UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ AURILENE LIMA DA SILVA SIGNIFICADOS E SENTIDOS DA ÚLCERA POR PRESSÃO ADQUIRIDA NA INTERNAÇÃO HOSPITALAR: ESTUDO DE ENFERMAGEM SOBRE MULHERES COM CARDIOPATIA FORTALEZA – CEARÁ 2012 AURILENE LIMA DA SILVA SIGNIFICADOS E SENTIDOS DA ÚLCERA POR PRESSÃO ADQUIRIDA NA INTERNAÇÃO HOSPITALAR: ESTUDO DE ENFERMAGEM SOBRE MULHERES COM CARDIOPATIA Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Acadêmico em Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde do Programa de Pós-Graduação Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde, da Universidade Estadual do Ceará, como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre em Cuidados Clínicos. Área de Concentração: Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde. Orientadora: Profª. Drª. Lúcia de Fátima da Silva. FORTALEZA – CEARÁ 2012 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Estadual do Ceará Biblioteca Central Prof. Antônio Martins Filho Bibliotecário Responsável – Francisco Welton Silva Rios – CRB-3/919 S586s Silva, Aurilene Lima da Significados e sentidos da úlcera por pressão adquirida na internação hospitalar: estudo de enfermagem com mulheres portadoras de cardiopatia / Aurilene Lima da Silva. — 2012. CD-ROM. 64 f. ; 4 ¾ pol. “CD-ROM contendo o arquivo no formato PDF do trabalho acadêmico, acondicionado em caixa de DVD Slim (19 x 14 cm x 7 mm)”. Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual do Ceará, Centro de Ciências da Saúde, Programa de Pós-Graduação em Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde, Fortaleza, 2012. Área de Concentração: Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde. Orientação: Profa. Dra. Lúcia de Fátima da Silva. 1. Enfermagem – estudo. 2. Doenças cardiovasculares – mulheres. 3. Saúde da mulher. 4. Úlcera por pressão. I. Título. CDD: 613.04244 À minha mãe, Maria de Lima, e ao meu pai, José Vieira da Silva, meus queridos! Vocês não estão fisicamente ao meu lado, mas para mim sempre foram, são e serão exemplo de vida. Em especial, ao meu filho Tarcisio Ribeiro Vieira Júnior, meu presente divino e diário. A toda minha família, sempre comigo de modo positivo, incentivando, sofrendo e torcendo por mim. É muito bom sentir a segurança de estarmos juntos partilharmos todos os nossos momentos. e AGRADECIMENTOS A Deus, pela minha existência e por todas as oportunidades a mim propiciadas; A todos os amigos queridos, que fazem parte da minha caminhada. Não posso nomeá-los individualmente, mas sei da importância de cada um de vocês na realização deste estudo, sendo pre-senças constantes no meu caminhar e no meu coração; Aos meus amigos e companheiros fiéis, Michell Ângelo, Débora Guerra, Hermenecísia Farias, Socorro Rocha, Mazé Muniz e Ires Custódio, por serem presenças; Às famílias Guerra e Rocha, que me acolheram e me fazem sentir parte delas; À enfermagem, por tudo que tenho e, em especial, sou; À Direção do Hospital de Messejana, nas pessoas das Dras. Maria do Perpétuo Socorro Martins e Sâmya Coutinho de Oliveira, por colaborarem com meu aprendizado e aprimoramento; À amiga e gerente de Enfermagem do Hospital de Messejana, Drª. Maria Celina Saraiva Martins, por confiar, compreender, incentivar e ser pre-sença em minha vida profissional, acadêmica e pessoal. À amiga Marta Liduina Parente, secretária da Gerência de Enfermagem do Hospital de Messejana, pelo zelo com os enfermeiros. Obrigada por cuidar de mim!; Aos colegas, profissionais do Hospital de Messejana, por compartilharem vivências e conhecimentos; Aos grupos de trabalho da Estomaterapia, Parecer Técnico e Circulação Extracorpórea, que tanto colaboraram para minha caminhada neste estudo; Às depoentes, pela participação neste estudo, e por compartilharem comigo suas histórias de vida; A todos os componentes do Programa de Pós-Graduação e Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde. Ressalto as Profas. Dras. Maria Célia de Freitas, Maria Vilaní Cavalcante Guedes e Ana Ruth Macedo Monteiro, por seus valorosos ensinamentos, pela dedicação ao ensino e como exemplos a serem seguidos; À Profª. Drª. Francisca Elisângela Teixeira, da UFC, pelo acolhimento, ensino e incentivo à produção científica; Aos membros da Banca Examinadora, Profª. Drª. Ivis Emília de Oliveira Souza, Prof. Dr. Rui Verlaine Oliveira Moreira e Profª. Drª. Maria Vilaní Cavalcante Guedes, pelo carinho acolhedor, pela doçura e encanto na arte da orientação, e por aceitarem o convite para contribuir, mediante análise, para o enriquecimento desta dissertação. A toda sétima turma do Mestrado em Cuidados Clínicos da UECE, “The Best of the World”, pela convivência e aprendizado; em especial, aos colegas Ana Maria Maia Rodrigues, Francisca Diana Macia de Oliveira, Jéssica de Menezes Nogueira, Simone da Silveira Magalhães, Manuela Mendonça Figueirêdo Coelho e José Wicto Pereira Borges; Enfim, a todos que de alguma maneira contribuíram para a construção deste estudo, favorecendo meu crescimento nesta fase da vida. AGRADECIMENTOS INSTITUCIONAIS À Universidade Estadual do Ceará (UECE), pela oportunidade de cursar a Graduação em Enfermagem, a Especialização em Estomaterapia e o Mestrado Acadêmico Cuidados Clínicos em Saúde; Ao Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Sturdart Gomes, órgão da minha vinculação de trabalho, onde me realizo como profissional, e onde tenho a oportunidade de Ser- enfermeira. AGRADECIMENTOS ESPECIAIS À minha amiga e orientadora, Lúcia de Fátima da Silva, cujo modo de ser-com possibilitou a luz que me revelou outros modos de poder-ser-no-mundo como pessoa e enfermeira. Sua importância nesta etapa da minha vida ultrapassou assuntos didático-pedagógico-metodológicos. Incentivou-me e deu exemplo de segurança, serenidade, dinamismo e compreensão. À minha amiga e irmã de coração, Débora Guerra, que em sua bondade esteve junto a mim nos momentos mais difíceis desta caminhada. Nenhuma palavra poderá expressar com precisão meu agradecimento. Obrigada! RESUMO Estudo fenomenológico, cujo objetivo foi compreender os significados e sentidos atribuídos por mulheres com cardiopatia à ocorrência da úlcera por pressão adquirida na internação hospitalar. Dos discursos de oito mulheres, obtidos por meio de entrevistas apreenderam-se significações imediatas, das quais emergiu um fio condutor à interpretação do seu sentido. As mulheres demonstraram essa vivência significando desconforto, seja pela dor, pela presença, realização e/ou manutenção do curativo, seja pela imobilidade parcial no leito; medo de complicação na ferida; desamparo diante da permanência no hospital e desejo de retornar ao lar; (des)conhecimento sobre a situação vivenciada; e agradecimento pelo cuidado recebido, manifestando conformação, fé e esperança. A compreensão, fundamentada no pensamento filosófico de Martin Heidegger, na obra Ser e tempo, revelou a existência das mulheres, veladas nas suas significações. Na investigação, a pre-sença das mulheres se desvelou como existente inautêntica, ao se demonstrarem aprisionadas ao temor e ao horror de sentir dor, de advirem complicações na ferida, bem como de não voltarem às suas atividades cotidianas, assumindo a inautenticidade do modo de ser do falatório. Presas à dimensão ôntica, ancoram sua vida ao vigor de ter sido antes da ocorrência, desvencilhando-se de buscar novas possibilidades de existir. A despeito disto, reconhecem solicitude autêntica de profissionais de enfermagem, mostrando conformação e esperança, mesmo que inautenticamente amparadas pela fé em Deus. Do estudo, emerge a reflexão acerca da necessidade de os profissionais de saúde, e enfermeiros de maneira especial, imprimir importância à dimensão existencial dos seres de quem cuidam, neste caso, mulheres que vivenciam uma cardiopatia. Descritores: Enfermagem; Pesquisa qualitativa; Doenças cardiovasculares; Saúde da mulher; Úlcera por pressão. ABSTRACT Phenomenological study which purpose is to understand the meanings and feelings assigned by women with heart disease to the occurrence of pressure ulcer during hospitalization. From speeches of eight women collected through interviews, immediate meanings were seized, from which emerged a wire that led to the interpretation of its meaning. These women demonstrate that experience means discomfort, either by pain, presence, performance and / or curative maintenance, either by partial immobility in bed, fear of wound complication; helplessness in the face of hospital staying and wish to return home; (un) know about the experienced situation, and gratefulness for the received care, expressing conformation, faith and hope. The understanding, based on Martin Heidegger’s philosophical thought of Martin Heidegger, in Being and Time, revealed the women’s existence, veiled in their meanings. On investigation, the presence of women was unveiled as existing inauthentic, when they demonstrate trapped to the fear and horror of feeling pain, wound complication occurrences, and they do not return to take their everyday activities, assuming the inauthenticity of the mode’s being of talking. In ontic dimension, they support their life on the vigor to have been before the occurrence, getting rid of to seek new opportunities to exist. Despite this, they recognize an authentic solicitude of some nurses, demonstrating conformation and hope, sustained by faith in God. From the study, emerges the reflection about the need for health professionals, and especially nurses, instill the importance of existential dimension who they takes care for, in this case, women with heart disease. Keywords: Nursing; Qualitative research; Cardiovascular diseases; Woman health; Pressure ulcer. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABEn Associação Brasileira de Enfermagem ABEn-SP Associação Brasileira de Enfermagem, Seção São Paulo ABESE Academia Brasileira de Especialistas em Enfermagem CEP Comitê de Ética em Pesquisa CMACCLIS Mestrado Cuidados Clínicos em Saúde EEAN Escola de Enfermagem Ana Nery EEUSP Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo EPUAP European Pressure Ulcer Advisory Panel GRUPEESS Grupo de Pesquisa Enfermagem, Educação, Saúde e Sociedade NPUAP American National Pressure Ulcer Advisory Panel POPs protocolos operacionais padrões PPCCLIS Programa de Pós-Graduação Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde SAD Serviço de Atendimento Domiciliar SAE Sistematização da Assistência de Enfermagem SESA Secretaria Estadual de Saúde do Ceará SOBEST Associação Brasileira de Estomaterapia: estomias, feridas e incontinências SUS Sistema Único de Saúde TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido UECE Universidade Estadual do Ceará UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro WCET World Council of Enterostomal Therapists SUMÁRIO 1 PENSAMENTO INTRODUTÓRIO................................................................... 13 1.1 TRAJETÓRIA PESSOAL E PROFISSIONAL.................................................. 13 1.2 OBJETIVO DO ESTUDO................................................................................. 20 2 SOLO DE TRADIÇÃO..................................................................................... 21 2.1 A PROBLEMÁTICA DO ADOECIMENTO CARDIOVASCULAR..................... 21 2.2 A OCORRÊNCIA DE ÚLCERA POR PRESSÃO............................................. 24 2.3 A ESTOMATERAPIA COMO ESPECIALIDADE DA ENFERMAGEM............. 27 3 ABORDAGEM FILOSÓFICA, TEÓRICA E PROCEDIMENTAL.................... 29 3.1 REFERENCIAL FILOSÓFICO-TEÓRICO........................................................ 29 3.2 ABORDAGEM PROCEDIMENTAL.................................................................. 32 3.2.1 Tipo de estudo................................................................................................ 32 3.2.2 Cenário do estudo.......................................................................................... 32 3.2.3 Participantes do estudo................................................................................ 34 3.2.4 Etapa de campo.............................................................................................. 35 3.2.5 Movimento analítico....................................................................................... 36 3.2.6 Aspectos éticos.............................................................................................. 38 4 REVELAÇÃO DA INVESTIGAÇÃO................................................................ 39 4.1 HISTORIOGRAFIA DAS MULHERES PARTICIPANTES DA INVESTIGAÇÃO 39 4.1.1 O encontro com as depoentes...................................................................... 39 4.1.2 As depoentes.................................................................................................. 40 4.2 COMPREENSÃO VAGA E MEDIANA DAS MULHERES ESTUDADAS – PRIMEIRO MOMENTO METÓDICO............................................................... 43 4.3 O FIO QUE CONDUZIU A BUSCA PELO SENTIDO...................................... 48 4.4 O SENTIDO DO SER-MULHER- CARDIOPATA- QUE- VIVENCIA-AÚLCERA -POR-PRESSÃO – SEGUNDO MOMENTO METÓDICO............... 48 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................ 54 REFERÊNCIAS............................................................................................... 57 APÊNDICES.................................................................................................... 61 APÊNDICE A – FORMULÁRIO DE CARACTERIZAÇÃO DAS DEPOENTES 62 APÊNDICE B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO.. 63 ANEXO – PARECER DO COMITÊ DE ÉTICA................................................ 64 13 1 PENSAMENTO INTRODUTÓRIO Nesta introdução expõe-se a trajetória pessoal e profissional percorrida para o encontro com o objeto de investigação, assim com o objetivo do estudo. 