Discurso de abertura - UISG Assembléia Plenária
Sr Maureen Cusick, NDS
Presidente UISG
Boas-vindas a cada uma de vocês, todas vocês, a quem já esteve aqui antes e especialmente àquelas que
vieram pela primeira vez e que se sentem um pouco desconsoladas. Você estará em uma mesa com
outras nove pessoas e assim você não se sentirá tão desconsolada. Durante os quatro próximos dias você
pode experienciar essas nove Irmãs como sua comunidade de fé.
Como vocês sabem o nosso tema será desenvolvido em torno ao aspecto místico-profético de nossas
vidas. Este é um tema que não caiu das nuvens, mas veio de vocês mesmas e daquelas que entraram num
processo de reflexão juntamente conosco para esta sessão plenária. Com relação a esse tema ficamos
espantadas com a unanimidade e, claro, o movimento do Espírito, que continua a nos surpreender.
Então aqui estamos para explorar esse tema juntas, e com certeza chamadas pelo Espírito. Temos
preparado para vocês cinco conferencistas vindos de diferentes culturas e contextos, incluindo um rabino
para falar-nos e ajudar-nos em nossas reflexões sobre esse tema. O que eles nos apresentam será
interessante, porém a parte mais interessante será aquilo que vocês mesmas fazem com esse tema e
como vocês são inspiradas pela Palavra de Deus através de tudo o que está sendo dito e discutido nessa
grande assembléia.
Neste breve discurso de abertura eu gostaria de explorar com vocês meu entendimento do tema que o
Espírito nos tem ajudado a escolher. Isso não significa falar de novo sobre o tema, mas abri-lo e olhar,
ver a importância da sua participação nele.
Em primeiro lugar desejo considerar com você o fato da sua presença nesta grande assembléia. Você é a
líder geral da sua Congregação, ou tem sido delegada pela sua líder para estar aqui esses dias – você
pode estar aqui também como convidada – você estará servindo de várias maneiras: jornalistas,
tradutoras, secretarias da UISG mesmo ou uma das muitas voluntárias aqui para ajudar que tudo seja
conduzido de forma suave e serena. Vocês são todas bem-vindas, todos bem-vindos. Como vocês estão
aqui nesta grande sala de conferencias, nós esperamos que vocês entrem conosco, nesses quatro dias,
nesse modo de obediência e de discernimento que supõe a escuta para que possamos falar a Palavra para
nossas Congregações e à Igreja. Não estamos aqui para escrever uma declaração, mas se realmente
escutamos, em um modo místico e contemplativo, então devemos falar claramente como profetas à
Igreja e ao mundo... Isto tomará a forma de uma declaração final.
Vejo este encontro como uma aventura na obediência. O que quero dizer com isso? O que temos em
comum? Independentemente se somos mulheres / homens na Igreja, casados consagrados ou leigas /
leigos solteiras/os – somos chamados a “escutar” a Palavra de Deus e a agir neste mundo. Como vamos
fazer isso durante esse tempo aqui juntos?
A Palavra de Deus, como sabemos, chega a nós de diferentes maneiras, não somente através dos textos
Bíblicos, embora para nós o texto Bíblico é sumamente significativo. Nós escutamos a Palavra de Deus
através de acontecimentos do nosso dia e através muitas situações, leituras, etc... vocês sabem isso.
Nossa obediência consagrada nos chama a sermos abertas a esta palavra, seja de onde quer que ela
venha, interpretar e proclamar essa palavra aos outros. Estamos aqui nesse grande evento para escutar
juntas a Palavra de Deus. 800 pares de ouvidos e corações!
A força de suas vozes, referente a este tema, nos leva a crer que estamos sendo convocadas novamente a
renovar nosso chamado ao aspecto místico de nossas vidas para renovar também a dimensão profética
de nossas vidas. Não podemos falar uma palavra profética se não somos místicas em nosso
relacionamento com Deus!
Escolhi um texto bíblico que espero, ajudará a sustentar e consolidar esta reflexão introdutória sobre a
obediência do místico e do profeta.
O texto que escolhi é do livro do Êxodo capítulo 24 versículo 7. Esse texto nos conta a estória do retorno
de Moisés do Monte Sinai. Vocês se lembrarão da estória. Depois da entrega da lei e as discussões que
aconteceram depois - os altos e baixos – eles demonstraram que não gostaram da comida, a água não
era boa, havia serpentes e escorpiões etc. Finalmente Moises tem outra discussão com Deus e nos
versículos antes do nosso texto no começo do Capítulo 24 – seja qual for a discussão que Moises teve
com Deus – não lemos o que aconteceu – mas Moises desce do monte e decreta o ritual para fazer a
aliança. E agora vamos ao nosso texto no versículo 7: ‘ Tomou então o Livro da Aliança, lendo-o aos
ouvidos do povo. Eles disseram: “Faremos e ouviremos”. Vocês ouvir o que diz o texto, a ordem em que
vem – nós faremos primeiro e depois ouviremos? Parece um pouco estranho. Sua tradução
provavelmente diz: nós obedeceremos e faremos o que o Senhor nos diz. Mas a tradução literal do texto
Hebreu é: Nós faremos e nós ouviremos (obedecer). Comentários judaicos nos dizem que isso expressa
a relação entre fazer e ouvir. Na importância do fazer – Judaísmo foi, antes de tudo, uma religião ética –
fazer – o mitzvot – boas ações – é uma maneira de expressar o amor a Deus. Então, quando lemos, “nós
faremos e nós ouviremos”, depois de haver recebido a Torah, mas não explorado seu conteúdo,
significou que eles fizeram um ato de fé, um compromisso com o Senhor, sabendo que no fazer, eles
serão capazes de escutar melhor e em profundidade a Palavra de Deus e farão a vontade de Deus mais
conscientemente.
