0 UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ ARMANDO ALVES JÚNIOR FUTEBOL DE CAMPO, EDUCAÇÃO E CIDADANIA: o Projeto “Campeões do Amanhã” FORTALEZA – CEARÁ 2010 1 ARMANDO ALVES JÚNIOR FUTEBOL DE CAMPO, EDUCAÇÃO E CIDADANIA: O Projeto "Campeões do Amanhã" Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Profissional em Planejamento e Políticas Públicas do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Estadual do Ceará, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Planejamento e Políticas Públicas. Área de Concentração: Planejamento e Políticas Públicas. Orientadora: Profª. Drª. Maria Celeste Magalhães Cordeiro. FORTALEZA – CEARÁ 2010 2 A474f Alves Junior, Armando Futebol de campo, educação e cidadania: o projeto "Campeões do Amanhã" / Armando Alves Junior . ― Fortaleza, 2010. 128 p. ; il. Orientadora: Profª. Drª. Maria Celeste Magalhães Cordeiro. Dissertação (Mestrado Profissional em Planejamento e Políticas Públicas) – Universidade Estadual do Ceará, Centro de Estudos Sociais Aplicados. 1. Cidadania. 2. Inclusão Social. 3. Futebol. 4. Projeto Campeões do Amanhã – Amapá. I. Universidade Estadual do Ceará, Centro de Estudos Sociais Aplicados. CDD: 361.610 3 4 Ao grande arquiteto do universo – Deus. 5 AGRADECIMENTOS Meus sinceros agradecimentos a todos aqueles que me ajudaram a crescer como pessoa e como profissional, e direta, ou indiretamente contribuíram neste trabalho: Aos meus pais Armando e Anna, pilares da minha vida, por tudo. À Orientadora, Professora Drª. Maria Celeste Magalhães Cordeiro, pela sua competente e paciente contribuição na elaboração desta dissertação. 6 A educação deve ser um resumo da vida e a escola uma miniatura da sociedade. E os meios naturais para a realização desses objetivos são: a) o jogo que é a atividade espontânea mais características dos primeiros anos; b) o trabalho manual que é a atividade construtiva, através do qual a criança desenvolve o poder de exprimir, exteriormente, o próprio eu; c) o estudo da natureza, que deve visar, não o simples conhecimento dos fenômenos naturais, mas o espiritual, o aperfeiçoamento moral e a elevação religiosa da criança posto em contato com a natureza. (FREDERICO FROEBEL apud SANTOS, 1970, p.296). 7 RESUMO A dissertação que tem por tema "Futebol de campo, educação e cidadania: O Projeto 'Campeões do Amanhã'" investiga o futebol, que passou a ser parte integrante da sociedade brasileira, é possível entendê-lo como uma espécie de veículo propulsor e gerador constante da inclusão social, caracterizado pela aceitação maciça entre os membros da grande massa popular brasileira. Objetivo: Analisar as implicações do Projeto "Campeões do Amanhã", como instrumento de inclusão social, na vida familiar, escolar, e social das crianças e adolescentes participantes. Pesquisa fundamentada no método hipotético-dedutivo, aplicando-se a pesquisa de tipo bibliográfica e estudos exploratórios no campo de estudo, com análise documental e levantamento de dados empíricos qualitativos. Pesquisa Exploratória em Campo com o objetivo de obter percepções sobre o vínculo esportivo em âmbito educacional, social e/ou familiar no Projeto "Campeões do Amanhã". Concluiu-se que as contradições presentes no processo de cidadania, no que tange as relações entre Estado e Sociedade, estão implícitas nas políticas públicas sociais que, se por um lado, visam resolver os problemas sociais, como a fome, o analfabetismo e a miséria, por outro, são assistencialistas, incluem a tutela, mascarando as discriminações, e não atingindo o cerne do problema. Concretizamse, portanto, como desmobilizadoras e controladoras, o que tolhe a verdadeira participação, o desenvolvimento da autonomia e emancipação dos indivíduos. Palavras-chave: Cidadania. Inclusão Social. Futebol. Projeto Campeões do Amanhã – Amapá. 8 ABSTRACT The dissertation that focuses on "Football field education and citizenship: The Project 'Champions of Tomorrow'" investigates the football, which has become an integral part of Brazilian society, it is possible to understand it as a kind of launch vehicle and generator constant social inclusion, characterized by widely accepted among members of the great mass of Brazilian popular. Objective: To analyze the implications of the "Champions Tomorrow, as an instrument of social inclusion, life family, school, and among children and adolescents participants. Research based on the method hypothetical-deductive, applying research-type literature and exploratory studies in the field of study, with document analysis and survey of empirical data qualitative. Exploratory Research in the Field order to obtain insights on the link in sports the social and / or family in the Project Champions Tomorrow. We conclude that contradictions in citizenship process, with respect to the relationship between State and society are implicit in the policies public life who, on the one hand, aim to solve social problems such as hunger, illiteracy and poverty, on the other, are of assistance, including protection, masking discrimination, and not reaching the core of the problem. They take, therefore, as demobilizing and controllers, which hinders true participation, empowerment and emancipation of individuals. Keywords: Citizenship. Social Inclusion. Football. Champions of Tomorrow Project – Amapá. 9 LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURA 1 FIGURA 2 FIGURA 3 FIGURA 4 FIGURA 5 Localização do Estado do Amapá........................................................................... Quartel da PM/AP................................................................................................... O Projeto "Campeões do Amanhã"......................................................................... Mapa de Macapá.................................................................................................... Professor M... ......................................................................................................... 67 72 76 79 112 QUADRO 1 QUADRO 2 QUADRO 3 QUADRO 4 QUADRO 5 Massa populacional – Gênero / Faixa Etária.......................................................... Atos infracionais entre a juventude amapaense..................................................... Atos infracionais entre a juventude amapaense (nos bairros)................................ Orçamento da PMAP.............................................................................................. Orçamento do Programa Policial Mirim (Projeto "Campeões do Amanhã")........... 69 70 71 77 78 GRÁFICO 1 GRÁFICO 2 GRÁFICO 3 GRÁFICO 4 GRÁFICO 5 GRÁFICO 6 Quantidade de filhos beneficiados por família........................................................ Expectativas dos pais ao matricular seus filhos no projeto..................................... Renda familiar......................................................................................................... O significado de inclusão social na visão dos pais dos participantes..................... Situação ano letivo de 2008.................................................................................... Rendimento escolar dos alunos que participam do projeto.................................... 85 86 88 90 91 97 TABELA 1 Qual a importância do projeto para você................................................................ 86 10 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO........................................................................ 1.1 1.2 1.3 1.4 1.4.1 1.4.2 1.5 1.6 PROBLEMÁTICA.................................................................................... JUSTIFICATIVA...................................................................................... HIPÓTESE.............................................................................................. OBJETIVOS............................................................................................ Geral....................................................................................................... Específicos............................................................................................ METODOLOGIA...................................................................................... ORGANIZAÇÃO DOS CAPÍTULOS........................................................ 2 PREPARANDO O CAMPO.................................................... 2.1 2.1.1 2.1.2 2.1.3 O ESPORTE MODERNO........................................................................ O esporte moderno e a educação........................................................ O esporte infantil e a pedagogia do rendimento................................ O esporte infantil, a pedagogia da autonomia e a educação para o séc. XXI................................................................................................... O futebol no Brasil................................................................................ POLÍTICAS PÚBLICAS E ESPORTE..................................................... INCLUSÃO SOCIAL NAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE ESPORTE NO BRASIL.................................................................................................... 2.1.4 2.2 2.3 3 ENTRANDO EM CAMPO....................................................... 3.1 3.1.1 3.2 O ESTADO DO AMAPÁ E SUA CAPITAL.............................................. História da Polícia Militar...................................................................... CONHECENDO O CAMPO – O Projeto "Campeões do Amanhã"......... 4 ANÁLISE DO JOGO............................................................... 11 11 14 20 20 20 20 20 22 23 23 30 33 39 47 50 59 67 67 72 76 4.2.2 4.2.3 84 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS................................................. 84 OS INDICADORES METODOLÓGICOS................................................ 85 O perfil social e econômico das famílias das crianças e dos adolescentes que participam do Projeto "Campões do Amanhã"... 85 Avaliação do desempenho escolar..................................................... 90 Consciência comunitária da PMAP..................................................... 109 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................... 116 4.1 4.2 4.2.1 REFERÊNCIAS....................................................................... 121 11 1 INTRODUÇÃO Analisar as implicações na vida escolar, social e familiar de crianças e adolescentes que participam do Projeto “Campeões do Amanhã”, desenvolvido pela Polícia Militar do Amapá (PMAP), decorrentes dos resultados das ações sócioesportivas promovidas como instrumento de inclusão social. 1.1 PROBLEMÁTICA Com a reconceituação do esporte, através da Carta Internacional de Educação Física e Desporto editado, em 1978, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), delimitou-se um novo marco na história do esporte, que vislumbrou a perspectiva do direito a prática do esporte e, conseqüentemente, a ampliação e alcance do esporte junto às populações de distintos países (VARGAS, 1995, p.33). O referido documento, em terras brasileiras provocou a difusão da atividade física por meio de programas políticos e sociais implementados pela esfera do poder público. Na atualidade, os governos brasileiros buscam, por meio do esporte e de seus programas públicos, garantir inclusão social à população brasileira que se encontra em situação de risco social. Destaca-se, por exemplo, o Programa do Governo Federal denominado “Segundo Tempo”1, destinado às crianças, jovens e adolescentes em situação social desfavorável, intentando objetivamente promover a prática esportiva e o bem estar, e a melhora da qualidade de vida. Nesse contexto, o esporte ao ser incorporado aos hábitos modernos como prática inerente da condição humana, enfatiza, no caso brasileiro, a importância do futebol de campo, o qual se tornou um fenômeno e uma expressão da cultura brasileira. Assim, foi por meio desta modalidade esportiva que o país ganhou visibilidade no cenário mundial esportivo, através de várias conquistas internacionais, 1 O Segundo Tempo é um programa idealizado pelo Ministério do Esporte, destinado a democratizar o acesso à prática esportiva, por meio de atividades esportivas e de lazer realizadas no contra-turno escolar. Tem a finalidade de colaborar para a inclusão social, bem-estar físico, promoção da saúde e desenvolvimento intelectual e humano, e assegurar o exercício da cidadania. O programa caracterizase pelo acesso a diversas atividades e modalidades esportivas (individuais e coletivas) e ações complementares, desenvolvidas em espaços físicos da escola ou em espaços comunitários, tendo como enfoque principal o esporte educacional (BRASIL, 2010). 12 garantido assim, o status de "melhor seleção do mundo", consagrando personalidades como – Pelé, Garrincha, Manga, Zico, Ronaldinho e outros. Inegavelmente, o futebol exerce um profundo encantamento em cada brasileiro, particularmente, no caso de jogos mundiais, quando todos são tomados por um sentimento coletivo de soberania e poder. Mesmo em plena época da ditadura militar, em que o Brasil era governado pelo General Emílio Garrastazu Médici (1970), quando centenas de prisioneiros políticos eram torturados e o país vivia um clima tenso, ameaçador e sangrento, o futebol deteve poder sobre a sociedade e o governo, de tal maneira que durante as eliminatórias da copa de 1970, no México, tudo isso foi esquecido. As emissoras de rádio e televisão tocavam de forma intermitente a marcha que certamente inebriou o povo e se tornaria um grande sucesso: Noventa milhões em ação/ pra frente Brasil/ do meu coração / todos juntos, vamos, / pra frente Brasil / Salve a seleção / De repente é aquela corrente pra frente / Parece que todo o Brasil deu a mão / Todos ligados na mesma 2 emoção / Tudo é um só coração [...] . Quem não se lembra das “peladas” de fim de semana? Se não jogou com certeza já ouviu falar. O futebol tornou-se, então, a principal paixão esportiva do país, o verdadeiro esporte de massa, capaz de arrastar multidões aos “templos” do futebol como, por exemplo, um clássico envolvendo as principais equipes estaduais, em todas as regiões do país. Esse esporte foi capaz de produzir “gênios” na arte do futebol, que atravessaram as fronteiras do país, ganhando pseudônimos, como por exemplo, Rei, Fenômeno, Imperador, Príncipe e outros. Em decorrência da grande popularidade do futebol, que passou a ser parte integrante da sociedade brasileira, é possível entendê-lo como uma espécie de veículo propulsor e gerador constante da inclusão social, caracterizado pela aceitação maciça entre os membros da grande massa popular brasileira. Cada vez mais crianças e adolescentes buscam no futebol a sua iniciação em modalidades esportivas disponíveis. Hoje, é senso comum, atinar entre os grupos de adolescentes e crianças, meninas envolvidas com a prática do futebol de campo, antes (ou seja, até bem 2 Letra do cantor e compositor Miguel Augusto. 13 pouco tempo atrás) exclusiva do universo masculino. Nesta perspectiva é impossível negar a influência social do esporte na vida desses participantes. Assim, o futebol de campo está presente em várias faixas etárias dos meninos e meninas e quando trabalhado adequadamente pode ocasionar benefícios em suas vidas. Portanto, levando-se em conta a importância inclusiva das atividades esportivas, especificamente do futebol de campo, entre as camadas mais pobres no Brasil, esse projeto busca apresentar um estudo desta prática esportiva, como meio educacional, de sociabilidade e de cidadania, através da promoção de projetos oriundos de políticas públicas, destinados a atender crianças e adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade social. Como objeto de estudo, toma-se os resultados obtidos pelo Projeto Escolinha de Futebol "Campeões do Amanhã", promovido pela Polícia Militar do Estado do Amapá3, desde 2003, onde o futebol de campo é utilizado como promoção da inclusão social de crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e social, oriundas de diversos bairros da cidade, principalmente da Zona Sul de Macapá. Os resultados obtidos por esta dissertação durante estes cinco anos de existência são incipientes e necessitam de uma apuração metodológica e científica. Do ponto de vista social, o Projeto "Campeões do Amanhã" atende número considerável de crianças e adolescentes, tirando-os, à primeira vista, de espaços que representam riscos ao bem estar do individuo, de sua família e conseqüentemente da sociedade. É um programa público de cunho social que preza pela promoção da inclusão social ao ofertar atividades esportivas e de entretenimento, que buscam gerar auto-estima para despertar no atendido, o desejo de continuar ocupando seu tempo ocioso. Entretanto, é preciso salientar que urge a necessidade de uma análise crítica construtiva do projeto. Justifica-se porque há indícios de que os resultados até então obtidos não passam de um senso comum, necessitando uma criteriosa intervenção metodológica e cientifica dos principais aspectos do programa geradores da inclusão social em jovens e adolescentes em risco social. 3 A Polícia Militar do Amapá (PMAP) foi criada em 26 de nov. de 1975, pela Lei nº 6.270 Atualmente, a PMAP é um órgão auxiliar de assessoramento do Governo do Estado, de acordo com o Decreto nº 0147, de 23 Jan. de 1998, que aprovou o Regulamento de Lei de Organização Básica da Polícia Militar do Estado do Amapá. Disponível em: http://www.pm.ap.gov.br/institucional _historico.htm. Acesso em: 22 set. 2008. 14 Assim, percebe-se a necessidade de uma investigação mais aprofundada que permita uma avaliação tanto quantitativa quanto qualitativa do referido projeto, objetivando elucidar os ganhos sociais gerados à clientela atendida até o presente momento. Em outras proposituras, o Projeto "Campeões do Amanhã " enquanto política pública, promove a inclusão social de sua clientela em situação de risco social? Além disso, é importante para essa nova intervenção metodológica e cientifica responder também, outras questões de suma importância, como: A inclusão social promovida por projetos oriundos de políticas públicas para o esporte, destinados a atender clientela em situação de risco e vulnerabilidade social gera que tipos de implicações à vida escolar, social e familiar? No caso do Projeto "Campeões do Amanhã" essas implicações se restringem somente ao considerado trinômio escola-família-sociedade, ou estão influenciando em outras características da clientela participante? Nessa construção metodológica e cientifica de análise social, de que maneira o futebol de campo contribui para a promoção da cidadania entre indivíduos de classes sociais diferentes? 1.2 JUSTIFICATIVA A pretensão de pesquisar sobre o tema deste projeto, não decorre simplesmente do cumprimento de exigências acadêmicas, mas, sobretudo, porque representa anseio pessoal de análise sócio-construtiva. 