1.1 TRAJETÓRIA PESSOAL E PROFISSIONAL Durante vinte e dois anos da minha trajetória, como enfermeira em um hospital especializado em doenças cardíacas e pulmonares, partilhei do dia-a-dia de alguns pacientes, de vários modos. Certas vezes apenas os escutei, em outras me senti realmente presente, tive atitude de ajuda e um cuidado mais efetivo. Executei cuidados de enfermagem de modo tecnicista sim, mas olhando-os sempre de maneira humanizada, compartilhando com eles do cotidiano hospitalar, onde várias situações de vida se apresentam ao enfermeiro. Compreendo que a atuação do enfermeiro contempla o cuidado em todo o ciclo vital e nas diversas etapas e contextos de assistência; desta forma, em todos os cenários ele partilha, se assim optar, da história de vida das pessoas cuidadas, às vezes fazendo parte delas. Ao longo da minha carreira profissional, atuei na assistência a mulheres em hospitais nos diversos setores: unidades abertas de internação clínica e cirúrgica, salas de parto, unidade de pediatria, emergência, centro cirúrgico, unidades de terapia intensiva e setor de quimioterapia. Portanto, pude conviver com mulheres em situações que ultrapassam o domínio técnico: ao parir pela primeira vez, ansiosas pela expectativa da saúde dos filhos e preocupadas com questões sociais; mães com medo de perder seus filhos por ocasião de tratamentos clínicos e, principalmente, cirúrgicos; cardiopatas temerosas com seu prognóstico e receosas por não retornarem aos seus lares; diabéticas e com problemas vasculares na presença de amputação de membros, com perspectivas de cura ou com diagnósticos que não vislumbravam mais possibilidades terapêuticas, e tantas outras situações. Tenho na lembrança histórias, e a meu ver a maioria dos enfermeiros guarda fatos de pacientes que os marcaram como profissionais. Alguns pacientes específicos deixaram em minha trajetória sinais da convivência das suas aflições, medos, esperança, pensamentos, com os quais convivi no desenrolar das suas 14 hospitalizações. Relatos de sucesso, com resoluções positivas em suas vidas e outras nem tanto. Deste modo, desenvolver as diversas tarefas cotidianas da enfermagem com competência profissional foi sempre motivo para que eu buscasse conhecimento, aprimorasse as técnicas utilizadas e dominasse novas tecnologias de cuidar; ter o olhar criterioso com vistas a avançar o quanto mais pudesse no sabersaber e saber-fazer na arte de ser enfermeira. Cuidar do ser humano em um momento de fragilidade me suscitava a desempenhar um cuidado solidário, como se quisesse resgatar o bem-estar de cada um daqueles sob meus cuidados . Como parte da minha trajetória profissional concluí há nove anos a Especialização de Enfermagem em Estomaterapia e, desde então, passei a cumprir minhas atividades de enfermagem neste setor na instituição hospitalar onde desempenho meu fazer profissional atual. A estomaterapia possui por objetivo cuidar de pacientes com feridas, estomas e incontinência, seja urinária e/ou fecal. Na referida instituição, este serviço tem por missão promover cuidado especializado aos pacientes hospitalizados e em nível ambulatorial, no âmbito da prevenção e tratamento de lesões de pele. Relatar minha participação como pioneira deste serviço enche-me de orgulho. Testemunho assim a luta na busca de novos modos de cuidar de pacientes com feridas na esfera do serviço público. Promover oportunidade de um cuidado especializado aos pacientes acometidos por ferimentos agudos ou crônicos focada na excelência passou a ser uma bandeira de luta. Neste contexto, como enfermeira estomaterapeuta, também partilhei de situações marcantes no meu processo de cuidar. Algumas destas me parecem singulares ao cuidado de mulheres e me suscitaram outro olhar como enfermeiramulher. Penso desta maneira por que certos fatos me chamaram a atenção no tocante à mulher hospitalizada. Certa vez, uma adolescente, após uma cirurgia cardíaca, desenvolveu um quadro infeccioso na incisão cirúrgica no mediastino que culminou em uma cicatriz atrófica que deixa uma espécie de buraco na pele. Isto lhe gerou um quadro de preocupação, seguido de tristeza profunda, pois na percepção dela jamais poderia voltar a usar um biquíni para ir à praia, ato por ela tido como seu lazer preferido. 15 Diante de todo o contexto no qual estava inserida a adolescente, senti como enfermeira e mulher ser mister o cuidado para além da ferida do corpo, mas principalmente para com os prováveis sentimentos suscitáveis pela ferida do corpo. Inegavelmente, mesmo com a cicatrização da lesão, os aspectos emocionais daquela adolescente ficaram abalados e eu, como enfermeira, mulher, mãe, senti necessidade de uma maior aproximação, ter algo mais a dar, a fazer, a partilhar naquele momento, naquela situação, para além de ajudar na cicatrização da ferida. Com este relato, percebem-se manifestações especiais decorrentes do tratamento de feridas e peculiaridades próprias do sexo feminino que precisam ser consideradas no cuidado clínico de enfermagem. Assim, nesta ótica se compreende cuidado clínico de enfermagem como práticas, intervenções e ações sistematizadas, de cuidado direto, desenvolvido pela equipe de enfermagem e dirigido ao ser humano, seja individualizado ou coletivo, fundamentado em evidências quantitativas e/ou qualitativas, com bases filosófica, ética, estética, teórica, cientifica, técnica e política, considerando as manifestações ou respostas das pessoas ao seu processo de viver no continuum saúde-doença (UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ, 2011). Em outra oportunidade, segundo uma senhora de meia idade relatou, durante toda a vida, o cuidado com sua aparência estivera presente de maneira muito significativa. Desde a adolescência ela se mantinha vaidosa, sentimento fortalecido após o casamento. Ela cultuava a beleza do corpo, como modo de sentir prazer em viver. Essa paciente, durante a internação, adquiriu uma úlcera por pressão na região sacral. Quando da sua alta hospitalar, por conta da ferida ainda não totalmente cicatrizada e com a certeza de que deveria continuar o tratamento em casa, viu-se dominar por momentos de angústia e dúvidas quanto ao retorno às suas atividades rotineiras, sobretudo no inerente à sua vida sexual. Esta situação chamou-me a atenção de modo particular, pois apesar da preocupação com as manifestações clínicas da paciente, não se dispensava a devida atenção às questões existenciais como a que a afligia. Tenho observado ainda situações vividas por mulheres especificamente. Por exemplo, ao acompanhá-las no banho, ou durante a troca de curativos, o fato de auma ferida deixá-las em angústia e estresse merecedores de um empenho mais cuidadoso da condição apresentada. Muitas vezes, elas passam a ter medo de olhar a própria lesão; sentem vergonha e repugnância da ferida. 16 De acordo com Cruzeiro e Araújo (2003), ao abordarem aspectos psicológicos do portador de feridas, denotam como sua autoimagem interfere diretamente na autoestima. A autoestima direciona e norteia as ações e os gestos em todos os momentos. Portanto, se a autoimagem for positiva, a autoestima também o será. Ainda conforme os autores, o portador de ferida faz ligação entre seu corpo, mente e meio social. Estes sentimentos intensificam sua ansiedade em relação à troca de curativos. Ela se preocupa com a evolução da ferida, com o tempo de cicatrização e com a autoimagem. Sabe-se que a úlcera por pressão é uma ocorrência indesejada e representa um problema para os serviços de saúde. Considera-se úlcera por pressão uma lesão localizada na pele e/ou tecido subjacente, normalmente sobre uma proeminência óssea, em resultado de pressão ou de uma combinação entre esta e forças de torção (EUROPEAN PRESSURE ULCER ADVISORY PANEL-EPUAP; AMERICAN NATIONAL PRESSURE ULCER ADVISORY PANEL-NPUAP, 2009). Sua ocorrência eleva os custos hospitalares, aumenta o tempo de permanência na internação, causa dor, desconforto, angústia, baixa autoestima, preocupação, ansiedade e outras subjetividades. Para além das questões biológicas, Jorge e Dantas (2003) enfatizam que o portador de uma ferida orgânica carrega consigo a causa desta lesão: um acidente, queimadura, agressão, doença crônica, complicação após um procedimento cirúrgico, entre tantas outras. E a ferida passa a ser a marca, o sinal, a lembrança da dor, da perda, mesmo após a cicatrização. Estudos, como o de Rios e Velôso (2010), exploram a atuação do enfermeiro e a importância da sua ação profissional na prevenção e tratamento das úlceras por pressão. Em particular, o estomaterapeuta busca em suas investigações a ampliação do seu campo de conhecimento e competências com vistas à melhoria dos serviços prestados ao paciente, família e instituição. Para os autores, nas mulheres, há de se levar em conta toda uma compreensão do Ser-mulher que porta uma cardiopatia, questões hormonais, quer esteja na fase reprodutiva quer no climatério. Na prática, a realização de um curativo em uma úlcera por pressão propicia oportunidade para o desempenho de um cuidado de enfermagem voltado à orientação quanto ao banho, manutenção do curativo, tecnologias alternativas, bem como o cuidado atentivo às questões pertinentes ao emocional da mulher. 17 Ao despertar para a qualidade da assistência prestada àquelas mulheres, por vezes me sinto insegura em determinadas situações, como quando ela se mostra temerosa quanto à execução dos curativos, ao sentir medo e ansiedade que dificultam o procedimento. Por vezes, evidenciam-se atitudes pouco compreensivas dos profissionais que veem a execução do curativo como atividade diária banal, diferentemente do percebido e sentido pela paciente. Camargo (2000) lembra que quando o enfermeiro presta o cuidado ao outro guiado pela ótica racional, esquecendo ou mesmo ignorando as emoções inerentes ao cuidar, não se dá o encontro com quem é assistido, pois este não tem voz para expressar o que realmente precisa, nem tampouco revelar o sentido do seu ex-sistir quando do enfrentamento da doença e seu tratamento. Neste aspecto reafirma-se a frequente necessidade de associação do saber técnico-científico que não seja hegemônico a ponto de sobrepor-se à assistência ao ser humano como Ser de possibilidades. Portanto, minhas vivências profissionais me inquietaram e alguns questionamentos se configuraram, a meu ver, passíveis de uma investigação científica. Quero procurar respostas para estas inquietações comuns ao meu cotidiano profissional. Buscar ações aptas a favorecer ao enfermeiro desenvolver melhores práticas, a dar apoio emocional à paciente e sua família durante a hospitalização, de modo a implementar uma maneira de cuidar focada não somente no cuidado técnico na execução do curativo, mas também no compartilhamento da ansiedade nos aspectos concernentes ao tratamento da lesão no âmbito social, econômico e na visão de ser humano. Então, intencionei procurar fundamentação científica e filosófica para alcançar respostas fundamentadas nas falas das mulheres, de maneira a apreender como manifestam seu vivido em relação à úlcera por pressão. Na oportunidade apresentada no caminho acadêmico no Mestrado Cuidados Clínicos em Saúde (CMACCLIS) do Programa de Pós-Graduação Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde (PPCCLIS) da Universidade Estadual do Ceará (UECE), especificamente por meio da linha de pesquisa Cuidado Clínico e Prática Educativa no Adoecimento Cardiovascular, pertencente ao Grupo de Pesquisa Enfermagem, Educação, Saúde e Sociedade (GRUPEESS), senti-me estimulada e então me voltei à possibilidade de desenvolver tal pesquisa. 18 Referida linha de investigação direciona-se para o estudo de mulheres adoecidas do coração e investiga sobre o fenômeno conforto como resultado da prática clínica de enfermagem a elas dirigida. Neste contexto almejei elaborar um estudo com mulheres cardiopatas que, na hospitalização, adquiriram uma úlcera por pressão. Seria uma oportunidade para compreender os significados e sentidos atribuídos por estas mulheres à ocorrência da ferida, com vistas a contribuir para o cuidado clínico de enfermagem. O intuito era aclarar a seguinte questão: Como a mulher com cardiopatia significa sua vivência acerca da ocorrência de uma úlcera por pressão durante a internação hospitalar? Cabe considerar: para melhor entender a coronariopatia, se faz necessária abordagem que integre as dimensões biológica, psicológica e social. Afinal, a coronariopatia é uma entidade nosológica multifatorial para além dos riscos como tabagismo, hipercolesteronemia, hipertensão arterial, sedentarismo e outros componentes psicopatológicos que desempenham papel tóxico no aparecimento das doenças cardiovasculares, tais como a hostilidade latente, a cólera, o esgotamento vital, as perturbações de pânico e a ansiedade fóbica. Em estudo de Dias (2004) acerca da relação entre tipo de personalidade e incidência de coronariopatia, encontra-se que, historicamente, um determinado padrão comportamental está associado ao aumento da incidência de doenças coronárias e que situações de sofrimento psicossomático colaboram para o surgimento de doenças no coração. Como afirma o autor, vários estudos demonstram correlações entre certos tipos de comportamento, traços de caráter, estilo de vida relacional, componentes biológicos e o aparecimento de perturbações cardiovasculares. Posto isso, reputa-se importante para o enfermeiro a produção de estudos com vistas a apreender as diversas manifestações dos pacientes passíveis de interferir na recuperação de mulheres hospitalizadas, ou mesmo aumentar o potencial de risco de complicação. No caso de tratamento de ferida, tentar compreender fenômenos que favoreçam a prática do cuidado clínico do enfermeiro, ajudando-o a desenvolver um raciocínio crítico em relação às sentimentalidades destas mulheres. Isto deve contribuir para a aplicação do processo de enfermagem com base na compreensão da existência das mulheres e, não somente, no modelo empírico do saber hegemônico do enfermeiro. 