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Insper Instituto de Ensino e Pesquisa
Faculdade de Economia e Administração
Luiz Paulo de Almeida Branco
CONSIDERAÇÕES EM TORNO DA ECONOMIA
COMPORTAMENTAL EM DECISÕES DE POUPANÇA
São Paulo
2011
1
Luiz Paulo de Almeida Branco
Considerações em torno da economia comportamental em
decisões de poupança
Monografia apresentada ao curso de Ciências
Econômicas, como requisito parcial para obtenção
do grau de Bacharel do Insper Instituto de Ensino e
Pesquisa.
Orientador:
Profa. Dra. Roberta Muramatsu– Insper
São Paulo
2011
2
Branco, Luiz Paulo de Almeida
Considerações em torno da economia comportamental em
decisões de poupança /Luiz Paulo de Almeida Branco. – São Paulo:
Insper, 2011.
39 f.
Monografia: Faculdade de Economia e Administração. Insper
Instituto de Ensino e Pesquisa.
Orientador: Profa. Dra. Roberta Muramatsu
1.Poupança 2.Economia Comportamental 3. Psicologia
3
Luiz Paulo de Almeida Branco
Considerações em torno da economia comportamental em decisões de
poupança
Monografia apresentada à Faculdade de Economia do Insper, como parte dos
requisitos para conclusão do curso de graduação em Economia.
Aprovado em Junho de 2011.
EXAMINADORES
___________________________________________________________________________
Profa. Dra. Roberta Muramatsu
Orientadora
___________________________________________________________________________
Ms. Eraldo Genin Fiore
Examinador
Prof. Dr. Gazi Islam
Examinador
4
Agradecimentos
Gostaria de agradecer a todos aqueles que contribuíram para que este momento
fosse possível. Aos meus pais por me incentivar, me apoiar incondicionalmente ao
longo de todos estes anos e propiciar tantas oportunidades de aprendizado. À minha
orientadora, Profª. Dra. Roberta Muramatsu que enfrentou momentos difíceis durante a
realização deste trabalho e sempre se mostrou disposta a me auxiliar, e a todos os
professores que contribuíram para o meu amadurecimento acadêmico e pessoal.
Agradeço também aos grandes amigos que sempre estiveram ao meu lado e à
minha Tia que tanto me ama.
5
Dedicatória
Gostaria de dedicar este trabalho aos meus avôs paternos e maternos. As demandas do
dia-a-dia não me permitem passar o tempo que gostaria com aqueles que são minha
inspiração e motivo de orgulho.
6
Resumo
Branco, Luiz Paulo de Almeida. Considerações em torno da economia comportamental
em decisões de poupança. São Paulo, 2011. 39p. Monografia – Faculdade de Economia
e Administração. Insper Instituto de Ensino e Pesquisa.
Este trabalho visa discutir formas de aumentar as taxas de poupança através da analise
do comportamento na tomada de decisão dos agentes da economia acerca do consumo e
da poupança. A abordagem econômica tradicional implica em indivíduos tomando
decisões perfeitamente racionais; mas evidências empíricas mostram que as previsões
dos modelos baseados na abordagem tradicional não são consistentes com a realidade de
consumo e poupança observada. Para melhor capturar o comportamento dos indivíduos
é preciso lançar mão de insights da psicologia e incorporar estas evidências empíricas
em modelos alternativos aos modelos de consumo tradicionais. Os modelos alternativos
baseados na economia comportamental permitem previsões mais rigorosas de padrões
de comportamento e fundamentaram a criação de diversos mecanismos de Commitment
and Savings que permitem que indivíduos atinjam o nível desejado de poupança.
Palavras-chave: Poupança, Economia Comportamental, Psicologia.
7
Abstract
Branco, Luiz Paulo de Almeida. Considerations about the behavioral economics on
saving decisions. São Paulo, 2011. 39p. Monograph – Faculdade de Economia e
Administração. Insper Instituto de Ensino e Pesquisa.
This works tries to discuss ways to increase the rates of savings making use of the
behavioral analyses on the decision making process of individuals related to consume
and savings. The traditional economic approach imply that individuals make perfectly
rational decisions, but empirical evidences shows that the predictions of the models
based on the traditional approach are not consistent with the reality of observed
consume and savings. To better capture the behavior of individuals it is needed to use
psychology insights and incorporate those empirical evidences on alternative models
from the traditional consume models. The alternative models based on the behavioral
economics allows better prediction on the behavior standards and generate the
benchmark to the creation of several mechanism of Commitment and Savings that
allows that individuals reach their desired level of savings.
Keyword: Savings, Behavioral Economics, Psychology
8
Sumário
Introdução. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . 9
Capitulo 1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .13
Secção 1.1 – Modelo de Utilidade Descontada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .14
Secção 1.2 – Modelo de Ciclo de Vida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . .. . .16
Capitulo 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
Capitulo 3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24
Secção 3.1 – Modelo de Desconto Hiperbólico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24
Secção 3.2 – Modelo de Ciclo de Vida Comportamental . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
Secção 3.3 – Save More Tomorow . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
Capitulo 4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .31
Conclusão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
Referencias. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
9
Introdução
A discussão sobre poupança tem ganhado força no cenário econômico:
qual seria sua participação na recente crise financeira, qual é seu nível ideal? A
poupança impacta determinantemente o andamento de uma economia, uma
vez que é utilizada para financiar investimentos que aumentam a produtividade.
As decisões dos agentes da economia entre poupar e consumir ajudam a
determinar a taxa de crescimento da economia, a balança comercial, a
produção e o desemprego, que são fatores essenciais para o sucesso ou
fracasso de um país como explicado por Sachs e Larain (2000).
Dados da economia americana exemplificam a importância da
poupança. Segundo uma publicação do Federal Reserve, o Banco Central
americano, de Eichner, Kohn e Palumbo (2010) a taxa de poupança privada
nos EUA, que entre as décadas de 1960 a 1980 flutuava em torno de 9% da
renda, caiu para menos de 2% na metade da década de 2000; como
conseqüência disto, houve uma queda drástica nos investimentos físicos (não
residenciais) e uma forte tendência a tomar empréstimos ( passando de 4 % da
renda disponível) entre 2004 e 2005, que aumentou o endividamento privado
dos americanos de 12,5% para 14% da renda disponível e pode ter
encaminhado a economia americana para a Crise Financeira e a recessão nos
anos de 2007 a 2009 conforme a relação causal discutida por Diamond e Rajan
(2000).
O estudo acima demonstra um cenário de taxas de poupança baixas
acompanhadas pelo crescimento do endividamento, que pode se tornar um
problema para a economia tanto de países desenvolvidos quanto de países
subdesenvolvidos uma vez que cria um cenário econômico para uma crise de
crédito e conseqüentemente financeira.
