UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ
AURILENE LIMA DA SILVA
SIGNIFICADOS E SENTIDOS DA ÚLCERA POR PRESSÃO ADQUIRIDA NA
INTERNAÇÃO HOSPITALAR: ESTUDO DE ENFERMAGEM SOBRE MULHERES
COM CARDIOPATIA
FORTALEZA – CEARÁ
2012
AURILENE LIMA DA SILVA
SIGNIFICADOS E SENTIDOS DA ÚLCERA POR PRESSÃO ADQUIRIDA NA
INTERNAÇÃO HOSPITALAR: ESTUDO DE ENFERMAGEM SOBRE MULHERES
COM CARDIOPATIA
Dissertação apresentada ao Curso de
Mestrado Acadêmico em Cuidados
Clínicos em Enfermagem e Saúde do
Programa de Pós-Graduação Cuidados
Clínicos em Enfermagem e Saúde, da
Universidade Estadual do Ceará, como
requisito parcial para obtenção do Grau
de Mestre em Cuidados Clínicos.
Área de Concentração: Cuidados Clínicos
em Enfermagem e Saúde.
Orientadora: Profª. Drª. Lúcia de Fátima
da Silva.
FORTALEZA – CEARÁ
2012
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação
Universidade Estadual do Ceará
Biblioteca Central Prof. Antônio Martins Filho
Bibliotecário Responsável – Francisco Welton Silva Rios – CRB-3/919
S586s
Silva, Aurilene Lima da
Significados e sentidos da úlcera por pressão adquirida na
internação hospitalar: estudo de enfermagem com mulheres
portadoras de cardiopatia / Aurilene Lima da Silva. — 2012.
CD-ROM. 64 f. ; 4 ¾ pol.
“CD-ROM contendo o arquivo no formato PDF do trabalho
acadêmico, acondicionado em caixa de DVD Slim (19 x 14 cm x 7
mm)”.
Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual do Ceará,
Centro de Ciências da Saúde, Programa de Pós-Graduação em
Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde, Fortaleza, 2012.
Área de Concentração: Cuidados Clínicos em Enfermagem e
Saúde.
Orientação: Profa. Dra. Lúcia de Fátima da Silva.
1. Enfermagem – estudo. 2. Doenças cardiovasculares –
mulheres. 3. Saúde da mulher. 4. Úlcera por pressão. I. Título.
CDD: 613.04244
À minha mãe, Maria de Lima, e ao meu
pai, José Vieira da Silva, meus queridos!
Vocês não estão fisicamente ao meu lado,
mas para mim sempre foram, são e serão
exemplo de vida.
Em especial, ao meu filho Tarcisio Ribeiro
Vieira Júnior, meu presente divino e
diário.
A toda minha família, sempre comigo de
modo positivo, incentivando, sofrendo e
torcendo por mim. É muito bom sentir a
segurança
de
estarmos
juntos
partilharmos todos os nossos momentos.
e
AGRADECIMENTOS
A Deus, pela minha existência e por todas as oportunidades a mim propiciadas;
A todos os amigos queridos, que fazem parte da minha caminhada. Não posso
nomeá-los individualmente, mas sei da importância de cada um de vocês na
realização deste estudo, sendo pre-senças constantes no meu caminhar e no meu
coração;
Aos meus amigos e companheiros fiéis, Michell Ângelo, Débora Guerra,
Hermenecísia Farias, Socorro Rocha, Mazé Muniz e Ires Custódio, por serem presenças;
Às famílias Guerra e Rocha, que me acolheram e me fazem sentir parte delas;
À enfermagem, por tudo que tenho e, em especial, sou;
À Direção do Hospital de Messejana, nas pessoas das Dras. Maria do Perpétuo
Socorro Martins e Sâmya Coutinho de Oliveira, por colaborarem com meu
aprendizado e aprimoramento;
À amiga e gerente de Enfermagem do Hospital de Messejana, Drª. Maria Celina
Saraiva Martins, por confiar, compreender, incentivar e ser pre-sença em minha vida
profissional, acadêmica e pessoal.
À amiga Marta Liduina Parente, secretária da Gerência de Enfermagem do Hospital
de Messejana, pelo zelo com os enfermeiros. Obrigada por cuidar de mim!;
Aos colegas, profissionais do Hospital de Messejana, por compartilharem vivências e
conhecimentos;
Aos grupos de trabalho da Estomaterapia, Parecer Técnico e Circulação
Extracorpórea, que tanto colaboraram para minha caminhada neste estudo;
Às depoentes, pela participação neste estudo, e por compartilharem comigo suas
histórias de vida;
A todos os componentes do Programa de Pós-Graduação e Cuidados Clínicos em
Enfermagem e Saúde. Ressalto as Profas. Dras. Maria Célia de Freitas, Maria Vilaní
Cavalcante
Guedes
e
Ana
Ruth
Macedo
Monteiro,
por
seus
valorosos
ensinamentos, pela dedicação ao ensino e como exemplos a serem seguidos;
À Profª. Drª. Francisca Elisângela Teixeira, da UFC, pelo acolhimento, ensino e
incentivo à produção científica;
Aos membros da Banca Examinadora, Profª. Drª. Ivis Emília de Oliveira Souza,
Prof. Dr. Rui Verlaine Oliveira Moreira e Profª. Drª. Maria Vilaní Cavalcante Guedes,
pelo carinho acolhedor, pela doçura e encanto na arte da orientação, e por
aceitarem o convite para contribuir, mediante análise, para o enriquecimento desta
dissertação.
A toda sétima turma do Mestrado em Cuidados Clínicos da UECE, “The Best of the
World”, pela convivência e aprendizado; em especial, aos colegas Ana Maria Maia
Rodrigues, Francisca Diana Macia de Oliveira, Jéssica de Menezes Nogueira,
Simone da Silveira Magalhães, Manuela Mendonça Figueirêdo Coelho e José Wicto
Pereira Borges;
Enfim, a todos que de alguma maneira contribuíram para a construção deste estudo,
favorecendo meu crescimento nesta fase da vida.
AGRADECIMENTOS INSTITUCIONAIS
À Universidade Estadual do Ceará (UECE), pela oportunidade de cursar a
Graduação em Enfermagem, a Especialização em Estomaterapia e o Mestrado
Acadêmico Cuidados Clínicos em Saúde;
Ao Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Sturdart Gomes, órgão da minha
vinculação de trabalho, onde me realizo como profissional, e onde tenho a
oportunidade de Ser- enfermeira.
AGRADECIMENTOS ESPECIAIS
À minha amiga e orientadora, Lúcia de Fátima da Silva, cujo modo de ser-com
possibilitou a luz que me revelou outros modos de poder-ser-no-mundo como
pessoa e enfermeira. Sua importância nesta etapa da minha vida ultrapassou
assuntos didático-pedagógico-metodológicos. Incentivou-me e deu exemplo de
segurança, serenidade, dinamismo e compreensão.
À minha amiga e irmã de coração, Débora Guerra, que em sua bondade esteve
junto a mim nos momentos mais difíceis desta caminhada. Nenhuma palavra poderá
expressar com precisão meu agradecimento. Obrigada!
RESUMO
Estudo fenomenológico, cujo objetivo foi compreender os significados e sentidos
atribuídos por mulheres com cardiopatia à ocorrência da úlcera por pressão
adquirida na internação hospitalar. Dos discursos de oito mulheres, obtidos por meio
de entrevistas apreenderam-se significações imediatas, das quais emergiu um fio
condutor à interpretação do seu sentido. As mulheres demonstraram essa vivência
significando desconforto, seja pela dor, pela presença, realização e/ou manutenção
do curativo, seja pela imobilidade parcial no leito; medo de complicação na ferida;
desamparo diante da permanência no hospital e desejo de retornar ao lar;
(des)conhecimento sobre a situação vivenciada; e agradecimento pelo cuidado
recebido,
manifestando
conformação,
fé
e
esperança.
A
compreensão,
fundamentada no pensamento filosófico de Martin Heidegger, na obra Ser e tempo,
revelou a existência das mulheres, veladas nas suas significações. Na investigação,
a pre-sença das mulheres se desvelou como existente inautêntica, ao se
demonstrarem aprisionadas ao temor e ao horror de sentir dor, de advirem
complicações na ferida, bem como de não voltarem às suas atividades cotidianas,
assumindo a inautenticidade do modo de ser do falatório. Presas à dimensão ôntica,
ancoram sua vida ao vigor de ter sido antes da ocorrência, desvencilhando-se de
buscar novas possibilidades de existir. A despeito disto, reconhecem solicitude
autêntica de profissionais de enfermagem, mostrando conformação e esperança,
mesmo que inautenticamente amparadas pela fé em Deus. Do estudo, emerge a
reflexão acerca da necessidade de os profissionais de saúde, e enfermeiros de
maneira especial, imprimir importância à dimensão existencial dos seres de quem
cuidam, neste caso, mulheres que vivenciam uma cardiopatia.
Descritores: Enfermagem; Pesquisa qualitativa; Doenças cardiovasculares; Saúde
da mulher; Úlcera por pressão.
ABSTRACT
Phenomenological study which purpose is to understand the meanings and feelings
assigned by women with heart disease to the occurrence of pressure ulcer during
hospitalization. From speeches of eight women collected through interviews,
immediate meanings were seized, from which emerged a wire that led to the
interpretation of its meaning. These women demonstrate that experience means
discomfort, either by pain, presence, performance and / or curative maintenance,
either by partial immobility in bed, fear of wound complication; helplessness in the
face of hospital staying and wish to return home; (un) know about the experienced
situation, and gratefulness for the received care, expressing conformation, faith and
hope. The understanding, based on Martin Heidegger’s philosophical thought of
Martin Heidegger, in Being and Time, revealed the women’s existence, veiled in their
meanings. On investigation, the presence of women was unveiled as existing
inauthentic, when they demonstrate trapped to the fear and horror of feeling pain,
wound complication occurrences, and they do not return to take their everyday
activities, assuming the inauthenticity of the mode’s being of talking. In ontic
dimension, they support their life on the vigor to have been before the occurrence,
getting rid of to seek new opportunities to exist. Despite this, they recognize an
authentic solicitude of some nurses, demonstrating conformation and hope,
sustained by faith in God. From the study, emerges the reflection about the need for
health professionals, and especially nurses, instill the importance of existential
dimension who they takes care for, in this case, women with heart disease.
Keywords: Nursing; Qualitative research; Cardiovascular diseases; Woman health;
Pressure ulcer.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ABEn
Associação Brasileira de Enfermagem
ABEn-SP
Associação Brasileira de Enfermagem, Seção São Paulo
ABESE
Academia Brasileira de Especialistas em Enfermagem
CEP
Comitê de Ética em Pesquisa
CMACCLIS Mestrado Cuidados Clínicos em Saúde
EEAN
Escola de Enfermagem Ana Nery
EEUSP
Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo
EPUAP
European Pressure Ulcer Advisory Panel
GRUPEESS Grupo de Pesquisa Enfermagem, Educação, Saúde e Sociedade
NPUAP
American National Pressure Ulcer Advisory Panel
POPs
protocolos operacionais padrões
PPCCLIS
Programa de Pós-Graduação Cuidados Clínicos em Enfermagem e
Saúde
SAD
Serviço de Atendimento Domiciliar
SAE
Sistematização da Assistência de Enfermagem
SESA
Secretaria Estadual de Saúde do Ceará
SOBEST
Associação Brasileira de Estomaterapia: estomias, feridas e
incontinências
SUS
Sistema Único de Saúde
TCLE
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
UECE
Universidade Estadual do Ceará
UFRJ
Universidade Federal do Rio de Janeiro
WCET
World Council of Enterostomal Therapists
SUMÁRIO
1
PENSAMENTO INTRODUTÓRIO................................................................... 13
1.1
TRAJETÓRIA PESSOAL E PROFISSIONAL.................................................. 13
1.2
OBJETIVO DO ESTUDO................................................................................. 20
2
SOLO DE TRADIÇÃO..................................................................................... 21
2.1
A PROBLEMÁTICA DO ADOECIMENTO CARDIOVASCULAR..................... 21
2.2
A OCORRÊNCIA DE ÚLCERA POR PRESSÃO............................................. 24
2.3
A ESTOMATERAPIA COMO ESPECIALIDADE DA ENFERMAGEM............. 27
3
ABORDAGEM FILOSÓFICA, TEÓRICA E PROCEDIMENTAL.................... 29
3.1
REFERENCIAL FILOSÓFICO-TEÓRICO........................................................ 29
3.2
ABORDAGEM PROCEDIMENTAL.................................................................. 32
3.2.1 Tipo de estudo................................................................................................ 32
3.2.2 Cenário do estudo.......................................................................................... 32
3.2.3 Participantes do estudo................................................................................ 34
3.2.4 Etapa de campo.............................................................................................. 35
3.2.5 Movimento analítico....................................................................................... 36
3.2.6 Aspectos éticos.............................................................................................. 38
4
REVELAÇÃO DA INVESTIGAÇÃO................................................................ 39
4.1
HISTORIOGRAFIA DAS MULHERES PARTICIPANTES DA INVESTIGAÇÃO 39
4.1.1 O encontro com as depoentes...................................................................... 39
4.1.2 As depoentes.................................................................................................. 40
4.2
COMPREENSÃO VAGA E MEDIANA DAS MULHERES ESTUDADAS –
PRIMEIRO MOMENTO METÓDICO............................................................... 43
4.3
O FIO QUE CONDUZIU A BUSCA PELO SENTIDO...................................... 48
4.4
O SENTIDO DO SER-MULHER- CARDIOPATA- QUE- VIVENCIA-AÚLCERA -POR-PRESSÃO – SEGUNDO MOMENTO METÓDICO............... 48
5
CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................ 54
REFERÊNCIAS............................................................................................... 57
APÊNDICES.................................................................................................... 61
APÊNDICE A – FORMULÁRIO DE CARACTERIZAÇÃO DAS DEPOENTES 62
APÊNDICE B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO.. 63
ANEXO – PARECER DO COMITÊ DE ÉTICA................................................ 64
13
1 PENSAMENTO INTRODUTÓRIO
Nesta introdução expõe-se a trajetória pessoal e profissional percorrida
para o encontro com o objeto de investigação, assim com o objetivo do estudo.
1.1 TRAJETÓRIA PESSOAL E PROFISSIONAL
Durante vinte e dois anos da minha trajetória, como enfermeira em um
hospital especializado em doenças cardíacas e pulmonares, partilhei do dia-a-dia de
alguns pacientes, de vários modos. Certas vezes apenas os escutei, em outras me
senti realmente presente, tive atitude de ajuda e um cuidado mais efetivo. Executei
cuidados de enfermagem de modo tecnicista sim, mas olhando-os sempre de
maneira humanizada, compartilhando com eles do cotidiano hospitalar, onde várias
situações de vida se apresentam ao enfermeiro.