19 Concebendo deste modo e decidida a contemplar esta questão, minha inquietude voltou-se para a escolha de um método que desse a oportunidade de compreender o vivido das mulheres cardiopatas com úlcera por pressão. Foi aí que ocorreu o meu encontro com a fenomenologia como possibilidade de compreender o vivido destas mulheres. Esta opção conforme proposta por Martin Heidegger, deu-se por conter em seus constructos um conhecimento do homem como ser de possibilidades, como meio de compreender sua existência. Escolher a fenomenologia fundamentada em Heidegger se revela a mim como um desafio. Tive, então, de buscar conhecimento nos bancos da academia, em disciplina de filosofia que contemplasse a fenomenologia como método de pesquisa em enfermagem. Para tanto, cursei, no Mestrado Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde, da Universidade Estadual do Ceará, a disciplina Tópicos filosóficos para o cuidado clínico de enfermagem, ministrada por um filósofo e uma enfermeira, onde fiz meu primeiro contato com as questões filosóficas pertinentes à esta proposta de estudo. Em continuidade a esta busca, cursei como aluna regular a disciplina métodos qualitativos da pesquisa: abordagem fenomenológica, ministrada na Escola de Enfermagem Ana Nery (EEAN), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por uma enfermeira, doutora em enfermagem, professora titular da referida escola. Também participei como ouvinte de um módulo de estudos ministrado por um filósofo, intitulado, a fenomenologia como fenômeno e como método. Este módulo foi parte da disciplina Seminário crítico de pesquisa social em saúde, no Doutorado em Saúde Coletiva da UECE. Com esta aproximação pude compreender, conforme Gray (2012), que a fenomenologia se baseia na experiência das pessoas com sua realidade e que, para tanto, deve-se colocar de lado entendimentos prévios acerca dos fenômenos, revisitando a experiência imediata com eles, para que venham à tona novos sentidos. Esta afirmação guarda pertinência com a linguagem heideggeriana, para a qual apreender o sentido significa desvelar o fundante do fenômeno estudado. Ressalto as apreciações de Monteiro et al. (2006), quando evidenciam a fenomenologia como proposta metodológica para estudos de enfermagem, nas quais existe a possibilidade de compreensão do ser humano. Ainda segundo os autores, a fenomenologia se apresenta como alternativa para compreender as preocupações surgidas do cotidiano e que 20 permitem, também, que o mundo, as relações humanas e o cuidar possam ser olhados de modo diferente. Esta alternativa iluminou a possibilidade de satisfazer meu desejo de olhar de maneira diferente a mulher com cardiopatia hospitalizada que vivencia a ocorrência de uma ferida, como a úlcera por pressão, e tentar compreender suas manifestações existenciais diante daquela úlcera. 1.2 OBJETIVO DO ESTUDO Compreender os significados e sentidos atribuídos por mulheres com cardiopatia à ocorrência da úlcera por pressão adquirida na internação hospitalar. 21 2 SOLO DE TRADIÇÃO Apresentam-se o conhecimento produzido e alcançado sobre a questão do adoecimento cardiovascular para as mulheres; o desenvolvimento de úlceras por pressão; e, por fim, as situações de cuidado de estomaterapia à mulher com cardiopatia e úlcera por pressão. 2.1 A PROBLEMÁTICA DO ADOECIMENTO CARDIOVASCULAR As doenças cardiovasculares constituem a maior causa de morbidade e mortalidade no Brasil. Dessa forma, é fundamental conhecer a magnitude dos fatores de risco cardiovascular com a finalidade de efetuar um planejamento de saúde capaz de intervir eficazmente nessa realidade (JARDIM et al., 2009). Como afirmam Simões e Souza (2002), a mulher tem sido objeto de estudos, de pesquisas e de atenção sob os mais variados aspectos, seja biológico, social, sexual, cultural, psicológico e espiritual. Segundo referem, estes estudos apontam a mulher como um ser humano com necessidades relacionadas aos seus diferentes papéis na sociedade. Ainda como referem, a mulher tem se lançado, no cotidiano, em várias possibilidades de ser que mostram sua atuação e preocupação com a casa, filhos, companheiro, trabalho, estudos, caracterizando um perfil social cada vez mais eclético. Algumas mulheres têm investido, com sucesso, em uma carreira profissional, assumindo postos e cargos de prestígio, em espaços públicos e privados. Fomentam, assim, história própria de mulheres, com pluralidade de atuações. Em relação à cardiopatia isquêmica na mulher, consoante enfatizam Cantus e Ruiz (2011), estudos relatam existir diferenças entre gêneros não só no tangente à manifestação clínica da doença coronariana mas, também, na abordagem terapêutica ou na resposta ao evento cardíaco. Por esse motivo somente se poderá valorizar a real dimensão do problema enfrentado pela mulher quando se tiver a capacidade de saber como ela vivencia sua doença, e por que reage tal como o faz. Conforme os autores advertem, saber como a mulher percebe sua doença, quais são os motivos para esse comportamento representam um vasto 22 campo de investigação para a enfermagem. Assim, justificam-se os enfoques qualitativos de múltiplos fatores a serem explorados, desmembrados e depois integrados, a fim de facilitar a compreensão de determinadas atitudes e comportamentos da mulher. Mencionam estes aspectos como essenciais para planejar políticas adequadas à assistência de enfermagem. Nesse sentido, o enfermeiro é o profissional apto a formar e informar a população sobre os fatores de risco cardiovasculares, suas consequências, bem como sobre os aspectos inerentes à sua prevenção e manejo. Ao estudar a qualidade de vida em uma comparação entre gêneros em pessoas com doença arterial coronária, Favarato et al. (2006) ressaltam a existência de uma pior evolução entre as mulheres na doença cardiovascular, além de maior prevalência de comorbidades como osteoporose e depressão. Enfatizam que, na avaliação inicial, as mulheres demonstraram maior prejuízo em relação aos homens no concernente à capacidade funcional, seguida dos aspectos emocionais, sociais, de saúde mental e vitalidade. Chamam ainda a atenção para a necessidade de observação particular aos transtornos de humor nas mulheres, porquanto há maior prevalência de depressão na população feminina, quando comparada à masculina, na proporção dois para um. Ademais, as mulheres são vulneráveis à doença depressiva, um fator preditivo de reinternação e de pior qualidade de vida. Grace et al. (2008) desenvolveram estudo a respeito de alterações psicossociais e comportamentais em mulheres participantes do programa de reabilitação cardíaca. Segundo relatam, os sintomas depressivos e de ansiedade são significativamente prevalentes em pacientes cardíacos e mulheres sofrem uma carga maior do afeto negativo do que os homens; esta angústia afetiva pode comprometer negativamente seu prognóstico. Recomendam os exercícios na reabilitação para reduzir a ansiedade nas mulheres que, em geral, mostram uma melhora na sua qualidade de vida física afetada após um evento cardíaco. Confrontando doença cardíaca coronária e mortalidade na saúde da mulher, Tindle et al. (2009) investigaram a associação do otimismo e da hostilidade com um amplo espectro de fatores de risco cardiovasculares, para avaliar as influências combinadas e independentes de otimismo e da hostilidade em doença cardíaca coronária em mulheres na pós-menopausa. Justificam, na investigação, vidências acerca de fatores psicológicos influenciarem o risco de doença 23 cardiovascular, morbidade e mortalidade. Ainda como os autores relatam, indivíduos pessimistas e hostis podem, por sua vez, alterar desfavoravelmente a fisiologia cardiovascular, tal como pressão arterial alta. Piazza, Lourenzi e Saciloto (2005) afirmam, em sua pesquisa sobre o risco cardiovascular entre mulheres climatéricas, que de acordo com escores propostos por Framingham, o risco foi significativamente maior entre as mulheres na pós-menopausa. Enfatizam as possibilidades de atuação do enfermeiro, como membro de uma equipe multidisciplinar, na prevenção da morbi-mortalidade feminina por afecções cardiovasculares, principalmente em seu fundamental papel educativo no processo de saúde da população feminina. Uma questão também pertinente e significativa para a mulher, sobremodo a cardiopata, diz respeito ao processo de vida reprodutiva no tocante à possibilidade gestacional. Em pesquisa sobre as percepções de mulheres com doença hipertensiva específica da gestação, Silva et al. (2011) relatam que ainda são escassos os estudos que discutam as experiências e percepções das mulheres que vivenciam ou vivenciaram tal situação. Os autores defendem o cuidado de enfermagem para além das condutas obstétricas, tal como suporte emocional para as gestantes e suas famílias, haja vista o nível de ansiedade gerado diante do adoecimento. Assim, recomendam a realização de estudos qualitativos que proporcionem melhor compreender mencionadas situações. Consoante os autores constataram, se investiga pouco sobre o conhecimento das mulheres quanto ao processo gestacional, seu estado de saúde e situações de complicação possíveis de acometê-las. Apontam para a necessidade de se repensar e reorganizar o modelo assistencial vigente, de modo que haja promoção da saúde, por meio de educação nas consultas, no intuito de aprimorar o conhecimento e humanizar o atendimento proporcionado às gestantes e suas famílias. Quevedo, Lopes e Levefre (2006), na análise das entrevistas do seu estudo, perceberam o quanto a experiência com a gravidez de risco por cardiopatia e/ou diabetes mellitus é sofrida e difícil de ser suportada, seja pelos sintomas físicos, pelos incômodos causados pelo tratamento, ou pelas limitações na vida social que a doença provoca. Para lidar com este sofrimento, é indispensável investimento afetivo e cognitivo. 24 2.2 A OCORRÊNCIA DE ÚLCERA POR PRESSÃO Por meio de uma parceria internacional os estudiosos de úlcera por pressão têm como referência guidelines fundamentados pela EPUAP e pela NPUAP. Estes órgãos se reúnem periodicamente para sistematizar, levantar dados estatísticos e estabelecer diretrizes para prevenção e tratamento de úlceras por pressão. De acordo com Gomes e Magalhães (2008), ao dissertarem sobre a terminologia das úlceras por pressão, por muito tempo, pelos leigos e pela comunidade profissional, a úlcera foi chamada de úlcera de decúbito ou escara. Escara era o termo utilizado para definir a massa escura de tecido resultante de uma necrose. Atualmente, entre os conceitos usados, a denominação úlcera por pressão é adotada como a mais adequada pela comunidade científica. Sobre o aspecto de causa/efeito, existem outros conceitos, tal como o de Bates-Jenses (1997), que considera úlceras por pressão como resultados de traumas mecânicos à pele e tecidos, causando hipóxia e isquemia. Por sua vez, Prazeres e Silva (2009) explicitam a etiologia da úlcera por pressão por meio da ocorrência de uma pressão nos tecidos, ocasionando oclusão dos vasos sanguíneos por hipóxia tissular. Desta oclusão pode ocorrer uma palidez, chamada hiperemia reativa, que, quando aliviada, soluciona o problema da hipóxia, retornando ao estado normal. Após o surgimento da palidez, se houver persistência da pressão, por acúmulo de metabólitos e de proteínas no interstício, ocorre uma isquemia tissular pelo extravasamento capilar e consequente edema e piora da perfusão. Inicia-se, aí, uma úlcera por pressão. Segundo Paranhos (2003), as úlceras por pressão sempre foram um problema para os serviços de saúde, especialmente para a equipe de enfermagem, em virtude da sua incidência, prevalência e particularidades do tratamento, prolongando a internação e a morbidade dos pacientes. A perda da integridade da pele produz consequências para o indivíduo, para a instituição e para a comunidade. Para esta autora, que toma por base a classificação preconizada pela NPUAP, a classificação das úlceras por pressão dá-se da seguinte forma: Estágio I: a pele encontra-se intacta com eritema não branqueável, precursor da ulceração da pele; 25 Estágio II: lesão parcial da pele, envolvendo epiderme e/ou derme, ou ambas. Nesse estágio, a úlcera é superficial e clinicamente aparece como abrasão, bolha ou cratera rasa; Estágio III: lesão total da pele, envolvendo dano ou necrose da camada subcutânea, mas não completa. A úlcera apresenta-se clinicamente como uma cratera profunda com ou sem comprometimento dos tecidos adjacentes. Estágio IV: grande destruição com presença de tecidos necróticos ou dano de músculos, ossos ou estruturas de suporte (por exemplo, tendões ou cápsulas articulares). No relacionado à localização das úlceras por pressão, Paranhos (2003) salienta que elas podem se desenvolver em proeminências ósseas e acontecem com maior frequência nas seguintes regiões: sacra, coccígea, tuberosidade isquial, trocanteriana, escapular, occipital e em maléolos laterais. Ainda hoje a ocorrência de úlcera por pressão preocupa os serviços de saúde, em especial a equipe de enfermagem. Seu tratamento demanda tempo. Ademais, os cuidados específicos com a úlcera devem ser considerados como necessidade que requer atenção especializada. Quando se refere a tratamento de pessoas com úlcera por pressão, a implementação de uma Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) torna-se importante a fim de estabelecer critérios de escolha para uma conduta específica e segurança para o paciente. Para o desenvolvimento do tratamento, é essencial manter ambiente seguro, levando em consideração a idade, nível de consciência, condições socioeconômicas, imagem corporal, estado emocional, estresse, ansiedade, sono e repouso, nutrição, higiene, eliminações, uso de medicamentos, procedimentos a serem realizados, cirurgia, tricotomia, dor, mobilização e infecção, entre outros, no intuito de estabelecer uma conduta terapêutica com vistas a intervir de maneira a determinar estratégias adequadas para uma atuação de enfermagem o mais eficaz possível. Conforme conclui o estudo de Cremasco et al. (2009), existe elevada incidência de úlcera por pressão nos pacientes de terapias intensivas. Tal incidência esteve associada à idade mais avançada, maior tempo de internação nestas unidades ou em outros setores do hospital, levando à maior gravidade do adoecimento do paciente. Neste âmbito, a carga de trabalho da enfermagem não se associou à 26 ocorrência de úlcera por pressão, mas foi identificada como preditora de risco para este tipo de úlcera quando somada à gravidade do paciente. Com a evolução tecnológica, dispõe-se, hoje, de uma gama de opções para o tratamento de úlceras por pressão no tocante às coberturas. Tratando-se da terminologia cobertura como sinônimo de curativo, autoras como Gomes e Magalhães (2008) a definem como todo material, substância ou produto que se aplica sobre a ferida, formando uma barreira física, com capacidade, no mínimo, de cobrir e proteger o leito. Como afirmam, nos dias atuais são utilizados medicamentos, materiais sintéticos, pomadas e outros. É imprescindível que a indicação da cobertura seja criteriosa, bem como a avaliação da resposta do organismo no processo cicatricial. Hoje, o foco da enfermagem no relacionado à úlcera por pressão é a ação de prevenção, a fim de serem evitados transtornos passíveis de gerar sua ocorrência. Na ótica de Borges e Fernandes (2012), cabe ao enfermeiro a implementação de estratégias de prevenção, incluindo os pacientes de maior risco, visando sua segurança e agravos deste acometimento. Para identificação de riscos, desenvolveram-se vários instrumentos, como as Escalas de Norton, Gosnell, Waterlow e Braden, com vistas a identificar os fatores preditivos e quantificar o risco de desenvolver úlcera por pressão em adulto. Inclui-se, ainda a escala de Braden Q, adaptada da primeira para avaliação do risco de ulceração por pressão em crianças. Consoante as autoras concluem, a prevenção da úlcera por pressão tem sido um desafio para as instituições de saúde. Dos obstáculos enfrentados citam o número limitado de pesquisas baseadas em evidências científicas que comprovem a prevenção como forte estratégia para evitar a formação de úlceras, problemas organizacionais que dificultam a implementação de programas de prevenção, como quadro insuficiente de profissionais, o custo associado à implementação desses programas, bem como, a negociação com as fontes pagadoras, SUS e planos de saúde, para cobertura das medidas preventivas. Mesmo assim, é comprovado que o desenvolvimento da úlcera por pressão interfere em todos os aspectos da pessoa acometida, e pode colocá-la sob riscos de graves complicações. Por conta disto, não se deve medir esforços para a prevenção deste evento. 