Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental Escola de Engenharia de São Carlos Universidade de São Paulo Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Índice Introdução ............................................................................................................................................................. 3 Palavra da Coordenação do Curso de Engenharia Ambiental – EESC/USP.................................................. 4 Agradecimentos..................................................................................................................................................... 5 Resumo da Palestras ............................................................................................................................................. 6 Políticas Públicas e Meio Ambiente: das demandas sociais às ofertas acadêmicas ............................................. 6 A ETE Monjolinho ................................................................................................................................................ 11 Processos Físico-Químicos Associados a Processos Biológicos para Tratamento de Esgoto Sanitário ............ 14 Resumo dos Trabalhos ....................................................................................................................................... 38 Utilização de Filmes Automontados de Quitosana para Verificação de Contaminantes em Água ..................... 38 Avaliação da Radiação Microondas Aliada ao Processo Foto-Fenton na Decomposição de Resíduos de Pesticidas .............................................................................................................................................................. 44 Utilização de Áreas Alagadas Construídas para Purificação de Águas Poluídas............................................... 46 Avaliação da Utilização de Sistemas de Wetlands Construídas para Tratamento do Efluente Industrial da Burns Philp Brasil Indústria e Comércio de Alimentos – Unidade de Pederneiras/sp, através de Experimento em Escala Piloto......................................................................................................................................................... 51 Detecção de Metais através de uma “Língua Eletrônica”................................................................................... 55 Levantamento da Vegetação Ciliar na Microbacia do Córrego do Matão, Mogi Guaçu/SP .............................. 62 Utilização da Moringa oleifera como Coagulante Natural no Tratamento de Água........................................... 65 A Toxicidade da Cianobactéria Microcystis aeruginosa aos Cladóceros Planctônicos Daphnia similis, Ceriodaphnia dubia e Ceriodaphnia silvestrii ..................................................................................................... 71 Cultivo de Hydra viridissima em condições laboratoriais, visando sua utilização em estudos ecotoxicológicos77 O Potencial de Reuso de Água (Efluentes Tratados) em um Matadouro-Frigorífico.......................................... 81 Possível Impacto da Alimentação do Tucunaré, cichla cf monoculus spix, 1831(perciformes, cichlidae), recentemente Introduzido na Represa do Lobo (Broa), Itirapina – Brotas/SP .................................................... 89 Estudo da Viabilidade do Coagulante Sulfato Férrico no Sistema de Tratamento de Água da Empresa “Águas de Limeira”........................................................................................................................................................... 93 Análise de Eficiência de um Polímero Catiônico como Auxiliar de Coagulação na Estação de Tratamento de Água - Águas de Limeira ...................................................................................................................................... 99 A Atuação da Sociedade Civil Organizada como Mecanismo para a Sustentabilidade no Uso dos Recursos Hídricos: o Projeto Água Quente ....................................................................................................................... 106 Aplicação de Testes Ecotoxicológicos para Avaliação de Tecnologias de Tratamento de Água para a Remoção de Células e Toxinas de Cianobactérias............................................................................................................. 112 Avaliação da Contaminação do Rio Mogi Mirim por Nitrogênio Amoniacal.................................................... 121 Avaliação da Viabilidade da Reutilização da Água de Enxágüe de Roupa para Descargas Sanitárias ........... 127 Mensagem Final dos Anais............................................................................................................................... 128 Página 2 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Introdução Nos dias 6, 7 e 8 de outubro de 2004 ocorreu no anfiteatro Jorge Caron, localizado no campus da Universidade de São Paulo em São Carlos, o I Simpósio da Engenharia Ambiental organizado pelos próprios alunos do curso de Engenharia Ambiental da Escola de Engenharia de São Carlos. Logo em 2003, ano no qual o curso de Engenharia Ambiental EESC/USP começou a existir, o coordenador do curso, Prof. Marcelo Zaiat sugeriu aos alunos que organizassem um simpósio anual do curso com palestras e mini-cursos ligados à área. Tentou-se organizar este evento neste mesmo ano, mas devido a diversos fatores não foi possível, e foi programado para o ano de 2004. Toda a organização do evento foi de responsabilidade dos alunos do curso, com o suporte, quando necessário, dos professores do curso e também da equipe de funcionários do departamento de Hidráulica e Saneamento. A temática “Água e Sustentabilidade” foi adotada como eixo do primeiro simpósio, tanto devido a importância que este assunto estava tendo na mídia, como também pela facilidade de se organizar um evento sobre este tema, já que o curso é intrinsecamente ligado ao Departamento de Hidráulica e Saneamento. Mesmo uma semana antes do simpósio, já se comemorava o seu sucesso, devido ao esgotamento das vagas, fazendo-se necessário suspender as inscrições. E na tentativa de deixar registrado este I Simpósio da Engenharia Ambiental, publicamos estes anais. Comissão Organizadora Página 3 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Palavra da Coordenação do Curso de Engenharia Ambiental – EESC/USP O I Simpósio da Engenharia Ambiental da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP), embora tenha nascido de estímulo da Comissão Coordenadora de Curso, foi totalmente estruturada e organizada por comissão de alunos. É importante ressaltar que o curso de Engenharia Ambiental de EESC-USP recebeu a primeira turma em 2003, sendo o Simpósio realizado no segundo ano de implantação do curso. Esse fato demonstra a grande capacidade de articulação dos alunos do curso e a compreensão da necessidade e da importância de atividades de ensino-aprendizagem extracurriculares. Os objetivos principais do Simpósio foram congregar os estudantes do curso com estudantes de cursos de Engenharia Ambiental de outras Instituições, trazer palestrantes externos à EESC-USP para troca de informações e para maior contato com professores de outras instituições e para iniciar um contato com o mundo “extra-acadêmico”, tão importante para os futuros engenheiros. Durante três dias, o tema “Água e Sustentabilidade” foi abordado em diversos aspectos e abordagens e debatido por professores, alunos e engenheiros que atuam na área. Mais de 200 pessoas participaram desse amplo debate, com conseqüências positivas para a formação dos futuros engenheiros do ambiente da EESC-USP, ampliando o conhecimento e permitindo a cobertura de conteúdos nem sempre presentes na grade curricular do curso. Desse modo, o I Simpósio da Engenharia Ambiental da EESC-USP tende a se consolidar como uma importante ferramenta no processo ensino-aprendizagem e como fórum de debates na área de engenharia ambiental, não só para a comunidade da USP - São Carlos, como também para toda a sociedade. A Comissão Coordenadora do curso de Engenharia Ambiental espera que este importante evento se repita a cada ano, servindo como elemento integrador entre alunos, professores e profissionais da área. Prof. Dr. Marcelo Zaiat Coordenador do Curso de Engenharia Ambiental - EESC/USP Página 4 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Agradecimentos Primeiramente, expressamos a nossa gratidão a todos os participantes do primeiro Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP que contribuíram firmemente para que o nosso objetivo fosse concretizado. Agradecemos a presença de todos os palestrantes e mediadores de mesa-redonda que puderam compartilhar os conhecimentos de sua experiência e, sabiamente, transmitir informações e fomentar dúvidas e discussões que, certamente, engrandeceram o nosso simpósio. Agradecemos, ainda, todos os técnicos e funcionários do Anfiteatro Jorge Caron que, pacientemente, forneceram toda a estrutura necessária de áudio-visual e informática e os funcionários e professores do Departamento de Hidráulica e Saneamento pelas sugestões fornecidas, pelos telefonemas cedidos, pelos computadores emprestados e pelos recados repassados. Em especial a Rose, o André, a Raquel, a Valderez e a Cecília. Nosso reconhecimento ao professor Marcelo Zaiat que fomentou a idéia de um Simpósio da Engenharia Ambiental da EESC-USP e dedicou toda a paciência e todo incentivo para que o evento fosse realizado. Agradecemos o Diretor da Escola de Engenharia de São Carlos, Prof. Dr. Francisco Antonio Rocco Lahr, e suas secretárias, assim como os nossos patrocinadores, por acreditarem em nós e viabilizarem o ideal deste primeiro Simpósio da Engenharia Ambiental da EESC-USP. Agradecemos, finalmente, à comissão organizadora, por toda a dedicação dispensada por cada membro, pelas aulas perdidas e por toda a correria e desgaste que, por fim, fizeram com que o nosso evento fosse realizado e todas as nossas expectativas cumpridas. A todos que, de alguma forma contribuíram para a concretização e a efetivação do I SEA / EESC-USP, a nossa sincera gratidão. Comissão Organizadora Página 5 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Resumo da Palestras Nem toda palestra apresentada no I SEA – EESC/USP tem seu resumo exibido nos anais. Segue abaixo, somente os resumos das palestras concedidos por seus respectivos palestrantes. Políticas Públicas e Meio Ambiente: das demandas sociais às ofertas acadêmicas Norma Felicidade Lopes da Silva Valencio, Professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos - UFSCar e Professora Colaboradora do programa de Pós Graduação em Ciências da Engenharia Ambiental - EESC/USP. Introdução Em 2002, os discentes do Programa de Pós Graduação em Ciências da Engenharia Ambiental da USP deflagraram um questionamento que culminou no simpósio que vieram a organizar no mesmo ano. Tratava-se dos rumos da produção de conhecimento na área ambiental e no compromisso desse caminhar seguir a par com o melhoramento da formulação e implementação das políticas públicas no nosso país. O contexto de possibilidade de mudança de diretrizes políticoinstitucionais, num nível macro, inspirava-os a pretender que a produção científica prestar-se-ia mais intensamente como fundamento de uma sociabilidade mais abrangente, a se deixar apropriar pela praxis social extra muros da Academia. É sempre salutar haver os que não se saciam de perguntar qual é a condição necessária do fazer ciência: a condição de se perguntar por que? como? para quem? Numa sociedade heterogêna, conflitiva e desigual, responder “para quem” é cada vez mais necessário e não é trivial. Passados dois anos, são agora os discentes da graduação de Engenharia Ambiental, não por acaso, oriundos das mesmas bases institucionais, os que perguntam quais são os desafios da profissão frente à realidade brasileira. Uma vez que a Universidade constitui-se das atividades fins de pesquisa, ensino e extensão, é previsível que as inquietações que hajam do lado dos que atuam na pesquisa também reflita em sala de aula. Não só os docentes transitam entre a graduação e a pós, semeando algo entre técnicas e utopias, mas os discentes transitam entre esses mundos, nos laboratórios e conversas informais. E uma vez que a Universidade é parte constituinte da sociedade, é lícito que indagações como essas sejam recorrentemente colocadas para que o profissional e cientistas paridos da Academia estejam mais do que apenas sintonizados com o mundo (pois não há porque se pretender ajustar-se a um mundo de guerras, pobreza, epidemias): estejam preparados para entendê-lo e transformá-lo no que for necessário e imperativo para um pleno desenvolvimento e cidadania plena. Assim, permito-me recuperar alguns aspectos da reflexão que levei à pós graduação em Ciências da Engenharia Ambiental para transpô-la e ajustá-la ao escopo das preocupações dos alunos da graduação em Engenharia Ambiental. Página 6 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Ambiente é interface Para averiguar o que estava sendo produzido como conhecimento em ‘políticas públicas’ e ‘meio ambiente’, realizei uma rápida busca na Plataforma Lattes, a base modelo que o Brasil adotou, através do CNPq, para cadastrar seus pesquisadores e indicar o conteúdo de sua produção. A forma de acesso aos dados, além de permitir localização rápida de cientistas, grupos de pesquisa, sua produção e produtividade, apresenta possibilidades de contato com os pares; enfim, é um espaço virtual que dá considerável transparência, isto é, visibilidade pública à ciência. Embora isso não possa afirmar categoricamente que todo o esforço científico que nela é imputada deixa-se mostrar. Por vezes, as ‘caixinhas’ temáticas, seja nas áreas de atuação ou os setores de aplicação, tomam formas pouco nítidas do conteúdo do que se produz, não deixando captar a riqueza de eventuais temas que lidam com uma realidade multidimensional, como é o caso do tema políticas públicas assim como o tema ambiental. Tomemos o caso do tema ‘política públicas’. Há relativo consenso de que, de uma forma abrangente, ‘política’ possa ser entendida como a arte de governar, enquanto ‘público’ remete ao que serve ao uso de todos, ao povo, donde ‘políticas públicas’ pode ser compreendido como o conjunto de princípios que norteiam as relações do Estado com seus cidadãos, como a ciência de governar para todos. Levado ao paroxismo, nesse tema cabe de tudo, como bem vim descobrir observando os títulos dos estudos que somavam a portentosa quantidade de 13.023 (treze mil e vinte e três) ocorrências na Plataforma em início de dezembro p.p., já sendo 13.331 (treze mil, trezentos e trinta e um) em início de janeiro do ano corrente, num crescimento absoluto de 308 novos estudos. De outra parte, o debruçar sobre o tema ‘meio ambiente’ levou-me a constatar dimensão semelhante (até maior) de investigações que, se indicava a capacidade brasileira em atuar na ciência dentro do tema, não apontava exatamente para onde, em qual aspecto e para quem. Para chegar a alguma conclusão, procurei nortear-me pelo conceito de ‘meio ambiente’ como o conjunto de relações entre a base biofísica e o meio sócio-cultural, norte este que tenta entender ‘meio ambiente’ não como uma outra coisa, mas como parte constitutiva das ‘políticas públicas’, numa transversalidade governança. evidente aos aspectos de saúde, de segurança, de educação, de Uma dada sociedade, como a brasileira, na produção social de seu ambiente está a todo momento precisando descobrir/respeitar a capacidade de suporte dos limites geopolíticos que a nação mesma estabeleceu para si. Isto significa aliar ciência/ética/arte em torno de uma nova agenda comum. Ao remeter ao recorte das ‘políticas públicas’ que tratam de questões ‘ambientais’, pretendendo caracterizar tendências de investigação científica, dois grandes grupos: os que tratam de políticas públicas no espaço da terra e os que tratam de políticas públicas no espaço das águas. Em comum, o fato de serem estudos que tratam das relações da sociedade consigo própria, mas que têm na especificidade de sua inserção num dado meio biofísico uma variável relevante de entendimento das estruturas e processos decisórios levados a cabo. Em suma, se o tema ambiental Página 7 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP está inserido nas políticas públicas e é transversal às várias especialidades, ele é um tema que tem LUGAR, focaliza um território em particular. Oras, nas Ciências Sociais, sabemos que os lugares podem ser qualificados das mais diferentes formas. A que mais interessa, é aquela que faz distinção entre PÚBLICO e PRIVADO, pois essa distinção diz respeito não apenas o que se pode encontrar aí, mas o que se pode faz com aquilo que é encontrado. O espaço da terra é aquele eminentemente dotado da possibilidade de ser apropriado privadamente (o que é premissa básica para a existência do processo de acumulação e o seu oposto, a incidência da exclusão social) sendo meio de produção importante e geograficamente imutável. A apropriação privada favorece que a decisão sobre o que fazer no território esteja diretamente sob o crivo do seu dono e a ausência de uma boa regulação social e medidas fiscalizatórias tem levado esse direito ao status de abuso destrutivo. A ‘febre’ por concreto nas cidades as tornam inviáveis na infraestrutura urbana, o poder público sempre correndo atrás dos abusos do empreendor-loteador-construtor. A ‘febre’ por produção no campo é devastador das matas, dos solos, da biodiversidade florística e faunística. O espaço da terra pode, assim, ser subdividido em meio rural e meio urbano e ambos podem estar sendo conduzidos por padrões, culturalmente estabelecidos, igualmente preocupantes. Aos profissionais no tema ambiental, as pesquisas científicas têm indicado, no meio rural, a necessidade de que as competências se dirijam para os aspectos agrários, isto é, estarem aptas para envolver-se com a transformação das formas atuais de apropriação dos fatores de produção, desde a redefinição fundiária (reforma agrária) até a avaliação dos impactos das novas tecnologias de produção agropastoril (do satélite que monitora a necessidade de água das lavouras ao desenvolvimento de biomassa para o ‘gado verde’ brasileiro). Mas, se a contraposição ao espaço da terra é o espaço da água, caracterizado como território onde vige o BEM PÚBLICO – o que significa a necessidade de políticas que promovam o acesso a todos e a sua preservação, o que costuma ser tratado como aspectos contraditórios -, a água não está ‘solta’ da terra, mas está em estreita relação com o que nela se faz, seja ela urbana ou rural. Enfim, saber até onde vai o tema ambiental é um esforço constante de desagregação de variáveis, traduzindo-as em conceitos e, depois, reagregá-las, estabelecendo um sentido lógico para um determinado tipo de atuação profissional. Uma ilustração do esforço de interface necessária, a qual o profissional da Engenharia Ambiental poderia se tornar competente, numa conjuntura de combate de fome, é a necessidade de se pensar a produção de alimentos. De uma forma mais rasa, são economistas e engenheiros agrícolas os que se acham competentes à estimação da produção. Olhando mais de perto, os estudos de ambos, feitos isoladamente, costumam apresentar-se num abstrato biofísico, anunciando cenários que mal ultrapassam o olhar sobre a safra. Para além da safra, os aspectos ecossistêmicos, climáticos, geomorfológicos, hidrológicos, num nível macro (regional, nacional, global) ficam sempre comprometidos porque os processos socioambientais mais amplos fogem ao foco do empreendedor e seu assistente técnico em agricultura e as ferramentas quantitativo-monetárias do economista. Por Página 8 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP conseguinte, ambos frustam a expectativa de seus conhecimentos servirem de base para uma nova direção de gestão pública sobre esse espaço e de referência dessa para a gestão privada. Esse é o espaço no qual o profissional da Engenharia Ambiental pode crescer, pois é necessário ser ocupado. Outro exemplo é a respeito do que ocorre no espaço da terra na sua porção urbana, onde os problemas de habitação popular, trânsito, combate à pobreza, combate às enchentes, às epidemias, responsabilidade corporativa, estão deveras fragmentados. A não ser o caso de trabalhos relacionados ao tema de habitação/autoconstrução (relacionados ao conforto térmico, à geração novos materiais, como adobe/algas), em que o alcance social e as implicações ambientais estão entremeadas, os demais temas abrem campos ricos e pouco explorados dessa interface. Por fim, há, no espaço da água, aquele que representa o do bem público e, portanto, o de política por excelência, um desafio bem consistente. Embora, a princípio, tal espaço ofereça-se ao acesso de todos - uma vez que a água precisa sê-lo, como suporte para a vida -, sua adversa distribuição social e geográfica torna-o o mais incisivamente disputado, numa intervenção do Estado cada vez menos efetiva. O uso de instrumentos recentes de regulação que buscam proteger o interesse público nem sempre garante um bom ajuste no grau de assédio ao recurso por parte do interesse privado. Daí, ser imperioso que quadros qualificados entendam das características sociais e políticas dos atores que lutam pelo direito de acesso à água, suas estratégias de sobrevivência/acumulação, as condições bio-físico-químicas dos recursos hídricos que disputam bem como o impacto dessa disputa sobre os seres hidróbios -, as implicações do uso de determinadas técnicas de captação e descarte. Entendam isso de forma integrada, pois é dessa integração, lastreada num conhecimento complexo, que depende uma formulação e implementação de política exitosa em termos de equidade social e sustentabilidade ambiental. O Engenheiro Ambiental tem o desafio de vencer o hábito do diálogo entre os iguais, no refúgio constante do conhecimento especializado - que se oferece como climatologia strictu, hidrologia strictu, ecologia strictu, geomorfologia strictu -, e aceitar o desafio de conversar com os diferentes achando o ponto em comum. Quanto menos melindrado se sentir, mais conhecimento complexo está apto a assimilar, e é no complexo que estão as saídas sustentáveis de políticas públicas e gestão territorial. Há, por fim, outras interfaces que merecem ser consideradas numa perspectiva de fortalecimento das condições de encontro entre as demandas sociais e o profissional na área ambiental, que são interfaces entre o conhecimento e a ética. Vivemos numa circunstância de retorno às várias barbáries que resultam na perda do direito à vida e a integridade dos ecossistemas, de práticas de descuido com mananciais e com os recursos hidróbios que dele dependem. O Brasil apresenta uma perda média de 60% da água tratada, segundo o Programa de Modernização do Setor de Saneamento (PMSS), o que repercute não apenas nos preços – que introjetam os custos das perdas do sistema – mas impacta o contexto ambiental e social de forma deletéria. A convivência com as contradições entre a escassez e o desperdício do recurso, entre o preço alto e populações sem renda e/ou empobrecidas, além dos impactos ambientais que decorrem do uso intensivo e sazonal do território, no caso do turismo, colocam ao profissional da Engenharia Página 9 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Ambiental um desafio de afrontar práticas tradicionais que estão sedimentadas tanto no conservadorismo quanto numa modernidade egoísta e perdulária. Para concluir Um questionamento acadêmico sobre quais são as interfaces possíveis entre os temas de ‘políticas públicas’ e ‘meio ambiente’ não é apenas lícito, mas necessário. Deve partir da busca de integração entre conhecimentos disciplinares focalizando também integradamente o Espaço da Terra, o Espaço da Água, e nesses, reconhecer o Espaço do Cidadão. O bom profissional, dentro de um projeto sustentável de nação, é o que garante o Espaço do Cidadão. É a partir das urgências e interesses da sociedade que a ciência se desenvolve. Da mesma forma, é o profissional graduado. Uma das urgências que temos é a de reforçamento da soberania nacional sem perder as oportunidades do processo de globalização; promover na autodeterminação de pequenos grupos sem que haja a desintegração da sua identidade. Ambos passam pelos recursos territoriais, biofisicos, culturais, políticos, e pelos usos que a sociedade escolhe dar para eles. É no reconhecimento da necessidade de afirmação do Espaço do Cidadão que germina o fortalecimento do espaço da democracia, em que ocorre a descoberta das relações de deveres e direitos para com o coletivo e emana o sentimento de que o espaço público precisa ser resguardado para a fruição de toda a nação. O profissional formado na Universidade Pública precisa devolver, como compromisso social, uma prática que devolva o sentido bom do desenvolvimento que se perdeu entre as idéias caducas que ainda persistem. Página 10 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP A ETE Monjolinho Engenheiro José Ventura – Empresa SEREC A ETE cidade de Monjolinho, São Carlos, destinada constitui a tratar antiga a quase ambição totalidade local, cujos dos esgotos primeiros da passos começaram a se desenvolver a partir de 1990. A ETE apresenta uma característica peculiar porque poderá tratar os esgotos de praticamente 100% da área urbana, sem necessidade de qualquer unidade de bombeamento ao longo do sistema coletor-interceptor, a uma relativamente pequena distância da cidade. Outra característica importantíssima é que representa a sedimentação de uma tecnologia recente, com grande grau de desenvolvimento nacional, e ampla aplicabilidade em nosso território, com apreciável economia nos investimentos iniciais e despesas de custeio, quando comparada com unidades semelhantes utilizadas nos grandes centros e no exterior que empregam o tradicional processo de lodos ativados, mesmo em suas mais modernas versões. O processo de tratamento utilizado na ETE Monjolinho tem alicerces em pesquisas e estudos desenvolvidos na Escola de Engenharia de São Carlos, em particular pelos Profs Drs. José Roberto Campos, Marco A. Penalva Reali, e Luis Daniel. A SEREC orgulha-se de ter encampado, com certa antecedência em relação ao mercado de Consultoria, a iniciativa desses notáveis Professores, e ter contribuído, ainda que de forma modesta, com o desenvolvimento e sobretudo aplicação prática, do sistema de tratamento em apreço, sem jamais olvidar dos demais processos, conforme a análise de adequabilidade em cada caso. O processo emprega UASBs, sigla em inglês, para os reatores Anaeróbios de Fluxo Ascendente e Manta de Lodo, seguidos de Flotação, e no caso da ETE Monjolinho apresenta diversas outras facilidades capazes de incrementar a qualidade do processo, e ampliar-lhe a eficácia, no controle de parâmetros ainda não exigidos para a classe em que se situa hoje o RIo Monjolinho, mas que poderão sê-lo, em futuro próximo, quando se lograr alterar-lhe a classe para uma de qualidade superior. A execução da ETE foi concebida, no que se refere às grandes unidades da fase líquida do processo de tratamento (reatores UASBs, floculadores e flotadores), em módulos e em etapas. Para tanto, optou-se por um módulo de tratamento com capacidade para atender uma vazão média de 318 l/s, e uma vazão máxima de 525 l/s. A ETE seria implantada em duas etapas. Na primeira, com alcance até o ano 2015, seriam implantados dois módulos de tratamento, que poderiam atender uma vazão média de 636 l/s e uma vazão máxima de 1.050 l/s. Na 2ª etapa, com alcance até o ano 2031, seria implantado mais um módulo de tratamento, que ampliaria a capacidade da estação, para atender uma vazão média de 954 l/s e uma vazão máxima de 1.575 l/s. O layout da estação foi montado com espaço para comportar uma eventual 3ª etapa, onde seria implantado mais um módulo de tratamento, de acordo com o planejamento da FIPAI. A ETE, nesta Página 11 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP configuração final, poderia atender uma vazão média de 1.272 l/s e uma vazão máxima de 2.100 l/s, previstas para o ano 2055. O processo de tratamento da ETE seria também implantado em fases. Na primeira fase seria implantado um processo que permitiria a remoção de 90% de DBO dos esgotos brutos e a produção de um efluente tratado com concentração de oxigênio dissolvido mínimo de 7 mg/l. Na 2ª fase o processo seria complementado para remoção de fósforo, amônia, nitrogênio e coliformes. Na 1ª fase seria implantado o tratamento preliminar, seguido de reatores UASBs, flotação por ar difuso e pós-aeração. Os lodos excedentes dos reatores UASBs e os lodos produzidos pela flotação seriam encaminhados para desidratação mecânica. Os materiais removidos no tratamento preliminar e os lodos desidratados seriam encaminhados para aterros sanitários. Na 2ª fase a ETE seria complementada introduzindo-se um sistema de lodos ativados após os reatores UASBs e um sistema de desinfecção com luz ultravioleta no efluente final. O sistema de lodos ativados seria formado por tanques de aeração com ar difuso, montados entre os reatores UASBs e a flotação. O lodo flotado seria continuamente recirculado para a entrada dos tanques de aeração e o lodo excedente do processo seria encaminhado para desidratação ou, alternativamente, para os reatores UASBs. O lodo excedente dos reatores UASBs seria encaminhado para desidratação mecânica. O sistema de desinfecção seria introduzido entre a flotação e a pós-aeração. A 2ª fase poderia ser implantada em qualquer etapa prevista para a ETE, não sendo necessário concluir as obras de 1ª fase para dar início às da 2ª fase. Para tanto, as unidades da 2ª fase foram moduladas e estagiadas da mesma maneira que as unidades da 1ª fase. Assim, cada módulo de tratamento da fase líquida na 1ª fase seria formado por um reator UASB, um floculador e um flotador. Na 2ª fase cada módulo seria formado por um reator UASB, um tanque de aeração, um floculador e um flotador. O tratamento preliminar seria implantado em duas etapas, com dois módulos independentes, um com capacidade para a 1ª etapa, e outro com capacidade para a 3ª etapa. As demais unidades, de menor porte, não foram moduladas, e deverão ter suas obras civis implantadas na 1ª etapa com equipamentos implantados eventualmente em etapas. Assim, em linhas gerais, na 1ª etapa da 1ª fase seriam implantadas as seguintes unidades: Uma caixa de chegada de esgotos brutos; Um sistema para eventual dosagem de soda nos esgotos brutos; Um módulo de tratamento preliminar, formado por grade mecanizada grosseira, grade fina ou peneira, caixas aeradas retentoras de areia e gordura, reator para degradação de gorduras, e um sistema para controle de odores na unidade; Dois módulos de reatores UASBs, cada módulo composto por 4 reatores operando em paralelo; Um sistema para queima de biogás produzido pelos reatores UASBs; Página 12 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Um sistema para dosagem e mistura rápida de coagulantes no esgoto afluente a flotação; Dois floculadores mecanizados; Dois flotadores de ar difuso, circulares e com remoção mecanizada de lodo; Uma casa de saturação para produção de água saturada com ar necessária à flotação; Uma calha Parshall para medição da vazão do efluente final; Uma escadaria hidráulica para pós-aeração; Uma elevatória de lodo flotado, entre os dois flotadores; Uma casa de desidratação de lodos; Uma elevatória de drenagem; Uma ETA de serviço para produção de água de serviço para uso interno da ETE a partir do efluente da estação; Um reservatório elevado com câmaras independentes de água potável e água de serviço; Unidades auxiliares tais como portaria, casa de operação e edificações necessárias ao sistema elétrico e de instrumentação. No layout foi previsto espaço para implantação eventual de um sistema de geração de energia com a utilização do biogás dos reatores UASB, e para implantação de uma eventual ETA de reuso que poderá produzir água para uso externo a partir da água de serviço. Na 2ª etapa da 1ª fase seriam implantadas as seguintes unidades adicionais: um módulo de tratamento preliminar; um módulo de reatores UASB; um floculador; um flotador; uma nova casa de saturação; e uma escadaria hidráulica para pós-aeração. Na eventual 3ª etapa da 1ª fase seriam implantadas as seguintes unidades adicionais: um módulo de reatores UASBs; um floculador; um flotador; e complementação dos equipamentos da casa de saturação da 2ª etapa. Na 2ª fase, seriam implantadas as seguintes unidades adicionais por etapa de implantação da 1ª fase: - 1ª etapa: 2 tanques de aeração; 1 casa de sopradores; 2 elevatórias periféricas para os 2 flotadores da 1ª fase; 1 casa de desinfecção com luz ultravioleta. - 2ª etapa (até o ano 2031): 1 tanque de aeração; Página 13 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP complementação dos equipamentos da casa de sopradores; 1 elevatória periférica para o flotador da 2ª etapa da 1ª fase; complementação dos equipamentos da casa de desinfecção. - 3ª etapa (até o ano 2050) 1 tanque de aeração; complementação dos equipamentos da casa de sopradores; 1 elevatória periférica para o flotador da 3ª etapa da 1ª fase; complementação dos equipamentos da casa de desinfecção. Processos Físico-Químicos Associados a Processos Biológicos para Tratamento de Esgoto Sanitário Prof. Dr.Marco Antonio Penalva Reali, Departamento de Hidráulica e Saneamento EESC/USP. A partir dos aspectos fundamentais envolvidos em qualquer sistema de tratamento de águas residuárias, são colocadas as principais opções no que se refere às etapas de conversão e de separação de fases nesses sistemas. Devido ao pouco tempo disponível para a palestra-cerca de trinta minutos- não é viável uma abordagem mais profunda acerca de todos os processos químicos e operações unitárias possíveis de serem adotados em sistemas de tratamento de esgoto (adsorção, processos oxidativos, membranas,etc). Assim, procurou-se focalizar apenas os principais aspectos envolvidos na técnica que associa o tratamento físico-químico por flotação com tratamento biológico anaeróbio em sistemas de tratamento de esgoto. São apresentados os principais conceitos relacionados a essa técnica, com ênfase na remoção de fósforo, de material coloidal residual e de sólidos em suspensão. Finalmente são abordados os principais resultados de pesquisas realizadas junto ao Departamento de Hidráulica e Saneamento da EESC-USP acerca da técnica de tratamento de esgoto que associa o processo de coagulação/flotação, flotação com processos biológicos anaeróbios, comentando suas vantagens e desvantagens, e com a colocação de exemplos de aplicação dessa nova técnica em recentes projetos de Estações de Tratamento de Esgoto no Brasil. Tratamento Físico-Químico do Efluente de Reatores Anaeróbios por Flotação por Ar Dissolvido (F.A.D) Nas últimas décadas verificou-se a predominância de Estações de Tratamento de Esgotos Sanitários que incorporam reatores biológicos e unidades de sedimentação no fluxograma de tratamento. Assim, o interesse pela prática de tratamento físico-químico de esgotos sanitários permaneceu relativamente estagnado, voltando à tona apenas recentemente, motivado por algumas vantagens significativas inerentes a incorporação de unidades de flotação por ar dissolvido em lugar das unidades de sedimentação. Dentre tais vantagens, podem ser citadas: maior facilidade de controle operacional, grande resistência a agentes tóxicos e elevada eficiência na remoção de Página 14 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP fósforo, de material coloidal e de sólidos suspensos. Tais assertivas foram comprovadas em recentes estudos realizados na EESC-USP sobre tratamento, por flotação, dos efluentes de reatores anaeróbios alimentados com esgoto sanitário, os quais são comentados ao longo do presente texto. Adicionalmente, vale ressaltar que a flotação constitui processo de alta taxa, exigindo pequena área para implantação, produzindo lodo já espessado (com teor de sólidos acima de 4% em peso), e que apresenta enorme versatilidade operacional e rapidez de entrada em regime. Assim, o