Compreendo que a atuação do enfermeiro contempla o cuidado em todo
o ciclo vital e nas diversas etapas e contextos de assistência; desta forma, em todos
os cenários ele partilha, se assim optar, da história de vida das pessoas cuidadas,
às vezes fazendo parte delas. Ao longo da minha carreira profissional, atuei na
assistência a mulheres em hospitais nos diversos setores: unidades abertas de
internação clínica e cirúrgica, salas de parto, unidade de pediatria, emergência,
centro cirúrgico, unidades de terapia intensiva e setor de quimioterapia.
Portanto, pude conviver com mulheres em situações que ultrapassam o
domínio técnico: ao parir pela primeira vez, ansiosas pela expectativa da saúde dos
filhos e preocupadas com questões sociais; mães com medo de perder seus filhos
por ocasião de tratamentos clínicos e, principalmente, cirúrgicos; cardiopatas
temerosas com seu prognóstico e receosas por não retornarem aos seus lares;
diabéticas e com problemas vasculares na presença de amputação de membros,
com perspectivas de cura ou com diagnósticos que não vislumbravam mais
possibilidades terapêuticas, e tantas outras situações.
Tenho na lembrança histórias, e a meu ver a maioria dos enfermeiros
guarda fatos de pacientes que os marcaram como profissionais. Alguns pacientes
específicos deixaram em minha trajetória sinais da convivência das suas aflições,
medos, esperança, pensamentos, com os quais convivi no desenrolar das suas
14
hospitalizações. Relatos de sucesso, com resoluções positivas em suas vidas e
outras nem tanto.
Deste modo, desenvolver as diversas tarefas cotidianas da enfermagem
com competência profissional foi sempre motivo para que eu buscasse
conhecimento, aprimorasse as técnicas utilizadas e dominasse novas tecnologias de
cuidar; ter o olhar criterioso com vistas a avançar o quanto mais pudesse no sabersaber e saber-fazer na arte de ser enfermeira. Cuidar do ser humano em um
momento de fragilidade me suscitava a desempenhar um cuidado solidário, como se
quisesse resgatar o bem-estar de cada um daqueles sob meus cuidados .
Como parte da minha trajetória profissional concluí há nove anos a
Especialização de Enfermagem em Estomaterapia e, desde então, passei a cumprir
minhas atividades de enfermagem neste setor na instituição hospitalar onde
desempenho meu fazer profissional atual. A estomaterapia possui por objetivo cuidar
de pacientes com feridas, estomas e incontinência, seja urinária e/ou fecal. Na
referida instituição, este serviço tem por missão promover cuidado especializado aos
pacientes hospitalizados e em nível ambulatorial, no âmbito da prevenção e
tratamento de lesões de pele.
Relatar minha participação como pioneira deste serviço enche-me de
orgulho. Testemunho assim a luta na busca de novos modos de cuidar de pacientes
com feridas na esfera do serviço público. Promover oportunidade de um cuidado
especializado aos pacientes acometidos por ferimentos agudos ou crônicos focada
na excelência passou a ser uma bandeira de luta.
Neste contexto, como enfermeira estomaterapeuta, também partilhei de
situações marcantes no meu processo de cuidar. Algumas destas me parecem
singulares ao cuidado de mulheres e me suscitaram outro olhar como enfermeiramulher.
Penso desta maneira por que certos fatos me chamaram a atenção no
tocante à mulher hospitalizada. Certa vez, uma adolescente, após uma cirurgia
cardíaca, desenvolveu um quadro infeccioso na incisão cirúrgica no mediastino que
culminou em uma cicatriz atrófica que deixa uma espécie de buraco na pele. Isto lhe
gerou um quadro de preocupação, seguido de tristeza profunda, pois na percepção
dela jamais poderia voltar a usar um biquíni para ir à praia, ato por ela tido como seu
lazer preferido.
15
Diante de todo o contexto no qual estava inserida a adolescente, senti
como enfermeira e mulher ser mister o cuidado para além da ferida do corpo, mas
principalmente para com os prováveis sentimentos suscitáveis pela ferida do corpo.
Inegavelmente, mesmo com a cicatrização da lesão, os aspectos emocionais
daquela adolescente ficaram abalados e eu, como enfermeira, mulher, mãe, senti
necessidade de uma maior aproximação, ter algo mais a dar, a fazer, a partilhar
naquele momento, naquela situação, para além de ajudar na cicatrização da ferida.
Com este relato, percebem-se manifestações especiais decorrentes do tratamento
de feridas e peculiaridades próprias do sexo feminino que precisam ser
consideradas no cuidado clínico de enfermagem.
Assim, nesta ótica se compreende cuidado clínico de enfermagem como
práticas, intervenções e ações sistematizadas, de cuidado direto, desenvolvido pela
equipe de enfermagem e dirigido ao ser humano, seja individualizado ou coletivo,
fundamentado em evidências quantitativas e/ou qualitativas, com bases filosófica,
ética, estética, teórica, cientifica, técnica e política, considerando as manifestações
ou respostas das pessoas ao seu processo de viver no continuum saúde-doença
(UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ, 2011).
Em outra oportunidade, segundo uma senhora de meia idade relatou,
durante toda a vida, o cuidado com sua aparência estivera presente de maneira
muito significativa. Desde a adolescência ela se mantinha vaidosa, sentimento
fortalecido após o casamento. Ela cultuava a beleza do corpo, como modo de sentir
prazer em viver. Essa paciente, durante a internação, adquiriu uma úlcera por
pressão na região sacral. Quando da sua alta hospitalar, por conta da ferida ainda
não totalmente cicatrizada e com a certeza de que deveria continuar o tratamento
em casa, viu-se dominar por momentos de angústia e dúvidas quanto ao retorno às
suas atividades rotineiras, sobretudo no inerente à sua vida sexual. Esta situação
chamou-me a atenção de modo particular, pois apesar da preocupação com as
manifestações clínicas da paciente, não se dispensava a devida atenção às
questões existenciais como a que a afligia.
Tenho observado ainda situações vividas por mulheres especificamente.
Por exemplo, ao acompanhá-las no banho, ou durante a troca de curativos, o fato de
auma ferida deixá-las em angústia e estresse merecedores de um empenho mais
cuidadoso da condição apresentada. Muitas vezes, elas passam a ter medo de olhar
a própria lesão; sentem vergonha e repugnância da ferida.
16
De acordo com Cruzeiro e Araújo (2003), ao abordarem aspectos
psicológicos do portador de feridas, denotam como sua autoimagem interfere
diretamente na autoestima. A autoestima direciona e norteia as ações e os gestos
em todos os momentos. Portanto, se a autoimagem for positiva, a autoestima
também o será. Ainda conforme os autores, o portador de ferida faz ligação entre
seu corpo, mente e meio social. Estes sentimentos intensificam sua ansiedade em
relação à troca de curativos. Ela se preocupa com a evolução da ferida, com o
tempo de cicatrização e com a autoimagem.
Sabe-se que a úlcera por pressão é uma ocorrência indesejada e representa
um problema para os serviços de saúde. Considera-se úlcera por pressão uma lesão
localizada na pele e/ou tecido subjacente, normalmente sobre uma proeminência óssea,
em resultado de pressão ou de uma combinação entre esta e forças de torção
(EUROPEAN
PRESSURE
ULCER
ADVISORY
PANEL-EPUAP;
AMERICAN
NATIONAL PRESSURE ULCER ADVISORY PANEL-NPUAP, 2009).
Sua ocorrência eleva os custos hospitalares, aumenta o tempo de
permanência na internação, causa dor, desconforto, angústia, baixa autoestima,
preocupação, ansiedade e outras subjetividades. Para além das questões biológicas,
Jorge e Dantas (2003) enfatizam que o portador de uma ferida orgânica carrega
consigo a causa desta lesão: um acidente, queimadura, agressão, doença crônica,
complicação após um procedimento cirúrgico, entre tantas outras. E a ferida passa a
ser a marca, o sinal, a lembrança da dor, da perda, mesmo após a cicatrização.
Estudos, como o de Rios e Velôso (2010), exploram a atuação do
enfermeiro e a importância da sua ação profissional na prevenção e tratamento das
úlceras por pressão. Em particular, o estomaterapeuta busca em suas investigações
a ampliação do seu campo de conhecimento e competências com vistas à melhoria
dos serviços prestados ao paciente, família e instituição.
Para os autores, nas mulheres, há de se levar em conta toda uma
compreensão do Ser-mulher que porta uma cardiopatia, questões hormonais, quer
esteja na fase reprodutiva quer no climatério. Na prática, a realização de um curativo
em uma úlcera por pressão propicia oportunidade para o desempenho de um
cuidado de enfermagem voltado à orientação quanto ao banho, manutenção do
curativo, tecnologias alternativas, bem como o cuidado atentivo às questões
pertinentes ao emocional da mulher.
17
Ao despertar para a qualidade da assistência prestada àquelas mulheres,
por vezes me sinto insegura em determinadas situações, como quando ela se
mostra temerosa quanto à execução dos curativos, ao sentir medo e ansiedade que
dificultam o procedimento. Por vezes, evidenciam-se atitudes pouco compreensivas
dos profissionais que veem a execução do curativo como atividade diária banal,
diferentemente do percebido e sentido pela paciente.
Camargo (2000) lembra que quando o enfermeiro presta o cuidado ao
outro guiado pela ótica racional, esquecendo ou mesmo ignorando as emoções
inerentes ao cuidar, não se dá o encontro com quem é assistido, pois este não tem
voz para expressar o que realmente precisa, nem tampouco revelar o sentido do seu
ex-sistir quando do enfrentamento da doença e seu tratamento. Neste aspecto
reafirma-se a frequente necessidade de associação do saber técnico-científico que
não seja hegemônico a ponto de sobrepor-se à assistência ao ser humano como Ser
de possibilidades.
Portanto, minhas vivências profissionais me inquietaram e alguns
questionamentos se configuraram, a meu ver, passíveis de uma investigação
científica. Quero procurar respostas para estas inquietações comuns ao meu
cotidiano profissional. Buscar ações aptas a favorecer ao enfermeiro desenvolver
melhores práticas, a dar apoio emocional à paciente e sua família durante a
hospitalização, de modo a implementar uma maneira de cuidar focada não somente
no cuidado técnico na execução do curativo, mas também no compartilhamento da
ansiedade nos aspectos concernentes ao tratamento da lesão no âmbito social,
econômico e na visão de ser humano. Então, intencionei procurar fundamentação
científica e filosófica para alcançar respostas fundamentadas nas falas das
mulheres, de maneira a apreender como manifestam seu vivido em relação à úlcera
por pressão.
Na oportunidade apresentada no caminho acadêmico no Mestrado
Cuidados Clínicos em Saúde (CMACCLIS) do Programa de Pós-Graduação
Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde (PPCCLIS) da Universidade Estadual
do Ceará (UECE), especificamente por meio da linha de pesquisa Cuidado Clínico e
Prática Educativa no Adoecimento Cardiovascular, pertencente ao Grupo de
Pesquisa Enfermagem, Educação, Saúde e Sociedade (GRUPEESS), senti-me
estimulada e então me voltei à possibilidade de desenvolver tal pesquisa.
18
Referida linha de investigação direciona-se para o estudo de mulheres
adoecidas do coração e investiga sobre o fenômeno conforto como resultado da
prática clínica de enfermagem a elas dirigida. Neste contexto almejei elaborar um
estudo com mulheres cardiopatas que, na hospitalização, adquiriram uma úlcera por
pressão. Seria uma oportunidade para compreender os significados e sentidos
atribuídos por estas mulheres à ocorrência da ferida, com vistas a contribuir para o
cuidado clínico de enfermagem. O intuito era aclarar a seguinte questão: Como a
mulher com cardiopatia significa sua vivência acerca da ocorrência de uma
úlcera por pressão durante a internação hospitalar?
Cabe considerar: para melhor entender a coronariopatia, se faz
necessária abordagem que integre as dimensões biológica, psicológica e social.
Afinal, a coronariopatia é uma entidade nosológica multifatorial para além dos riscos
como tabagismo, hipercolesteronemia, hipertensão arterial, sedentarismo e outros
componentes psicopatológicos que desempenham papel tóxico no aparecimento das
doenças cardiovasculares, tais como a hostilidade latente, a cólera, o esgotamento
vital, as perturbações de pânico e a ansiedade fóbica.
Em estudo de Dias (2004) acerca da relação entre tipo de personalidade
e incidência de coronariopatia, encontra-se que, historicamente, um determinado
padrão comportamental está associado ao aumento da incidência de doenças
coronárias e que situações de sofrimento psicossomático colaboram para o
surgimento de doenças no coração. Como afirma o autor, vários estudos
demonstram correlações entre certos tipos de comportamento, traços de caráter,
estilo de vida relacional, componentes biológicos e o aparecimento de perturbações
cardiovasculares.
Posto isso, reputa-se importante para o enfermeiro a produção de estudos
com vistas a apreender as diversas manifestações dos pacientes passíveis de
interferir na recuperação de mulheres hospitalizadas, ou mesmo aumentar o
potencial de risco de complicação. No caso de tratamento de ferida, tentar
compreender fenômenos que favoreçam a prática do cuidado clínico do enfermeiro,
ajudando-o a desenvolver um raciocínio crítico em relação às sentimentalidades
destas mulheres. Isto deve contribuir para a aplicação do processo de enfermagem
com base na compreensão da existência das mulheres e, não somente, no modelo
empírico do saber hegemônico do enfermeiro.
19
Concebendo deste modo e decidida a contemplar esta questão, minha
inquietude voltou-se para a escolha de um método que desse a oportunidade de
compreender o vivido das mulheres cardiopatas com úlcera por pressão. Foi aí que
ocorreu o meu encontro com a fenomenologia como possibilidade de compreender o
vivido destas mulheres. Esta opção conforme proposta por Martin Heidegger, deu-se
por conter em seus constructos um conhecimento do homem como ser de
possibilidades,
como
meio
de
compreender
sua
existência.
Escolher
a
fenomenologia fundamentada em Heidegger se revela a mim como um desafio. Tive,
então, de buscar conhecimento nos bancos da academia, em disciplina de filosofia
que contemplasse a fenomenologia como método de pesquisa em enfermagem.
Para tanto, cursei, no Mestrado Cuidados Clínicos em Enfermagem e
Saúde, da Universidade Estadual do Ceará, a disciplina Tópicos filosóficos para o
cuidado clínico de enfermagem, ministrada por um filósofo e uma enfermeira, onde
fiz meu primeiro contato com as questões filosóficas pertinentes à esta proposta de
estudo.
Em continuidade a esta busca, cursei como aluna regular a disciplina
métodos qualitativos da pesquisa: abordagem fenomenológica, ministrada na Escola
de Enfermagem Ana Nery (EEAN), da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), por uma enfermeira, doutora em enfermagem, professora titular da referida
escola. Também participei como ouvinte de um módulo de estudos ministrado por
um filósofo, intitulado, a fenomenologia como fenômeno e como método. Este
módulo foi parte da disciplina Seminário crítico de pesquisa social em saúde, no
Doutorado em Saúde Coletiva da UECE.
