fixo em algum ponto, talvez nas cinzas que haviam caído
A
FUGA DO SR.
MONDE
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do aquecedor, vinha de cima, gelado, e seus lábios tremiam
como o das velhas que rezam nas igrejas.
Uma porta se abriu. O comissário apareceu.
– Senhora...?
Fechou a porta atrás dela, indicou uma cadeira forrada
num tecido verde, fez lentamente a volta de sua escrivaninha Império, com o cartão de visita na mão, e sentou.
– Sra. Monde? – articulou, com ar questionador.
– Sra. Monde, sim. Moro no 27 bis da Rue Ballu.
E olhou com hostilidade para o charuto mal apagado
que o comissário esmagara no cinzeiro.
– Queira dizer no que posso lhe ser útil.
– Vim informar que meu marido desapareceu.
– Muito bem... Com licença...
Puxou em sua direção um bloco de notas, pegou uma
lapiseira de prata.
– O seu marido, a senhora dizia...?
– Meu marido desapareceu há três dias.
– Há três dias... Portanto no dia 13 de janeiro.
– Foi no dia 13, de fato, que o vi pela última vez.
Ela usava um casaco de astracã preto que exalava um
leve perfume de violetas e remexia entre os dedos enluvados um fino lenço embebido no mesmo perfume.
“Uma espécie de viúva”, anunciara o secretário.
No entanto, não era viúva, pelo menos com certeza
não ainda no dia 13 de janeiro, pois naquela data ainda
tinha um marido. Por que o comissário pensou que era
digna de sê-lo?
– Desculpe se não conheço o sr. Monde, faz poucos
meses que fui nomeado para o bairro.
Esperava, pronto para tomar notas.
– Meu marido é Norbert Monde. O senhor com certeza ouviu falar na Maison Monde, Comissões e Exportações,
cujos escritórios e depósitos ficam na Rue Montorgueil.
Ele assentiu, mais por educação do que por convicção.
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SIMENON
– Meu marido nasceu num palacete da Rue Ballu,
onde sempre morou e onde ainda moramos.
Ele concordou mais uma vez.
– Tinha 48 anos... Dei-me conta de repente: fez 48
anos no mesmo dia em que desapareceu...
– Dia 13 de janeiro... E a senhora não faz a mínima
ideia...
A rigidez da visitante e seu ar desdenhoso deviam
significar que não tinha a menor ideia.
– Imagino que a senhora queira que demos início
às buscas?
Seu ar desdenhoso podia querer dizer que era óbvio
que sim ou, pelo contrário, que lhe era indiferente.
– Estávamos falando, portanto... Dia 13 de janeiro...
Peço desculpas por fazer esta pergunta... O seu marido
tinha motivos para atentar contra a própria vida?
– Motivo nenhum.
– Sua situação financeira?
– A Maison Monde, que foi fundada por seu avô, Antonin Monde, em 1843, é uma das mais sólidas de Paris.
– Seu marido não especulava? Não jogava?
Sobre a chaminé, atrás do comissário, havia um relógio de mármore preto parado desde sempre à meia-noite e
cinco. Por que meia-noite e cinco e não meio-dia e cinco?
O certo é que todos pensavam em meia-noite e cinco ao
olhar para ele. Ao lado, havia um ruidoso despertador que,
por sua vez, marcava a hora certa. Estava bem no campo
de visão da sra. Monde, e ela, no entanto, de tempos em
tempos, torcia o pescoço, que era longo e magro, para
olhar a hora num relógio minúsculo que usava como um
medalhão em seu decote.
– Se descartarmos as preocupações com dinheiro...
Seu marido não teria, madame, desgostos íntimos?...
Desculpe por insistir...
A
FUGA DO SR.
MONDE
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– Meu marido não tinha amante, se é o que o senhor
quer dizer.
Ele não ousou perguntar se, por sua vez, ela não teria
um amante. Era inverossímil demais.
– Sua saúde?
– Nunca ficou doente em toda vida.
– Bom... Perfeito... Bom... A senhora poderia me dizer
como seu marido passou as horas no dia 13 de janeiro?
– Levantou às sete horas, como de costume. Sempre
deitou e acordou cedo.
– Com licença. Vocês partilhavam a mesma cama?
Um sim seco, mordaz.