27 2.3 A ESTOMATERAPIA COMO ESPECIALIDADE DA ENFERMAGEM A estomaterapia é uma especialidade da prática da enfermagem voltada para o cuidado de pessoas com estomias, feridas agudas e crônicas, fístulas, drenos, cateteres e incontinências fecal e urinária. No Brasil iniciou-se oficialmente com a implantação do Curso de Especialização em Enfermagem em Estomaterapia, pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP), em 1990. A formação do estomaterapeuta no país ocorre por meio do Curso de Especialização em Enfermagem em Estomaterapia, o qual é realizado em nível de pós-graduação lato sensu e, desde sua primeira edição, tem seu conteúdo programático e sua carga horária teóricoprática total baseados na normalização firmada pelo Education Committee do World Council of Enterostomal Therapists-WCET (1994). Referida entidade é reconhecida pelos órgãos competentes brasileiros como o Ministério da Educação e Cultura, o Conselho Nacional de Educação e, mais recentemente, o Conselho Federal de Enfermagem (SANTOS, 1998). O órgão oficial da estomaterapia no Brasil é a Associação Brasileira de Estomaterapia: estomias, feridas e incontinências (SOBEST). A SOBEST é uma instituição multidisciplinar, de caráter científico e cultural. Está alicerçada nos preceitos estabelecidos e aceitos mundialmente para a Enfermagem em Estomaterapia e vinculada à Comissão de Educação da Associação Brasileira de Enfermagem, Seção São Paulo (ABEn-SP) e, juntamente com outras Sociedades de Especialistas em Enfermagem, a Academia Brasileira de Especialistas em Enfermagem (ABESE). Registre-se que a ABESE foi a primeira associação científica a vincular-se à Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn). Já acerca do profissional estomaterapeuta, Paula e Santos (2003) assim o descreveram: o estomaterapeuta, como profissional e como pessoa junto ao cliente, revela importantes interfaces entre o ser profissional e o ser pessoal que refletem sua relação e desempenho perante o paciente. Segundo as autoras, o saber e o cuidado especializado/humanizado são elementos fundamentais em busca de novos espaços, credibilidade e autonomia destes especialistas. Ainda como afirmam, a estomaterapia encontra-se em processo de encontro de novas perspectivas para o cuidar, pautandose em saber e objetivos comuns da especialidade e dos especialistas. 28 Consoante as diretrizes da associação na área de feridas, no tocante à úlcera por pressão, o estomaterapeuta exerce as seguintes atividades na área de prevenção e tratamento de feridas: a) Prevenção Realiza consulta de enfermagem, utilizando instrumento de avaliação que possibilite a obtenção de subsídios para a implementação da sistematização da assistência de enfermagem em estomaterapia; Prescreve cuidados com a pele em geral, superfície de suporte, segundo grau de risco, e demais medidas de preservação da integridade cutânea; Solicita exames bioquímicos e hematológicos quando necessário; Realiza reeducação vesical e intestinal, quando pertinente; Faz orientação alimentar e hídrica e, quando preciso, solicita avaliação do nutricionista; Encaminha para outros profissionais da equipe de saúde; Orienta a equipe/cuidadores quanto aos cuidados propostos. b) Tratamento Realiza a relação de atividades preventivos; Realiza debridamento instrumental conservador, prescrevendo terapia tópica e terapias adjuntas; Implementa terapias tópicas. Referidas recomendações são aceitas pelos mais diversos serviços de estomaterapia brasileiros. 29 3 ABORDAGEM FILOSÓFICA, TEÓRICA E PROCEDIMENTAL A seguir, descrevem-se os caminhos do estudo relativos ao encontro com o referencial filosófico-teórico da fenomenologia heideggeriana e a trajetória para desenvolvimento da investigação. 3.1 REFERENCIAL FILOSÓFICO-TEÓRICO A fenomenologia surgiu na Alemanha, com Edmundo Husserl, que recebera influência do pensamento de Platão, Descartes e Bretano. Husserl sugeria a fenomenologia como estratégia de compreensão de fenômenos não apreensíveis pelo método natural, devendo-se, para tanto, buscar-se a intencionalidade da consciência na máxima de “ir às coisas mesmas” (MOREIRA, 2002). Entre os fenomenólogos seguidores do pensamento husserlianos, destacase Martin Heidegger. Filósofo alemão, nascido em 1889 em Messkiirch, estudou Matemática, Filosofia e Teologia e doutorou-se em Filosofia em 1913. Foi reitor da Universidade de Friburgo e é um dos maiores pensadores do século XX. Considera-se como sua principal obra o livro Ser e Tempo, reputada como uma das quatro maiores obras filosóficas em toda história da humanidade (SILVA et al., 2001). Neste sentido, Monteiro et al. (2006) enfatizam o pensamento arrojado de Heidegger que analisou de forma crítica o mundo contemporâneo, o tecnicismo e, principalmente, o sentido do Ser. O fundamento do pensamento heideggeriano é a filosofia do Ser, por ele denominada de ontologia existencial. Para o filósofo, existir é estar em relação consigo, com os outros e com as coisas no mundo. Como Silva (2002) enfatiza no movimento existencialista, existir é estar em relação com os outros no mundo, sendo o homem responsável pelo que ele é, e por sua própria existência. Para Heidegger (2008), a fenomenologia possibilita um caminhar para o Ser, pois o Ser é aquilo que está oculto no que se manifesta, constituindo-se o fundamento de tudo que nele se revela. Segundo Silva et al. (2001), o esteio do pensamento heideggeriano é a elaboração da filosofia do Ser, explicitada, como referido, na obra Ser e Tempo. Esta filosofia é considerada por Heidegger como ontologia existencial, mediante a qual ele buscou elucidar o sentido do Ser, com vistas à sua compreensão. Para 30 tanto, se fundamentou no pensamento aristotélico e no método fenomenológico husserliano de voltar às próprias coisas no intuito de procurar compreendê-las. Heidegger propõe-se analisar as diversas manifestações do sentido do Ser, em todas suas dimensões. O filósofo desenvolve exame reflexivo para mostrar os modos de ser do humano, que ele chama de Dasein. Ao tentar analisar o Dasein, Heidegger ensina que o homem de-cai, existencialmente como pre-sença no mundo circundante, vivendo a temporalidade determinada entre seu nascimento e morte. No mundo, ele vive a contínua antecipação de suas possibilidades de vir-a-ser, como um existente projetado para fora de si. Assim, transcende continuamente de si, sendo capaz de ser livre e superar os próprios limites. Ao vivenciar suas possibilidades de existir, ele assume modos de ser que caracterizam a autenticidade e a inautenticidade. A primeira é compreendida pela posição de originalmente buscar viver suas possibilidades de ser lançado como Ser que se angustia ontologicamente para compreender-se como ser de possibilidades. Por sua vez, o modo de ser da inautenticidade caracteriza o viver cotidiano na impessoalidade, onde todos são e ninguém essencialmente é. É preciso lembrar que predomina, no cotidiano do Dasein, o modo de ser inautêntico, porquanto ser como todos, e ao mesmo tempo como ninguém, torna sua existência mais cômoda, na medida em que nada lhe pode ser cobrado. Contudo, o viver autêntico não se apresenta como um modo melhor de existir; apenas a inautenticidade é cômoda aos existentes no mundo. Assim, o comum é a oscilação contínua entre os modos de ser da pre-sença. Para Heidegger (2008), o tempo da existência do Dasein não corresponde ao espaço cronológico da sua vida, pois sua existência se dá como projeção para fora de si, mediante o que ele experiência a preocupação com o vigor de ter sido (seu passado), o instante (momento presente) e o porvir (futuro). Tudo isto lhe confere características de existência histórica e temporal. Ao compreender o Ser como histórico e temporal no mundo cotidiano e circundante, há de ser lembrada a possibilidade existencial do Dasein como o único capaz de compreender e discursar. Isto porque somente a ele é dada a condição de compreender a si, aos outros e às outras coisas, vivendo sempre na direção do poder-ser. 31 Ao vivenciar sua existência, o Dasein se ocupa, cotidianamente, com suas coisas no mundo existencial, demonstrando seu caráter mais próprio, que é o cuidado. Assim, para Heidegger (2008), o cuidado se acha antes de toda atitude e/ou situação vivida, significando que o Ser cuida em toda atitude e situação da sua existência, de maneira tal que o cuidado não se objetiva fora do homem; ele é o próprio viver experiencial do homem (SILVA, 2002). Para Heidegger (2008), o cuidado é vivido como solicitude, que pode se manifestar nos dois modos de ser: o inautêntico e o autêntico. O primeiro diz respeito à mera ocupação do humano, ocasião em que ele simplesmente restringe as possibilidades de ser de um outro, impedindo-lhe escolher a direção do seu viver. Já no modo de ser da autenticidade, o cuidado é vivido como comportamento de atenção e respeito ao outro, propiciando-lhe condições para buscar suas potencialidades de existir. O cuidar do outro revela facetas tão singulares, subjetivas e autênticas que, de acordo com Monteiro et al. (2006), para a enfermagem a fenomenologia é um caminho para revelar vivências tanto de profissionais quanto de pacientes. Tais fenômenos, em regra, se apresentam como distrações do cotidiano que passam despercebidas, fazendo com que não se possa interagir de forma autêntica na vida em comunidade. Como as autoras enfatizam, a enfermagem precisa compreender e dar sentido às suas ações de forma mais autêntica, atenta e reflexiva, sobre a realidade e o modo de ser dos outros. Contudo, sugerem que os estudos interessados em conhecer como o homem se encontra vivendo alguma situação, atribuindo-lhe significado, como se dá sua relação com o mundo, devem buscar apoio nos conceitos heideggerianos. Considerando se preconizar a enfermagem como uma prática de cuidado em saúde e, conforme Moreira e Sales (2006), compete ao enfermeiro estar junto ao ser que adoece, ajudando-o a atribuir um sentido autêntico a sua existência. Neste estudo, a possibilidade de compreensão do fenômeno em epígrafe encontra-se para além da dimensão do tecnicismo. Isto porque a fenomenologia heideggeriana possibilita adentrar a subjetividade das mulheres com cardiopatia que desenvolvem úlcera por pressão durante uma internação hospitalar, e que estejam sob cuidados da equipe de enfermagem. 32 3.2 ABORDAGEM PROCEDIMENTAL Apresentam-se, na sequência, as etapas metodológicas percorridas no estudo para a apreensão do fenômeno a ser investigado. 3.2.1 Tipo de estudo Trata-se de estudo descritivo, com abordagem qualitativa. Segundo Polit e Beck (2011), os pesquisadores qualitativos lidam com o tema da complexidade humana, explorando-o diretamente. Para as autoras, estes estudos enfatizam a inerente profundidade dos seres humanos, suas habilidades de modelar e criar suas próprias experiências e a ideia de que a verdade é um conjunto de realidades. Ainda como afirmam, neste tipo de pesquisa a experiência humana como é vivida e seus dados são narrativos e subjetivos. Assim, em virtude de esta modalidade de investigação se aproximar do objeto deste estudo, decidi-me pelo método fenomenológico que, segundo Gray (2012), facilita ao pesquisador captar as experiências subjetivas, tornando-se uma busca pelo encontro com a intencionalidade consciente do sujeito. O autor faz alusões acerca dos paradigmas fenomenológicos, entre as quais ressalta: o pesquisador deve concentrar-se no sentido e tentar compreender o que está acontecendo; a pesquisa fenomenológica é o estudo da experiência humana no mundo da vida; ela explora a construção pessoal do mundo do indivíduo. Entre as possibilidades de estudar por meio da fenomenologia, optei pelo referencial filosófico existencial e metodológico de Martin Heidegger (2008), acreditando atender ao objetivo de compreender os significados e sentidos, atribuídos por mulheres com cardiopatia, à ocorrência da úlcera por pressão adquirida na internação hospitalar, levando em conta sua existencialidade como ser-no-mundo. 