emprego do tratamento físico-químico por flotação como pós-tratamento de efluentes líquidos de reatores biológicos confere enorme grau de segurança ao sistema como um todo, pois resiste a cargas de choque e "picos" instantâneos de vazão, permitindo a obtenção de efluente final com excelente qualidade, com baixo consumo de agente químico coagulante. A utilização de coagulantes apropriados, como por exemplo, cloreto férrico e cal, pode viabilizar a disposição, no solo, do lodo gerado, atuando como corretivo de acidez do solo. Alternativamente, caso se pretenda minimização na geração de lodos, podem-se empregar polímeros sintéticos em dosagens bem menores que aquelas referentes ao cloreto férrico e cal. Esse tipo de solução além de produzir efluente final com características que atendem a legislação ambiental, poderá também em certos casos, após desinfecção com radiação ultravioleta, permitir reuso da água. Conforme mostrado no esquema da Figura 6, o efluente do reator biológico anaeróbio é encaminhado a câmaras de floculação mecanizada (em série) após receber a adição de cloreto férrico e de cal em dispositivo especial para promover a mistura adequada desses produtos. Esses coagulantes têm suas soluções/ suspensões preparadas e dosadas empregando-se equipamentos adequados, instalados em uma pequena "casa da química", situada anexa às unidades de floculação/flotação. Assim, o efluente do reator anaeróbio, após receber o coagulante, é encaminhado para unidade de floculação (dotada de agitadores lentos mecanizados). Em seguida ao processo de floculação, o despejo líquido terá acesso à unidade de flotação por ar dissolvido, onde, logo na entrada, será misturado ao líquido de recirculação, proveniente da câmara de saturação. O líquido de recirculação será distribuído ao longo da largura do flotador através de dispositivos de despressurização, responsáveis pela precipitação das microbolhas de ar que atuam como agentes da flotação. Dessa forma, as microbolhas colidindo e aderindo aos flocos previamente formados aumentam o seu empuxo, provocando o deslocamento dos mesmos em direção à superfície da unidade de flotação, formando uma camada de lodo flotado. Esse lodo é então encaminhado, por intermédio dos raspadores de superfície, em direção à canaleta de coleta existente na extremidade do flotador, de onde é destinado a um tanque de armazenamento de lodo e, em seguida recalcado para os leitos de secagem. O fundo do flotador é construído com a forma de tronco de pirâmide dotado de tubulações de descarga, com a finalidade de acumular os sólidos que porventura venham a sedimentar. Tais sólidos deverão ser descartados, através de descargas esporádicas, para o mesmo tanque de armazenamento de lodo flotado. Página 15 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Por sua vez, o líquido clarificado, escoando por baixo de um anteparo de saída, será coletado através de vertedores apropriados e encaminhado para fora da unidade constituindo o efluente final tratado.Uma pequena parcela do efluente tratado é encaminhada através de uma bomba de alta pressão (de 4,0 a 5,5 kgf/cm2), para o interior da câmara de saturação. Nessa câmara, ocorrerá a mistura de ar comprimido, com conseqüente dissolução do mesmo à massa líquida (a alta pressão), a qual é subseqüentemente recirculada e misturada à água floculada, conforme descrito anteriormente. Nesse tipo de instalação é produzido lodo flotado que deve ser armazenado em um tanque apropriado, do qual deve ser encaminhado para unidades de desidratação de lodos. Os efluentes líquidos do sistema de flotação já estarão tratados, em termos de remoção do conteúdo de matéria orgânica e fósforo, porém ainda há a necessidade de se efetuar sua desinfecção. Para uma melhor compreensão do processo de flotação, a seguir são comentados alguns dos principais aspectos de tal processo, com ênfase à sua aplicação como pós tratamento físico-químico de efluentes de reatores biológicos tratando esgoto sanitário. Modalidades de Sistemas de Flotação por Ar Dissolvido Os sistemas FAD são utilizados de três formas, dependendo do método de pressurização empregado: pressurização total, parcial e com recirculação, como ilustra a Figura 1. Página 16 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Na flotação por ar dissolvido com pressurização total do efluente a totalidade de vazão afluente é pressurizada. Normalmente, é utilizada quando o líquido a ser clarificado possui material em suspensão que possa ser submetido à intensa agitação que ocorre na bomba de pressurização (Figura 1a). A flotação por ar dissolvido com pressurização parcial do afluente é semelhante ao caso anterior, diferindo apenas no fato de que, neste caso, somente uma parte da vazão afluente é pressurizada (Figura 1b). Na flotação por ar dissolvido com recirculação pressurizada ocorre a pressurização uma parcela do afluente já clarificado, recirculando e misturando a mesma com o afluente. Esta variação é aconselhável nos casos onde estão presentes no afluente partículas frágeis (flocos, por exemplo), as quais sejam suscetíveis de quebra de estrutura ao passarem pela bomba (Figura 1c). Página 17 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP A modalidade mais comumente empregada no tratamento de águas residuárias e de abastecimento é a flotação por ar dissolvido com recirculação pressurizada. Isto se deve principalmente por se ter a presença de flocos (frágeis) formados pela coagulação prévia das partículas a serem submetidas à flotação. Tais flocos não resistiriam aos esforços cisalhantes inerentes às outras modalidades. Desta forma, neste capítulo serão comentados apenas os aspectos operacionais e de projeto relacionados a essa modalidade de flotação, e que será designada simplesmente por FAD. A Figura 5 ilustra um esquema típico de sistema FAD aplicada ao tratamento de águas residuárias precedido de coagulação química. A faixa de tamanho de flocos requeridos para o bom desempenho de flotação é bem menor que aquela exigida pela sedimentação. Assim, as unidades de floculação que antecedem os flotadores são bem menores, podendo ser projetadas com tempo de detenção na faixa de 8 a 25 minutos, bastante inferior à faixa exigida pelos floculadores que antecedem aos decantadores (25 a 45 min). Além do menor tempo de floculação, as unidades de FAD também requerem usualmente menores dosagens de coagulantes, resultando em diminuição de custos para o sistema. Tal economia pode muitas vezes compensar o gasto de energia adicional que se tem no processo de geração de microbolhas. O sistema de geração de microbolhas é constituído de uma câmara de saturação (ver Fig. 6) que recebe uma pequena parcela da vazão efluente do flotador (na faixa de 4 a 10%), a qual é pressurizada por bomba centrífuga (pressão usualmente na faixa de 3,5 a 6,0 kgf/cm2). No interior da câmara de saturação pressurizada existe um "colchão de ar” formado pela introdução de ar comprimido e controlado por válvulas especais ou eletrodos. A água ao passar pelo "colchão de ar” sob pressão dissolve parcela do ar até atingir certo grau de saturação, e em seguida é encaminhada à unidade de flotação (ver Figura 6). Na entrada do flotador, a recirculação saturada, proveniente da câmara de saturação, é despressurizada em dispositivos especiais e misturada à suspensão de flocos que sai dos floculadores. Ao ser bruscamente despressurizada, a massa de água saturada libera o ar anteriormente dissolvido, na forma de minúsculas bolhas de ar, as quais, colidindo com os flocos promoverão a flotação dos mesmos. A quantidade máxima teórica de ar capaz de ser dissolvido na câmara de saturação é definida pela Lei de Henry: C = KH * P em que, C: Concentração do gás (mol/l ou mg/l) KH: Constante de equilíbrio, ou coeficiente de lei de Henry, que depende da temperatura do líquido (mol/l.atm ou mg/l.atm) P: pressão parcial do gás (atm) Ou seja, a concentração de ar na água vai depender da pressão e da temperatura no interior da câmara. Quanto maior a pressão, maior a concentração de ar dissolvido, e quanto maior a temperatura, menor essa concentração. Página 18 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Em comparação à sedimentação, a flotação constitui processo de alta taxa, pois admite a aplicação de taxas bem maiores, na faixa de 120 a 300 m3/m2.dia. Tamanho das Bolhas Um dos fatores essenciais que determinam o sucesso de sistemas FAD é o tamanho das microbolhas de ar presentes no flotador. A faixa recomendada de tamanho de microbolhas situa-se entre 10 a 100 µm, sendo desejável que a maior parte esteja em torno de 50 µm ou menos. É importante que a "nuvem" de microbolhas de ar produzidas na entrada das unidades FAD sejam uniformemente distribuídas, permitindo que essas microbolhas exerçam seu papel com o máximo de eficiência. A principal função das microbolhas de ar no processo FAD é, conforme já comentado, diminuir a densidade dos conjuntos "flocos + bolhas" em relação à da água e dessa forma, quanto maior o volume de bolhas ligadas aos flocos (ou sólidos), menor a densidade relativa e maior a velocidade descendente dos conjuntos "flocos + bolhas". Outra função secundária das microbolhas, quando o processo FAD é empregado para tratamento de esgotos, é o aumento do nível de oxigênio dissolvido no esgoto tratado, além do arraste de parcela dos gases odoríferos para fora do efluente final. A título de ilustração da importância do tamanho das microbolhas atuantes no processo FAD, na Tabela 1 são mostrados valores de concentração de microbolhas (Nb, em no de bolhas por mL de suspensão no interior da zona de reação). Para o cálculo dessas grandezas, foi utilizada a modelação do processo de flotação proposto por REALI (1991 e 1994). Com relação aos dados mostrados na Tabela 1, pode ser visto que para a flotação por ar dissolvido, quanto menor o tamanho médio das microbolhas de ar geradas no interior do flotador, mais eficiente será o processo, pois maior será a probabilidade de colisão entre as bolhas de ar e os flocos em suspensão e maior também a chance de se ter uma ligação mais estável entre as microbolhas e os flocos. Esse último fato se deve ao fato de que a velocidade ascensional cresce diretamente com o quadrado do diâmetro das microbolhas. Assim, bolhas maiores tenderão a se desprender mais facilmente da superfície dos flocos, após a colisão, devido à suas maiores velocidades ascensionais. Além disso, segundo ETTELT (1964), bolhas de ar menores necessitam deslocar menos líquido da superfície dos sólidos (flocos) aos quais devam aderir, sendo, portanto, mais fácil sua aderência Página 19 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP que a das bolhas maiores. Ademais, devido às menores velocidades ascensionais das bolhas menores, as mesmas apresentam maior tempo de permanência no interior do flotador, melhorando apreciavelmente a oportunidade de contato entre as bolhas e os flocos a serem removidos. A título de ilustração, pode ser destacado que uma bolha de ar com diâmetro igual a um décimo do diâmetro de outra bolha, eqüivaleria um tempo de detenção 100 vezes maior que o tempo de detenção relativo à bolha maior. Assim, evidencia-se a grande importância que os dispositivos de despressurização da recirculação apresentam em sistemas FAD. Tais dispositivos são os maiores responsáveis pela definição da distribuição de tamanhos de microbolhas de ar a serem geradas na zona de reação dos flotadores. A Figura 2 ilustra a importância do dispositivos de despressurização da recirculação, para dois tipos diferentes de dispositivo de liberação da recirculação, um deles constituído de um bocal patenteado pelo Water Research Centre, Inglaterra, e o outro, constituído de uma simples válvula de agulha (ZABEL, 1982). A Coagulação e Floculação Para que a flotação de águas residuárias tenha sucesso, além da presença de microbolhas de ar com distribuição de tamanho adequada, é necessário que se promova a coagulação química e a floculação das partículas dispersas na água. Segundo ODEGAARD (1979), o processo de formação e separação dos flocos pode ser dividido em três etapas: coagulação/precipitação, floculação e separação (sedimentação, flotação ou filtração). Em todas as etapas há a formação de flocos, mas a formação inicial ocorre na primeira etapa. Após a coagulação, as partículas possuem tamanhos na faixa entre 0,5 µm e 5 µm e são denominadas partículas primárias. Na segunda etapa (floculação), as partículas primárias agregamse em conseqüência das colisões promovidas, ocorrendo à formação de flocos maiores, na faixa entre 100 µm e 5000 µm. No processo de coagulação, a etapa de desestabilização é consumada em questão de segundos, durante a mistura rápida do coagulante, a qual relaciona-se com a química do processo, enquanto Página 20 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP que na floculação dos flocos, etapa que demanda tempo superior a alguns minutos, prevalece os aspectos físicos (colisões e crescimento dos flocos). Quando sais de ferro, sais de alumínio ou cal são adicionados às águas residuárias, ocorrem pelo menos dois processos diferentes e de interesse ao tratamento: coagulação (ou desestabilização) das partículas (colóides) e precipitação de fosfato solúvel. O processo de coagulação é responsável pela separação das impurezas associadas a partículas, causando remoção de DBO no esgoto bruto entre 70% e 75% e remoção de sólidos suspensos entre 95% e 98% (ODEGAARD, 1979). Ainda segundo o referido autor, a maioria dos contaminantes na água residuária é constituída por partículas sólidas ou estão associadas a elas. As partículas suspensas nas águas residuárias variam seu tamanho entre 0,005 µm a cerca de 100 µm. A dupla camada elétrica existente em sua superfície impede a ligação das partículas coloidais entre si. A desestabilização química é conseguida através da adição de produtos químicos desestabilizantes (coagulantes) que aumentam a tendência de agregação ou fixação dos colóides. Os coagulantes mais comuns são sais de ferro ou de alumínio, cal e polímeros orgânicos sintéticos. Mecanismos de Coagulação Há quatro mecanismos diferentes de coagulação: compressa da camada difusa, adsorção e neutralização de cargas, varredura e adsorção e formação de pontes. Segundo ODEGAARD (1979), todos esses mecanismos, com exceção do primeiro, podem ocorrer no tratamento de águas residuárias. Adsorção e Neutralização de Cargas. As macromoléculas naturais ou sintéticas (polieletrólitos) apresentam uma forte tendência de agregação nas interfaces. O sais de Fe3+ e Al3+ utilizados como coagulantes são considerados polieletrólitos porque formam elementos hidrolisados polinucleares, Meq(OH)nz+, que são prontamente adsorvidos na interface partículaágua. Quando uma quantidade de sais de Fe3+ ou de Al3+ é adicionada à água residuária e esta quantidade é suficiente para exceder a solubilidade máxima do hidróxido do metal correspondente, uma série de reações hidrolíticas ocorrem, originando desde a produção de Al(OH)2+ ou de Fe(OH)2+, por exemplo, até a formação de precipitados de hidróxidos de metais. Nas águas residuárias, dosagens de Fe3+ ou de Al3+ suficientes para exceder a solubilidade máxima do hidróxido de metal são sempre empregadas. Por essa razão, é plausível considerar que a desestabilização dos colóides neste sistema é proporcionada pelos complexos de Fe3+ ou de Al3+ que são cineticamente intermediários na eventual precipitação do hidróxido de metal. A quantidade de polímero adsorvido e, conseqüentemente, a dosagem de coagulante necessária para proporcionar a desestabilização dos colóides depende da quantidade de colóides presentes. Há, então, uma dependência “estequiométrica” entre a dosagem de coagulante e a concentração de colóides. Essas interações químicas específicas contribuem significativamente para a adsorção e a desestabilização coloidal é facilmente constatada a partir da verificação de que esses coagulantes, em dosagem adequada, podem causar a reversão das cargas coloidais (ODEGAARD, 1979). Página 21 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Varredura. Quando um sal de metal, tal como sulfato de alumínio ou cloreto férrico, ou um óxido (CaO) ou hidróxido de metal, tal como Ca(OH)2, são empregados como coagulantes em concentrações suficientemente altas para causar a rápida precipitação de um hidróxido de metal, Al(OH)3 e Fe(OH)3, por exemplo, ou de um carbonato de metal, CaCO3, as partículas coloidais são envolvidas pelos precipitados e, como este mecanismo não depende da neutralização de cargas dos colóides, a dosagem ótima de coagulante pode não corresponder à concentração de colóides a ser removida (ODEGAARD, 1979). Adsorção e Formação de Pontes. Há uma grande variedade de compostos orgânicos sintéticos e naturais caracterizados por grandes cadeias moleculares, que possuem propriedade de apresentar sítios ionizáveis ao longo da cadeia e de atuar como coagulantes. Os polímeros podem ser: (i) catiônicos, possuem sítios ionizáveis positivos, (ii) aniônicos, possuem sítios ionizáveis negativos, (iii) não iônicos, não possuem sítios ionizáveis e (iv) anfolíticos, possuem sítios ionizáveis positivos e negativos. Os polímeros catiônicos tendem a atuar na neutralização das cargas negativas dos colóides das águas residuárias e geralmente têm peso molecular da ordem de 105. Os polímeros não iônicos e aniônicos atuam na formação de pontes partícula-polímeropartícula e requerem peso molecular maior que 106 para serem efetivos (ODEGAARD, 1979). Produtos Químicos Empregados O grau de clarificação do efluente final depende da quantidade utilizada de coagulante e o cuidado com que o processo é operado. É possível obter efluentes bastante clarificados, livres da matéria orgânica em suspensão ou em estado coloidal. Remoções de 80 a 90% de sólidos suspensos totais, de 40 a 70% de DBO5, de 30 a 60% de DQO e de 80 a 90% das bactérias podem ser alcançadas através da precipitação química seguida de remoção dos flocos. Os produtos químicos adicionados às águas residuárias interagem com as substâncias que estão normalmente presentes no meio através das reações abaixo (METCALF; EDDY, 1991): Sulfato de alumínio. Quando adicionado à água residuária contendo alcalinidade a bicarbonato de cálcio, a reação resultante pode ser assim descrita: Caso a alcalinidade disponível seja insuficiente, deve ser adicionada. A cal é comumente utilizada para este fim, mas raramente essa medida é necessária no tratamento de esgotos sanitários. O conhecimento da solubilidade das diversas espécies hidrolisadas de alumínio presentes em diferentes valores de pH é de grande importância pois os mecanismos da coagulação dependem da concentração de cada espécie na solução. Cal. Quando a cal é adicionada ao efluente, ocorrem as seguintes reações: Cloreto férrico. As reações para o cloreto férrico no tratamento de águas residuárias são: Página 22 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP O conhecimento da solubilidade das diversas espécies hidrolisadas de ferro presentes em diferentes valores de pH é de grande importância pois os mecanismos da coagulação dependem da concentração de cada espécie na solução. Cloreto férrico e cal. Quando o cloreto férrico e a cal são utilizados simultaneamente, a reação básica resultante é: No tratamento de água em geral, o pH de coagulação deve ser otimizado para que se obtenha eficiente clarificação do efluente, o que pode ser feito através de adição de um ácido ou de uma base. A recomendação também é válida para os sistemas de flotação por ar dissolvido (FAD). As condições de dosagem ótima de coagulante podem ser determinadas em equipamentos de flotação em escala de laboratório e verificados em escala real, uma vez que o tempo de detenção hidráulica (θh) nos sistemas de FAD são relativamente curtos (menores que uma hora). Ainda mais importante do que a dosagem de coagulante são as condições de agitação e a manutenção do valor de pH de coagulação adequado nas unidades de mistura rápida do coagulante. Essas unidades devem ser projetadas de forma a permitirem a dispersão rápida e o mais uniforme possível do coagulante na água. Existem diversos tipos de unidades de mistura rápida, sendo as mais comuns aquelas constituídas de tanque com agitador rápido tipo turbina (ver Figura 3) e os misturadores hidráulicos (sem unidades mecânicas). Estes últimos, desde que bem projetados, apresentam desempenho muito bom, com a vantagem de não apresentarem problemas de manutenção: Dentre os misturadores hidráulicos, um dos tipos mais empregados é a "Calha Parshall". Essa unidade, além de promover a mistura rápida, atua também como medidor da vazão de esgoto (ver figura 4). Em sistemas de grandes proporções, para garantia de coagulação eficiente, a mistura pode ser realizada ao longo da tubulação afluente com aplicação do coagulante in-line, através de dispositivos adequados. O projeto de unidade de mistura rápida é pautado basicamente em dois parâmetros: i) gradiente, médio de velocidade, que é relacionado diretamente à potência dissipada na água (mecanicamente ou hidraulicamente) e; ii.) tempo de mistura rápida, de poucos segundos nas unidades hidráulicas e usualmente de 0,5 a 3 min em unidades mecanizadas. Após a mistura com o coagulante, o esgoto é encaminhado às unidades floculação, onde ocorre a formação de agregados maiores (flocos) promovidos pelas colisões entre as partículas menores formadas na unidade anterior. Para promover a colisão entre as partículas em suspensão, pode-se tomar partido de agitadores mecânicos (tipo turbina ou com paletas) ou agitação hidráulica. Entretanto, o grau de agitação requerido para a floculação é bem menor que aquele da mistura rápida, pois nessa etapa, à medida Página 23 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP que os flocos crescem de tamanho, tornam-se mais susceptíveis de serem "quebrados” caso se tenha agitação mais intensa. Assim, nessa fase do tratamento, deve-se promover "agitação lenta” da massa líquida. As condições mais adequadas para a floculação de um determinado tipo de água ou de esgoto podem ser obtidas com o emprego do equipamento de Flotateste (para ensaios de coagulação visando a flotação). Existem vários tipos de floculadores mecanizados, podendo-se citar: floculadores com agitador tipo turbina, com agitador de eixo vertical, de eixo horizontal, alternativos, entre outros. Na Figura 6 é apresentado floculador mecanizado com eixo vertical e paletas paralelas ao eixo associado a uma unidade de flotação por ar dissolvido. Geralmente, com a finalidade de aumentar a eficiência da floculação, são projetadas unidades com 2 ou 3 compartimentos dispostos em série. Em estações de menor porte podem ser adotados floculadores hidráulicos. Nesse tipo de unidade, geralmente, a agitação lenta é obtida através da passagem da água em "canais" que mudam de direção constantemente. Existem várias modalidades de floculadores hidráulicos, sendo as mais comuns os floculadores com chicanas e escoamento horizontal e floculadores com chicanas e escoamento vertical. Este último encontra-se representado esquematicamente na Figura 5. Da mesma forma que as unidades de mistura rápida, os floculadores são projetados levando-se em conta principalmente (existem outros fatores) o gradiente médio de velocidade (Gf) no interior da unidade e o tempo de floculação. No que se à floculação de água bruta antecedendo a flotação, ZABEL (1984) comenta que a agitação fornecida deve ser suficiente para promover a colisão das partículas primárias visando o crescimento do floco. As unidades de floculação são constituídas, geralmente, por dois ou mais tanques de volumes iguais associados a equipamentos de agitação lenta. O tempo de floculação depende das características da água bruta, mas, em geral, assume valores entre 12 a 20 min. Além disso, o grau de agitação também é muito importante e é denominado gradiente médio de velocidade de floculação. O referido autor comenta que, em estudo realizado, o valor otimizado de gradiente médio de velocidade de floculação foi de 70 s-1. Uma alternativa para a agitação mecânica é a agitação hidráulica, realizada na tubulação afluente ao sistema. Com isso, o tempo de floculação poderia ser reduzido para cinco minutos, mas o gradiente médio de velocidade deveria ser elevado para 150s-1. Página 24 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Página 25 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP AMIRTHARAJAH (1989), ao estudar a influência dos valores de gradiente de velocidade para a mistura rápida (Gm), relata que os melhores resultados no tratamento com cloreto férrico de partículas com tamanho médio de 3 µm foram conseguidos com Gm entre 700 e 1000 s-1 ou acima de 3500 s-1. Quando o tamanho médio das partículas foi aumentado para 6 µm, os valores ótimos de Gm variaram entre 800 e 1000 s-1 e acima de 3000 s-1. Quanto ao uso de polímeros orgânicos, o referido autor explica que os mecanismos de coagulação resultantes da adição desses polímeros são a neutralização de cargas e a formação de pontes entre partículas (ver Figura 7). Os valores elevados de gradiente de mistura rápida não são essenciais para uma coagulação eficiente quando os polímeros são utilizados pois, diferentemente dos coagulantes inorgânicos (sais de ferro ou de alumínio, por exemplo), não ocorrem reações de adsorção dos colóides e de precipitação dos hidróxidos, reações competitivas entre si. Além disso, valores elevados de gradiente de velocidade podem provocar quebra dos flocos, diminuindo a eficiência da coagulação/floculação. Desta forma, o autor indica valores de gradiente de mistura rápida entre 400 a 650 s-1 e tempo de mistura rápida entre 30 e 60 s. BRATBY (1982) investigou a eficiência da flotação por ar dissolvido aplicada no tratamento de esgotos sanitários quimicamente precipitados, na Estação de Tratamento de Esgotos de Brasília – Sul (ETEB-Sul). O sistema de tratamento existente na ETEB-Sul baseava-se no processo de lodos ativados e o efluente final era encaminhado diretamente ao Lago Paranoá, bastante eutrofizado naquele momento. O sistema não era capaz de tratar toda a vazão afluente (0,90 m3/s) e, desta forma, a vazão excedente (0,45 m3/s), após sedimentação primária, era desviada do sistema de lodos ativados e encaminhada diretamente ao Lago Paranoá. Essa operação (“bypass”) era realizada durante todo o ano e estava prevista ampliação futura desse sistema, de modo a tratar a vazão total afluente. Os experimentos realizados pelo autor visavam testar a possibilidade de instalação de um sistema de flotação por ar dissolvido para tratamento da vazão excedente, enquanto o sistema existente não fosse ampliado. Após a ampliação, o sistema de FAD poderia ser utilizado no tratamento físico-químico terciário, como polimento final. Além disso, o sistema de FAD Página 26 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP poderia atuar como tratamento convencional em caso de vazão afluente extremamente elevada e não suportada pela ETEB-Sul. As características do esgoto, após sedimentação primária, mantiveram-se praticamente constantes ao longo dos ensaios: DQO de 300 mg/L, sólidos suspensos totais de 150 mg/L, fosfato total igual a 3,0 mg/L e pH ao redor de 6,5. Os experimentos foram realizados em unidade piloto de flotação com seção circular. A introdução do coagulante e sua mistura com o esgoto (coagulação) e a floculação eram realizadas “in-line”, na tubulação de acesso à câmara de flotação. O autor testou três produtos químicos diferentes para o tratamento químico: cloreto férrico, sulfato de alumínio e cal hidratada. O sulfato de alumínio foi escolhido após análise do custo do produto químico e da qualidade do lodo gerado. Durante os ensaios, com o efluente do decantador primário e após adição de 80 mg/L de sulfato de alumínio, o sistema de FAD removeu 97% de sólidos suspensos totais, 84% de DQO e 92% de fosfato total. Verificou-se, também, que o tempo de detenção de 30 s no interior da tubulação durante a mistura rápida proporcionou floculação suficiente para garantir a eficiência da flotação. Nenhuma alteração na eficiência da flotação foi observada com a variação da pressão no interior da câmara de saturação (entre 345 e 896 kPa), desde que a fração de recirculação fosse devidamente alterada, de forma a manter a relação ar/sólidos ao redor de 0,12 na câmara de flotação. O teor de sólidos do lodo flotado obtido nos ensaios chegou a 8,3%. O espessamento do lodo flotado foi realizado em filtro-prensa em escala piloto, com três diferentes formas de condicionamento: (i) com cal, (ii) com polímero aniônico e (iii) sem condicionamento algum. Após condicionamento com cal, o teor de sólidos do lodo espessado atingiu 40%. Com polímero aniônico, o teor de sólidos alcançou 22%, enquanto, sem condicionamento algum, o teor de sólidos obtido foi igual a 17%. Fósforo no Esgoto Sanitário ESTEVES apud PENETRA (1998) comenta que a importância do fósforo nos sistemas biológicos deve-se a sua participação em processos fundamentais do metabolismo dos seres vivos, tais como: armazenamento de energia (forma uma fração essencial da molécula de ATP) e estruturação da membrana celular (através de fosfolipídeos). O fósforo é o principal fator limitante da produtividade da maioria das águas continentais e tem sido apontado como o principal responsável pela eutrofização artificial destes ecossistemas. Toda forma de fósforo presente em águas naturais, seja na forma iônica, seja na forma complexada, encontra-se sob a forma de fosfato. Atualmente, a maioria dos pesquisadores tem empregado uma classificação sumária, que agrega as várias formas em apenas cinco: fosfato particulado (Pparticulado), fosfato orgânico dissolvido (P-orgânico dissolvido), fosfato inorgânico dissolvido ou ortofosfato ou fosfato reativo (P-orto), fosfato total dissolvido (P-total dissolvido) e fosfato total (P-total). Dentre as formas de fosfato, o P-orto assume maior relevância por ser a principal forma assimilada pelos vegetais aquáticos e pode ser encontrado sob diferentes espécies iônicas em função do pH do meio. Ainda segundo o autor, o fosfato presente em ecossistemas aquáticos continentais tem origem em fontes naturais (rochas de bacias de drenagem, material particulado presente na atmosfera e Página 27 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP fosfato resultante da decomposição de organismos de origem alóctone) e artificiais (esgotos domésticos e industriais, fertilizantes agrícolas e materiais particulados de origem industrial presente na atmosfera). A disponibilidade de nitrogênio e fósforo nas águas superficiais tende a causar um crescimento excessivo da vida aquática, que utiliza esses elementos para sua síntese celular (notadamente os organismos autotróficos, como algas). Desta forma, pode ocorrer um desenvolvimento explosivo de biomassa (autotrófica) nas águas quando nitrogênio e fósforo estão disponíveis em abundância. Esta biomassa pode produzir oxigênio dissolvido (OD) durante o dia pela fotossíntese, mas à noite haverá consumo de oxigênio e a concentração de OD pode atingir níveis baixos demais para sustentar a vida de outros (macro)organismos. Essa deterioração da qualidade da água é denominada eutrofização (VAN HAANDEL; LETTINGA, 1994). NESBITT (1969) faz o seguinte comentário: “O carbono, o nitrogênio e o fósforo são elementosnutricionais necessários para a produção de algas e plantas verdes. Já que o carbono está prontamente disponível na maioria das águas como bicarbonato e o nitrogênio pode ser assimilado da atmosfera por algumas plantas aquáticas (além de ser de difícil remoção das águas residuárias), o fósforo tem sido escolhido por muitos pesquisadores como um nutriente a ser controlado. Recentemente, entretanto, alguma atenção está sendo dada ao controle de nitrogênio”. O autor ressalta que, em 1967, 85% do fósforo afluente ao Lago Erie era proveniente de águas residuárias municipais. O “bloom” de algas decorrente do processo de eutrofização tende a ocorrer quando a concentração de nitrogênio e fósforo inorgânicos excede, respectivamente, 0,3 mg/L e 0,01 mg/L (SAWYER apud METCALF; EDDY, 1991). O fósforo presente nos esgotos sanitários é oriundo das seguintes fontes: (i) de águas pluviais carreadoras de resíduos urbanos, (ii) de resíduos humanos, (iii) de usos comerciais e industriais e (iv) de detergentes sintéticos e produtos de limpeza doméstica (JENKINS; HERMANOWICZ, 1991). Os esgotos sanitários geralmente apresentam entre 4 e 15 mg/L de fósforo (METCALF; EDDY, 1991). YEOMAN et al. (1993) relatam que o interesse pelo fósforo tem aumentado nos últimos anos devido ao aumento da eutrofização das águas. Uma das soluções é o tratamento químico visando especificamente a remoção de fósforo nos pontos de origem, reduzindo sua carga de lançamento nos corpos d’água. Excelentes remoções de fósforo podem ser conseguidas utilizando coagulantes comuns, tais como o sulfato de alumínio e o cloreto férrico, apesar das alterações na qualidade e na quantidade do lodo produzido. a) A química da remoção de fósforo. A remoção do fosfato das águas residuárias envolve a incorporação do fosfato em uma forma particulada (sólidos suspensos) e, na seqüência, a remoção dos sólidos suspensos. Os tipos de sólidos suspensos nos quais os fosfatos podem ser incorporados são biológicos (microrganismos) ou químicos (fosfatos de metal precipitados pouco solúveis). A precipitação química do fosfato é necessária quando os limites de emissão de fósforo são menores do que aqueles alcançados pelo tratamento biológico. A precipitação do fosfato é conseguida pela adição de um metal, o que acarreta a formação dos fosfatos precipitados pouco solúveis. Este metal Página 28 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP pode ser o cálcio (Ca2+), o ferro (Fe2+ ou Fe3+) ou o alumínio (Al3+). Os sais normalmente empregados são a cal (Ca(OH)2), o sulfato de alumínio (Al2(SO4)3.18H2O), o aluminato de sódio (NaAlO2), o cloreto férrico (FeCl3), o sulfato férrico (Fe2(SO4)3), o sulfato ferroso (FeSO4) e o cloreto ferroso (FeCl2). O conhecimento da natureza dos fosfatos formados pela adição destes precipitantes às águas residuárias, de sua solubilidade e de suas variações de solubilidade de acordo com as condições da solução é essencial para a previsão e o controle dos resultados da remoção química de fosfato. Uma lista de alguns sólidos que podem ser formados é apresentada na Tabela 2. É importante ressaltar que outros sólidos que não contenham fosfato também podem ser formados. Durante sua formação, estes sólidos consomem uma parcela dos precipitantes e há produção adicional de lodo. (JENKINS; HERMANOWICZ, 1991). Os fatores que afetam a escolha de determinado produto químico visando remoção de fósforo são: (i) concentração de fósforo afluente, (ii) concentração de sólidos suspensos na água residuária, (iii) alcalinidade, (iv) custos do produto químico (incluso o transporte), (v) fornecimento garantido do produto, (vi) unidades para manipulação do lodo, (vii) meios adequados para disposição final e (viii) compatibilidade com outros processos (METCALF; EDDY, 1991). Página 29 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP b) Produtos químicos empregados. Cálcio. A cal (Ca(OH)2), quando adicionada à solução, reagirá com a alcalinidade natural do esgoto e precipitará CaCO3, conforme a seguir. Caso o valor de pH do esgoto aumente além de 10, o excesso de íons de cálcio reagirão com o fosfato, conforme a seguir, para precipitar a hidroxilapatita Ca10(PO4)6(OH)2. Por causa da reação da cal com a alcalinidade do esgoto, a quantidade de cal necessária, em geral, será independente da quantidade de fósforo presente e dependerá basicamente da alcalinidade do esgoto. A quantidade de cal necessária para precipitar o fósforo no esgoto é tipicamente de 1,4 a 1,5 vezes a alcalinidade total expressa em mg CaCO3/L (METCALF; EDDY, 1991). A curva de solubilidade para o “fosfato de cálcio”, mostrada na Figura 8, é uma das muitas que poderiam ter sido construída tendo em vista a ampla variedade possível de formação de fosfatos de cálcio. Entretanto, a curva apresentada refere-se somente a CaCO3 (s) (calcita) e a Ca5(OH)(PO4)3 (s) (hidroxiapatita). A curva indica