De acordo com ASHRAF, Nava et al. (2003), a poupança é essencial
para os agentes ajustarem seu consumo em face a variações de renda; níveis
de poupança subótimos se devem a problemas de planejamento de consumo
intertemporal,
ou
seja,
“os
agentes
agem
de
forma
sistemática
e
10
previsivelmente divergente do comportamento racional” (KILBORN, 2005, p.
38).
Os agentes formam suas expectativas de consumo e poupança
baseados em suas preferências temporais que são determinadas por uma taxa
de desconto, quanto maior for esse fator de desconto, maiores são as
preferências imediatas do individuo. Existem Modelos de escolha intertemporal
que procuram prever o comportamento dos agentes na tomada de decisão
entre consumir e poupar, modelos esses que se baseiam na hipótese de que
os agentes agem de forma perfeitamente racional e não sofrem desvios de
conduta; os modelos tradicionais assumem que os indivíduos utilizam uma taxa
de desconto exponencial para formar suas expectativas conforme explicam
Chabris, Laibson e Schuldt (2003).
Um exemplo de modelo tradicional que se baseia na perfeita
racionalidade dos agentes é o modelo de ciclo de vida de Franco Modigliani
(1954); como explicado por Sachs e Larain (2000), o modelo de ciclo de vida se
baseia na hipótese de que o consumo depende das expectativas sobre a renda
durante a vida do individuo. Quando um indivíduo é jovem, sua renda é baixa e
ele adquire divida para se sustentar porque ele tem consciência de que
ganhará mais dinheiro no futuro; quando este indivíduo se torna adulto, sua
renda aumenta e chega ao seu máximo de forma que ele paga suas dividas e
poupa para o futuro quando, aposentado, também não terá renda. A
contribuição desta teoria é de que a renda tende a flutuar sistematicamente ao
longo da vida do individuo e o comportamento de poupança deste é
determinado pelo estágio da vida do individuo.
Outro modelo muito conhecido é o da hipótese de renda permanente de
Milton Friedman (1957). Sachs e Larain (2000) explicam que os indivíduos
preferem padrões de consumo estáveis uma vez que a renda pode sofrer
variações, e é a renda permanente que determina esses padrões ao invés da
renda momentânea; como a renda futura não pode ser prevista, é essencial a
formação de expectativas neste modelo.
Mas há um problema na qualidade de previsão dos modelos de escolha
intertemporal tradicionais; de acordo com Thaler e Shefrin (1981), os indivíduos
11
estão sujeitos a fraquezas de vontade, a problemas de autocontrole, quando o
desejo de satisfação presente com consumo se sobrepõe a decisão de poupar
já tomada. Os indivíduos também se baseiam em regras padrão e possuem
viés de status quo; ou seja, estão sujeitos a influências externas sociais ou
simplesmente a hábitos e padrões de comportamento que levam a escolhas
limitadamente racionais, divergentes do comportamento racional proposto por
modelos tradicionais.
Kilborn (2005) discute que uma alternativa de representação dos
agentes seria assumir que estes possuem uma racionalidade limitada e
apresentam padrões subótimos de comportamento. Para melhor prever este
comportamento é necessário descrever o processo decisório, e para
compreender e melhor explicar este processo é preciso lançar mão de
“insights” de psicologia.
A abordagem econômica comportamental entende que existem falhas
dentro dos modelos tradicionais com relação à racionalidade dos agentes, e
procura
compreender
as
anomalias
comportamentais
utilizando-se
da
psicologia para melhor entendimento da formação de expectativa dos
indivíduos. Modelos baseados na teoria econômica comportamental utilizam
desconto hiperbólico, ao invés de desconto exponencial, para modelar a
decisão. O desconto hiperbólico é caracterizado por uma taxa de desconto
maior no curto prazo que no longo prazo; de forma que pode capturar melhor o
comportamento humano e as conseqüências de sua racionalidade limitada
como explicam ASHRAF, Nava et al. (2003).
Considerando a importância econômica da poupança tanto em termos
macroeconômicos quanto em termos privados, o entendimento de como os
agentes da economia formam suas expectativas e tomam suas decisões para
poupar, e como conduzir os indivíduos a uma taxa de poupança ótima são
assuntos que merecem atenção especial. O objetivo deste trabalho é utilizar
como base a análise da teoria econômica comportamental para melhor
compreender as anomalias do comportamento de poupança individual e
discutir inovações institucionais para ajudar os agentes a escolherem seus
12
padrões de consumo de modo alinhado com suas preferências de longo prazo
através de estratégias de compromisso para resolver os erros de decisão.
13
Capitulo 1
Um dos dilemas mais freqüentes que um indivíduo enfrenta é a escolha entre o
hoje e o amanhã, quando se tem vontade de comer um chocolate, mas
pensamos na dieta e em se manter saudável, estamos tomando uma decisão
intertemporal entre o prazer hoje ou a saúde amanhã. Decisões intertemporais
são escolhas que envolvem tradeoff’s em diferentes momentos. Estas decisões
levam em conta as preferências de cada um e estas preferências são
determinadas por fatores psicológicos que determinam as escolhas de cada um
e que não são comuns a todas as pessoas.
Em decisões de consumo ou poupança é possível observar escolhas
intertemporais e as preferências intertemporais de cada indivíduo como, por
exemplo, quando uma pessoa deve decidir se poupa e investe seu bônus no
fim do ano ou se usa o dinheiro para comprar algo. Para avaliar o
comportamento do consumo e da poupança de cada indivíduo é necessário
analisar quais os fatores e restrições aos quais ele está sujeito de forma a
entender e prever como esse indivíduo tomará sua decisão.
Neste primeiro capítulo pretende-se estudar como a escolha intertemporal afeta
as decisões de consumo, para tanto serão apresentados alguns modelos
existentes de consumo que desenvolvem a escolha intertemporal que as
pessoas consideram em suas decisões de consumo.
Conforme Frederick, Loewenstein e O’Donoghue (2002), foi o economista John
Rae contemporâneo de Adam Smith, que introduziu o conceito de escolha
intertemporal utilizando motivações psicológicas; para ele o comportamento de
escolha intertemporal era uma combinação de uma série de fatores que
incentivam ou limitam o desejo de poupar. Os fatores que favorecem a
acumulação são: (1) O desejo de poupar e (2) a “propensão a para exercitar o
autocontrole; enquanto que os pontos determinantes para o consumo são: (1) o
prazer do consumo imediato e (2) o desconforto em atrasar estes prazeres.