3.2.2 Cenário do estudo A investigação foi desenvolvida em um hospital público, pertencente à rede de atenção à saúde do Sistema Único de Saúde (SUS), da Secretaria Estadual de Saúde do Ceará (SESA). Trata-se de uma unidade de saúde especializada no atendimento clínico-cirúrgico e ambulatorial de pessoas com patologias 33 cardiovasculares e pulmonares. Neste cenário tem se dado minha prática como enfermeira assistencial e nele se me revelou a inquietação foco da pesquisa. Na referida instituição existem quatro unidades de internação tipo enfermaria destinadas a atender pessoas com cardopatia. Recebem denominação por letras (B, C, G e I). Destas, três (B, C e I) possuem, cada uma, 28, e uma (G), 35 leitos de internação. Optei por investigar nestes setores porque neles há maior probabilidade de pacientes permanecerem por mais tempo internados, seja à espera de exames diagnósticos ou procedimentos terapêuticos, seja sob tratamento conservador ou interventivo. Além disso, eles se encontram com quadro clínico, em regra, estabilizado, reunindo condições de manter diálogo e, assim, participar do estudo. Nestas unidades trabalham um enfermeiro gerente de segundas a sextasfeiras, com carga horária de oito horas diárias, e um enfermeiro assistencial por plantão de doze horas, durante as vinte e quatro horas do dia. Já os profissionais de nível técnico cumprem escalas de plantão de doze horas, durante as vinte e quatro horas do dia nas unidades B, C e I. Na Unidade G, que possui mais leitos de internação, a cobertura é de quatro profissionais de nível técnico durante os horários diurnos e noturnos. Na instituição hospitalar, o Serviço de Estomaterapia realiza visitas semanais a todas as unidades de internação, terapias intensivas e emergência, a fim de identificar os pacientes de risco para o desenvolvimento de úlceras por pressão, mediante aplicação da Escala de Braden, implantada na Sistematização da Assistência de Enfermagem. Nos pacientes já lesionados, a ferida é avaliada para identificação do estágio, de acordo com as estruturas acometidas, os tipos de tecidos presentes na lesão, as dimensões, características do exsudato, possíveis sinais de infecção e condições da pele adjacente à ferida. Com base na avaliação inicial, o profissional seleciona a terapêutica mais indicada, conforme o estágio/etapa do processo cicatricial, e programa reavaliações regulares para acompanhar a evolução da ferida. Quando necessário, promove debridamento instrumental conservador ou requisita avaliação do cirurgião geral. Em conjunto com equipe interdisciplinar, discute a necessidade de exames diagnósticos para avaliação de estruturas mais profundas e seu acometimento por processos infecciosos. Além da visita semanal, as estomaterapeutas respondem a solicitações de parecer feitas pelos demais profissionais de saúde, executam os curativos que 34 requerem sua intervenção e orientam os enfermeiros quanto às novas tecnologias de coberturas existentes no mercado e disponíveis na referida instituição. As altas hospitalares dos pacientes com úlceras por pressão são discutidas em conjunto pela equipe médica e o Serviço de Estomaterapia. Aqueles pacientes em condições clínicas de receber alta hospitalar são reavaliados pela equipe, mediante requisição médica ou da equipe de enfermagem, para programação da sua desospitalização. De acordo com o estado da lesão, o estomaterapeuta determina a cobertura a ser utilizada em domicílio e frequência de troca, orientando o cuidador e o próprio paciente, quando possível, quanto aos cuidados diários com a lesão. Conforme as condições de mobilização do paciente, agendam-se retornos regulares ao hospital para acompanhamento em nível ambulatorial ou recomenda-se a inclusão do paciente no Serviço de Atendimento Domiciliar (SAD) no caso dos mais debilitados, com restrição de mobilidade ou dependentes de oxigenoterapia. Ademais, a equipe ainda elabora protocolos operacionais padrões (POPs) inerentes à especialidade, no intuito de padronizar determinados procedimentos e, assim, assegurar sua realização com qualidade. O serviço também é responsável pela avaliação e parecer técnico de curativos/coberturas biológicas, antes da sua aquisição pela instituição, primando pela qualidade desses produtos, assim como pelo bem-estar dos seus pacientes e desenvolvimento do Serviço de Enfermagem. 3.2.3 Participantes do estudo Participaram do estudo oito mulheres, com idade compreendida entre 46 e 91 anos, hospitalizadas em decorrência de diagnóstico de cardiopatia, acomodadas nas unidades de internação tipo enfermaria, que desenvolveram úlcera por pressão no período de internação, e estavam em condições físicas e emocionais de conversar com a entrevistadora. Tratando-se de quantitativo de participantes de estudos qualitativos, Beck, Gonzáles e Leopardi (2001, p. 190) afirmam que em pesquisas qualitativas “sendo a realidade complexa e ampla, nenhum pesquisador dará conta, com qualquer método, de captá-la na sua totalidade”. Deste modo, entre as possibilidades do rigor qualitativo, pode-se, sem prévia determinação numérica, coletar-se os dados até sentir segurança na apreensão do fenômeno. 35 Mais recentemente, Fontanella, Ricas e Turato (2008) tratam da amostragem em pesquisa qualitativa, referindo a saturação teórica como a inclusão de novos participantes em um estudo, quando as informações obtidas apresentam certa redundância ou repetição. Deste modo, não há mais necessidade de persistir na coleta de dados. No entanto, os autores chamam a atenção para se mencionar o rigor científico utilizado para a decisão do ponto de saturação amostral. Portanto, cabe ao pesquisador fenomenológico a responsabilidade pelo rigor da formação do corpus da compreensão e ele cessa, intencionalmente, a busca de fatos novos quando se sente satisfeito com a revelação do fenômeno, como ocorreu na presente investigação. Creio ter sido um instante indescritível de pura subjetividade. Mas, como não existem modelos acabados, até porque, segundo enfatiza Heidegger (2009), a compreensão é sempre apreensível e jamais apreendida, usou-se, como relatado, do rigor prescrito pelo método. 3.2.4 Etapa de campo Com vistas ao recolhimento das informações, para desvelar o fenômeno pesquisado, utilizou-se a entrevista fenomenológica no período entre maio e setembro de 2012, tomando por base a questão norteadora: Como tem sido para a senhora vivenciar a ocorrência de uma ferida (úlcera por pressão) durante sua hospitalização? Polit e Beck (2011) mencionam como coleta de dados de pesquisa qualitativa os autorrelatos como a técnica de entrevista, na qual os pesquisadores reúnem dados obtidos da narrativa dos entrevistados para desenvolver uma construção do fenômeno estudado. Segundo afirmam, os pesquisadores encontram-se pessoalmente com os respondentes para fazer as perguntas, e isto envolve tempo. Contudo, é um bom método de pesquisa, pois a qualidade das informações é relevante. Com esta finalidade, o pesquisador deve formular a pergunta de modo que faça sentido para os entrevistados, devendo refletir a visão que eles têm do mundo. Consoante ressaltam, os pesquisadores além de bons inquiridores devem ser bons ouvintes; devem prestar bastante atenção aos depoimentos, porquanto, geralmente, as entrevistas são longas e podem durar horas. As metodólogas referem ser difícil registrar um conteúdo abundante de informações, mas a maioria dos pesquisadores prefere gravar as entrevistas e, depois, transcrevê-las. Mesmo cientes de que sua conversa está sendo gravada, 36 os respondentes costumam esquecer a presença do equipamento de gravação, após poucos minutos do início da entrevista. Tal fato foi constatado durante a busca pelas informações. Assim, a opção pela entrevista fenomenológica se deu mediante a possibilidade de apreender os significados e sentidos atribuídos pela mulher com cardiopatia ao vivenciar a úlcera por pressão, já que foram recolhidas informações das próprias mulheres, com sua linguagem, expondo seu modo de ver e sentir, por meio da sua subjetividade. Deste modo, favoreceu desenvolver uma ideia acerca de como elas interpretam o fenômeno. Diante destes ensinamentos e em virtude de, próximo às Unidades de Internação referidas existirem jardins, sempre à disposição dos pacientes, deixou-se as depoentes à vontade para a escolha do local da realização das entrevistas. Logo, poderiam optar ou não por estes espaços acolhedores que, por certo, permitiriam ambiente de privacidade e conforto. Entretanto, elas preferiram permanecer no entorno dos seus leitos. Em cada entrevista, consideraram-se as possibilidades clínicas e o desejo de cada paciente em ser entrevistada. Após cada entrevista procedeu-se à transcrição na íntegra, no menor espaço de tempo possível, a fim de manter registros não só das palavras, mas de outras formas de comunicação e linguagem maadifestadas, tais como gestos, silêncios, expressões faciais, sorrisos e outros passíveis de propiciar significados a serem levados em conta. Foram recolhidos também, no momento da entrevista, dados pessoais, sociodemográficos e de diagnóstico clínico das participantes do estudo, como meio de obter informações sobre as pessoas pesquisadas (APÊNDICE A). 3.2.5 Movimento analítico A análise qualitativa é uma atividade que exige, do investigador, criatividade, sensibilidade conceitual e trabalho árduo. Neste momento do estudo, a intenção foi organizar os discursos das participantes, de modo a viabilizar a emergência dos significados que as mulheres com cardiopatia atribuem ao seu vivido com a úlcera por pressão adquirida na internação hospitalar. Assim, a análise de informações qualitativas é um empreendimento desafiador, pois não há regras universais de análise desse tipo de material; não 37 existem procedimentos analíticos padronizados, muito embora sua análise requeira rigor e empreendimento do investigador. Os analistas qualitativos têm de organizar e dar sentido a muito material narrativo, levando a habilidades indutivas potentes (POLIT; BECK, 2011). No relacionado à interpretação de informações qualitativas fenomenológicas, Moreira (2002, p. 101) faz uma intrigante indagação: “Até onde se espera que vá tal interpretação fenomenológica?” e declara que se deve ir apenas tão longe quanto existam sentidos e, com certeza, sentidos que possam e necessitem ser compreendidos. Como o autor enfatiza, especialmente em fenomenologia, interpretar o sentido dos fenômenos significa descobrir significados que não são imediatamente manifestos ao nosso intuir, analisar e descrever, devendo-se ir além do que é simples e diretamente dado. Ainda conforme destaca, o que é dado é apenas uma pista para o que não é dado, assim como que por meio da hermenêutica se deve desvelar os sentidos ocultos. Na elucidação de Monteiro et al. (2006), para o pesquisador fenomenológico heideggeriano, em particular, compreender o significado ou desvelar o sentido contido no discurso, há de ter um grande envolvimento da subjetividade, o que vai garantir a objetividade. Para tanto, o primeiro passo é a captação do discurso de quem vivencia uma situação; e o segundo é a dedicação do investigador ao discurso agora descrito, com vistas a buscar o significado das vivências que emergem do real vivido. Ao significado Heidegger denominou compreensão vaga e mediana. Com base neste saber, na presente investigação, utilizou-se, para a organização das informações, a hermenêutica fundamentada na fenomenologia heideggeriana. Deste modo, após transcrição das falas das depoentes procedeu-se às leituras dos discursos para a familiarização com o texto da experiência vivida das mulheres, buscando a emergência, mediante interpretação hermenêutica, dos significados e sentidos atribuídos por elas acerca do vivido com a úlcera por pressão. Nesta ótica, expõe-se primeiramente o que foi apreendido, ou seja, o que se mostrou diretamente (significâncias ônticas) para depois descrever o que se desvelou, o que se apresentava encoberto por trás das aparências (revelações ontológicas ou sentido). Para tal, usaram-se os momentos interpretativos hermenêuticos sugeridos por Martin Heidegger para a realização dos estudos fenomenológicos, quais sejam: primeiro momento metódico (apreensão de significados) e segundo momento metódico (desvelamento do sentido). 38 3.2.6 Aspectos éticos Observaram-se as determinações da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 1996), referente aos preceitos da ética na pesquisa envolvendo seres humanos. A documentação legal necessária para a aprovação deste projeto, como parte de um Projeto guarda-chuva da linha de pesquisa, foi encaminhada para apreciação ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do hospital onde se desenvolveu a investigação. O projeto foi aprovado por meio do Protocolo n o 858/11 (ANEXO A). Obtida a devida autorização, deu-se início às entrevistas. A cada mulher depoente esclareceram-se o objetivo e a estratégia metodológica do estudo, bem como solicitou-se sua colaboração na realização deste. O aceite para participar foi firmado mediante assinatura de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), em acordo com os preceitos éticos inerentes a pesquisas envolvendo seres humanos (APÊNDICE B). A entrevista foi gravada em voz e, ciente do constrangimento que, em geral, causa a presença de um equipamento eletrônico durante a entrevista fenomenológica, explicou-se a importância do procedimento para garantia da fidedignidade na apreensão dos seus relatos. Como determinado, assegurou-se o sigilo da identidade das participantes na apresentação das informações colhidas. As depoentes concordaram em ser-lhes atribuídos nomes de flores, considerando a subjetividade que, em geral, representam para mulheres. Informou-se também que a pesquisa não lhes geraria despesas ou danos e elas teriam direito de recusar seu consentimento, ou mesmo retirá-lo em qualquer fase da pesquisa, sem prejuízo legal ou moral. Também foram esclarecidos os benefícios da investigação para o cuidado clínico de enfermagem a ser dispensado a elas e a outras mulheres em condições similares. Foi-lhes explicado que o estudo não detém possibilidade de maleficência e que a pesquisadora estaria a postos para contornar qualquer mal-estar. Por fim, foi informado que os resultados deverão ser divulgados tanto no hospital quanto no meio acadêmico de enfermagem mediante encaminhamento para sua publicação em periódico científico da área da enfermagem. 39 4 REVELAÇÃO DA INVESTIGAÇÃO Expõem-se, na sequência, os achados da investigação. Inicia-se com a descrição da historiografia das mulheres participantes, seguida da compreensão vaga e mediana acerca do seu vivido com a úlcera por pressão e, por fim, da compreensão do Ser destas mulheres, por meio do pensamento hermenêutico filosófico heideggeriano. Para descrever a historiografia foi preciso, como referido, proceder-se à leitura dos formulários que registraram informações relativas aos seus contextos pessoais e de saúde, bem como das entrevistas. O olhar atento sobre os discursos revelou convergências naturais, sem nenhuma pretensão de estabelecimento de roteiro com intento para tal. A compreensão vaga e mediana foi possibilitada pela apresentação de unidades de significação relacionadas à dimensão ôntica, na qual se mostram os significados apreendidos imediatamente à consciência. Desta compreensão, emergiu o sentido, ou a revelação ontológica, velada nos significados, do sermulher-cardiopata-que-adquiriu-úlcera-por-pressão durante a internação hospitalar por cardiopatia. 4.1 HISTORIOGRAFIA DAS MULHERES PARTICIPANTES DA INVESTIGAÇÃO A historiografia, segundo Heidegger (2008, p. 485) depende da “concepção de mundo dominante”. Ela pressupõe a historiografia da presença de maneira própria e privilegiada. Neste contexto, buscaram-se informações ao falar da origem existencial do Ser-mulher com cardiopatia, que adquiriu úlcera por pressão em internação hospitalar, por meio de entrevistas fenomenológicas, com vistas à busca da historicidade da presença para projetar, ontologicamente, sua historicidade como seres-no-mundo. 