30 (trinta) anos de exercício da carreira militar, 04 (quatro) destes foram destinados ao mandato de Deputado Federal pelo Amapá (mandato 2003-2007), o que possibilitou a vivência das necessidades científicas e metodológicas sociais brasileiras, e principalmente facilitou as reflexões sobre o papel que a Polícia Militar possui enquanto entidade constituinte do Poder Público, responsável não só pelo policiamento ostensivo e "[...] preservação da ordem pública, inibindo e combatendo a criminalidade", art. 83 (AMAPÁ, 1991), mas também, atuando na prevenção da ilicitude, através de Projetos Sociais de cunho educativo e preventivo, como é o caso do Projeto "Campeões do Amanhã". Entretanto, o motivo propulsor dessa análise em estágio avançado foi a conclusão da graduação em Educação Física, quando houve a devida compreensão da importância do esporte e de suas atividades, como instrumento educativo e 15 promotor da inclusão social entre públicos em situação de risco social. Assim, ocorreu o primeiro contato com o Projeto Escolhinha de Futebol "Campeões do Amanhã", ocorrido durante o período de sua implantação, quando observou-se em princípio como mero expectador "curioso" a atuação de colegas de profissão como professores do programa. A história de sua criação se inicia em 21 de novembro de 2003, fruto de um trabalho árduo e solitário do ex-atleta de futebol de campo, Aguinaldo da Costa Cardoso Júnior, paraense, com passagem pelos clubes de futebol de campo – Remo, Tuna e Paysandu, todos de Belém-Pará (ALVES JÚNIOR et al., 2008)4. Atualmente, além do Projeto Escolinha de Futebol "Campeões do Amanhã" a Polícia Militar do Amapá atua em vários projetos sociais, dentre eles cita-se: Cidadão Mirim, Peixinhos Voadores, Campeões do Basquete e Proerd, onde já foram atendidas mais de 15 mil crianças5, o que permite perceber um direcionamento da PMAP para a atuação preventiva e educativa, principalmente entre crianças e adolescentes. Tais constatações foram motivadores à investigação criteriosa acerca da funcionalidade e contribuição social dos projetos educacionais esportivos oriundos do meio militar. Esta por sua vez, uma linha de pesquisa instigante pela própria natureza disciplinadora e patriótica em que se instancia hierarquicamente na sociedade brasileira. É notória a literatura e pesquisas que evidenciam que a prática esportiva relacionada à formação humana independe da idade dos sujeitos. Em se tratando de crianças e adolescentes, por exemplo, Spencer (1927, p.5-41) na obra "Educação Intellectual, Moral e Physica"6 já debatia sobre quais seriam os conhecimentos de maior valor para a formação das crianças, apontando a necessidade da educação física como parte constituinte da cultura e educação que colabora para a "arte de desenvolver um ser humano." O referido autor pondera com relação ao praticante de atividade física, ao argumentar. 4 Dados empíricos coletados durante o Curso de Especialização em Docência do Ensino Superior, que resultou no Trabalho de Conclusão de Curso intitulado: "O Esporte como fator de Inclusão Social: O Caso do Projeto Social 'Campeões do Amanhã' em Macapá-Amapá". 5 Fonte: http://www.pm.ap.gov.br. Acesso em; 22 set. 2008. 6 Santos (1970 apud CARRAZZATTO, 1979, p.279-281) as ideias pedagógicas de Spencer (1820-1903) são reflexo de seu pensamento filosófico e foram apresentadas na sua obra publicada em 1896. 16 O érebro l phisico que é érebro l ou indifferente não é o que prejudica; mas aquelle que é continuado quando o cansaço érebr. Verdade é que as sensações não são guias valiosas para as pessoas que vivem constantemente na doença; as pessoas que durante muitos anos teem vivivo constantemente em casa, que exercem excessivamente o érebro, nas coisas alguma o corpo [...] (SPENCER, 1927 apud CARRAZZATTO, 1979, p.202). Neste fragmento da obra, o autor evidencia a importância do exercício físico que pode ser agradável ou não ao praticante desde que o mesmo esteja com plena saúde física para desenvolvê-lo. E continua Para a importancia dos exercicios phisicos quase todos os povos se despertaram até certo ponto. Talvez não seja necessario alargar-se n’este requisito da educação phisica, mais do que em muitos outros, pelo menos no que diz respeito aos rapazes. As escolas publicas, bem como as escolas particulares já teem soffriveis logares de recreio; e é usual dedicar-se um bello espaço de tempo aos jogos ao ar livre, porque se reconhecera a sua necessidade (SPENCER, 1927 apud CARRAZZATTO, 1979, p.208-209). Spencer na transição do século XIX ao XX defendia uma proposta educacional voltada à formação cultural das crianças, contemplando conjunto de atividades intelectuais, morais e físicas com objetivo de contribuir, direta e indiretamente, para a conservação própria da criança; assegurar as coisas necessárias à vida, além de ter por finalidade educação e disciplina, questões relativas ao procedimento social e relações políticas. Outros pensadores contribuíram para tal pensamento, como é o caso de John Locke, Jean Jacques Rousseau, Henrique Pestalozzi e Frederico Froebel, que colaboraram à resolução e constituição dos princípios pedagógicos e difusão dos jogos nas atividades escolares (SANTOS FILHO; GAMBOA, 1997). Outras temáticas também tomaram tona, como a disciplinarização do corpo dos sujeitos através de normas reguladoras e tecnologia do poder que vigora nas instituições disciplinares – escolas, hospitais, presídios e quartéis – que são instrumentos da vigilância hierarquizada na sociedade contemporânea, como considerado por Foulcault (1984) o controle e disciplina do corpo de alunos por meio de atividades laborativas e educativas. Assim, a história do esporte tem relação com a história da educação e com a história das instituições disciplinares na contemporaneidade. São muitos os 17 pensadores da ciência moderna e pós-moderna que debateram em seu tempo o papel da educação e suas atividades para a formação intelectual, moral e física das crianças. Na atualidade no Brasil, os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental apresenta entre o conjunto dos objetivos gerais para diretrizes dos professores, a inserção das atividades físicas, o que faz parte dos temas transversais (ética, saúde, meio ambiente, orientação sexual e pluralidade cultural). Assim, "conhecer e cuidar do próprio corpo valorizando e adotando hábitos saudáveis como um dos aspectos básicos da qualidade de vida e agindo com responsabilidade em relação à sua saúde e saúde coletiva" (BRASIL, 1998, p.8). O referido documento da área educacional tem difundido a relevância das atividades físicas para oferta da cultura e educação às crianças e adolescentes no Brasil, a qual destaca o papel da atividade esportiva enquanto uma das formas de linguagem entre os atores sociais no processo educativo, dando espaço para o esporte como uma linguagem corporal, daí a possibilidade de se utilizar, as diferentes linguagens – verbal, matemática, gráfica, plástica e corporal – como meio para produzir, expressar e comunicar idéias, interpretar e usufruir das produções culturais, em contexto públicos e privados, atendendo a diferentes intenções e situações de comunicação (BRASIL, 1998, p.8). Nesse sentido, cabe menção o fragmento da Declaração Universal dos Direitos Humanos no que diz respeito à liberdade de opinião e expressão, uma vez que, relaciona-se com as distintas formas de linguagens possíveis entre os sujeitos no processo de interação e educação. Todo homem tem direito à liberdade de expressão: este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS-ONU, 1993). Em se tratando de pesquisas sobre a temática, cabe destacar as dissertações de mestrado defendidas recentemente por Fröhlich (2006), Vargas (2007) e Storoli (2007), respectivamente com os títulos: "Esporte e Cidadania: Bairro Restinga em Porto Alegre", "Esporte, Interação e Inclusão Social: Um estudo etnográfico do 'Projeto Esporte Clube Cidadão'" e "Inclusão Social e Esporte: Os significados-sentidos da capoeira para os adolescentes em situação de pobreza". Estes estudos são relevantes por contribuir com a discussão sobre a relação entre o 18 fenômeno esportivo e a construção da cidadania da sociedade brasileira e política de inclusão social através da manifestação cultural da capoeira, além de discutir a questão da cidadania e própria história da educação e esporte no país, mostrando a importância da promoção de projetos sociais que tem em suas linhas da ação a atividade esportiva aos seus participantes. Apresentado dessa forma, a relação entre o fenômeno esportivo e a construção da cidadania da sociedade brasileira através de políticas de inclusão social. Segundo Vargas (1995, p.33-34) a prática de atividades esportivas envolve os seguintes significados sociais: Meio de socialização; favorecimento, por meio da atividade coletiva, do desenvolvimento da consciência comunitária; atividade de prazer; exercício de função de coesão social; desempenho de um papel de compensação, pelo prazer, contra o excesso da industrialização e instrumento de equilíbrio social. Por outro lado, a participação de crianças e adolescentes em jogos esportivos proporciona o lazer coletivo, desde que as atividades sejam planejadas e acompanhadas pelos professores de educação física ou recreacionistas. Guerra (1996, p.18) ressalta que "quando as atividades são bem orientadas, a criança emprega seu tempo livre, repetindo os mesmos folguedos, com isso a criança está fazendo recreação." Acreditamos que as pesquisas mencionadas têm um papel fundamental na discussão sobre a atividade esportiva para a formação de crianças e adolescentes no século XXI, pois é com o retrato da realidade vivida por distintos grupos sociais que podemos compreender até que ponto o esporte enquanto ação sócio-educativa, constituinte da educação básica, tem chegado ao alcance de crianças e adolescentes de camadas sociais que se encontram em vulnerabilidade de risco pessoal e social, num cenário legislativo em que seus direitos fundamentais, sociais e especiais são garantidos na Constituição Federal, Estatuto da Criança e Adolescente e Declaração Universal dos Direitos Humanos, as quais trazem no seu bojo, a garantia de condições de vida a todas as crianças e adolescentes, independentemente de classe social, cor, sexo, ou credo religioso. Desse modo, será no contexto da história do esporte e história da educação no Brasil, baseando-se na idéia de que a educação física evoluiu de 19 acordo com a evolução cultural dos povos, demonstrando sua sintonia com os sistemas políticos, sociais, econômicos e científicos vigentes nas sociedades humanas de outrora e atuais. No campo educacional, como bem visualizado por Darrido (1999), na Idade Média, a Educação e a Educação Física se caracterizavam pela reação contra a adoração pagã do físico, e o espírito passa a predominar sobre a matéria. Os exercícios físicos são relegados a plano secundário e a "justo" e o "torneio" são as formas bárbaras de sua manifestação, por influência das ordens de cavalaria. Modernamente, com o desenvolvimento da fisiologia e outras ciências, cai, o conceito anatômico e passa a prevalecer o fisiológico. O que se deseja não é a força, mas sim a saúde, mais do que a força. É preciso, também, considerar o lado moral. A moral deve ser levada em conta pela educação física, pois é necessário que ela concorra para formar um coração generoso, uma moral elevada, além de uma inteligência lúcida. Está-se, pois, hoje, na fase em que a educação física visa, a par do preparo físico, a educação, no seu tríplice aspecto: físico, moral e intelectual. Assim, com esse aporte teórico, expressa-se dedicação em analisar as implicações na vida escolar, social e familiar de crianças e adolescentes que participaram e participam do Projeto Escolinha de Futebol "Campeões do Amanhã", desenvolvido pela Polícia Militar do Amapá. Assim, analisaremos os resultados das ações sócio-esportivas promovidas por este projeto, considerando-o como instrumento de inclusão social, através de atividade de cunho esportivo, educativo e, sobretudo de exercício de cidadania, tendo como marco as fontes documentais produzidas no interior das relações dos sujeitos envolvidos neste processo, que desde 2003, nas dependências do Comando Geral da Polícia Militar do Estado do Amapá, vem atendendo crianças e adolescentes de ambos os sexos, na faixa etária de 07 a 17 anos, regularmente matriculados em escolas públicas. 20 1.3 HIPÓTESE A questão da situação de risco pessoal e social é capaz de gerar mudança na condição social destes membros abrindo portas de emprego e de mudança socioeconômica no futuro da clientela participante e conseqüentemente de seus familiares. O Projeto "Campeões do Amanhã" promove melhor desempenho escolar e desperta a consciência comunitária em relação ao seu grupo social de convívio. 1.4 OBJETIVOS 1.4.1 Geral Analisar as implicações do Projeto "Campeões do Amanhã", como instrumento de inclusão social, na vida familiar, escolar, e social das crianças e adolescentes participantes. 1.4.2 Específicos Analisar o perfil social, educacional e econômico das famílias das crianças e dos adolescentes que participam do Projeto "Campões do Amanhã"; Avaliar o desempenho escolar, consciência comunitária e sociabilidade dos participantes do Projeto "Campões do Amanhã" com grupo social de convívio no ambiente escolar e familiar; Analisar o Projeto "Campeão do Amanhã" como instrumento de inclusão social e educacional por meio de atividade coletiva esportiva do futebol de campo a crianças e adolescentes em risco pessoal e social. 1.5 METODOLOGIA O estudo da inclusão social pela via das políticas públicas de esporte exige sólida fundamentação teórica analítica. Nesse sentido, o primeiro passo da 21 investigação foi a realização de uma pesquisa bibliográfica que possibilitou fundamentação para uma análise qualitativa da problemática. Além disso, foi necessária a realização de uma pesquisa documental que permitiu conhecer o conjunto das políticas públicas de esporte – inclusão social desenvolvidas pelo Governo do Estado do Amapá. Essa etapa do trabalho foi relevante para orientar a entrada em campo e o processo de observação das ações desenvolvidas nesta área. Aliando a base analítica, o conhecimento da política governamental e a observação das ações realizadas, alcançaram-se elementos para iniciar o trabalho de entrevista com 30 alunos participantes do Projeto "Campeões do Amanhã" (representa uma amostra de 10% do total do universo de 300 participantes), 30 pais ou responsáveis, 60 professores, sendo 30 de Língua Portuguesa e 30 de Matemática, e 1 coordenador do projeto. Por fim, julgou-se pertinente o diálogo por meio de entrevista com os participantes desse projeto, para delimitar o seu perfil, bem como conhecer a realidade socioeconômica de suas famílias. Recolhidos os dados empíricos trabalhou-se a construção de um sistema de análise e posterior sistematização. Nesta fase o desafio foi garantir a unidade entre a fundamentação teórica e os dados empíricos recolhidos em campo. Propôs-se utilizar as seguintes técnicas: questionários e entrevistas os quais proporcionaram a seleção das prioridades do universo em estudo, coleta de dados que foi o principal instrumento da técnica para a análise dos resultados. Os instrumentos de coleta de dados (questionários) foram aplicados aos 30 alunos participantes do projeto, 30 pais ou responsáveis, 60 professores e a 1 Coordenador. Optou-se por essa técnica por ser uma grande ferramenta de obtenção de dados, os quais após serem coletados, sistematizados e analisados serviram de base, juntamente com a pesquisa bibliográfica, para o desenvolvimento dessa dissertação. 22 1.6 ORGANIZAÇÃO DOS CAPÍTULOS A dissertação está dividida em seções, organizados da seguinte maneira e abordagem: Preparando O Campo: analisa a formação histórica do esporte moderno, sua relação com a educação, com o esporte Infantil e a Pedagogia do Rendimento, encerrando com a chegada do Futebol no Brasil, as políticas públicas para o esporte e a inclusão social nas políticas públicas de esporte no Brasil; Entrando Em Campo: é o momento de apresentação do Projeto "Campeões do Amanhã"; Análise do Jogo, expõe os resultados e análises dos dados obtidos no projeto, na Escola, com a família e com os participantes do projeto. E encerra-se com as conclusões e referências. 23 2 PREPARANDO O CAMPO 2.1 O ESPORTE MODERNO O esporte moderno tem sua origem no final do século XIX na Inglaterra, com sua formatação, como é conhecida hoje, concebida pelo inglês Thomas Arnold, diretor do colégio de Rugby, Londres-Inglaterra, no período entre 1828 – 1842, um idealista determinado a mudar o mundo. Foi ele quem incorporou as atividades físicas praticadas pela burguesia e aristocracia inglesa ao processo educativo, como uma das ferramentas utilizadas na educação de seus alunos em plena revolução social/industrial. A ideia inicial de Thomas Arnold era deixar que os próprios alunos, praticantes, dirigissem os jogos e criassem regras e códigos próprios, numa atmosfera de "fair-play" (jogo justo) termo que significava a atitude cavalheiresca na disputa esportiva, respeitando as regras, os códigos, os adversários e os árbitros. Essas regras que surgiram naturalmente da incorporação dos jogos às aulas do Colégio Rugby, logo ultrapassaram os portões do educandário e foram difundidas para o povo inglês. Mudanças na vida social contribuem para a formação da mais nova classe: a burguesia. O que inicialmente identificava o status burguês – o acúmulo de bens e de riqueza – já não o era exclusivamente. Além do poder financeiro, a prática de uma atividade que ocupasse o tempo de ócio dos senhores, como a nova invenção, o esporte moderno, era um desses itens. Não necessariamente uma nova invenção, mas uma transformação dos jogos em esporte moderno, como bem definiu Hobsbawn (1988, p.19): O esporte [...] formalizado na Inglaterra [...] alastrou-se como um incêndio aos demais países. Em seu início, sua forma moderna foi associada à classe média e alta. Os jovens aristocratas poderiam experimentar [...] qualquer forma de proeza física, mas o campo em que se especializavam era o dos exercícios ligados à equitação e à matança ou pelo menos ao ataque aos animais e às pessoas [...]. Na Inglaterra, a palavra "esporte" era restrita a tais atividades, sendo os jogos e competições físicas (hoje chamados esporte), classificados como "passatempo". 24 A Inglaterra foi pioneira na divulgação do esporte entre a população industrial urbana. Junto com a Revolução Industrial surgiu a classe operária e com ela os sindicatos de trabalhadores que, pouco a pouco, conseguiam obter vitórias importantes como a redução da jornada de trabalho e a organização de sua população em classe. Assim, a classe dirigente que estava sentindo-se ameaçada, viu a necessidade de organizar atividades que, ao ver de Silva (apud RABISTEK, 1996, p.39) deveriam afastar "[...] a classe trabalhadora dos comícios socialistas e reuniões sindicais e, simultaneamente, controlassem a agressividade dos homens rudes." Até o final do século XIX as práticas esportivas se restringiam ao atletismo, ao rugby, ao remo, ao futebol e com muita timidez à natação. Mesmo ciente que o foco deste trabalho não é os Jogos Olímpicos, pretende-se apenas citar que a inspiração da organização dos I Jogos Olímpicos da era moderna, em 1896, idealizado pelo humanista francês Pierre de Freddy, Barão de Coubertin, que percebeu no esporte uma forma de aproximar os povos e melhorar a convivência humana, foi diretamente influenciada pelas ideias de Thomas Arnold. Neste sentido o professor Tubino (1999, p.16) aponta que: No final do século XIX, inspirado no inglês, Arnold, o grande humanista francês Pierre de Coubertin, percebendo as dificuldades de preservação da paz mundial, achou que o esporte seria uma poderosa vacina contra os conflitos internacionais. Nesse sentido, acreditando no poder do esporte para estimular a convivência humana, Coubertin iniciou em 1896 o movimento de restauração dos Jogos Olímpicos, com base nas olimpíadas da Antiguidade, que chegaram até mesmo a interromper as guerras durante o período de sua realização. Elias e Dunning (1992, p.224) declararam que a formulação do esporte moderno na Inglaterra esteve vinculada, ao longo dos séculos XVII e XVIII, aos complexos processos sócio-políticos, e justificam: No decurso do século XIX e, em alguns casos, mais cedo, na segunda metade do século XVIII, com a Inglaterra considerada como um modelo, algumas atividades de lazer exigindo esforços físicos assumiram também em outros países as características estruturais de "desportos". O quadro de regras, incluindo aquelas que eram orientadas pelas idéias de "justiça", de igualdade de oportunidades de êxito para todos os participantes tornou-se mais rígido [...]