Para Rae, essas duas perspectivas conflitantes mostram a idéia de que o
tradeoff intertemporal depende do sentimento imediato do individuo. Mas para
14
ser possível mensurar este tradeoff é necessário considerar o conceito
econômico de Utilidade.
Frederick, Loewenstein e O’Donoghue (2002) também explicam que em 1930,
Irving Fisher considerou decisões de consumo intertemporal em um diagrama
de indiferença onde uma pessoa escolhe entre consumo presente ou futuro,
esta representação mostrou que a taxa marginal de substituição de um
individuo depende de suas preferências temporais e de sua utilidade marginal.
Esta consideração abriu caminho para o desenvolvimento de teorias que
tentam mensurar a utilidade dos indivíduos e como as decisões de consumo se
dão.
Secção 1.1 – Modelo de Utilidade Descontada
Paul Samuelson (1937) descreveu, em seu trabalho, “A Note on Measurement
of Utility”, um método alternativo para medir a utilidade marginal da renda,
este método alternativo reside em hipóteses para mostrar relações teóricas
entre as variáveis que serão apresentadas.
Todo o desenvolvimento do modelo de Samuelson baseia-se na condição de
que o individuo comporta-se de forma racional, e que, em circunstancias ideais,
ele maximizará sua utilidade, ou seja, as pessoas sabem o que querem, se
comprometem com determinados objetivos para o futuro e os cumprem.
O modelo sustenta-se sobre quatro hipóteses e tem como objetivo chegar a
uma medida precisa da utilidade marginal da renda para um indivíduo cujos
gastos mantêm-se fixos assim como os preços dos bens a serem consumidos.
A condição de preços de um determinado conjunto de bens serem fixos é
utilizada na primeira hipótese de Samuelson de forma que variações na renda
definirão a trajetória na qual se medirá a utilidade marginal da renda. A
utilidade da renda é uma taxa por unidade de tempo de maneira que a utilidade
marginal é a taxa de utilidade por dinheiro por unidade de tempo.
15
Para a segunda hipótese, durante um período específico de tempo, o indivíduo
se comporta de forma a maximizar a soma de todas as utilidades futuras que
são comparadas em magnitude pelo desconto intertemporal.
A terceira hipótese considera que o individuo desconta as utilidades futuras de
maneira conhecida e a taxa de desconto das utilidades futuras é constante.
Esta hipótese, em conjunto com as duas hipóteses anteriores, limita a função
de utilidade marginal que pode ser escrita como
∫ = ∫b0U(x)е-πt dt (1.1.1).
Dadas as condições iniciais sob as quais o individuo deve agir, a quarta e
última hipótese considera que o individuo recebe uma quantia inicial de
dinheiro, qualquer valor poupado será remunerado a uma determinada taxa e
não deve haver sobras de capital no fim do último período. Pode-se rearranjar
a equação (1.1.1) para
S = ∫b0x(t)е-rtdt (1.1.2).
A partir destas hipóteses, é possível considerar condições necessárias entre a
forma dos gastos da renda ao longo do tempo e a utilidade marginal da renda.
Para simplificar a consideração destas condições necessárias, deve-se
maximizar a seguinte função
∫b0U(x)е-πt dt – λ[∫b0x(t)е-rtdt – S] (1.1.3).
Desconsiderando os sinais da integral e tirando a diferença em relação à x,
temos a seguinte condição para maximização:
U’(x)eπt – λe-rt = 0 (1.1.4)
Esta equação demonstra como a utilidade marginal varia ao longo do tempo
com base nas hipóteses feitas. Conhecendo-se x como uma função de t, podese chegar à forma da função de utilidade que é o objetivo do trabalho.
Através de um processo matemático, conclui-se que a forma da função de
utilidade é a seguinte:
U(x) = λ∫Cе(π-r)q(x)dx (1.1.5);
16
Na qual c indica os limites da integração a ser feita.
O modelo de Utilidade Descontada de Samuelson representa um marco no
estudo das decisões de consumo porque abre espaço para outros estudos e
modelos de escolha intertemporal baseados tanto nas conclusões quanto nas
premissas de Samuelson. Ao introduzir o conceito de que indivíduos tomam
suas decisões de consumo ao longo do tempo com base em um taxa de
desconto intertemporal constante, Samuelson permitiu o desenvolvimento de
modelos que estudam o comportamento de consumo como o Modelo de Renda
Permanente de Milton Friedman (1957) e o Modelo de Ciclo de Vida de
Modigliani e Brumberg (1954).
Para o presente trabalho será analisado o modelo de Ciclo de Vida, pois este
aparentemente gera uma função de consumo agregado mais promissora do
que a função do modelo de Friedman.
Secção 1.2 – Modelo de Ciclo de Vida
O modelo de Ciclo de Vida é uma teoria baseada nas relações entre a renda
durante a vida de um individuo, e seu consumo. O modelo de Modigliani e
Brumberg (1954) diz que a função de utilidade de um indivíduo é uma função
de seu próprio consumo hoje e em períodos futuros.
Assume-se que o individuo maximiza sua utilidade sujeita aos recursos; estes
recursos são a soma entre ganhos atuais, ganhos futuros descontados. Como
resultado desta maximização, o consumo individual pode ser expresso como
uma função dos recursos do indivíduo e a taxa de retorno do capital. Desta
forma as hipóteses cruciais na função de consumo agregado são relacionadas
à função de utilidade individual e a estrutura etária da população.
A primeira hipótese do modelo diz que a função de utilidade é homogênea em
relação ao consumo em diferentes períodos de tempo, ou seja, se o individuo
receber um dólar ele alocará este recurso extra ao longo do tempo da mesma
maneira que alocou os recursos anteriores.
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A segunda hipótese considera que o individuo não espera receber ou deixar
herança, ou seja, ele planeja gastar todos os recursos adquiridos ao longo da
vida de forma que não há razão para poupar em seus últimos anos.
Estas duas hipóteses implicam que em um dado ano, o consumo de uma
pessoa de idade T será proporcional ao valor presente do total de recursos
ganhos ao longo da vida, ou
CtT=ΩtTνtT (1.2.1).
ΩtT é um fator proporcional que depende da forma da função de utilidade, a
taxa de retorno dos ativos e a idade atual da pessoa, mas não depende dos
recursos totais vtT. CtT é o consumo total.
VtT pode ser expresso como a soma de todo valor liquido de períodos
passados, aTt-1, e o valor presente de toda renda não derivada de ativos fixos
que a pessoa espera ganhar
vtT = aTt-1 + ytT + Σ (ytеTτ)/(1+rt)τ-T (1.2.2).