que, para alcançar baixa concentração residual de ortofosfato solúvel, o pH deve ser elevado a valores maiores que 10 (JENKINS; HERMANOWICZ, 1991). A cal é menos utilizada no tratamento de águas residuárias por causa do aumento substancial na massa de lodo quando comparado aos sais de metal e devido a problemas de operação e manutenção associados à manipulação, estocagem e dosagem da cal (METCALF; EDDY, 1991). Sais de alumínio e de ferro. Quando sais de ferro ou de alumínio são adicionados às águas residuárias brutas, eles reagem com o ortofosfato solúvel e produzem um precipitado, segundo as reações: Página 30 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Alumínio. Ferro. Em águas com baixa alcalinidade, devido ao consumo de OH-, a adição de uma base ocasionalmente pode ser necessária para manter o pH entre 5 e 7. Os sais de alumínio e de ferro são geralmente utilizados em uma razão molar na faixa entre 1 a 3 íons de metal para 1 íon de fósforo. A razão molar exata de aplicação é determinada através de ensaios e depende das características da água residuária e da remoção desejada de fósforo (METCALF; EDDY, 1991). As curvas de solubilidade de FePO4(s) e de AlPO4(s) têm formas similares, conforme Figura 6.5. A solubilidade mínima do FePO4(s) está ao redor de pH 5,3 enquanto a do AlPO4(s) está por volta de pH 6,3. A solubilidade mínima do AlPO4(s) aparenta ser menor do que a do FePO4(s). Essas duas curvas foram desenvolvidas a partir do precipitado formado pela adição gradual do reagente químico (FePO4(s) ou AlPO4(s) à água destilada, em laboratório. Com relação à dosagem de ferro necessária para precipitação de fosfato, duas regiões predominantes podem ser identificadas na curva da Figura 9. Uma região “estequiométrica”, com altas concentrações efluentes de fósforo, e uma região de “equilíbrio”, com baixas concentrações efluentes de fósforo. Na região estequiométrica, a remoção de ortofosfato solúvel é estequiometricamente proporcional à adição de sal de metal, enquanto na região de equilíbrio são necessários incrementos cada vez maiores na dosagem química para remoções cada vez menores de ortofosfato solúvel. Página 31 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Na Escola de Engenharia de São Carlos – EESC/USP, foram desenvolvidos desde a década de 90 vários estudos referentes a flotação de efluentes anaeróbios, em escala de laboratório e em escala piloto (de grande porte). CAMPOS et al. (1996) realizaram estudos preliminares em escala de laboratório com vistas à avaliação da potencialidade do emprego de pós-tratamento por coagulação/ floculação/flotação de efluente de reator anaeróbio tratando esgotos sanitários, visando remoção adicional de DQO, DBO, fósforo, nitrogênio, sólidos suspensos e coliformes. O efluente anaeróbio era proveniente de um reator anaeróbio compartimentado, de volume igual a 11 m3 e 12 h de tempo de detenção hidráulico, construído na Escola de Engenharia de São Carlos-USP. Os produtos químicos empregados para a coagulação foram o cloreto férrico, o sulfato de alumínio e a cal hidratada. Durante todos os ensaios, foram mantidos fixos os seguintes parâmetros: (i) mistura rápida: 30 s e gradiente médio de velocidade em torno de 600 s-1, (ii) floculação: 20 min e gradiente médio de velocidade em torno de 40s-1, (iii) flotação: amostras coletadas com taxa de escoamento superficial (qA) equivalente a 70 m3/m2/dia, fração de recirculação de 20% (em volume) e pressão de saturação de 450 kPa (22ºC). Os resultados obtidos por CAMPOS et al. (1996) a partir do sistema composto por reator anaeróbio de chicanas (11 m3), flotação por ar dissolvido (escala de laboratório) e desinfecção por radiação ultravioleta (escala piloto) indicaram potencialidade de remoção de DBO superior a 85% e de coliformes fecais superior a 99,999%. Os melhores resultados quanto à remoção de SSV, fósforo, DQO, DBO e turbidez foram obtidos com a aplicação de cal. Entretanto, o uso da cal resultou em dosagens elevadas e pH efluente ao redor de 9,3. Considerando as remoções obtidas e as dosagens empregadas, o melhor resultado foi obtido através da aplicação de 100 mg/L de cloreto férrico associada com 50 mg/L de cal. Neste caso, a remoção de DQO e de DBO foi idêntica e igual a 73%. A remoção de fósforo alcançou 84%, enquanto a de nitrogênio (NTK) chegou a 49%. Além de promover remoção significativa de DBO e de DQO, o uso de tratamento químico proporcionou valores de remoção de fósforo dificilmente atingidos por processos biológicos. Ainda segundo os autores, o uso de flotação por ar dissolvido, com a adição de cloreto férrico e cal, melhorou a remoção de patogênicos. O lodo flotado poderá receber a adição de cal (pH>12) para efetuar sua desinfecção, podendo ser reaproveitado na agricultura após um período de repouso. O uso de cloreto férrico em vez de sulfato de alumínio é justificado, pois a presença de ferro em lodos não redunda em aspectos negativos como aqueles decorrentes da presença de sulfato de alumínio, pois o alumínio é muito danoso ao solo e também pode provocar malefícios aos seres humanos, caso ocorra sua ingestão. PENETRA et al. (1998) citam os resultados e conclusões de investigação realizada visando estudar o efeito da dosagem de cloreto férrico e da variação de pH na eficiência de um equipamento de flotação, em escala de laboratório, alimentado com efluente de reator UASB (18 m3), tratando esgoto doméstico. O tempo de detenção hidráulica no reator UASB era de 8 horas. Os ensaios foram conduzidos com variação da dosagem do cloreto férrico de 30 a 110 mg/L, e da variação do pH de 5,1 a 7,6 com a aplicação de cal. O tempo de floculação (60 minutos), o Página 32 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP gradiente de velocidade (60s-1), a pressão de saturação (450 kPa) e a fração de recirculação (20%) foram mantidos constantes ao longo dos ensaios. A velocidade de flotação foi feita variar entre 5 25 cm/min. Os melhores resultados na remoção da DQO (91%) foram obtidos com dosagem de 65 mg/L de cloreto férrico e pH de 5,3. Nesta dosagem a remoção de fosfato total, SST, turbidez e cor foram de 95%, 95%, 97% e 92% respectivamente. A dosagem citada foi também a menor que permitiu uma aparente estabilidade do sistema de flotação para diferentes velocidades de flotação. Maiores dosagens podem aparentemente não significar aumento na remoção da turbidez a ponto de justificar custos adicionais associados a aquisição de produtos químicos e a disposição do excesso de lodo. PENETRA (1998), ao estudar a remoção de fosfato de efluentes de reatores anaeróbios através da coagulação química com cloreto férrico e posterior separação dos flocos pelo uso da flotação por ar dissolvido, observou comportamento da remoção de fosfato bastante semelhante àquele divulgado por JENKINS; HERMANOWICZ (1991), conforme observado na Figura 10. O autor também constatou que dosagens acima de 65 mg/L de cloreto férrico (22,4 mg Fe/L) resultaram em remoção de pequenas frações adicionais de fosfato total (Figura 10). REALI et al. (1998) apresentaram o resultado de investigação realizada com vistas a avaliação do gradiente médio de velocidade (Gf) e do tempo de floculação (θhf) na eficiência de um equipamento de flotação, em escala de laboratório, alimentado com efluente de reator UASB (18m3), tratando esgoto doméstico. O tempo de detenção hidráulica no reator UASB era de 8 horas. Após a realização de ensaios preliminares, foram mantidos constantes a dosagem de cloreto férrico (65 mg/L), as condições de mistura rápida (30s e Gm de 1100s-1), fração de recirculação de 20% na etapa de flotação e pressão de saturação de 450 kPa. O tempo de floculação de 15 min, associado a calores de Gf entre 50 e 80s-1, e o tempo floculação de 25 min, associado a valores de Gf em torno de 50s-1, forneceram valores bastante Página 33 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP satisfatórios e próximos entre si na remoção de turbidez (entre 97 e 98%, para velocidade de flotação entre 5 e 15cm/min). A DQO foi positivamente influenciada pelo aumento do tempo de floculação de 15 para 25 minutos, mas foi reduzida a influência dos diferentes valores de Gf estudados (entre 30 e 100s-1) na remoção de DQO. Assim obteve-se eficiências entre 89,1% e 91,5%, com residuais entre 28 e 22mg/L, para θhf de 25min e Vf de 10cm/min. Para θhf de 15 min, associado a Gf de 80s-1, e para θhf de 25min, associado a Gf de 50s-1, não foi detectada a presença de sulfetos no efluente final. Para essas mesmas condições, verificou-se remoção marginal de NTK, ao redor de 31%. As maiores remoções de fosfato total (em torno de 96%) foram observadas nos ensaios com Gf entre 80 e 100s-1, em ambos os tempos de floculação testados. Aparentemente, esses valores de Gf influenciam positivamente a cinética da remoção de fosfato. PENETRA et al. (1999), apresentaram o resultado de investigação realizada mediante variação da fração de recirculação do efluente pressurizado a 450 k Pa, com empregado de equipamento de flotação em escala de laboratório, alimentado com o efluente de reator tipo UASB (18m3), tratando esgoto doméstico. O tempo de detenção hidráulico no reator UASB era de 8 horas. Durante os ensaios de floculação/flotação foram mantidas fixas a dosagem de cloreto férrico (65mg/L), mistura rápida com tempo de 30s e G de 1100s-1 e floculação com tempo de 15 min e G de 80s-1. A fração de recirculação foi variada de 5 a 30%, em volume, e a velocidade de flotação entre 5 e 25cm/min. Como conclusão a fração de recirculação de 20% (16 a 19 g ar/m3), proporcionou grande estabilidade ao processo e forneceu excelentes resultados quanto a remoção de DQO (85%), de fosfato total (95,4%) e de SST (95,1%). Considerando-se a eficiência global do sistema UASB e flotação, obteve-se até 97% de remoção de DQO (concentração do efluente na faixa de 20 a 30mg/L), até 98% de fosfato total (concentração na faixa de 0,5 a 0,6 mg/L) e até 99% de SST (concentração em torno de 2 mg/L). Quanto aos parâmetros NTK e sulfetos, foram determinados apenas para a amostrar obtida no ensaio que forneceu a maior remoção de DQO (recirculação de 20%), sendo observados eficiências de 24,3% (residual de 25,8 mg/L) e 51,9% (residual de 0,52 mg/L) respectivamente. REALI et al. (2000) estudaram o uso de polímero e cloreto férrico na coagulação e flotação de efluente anaeróbio, proveniente de reator de leito expandido, com 14,9 m de altura útil, volume de 32 m³, tratando esgoto da cidade de São Carlos - SP. O reator anaeróbio possuía 6 m³ de carvão ativado, para permitir o desenvolvimento da biomassa, e o equipamento de flotação utilizado era em escala de laboratório. A grande aglomeração de microbolhas (50 µm de diâmetro), na zona de reação cria condições satisfatórias para a colisão e fixação destas na superfície dos flocos formados durante a coagulação prévia. Mesmo sem a adição de coagulantes, com velocidade de flotação de 10 cm/min., considerável remoção de pequenos flocos biológicos foi observada, 60% de DQO (residual de 94,5 mg/L), 50% de fosfato e turbidez residual de 20 UNT. As condições de floculação foram mantidas Página 34 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP constantes em 20 min, e Gf de 80 s-1, 19 g ar/m³esg., fração de recirculação de 20% e pressão de saturação de 450 kPa na etapa de flotação. Para investigar a combinação de cloreto férrico (dosagem de 15 a 65 mg/L) e polímeros (0,25 a 7mg/L), 26 tipos de polímeros com diferentes características de carga (catiônico, aniônico e nãoiônico), densidade de carga (alta, média e baixa) e massa molecular foram observadas. Os resultados indicaram que, independentemente da categoria, os polímeros com alta massa molecular e densidade de carga produziram melhores resultados. Geralmente o polímero catiônico e o aniônico, com as características anteriormente citadas, apresentaram os melhores resultados. Segundo os autores, os polímeros foram investigados buscando as reduções do uso de coagulante e da produção de lodo. Quando o reator anaeróbio operou em condição de aparente regime, foi possível reduzir a dosagem de cloreto férrico de 65 a 30 mg/L, aplicando 0,4 mg/L de polímero não-iônico. As análises revelaram reduções de 79% para a DQO (residual 23 mg/L), 86% para o fosfato (residual 0,9 mg/L) e 98% de turbidez (residual de 2,6 UNT). Observaram também que os flocos tiveram taxas de ascensão significativamente maiores que as obtidas sem o uso dos polímeros, com velocidades de floculação ensaiadas entre 5 e 25 cm/min. Em etapa subsequente de desenvolvimento dessa mesma linha de pesquisa, REALI et al. (2001) investigaram uma unidade FAD em escala real (com capacidade de 10m3/h), aplicada no póstratamento do efluente do mesmo reator anaeróbio de leito expandido (tratando esgoto sanitário) descrito nos parágrafos anteriores. Foram obtidas as seguintes eficiências médias de remoção: 89% de DQO (residual de 68mg/L), 96% de sólidos suspensos (residual de 5mg/L) e 89% de remoção de fósforo (residual de 2mg/L). Durante os ensaios foi aplicada dosagem de 65 mg/L de cloreto férrico. As fotografias da Figura 11 mostram as vistas lateral e frontal da unidade de flotação por ar dissolvido utilizada na pesquisa. Aplicações da Tecnologia em Estações de Tratamento de Esgoto em Escala Real Com base nos estudos desenvolvidos no Departamento de Hidráulica e Saneamento da EESCUSP, envolvendo pós-tratamento físico-químico por flotação do efluente de reatores anaeróbios, foram projetadas recentemente (algumas já construídas) as seguintes ETEs: Página 35 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP -ETE TAVARES BASTOS, EM BELÉM-PA (em construção) -ETE CAPUAVA, EM VALINHOS-SP (construída) -ETE DA CIDADE DE BARRA BONITA –SP (projetada) -ETE DA CIDADE DE IGARAÇU –SP (projetada) -ETE ANHUMAS EM CAMPINAS-SP (projetada) -ETE MONJOLINHO EM SÃO CARLOS – SP (projetada) BIBLIOGRAFIA AMIRTHARAJAH, A. Velocity gradients in rapid mix units. Seminário Nacional sobre Coagulação e Filtração Direta. Anais.São Carlos, Brasil, 1989. BRATBY, J.R. Treatment of Raw Wastewater Overflows by Dissolved Air Flotation. Journal WPCF, 54(12):1558-65, 1982. CAMPOS, J. 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Página 37 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Resumo dos Trabalhos Segue abaixo o resumo dos trabalhos que foram expostos na forma de cartazes durante a realização do I Simpósio da Engenharia Ambiental - EESC/USP. Utilização de Filmes Automontados de Quitosana para Verificação de Contaminantes em Água B.A. Stracçalano, D.S. dos Santos Jr2, O.N. Oliveira Jr2, A. Riul Jr1 1 Depto de Física, Química e Biologia, FCT/UNESP, 19060-900, Presidente Prudente, SP. 2 Instituto de Física de São Carlos, USP, CP 369, 13560-970, São Carlos, SP. Resumo Neste trabalho serão apresentados resultados da interação em nível molecular entre filmes automontados de quitosana com ácido poliestireno sulfônico (PSS) e íons metálicos dispersos em meio aquoso. O interesse em quitosanas provém do baixo custo e abundância na natureza, além de possuírem uma capacidade relativamente alta na absorção de metais pesados, mesmo em baixas concentrações molares. Várias arquiteturas moleculares foram analisadas, visando a posterior utilização dos filmes como unidades sensoriais em uma língua eletrônica para verificar a presença de contaminantes em sistemas líquidos. Apesar do elevado crescimento nessa linha de investigação científica nos últimos anos, a compreensão do processo de detecção de metais pesados com filmes ultrafinos de quitosanas torna-se indispensável para o avanço nesse tipo de sensoriamento. Esperamos que os resultados obtidos possam contribuir futuramente para um maior controle de qualidade da água, vital para a saúde do planeta. Introdução A detecção de metais pesados em águas poluídas é importante para o controle do meioambiente, especialmente porque esses metais não podem ser sintetizados nem destruídos, e em concentrações elevadas causam sérios danos à saúde humana. Uma alternativa para detectar tais metais pesados é a utilização de arranjos de sensores, como a “língua eletrônica”, à base de filmes ultrafinos de diferentes materiais [1,2]. Estes dispositivos são formados com a deposição de filmes nanoestruturados sobre eletrodos interdigitados de ouro. Algumas vantagens são a percepção de paladar em concentrações abaixo do limite de percepção biológico e a capacidade de diferenciar sistemas líquidos complexos de maneira simples e rápida, sem a necessidade de uma análise laboratorial [2]. Os filmes que constituem as unidades sensoriais da “língua eletrônica” são obtidos com as técnicas de Langmuir–Blodgett [3] e automontagem [4], tendo espessura da ordem de nanômetros. Sabe-se que a sensibilidade desses sensores diminui com o aumento da espessura dos filmes [1]. Página 38 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP A técnica de automontagem surgiu na década de 1980 como um método alternativo à técnica Langmuir-Blodgett (LB) para a fabricação de filmes ultrafinos de materiais solúveis em água, quando Sagiv e colaboradores demonstraram a possibilidade de construir filmes compostos por monocamadas quimicamente adsorvidas entre si [5]. Os filmes fabricados exibem boa estabilidade térmica, molecular e mecânica, podendo ser preparados até centenas de camadas. Já nos anos 1990, Decher [6] introduziu o conceito de automontagem por adsorção física, em que as interações responsáveis pela adsorção são iônicas, entre camadas positiva e negativamente carregadas. As técnicas de automontagem permitem qualquer formato de substrato, podendo ser usada para a modificação da superfície de tecidos [7] e em biossensores [8]. Na escolha de materiais para a língua eletrônica, geralmente opta-se por substâncias com capacidade de interação com os analitos. Para metais pesados, por exemplo, uma candidata forte é a quitosana, polímero derivado da quitina e segundo polissacarídeo mais abundante na natureza. Suas fórmulas estruturais estão ilustradas na Figura 1. Figura 1 - Representação esquemática da fórmula estrutural de quitina e quitosana Além de solúvel em água, a quitosana tem alto poder fungicida e bactericida. É empregada na produção de cosméticos e fármacos [9,10] e possui grande capacidade de se ligar a metais e outras substâncias, o que potencializa seu uso como sensor [9,10]. Há expectativas de que a quitosana seja economicamente mais viável para a remoção de metais pesados ou compostos inorgânicos na água do que o carbono ativado comercial, normalmente utilizado no tratamento de água [11]. O carbono ativado tem custo elevado e requer agentes complexos para melhorar seu desempenho na remoção de materiais inorgânicos [8]. Neste trabalho filmes automontados de quitosana serão investigados para futuras aplicações em sensores do tipo “língua eletrônica”. Experimental A quitosana foi extraída da casca de camarões segundo o procedimento da ref. [12]. 16 mg foram diluídos em soluções ácidas (pH=3), uma com ácido acético e outra com ácido clorídrico, sob agitação contínua durante 24 horas. O ácido poliestireno sulfonado (PSS) foi usado como solução aniônica para fabricação dos filmes automontados. 16mg de PSS foram diluídos em 10mL de água e agitou-se até completa dissolução. Em seguida ajustou-se o pH = 3 com uma solução de HCl 1M. 250mL de solução de HCl 1% (pH=3) foram utilizados como solução de lavagem durante a Página 39 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP fabricação dos filmes automontados. Soluções de 2,4 mg/L de PbCl2, CdCl2, CuCl2 foram preparadas para posterior imersão dos filmes automontados de quitosana. Todas as soluções foram preparadas com água ultrapura obtida de um sistema Milli-Q (Simplicity) da Milli-Pore. Para monitorar o crescimento dos filmes de quitosana medimos a absorção no espectro UV-VIS com um espectrofotômetro da Varian (Cary 50), em 230nm, pois é neste comprimento de onda que ocorre o pico de absorbância da quitosana. Como o vidro também absorve nessa região do espectro, utilizamos lâminas de quartzo para a deposição dos filmes nanoestruturados. Para eliminar contaminantes orgânicos e inorgânicos as lâminas foram previamente lavadas em solução contendo: 5 volumes de água destilada, 1 volume de peróxido de hidrogênio e 1 volume de hidróxido de amônia. Após a imersão das lâminas, o banho é aquecido a 80°C e deixado resfriar. Em seguida as lâminas recebem abundante lavagem com água destilada. Resultados e Discussão Os filmes foram fabricados em três arquiteturas moleculares: i) PSS/quitosana (filme iniciado com PSS, seguido da adsorção de quitosana), ii) quitosana/PSS (filme iniciado com quitosana, seguido da adsorção de PSS), e iii) quitosana/quitosana (adsorção seqüencial de várias camadas de quitosana). As curvas de cinética de crescimento indicam que a estrutura quitosana/quitosana apresenta fraca adsorção molecular quando comparada aos outros dois casos. Verificamos ainda como o tipo de ácido utilizado no processamento da quitosana influencia o crescimento nas outras arquiteturas moleculares, como ilustrado na Figura 2. O filme de quitosana processada com ácido acético possui valor de absorbância maior que o filme de quitosana processada com ácido clorídrico. Na Fig.2a observamos que entre a décima e a décima quinta camada ocorreu um salto no valor de absorbância. Isso porque as medidas foram interrompidas ao final de um dia e recomeçadas na manhã seguinte. Como o filme estava seco ocorre um aumento na adsorção de material. a-) b-) 1,4x10 -1 1,2x10 A B S 1,4x10 -1 -1 1,2x10 A B S 1,0x10 -1 8,0x10 -2 6,0x10 -2 -1 1,0x10 -1 8,0x10 -2 6,0x10 -2 4,0x10 -2 4,0x10 -2 2,0x10 -2 2,0x10 -2 0,0 0,0 0 5 10 15 0 20 5 10 15 20 Nº de camadas Nº de camadas Figura 2- Curvas de crescimento de filmes PSS/quitosana (absorbância em 230 nm): (a) quitosana processada com ácido acético; (b) quitosana processada com ácido clorídrico. Página 40 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Muitos resultados foram obtidos com soluções que haviam sido preparadas há mais de uma semana, o que pode ter afetado os resultados, devido à possível hidrólise da quitosana com o passar do tempo [13]. Para verificar esta hipótese, refizemos algumas medidas apenas com 3 bicamadas utilizando soluções frescas (imediatamente após o preparo). Os resultados são mostrados na Figura 3, e de fato nota-se que os filmes preparados com soluções frescas apresentam maior adsorção. 0,12 ABS (u.a.) 0,10 0,08 0,06 0,04 0,02 0,00 1 2 3 4 5 6 o N de camadas Figuras 3- Curvas de crescimento de filmes automontados PSS/quitosana (Absorbância em 230 nm): (z) solução com um dia de preparo; () solução com uma semana de preparo. Uma vez constatado o efeito da hidrólise, era importante descobrir se a lavagem dos filmes fabricados em água destilada remove material das lâminas. Filmes automontados com 3 bicamadas de PSS/quitosana foram colocados a 20-30 cm abaixo da torneira do reservatório de água destilada, deixando cair um litro de água em queda livre sobre sua superfície. Os resultados estão ilustrados na Figura 4, que indicam pouca remoção de material com a lavagem, apesar de as forças de interação que mantém a estrutura dos filmes serem fracas [9,10]. a-) b-) -1 1,0x10 -2 9,0x10 -2 8,0x10 -2 8,5x10 -2 ABS ABS 6,0x10 -2 4,0x10 -2 8,0x10 -2 7,5x10 -2 2,0x10 0,0 -2 1 2 3 4 5 7,0x10 6 Nº de camadas 0 1 2 3 4 5 o N de lavagens Figura 4 - Representação gráfica dos filmes nanoestruturados PSS/quitosana contendo três bicamadas (absorbância em 230 nm): (a) gráfico de crescimento e (b) lavagens sucessivas após o crescimento do filme. Após a escolha do ácido para processamento da quitosana e melhor arquitetura molecular para fabricação dos filmes automontados, mergulhamos filmes contendo três bicamadas de PSS/quitosana em 2,4 mg/L de CdCl2, Cu Cl2 e Pb Cl2 durante 24 horas. A Figura 5 ilustra o Página 41 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP comportamento obtido para um dos metais. O primeiro ponto na Fig. 5 representa o valor de absorbância (λ = 230 nm) da última camada de quitosana depositada em um filme contendo 3 bicamadas PSS/quitosana antes da imersão, durante 24 horas, em solução contendo íons Cu+2. O segundo ponto representa o valor de adsorção dos filmes após a imersão e os demais pontos são medidas correspondentes ao processo de lavagem citado acima. Após imersão no cobre houve um aumento da absorbância possivelmente devido à diferença de capacidade de complexação da quitosana com os íons metálicos em solução [14]. Com a lavagem extensiva em água destilada há uma diminuição no valor máximo de absorbância, possivelmente devido à remoção de metal na estrutura do filme. O mesmo aconteceu com os filmes automontados que foram imersos nas soluções contendo íons de chumbo e cádmio, pois a adsorção continuou maior mesmo após a ABS lavagem. 1,0x10 -1 9,0x10 -2 8,0x10 -2 7,0x10 -2 6,0x10 -2 0 1 2 3 4 Nº de Lavagens Figura 5 – Absorbância (λ = 230 nm) do filme PSS/quitosana processada com ácido acético mergulhado em solução 2,4 mg/L de CuCl2. Conclusões Neste trabalho a quitosana foi processada com dois tipos de ácido (clorídrico e acético) e os filmes automontados foram fabricados em diferentes arquiteturas moleculares. Com isso foi possível identificar uma configuração otimizada para o filme de quitosana para posterior aplicação em sensores. Foi observado o crescimento, o processo de lavagem e o comportamento dos filmes na presença de íons metálicos. Os filmes ultrafinos iniciados com PSS seguidos da adsorção de quitosana processada com ácido acético apresentaram um crescimento mais linear e um valor de absorbância maior do que as outras arquiteturas moleculares testadas (quitosana/PSS e quitosana/quitosana). Analisando o processo de lavagem verificamos que a remoção de material adsorvido é baixa, o que é importante para futura aplicação em sensores como a “língua eletrônica”. Isso chamou a atenção para o cuidado de lavar o filme fabricado antes de sua aplicação como unidade sensorial em uma língua eletrônica. Em presença de íons metálicos observamos aumento da absorbância, mesmo após a lavagem extensiva em água destilada. Página 42 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Agradecimentos À FAPESP, CNPq e IMMP pelo apoio financeiro recebido. Referências bibliográficas [1] M. Ferreira, A. Riul Jr, K. Wohnrath, F.J. Fonseca, O.N. Oliveira Jr., L.H.C. Mattoso, Analytical Chemistry 75, 953 (2003) [2] A.Riul Jr, Physicae 3, 39 (2002) [3] M.C. Petty, “Langmuir-Blodgett Films: An Introduction”, ed. Cambridge University Press, London (1996) [4] G.M. Whitesides, B. Grzybowsky, Science 295, 2418 (2002) [5] L.G.Paterno, L.H.C.Mattoso, O.N. Oliveira Jr, Química Nova 24, 228 (2001) [6] G.Decher, Science 277, 1232 (1997) [7] Y. Zhu, C. Gao, T. He, X. Liu, J. Shen, Biomacromolecules 4, 446 (2003) [8] C.A. Constantine, S.V. Mello, A. Dupont, X. Cao et al., J. Am. Chem. Soc 125, 1805 (2003) [9] M.N.V. Ravi Kumar, Reactive and Functional Polymers 46, 1 (2000) [10] M. Claesson, B.W. Ninham, Langmuir 8, 1406 (1992) [11] S. Babel, T.A. Kurniawan, J Hazard Mater 97, (1-3) 219 (2002) [12] D.S. dos Santos Jr, A. Riul Jr, R.R. Malmegrim, F. J. Fonseca, O.N. Oliveira Jr, L.H.C. Mattoso, Macromol. Biosc. 3, 591-595 (2003) [13] K.M. Vårum, M.H. Ottoy, O. Smidsnod, Carbohydrate Polymers 46, 89 (2001) [14] D. Knorr, Food Technology 114 (1991) Página 43 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Avaliação da Radiação Microondas Aliada ao Processo Foto-Fenton na Decomposição de Resíduos de Pesticidas Caio F. Grombonia,b, Marcos Y. Kamogawaa,b, Ana Rita A. Nogueirab*, Joaquim A. Nóbregaa Grupo de Análise Instrumental Aplicada – GAIA: a Departamento de Química, UFSCar, S. Carlos SP, Brazil b Embrapa Pecuária Sudeste, C.P. 339, 13560-970, S. Carlos SP, Brazil. E-mail: [email protected] A aplicação de produtos carrapaticidas na forma de banhos é comumente empregada para o controle dos carrapatos bovinos. Esses produtos podem ser aplicados por várias vias: carrapaticidas injetáveis, poor on, imersão e aspersão. Nesses últimos, gasta-se em média 4-5 litros de solução preparada com o principio ativo, para banhar cada bovino adulto. O descarte da solução remanescente é um grande problema ambiental. Tendo em vista esse problema, procedimentos fotooxidativos, empregando a reação de Fenton1 auxiliados pela radiação microondas e ultravioleta foram utilizados com sucesso na degradação do carrapaticida Supocade® (clorfenvinfos 13.8% e cipermitrina 2.6%), empregado no controle de carrapatos bovinos na Embrapa Pecuária Sudeste, na diluição 1:400 (v/v). A união do aquecimento microondas com a radiação ultravioleta possui grande potencial para a decomposição de compostos orgânicos solúveis. Esse acoplamento foi possível com a utilização de MWL2, lâmpadas de UV ativadas por radiação microondas. Nos frascos de amostra do forno de microondas com radiação focalizada (Star 6, CEM) foram adicionadas amostras de carrapaticida e as lâmpadas UV (MWL) e soluções de Fe2+ e H2O2, em diferentes concentrações. O programa de aquecimento do forno foi fixado em uma etapa de aquecimento de 6 min na temperatura máxima de 140°C. Após a finalização da digestão, 0,5 mL de HNO3 foi adicionado para ajustar a acidez do meio. Outra alternativa avaliada foi o emprego da reação Foto-Fenton sem a utilização de radiação microondas ou qualquer outro tipo de aquecimento. Nesse caso, as amostras foram irradiadas por 24 h com diferentes misturas oxidantes. A eficiência de decomposição do carrapaticida foi monitorada pelos teores de carbono residual da amostra, determinados por ICP-OES, conforme metodologia descrita por Gouveia3. Eficiência de decomposição superior a 90% foi obtida em ambos os procedimentos quando empregada a reação Foto-Fenton. O uso de aquecimento por radiação microondas proporcionou incremento na eficiência de decomposição, o que permitiu o uso de menores volumes de reagentes e redução no tempo necessário para a decomposição. O procedimento mostrou-se promissor para o desenvolvimento de um protótipo de decomposição direta no campo, com o tratamento do resíduo sem a necessidade de transporte para o laboratório. Testes complementares serão realizados para a caracterização dos compostos produzidos durante a decomposição. Os autores agradecem à FAPESP e ao CNPq pelo auxílio financeiro e bolsas concedidas. Página 44 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP 1 Fenton, H.J.H., J. Chem. Soc., 65, 899, 1894. 2 Florian, D., Knapp, G., Anal. Chem., 73, 1515, 2001. 3 Gouveia, S.T., Silva, F.V., Nóbrega, J.A., Nogueira, A.R.A., Anal. Chim. Acta, 445(2002)268. Página 45 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Utilização de Áreas Alagadas Construídas para Purificação de Águas Poluídas Cunha, C.A.G, PPG-SEA/EESC-USP, Salati, E, PPG-SEA/ EESC-USP. Email:[email protected] Introdução A água constitui um elemento fundamental para a manutenção da vida, no homem mais de 60% do seu peso é constituído de água e em certos animais aquáticos essa porcentagem chega a 98%. Além de ser o constituinte inorgânico mais abundante nos homens, ela também é de um modo geral, importante para o desenvolvimento de suas atividades. Neste caso, os principais usos da água são: a própria preservação da natureza, abastecimento doméstico e industrial, irrigação, aqüicultura, dessedentação de animais, recreação e lazer, geração de energia elétrica, navegação, limpeza urbana e diluição de despejos (VON SPERLING, 2003). Dos 1,36 x 1018 m3 de água disponível no planeta, 97% correspondem às águas salgadas e 3% às águas doces. No entanto, 2,2 % desta água se encontra na forma de geleiras e restando apenas 0,8% para ser utilizada mais facilmente para abastecimento público. Desta pequena fração somente 3% apresentam-se na forma superficial, portanto, pode-se perceber a grande importância de se preservar os recursos hídricos. A inter-relação entre o uso da água e a qualidade requerida para a mesma é direta. Pode-se considerar que o uso mais nobre da água seja representado pelo abastecimento de água doméstico, o qual requer a satisfação de diversos critérios de qualidade. De forma oposta, pode-se considerar que o uso menos nobre, seja a simples diluição de despejos, uma vez que a água não precisa satisfazer nenhum requisito especial em termos de qualidade para este tipo de finalidade. No entanto, Von Sperling (2003), lembra que os diversos corpos d’água possuem usos múltiplos previstos, decorrendo daí a necessidade da satisfação simultânea de diversos critérios de qualidade. Como por exemplo, um rio utilizado apenas para diluição de despejos industriais e domésticos por uma cidade, pode ser utilizado por outra para abastecimento público. A resolução CONAMA no. 20, de 18/06/86, dividiu as águas do território nacional em águas doces (salinidade < 0,05% ), salobras (salinidade entre 0,05% e 3%) e salinas (salinidade > 3%). Em função dos usos previstos para as mesmas, foram criadas nove classes, e a cada uma destas classes corresponde uma determinada qualidade que deve ser mantida. Além dos padrões de qualidade, encontram-se também os padrões para o lançamento de efluentes nos corpos de água. Ambos padrões estão relacionados e tem como objetivo a preservação da qualidade do corpo receptor. Logo o efluente além de satisfazer os padrões de lançamento, deve proporcionar condições de tal forma que a qualidade do mesmo se enquadre nos padrões dos corpos receptores. Não é permitida a mistura de efluentes com águas de melhor qualidade. Página 46 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Contudo, o grande crescimento populacional e o intenso desenvolvimento comercial, industrial e agrícola vêm resultando, no que se pode chamar, em poluição dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos por fertilizantes, percolados de aterro sanitário, efluentes industriais e domésticos, dentre outros. Diante disso, muitos estudos têm sido desenvolvidos na busca de tecnologias e alternativas capazes de minimizar a toxicidade dos efluentes industriais, domésticos e de líquidos percolados, e enquadrá-los nas resoluções para lançamentos em corpos receptores, além de métodos para o tratamento da água para o consumo humano. As áreas alagadas têm recebido descargas de águas poluídas em numerosos tipos de situações no passar dos anos, no entanto, somente recentemente têm sido reconhecidas como um sistema de tratamento potencialmente eficiente. Estudos realizados nos últimos anos têm mostrado que ambos os sistemas de áreas alagadas, naturais e construídas, podem fornecer um tratamento altamente qualificado e com um custo relativamente baixo. Este trabalho tem como objetivo fazer um estudo sobre as áreas alagadas construídas e a sua utilização para purificação de águas poluídas, além de apresentar o projeto-piloto proposto para tratamento do um efluente industrial da Burns Philp Brasil Indústria e Comércio de Alimentos – Unidade de Pederneiras/SP. Áreas Alagadas Construídas O termo wetlands (do inglês) ou áreas alagadas é utilizado para caracterizar vários ecossistemas naturais que ficam parcial ou totalmente inundados durante o ano. As wetlands naturais são facilmente reconhecidos como as várzeas dos rios, os igapós na Amazônia, os pântanos e os manguezais, dentre outros (SALATI, 2000). As wetlands construídas são ecossistemas artificiais que utilizam os princípios básicos de modificação da qualidade da água das wetlands naturais (SALATI, 2000). Do ponto de vista prático, estes sistemas podem ser projetados com um maior grau de controle: definição da composição do substrato, tipo de vegetação, seleção do local, controle hidráulico e tempo de retenção. Segundo Kadlec e Knight (1996), o primeiro de todos os objetivos do sistema de áreas alagadas construídas é a melhoria da qualidade da água, seguido por objetivos secundários, tais como a produção fotossintética, a produção de energia, e também podendo ser utilizadas recreacionalmente, comercialmente e para educação humana. O grande interesse por esse tipo de tecnologia também ocorre devido a uma maior confiança depositada, atualmente, nos sistemas que utilizam processos ecológicos de baixa demanda energética e menor uso de processos químicos intensivos (BASTIAN e HAMMER, 1993). Os processos