Com esta aproximação pude compreender, conforme Gray (2012), que a
fenomenologia se baseia na experiência das pessoas com sua realidade e que, para
tanto, deve-se colocar de lado entendimentos prévios acerca dos fenômenos,
revisitando a experiência imediata com eles, para que venham à tona novos
sentidos. Esta afirmação guarda pertinência com a linguagem heideggeriana, para a
qual apreender o sentido significa desvelar o fundante do fenômeno estudado.
Ressalto as apreciações de Monteiro et al. (2006), quando evidenciam a
fenomenologia como proposta metodológica para estudos de enfermagem, nas
quais existe a possibilidade de compreensão do ser humano.
Ainda segundo os autores, a fenomenologia se apresenta como
alternativa para compreender as preocupações surgidas do cotidiano e que
20
permitem, também, que o mundo, as relações humanas e o cuidar possam ser
olhados de modo diferente.
Esta alternativa iluminou a possibilidade de satisfazer meu desejo de
olhar de maneira diferente a mulher com cardiopatia hospitalizada que vivencia a
ocorrência de uma ferida, como a úlcera por pressão, e tentar compreender suas
manifestações existenciais diante daquela úlcera.
1.2 OBJETIVO DO ESTUDO
Compreender os significados e sentidos atribuídos por mulheres com
cardiopatia à ocorrência da úlcera por pressão adquirida na internação hospitalar.
21
2 SOLO DE TRADIÇÃO
Apresentam-se o conhecimento produzido e alcançado sobre a questão
do adoecimento cardiovascular para as mulheres; o desenvolvimento de úlceras por
pressão; e, por fim, as situações de cuidado de estomaterapia à mulher com
cardiopatia e úlcera por pressão.
2.1 A PROBLEMÁTICA DO ADOECIMENTO CARDIOVASCULAR
As doenças cardiovasculares constituem a maior causa de morbidade e
mortalidade no Brasil. Dessa forma, é fundamental conhecer a magnitude dos
fatores de risco cardiovascular com a finalidade de efetuar um planejamento de
saúde capaz de intervir eficazmente nessa realidade (JARDIM et al., 2009).
Como afirmam Simões e Souza (2002), a mulher tem sido objeto de
estudos, de pesquisas e de atenção sob os mais variados aspectos, seja biológico,
social, sexual, cultural, psicológico e espiritual. Segundo referem, estes estudos
apontam a mulher como um ser humano com necessidades relacionadas aos seus
diferentes papéis na sociedade. Ainda como referem, a mulher tem se lançado, no
cotidiano, em várias possibilidades de ser que mostram sua atuação e preocupação
com a casa, filhos, companheiro, trabalho, estudos, caracterizando um perfil social
cada vez mais eclético.
Algumas mulheres têm investido, com sucesso, em uma carreira
profissional, assumindo postos e cargos de prestígio, em espaços públicos e
privados. Fomentam, assim, história própria de mulheres, com pluralidade de
atuações.
Em relação à cardiopatia isquêmica na mulher, consoante enfatizam
Cantus e Ruiz (2011), estudos relatam existir diferenças entre gêneros não só no
tangente à manifestação clínica da doença coronariana mas, também, na
abordagem terapêutica ou na resposta ao evento cardíaco. Por esse motivo
somente se poderá valorizar a real dimensão do problema enfrentado pela mulher
quando se tiver a capacidade de saber como ela vivencia sua doença, e por que
reage tal como o faz.
Conforme os autores advertem, saber como a mulher percebe sua
doença, quais são os motivos para esse comportamento representam um vasto
22
campo de investigação para a enfermagem. Assim, justificam-se os enfoques
qualitativos de múltiplos fatores a serem explorados, desmembrados e depois
integrados, a fim de facilitar a compreensão de determinadas atitudes e
comportamentos da mulher. Mencionam estes aspectos como essenciais para
planejar políticas adequadas à assistência de enfermagem. Nesse sentido, o
enfermeiro é o profissional apto a formar e informar a população sobre os fatores de
risco cardiovasculares, suas consequências, bem como sobre os aspectos inerentes
à sua prevenção e manejo.
Ao estudar a qualidade de vida em uma comparação entre gêneros em
pessoas com doença arterial coronária, Favarato et al. (2006) ressaltam a existência
de uma pior evolução entre as mulheres na doença cardiovascular, além de maior
prevalência de comorbidades como osteoporose e depressão. Enfatizam que, na
avaliação inicial, as mulheres demonstraram maior prejuízo em relação aos homens
no concernente à capacidade funcional, seguida dos aspectos emocionais, sociais,
de saúde mental e vitalidade.
Chamam ainda a atenção para a necessidade de observação particular
aos transtornos de humor nas mulheres, porquanto há maior prevalência de
depressão na população feminina, quando comparada à masculina, na proporção
dois para um. Ademais, as mulheres são vulneráveis à doença depressiva, um fator
preditivo de reinternação e de pior qualidade de vida.
Grace et al. (2008) desenvolveram estudo a respeito de alterações
psicossociais e comportamentais em mulheres participantes do programa de
reabilitação cardíaca. Segundo relatam, os sintomas depressivos e de ansiedade
são significativamente prevalentes em pacientes cardíacos e mulheres sofrem uma
carga maior do afeto negativo do que os homens; esta angústia afetiva pode
comprometer negativamente seu prognóstico. Recomendam os exercícios na
reabilitação para reduzir a ansiedade nas mulheres que, em geral, mostram uma
melhora na sua qualidade de vida física afetada após um evento cardíaco.
Confrontando doença cardíaca coronária e mortalidade na saúde da
mulher, Tindle et al. (2009) investigaram a associação do otimismo e da hostilidade
com um amplo espectro de fatores de risco cardiovasculares, para avaliar as
influências combinadas e independentes de otimismo e da hostilidade em doença
cardíaca coronária em mulheres na pós-menopausa. Justificam, na investigação,
vidências acerca de fatores psicológicos influenciarem o risco de doença
23
cardiovascular, morbidade e mortalidade. Ainda como os autores relatam, indivíduos
pessimistas e hostis podem, por sua vez, alterar desfavoravelmente a fisiologia
cardiovascular, tal como pressão arterial alta.
Piazza, Lourenzi e Saciloto (2005) afirmam, em sua pesquisa sobre o
risco cardiovascular entre mulheres climatéricas, que de acordo com escores
propostos por Framingham, o risco foi significativamente maior entre as mulheres na
pós-menopausa. Enfatizam as possibilidades de atuação do enfermeiro, como
membro de uma equipe multidisciplinar, na prevenção da morbi-mortalidade
feminina por afecções cardiovasculares, principalmente em seu fundamental papel
educativo no processo de saúde da população feminina.
Uma questão também pertinente e significativa para a mulher, sobremodo
a cardiopata, diz respeito ao processo de vida reprodutiva no tocante à possibilidade
gestacional. Em pesquisa sobre as percepções de mulheres com doença
hipertensiva específica da gestação, Silva et al. (2011) relatam que ainda são
escassos os estudos que discutam as experiências e percepções das mulheres que
vivenciam ou vivenciaram tal situação. Os autores defendem o cuidado de
enfermagem para além das condutas obstétricas, tal como suporte emocional para
as gestantes e suas famílias, haja vista o nível de ansiedade gerado diante do
adoecimento. Assim, recomendam a realização de estudos qualitativos que
proporcionem melhor compreender mencionadas situações.
Consoante
os autores constataram,
se
investiga
pouco
sobre
o
conhecimento das mulheres quanto ao processo gestacional, seu estado de saúde e
situações de complicação possíveis de acometê-las. Apontam para a necessidade de
se repensar e reorganizar o modelo assistencial vigente, de modo que haja promoção
da saúde, por meio de educação nas consultas, no intuito de aprimorar o conhecimento
e humanizar o atendimento proporcionado às gestantes e suas famílias.
Quevedo, Lopes e Levefre (2006), na análise das entrevistas do seu
estudo, perceberam o quanto a experiência com a gravidez de risco por cardiopatia
e/ou diabetes mellitus é sofrida e difícil de ser suportada, seja pelos sintomas físicos,
pelos incômodos causados pelo tratamento, ou pelas limitações na vida social que a
doença provoca. Para lidar com este sofrimento, é indispensável investimento
afetivo e cognitivo.
24
2.2 A OCORRÊNCIA DE ÚLCERA POR PRESSÃO
Por meio de uma parceria internacional os estudiosos de úlcera por pressão
têm como referência guidelines fundamentados pela EPUAP e pela NPUAP. Estes
órgãos se reúnem periodicamente para sistematizar, levantar dados estatísticos e
estabelecer diretrizes para prevenção e tratamento de úlceras por pressão.
De acordo com Gomes e Magalhães (2008), ao dissertarem sobre a
terminologia das úlceras por pressão, por muito tempo, pelos leigos e pela
comunidade profissional, a úlcera foi chamada de úlcera de decúbito ou escara.
Escara era o termo utilizado para definir a massa escura de tecido resultante de uma
necrose. Atualmente, entre os conceitos usados, a denominação úlcera por pressão
é adotada como a mais adequada pela comunidade científica.
Sobre o aspecto de causa/efeito, existem outros conceitos, tal como o de
Bates-Jenses (1997), que considera úlceras por pressão como resultados de
traumas mecânicos à pele e tecidos, causando hipóxia e isquemia.
Por sua vez, Prazeres e Silva (2009) explicitam a etiologia da úlcera por
pressão por meio da ocorrência de uma pressão nos tecidos, ocasionando oclusão
dos vasos sanguíneos por hipóxia tissular. Desta oclusão pode ocorrer uma palidez,
chamada hiperemia reativa, que, quando aliviada, soluciona o problema da hipóxia,
retornando ao estado normal. Após o surgimento da palidez, se houver persistência
da pressão, por acúmulo de metabólitos e de proteínas no interstício, ocorre uma
isquemia tissular pelo extravasamento capilar e consequente edema e piora da
perfusão. Inicia-se, aí, uma úlcera por pressão.
Segundo Paranhos (2003), as úlceras por pressão sempre foram um
problema para os serviços de saúde, especialmente para a equipe de enfermagem,
em virtude da sua incidência, prevalência e particularidades do tratamento,
prolongando a internação e a morbidade dos pacientes. A perda da integridade da
pele produz consequências para o indivíduo, para a instituição e para a comunidade.
Para esta autora, que toma por base a classificação preconizada pela
NPUAP, a classificação das úlceras por pressão dá-se da seguinte forma:
 Estágio I: a pele encontra-se intacta com eritema não branqueável,
precursor da ulceração da pele;
25
 Estágio II: lesão parcial da pele, envolvendo epiderme e/ou derme, ou
ambas. Nesse estágio, a úlcera é superficial e clinicamente aparece
como abrasão, bolha ou cratera rasa;
 Estágio III: lesão total da pele, envolvendo dano ou necrose da camada
subcutânea, mas não completa. A úlcera apresenta-se clinicamente como
uma cratera profunda com ou sem comprometimento dos tecidos
adjacentes.
 Estágio IV: grande destruição com presença de tecidos necróticos ou
dano de músculos, ossos ou estruturas de suporte (por exemplo,
tendões ou cápsulas articulares).
No relacionado à localização das úlceras por pressão, Paranhos (2003)
salienta que elas podem se desenvolver em proeminências ósseas e acontecem
com maior frequência nas seguintes regiões: sacra, coccígea, tuberosidade isquial,
trocanteriana, escapular, occipital e em maléolos laterais.
Ainda hoje a ocorrência de úlcera por pressão preocupa os serviços de
saúde, em especial a equipe de enfermagem. Seu tratamento demanda tempo.
Ademais, os cuidados específicos com a úlcera devem ser considerados como
necessidade que requer atenção especializada. Quando se refere a tratamento de
pessoas com úlcera por pressão, a implementação de uma Sistematização da
Assistência de Enfermagem (SAE) torna-se importante a fim de estabelecer critérios
de escolha para uma conduta específica e segurança para o paciente.
Para o desenvolvimento do tratamento, é essencial manter ambiente seguro,
levando em consideração a idade, nível de consciência, condições socioeconômicas,
imagem corporal, estado emocional, estresse, ansiedade, sono e repouso, nutrição,
higiene, eliminações, uso de medicamentos, procedimentos a serem realizados,
cirurgia, tricotomia, dor, mobilização e infecção, entre outros, no intuito de estabelecer
uma conduta terapêutica com vistas a intervir de maneira a determinar estratégias
adequadas para uma atuação de enfermagem o mais eficaz possível.
Conforme conclui o estudo de Cremasco et al. (2009), existe elevada
incidência de úlcera por pressão nos pacientes de terapias intensivas. Tal incidência
esteve associada à idade mais avançada, maior tempo de internação nestas unidades
ou em outros setores do hospital, levando à maior gravidade do adoecimento do
paciente. Neste âmbito, a carga de trabalho da enfermagem não se associou à
26
ocorrência de úlcera por pressão, mas foi identificada como preditora de risco para este
tipo de úlcera quando somada à gravidade do paciente.
Com a evolução tecnológica, dispõe-se, hoje, de uma gama de opções para
o tratamento de úlceras por pressão no tocante às coberturas. Tratando-se da
terminologia cobertura como sinônimo de curativo, autoras como Gomes e Magalhães
(2008) a definem como todo material, substância ou produto que se aplica sobre a
ferida, formando uma barreira física, com capacidade, no mínimo, de cobrir e proteger
o leito. Como afirmam, nos dias atuais são utilizados medicamentos, materiais
sintéticos, pomadas e outros. É imprescindível que a indicação da cobertura seja
criteriosa, bem como a avaliação da resposta do organismo no processo cicatricial.
Hoje, o foco da enfermagem no relacionado à úlcera por pressão é a ação
de prevenção, a fim de serem evitados transtornos passíveis de gerar sua ocorrência.
Na ótica de Borges e Fernandes (2012), cabe ao enfermeiro a implementação de
estratégias de prevenção, incluindo os pacientes de maior risco, visando sua
segurança
e
agravos
deste
acometimento.
Para
identificação
de
riscos,
desenvolveram-se vários instrumentos, como as Escalas de Norton, Gosnell, Waterlow
e Braden, com vistas a identificar os fatores preditivos e quantificar o risco de
desenvolver úlcera por pressão em adulto. Inclui-se, ainda a escala de Braden Q,
adaptada da primeira para avaliação do risco de ulceração por pressão em crianças.