. A "desportivização", em resumo, possui o caráter de um 7 impulso civilizador comparável, na sua orientação global, à "curialização " 7 Quer dizer, que a desportivização passou a lutar pela igualdade de oportunidades de êxito para todos os participantes, tornando-se mais rígido. As regras passaram a ser mais rigorosas, mais explícitas e mais diferenciadas. 25 dos guerreiros, onde as minuciosas regras de etiqueta representam um papel significativo. Rubio e Carvalho (2005) afirmam que Thomas Arnold, no Colégio Rugby, por exemplo, utilizou-se desses jogos aristocráticos e burgueses como elementos pedagógicos que foram sendo codificados e organizados pelos próprios estudantes. Os estudantes das public-schools promoviam seus próprios jogos, mesmo com a proibição dessas práticas, por serem consideradas violentas e perigosas. As conquistas políticas e sociais burguesas alteraram todo esse mecanismo e a prática esportiva pôde se tornar acessível a um número maior de pessoas. As escolas públicas se transformaram em grandes formadoras de líderes que iriam trabalhar na indústria, no exército, na política, nas empresas comerciais e na administração das colônias, e a influência social do esporte era enfatizada para promover o senso de cooperação, liderança, lealdade, disciplina, iniciativa, entre outras qualidades necessárias para os líderes do velho e do novo mundo. Como se viu, após a apropriação do esporte pela burguesia, este retorna às classes populares transformando-se por completo, concomitante ao processo de instalação de uma nova classe social, a classe média. A divulgação em todos os segmentos sociais e o início da prática esportiva pelos menos favorecidos, tornou o esporte moderno um distintivo às diferentes classes. Hobsbawn (1988) entende o esporte como fator de distinção social, por exemplo, quando o praticante dessa ou daquela modalidade fosse identificado por pertencer a uma determinada posição social. De um lado representava a atividade de formar uma elite dominante e, por outro, uma tentativa mais espontânea de traçar linhas que isolassem as massas, principalmente pela ênfase sistemática no amadorismo como critério do esporte de classe média e alta. Enquanto o boxe, a luta livre, o futebol e o ciclismo caracterizavam-se como esportes do proletário, por proporcionarem aos seus praticantes a capacidade de dominar o próprio corpo; o tênis e o golfe eram praticados por pertencentes da elite. Observa-se que o esporte moderno iniciado na Inglaterra e apropriado pelo mundo, foi uma prática onde interesses políticos, econômicos e sociais, se cruzavam para definir e ajudar a manter a estrutura social. 26 Lucena (2002) afirma que assim também pensavam os que cultivavam o esporte moderno no século XIX, em um período posterior à Revolução Industrial. Como uma atividade recreativa de novos grupos sociais emergentes, em contraste com os rituais e as etiquetas do Antigo Regime, o esporte requeria adestramento, disciplina, espírito de competição e busca de excelência e de recordes. Nesse sentido, o esporte não era previsto para atender aos ensejos de grandes contingentes populacionais. Ao contrário, por sua natureza violenta, ele só poderia ser praticado pelas elites burguesas e urbanas da Europa, que procuravam se distinguir das velhas ordens aristocráticas e que estariam, portanto, motivadas a se reeducarem sob as normas de uma nova disciplina. É bem verdade que esta distinção também trazia consigo um desejo de mimetizar os hábitos aristocráticos, objetivo que foi perseguido pelas novas classes médias européias. Esta tendência dos grupos sociais emergentes, de procurarem se espelhar na velha ordem aristocrática revelou-se particularmente decisiva nos seus hábitos e costumes, e também na organização política dos Estados Nacionais do século XIX, ficando evidente a força das tradições e do passado na constituição da modernidade. Assim, adentra-se na proposição de Bourdieu (2004, p.208) ao apresentar programa para uma sociologia do esporte. Em suas palavras, para que uma sociologia do esporte possa se constituir é preciso primeiro perceber que não se pode analisar um esporte particular independentemente do conjunto das práticas esportivas; "[...] é preciso pensar o espaço das práticas esportivas como um sistema no qual cada elemento recebe seu valor distintivo." Em outros termos, para compreender um esporte, qualquer que seja ele, é preciso reconhecer a posição que ele ocupa no espaço dos esportes. Este pode ser construído a partir de conjuntos de indicadores, como, de um lado, a distribuição dos praticantes segundo sua posição no espaço social, a distribuição das diferentes federações, segundo o número de adeptos, sua riqueza, as características sociais dos dirigentes, etc., ou, de outro lado, o tipo de relação com o corpo que ele favorece ou exige, conforme implique um contato direto, [...]. Em seguida, é preciso relacionar esse espaço de esportes com o espaço social que se manifesta nele. Isso a fim de evitar os erros ligados ao estabelecimento de uma relação direta entre um esporte e um grupo que a intuição comum sugere (BOURDIEU, 2008, p.208-209). Não obstante, Betti (2006) analisa o alargamento de sentido conferido à expressão "esporte", assistindo hoje à progressiva clivagem do esporte profissional das demais formas da cultura esportiva, cunhada pelas mídias e pelas grandes 27 corporações econômicas. Para Eichberg (1995) o esporte de alto rendimento, de elite, que há muito tempo representa o topo ideal da pirâmide esportiva, está se modificando, da produção de resultados individuais para um "circo midiático". As qualidades visuais do esporte, e não mais a produção de resultados, é que concentram a atenção da mídia televisionada; em decorrência, estariam a se separar os caminhos do esporte moderno clássico e do "circo esportivo". Para Krawczyk (1996), a significação do esporte contemporâneo expressa o desejo da sociedade industrial por competir, alcançar a perfeição, a fama individual e a riqueza; satisfaz o desejo de uma rápida inclusão social, de superar barreiras biológicas e culturais e abolir as desigualdades étnicas, de gênero e raciais. Mas vai mais além, expressando o anseio por princípios éticos universais e por abandonar, mesmo que por um momento, a insensatez do mundo profano. É a expressão da dimensão utópica do esporte, o desejo de construir um mundo no qual as relações entre os indivíduos e o grupo existam de acordo com regras definidas clara e justamente. O esporte moderno foi crescendo, sem grande aceleração, com novas modalidades, maior número de praticantes e o Estado começou a sua intervenção mais permanente. Começa a firmar-se um conceito do esporte moderno, onde apenas a performance dos seus praticantes interessava, produzindo-se assim uma ruptura nos conceitos pedagógicos iniciais idealizados por Thomas Arnold. Nessa perspectiva o rendimento atlético era o que mais interessava. Fica fácil de percebermos que o esporte moderno desde a sua origem foi concebido como fator de exclusão social, onde apenas as classes dominantes poderiam praticar determinada modalidade esportiva e mais do que isso, dependendo do tipo de modalidade esportiva praticada, poderíamos identificar através dos seus praticantes qual a sua classe social. Mas afinal do que estamos falando? O que é Esporte? Qual a sua contribuição no campo social, educacional e da cidadania? Para esclarecimento, se faz necessário compreender uma série de outras questões. A primeira delas é a função social do esporte. O homem é um ser delimitado por suas próprias dimensões físicas, por sua curva biológica e por sua limitação cultural e social. Ao longo de sua jornada 28 esse ser busca, cria, transforma várias coisas em sua permanente trajetória pela plenitude da vida. Mas eis que surge a sociedade na qual está inserido, com seus "limitadores sociais", sempre delimitando esse ser social. A sociedade contemporânea recebe uma gama de informações a uma velocidade impressionante e um ritmo de consumo exacerbado, gerando cada vez mais entre os seus componentes a competitividade, o rendimento, a desumanização, a especialização, o sedentarismo e outros fenômenos. Esse quadro desencorajador para muitos eleva o stress emocional provocando vários desequilíbrios da saúde, aqui compreendida no seu conceito mais amplo. Nossa sociedade cibernética, onde grande parte das necessidades cotidianas do homem está ao alcance de um simples toque de um dedo em um botão, tem levado a grande maioria da população mundial a desenvolver através do sedentarismo a chamada doença do século: a hipocinestesia (doença desenvolvida por falta ou pouco exercício físico). Esse sintoma que é proveniente da sociedade moderna leva seus componentes a uma perda de qualidade de vida, mas fez com que esse homem percebesse o valor da vida e buscasse cada vez mais uma forma de aproveitar melhor o seu tempo ocioso, o seu tempo livre. Nesses dias incorpora-se ao nosso cotidiano a figura do esporte, não como conquistado e apropriado pela burguesia em sua origem, mas sim agora como uma ferramenta de inclusão, ou seja, para todos os cidadãos. Com esse novo olhar, esse novo conceito, destaca-se a capacidade de participação de todos, na perspectiva do bem comum da população, que consiste no conjunto de meios e aperfeiçoamento que a sociedade politicamente organizada tem por fim oferecer aos homens, e que constitui patrimônio comum e reserva da comunidade. O bem estar geral passou a representar a finalidade maior desse destacado fenômeno social, que é o esporte moderno. Cazorla Prieto (1979) afirmou a notável relevância social do esporte no final do século XX, e cita seis referências para o entendimento desse importante fenômeno social: a) sua dupla perspectiva, como fenômeno social universal e como instrumento de equilíbrio pessoal, b) o consumismo esportivo, c) os espetáculos esportivos, d) os 29 valores que o esporte leva à sociedade, e) o impacto social do associacionismo esportivo e f) a difusão do esporte através dos meios de comunicação. Como fenômeno social universal, o esporte constitui-se de relações entre grupos sociais urbanos e até nacionais, contribuindo para a existência biológica, para as combinações de trabalho e vida para enriquecer a cultura humana. O esporte tornou-se um fenômeno cultural e social universal que reflete objetivos econômicos, ideológicos, políticos, culturais, científicos e sociais. Em contrapartida, numa sociedade que cada vez mais subtrai os direitos dos seus integrantes, estabelecendo um processo de desumanização no mundo, a preocupação com o corpo e o lazer tornou-se imperativa para enfrentar o desequilíbrio presente. O esporte, como instrumento de saúde e lazer, oferece ao homem reações importantes aos sintomas negativos da sociedade atual, propiciando ao homem inclusive uma busca de reencontro com a natureza. A sociedade, em sua dimensão de consumo, leva as pessoas a consumir mais e uma das formas encontradas é o consumo pelo esporte, ou o que dizermos de um produto lançado no mercado, como por exemplo: uma marca de tênis associada à determinada modalidade esportiva, que um campeão tenha usado e que imediatamente bate recordes de vendas. O homem, ao envolver-se no consumismo, cria necessidades que em quadros circunstanciais diferentes talvez fossem prescindíveis, mas que atualmente compõem inclusive o próprio estudo de vida daqueles que pertencem às classes mais altas. O esporte é, sem dúvida, uma das variáveis mais ponderáveis no estilo de vida atual. Quanto aos espetáculos esportivos, pode-se dizer que eles manifestam a grande importância do esporte, tornando-se verdadeiros retratos da sociedade de massas, submissa ao consumismo que é, ao mesmo tempo, uma forma de escapismo do homem moderno. O espetáculo esportivo exerce grande atração sobre as massas, levando seus espectadores a processos de identificação com seus praticantes, conduzindo-os a emoções fortíssimas de sofrimento, stress, alegria, tristeza, prazer etc... podendo chegar à violência. Sobre os valores em que o esporte pode contribuir para a sociedade, podemos observar que o fenômeno esportivo pode conduzir o homem a inúmeras virtudes sociais, proporcionando uma convivência 30 mais harmoniosa entre eles, além de valorizar o tempo ocioso, como tempo eminentemente pessoal. Neste aspecto, justificamos esse posicionamento pelos casos de "mobilidade social" de alguns atletas profissionais pertencentes a extratos sociais mais modestos, pelo prestígio que seus protagonistas alcançam, mas reconheço que é uma situação efêmera em que apenas poucos têm a oportunidade verdadeira de "mobilidade social". Outro aspecto importante, citado por Cazorla Prieto (1979), é a forma como o esporte foi concebido em sua origem por Arnold que, ao conduzir o esporte para uma modernização, utilizou-se do ordenamento da sociedade inglesa da época e envolveu principalmente as associações esportivas sem prejuízo das competências dos poderes públicos a esse respeito. Sobre a difusão do esporte através dos meios de comunicação social, para Cazorla Prieto (1979), o esporte constitui o grande entretenimento do ócio passivo contemporâneo, pois, além da sua repercussão social, constitui um meio idôneo para inocular na sociedade valores extra-esportivos. 2.1.1 O esporte moderno e a educação Desde a Idade Antiga já se pensava na atividade física como elemento importante na educação do homem. Nessa época, os gregos atribuíam um grande valor às atividades físicas na formação física e moral de seus cidadãos. E ainda que a própria concepção de esporte tenha passado por enormes transformações durante todos esses séculos, as discussões sobre a sua relação com a educação continuam presentes. Segundo Korsakas e De Rose Junior (2002) a expansão do esporte moderno, um dos fenômenos sociais mais significativos dos últimos tempos, impulsionada pelas transformações sociais ocorridas no século XIX, acompanhou toda a evolução tecnológica e dos costumes do século XX, e chega ao novo milênio atingindo uma dimensão ímpar pela sua abrangência dos campos político, econômico, cultural e educacional. No percurso dessa história, no penúltimo século, encontra-se Thomas Arnold, considerado o pai do esporte moderno por ter iniciado a utilização dos jogos 31 populares ingleses em uma perspectiva pedagógica, sendo pioneiro no reconhecimento do esporte como meio de educação. Tais jogos foram gradualmente codificados e organizados, impulsionando o movimento esportivo inglês do século XIX e, segundo Betti (1991), foram as escolas públicas inglesas que facilitaram o processo de proliferação do esporte em outras camadas sociais, enfatizando a influência socializante dos jogos na promoção da lealdade, cooperação e iniciativa, entre outros valores. Com base no modelo de esporte educativo das escolas inglesas, aliado a princípios da Grécia Antiga, Pierre de Coubertin buscou inspiração para o renascimento dos Jogos Olímpicos (BETTI, 1991). E é nesse cenário que o ideário olímpico foi construído e que o esporte moderno consolidou-se por suas reconhecidas funções pedagógicas. Entretanto, o movimento olímpico internacional, que fez ressurgir os Jogos Olímpicos no século XX e fortaleceu o esporte, principalmente na perspectiva do rendimento, acabou cedendo espaço para o seu uso político e para o doping, ameaçando o fair-play e colocando em xeque os princípios universais da ideologia olímpica. Diante desse quadro conflitante, como explica Tubino (1992, p.53), [...] a exacerbação dos resultados, enaltecendo o chauvinismo esportivo nas vitórias a qualquer custo, o interesse cada vez mais forte dos governos pelas disputas internacionais e conseqüentes propagandas, o grande salto na evolução da tecnologia esportiva, o aumento diário das horas de treinamento esportivo, o profissionalismo disfarçado, a multiplicação dos casos de doping e de esquemas de suborno passaram a substituir o quadro ético-esportivo anterior por outro, tendente a uma consolidação deste conjunto de erros, vícios e distorções. Se no início da sua trajetória o esporte moderno parece ter favorecido a ideia de que a sua prática com fins educativos e a outra que tem a finalidade aferir a melhor performance poderiam se equivaler, fosse na escola ou nas Olimpíadas, o decorrer do seu desenvolvimento no século XX viu tal idéia enfraquecer. Foram identificados vários problemas geradores de importantes críticas que culminaram em uma revisão conceitual, baseada em discussões que giraram em torno da busca de uma compreensão mais ampla do esporte como fenômeno social e cultural, rompendo com a perspectiva única do rendimento (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). 32 Desde a década de 1960, foram várias as manifestações de intelectuais e organismos internacionais que aprofundaram o seu entendimento, a exemplo do Movimento Esporte para Todos e da Carta Internacional de Educação Física e Esportes, editada pela UNESCO, passando a reconhecer o esporte como um direito humano, incorporando as dimensões do lazer e da educação, e definindo-as como práticas diversas do rendimento (TUBINO, 1996). No Brasil, essa diferenciação consta no texto da Lei nº 9.615 de 1998, no qual o esporte de rendimento é praticado "[...] segundo normas gerais desta lei e das regras de prática esportiva, nacionais e internacionais, com a finalidade de obter recursos e integrar pessoas e comunidades do País e estas com as de outras nações" (BRASIL, 1998), ao passo que o esporte-educacional é aquele praticado "[...] nos sistemas de ensino e em outras formas assistemáticas de educação, evitando-se a seletividade, a hipercompetitividade de seus praticantes, com a finalidade de alcançar o desenvolvimento integral do indivíduo e a sua formação para o exercício da cidadania e a prática do lazer" (BRASIL, 1998). Apesar de tudo isso, após anos de debates e esforços na tentativa de redimensionar as manifestações esportivas de acordo com seus contextos socioculturais, a discussão em torno do esporte e das suas possibilidades educativas continua. Menos, talvez, por incompreensões conceituais acerca do fenômeno esportivo, e mais por falta de um aprofundamento das inter-relações entre os significados de educação e esporte no âmbito pedagógico (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). Numa perspectiva mais abrangente, tomamos por base a afirmação de Brotto (2001), que entende o esporte como um fenômeno de natureza educacional. Partindo desse ponto de vista, a questão a ser discutida é em que direção se deseja educar e, conseqüentemente, qual pedagogia é a mais adequada. Para Paes (apud BROTTO, 2001), qualquer construção pedagógica do esporte deve ser orientada por duas dimensões. A primeira dimensão é a filosófica, que esclarece qual é a concepção de esporte, de humanidade e de educação que pautam as ações. A segunda, de caráter técnico, define-se pelos processos desenvolvidos na prática pedagógica que refletem tais princípios filosóficos. 33 Tal eixo condutor discute as diferentes concepções filosóficas norteadoras das pedagogias do esporte, definidas em relação às concepções de criança e educação. O esporte tem sido fonte de prazer para muitos, entretanto somente tem virtude quando seus ideais de fair-play e competição honesta são respeitados. Desta forma, assegurar que seus valores não sejam prejudicados por seu crescimento e desenvolvimento solicita das pessoas ligadas ao esporte a reflexão sobre as possibilidades de atuação nos tempos atuais. Quais os caminhos que o esporte percorreu? Quais as possibilidades de atuação que existem hoje? O que é esporteeducação? É possível educar repetindo as velhas práticas? Para, quem sabe, ao indagar as velhas paisagens da educação física e do esporte, descobrir e aprender um jeito diferente de ensinar e praticar a educação a partir do esporte (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). 