4.1.1 O encontro com as depoentes As depoentes tiveram oportunidade de escolher o horário da entrevista e optaram pelo período diurno. Como mencionado, o local escolhido situava-se nas proximidades do leito hospitalar. Elas, em suas possibilidades de ser, se 40 manifestaram depondo, por vezes, falante, extrovertida e, em outras, retraída e de pouca fala para expressar suas vivências. A entrevista fenomenológica, em algumas situações, se revelou difícil para a relação entrevistador e entrevistada. Tal dificuldade motivou preocupação e ansiedade na busca e desenvolvimento das primeiras entrevistas. Entretanto, em um comportamento fenomenológico, aos poucos, emergiu disposição para desenvoltura no método e, ao decorrer do tempo, o processo de ser-com as mulheres na sua luta diante da hospitalização e da cardiopatia, no enfrentamento de questões próprias, e pelas transformações existenciais. 4.1.2 As depoentes a) Rosa Procedente de Madalena, cidade do interior do Estado do Ceará, tem 53 anos, é analfabeta, doméstica, católica, viúva, mora maritalmente há dezenove anos; possui dois filhos. Apresenta diagnóstico de insuficiência cardíaca congestiva descompensada. É extrovertida, sua entrevista foi longa, e se pronunciava de forma fluente acerca da sua existência no mundo. Em seu relato verbalizava sua condição de mulher trabalhadora da agricultura, forte fisicamente. Elevava a personalidade forte do pai e se qualificava como ele, decidida e que não volta sua palavra atrás. Isto é reforçado pela sua tomada de decisão quanto a se submeter à cirurgia cardíaca sugerida pelo médico. Acha-se nova e forte para a sua idade. Dizia-se preocupada com os filhos, com saudade do companheiro e com vontade de retornar ao lar. Expressa preocupação e tristeza por achar que, ao chegar em casa, não poderia desempenhar seus afazeres habituais. b) Margarida Do Maranhão, tem 66 anos, alfabetizada, aposentada, evangélica, casada, seis filhos. O diagnóstico médico é insuficiência ventricular esquerda. Ao ser entrevistada, encontrava-se em sua segunda internação. Na primeira ocasião, tentou-se convidá-la para participar do estudo, entretanto, sua condição de clínica e depressiva não possibilitou o aceite. A paciente achava-se em estado letárgico ou sonolento, portanto, sem condições de diálogo. Quadro bem diferenciado quando da sua segunda internação, ocorrida após dois meses da primeira alta. Desta feita, 41 estava ativa, deambulando, e escolheu fazer a entrevista sentada em cadeira, próximo ao leito. Interagiu de forma calma, falando pouco, elogiando o atendimento. Classificou o hospital como excelente, relatou está sendo bem tratada, e que todos eram gentis e delicados. c) Angélica De Tabuleiro do Norte, interior do Ceará, 46 anos, primeiro grau completo, funcionária pública, católica, mora com companheiro e uma filha. O diagnóstico clínico é hipertensão arterial pulmonar e miocardiopatia dilatada. Fez um relato carregado de medo e ansiedade. Falava com desenvoltura e desembaraço. Mostrou-se satisfeita com o atendimento na enfermaria, mas disse não conseguir compreender determinadas atitudes da equipe de saúde, como, por exemplo, a exposição do seu corpo durante a realização de procedimentos na enfermaria. Manifestou sentimento de pavor de voltar a sentir dor ou de receber notícia ruim. Revelou-se mulher forte, trabalhadora e que, “em nome de Jesus”, se considerava curada do coração após a cirurgia. Atribuía trauma a um debridamento da úlcera sacral, além de mencionar a ferida como o impedimento da sua alta. d) Acácia De Quixeramobim, na região central do Ceará. Aos 77 anos, sabe assinar o nome, trabalha na agricultura, é evangélica, viúva e possui dois filhos. Os diagnósticos clínicos são hipertensão arterial sistêmica, insuficiência cardíaca congestiva e, ainda, diabetes mellitus. Mostrava-se tímida, de poucas palavras e manifestava sentimento de desalento. Referia ser sofrida pelo trabalho duro no roçado. Dizia-se conformada com a ocorrência da ferida; segundo relatava, qualquer pessoa fica exposta e pode ser acometida por esta ocorrência. Demonstrava fé em Deus e afirmava que ele tem o poder de curá-la. e) Açucena De Fortaleza, a capital do Estado do Ceará. Tem 56 anos, alfabetizada e desempenha atividades do lar. É solteira, sem filhos e de religião católica. O diagnóstico médico era infarto agudo do miocárdio e dissecção de artéria aorta. Manifestava sentimento negativo de impaciência, revolta, angústia e inconformismo. Consoante referiu, se não fosse a ferida já teria saído de alta. Mostrava-se descrente do tratamento 42 dispensado à ferida. Sente-se inconformada pela imobilidade no leito e com as dores. Verbalizava preocupação com a alta hospitalar e demonstrava insegurança em relação a como e quem iria fazer seu curativo em casa. f) Gardênia De Aquiraz, cidade pertencente à região metropolitana de FortalezaCeará. Aos 91 anos, possuía pouca instrução formal, de religião católica, viúva e com dois filhos. Seu diagnóstico era de bloqueio átrio-ventricular. Foi entrevistada em posição deitada no leito em virtude de prejuízo em sua mobilidade. Apesar de déficit auditivo, respondia bem às indagações, mostrando lucidez e coerência na resposta. Apresentava, além da úlcera por pressão na região sacra, outra lesão na perna esquerda que a incomodava. Enfatizou descontentamento por ter sido desconsiderado pela equipe o fato de ela ter declarado ser alérgica a fraldas descartáveis e, mesmo assim, continuou usando, o que lhe causou intenso prurido. Conforme referiu, o colchão é quente e afirmou desconhecer o que está sendo utilizado como terapia para realização dos seus curativos. g) Amarilis De Sobral, cidade da região norte do Ceará, tem 76 anos, sem instrução, é dona de casa, de religião católica, que vive com companheiro e um filho. Internada por diagnóstico de bloqueio intraventricular. Foi visitada por quatro vezes até conseguir-se contato, pois sempre estava dormindo. Fazia-se acompanhar por um único filho portador de síndrome de Down, bastante cuidadoso com a mãe. Ela se apresentava sonolenta, falando pouco. Acerca da sua condição, queixava-se muito de dor no local da úlcera. Após a entrevista fenomenológica para a investigação, foram feitas visitas à paciente. Nas últimas, ela verbalizou menos queixa de dor, evoluindo para uma condição mais alerta. h) Jasmim De Itapajé, cidade também da região norte do Ceará, tem 77 anos, alfabetizada, foi agricultora, de religião católica, casada e mãe de quinze filhos. Internada por diagnóstico de insuficiência cardíaca congestiva. Conversava pouco, revelando em breves palavras sua situação. Suas queixas se voltavam para a 43 presença da dor, bem como para o desconhecimento acerca da causa da ocorrência da úlcera por pressão. 4.2 COMPREENSÃO VAGA E MEDIANA DAS MULHERES ESTUDADAS – PRIMEIRO MOMENTO METÓDICO Este primeiro momento metódico é o da apreensão de significados atribuídos pela mulher com cardiopatia ao fenômeno investigado. Segundo Poupart et al. (2008), o objetivo de uma pesquisa qualitativa pode ser o de dar conta das preocupações dos atores sociais, tais quais elas são vividas no cotidiano. De acordo com Gomes et al. (2008), as pesquisas de enfermagem que utilizam a fenomenologia buscam compreender o ser humano e sua interação com o mundo e, para isto, lançam mão das descrições do fenômeno estudado no discurso do sujeito para que, desvelando, se chegue à sua essência. Segundo Almeida et al. (2009) relatam, a enfermagem, ao eleger a fenomenologia para suas pesquisas compreendendo que ela estuda a descrição dos fenômenos humanos e seus significados, mostra-se no caminho da crítica, da reflexão e da busca de significados essenciais para a compreensão do seu fazer fundamentado em uma teoria. Ainda como afirmam, em sua pesquisa sobre o uso da fenomenologia como método de investigação pela enfermagem, o referencial de Martin Heidegger foi o mais evidenciado. No método fenomenológico, com base no pensamento de Heidegger, constroem-se unidades de significação que denotam significados atribuídos pelas pessoas participantes que vivenciam a situação estudada. Neste caso particular, de mulheres que, em seu movimento existencial, enfrentam internamento para tratamento da doença cardíaca e, em decorrência da qual adquirem uma ferida. Com vistas, então, a apreender os significados do expressado pelas mulheres nos depoimentos, transcreveu-se cada entrevista e, depois, procedeu-se a leituras individuais. Durante a apreciação dos discursos, procurou-se recordar de cada mulher, relembrando sua fisionomia, sua emoção, sua percepção do momento vivido, tendo em vista as questões norteadoras do estudo, que revelam as inquietações emergentes da Dissertação de Mestrado e da prática assistencial. 44 Em Heidegger, a etapa da análise inicia-se com a compreensão vaga e mediana, por meio da identificação dos significados compreendidos pelo pesquisador, por distinção entre o que é ocasional e o que é essencial, com base no relato de cada depoente. As unidades de significação viabilizam a interpretação compreensiva que vem a seguir e que desvelam o sentido velado nos significados. Logo, por meio de leitura atentiva e releitura das transcrições das entrevistas, foram construídas as unidades de significação. Assim, consoante se apreendeu, as depoentes demonstraram que estar vivenciando a ocorrência de uma úlcera por pressão durante a hospitalização para tratamento de uma cardiopatia significou: Desconforto, seja pela dor, pela presença, realização e/ou manutenção do curativo, seja pela imobilidade parcial no leito; Medo de complicação na ferida; Desamparo diante da permanência no hospital e desejosa de retornar ao lar; (Des)conhecimento sobre a situação vivenciada; Agradecimento pelo cuidado recebido, manifestando conformação, fé e esperança. Nas significações reveladas quanto ao desconforto, seja pela dor, pela realização e/ou manutenção do curativo, seja pela imobilidade parcial no leito, as depoentes mostraram-se incomodadas com a sensação física de dor decorrente da úlcera por pressão, pelo próprio curativo e pela impossibilidade de se moverem ativamente. Submeter-se à realização do curativo, assim como permanecer com a cobertura, são situações igualmente relatadas como desagradáveis. Acerca das significações deste desconforto, assim significou: [...] essa ferida minha dói muito de noite, ainda esta noite eu me acordei e pedi pra menina [componente da equipe de enfermagem] me dar um comprimido [...] ela me deu dipirona com água, amargava que nem fel, mas eu tava sentindo dor e tinha que tomar. Aí foi como eu fui dormir um cochilo; mas eu quase não dormi, tanto doía como pinicava [...] A ferida tá grande e funda pra dentro do meu bumbum. Aí eu fico muito desanimada com um negócio deste [...] a ferida dói e dá umas pinicadas, porque dói muito, tem hora que dói muito [...] começa a doer de noite, mas durante o dia passa bem. Durante o dia, eu não sinto quase nada [...]. (Rosa) [...] a doutora [médica] disse que quando for pra mexer ela vai fazer aquela injeção pra dor [...] porque eu sinto dor, né? Eu tava sentindo muita dor, mas dói! Mas dói! Aí a doutora disse: Mas ela é tão rasinha! Aí mandaram chamar vocês 45 [estomaterapeutas] que são especialistas nisso aqui [ferida] [...] Dói viu doutora! Dói demais. Se eu tiver cem anos eu não vou esquecer [referindo-se ao debridamento da ferida] [...] hoje só mexe aqui se trouxer o choque [polícia]. Eu senti muita dor, fiquei com trauma. Quando falo dá vontade de chorar [interrompeu o discurso e os olhos se encheram de lágrimas] [...] foi feito aquele trabalho que fizeram ontem [o debridamento]. Eu só achei errado uma coisa. Posso falar, né? Eu acho que um procedimento daquele porte não era pra ser feito a sangue frio, porque se trata de seres humanos e dói demais [...] dói, mas dói tanto que é incrível [..] não tem comparação a dor. Olhe, eu sou uma mulher de fibra, não sou muito mole [...] eu fiz a cirurgia, eu senti dores, mas não senti a dor que eu senti quando foram mexer ontem, dói demais. Eu fiquei assim traumatizada [...] quando eu vi você já fiquei toda apavorada [...] fiquei apavorada com essa dor de mexer nessa ferida [...] Eu que não resisto, eu que não aguento [...] eu sei que é tudo pro bem da gente. O ser humano é que não resiste. Eu mesmo não aguento [...] incomoda pra deitar, pra levantar, pra sentar. Tudo ela incomoda, é desagradável [...]. (Angélica) [...] eu senti muita dor, muita dor mesmo. Mas aí eles me dão comprimido, aí vai e passa a dor [...]. (Acácia) [...] dói, arde como fogo [gemidos de dor]. É ardendo como queimadura de fogo [...]. (Amarilis) [...] me sinto assim, tão assim [...] não pode se sentar direito [...] é fundo, cheio de curativo aqui em baixo [...] as enfermeiras trataram, faziam os curativos todo dia, todo dia, todo dia [demonstrando irritação, balançando a cabeça negativamente]. (Margarida) [...] eu me sinto é muito impaciente. A ferida fica doendo. Dói e tem até uma mais profunda [...] cobrindo é pior [...] porque bota a gaze, onde eu me deito desliza e tira tudo. AÍ pronto, e aquilo ali dói muito, incomoda. Não posso me deitar assim [demonstrou a posição de decúbito dorsal]. Só posso me deitar mais é de banda. Tem hora que o pescoço fica doendo; é a posição, né! Porque não tem só nas costas, tem no bumbum também. Ai, isso incomoda muito [...]. Essas feridas no meu corpo [...] tem hora que você pensa assim: quero me sentar [...]. (Açucena) [...] A dor é ardendo, minha filha; suo todinha [...] Eu não posso andar, nem trabalhar. Incomoda deitar pra trás; me deito e incomoda [...]. (Jasmim) Já a respeito das significações reveladas quanto ao medo de complicações na ferida, as depoentes expressam certa inconformação de ter ultrapassado situações clínicas como o coma, ou mesmo uma cirurgia cardíaca, de estarem se sentindo bem e, no entanto, permanecerem internadas devido à ocorrência de uma ferida que perdura. Assim, expressam medo que se manifesta em seu vivido na hospitalização como revelam os relatos seguintes: [...] A doutora [médica] falou que quando eu chegar em casa, se arrebentar [a ferida] cada vez mais? Porque é profunda, né? E eu tenho medo por isso [...] pode eu chegar em casa e a ferida virar outra coisa pior [...]. (Rosa) [...] eu tenho medo de virar outra coisa, é isso que eu tenho medo. Do câncer, né? É isso que eu penso [...]. (Acácia) [...] um problema desse [a ferida] o que eu posso fazer? Vai que piora a situação [...]. (Angélica) [...] Porque tá só o ferimento, mas ela pensa [a filha] que pode virar outra doença [...]