Pode-se escrever a equação (1.2.1) como
CtT=ΩtTytT + ΩtT (N-T)ytеT + ΩtT aTt-1 (1.2.3),
Assim a função de consumo agregado é
CtT = ΩtTYtT + (N-T)ΩtT YtеT + ΩtT ATt-1 (1.2.4).
A partir da equação (1.2.4), a função de consumo para toda a sociedade é
Ct = α’1Yt + α’2Ytе + α’3AT-1 (1.2.5).
Para estimar os coeficientes de (1.2.5) é necessário assumir três hipóteses, a
primeira é de que um consumidor de qualquer idade planeja consumir todos os
seus recursos até o fim de sua vida.
A segunda hipótese é de que todo o grupo etário tem sua renda média, em um
dado ano, igual. Esta hipótese também considera que em um dado ano, a
renda média esperada para um determinado grupo etário é a mesma e todo
individuo da sociedade tem a mesma expectativa de vida e de receita.
18
Já a terceira hipótese considera que a taxa de retorno de um ativo é constante
e permanece constante.
Sob estas hipóteses, se a renda real agregada segue uma tendência de
crescimento exponencial, as condições para que os parâmetros temporais de
(1.2.5) sejam constantes são satisfeitas. Desta forma os valores dos
parâmetros dependem exclusivamente da taxa de retorno dos ativos e da taxa
de crescimento da renda que é a soma entre o crescimento populacional e a
taxa de aumento na produtividade.
Agora se deve medir a renda esperada que até agora não foi diretamente
observada.
Uma hipótese seria assumir que a renda esperada proveniente de ativos não
fixos seria a mesma que a renda atual; desta forma, temos a função de
consumo agregado Ct = α1Yt + α3AT-1 como hipótese 1.
Para uma formulação mais sofisticada, poder-se-ia assumir que a renda
esperada é uma média ponderada exponencial da renda passada; ou tratar a
renda esperada como renda do trabalho excluindo lucros.
Para os indivíduos que estão desempregados, pode-se considerar a hipótese
de que a renda esperada é proporcional a renda atual média. Desta forma
assume-se:
yteu = β2(Yt/Et) (1.2.6)
Onde Yteu é a renda média esperada de pessoas desempregadas.
De posse disso, a renda agregada esperada é dada por Y
te = (β1 – β2)Yt + β2(Lt/Et)Yt (1.2.7)
Onde L é a força de trabalho.
Substituindo (1.2.7) em (1.2.5) obtemos
Ct = α1Yt + α2 (Lt/Et)Yt + α3AT-1 (1.2.8)
Que seria a segunda hipótese.
19
De uma maneira geral o modelo faz importantes avanços na relação entre o
consumo e a expectativa de renda somada a expectativa de vida de uma
pessoa; estes conceitos, embora um tanto brutos, sem o detalhamento
necessário para capturar a realidade da mentalidade dos indivíduos, conforme
será mostrado nos próximos capítulos, são essenciais na tomada de decisão
intertemporal.
20
Capitulo 2
O capitulo 1 procurou mostrar, através de modelos conhecidos, como os
economistas explicam as escolhas intertemporais; os modelos de Utilidade
Descontada e de Ciclo de Vida são representações de como os indivíduos
tomam suas decisões de consumo e se baseiam na premissa de que os
indivíduos se comportam de modo racional, ou seja, apresentam consistências
nas preferências temporais, eles se comprometem com um objetivo no futuro e
o cumprem quando o futuro chega.
A maneira de explicar decisões intertemporais tem sido questionada por
economistas comportamentais, pois na realidade os indivíduos possuem
preferências temporais inconsistentes, quando o futuro chega as pessoas tem
dificuldade de cumprir os objetivos determinados anteriormente por mal
planejamento em considerar suas vontades.
Fatos empíricos sobre o comportamento das pessoas nas tomadas de decisão
intertemporal, não previstos pelos modelos tradicionais citados no primeiro
capítulo demonstram esse questionamento dos economistas comportamentais;
estes fatos são chamados de anomalias.
Observa-se, por exemplo, a presença de anomalias de desconto constante,
proposto por Samuelson (1937), as taxas de desconto intertemporal não são
constantes e na verdade declinam ao longo do tempo seguindo um padrão
hiperbólico, como será explicado no capitulo seguinte.
A presença destas anomalias questiona a capacidade explanatória dos
modelos tradicionais e abre caminho para modelos comportamentais que
procuram explicar melhor as decisões de consumo intertemporal e o conflito
intertemporal que os indivíduos estão sujeitos. Este capítulo pretende discutir
as anomalias citadas.
Loewenstein e Prelec (1992) citam três tipos de padrões de preferências que
violam as implicações do modelo de Utilidade Descontada: Efeito Diferença,
Efeito da Magnitude e Aversão a perda.
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O modelo de Utilidade Descontada (UD) implica que um indivíduo será
indiferente entre adicionar um determinado valor a seu consumo hoje e
adicionar um valor maior posteriormente no tempo; mas Loewenstein e Prelec
(1992) exemplificam que uma pessoa preferirá uma maçã hoje a duas amanhã,
mas ao mesmo tempo preferirá duas maçãs em 51 dias ao invés de uma maçã
em 50 dias. Esta anomalia chamada de efeito de diferença comum mostra
inconsistências no comportamento que seria esperado pelo modelo de UD.
Outras duas anomalias citadas por Loewenstein e Prelec (1992) são o efeito
magnitude e a aversão a perda. O primeiro caso mostra que quantias maiores
de dinheiro sofrem um desconto proporcionalmente menor do que quantias
menores. O segundo caso mostra que as perdas são descontadas a taxas
menores do que os ganhos, as pessoas são indiferentes entre ganhar 10
dólares hoje ou 21 dólares em um ano, mas são indiferentes entre perder 10
dólares hoje ou perder 15 dólares em um ano.
Os modelos conseqüentes ao modelo de Utilidade Descontada, como o modelo
de Ciclo de Vida, também apresentam anomalias. Como explicado por Thaler
(1990) os modelos de ciclo de vida e renda permanente implicam que o
consumo é uma proporção constante da renda permanente e não da renda
atual,
mas
existem
evidencias
que
mostram
que
esta
condição
é
constantemente violada, o consumo depende fortemente da renda atual. De
acordo com o modelo de Modigliani e Brumberg (1954), o consumo aumentaria
na ocasião de um aumento da renda, mas os gastos somente aumentariam
quando o dinheiro chega fisicamente e não quando for anunciado.