2.1.2 O esporte infantil e a pedagogia do rendimento Ao observarmos o esporte praticado por crianças e adolescentes nos clubes e até mesmo em nossas escolas, ele pouco difere da prática adulta do rendimento, a não ser pela redução das dimensões dos equipamentos (tamanho da bola, tempo de jogo etc.). Como se tudo isso não bastasse ao assistirmos nossas crianças e adolescentes participarem de competições esportivas nos mais diferentes níveis de sua manifestação, somos capazes de reproduzir alguns comportamentos condenáveis: xingamos os árbitros, a torcida entoa frases negativas, técnicos impacientes com os erros dos atletas, enfim, uma série de ações condenáveis, isso tudo na busca de um só objetivo: a vitória. Mergulhando nessa análise para além do momento da competição, é possível encontrar crianças submetidas a severos métodos para a seleção de equipes e a sessões de treinamento exaustivas, muitas vezes incompatíveis com a continuação dos estudos e outras atividades comuns ao período da infância. E por falar em estudos, ao se deslocar o foco de análise para o esporte escolar, a imagem não é muito diferente, já que não são raras às vezes em que a grande preocupação em ter equipes competitivas nas escolas sobrepõe-se à intenção de ensinar o esporte para os alunos. Assim, qualquer proposta pedagógica 34 é facilmente substituída por um determinado número de bolsas de estudo oferecidas a alguns poucos talentos, e as aulas de Educação Física transformam-se em "celeiros" de atletas. Eis a pedagogia do rendimento. A pedagogia do rendimento não se restringe à prática do esporte, mas parece estar presente no dia-a-dia das pessoas que se submetem e são submetidas à obrigatoriedade de render, de ser o melhor em qualquer situação: ser o primeiro na lista de aprovados do vestibular, o profissional com melhor remuneração, o melhor aluno (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). Como diz Kunz (2000, p.24-25), baseado na teoria crítica que compara o esporte de rendimento às relações de trabalho nas sociedades industriais, o próprio homem torna-se uma máquina de rendimentos. Segundo ele, os motivos disso "[...] não estão no desenvolvimento do esporte em si, mas no próprio desenvolvimento das sociedades atuais, onde o rendimento configura-se no princípio máximo de todas as ações". Nessa perspectiva, o esporte infantil também não se constitui como uma prática pedagógica isolada, mas está diretamente relacionado aos significados de infância expressos nas relações sociais estabelecidas entre crianças e adultos ao longo dos tempos. Historicamente, a criança e a infância têm recebido diversas significações da sociedade. Ariès (1981) conta que na sociedade medieval não existia a ideia de infância, todas as particularidades da criança eram ignoradas e ela era considerada um adulto em miniatura, participando das mesmas atividades e dos mesmos grupos que os adultos. A partir do século XVII, segundo Priszkulnik (2002), surge uma noção diferente de criança, apoiada nas preocupações com a disciplina e a moral, pela qual ela é tida como um ser frágil e imperfeito, colocando a educação como uma das principais obrigações humanas. Educação esta que acreditava ser preciso humilhar a criança, trazendo-a a uma condição inferior, para poder melhorá-la e torná-la um adulto honrado. Notadamente, nessa trajetória de redefinições da criança e da educação, o século XIX aparece como um período de importantes transformações sociais: deixa-se de lado a concepção de infância como um período de fraqueza que precisa de humilhação, e assume-se a idéia de que a criança, como ser em formação, deve ser preparada para a vida adulta. Nesse contexto, a educação 35 formal passa a ter importância ímpar, e é exatamente nesse período, como já foi citado, que a escola exerceu papel fundamental também na proliferação da ideia de que o esporte era um excelente meio para a educação, contribuindo para a formação física e moral dos jovens. No início do século XX, pela expansão do processo de escolarização, as dificuldades de aprendizagem despertam o interesse de psicólogos, pedagogos e professores, o que acarreta a sistematização de estudos sobre a criança e seu desenvolvimento, sob a perspectiva dos processos de aprendizagem. No decorrer desse século, a escola firma-se como local privilegiado para a formação da criança, ainda voltada para o seu futuro adulto. Mas além da escola, os adultos criam e buscam outras atividades para complementar essa formação como as aulas de línguas, informática, artes e a própria prática esportiva (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). Não por acaso, um dos grandes temas de discussão sobre a criança e a educação desse século tem sido o processo de adultização da infância, decorrente do estilo de vida e das expectativas da vida adulta impostos às crianças. Segundo Rosa (2000), esse processo tem provocado nas crianças transformações de comportamento, precocidade do desenvolvimento físico e hormonal e problemas de saúde como o estresse, representando um retrocesso histórico: [...] a versão high tech da infância, típica do nosso tempo, ameaça acabar com ela, pela destruição paulatina e constante das fronteiras entre o universo de interesses de adultos e crianças. A "adultização" da infância e o seu contraponto, a infantilização da vida adulta, têm gerado uma indiferenciação perigosa entre estas duas etapas da vida do indivíduo. De modo que, estranhamente, o ser criança nos dias de hoje não deixa de se assemelhar, em muitos aspectos, ao período anterior. [...] A crescente ausência de discriminação, por parte dos adultos do que é próprio ou impróprio às crianças, representa um retorno a uma mentalidade tipicamente medieval, caracterizada pela ignorância, insensibilidade e desrespeito para com elas (ROSA, 2000, p.6). Na verdade, porém, o que podemos extrair desse conceito complexo de infância é que a sociedade produzida por nós exige cada vez mais, através de seu ritmo frenético, que a infância seja o quanto mais curto e transformada em vida adulta. Dessa forma o caminho mais rápido para se preparar alguém para a vida adulta é torná-lo adulto. Contrariamente à Idade Média, em que a criança não se distinguia do adulto por não serem reconhecidas suas particularidades, o que parece ocorrer hoje é 36 o desprezo das características da infância em nome da produtividade, ou seja, quanto antes a criança se tornar um adulto, e estiver pronta para enfrentar este mundo competitivo e excludente, mas será capaz de render e conquistar o sucesso. Da mesma maneira, Rosa (2000), que entende o esporte como manifestação cultural marcada pelos diferentes momentos históricos da humanidade, demonstra acompanhar a crítica e esta lógica contemporânea de que nada melhor para preparar a criança para o mundo adulto do que reproduzi-lo no mundo infantil. Ao contrário da concepção medieval pautada na ignorância, tal tratamento dado à infância aparece dotado de intenções pedagógicas. A pedagogia do rendimento orienta-se pelo processo de adultização da infância que, no esporte, pode ser exemplificado pela precocidade com que elas são submetidas a treinamentos e competições semelhantes ao contexto adulto, em que se despreza a riqueza das práticas lúdicas em nome de se preparar os futuros atletas. Como Rosa (2000, p.6) aponta: O tempo lúdico da infância, antes dedicado às tradicionais brincadeiras de faz-de-conta, que marcavam a diferença entre o universo simbólico infantil e as preocupações da vida adulta, vem sendo cada vez mais substituído por obsessivas práticas de culto à estética, à erotização precoce e à fetichização dos objetos que denotam status econômico e social. O esporte infantil, nesse sentido, também assume a condição de objeto de desejo de crianças e pais, que o percebem como uma representação de status, o que alimenta a obsessão pelo consumo de uniformes e tênis iguais aos dos grandes atletas, transforma o esporte em uma prática com cargas excessivas de treinamento, e atribui responsabilidades adultas às crianças, como horários rígidos de treinamentos e fins de semana repletos de competições, sem sobrar muito tempo para brincadeiras livres ou outras atividades infantis. Ser criança passa a ser nada mais do que um estágio preparatório para a vida de verdade, em que a ludicidade cede espaço à seriedade, em que o riso infantil é substituído pelo estresse (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). Poeticamente, Alves (2001, p.26) comenta a tão pronunciada pergunta: o que você quer ser quando crescer? Ele diz que ela soa, "como se o verbo ser nos fosse hipotecado na infância, condenados à lógica do sucesso, à lógica que impõe [...] mais sucesso na transformação do corpo infantil brincante no corpo adulto 37 produtor". Para a pedagogia do rendimento no esporte, esta também é a lógica a ser seguida: transformar a criança que joga brincando em um atleta que rende jogando. No esporte como processo de adultização, a criança é ensinada a render no futuro pelo processo de ter de render no presente, num contexto em que todas as ações educativas têm como fim a conquista de resultados imediatos, como se o futuro fosse o agora. Em um belo texto que trata da relação dialética entre o esporte e a sociedade, Távola (1985, p.279) diz que: A nuvem pragmática que invadiu a humanidade no século XX, determinada pela utopia do progresso material, científico e tecnológico, levou os processos educativos – os escolares e os dos costumes – a colocar na eficácia, no resultado e na forma, toda a finalidade dos atos humanos. Quando se assume a eficácia e o resultado como finalidades dos processos educativos, assume-se também a condição de "objeto" daquele a ser educado, pois ele nada mais é do que um meio, um instrumento para se alcançar o produto final, o rendimento esperado. Tal ênfase é evidenciada no esporte infantil, por exemplo, quando somente os melhores têm chances de participar, enquanto os outros pobres coadjuvantes assistem a tudo do banco; ou quando as crianças são ensinadas a usar meios ilegais para vencer. Sobre isso, Távola (1985, p.279) afirma que: [...] a determinação da utopia materializante [...] gerou regras, leis não escritas e comportamentos, identificando o realismo não com uma visão ampla do real, mas apenas como as atitudes necessárias ao seu lado eficaz, útil, funcional. A hipertrofia do funcional determinou o recuo de outros conteúdos do real, como o moral, o poético, o de justiça, virtude, beleza, igualdade, sensibilidade, etc. que passaram a ser conotados como fora da realidade quando eram e são partes integrantes dela. Daí a grave crise civilizatória em que estamos, intoxicados de vitorismo e de uma ética inventada para glorificar vitórias a qualquer preço, esquecendo que perder também faz parte da vida. E, muitas vezes, o que parece ser perder pode 8 ser "perdar ". Agir dessa maneira significa crer que excluir os menos habilidosos e trapacear são atitudes úteis e que fazem parte da lógica interna da prática esportiva, como se o único sentido do esporte estivesse em vencer. A justiça, a igualdade de oportunidades e outros valores éticos e morais do esporte são desprezados como valores menores que, muitas vezes, atrapalham e até impedem a vitória. O fim 8 Conceito que expressa o entendimento de que perder pode gerar favores, ou seja, "perdar" seria uma espécie de perda com benefícios – perdendo para se dar, ganhar, conquistar – demonstrando que o ato de perder e/ou trapacear em casos específicos para o esporte, pode-se significar uma vitória, a conquista pela justiça utilizando-se de todos os meios cabíveis e atingíveis pelos envolvidos em processo de inclusão. 38 justifica os meios, e não importa o que se faz, contanto que o competidor se consagre campeão (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). Nessa perspectiva, não só a competição, mas todo o processo de aprendizagem do esporte passa a ser visto apenas pelo seu caráter funcional, como uma etapa para se chegar à vitória que consagra a instituição, o técnico, o diretor do clube, alguns pais orgulhosos e algumas crianças prodígios tidas como heróis. Isso acontece à custa do sacrifício do tempo da infância em que a criança deixa de ser protagonista e se torna um instrumento útil para a satisfação dos desejos adultos. A criança, no lugar de sujeito, passa a ser objeto de aprendizagem, percebida apenas como um corpo que reproduz movimentos. Nesse ponto, a prática esportiva é conduzida tendo como foco um corpo que tem o dever de render, e não um indivíduo com o direito de aprender. Desse modo, o esporte infantil chega ao fim do século XX reforçando sua imagem como privilégio daqueles capazes de responder adequadamente a um sistema autoritário de educação de resultados, tida como a mera reprodução de conhecimentos técnicos, táticos e/ou físicos inerentes ao esporte, e que entende as crianças como objetos de rendimento (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). Ao analisar a educação no último século, Morin (2001) conclui que efetuaram-se progressos gigantescos nos conhecimentos no âmbito das especializações disciplinares durante o século XX. Porém, estes progressos estão dispersos, desunidos, devido justamente à especialização que muitas vezes fragmenta os contextos, as globalidades e as complexidades. A fragmentação dos conhecimentos no esporte infantil também repercute da mesma forma, em uma visão de criança fragmentada em um corpo biológico, desconsiderando suas emoções, suas vontades, sua individualidade. Dissocia-se a criança da atividade que ela pratica, enfatizando a atividade em si e sua lógica assumida como interna, sem analisar a complexidade do contexto esportivo infantil, e desprezando a interação da criança com o ambiente de aprendizagem como elemento central da prática pedagógica (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). Aqueles que acreditam na pedagogia do rendimento dizem que o esporte é assim, concordam com uma ideologia fatalista e imobilizante que, segundo Freire 39 (1996, p.21), "insiste em convencer-nos de que nada podemos contra a realidade social que, de histórica e cultural, passa a ser ou a virar 'quase natural'". Desse ponto de vista, segundo o autor, o que tem restado à prática educativa é adaptar o educando a esta realidade imutável, oferecendo a ele treinamento técnico indispensável à sua sobrevivência e compreendê-lo de forma restrita, tendo o rendimento como única referência para sua prática. É constatar que esta é a única realidade possível que, a serviço da educação das crianças, deve adaptá-las ao sistema excludente por meio de treinamento técnico, para que elas possam sobreviver nele, o que, na verdade, garante o privilégio de participar dele (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). 2.1.3 O esporte infantil, a pedagogia da autonomia e a educação para o séc. XXI A palavra autonomia, de origem grega, significa lei própria (autós + nómos). Ferreira (2000) a define como a capacidade de um indivíduo se governar por si mesmo. Pode-se dizer, então, que a pedagogia da autonomia baseia-se em uma prática educativa que busca ensinar o educando a ser capaz de regular seus próprios interesses com independência e autodeterminação. Ao discutir os saberes necessários para a educação nesse século, Morin (2001, p.39-40) propõe que: A educação deve favorecer a aptidão natural da mente em formular e resolver problemas essenciais e, de forma correlata, estimular o uso total da inteligência geral. Este uso total pede o livre exercício da curiosidade, a faculdade mais expandida e a mais viva durante a infância e adolescência, que com freqüência a instrução extingue e que, ao contrário, se trata de estimular ou, caso esteja adormecida, de despertar. Na missão de promover a inteligência geral dos indivíduos, a educação do futuro deve ao mesmo tempo utilizar os conhecimentos existentes, superar as antinomias decorrentes do progresso nos conhecimentos especializados e identificar a falsa racionalidade. Pensar a educação como meio de desenvolver a capacidade de formular e resolver problemas, estimulando a curiosidade, é entendê-la como processo para a formação de indivíduos autônomos e investigadores, é nutrir o desejo de saber, de ver, de conhecer, de aprender, posicionando o processo educativo não mais como obrigação, mas no plano das vontades do ser humano, da criança. Superar as antinomias – contradições – dos conhecimentos especializados é compreender a humanidade na sua complexidade e inteireza, como diria Paulo Freire. Reconstruir a 40 visão do homem no mundo, não mais vê-lo como um ser bio- psico- social, mas entender essas dimensões como elementos indissociáveis deste ser (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). Morin (2001) acredita que as antinomias (antí, oposição + nómos, lei) enfraquecem a percepção do global, conduzindo também ao enfraquecimento da responsabilidade, já que cada um se responsabiliza por apenas uma parte, e da solidariedade, em que cada um não mais sente os vínculos com seus concidadãos. Promover a autonomia torna-se, então, um caminho para a superação das antinomias, o fortalecimento da co-responsabilidade e da solidariedade, na medida em que ser autônomo, descobrindo-se independente e auto-determinante, exige que se reconheça também a autonomia do outro. Nesse processo de autoconhecimento é que se torna possível conhecer o outro e o mundo, valorizando a unidade do homem como síntese da diversidade, pois como disse Morin (2001, p.55), "compreender o humano é compreender sua unidade na diversidade, sua diversidade na unidade." Pensar, então, no esporte como um meio de concretizar essa educação no século XXI é entendê-lo como uma ferramenta para o desenvolvimento pleno do ser humano, possibilidade identificada nas palavras de Barbieri (1999) que, ao versar sobre o esporte educacional, também defende uma educação emergenteemancipadora, que tenha como princípio fundamental o desenvolvimento da autonomia do homem, do seu pensamento crítico, da sua criatividade, e da sua participação ativa na construção e transformação do mundo: [...] A visão contemporâneo-integradora do esporte é aquela que, reconhecendo a necessidade premente [...] de ações que objetivem restaurar o humano do homem, concebe como sendo insubstituíveis o valor e a importância atribuídos à emancipação do homem, à sua autonomia, à sua participação efetiva na construção da realidade, ao desenvolvimento da sua auto-estima, de sua criatividade, de seu auto conhecimento, de sua ludicidade, da sua capacidade de cooperar, bem como da preservação da sua identidade cultural. Admite a necessidade do desenvolvimento do esporte intrinsecamente relacionado à educação (significada como um processo do homem se fazer no mundo) e que se fundamente também numa relação de co-educação entre aqueles que, juntos, aprendem; se fundamente no respeito e na preservação da individualidade de cada um dos participantes desse processo em relação às diversas outras individualidades, tendo em vista o contexto uno e diverso no qual o homem está inserido. 