. (Margarida) 46 As mulheres demonstram desamparo diante da permanência no hospital e desejo de retornar ao lar, considerando sua condição existencial, a cotidianidade hospitalar e a distância dos seus familiares. Relataram insegurança de, retornando para casa, não poderem assumir as atividades do lar, diante da falta percebida de vigor físico. Elas se sentiam até inconformadas pela não previsão, sequer, do tempo necessário para o processo de cicatrização. Tudo isso parecia lhes causar apreensão, e até mesmo revolta, pela demora do retorno ao lar, em face da não cicatrização da ferida. Também revelaram momentos de fragilidade emocional como se mostra nos seus discursos: [...] eu tô aqui sozinha sem companheiro sem nada, tenho saudade do meu marido, do sexo. [...] tenho medo dele arranjar outra pessoa [...] Tô sem companhia nenhuma. Tô com companhia porque tem muita gente [profissionais, outros pacientes e acompanhantes] aqui, né? Mas da minha família não tem nenhuma. E não adianta eu me operar pra não ter quem olhe pra mim [...] Eu fui uma mulher muito trabalhadeira, já trabalhei muito em roçado. Eu sou uma mulher da agricultura, trabalhadeira que só. Tenho pena que agora quando eu sair daqui não posso fazer nada o que eu fazia; não posso mais fazer [choro] [...] nem uma roupa minha eu posso lavar [...] eu tenho vontade de voltar para casa, ficar boa pra ir pra casa. Todo mundo que tá aqui dentro tão com vontade de ficar boa pra ir pra casa. Os dias que eu tô aqui eu não deixei de pensar em casa de jeito nenhum. Família é família, né? E mãe não tem dinheiro que pague [...] eu queria ir embora pra casa e a minha filha não levou logo eu pra casa porque disse que aqui eu tô tomando todo o medicamento [...] pelo meu gosto, mesmo com esse negócio [a ferida] eu tinha ido embora pra casa, mas ela [filha] não quer. Eu ia pedir alta pra doutora [...] se não fosse isso [a ferida] eu podia ficar boa mais rápido, ficar boa mais ligeiro [...]. (Rosa) [...] eu fazia tudo no roçado, plantava, colhia, cavava, fazia cerca de ramo, cerca de faxina, cerca de trança, tudo isso eu fazia [...]. (Acácia) [...] se não fosse isso aqui [a ferida] eu já tava me arrumando pra praticamente pra ir embora [...] eu não posso ir embora pro interior, principalmente que eu moro a 220 km daqui, é muito longe [...]. (Angélica) [...] me revolto. Se não fosse essas feridas eu já tinha recebido alta. Tem que primeiro tratar delas, que infeccionou. Aí pronto, tem que esperar ficar boa. (Açucena) [...] Agora, eu só posso ir para casa quando a ferida tiver sarada [...]. (Jasmim) Por vezes, as depoentes se apresentaram demonstrando (des)conhecimento acerca da situação vivenciada, ora conhecendo a causa da formação da própria ferida ora não, questionando a causa do surgimento e tratamento, a revelar ambiguidade em seus sentimentos, como segue: [...] mas isso aqui começou da cama [...] os dias que fiquei lá na cama. [...] pode ser dos dias que eu passei. Eu passei muitos dias deitada sem ter que mexer nem pro lado, nem pro outro, né? [...] passei muitos dias em coma sem poder me virar nem pro lado nem pro outro, a noite todinha[...] Aí vira uma coisa dessa [ferida]. A 47 senhora me vê conversando assim, tudo bem, tudo legal, mas eu tô sentada na cadeira, mas nem era pra mim tá aqui assim. Era pra eu tá com uma toalha pra eu sentar em cima [...] ai meu marido comprou uma pomada desse tamanho que custou mais de quarenta reais pra mim passar aqui [na ferida] mas elas [equipe de enfermagem] não aceitam [...] eu tô achando que esse remédio delas [enfermeiras] não vai me... [acenando negativamente com a cabeça] [...] esse negócio de lavar e passar pomada eu acho que não vai me curar não! (Rosa) [...] Eu cheguei aqui quase morta, foi quando eu peguei a ferida, mas eu não sabia [...] só quando eu melhorei foi que percebi [...]. (Jasmim) [...] peguei na UTI [a ferida]. Aí ficou muito grande, passei muitos dias [...] sei lá por que, ficou grande mesmo sabe! [...] lavava com aroeira. Compraram girassol. Eu é que cozinhava, mandava comprar a caixa de aroeira, lavava e botava pra cozinhar e lavava com água de aroeira [...]. (Margarida) [...] depois que me operei foi que surgiu isso aqui [a ferida]. Eu não me lembro de ter tido ferida nem pequena, quanto mais depois de velha [...]. (Angélica) [...] não sei como tem acontecido [...] mas isso é sujeito, qualquer pessoa ter isso [a ferida]. Mas, é muito ruim minha filha. Achei ruim porque eu nunca feri meu corpo. É a primeira vez. Eu já tive internada aqui dezoito dias e eu nunca fiz ferida nos quartos. E agora eu peguei essa ferida [...] eu não sei [...] eu ficando boa tá tudo bem [....] está custando a sarar [...]. (Acácia) [...] mas pra mim se botasse assim uma rifocina, sarava mais rápido [...] antigamente, eu tacava pomada ou a rifocina aerossol e tirava as bactérias. Muito melhor [...] e outra coisa, eu acho que cobrindo é pior [...]. (Açucena) [...] a do bumbum foi da fralda. Eu não posso usar fralda que tenho alergia. Bateu aquela coceira medonha, ficando vermelho e eu sempre usando a fralda [...] sei que tá fazendo curativo. Não sei o que tão botando [...]. (Gardênia) As mulheres revelaram agradecimento pelo cuidado recebido, manifestando conformação, fé e esperança. Em suas falas, a fé em Deus é exaltada. A força da fé faz elevar a credibilidade na cura para as depoentes, como exposto na sequência: [...] a enfermaria é minha casa, nós somos todos amigos, pacientes e doutores, enfermeiros [...] aqui eu gosto, demais, de cada pessoa [...] a menina da UTI trouxe um paninho, dobrou e colocou nos meus quartos. Aquilo me chamou muito a atenção [...] eu acho muito importante a pessoa se sensibilizar com uma pessoa que não é nada seu, nem conhece [...] ter a atenção de trazer aquele paninho dobradinho, mandar levantar, colocar pra não ficar doendo [...] é um gesto de cuidado que marca. São pequenas coisas que ficam pra sempre na mente da pessoa [...]. (Angélica) [...] Quem vai me curar mais fácil sabe quem é? É Deus [...] Deus e Nossa Senhora primeiramente, é sim [...] E São Francisco de Canindé, que eu peço muito a ele, todo dia e toda hora, pra ele curar eu e todos que têm aqui [...] ficar bom e cada qual ir viver nas suas casas. Eu peço as coisas não é só pra mim não. Eu peço pra mim e pras pessoas todas [...]. (Rosa) [...] Mas Deus é grande, tem todo o poder e eu creio nele, eu creio que Ele vai me fazer ficar boa [...]. (Acácia) [...] as feridas eu quero que Deus me cure bem rápido pra eu ir embora [...]. (Açucena) [...] Se Deus quiser. Eu espero que Deus venha me fazer essa graça, porque eu estou precisando muito [...]. (Jasmim) 48 4.3 O FIO QUE CONDUZIU A BUSCA PELO SENTIDO Como observado, a apreensão do que era essencial (dimensão ôntica) nos discursos das mulheres velava sua existência, ou seja, seu caráter fenomênico (dimensão ontológica). Deste modo, seria o esteio para a compreensão fenomenal do seu fundante. Para as mulheres estudadas, os significados de ser-mulher-que-vivenciaa-ocorrência-de-úlcera-por-pressão-durante-a-internação-hospitalar-para-tratamentode-uma-cardiopatia transitaram por um fio condutor como se mostra: O desconforto pela dor; pela aposição e manutenção do curativo; e devido à imobilidade parcial no leito estão presentes; O medo de a ferida complicar permeia o cotidiano; A sensação de desamparo e o desejo de retorno ao lar rodeiam seu pensamento; O (des)conhecimento sobre a situação vivenciada mantém-se no dia a dia; e O cuidado recebido; a conformação; a fé e a esperança em ficar boa auxiliam na vivência da situação. 4.4 O SENTIDO DO SER-MULHER- CARDIOPATA- QUE- VIVENCIA-A-ÚLCERAPOR-PRESSÃO – SEGUNDO MOMENTO METÓDICO O pensamento de Heidegger (2008) é amplo, complexo e possibilita desafios a quem assume se lançar em investigações sob seu legado teórico. Heidegger emite estímulo para o pesquisador se empenhar em interpretar e desvelar o que permanece obscuro e velado na linguagem do ser que vivencia uma condição de existir. Para o filósofo, o esteio para a revelação do sentido, ou primado ontológico, é o que ele denomina primado ôntico. Assim, desvelar o sentido se caracteriza pelo apreender a dimensão ontológico-existencial, qual seja, o sentido ou fundamento que o ser da pre-sença imprime aos seus modos de ser e de existir. No interesse pela hermenêutica heidegeriana, ousar pensar requer investir e imergir no pensamento filosófico, no 49 intuito de revelar a existencialidade humana, na direção da compreensão como modo de ser-aí dos existentes no mundo. Para Heidegger (2008), na questão sobre o sentido do ser, o ente somos nós mesmos; o ente tem o caráter da pre-sença, ou seja, ser-no-mundo, que se determina a partir da possibilidade de poder ser e, de algum modo, isso significa que ele se compreende em seu ser. A pre-sença se constitui pelo caráter de ser minha, segundo este ou aquele modo de ser. Santo Agostinho dizia: “Todavia que há mais perto de mim do que eu mesmo?” Logo, se entende que a pre-sença sou eu-nomundo da minha existência. Na obra Ser e tempo, Heidegger (2008, p. 209-215) ensina que “interpretar não é tomar conhecimento do que se compreendeu [...] mas elaborar as possibilidades projetadas de compreensão”. Ao ser lançada no mundo, vivenciando um adoecimento no coração e, na facticidade deste existir, experienciar a ocorrência de uma ferida, caracterizada como uma úlcera por pressão, que sequer pode ter previsão de tempo cronológico para sua cicatrização e cura, evidentemente protelando a alta hospitalar, por certo lhe provoca ansiedade capaz de interferir no seu modo de existir e de interpretar suas possibilidades de ser no mundo, favorecendo sua decadência na impessoalidade cotidiana. A partir desta reflexão, emergem do fenômeno investigado as facticidades existenciais das mulheres com cardiopatias ao atribuírem sentido ao seu vivido diante da ocorrência de uma úlcera por pressão durante a hospitalização para o tratamento de adoecimento cardiovascular. Nestas ocasiões, elas se mostraram, na mundaneidade do cotidiano hospitalar, temerosas diante das manifestações clínicas às quais estão submetidas, bem como se sentiram ansiosas com o que possa vir a lhes acontecer. Desta maneira, ao estar-no-mundo, as mulheres se revelam desconfortáveis no cotidiano hospitalar, em especial, em face da percepção de dor, e mesmo do medo da sua ocorrência. Circunstâncias que, em princípio, poderiam parecer coloquiais, como submeter-se à realização do curativo da ferida, passam a ser amedrontadoras. Assim, a dor torna-se incapacitante no enfrentamento do cotidiano. Ao fazer parte da sua existência, a manifestação de dor chega a lhes proporcionar desconforto que interfere no seu sono e repouso, lhes incomodando inclusive pela restrição parcial de mobilidade. A dor é desagradável, apavorante, ruim. 50 Experienciar a situação as torna temerosas, pois, ao ter vivenciado a situação, a mulher teme a possibilidade de retorno da sintomatologia. Para Heidegeer (2008), o temor varia em momentos constitutivos entre pavor, caracterizado por uma ameaça que lhe é conhecida e, que a qualquer momento pode ressurgir; horror, algo que ainda não é conhecido; e terror, como algo conhecido, muito embora possa se apresentar em aspecto novo. Logo, estas mulheres cardiopatas, por conhecerem a sensação de dor, em particular decorrente da realização de curativo, ou mesmo da necessidade de execução de debridamento cirúrgico, demonstram pavor de novas ameaças e terror de sentirem dores ainda mais intensas, ao serem submetidas a novos procedimentos. Elas trazem em si, portanto, o medo de sentir dor, mas também da possibilidade de advirem complicações na ferida, em um movimento de horror da possibilidade de a ferida “ser transformada” em um câncer. Elas temem ainda o deterioramento físico e a perda da capacidade de executar seus afazeres rotineiros, semelhantemente a uma manifestação de um temor que, para Heidegger (2008), se caracteriza pela decadência do ser em momento constitutivo de horror. As mulheres cardiopatas hospitalizadas que adquirem uma ferida demonstraram ressentimento diante da imobilidade física, embora a refiram como parcial, que ferida e curativo lhes impõem. Assim, se revelam em solicitude inautêntica, mantendo-se presas à ocupação cotidiana da ocorrência, tagarelando acerca do desconhecimento, medo de sentir dor e do seu retorno ao lar, a despeito do desejo de fazê-lo. Prendem-se ao vivido antes da hospitalização, considerando seus fazeres especificos, em regra, de mulheres do lar e/ou da agricultura, afastando-se da angústia própria por buscar novos modos de existir. A tagarelice ou falatório é um constitutivo existencial que, para Heidegger (2008), é um modo de ser cotidiano e impessoal de falar e repetir sem fundamento, que descansa na perda da relação autêntica como que se fala. O filósofo também ensina sobre o modo de ser da curiosidade, mediante o qual a pre-sença, arrastada pelo falatório, busca novas informações, passando-as adiante. Nesta investigação, as mulheres repetem, quase automaticamente, riscos de complicações impróprios para a situação como, por exemplo, transformação da ferida em neoplasia. Igualmente, tagarelam ao repetir que, apesar de desejarem a alta hospitalar, temem não ter mais capacidade de assumirem sua vida cotidiana nos seus lares. 51 Em seu (des)conhecimento, discursam demonstrando por vezes, conseguindo ou não conseguindo,compreender a situação vivenciada. Curiosidade e falatório caracterizam seu discurso quando compreendem, tentam compreender, ou mesmo não compreendem a gênese da ocorrência da ferida, seu tratamento e possibilidade de cicatrização. Neste prisma, ambiguamente, elas de-caem de si, escolhem o modo de ser inautêntico, que se caracteriza pelo modo de ser impessoal, qual seja, um modo de viver no qual a pre-sença sendo pode escolher-se, ganhar-se ou perder-se, ou ainda ganhar-se meramente na aparência da ocupação mundana. Desta maneira, como Ser de ocupação, as mulheres demonstraram o modo de ser da ocupação, no qual nada é determinado. Elas se mantinham como existentes na publicidade do mundo de todos; na impessoalidade, tomadas pelo mundo de que se ocupam. Merece considerar que, segundo Heidegger (1981), a pre-sença tende, por natureza, a ser inautêntica e impessoal na sua cotidianidade. Isto porque a impessoalidade é cômoda e lhe confere conforto de se sentirem como todos e ao mesmo tempo como ninguém. Ao assumir este modo de ser, nada lhes é cobrado com escolha própria de modos de existir. Diferentemente do viver inautêntico, a pre-sença autêntica não apenas se ocupa, mas, por outra via, se preocupa, comportando-se como ser-com, considerando a originalidade do que toma como próprio para si. Cabe lembrar: na cotidianidade mediana, a pre-sença de-cai, na maioria das vezes, no modo de ser da ocupação impessoal, pois se encontra arraigada aos modos dos costumes comuns e públicos (HEIDEGGER, 2008). Assim também se apresentam as mulheres investigadas, porquanto suas vidas foram tomadas por um novo modo de ser, no qual elas passaram a conviver com o inesperado, a ocorrência de uma ferida, vivendo agora diante de alterações físicas e emocionais permeadoras do seu existir, ou seja, modos de ser codeterminados na sua vida. No estudo, as depoentes, como ser-aí-com-no-mundo, se colocam sendo-com-suas-famílias, demonstrando-se ansiosas para voltar ao lar e ao convívio dos entes queridos. Estar-com-a-família, no seio das suas relações afetivas, se revela como essencial para o relacionamento humano, parecendo fundamental à sua recuperação. 