metereológicos conduzem o balanço energético do sistema, o qual por sua vez determina a temperatura da água. Processos de microbiológicos são tipicamente dependentes da temperatura da água, criando assim, modelos sazonais de transformações (KADLEC, 1996). Página 47 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP A radiação solar e a temperatura conduzem a fotossíntese e, conseqüentemente, os processos vegetativos no ciclo anual. O ciclo biogeoquímico é responsável pela retirada dos poluentes da água (KADLEC, 1996). Conforme Brix (1993), os sistemas de wetlands construídos podem ser classificados como de acordo com o tipo de macrófita utilizada: a) sistemas que utilizam plantas aquáticas flutuantes b) sistemas que utilizam plantas aquáticas emergentes c) sistemas que utilizam plantas aquáticas submersas No entanto, um outro tipo de sistema foi projetado por Salati (1987). Esse sistema é denominado DHS (Despoluição Hídrica com Solos – Patente Pi 850.3030) e sofreu algumas variações para aumentar a sua eficiência e para ser utilizado em situações especiais de águas muito poluídas (SALATI FILHO, et al, 1996). No entanto, o que se tem utilizado muito são os sistemas de wetlands combinados. A utilização de um determinado tipo de wetland ou de uma combinação formando sistemas de áreas alagadas construídos depende do nível de tratamento a ser atingido, da qualidade dos recursos hídricos, da área disponível, do interesse da utilização da biomassa produzida e do interesse paisagístico (KOLTEC, 2004). Levantamentos realizados recentemente indicaram a existência de mais de 6000 wetlands construídas para o tratamento de resíduos domésticos na Europa, e de mais de 1000 para o tratamento de efluentes industriais (refinarias de petróleo, mineradoras, indústrias têxteis) e domésticos na América do Norte. No Brasil, na África, na Ásia e na Austrália têm aumentado o número de sistemas construídos deste tipo para o polimento de águas residuais (KNIGHT e KADLEC, 2000). Além disso também estão sendo utilizados para tratar líquidos percolados de aterro sanitário, deflúvio superficial agrícola, deflúvio superficial urbano, efluentes de casas de vegetação e de tanques de peixes. Wetlands Construídas no Brasil Apesar de trabalhos envolvendo sistemas de áreas alagadas construídas para purificação da água seja uma coisa usual nos últimos tempos e de já existirem leis e recomendações para tal, no Brasil, tal tratamento ainda pode ser considerada uma tecnologia recente. Apenas alguns pesquisadores têm despendido tempo para aprender e aperfeiçoar aspectos da engenharia do sistema e desta forma melhorar a eficiência dos sistemas utilizados para purificação de diversos efluentes. Segundo Elias (2003), a utilização de sistemas de tratamento de efluentes através de áreas alagadas artificiais é escassa no Brasil. O primeiro projeto de sistemas de wetlands realizado no Brasil foi feito por SALATI et al (1984) apud SALATI (2000) e baseou-se na construção de um lago artificial nas proximidades de um córrego poluído (Rio Piracicamirim) na ESALQ em Piracicaba, São Paulo. Os primeiros experimentos obtiveram resultados satisfatórios e o trabalho tem continuado Página 48 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP desde 1985 pelo Instituto de Ecologia Aplicadas (IEA), a onde novas tecnologias estão sendo desenvolvidas na tentativa de melhorar a eficiência do sistema e reduzir os custos. Outro estudo foi realizado por Manfrinato (1989), em um projeto para purificação das águas do Rio Piracicaba. A autora, utilizou um sistema composto de um canal de plantas aquáticas flutuantes seguido por solos filtrantes (Sistema DHS), conseguindo eficiências de 70% para DBO; 99% para coliformes totais e fecais, 70% para DQO; 90% para cor e 95% para turbidez. Segundo o Instituto de Ecologia Aplicada (1997), os projetos desenvolvidos no Brasil tem diferentes desenhos dependendo da sua finalidade. E de acordo com o efluente a ser tratado podem ser divididos em 4 tipos de sistemas: a) purificação de grandes volumes de água com a finalidade de recuperação dos recursos hídricos ou pré-tratamento para ETA; b) tratamento de esgoto urbano; c) tratamento de efluente industrial; d) abastecimento de água industrial e urbana. Nos últimos anos, os institutos responsáveis pelo tratamento de esgoto e de águas para abastecimento público têm se interessado por este tipo de tecnologia. Dentre eles pode-se citar: SABESP (SP) e SANEPAR (PR), que contrataram o IEA para a elaboração e aplicação de um projeto para “restaurar” os recursos hídricos através áreas alagadas construídas e/ou reabilitação dos sistemas de wetlands naturais. A CESP também utilizou-se destes sistemas para reabilitação de áreas alagadas naturais, incluindo o controle da Bacia Hidrográfica (SALATI FILHO, et al 1998). Para JUCÁ (2003), no Brasil, os wetlands vêm sendo estudados principalmente nas universidades do Sul e do Sudeste, também como alternativa de tratamento de efluentes, objetivando a redução de poluentes como DBO, amônia, nitrato, fósforo e metais pesados. Dentre alguns trabalhos realizados e aplicados pelo IEA pode-se citar: • tratamento de água para abastecimento público Prefeitura Municipal de Piracicaba e Analândia, Parque Ecológico do Tietê, SABESP Carapicuíba e Baixo Cotia, e SANEPAR possuem um sistema de solos filtrantes e canais de plantas aquáticas flutuantes para tratar a água. Em Piracicaba observa-se uma eficiência de remoção de 70% para DBO e DQO, 99% Coliformes fecais e totais, 90& da cor e 95% da turbidez da água. • Tratamento de esgoto A mineração Taboca de Vila Pitinga (AM); Cyanamid Química do Brasil, Iracemápolis (SP); ETE de Emaús, Ubatuba (SP); ETE do SEMAE – Engenho Central I e II, Piracicaba (SP) e SABESP Barueri e Porangaba (SP) possuem um tratamento primário que varia de tanque de decantação, anaeróbicos e biodigestores, e depois o efluente resultamte passa pelo sistema de solos filtrantes e canis de plantas aquáticas. A Estação de Tratamento de Esgoto de Emaús possui eficiência de remoção de 73% da cor; 96,3% da DBO; 94,1% da DQO e 95% da turbidez do efluente. • Tratamento de efluentes industriais Página 49 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP RIPASA S. A. – Celulose e Papel, Limeira (SP) e a Usina Costa Pinto S. A., Piracicaba (SP) possuem tratamento primário com tanque de estabilização e de fermentação, respectivamente. O efluente que sai deste tanque passa então pro um sistema de solos filtrantes e canais de plantas aquáticas. A RIPASA possui uma eficiência de remoção de 76% para DBO e 42% para DQO. Outros projetos estão sendo desenvolvidos por um grupo de pesquisadores, da Universidade Federal e Estadual do Rio de Janeiro, buscando o tratamento de líquidos percolados de aterra sanitário em áreas alagadas construídas e tipos de disposição final para as macrófitas (CAMPOS et al, 2002; FERREIRA et a, 2001). A utilização de wetlands construídas para tratamento de efluentes apresenta também como vantagens: - baixo custo de implantação e consumo de energia elétrica; - simplicidade de instalação e operação; - capacidade de tratar diferentes níveis de poluição através de suas várias formas operacionais (espécies de plantas aquáticas, tipos de substratos, direcionamento de fluxo, dimensão e número de etapas depurativas); - ausência de produção de lodo; - geração de uma biomassa que pode ser utilizada na produção de ração animal, energia e biofertilizantes (reciclagem de nutrientes) (SALATI, 2000), - fornece benefícios indiretos como um espaço verde, habitat para animais selvagens e áreas de recreação e educação No entanto, elas apresentam também algumas desvantagens: a necessidade de áreas grandes para a construção do sistema, possível problema com pestes (mosquitos), além da baixa eficiência do tratamento em baixas temperaturas. Para o Brasil, no entanto, estas desvantagens não justificam o baixo interesse por esse tipo de tratamento, uma vez que temos grandes áreas disponíveis, não temos tantos problemas com o inverno rigoroso (exceto o Sul do país) e de acordo com Salati (op.cit), os sistemas brasileiros construídos não apresentam nenhum problema com relação aos mosquitos. Considerações Finais As áreas alagadas construídas e naturais são eficientes para purificação de águas poluídas (com relação as variáveis de qualidade), no entanto, sabe-se que o despejo de cargas poluidoras em ecossistemas pode levar a modificações desastrosas, logo os wetlands naturais não devem ser utilizados deliberadamente como sistemas de tratamento sem maiores análises das possíveis conseqüências. Vários tipos de wetlands construídos podem ser projetados de acordo com a qualidade do efluente que se quer tratar e a eficiência final desejada na remoção de poluentes e contaminates (de acordo com os padrões da resolução CONAMA 20). Outro fato que deve ser analisado é o tamanho da área disponível para a construção. Página 50 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Como cada wetland tem maior eficiência para purificação de determinados parâmetros, justificase a utilização de sistemas de áreas alagadas combinadas para maximizar a eficiência do tratamento. Uma vez que estes sistemas apresentam baixo custo de implantação e consumo de energia, simplicidade de instalação e operação, capacidade de tratar diferentes níveis de poluição, além de não produzir lodo e gerar uma biomassa possível para produção de ração animal, energia e biofertilizantes; a utilização desta tecnologia de tratamento pode ser considerada uma ótima opção para o tratamento dos diversos tipos de efluentes. Avaliação da Utilização de Sistemas de Wetlands Construídas para Tratamento do Efluente Industrial da Burns Philp Brasil Indústria e Comércio de Alimentos – Unidade de Pederneiras/sp, através de Experimento em Escala Piloto Cunha, C.A.G, PPG-SEA/EESC-USP, Salati, E, PPG-SEA/ EESC-USP. Email:[email protected] A Unidade de Pederneiras da empresa Burns Philp Brasil Indústria e Comércio de Alimentos atua no ramo de fabricação de fermento biológico para panificação. O efluente industrial gerado no processo de fabricação possui altos teores de nutrientes (Fósforo e Nitrogênio), Sólidos Totais, Sólidos Suspensos Totais e uma alta Demanda Química de Oxigênio e, no entanto, é lançado in natura no Rio Tietê. Na busca de tecnologias para o tratamento do efluente industrial da Unidade de Pederneiras, a Burns Philp optou pela utilização de técnicas de áreas alagadas construídas. O sistema de tratamento utilizando wetlands construídas foi elaborado pela empresa Koltec Consultores Associados S/S Ltda com a colaboração do Instituto de Ecologia Aplicada. No entanto, para a elaboração do projeto definitivo, está sendo realizado primeiramente um estudo piloto para o conhecimento da técnica (ou combinação de técnicas) de wetlands mais adequada para o efluente a ser tratado. Os estudos conduzidos através da experimentação em escala piloto devem apresentar valores muito próximos aos reais. Logo, os resultados obtidos com a análise deste sistema piloto a ser implementado serão de grande valia para a elaboração do projeto definitivo. Objetivos do Projeto - Geral Baseado na eficiência das áreas alagadas naturais, este trabalho tem como objetivo analisar a viabilidade da utilização de sistemas wetlands construídas para tratamento do efluente industrial da Unidade de Pederneiras da empresa Burns Philp Brasil Indústria e Comércio de Alimentos. Página 51 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP - Específicos • Avaliar a eficiência global do tratamento da estação piloto de wetlands construídas a ser implantada na Unidade de Pederneiras da empresa Burns Philp Brasil Indústria e Comércio de Alimentos, na remoção das variáveis físico-químicas e biológicas; • Avaliar a eficiência de cada etapa do tratamento da estação piloto de wetlands construídas a ser implantada na Unidade de Pederneiras da empresa Burns Philp Brasil Indústria e Comércio de Alimentos,. na remoção das variáveis físico –químicas e biológicas; • Analisar qual tecnologia e qual combinação de tecnologias é a mais adequada para o tratamento do efluente a ser tratado; • Estimar a produção de biomassa nos diferentes sistemas de wetlands construídos a serem utilizados na estação piloto; • Propor opções de utilização e destino da biomassa produzida nos sistemas de wetlands construídos; Descrição da Área de Estudo Segundo KOLTEC. 2004, a estação piloto de wetlands construídas, proposta a ser implantada para tratamento do efluente da fábrica de Pederneiras, será composta por uma combinação de técnicas de wetlands construídas, sendo elas: canais de macrófitas aquáticas flutuantes (MAF), canais de macrófitas aquáticas emergentes (MAE) e solos filtrantes (Sistema DHS). O sistema piloto será composto por 03 módulos, sendo que cada módulo será constituído de 01 canal MAF, 01 canal MAE e 02 células do sistema DHS. A área total do sistema piloto será de 1.570 m2, sendo destinados 270 m2 para o canal de macrófitas aquáticas flutuantes, 270 m2 de canal de macrófitas aquáticas emergentes e 360 m2 de solos filtrantes e aproximadamente 870 m2 destinados aos taludes e corredores entre os módulos de tratamento. A vazão a ser tratada será de 0,5 L.s-1. (Fig.1) Avaliação da Eficiência Global e das várias Etapas do Tratamento da Estação Piloto A avaliação de eficiência da estação piloto deverá ser verificada quali e quantitativamente através de um protocolo de análises físico-químicas, (temperatura, oxigênio dissolvido, pH, turbidez, condutividade, cor, sólido suspensos totais e dissolvidos totais, nitrogênio total, amônia, nitrato, nitrito, fósforo total, fosfato total e inorgânico dissolvido, demanda bioquímica de oxigênio e demanda química de oxigênio, potássio, cálcio, magnésio, enxofre, cobre total, manganês total, zinco total, ferro total, sódio, cloretos) e hidrobiológicas (coliformes fecais e totais), comparando as características do efluente nas várias etapas do tratamento. Os resultados obtidos das concentrações das variáveis, a serem analisadas na saída do sistema piloto de tratamento, serão também comparados com as condições e limites permissíveis para lançamento de efluentes em corpos receptores estabelecidos pelas legislações estadual e federal. Página 52 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP (Artigo 18 do Decreto 8468 de 08/09/76-estadual e Artigo 21 da RESOLUÇÃO CONAMA 20/86 – federal). A freqüência de amostragem será mensal durante 12 meses, em 10 pontos de coleta descritos a seguir: • Entrada da estação piloto; • Saída do canal de macrófitas flutuante do primeiro módulo; • Saída do canal de macrófitas emergentes do primeiro módulo; • Saída do solo filtrante do primeiro módulo; • Saída do canal de macrófitas flutuante do segundo módulo; • Saída do canal de macrófitas emergentes do segundo módulo; • Saída do solo filtrante do segundo módulo; • Saída do canal de macrófitas flutuante do terceiro módulo; • Saída do canal de macrófitas emergentes do terceiro módulo; • Saída do solo filtrante do terceiro módulo. Figura 1: Esquema da estação piloto de áreas alagadas construídas proposta para o tratamento do efluente industrial Estimativa da Produção de Biomassa O crescimento e desenvolvimento das plantas aquáticas presentes no sistema serão analisados mensalmente durante um ano, medindo-se parâmetros biométricos de número de folhas, tamanho e espessura, tamanho do caule, tamanho das raízes, peso seco da planta, taxas de crescimento. Formação de Banco de Dados Todos os dados a serem obtidos (em campo ou em laboratório) em relação às variáveis limnológicas, hidrológicas e biométricas no sistema de wetlands construídos serão organizados e transcritos para forma digital. O agrupamento, interação e correlação dos dados de forma organizada irão permitir uma análise da variabilidade e das tendências das variáveis através da elaboração de tabelas e gráficos. As mudanças sazonais e sucessionais poderão ser detectadas através da análise regular dos dados e das tendências apresentadas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRIX, H. Wastewater Treatment in Constructed Wetlands System: Design, Removal Processes and Treatment Performance. In: MOSHIRI, A. (Org) Constructed Wetlands for Water Quality Improvement. Boca Raton: Lewish Publishers, 1993. Cap.2, p.9-22 Página 53 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP CAMPOS, J. C. et al. Tratamento de Chorume do Aterro Sano\itário de Piraí (RJ) utilizando Wetlands. In: VI Simpósio Brasileiro de Engenharia Sanitária, III-019, Vitória, ES, 2002. COSTELLO, C. J. Wetlands Treatment of Dairy Animail Wastes in Irish Drumlin Landscape In: HAMMER, D. A. (Ed) Constructed Wetland for Waste Water Treatment: Municipal, Industrail e Agricultural. Michigan: Lewis Publishers, INC, 1989. Cap. 40e, p. 702-709 FERREIRA, J. A. et al. Uma Revisão das Técnicas de Tratamento de Chorume e a Realidade do Estado do Rio de Janeiro. In. 21º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, III108, João Pessoa, PB, 2001 IEA. Instituto de Ecologia Aplicada. Relatório Técnico, 1997 JUCÁ, J.F.T. Disposição Final dos Resíduos Sólidos Urbanos no Brasil, 2003. Disponível em http: // www. grs - ufpe. com. br / downloads / publicacoes /regeo 2003- juca1.pdf > acesso em 22 jan. 2004. KADLEC, R.H. Wetlands for Water Polishing: Free Water Surface Wetlands. In. MITSH, W. J. (Org) Global Wetlands: Old World and New. New York: Elsevier Science, 1994. p. 411- 420 KOLTEC CONSULTORES ASSOCIADOS S/S LTDA. Projeto de Implantação do Sistema Piloto Através da Utilização de Técnicas de Wetlands Construídos para o Tratamento do Efluente Industrial da Fábrica de Pederneiras/SP da Burns Philp Brasil Indústria e Comércio de Alimentos. 2004, 16 p. MANFRINATO, E. S. Avaliação do Método Edafo-fitoprdagógico para o tratamento preliminar de águas. Tese de Doutorado, Escola Superior de Aqüicultura “Luiz de Queiroz” Universidade de São Paulo, 1989 SALATI, E Edaphic-Phytodepuration: A New Aproach to Wastewater Treatment. In: REDDY, K.R and SMITH, W.H. (Orgs) Aquatic Plants for Water Treatment and Resource Recovery. Orlando: Magnolia Publishing Inc, 1987. SALATI, E. Utilização de Sistemas de Wetlands Construídas para Tratamento de Águas. Relatório técnico para o Programa de Pós Graduação em Ciências da Engenharia Ambiental da EESC. São Carlos, SP, 2000, 36 p. Página 54 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Detecção de Metais através de uma “Língua Eletrônica” C.M. Santana1, B.A. da Silva2, P.A. Antunes2, C.J.L. Constantino2, A. Riul Jr2 Depto de Física, Química e Biologia, FCT/UNESP, 19060-900, Presidente Prudente, SP, Email:[email protected], [email protected] . Resumo A aplicação de materiais semicondutores orgânicos, tais como polipirrol (Ppy) e derivados de perileno (PTCD), como unidades sensoriais de uma “língua eletrônica”, para diferenciação de paladares e bebidas, vem sendo testada com sucesso em nossos estudos. Neste trabalho serão apresentados os resultados relativos à interação desses materiais com íons metálicos dispersos em subfase líquida a partir da formação de filmes ultrafinos de Ppy e PTCD sobre esta subfase (filmes de Langmuir). Medidas elétricas via analisador de impedância foram realizadas a partir da transferência dos filmes de Langmuir para eletrodos interdigitados (filmes Langmuir-Blodgett - LB). A técnica LB para o estudo dos filmes ultrafinos foi utilizada por permitir um certo controle sobre a organização molecular dos materiais depositados, além de possibilitar um tempo de resposta rápido e elevada sensibilidade nesse tipo de dispositivo. Os filmes de Langmuir foram investigados via isotermas de pressão de superfície vs área molecular média (Π-A) utilizando quatro tipos diferentes de subfases. Primeiramente, foi observado o comportamento e estabilidade de monocamadas obtidas na interface ar/água. Após estes testes foram obtidas isotermas ΠA com subfases aquosas contendo íons de cobre, chumbo e cádmio nas concentrações máximas permitidas para potabilidade de acordo com as normas da SABESP. Finalmente, os filmes foram transferidos da interface ar/água para a superfície de eletrodos interdigitados, que foram utilizados como unidades sensoriais para análise de água ultrapura “contaminada” com quantidades ínfimas de íons metálicos em solução. Introdução O presente trabalho tem como objetivo avaliar a presença de íons metálicos em meio aquoso, em diferentes concentrações molares, utilizando filmes nanoestruturados de polipirrol (Ppy) e o bis (nbutilimido) perileno (BuPTCD), cujas estruturas moleculares estão apresentadas na Figura 1. a-) b-) Figura 1 - Representação da estrutura química dos materiais estudados: (a) Bis (n-butilimido) perileno; (b) Polipirrol. Página 55 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Atualmente há grande preocupação das sociedades com as conseqüências de suas atividades para o meio ambiente, pois dela resulta a qualidade de vida das gerações futuras. Um dos principais problemas é a crescente emissão de metais no meio ambiente através de atividades industriais, agrícolas, de mineração, etc. Como sais metálicos são solubilizados em água, eles podem atingir qualquer tipo de ecossistema, gerando sérios danos ao meio ambiente devido à elevada toxicidade em função da quantidade ingerida, de seus potenciais carcinogênicos, mutagênicos ou teratogênicos, e/ou bioacumulação, potencializando os efeitos nocivos ao longo da cadeia alimentar [1]. Conseqüentemente, é altamente desejável o desenvolvimento de sensores para detecção destes poluentes em sistemas líquidos. Nesse sentido, tem havido intensa atividade de pesquisa nos últimos anos em sensores atuando em sistemas líquidos, comumente denominados de “língua eletrônica”, com a capacidade de detectar e diferenciar substâncias com diferentes paladares, efeitos de supressão e verificar a presença de contaminantes orgânicos e inorgânicos em água [2]. É um dispositivo economicamente mais viável do que as tecnologias convencionais, como as cromatografias líquida e gasosa, espectroscopia de absorção atômica ou de plasma, havendo grande interesse das indústrias de bebidas, alimentos, farmacêutica e da agroindústria, pois se evita a exposição de seres humanos a substâncias tóxicas ou de paladar desagradável, não havendo ainda a perda de sensibilidade após longos tempos de exposição, cansaço e/ou resfriados, como ocorre com seres humanos. A deposição de filmes ultrafinos de Ppy e BuPTCD sobre os eletrodos interdigitados, compondo as unidades sensoriais do dispositivo, foi realizada utilizando-se a técnica Langmuir-Blodgett (LB) devido ao elevado potencial de aplicação prática decorrente de propriedades relacionadas com esse tipo de filme, como alto grau de ordenamento molecular e controle de espessura produzidos, além da possibilidade de estudar interações decorrentes entre materiais dispersos na subfase e monocamadas formadas na interface ar/água [3,4]. A análise sensorial foi realizada utilizando espectroscopia de impedância por ser uma ferramenta poderosa na investigação de interações entre analitos e os materiais que constituem as unidades sensoriais, dispensando o uso de eletrodo de referência, que pode vir a ser problemático quanto à confiabilidade de medidas, para determinadas aplicações, devido à miniaturização do sistema [5]. Experimental O Ppy e BuPTCD foram processados de acordo com [6,7], sendo caracterizados através das isotermas Π-A. Todas as isotermas foram produzidas a 20°C em uma cuba de Langmuir modelo KSV 2000 instalada em uma sala localizada no Departamento de Física, Química e Biologia da Faculdade de Ciências e Tecnologia, unidade da UNESP em Presidente Prudente-SP. Algumas medidas foram tomadas para minimizar a contaminação da subfase, como a montagem de uma caixa acrílica por cima da Cuba de Langmuir, vedação interna e externa das janelas com silicone, ar condicionado dotado de filtros e limpeza regular da sala com aspirador de pó. Para todas as análises a velocidade das barreiras foi de 10 mm/min e os volumes espalhados foram de 400 µL para o polipirrol e 200 µL para o BuPTCD. Verificou-se o comportamento dos materiais em água ultrapura e subfases de CuCl2, PbCl2 e CdCl2, em Página 56 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP concentrações de 2,0 mg/L, 0,01 mg/L e 0,005 mg/L, respectivamente [8]. Todas as soluções foram preparadas com água ultrapura obtida de sistema Simplicity Milli-Q da Millipore. Os filmes foram posteriormente depositados sobre eletrodos interdigitados de ouro contendo 50 pares de dígitos separados 10 μm uns dos outros. As medidas elétricas foram realizadas com os eletrodos imersos nas soluções líquidas e a aquisição de dados feita com um analisador de impedância Solartron (modelo 1260A), na faixa de freqüência de 1Hz – 1MHz. Resultados e Discussão As isotermas Π-A foram analisadas observando a área extrapolada (Aext), obtida extrapolando a região condensada da curva Π-A até o eixo das abscissas [4,7], e o ponto de colapso do filme, no qual ocorre uma inflexão da isoterma posterior à região condensada, sugerindo uma transição de fase [7,9]. Os resultados estão ilustrados na Figura 2. A presença de metais na subfase líquida altera o comportamento das isotermas dos materiais em relação àquelas obtidas em água ultrapura. No caso do PPy, as isotermas foram deslocadas em direção de menores áreas devido à presença dos íons na subfase, ocorrendo o contrário para o BuPTCD. Já o ponto de colapso foi alterado de forma mais significativa, para ambos os materiais, pela presença de íons Pb+2 na subfase. Tais mudanças devem estar relacionadas a alterações na estruturação das moléculas que compõem as monocamadas na interface ar/água [7] e/ou a simples interação eletrostática entre estas moléculas devido à interação com os íons metálicos na subfase. As interações específicas serão investigadas por espectroscopia vibracional. BuPTCD 50 Pressão de superfície (mN/m) Pressão de superfície (mN/m) Ppy MiLLi_Q +2 Cu 40 30 20 10 0 0 2 4 6 8 60 Milli_Q +2 Cu 50 40 30 20 10 0 0 10 25 50 75 100 2 Área molecular média (Å ) 2 Área molecular média (Å ) CuCl+2 Página 57 de 129 50 Pressão de superfície (mN/m) Pressão de superfície (mN/m) Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Milli_Q +2 Cd 40 30 20 10 60 Milli_Q +2 Cd 50 40 30 20 10 0 0 0 0 2 4 6 8 10 25 50 75 100 2 Área molecular média (Å ) 2 Área molecular média (Å ) 50 Pressão de superfície (mN/m) Pressão de superfície (mN/m) CdCl+2 Milli_Q +2 Pb 40 30 20 10 0 0 2 4 6 8 60 Milli_Q +2 Pb 50 40 30 20 10 0 0 10 25 50 75 100 2 2 Área molecular média (Å ) Área molecular média (Å ) PbCl+2 Figura 2 – Curvas (П-A) de Ppy (à esquerda) e BuPTCD (à direita) comparando resultado em água ultrapura e isotermas obtidas com subfases contendo cobre (2mg/L), cádmio (0,005mg/L) e chumbo (0,01mg/L). Na aplicação sensorial, mesmo para concentrações molares baixíssimas, os materiais selecionados apresentaram ótima sensibilidade de resposta à presença de contaminantes inorgânicos em água. Para cada solução analisada foram realizadas cinco medidas de impedância elétrica em uma faixa de freqüência de 1 Hz a 1MHz. Como a região em torno de 1 kHz é a que revelou a maior interação entre os filmes cobrindo os eletrodos interdigitados e as soluções estudadas [2], os resultados adquiridos foram analisados nessa freqüência através das Componentes Principais (PCA, do inglês “Principal Component Analysis”), que é um rigoroso método matemático para verificar a variância e a correlação de um conjunto de amostras. A Figura 3 ilustra a habilidade de diferenciação obtida pelos materiais quando expostos a soluções contendo diferentes íons metálicos, em uma mesma concentração molar. Página 58 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Figura 3 - Gráfico PCA para análise de diferentes metais a 2 mg/L. Particularmente à Figura 3, a segunda Componente Principal parece estar associada com o peso atômico dos elementos, ou seja, quanto mais para cima, maior o peso atômico do íon metálico em solução. O sensor exibe ainda boa reprodutibilidade e elevada sensibilidade, como exemplificado na Figura 4 a seguir. As medidas em água correspondem àquelas realizadas antes e após a exposição dos materiais às soluções contendo os íons metálicos. Ressalta-se que entre uma medida e outra os eletrodos foram lavados extensivamente em água destilada. Figura 4 – Gráfico PCA de água contendo diferentes concentrações molares de Cu+2. Página 59 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Apesar da falta de correlação entre as componentes principais na Figura 4, que não é trivial, observa-se que o dispositivo consegue avaliar águas contendo quantidades ínfimas de Cu+2 em solução. Verifica-se também a não contaminação das unidades sensoriais pelos íons metálicos, o que indica que as mesmas podem ser reutilizadas para avaliação de diferentes sistemas líquidos, tornando esse tipo de tecnologia economicamente atraente. Conclusões A análise das isotermas de pressão de superfície vs área molecular média (Π-A) mostrou que a presença de íons metálicos na subfase líquida possui um papel importante na estruturação das monocamadas de Ppy e BuPTCD. Estudos preliminares indicam ótima sensibilidade de resposta elétrica dos materiais na análise de sistemas líquidos contendo os metais utilizados para o estudo das isotermas Π-A. O conjunto (Ppy + BuPTCD) consegue avaliar de maneira simples e rápida traços ínfimos de contaminantes inorgânicos em água, além de identificá-los através de métodos estatísticos como o PCA, sem a necessidade de análise laboratorial complexa. Além de elevada sensibilidade, ressalta-se ainda a boa reprodutibilidade observada nas medidas realizadas em água destilada antes e após a exposição às soluções contendo íons metálicos. Agradecimentos A FAPESP, CNPq e IMMP pelo apoio financeiro recebido, e ao LNLS pela fabricação dos microeletrodos interdigitados utilizados. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [1] B. Braga, I. Hespanhol, J.G.L. Conejo, M.T.L. Barros, M. Spencer, M. Porto, N. Nucci, N. Juliano, S. Eiger, “Introdução à Engenharia Ambiental”, Prentice Hall, 1st edit. (2002). [2] A.Riul Jr, D.S. dos Santos Jr, K. Wohnrath, R. Di Toammazo, A.C.P.L.F. Carvalho, F.J. Fonseca, O.N. Oliveira Jr, D.M. Taylor, L.H.C. Mattoso, Langmuir 18, 239 (2002). [3] O.N. de Oliveira Jr., D.M. Taylor, “O largo potencial do filmes ultrafinos”, Ciência Hoje 12 (67), 20 (1990) [4] M.C. Petty, “Langmuir-Blodgett Films: An Introduction”, ed. Cambridge University Press, London (1996) [5] A. Legin, A. Rudnitskaya, Y. Vlasov, C. Di Natale, A. D´Amico, Sensors and Actuators B 58, 464 (1999). [6] S.V. Mello, A. Dhanabalan, O.N. Oliveira Jr., “LB films of parent Polylyrrole”, Synthetic Metals 102, 1433 (1999) [7] C.J.L. Constantino, P.A. Antunes, C B. Oliveira, M. Trsic, I. Caracelli, R.F. Aroca, “Surface Pressure- Area isotherms for Langmuir monolayers and a docking molecular orientation of perylene tetraboxylic derivatives on a water surface.”, Canadian Journal of Analytical Sciences and Spectroscopy, no prelo. Página 60 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP [8] www.sabesp.com.br/legislacao [9] C.J.L. Constantino, P.A. Antunes, E.C. Venancio, N. Consolin, F.J. Fonseca, L.H.C. Mattoso, R.F. Aroca, O.N. Oliveira Jr., A. Riul Jr., “Nanoestrustured films of perylere derivatives: High performance materials for taste sensor applications”, Sensors Letters, no prelo. Página 61 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Levantamento da Vegetação Ciliar na Microbacia do Córrego do Matão, Mogi Guaçu/SP RICCI, A.B.¹ e-mail: [email protected] COSTA, C.¹ e-mail: [email protected] HEREFELD, T.C.¹ e-mail: [email protected] LEITE, I.R.C.¹ e-mail: [email protected] FRANCATO, A.A.¹ e-mail: [email protected] ¹Faculdade Municipal Professor Franco Montoro. Introdução O processo de ocupação do Brasil caracterizou-se pela falta de planejamento e conseqüente destruição dos recursos naturais, particularmente das florestas. Ao longo da história do País, a cobertura florestal nativa, representada pelos diferentes biomas, foi sendo fragmentada, cedendo espaço para as atividades humanas (Martins, 2001). Neste processo de degradação as matas ciliares, apesar de protegidas por legislação (lei 4.771 de 1965) a quase 4 décadas, vem sofrendo intensa intervenção antrópica por uma série de fatores como a construção de hidrelétrica e estradas, implantação de culturas agrícolas e de pastagens, além do processo de urbanização. A microbacia hidrográfica do córrego do Matão possui área de 1298ha, localizada ao norte do município de Mogi Guaçu – SP, está situada na zona rural com presença de pequenas propriedades rurais. Dentre as alterações que a bacia sofreu, o aspecto da vegetação foi um dos mais afetados, e ao longo de seus 8km (aproximadamente) os 30 m de mata ciliar definidos no Código Florestal não são mantidos. A qualidade da água de um determinado curso depende dos usos e atividades desenvolvidos em toda a bacia hidrográfica, pois as mudanças ocorridas nos ambientes naturais, tais como no solo e na vegetação, resultam em alterações que afetam não só a qualidade, mas a quantidade da água (Mota, 1995). Uma bacia situada em uma área agrícola, como é o caso da bacia do córrego do Matão, também sofre alterações devido aos usos e às atividades rurais, como exemplo, podemos citar os desmatamentos, os movimentos de terras e a poluição do curso d’água por pesticidas e fertilizantes. As matas ciliares, que são as formações vegetais que acompanham os cursos d’água, têm segundo Mueller (2002) como principais funções a regulação do fluxo natural das águas, evita que sejam carregadas terras das pelas águas das chuvas desencadeando processos erosivos e assoreamento e forma uma barreira à percolação de poluentes no solo, evitando que os mesmos alcancem os recursos hídricos. A recuperação das matas ciliares é de grande urgência e importância para a preservação dos recursos hídricos, pois só no Estado de São Paulo a estimativa da Secretaria de Meio Ambiente (2003), é que cerca de mais de 1 milhão de hectares de áreas marginais a cursos d’água já não têm mais mata Página 62 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP ciliar, e de acordo com os dados do levantamento da cobertura vegetal no Plano da Bacia Hidrográfica do Rio Mogi Guaçu (2003), o município de Mogi Guaçu possui 2.371ha de vegetação nativa (cerrado, cerradão e mata) o que corresponde a apenas 2,47% de seu território. Objetivo O objetivo deste trabalho é realizar um diagnóstico situacional da mata ciliar da bacia hidrográfica do córrego do Matão, através da quantificação da cobertura vegetal das margens do córrego. Materiais e Métodos Localização e caracterização da área Localizada ao norte do município de Mogi Guaçu – SP, a bacia do Matão está compreendida entres as coordenadas UTM 365620.5295; 357595.8659 (latitude) e 7519816.7598; 7513849.1593 (longitude). A bacia hidrográfica do córrego do Matão possui área de drenagem de 1298000m² (12980ha) e perímetro de 19199.2444m (19,2km), com extensão de seu córrego principal de 7.988 m e rede de drenagem (soma dos canais) de 15,121km, com 9 nascentes é uma bacia de 2ª. Ordem. Metodologia Através das cartas planialtimétricas na escala de 1:50.000, editadas (digitais) pelo IBGE (folhas SF23-Y-A-III-3, SF-23-Y-A-II-4 e SF-23-Y-A-III-1) foram calculados as características físicas (área, perímetro,extensão, etc) através do programa AutoCAD 2000. Aplicou-se às margens esquerda e direita de toda a rede de drenagem da bacia faixas laterais com largura de 30m e nas nascentes e reservatórios (pequenas represas) 50m de faixa. Tais procedimentos foram realizados através da digitalização da fotografia aérea (1:10.000), no programa AutoCAD 2000 foi que calculado a área de mata ciliar existente e a área de preservação permanente. Resultados A área considerada por legislação como Área de Preservação Permanente no córrego do Matão foi calculado em 125ha o que corresponde a 9,63% da área total da bacia (figura 1). A área de mata ciliar existente foi calculada em 75,4ha, correspondendo a 60,33% dos 125ha de mata ciliar protegidos por legislação. A área com necessidade de reflorestamento é de 49,6ha, adotando-se um espaçamento médio de plantio de 3x3m entre mudas, o déficit de árvores a serem plantadas é de 5.5111. Pôde-se verificar que a margem direita do córrego está mais preservada, tendo em alguns trechos faixas maiores que 30m de vegetação. Página 63 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Figura 1. Área de Preservação Permanente Figura 2. Área de Vegetação Ciliar Conclusão A cobertura vegetal, especialmente as florestas e os campos cultivados juntamente com os fatores geológicos tem grande influência no condicionamento da rapidez do escoamento superficial, nas taxas de evaporação e na capacidade de retenção de água (Garcez & Alvarez, 1999). Devendo, portanto cada bacia ter uma determinada porcentagem de área de cobertura vegetal. Assim a recuperação da vegetação ciliar na microbacia do córrego do Matão é de grande importância para a regulação do regime hídrico e também para a preservação da qualidade das águas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Lei 4.771 de 15 de Setembro de 1965. Código Florestal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L4771.htm>. Acesso em: 17 julho 2004. COMITÊ DA BACIA HIDROGRAFICA DO RIO MOGI GUAÇU, Plano da Bacia Hidrográfica do Rio Mogi Guaçu, São Carlos: Suprema, 2003, p. GARCEZ, L. N. e ALVAREZ, G. A. Hidrologia. 