41 A relação do homem com a atividade esportiva passa a ser vista de outra forma, não mais com a intenção de adaptar o humano à atividade como algo que existe externamente a ele, de subjugá-lo à superação do outro e à eliminação do mais fraco como se fossem elementos da lógica interna do esporte. Ao contrário, como expressão cultural da humanidade, a prática esportiva acontece para satisfazer às necessidades e vontades humanas, de tal maneira que ela possa ser transformada e assumir vários significados de acordo com o seu contexto social e histórico, neste caso, para cumprir com os propósitos de uma educação emancipadora (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). Pensando nisso, Korsakas e De Rose Junior (2002) sugerem que a prática esportiva deva se desenvolver ancorada pelos princípios da totalidade, coeducação, emancipação, participação, cooperação e regionalismo. O esporte praticado sob o princípio da totalidade deve ter como objetivo o resgate da unidade humana, entendendo a criança como um ser cujas emoções, pensamentos e ações são elementos constitutivos da sua identidade, respeitando e preservando a individualidade e a diversidade. Para tanto, a auto-referência no processo de ensinoaprendizagem passa a ser um aspecto fundamental. Estabelecer referências e metas individuais coerentes com o nível particular de desenvolvimento de cada criança faz com que sejam oferecidas oportunidades iguais de aprendizagem e progresso para todas, orientando-as para a busca da autosuperação, e não da superação dos outros. A auto-avaliação, no lugar da comparação de desempenhos, torna-se uma estratégia importante para o autoconhecimento e o desenvolvimento da auto-estima, além de promover uma conduta de respeito e solidariedade para com o outro já que, ao reconhecer os próprios potenciais e limites, aprende-se a compreender a individualidade do colega e valorizar a diversidade do grupo (KORSAKAS, 2002). Nesse contexto, unidade e diversidade interagem na construção da identidade coletiva, um mosaico construído com as identidades particulares e colorido pela diversidade. Diversidade que, no esporte infantil, é facilmente percebida pela heterogeneidade entre as crianças no tocante a gênero, raça, religião, nível de desempenho nas atividades e várias outras características que tornam cada ser diferente do outro e, por isso, semelhantes entre si. 42 De acordo com os princípios educativos, a heterogeneidade enriquece o processo de aprendizagem fundamentado na co-educação como processo de transformação recíproca. Esse princípio, na prática, estimula que uma criança ajude a outra na aprendizagem de algo que ela já domina e, ao mesmo tempo, faz com que ela vislumbre novas possibilidades de aprendizado pelo contato com o diferente. Por exemplo, propor que meninos e meninas trabalhem juntos em atividades em que a força dos meninos, aliada à flexibilidade das meninas, facilite o alcance de objetivo proposto; e também possibilitar a inversão de papéis, exigindo dos garotos a flexibilidade que lhes falta e das garotas a força que não desenvolveram, pode fazer com que, em vez de rivalizarem pelos modelos estereotipados de masculino e feminino, valorizem a contribuição do outro para completar a tarefa. Enfatizar que a união de seus esforços é fundamental para a conquista de objetivos comuns, e que ambos aprendem e ensinam algo novo quando se comunicam, sugere que as relações humanas não precisam ser, necessariamente, pautadas pela competitividade e busca da superação do outro, e sim que podem ser estabelecidas com base na cooperação, como uma interação viável que fortalece a noção de solidariedade. Cooperação que não se estabelece apenas entre os educandos, mas também entre educador e educando, cada qual desempenhando seu papel no processo educativo, mas compartilhando problemas e soluções no processo de ensino-aprendizagem (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). Em uma equipe que pratica futebol, por exemplo, o educador tem algumas opções de como propor uma atividade para treinar jogadas de ataque para superar um sistema defensivo. Se o próprio sistema é colocado como uma situaçãoproblema para que as crianças criem movimentações de ataque, o educador assume um papel de mediador nessa relação, orientando-as na busca das possíveis soluções, em um processo de construção conjunta. Em vez de repetir jogadas ensaiadas criadas por um adulto, as próprias crianças dão sentido às suas ações táticas, o que estimula a participação de todos como protagonistas no processo de aprendizagem. Promover a participação de todos nesse contexto incentiva também o senso de co-responsabilidade e de comprometimento social com a construção da realidade pautada pelo exercício de direitos e responsabilidades, e estimula a criticidade e criatividade de todos, a fim de formar indivíduos autônomos e independentes, competências necessárias para o desenvolvimento da emancipação. 43 A emancipação é favorecida quando, por exemplo, o educador que julga necessário que seu grupo desenvolva a habilidade de saltar, propõe uma atividade em que, em vez de alinhar as crianças lado a lado em um canto da quadra e solicitar que repitam o movimento demonstrado até o outro lado, oferece estímulos por meio de obstáculos que devem ser superados executando saltos que já conhecem, ou criando outros que julguem eficazes para a superação do desafio. Não é raro, neste último caso, observar uma variabilidade de saltos maior do que os educadores poderiam imaginar. Esse exemplo não quer dizer, entretanto, que nunca se deva oferecer modelos, mas pretende ressaltar a importância de estimular a criatividade das crianças, dando-lhes autonomia para buscar suas próprias respostas (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). Autonomia também para o educador, que não mais é visto como detentor e transmissor de todo conhecimento, mas que tem independência para transitar entre o ensinar e o aprender, que educa ao mesmo tempo em que é educado, agindo não mais de maneira determinista, mas fomentando a autodeterminação, sua e de seus educandos. Liberdade para a criança que, também como sujeito deste processo de ensinar e aprender, tem o poder – a possibilidade – de reinventá-lo para o prazer e para a diversão; que tem de apresentar, como único critério para participação, a curiosidade, a vontade de aprender sempre, e de criar o novo com base no conhecido. Autonomia para o próprio esporte, que permite a atribuição de diversos significados, exatamente por garantir a autonomia àqueles que o fazem existir, o qual, como elemento da cultura, assume seu papel no passado, contando a história da humanidade; no presente, identificando e transformando a realidade; e no futuro, anunciando novas possibilidades (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). No Brasil, de acordo com a Lei n.9.615/1998 (Lei Pelé), existem três manifestações sociais do esporte, segundo Tubino, que constituem-se em: 1. Esporte-performance ou alto rendimento. O Esporte-performance ou de alto rendimento não se vincula aos preceitos de democratização esportiva. Consiste no espetáculo esportivo praticado pelos talentos esportivos em grandes ”palcos”, sendo co-organizado com os meios de comunicação. Tem como objetivo obter novos êxitos esportivos nacionais e internacionais, a vitória sobre os adversários e a integração entre pessoas e comunidades do 44 País. É exercido sob regras institucionalizadas e regulamentadas internacionalmente, organizado em forma de federações e confederações que visam, por meio da racionalização, proporcionar espetáculos com quebra de recordes e busca do lucro; 2. Esporte-participação ou lazer é a dimensão mais relacionada com a democratização da prática esportiva, pois favorece a participação de todos. Relaciona-se com princípio do prazer/ludicidade. O esporte-participação tem relações íntimas com o lazer e o tempo livre e oferece oportunidade de liberdade na própria participação voluntária, gerando saúde e bem estar social dos seus praticantes. Exemplos: peladas e corridas no final de semana; 3. Esporte educacional: conforme a lei nº 9.615/1998 (Lei Pelé), é aquele praticado [...] nos sistemas de ensino e em outras formas assistemáticas de educação, evitando-se a seletividade a hipercompetitividade de seus praticantes, com a finalidade de alcançar o desenvolvimento integral do indivíduo e a sua formação pára o exercício da cidadania e a prática do lazer (BRASIL, 1998). Uma orientação educativa do esporte terá que se vincular obrigatoriamente a três áreas de atuação pedagógica: a de integração social, a de desenvolvimento psicomotor e a das atividades físicas educativas. Na área de integração social, deverá assegurar uma participação autêntica oferecendo aos educandos oportunidades de decisões na própria organização das atividades. Na área de desenvolvimento psicomotor, deverão ser oferecidas oportunidades de participação que respeitem o nível de habilidade motora dos educandos favorecendo a autocrítica, a auto-avaliação e conseqüentemente a auto-estima. Nas atividades físicas educativas, a prática esportiva deve favorecer a formação da personalidade e os processos de emancipação, e ser entendida como um caminho essencial para o exercício pleno da cidadania (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). Segundo documento do Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto-INDESP (1996) e Korsakas (2002), para o esporte constituir-se em ação pedagógica educacional é necessário alicerçar-se nos seguintes princípios: totalidade, emancipação, co-educação, regionalismo, cooperação e participação. 45 O esporte praticado sob o princípio da totalidade deve resgatar a unidade humana, entendendo o ser humano com suas emoções, pensamentos e ações, respeitando as individualidades e a diversidade. Assim, o processo de ensino e aprendizagem baseia-se na auto-referência, estabelecendo metas individuais coerentes com o nível de desenvolvimento das crianças, oferecendo desafios que possibilitem a auto-superação e a auto-avaliação, como estratégias para a elevação da auto-estima e do auto-conceito. A percepção da diversidade propicia o reconhecimento da heterogeneidade entre as pessoas, fundamentando a co-educação como processo de aprendizagem que vislumbre novos contatos com o diferente. Por exemplo, meninos e meninas, brancos, negros e indígenas, habilidosos e não-habilidosos, evangélicos e católicos. O compromisso é com a inclusão e participação de todos na aprendizagem do esporte, propiciando que aqueles que jogam bem ajudem os colegas com dificuldades e que ao receberem suporte dos professores e alunos sintam-se integrantes do grupo e motivados a aprenderem (ROSSETTO JUNIOR et al., 2006). Essa interação dos diferentes para a superação dos desafios durante o processo de ensino e aprendizagem favorece a cooperação entre os educandos e entre os professores e educandos. A resolução coletiva dos problemas estruturados no processo de aprendizagem estimula a participação de todos como protagonistas deste processo e não apenas como assujeitados da ação do professor. Para que os alunos se envolvam, compreendam e se comprometam, participando ativamente da construção das situações de aprendizagem é necessário alterar, adaptar, reduzir ou aumentar a complexidade dos jogos esportivos, interferindo nas regras, espaço, tempo, material e movimento (ROSSETTO JUNIOR et al., 2006). A co-gestão, co-responsabilidade e interação gerada pela resolução coletiva de situações-problema favorecem o reconhecimento e comprometimento como ator-construtor da sua aprendizagem, formação e, principalmente, da realidade de vida, conscientizando-se que esta realidade é possível de ser alterada a partir de ações fundamentadas na emancipação de seus atores sociais. 46 Emancipação que é favorecida quando o educador estimula os educandos a explorarem todos os cantos e frestas da experiência consciente, a testar os limites exteriores e a verificar as fronteiras do próprio eu. Assim, de acordo com Rossetto Júnior et al. (2006) entende-se que o esporte educacional consiste em ensinar para além das habilidades, técnicas e táticas, incluindo valores e conteúdos conceituais e atitudes adjacentes ao esporte, que permitam exercitar a cidadania plena. Para alcançar tal objetivo torna-se fundamental organizar o processo de ensino e aprendizagem distanciando-se da pedagogia diretiva, em direção a práticas pedagógicas mais abertas, que contemplem a concepção de aprendizagem construtivista, estimulando a participação ativa na construção coletiva (co-educação e cooperação) da aprendizagem, favorecendo o desenvolvimento total da criança e, principalmente, da sua autonomia. Por exemplo, se o educador tem como intenção que seu grupo desenvolva a habilidade de correr, propõe desafios e situaçõesproblema para que os alunos experimentem o correr em diversas formas, explorando todas as suas possibilidades de solucionar as questões, como propor que criem e explorem os diferentes jogos de pegador, em vez de dispor as crianças em longas filas solicitando que reproduzam modelos de correr pré-estabelecidos e estereotipados fornecidos de pronto pelo professor (KORSAKAS; DE ROSE JUNIOR, 2002). Para obter a motivação na participação dos alunos no esporte deve-se considerar que todas as crianças trazem consigo conhecimentos prévios e experiências vividas na sua família, escola e comunidade, que nos remete a pensar a criança como um ser cultural que é influenciado pelo meio em que vive. Logo, para tornar os conteúdos e a aprendizagem significativos é essencial reconhecer, validar e estimular o respeito às raízes e as heranças culturais da região (regionalismo), onde o novo não pode estar desconectado do já conhecido, reconstruindo e atualizando os conhecimentos já internalizados. Segundo Korsakas (2002, p.91) "o regional e o global interagem nesse ponto, sob o princípio do regionalismo, como uma maneira não só de resgatar as heranças culturais, mas de valorizá-las como parte da vida de cada um de nós." A partir da vivência dos jogos da cultura das crianças, os alunos são convidados a refletir sobre as práticas, contextualizando-os e tematizando-os em 47 relação aspectos sociais, históricos, culturais, econômicos, políticos, psicológicos e outros, transformando-os e reconstruindo-os para serem estudados e aprendidos de forma significativa às crianças na busca da emancipação. 2.1.4 O futebol no Brasil Como é de conhecimento da maior parcela dos brasileiros, o futebol está inserido na sociedade brasileira e também dentro do cotidiano brasileiro. Mesmo aquele que não gosta do esporte muitas vezes tem um time de sua preferência, e sempre torce para a seleção nacional na Copa do Mundo. Desde pequeno quase todo cidadão brasileiro conhece o futebol, e começa a se inteirar dele. Mas tudo isso tem uma origem (LIMA, 2009). Muito se discute, principalmente na historiografia atual, sobre o surgimento do Football no Brasil. A tese "oficial" é aquela que coloca o filho de ingleses Charles Willian Miller como o patriarca do futebol brasileiro. Em 1894, Miller teria trazido da Inglaterra, onde passara dez anos estudando, uma bola de futebol, e algumas camisas, e ensinou os sócios do São Paulo Atletic Club (SPAC) a praticarem tal jogo tão difundido na Bretanha (RAMOS, 1984). Outras fontes (CALDAS, 1997; SEVCENKO, 1994) dizem que o Football chegou ao Brasil com marinheiros ingleses em 1872, no Rio de Janeiro. Estes também afirmam que foram os trabalhadores ingleses das fábricas de São Paulo que trouxeram o futebol. Recentes estudos mostram que o futebol já era praticado no Brasil em diversos colégios. Em 1880 já se praticava o esporte no Colégio São Luiz, em Itu; em 1886 se praticava no Colégio Anchieta, no Rio de Janeiro; também no Rio, em 1892, se praticava o "esporte bretão" no Colégio Pedro II. Mas a data real do aparecimento do futebol no Brasil não interessa tanto, e sim o caminho que o esporte seguiu no Brasil em seus primeiros anos (SEVCENKO, 1994; HOBSBAWN, 1988; VOGEL, 1992). Sevcenko (1994, p.112) esclarece que o futebol se difundiu por dois caminhos "[...] um foi dos trabalhadores das estradas de ferro, que deram origem às 48 várzeas, o outro foi através dos clubes ingleses que introduziram o esporte dentre os grupos de elite". Pode-se dizer que autor tem certa razão. Realmente, o futebol no Brasil seguiu estes dois caminhos, mas tais caminhos também se cruzavam. Miller apresentou o futebol à elite paulista, e a sua aceitação foi rápida pelos clubes das diferentes comunidades. Ao mesmo tempo em que a elite começava a praticar esse esporte, o futebol se desenvolvia entre a classe operária, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo. O futebol se expandiu rapidamente pelo Brasil. Os diversos times dos operários das fábricas iam surgindo na várzea paulista, e os clubes iam adotando o esporte em seus quadros. Caldas (1988, p.14) afirma que: O primeiro grande jogo, aquele que empolgou a platéia, foi realizado em São Paulo, em 1899, na presença de sessenta torcedores [...]. De um lado, estava o time formado pelos funcionários da empresa Nobling; do outro, os ingleses que trabalhavam na Companhia de Gás, da Estrada de Ferro e do Banco (inglês). No final, um resultado sem novidades: vitória dos ingleses por 1 x 0. Os clubes de elite começaram a se organizar e a fazer partidas de futebol entre si. Os primeiros amistosos entre clubes surgiram em São Paulo nos anos de 1899/1900, com os clubes do São Paulo Athletic, Germânia (atual E. C. Pinheiros), Mackenzie e a Internacional, todos com sócios da elite paulistana e de várias origens, como americanos, ingleses e alemães. A partir daí, em 1902, surgiu a Liga Paulista de Football, com apenas cinco clubes, os quatro já mostrados acima e mais o C. A. Paulistano. A liga organizou o primeiro campeonato paulista de futebol, cujo campeão seria o São Paulo Athletic que possuía Charles Miller, o responsável pelo futebol no Brasil (LIMA, 2009). Ao mesmo tempo em que os clubes de elite se organizaram e montaram campeonatos, pode-se afirmar que os clubes da várzea, formados por operários das diversas fábricas que se expandiam nas crescentes cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, começaram a organizar campeonatos entre si também. Porém, as fontes documentais desses jogos, e até mesmo desses "scratches" praticamente não existem, devido a sua característica de serem times pobres. Ao longo do início do século XX irão surgir diversos clubes formados por operários das fábricas no Rio e em São Paulo, como o Bangu Atletic Club, no Rio de Janeiro; e os famosos Sport Club Corinthians Paulista e o Palestra Itália, em São Paulo. Porém, diversos outros 49 clubes de bairros operários existiam espalhados pelas diversas várzeas da cidade (SEVCENKO, 1994). No Brasil, segundo Caldas (1988), o Estado não se opôs à prática do futebol nos colégios, nem nos locais públicos. Assim fez também a Igreja, que chegava a incentivar a prática do esporte em seus colégios. Isso provavelmente ocorreu tendo em vista que a experiência inglesa de proibição do esporte não havia dado certo, além do que o esporte chegou ao Brasil com todas as suas regras já determinadas, não sendo motivo de preocupação para o Estado. As grandes Ligas, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, continuaram elitizadas até pelo menos a metade da segunda década do século XX. Entretanto, com a grande difusão que o football tomou no Brasil, conquistando as massas, as Ligas tiveram que aceitar times vindos da várzea em seus quadros. Nesse sentido Sevcenko (1994, p.115) entende que, O esporte havia se popularizado de tal forma, que agora não era, como nunca foi tanto, um esporte das elites. [...] tal como Londres, a cidade de São Paulo ficou até o final dos anos 20 dividida entre três agremiações arquiinimigas: o Paulistano, o Palestra, e o Corinthians. Cada final de Campeonato era como uma guerra civil na cidade. Com o tempo, os clubes de elite foram se desligando do futebol, principalmente com a popularização do esporte. Hoje em dia, talvez o único clube que era de elite e que ainda tem o futebol como seu esporte principal seja o Fluminense Football Club do Rio de Janeiro. Com a profissionalização do futebol brasileiro, a partir de 1933, muitos clubes de elite deixaram de praticá-lo em campeonatos oficiais, a exemplo do Clube Atlético Paulistano, maior campeão do período do amadorismo no futebol paulista, com 11 títulos (SEVCENKO, 1994). O Brasil pode ser visto como um continente possuidor de peculiaridades regionais representativas de uma nação complexa e heterogênea, onde as características sócio-econômicas e culturais entre as regiões são muitas das vezes diferenciadas ou contratantes. Consequentemente, ressalvando as diferenças regionais e admitindo a necessidade de um volume maior de estudos similares nos diversos estados brasileiros, verifica-se, ao analisar o quadro acima, o leque de opções possíveis de serem desenvolvidas para o fomento do lazer na sociedade. Desta forma, não confundindo com a filosofia de "dar pão e circo ao povo", vale 50 ressaltar que o lazer, como campo do conhecimento, ou área de intervenção, deve ser visto por parte dos gestores públicos como instrumento de enfrentamento dos problemas existentes da cidade, principalmente no que se refere ao processo de elevada exclusão social (GALINDO, 2006). 