Consoante as autoras concluem, a prevenção da úlcera por pressão tem
sido um desafio para as instituições de saúde. Dos obstáculos enfrentados citam o
número limitado de pesquisas baseadas em evidências científicas que comprovem a
prevenção como forte estratégia para evitar a formação de úlceras, problemas
organizacionais que dificultam a implementação de programas de prevenção, como
quadro insuficiente de profissionais, o custo associado à implementação desses
programas, bem como, a negociação com as fontes pagadoras, SUS e planos de
saúde, para cobertura das medidas preventivas. Mesmo assim, é comprovado que o
desenvolvimento da úlcera por pressão interfere em todos os aspectos da pessoa
acometida, e pode colocá-la sob riscos de graves complicações. Por conta disto, não
se deve medir esforços para a prevenção deste evento.
27
2.3 A ESTOMATERAPIA COMO ESPECIALIDADE DA ENFERMAGEM
A estomaterapia é uma especialidade da prática da enfermagem voltada
para o cuidado de pessoas com estomias, feridas agudas e crônicas, fístulas,
drenos, cateteres e incontinências fecal e urinária.
No Brasil iniciou-se oficialmente com a implantação do Curso de
Especialização em Enfermagem em Estomaterapia, pela Escola de Enfermagem da
Universidade de São Paulo (EEUSP), em 1990. A formação do estomaterapeuta no
país ocorre por meio do Curso de Especialização em Enfermagem em
Estomaterapia, o qual é realizado em nível de pós-graduação lato sensu e, desde
sua primeira edição, tem seu conteúdo programático e sua carga horária teóricoprática total baseados na normalização firmada pelo Education Committee do World
Council of Enterostomal Therapists-WCET (1994). Referida entidade é reconhecida
pelos órgãos competentes brasileiros como o Ministério da Educação e Cultura, o
Conselho Nacional de Educação e, mais recentemente, o Conselho Federal de
Enfermagem (SANTOS, 1998).
O órgão oficial da estomaterapia no Brasil é a Associação Brasileira de
Estomaterapia: estomias, feridas e incontinências (SOBEST). A SOBEST é uma
instituição multidisciplinar, de caráter científico e cultural. Está alicerçada nos
preceitos estabelecidos e aceitos mundialmente para a Enfermagem em
Estomaterapia e vinculada à Comissão de Educação da Associação Brasileira de
Enfermagem, Seção São Paulo (ABEn-SP) e, juntamente com outras Sociedades de
Especialistas em Enfermagem, a Academia Brasileira de Especialistas em
Enfermagem (ABESE). Registre-se que a ABESE foi a primeira associação científica
a vincular-se à Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn).
Já acerca do profissional estomaterapeuta, Paula e Santos (2003) assim o
descreveram: o estomaterapeuta, como profissional e como pessoa junto ao cliente,
revela importantes interfaces entre o ser profissional e o ser pessoal que refletem sua
relação e desempenho perante o paciente. Segundo as autoras, o saber e o cuidado
especializado/humanizado são elementos fundamentais em busca de novos espaços,
credibilidade e autonomia destes especialistas. Ainda como afirmam, a estomaterapia
encontra-se em processo de encontro de novas perspectivas para o cuidar, pautandose em saber e objetivos comuns da especialidade e dos especialistas.
28
Consoante as diretrizes da associação na área de feridas, no tocante à
úlcera por pressão, o estomaterapeuta exerce as seguintes atividades na área de
prevenção e tratamento de feridas:
a) Prevenção
 Realiza consulta de enfermagem, utilizando instrumento de avaliação
que possibilite a obtenção de subsídios para a implementação da
sistematização da assistência de enfermagem em estomaterapia;
 Prescreve cuidados com a pele em geral, superfície de suporte,
segundo grau de risco, e demais medidas de preservação da
integridade cutânea;
 Solicita exames bioquímicos e hematológicos quando necessário;
 Realiza reeducação vesical e intestinal, quando pertinente;
 Faz orientação alimentar e hídrica e, quando preciso, solicita avaliação
do nutricionista;
 Encaminha para outros profissionais da equipe de saúde;
 Orienta a equipe/cuidadores quanto aos cuidados propostos.
b) Tratamento
 Realiza a relação de atividades preventivos;
 Realiza debridamento instrumental conservador, prescrevendo terapia
tópica e terapias adjuntas;
 Implementa terapias tópicas.
Referidas recomendações são aceitas pelos mais diversos serviços de
estomaterapia brasileiros.
29
3 ABORDAGEM FILOSÓFICA, TEÓRICA E PROCEDIMENTAL
A seguir, descrevem-se os caminhos do estudo relativos ao encontro com
o referencial filosófico-teórico da fenomenologia heideggeriana e a trajetória para
desenvolvimento da investigação.
3.1 REFERENCIAL FILOSÓFICO-TEÓRICO
A fenomenologia surgiu na Alemanha, com Edmundo Husserl, que
recebera influência do pensamento de Platão, Descartes e Bretano. Husserl sugeria
a fenomenologia como estratégia de compreensão de fenômenos não apreensíveis
pelo método natural, devendo-se, para tanto, buscar-se a intencionalidade da
consciência na máxima de “ir às coisas mesmas” (MOREIRA, 2002).
Entre os fenomenólogos seguidores do pensamento husserlianos, destacase Martin Heidegger. Filósofo alemão, nascido em 1889 em Messkiirch, estudou
Matemática, Filosofia e Teologia e doutorou-se em Filosofia em 1913. Foi reitor da
Universidade de Friburgo e é um dos maiores pensadores do século XX. Considera-se
como sua principal obra o livro Ser e Tempo, reputada como uma das quatro maiores
obras filosóficas em toda história da humanidade (SILVA et al., 2001).
Neste sentido, Monteiro et al. (2006) enfatizam o pensamento arrojado de
Heidegger que analisou de forma crítica o mundo contemporâneo, o tecnicismo e,
principalmente, o sentido do Ser.
O fundamento do pensamento heideggeriano é a filosofia do Ser, por ele
denominada de ontologia existencial. Para o filósofo, existir é estar em relação
consigo, com os outros e com as coisas no mundo. Como Silva (2002) enfatiza no
movimento existencialista, existir é estar em relação com os outros no mundo, sendo
o homem responsável pelo que ele é, e por sua própria existência.
Para Heidegger (2008), a fenomenologia possibilita um caminhar para o
Ser, pois o Ser é aquilo que está oculto no que se manifesta, constituindo-se o
fundamento de tudo que nele se revela.
Segundo Silva et al. (2001), o esteio do pensamento heideggeriano é a
elaboração da filosofia do Ser, explicitada, como referido, na obra Ser e Tempo.
Esta filosofia é considerada por Heidegger como ontologia existencial, mediante a
qual ele buscou elucidar o sentido do Ser, com vistas à sua compreensão. Para
30
tanto, se fundamentou no pensamento aristotélico e no método fenomenológico
husserliano de voltar às próprias coisas no intuito de procurar compreendê-las.
Heidegger propõe-se analisar as diversas manifestações do sentido do Ser, em
todas suas dimensões. O filósofo desenvolve exame reflexivo para mostrar os
modos de ser do humano, que ele chama de Dasein.
Ao tentar analisar o Dasein, Heidegger ensina que o homem de-cai,
existencialmente como pre-sença no mundo circundante, vivendo a temporalidade
determinada entre seu nascimento e morte. No mundo, ele vive a contínua
antecipação de suas possibilidades de vir-a-ser, como um existente projetado para
fora de si. Assim, transcende continuamente de si, sendo capaz de ser livre e
superar os próprios limites.
Ao vivenciar suas possibilidades de existir, ele assume modos de ser que
caracterizam a autenticidade e a inautenticidade. A primeira é compreendida pela
posição de originalmente buscar viver suas possibilidades de ser lançado como Ser
que se angustia ontologicamente para compreender-se como ser de possibilidades.
Por sua vez, o modo de ser da inautenticidade caracteriza o viver cotidiano na
impessoalidade, onde todos são e ninguém essencialmente é.
É preciso lembrar que predomina, no cotidiano do Dasein, o modo de ser
inautêntico, porquanto ser como todos, e ao mesmo tempo como ninguém, torna sua
existência mais cômoda, na medida em que nada lhe pode ser cobrado. Contudo, o
viver autêntico não se apresenta como um modo melhor de existir; apenas a
inautenticidade é cômoda aos existentes no mundo. Assim, o comum é a oscilação
contínua entre os modos de ser da pre-sença.
Para Heidegger (2008), o tempo da existência do Dasein não corresponde
ao espaço cronológico da sua vida, pois sua existência se dá como projeção para
fora de si, mediante o que ele experiência a preocupação com o vigor de ter sido
(seu passado), o instante (momento presente) e o porvir (futuro). Tudo isto lhe
confere características de existência histórica e temporal.
Ao compreender o Ser como histórico e temporal no mundo cotidiano e
circundante, há de ser lembrada a possibilidade existencial do Dasein como o único
capaz de compreender e discursar. Isto porque somente a ele é dada a condição de
compreender a si, aos outros e às outras coisas, vivendo sempre na direção do
poder-ser.
31
Ao vivenciar sua existência, o Dasein se ocupa, cotidianamente, com
suas coisas no mundo existencial, demonstrando seu caráter mais próprio, que é o
cuidado. Assim, para Heidegger (2008), o cuidado se acha antes de toda atitude
e/ou situação vivida, significando que o Ser cuida em toda atitude e situação da sua
existência, de maneira tal que o cuidado não se objetiva fora do homem; ele é o
próprio viver experiencial do homem (SILVA, 2002).
Para Heidegger (2008), o cuidado é vivido como solicitude, que pode se
manifestar nos dois modos de ser: o inautêntico e o autêntico. O primeiro diz
respeito à mera ocupação do humano, ocasião em que ele simplesmente restringe
as possibilidades de ser de um outro, impedindo-lhe escolher a direção do seu viver.
Já no modo de ser da autenticidade, o cuidado é vivido como comportamento de
atenção e respeito ao outro, propiciando-lhe condições para buscar suas
potencialidades de existir.
O cuidar do outro revela facetas tão singulares, subjetivas e autênticas
que, de acordo com Monteiro et al. (2006), para a enfermagem a fenomenologia é
um caminho para revelar vivências tanto de profissionais quanto de pacientes. Tais
fenômenos, em regra, se apresentam como distrações do cotidiano que passam
despercebidas, fazendo com que não se possa interagir de forma autêntica na vida
em comunidade.
Como as autoras enfatizam, a enfermagem precisa compreender e dar
sentido às suas ações de forma mais autêntica, atenta e reflexiva, sobre a realidade
e o modo de ser dos outros. Contudo, sugerem que os estudos interessados em
conhecer como o homem se encontra vivendo alguma situação, atribuindo-lhe
significado, como se dá sua relação com o mundo, devem buscar apoio nos
conceitos heideggerianos.
Considerando se preconizar a enfermagem como uma prática de cuidado
em saúde e, conforme Moreira e Sales (2006), compete ao enfermeiro estar junto ao
ser que adoece, ajudando-o a atribuir um sentido autêntico a sua existência. Neste
estudo, a possibilidade de compreensão do fenômeno em epígrafe encontra-se para
além da dimensão do tecnicismo. Isto porque a fenomenologia heideggeriana
possibilita adentrar a subjetividade das mulheres com cardiopatia que desenvolvem
úlcera por pressão durante uma internação hospitalar, e que estejam sob cuidados
da equipe de enfermagem.
32
3.2 ABORDAGEM PROCEDIMENTAL
Apresentam-se, na sequência, as etapas metodológicas percorridas no
estudo para a apreensão do fenômeno a ser investigado.
3.2.1 Tipo de estudo
Trata-se de estudo descritivo, com abordagem qualitativa. Segundo Polit
e Beck (2011), os pesquisadores qualitativos lidam com o tema da complexidade
humana, explorando-o diretamente. Para as autoras, estes estudos enfatizam a
inerente profundidade dos seres humanos, suas habilidades de modelar e criar suas
próprias experiências e a ideia de que a verdade é um conjunto de realidades. Ainda
como afirmam, neste tipo de pesquisa a experiência humana como é vivida e seus
dados são narrativos e subjetivos.
Assim, em virtude de esta modalidade de investigação se aproximar do
objeto deste estudo, decidi-me pelo método fenomenológico que, segundo Gray
(2012), facilita ao pesquisador captar as experiências subjetivas, tornando-se uma
busca pelo encontro com a intencionalidade consciente do sujeito. O autor faz
alusões acerca dos paradigmas fenomenológicos, entre as quais ressalta: o
pesquisador deve concentrar-se no sentido e tentar compreender o que está
acontecendo; a pesquisa fenomenológica é o estudo da experiência humana no
mundo da vida; ela explora a construção pessoal do mundo do indivíduo.
Entre as possibilidades de estudar por meio da fenomenologia, optei pelo
referencial filosófico existencial e metodológico de Martin Heidegger (2008),
acreditando atender ao objetivo de compreender os significados e sentidos, atribuídos
por mulheres com cardiopatia, à ocorrência da úlcera por pressão adquirida na
internação hospitalar, levando em conta sua existencialidade como ser-no-mundo.
3.2.2 Cenário do estudo
A investigação foi desenvolvida em um hospital público, pertencente à
rede de atenção à saúde do Sistema Único de Saúde (SUS), da Secretaria Estadual
de Saúde do Ceará (SESA). Trata-se de uma unidade de saúde especializada no
atendimento
clínico-cirúrgico
e
ambulatorial
de
pessoas
com
patologias
33
cardiovasculares e pulmonares. Neste cenário tem se dado minha prática como
enfermeira assistencial e nele se me revelou a inquietação foco da pesquisa.
Na referida instituição existem quatro unidades de internação tipo enfermaria
destinadas a atender pessoas com cardopatia. Recebem denominação por letras (B, C,
G e I). Destas, três (B, C e I) possuem, cada uma, 28, e uma (G), 35 leitos de
internação. Optei por investigar nestes setores porque neles há maior probabilidade de
pacientes permanecerem por mais tempo internados, seja à espera de exames
diagnósticos ou procedimentos terapêuticos, seja sob tratamento conservador ou
interventivo. Além disso, eles se encontram com quadro clínico, em regra, estabilizado,
reunindo condições de manter diálogo e, assim, participar do estudo.
Nestas unidades trabalham um enfermeiro gerente de segundas a sextasfeiras, com carga horária de oito horas diárias, e um enfermeiro assistencial por
plantão de doze horas, durante as vinte e quatro horas do dia. Já os profissionais de
nível técnico cumprem escalas de plantão de doze horas, durante as vinte e quatro
horas do dia nas unidades B, C e I. Na Unidade G, que possui mais leitos de
internação, a cobertura é de quatro profissionais de nível técnico durante os horários
diurnos e noturnos.
Na instituição hospitalar, o Serviço de Estomaterapia realiza visitas
semanais a todas as unidades de internação, terapias intensivas e emergência, a fim
de identificar os pacientes de risco para o desenvolvimento de úlceras por pressão,
mediante aplicação da Escala de Braden, implantada na Sistematização da
Assistência de Enfermagem. Nos pacientes já lesionados, a ferida é avaliada para
identificação do estágio, de acordo com as estruturas acometidas, os tipos de
tecidos presentes na lesão, as dimensões, características do exsudato, possíveis
sinais de infecção e condições da pele adjacente à ferida.