– Ele levantou às sete horas e foi para o banheiro,
onde apesar... Pouco importa... Onde fumou seu primeiro
cigarro. Depois desceu...
– A senhora estava na cama?
O mesmo sim de pedra.
– Ele falou com a senhora?
– Disse tchau como todas as manhãs.
– A senhora pensou, naquele momento, que era seu
aniversário?
– Não.
– Ele desceu, a senhora disse...
– E tomou o café da manhã em seu gabinete. Trata-se
de uma peça na qual nunca trabalha, mas da qual gosta.
A grande janela panorâmica é cheia de vitrais. Os móveis
são mais ou menos góticos.
Ela não devia gostar de vitrais, nem de gótico, ou
então sonhara com outro destino para aquela peça que
insistiam em manter como gabinete.
– A senhora tem muitos criados?
– Um casal de zeladores, cuja mulher faz o serviço
pesado. O marido é o mordomo. Também temos uma
cozinheira e uma criada de quarto. Além de Joseph, o
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SIMENON
motorista, que é casado e não dorme na casa. Em geral
levanto às nove horas, depois de passar a Rosalie as instruções para o dia... Rosalie é a minha criada de quarto...
Já trabalhava para mim antes de meu casamento... Quero
dizer, antes de meu segundo casamento...
– Então o sr. Monde é seu segundo marido?
– Casei pela primeira vez com Lucien Grandpré, que
morreu há catorze anos num acidente automobilístico...
Todos os anos ele corria, por prazer, as 24 Horas de Le
Mans*...
Na recepção, as pessoas, sentadas no banco ensebado,
de vez em quando avançavam de lugar, outras passavam
com humildade para a rua, mal entreabrindo a porta.
– Em resumo, naquela manhã, tudo aconteceu como
de costume?
– Como de costume. Ouvi o carro dando a partida
por volta das oito e meia, para levar meu marido até a Rue
Montorgueil. Ele gostava de verificar a correspondência
em pessoa, e é por isso que ia tão cedo para o escritório.
Seu filho saiu quinze minutos depois.
– Seu marido tinha um filho do primeiro casamento?
– Cada um de nós tem o seu. Ele também tem uma
filha, que é casada. O casal viveu por certo tempo conosco,
mas hoje mora no Quai de Passy.
– Bom... Muito bom... O seu marido de fato chegou
ao escritório?
– Sim.
– E voltou para almoçar?
– Ele quase sempre almoçava num restaurante em
Les Halles**, não longe do trabalho.
* “24 horas de Le Mans” é uma das mais tradicionais corridas de
carros disputada anualmente na França desde 1923. (N.E.)
** Les Halles: bairro do 1o arrondissement de Paris, que abrigava um
vasto mercado público de mesmo nome. (N.T.)
A
FUGA DO SR.
MONDE
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– Quando a senhora começou a preocupar-se?
– À noite, por volta das oito horas.
– Ou seja, a senhora não o vê desde a manhã de 13
de janeiro?
– Telefonei-lhe mais ou menos às três horas para
pedir que mandasse Joseph com o carro, pois tinha
compras a fazer.
– Ele respondeu-lhe ao telefone de uma maneira
normal?
– Normal.
– Não anunciou que voltaria mais tarde que de costume e não fez alusão à eventualidade de uma viagem?
– Não.
– Simplesmente, à noite, às oito horas, não voltou
para jantar? É isso mesmo?
– Sim.
– E, desde então, não deu sinal de vida. Imagino que
também não voltaram a vê-lo no escritório?
– Não.
– A que horas ele saiu da Rue Montorgueil?
– Por volta das seis. Nunca dizia, mas eu sabia que
tinha o hábito, ao invés de voltar direto para casa, de
parar no Cintra, da Rue Montmartre, para tomar um
vinho do porto.
– Ele foi até lá, naquela noite?
Com dignidade:
– Não sei.
– Posso perguntar-lhe, senhora, por que apenas hoje,
isto é, três dias depois, é que a senhora decidiu informarnos sobre o desaparecimento do sr. Monde?
– Eu continuava esperando que ele voltasse.
– Eram comuns fugas desse tipo?
– Nunca aconteceram antes.
– Não acontecia também de ser chamado às pressas
no interior, a negócios?
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, um pouco mais que isso – uma leve inclinação do ponteiro grande