2.2 POLÍTICAS PÚBLICAS E ESPORTE O Esporte, quanto ao tempo, pode ser classificado em Esporte Antigo, Esporte Contemporâneo e Esporte Moderno. No Esporte Antigo, as Olimpíadas Gregas são a sua mais importante manifestação e já havia uma gestão realizada pelos Helenoices (sacerdotes gregos que eram responsáveis pela organização das olimpíadas ou jogos) e a sua divulgação ficava sob responsabilidade dos Arautos (gregos encarregados de divulgar os jogos). No século XVIII e primeira metade do século XIX, quando o esporte era principalmente apostas, o que existia em termos de gestão eram os promotores e os organizadores eventuais que realizavam a competição, que se encarregavam de realizá-la, eram eventuais e promocionais. O esporte moderno, surgido depois de Thomas Arnold, na Inglaterra (1820 até 1948) teve dois períodos distintos: o período do ideário olímpico e o do uso político-ideológico do esporte. Nestes dois períodos, como o Estado que dirigia o esporte, pode-se entender que foi nesse tempo que apareceu a gestão pública do esporte. O esporte moderno somente era entendido na perspectiva do rendimento, até o advento do Manifesto do Esporte, assinado em Tóquio logo após os Jogos Olímpicos de 1964. Este documento reconheceu pela primeira vez a existência de outras manifestações esportivas além do esporte de rendimento. O Esporte-Contemporâneo, existente desde o final da década de 1970, a partir do pressuposto do direito de todos ao esporte, este passou a ter como formas desse direito o Esporte-Educação, o Esporte-Lazer e o Esporte-Rendimento. O esporte-educação e o esporte-lazer passaram a constituir o chamado esporte-social e o esporte-rendimento, entendidos por ora, na formação do conceito de "esporte-espetáculo". A gestão do esporte-social, foco de ação desta tese, possui duas esferas: a pública e a privada. A esfera pública passou a fundamentar os esportes sociais, como um dever do Estado e a privada, que ficou a cargo das 51 organizações não governamentais promove os esportes sociais onde o poder público não consegue alcançar. Não é de hoje que acontecem discussões teóricas sobre as políticas públicas voltadas ao esporte e ao lazer. São temas recorrentes desde o final do Império e o início da República no Brasil, quando os esportes institucionalizados foram introduzidos na cultura local, inserido em atividades das elites. Logo ganhando status entre os membros das classes sociais mais baixas (operários), os quais tornaram o esporte uma prática popular (o principal exemplo dessa recorrência é o próprio futebol de campo). Ao me referir acerca de políticas públicas, esta é entendida como uma atividade que envolve a natureza pública e simbólica do poder, que, quando bem exercida, relaciona-se à disputa de idéias, de projetos e de concepções no espaço público, à concepção visual de todos. Assim, a intenção não é execrar o setor privado do esporte-social, haja vista sua contribuição ser de suma importância à temática trabalhada. Entretanto, é necessário enfatizar o papel de diversas organizações não-governamentais (ONG) que desenvolvem projetos de inclusão social através do esporte, as quais, não devem ser excluídas do estudo, pois, juntas, iniciativa privada, iniciativa pública e ações comunitárias, componentes do processo de redemocratização do Estado brasileiro, consagram a participação popular na gestão da "coisa pública" ao fundar bases para a introdução de algumas experiências que contribuíram para a ampliação da esfera pública no país. Segundo Freitas e Papa (2003, p.15-16 apud BARBERÁ et al., 2010, p.5): Tais experiências alteraram significativamente a relação Estado/sociedade na medida que criaram novos canais de participação popular, como é o caso dos conselhos de políticas sociais, que tem atuado na sua co-gestão. [...] Outro grande desafio é transformar suas deliberações em ações do poder público, ou seja, interferir na definição de ações, prioridades e metas dos governos e funcionamento de seus sistemas administrativos. Longe de afirmar que ambas se excluem, muito pelo contrário em alguns casos elas se permeiam tanto que fica difícil identificá-las, separá-las, como o joio do trigo. Essa distinção, fundamental para o desenvolvimento da democracia moderna, é, portanto, recente e, no caso brasileiro, até hoje mal resolvida. Entre nós, a esfera pública nunca foi, infelizmente, muito bem demarcada, delimitada e nossa história 52 mostra o quanto está nebuloso ainda esta definição. Principalmente, utilizando-se dos ideais já analisados por Da Matta et al. (1990 apud VAZ, 2001), quando determinados representantes políticos (com ou sem mandatos) distribuem farto material esportivo para as comunidades com fins eleitoreiros (notadamente bolas e uniformes de futebol), está-se a presenciar, nada mais nada menos, do que uma velha e ardilosa forma de se fazer política, manter os "currais eleitorais". Justificando a finalidade de um capítulo destinado a Gestão Pública do Esporte, como bem explica Pereira (1994 apud BARBERÁ et al., 2010, p.12) ao compreender o termo público e sua dimensão, destacando que: O termo público, associado à política, não é uma referência exclusiva do Estado, como muitos pensam, mas sim à coisa pública, ou seja, de todos, sob a égide de uma mesma lei e o apoio de uma comunidade de interesses. Portanto, embora as políticas públicas sejam reguladas e freqüentemente providas pelo Estado, elas também englobam preferências, escolhas e decisões privadas podendo (e devendo) ser controladas pelos cidadãos. A política pública expressa, assim, a conversão de decisões privadas em decisões e ações públicas, que afetam a todos. Acredita-se que as políticas públicas voltadas para o esporte e o lazer têm um papel fundamental na discussão sobre a atividade esportiva para a formação de crianças e adolescentes, pois é com o retrato da realidade vivida por distintos grupos sociais que podemos compreender até que ponto o esporte enquanto ação sócioeducativa, constituinte da educação básica, tem chegado ao alcance de crianças e adolescentes de camadas sociais que se encontram em vulnerabilidade de risco pessoal e social, num cenário legislativo em que seus direitos fundamentais, sociais e especiais são garantidos na Constituição Federal, Estatuto da Criança e Adolescente e Declaração Universal Dos Direitos Humanos, as quais trazem no seu bojo, a garantia de condições de vida a todas as crianças e adolescentes, independentemente de classe social, cor, sexo, ou credo religioso. De forma geral, os caminhos seguidos pelo esporte e pela educação física acompanharam, quase que em paralelo, os processos político-sociais desenvolvidos ao longo do terminado século XX. Portanto, foi um acompanhamento do fortalecimento do Estado Brasileiro, bem como, da crescente intervenção do Estado na sociedade em várias nuances. 53 A história institucional do esporte no Brasil tem seu início por intermédio da Lei n° 378 de 13/03/37, que criou a Divisão de Educação Física do Ministério da Educação e Cultura. Importante lembrar que alguns obstáculos foram colocados para impedir que o fenômeno de popularização do esporte comprometesse o espírito cavalheiresco do qual acreditava estar o mesmo revestido. Em seguida a esse acontecimento, surgiu em 1941 a primeira lei orgânica, o Decreto-Lei nº 3.199 – estabelecendo a criação pelo Ministério da Educação e Saúde do Conselho Nacional de Desportos (CND9) que incluirá o esporte como matéria legal a ser incorporada pelo Estado. Até o advento desta lei, o esporte era regido por entidades privadas, como os clubes, tendo estes, a partir de então, de se submeterem às determinações elaboradas pelo CND, cujo objetivo era "orientar, fiscalizar e incentivar a prática dos desportos em todo o país" (MANHÃES, 1986, p.124). Ainda segundo Manhães (1986) a referida lei (Decreto-Lei nº 3.199) objetivava mais o controle do que o incremento da prática esportiva, incentivando, inclusive, o esporte amador em detrimento do profissional. Vargas (1995) chama atenção para o fato da lei nº 3.199 ter sido a primeira a tratar separadamente o desporto da Educação Física, sendo estas duas atividades corporais compreendidas como específicas. Em 1970, a divisão foi transformada em Departamento de Educação Física e Desportos, ainda veiculada ao Ministério da Educação e Cultura. Em 1978, este departamento foi transformado em Secretaria de Educação Física e Desporto e assim permaneceu até 1989. O esporte, como pôde ser visto, torna-se um tema que será cada vez mais incorporado às políticas públicas. Compreende-se que o esporte contribui para a formação do indivíduo – do mesmo modo que se acreditou outrora que a Educação Física contribuiria – passando a ser considerado uma maneira de trabalhar o corpo mais apropriada à sociedade atual, que passa por enormes crises em relação às formas de interação dos indivíduos no meio social. 9 O primeiro presidente do CND, escolhido pelo então presidente Getúlio Vargas, foi João Lyra Filho. Para este, a Lei 3.199 de 1941, foi necessária no sentido de organizar uma prática que mostrava-se desregulada e sem diretrizes claras (MANHÃES, 1986). 54 O então presidente Fernando Collor de Melo, em 1990, extingue a Secretaria ligada ao Ministério da Educação e cria a Secretaria de Desportos da Presidência da República. Após a saída do presidente Collor, o esporte voltou a ser vinculado ao Ministério da Educação, com a Secretaria de Desportos. A partir de 1995, o esporte começa a ser mais priorizado. O presidente Fernando Henrique Cardoso criou o Ministério de Estado Extraordinário do Esporte, nomeando o ex-jogador de futebol Edson Arantes do Nascimento – Pelé (1995 a 1998), cabendo à Secretaria de Desportos do Ministério da Educação, ainda sob a direção de Marcos André da Costa Berenguer, prestar o apoio técnico e administrativo. Em março do mesmo ano, esta secretaria é transformada no Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto (INDESP), desvinculado do Ministério da Educação (MEC) e subordinado ao Ministério Extraordinário do Esporte. No dia de 31 de dezembro de 1998, foi criado o Ministério do Esporte e Turismo, pela Medida Provisória n° 1.794-8, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em seu segundo mandato. O INDESP passa a ser vinculado a este órgão. Em outubro de 2000, o INDESP é extinto e substituído pela Secretaria Nacional de Esporte. A década de 1990 representa um grande avanço na história, na legislação, nas pesquisas e nas discussões gerais sobre a infância. O período representa um marco, sobretudo na legislação, ao decretar leis que agregaram a educação infantil ao sistema nacional de educação, caracterizando-a como primeira etapa da educação básica. A partir dos princípios contidos sobre os direitos sociais, na Constituição Federal de 1988, cria-se a Lei nº. 8.069/1990 – Estatuto da Criança e do Adolescente (LEI federal..., 1996), que define as responsabilidades dos adultos em relação aos indivíduos em desenvolvimento em todos os setores da sociedade onde quer que se encontrem esses indivíduos. Dessa forma, o poder público passou a ter responsabilidade em relação às crianças e aos jovens, especialmente na oferta de educação para que se possa desenvolver a formação da cidadania nesses indivíduos. As garantias apresentadas pela Constituição Federal de 1988, em consonância com um movimento internacional que reconheceu os direitos da infância, aprovados na Convenção sobre os Direitos da Criança (ONU, 1990), 55 asseguraram no Brasil, através da Lei Federal 8.069, "Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)", "[...] os direitos à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária", além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (NASCIMENTO, 2003). A Constituição Federal de 1988, ao inserir no seu texto de forma inédita, deveres do Estado no que concerne à afirmação do Esporte e do lazer como direitos, assim como na sua perspectiva emancipatória, defende um conceito de cidadania que inclui, necessariamente, o direito a essas práticas sociais e exige o protagonismo do poder público na garantia de sua efetivação (BRASIL, 1988). Assim, a década de 1990 se caracteriza como singular, tendo em vista que diversas experiências de gestão pública, em situação de adversidade financeira e outras, conseguiram lograr êxito no encaminhamento de uma nova cultura política no Brasil que se encontra em construção. Assim, deixando um repertório de procedimentos, os quais, por um lado, "conseguiram" afirmar-se como alternativa ao neoliberalismo – fortalecendo a democracia com a inclusão da participação popular no processo de definição e fiscalização de políticas públicas de esporte, assim como da cidadania uma vez que há efetivação de direitos –, por outro lado, fica clara a necessidade de maior teorização desses novos fatos e valores políticos existentes na sociedade brasileira. Quanto ao desporto competitivo de alto rendimento/desporto espetáculo, confundem-se atribuições dos setores público e privado e como exemplo degradante disso, temos atribuída à escola o papel de "celeiro de atletas" o que compromete a sua autonomia pedagógica, submetendo-se as atividades curriculares aos ditames dos princípios e normas comuns ao desporto competitivo que são: o sobrepujar, comparar, selecionar, especializar, tecnificar, ganhar, competir – para a prática de poucos e a assistência passiva de muitos. Outro exemplo é o emprego de verbas públicas para o setor privado como ocorre nos gastos governamentais para assegurar os espetáculos de esporte da elite ou então, o esporte midiático para o público. 56 O compromisso político do Governo Federal com o esporte, no inicio da gestão do presidente Lula, foi traduzido na criação do Ministério do Esporte, que tem como missão "formular e implementar políticas públicas inclusivas e de afirmação do esporte e do lazer como direitos sociais dos cidadãos, colaborando para o desenvolvimento nacional e humano". Ao eleger a inclusão social como núcleo central de suas ações, a atual gestão se compromete em agregar força, de forma institucional, na direção da superação do quadro de injustiça, exclusão e vulnerabilidade social que caracteriza a estrutura histórica da sociedade brasileira. Assim, ficou estabelecido pela atual Gestão Pública brasileira, que o esporte é um direito de todos, consagrado pela UNESCO desde 1978. De acordo com as políticas dispensadas pelo Ministério do Esporte, a visão do esporte está fundamentada no preceito humano fundamental, a "cidadania", como garantia de um conjunto de direitos civis, políticos e sociais, não o dissocia – juntamente com o lazer – do direito à educação, à saúde, ao trabalho, à moradia, à segurança, à previdência social, à proteção da maternidade e da infância e à assistência aos desamparados. Portanto, o acesso às atividades esportivas é direito de cada um e dever do Estado. Assim, fica evidente se tratar de uma política pública que contempla igualmente o potencial econômico do esporte. Em sua cadeia produtiva, esta atividade ganha cada vez maior peso na formação da riqueza nacional, é importante fator de geração de emprego e renda e contribui também deste modo para a inclusão social. O atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro de 2003, separou as duas pastas, ficando o esporte com um ministério próprio. Agnelo Queiroz, então deputado federal, assumiu o recém-criado Ministério do Esporte em janeiro de 2003. Foi no Governo Lula que aconteceu o desenvolvimento de um programa neoliberal para o esporte. Partindo-se da hipótese central, de que o Governo Lula, através do Ministério do Esporte é um marco sem precedentes de reorganização do esporte no país, é evidente que a partir de suas deliberações, que questões antes secundarizadas, passaram a ser ordinárias. Quero destacar algumas ações públicas que orientam a consecução dos seus ideais políticos de inclusão social através do esporte e, como já disse, é o foco desta tese: 57 1. O Programa Segundo tempo; 2. Os projetos Esportivos Sociais e 3. O projeto Descoberta de Talentos. O Programa Segundo Tempo trata de esporte e lazer, destinado ao aproveitamento do tempo ocioso de crianças, jovens e adolescentes com a prática esportiva. Leva o praticante a ter noções sobre: atividades físicas, desportivas, de lazer e também de cidadania buscando-se a inclusão social e proporcionando a diminuição do fosso social tão presente em nossa sociedade. Há também a consecução do Plano Nacional do Esporte, no qual consta que no campo da inclusão, criou-se um turno a mais na escola, com reforço alimentar, reforço escolar e atividades esportivas. O esporte e o lazer passaram a ser idealizados como fatores de promoção de saúde, passando a ser encarado como algo fundamental, que deve estar presente no dia-a-dia das pessoas. Os projetos esportivos sociais usam como justificativa de que o esporte é uma atividade naturalmente cidadã, que afasta das drogas e tira crianças das ruas, conforme visão idealista do esporte. Contudo, a ideia utilitarista de inclusão social pelo esporte é anterior ao Governo Lula. Mas, é correto ressaltar, o grau de qualidade que esse governo dá, na medida em que transforma isso em política pública. Além desses projetos esportivos sociais, há também a busca por descoberta de talentos principalmente dentro do esporte-educacional, onde aqueles que despontam como potenciais esportivos são direcionados para os esportes de alto rendimento, fazendo parte de um banco de dados e trabalhados para no futuro fazerem parte de uma geração olímpica. Em fevereiro de 2004, o governo federal, através do Ministério do Esporte, edita a portaria n. 13, de 03/02/2004, que instituiu a I Conferência Nacional do Esporte, buscando discutir em todo o país o tema esporte. No Estado do Amapá, seguindo o mesmo modelo do governo federal, em seu primeiro mandato (2003-2007) o atual governador Antonio Waldez Goés da Silva, cria a Secretaria de Estado do Desporto e Lazer (SEDEL), através da Lei nº 0811, de 20 de fevereiro de 2004, que promove ações públicas do esporte e lazer. 58 Durante o primeiro semestre do ano de 2004, o governo estadual, entendendo a necessidade de se mapear as reais condições dos desafios e anseios no campo do esporte e do lazer no Estado, desenvolveu várias ações para estabelecer as diretrizes das políticas públicas para o esporte. Como resultado deste trabalho foi apresentado os Anais do I Ciclo de Conferências do Esporte no Estado do Amapá, cujo objetivo macro era delinear as fases iniciais das políticas públicas estaduais. Em 14 de novembro de 2007 foi sancionada a Lei Nº. 1139, que possibilitou ao Governo do Estado do Amapá à criação do Programa Bolsa Esporte, o objetivo da referida é incentivar atletas à prática de esportes olímpicos e paraolímpicos, sendo que o poder público por intermédio da SEDEL concederá apoio financeiro equivalente a um salário mínimo vigente, não podendo ser de menor valor que este. Assim, convém à SEDEL firmar convênios com as federações ou outras instituições que regulamentam a prática de cada modalidade esportiva, para definir critérios10 e competições para seleção de atletas. A mais recente política pública estadual que pretende trabalhar de forma socializada todas as ações voltadas à assistência social, trabalho e empreendedorismo, educação, meio ambiente, esporte, cultura e lazer direcionadas aos jovens amapaenses, é a descrita no projeto de Lei n.