Com base na avaliação inicial, o profissional seleciona a terapêutica
mais indicada, conforme o estágio/etapa do processo cicatricial, e programa
reavaliações regulares para acompanhar a evolução da ferida. Quando necessário,
promove debridamento instrumental conservador ou requisita avaliação do
cirurgião geral. Em conjunto com equipe interdisciplinar, discute a necessidade de
exames diagnósticos para avaliação de estruturas mais profundas e seu
acometimento por processos infecciosos.
Além da visita semanal, as estomaterapeutas respondem a solicitações
de parecer feitas pelos demais profissionais de saúde, executam os curativos que
34
requerem sua intervenção e orientam os enfermeiros quanto às novas tecnologias
de coberturas existentes no mercado e disponíveis na referida instituição.
As altas hospitalares dos pacientes com úlceras por pressão são
discutidas em conjunto pela equipe médica e o Serviço de Estomaterapia. Aqueles
pacientes em condições clínicas de receber alta hospitalar são reavaliados pela
equipe, mediante requisição médica ou da equipe de enfermagem, para
programação da sua desospitalização. De acordo com o estado da lesão, o
estomaterapeuta determina a cobertura a ser utilizada em domicílio e frequência de
troca, orientando o cuidador e o próprio paciente, quando possível, quanto aos
cuidados diários com a lesão.
Conforme as condições de mobilização do paciente, agendam-se retornos
regulares ao hospital para acompanhamento em nível ambulatorial ou recomenda-se
a inclusão do paciente no Serviço de Atendimento Domiciliar (SAD) no caso dos
mais debilitados, com restrição de mobilidade ou dependentes de oxigenoterapia.
Ademais, a equipe ainda elabora protocolos operacionais padrões (POPs)
inerentes à especialidade, no intuito de padronizar determinados procedimentos e,
assim, assegurar sua realização com qualidade.
O serviço também é responsável pela avaliação e parecer técnico de
curativos/coberturas biológicas, antes da sua aquisição pela instituição, primando
pela qualidade desses produtos, assim como pelo bem-estar dos seus pacientes e
desenvolvimento do Serviço de Enfermagem.
3.2.3 Participantes do estudo
Participaram do estudo oito mulheres, com idade compreendida entre 46
e 91 anos, hospitalizadas em decorrência de diagnóstico de cardiopatia,
acomodadas nas unidades de internação tipo enfermaria, que desenvolveram úlcera
por pressão no período de internação, e estavam em condições físicas e emocionais
de conversar com a entrevistadora.
Tratando-se de quantitativo de participantes de estudos qualitativos, Beck,
Gonzáles e Leopardi (2001, p. 190) afirmam que em pesquisas qualitativas “sendo a
realidade complexa e ampla, nenhum pesquisador dará conta, com qualquer
método, de captá-la na sua totalidade”. Deste modo, entre as possibilidades do rigor
qualitativo, pode-se, sem prévia determinação numérica, coletar-se os dados até
sentir segurança na apreensão do fenômeno.
35
Mais recentemente, Fontanella, Ricas e Turato (2008) tratam da
amostragem em pesquisa qualitativa, referindo a saturação teórica como a inclusão
de novos participantes em um estudo, quando as informações obtidas apresentam
certa redundância ou repetição. Deste modo, não há mais necessidade de persistir
na coleta de dados. No entanto, os autores chamam a atenção para se mencionar o
rigor científico utilizado para a decisão do ponto de saturação amostral.
Portanto, cabe ao pesquisador fenomenológico a responsabilidade pelo
rigor da formação do corpus da compreensão e ele cessa, intencionalmente, a busca
de fatos novos quando se sente satisfeito com a revelação do fenômeno, como
ocorreu na presente investigação. Creio ter sido um instante indescritível de pura
subjetividade. Mas, como não existem modelos acabados, até porque, segundo
enfatiza Heidegger (2009), a compreensão é sempre apreensível e jamais
apreendida, usou-se, como relatado, do rigor prescrito pelo método.
3.2.4 Etapa de campo
Com vistas ao recolhimento das informações, para desvelar o fenômeno
pesquisado, utilizou-se a entrevista fenomenológica no período entre maio e setembro
de 2012, tomando por base a questão norteadora: Como tem sido para a senhora
vivenciar a ocorrência de uma ferida (úlcera por pressão) durante sua hospitalização?
Polit e Beck (2011) mencionam como coleta de dados de pesquisa
qualitativa os autorrelatos como a técnica de entrevista, na qual os pesquisadores
reúnem dados obtidos da narrativa dos entrevistados para desenvolver uma construção
do
fenômeno
estudado.
Segundo
afirmam,
os
pesquisadores
encontram-se
pessoalmente com os respondentes para fazer as perguntas, e isto envolve tempo.
Contudo, é um bom método de pesquisa, pois a qualidade das informações é relevante.
Com esta finalidade, o pesquisador deve formular a pergunta de modo
que faça sentido para os entrevistados, devendo refletir a visão que eles têm do
mundo. Consoante ressaltam, os pesquisadores além de bons inquiridores devem
ser bons ouvintes; devem prestar bastante atenção aos depoimentos, porquanto,
geralmente, as entrevistas são longas e podem durar horas.
As metodólogas referem ser difícil registrar um conteúdo abundante de
informações, mas a maioria dos pesquisadores prefere gravar as entrevistas e,
depois, transcrevê-las. Mesmo cientes de que sua conversa está sendo gravada,
36
os respondentes costumam esquecer a presença do equipamento de gravação,
após poucos minutos do início da entrevista. Tal fato foi constatado durante a
busca pelas informações.
Assim, a opção pela entrevista fenomenológica se deu mediante a
possibilidade de apreender os significados e sentidos atribuídos pela mulher com
cardiopatia ao vivenciar a úlcera por pressão, já que foram recolhidas informações
das próprias mulheres, com sua linguagem, expondo seu modo de ver e sentir, por
meio da sua subjetividade. Deste modo, favoreceu desenvolver uma ideia acerca de
como elas interpretam o fenômeno.
Diante destes ensinamentos e em virtude de, próximo às Unidades de
Internação referidas existirem jardins, sempre à disposição dos pacientes, deixou-se
as depoentes à vontade para a escolha do local da realização das entrevistas. Logo,
poderiam optar ou não por estes espaços acolhedores que, por certo, permitiriam
ambiente de privacidade e conforto. Entretanto, elas preferiram permanecer no
entorno dos seus leitos. Em cada entrevista, consideraram-se as possibilidades
clínicas e o desejo de cada paciente em ser entrevistada.
Após cada entrevista procedeu-se à transcrição na íntegra, no menor
espaço de tempo possível, a fim de manter registros não só das palavras, mas de
outras formas de comunicação e linguagem maadifestadas, tais como gestos,
silêncios, expressões faciais, sorrisos e outros passíveis de propiciar significados a
serem levados em conta.
Foram recolhidos também, no momento da entrevista, dados pessoais,
sociodemográficos e de diagnóstico clínico das participantes do estudo, como meio
de obter informações sobre as pessoas pesquisadas (APÊNDICE A).
3.2.5 Movimento analítico
A análise qualitativa é uma atividade que exige, do investigador,
criatividade, sensibilidade conceitual e trabalho árduo. Neste momento do estudo, a
intenção foi organizar os discursos das participantes, de modo a viabilizar a
emergência dos significados que as mulheres com cardiopatia atribuem ao seu
vivido com a úlcera por pressão adquirida na internação hospitalar.
Assim, a análise de informações qualitativas é um empreendimento
desafiador, pois não há regras universais de análise desse tipo de material; não
37
existem procedimentos analíticos padronizados, muito embora sua análise requeira
rigor e empreendimento do investigador. Os analistas qualitativos têm de organizar e
dar sentido a muito material narrativo, levando a habilidades indutivas potentes
(POLIT; BECK, 2011).
No
relacionado
à
interpretação
de
informações
qualitativas
fenomenológicas, Moreira (2002, p. 101) faz uma intrigante indagação: “Até onde se
espera que vá tal interpretação fenomenológica?” e declara que se deve ir apenas
tão longe quanto existam sentidos e, com certeza, sentidos que possam e
necessitem ser compreendidos. Como o autor enfatiza, especialmente em
fenomenologia, interpretar o sentido dos fenômenos significa descobrir significados
que não são imediatamente manifestos ao nosso intuir, analisar e descrever,
devendo-se ir além do que é simples e diretamente dado. Ainda conforme destaca, o
que é dado é apenas uma pista para o que não é dado, assim como que por meio da
hermenêutica se deve desvelar os sentidos ocultos.
Na
elucidação
de
Monteiro
et
al.
(2006),
para
o
pesquisador
fenomenológico heideggeriano, em particular, compreender o significado ou desvelar
o sentido contido no discurso, há de ter um grande envolvimento da subjetividade, o
que vai garantir a objetividade. Para tanto, o primeiro passo é a captação do discurso
de quem vivencia uma situação; e o segundo é a dedicação do investigador ao
discurso agora descrito, com vistas a buscar o significado das vivências que emergem
do real vivido. Ao significado Heidegger denominou compreensão vaga e mediana.
Com base neste saber, na presente investigação, utilizou-se, para a
organização das informações, a hermenêutica fundamentada na fenomenologia
heideggeriana. Deste modo, após transcrição das falas das depoentes procedeu-se às
leituras dos discursos para a familiarização com o texto da experiência vivida das
mulheres, buscando a emergência, mediante interpretação hermenêutica, dos
significados e sentidos atribuídos por elas acerca do vivido com a úlcera por pressão.
Nesta ótica, expõe-se primeiramente o que foi apreendido, ou seja, o que
se mostrou diretamente (significâncias ônticas) para depois descrever o que se
desvelou, o que se apresentava encoberto por trás das aparências (revelações
ontológicas ou sentido). Para tal, usaram-se os momentos interpretativos
hermenêuticos sugeridos por Martin Heidegger para a realização dos estudos
fenomenológicos, quais sejam: primeiro momento metódico (apreensão de
significados) e segundo momento metódico (desvelamento do sentido).
38
3.2.6 Aspectos éticos
Observaram-se as determinações da Resolução 196/96 do Conselho
Nacional de Saúde (BRASIL, 1996), referente aos preceitos da ética na pesquisa
envolvendo seres humanos.
A documentação legal necessária para a aprovação deste projeto, como
parte de um Projeto guarda-chuva da linha de pesquisa, foi encaminhada para
apreciação ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do hospital onde se desenvolveu
a investigação. O projeto foi aprovado por meio do Protocolo n o 858/11 (ANEXO A).
Obtida a devida autorização, deu-se início às entrevistas. A cada mulher
depoente esclareceram-se o objetivo e a estratégia metodológica do estudo, bem
como solicitou-se sua colaboração na realização deste. O aceite para participar foi
firmado mediante assinatura de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
(TCLE), em acordo com os preceitos éticos inerentes a pesquisas envolvendo seres
humanos (APÊNDICE B). A entrevista foi gravada em voz e, ciente do
constrangimento que, em geral, causa a presença de um equipamento eletrônico
durante a entrevista fenomenológica, explicou-se a importância do procedimento
para garantia da fidedignidade na apreensão dos seus relatos.
Como determinado, assegurou-se o sigilo da identidade das participantes
na apresentação das informações colhidas. As depoentes concordaram em ser-lhes
atribuídos nomes de flores, considerando a subjetividade que, em geral,
representam para mulheres. Informou-se também que a pesquisa não lhes geraria
despesas ou danos e elas teriam direito de recusar seu consentimento, ou mesmo
retirá-lo em qualquer fase da pesquisa, sem prejuízo legal ou moral.
Também foram esclarecidos os benefícios da investigação para o cuidado
clínico de enfermagem a ser dispensado a elas e a outras mulheres em condições
similares. Foi-lhes explicado que o estudo não detém possibilidade de maleficência e
que a pesquisadora estaria a postos para contornar qualquer mal-estar.
Por fim, foi informado que os resultados deverão ser divulgados tanto no
hospital quanto no meio acadêmico de enfermagem mediante encaminhamento para
sua publicação em periódico científico da área da enfermagem.
39
4 REVELAÇÃO DA INVESTIGAÇÃO
Expõem-se, na sequência, os achados da investigação. Inicia-se com a
descrição da historiografia das mulheres participantes, seguida da compreensão
vaga e mediana acerca do seu vivido com a úlcera por pressão e, por fim, da
compreensão do Ser destas mulheres, por meio do pensamento hermenêutico
filosófico heideggeriano.
Para descrever a historiografia foi preciso, como referido, proceder-se à
leitura dos formulários que registraram informações relativas aos seus contextos
pessoais e de saúde, bem como das entrevistas. O olhar atento sobre os discursos
revelou convergências naturais, sem nenhuma pretensão de estabelecimento de
roteiro com intento para tal.
A compreensão vaga e mediana foi possibilitada pela apresentação de
unidades de significação relacionadas à dimensão ôntica, na qual se mostram os
significados apreendidos imediatamente à consciência. Desta compreensão,
emergiu o sentido, ou a revelação ontológica, velada nos significados, do sermulher-cardiopata-que-adquiriu-úlcera-por-pressão durante a internação hospitalar
por cardiopatia.
4.1 HISTORIOGRAFIA DAS MULHERES PARTICIPANTES DA INVESTIGAÇÃO
A historiografia, segundo Heidegger (2008, p. 485) depende da
“concepção de mundo dominante”. Ela pressupõe a historiografia da presença de
maneira própria e privilegiada. Neste contexto, buscaram-se informações ao falar da
origem existencial do Ser-mulher com cardiopatia, que adquiriu úlcera por pressão
em internação hospitalar, por meio de entrevistas fenomenológicas, com vistas à
busca da historicidade da presença para projetar, ontologicamente, sua historicidade
como seres-no-mundo.
4.1.1 O encontro com as depoentes
As depoentes tiveram oportunidade de escolher o horário da entrevista e
optaram pelo período diurno. Como mencionado, o local escolhido situava-se nas
proximidades do leito hospitalar. Elas, em suas possibilidades de ser, se
40
manifestaram depondo, por vezes, falante, extrovertida e, em outras, retraída e de
pouca fala para expressar suas vivências.
A entrevista fenomenológica, em algumas situações, se revelou difícil
para a relação entrevistador e entrevistada. Tal dificuldade motivou preocupação e
ansiedade na busca e desenvolvimento das primeiras entrevistas. Entretanto, em um
comportamento fenomenológico, aos poucos, emergiu disposição para desenvoltura
no método e, ao decorrer do tempo, o processo de ser-com as mulheres na sua luta
diante da hospitalização e da cardiopatia, no enfrentamento de questões próprias, e
pelas transformações existenciais.