Ouvir – obediência significa escutar não somente com o ouvido mas com o coração. Na antropologia
bíblica a vontade tem sua sede no coração.
(Comentário judaico)
“Aquele (a) que escuta a Palavra e não a põe em prática seria melhor para ele (ela) que não tivesse
nascido”.
Um comentário bonito sobre o Salmo 40,7:
“Não quiseste oblação nem sacrifício, mas abriste, Senhor, os meus ouvidos. Não aceitaste vítima e
holocausto, e por isso é que eu disse: Eis-me aqui! No livro está escrito a meu respeito que é preciso
cumprir tua vontade. Trago no coração a tua lei”.
Isto significa que o Senhor tem aberto meus ouvidos. Eu farei a tua vontade. E então perceberei quão
profunda e a tua Torah em meu ser. Hoje diríamos que ela está em nosso DNA.
No Novo Testamento temos o maravilhoso exemplo de Maria:
“Seja-me feito segundo tua Palavra”.
Ela “faz” antes de entender completamente o significado das palavras do anjo. Ela guarda essa
experiência em seu coração. E ela sabe que pouco a pouco aquelas palavras de Deus ouvidas através do
anjo revelará seu significado e permitirá a ela entrar mais e mais profundamente na amorosa vontade do
Senhor.
Também em Cana: Ela diz “Fazei tudo o que Ele vos mandar”.
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A relação entre ouvir e fazer é expressa em muitas passagens do Evangelho: Por exemplo MT 7, 24-27:
O que acontece com a pessoa que ouve as minhas palavras e as põe em prática? Ele / ela será semelhante
a quem constrói sua casa sobre a rocha. Cai a chuva, correm as enxurradas, sopram os ventos que se
lançam sobre essa casa. Mas ela não desaba, porque está construída sobre a rocha... significando a
palavra de Deus.
Há muitos mais exemplos nos Evangelhos / - Jesus diz ‘Aquele que faz a vontade do meu Pai… ela / ele
é minha irmã e meu irmão.
Nossa reflexão sobre o aspecto místico das nossas vidas deve levar-nos a agir e falar corajosamente. Nós
não podemos nunca dizer sobre nós mesmas que somos profetas. Pode ser que outros falem sobre
alguém que é profeta. No entanto cada uma de nós é chamada a dizer uma palavra profética.
Quero dizer algo sobre uma pessoa que escreveu muito sobre os Profetas Hebreus e sobre a profecia
hoje. É o Rabino Abraham Heschel – ele é um estudioso, erudito, um filósofo, um professor, um
maravilhoso rabino que vem da tradição mística do judaísmo. Ele disse que não pode rezar, se não fala e
não atua contra as injustiças no mundo, sobre as quais rezaria. Ele se juntou a Martin Luther King nas
marchas sobre os direitos civis no Alabama, Estados Unidos e também tomou parte nas marchas de
protesto contra a guerra do Vietnam. Esteve em Roma durante o Concilio Vaticano ao lado do Cardeal
Bea que estava trabalhando sobre o documento Nostra Aetate e sobre a relação das Igrejas com o
Judaísmo.
Nós todas temos muitos exemplos que podemos citar, entre nossas próprias Irmãs e Irmãos – mulheres e
homens que têm realmente ouvido a Palavra de Deus e atuado corajosamente, com justiça e que têm
caminhado humildemente com seu Deus.
Temos também muitos exemplos das nossas próprias vidas, quando instintivamente nos levantamos para
defender a alguém ou alguma situação sem realmente saber todos os detalhes...somente mais tarde,
refletindo chegamos a entender o completo significado das nossas ações. Às vezes entramos
verdadeiramente em discernimento e agimos com clareza sobre a Palavra que temos escutado em nosso
ouvido e em nosso coração. A obediência tolera uma variedade de expressões!
Durante estes dias vamos aproveitar para renovar nosso profundo compromisso com o chamado místico
dentro de nós que nos capacita a continuar a falar a verdade, agir com justiça porque temos caminhado
ternamente com nosso Deus.
Agora gostaria de desejar a cada uma de vocês que possam usufruir desta aventura com nosso Deus e
entre nós durante esses dias nessa encantadora e eterna cidade de Roma.
Muito obrigada. E obrigada aos tradutores.
Roma, Março de 2010.
Maureen Cusik NDS
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