º 008 aprovado pela Assembléia Legislativa do Amapá em 10 de Junho de 2009 e sancionada pelo Governador Antonio Waldez Goés, em 19 de Junho do mesmo ano, o Projeto "Amapá Jovem". O "Programa Amapá Jovem" vai atender aproximadamente 162 mil jovens em todo Estado. O programa é coordenado pela Secretaria Extraordinária de Políticas para Juventude (Sejuv), e vai oportunizar a estes jovens participarem de ações de inclusão social e produtiva no mercado de trabalho. As atividades irão acontecer nos bairros e nos pólos credenciados pelo programa. Ao todo, são 80 pólos de apoio, 600 oficinas culturais, 320 núcleos de atividades esportivas, 160 projetos comunitários e mais de 10 mil palestras. A proposta é incentivar a qualificação profissional, estímulo ao empreendedorismo (como capacitação, 10 Dentre os critérios de seleção, o rendimento escolar, freqüência às aulas normais no ensino regular e a capacidade técnica dos atletas. 59 financiamento e orientação técnica), inserção no mercado de trabalho, intermediação de mão-de-obra, estágio remunerado e estágio curricular. 2.3 INCLUSÃO SOCIAL NAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE ESPORTE NO BRASIL Outro ponto que merece destaque na Política Nacional do Esporte é a tese da "inclusão social", necessária à superação dos indicadores sociais existentes com vistas à construção de uma vida plena e digna. A conquista pelo conjunto da sociedade do Estado Democrático de Direito impõe a presença do poder público como protagonista de políticas públicas sociais que afirmem a equidade e a condição humana como inalienáveis. A materialização da inclusão social pelo esporte, seja ampliando o acesso, seja promovendo a qualificação dos indivíduos que atuam no esporte nacional pela obtenção das condições necessárias à prática esportiva de qualidade, confirma-se nos projetos sociais esportivos em desenvolvimento no Ministério do Esporte, que buscam atender desde a criança até o idoso, oferencedo-lhes atividades diferenciadas e integradas, que abrangem todas as manifestações esportivas, mantendo sempre como preceitos fundamentais a "cidadania", a "diversidade" e a "inclusão". Aqui se encontra a justificativa para o desenvolvimento deste trabalho de pesquisa, ao direcionar olhar para o projeto social em funcionamento no Comando Geral da Polícia Militar, denominado "Campeões do Amanhã", que tem o objetivo de proporcionar meios para a inclusão social de crianças e adolescentes através da prática esportiva do futebol de campo. A história revela para a humanidade o caminho da exclusão social do ser humano. Se, no passado, o indivíduo com algum comprometimento era banido da sociedade através da morte, como faziam os gregos espartanos que atiravam seus filhos aos rochedos se apresentassem qualquer deformação física, hoje, este tipo de eliminação não é mais praticado, porém uma exclusão sutil acontece através das instituições, como cadeias, asilos e tantas outras que foram criadas com este objetivo: segregar o "diferente" da sociedade. "Enquanto a pessoa está adequada às normas, no anonimato, ela é socialmente aceita. Basta, no entanto, que ela cometa qualquer infração ou adquira qualquer traço de anormalidade para que seja desviante" (MARQUES apud MANTOAN, 1997, p.20) 60 Mantoan (1997) considera que a diferença é inerente ao ser humano, e reconhece a diversidade como algo natural, em que cada ser pode usar de seus direitos coletivos na sociedade, um novo conceito surge, denominado inclusão. Este é o termo que se encontrou para definir uma sociedade que considera todos os seus membros como cidadãos legítimos. Segundo a UNESCO (2006, p.6) o homem na sociedade passa a ser o alvo central dos questionamentos realizados. A noção de norma e normalidade é posta em causa. Se a competição entre os indivíduos e a desigualdade das condições como resultado das desigualdades dos talentos conduziram ao desenvolvimento econômico que se conhece, a sociedade começa a se inquietar com a ausência de comunicação entre os homens, com a existência de minorias cada vez mais numerosas, que conduzem cada cidadão a se interrogar sobre os objetivos da vida, sobre o "sentido da vida". Como em toda sociedade desenvolvida ou em desenvolvimento, há uma série de problemas sociais que caracterizam e encaixam coerentemente a temática da inclusão social, entre estes está a pobreza, a qual, segundo Caliman (2008, p.96) fundamenta a causa da pobreza em duas perspectivas. A primeira, a pobreza teria suas origens na índole dos indivíduos e, neste sentido, as condições de pobreza são procuradas nos atributos de raça, de cor da pele, de personalidade, de pertença cultural. Tal perspectiva já foi superada. Uma segunda perspectiva considera a pobreza conseqüência de variáveis estruturais como a instrução, a rende, as condições de saúde etc. [...] no avanço do capitalismo a verdadeira causa geradora da pobreza. [...] considera, de modo particular, as relações de dependência dos países subdesenvolvidos (de periferia) em relação aos países desenvolvidos (de centro), que se reproduzem em todos os níveis (organizacional, governamental, social, econômico e cultural), e ao mesmo tempo nega as reais possibilidades para um desenvolvimento autônomo, adaptado às circunstâncias e às particularidades históricas de cada um dos países dependentes. A principal conseqüência da dependência é a pobreza estrutural, ou seja, a pobreza gerada pelo próprio modelo de desenvolvimento que privilegia aqueles que participam dos benefícios da modernização (a burguesia aliada ao capital estrangeiro e os trabalhadores qualificados) e exclui aqueles que não participam (os excluídos, os desocupados, os culturalmente destituídos); (CALIMAN, 2008, p.97). Uma primeira objeção ao uso do termo exclusão é que ele seria para todos os efeitos práticos, sobreposto ao de pobreza. De fato, a noção de exclusão 61 aproxima-se do conceito de pobreza. Quando se utiliza uma concepção ampliada ou multidimensional de pobreza, a distinção tende a desaparecer. Entretanto, a utilidade do conceito de exclusão vem justamente das ênfases que a tradição de estudos sobre a pobreza tende a adotar. Uma concepção restrita de pobreza focaliza única e ou prioritariamente uma dimensão – a econômica – para explicar o fenômeno. A tradição da mensuração da pobreza pelo estabelecimento de uma linha de pobreza tem já quase um século. Apesar de se sofisticar ao longo dos anos, e de servir a vários propósitos no desenho de políticas, a ênfase excessiva ou exclusiva sobre um estado de insuficiência de renda que esta tradição adota, limita o âmbito, as possibilidades e a clareza sobre os limites das alternativas de intervenção. Um diagnóstico e uma estratégia consistente de combate à pobreza persistente deve mirar não apenas as diferentes dimensões materiais da pobreza, mas também – e talvez principalmente – para as diversas maneiras pelas quais, em diferentes situações e contextos, os distintos vetores da destituição se relacionam e se interpenetram, pois é aí que em grande medida se encontram os mecanismos de sua reprodução e permanência. Ou seja, criam-se certos circuitos e situações nos quais desigualdades de ordens distintas tendem a se sobrepor e se reforçar mutuamente, reproduzindo a pobreza e a exclusão social. Como exemplo, tem-se que a escolaridade da mãe está fortemente associada positivamente às chances futuras dos filhos na escola e negativamente à mortalidade infantil. Situações de fracasso escolar, precária inserção no mercado de trabalho, gênero e monoparentalidade também são dimensões que freqüentemente se sobrepõem. A situação de indivíduos pobres no mercado de trabalho, principalmente em contextos urbanos, também é um exemplo desse ciclo de reprodução da pobreza, dessa interação perversa entre circunstâncias desfavoráveis e dimensões da exclusão. Os indivíduos das classes populares se vêem obrigados a uma inserção precoce no mercado de trabalho. Dadas sua baixa qualificação e escolaridade e sua pouca – ou nenhuma – experiência, têm maior dificuldade de acesso aos postos de trabalho; os postos que conseguem são, geralmente, piores, não qualificados, mal-remunerados, em condições precárias e com uma jornada de trabalho mais extensa. 62 Nesse eixo temos uma aproximação entre os dois campos, sendo que os termos (pobreza e exclusão) podem ser usados como intercambiáveis, pois conceber a exclusão como um fenômeno dinâmico e com múltiplas dimensões é o que a distingue dos estudos sobre a pobreza, sejam os focados na mensuração de linhas de pobreza ou baseados na perspectiva de privações múltiplas. Mas a uma concepção mais complexa das dimensões materiais da pobreza – e principalmente de suas inter-relações – devem-se somar dimensões não materiais que, especialmente nos casos de pobreza extrema e persistente, são centrais para a sua manutenção e reprodução. Como aponta Raczynski (apud CARNEIRO; COSTA, 2003), a situação de pobreza inclui também aspectos menos tangíveis, ligados a atitudes, valores e condutas dos setores pobres da população. Nos núcleos resistentes de pobreza, a mera provisão de bens e serviços não é suficiente. A situação persistente de carência material vem freqüentemente acompanhada de atitudes, ditas "psicossociais" e relações sociais que limitam fortemente sua capacidade de se apropriar e fazer uso dos recursos, bens e serviços disponibilizados pelo Poder Público. De fato, freqüentemente a situação de intensa vulnerabilidade está associada a baixas expectativas quanto a suas possibilidades e as condições presentes e futuras de seus filhos, baixa auto-estima, resignação, ressentimento e subalternidade em relação a outros etc. Estes sentimentos ou atitudes, por sua vez, encontram-se enraizados nas relações que freqüentemente estes grupos têm com seu entorno e com setores não pobres. As atitudes individuais são moldadas a partir das experiências cotidianas nos grupos familiares e de vizinhos e nas relações com os outros setores sociais com que interagem (CARNEIRO; COSTA, 2002). A exclusão é produto do mundo contemporâneo e a baixa renda passa a ser um dentre um conjunto de outros elementos e condições que potencializam situações de risco e vulnerabilidades: isolamento falta de oportunidades de relacionamento, de intervenção, de vocalização. A exclusão é, portanto, algo vinculado ao cenário contemporâneo, pós-industrial, globalizado. Constitui a soma de várias situações de destituição e vulnerabilidade, configurando-se mais um processo do que uma situação estável. "A exclusão consiste na impossibilidade ou dificuldade intensa de se ter acesso aos mecanismos de desenvolvimento pessoal e 63 à inserção sócio comunitária e a sistemas pré-estabelecidos de proteção" (CARNEIRO; COSTA, 2003, p.19). Se do ponto de vista conceitual a definição de exclusão é complexa, para operacionalizar esse conceito o desafio é ainda maior. Pois, alguns estudos de natureza empírica concentram-se na análise de situações concretas de exclusão, sem uma preocupação de entrar no emaranhado conceitual. Outros estudos partem de uma definição de exclusão como ausência de participação de indivíduos e grupos em aspectos chave da sociedade e buscam verificar empiricamente tais questões, definindo indicadores e índices variados para medir a exclusão social (BURCHARD et al. apud CAPUCHA, 1998). Como afirma Capucha (1998), tanto estudos mais conservadores sobre pobreza, que se limitam ao uso de indicadores como baixa renda, até estudos que ampliam esse conceito, adotando um enfoque mais abrangente do que o anterior, não conseguem de fato compreender o fenômeno da exclusão. Ainda que o foco nas privações múltiplas amplie o arco de indicadores utilizados para mensurar a pobreza, o objetivo permanece na identificação de indivíduos sem recursos para participação. Medidas de exclusão social, por sua vez, envolvem a identificação não apenas daqueles indivíduos que carecem de recursos, mas aqueles cuja não participação emerge de fatores diversos, tais como discriminação, doenças crônicas, localização geográfica, identificações culturais. Embora o foco na ausência de recursos materiais permaneça central, não se esgotam aí as possibilidades de mensuração do problema. Todos os três enfoques (pobreza, privações múltiplas, exclusão), com ênfases diferentes, apresentam um campo comum de preocupações, relativo a formas de não participação na sociedade, processo explicado pela ótica dos constrangimentos do que por escolhas. Quando se focaliza o problema da pobreza e da exclusão sob o ponto de vista das políticas públicas, torna-se necessário utilizar outros parâmetros para medir pobreza que não a renda. Porque se o foco permanece nessa única dimensão, a solução em termos de políticas é apenas crescimento econômico. Este seria suficiente para acabar com a pobreza. Essa suposição otimista, de que crescimento econômico leva a redução da pobreza, é mantida por muito tempo, norteando as práticas políticas de países em desenvolvimento. Assim, segundo Capucha (1998) 64 estudos de correlação entre crescimento econômico e desigualdade tornam-se comuns a partir da década de 1950, e perduram até os dias de hoje, essa suposição praticamente não era questionada. Desta forma, ainda para Bursztyn (2000, p.20-21) o fenômeno da "exclusão social" decorreu de vários fatores, mas talvez o maior deles tenha sido o florescer capitalista que modificou a história nacional de muitos países, bem como a introdução de idéias neoliberais com intenções capitalistas, que conseguiu expurgar as consideradas classes inferiores dos quadros hierárquicos sociais, lançando-os ao considerado "meio sub-existencial de vida". Além do "meio sub-existencial", o autor trabalha, ainda, com questões que vão desde a sobrevivência até os problemas enfrentados por esta população economicamente excluída. "[...] a exclusão social tornou-se moeda comum para designar toda e qualquer forma de marginalização, discriminação, desqualificação, estigmatização ou mesmo de pobreza". De acordo com Pochmann e Amorim (2005) em seu "Atlas da exclusão social", o fenômeno da exclusão social está mais presente nas regiões do norte e do nordeste, ou seja, ausência de escolaridade e baixa possibilidade de ocupação, enquanto as regiões sul e sudeste apresentam outro tipo de exclusão, que é a violência e a presença de maior escolaridade não associada à possibilidade de emprego. Como se viu, a história revela as fases de exclusão onde a sociedade a transformou em atendimento segregado para a integração e, hoje, em inclusão. Porém, essas fases não se processaram sempre ao mesmo tempo, e nem com todos. A inclusão é um movimento com apenas um interesse: construir uma sociedade para todos. Mesmo sendo muito recente o movimento sobre inclusão, o conhecimento das diferenças que se apresentam em cada criança que será incluída torna-se fundamental neste processo. Hoje, o grande desafio é a elaboração de uma política educacional voltada para o estabelecimento de uma escola realmente inclusiva, acessível a todos, independentemente das diferenças que apresentam, dando-lhes as mesmas possibilidades de realização humana e social (RABELO, 1999, p. 20). No mundo ocidental, Rabelo (1999) esclarece que as últimas décadas do século XX, configuram-se como destacado momento da globalização da economia, 65 de valores e culturas, bem como momento de fortalecimento dos movimentos sociais organizados em defesa da inclusão e eliminação das situações de exclusão. Caliman (2008) colabora afirmando que tanto nos países tecnologicamente avançados, como nos países com baixo desenvolvimento socioeconômico, a pobreza não deixa de existir. Enquanto os países tecnologicamente avançados estão ocupados com a satisfação das necessidades emergentes, frutos do desenvolvimento do welfare state, os países pobres encontram-se ainda às voltas com a velha pobreza, a marginalização proveniente dos escassos recursos materiais e a falta de meios (como por exemplo, o trabalho) para garantir o incremento de tais recursos. O processo de marginalização11 pode manifestar-se em tipos diversos de marginalidade, conforme a condição social de pertença e o grau de desenvolvimento da sociedade. Convém salientar, com base em Caliman (2008) que permanece a importância da dimensão econômica como reguladora da exclusão social. Mas não é única. Existem outras dimensões por meios das quais é possível entender determinadas manifestações da marginalização e da exclusão social na contemporaneidade: a dimensão social; a dimensão social; a dimensão ecológica; a dimensão cultural; a dimensão política. Assim, ao se partir da dimensão econômica, pode-se distinguir outras manifestações do processo: a marginalização em relação ao mercado de trabalho; a marginalidade como privação de status e enfim, a marginalidade como condição de exclusão social. Há também, no caso da população juvenil, outras marginalidades como: marginalidade por pobreza, por desemprego, por falta de perspectiva de mobilidade social, por imigração e por desvio. A concepção da sociedade como dotada de um centro e de periferia implica a consideração da centralidade, na sociedade industrial e pós-industrial, do antagonismo das classes, das relações de produção e da organização da sociedade. O trabalho e as competências culturais, técnicas e profissionais úteis à inserção no mercado de trabalho tornam-se essenciais ao cidadão para a aquisição da renda, para a participação na sociedade; e a falta dessas competências provoca a sua exclusão social (CALIMAN, 2008, p.116). 11 A categoria analítica da pobreza-marginalidade estuda as populações especialmente em algumas de suas características: de reprodução da espiral de pobreza, de participação marginal no sistema produtivo, na economia informal composta pelas massas sobrantes; de percepções subjetivas da fatalidade da condição vivida; de dependência de um grupo de referência, que classifica e estigmatiza as populações pobres (CALIMAN, 2008, p.104). 66 Na gestão de políticas públicas brasileiras para o esporte, reconhecese a importância no desenvolvimento integral do individuo e na formação da cidadania, a garantia de acesso ao esporte, prioritariamente, à população carente e aos marginalizados constitui-se num poderoso instrumento de inclusão social, de favorecimento da sua inserção na sociedade e de ampliação das suas possibilidades futuras. No Brasil, o acumulo de experiências sobre ações e programas consolidados pelo Ministério do Esporte permitem demonstrar resultados visíveis sobre o combate à exclusão. A democracia, como valor fundamental, é mais uma tese que alicerça os princípios e diretrizes da Política Nacional de Esporte. Caracteriza-se como democrática a gestão que favorece o acesso às práticas esportivas e aos espaços apropriados, que estimula a participação popular com poder de decisão, que promove a organização de instâncias administrativas, a formação de conselhos, a descentralização da estrutura, da organização e da gestão, que assegura o acesso a informações, o planejamento participativo, a avaliação, o respeito a instâncias coletivas constituídas e defenda a transparência na gestão. O acesso ao esporte e ao lazer é direito de cada um e dever do Estado, pelo qual deve se garantir e multiplicar a oferta de atividades esportivas, competitivas e de lazer a toda a população, combatendo todas as formas de discriminação e criando igualdade de oportunidade, prioritariamente, à população carente e aos marginalizados, como negros, índios, deficientes, mulheres das camadas mais pobres. A garantia de acesso ao esporte será um poderoso instrumento de inclusão social, considerando sua importância no desenvolvimento integral do indivíduo na formação da cidadania, favorecendo sua inserção na sociedade e ampliando sobremaneira suas possibilidades futuras. 