4.1.2 As depoentes
a) Rosa
Procedente de Madalena, cidade do interior do Estado do Ceará, tem 53
anos, é analfabeta, doméstica, católica, viúva, mora maritalmente há dezenove
anos; possui dois filhos. Apresenta diagnóstico de insuficiência cardíaca congestiva
descompensada. É extrovertida, sua entrevista foi longa, e se pronunciava de forma
fluente acerca da sua existência no mundo. Em seu relato verbalizava sua condição
de mulher trabalhadora da agricultura, forte fisicamente. Elevava a personalidade
forte do pai e se qualificava como ele, decidida e que não volta sua palavra atrás.
Isto é reforçado pela sua tomada de decisão quanto a se submeter à cirurgia
cardíaca sugerida pelo médico. Acha-se nova e forte para a sua idade. Dizia-se
preocupada com os filhos, com saudade do companheiro e com vontade de retornar
ao lar. Expressa preocupação e tristeza por achar que, ao chegar em casa, não
poderia desempenhar seus afazeres habituais.
b) Margarida
Do Maranhão, tem 66 anos, alfabetizada, aposentada, evangélica,
casada, seis filhos. O diagnóstico médico é insuficiência ventricular esquerda. Ao ser
entrevistada, encontrava-se em sua segunda internação. Na primeira ocasião,
tentou-se convidá-la para participar do estudo, entretanto, sua condição de clínica e
depressiva não possibilitou o aceite. A paciente achava-se em estado letárgico ou
sonolento, portanto, sem condições de diálogo. Quadro bem diferenciado quando da
sua segunda internação, ocorrida após dois meses da primeira alta. Desta feita,
41
estava ativa, deambulando, e escolheu fazer a entrevista sentada em cadeira,
próximo ao leito. Interagiu de forma calma, falando pouco, elogiando o atendimento.
Classificou o hospital como excelente, relatou está sendo bem tratada, e que todos
eram gentis e delicados.
c) Angélica
De Tabuleiro do Norte, interior do Ceará, 46 anos, primeiro grau completo,
funcionária pública, católica, mora com companheiro e uma filha. O diagnóstico
clínico é hipertensão arterial pulmonar e miocardiopatia dilatada. Fez um relato
carregado de medo e ansiedade. Falava com desenvoltura e desembaraço.
Mostrou-se satisfeita com o atendimento na enfermaria, mas disse não conseguir
compreender determinadas atitudes da equipe de saúde, como, por exemplo, a
exposição do seu corpo durante a realização de procedimentos na enfermaria.
Manifestou sentimento de pavor de voltar a sentir dor ou de receber notícia ruim.
Revelou-se mulher forte, trabalhadora e que, “em nome de Jesus”, se considerava
curada do coração após a cirurgia. Atribuía trauma a um debridamento da úlcera
sacral, além de mencionar a ferida como o impedimento da sua alta.
d) Acácia
De Quixeramobim, na região central do Ceará. Aos 77 anos, sabe assinar
o nome, trabalha na agricultura, é evangélica, viúva e possui dois filhos. Os
diagnósticos clínicos são hipertensão arterial sistêmica, insuficiência cardíaca
congestiva e, ainda, diabetes mellitus. Mostrava-se tímida, de poucas palavras e
manifestava sentimento de desalento. Referia ser sofrida pelo trabalho duro no
roçado. Dizia-se conformada com a ocorrência da ferida; segundo relatava,
qualquer pessoa fica exposta e pode ser acometida por esta ocorrência.
Demonstrava fé em Deus e afirmava que ele tem o poder de curá-la.
e) Açucena
De Fortaleza, a capital do Estado do Ceará. Tem 56 anos, alfabetizada e
desempenha atividades do lar. É solteira, sem filhos e de religião católica. O diagnóstico
médico era infarto agudo do miocárdio e dissecção de artéria aorta. Manifestava
sentimento negativo de impaciência, revolta, angústia e inconformismo. Consoante
referiu, se não fosse a ferida já teria saído de alta. Mostrava-se descrente do tratamento
42
dispensado à ferida. Sente-se inconformada pela imobilidade no leito e com as dores.
Verbalizava preocupação com a alta hospitalar e demonstrava insegurança em relação
a como e quem iria fazer seu curativo em casa.
f) Gardênia
De Aquiraz, cidade pertencente à região metropolitana de FortalezaCeará. Aos 91 anos, possuía pouca instrução formal, de religião católica, viúva e
com dois filhos. Seu diagnóstico era de bloqueio átrio-ventricular. Foi entrevistada
em posição deitada no leito em virtude de prejuízo em sua mobilidade. Apesar de
déficit auditivo, respondia bem às indagações, mostrando lucidez e coerência na
resposta. Apresentava, além da úlcera por pressão na região sacra, outra lesão na
perna esquerda que a incomodava. Enfatizou descontentamento por ter sido
desconsiderado pela equipe o fato de ela ter declarado ser alérgica a fraldas
descartáveis e, mesmo assim, continuou usando, o que lhe causou intenso prurido.
Conforme referiu, o colchão é quente e afirmou desconhecer o que está sendo
utilizado como terapia para realização dos seus curativos.
g) Amarilis
De Sobral, cidade da região norte do Ceará, tem 76 anos, sem instrução,
é dona de casa, de religião católica, que vive com companheiro e um filho. Internada
por diagnóstico de bloqueio intraventricular. Foi visitada por quatro vezes até
conseguir-se contato, pois sempre estava dormindo. Fazia-se acompanhar por um
único filho portador de síndrome de Down, bastante cuidadoso com a mãe. Ela se
apresentava sonolenta, falando pouco. Acerca da sua condição, queixava-se muito
de dor no local da úlcera. Após a entrevista fenomenológica para a investigação,
foram feitas visitas à paciente. Nas últimas, ela verbalizou menos queixa de dor,
evoluindo para uma condição mais alerta.
h) Jasmim
De Itapajé, cidade também da região norte do Ceará, tem 77 anos,
alfabetizada, foi agricultora, de religião católica, casada e mãe de quinze filhos.
Internada por diagnóstico de insuficiência cardíaca congestiva. Conversava pouco,
revelando em breves palavras sua situação. Suas queixas se voltavam para a
43
presença da dor, bem como para o desconhecimento acerca da causa da ocorrência
da úlcera por pressão.
4.2 COMPREENSÃO VAGA E MEDIANA DAS MULHERES ESTUDADAS –
PRIMEIRO MOMENTO METÓDICO
Este primeiro momento metódico é o da apreensão de significados
atribuídos pela mulher com cardiopatia ao fenômeno investigado.
Segundo Poupart et al. (2008), o objetivo de uma pesquisa qualitativa
pode ser o de dar conta das preocupações dos atores sociais, tais quais elas são
vividas no cotidiano.
De acordo com Gomes et al. (2008), as pesquisas de enfermagem que
utilizam a fenomenologia buscam compreender o ser humano e sua interação com o
mundo e, para isto, lançam mão das descrições do fenômeno estudado no discurso
do sujeito para que, desvelando, se chegue à sua essência.
Segundo Almeida et al. (2009) relatam, a enfermagem, ao eleger a
fenomenologia para suas pesquisas compreendendo que ela estuda a descrição dos
fenômenos humanos e seus significados, mostra-se no caminho da crítica, da
reflexão e da busca de significados essenciais para a compreensão do seu fazer
fundamentado em uma teoria. Ainda como afirmam, em sua pesquisa sobre o uso
da fenomenologia como método de investigação pela enfermagem, o referencial de
Martin Heidegger foi o mais evidenciado.
No método fenomenológico, com base no pensamento de Heidegger,
constroem-se unidades de significação que denotam significados atribuídos pelas
pessoas participantes que vivenciam a situação estudada. Neste caso particular, de
mulheres que, em seu movimento existencial, enfrentam internamento para
tratamento da doença cardíaca e, em decorrência da qual adquirem uma ferida.
Com vistas, então, a apreender os significados do expressado pelas
mulheres nos depoimentos, transcreveu-se cada entrevista e, depois, procedeu-se a
leituras individuais. Durante a apreciação dos discursos, procurou-se recordar de
cada mulher, relembrando sua fisionomia, sua emoção, sua percepção do momento
vivido, tendo em vista as questões norteadoras do estudo, que revelam as
inquietações emergentes da Dissertação de Mestrado e da prática assistencial.
44
Em Heidegger, a etapa da análise inicia-se com a compreensão vaga e
mediana, por meio da identificação dos significados compreendidos pelo
pesquisador, por distinção entre o que é ocasional e o que é essencial, com base no
relato de cada depoente. As unidades de significação viabilizam a interpretação
compreensiva que vem a seguir e que desvelam o sentido velado nos significados.
Logo, por meio de leitura atentiva e releitura das transcrições das
entrevistas, foram construídas as unidades de significação. Assim, consoante se
apreendeu, as depoentes demonstraram que estar vivenciando a ocorrência de uma
úlcera por pressão durante a hospitalização para tratamento de uma cardiopatia
significou:
 Desconforto, seja pela dor, pela presença, realização e/ou manutenção
do curativo, seja pela imobilidade parcial no leito;
 Medo de complicação na ferida;
 Desamparo diante da permanência no hospital e desejosa de retornar
ao lar;
 (Des)conhecimento sobre a situação vivenciada;
 Agradecimento pelo cuidado recebido, manifestando conformação, fé e
esperança.
Nas significações reveladas quanto ao desconforto, seja pela dor, pela
realização e/ou manutenção do curativo, seja pela imobilidade parcial no leito,
as depoentes mostraram-se incomodadas com a sensação física de dor decorrente
da úlcera por pressão, pelo próprio curativo e pela impossibilidade de se moverem
ativamente. Submeter-se à realização do curativo, assim como permanecer com a
cobertura, são situações igualmente relatadas como desagradáveis. Acerca das
significações deste desconforto, assim significou:
[...] essa ferida minha dói muito de noite, ainda esta noite eu me acordei e pedi pra
menina [componente da equipe de enfermagem] me dar um comprimido [...] ela me
deu dipirona com água, amargava que nem fel, mas eu tava sentindo dor e tinha que
tomar. Aí foi como eu fui dormir um cochilo; mas eu quase não dormi, tanto doía como
pinicava [...] A ferida tá grande e funda pra dentro do meu bumbum. Aí eu fico muito
desanimada com um negócio deste [...] a ferida dói e dá umas pinicadas, porque dói
muito, tem hora que dói muito [...] começa a doer de noite, mas durante o dia passa
bem. Durante o dia, eu não sinto quase nada [...]. (Rosa)
[...] a doutora [médica] disse que quando for pra mexer ela vai fazer aquela injeção
pra dor [...] porque eu sinto dor, né? Eu tava sentindo muita dor, mas dói! Mas dói!
Aí a doutora disse: Mas ela é tão rasinha! Aí mandaram chamar vocês
45
[estomaterapeutas] que são especialistas nisso aqui [ferida] [...] Dói viu doutora!
Dói demais. Se eu tiver cem anos eu não vou esquecer [referindo-se ao
debridamento da ferida] [...] hoje só mexe aqui se trouxer o choque [polícia]. Eu
senti muita dor, fiquei com trauma. Quando falo dá vontade de chorar [interrompeu
o discurso e os olhos se encheram de lágrimas] [...] foi feito aquele trabalho que
fizeram ontem [o debridamento]. Eu só achei errado uma coisa. Posso falar, né?
Eu acho que um procedimento daquele porte não era pra ser feito a sangue frio,
porque se trata de seres humanos e dói demais [...] dói, mas dói tanto que é
incrível [..] não tem comparação a dor. Olhe, eu sou uma mulher de fibra, não sou
muito mole [...] eu fiz a cirurgia, eu senti dores, mas não senti a dor que eu senti
quando foram mexer ontem, dói demais. Eu fiquei assim traumatizada [...] quando
eu vi você já fiquei toda apavorada [...] fiquei apavorada com essa dor de mexer
nessa ferida [...] Eu que não resisto, eu que não aguento [...] eu sei que é tudo pro
bem da gente. O ser humano é que não resiste. Eu mesmo não aguento [...]
incomoda pra deitar, pra levantar, pra sentar. Tudo ela incomoda, é desagradável
[...]. (Angélica)
[...] eu senti muita dor, muita dor mesmo. Mas aí eles me dão comprimido, aí vai e
passa a dor [...]. (Acácia)
[...] dói, arde como fogo [gemidos de dor]. É ardendo como queimadura de fogo
[...]. (Amarilis)
[...] me sinto assim, tão assim [...] não pode se sentar direito [...] é fundo, cheio de
curativo aqui em baixo [...] as enfermeiras trataram, faziam os curativos todo dia,
todo dia, todo dia [demonstrando irritação, balançando a cabeça negativamente].
(Margarida)
[...] eu me sinto é muito impaciente. A ferida fica doendo. Dói e tem até uma mais
profunda [...] cobrindo é pior [...] porque bota a gaze, onde eu me deito desliza e
tira tudo. AÍ pronto, e aquilo ali dói muito, incomoda. Não posso me deitar assim
[demonstrou a posição de decúbito dorsal]. Só posso me deitar mais é de banda.
Tem hora que o pescoço fica doendo; é a posição, né! Porque não tem só nas
costas, tem no bumbum também. Ai, isso incomoda muito [...]. Essas feridas no
meu corpo [...] tem hora que você pensa assim: quero me sentar [...]. (Açucena)
[...] A dor é ardendo, minha filha; suo todinha [...] Eu não posso andar, nem
trabalhar. Incomoda deitar pra trás; me deito e incomoda [...]. (Jasmim)
Já a respeito das significações reveladas quanto ao medo de
complicações na ferida, as depoentes expressam certa inconformação de ter
ultrapassado situações clínicas como o coma, ou mesmo uma cirurgia cardíaca, de
estarem se sentindo bem e, no entanto, permanecerem internadas devido à
ocorrência de uma ferida que perdura. Assim, expressam medo que se manifesta
em seu vivido na hospitalização como revelam os relatos seguintes:
[...] A doutora [médica] falou que quando eu chegar em casa, se arrebentar [a
ferida] cada vez mais? Porque é profunda, né? E eu tenho medo por isso [...] pode
eu chegar em casa e a ferida virar outra coisa pior [...]. (Rosa)
[...] eu tenho medo de virar outra coisa, é isso que eu tenho medo. Do câncer, né?