2ª.ed. São Paulo: Afiliada, 1999. 291p. MARTINS, S.V. Recuperação de matas ciliares. Editora Aprenda Fácil. Viçosa, 2001.146p. MOTA, S.Preservação e Conservação de Recursos Hídricos, 2ªed,Rio de Janeiro: ABES,1995. 200p. Página 64 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Utilização da Moringa oleifera como Coagulante Natural no Tratamento de Água Ivan Renato C. Leite (1); Cid da Costa (1); Thiago C. Herefeld (1); Adélio T. Francato (1); Mauro P. Moreira (2). (1) Aluno da FMPFM/Engenharia Ambiental; (2) Professor da FMPFM/Engenharia Ambiental. [email protected] Resumo A necessidade do tratamento de água para consumo humano é de vital importância para qualidade de vida da população, seja ela residente em meio urbano ou rural. Levando-se em consideração que os tratamentos convencionais são onerosos (sobre tudo para países subdesenvolvidos), devido aos tipos de coagulantes ou floculantes químicos utilizados, surge à necessidade de utilizar técnicas que se apresentem eficazes e de baixo custo, sendo para isso proposto um estudo no qual, utiliza-se sementes de Moringa oleifera como coagulante natural biodegradável. No entanto, seu efeito no tratamento de água no meio urbano ainda é uma incógnita, sendo pouco explorado. Para tanto, irá verificar-se a eficiência que este processo promoverá no tratamento de águas superficiais com turbidez elevada, pelo processo de precipitação de colóides. Para isso serão determinados os parâmetros físico-químicos relacionados com a qualidade da água como, o pH, a condutividade, os sólidos totais, o tempo de coagulação, a temperatura e a turbidez das amostras utilizadas. Os resultados serão analisados estatisticamente através da análise da variância, comparação das médias e correlações. Introdução e Justificativa A importância da água para a manutenção dos padrões aceitáveis de qualidade ambiental é indiscutível. Seu tratamento é de grande importância para o desenvolvimento sócio/econômico-ambiental, tanto para áreas urbanas como rurais, visto que nas cidades o tratamento convencional utilizando sulfato de alumínio ou mesmo o cloreto férrico é de custo elevado e que em pequenas propriedades rurais o tratamento praticamente não existe. Como produto indispensável à manutenção da vida no planeta, a água tem despertado o interesse dos mais diversos setores motivando-os a elaborarem modelos de uso e gestão capazes de compatibilizar as demandas crescentes com a relativa escassez do produto na qualidade desejada (CARRIJO, 2002). Descobertas recentes do uso de sementes trituradas de M. oleifera para a purificação de água, a um custo de apenas uma fração do tratamento químico convencional, constituem uma alternativa da mais alta importância. A Moringa é uma planta arbustiva com propriedades dentre as mais diversas de promover tratamento primário de águas. Podemos imaginar duas zonas de difusão que significam estratégias diferentes: meio rural, ou seja, as comunidades rurais sem sistema de abastecimento d’água e o meio urbano (NETO, 2003). Página 65 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Tendo em vista o problema sobre o custo e a acessibilidade dos coagulantes naturais para as estações de tratamento e para utilização por comunidades rurais e as necessidades por técnicas alternativas, o presente trabalho busca a demonstração da eficiência obtida através da utilização de um coagulante natural de fácil aquisição, que permita a clarificação de água de consumo tanto para as áreas rurais como para regiões urbanas. Revisão Bibliográfica Clarificação de Águas Utilizando Sementes de Moringa oleifera como Biopolímero Historicamente o uso das sementes de Moringa oleifera no tratamento de água é relatado desde 2000 anos antes de Cristo na Índia. Mais recentemente sua utilização vem sendo descrita no Sudão para purificação de água de uso doméstico. Nos trópicos onde encontram se países em desenvolvimento, o estudo sistemático deste processo vem recebendo maior atenção pelo fato dos coagulantes químicos normalmente utilizados no tratamento possuírem um custo elevado. Uma alternativa para esse fato é o uso de coagulantes naturais, geralmente de origem vegetal, para promover a coagulação das impurezas contidas na água (NETO, 2003; RANGEL, 1999; PARROTA, 1993). As descobertas recentes do uso de sementes trituradas de Moringa oleifera para a purificação de água, a um custo de apenas uma fração do tratamento químico convencional, constituem uma alternativa da mais alta importância. Tais sementes podem ser usadas no tratamento de água, abrindo possibilidades que asseguram que os países emergentes possam ter água potável para uso doméstico (NETO, 2003; RAMACHANDRAN et. al., 1980). No processo de clarificação de águas são usados os cotilédones de suas sementes moídas. Essas sementes possuem polissacarídeos com forte poder aglutinante como o ácido glutâmico, a proline, a metionine, e a arginine que atuam como um polieletrólito catiônico agindo como floculantes, aglutinando partículas sólidas presentes na água, fazendo-as sedimentar, sendo capaz de eliminar a turvação, micropartículas, fungos, bactérias e vírus num processo igual ao usado nas estações de tratamento de água (SUTHERLAND et al., 1989; JAHN, 1988). Mas o mecanismo de coagulação desses peptídeos ainda é pouco conhecido (JAHN, 1988). Deve ser observado, porém, que o uso do tratamento com sementes, assim como o de outros coagulantes naturais e químicos, não produz água purificada, por tratar-se de um tratamento primário, necessitando de outras etapas para que essa possa estar dentro de padrões de potabilidade aceitáveis. O uso das sementes da Moringa oleifera como coagulante apresenta dupla vantagem (NETO, 2003): Primeiro, um efeito de tratamento físico (diminuição da turbidez) da água pela coagulação do material em suspensão. Segundo, um efeito de tratamento biológico eliminando os microrganismos patogênicos, ação devida a dois fatores: I) Uma grande parte dos microrganismos estão fisicamente ligados às partículas em suspensão na água, quando são retiradas depois da coagulação, eliminam-se esses microorganismos; II) Os cotilédones contêm uma substância antimicrobiana aumentando o efeito do tratamento biológico da água. Página 66 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP JAHN, 1988, descreve que com a dosagem de semente adequada, é possível reduzir de 98 a 100% o número de coliformes fecais de águas brutas inicialmente fortemente turbidas, após a coagulação, a uma turbidez inferior a 10 NTU. Segundo PATERNIANI, 2004, as dosagens recomendadas de sementes para o tratamento de água são dadas de acordo com a turbidez da água bruta (Tabela 1). Tabela 1: Dosagem de sementes recomendadas de acordo com a turbidez da água. Turbidez da água Dosagem bruta (NTU) (mg/L) <50 10 a 50 50 a 150 30 a 100 >150 50 a 200 Fonte: PATERNIANI, 2004. SILVA et. al., 2004, descreve que além das vantagens no tratamento físico da água, o uso das sementes como biopolímero no processo de coagulação possui várias vantagens em comparação com os sais químicos: -A natureza da alcalinidade da água não é consumida durante o processo de tratamento; -O lodo gerado após tratamento apresenta menor volume, encontra-se livre de metais pesados quando comparado com o lodo gerado com uso de constituintes químicos; -Possibilidade de utilizar um coagulante primário natural, produzido no local e com baixo custo representa um grande potencial na luta contra os problemas ligados ao consumo de água não potável; -Este biopolímero pode ser originário de plantas locais com fácil processamento dando um caráter potencial de baixos custos operacionais quando comparados com reagentes químicos muitas vezes importados. Objetivos Demonstrada a importância no levantamento de informações, sobre o tratamento de água para áreas urbanas e pequenas propriedades rurais, a presente proposta de pesquisa tem os seguintes objetivos: 1) Obter, em nível de laboratório, um produto líquido a partir dos cotilédones das sementes da Moringa oleifera. 2) Demonstrar a eficiência do tratamento, com relação a tratamentos convencionais, determinando os presentes efeitos coagulantes, sua estabilidade e a não presença na água de substâncias nocivas provenientes do tratamento, e as propriedades que podem afetar o uso posterior da mesma. 3) Demonstrar que a técnica é inovadora e aplicável em paises em desenvolvimento, pois se trata de tecnologia de baixo custo. 4) Possibilidade de desenvolvimentos sócio/econômicos-ambientais. Página 67 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Material e Método Espécie vegetal Foram utilizadas quantidades conhecidas de sementes de Moringa oleifera previamente preparadas, adicionadas à amostra a ser tratada. Água As amostras de água utilizadas para realização das análises, são de origem laboratorial, sendo preparada artificialmente com adição Bentônita, conferindo a mesma cor e turbidez. Delineamento experimental e condução do experimento O tratamento consiste em moer as sementes, e agrega-las a água limpa, na dosagem conhecida para cada semente, o qual irá formar uma suspensão. Preparada a suspensão, essa irá ser incorporada às amostras a serem tratadas promovendo sua clarificação. Resultados Parâmetros Avaliados Análise do pH, condutividade, turbidez Todos os ensaios realizados levaram em consideração os métodos descritos no Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater, sendo para tanto realizado em cada amostra, a determinação das influências da dosagem de coagulante na variação do pH, da condutividade, e da turbidez, o tempo de coagulação, a temperatura e a turbidez inicial das amostras utilizadas. Delimitam-se então os as etapas previas de análises: - No primeiro ensaio realizado com as amostras de água, analisou-se a influência da dosagem de coagulante na variação do pH, da condutividade e da turbidez após duas horas de sua adição. - No segundo ensaio realizado, analisou-se a influência do tempo de coagulação no pH, na condutividade, na turbidez e nos sólidos totais, para diferentes valores de dosafens de coagulante. - A influência da temperatura da amostra de água na variação do pH, da condutividade e da turbidez, também foi analisada, através de ensaios realizados utilizando valores estabelecidos de coagulante, com tempo de observação também fixado. - A influência da turbidez inicial das amostras de água no pH, na condutividade e nos sólidos totais foi realizada fixando-se a dosagem de coagulante e o tempo. Tabela 1: Analises Físico-químicos das amostras de água Parâmetros Amostra 1 Amostra 2 Amostra 3 Volume (L) 1 1 1 Dosagem de Sementes (mg/L) 0 10 50 PH 9,02 9,02 9,02 Condutividade (mV) -120,4 -120,4 -120,4 Temperatura (ºC) 30,1 30,1 30,1 Turbidez (NTU) 75 75 75 Página 68 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Tabela 2: Analises Físico-químicos das amostras de água, após 2 hs do tratamento com Moringa oleifera Parâmetros Amostra 1 Amostra 2 Amostra 3 Volume (L) 1 1 1 Dosagem de Sementes (mg/L) 0 10 50 pH 9,02 8,42 8,32 Condutividade (mV) -120,4 -129,4 -190,0 Temperatura (ºC) 30,1 34,1 34,8 Turbidez (NTU) 75 55 58 Tabela 3: Analises Físico-químicos das amostras de água, após 3 hs do tratamento com Moringa oleifera Parâmetros Amostra 1 Amostra 2 Amostra 3 Volume (L) 1 1 1 Dosagem de Sementes (mg/L) 0 10 50 pH 9,02 8,45 8,39 Condutividade (mV) -120,4 -128,4 -197,3 Temperatura (ºC) 30,1 35,1 36,1 Turbidez (NTU) 75 36 45 Tabela 4: Analises Físico-químicos das amostras de água, após 4 hs do tratamento com Moringa oleifera Parâmetros Amostra 1 Amostra 2 Amostra 3 Volume (L) 1L 1L 1L Dosagem de Sementes (mg/L) 0 10 50 pH 9,02 8,33 8,40 Condutividade (mV) -120,4 -130,1 -199,8 Temperatura (ºC) 30,1 38,6 39,8 Turbidez (NTU) 75 34 43 Conclusões Parciais - Aumentando-se a dosagem de coagulante, ocorreu a diminuição no pH e um aumento na turbidez da amostra de água após 2 hs de coagulação. - Após 4 hs de coagulação para uma dosagem de coagulante de 10 mg/L obteve-se menor valor de pH da amostra de água. - A condutividade atingiu menor valor após 4 hs de coagulação para a dosagem de 50 mg/L de coagulante. - O menor valor de turbidez encontrado foi para o tempo de 4 hs de coagulação quando se usou uma dosagem de coagulante de 10 mg/L. - A maior elevação do pH observada foi para a massa de 10 mg/L. - Os valores de temperatura analisados não promoveram variação significativa na variação da turbidez para amostra que utilizou 10 mg/L de coagulante. - Maior turbidez inicial promove um maior aumento do pH e da condutividade, tanto após 2 hs quanto após 3 hs de coagulação. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 1- JAHN, S. A. A. “Proper Use of African Natural Coagulants for Rural Water Supplies: research in the Sudan and a guide for new projects”, GTZ, 1986, 541 p. Página 69 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP 2- JAHN, S. A. A. “Using Moringa Seeds as Coagulants in Developing Coutries”, p. 43-50 in journal AWWA, management and operations, 1986. 3- JAHN, S. A. A. The traditional Domestication of a Mutipurpose Tree Moringa Stenopetala in the Ethopian Rift Valley”, p. 244-247, 1988. In Ambio vol. 20 nº 6, sept. 1991 4- APHA-AWWA-WPCF. “Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater”American Public Health Association. Nova Iorque. 20th. 1998 5- CARRIJO, K. C. Estudo da viabilidade de utilização de floculantes naturais biodegradáveis na clarificação de águas. Uberlândia. 2002. 123 f. Monografia de Graduação. Universidade Federal de Uberlândia. 6- NETO, M. A. Moringa oleifera. Disponível em: <http://www.cpsata.embrapa.br/doc/posters.htm> Acesso em: 06 de março de 2004. 7- PARROTTA, J. A. Moringa oleifera Lam. Resedá, horseradish tree. New Orleans, LA: U.S. Department of Agriculture, Forest Service, Southern Forest Experiment Station. 1993. p. 366 - 370 8- PATERNIANI, J. E. S. Potencialidade do reuso da água na agricultura. 2004. 9- RAMACHANDRAN, C.; PETER, K. V.; GOPALAKRISHNAN, P.K. 1980. Drumstick (Moringa oleifera): a multipurpose Indian vegetable. Economic Botany. p. 276-283. 10- RANGEL, M. S. A Moringa oleifera: Uma Planta de Uso Múltiplo. Embrapa Tabuleiros Costeiros. Aracaju-SE. Circular Técnica nº 9. 1999.41p. 11- SILVA, F. J. A.; SOUZA, L. M. M.; MAGALHÃES, S. L. Uso Potencial de Biopolímero de Origem Vegetal na Descolorização de Efluente Têxtil. 2004. 12- SUTHERLAND, J. P.; FOLKARD, G. K.; GRANT, W.D. Seeds of Moringa species as naturally occurring flocculants for water treatment. Science, Technology and Development. p. 191-197. 1989. Página 70 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP A Toxicidade da Cianobactéria Microcystis aeruginosa aos Cladóceros Planctônicos Daphnia similis, Ceriodaphnia dubia e Ceriodaphnia silvestrii OKUMURA, DENISE T.1,3; TAKENAKA, RENATA A.2; BARBOSA, ROSANA M.1 (COORIENTADORA) & ROCHA, ODETE1 (ORIENTADORA). 1 Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva - CCBS - UFSCar 2 Programa de Pós-Graduação em Ciências da Engenharia Ambiental - EESC - USP 3 Email: [email protected] Introdução O crescimento da agroindústria tem sido bastante acelerado nas últimas décadas. A grande biomassa das monoculturas e a necessidade de intensificar o crescimento vegetal têm levado ao uso extensivo de fertilizantes. A taxa de urbanização tem também crescido rapidamente, com o conseqüente aumento das descargas de esgotos sem nenhum tratamento prévio. Esses dois processos, em larga escala, são hoje as principais causas da eutrofização de rios, lagos e reservatórios, em muitas regiões brasileiras (TUNDISI & MATSUMURA-TUNDISI, 1992). Com a eutrofização ocorrem muitas mudanças nos sistemas aquáticos e uma rápida resposta é geralmente observada para a comunidade fitoplanctônica que apresenta um decréscimo na diversidade de espécies e um aumento da dominância de cianobactérias (CHORUS, 2001). Isso ocorre porque quantidades excessivas de nutrientes (nitrogênio e fósforo) somadas a outras condições ambientais favoráveis, como altas temperaturas e estabilidade, são os principais estímulos para o desenvolvimento dessas florações algais. As florações de cianobactérias podem causar gosto e odor desagradável na água como também alterar o equilíbrio ecológico do ecossistema aquático. No entanto, o mais grave problema é o fato de certas espécies serem capazes de produzir toxinas que podem ser acumuladas na rede trófica ou produzir diferentes sintomas de intoxicação, atingindo conjuntos de organismos muito além da comunidade aquática (DI BERNARDO, 1995). As cianobactérias produzem freqüentes florescimentos tóxicos em águas doces. No entanto, as cianotoxinas são encontradas somente em cerca de quarenta espécies de cianobactérias (SKULBERG et al., 1993). A existência de condições ambientais favoráveis ao desenvolvimento de florações de cianobactérias durante o ano todo, além dos sérios riscos à saúde humana associados aos subprodutos algais, evidenciam a relevância do tema em questão e revelam a necessidade de ampliação das pesquisas sobre cianobactérias e suas toxinas. Nesse trabalho, avaliou-se a toxicidade da cianobactéria Microcystis aeruginosa (cepa NPLJ-4) e das toxinas presentes em florações naturais de cianobactérias nos reservatórios do médio rio Tietê (Barra Bonita e Ibitinga) aos cladóceros planctônicos Daphnia similis, Ceriodaphnia dubia e C. silvestrii. Além disso, foram ainda investigados os efeitos sub-letais dessas amostras ao dafinídeo Ceriodaphnia silvestii. Página 71 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP (espécie nativa) visando avaliar o efeito a médio e longo prazo das cianotoxinas sobre organismos zooplanctônicos. Material e Métodos A toxicidade aguda a cladóceros foi determinada como Concentração Efetiva (CE50-48h) e os efeitos crônicos observados foram aqueles sobre a sobrevivência e a reprodução. As cianobactérias da cepa NPLJ-4 foram mantidas no meio ASM-1, à temperatura de 21°C e pH 8,0. Os testes de toxicidade aguda com extratos algais de ambas cianobactérias, a cepa NPLJ-4 e as florações naturais, foram realizados com os microcrustáceos Daphnia similis, Ceriodaphnia dubia e Ceriodaphnia silvestrii. O material foi coletado nos reservatórios de Barra Bonita e Ibitinga, médio rio Tietê, liofilizado e acondicionado em freezer até a realização dos testes. Desta biomassa seca foram preparados extratos aquosos nos mesmos meios de cultivo dos microcrustáceos utilizados como organismos-teste. A liberação das toxinas na água foi obtida por meio de ruptura celular obtida com o sucessivo congelamento e descongelamento, em alternância, e posterior sonificação da solução. O material aquoso foi, então, centrifugado para precipitação das células rompidas e o sobrenadante foi utilizado nos testes de toxicidade, preparando-se soluções com concentrações decrescentes a partir deste extrato. As concentrações testadas para as florações oriundas dos reservatórios de Barra Bonita e de Ibitinga foram: 0,400; 0,200; 0,100; 0,050 e 0,025 mg/mL de peso seco (p.s.). Aqueles realizados com a suspensão de Microcystis aeruginosa cultivada em laboratório (cepa NPLJ-4) foram: 2,5; 1,25; 0,625; 0,312 e 0,156 mg/mL de peso seco (p.s.). A duração dos testes foi de 48 horas. Para o cálculo estatístico da CE50-48h foi utilizado o programa Trimmed Spearman-Karber (HAMILTON et al. 1977). Os testes de toxicidade utilizando microcrustáceos como organismos-teste foram realizados de acordo com os procedimentos indicados em normas técnicas padronizadas (IBAMA, 1990; CETESB, 1991; ABNT, 1993). Com base nos resultados dos testes agudos, no mínimo quatro concentrações consideradas subletais foram selecionadas além do controle, para a realização de testes crônicos de toxicidade. As concentrações testadas, utilizando-se a cepa da floração de Ibitinga, foram: 0,003; 0,006; 0,012; e 0,025 mg/mL de peso seco. Nos testes com a cepa da floração de Barra Bonita as concentrações foram: 0,012; 0,025; 0,050; e 0,100 mg/mL de peso seco. Enquanto para a cepa NPLJ-4 as concentrações subletais testadas foram: 0,01; 0,02; 0,04; e 0,08 mg/mL de peso seco. Num período variando de 7 a 10 dias, foram registradas diariamente, a mortalidade e a fecundidade (para os sobreviventes), até a terceira geração. Os resultados obtidos nos ensaios foram expressos como percentual de organismos mortos e fecundidade total. Os dados foram estatisticamente comparados utilizando-se o programa computacional “TOXTAT 3.4” (GULLEY et al. 1994). Resultados e Discussão Página 72 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP 0,45 0,40 CE50-48hs (mg/mL) 0,35 0,30 0,25 0,20 0,15 0,10 0,05 Barra Bonita Ibitinga cepa NPLJ-4 Amostras de cianobactéria Figura 1. Avaliação da toxicidade (CL50) de diferentes florações naturais de algas, com predominância da cianobactéria Microcystis aeruginosa, oriundas dos reservatórios de Barra Bonita e Ibitinga, e da toxicidade de uma linhagem desta alga (cepa NPLJ-4), aos cladóceros planctônicos. A Figura 1 mostra que a floração do reservatório de Ibitinga apresenta um maior efeito sobre a sobrevivência dos cladóceros (uma maior toxicidade) do que a floração presente no reservatório de Barra Bonita e as cianobactérias da cepa NPLJ-4. 0,45 0,40 CE50-48hs (mg/mL) 0,35 0,30 0,25 0,20 0,15 0,10 0,05 0,00 -0,05 Daphnia similis Ceriodaphnia dubia Ceriodaphnia silvestrii Organismos-teste Figura 2. Avaliação da sensibilidade (CL50) de diferentes espécies de Cladocera (Daphnia similis, Ceriodapnhia dubia e Ceriodaphnia silvestrii) à cianobactéria Microcystis aeruginosa (cepa NPLJ-4, cultivada em laboratório, e extratos de florações naturais dos reservatório do Médio rio Tietê). Os diferentes cladóceros (Daphnia similis, Ceriodapnhia dubia e Ceriodaphnia silvestrii) apresentaram uma similar sensibilidade às toxinas da cianobactéria Microcystis aeruginosa, como evidenciado pelo teste ANOVA. Para as florações de cianobactérias dos reservatórios de Barra Bonita e Ibitinga, obteve-se nos testes agudo uma elevada toxicidade, com CE50-48h para Daphnia similis de 0,15 e 0,13 mg/mL (p.s.); 0,26 e Página 73 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP 0,13 mg/mL (p.s.) para Ceriodaphnia dubia; e 0,26 e 0,13 mg/mL (p.s.) para C.silvestrii, respectivamente. Para a cepa NPLJ-4, comprovou-se a sua alta toxicidade aguda com valores de CE50-48h de 23 mg/mL (p.s.) para Daphnia similis; uma CE50-48h de 0,25 mg/mL (p.s.) para Ceriodaphnia dubia; e 0,26 mg/mL (p.s.) para C. silvestrii. A realização de testes crônicos de toxicidade com o microcrustáceo Ceriodaphnia silvestrii, o qual complementou os estudos sobre a toxicidade aguda das florações, indicou efeitos subletais na fecundidade e na sobrevivência dos organismos, que não foram detectados através dos testes de toxicidade aguda. Nos testes crônicos de toxicidade, a avaliação da fecundidade, para as amostras liofilizadas dos reservatórios de Barra Bonita e Ibitinga, demonstrou que o número de neonatas produzidas foi inversamente proporcional à concentração testada. O menor número de neonatas produzidas, durante o teste crônico da amostra de Barra Bonita, foi igual a oito na concentração de 0,1 mg/mL (p.s.) e o maior número igual a 205 neonatas para 0,0125 mg/mL (p.s.), sendo que o maior número não foi superior ao observado no controle (239 neonatas). Já para a amostra de Ibitinga, o menor número de neonatas produzidas foi igual a 116 na concentração de 0,025mg/mL (p.s.) e o maior igual a 206 neonatas para 0,0031 mg/mL (p.s.), sendo que o maior número também não foi superior ao observado no controle (239 neonatas). Nos ensaios com a cepa NPLJ-4, o número de neonatas não foi crescente da maior para a menor concentração testada. O menor número de neonatas produzidas foi igual a 116 na concentração de 0,08 mg/mL (p.s.) e o maior igual a 209 neonatas para 0,02 mg/mL (p.s.). Esse maior valor observado de neonatas foi muito próximo ao encontrado para a menor concentração testada (0,01 mg/mL), uma vez que o número médio de neonatas registrado foi de 207. O maior número de neonatas não foi superior ao observado no controle (239). Na avaliação da toxicidade crônica das cianobactérias das florações de Barra Bonita e Ibitinga, e da cepa NPLJ-4 de Microcystis aeruginosa foi observado que as três amostras testadas promoveram uma redução estatisticamente significativa (p=0,05) na reprodução de Ceriodaphnia silvestrii. Quanto à sobrevivência dos indivíduos de Ceriodaphnia silvestrii, somente a floração de cianobactérias oriunda do reservatório de Barra Bonita teve um efeito tóxico estatisticamente significativo (p=0,05). A sobrevivência obtida na maior concentração (0,1mg/mL) testada para esse extrato foi significativamente diferente daquelas do controle e da menor concentração (0,0125 mg/mL) testada, como evidenciado pelo teste de KRUSKAL-WALLIS. A exposição prolongada do ser humano a florações tóxicas, seja por contato físico, ingestão de algas com toxinas ou de alimentos onde houve bioacumulação deve ser considerada como um sério risco à saúde. É importante que os efeitos crônicos de exposições prolongadas por ingestão oral de baixas concentrações dessas toxinas sejam avaliados (CHORUS & BARTRAM, 1999). Para a bacia do rio Tietê, dadas as evidências obtidas no presente trabalho seria importante aprofundar os estudos quantitativos das toxinas nas florações e na água de abastecimento. Conclusão Página 74 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP • A cepa NPLJ-4 de Microcystis aeruginosa teve um alto nível de toxicidade aguda para as espécies Ceriodaphnia silvestrii, Ceriodaphnia dubia e Daphnia similis. Efeitos sub-letais sobre a reprodução de Ceriodaphnia silvestrii também foram observadas. • A floração de cianobactéria do reservatório de Barra Bonita teve uma alta toxicidade aguda para os microcrustáceos Ceriodaphnia silvestrii, Ceriodaphnia dubia e Daphnia similis; e toxicidade crônica para espécie Ceriodaphnia silvestrii. • A floração do reservatório de Ibitinga ocasionou alta toxicidade aguda para os microcrustáceos Ceriodaphnia silvestrii, Ceriodaphnia dubia e Daphnia similis. E efeitos sub-letais para a reprodução de Ceriodaphnia silvestrii. • Os resultados evidenciam, portanto, que há riscos em relação às florações presentes nos reservatórios do rio Tietê, seja para a biota aquática ou mesmo para o homem na utilização destes ambientes para recreação e pesca, tendo em vista a comprovada ação nociva destas toxinas em seres humanos; indicando, assim, a necessidade de medidas de tratamento da água para remoção de toxinas e a importância da prevenção e/ou remediação da eutrofização nestes corpos de água. • As metodologias implementadas no presente estudo são de fácil aplicação e poderão ser utilizadas no monitoramento da toxicidade das florações de cianobactérias nos corpos de água naturais. BIBLIOGRAFIA ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas. (1993). NBR 12713: Água - ensaio de toxicidade aguda com Daphnia similis Claus, 1876 (Cladocera, Crustacea). Rio de Janeiro, 12p. CETESB-Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental (1991). Água - teste de toxicidade aguda com Daphnia similis Claus, 1876 (Cladocera, Crustacea). São Paulo. CETESB, 33p. Norma Técnica L5 018. CHORUS, I. (2001). Cianotoxins – ocurrence, causes, consequences. Springer-Verlag Berlin Heidelberg. Germany. 357p. CHORUS, I. & BARTRAM, J. (ed.). (1999). Toxic Cyanobacteria in water: agude line to public health significance, monitoring and management. World Health Organization, London and New York. DI BERNARDO, L. (1995). Algas e suas Influências na Qualidade das Águas e Tecnologias de Tratamento. Rio de Janeiro. ABES, 140 p. GULLEY, D.D.; BOELTER, A.M. & BERGMAN, H.L. (1994). TOXSTAT 3.4 Computer Program. HAMILTON, M.A; RUSSO, R.C. & THURFTON, R.B. (1977). Trimmed Spearman-Karber methods for estimating median lethal concentration in toxicity bioassay. Environmental Science and Technology. 714, 11 (7), correction, 417, 12 (4), 1978. IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. (1990). Manual de testes para avaliação da ecotoxicidade de agentes químicos. Brasília, Segunda edição, IBAMA. SKULBERG, O.M.; CARMICHAEL, W.W.; COOD, G.A. & SKULBERG, R. (1993). Taxonomy of toxic cyanophycea (cyanobacteria) algal toxins in seafood and drinking water. Academic Press Ltda. Chap 9. Página 75 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP TUNDISI, J.G. & MATSUMURA-TUNDISI, T. (1992). Eutrofication of lakes and reservoirs: a comparative analysis, case studies, perspectives. In: CORDEIRO-MARINHO et al., Algae and environment – a general approach. Sociedade Brasileira de Ficologia. 1-33p. Página 76 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Cultivo de Hydra viridissima em condições laboratoriais, visando sua utilização em estudos ecotoxicológicos MASSARO, FERNANDA C.1,2; ROCHA, ODETE (ORIENTADORA)1 1 Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva – CCBS – UFSCar 2 Email: [email protected] Introdução Algumas espécies, sensíveis à poluição ambiental podem fornecer informações relevantes para os programas de avaliação e biomonitoramento (ADAMS, 1995). As normas para avaliação dos efeitos toxicológicos para efluentes e corpos receptores com organismos de água doce têm sido desenvolvidas e implementadas em diversos países, inclusive no Brasil (CETESB, 1991a, 1991b, 1992; USEPA, 1989; ISO, 1982; ABNT, 1992, 1993). No Brasil, esforços têm sido feitos atualmente com o objetivo de desenvolver metodologias de testes de toxicidade utilizando espécies nativas, tanto nos ambientes de água doce como nos marinhos, nos diferentes níveis da cadeia trófica que possam ser utilizadas como organismos-teste para a avaliação da toxicidade em sedimentos e água (FONSECA, 1991). Para a realização de testes ecotoxicológicos é importante selecionar adequadamente a espécie que será utilizada como indicadora dos efeitos contaminantes, pois a resposta de um grupo de organismos é geralmente utilizada para representar uma comunidade inteira (ELDER, 1990). Alguns dos critérios para a seleção da espécie-teste é a facilidade de manutenção do organismo em laboratório, um ciclo de vida curto e conhecimento detalhado da biologia da espécie. Os Cnidaria de água doce do Estado de São Paulo e do Brasil são pouco conhecidos em comparação com aqueles dos Estados Unidos ou da Europa (SILVEIRA & SCHLENZ, 1999). Estudos sobre o ciclo de vida de uma espécie nativa de hidra em laboratório fornecem dados importantes sobre a biologia da espécie e adicionalmente, dependendo de sua sensibilidade, poder-se-á utilizá-la como organismo-teste em estudos ecotoxicológicos. Objetivos Os objetivos deste trabalho foram: 1.Estudo detalhado do ciclo de vida de uma espécie nativa de hidra em condições laboratoriais. 2.Determinação das melhores condições ambientais para o crescimento e reprodução dos organismos. 3.Determinação das taxas de crescimento populacional desta espécie nativa em condições laboratoriais. Material e Métodos Página 77 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP As hidras foram coletadas em amostras de macrófitas na Represa de Furnas, Minas Gerais. Utilizouse como meio de cultivo para as hidras uma água reconstituída. Esta água foi preparada misturando-se em uma proporção de seis para um, respectivamente, água destilada e água coletada nos tanques de cultivo da reserva experimental do DEBE, a qual primeiramente foi filtrada e autoclavada. Os organismos foram mantidos em recipientes circulares de vidro com 20 cm de diâmetro, a uma temperatura de 22±2oC, pH 7,0 a 7,5 e dureza 42 a 48 mg/L de CaCO3. Forneceram-se, como alimento, neonatas do Cladocera Ceriodaphnia silvestrii (três a quatro por indivíduos), quatro vezes por semana (Figura 1). A troca de água e a limpeza do cultivo das hidras foram realizadas em dias alternados. Figura 1 - Hydra viridissima capturando neonatas do cladócero Ceriodaphnia silvestrii. Os indivíduos foram observados a cada três ou quatro dias e enumerados sob estereomicroscópio a fim de se determinar o crescimento populacional da população. A curva de crescimento foi plotada e ajustada por regressão, calculando-se o tempo de duplicação da população através da equação: t = ln2/r, em que “t” é o tempo de duplicação da população e “r” é o coeficiente instantâneo de crescimento (ODUM, 1988). O comprimento e o diâmetro médio das hidras e dos brotos foram determinados utilizando-se lentes micrometradas em estereomicroscópio. Resultados e Discussão O crescimento populacional foi determinado a partir de uma população inicial de oito indivíduos de Hydra viridissima, os quais apresentaram uma taxa elevada de crescimento que pode ser descrito pelo Número de Indivíduos 450 400 350 300 250 200 150 100 50 0 0 5 10 15 20 Tempo (dias) Página 78 de 129 25 30 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP modelo exponencial: y = 6,5416e0,1628x (r ≅ 0,9701) (Figura 2). O tempo de duplicação da população foi de aproximadamente 4,25 dias. Figura 2 - Curva de crescimento populacional de Hydra viridissima em água de cultivo, a 20 ± 2°C e alimentadas com neonatas do cladócero Ceriodaphnia silvestrii. Os brotos apresentaram comprimento e diâmetro médios iniciais de 0,28 ± 0,11 mm e 0,12 ± 0,02 mm, respectivamente (Figura 3A). Após um tempo médio de 1,6 ± 0,5 dias, os brotos atingiram comprimento médio de 0,52 ± 0,2 mm e diâmetro médio de 0,10 ± 0,02 mm, e se destacaram da hidra mãe (Figura 3B). Logo após terem se soltado da hidra mãe, as hidras apresentaram comprimento e diâmetro médios iniciais de 1,3 ± 0,46 mm e 0,10 ± 0,02 mm, respectivamente; e após um tempo médio de 5 ± 1,77 dias, elas atingiram comprimento médio de 2,11 ± 0,42 mm e diâmetro médio de 0,11 ± 0,01 mm; e começaram a se reproduzir. O tempo de geração médio desta espécie em condições laboratoriais foi de 6,6 ± 1,5 dias. Figura 3 - (A) Hydra viridissima com um broto começando a nascer, e (B) com um broto prestes a se destacar. Assim, observou-se que a espécie Hydra viridissima é de fácil cultivo em laboratório, tem elevada taxa de crescimento populacional, e curto tempo de geração, características primordiais para o uso em bioensaios. Conclui-se, portanto, que a espécie parece ser um potencial organismo-teste para estudos ecotoxicológicos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABNT – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1992, NBR 12648: Água – Ensaio de toxicidade com Chlorella vulgaris (Chlorophyceae). Rio de Janeiro. ABNT – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1993, NBR 12713: Água – Ensaio de toxicidade aguda com Daphnia similis Claus, 1876 (Cladocera, Crustacea). Rio de Janeiro. ADAMS, W. J., 1995, Aquatic toxicology testing methods, pp. 25-46. In: D.J. Hoffman, B.A. Rattner, G.A. Burton Jr & J. Cairns Jr (eds.), Handbook of Ecotoxicology. Boca Raton, Lewis Publishers. Página 79 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP CETESB – COMPANHIA DE TECNOLOGIA DE SANEAMENTO AMBIENTAL, 1991a, Água – Teste de toxicidade aguda com Daphnia similis Claus, 1876 (Cladocera, Crustacea). São Paulo. Norma técnica L5 018. CETESB – COMPANHIA DE TECNOLOGIA DE SANEAMENTO AMBIENTAL, 1991b, Avaliação da toxicidade crônica utilizando Ceriodaphnia dubia Richard 1864 (Cladocera, Crustacea). São Paulo. CETESB – COMPANHIA DE TECNOLOGIA DE SANEAMENTO AMBIENTAL, 1992, Métodos de avaliação de toxicidade de poluentes a organismos aquáticos. São Paulo. ELDER, J. F., 1990, Applicability of ambient toxicity testing to national or regional water- quality assessment. U.S. Geological Survey Circular: 1049, Denver, 49p. FONSECA, A. L., 1991, A biologia das espécies Daphnia laevis, Ceriodaphnia similis, (CrustaceaCladocera) e Poecilia reticulata (Pisces, Poeciliidae) e o comportamento destes em testes de toxicidade aquática com efluentes industriais. Dissertação de Mestrado, Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, 210p. ISO – INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STARDARDIZATION, 1982, Determination l’inhibition de la mobilité de Daphnia magna Straus (Cladocera, Crustacea). Première édition, ISO 6341. Qualité des Eaux, Paris. ODUM, E. P., 1988, Ecologia. Ed. Guanabara Koogan S. A. Rio de Janeiro, 434p. SILVEIRA, F. L. & SCHLENZ, E., 1999, Cnidários, pp. 13-15. In D. Ismael,.W. C. Valente, T. M. Tundisi & O. Rocha (eds.), Invertebrados de Água Doce. ed. S. Paulo/SP: FAPESP, v.4, 176p. USEPA – UNITED STATES ENVIRONMENTAL PROTECTION AGENCY, 1989, USEPA/600/489/001. Short-term methods for estimating the cronic toxicity of effluents and receiving waters to freshwater organisms. 