Outra anomalia encontrada por Thaler (1990) é a de que indivíduos com mais
renda, mas com fluxos de caixa de recebimento desta renda diferentes, tem
padrões de consumo diferente. No caso de uma pessoa com um determinado
salário fixo e outra com um salário fixo menor, mas que recebe um bônus no
fim do ano de maneira a igualar a renda da primeira pessoa; nota-se que a
primeira pessoa irá poupar mais, pois sua renda permanente é menor de forma
que ela ajustará seu estilo de vida a esse padrão.
Este fato demonstra como a psicologia humana age na tomada de decisão e a
importância de se levar em conta a analise psicológica para o melhor
22
entendimento da economia. A modelagem e previsão de decisões sem a
consideração comportamental levam a resultados incompletos justamente por
não considerar imperfeições e características da mente humana, a utilização de
insights da psicologia em modelos econômicos ajuda a melhorar a capacidade
de previsão destes modelos
Anomalias também são encontradas quando se estuda os padrões de consumo
em grupos etários. Pelo modelo de ciclo de vida, o consumo dos jovens
relativamente ao consumo dos idosos deve ser positivamente relacionado ao
crescimento do produto do país, mas na realidade os padrões de consumo
etários são semelhantes entre países. Os perfis de consumo etário são
fortemente influenciados por diferentes perfis de renda, o que reforça a primeira
anomalia de consumo apresentada.
Considerando investimentos de aposentadoria, Thaler (1990) explica que um
indivíduo racional irá investir em sua aposentadoria o mais rápido possível de
forma que a renda fique protegida, mas na realidade os indivíduos que
procuram este tipo de investimento são aqueles que procuram fugir do imposto
de renda de forma que a riqueza é um indicador mais importante que a renda
para as decisões entre investir ou não na aposentadoria.
Mas porque um indivíduo investiria em sua aposentadoria? Por ser um
investimento menos liquido e menos tentador, o individuo estaria procurando se
proteger do consumo através de medidas de restrição de liquidez, pois ele
sabe que poderia não ser capaz de se controlar caso o dinheiro estivesse
disponível; isto demonstra uma medida de autocontrole devido à racionalidade
imperfeita do individuo.
Para ilustrar problemas de autocontrole podemos considerar o exemplo de uma
grávida no momento do parto. Ao dar entrada no hospital para dar a luz, a
futura mãe pede ao médico para ter o filho sem anestesia para evitar qualquer
dano
à
saúde
da
criança,
mas
no
momento
da
dor,
ela
pede
desesperadamente pela anestesia, pois, naquele momento, a dor é maior que
seu comprometimento inicial. Este fato também pode ser considerado no
momento do consumo, apesar de uma pessoa estar comprometida com sua
riqueza futura, ao ver um bem ou serviço que lhe desperta o interesse, o desejo
23
de consumo naquele momento se torna maior que seu comprometimento com
o futuro levando a resultados que os modelos de escolha intertemporal
tradicionais não consideram.
Outra anomalia encontrada no modelo de ciclo de vida é refletida pela baixa
propensão marginal a consumir pela riqueza decorrente de investimentos
imobiliários; idosos proprietários de imóveis apresentam um padrão de
consumo baixo o que vai contra o modelo, idosos não desejam reduzir seus
ativos (despoupar).
Estas anomalias nos modelos tradicionais de escolha de consumo se fazem
presentes uma vez que estes modelos não levam em consideração alguns
fatores que os indivíduos estão sujeitos tais como a miopia em visualizar seus
rendimentos futuros ou a necessidade de poupar para garantir uma renda
futura, problemas de autocontrole e magnitude, que explica que quanto mais
caro for um bem ou serviço, menor será a taxa de desconto intertemporal do
individuo que o consome.
As evidências de que os indivíduos são limitadamente racionais mostram a
necessidade de se utilizar insights da psicologia para considerar os fatores que
levam a escolhas subótimas na construção de modelos de escolha
intertemporal alternativos, baseados na economia comportamental. Modelos
como o de Taxa de Desconto Hiperbólico e o Modelo de Ciclo de Vida
Comportamental serão discutidos no próximo capítulo.
24
Capitulo 3
Este capítulo tentará sustentar a tese de que a incorporação explícita de
insights da psicologia na analise econômica da escolha de consumo
intertemporal abre espaço para melhor compreensão e previsões mais
rigorosas
de
padrões
de
comportamento
empiricamente
observados,
comumente denominados de anomalias ou resultados irracionais.
Para tal serão citados dois modelos de economia comportamental: o modelo de
Desconto Hiperbólico e o modelo de Ciclo de Vida Comportamental que é uma
variação do modelo de Modigliani e Brumberg (1954).
Secção 3.1 – Modelo de Desconto Hiperbólico
Como visto anteriormente, o modelo de utilidade descontada permitiu o
desenvolvimento de diversos modelos de escolha intertemporal uma vez que
utiliza o conceito de que indivíduos tomam suas decisões de consumo ao longo
do tempo com base em um taxa de desconto intertemporal constante.
Como explicado por Chabris, Laibson e Schuldt (2003), o desconto
intertemporal mais utilizado pode ser decomposto em uma soma ponderada de
fluxos de utilidade em cada período de tempo.
(3.1.1)
Considerando Ut a utilidade total, T o ultimo período de vida e u t+τ é o fluxo de
vida no período t+τ e D(τ) é a função de desconto; se ao postergar o premio (ou
beneficio proveniente do consumo) o valor da utilidade cair, a função de
desconto declina de acordo com o atraso D’(τ)
0.
As preferências temporais são representadas por uma taxa na qual a função de
desconto decai, quanto maior essa taxa, maior a preferência por prêmios
imediatos ao invés de prêmios postergados, ou seja, quanto maior (ou menor)
for a taxa de desconto mais o individuo preferirá o beneficio hoje (ou estará
disposto a postergar se ganho para o beneficio futuro). A taxa de desconto
pode ser dada por:
25
. (3.1.2)
A função de desconto mais utilizada por economistas tradicionais é a função de
desconto exponencial D(τ) =
na qual a taxa de desconto independe do
horizonte τ.
A função de desconto exponencial também apresenta consistência dinâmica,
ou seja, as preferências em um determinado momento não mudam com o
passar do tempo. Mas conforme visto no segundo capítulo existem evidências
empíricas de anomalias no comportamento previsto pelo desconto exponencial,
Loewenstein e Prelec (1992) sugerem uma função de desconto hiperbólica
para capturar o comportamento das pessoas D(τ)=(1+ατ)-γ/α.
Esta função de desconto tem a vantagem de possuir taxas de desconto
maiores no longo prazo do que no curto prazo, ou seja, indivíduos que agem
sob o desconto hiperbólico dão valor mais o presente do que o futuro, pois
descontam
mais
fortemente
fluxos
presentes,
não
levam
muito
em
consideração o futuro ou se levam, o fazem em um nível menor que o
presente.