É isso que eu penso [...]. (Acácia)
[...] um problema desse [a ferida] o que eu posso fazer? Vai que piora a situação
[...]. (Angélica)
[...] Porque tá só o ferimento, mas ela pensa [a filha] que pode virar outra doença
[...]. (Margarida)
46
As mulheres demonstram desamparo diante da permanência no
hospital e desejo de retornar ao lar, considerando sua condição existencial, a
cotidianidade hospitalar e a distância dos seus familiares. Relataram insegurança
de, retornando para casa, não poderem assumir as atividades do lar, diante da falta
percebida de vigor físico. Elas se sentiam até inconformadas pela não previsão,
sequer, do tempo necessário para o processo de cicatrização. Tudo isso parecia
lhes causar apreensão, e até mesmo revolta, pela demora do retorno ao lar, em face
da não cicatrização da ferida. Também revelaram momentos de fragilidade
emocional como se mostra nos seus discursos:
[...] eu tô aqui sozinha sem companheiro sem nada, tenho saudade do meu
marido, do sexo. [...] tenho medo dele arranjar outra pessoa [...] Tô sem
companhia nenhuma. Tô com companhia porque tem muita gente [profissionais,
outros pacientes e acompanhantes] aqui, né? Mas da minha família não tem
nenhuma. E não adianta eu me operar pra não ter quem olhe pra mim [...] Eu fui
uma mulher muito trabalhadeira, já trabalhei muito em roçado. Eu sou uma mulher
da agricultura, trabalhadeira que só. Tenho pena que agora quando eu sair daqui
não posso fazer nada o que eu fazia; não posso mais fazer [choro] [...] nem uma
roupa minha eu posso lavar [...] eu tenho vontade de voltar para casa, ficar boa
pra ir pra casa. Todo mundo que tá aqui dentro tão com vontade de ficar boa pra ir
pra casa. Os dias que eu tô aqui eu não deixei de pensar em casa de jeito
nenhum. Família é família, né? E mãe não tem dinheiro que pague [...] eu queria ir
embora pra casa e a minha filha não levou logo eu pra casa porque disse que aqui
eu tô tomando todo o medicamento [...] pelo meu gosto, mesmo com esse negócio
[a ferida] eu tinha ido embora pra casa, mas ela [filha] não quer. Eu ia pedir alta
pra doutora [...] se não fosse isso [a ferida] eu podia ficar boa mais rápido, ficar
boa mais ligeiro [...]. (Rosa)
[...] eu fazia tudo no roçado, plantava, colhia, cavava, fazia cerca de ramo, cerca
de faxina, cerca de trança, tudo isso eu fazia [...]. (Acácia)
[...] se não fosse isso aqui [a ferida] eu já tava me arrumando pra praticamente pra
ir embora [...] eu não posso ir embora pro interior, principalmente que eu moro a
220 km daqui, é muito longe [...]. (Angélica)
[...] me revolto. Se não fosse essas feridas eu já tinha recebido alta. Tem que
primeiro tratar delas, que infeccionou. Aí pronto, tem que esperar ficar boa.
(Açucena)
[...] Agora, eu só posso ir para casa quando a ferida tiver sarada [...]. (Jasmim)
Por
vezes,
as
depoentes
se
apresentaram
demonstrando
(des)conhecimento acerca da situação vivenciada, ora conhecendo a causa da
formação da própria ferida ora não, questionando a causa do surgimento e
tratamento, a revelar ambiguidade em seus sentimentos, como segue:
[...] mas isso aqui começou da cama [...] os dias que fiquei lá na cama. [...] pode
ser dos dias que eu passei. Eu passei muitos dias deitada sem ter que mexer nem
pro lado, nem pro outro, né? [...] passei muitos dias em coma sem poder me virar
nem pro lado nem pro outro, a noite todinha[...] Aí vira uma coisa dessa [ferida]. A
47
senhora me vê conversando assim, tudo bem, tudo legal, mas eu tô sentada na
cadeira, mas nem era pra mim tá aqui assim. Era pra eu tá com uma toalha pra eu
sentar em cima [...] ai meu marido comprou uma pomada desse tamanho que
custou mais de quarenta reais pra mim passar aqui [na ferida] mas elas [equipe
de enfermagem] não aceitam [...] eu tô achando que esse remédio delas
[enfermeiras] não vai me... [acenando negativamente com a cabeça] [...] esse
negócio de lavar e passar pomada eu acho que não vai me curar não! (Rosa)
[...] Eu cheguei aqui quase morta, foi quando eu peguei a ferida, mas eu não sabia
[...] só quando eu melhorei foi que percebi [...]. (Jasmim)
[...] peguei na UTI [a ferida]. Aí ficou muito grande, passei muitos dias [...] sei lá
por que, ficou grande mesmo sabe! [...] lavava com aroeira. Compraram girassol.
Eu é que cozinhava, mandava comprar a caixa de aroeira, lavava e botava pra
cozinhar e lavava com água de aroeira [...]. (Margarida)
[...] depois que me operei foi que surgiu isso aqui [a ferida]. Eu não me lembro de
ter tido ferida nem pequena, quanto mais depois de velha [...]. (Angélica)
[...] não sei como tem acontecido [...] mas isso é sujeito, qualquer pessoa ter isso
[a ferida]. Mas, é muito ruim minha filha. Achei ruim porque eu nunca feri meu
corpo. É a primeira vez. Eu já tive internada aqui dezoito dias e eu nunca fiz ferida
nos quartos. E agora eu peguei essa ferida [...] eu não sei [...] eu ficando boa tá
tudo bem [....] está custando a sarar [...]. (Acácia)
[...] mas pra mim se botasse assim uma rifocina, sarava mais rápido [...]
antigamente, eu tacava pomada ou a rifocina aerossol e tirava as bactérias. Muito
melhor [...] e outra coisa, eu acho que cobrindo é pior [...]. (Açucena)
[...] a do bumbum foi da fralda. Eu não posso usar fralda que tenho alergia. Bateu
aquela coceira medonha, ficando vermelho e eu sempre usando a fralda [...] sei
que tá fazendo curativo. Não sei o que tão botando [...]. (Gardênia)
As mulheres revelaram agradecimento pelo cuidado recebido,
manifestando conformação, fé e esperança. Em suas falas, a fé em Deus é
exaltada. A força da fé faz elevar a credibilidade na cura para as depoentes, como
exposto na sequência:
[...] a enfermaria é minha casa, nós somos todos amigos, pacientes e doutores,
enfermeiros [...] aqui eu gosto, demais, de cada pessoa [...] a menina da UTI
trouxe um paninho, dobrou e colocou nos meus quartos. Aquilo me chamou muito
a atenção [...] eu acho muito importante a pessoa se sensibilizar com uma pessoa
que não é nada seu, nem conhece [...] ter a atenção de trazer aquele paninho
dobradinho, mandar levantar, colocar pra não ficar doendo [...] é um gesto de
cuidado que marca. São pequenas coisas que ficam pra sempre na mente da
pessoa [...]. (Angélica)
[...] Quem vai me curar mais fácil sabe quem é? É Deus [...] Deus e Nossa
Senhora primeiramente, é sim [...] E São Francisco de Canindé, que eu peço
muito a ele, todo dia e toda hora, pra ele curar eu e todos que têm aqui [...] ficar
bom e cada qual ir viver nas suas casas. Eu peço as coisas não é só pra mim não.
Eu peço pra mim e pras pessoas todas [...]. (Rosa)
[...] Mas Deus é grande, tem todo o poder e eu creio nele, eu creio que Ele vai me
fazer ficar boa [...]. (Acácia)
[...] as feridas eu quero que Deus me cure bem rápido pra eu ir embora [...].
(Açucena)
[...] Se Deus quiser. Eu espero que Deus venha me fazer essa graça, porque eu
estou precisando muito [...]. (Jasmim)
48
4.3 O FIO QUE CONDUZIU A BUSCA PELO SENTIDO
Como observado, a apreensão do que era essencial (dimensão ôntica)
nos discursos das mulheres velava sua existência, ou seja, seu caráter fenomênico
(dimensão ontológica). Deste modo, seria o esteio para a compreensão fenomenal
do seu fundante.
Para as mulheres estudadas, os significados de ser-mulher-que-vivenciaa-ocorrência-de-úlcera-por-pressão-durante-a-internação-hospitalar-para-tratamentode-uma-cardiopatia transitaram por um fio condutor como se mostra:
 O desconforto pela dor; pela aposição e manutenção do curativo; e
devido à imobilidade parcial no leito estão presentes;
 O medo de a ferida complicar permeia o cotidiano;
 A sensação de desamparo e o desejo de retorno ao lar rodeiam seu
pensamento;
 O (des)conhecimento sobre a situação vivenciada mantém-se no dia a
dia; e
 O cuidado recebido; a conformação; a fé e a esperança em ficar boa
auxiliam na vivência da situação.
4.4 O SENTIDO DO SER-MULHER- CARDIOPATA- QUE- VIVENCIA-A-ÚLCERAPOR-PRESSÃO – SEGUNDO MOMENTO METÓDICO
O pensamento de Heidegger (2008) é amplo, complexo e possibilita
desafios a quem assume se lançar em investigações sob seu legado teórico.
Heidegger emite estímulo para o pesquisador se empenhar em interpretar e desvelar
o que permanece obscuro e velado na linguagem do ser que vivencia uma condição
de existir. Para o filósofo, o esteio para a revelação do sentido, ou primado
ontológico, é o que ele denomina primado ôntico.
Assim, desvelar o sentido se caracteriza pelo apreender a dimensão
ontológico-existencial, qual seja, o sentido ou fundamento que o ser da pre-sença
imprime aos seus modos de ser e de existir. No interesse pela hermenêutica
heidegeriana, ousar pensar requer investir e imergir no pensamento filosófico, no
49
intuito de revelar a existencialidade humana, na direção da compreensão como
modo de ser-aí dos existentes no mundo.
Para Heidegger (2008), na questão sobre o sentido do ser, o ente somos
nós mesmos; o ente tem o caráter da pre-sença, ou seja, ser-no-mundo, que se
determina a partir da possibilidade de poder ser e, de algum modo, isso significa que
ele se compreende em seu ser. A pre-sença se constitui pelo caráter de ser minha,
segundo este ou aquele modo de ser. Santo Agostinho dizia: “Todavia que há mais
perto de mim do que eu mesmo?” Logo, se entende que a pre-sença sou eu-nomundo da minha existência.
Na obra Ser e tempo, Heidegger (2008, p. 209-215) ensina que
“interpretar não é tomar conhecimento do que se compreendeu [...] mas elaborar as
possibilidades projetadas de compreensão”. Ao ser lançada no mundo, vivenciando
um adoecimento no coração e, na facticidade deste existir, experienciar a ocorrência
de uma ferida, caracterizada como uma úlcera por pressão, que sequer pode ter
previsão de tempo cronológico para sua cicatrização e cura, evidentemente
protelando a alta hospitalar, por certo lhe provoca ansiedade capaz de interferir no
seu modo de existir e de interpretar suas possibilidades de ser no mundo,
favorecendo sua decadência na impessoalidade cotidiana.
A partir desta reflexão, emergem do fenômeno investigado as facticidades
existenciais das mulheres com cardiopatias ao atribuírem sentido ao seu vivido
diante da ocorrência de uma úlcera por pressão durante a hospitalização para o
tratamento de adoecimento cardiovascular. Nestas ocasiões, elas se mostraram, na
mundaneidade do cotidiano hospitalar, temerosas diante das manifestações clínicas
às quais estão submetidas, bem como se sentiram ansiosas com o que possa vir a
lhes acontecer.
Desta
maneira,
ao
estar-no-mundo,
as
mulheres
se
revelam
desconfortáveis no cotidiano hospitalar, em especial, em face da percepção de dor,
e mesmo do medo da sua ocorrência. Circunstâncias que, em princípio, poderiam
parecer coloquiais, como submeter-se à realização do curativo da ferida, passam a
ser amedrontadoras.
Assim, a dor torna-se incapacitante no enfrentamento do cotidiano. Ao
fazer parte da sua existência, a manifestação de dor chega a lhes proporcionar
desconforto que interfere no seu sono e repouso, lhes incomodando inclusive pela
restrição parcial de mobilidade. A dor é desagradável, apavorante, ruim.
50
Experienciar a situação as torna temerosas, pois, ao ter vivenciado a situação, a
mulher teme a possibilidade de retorno da sintomatologia.
Para Heidegeer (2008), o temor varia em momentos constitutivos entre
pavor, caracterizado por uma ameaça que lhe é conhecida e, que a qualquer
momento pode ressurgir; horror, algo que ainda não é conhecido; e terror, como algo
conhecido, muito embora possa se apresentar em aspecto novo. Logo, estas
mulheres cardiopatas, por conhecerem a sensação de dor, em particular decorrente
da realização de curativo, ou mesmo da necessidade de execução de debridamento
cirúrgico, demonstram pavor de novas ameaças e terror de sentirem dores ainda
mais intensas, ao serem submetidas a novos procedimentos.
Elas trazem em si, portanto, o medo de sentir dor, mas também da
possibilidade de advirem complicações na ferida, em um movimento de horror da
possibilidade de a ferida “ser transformada” em um câncer. Elas temem ainda o
deterioramento físico e a perda da capacidade de executar seus afazeres rotineiros,
semelhantemente a uma manifestação de um temor que, para Heidegger (2008), se
caracteriza pela decadência do ser em momento constitutivo de horror.
As mulheres cardiopatas hospitalizadas que adquirem uma ferida
demonstraram ressentimento diante da imobilidade física, embora a refiram como
parcial, que ferida e curativo lhes impõem. Assim, se revelam em solicitude
inautêntica, mantendo-se presas à ocupação cotidiana da ocorrência, tagarelando
acerca do desconhecimento, medo de sentir dor e do seu retorno ao lar, a despeito
do desejo de fazê-lo. Prendem-se ao vivido antes da hospitalização, considerando
seus fazeres especificos, em regra, de mulheres do lar e/ou da agricultura,
afastando-se da angústia própria por buscar novos modos de existir.
A tagarelice ou falatório é um constitutivo existencial que, para Heidegger
(2008), é um modo de ser cotidiano e impessoal de falar e repetir sem fundamento,
que descansa na perda da relação autêntica como que se fala. O filósofo também
ensina sobre o modo de ser da curiosidade, mediante o qual a pre-sença, arrastada
pelo falatório, busca novas informações, passando-as adiante.
Nesta investigação, as mulheres repetem, quase automaticamente, riscos
de complicações impróprios para a situação como, por exemplo, transformação da
ferida em neoplasia. Igualmente, tagarelam ao repetir que, apesar de desejarem a
alta hospitalar, temem não ter mais capacidade de assumirem sua vida cotidiana nos
seus lares.
51
Em seu (des)conhecimento, discursam demonstrando por vezes,
conseguindo ou não conseguindo,compreender a situação vivenciada. Curiosidade e
falatório caracterizam seu discurso quando compreendem, tentam compreender, ou
mesmo não compreendem a gênese da ocorrência da ferida, seu tratamento e
possibilidade de cicatrização.
Neste prisma, ambiguamente, elas de-caem de si, escolhem o modo de
ser inautêntico, que se caracteriza pelo modo de ser impessoal, qual seja, um modo
de viver no qual a pre-sença sendo pode escolher-se, ganhar-se ou perder-se, ou
ainda ganhar-se meramente na aparência da ocupação mundana. Desta maneira,
como Ser de ocupação, as mulheres demonstraram o modo de ser da ocupação, no
qual nada é determinado. Elas se mantinham como existentes na publicidade do
mundo de todos; na impessoalidade, tomadas pelo mundo de que se ocupam.