2nd . ed., Cincinnati, Ohio. Página 80 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP O Potencial de Reuso de Água (Efluentes Tratados) em um MatadouroFrigorífico João Pedro de Mello Forlani – UNILINS – [email protected] Mônica Medeiros - UNILINS – [email protected] Prof. M.Sc. Luis Fernando Rossi Léo - UNILINS – [email protected] ; [email protected] Diversos problemas relacionados à água sempre coexistiram com o desenvolvimento antrópico. Devido à associação de diversos fatores, a disponibilidade da água superficial de boa qualidade decresce com o seu uso irracional, a exemplo, o lançamento de esgotos domésticos ou industriais in natura no meio-ambiente. Neste contexto, em lugares onde a demanda já ultrapassou a sua disponibilidade, surgem conflitos no uso deste recurso. Os países que dispõem deste recurso natural em abundância deverão desenvolver ações voltadas para a redução de demanda, para a preservação dos mananciais em boas condições, para a recuperação dos mananciais degradados e para a educação popular e empresarial sobre a racionalidade no uso das águas, promovendo o seu uso sustentável. Neste contexto surge o conceito de reuso, que é o reaproveitamento de água já utilizada, na mesma atividade ou em atividade que possua menores exigências de qualidade, com ou sem tratamento. No caso do reuso de esgotos, os benefícios ambientais alcançados são muito grandes. Como exemplo, a cada metro cúbico de esgoto tratado reutilizado deixa-se de explorar o mesmo volume de água limpa do manancial, evita-se os custos de seu tratamento, evita-se também o lançamento deste esgoto e a conseqüente poluição do corpo receptor, existindo ainda a possibilidade de redução de custos com aquisição de água potável para finalidades que não exigem esta qualidade, porém esta economia depende de características locais sócio-econômicas e legais. Segundo LAVRADOR FILHO (apud MANCUSO et al, 2003), reuso de água é o reaproveitamento de águas previamente utilizadas, uma ou mais vezes, em alguma atividade humana, para suprir as necessidades de outros usos benéficos, inclusive o original. Pode ser direto ou indireto, bem como decorrer de ações planejadas ou não planejadas. Ainda segundo este autor, existem as seguintes classificações: Reuso indireto não planejado de água; Reuso planejado de água; Reuso indireto planejado de água; Reuso indireto planejado de água; Reuso indireto planejado de água. WESTERHOFF (apud MANCUSO et al, 2003) subdivide o reuso em duas grandes categorias: potável e não potável. Assim, além dos aspectos ambientais e econômicos, deve ser observado também o aspecto sanitário em projetos de reuso. As formas potenciais de reuso são muitas, e podem ser observadas na FIGURA1. Figura 1: Formas potenciais de reuso. Página 81 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP FONTE: HESPANHOL (1999) Em MANCUSO et al (2003), os usos industriais que apresentam maiores possibilidades de serem viabilizados são: torres de resfriamento; caldeiras; construção civil; irrigação de áreas verdes e jardins; lavagem de pátios e pisos; processos com exigência de qualidade pouco restritiva; Segundo HESPANHOL (1999) os sistemas de reuso adequadamente planejados e administrados trazem melhorias ambientais e de condições de saúde, como: evita a descarga de esgotos em corpos de água; preserva recursos subterrâneos, principalmente em áreas onde a utilização excessiva de aqüíferos provoca intrusão de cunha salina ou subsidência de terrenos; permite a conservação do solo, através da acumulação de húmus e aumenta a resistência à erosão; contribui, principalmente em países em desenvolvimento, para o aumento da produção de alimentos, no caso de irrigação, elevando assim os níveis de saúde, qualidade de vida e condições sociais das populações associadas aos esquemas de reuso. As principais tecnologias aplicadas em sistemas de tratamento e de reuso são: Lagoas de estabilização: lagoas anaeróbias, lagoas aeróbias aeradas ou não aeradas, lagoas facultativas aeradas ou não aeradas, lagoas de maturação; Filtros biológicos: anaeróbios e aeróbios aerados ou não aerados; Lodos ativados; Nitrificação biológica; Desnitrificação biológica; Coagulação, floculação, sedimentação; Recarbonatação ou recarbonetação; Filtração; Arraste de amônia com ar (ammonia stripping); Cloração ao break-point; Ozonização; Adsorção em carvão ativado; Troca iônica; Separação por membranas: osmose reversa, nanofiltração, ultrafiltração, microfiltração, permeação gasosa, difusão gasosa, pervaporação; Eletrodiálises. O objetivo deste trabalho é avaliar e apresentar o potencial de reuso de efluentes tratados em um matadouro-frigorífico, através da apresentação de seu balanço hídrico, da classificação dos diversos usos de água por exigência de qualidade e também dos resultados de um teste laboratorial, tendo sido avaliados os parâmetros DBO, DQO, pH, Sólidos Suspensos Totais, Cor aparente e Turbidez. A importância do desenvolvimento deste trabalho está na contribuição que presta ao conhecimento sobre reuso de esgotos no país, em uma área ainda pouco estudada, e com grande potencial para desenvolver esta atividade, tão necessária, desejável e útil para a promoção da redução de demanda de Página 82 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP água e do lançamento de efluentes tratados, contribuindo para a preservação dos recursos hídricos e para a prevenção contra sua poluição. A literatura traz diversos valores para estimar o consumo de água neste tipo de estabelecimento. TOMAZ (2000), cita que são consumidos em um abatedouro de gado entre 40 a 50 litros/dia/cabeça, o que se verifica um valor muito baixo. O mesmo autor afirma também que são consumidos para abate de animais, 2733 litros/dia/empregado, o que leva a valores mais próximos do observado. BRAILE & CAVALVANTI (1993) afirmam que são consumidos 2500 litros por cabeça abatida, valor este que tem sido adotado como padrão por projetistas para estimar o consumo de água e os volumes de esgotos a ser tratados. Observações dos autores deste trabalho em uma única unidade industrial apontam consumo de aproximadamente 2.200 litros por cabeça abatida. Os abatedouros frigoríficos possuem efluentes de natureza essencialmente orgânica, mesmo quando contam com unidades de industrialização de carne e subprodutos. Por esta característica estes efluentes são na grande maioria dos casos tratados por processos biológicos como lagoas de estabilização, reatores anaeróbios ou sistemas de lodos ativados, de acordo com seu porte, capacidade de abate ou da existência de unidades de industrialização da carne. O matadouro-frigorífico em estudo possui abate médio de 600 cabeças/dia, com picos de 850 cabeças/dia, e abate apenas gado bovino proveniente de criação extensiva ou confinamento. Existe ainda uma unidade de industrialização de subprodutos, conhecida como graxaria, onde os sebos, animais condenados, ossos, cabeças, patas, chifres etc são moídos, digeridos a vapor e transformados em sebo industrial e farinha de carne e osso, matérias-primas para fabricação de sabão e ração animal. A quantidade de água utilizada e o volume estimado de efluentes gerados com média de abate de 600 bois/dia podem ser observados no QUADRO 2. As características físico-químicas médias do efluente bruto, aferidas no processo de auto-monitoramento da indústria, em 18 meses, podem ser observadas no QUADRO 1. O tratamento dos efluentes é realizado de acordo com o fluxograma apresentado na FIGURA 2. Para a realização deste trabalho, foi coletada uma amostra não-composta durante visita ao frigorífico, e foram testados os parâmetros pH, cor aparente, turbidez, sólidos suspensos, DQO e DBO. Os parâmetros físico-químicos do efluente final podem ser observados no QUADRO 3. Quadro 1: Parâmetros dos efluentes. Parâmetro Valor DBO 1.600 mg/L DQO 8.400 mg/L Óleos e Graxas 109 mg/L Sólidos Sedimentáveis 10 ml/L Sólidos Suspensos Totais 1.050 mg/L pH 6.53 Página 83 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Quadro 2: Consumo diário de água tratada e volume estimado de efluentes gerados. uso Consumo diário de água Volume estimado de tratada (litros) efluentes (litros) Lavagem de currais 331.200 331.200 Lavagem de buchos e tripas 108.100 108.100 Lavagem de miúdos, carcaças e graxaria 340.400 340.400 Lavagem do setor de eviscerção 207.000 207.000 Lavagem do setor de matança, equipamentos e desossa 239.200 239.200 Caldeira 60.000 4.000 Reposição no resfriamento 11.500 2.000 Lavagem de caminhões 12.500 12.500 Lavanderia 16.670 16.670 Esgotamento Sanitário 25.000 25.000 Lavagem de filtro da ETA 15.000 15.000 Irrigação de Jardins 20.000 -Consumo total de água tratada 1.387.570 1.301.070 litros/dia Página 84 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Figura 2: Fluxograma da ETE. INDÚSTRIA LINHA SANITÁRIA LINHA VERDE LINHA VERMELHA PENEIRA + FLOTADOR FLOTADOR FINAL LAGOA ANAERÓBIA 1 PENEIRA CAIXA DE MISTURA LAGOA ANAERÓBIA 2 LAGOA FACULTATIVA 1 LAGOA FACULTATIVA 2 LAGOA DE POLIMENTO A amostra de efluente foi submetida, em laboratório, a um teste de coagulação, floculação, sedimentação e filtração para que se avaliasse a possibilidade de reuso desta água com procedimentos de tratamento simples e bastante conhecidos. Utilizou-se como coagulante cloreto férrico (Fe2Cl3) e a floculação foi realizada utilizando-se polímero catiônico. A solução de cloreto férrico utilizada possuía concentração de 4,3 % em massa enquanto a solução de polímero possuía concentração de 0,5 % em massa. Foram realizados diversos testes com diferentes dosagens de coagulante e floculante com 80 ppm de cloreto férrico e 2 ppm de polímero. Em cada teste foi realizada coagulação por mistura rápida por 60 segundos e mistura lenta por aproximadamente 5 minutos. Após estes intervalos, o agitador eletromagnético era desligado e aguardava-se a sedimentação durante 30 minutos, realizando-se em seguida filtração em papel qualitativo. Os resultados das determinações realizadas nos efluentes podem ser observados no QUADRO 4. Página 85 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Quadro 4: Resultados analíticos no efluente bruto e tratado. Parâmetro Efluente Bruto Teste pH 7,46 4,34 Cor aparente (UH) > 50 20 Turbidez (NTU) 30 2,1 Sólidos Suspensos (mg/L) 386 25,3 DQO (mg/L) 240,9 3,0 DBO (mg/L) 72 1,8 As FIGURAS 3 e 4 mostram o efluente tratado e uma comparação entre o mesmo e a água de reuso produzida no teste realizado. Figura 3: Efluente tratado. Figura 4: Comparação entre o efluente tratado e água de reuso produzida. O teste apresentou resultados que podem ser considerados muito bons frente à simplicidade com que foi realizado. Este teste produziu uma água para reuso bastante translúcida, o que pode ser confirmado pelo resultado de apenas 2,1 NTU de turbidez e cor de 20 UC. Outros resultados muito interessantes são os da DQO e DBO, que demonstram uma excelente remoção de matéria orgânica remanescente no efluente tratado. Dos resultados obtidos apenas o pH pode ser considerado desfavorável, por seu caráter ácido, o que poderia causar corrosão nas estruturas com que esta água de reuso entrasse em contato, porém a correção deste pH não envolve tecnologia sofisticada tampouco grandes custos. Alguns usos de água na unidade industrial estudada possuem requisitos de qualidade de água pouco restritivos, por serem usos externos à indústria, não acarretando nenhuma possibilidade ou risco de contaminação dos alimentos e outros subprodutos produzidos. O QUADRO 5 mostra os diversos usos na unidade, seus requisitos de qualidade e os usos onde a água de reuso produzida no teste atenderia estes requisitos. Página 86 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Quadro 5: Usos de água, requisitos de qualidade e possibilidade de reuso. Uso Lavagem de currais Lavagem de buchos e tripas Lavagem de miúdos, carcaças e graxaria Lavagem do setor de eviscerção Lavagem do setor de matança, equipamentos e desossa Caldeira Reposição no resfriamento Lavagem de caminhões Lavanderia Esgotamento Sanitário Lavagem de filtro da ETA Irrigação de Jardins Usos na ETE Consumo total de água tratada Quantidade (litros) 331.200 108.100 340.400 207.000 239.200 Requisitos de Qualidade Atende Potável Potável Potável Potável Possibilidade de reuso 331.200 N N N N 60.000 11.500 12.500 16.670 25.000 15.000 20.000 10.000 1.397.570 Prot. Equip. Prot. Equip. Atende Potável Potável Prot. Equip. Atende Atende N N 12.500 N N N 20.000 10.000 373.700 As principais conclusões obtidas no desenvolvimento do presente trabalho são: aproximadamente 27% da demanda de água da unidade industrial estudada pode ser atendida com água de reuso; o tratamento necessário para atingir a qualidade exigida para os usos propostos é bastante simples, sendo coagulação com cloreto férrico, floculação com polímero, decantação e filtração; a implantação de sistema de reuso semelhante a proposto neste trabalho pode ser facilitada devido ao grande conhecimento e experiência nacional de utilização da tecnologia testada; os custos de implantação destes sistemas, bem como os de operação e manutenção possivelmente são inferiores aos mesmos custos associados a sistemas mais complexos, como os de membranas ou troca iônica; a implantação de um sistema semelhante ao proposto geraria ganhos ambientais, tais como uma menor exploração dos mananciais e um menor volume de esgotos lançados nos corpos receptores; os efluentes de sistemas facultativos possuem boa tratabilidade e grande potencial de serem reutilizados após tratamento físico-químico simples; o consumo de produtos químicos é relativamente pequeno, sendo viável onde há cobrança pela captação de água; a implantação de um sistema de reuso semelhante ao proposto poderia gerar economia na adução e recalque de água bruta e no tratamento para potabilização desta água. As principais recomendações que seguem deste trabalho são: realizar novamente o estudo apresentado com equipamentos jar-test a fim de refinar a dosagem necessária do coagulante e floculante; estudar o uso de coagulantes e floculantes de menor custo; realizar estudo microbiológico na água obtida para reuso; realizar teste de demanda de cloro para desinfecção; realizar estudo econômico-financeiro referente à implantação de um sistema em escala real. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRAILE, P.M., CAVALCANTI, J.E.W.A. (1993) Matadouros e Frigoríficos. In:. Manual de Tratamento de Águas Residuárias Industriais. São Paulo: Cetesb, Capítulo 8, p.155-174. Página 87 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP HESPANHOL, I. (1999) Água e Saneamento Básico – Uma Visão Realista. In: Águas Doces no Brasil – Capital Ecológico, Uso e Conservação. São Paulo: Escrituras. Capítulo 08, p. 249-304. HESPANHOL, I. (2002) Potencial de Reuso de Água no Brasil. Agricultura, Indústria, Municípios, Recarga de Aqüíferos. In: Revista Brasileira de Recursos Hídricos. Vol. 7, n. 4, out/dez 2003, p. 75-95. MANCUSO, P.C.S., SANTOS, H.F. (2003) Reuso de Água. Barueri, São Paulo: Manole. 1 ed. 579 p. TOMAZ, P. (2000) Previsão do Consumo de Água: Interface das Instalações Prediais de Água e Esgoto com os Serviços Públicos. São Paulo: Navegar Editora. 1 ed. 250 p. Página 88 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Possível Impacto da Alimentação do Tucunaré, cichla cf monoculus spix, 1831(perciformes, cichlidae), recentemente Introduzido na Represa do Lobo (Broa), Itirapina – Brotas/SP VELLUDO1, M.R.([email protected]); SOUZA1, J.E.; FRAGOSO2, E.N.; FENERICHVERANI2, N. e ROCHA3, O. e ESPÍNDOLA4, E.L.G. 1 Bolsistas CNPq; 2Depto. de Hidrobiologia/UFSCar; 3Depto.de Ecologia e Biologia Evolutiva /UFSCar; 4 CHREA – USP – São Carlos/SP. IC/CNPq; PROBIO; MMA. Introdução e Justificativa O conhecimento da alimentação natural dos peixes é essencial para compreender melhor outros assuntos sobre sua alimentação tais como o da nutrição que estuda as necessidades e a assimilação dos alimentos, os levantamentos faunísticos e florísticos que podem ser obtidos utilizando os predadores como simples meio de coleta, e a ecologia trófica. O estudo da alimentação de peixes baseado na análise do conteúdo estomacal é fundamental para o conhecimento das relações existentes entre as distintas espécies, bem como o planejamento da exploração racional dos recursos pesqueiros. A dieta ou regime alimentar refere-se à natureza do alimento preferido ou mais usado pelo peixe. Carnívoros são peixes que selecionam alimento animal vivo, incluindo zooplâncton. Quando o alimento é constituído principalmente por peixe é chamado de piscívoro ou ictiófago. Os peixes diferem quanto ao tipo de alimento consumido, mais do que qualquer outro grupo de vertebrados (NIKOLSKY, 1963). Animais têm, em geral, uma adaptação quase infinita para alimentos orgânicos, tanto na formação das mandíbulas, dentição e aparelho digestivo como nas técnicas de detecção e captura de presas. O Tucunaré, Cichla cf monoculus é um peixe amazônico da família Cichlidae que apresenta um porte avantajado, chegando a atingir 70cm de comprimento, de cor amarelo-clara, possui manchas escuras pelo corpo e um ocelo característico na base da cauda, de cor escura circundada por uma faixa amarela brilhante; com cabeça larga e boca bem rasgada. A linha lateral é completa nos peixes jovens e interrompida nos adultos. Tucunarés adultos, indivíduos com comprimento padrão acima de 200mm, são classificados como predadores, incluindo em sua alimentação itens macroscópicos, exigindo certas adaptações: dentes bem desenvolvidos para apreensão, estômago bem definido, com fortes secreções ácidas, e intestino mais curto do que o dos herbívoros do mesmo tamanho. Estes indivíduos apresentam dieta estritamente ictiófaga. Porém, podem ocorrer variações na dieta relacionadas com o crescimento ou idade do peixe, muitas vezes acompanhada de mudanças na estrutura do tubo digestivo, mudanças morfológicas e comportamentais, tendo os Tucunarés jovens, de comprimento padrão até 120mm, uma alimentação essencialmente de zooplâncton (microcrustáceos). Página 89 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP A transição se dá entre 60 e 200mm (CP) com os jovens passando a ingerir insetos, camarões e peixes pequenos, permanecendo em cardumes, e acima deste tamanho, os peixes adultos se tornam solitários, passando a alimentar-se de peixes maiores. C. cf monoculus apresenta um comportamento oportunista, sendo um predador de “caça”, estritamente diurno, capaz de perseguir sua presa por longas distâncias - talvez por 10 metros ou mais, podendo realizar até seis ataques por perseguição - se for necessária a captura. Sendo aclimatado em quase todas as regiões do Brasil, é considerado o "REI DOS RIOS", devido a suas características de agressividade e predador nato. Hoje é o símbolo maior da pesca esportiva do país. Atualmente vem sendo introduzido em Clubes de pesca, como a grande atração junto ao público pela sua esportividade e qualidade da sua carne que é considerada nobre de requinte paladar. Por ser um peixe carnívoro, é recomendado para povoamento de represas, açudes ou tanques onde tenha super população de outras espécies como: tilápia e lambari, que servirão de alimentação natural para ele, mantendo assim um equilíbrio. Porém, a introdução de espécies predadoras tem acarretado profundas modificações na estrutura original da ictiofauna desses ambientes aquáticos. Vários problemas podem surgir a partir destas introduções, tais como, degradação do ambiente e da comunidade hospedeira, introdução de parasitas e doenças, além de efeitos sócio-econômicos negativos. A ação de fatores impactantes como os já mencionados motivaram o estabelecimento do Projeto de conservação e utilização sustentável da diversidade biológica brasileira (PROBIO), sub-projeto análise do impacto ambiental causado por espécies exóticas. É evidente a necessária implementação da exploração racional dos estoques de peixes, baseada em estudos da biologia das espécies, em especial o conhecimento preliminar sobre a preferência alimentar, com o estabelecimento de limites para o aproveitamento, de forma sustentável, dos recursos disponíveis na natureza, o que implica na necessidade de uma investigação sobre a potencialidade de tais recursos e demanda a realização de estudos sistemáticos. O estudo da alimentação de peixes é de vital importância não somente para o conhecimento da biologia das espécies em particular, mas também como ferramenta de grande valia na compreensão das interações das diferentes populações dentro de uma determinada comunidade. Assim devemos analisar pela alimentação o possível impacto desta espécie na represa do Lobo (Broa) Itirapina-Brotas/SP. Local de Estudo A Represa do Lobo, situada geograficamente a 22º15’ de latitude sul e 47º49’ de longitude oeste de Greenwich, entre os municípios de Brotas e Itirapina, na região central do Estado de São Paulo, a uma altitude de 705m. Ë formada por uma rede de pequenos rios com padrão dendrítico, numa área onde diferentes gradientes de cerrado dominam a vegetação. O clima da região é controlado pelas massas de ar equatorial e tropical com períodos seco (maio a outubro) e úmido (novembro a abril). Segundo a classificação de Köppen, o clima pode ser considerado como Cwai-Awi, quente com período seco. A Página 90 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP vegetação predominante na bacia é o cerrado, com manchas de mata galeria nos solos mais úmidos. Em algumas regiões encontra-se também o reflorestamento com Pinus sp, e áreas de agricultura, principalmente a cana-de-açúcar e laranja. O reservatório é raso, turbulento e polimítico, com períodos limitados de estratificação térmica e química e com nutrientes limitantes ao crescimento e produção primária do fitoplâncton. Material e Métodos As coletas foram realizadas por redes de espera em três pontos amostrais, e por arrasto. Todos os peixes retirados da rede passaram por biometria, em laboratório. Através de uma incisão feita ventralmente no peixe, os estômagos foram retirados, cortando-se a junção deste com o intestino, sendo fixados em formol (4%). Os conteúdos dos estômagos foram examinados sob lupa e microscópio óptico, identificados até o nível taxonômico mais baixo possível e, posteriormente empregado o método de freqüência de ocorrência (F%) e método de pontos para o cálculo do índice alimentar (IA), como forma de estudo comparativo com a nova análise proposta pela estimativa da preferência alimentar pelo peso seco de cada item, avaliando a percentagem que representa do conteúdo total que será realizada. Discussão e Conclusão As análises do conteúdo estomacal dos exemplares coletados nos meses de janeiro a maio revelaram grande variedade na alimentação. A predominância de alevinos da família Cichlidae, em termos de freqüência de ocorrência (11,96%) e de maior importância no índice alimentar (0.3350) foi evidente. Detrito animal, notadamente escamas, espinhas e fragmentos de tecidos representaram o segundo item em importância, com IA de 17,74 e freqüência 9,4%, massa amorfa detritiva o terceiro item em índice alimentar (0,0952), porém em freqüência nematodas apresenta-se em terceiro lugar. Foram observados Cichlídeos da subfamília Pseudocrenilabrinae (Tilápias) com F:2,56% e IA:0,0104. Geophagus brasiliensis (Acará) 2,56% e 0,0156, registrando-se casos de canibalismo, 5,98% e 0,0838, detrito animal da subfamília Incertae sedis, 1,71% e 0,0045 e um caso da família Erythrinidae. Também foi observada a presença de ovos de peixes (F:0,85%). Itens adicionais como restos de vegetais superiores (F:5,98%) e sedimento (F:4,27%) foram ingeridos provavelmente de maneira acidental. O grau de digestão se refletiu nos insetos encontrados nos conteúdos estomacais. A fragmentação dificultou a determinação das ordens, sendo a maioria reunida no item insetos. Foram encontradas fases imaturas de insetos na dieta, onde ocorreram ninfas de Odonata e Diptera, principalmente da família Calboridae e, Chironomidae em menor grau. De modo geral os dados demonstram a predominância da predação sobre indivíduos da família Cichlidae, possivelmente relacionada a grande abundância no reservatório, caracterizando o hábito piscívoro desta espécie, bem como a presença de restos animais na dieta. Página 91 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP O conteúdo estomacal encontra-se diversificado entre os diferentes tamanhos observados, os indivíduos jovens ocupando um nicho trófico diferente dos indivíduos adultos. A não sobreposição alimentar colabora para a falta de competição intraespecífica nesta espécie. Microcrustáceos revelaram-se preferencialmente predados pelos indivíduos mais jovens, compondose em sua maioria de copepoda, dos gêneros calanoida e cyclopoida, talvez pela disponibilidade deste no meio, demonstrando um caráter oportunista do Tucunaré e os cladóceros Moina sp, Daphnia ambígua e Ceriodaphnia cornuta. As fases imaturas de insetos também contribuíram grandemente para a dieta dos indivíduos jovens, demonstrando grande preferência, entre os identificados, pelos indivíduos da família Calboridae. Estes indivíduos ocupam toda a coluna d’água por apresentarem sacos aéreos e expansões que permitem flutuabilidade, tornando os indivíduos deste gênero mais vulneráveis ao ataque. Insetos constituíram a alimentação dos indivíduos jovens em uma fase que se pode considerar de transição para o hábito estritamente piscívoro, identificando-se indivíduos das ordens Hemiptera em grande abundância, e Hymenoptera da família Formicidae, constituindo um recurso alóctone utilizado em pequena proporção, mas uma característica oportunista desta espécie. Acredita-se que os nematodas apesar de fortemente representados destro do estômago, não constituam um item alimentar, mas sejam formas parasitas internos presentes por todo o organismo, uma característica relacionada a invasão de espécies em ambientes alóctones é a grande infestação de parasitas. Apesar da população do entorno sugerir que o Tucunaré tenha exterminado os lambaris presentes no reservatório a ocorrência de detritos da subfamília Incertae sedis foi baixa. A grande freqüência destes em estudos de levantamento da icitiofauna local pode representar uma modificação no comportamento destes indivíduos que migraram para o outro lado do reservatório, longe do banco de macrófitas onde os Tucunarés se reproduzem e permanecem, descartando a hipótese de predação. Estudos atuais de espécies de peixes comparados à estudos realizados antes da introdução do Tucunaré neste reservatório demonstram que C. cf monoculus não teve grande impacto sobre a composição da comunidade de peixes que é a mesma observada antes da introdução da espécie em estudo. Mas, pela diversidade de ítens alimentares consumidos e pelo hábito alimentar preferencialmente piscívoro, pode-se concluir que a introdução do tucunaré na represa do Lobo ocasiona impactos relevantes na cadeia trófica daquele sistema. Cichla cf monoculus apresentou uma dieta variada quando ao tamanho dos indivíduos analisados, diferindo nos itens preferencialmente ingeridos e nas táticas alimentares empregadas, abrangendo um amplo espectro na sua dieta alimentar. Mas podendo, as formas adultas, serem consideradas com forte tendência piscívora. Canibalismo representa um recurso utilizado apenas em ambientes onde é introduzido podendo se tratar de uma dieta de alta qualidade, autocontrole ou competição. A existência de períodos mais chuvosos e de seca, além da flutuação regular no nível de água do reservatório requerem a realização de estudos complementares para determinação se pode exercer influência na alimentação da espécie estudada. Outros fatores como a sobrevivência desta espécie em temperaturas mais amenas do que as observadas em sua bacia de origem inferem uma tendência ao menor porte, como o apresentado pelos Página 92 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP indivíduos estudados e a grande quantidade de organismos jovens e imaturos pode ocasionar um forte impacto não na ictiofauna, mas na comunidade zooplanctônica, sendo necessários levantamentos que corroborem com esta hipótese. Estudo da Viabilidade do Coagulante Sulfato Férrico no Sistema de Tratamento de Água da Empresa “Águas de Limeira” Maria A. C. de Medeiros *(1), Cleonildo A. de Souza (1),(2) e Cléber E. R. Salvi (2) (1) UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS – UNICAMP – CESET - Departamento de Tecnologia em Saneamento Ambiental - Campus de Limeira (email: [email protected]) (2) Empresa Águas de Limeira – Limeira-SP Introdução Limeira é um município que tem uma área de 597 Km2, sendo 108,23 Km2 de área urbana e 488,77 Km2 de área rural, altitude média de 567 m e temperatura média anual é de 22 ºC. Segundo dados do censo demográfico de 2000, Limeira possui uma população de 248.632 habitantes. Atualmente a cidade tem 100% de distribuição de água e 100% de coleta e afastamento de esgoto e com as obras do Programa de Despoluição a cidade já atingiu 60% de eficiência no tratamento de seus esgotos. A empresa responsável pelo saneamento básico na cidade é a Águas de Limeira (primeira empresa privada responsável pelos serviços públicos de saneamento a operar no Brasil), onde iniciou suas atividades a partir de junho 1995 após a assinatura do contrato de concessão entre Prefeitura Municipal (poder concedente) e Águas de Limeira (concessionária), através do qual ficou responsável pela gestão de serviços de água e esgoto no município de Limeira. Estes serviços abrangem desde a captação de água bruta, adução, tratamento e distribuição de água potável, bem com a coleta afastamento, tratamento e distribuição final dos esgotos. Em 1998 a Águas de Limeira se tornou a primeira empresa do setor de saneamento na América Latina a ser certificada ISSO 9002 para todos os serviços relacionados a água potável, com complementação da certificação em 1999 para os serviços de coleta e tratamento de esgoto, obtendo então 100% de seus serviços certificados através da norma ISSO 9002. Já em 2002 a empresa passou novamente por uma avaliação onde os auditores puderam verificar o Sistema de Gestão da Qualidade de acordo com os requisitos da ISO 9001:2000 e o resultado foi satisfatório e a concessionária obteve a certificação na versão 2000. Graças a todo esse trabalho, hoje o quadro na área de saneamento básico na cidade, se encontra da seguinte maneira: Tratamento e Distribuição de Água População atendida (aproximadamente) 250.000 Índice de atendimento de água (% da população total) 100% Volume produzido de água 21.321.760 m3 Página 93 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Volume de água tratada (em relação ao total produzido) Quantidade de reservatórios de água 20.736.999 m3 24 Capacidade de armazenamento dos reservatórios de água 43.860 m3 Quantidade de Estação de tratamento de Água 01 Capacidade de armazenamento da estação de tratamento 12.000 m3 Número de ligações de água 77.234 Número de funcionários para cada mil ligações de água 2,5 * Extensão de rede de água ( em Km ) 947,500 Coleta, Afastamento e Tratamento de Esgoto Índice de atendimento de esgoto ( % da população rural ) 100% Volume produzido de esgoto 30.078 m3/dia Volume de esgoto tratado ( em relação ao total produzido ) 60% Quantidade de estação de tratamento 03 Número de ligações de esgoto 76.828 Número de funcionários para cada mil ligações de esgoto 2,5 Extensão de rede de esgoto ( em Km ) 808,165. Importância do Tratamento de Água Em nosso planeta existe uma limitação de disponibilidade de água doce, tanto que defensores do meio ambiente, verificando o balanço global, teoricamente, comprovaram que, ainda neste século ( XXI~ ano 2070 ), ocorrerá escassez de água doce para consumo humano (TUNDISI, 2003). Atualmente, verifica-se a degradação da natureza de forma indiscriminada, pelo controle precário dos lançamentos de resíduos nos rios. Além disso, a mata ciliar está sendo substituída pôr plantações agrícolas, visando a ampliação da área de cultivo e conseqüentemente, o aumento do lucro. Este procedimento, dentre outros grandes prejuízos ambientais, gera um aumento significativo da turbidez dos cursos d’água. Além de mais turva, a qualidade da água dos rios torna-se cada vez pior, com maior variedade de componentes químicos, físicos e biológicos dificultando e encarecendo seu tratamento. É fundamental que profissionais da área de Saneamento se envolvam com esta gama de variáveis que influenciam diretamente a qualidade da água, propiciando seu efetivo tratamento para consumo direto e indireto dos seres humanos. Um dos principais passos de tratamento de água do manancial na entrada da água bruta na ETA (Estação de Tratamento de Água), é a coagulação. Dada a importância da coagulação na ETA, caso esta etapa de coagulação não tenha êxito, em certas situações obriga o descarte de toda a água, pois essa água não atingiria os padrões de potabilidade e também causando outros problemas como custo (perda do produto já dosado), dependendo da gravidade pode gerar falta de água na cidade, com isso gerando reclamações dos clientes (população). Página 94 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP A coagulação consiste em adicionar o composto químico (coagulante) ao afluente de água bruta na ETA e, no mesmo instante, promover, por meio de mistura rápida hidráulica ou mecânica a homogeneização da mistura, controlando o pH da água para melhor eficiência de coagulação. As impurezas encontradas nas águas superficiais são as seguintes: sólidos dissolvidos, gases dissolvidos, compostos orgânicos dissolvidos e matéria em suspensão, tais como, microrganismos (bactéria, algas e fungos) e colóides. A maioria destas impurezas apresenta cargas negativas em suas superfícies, repelindo-se uma às outras, mantendo-se em suspensão estável por longos períodos de tempo. Estas partículas, devido ao tamanho reduzido levariam um tempo muito longo para sedimentar, impossibilitando sua remoção somente por sedimentação. Por meio de produtos químicos (sais de ferro e alumínio), pode-se promover a união destas partículas, adicionando-se produtos químicos (denominados coagulantes) na água bruta, e rapidamente procurando-se homogeneizar a mistura mecânica ou hidraulicamente, este processo é denominado “coagulação”. Após a coagulação, a água percorre uma série de reatores, cada um deles dotado de um gradiente médio de velocidade, fazendo com que as partículas presentes na água bruta unam-se formando os flocos, esta operação é denominada floculação. A água é um meio de transporte para diversas doenças. Segundo Di Bernardo (1993, 1995), podem existir microrganismos na água que são resistentes à desinfecção por longo tempo de