A vantagem explanatória deste modelo, se comparado com o desconto
constante, em decisões intertemporais entre consumo e poupança pode ser
demonstrada em um simples exemplo. Consideremos uma situação em que
uma pessoa recebe o salário do mês e, na volta para casa, passa em frente a
uma loja e vê um produto que lhe interessa; pelo desconto constante, a pessoa
será, em condições perfeitas, indiferente entre poupar ou consumir, mas
considerando-se o desconto hiperbólico, esta pessoa dará mais peso para o
presente, ou seja, irá comprar o produto ao invés de poupar para poder
comprar algo melhor no futuro. Este simples exemplo demonstra como o
desconto hiperbólico pode capturar mais fielmente o comportamento humano.
Diversos modelos foram propostos utilizando-se dos padrões capturados pela
função de desconto hiperbólico, um deles é uma variação do Modelo de
Modigliani e Brumberg que utiliza conceitos psicológicos e observações
comportamentais para aprimorar o entendimento do comportamento de
consumo e poupança dos indivíduos.
26
Secção 3.2 – Modelo de Ciclo de Vida Comportamental
Como observado no capitulo dois, existem anomalias no comportamento
esperado dos indivíduos pelo modelo de Ciclo de vida; para tentar capturar
melhor o comportamento real dos indivíduos, Shefrin e Thaler (1988)
propuseram o modelo de Ciclo de Vida Comportamental que se baseia em
características como planejamento e autocontrole.
O autocontrole é um esforço que envolve fatores como conflitos internos,
tentações e força de vontade que não são considerados na analise tradicional e
implicam em trade-off’s entre o prazer imediato e benefícios de longo prazo. O
modelo de Ciclo de Vida Comportamental modifica o modelo de Modigliani e
Brumberg de forma a incorporar tais variáveis.
Para capturar os aspectos racionais e emocionais do individuo, Shefrin e Thaler
(1988) empregam uma estrutura dupla na qual duas formas de preferências
inconsistentes coexistem, uma objetivando o curto prazo e outra o longo prazo;
estas duas formas representam diferentes personalidades do individuo
respectivamente chamados de Ator e Planejador.
A personalidade do Ator é aquela na qual a pessoa age sem medir as
conseqüências, ou seja, no momento de tomar uma decisão, todas as atenções
estão voltadas para a satisfação imediata, não há um pensamento ou
planejamento para o futuro. Por outro lado, a personalidade do Planejador é
voltada para o futuro, o planejador pensa em todas as conseqüências em suas
decisões de forma a influenciar as decisões do ator e maximizar a utilidade do
indivíduo.
Considera-se, para a montagem deste modelo, que o período de vida de um
indivíduo é dado por T sendo o ultimo período a aposentadoria de forma que a
renda total do individuo seja dada por y = (Y1,..., yT). Para simplificar, assumese mercado de capitais perfeito e taxa de juros real igual a zero; sendo a renda
da aposentadoria yT igual a zero, a riqueza em vida é dada por
27
O conflito associado com o autocontrole é obtido contrastando horizontes
temporais do ator e do planejador. O ator é míope, preocupado apenas com o
consumo no período atual; no período t assume-se que o ator possui um
subfunção de utilidade Ut(ct) com a utilidade marginal decrescente. Em
contrapartida o planejador estará sempre interessado em maximizar a função
de utilidade pelo total da vida do ator.
Um conjunto de escolhas praticáveis na data t é definido como X t de forma que
o ator míope selecionará o maior valor possível para ct enquanto que o
planejador preferirá o menor valor possível. Supondo que o planejador
pretende diminuir ct utilizando força de vontade (representada por W t) que
causa uma sensação negativa correspondente a perda de utilidade do
consumo, a função de utilidade do ator representada por Z t pode ser dada por
Zt = W t + Ut. O ator escolhe ct de forma a maximizar Zt e essa escolha reflete as
influencias do ator e do planejador combinadas.
Esforços de força de vontade podem ser aplicados em uma serie de graus de
forma que os autores definem uma variável chamada de variável do esforço de
força de vontade caracterizada por θt. A função
(ct, Xt) representa variações
de θt necessárias para induzir o individuo a escolher um determinado nível de
consumo dado Xt.
Desta forma pode-se listar quatro fatos significantes sobre a força de vontade.
1 – Um aumento do esforço de força de vontade é necessário para reduzir o
consumo de forma que
é decrescente em ct.
2 – Um aumento da força de vontade é doloroso e reduz o consumo resultante
de reduções em Zt.
3 – O aumento do esforço de força de vontade não é só doloroso como se
torna cada vez mais doloroso a medida que mais força de vontade é aplicada.
4 – A força de vontade se torna menos custosa a medida que a aposentadoria
se aproxima.
Mas como a força de vontade pode ser muito custoso para o indivíduo, este
procura outras formas de autocontrole; como por exemplo a chamada
28
contabilidade mental. Shefrin e Thaler (1988) explicam que a contabilidade
mental é uma maneira de decompor a riqueza de um indivíduo em uma série
de contas, semelhantes com contas contábeis; como por exemplo renda, ativos
e renda futura.
O consumo em cada uma destas contas apresenta padrões diferentes de forma
que se torna mais fácil alocar recursos em cada conta para influenciar a
poupança.
Estas alterações na teoria original de ciclo de vida permitem que o modelo se
torne mais realista no ponto de vista comportamental, pois “quebra” a mente
humana em duas forças opostas e avalia o comportamento de cada uma de
forma a produzir o resultado final da decisão do indivíduo.
Secção 3.3 – Saving more Tomorow
Os modelos comportamentais de escolhas intertemporais têm como objetivo
melhorar a capacidade de previsão das decisões de consumo e poupança dos
indivíduos
através
da
captura
de
padrões
de
comportamentos
não
considerados na abordagem tradicional. As implicações desta abordagem
comportamental podem ser observadas em programas e produtos de
comprometimento de poupança desenvolvidos para aproveitar o ganho
explanatório gerado pela incorporação de insight da psicologia nos modelos de
decisão intertemporal. Um programa que exemplifica este ganho explanatório é
o programa SMarT – Save More Tomorow de Thaler e Benartzi (2001).
Uma das características recentes nos planos de aposentadoria americanos é
que ao invés de terem uma retirada fixa, estes planos estão começando a
mudar para contribuições fixas, ou seja, ao invés de ajustar sua contribuição
para um garantir um valor de retirada no futuro, as pessoas devem analisar o
quanto contribuir de seus rendimentos atuais de maneira a garantir sua
aposentadoria, assim a taxa de poupança ótima para as pessoas fica
inteiramente a cargo delas mesmas.