Merece considerar que, segundo Heidegger (1981), a pre-sença tende,
por natureza, a ser inautêntica e impessoal na sua cotidianidade. Isto porque a
impessoalidade é cômoda e lhe confere conforto de se sentirem como todos e ao
mesmo tempo como ninguém. Ao assumir este modo de ser, nada lhes é cobrado
com escolha própria de modos de existir.
Diferentemente do viver inautêntico, a pre-sença autêntica não apenas se
ocupa, mas, por outra via, se preocupa, comportando-se como ser-com,
considerando a originalidade do que toma como próprio para si. Cabe lembrar: na
cotidianidade mediana, a pre-sença de-cai, na maioria das vezes, no modo de ser da
ocupação impessoal, pois se encontra arraigada aos modos dos costumes comuns e
públicos (HEIDEGGER, 2008).
Assim também se apresentam as mulheres investigadas, porquanto suas
vidas foram tomadas por um novo modo de ser, no qual elas passaram a conviver
com o inesperado, a ocorrência de uma ferida, vivendo agora diante de alterações
físicas e emocionais permeadoras do seu existir, ou seja, modos de ser codeterminados na sua vida.
No estudo, as depoentes, como ser-aí-com-no-mundo, se colocam
sendo-com-suas-famílias, demonstrando-se ansiosas para voltar ao lar e ao
convívio dos entes queridos. Estar-com-a-família, no seio das suas relações
afetivas, se revela como essencial para o relacionamento humano, parecendo
fundamental à sua recuperação.
52
Existindo-no-mundo como família, as mulheres manifestam seu desejo de
retornar ao lar, embora sempre receosas de não serem capazes de assumir suas
responsabilidades rotineiras. Elas discursaram acerca da provável incapacidade de
reassumirem sua vida cotidiana, afirmando temer não conseguirem, sequer,
cuidarem dos seus lares.
Segundo Heidegger (2008), a existência liga-se à temporalidade, como
fundamento ontológico, da própria origem existencial da presença. Para o filósofo, a
temporalidade é constituída por ‘ekstases’ no vigor de ter sido, na atualidade ou no
porvir, que têm relação com passado, presente e futuro. Deste modo, a
temporalidade é o fenômeno unificador do porvir, ou possibilidades de existir, que
atualiza no presente o vigor de ter sido. O passado corresponde ao retorno do
vivido, o presente, à ocupação com as coisas do mundo e o futuro, às possibilidades
de vir-a-ser.
A pre-sença das mulheres acometidas por cardiopatia que vivenciam uma
ferida na hospitalização demonstrou-as presas ao passado, a vigor de ter sido,
quando desprezam a atualidade, não aventando a possibilidade de cicatrização da
ferida, a alta hospitalar e a probabilidade de retorno à “normalidade” da vida, por meio,
principalmente, de busca por possibilidades de existir. Desta maneira, deixam de se
projetarem para o futuro, vivendo agora só a idéia de não mais vir a ser, afastando-se
da angústia existencial autêntica de buscar nossas possibilidades de existir.
Para Heidegger (2008), a pre-sença é livre para escolhas de possibilidades
de existir. Entretanto, isto implica suportar a escolha advinda da angústia como modo
de ser-no-mundo lançado à sua existência originariamente consciente.
A compreensão da existência destas mulheres permitiu considerar que
elas se percebem agradecidas pelo cuidado de enfermagem recebido, bem como
demonstram conformação com a situação, fortalecida pela manifestação de fé e
esperança.
Embora significado apenas por Angélica, é importante considerar a
solicitude autêntica percebida no seu fazer, favorecendo seu cotidiano existencial
que, internada para tratar o coração, adquire uma ferida. Heidegger (2008) descreve
solicitude autêntica como o relacionar-se entre pre-senças de maneira envolvente e
significante, implicando características de consideração e pre-ocupação. Assim, as
mulheres descrevem as manifestações de solicitude autêntica dos profissionais
como momentos inesquecíveis e expressivos para o enfrentamento da situação.
53
Ao
demonstrar
conformação
com
a
situação,
fortalecida
pela
manifestação de fé e esperança, apreende-se, de certo modo, um movimento
consciente, embora subsidiado por crenças e valores religiosos, para transcender a
condição e procurar nossas possibilidades de existir. Considerando a consciência
como constitutivo próprio da pre-sença, por meio do seu clamor, há de se alcançar
transcendência do viver ôntico na direção da aceitação ontológica e autêntica que
favoreça escolhas de novos modos de ser e viver.
Apesar de compreender a dimensão religiosa como de-caimento cotidiano
da pre-sença, em última instância, poder-se-ia tê-la como ontológica para o ser-nomundo. Ao projetar-se na fé em Deus, a pre-sença cardiopata que, na internação
hospitalar, adquire uma ferida, segue em direção ao seu poder-ser, ao porvir que se
funda no vigor de ter sido. Angustiando-se, opõe-se ao temor de um “malum
futurum”, esperançando por um “bonum futurum” (HEIDEGGER, 2008), mesmo
levando em conta que este movimento decorre da dimensão ôntica que caracteriza a
fé divina cotidiana.
Cabe ressaltar: o caminho trilhado nesta investigação representou uma
tentativa de desvelar os modos de ser de mulheres com cardiopatia acometidas por
úlcera por pressão durante internação hospitalar e, assim, procurar compreender
seu existir. No entanto, há de se convir que a compreensão última e finita destas
pre-senças, a despeito de qualquer esforço, jamais será abarcada. Como ensina o
próprio Heidegger, a análise da pre-sença será sempre incompleta e provisória,
porquanto ela é ser de possibilidades.
54
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta investigação se desenvolveu influenciada por inquietações acerca do
desejo de compreensão do vivido de mulheres cardiopatas que, quando internadas,
vivenciam a ocorrência de uma úlcera por pressão. Tais inquietações nasceram no
cotidiano da enfermagem como ser-com pessoas nestas condições de saúde.
Neste contexto, a fenomenologia, baseada no pensamento de Martin
Heidegger, propiciou a procura pelo desvelamento deste fenômeno, mediante a
apreensão do seu sentido, por meio do discurso das próprias mulheres em face
desta situação.
Segundo o estudo revelou, as mulheres significam sua vivência como
uma condição desconfortável, seja pela dor, pela presença, execução e/ou
manutenção do curativo, seja pela imobilidade parcial no leito; uma situação de
medo de complicação na ferida; de desamparo diante da permanência no hospital e
desejo de retornar ao lar; de (des)conhecimento sobre a situação vivenciada; de
percepção de agradecimento pelo cuidado recebido; e de manifestação de
conformação, fé e esperança.
A compreensão, favorecida pela emergência de um fio condutor e
fundamentada no pensamento filosófico de Martin Heidegger na obra Ser e tempo,
revelou a existência das mulheres, veladas nas suas significações.
Na investigação, a pre-sença das mulheres se desvelou como existente
inautêntica, ao se demonstrarem aprisionadas ao temor e ao horror de sentir dor, de
advirem complicações na ferida, bem como de não voltarem às suas atividades
cotidianas, assumindo a inautenticidade do modo de ser do falatório. Presas à
dimensão ôntica, ancoram sua vida ao vigor de ter sido antes do acontecido,
desvencilhando-se de buscar novas possibilidades de existir. A despeito disto,
reconhecem solicitude autêntica de profissionais de enfermagem, mostrando
conformação e esperança, numa direção ao poder-vir, ou seja, de uma busca por
novas possibilidades de existir, embora, para tanto, se amparem na de-cadência da
fé em Deus.
A realização do estudo e o desvelamento do fenômeno investigado
ensejaram a emergência de reflexão acerca da necessidade de os profissionais de
saúde, e enfermeiros de maneira especial, imprimirem importância à dimensão
existencial de quem eles cuidam, neste caso, as mulheres com cardiopatia.
55
É
necessário
registrar
dificuldades
enfrentadas
e
inerentes
ao
desenvolvimento de uma investigação qualitativo-fenomenológica. Pode-se destacar
a fase das entrevistas qualitativas. Aqueles momentos foram permeados de
insegurança e dúvidas na condução das conversas no intuito de pesquisar. Pouco a
pouco, no entanto, a continuidade dos encontros foi tornando a situação mais
familiar, o que, por fim, colaborou para o avanço das entrevistas.
Cabe também registrar serem de grande relevância as revelações
proporcionadas pelo estudo de modo a contribuir para o ser-com de enfermeiros
com mulheres que vivenciam esta condição de saúde.
A despeito da impossibilidade de universalização dos resultados de um
trabalho
qualitativo-fenomenológico,
pode-se
considerar
a
possibilidade
de
generalização do saber apreendido mediante a utilização desta compreensão para
direcionar o ser-com profissional da equipe de enfermagem no cuidado a mulheres
em condições de saúde similares às ora estudadas.
Na
certeza
de
que
a
investigação
fenomenológica
possibilita
compreensão de fenômenos sem jamais conseguir abarcá-los na sua inteireza,
recomenda-se a produção de outros estudos que viabilizem novas facetas de Sermulher com cardiopatia com risco de desenvolver uma úlcera por pressão em uma
internação hospitalar, sobretudo com vistas a preveni-la.
Por fim, apresentam-se, como se segue, recomendações de devolutivas
da investigação ao ambiente terapêutico e acadêmico lócus da pesquisa.
a) À enfermagem para o cuidado à mulher com úlcera por pressão
A pesquisa levou a refletir o modo como o Ser-mulher vivencia a
ocorrência de úlcera por pressão, permitindo desvelar esse sentido, com a finalidade
de subsidiar o cuidado clínico de enfermagem. Os depoimentos das mulheres
levaram a apreender os significados atribuídos por elas acerca da ocorrência da
úlcera por pressão, em uma abordagem de cuidado que valorize o humano, seus
sentimentos e a própria mulher.
Assim, a busca da aplicação da intersubjetividade e da humanização nas
ações de enfermagem leva a refletir a possibilidade de olhar para essas mulheres de
outro modo. Desvelar o significado e a manifestação do fenômeno (úlcera por
56
pressão), na visão da mulher que a vivencia, favorece o cuidado prestado em
consonância com quem o recebe.
b) À instituição lócus da pesquisa
Ao refletir acerca das contribuições à instituição onde se desenvolveu a
pesquisa, vislumbra-se sua divulgação, por meio de parceria com o setor de
educação
permanente,
aproximando
os
enfermeiros
ao
pensamento
fenomenológico. Desse modo, poderão implementar a prática de cuidados de
enfermagem fundamentados na existência do ser, e estimulando o despertar para
outras dimensões do cuidado para além do modelo biomédico. Sugere-se ainda que
o Serviço de Estomaterapia adote em sua prática de cuidar alguns princípios da
fenomenologia. Para tal, urge modificar seu modo de perceber os pacientes
cuidados, a fim de repensar sua importância para o cuidado clínico de enfermagem
e como aderir a um modo de cuidar fundamentado em uma relação com o outro que
valorize a existência do Ser.
c) À instituição de ensino
Espera-se que esta pesquisa sirva como estímulo para alunos da
Universidade Estadual do Ceará utilizarem a abordagem fenomenológica, divulgar
cientificamente o método, incrementando a produção científica a fim de gerar novos
conhecimentos.
Compreende-se ser fundamental facilitar o incremento de
pesquisas fenomenológicas na enfermagem, na perspectiva de favorecer seu
desenvolvimento na profissão e aplicabilidade na prática de um cuidado
consciencioso e humano.
Ouso pensar na formação de grupo de estudos específico do referencial
fenomenológico, em especial o pensamento de Heidegger para incentivar as
publicações nesta área do conhecimento pela enfermagem, em seus diversos
campos de saberes.
Espero, portanto, contribuir com esta dissertação para o cuidado clínico e
compreensivo de enfermagem prestado a mulheres com cardiopatia não apenas durante
sua hospitalização, mas também em outros momentos decisivos das suas vidas.
57
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61
APÊNDICES
62
APÊNDICE A – FORMULÁRIO DE CARACTERIZAÇÃO DAS DEPOENTES
01. Data da entrevista:
Prontuário:
02. Dados de identificação das depoentes:
a. Iniciais:
b. Codinome:
c. Procedência:
d. Idade:
e. Escolaridade:
f. Ocupação:
g. Religião:
h. Estado civil:
i.
Número de filhos:
j.
Diagnóstico clínico:
63
APÊNDICE B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Estamos desenvolvendo uma pesquisa cientifica intitulada: Vivenciar uma
Úlcera por Pressão: estudo fenomenológico com mulheres cardiopatas
fundamentado no pensamento de Heidegger sob orientação da Profa Dra. Lúcia de
Fátima da Silva. Assim, queremos convidá-la a participar da mesma. O estudo tem
como objetivo compreender o sentido de vivenciar a ocorrência de uma úlcera por
pressão, durante uma hospitalização, para mulher cardiopata. Sua participação darse-á por meio de uma entrevista gravada e permitindo que o pesquisador obtenha
informações sobre sua saúde no seu prontuário. A senhora terá plena liberdade para
aceitar ou não o convite, assim como de permanecer ou não no estudo sem nenhum
prejuízo ao atendimento neste serviço. Informo que os riscos da atividade são
mínimos e o pesquisador estará atento para resolvê-los ou minimizá-los.
Acreditamos que a atividade contribuirá para uma melhor qualidade do cuidado de
enfermagem prestado às pessoas com problemas semelhantes ao seu. Garantimos
sigilo sobre sua identidade e as informações prestadas serão utilizadas
exclusivamente para os fins deste estudo, ou seja, preparação de trabalhos para
apresentação na disciplina do Mestrado Acadêmico Cuidados Clínicos em Saúde e
Enfermagem, assim como apresentá-lo em eventos científicos e elaborar artigos
para publicar. Posteriormente os resultados das mesmas serão enviados à sua
unidade de saúde para melhoria da prestação de serviço. Este termo será
preenchido em duas vias, uma para o pesquisado e a outra para a pesquisadora.
Para esclarecer quaisquer dúvidas ou questionamentos sobre esta pesquisa, favor
comunicar-se com a mestranda Aurilene Lima da Silva pelo telefone: (85) 8804-4002
ou com a professora responsável pelo telefone: 3101-9798 ou comunicar-se com o
Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Ceará pelo telefone
3101-9890.
Atenciosamente
Lucia de Fátima da Silva
Professora
TERMO DE CONSENTIMENTO PÓS-ESCLARECIDO
Eu, ____________________________________________________, declaro que
depois de ser esclarecido pela pesquisadora e ter entendido o que me foi explicado,
concordo em participar da pesquisa.
Fortaleza, _____ de ____________ de _______
___________________________
__________________________
Assinatura do Pesquisador Responsável Assinatura ou Digital do Pesquisado
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ANEXO – PARECER DO COMITÊ DE ÉTICA
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Significados e Sentidos da úlcera por pressão adquirida na