contato, dificultando a sua eliminação. Neste contexto, o presente trabalho, visa investigar a eficiência do coagulante sulfato férrico, comparando com o coagulante atualmente utilizado na ETA, sulfato de alumínio, ,analisando e comparando suas respectivas eficiências e possível diminuição do custo do tratamento de água, posteriormente serão realizados testes com outros coagulantes. Objetivos Os objetivos deste estudo foram comparar a eficiência dos seguintes coagulantes: sulfato férrico e sulfato de alumínio, visando á otimização do tratamento de água, sendo que este último já é empregado no sistema de tratamento de água da cidade de Limeira. Materiais e Métodos Materiais e Equipamentos Utilizados - Aparelho para ensaio de Jar-test marca Orion - pHmentro de bancada marca Orion - Turbidimetro de bancada , Cubetas para leitura de tubibez e cor - Espectrofotômetro leitura digital – DR2000, Cubetas para leitura Alumínio e ferro - Suporte Universal, Bureta semi-automática - Bomba a vácuo - Pipetas de 5 e10 ml, Papel de filtro, Suporte para fiitração - Beckers 250 ml, Pêra para pipetação, Pisseta, Provetas 50 e 100 ml Página 95 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Produtos Químicos - Sulfato de alumínio - Sulfato férrico - Polímero não iônico (polieletrólito) - Ácido sulfúrico 0,02 N, Hidróxido de sódio 0,02 N - Solução de Eriocromocianina - Ácido ascórbico, Solução tampão acetato de sódio - Tiosulfato de sódio 0,1 N, Fenolftaleína, Indicador Misto. Metodologia As análises físico-químicas efetuadas no presente trabalho estão baseadas em metodologias descritas no “Standard Methods for the Examination of Water end Wastewater” e nas Apostilas de Química Sanitária e Laboratório de Saneamento I e II, CESET/UNICAMP (MEDEIROS et al). Procedimento Experimental O trabalho foi efetuado com dois tipos de água, utilizando-se dois tipos de coagulante para cada tipo de água. Os seguintes passos foram adotados: utilização da água do Rio Jaguari com diferentes turbidez, execução dos ensaios de coagulação, floculação e decantação e medição de parâmetros. Preparo das Águas A partir da água do Rio Jaguari foram utilizados dois tipos de água – Tipo I e Tipo II. A água Tipo I possui turbidez elevada, a água Tipo II possui turbidez baixa, água retirada da Calha Parschal da ETA. Água Tipo I Água da Calha Parschal, captada do Rio Jaguari e bombeada até uma caixa denominada São Lucas de onde é aduzida até a ETA, turbidez entre 100 à 120 NTU foi necessário estocar em bombonas de 250 L, para obter-se uma água com esta turbidez para os testes, pois a água do rio varia constantemente. Água Tipo II Água da Calha Parschal catada do Rio Jaguari, turbidez entre 20 à 30 NTU, também foi necessário estocar em bombonas, pois poderia variar a turbidez do rio. Ensaios no Equipamento de Jar-test Os ensaios no equipamento de Jar-test (Figura 1) foram efetuados na seqüência e de acordo com o seguinte procedimento: • Colocar a água bruta nas seis cubas, cada cuba contem dois litros; Colocar o coagulante nas cubas com dosagem pré-estabelecida (lembrando-se de deixar a melhor dosagem entre a as cubas 3 e 4, para se ter uma margem de erro), utilizando pipeta de 10 mL; Página 96 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP • Ligar o aparelho, apertar o botão iniciar (rotação já estabelecida no aparelho); • Logo em seguida adicionar ao mesmo tempo o coagulante (as cubas ficam em uma barra móvel); • Em caso de turbidez a partir de 80 NTU é utilizado polímero não iônico (polieletrólito), para auxiliar na floculação, evitando assim maior dosagem de coagulante (o polímero é dosado dois minutos após o início da segunda rotação); • O aparelho ira desligar automaticamente após o fim da ultima rotação e iniciará o tempo de decantação (15 minutos) após esse tempo o aparelho emitirá um sinal sonoro indicando o fim do teste; • Iniciar a coleta dos jarros descartando sempre a primeira coleta; • Medir os parâmetros desejados: pH, turbidez, cor, alcalinidade, acidez, ferro; Figura 1 - Aparelho de Jar-Test. Resultados e Discussão Inicialmente, foram realizados ensaios de Jar test para as amostras de águas Tipo I e II, resultados são apresentados nas Tabelas 1 e 2. Tabela 1 - Ensaios de Jar Test – Sulfato férrico (Água Tipo I). ENSAIO DE JAR-TEST Data/Hora: 25/03/04 07:30 pH: 7,0 Turbidez: 108 ntu (X) Jaguari ( ) Pinhal ( ) Mistura Efetuado por:Cleonildo CUBA TURBIDEZ Nº ntu 1 2 3 4 5 6 2,30 0,84 0,85 0,97 0,95 0,98 pH Sulfato férrico mL/m³ Polímero Não Iônico mg/L Ferro Dec./Filt. mg/L Cor Dec./Filt. mgPtCo/L 6,34 6,27 6,22 6,12 5,90 5,78 27 30 33 36 39 42 0,02 0,02 0,02 0,02 002 0,02 0,33/0,04 0,23/0,02 0,19/0,02 0,19/0,02 0,24/0,04 0,29/0,04 5/1 5/1 5/1 5/1 5/1 5/1 Página 97 de 129 os Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Tabela 2 - Ensaios de Jar Test – Sulfato férrico (Água Tipo II). ENSAIO DE JAR-TEST Data/Hora: 26/04/04 11:10 PH: 7,0 Turbidez: 29,1 ntu (X) Jaguari ( ) Pinhal ( ) Mistura Efetuado por: Cleonildo CUBA TURBIDEZ pH Nº ntu 1 2 3 4 5 6 9,65 3,45 1,09 1,16 2,65 3,85 7,00 6,92 6,84 6,75 6,66 6,60 Sulfato de alumínio mL/m³ 10 20 30 40 50 60 Alcalinidade mg/L Cor Dec./Filt. mgPtCo/L 28 23 5/1 5/1 Conclusões O presente trabalho permitiu chegar às seguintes conclusões: O coagulante sulfato férrico demonstrou-se muito eficiente nos testes realizados, comparando-se ao sulfato de alumínio, principalmente em água com turbidez elevada, onde foi observado maior eficiência. Embora seja um produto mais caro, observa-se uma economia em águas de turbidez baixa, como a maior parte do ano a turbidez mantém-se baixa possivelmente haveria uma redução com gasto de coagulante, em água de turbibez elevada haveria um gasto maior com coagulante, este custo pode ser compensado em outras etapas do tratamento. Atualmente com o sulfato de alumínio inicia a dosagem de polímero não iônico com turbidez a partir de 80 NTU, com o sulfato férrico, de acordo com os testes realizados poderia começar a dosagem de polímero não iônico a partir de 120 NTU. Ainda baseando-se nos resultados obtidos haveria também diminuição na perda de água no processo, devido a lavagens de filtros, que atualmente é lavado a cada 8 horas, dependendo das etapas anteriores (coagulação, floculação e decantação), com o coagulante sulfato férrico poderia se lavar os filtros a cada 9 ou 10 horas, também dependendo das etapas anteriores. Este estudo, posteriormente, deverá ser também efetuado para água do Ribeirão Pinhal. REFERENCIAS BILIOGRÁFICAS DI BERNARDO, L. Métodos e Técnicas de Tratamento de Água, V1, ABES, 1993. DI BERNARDO, L. Algas e suas Influências na Qualidade das Águas, ABES, 1995. MEDEIROS, M. A. C., SOBRINHO, G. D., ALBUQUERQUE, A., VENDEMIATTI, J. A. S., OLIVEIRA, A. C., Apostilas de Química Sanitária e Laboratório de Saneamento I e II, CESET/UNICAMP, 2002. TUNDISI, J. G. Água no século XXI, enfrentando a escassez , ABES, 2003. “Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater” 20th edition – 1998. Página 98 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Análise de Eficiência de um Polímero Catiônico como Auxiliar de Coagulação na Estação de Tratamento de Água - Águas de Limeira Maria A. C. de Medeiros *(1), Marcus P. de Lima (1),(2) e Cléber E. R. Salvi (2) (1) UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS – UNICAMP – CESET - Departamento de Tecnologia em Saneamento Ambiental - Campus de Limeira (email: [email protected]) (2) Empresa Águas de Limeira – Limeira-SP Palavras-chave: Coagulação, ETA, Qualidade da água, Polímero catiônico Introdução Atualmente, mais de 90% das estações de tratamento de água em operação utilizam os processos de coagulação e floculação na potabilização de águas (Gonçalves). Os agentes coagulantes mais empregados são sais de ferro e alumínio, gerando como sub-produtos lodos químicos que contém as impurezas retiradas da água bruta e hidróxidos metálicos floculentos precipitados. Devido ao conteúdo elevado de metais e de sólidos, o seu descarte deve ser feito de maneira criteriosa para evitar danos ao meio ambiente e aos seres humanos. As estações de tratamento de água (ETAs) representam uma necessidade básica para as comunidades, visto que têm a finalidade de fornecer água potável, proporcionando, desta forma, melhores condições de saúde e higiene à população. Nos últimos anos, um grande número de estações de tratamento de água (ETAs) tem-se defrontado com o problema do tratamento e disposição final dos resíduos sólidos gerados durante o processo de tratamento de água. Embora não seja um problema recente, o efeito da disposição inadequada dos resíduos sólidos gerados em ETAs no meio ambiente tem-se mostrado ser extremamente danoso ao meio ambiente, especialmente nos grandes centros urbanos, seja pelo aumento da quantidade de sólidos e da turbidez em corpos d’água, como também no provável aumento da sua toxicidade que, por sua vez, pode comprometer a estabilidade da vida aquática. A concessionária “Águas de Limeira” possui certificado ISO 9001 versão 2000 e pretende certificar-se também pela norma ISO 14000 . Assim, visando principalmente às questões ambientais, estão sendo realizados ensaios de floculação com um polímero orgânico sintético catiônico em sua Estação de Tratamento de Água (ETA). O sulfato de alumínio é muito utilizado como coagulante, por apresentar um baixo custo e boa eficiência na coagulação de partículas coloidais. Entretanto, ele não é biodegradável. De acordo com a Portaria 518 de abril de 2004 a dosagem máxima de alumínio na água final é de 0,2 mg/L, pois acima desta concentração pode-se acarretar sérios danos à saúde humana, bem como toxidade a diversos peixes, algas e bactérias (Di Bernardo, 1993). O lodo produzido em ETAs é composto de argilas, areia fina, material húmico e microorganismos, bem como produtos provenientes de processo de coagulação. Devido a estes fatores o lodo formado por hidróxido de alumínio é de difícil adensamento e desidratação, (DI BERNARDO, 1993). Além disto, a Página 99 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP água tratada com sulfato de alumínio abaixa muito o pH, precisando de um alcalinizante para posterior correção / neutralização do mesmo, normalmente cal hidratada. Sabe-se que o uso de polímeros como auxiliares de floculação melhora a qualidade da água decantada e filtrada, aumenta o período médio entre lavagens consecutivas dos filtros, reduzindo, portanto, a perda de água e acarretando a redução no volume de lodo (DI BERNARDO, 1993). Devido a estas vantagens, e procurando manter os padrões de qualidade exigidos pela legislação ambiental, a escolha do uso de um polímero orgânico catiônico é uma alternativa para o tratamento de água. O objetivo de clarificação da água consiste em promover a redução na sua turbidez, cor e carga orgânica, através da eliminação de sólidos suspensos por meio de processos físico-químicos. O maior entendimento dos mecanismos de coagulação atuantes durante a potabilização de águas deriva de pesquisas realizadas por AMIRTHARAJAH (GONÇALVES). Os mecanismos envolvidos na coagulação de sistemas coloidais são complexos e envolvem propriedades de superfície, potenciais elétricos, interações solvente-soluto, solvente-partículas, produtos de solubilidade, condições de mistura e de pH, entre outros. De um modo geral pode-se dividir os mecanismos de coagulação em quatro tipos: compressão da dupla camada, neutralização-adsorção de cargas, varredura e formação de pontes. Descrição detalhada destes mecanismos é realizada por DI BERNARDO (1993). Polieletrólitos são polímeros originários de proteína a polissacarídeos de natureza sintética ou natural. São três tipos: catiônicos, aniônicos, não iônicos, de acordo com a carga da cadeia polimérica. Polímeros não iônicos não são considerados polieletrólitos, mas são incluídos nesta categoria em função da semelhança de suas aplicações. Os polieletrólitos são divididos em duas sub-classes, fracas e fortes. Os polieletrólitos são compostos orgânicos de variada estrutura química, de alto peso molecular (104 a 107). Possui um grande número de sítios ativos nas suas largas cadeias orgânicas, que formam macromoléculas, do tipo coloidal. Os polímeros naturais são utilizados para reduzir a ocorrência de transpasse dos flocos nos filtros e aumentar a chamada taxa de filtração. A água pode conter uma variedade de impurezas, destancado-se as partículas coloidais, substâncias húmicas e microorganismos em geral. Tais impurezas apresentam carga superficial negativa, impedindo que as mesmas aproximem-se umas das outras, permanecendo no meio se suas características não forem alteradas. Para que as impurezas possam ser removidas, é preciso alterar-se algumas características da água e, conseqüentemente, das impurezas, através da coagulação, floculação (Figura 1), sedimentação (ou flotação) e filtração. Página 100 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Figura 1: Detalhe de uma floculação A coagulação, geralmente realizada com sais de alumínio e ferro, resulta de dois fenômenos: o primeiro, essencialmente químico, consiste nas reações do coagulante com a água e na formação de espécies hidrolisadas com carga positiva e depende da concentração do metal e pH final da mistura; o segundo, fundamentalmente físico, consiste no transporte das espécies hidrolisadas para que haja contato com as impurezas presentes na água. O processo é muito rápido, variando desde décimos de segundo à cerca de 100 segundos, dependendo das demais características (pH, temperatura, quantidade de impurezas, etc). Ele é realizado em uma Estação de Tratamento de Água, na unidade de mistura rápida. Daí em diante há necessidade de agitação relativamente lenta, para que ocorram choques entre as impurezas, que se aglomeram formando partículas maiores, denominadas flocos, que podem ser removidas por sedimentação, flotação ou filtração rápida. Esta etapa é denominada floculação. Quando se faz necessário à coagulação química, o desempenho de qualquer tecnologia de tratamento, essencialmente, depende dessa etapa, que, se for deficiente, as impurezas não são retidas nos meios granulares em sistemas de filtração direta. Já em um tratamento completo, a floculação também pode resultar ineficiente, comprometendo o desempenho da sedimentação e da filtração. A coagulação depende fundamentalmente das características da água e das impurezas presentes conhecidas através de parâmetros como pH, alcalinidade, cor verdadeira, turbidez, temperatura, mobilidade eletroforética, força iônica, sólidos totais dissolvidos, tamanho e distribuição de tamanhos das partículas em estado coloidal e em suspensão, etc Águas de Limeira e seu Processo de Tratamento de Água A água captada do Rio Jaguari é levada por mais de 15 Km, através de tubulações subterrâneas e das duas estações, a estação de captação de água bruta do rio Jaguari e a estação de bombeamento São Lucas até a ETA, para ser tratada. O processo do monitoramento já começa na Estação de Bombeamento do Jaguari onde é medido o pH da água, medida que serve para verificar se a água bruta possui pH ácido ou alcalino, e também a turbidez. A Figura 2 (A) mostra a chegada da água bruta na ETA. Com a chegada da água do Rio na Estação de Tratamento, instantaneamente é analisado a cada segundo a turbidez que indica o quanto à Página 101 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP água se apresenta cristalina ou turva, através de um equipamento chamado turbidímetro de processo. Neste momento é adicionado sulfato de alumínio a-) b-) (Figura 2(B)) e a água passa por agitação. Figura 2 – a-) Chegada da água bruta na ETA – “Calha Parshall”, b-) Dosagem de sulfato de alumínio. Esse processo é chamado de coagulação, que consiste na separação de partículas presentes na água do rio, na forma de coágulos. Para controlar esse processo tem-se o pHmetro de processo, que analisa a cada segundo o pH da água após a adição do sulfato de alumínio. Quase em conjunto com a coagulação, é verificada a vazão da água, quantos litros estão chegando por segundo (a média é de 780 litros por segundo); este aparelho é o macro medidor de vazão da água bruta. Os pequenos coágulos formados na etapa anterior transformam-se em flocos no processo da floculação, momento em que são separadas da água as impurezas como argila e barro, formando pequenos flocos, passando por várias câmaras, sob agitação lenta e constante, para promover o aumento do tamanho dos flocos. Os flocos maiores passam para outros tanques, onde ocorrerá a etapa chamada decantação que consiste na migração dos flocos grandes e pesados para o fundo do tanque, separando a água limpa em sua superfície. Objetivos Objetivo Geral Avaliar a eficiência do processo coagulação / floculação e posteriormente de decantação, ou seja, a remoção de turbidez e cor, utilizando um polímero sintético catiônico em conjunto com o sulfato de alumínio, minimizando a dosagem deste último, através de ensaios de Jar Test. Objetivos Específicos - Determinar a melhor dosagem do polímero; - Avaliar a redução da turbidez e da cor em função do polímero; - Avaliar a capacidade do polímero utilizando-o juntamente com o sulfato de alumínio; - Avaliar-se a viabilidade econômica no uso do polímero em substituição de parte do sulfato de alumínio; - Avaliar a qualidade final da água filtrada. Página 102 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Metodologias para Análises físico–químicas laboratoriais As análises físico-químicas efetuadas no presente trabalho estão baseadas em metodologias descritas no “Standard Methods for the Examination of Water end Wastewater” e nas Apostilas de Química Sanitária e Laboratório de Saneamento I e II, CESET/UNICAMP (MEDEIROS et al). Resultados e Discussão A Tabela 1 contém as principais características físicos-químicas das águas bruta em estudo. A água do tipo A, coletada em época de seca e tipo B, em época de chuva. Tabela 1: Características das águas estudadas na ETA - Águas de Limeira. Tipo Turbidez Cor Alcalinidade Condutividade pH T Dureza uT uH mg/L(CaCO3) umho/cm ºC mg/L(CaCO3) A 50 72 23,4 94,7 7.0 24 18,8 B 200 128 18 61,5 6.7 25 20,0 Em função das características das unidades que compõem a ETA, alguns parâmetros para execução dos ensaios foram fixados, procurando-se simular de forma aproximada o que ocorre na mesma. Os ensaios realizados foram agrupados em etapas e séries, de modo a facilitar a apresentação. Estudos em laboratório com unidade de floculação “Jar-Test” Nesta série de testes determinou-se a melhor dosagem do polímero, utilizando o mesmo critério para o sulfato de alumínio, atualmente em uso, obtendo-se uma dosagem entre 5 e 6 mg/L de polímero catiônico. Cabe ressaltar que através de ensaios Jar Test foi obtido uma relação de equivalência: 1 mg/L de polímero catiônico equivale a mais ou menos 10 mg/L de sulfato de alumínio. As análises físicoquímicas realizadas referente às amostras de água decantada mostraram que houve vantagem na utilização do polímero, pois houve redução considerável no alumínio residual e os parâmetros restantes como observado na Tabela 2 ficaram de acordo com o recomendado pela Portaria 518 do Ministério da Saúde. Estes resultados mostram a eficiência da atuação conjunta das duas substâncias, foi observado uma boa remoção de turbidez e cor. Página 103 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Tabela 2 - Verificação da eficiência dos produtos, sulfato de alumínio e polímero catiônico com dosagens otimizadas em aparelho de “Jar-Test”. Sulfato de Polímero Jarro 1 2 3 4 5 6 Água Alumínio Tipo mgL A A A A A A 40 50 20 20 0 0 Catiônico -1 mgL pH -1 0 0 2 3 4 5 Turbidez nTu 6,7 6,8 6,9 7 7 7 1,92 2,17 2,29 2,49 5,82 5,89 O mesmo método de estudo utilizado para água do tipo A foi utilizado para água do tipo B, concluindo que foram obtidos ótimos resultados com a aplicação do polímero catiônico e uma redução apreciável do sulfato de alumínio (Tabela 3). Os parâmetros de potabilidade ficaram de acordo com a portaria 518 tanto para amostras de água decantada quanto para a filtrada. Tabela 3- Dosagem do Sulfato de Alumínio em conjunto com o Polímero Catiônico em água do tipo B no aparelho de “Jar-Test” Sulfato de Polímero Água Alumínio Catiônico Tipo MgL-1 mgL-1 1 B 60 0 6,7 2,14 2 B 70 0 6,8 2,30 3 B 40 2 6,9 2,29 4 B 40 3 7 2,34 5 B 0 10 7 5,71 6 B 0 11 7 5,26 Jarro pH Turbidez nTu Conclusões - De acordo com as análises realizadas, constata-se que o polímero catiônico em ação conjunta com o sulfato de alumínio é eficiente na redução de turbidez e cor e que o pH da floculação não aumenta com a adição do mesmo o que é um fator positivo em relação ao sulfato de alumínio. - A melhor utilização do polímero foi em trabalho conjunto com o sulfato de alumínio. - Os parâmetros de potabilidade estudados com amostra de água filtrada estavam todos de acordo com os especificados pela Portaria 518 do Ministério da Saúde. - O polímero catiônico terá sua utilização em casos esporádicos como, por exemplo, em casos de turbidez elevada, normalmente em épocas de chuvas. Página 104 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS DI BERNARDO, L. Métodos e Técnicas de Tratamento de Água, V1, ABES, 1993. GONÇALVES, Ricardo Franci – Influência dos mecanismos de coagulação da água bruta na reciclagem de coagulantes em lodos de Estações de Tratamento de Água. Departamento de Hidráulica e Saneamento - Universidade Federal do Espírito Santo - Agência FCAA - Vitória - ES . MEDEIROS, M. A. C., SOBRINHO, G. D., ALBUQUERQUE, A., VENDEMIATTI, J. A. S., OLIVEIRA, A. C., Apostilas de Química Sanitária e Laboratório de Saneamento I e II, CESET/UNICAMP, 2002. Portaria 518 do Ministério da Saúde – Diário Oficial da União 26 de março de 2004. “Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater” 20th edition – 1998. Página 105 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP A Atuação da Sociedade Civil Organizada como Mecanismo para a Sustentabilidade no Uso dos Recursos Hídricos: o Projeto Água Quente Marcelo Montaño, ONG Acquavit, [email protected] Renata Bovo Peres, ONG Teia – Casa de criação, [email protected] Kátia Ventura, colaboradora, [email protected] Daniel Marostegan e Carneiro, Teia – Casa de criação, [email protected] Introdução A Bacia Hidrográfica do Córrego da Água Quente ocupa uma área de 12,5 km2 (1250ha) localizada na região sul da cidade de São Carlos, SP. Trata-se de uma das regiões mais carentes da cidade, com cerca de 35 mil moradores alocados em cerca de 17 bairros e 30 propriedades rurais, e que vem passando por um crescente processo de degradação ambiental em torno de seu principal curso d’água, o córrego da Água Quente (com nascentes erodidas, corpo d’água poluído e assoreado, perda de cobertura ciliar, áreas de risco em encostas), em função, sobretudo, do acelerado crescimento urbano desordenado. Essa situação, aliada à ausência de investimentos significativos pelo Poder Público em projetos ou programas de recuperação ambiental, acaba por constituir um quadro favorável à busca por formas alternativas de atuação, sobretudo em áreas específicas relacionadas à gestão do território como um todo, e em especial quanto aos seus recursos hídricos. Em junho deste ano (2004), valendo-se de um edital público para a apresentação de projetos de recuperação ambiental de bacias hidrográficas, as ONGs Teia e Acquavit, de São Carlos tiveram o seu projeto “Água Quente” selecionado entre diversos projetos de todo o país. Espera-se, com o projeto, implementar no trecho mais degradado desta bacia algumas ações de caráter estrutural (recuperação da cobertura vegetal e da qualidade de algumas nascentes, proposição de técnicas alternativas de recuperação de áreas degradadas, etc.), e ações de caráter educacional (cursos de capacitação e mobilização de agentes ambientais, aulas práticas, atividades ludo-pedagógicas, eventos de divulgação e disseminação de boas práticas, fóruns de discussões para a gestão municipal dos recursos hídricos e desenvolvimento local). Com essas ações o projeto visa também o fortalecimento das Organizações Civis Locais através do início de um trabalho em rede com ONGs, Universidades, setor público e privado, que possa fomentar um processo de discussão sobre os principais problemas encontrados na bacia, bem como incentivar a elaboração de iniciativas autônomas de desenvolvimento local para a recuperação sócio-ambiental da Bacia e seu posterior encaminhamento para apreciação pelos órgãos competentes. O projeto tem como uma de suas principais metas despertar e exercitar nos habitantes o conceito de cidadania baseado no balanço entre direitos e deveres fazendo com que os usuários desta Bacia dêem continuidade às propostas de recuperação local, valendo-se de ações que consideram de modo integrado os conflitos ambientais e suas soluções juntamente com as expectativas, propostas e atuações dos usuários à montante e à jusante da Bacia. Página 106 de 129 1 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Contextualização O Município de São Carlos é considerado um dos mais importantes centros regionais do interior paulista. Localizado na região centro oeste do Estado de São Paulo (próximo a cidades como Ribeirão Preto, Araraquara, Piracicaba e Rio Claro), ocupa uma área de cerca de 1.140 km2 e possui uma população aproximada de 210 mil habitantes, dos quais que vivem, em ampla maioria (cerca de 95%), na área urbana do município. O território do município está situado em duas Unidades de Gerenciamento de Recursos Hídricos (UGRHI) 1 : cerca de 60% do território está localizado na bacia hidrográfica do rio Mogi-Guaçu, e o restante pertence à Bacia Tietê-Jacaré. Quase toda a área urbana está situada na Bacia do Tietê-Jacaré, mais especificamente na Bacia do Alto Jacaré-Guaçu, sendo que a maior parte desta é drenada pela Bacia do rio do Monjolinho, afluente do rio Jacaré-Guaçu. Apesar de ser um município privilegiado, sob o ponto de vista da quantidade de recursos hídricos (seu território abriga cerca de 700 nascentes, e 20 corpos d’água percorrem a área urbana), essas águas vêm sendo sistematicamente ignoradas pelas sucessivas gestões municipais, que não assumem a sua responsabilidade pela gestão dos recursos hídricos, além de não observarem com a devida atenção para a legislação ambiental. Apesar de haver alguns programas pontuais, principalmente na zona rural, nota-se uma extensa gama de problemas relacionados, essencialmente, à falta de planejamento do uso e ocupação do solo (sobretudo nas áreas urbanas). Contaminados por resíduos de todo tipo, desde pesticidas até o esgoto da cidade, e tendo que suportar todos os problemas relacionados à erosão e ao assoreamento, os corpos d’água ainda são periodicamente aviltados com a remoção de sua vegetação ciliar, tanto para permitir a ocupação por uma determinada cultura quanto para abrir passagem para mais uma via de circulação expressa – as conhecidas “vias marginais”, ou para simplesmente servirem de “afastadores de enchentes”, tendo seus leitos devidamente retificados e canalizados. Estas condições derivam, em boa medida, da expansão da cidade que, devido a um crescimento acelerado e desordenado, vem gerando uma ocupação urbana descontínua. A partir dos anos 70, a cidade entrou em conflito com áreas ambientalmente frágeis, situação agravada pela consolidação de grandes bairros periféricos. De fato, nas últimas três décadas, tanto a população como a área urbanizada do município, dobraram em tamanho e esse crescimento foi marcado pela segregação sócio-espacial. Nos últimos trinta anos esta Bacia tem sido uma das áreas mais ocupadas da cidade, em especial por populações de baixa renda estimuladas a ocuparem principalmente áreas de preservação e áreas condenadas do ponto de vista geotécnico. Portanto, é nesta região onde existe a maior abundância dos recursos naturais da cidade com o maior grau de alteração e comprometimento dos mesmos e os bairros mais carentes, sem planejamento. Outro fato que ilustra a importância estratégica desta região remete ao fato do município de São Carlos, e mais especificamente a bacia do Córrego da Água Quente, estar situado sobre uma provável Observando-se a divisão efetuada pela Lei Estadual n.º 7.633/91 para o Estado de São Paulo. Página 107 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP área de recarga do Aqüífero Guarani, a maior reserva de água subterrânea do planeta, que já começa a dar sinais de alerta devido aos impactos ambientais de origem antrópica, principalmente a superexploração e a contaminação por poluentes de diversas origens, além da interferência no ciclo hidrológico que altera o seu regime natural de recarga. Objetivos O projeto Água Quente tem como objetivo geral promover: 1. Um processo de recuperação ambiental, que se iniciará em um trecho degradado da Bacia Hidrográfica do Córrego da Água Quente (denominada Área de Intervenção Direta), desenvolvendo a recuperação de vegetação nativa e apresentando algumas propostas paisagísticas e de intervenções alternativas de engenharia, a fim de proporcionar para os usuários da bacia uma área de lazer, pesquisa e educação; 2. A educação ambiental a partir da capacitação de alguns elementos-chave das comunidades, buscando a construção de uma consciência sobre o uso responsável da água, a necessidade de mobilização comunitária e a busca pela sustentabilidade sócio-ambiental da Bacia; 3. A mobilização e o fortalecimento de organizações locais, procurando-se iniciar um trabalho em rede com as ONGs, associações comunitárias, Universidade, setores público e privado, que possa contribuir para a gestão integrada dos recursos hídricos. Caracterização da Bacia O corpo d’água principal desta Bacia é o córrego da Água Quente, que possui uma extensão de seis quilômetros, desde a sua nascente até a foz, no rio do Monjolinho. Em toda sua extensão há também a presença de 15 nascentes que alimentam o canal principal. O Córrego da Água Quente atualmente enfrenta uma situação crítica devido a duas questões principais: o lançamento de esgoto in natura diretamente no córrego, e graves problemas relacionados à erosão em toda a área da Bacia e conseqüente assoreamento do leito do canal principal. O córrego da Água Quente, enquadrado como Classe 2 pelo Decreto Estadual 10.755/77, apresenta uma vazão estimada, seguindo a metodologia adotada pelo DAAE (Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de SP), em cerca de 131 l/s para a vazão média, e cerca de 54 l/s para a vazão mínima que se mantém por 7 dias consecutivos (Q7,10) e drena solos ácidos. Ressalta-se que o enquadramento deste corpo d’água na Classe 2 deveria assegurar, de acordo com a resolução CONAMA 20/86, “o abastecimento doméstico, após tratamento convencional; a proteção das comunidades aquáticas; a recreação de contato primário; a irrigação de hortaliças e plantas frutíferas; a criação natural e/ou intensiva de espécies destinadas à alimentação humana”, o que demonstra claramente o total desacordo com as possibilidades atuais. Na área urbana, a Bacia é ocupada por 17 bairros e, na área rural, verifica-se a existência de um condomínio com aproximadamente 30 pequenas propriedades exercendo produção de subsistência e/ou Página 108 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP lazer, algumas pequenas indústrias agropecuárias (avicultura), áreas de mineração desativadas e também áreas públicas utilizadas como depósito de entulho e lixo. A vegetação nativa caracteriza-se por apresentar fisionomia de cerrado e mata ciliar na área mais próxima ao córrego. Além da vegetação nativa, percebe-se também a presença de espécies exóticas, como eucaliptos e algumas frutíferas (bananeiras). A supressão da vegetação nativa (mata ciliar e cerrado) por desmatamentos para a utilização do solo por atividades agrícolas (laranja e cana de açúcar) e ocupação urbana, tem ocasionado conseqüências diretas sobre os fatores água e solo. O solo predominante da área é proveniente do Arenito Botucatu, apresentando textura bastante arenosa, o que pode ser apontado como uma das causas do acelerado processo erosivo e de sedimentação provocado por desmatamentos, atividades de mineração e urbanização irregular (tanto do ponto de vista técnico quanto legal) em relação à aptidão física do solo; Com relação à qualidade dos recursos hídricos superficiais, são baixos os índices de qualidade da água com elevados índices de coliformes fecais, material em suspensão, condutividade elétrica e concentração de nutrientes, refletindo as alterações induzidas pela ocupação antrópica da Bacia. Percebe-se, ainda, um aumento de áreas inundáveis ou de alagamento, o que sugere uma maior probabilidade de danos à população, sejam eles econômicos ou de saúde pública. Figura 1: localização da bacia hidrográfica do Córrego da Água Quente A região é a que apresenta maior concentração de população de baixa renda – 70% ou mais chefes de família com rendimento de até três salários mínimos. Em decorrência, há um grande número de ocupações caracterizadas como “subnormais” – moradias adensadas e com grande concentração de famílias com rendimento inferior a um salário mínimo, além de muitas sem qualquer rendimento. Página 109 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Além disso, altos índices de analfabetismo, principalmente entre os chefes de família. Um dos fatores que pode colaborar para este índice é que a maior parte dos equipamentos de educação estão localizados no centro da cidade. Tal situação reforça a demanda por educação contínua nos diferentes níveis de ensino nesta região da cidade. Diante desses aspectos, a Bacia Hidrográfica do córrego da Água Quente se constitui como um campo de ação bastante adequado para o desenvolvimento de atividades educativas e pedagógicas que contribuam para a recuperação ambiental de uma área degradada através de uma abordagem multi e interdisciplinar, associados a uma extensa grade de trabalhos de campo, fundamentais para a construção e difusão de conhecimentos. Pode-se considerar que, apesar do contínuo processo de degradação ambiental, a área apresenta um grande potencial paisagístico para se tornar uma importante referência de recuperação para a região como um todo, com a perspectiva de se iniciar, a partir do projeto Água Quente, um processo efetivo de discussão e elaboração de uma política viável de recuperação de Bacias hidrográficas. Da mesma forma, a população de toda a Bacia, a despeito de seus indicadores de renda e escolaridade, se mostra bastante disposta a trabalhar de forma solidária, desde que mobilizada de forma adequada. Exemplo disso é o crescente número de empreendimentos coletivos, sobretudo na forma de cooperativas, e um número razoável de entidades civis (ONGs, associações de moradores, grupos culturais), que trabalham tanto para geração de renda quanto para a melhoria da qualidade de vida local. Resultados Esperados O projeto Água Quente está formatado para ser executado por uma equipe permanente, que irá acompanhar os 24 meses de projeto, formada por 4 coordenadores, 5 colaboradores e 2 estagiários, com formações diversificadas que abrangem diferentes áreas de conhecimento. Ao longo do projeto espera-se a participação de diferentes profissionais, em momentos específicos. A partir do diagnóstico efetuado para a bacia, efetuado pela equipe de coordenadores durante o ano de 2002, a proposta elaborada para o Plano Diretor Municipal (atualmente em discussão na Câmara Municipal) destaca a área em função de suas características sócio-ambientais, e como que reconhecendo sua fragilidade e suas aptidões, propõe a criação de uma área que venha a compor um futuro Parque Urbano – uma área para lazer, pesquisas, educação e recuperação ambiental. Nesse sentido, o PROJETO ÁGUA QUENTE pretende associar três questões importantes: 9 iniciar o processo de recuperação de uma área-piloto, a fim de oferecer à população uma área com melhores condições ambientais; 9 oferecer ao município e região uma referência para futuras intervenções em outras Bacias hidrográficas degradadas, e; 9 desenvolver um trabalho integrado entre Organizações Não Governamentais, Organizações Locais, Poder Público e Privado com base na implantação de propostas de recuperação ambiental definidas em conjunto com a população, que possibilite o estabelecimento de uma rede de atuação entre estas Página 110 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP entidades, a fim de garantir a continuidade do processo de discussão e encaminhamento de suas demandas junto aos órgãos competentes. Para a mobilização social e educacional da população diretamente envolvida na Bacia são necessárias estratégias participativas que aprimorem o envolvimento dos diversos grupos locais na compreensão do processo de degradação de todo o espaço da bacia e, fundamentalmente, na recuperação de seus recursos hídricos. Neste caso, a incorporação de novos conceitos que vêm sendo difundidos na região, e que se mostram favoráveis à sua aplicação em bacias hidrográficas (especialmente as bacias urbanizadas) com alto índice de degradação. O conceito de “Bacia Escola” se baseia nos princípios de planejamento, educação e monitoramento ambiental de uma determinada bacia ou sub-bacia. Para essas ações, consideram-se os conflitos ambientais e suas soluções juntamente com as expectativas, propostas e atuações de moradores à montante e à jusante da bacia. Esta forma de planejamento, ao considerar os anseios da comunidade, pode ser entendida como a aplicação do conceito de “hidrossolidariedade”. A questão da hidrossolidariedade é fundamentada num processo educativo baseado na sensibilização e mobilização social de moradores na área pretendida, visando à integração deste público com o espaço em seu entorno para sustentabilidade e continuidade de ações de conservação dos recursos naturais. Deste modo, a mobilização deve estar centrada em uma metodologia participativa, através da troca de informações e não de uma imposição de conhecimentos, que procure incentivar a adoção de uma nova postura no trato das questões coletivas (ambientais ou não), reconhecendo nos participantes uma função absolutamente ativa dentro dos processos educacional e de tomada de decisões. A participação da sociedade civil organizada, nos moldes de um projeto desse tipo, que se vale de um edital de financiamento lançado por uma empresa estreitamente ligada à esfera governamental, permite ocupar determinados espaços que dificilmente seriam preenchidos pelo poder público, por uma série de razões (dificuldades financeiras, entraves políticos). Espera-se que, ao longo dos dois anos de projeto, a comunidade envolvida com as questões que serão tratadas seja despertada para a necessidade de se organizar, de modo a fortalecer a sua capacidade de reivindicação e de interferir, de alguma maneira, no processo de tomada de decisão. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA Costa, L., Marinho, C., Fecuri, J. (coords.). Redes: uma introdução às dinâmicas da conectividade e da auto-organização. WWF-Brasil. Brasília, 2003. PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO CARLOS. Análise ambiental da bacia do córrego da Água Quente, São Carlos-SP. Secretaria Municipal de Obras, Transportes e Serviços Públicos. São Carlos, 2002. Peres, R. B., Montaño, M., Ventura, K. Projeto Água Quente. Edital Petrobrás Ambiental. TEIA – Casa de criação. São Carlos, 2004. Página 111 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Aplicação de Testes Ecotoxicológicos para Avaliação de Tecnologias de Tratamento de Água para a Remoção de Células e Toxinas de Cianobactérias Takenaka, R.A.1; Okumura, D.T.2; Sotero-Santos, R.M.B.2; Rocha, O.2; Kuroda, E.3; Di Bernardo, L.3 1 Programa de Pós-Graduação em Ciências da Engenharia Ambiental, EESC, USP; bolsista CNPq 2 Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva, UFSCar 3 Departamento de Hidráulica e Saneamento, EESC, USP Introdução Os reservatórios usados para abastecimento público ou para a geração de energia elétrica são bastante propensos às florações de algas e particularmente de cianobactérias, pois tendem a acumular nutrientes, apresentam baixa velocidade de fluxo e têm longo tempo de residência. Tais florações podem alterar ou prejudicar os diversos usos de um corpo d’água, tendo efeitos diretos na qualidade da água. Além disso, as florações de cianobactérias podem ser tóxicas e ter efeitos adversos sobre a biota aquática e a saúde humana. Os efeitos das florações de cianobactérias são variáveis entre gêneros e espécies e entre clones de espécies zooplanctônicas. Sabe-se que em lagos caracterizados pela sucessão qualitativa e quantitativa de espécies, as mudanças no conteúdo de toxinas tendem a acompanhar as mudanças na composição de espécies (HENRIKSEN & MOESTRUP, 1997). Em todo o mundo, há inúmeros relatos de intoxicações de animais por florações de cianobactérias (CODD et al., 1989; CARMICHAEL, 1992; DAWSON, 1998; POURIA et al., 1998; SIVONEN & JONES, 1999), inclusive casos de intoxicações de seres humanos. O mais grave episódio de intoxicação humana causada por cianotoxinas ocorreu no Brasil, em Caruaru (PE), onde pacientes de uma clínica de hemodiálise morreram devido à utilização de água contaminada com cianotoxinas hepatotóxicas. Tal acidente demonstrou a relevância dos riscos das cianotoxinas para a saúde humana e a importância da eficiência dos processos utilizados nas estações de tratamento de água para remoção das mesmas (JOCHIMSEN et al., 1998). As toxinas de cianobactérias geralmente não são removidas pelo tratamento por ciclo completo, utilizado na maioria das estações de tratamento de água no Brasil, e podem ter a concentração aumentada durante tal processo devido à lise das células, principalmente no lodo acumulado nos decantadores. Assim, a água destinada ao consumo humano pode ser uma das principais fontes de exposição do homem às cianotoxinas. A comunidade científica tem se empenhado para identificar, caracterizar e quantificar as cianotoxinas, avaliar seus efeitos sobre a biota e o homem, além de aprimorar ou desenvolver tecnologias de tratamento de águas de abastecimento, que possibilitam a remoção das cianobactérias tóxicas e/ou de suas toxinas. O objetivo deste trabalho foi verificar a possibilidade de aplicação de testes ecotoxicológicos na avaliação da eficiência de alguns processos utilizados em tratamento de água (coagulação seguida de Página 112 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP filtração em meio granular de areia e adsorção em carvão ativo granular) na remoção de células e toxinas de cianobactérias. Materiais e Métodos Os organismos-teste utilizados foram os cladóceros padronizados Ceriodaphnia silvestrii (espécie nativa) e Ceriodaphnia dubia (espécie exótica) (Crustacea, Cladocera) e os peixes Hyphessobrycon eques (Characidae) e Poecilia reticulata (Poeciliidae). Os cultivos dos cladóceros e os testes de toxicidade foram realizados segundo procedimentos descritos em normas técnicas padronizadas (CETESB, 1991; ABNT, 1993; 2003). A cianobactéria utilizada nos experimentos foi Microcystis spp, cepa NPLJ-4, comprovadamente tóxica, fornecida pelo Laboratório de Ecofisiologia e Toxicologia de Cianobactérias do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, UFRJ, cultivada segundo CETESB (1993). A suspensão de Microcystis spp utilizada nos ensaios foi preparada por meio da diluição de volumes pré-definidos de cultura (em concentrações da ordem de 107 céls mL-1), em água filtrada da Estação de Tratamento de Água – ETA 2 de São Carlos, de modo a obter densidades da ordem de 105 céls mL-1. Nos ensaios preliminares de bancada, foram utilizados reatores estáticos compostos de 6 jarros de acrílico transparente de 2 L, tacômetro digital para visualização da rotação (até 600 rpm ±2 %), o que confere um gradiente de velocidade entre 10 a 1.200 s-1, dispositivo para aplicação de produtos químicos e coleta nos 6 jarros simultaneamente. Uma descrição dos ensaios realizados é apresentada na Tabela 1. Os efluentes produzidos em tais ensaios foram utilizados nos testes de toxicidade. Foram realizados vários ensaios para a determinação da dosagem de coagulante mais adequada, porém, neste trabalho, constam apenas os resultados relativos à dosagem de 2,5 mg (Al2(SO4)3×14,3 H2O) L-1, a qual foi considerada ideal para as etapas subseqüentes. A partir dos resultados obtidos nos primeiros testes de toxicidade com cladóceros, constatou-se a necessidade de realizar testes adicionais com outros organismos, bem como de determinar se os agentes causadores da toxicidade poderiam ser provenientes do tratamento da água utilizada, ou seja, residuais do composto utilizado como coagulante (sulfato de alumínio) ou do cloro utilizado na etapa de précloração. Desse modo, foram realizados diversos testes, aplicando-se o protocolo para avaliação e identificação da toxicidade (AIT) de acordo com procedimentos estabelecidos pela USEPA (1991). Além disso, foram realizados testes de toxicidade apenas com a água tratada sem pré e pós-cloração, com baixas concentrações residuais de alumínio e sem adição de suspensão de cianobactérias, bem como com os desclorantes ácido ascórbico e tiosulfato de sódio, utilizando-se cladóceros e peixes como organismos-teste. Página 113 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Tabela 1 – Descrição dos ensaios e variação nas dosagens de coagulantes para avaliação da eficiência de remoção de toxinas em diversos tratamentos de água. Ensaio Objetivo Dosagem de coagulante 1-A* 3 B** Avaliação de diferentes dosagens de coagulante Avaliação de diferentes dosagens de coagulante Avaliação da granulometria do filtro de areia FLA - filtração direta Avaliação do emprego de carvão ativado granular após filtração direta com os FLAs Repetição do experimento 3-A 4B Repetição do experimento 4A 0 a 2,5 mg H2O)/L 3 a 5,5 mg H2O)/L 2,5 mg H2O)/L 2,5 mg H2O)/L 2,5 mg H2O)/L 2,5 mg H2O)/L 2-A 3-A 4-A (Al2(SO4)3×14,3 (Al2(SO4)3×14,3 (Al2(SO4)3×14,3 (Al2(SO4)3×14,3 (Al2(SO4)3×14,3 (Al2(SO4)3×14,3 *Água de Estudo da série A: Turbidez = 5,18 uT; alcalinidade CaCO3= 6,44 mg L-1; potencial zeta = -23,3 mV; COT = 3,74 mg/L; densidade de Microcystis spp = 1,5×105 cél mL-1. **Água de Estudo da série B: Turbidez = 4,43 uT; alcalinidade CaCO3= 4,6 mg L-1; potencial zeta = -21,50 mV; COT = 2,098 mg L-1; densidade de Microcystis spp = 5,9×104 cél mL-1. Resultados e Discussão Na Tabela 2, estão os resultados dos testes de toxicidade aguda com cladóceros expostos aos efluentes produzidos nos ensaios 3 e 4 das séries A e B, bem como os valores das medidas das características físicas e químicas da água (pH, condutividade, dureza, concentração de oxigênio dissolvido e dosagem de alumínio). Os dados permitem inferir que a toxicidade aos cladóceros foi causada pelas cianotoxinas, tendo em vista que a mortalidade na água de diluição (água da ETA) não foi significativa. Dentre os tratamentos testados para a remoção das cianotoxinas, apenas a filtração direta seguida da adição de carvão ativado granular foi eficiente. Existem diversos estudos na literatura que apontam para a suscetibilidade dos cladóceros à ação das cianotoxinas e/ou outros compostos metabólicos liberados pelas cianobactérias (JUNGMANN, 1992; LÜRLING, 1993; SABOUR et al., 2002; MARSÁLEK & BLAHÁ, 2004). Página 114 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Tabela 2 – Imobilidade (%) dos cladóceros Ceriodaphnia dubia e Ceriodaphnia silvestrii expostos aos efluentes dos ensaios 3 e 4 das séries A e B em testes de toxicidade aguda (48 horas), e valores das características físicas e químicas das amostras de água medidas no início dos testes. Imobilidade (%) Características físicas e químicas da água Ensaios 3 e 4 Ceriodaphni Ceriodaphni pH condut dureza OD Al2(SO4) série A . mg/L mg/ a dubia a silvestrii 3×14,3 µS/cm CaCO3 L H2O mg/L Controle 6,7 6,7 7,4 106,1 40 4,91 0 água ETA + 100 100 7,1 23,1 10 7,86 0 ciano água ETA 13,3 0 6,5 19,8 8 5,69 0 3A-1 100 100 6,4 24,3 10 5,74 2,5 3A-2 100 33,3 6,3 23,8 8 5,98 2,5 3A-3 60 55,6 6,5 24,1 8 5,55 2,5 4A-1 100 88,9 6,5 24,1 8 5,55 2,5 4A-2 0 0 7,1 43,3 12 5,58 2,5 4A-3 6,7 22,2 7,0 40,4 16 5,95 2,5 Ensaios 3 e 4 série B Controle 0 0 7,5 154,9 40 6,22 0 água ETA + 6,7 58,3 6,3 23,6 8 6,77 0 ciano água ETA 0 8,3 6,2 21,4 6 7,18 0 3A-1 100 100 6,1 26,6 6 6,66 2,5 3A-2 100 100 6,0 24,8 6 6,87 2,5 3A-3 100 100 6,1 26,2 6 6,76 2,5 4A-1 0 25 7,0 28,4 8 6,66 2,5 4A-2 0 16,7 7,1 25,6 8 5,97 2,5 4-A3 0 8,3 7,1 26,4 8 6,19 2,5 Para avaliar a sensibilidade de outros organismos à água da ETA a ser utilizada na diluição da suspensão de cianobactérias para preparação da água de estudo, foi realizado um teste de toxicidade aguda (96 horas) com o peixe Hyphessobrycon eques. Foi observada mortalidade superior a 90% em todas as réplicas (Figura 1). Posteriormente, outros testes foram realizados apenas com a água da ETA, utilizando-se cladóceros e peixes, porém não foi detectada toxicidade. 120 % sobrevivência 100 80 controle 60 água da ET A 40 20 0 0 24 48 72 96 120 horas Figura 1 – Sobrevivência (%) dos peixes da espécie Hyphessobrycon eques expostos à água da ETA em teste de toxicidade aguda (96 horas). Página 115 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Diante da suspeita de que a severa toxicidade causada aos peixes pela água da ETA poderia ser decorrente da pré-cloração da água (processo ocasionalmente aplicado no tratamento), foram realizados testes adicionais para a avaliação e identificação da toxicidade (AIT) da água da ETA (Tabela 3). Embora tais testes não tenham sido completamente concluídos, os resultados iniciais indicaram que provavelmente a toxicidade da água da ETA foi resultante da pré-cloração realizada na ocasião. Tabela 3 – Imobilidade (%) do cladócero Ceriodaphnia silvestrii em testes de toxicidade aguda para Avaliação e Identificação da Toxicidade (AIT), Fase 1 (parcial), para a água da ETA-2 de São Carlos, SP Etapas TT inicial* Filtração Coluna C18 Aeração pHi Aeração pH3 Aeração pH11 Ajuste pH3 Ajuste pH11 Adição TS Adição EDTA Tóxicos Suspeitos Toxicidade % Imobilidade CE50,48h 66,0 -zero -zero -zero -zero -zero -zero -zero -NC -NC -- Efeito na toxicidade RT RT RT RT RT NC NC Metais/Cloro TT: teste de toxicidade; *: amostra pura (100%); CE50: concentração efetiva méida; coluna C18: octadecil: TS: tiosulfato de sódio; RT: redução da toxicidade; NC: não conclusivo Neste estudo, nem todos os casos de toxicidade das amostras de água da ETA-2 de São Carlos podem ser atribuídos ao cloro residual. Entretanto, os resultados da avaliação e identificação da toxicidade (AIT) da água da ETA, indicaram que a toxicidade ao peixe Hyphessobrycon eques foi devida, ao menos em parte, à ação tóxica do cloro, tendo em vista que a simples aeração da amostra foi suficiente para reduzir a toxicidade. Além disso, por meio de contato com os responsáveis técnicos da ETA-2, foi confirmada a pré-cloração da água. Embora esta prática não seja comumente utilizada, para evitar a formação de trihalometanos, há ocasiões em que ela é requerida, devido à má qualidade da água do manancial em termos bacteriológicos. Caso ocorra pré-cloração na ETA, pode ser necessária a aplicação de desclorante, para que o cloro não interfira nos resultados dos testes de toxicidade deste estudo. Assim, foram realizados testes de toxicidade aguda com os desclorantes ácido ascórbico e tiosulfato de sódio em concentrações empregadas na descloração, utilizando-se o cladócero Ceriodaphnia dubia e o peixe Poecilia reticulata como organismos-teste (Tabela 4). Tabela 4 – Mortalidade (%) do cladócero Ceriodaphnia dubia (48 horas) e do peixe Poecilia reticulata (96 horas) expostos à água da ETA e aos desclorantes ácido ascórbico e tiosulfato de sódio em teste de toxicidade aguda, e valores das características físicas e químicas das amostras de água medidas no início (i) e ao final (f) do teste. Página 116 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Organismo- Amostra teste Ceriodaphn controle ia dubia água da ETA ácido ascórbico mg/L tiosulfato de sódio mg/L controle Poecilia reticulata água da ETA ácido ascórbico mg/L tiosulfato de sódio mg/L % Mortalida de pH condutivida de µS/cm 0 i f 7,8 8,1 50 0 100 7,1 7,6 4,1 4,0 i 140, 5 67,2 33,3 50 35 6,0 7,7 56,7 64,5 - 0 7,8 8,0 0 0 7,1 7,5 4,1 6,9 178, 1 49,9 30,1 42 50 140, 5 67,2 33,3 50 0 6,0 56,7 67,2 4 7,5 f 177, 0 43,7 45,5 dureza mg/L CaCO3 f 42 - 8 8 Todos os processos e operações envolvidos no tratamento de água geram diferentes resíduos com composição química e biológica distinta (BOURGEOIS et al., 2004). Alguns fatores, como a qualidade da água bruta, o pH, a temperatura da água, os produtos químicos adicionados durante o tratamento, a estação do ano e os processos de tratamento utilizados, influenciam na qualidade e quantidade dos resíduos produzidos (LIN et al., 1984). Entre os fatores que poderiam estar a interferir na toxicidade das amostras de água da ETA, destacam-se: o alumínio residual proveniente do coagulante sulfato de alumínio e o cloro residual, que poderia ter sido utilizado em uma eventual pré-cloração da água da ETA. Diversos estudos têm examinado os efeitos tóxicos de elevadas concentrações de alumínio à vida aquática (FREEMAN, 1973; DRISCOLL et al., 1980; HAVAS, 1985; HUN et al., 1987; RAMAMOORTHY, 1988; BIRCHALL et al., 1989; GEORGE et al., 1991). O cloro representa um importante composto tóxico em águas superficiais que recebem efluentes de águas de abastecimento cloradas, efluentes de estações de tratamento de esgotos, efluentes de operações de descoloração de indústrias têxteis e indústrias de papel e celulose. A química de compostos clorados em águas naturais é complexa. A toxicidade e a persistência das formas temporárias dos compostos ricos em cloro, comumente utilizados, dependem do pH, da temperatura da água, de compostos nitrogenados e dos tipos e quantidades de matéria orgânica que estão presentes (STEWART et al., 1996). Apesar das variações que ocorreram na qualidade da água da Estação de Tratamento de Água-2 de São Carlos, à qual as cianobactérias foram adicionadas, os resultados obtidos indicam que os cladóceros foram organismos-teste eficazes para a avaliação da eficiência dos processos de tratamento de água na remoção da toxicidade de cianobactéria e suas toxinas. Conclusões Página 117 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP • Dentre as tecnologias de tratamento de água utilizadas para a remoção de cianobactérias e/ou suas toxinas, apenas a filtração direta seguida da utilização de carvão ativado granular foi eficiente para remover a toxicidade detectada por meio de testes de toxicidade com cladóceros. • A qualidade da água da ETA exerceu grande influência nos resultados dos testes de toxicidade, pois organismos aquáticos, especialmente cladóceros e peixes, são bastante sensíveis a residuais de cloro e de alumínio. Embora os resultados ainda não sejam conclusivos, os cladóceros foram adequados para detectar a presença de cianotoxinas ou outros contaminantes na água da ETA-2, tais como residuais de cloro (usado na pré-cloração) e de alumínio (residual do coagulante). • No entanto, diante dos resultados do teste com os desclorantes, que indicaram maior sensibilidade dos microcrustáceos a tais compostos, foi recomendada a utilização preferencial de peixes como organismos-teste nos testes de toxicidade posteriores, para a avaliação da eficiência de diferentes processos e tecnologias de tratamento de água, visando a remoção de cianobactérias e de suas toxinas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas (1993). NBR 12714: Água – Ensaio de toxicidade aguda com peixes. Parte I – Sistema estático. Rio de Janeiro, 15p. ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas (2003). NBR 13373: Ecotoxicologia aquática Método de ensaio com Ceriodaphnia spp (Crustacea, Cladocera). 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Environmental Protection Agency, Washington, D.C Página 120 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Avaliação da Contaminação do Rio Mogi Mirim por Nitrogênio Amoniacal Herefeld, T.C. (1); Neto, G.R.A. (1); Francato, A. T(1) ; Costa, C. (1);Leite, I.R.C.(1) Barraza Larios, M. R..(2) (1) Alunos da Faculdade Municipal Professor Franco Montoro (2) Professor da Faculdade Municipal Professor Franco Montoro. [email protected] (1); [email protected] (1); [email protected] (1); [email protected] (1) [email protected] (1) ; [email protected] (2). Resumo Os estudos ambientais em Bacias Hidrográficas, são atividades que devem ser sempre incluídas nos diversos projetos de pesquisa que visem a melhoria da qualidade de vida e do Meio Ambiente. Neste sentido, a elaboração de estudos em micro-bacias também devem ser incentivados como forma de auxiliar na montagem de um banco de dados que apresente a realidade local. Os estudos desenvolvidos em pequenas áreas são de suma importância, para melhor definição das atividades de proteção e conservação. Apresentam-se neste artigo os resultados da avaliação da contaminação por nitrogênio amoniacal do rio Mogi Mirim através de analises laboratoriais e levantamentos de campo com o objetivo de se determinar o índice de poluição Águas que recebem esgotos, em geral apresentam grandes quantidades desses compostos, principalmente amônia, que pode ser utilizada da mesma forma que o nitrito, como um indicador de poluição orgânica recente, dada sua rápida oxidação em sistemas com grande disponibilidade de oxigênio dissolvido. Recém lançada e obter a real situação do curso d`água para elaboração de bancos de dados com informações sobre os recursos hídricos da região do Alto Mogi. Os resultados apresentaram-se fora dos limites exigidos pela resolução CONAMA/20, sendo necessária à execução imediata de atividades que visem a sua recuperação. Introdução A matéria orgânica nitrogênada representada pela amônia, tanto na sua forma livre NH3 quanto na sua não ionizada NH4+ encontra-se presente nos esgotos desde o sistema de captação devido ao inicio das reações de hidrólise e amonificação ocorridas .VON SPERLING (1996). A presença em recursos hídricos de amônia indica poluição recente por esgotos domesticos porque o nitrogênio encontra-se em seu primeiro estágio de oxidação (MACEDO 2003). Pela legislação federal em vigor, a resolução No 20 do CONAMA/86, o nitrogênio amoniacal é padrão de classificação das águas naturais e padrão de emissão de esgotos. A amônia é um tóxico bastante restritivo à vida dos peixes, sendo que muitas espécies não suportam concentrações acima de 5 mg/L. Além disso, a amônia provoca consumo de oxigênio dissolvido das águas naturais ao ser oxidada biologicamente, a chamada DBO de segundo estágio. Por estes motivos, a concentração de nitrogênio amoniacal é importante parâmetro de classificação das águas naturais e normalmente utilizado na constituição de índices de qualidade das águas (CETESB 2003). Página 121 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Segundo VON SPERLING (1996) as principais fontes de amônia em rios, lagos ou represas que se encontram em áreas urbanas são: Drenagem pluvial urbana. A drenagem urbana transporta uma carga muito maior de nutrientes que os demais tipos de ocupação da bacia. Este aporte de nutrientes contribui para uma elevação no teor de amônia e fosforo na água. Esgotos. O maior fator de deterioração está, no entanto, associado aos esgotos oriundos das atividades urbanas. Os esgotos contêm nitrogênio e fósforo, presentes nas fezes e urina, nos restos de alimentos, nos detergentes e outros subprodutos das atividades humanas. A contribuição de N e P através dos esgotos é bem superior à contribuição originada pela drenagem urbana. Objetivo O objetivo do projeto é promover um diagnóstico ambiental, caracterizando a água do rio Mogi - Mirim, coletando amostras em 6 pontos do curso do rio, realizando análises laboratoriais, além de levantamentos das características físicas do local. Revisão Bibliográfica em Função das Normas Técnicas Existentes Após a análise das Resoluções referentes ao Paramêtros de Qualidades das Águas foram escolhidos os parâmetros para aferição da qualidade para água bruta presentes Resolução nº 20/1986 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) que classifica em nove classes, as águas doces, salobras e salinas, segundo os usos preponderantes a que elas se destinam. Particularmente, as águas doces são divididas em 5 classes. A Resolução do CONAMA estabelece, ainda, os limites e/ou qualificações do nível de qualidade apresentado por um segmento de corpo d’água, num determinado momento, em termos dos usos possíveis com segurança adequada. Localização e Descrição da Área de Estudo O Rio Mogi-Mirim está localizado na margem esquerda do rio Mogi-Guaçu, sendo um de seus principais afluentes. Nasce na fazenda São José dos Pinheiros no município de Mogi - Mirim e deságua diretamente no rio Mogi-Guaçu. Possui uma área de drenagem de aproximadamente 158 Km², tendo o Rio Mogi – Mirim como principal rio na micro-bacia, sendo este um dos principais afluentes do Rio Mogi – Guaçu, com aproximadamente 34,2 Km de extenção, sendo que uma das suas muitas nascentes localiza-se na Fazenda São José dos Pinheiros (coordenadas UTM, latitude 302724 e longitude 7513545) à 672 metros de altitude, apresentando um desnível total do rio entre a nascente e a foz de 95m, (declividade média 2,8m/Km) o que caracteriza a presença de correntezas média; Página 122 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Tabela 1 – Áreas de drenagem para o município de Mogi – Mirim e a M-BMM. Município/Bacia Mogi – Mirim M – BMM Área Urbana 50 Km² 50 Km² Área Rural 434 Km² 108 Km² Área Total 48 Km² 158 Km² Metodologia Para a elaboração desse levantamento foram utilizadas as informações de captações e lançamentos destinados a uso urbano que constam do Plano da Bacia do Rio Mogi Guaçu, Mapeamento geoambiental da região realizado pela Unesp e Análises Laboratoriais feitas no laboratório da Faculdade Municipal Professor Franco Montoro, Campus Cachoeira, utilizando-se aparelhagem apropriada e devidamente calibrada, bem como levantamentos com utilização de GPS. A metodologia utilizada para análise, está baseada no "Standard Methods", seguindo-se os procedimentos de controle de qualidade necessários. A Determinação de nitrogênio amoniacal: foi determinado pelo método de KJEDAHL, sendo a amostra destilada na presença de ácido bórico com solução tampão de fosfato. Trabalho de Campo O trabalho de campo foi realizado em seis pontos diferentes do Rio Mogi-Mirim, que é afluente do Rio Mogi-Guaçu, o qual se enquadra como uns dos principais recursos hídricos do estado de São Paulo, foram desenvolvidos vários tipos de observações como: dados geográficos com utilização de um GPS, caracterização da fauna e flora local de cada ponto; coletas de amostras da água que foram feitas semanalmente e analisadas em menos de 24 horas. As definições dos pontos visaram obter o máximo possível de representatividade do Rio como um todo, estes podem ser observados na Figura 1. Página 123 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP CONAMA 20 Principais Afluentes Cor. do Soares Rib. Sto Antônio Cor. do Bairrinho Cor. do Lavapés Cor. da Bela Vista Cor Santana Figura. 01: Mapa dos Pontos de Coleta. Coleta de Amostras As amostras foram coletadas através de recipiente apropriado visando obter a representatividade do local, após coletadas foram colocadas em frascos limpos de cor âmbar, com capacidade mínima de 0,5 Litros e lavados duas vezes com a água que seria analisada. A seguir foram etiquetadas, colocadas em caixa térmica com gelo para conservação das propriedades originais das mesmas (não houve congelamento das amostras) e analisadas no máximo 24 horas após a coleta. Considerações Finais Os valores médios encontrados para Nitrogênio Amoniacal, ao longo de toda a extensão do Rio Mogi Mirim não atendem ao padrão de qualidade exigido pela resolução CONAMA 020/86, indicando assim que ocorrem lançamentos de material orgânico nessas águas que devem estar relacionados principalmente a fontes de esgotos domésticos. As concentrações de oxigênio dissolvido próximas a 0 mg/L na foz do Rio Mogi Mirim mostram que o curso d’água já têm reduzida capacidade de autodepuração. Este cenário descreve um comportamento significativamente desfavorável para o Rio Mogi Mirim, mostrando que, nas condições atuais, suas águas não suportam as cargas de origem orgânica lançadas em sua bacia de drenagem. Página 124 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP A concentração média de amônia, 7.35 mg/L, valores estes, muito superiores aos admissíveis pelo CONAMA, comprometendo a utilização das suas águas, para qualquer atividade de recreação, abastecimento público, ou criação de animais aquáticos, pois o nitrogênio na sua forma amoniacal é extremamente tóxico para estes animais. Através do Gráfico 1 abaixo observa-se o aumento da taxa de nitrogênio amoniacal quando se percorre todo o curso do rio. Gráfico 1 – Concentração de Nitrogênio amoniacal em mg/L no rio Mogi Mirim 10 8 6 4 2 0 Pto I Pto II Pto III Pto IV Pto V Supõe-se que este curso d’água apresente valores muito baixos de oxigênio dissolvido pois em ambientes ricos em oxigênio o nitrogênio amoniacal é convertido em nitrato em uma reação química onde é necessario segundo MACEDO (2003) 4,3 miligramas de oxigênio para oxidar 1,0 miligrama do íon amônio, como foi encontrado nitrogênio amoniacal em grandes concentrações não se esperaria taxas satisfatórias de oxigênio dissolvido neste rio. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRAGA, B. et al. (2002), Introdução à Engenharia Ambiental, Prentice Hall, São Paulo. BRANCO, S. M. (1978), Poluição: a morte de nossos rios, ASCETESB, São Paulo. CETESB. Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental. São Paulo. In: http://www.cetesb.sp.gov.br consultado em: março de 2004. EMBRAPA, O Brasil Visto do Espaço. In http://www.cnpm.embrapa.br consultado em: dezembro de 2003 GOLDENBERG, José (org.). 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In http://www.ambiente.sp.go.br consultado em: abril de 2004. SILVA , Osvaldo M. Senra Álvares da. Análises Físico-Químicos para controle de Estações de Tratamento de Esgotos.Ed.Unicamp, 1987. VON SPERLING, M. Princípios do tratamento biológicos de águas residuárias. Vol. 1. Introdução à qualidade das águas e ao tratamento de esgotos, 2 Ed., DESA, UFMG, 1996. 243p. Página 126 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Avaliação da Viabilidade da Reutilização da Água de Enxágüe de Roupa para Descargas Sanitárias Vilidiana Moraes Moura 1 Eliana Beatriz Nunes Rondon Lima2 Nicolau Priante Filho3 Josita Correto da Rocha Priante4 Resumo O presente trabalho visa apresentar uma alternativa de conservação da água, mostrando que dentro da própria residência existem atividades que geram efluentes em quantidade e qualidade que podem ser destinadas a outros usos que, não requerem água dentro dos limites exigidos pelos padrões de potabilidade para o consumo humano. O reuso tem se tornado uma prática crescente de consumo da água e conseqüentemente geração de água servidas que em geral são dispostas in-natura nos mananciais ocasionando a degradação da qualidade da água dos recursos hídricos. A importância deste trabalho pode ser verificada a partir da quantificação da grande parcela de água tratada que se destina ao atendimento das descargas nas bacias sanitárias de residências, que representa em média 35% do consumo da água e aponta ainda a água de enxágüe de roupa como uma das fontes de suprimento para atender a demanda das descargas sanitárias. Este trabalho enfatiza ainda, a necessidade da conscientização da população demonstrando que cada morador pode dentro da sua residência contribuir com uma parcela efetiva para conservação da água, através de mudanças de hábitos e ainda a partir de adoções de pequenas práticas que permitam minimizar o consumo e maximizar o valor da conservação da água de uma forma simples e educativa, servindo como exemplo para todos os níveis de consumo de água. O departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Mato Grosso teve recentemente a aprovação de dois projetos na área de reuso, em função dos resultados dos benefícios ambiental e educativo do presente trabalho. 1 – Engenheira Sanitarista e Ambiental pela UFMT; Endereço: Cohab D. Orlando Chaves R-04 Q-06 C-17 – Várzea Grande –MT; Telefone: 9158326 / 685-3582. E-mail: [email protected]; 2 – Dra Prof. Adjunta do Depto de Engenharia Sanitária e Ambiental-UFMT-Endereço: Rua Presidente Marques 1219, aptº 801, Ed. Pablo Picasso, Bairro Aráes - Cuiabá - MT; Telefone: 99821945/621-3828. E- mail: [email protected]; 3 – Dr, Prof. Ajunto pelo Departamento de Física da UFMT-Endereço: Rua Dos Eucaliptos, N° 07, Quadra 15, Jardim das Palmeiras -Telefone: 661-3681. E-mail: [email protected]. 4 – Dra., Prof. Adjunta pelo Departamento de Filosofia da UFMT - Endereço: Idem 3 - Tel: 661-3681. [email protected]; Página 127 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP Mensagem Final dos Anais Tarefa nada fácil: envolver a temática ambiental nas esferas profissional e acadêmica, técnica e humana, pública e privada em um mesmo evento, e que ainda levasse o respeitável nome do Departamento de Hidráulica e Saneamento e da própria EESC e da USP. O ideal dos alunos era comum e condizente com a situação da primeira turma de graduação do curso: realizar um evento que ajudasse a construir a identidade dos “engenheiros do ambiente” da Escola de Engenharia de São Carlos. E a experiência pouco contava a nosso favor... Contudo, e aos poucos, as dúvidas e abstrações iniciais foram dando lugar às primeiras conquistas e o sonho tomando uma forma mais concreta: tema, data, sub-temas, palestras, palestrantes e patrocínios! A paixão de cada um dos organizadores e colegas de curso pelas grandes questões ambientais, as quais nos vêm sendo incutidas no decorrer do curso - notadamente aquelas referentes aos recursos hídricos e à sustentabilidade-, não nos deixava parar de trabalhar até aonde nossa imaginação alcançasse, e também querer fazer do I SEA o mais receptivo e eficaz possível, naquilo em que se propôs desde o início.. Queríamos ver acontecer este projeto (para alguns o primeiro!) que fosse de nossa própria autoria e condução, que tivesse realmente a nossa marca. Assim, por conta e risco, assumimos responsabilidades, ora agimos corajosamente, ora burocraticamente, cada um dos organizadores com sua parcela de contribuição. E logo vieram as recompensas. E, enquanto todo o árduo trabalho erigia aquilo que seria o suporte para a realização do simpósio em si, o palco das discussões acerca dos recursos hídricos já vem sendo montado há anos por pesquisas científicas, experiências no âmbito industrial, corporativo e até nas organizações estatais de gerenciamento e controle, e que neste momento de necessidade de conscientização e aceitação maciça da sustentabilidade como um paradigma irrefutável, deveriam estar em sinergia para serem eficientes no que se propõem. Então, percebemos durante o evento, que a sua realização seria mais que satisfação própria, pois afinal, tudo ali dizia respeito à “paixão” de cada um presente, seja participante, palestrante ou organizador. Dessa forma, e com uma perspectiva atual, promovemos o intercâmbio de motivações e novas tecnologias acerca da qualidade, quantidade, disponibilidade, função social e econômica deste finito e imprescindível recurso natural que é a água. Estes anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC-USP remontam àqueles dias de densa interlocução de grandes palestrantes, com suas idéias, projetos e experiências, além dos diversos participantes do evento, que, com interesses diferenciados, estavam sempre aptos a promover um debate coerente e atento à realidade prática. E agora, findo o simpósio e às vésperas do II SEA, gostaria deixar aqui registrado o profundo respeito e admiração por todos meus colegas organizadores desse evento, que, em busca daquele ideal comum, por muitas vezes longe de ser concretizado, não mediram esforços para tornar real o sonho íntimo de Página 128 de 129 Anais do I Simpósio da Engenharia Ambiental – EESC/USP cada um de nós. No fundo, é como se todos tivéssemos realizado um evento próprio: uma festa íntima de “ser” humano e poder acreditar no outro! Abraço a todos e que nos venham novos desafios! Heitor Parenti Junior Integrante da comissão organizadora do I SEA EESC-USP Página 129 de 129