29
Os modelos tradicionais apresentados no primeiro capítulo indicam que esta
mudança na estrutura dos planos de aposentadoria não alteraria o
comportamento das pessoas, uma vez que estas são racionais e conseguem
visualizar o quanto precisarão até o fim de suas vidas e por conseqüência o
quanto contribuir com o plano de aposentadoria atualmente. Mas evidências
empíricas apresentadas neste trabalho demonstram que os indivíduos não se
comportam de maneira inteiramente racional e, além de não conseguirem
calcular com exatidão a taxa ótima que deveriam poupar, também
freqüentemente desviam de seus objetivos de poupança.
Conforme explicado por Thaler e Benartzi (2004), indivíduos poupam menos do
que deveriam devido a quatro fatores: racionalidade limitada, problemas com
autocontrole, procrastinação e aversão a perda nominal.
Determinar a taxa ótima de poupança é algo no qual até mesmo os
economistas têm dificuldade, e para um indivíduo sem um conhecimento de
finanças e economia escolher a proporção exata da sua renda para contribuir
com um plano de previdência é uma tarefa muito difícil. As pessoas não
possuem uma racionalidade tão prefeita quanto sugerem os modelos
tradicionais. Uma alternativa para este problema seria a educação financeira.
Parte dos indivíduos que não poupam ou poupam muito pouco reconhecem
que deveriam concentrar mais esforços para poupança, mas não o fazem pois
lhes falta autocontrole suficiente para recusar o consumo e direcionar parte da
renda para esta finalidade conforme discutido anteriormente neste capítulo.
O terceiro fator citado por Thaler e Benartzi (2004) pode ser entendido
considerando-se que os agentes seguem o desconto hiperbólico, eles
procrastinam, pois pensam que o futuro não é mais importante que o presente.
A procrastinação acontece quando os indivíduos postergam suas ações e
preferem atuar hoje ao invés de amanha, ela produz uma forte tendência à
inércia, ou seja, o indivíduo tende a permanecer no estado em que se encontra
em relação a seus investimentos em poupança; este conceito também é
conhecido como viés status quo.
30
A importância da procrastinação e do viés status quo para o desenvolvimento
de planos de poupança pode ser visto em planos de envolvimento automático
desenvolvidos por algumas empresas. Nestes plano, todos os funcionários da
empresa entram automaticamente e tem a opção de sair, de não aceitar o
plano, ao contrário dos planos tradicionais nos quais os funcionários escolhem
se entram ou não. A economia tradicional diria que estes planos não surtiriam
efeito no comportamento de poupança, mas conforme um estudo realizado por
Madrian e Shea (2001) a taxa de funcionários que escolheram participar do
plano subiu de 49% com os planos tradicionais para 86% com o novo plano.
O ultimo fator citado por Thaler e Benartzi (2004), aversão a perda, considera
que as pessoas descontam a perda com taxas maiores que os ganhos; a
aversão a perda é importante para a poupança, pois uma vez que os indivíduos
atingem um determinado nível de renda, eles tendem a perceber reduções na
renda como perdas de forma que eles evitam aumentar a contribuição para
poupança pois vêem isso como uma redução na renda. Para incentivar os
indivíduos a poupar, é necessário que eles se comprometam com a poupança
antes do aumento da renda de forma que no momento que o dinheiro é
recebido, uma parte é direcionada automaticamente para a poupança e não
seja percebida como uma perda.
O programa Save More Tomorow leva em consideração que os indivíduos não
tomam decisões como os economistas tradicionais prevêem e analisa estes
quatro fatores para auxiliar as pessoas a atingirem suas poupanças ótimas. A
racionalidade limitada indica que o programa deve ser simples deve ajudar as
pessoas a determinar suas taxas de poupança e aproximar o máximo possível
da taxa ótima se estas pessoas não são capazes de fazê-lo por conta própria.
O desconto hiperbólico implica que as oportunidades de poupar mais no futuro,
serão mais atrativas do que no presente. A procrastinação e a inércia indicam
que os indivíduos se comprometerão com um programa de poupança uma vez
que estejam incluídos nele.
31
Capitulo 4
O programa SMART mostra como se explorar as vantagens explanatórias
associadas à abordagem comportamental da decisão intertemporal. Este
capítulo tem como objetivo mostrar programas utilizados ao redor do mundo
que se utilizam desta perspectiva para auxiliar pessoas a alcançarem suas
escolhas de poupança.
Estes programas e produtos, chamados de poupança comprometida, são
abundantes em países desenvolvidos como, por exemplo, planos de pensão,
planos de saúde e contas de poupança para educação nos quais uma parcela
da renda é diretamente direcionada para contas de investimento. Alguns destes
produtos
podem
ser
adaptados
para
populações
pobres
de
países
subdesenvolvidos com um sistema financeiro pouco desenvolvido na forma de
projetos de microfinanças que oferecem acesso fácil e de baixo custo a
produtos de poupança que utilizam alguma forma de comprometimento.
Ashraf et.al. (2003) explicam que um produto de poupança bem sucedido deve
equilibrar fatores de depósito que auxiliam os indivíduos a realizarem depósitos
regulares em contas de poupança e fatores de retirada que dificultam o
indivíduo a ter acesso à poupança para retirada antes da data que ele tinha se
comprometido.
Um fator de depósito citado por Ashraf et.al. (2003) são transferências
automáticas entre ativos financeiros que podem facilitar a poupança de longo
prazo; esta ferramenta funciona, pois os custos são reduzidos, mas também
pela inércia, discutida anteriormente, que tem uma grande influência nos
resultados de poupança.
Outra ferramenta de depósito são deduções automáticas de pagamentos, ou
seja, no momento em que o indivíduo recebe seu pagamento parte do dinheiro
é automaticamente direcionado para contas de poupança de forma que a
pessoa não chega a ter acesso ao dinheiro e reduz o risco de se corromper e
utilizar este recurso para alguma finalidade que não seja poupar. Neste caso os
indivíduos têm a opção de parar com este recurso a qualquer momento, mas
32
não o fazem por inércia e por reconhecerem que podem não ter autocontrole
suficiente.
Um
dos
fatores
de
retirada
mais
comuns
para
a
poupança
de
comprometimento citados por Ashraf et.al. (2003), empregado tanto em países
desenvolvidos quanto em países subdesenvolvidos, é a restrição de uso dos
fundos, ou seja, um determinado fundo somente poderá ser utilizado para um
uso especifico. Este caso utiliza o conceito de contabilidade mental e facilita
para os indivíduos direcionarem seus gastos apenas para o que consideram
essencial sem correr o risco de desviar e consumir recursos que poderiam ser
poupados ou direcionados para um consumo mais importante como, por
exemplo, estudo ou tratamento médico.