52 Existindo-no-mundo como família, as mulheres manifestam seu desejo de retornar ao lar, embora sempre receosas de não serem capazes de assumir suas responsabilidades rotineiras. Elas discursaram acerca da provável incapacidade de reassumirem sua vida cotidiana, afirmando temer não conseguirem, sequer, cuidarem dos seus lares. Segundo Heidegger (2008), a existência liga-se à temporalidade, como fundamento ontológico, da própria origem existencial da presença. Para o filósofo, a temporalidade é constituída por ‘ekstases’ no vigor de ter sido, na atualidade ou no porvir, que têm relação com passado, presente e futuro. Deste modo, a temporalidade é o fenômeno unificador do porvir, ou possibilidades de existir, que atualiza no presente o vigor de ter sido. O passado corresponde ao retorno do vivido, o presente, à ocupação com as coisas do mundo e o futuro, às possibilidades de vir-a-ser. A pre-sença das mulheres acometidas por cardiopatia que vivenciam uma ferida na hospitalização demonstrou-as presas ao passado, a vigor de ter sido, quando desprezam a atualidade, não aventando a possibilidade de cicatrização da ferida, a alta hospitalar e a probabilidade de retorno à “normalidade” da vida, por meio, principalmente, de busca por possibilidades de existir. Desta maneira, deixam de se projetarem para o futuro, vivendo agora só a idéia de não mais vir a ser, afastando-se da angústia existencial autêntica de buscar nossas possibilidades de existir. Para Heidegger (2008), a pre-sença é livre para escolhas de possibilidades de existir. Entretanto, isto implica suportar a escolha advinda da angústia como modo de ser-no-mundo lançado à sua existência originariamente consciente. A compreensão da existência destas mulheres permitiu considerar que elas se percebem agradecidas pelo cuidado de enfermagem recebido, bem como demonstram conformação com a situação, fortalecida pela manifestação de fé e esperança. Embora significado apenas por Angélica, é importante considerar a solicitude autêntica percebida no seu fazer, favorecendo seu cotidiano existencial que, internada para tratar o coração, adquire uma ferida. Heidegger (2008) descreve solicitude autêntica como o relacionar-se entre pre-senças de maneira envolvente e significante, implicando características de consideração e pre-ocupação. Assim, as mulheres descrevem as manifestações de solicitude autêntica dos profissionais como momentos inesquecíveis e expressivos para o enfrentamento da situação. 53 Ao demonstrar conformação com a situação, fortalecida pela manifestação de fé e esperança, apreende-se, de certo modo, um movimento consciente, embora subsidiado por crenças e valores religiosos, para transcender a condição e procurar nossas possibilidades de existir. Considerando a consciência como constitutivo próprio da pre-sença, por meio do seu clamor, há de se alcançar transcendência do viver ôntico na direção da aceitação ontológica e autêntica que favoreça escolhas de novos modos de ser e viver. Apesar de compreender a dimensão religiosa como de-caimento cotidiano da pre-sença, em última instância, poder-se-ia tê-la como ontológica para o ser-nomundo. Ao projetar-se na fé em Deus, a pre-sença cardiopata que, na internação hospitalar, adquire uma ferida, segue em direção ao seu poder-ser, ao porvir que se funda no vigor de ter sido. Angustiando-se, opõe-se ao temor de um “malum futurum”, esperançando por um “bonum futurum” (HEIDEGGER, 2008), mesmo levando em conta que este movimento decorre da dimensão ôntica que caracteriza a fé divina cotidiana. Cabe ressaltar: o caminho trilhado nesta investigação representou uma tentativa de desvelar os modos de ser de mulheres com cardiopatia acometidas por úlcera por pressão durante internação hospitalar e, assim, procurar compreender seu existir. No entanto, há de se convir que a compreensão última e finita destas pre-senças, a despeito de qualquer esforço, jamais será abarcada. Como ensina o próprio Heidegger, a análise da pre-sença será sempre incompleta e provisória, porquanto ela é ser de possibilidades. 54 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta investigação se desenvolveu influenciada por inquietações acerca do desejo de compreensão do vivido de mulheres cardiopatas que, quando internadas, vivenciam a ocorrência de uma úlcera por pressão. Tais inquietações nasceram no cotidiano da enfermagem como ser-com pessoas nestas condições de saúde. Neste contexto, a fenomenologia, baseada no pensamento de Martin Heidegger, propiciou a procura pelo desvelamento deste fenômeno, mediante a apreensão do seu sentido, por meio do discurso das próprias mulheres em face desta situação. Segundo o estudo revelou, as mulheres significam sua vivência como uma condição desconfortável, seja pela dor, pela presença, execução e/ou manutenção do curativo, seja pela imobilidade parcial no leito; uma situação de medo de complicação na ferida; de desamparo diante da permanência no hospital e desejo de retornar ao lar; de (des)conhecimento sobre a situação vivenciada; de percepção de agradecimento pelo cuidado recebido; e de manifestação de conformação, fé e esperança. A compreensão, favorecida pela emergência de um fio condutor e fundamentada no pensamento filosófico de Martin Heidegger na obra Ser e tempo, revelou a existência das mulheres, veladas nas suas significações. Na investigação, a pre-sença das mulheres se desvelou como existente inautêntica, ao se demonstrarem aprisionadas ao temor e ao horror de sentir dor, de advirem complicações na ferida, bem como de não voltarem às suas atividades cotidianas, assumindo a inautenticidade do modo de ser do falatório. Presas à dimensão ôntica, ancoram sua vida ao vigor de ter sido antes do acontecido, desvencilhando-se de buscar novas possibilidades de existir. A despeito disto, reconhecem solicitude autêntica de profissionais de enfermagem, mostrando conformação e esperança, numa direção ao poder-vir, ou seja, de uma busca por novas possibilidades de existir, embora, para tanto, se amparem na de-cadência da fé em Deus. A realização do estudo e o desvelamento do fenômeno investigado ensejaram a emergência de reflexão acerca da necessidade de os profissionais de saúde, e enfermeiros de maneira especial, imprimirem importância à dimensão existencial de quem eles cuidam, neste caso, as mulheres com cardiopatia. 55 É necessário registrar dificuldades enfrentadas e inerentes ao desenvolvimento de uma investigação qualitativo-fenomenológica. Pode-se destacar a fase das entrevistas qualitativas. Aqueles momentos foram permeados de insegurança e dúvidas na condução das conversas no intuito de pesquisar. Pouco a pouco, no entanto, a continuidade dos encontros foi tornando a situação mais familiar, o que, por fim, colaborou para o avanço das entrevistas. Cabe também registrar serem de grande relevância as revelações proporcionadas pelo estudo de modo a contribuir para o ser-com de enfermeiros com mulheres que vivenciam esta condição de saúde. A despeito da impossibilidade de universalização dos resultados de um trabalho qualitativo-fenomenológico, pode-se considerar a possibilidade de generalização do saber apreendido mediante a utilização desta compreensão para direcionar o ser-com profissional da equipe de enfermagem no cuidado a mulheres em condições de saúde similares às ora estudadas. Na certeza de que a investigação fenomenológica possibilita compreensão de fenômenos sem jamais conseguir abarcá-los na sua inteireza, recomenda-se a produção de outros estudos que viabilizem novas facetas de Sermulher com cardiopatia com risco de desenvolver uma úlcera por pressão em uma internação hospitalar, sobretudo com vistas a preveni-la. Por fim, apresentam-se, como se segue, recomendações de devolutivas da investigação ao ambiente terapêutico e acadêmico lócus da pesquisa. a) À enfermagem para o cuidado à mulher com úlcera por pressão A pesquisa levou a refletir o modo como o Ser-mulher vivencia a ocorrência de úlcera por pressão, permitindo desvelar esse sentido, com a finalidade de subsidiar o cuidado clínico de enfermagem. Os depoimentos das mulheres levaram a apreender os significados atribuídos por elas acerca da ocorrência da úlcera por pressão, em uma abordagem de cuidado que valorize o humano, seus sentimentos e a própria mulher. Assim, a busca da aplicação da intersubjetividade e da humanização nas ações de enfermagem leva a refletir a possibilidade de olhar para essas mulheres de outro modo. Desvelar o significado e a manifestação do fenômeno (úlcera por 56 pressão), na visão da mulher que a vivencia, favorece o cuidado prestado em consonância com quem o recebe. b) À instituição lócus da pesquisa Ao refletir acerca das contribuições à instituição onde se desenvolveu a pesquisa, vislumbra-se sua divulgação, por meio de parceria com o setor de educação permanente, aproximando os enfermeiros ao pensamento fenomenológico. Desse modo, poderão implementar a prática de cuidados de enfermagem fundamentados na existência do ser, e estimulando o despertar para outras dimensões do cuidado para além do modelo biomédico. Sugere-se ainda que o Serviço de Estomaterapia adote em sua prática de cuidar alguns princípios da fenomenologia. Para tal, urge modificar seu modo de perceber os pacientes cuidados, a fim de repensar sua importância para o cuidado clínico de enfermagem e como aderir a um modo de cuidar fundamentado em uma relação com o outro que valorize a existência do Ser. c) À instituição de ensino Espera-se que esta pesquisa sirva como estímulo para alunos da Universidade Estadual do Ceará utilizarem a abordagem fenomenológica, divulgar cientificamente o método, incrementando a produção científica a fim de gerar novos conhecimentos. Compreende-se ser fundamental facilitar o incremento de pesquisas fenomenológicas na enfermagem, na perspectiva de favorecer seu desenvolvimento na profissão e aplicabilidade na prática de um cuidado consciencioso e humano. Ouso pensar na formação de grupo de estudos específico do referencial fenomenológico, em especial o pensamento de Heidegger para incentivar as publicações nesta área do conhecimento pela enfermagem, em seus diversos campos de saberes. Espero, portanto, contribuir com esta dissertação para o cuidado clínico e compreensivo de enfermagem prestado a mulheres com cardiopatia não apenas durante sua hospitalização, mas também em outros momentos decisivos das suas vidas. 57 REFERÊNCIAS ALMEIDA, I. S.; CRIVARO, E. T.; SALIMENA, A. M. O.; SOUZA, I. E. O. Fenomenologia: revisitando a produção acadêmica. Rev. Eletr. Enferm., v. 11, n. 3, 2009. BATES-JENSEN, B. M. Pressure ulcer assessment and documentation. In: RASNER, D.; KANE, D. Chronic Wound Care. 2. ed. Wayne: Health Management Publications, 1997. p. 37-48. BECK, C. L. C.; GONZÁLES, R. M. B.; LEOPARDI, M. T. Detalhamento da metodologia. In: LEOPARDI, M. T. (Org.). Metodologia da pesquisa em saúde. Santa Maria: Pallottti, 2001. BORGES, E. L.; FERNANDES, F. P. Úlcera por pressão. In: DOMANSKY, R. C.; BORGES, E. L. (Orgs.). Manual para prevenção de lesões de pele recomendações baseadas em evidências. Rio de Janeiro: Rubio, 2012. p. 119186. BRASIL. Conselho Nacional de Saúde. 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Diagnóstico clínico: 63 APÊNDICE B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Estamos desenvolvendo uma pesquisa cientifica intitulada: Vivenciar uma Úlcera por Pressão: estudo fenomenológico com mulheres cardiopatas fundamentado no pensamento de Heidegger sob orientação da Profa Dra. Lúcia de Fátima da Silva. Assim, queremos convidá-la a participar da mesma. O estudo tem como objetivo compreender o sentido de vivenciar a ocorrência de uma úlcera por pressão, durante uma hospitalização, para mulher cardiopata. Sua participação darse-á por meio de uma entrevista gravada e permitindo que o pesquisador obtenha informações sobre sua saúde no seu prontuário. A senhora terá plena liberdade para aceitar ou não o convite, assim como de permanecer ou não no estudo sem nenhum prejuízo ao atendimento neste serviço. Informo que os riscos da atividade são mínimos e o pesquisador estará atento para resolvê-los ou minimizá-los. Acreditamos que a atividade contribuirá para uma melhor qualidade do cuidado de enfermagem prestado às pessoas com problemas semelhantes ao seu. Garantimos sigilo sobre sua identidade e as informações prestadas serão utilizadas exclusivamente para os fins deste estudo, ou seja, preparação de trabalhos para apresentação na disciplina do Mestrado Acadêmico Cuidados Clínicos em Saúde e Enfermagem, assim como apresentá-lo em eventos científicos e elaborar artigos para publicar. Posteriormente os resultados das mesmas serão enviados à sua unidade de saúde para melhoria da prestação de serviço. Este termo será preenchido em duas vias, uma para o pesquisado e a outra para a pesquisadora. Para esclarecer quaisquer dúvidas ou questionamentos sobre esta pesquisa, favor comunicar-se com a mestranda Aurilene Lima da Silva pelo telefone: (85) 8804-4002 ou com a professora responsável pelo telefone: 3101-9798 ou comunicar-se com o Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Ceará pelo telefone 3101-9890. Atenciosamente Lucia de Fátima da Silva Professora TERMO DE CONSENTIMENTO PÓS-ESCLARECIDO Eu, ____________________________________________________, declaro que depois de ser esclarecido pela pesquisadora e ter entendido o que me foi explicado, concordo em participar da pesquisa. Fortaleza, _____ de ____________ de _______ ___________________________ __________________________ Assinatura do Pesquisador Responsável Assinatura ou Digital do Pesquisado 64 ANEXO – PARECER DO COMITÊ DE ÉTICA