Outro fator de retirada que procura dificultar o acesso dos indivíduos a
poupança é a taxa de retirada, os indivíduos que decidirem retirar seus
recursos destinados a poupança antes da data pré-estabelecida para retirada
devem pagar uma taxa extra que visa desestimular a retirada acrescentando
um valor maior ao consumo, ou seja, este método consiste em uma maneira de
incorporar o custo da perda de poupança no consumo. Algumas pessoas
preferem este método para se proteger de impulsos consumistas.
Ashraf et.al. (2003) citam alguns produtos de poupança com características de
comprometimento (commitment savings); esses produtos exemplificam os
ganhos obtidos quando a analise comportamental é levada em conta, a
incorporação de anomalias de comportamento nestes produtos permite uma
analise mais real de como as pessoas tomarão suas decisões e de que
maneira auxiliar seu comprometimento com a poupança com o objetivo de
aumentar sua riqueza futura e aperfeiçoar o planejamento financeiro de
famílias que não tem acesso ao conhecimento complexo de economia e
finanças.
A Conta SEED
A conta SEED (do inglês deposito para poupar, ganhar e aproveitar) foi
desenvolvido pelo Green Bank das Filipinas e consiste em uma conta que
requer que os clientes se comprometam em não realizar retiradas até que a
33
data ou a quantia estabelecida seja alcançada. As contas SEED são individuais
e apresentam três características sendo uma relacionada a retiradas e as
outras duas relacionadas a depósitos.
Os clientes são proibidos de retirar recursos da conta a não ser que uma meta
especifica seja atingida, essa meta pode ser uma data em particular, como por
exemplo, Natal, ou uma meta financeira. Esta é uma maneira de utilizar o
desconto hiperbólico a favor do indivíduo; no presente uma pessoa não tem
restrições quanto a escolhas no futuro, e dessa forma o produto “trava” a
escolha da pessoa de forma a proteger seus investimentos de seu próprio
comportamento impulsivo e subótimo.
Quanto as características relacionadas aos depósitos, os clientes escolhem
suas próprias metas, e uma vez que as metas são escolhidas, os recursos são
trancados em uma caixa cuja chave apenas o banco tem, de forma que o
cliente não pode abrir quando quiser; uma vez que as metas são atingidas,
apenas o cliente, e não um familiar, pode abrir a caixa e reaver seus recursos.
Conta de Poupança Feminina na Guatemala
Este produto da Cooperativa de Crédito Guayacan da Guatemala visa atender
mulheres que desejem poupar para eventos como aniversários, Natal, e outros
eventos familiares, as mulheres interessadas definem o quanto poupar em
cada mês e por quanto tempo desejam poupar. Se conseguirem atingir suas
metas, elas receberam juros sobre suas poupanças que são 1% maior que
uma poupança normal para a Guatemala. Este produto obtém maior sucesso
em áreas onde as mulheres têm renda.
Term Deposits no Sri Lanka
Depósitos estão disponíveis para todos os clientes da SANASA, uma
cooperativa de crédito do Sri Lanka, independentemente do tipo de produto de
poupança utilizado; estas contas de depósitos têm uma característica de
comprometimento uma vez que o produto restringe as retiradas até que o prazo
pré-estabelecido seja alcançado. Caso haja uma retirada prematura, será
cobrada uma taxa sobre o valor retirado.
34
SIMPEDES e SIMASKOT na Indonésia
Estes produtos do Banco Rakyat da Indonésia visam tanto produtores rurais
quanto moradores urbanos e são muito populares pois tem como característica
uma flexibilidade que permite aos clientes acesso ilimitado a retiradas
instantâneas de suas poupanças.
Nos produtos SIMPEDES e SIMASKOT, os clientes participam de sorteios
periódicos e a quantidade que cada pessoa tem em sua conta determina a
quantidade de cupons que receberam para participar do sorteio, ou seja, maior
a probabilidade de ganhar. Essa medida visa criar incentivos para que os
clientes não façam retiradas desnecessárias de suas poupanças.
35
Conclusão
Levando em consideração o importante papel que a poupança representa na
economia na forma de garantir para o futuro ganhos atuais e aumentar
riquezas, este trabalho procurou demonstrar diferentes abordagens de como os
indivíduos tomam suas decisões de consumo e poupança. Estas abordagens
têm o intuito de analisar a racionale por trás da tomada de decisão utilizando
conceitos econômicos e psicológicos.
Os modelos tradicionais, que partem da premissa que as pessoas são
perfeitamente racionais, ou seja, que elas têm perfeito conhecimento de suas
preferências e cumprirão no futuro seus objetivos definidos no presente,
representam um importante avanço no estudo de como as pessoas se
comportam para consumir e por conseqüência poupar além de criar as bases
para o estudo da economia comportamental relacionada a este assunto.
Mas as hipóteses assumidas nos modelos tradicionais podem não capturar de
forma complexa
o comportamento real dos indivíduos em decisões
intertemporais. Como evidências de que existem certas incompatibilidades
entre os resultados que estes modelos prevêem e as decisões tomadas pelas
pessoas na realidade, foram apresentados casos nos quais fica claro que é
preciso levar em consideração detalhes sobre o comportamento humano que
foge aos modelos tradicionais.
Para considerar estas características na tomada de decisão intertemporal é
preciso lançar mão de insights da psicologia que ajudam a melhorar a tomada
de decisão. A consideração de conhecimentos de psicologia permite a
construção de modelos, como o de Ciclo de Vida Comportamental e o de
Desconto Hiperbólico, mais fiéis ao comportamento real dos indivíduos e
capazes de prever melhor os padrões de comportamento em relação aos
modelos tradicionais.
Estes modelos apresentam um ganho explanatório que pode ser comprovado
por programas e produtos de comprometimento de poupança que se utilizam
da abordagem comportamental para auxiliar indivíduos a atingir um grau
satisfatório de poupança.
36
Um ponto notado durante a realização deste trabalho foi a falta de literatura
nacional sobre o assunto assim como faltam produtos e políticas direcionados
para auxiliar brasileiros a poupar. Uma sugestão para trabalhos futuros que
visem abordar esse nicho seria um estudo mais aprofundado sobre o
comportamento dos brasileiros na tomada de decisão intertemporal e a
proposição e discussão de produtos e políticas que visem eventualmente
aumentar as taxas de poupança brasileiras.
37
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