67 3 ENTRANDO EM CAMPO 3.1 O Estado do Amapá e sua capital O Estado do Amapá, além das circunstâncias geopolíticas compreendidas pela realidade amazônica e pela condição de se localizar no extremo norte do país, tendo sua posição geográfica ao norte fazendo fronteira com a Guiana Francesa, ao sul e ao oeste divisa com o Estado do Pará, ao oeste também com o Suriname faz fronteira e ao leste com o Oceano Atlântico. A configuração do mapa é de um losango imperfeito, tendo seus vértices dirigidos para os pontos cardeais. FIGURA 1 – Localização do Estado do Amapá Fonte: Governo do Estado do Amapá Atualmente sua distribuição político-administrativa resume-se em 16 municípios: Oiapoque, Calçoene, Amapá, Pracúuba, Tartarugalzinho, Ferreira Gomes, Porto Grande, Pedra Branca do Amapari, Serra do Navio, Cutias do Araguari, Itaubal do Piriri, Laranjal do Jarí, Vitória do Jarí, Mazagão, Santana e Macapá enfrenta, dentre tantos outros problemas, o crescimento desenfreado, acelerado e imediatista de suas cidades, principalmente de sua capital, Macapá, que 68 acolhe 55% dos habitantes do Estado (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA-IBGE, 2008), mas nem sempre foi assim. O primeiro censo realizado em Macapá foi em 1790, resultando em uma contagem de 2.532 pessoas e a sua população fica estável durante 29 anos, aumentando apenas 18 habitantes. O aumento da população urbana, o êxodo rural e a migração de outras cidades brasileiras, são dimensões que desafiam as políticas públicas, principalmente nas áreas de saúde, educação, segurança pública, esporte e lazer entre outras. A concentração urbana desordenada cria cada vez mais a desigualdade social; por um lado, o centro concentrador de benefícios e, por outro, a periferia desprovida de quase todas as ações públicas. Só para lembrar cerca de 90% da cidade de Macapá não possui saneamento básico, até mesmo em áreas consideradas de classe média (IBGE, 2008). O quadro periférico é ainda mais socialmente degradante, aglomerados de pessoas que vivem em "lagos ou baixadas", em condições sub-humanas, sobrando pouca ou nenhuma oportunidade de relações sociais, entre elas a prática do esporte e do lazer. Nesta perspectiva, surgem várias ações que buscam minimizar esse "fosso" social, dentre elas as políticas públicas destinadas ao esporte e o lazer, como forma de garantir os direitos sociais consagrados na Constituição de 1988. Com a transformação do Amapá em Estado, as políticas públicas locais passaram a se preocupar com as políticas desenvolvimentistas vigentes no país e ainda tão pouco em prática na recém criada unidade da federação. Quando as políticas públicas sócio-assistencialistas – ou seja, com o fulcro de alcançar a parcela periférica da população – não eram criadas pelo Governo do Estado, então aconteciam mobilizações por parte dos membros diretores dos órgãos do Estado para aplicá-las. Foi o que aconteceu no caso da Polícia Militar do Estado do Amapá, a qual protagonizou o surgimento de vários projetos sociais, que buscam a inclusão social de crianças e adolescentes através da atividade esportiva. Neste contexto, inserido está, o Projeto "Campeões do Amanhã", objeto deste estudo, que busca a inclusão social de crianças e adolescentes, dentro da faixa do chamado risco social. A juventude do Estado do Amapá passou a se beneficiar de uma série de projetos sociais geridos exclusivamente por órgãos da Administração Pública. Em 69 número, como bem demonstra o Quadro 1, a seguir, a realidade da juventude é crescente a cada ano que passa, visualizada tanto pela faixa etária como pelo gênero. Faixa etária Sexo masculino Sexo feminino 5 – 19 anos 54.243 54.569 10 – 14 anos 18.478 18.419 QUADRO 1 – Massa populacional – Gênero / Faixa Etária Fonte: Censo – 2007 (IBGE, 2008). Na cidade de Macapá – zona urbana, segundo o censo realizado em 2007 pelo IBGE (2008), são 54.243 (cinqüenta e quatro mil, duzentos e quarenta e três) habitantes do sexo masculino, entre as faixas de idade de 05 a 19 anos e, 54.569 (cinqüenta e quatro mil quinhentos e sessenta e nove) habitantes do sexo feminino na mesma faixa etária, demonstrando assim um claro equilíbrio entre os sexos. Ainda segundo o Quadro 1, disponível está a informação profícua para aplicação e análise do objeto do trabalho, a faixa etária compreendida entre os 10 a 14 anos torna-se quase igualitário em números: são 18.478 indivíduos do sexo masculino entre 10 a 14 anos; e 18.419 do sexo feminino na mesma faixa etária. A única diferença está no numero maior em 59 indivíduos do sexo masculino. Diante deste quadro, podem ser ressaltadas uma série de indagações, entre as quais, como anda essa "garotada" no que diz respeito a violência? E, o que fazem em seus momentos de ócio? Em terras amapaenses, a juventude enfrenta uma série de problemas, os quais apontam para as transformações que vêm ocorrendo na sociedade urbana brasileira e até mesmo no mundo. Temas como a globalização, a flexibilização do mercado de trabalho, a especialização e a sofisticação da mão-de-obra, a tendência a maior concentração de renda. Tudo isso, adicionada uma pitada de tempero brasileiro, reflete de maneira brutal a condição da juventude de todas as classes sociais e, na periferia, de modo particular. Esta garotada provavelmente está distante do perfil "da hora". E com poucas oportunidades disponíveis é difícil pensar na possibilidade de mudança desta situação em curto prazo. Concomitante às recentes dificuldades, conseqüentes das transformações atuais, observa-se a permanência dos velhos 70 problemas, antigos e conhecidos das gerações anteriores. Problemas de moradia, assistência médica e um sem-número de carências, já apontadas na descrição do cenário da periferia. A falta de lazer atinge a juventude de modo especial. Por se tratar de um período da vida em que o lazer e a companhia dos amigos são importantes. A partir da carência, os jovens buscam alternativas, é aí que surge um novo tema no perfil da juventude amapaense e brasileira, a violência. Uma das causas do crescimento da violência urbana no Brasil é a aceitação social da ruptura (não obediência) às normas jurídicas e o desrespeito à noção de cidadania. A sociedade, tanto a política como a civil, admite passivamente a violência dos agentes do Estado contra as pessoas mais pobres, e também, o não compromisso do indivíduo com as regras de convívio. Dessa maneira, há impunidade nos casos da tortura por parte da polícia como método de investigação; a ocupação de espaços públicos por camelôs e donos de carros; as infrações de trânsito; a incompetência administrativa; a imperícia profissional; a negligência causadora de acidentes e o desrespeito ao consumidor. Entre os cidadãos habituados a esses comportamentos, encontram eco as formas violentas de fazer justiça, como a pena de morte, e mesmo o fuzilamento sumário, linchamentos e castigos físicos. É freqüente a aprovação popular da punição violenta sem direito a julgamento. O tratamento da violência juvenil no Amapá em números é obtido a partir das publicações do Ministério da Justiça, sendo assim, a juventude é vitima e é autora de crimes dos mais diversos tipos, como demonstra o quadro a seguir. Tipo Homicídio Lesão Corporal Roubo Furto 2007 2008 2009 0 3 5 24 60 62 8 61 58 28 76 124 QUADRO 2 – Atos infracionais entre a juventude amapaense Fonte: Amapá (2009b). De acordo com as informações do Quadro 2, a juventude do Amapá nos últimos anos tem participado de vários tipos de delitos que geraram violência, alguns 71 gerando mortes (homicídio). De acordo com a Secretaria Especial de Desenvolvimento e Defesa Social (SEDDS), que disponibilizou os dados sobre os atos infracionais causados em Macapá, mostra que: em 2008 foram 3 e em 2009 foram 5 jovens vítimas de homicídio; em 2007 foram 24; em 2008 foram 60 e em 2009 foram 62 vítimas de lesão corporal; em 2007 foram 8, em 2008 foram 61 e em 2009 foram 58 vítimas de roubo; e 28 em 2007, 76 em 2008 e 124 em 2009 vítimas de furto. Bairro 2007 2008 2009 Total Bairros Zona Norte 12 136 177 Total Bairros Zona Sul 23 496 666 0 1 0 Zona Rural QUADRO 3 – Atos infracionais entre a juventude amapaense (nos bairros). Fonte: Amapá (2009b). O quadro 3 por sua vez mostra os dados disponibilizados pela SEDDS com informações sobre atos infracionais nos Bairros, divididos por zona norte (12 em 2007; 136 em 2008; e 177 em 2009); na zona sul, bairros atendidos pelo projeto “Campeões do Amanhã” (23 em 2007; 496 em 2008 e 666 em 2009); e na zona rural (1 em 2008). Destacam-se os Atos Infracionais cometidos por crianças, adolescentes e jovens na zona sul da cidade de Macapá, onde está localizado o Projeto "Campeões do Amanhã", sendo em número maior do que a zona norte. Os habitantes do Amapá são descendentes de negros, índios e brancos, cada tipo de descendente tem característica de sua região. Com toda essa mistura, o Estado ainda padece da discriminação, mesmo com um parque florestal avançado, recursos modernos em termo de medicina fitoterápica, comunicação, educação, quem sofre com essa discriminação são as crianças e os adolescentes. As famílias de poder aquisitivo têm os privilégios, uma boa educação, uma boa saúde, um bom salário, enquanto as famílias de aquisitivos baixos tudo falta para eles e são discriminados pela pobreza. Diante dessas informações, é que se vê a possibilidade e oportunidade de trabalho que a Polícia Militar tem em aplicar programas sociais eliminadores da 72 situação de risco social de quem participa atuando como redutores dos índices de mortalidade e de violência entre a juventude, e construtores de uma nova visão estratégica de crescimento humano e de inclusão social. 3.1.1 História da Polícia Militar A Polícia Militar do Estado do Amapá foi criada através da Lei n. 6.270, de 26 de novembro de 1975, pelo então Presidente da República Ernesto Geisel. Oriunda da Guarda Territorial (GT), que foi criada em 17 de fevereiro de 1944, pelo Decreto Lei n. 08, no governo do Capitão Janary Gentil Nunes, com o objetivo de garantir a manutenção da ordem pública do então Território Federal do Amapá. FIGURA 2 – Quartel da PM/AP Fonte: Alves (2010). Em razão da carência de uma força policial à época, voltada especificamente à Segurança Pública, organizou-se o Departamento de Segurança Pública e Guarda Territorial, responsável pela realização das diversas modalidades de policiamento, dentre elas a de Guarda da Fortaleza de São José de Macapá, onde funcionava o seu comando geral. 73 Na época da Guarda Territorial, seus integrantes realizavam todo o ciclo de policiamento, tanto o ostensivo, guardas identificados através de seus uniformes, viaturas e armamentos, quanto o investigativo, aqueles que eram encarregados dos inquéritos policiais e das investigações criminais, portanto realizavam o ciclo completo de polícia. Utilizavam para isso vários processos de policiamento tais como: a pé, motorizado, a cavalo e de bicicleta. Os guardas territoriais demonstraram ao longo dos anos o valor do pioneirismo diante das dificuldades enfrentadas, como falta de pessoal para cobrir todo o território, equipamentos adequados, armamentos etc... mas mesmo assim atuaram em todos os municípios existentes à sua época. Com o passar do tempo houve a necessidade de se adequar aos novos ditames legais exigidos pela ordem pública. Assim em 26 de novembro de 1975, foi criada a Polícia Militar do Território Federal do Amapá e aos membros componentes da extinta Guarda Territorial, foram-lhes dado o direito da livre escolha, ficar na nova Polícia Militar, através de uma seleção ou fazer parte da também criada Polícia Civil. Atualmente, a Polícia Militar do Amapá é um órgão auxiliar de assessoramento do Governo do Estado, de acordo com o Decreto nº 0147, de 23 de Janeiro de 1998, que aprovou o Regulamento de Lei de Organização Básica da Polícia Militar do Estado do Amapá. Tem como principal característica a manutenção da ordem pública na área do território estadual, é uma instituição permanente, força auxiliar e reserva do exército, organizada com base na hierarquia e disciplina militar, segundo o prescrito em regulamentação específica. Conta hoje, além do seu Estado Maior Geral, os órgãos de apoio: CSM/Mat e CFA e os órgãos de execução: O 1º 2º, 5º (BOPE) e 6º Batalhão de Polícia Militar do Amapá (BPMA), sediados na capital do Estado, o 3º BPMA, com sede no município de Santana, responsável pelo policiamento fardado no interior, o 4º Batalhão de Polícia Militar sediado no município de Santana, responsável pelo policiamento fardado nos municípios de Santana e Mazagão, e o 7º Batalhão de Policia Militar sediado no município de Porto Grande responsável pelo policiamento fluvial. O efetivo da PMAP previsto é de 5.600 (cinco mil) homens e mulheres. As atribuições das polícias militares são definidas no artigo 144 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, onde é predito que: 74 Art. 144 – A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos: § 5.º Às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública; aos corpos de bombeiros militares, além das atribuições definidas em lei, incumbe a execução de atividades de defesa civil. Em relação ao Estado do Amapá, sua Constituição no artigo 82 e seguintes declaram que: Art. 82. A Polícia Militar, órgão permanente e regular, força auxiliar e reserva do Exército, é dirigida por Comandante-Geral, nomeado pelo Governador do Estado, dentre oficiais da Corporação, do último posto. Art. 83. À Polícia Militar incumbe, além de outras atribuições que a lei estabelecer, o policiamento ostensivo fardado e preservação da ordem pública. Art. 84. Lei complementar de organização básica da Polícia Militar, estatuto, leis ordinárias e demais normas disciplinarão a organização, funcionamento, direitos, deveres e vantagens da corporação e de seus integrantes, respeitadas as leis federais concernentes (AMAPÁ, 1991). Nesses 34 anos de existência a Polícia Militar do Estado (PMAP), organizada com base na hierarquia e disciplina, vem cumprindo seu papel constitucional de manutenção da ordem pública e da paz social em todo o Estado. Apesar de agir preventivamente na contenção dos delitos que ameaçam a paz social, empregando as mais modernas técnicas de policiamentos, a PMAP também desenvolve, em suas instalações, por todo o Estado, vários projetos sociais, contribuindo assim com a sua função sócio-educativa de prevenção e transmite a milhares de crianças e adolescentes noções de civismo, acesso ao esporte, proteção contra as drogas e a violência. Seus projetos sociais já fazem parte do cotidiano da sociedade amapaense, os quais são: PROERD: o Programa Educacional de Resistência às Drogas e a Violência (PROERD) é uma iniciativa do Governo do Estado do Amapá, desenvolvido pela Policia Militar com apoio do Ministério Público Estadual, que visa orientar crianças de 09 a 12 anos a fim de prevenir quanto ao perigo do uso indevido das drogas e da violência e suas respectivas conseqüências. Os instrutores são policiais militares especificamente treinados, que com o apoio dos professores e utilizando-se de uma cartilha e lições lúdicas, estimulam as habilidades das crianças para resistirem às pressões ao uso de droga, estreitando o relacionamento entre policia, família e escola. Tais fundamentos 75 fortalecem as atitudes positivas das crianças em relação às autoridades e o respeito às leis, desmistificando propagandas comumente veiculadas, reforçando a idéia de que para se obter sucesso deve-se experimentar drogas em geral. Missão do PROERD: "Nossas crianças longe das drogas e de bem com a vida."; Peixinhos Voadores: com o objetivo de proporcionar atividade esportiva para os dependentes dos policiais militares, bem como da comunidade em geral, a escolinha de natação do Professor Mota vem ganhando novos alunos que já participam de competições internas; Campeões do Amanhã: tem como objetivo a inclusão social e regaste da cidadania de crianças e adolescentes em situação de risco social. O projeto iniciou em 21 de novembro de 2003 e atende cerca de 150 crianças e adolescentes de baixa renda, na faixa etária de 7 a 15 anos, regularmente matriculado na rede escolar. Além de oferecer uma prática desportiva saudável, momentos de lazer e socialização, ainda possibilita a essas crianças a participação em eventos sociais, como Semana do Meio Ambiente, Congresso Regional de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), passeios, torneios, participação no desfile de 13 de Setembro, entre outras ações que visam o exercício da cidadania. O projeto realiza diariamente suas atividades, nos períodos da manhã e tarde, no campo de futebol do Comando da Polícia Militar do Amapá; Cidadão Mirim: o projeto tem como objetivo geral contribuir para a educação política de crianças no campo da formação de valores democráticos. É um projeto social desenvolvido pela Polícia Militar, que consiste em selecionar adolescentes carentes de vários bairros, que tenham interesse, mantendo-os ocupados com atividades como: palestras educativas, prática desportiva, aulas pedagógicas, religião, cursos profissionalizantes, noções de vida militar, etc. A Polícia Militar do Amapá e o Banco do Brasil assinaram no dia 07 de janeiro de 2005, um convênio no qual o Projeto Social Cidadão Mirim, que possui atualmente mais de 800 crianças carentes matriculadas em todo o Estado, será beneficiado com a doação de 80 microcomputadores. Estes microcomputadores serão distribuídos em oito salas denominadas de TELECENTRO. A inauguração do PROJETO TELECENTRO foi realizada na Base Comunitária do Araxá com a presença do Governador Waldez Góes. 76 Estão em fase de instalação outros TELECENTROS nos núcleos do Projeto Cidadão Mirim do 2º BPM, Mazagão, Porto Grande, Pedra Branca do Amaparí, Amapá, Laranjal do Jarí e Serra do Navio. 3.3 CONHECENDO O CAMPO – O Projeto "Campeões do Amanhã" Em 21 de novembro de 2003, nascia em Macapá-AP, o Projeto "Campeões do Amanhã", fruto de um trabalho árduo e solitário do ex-atleta de futebol de campo, Aguinaldo da Costa Cardoso Júnior, paraense, com passagem pelos clubes de futebol de campo – Remo, Tuna e Paysandu, todos de Belém-Pará. Aguinaldo é acadêmico do curso de educação física da Faculdade de Macapá (FAMA), e busca, com a formação técnica-pedagógica, desenvolver novas estratégias para fortalecer as iniciativas de inclusão social pela via da prática desportiva. Acometido de grave acidente automobilístico, atualmente o professor Júnior, como é carinhosamente chamado por seus alunos, encontra-se em Belém do Pará em tratamento. FIGURA 3 – O Projeto "Campeões do Amanhã" Fonte: Arquivo da Polícia Militar do Amapá (2009). Nos dias atuais este projeto está sob a coordenação do Major do Quadro de Oficiais Policiais Militares (QOPM) Elias da Silva Teles, que é o coordenador geral dos projetos da Polícia Militar e tem como seu gerente de projeto o professor 77 Moisés Oliveira das Chagas. O projeto que hoje foi incorporado como política institucional é, na realidade, resultado da iniciativa de um atleta que encontrou uma forma de contribuir para que crianças e adolescentes pobres tivessem a oportunidade de praticar o esporte preferido de 09 entre 10 amapaenses, "driblando" assim, as desigualdades sociais. No início foram apenas 06 participantes, com idade variada entre 07 a 17 anos. As vagas foram abertas para ambos os sexos, mas naquele momento não despertou o interesse das meninas, ficando restrito à participação masculina. Quando foi implantado, não havia cobrança de mensalidades, mas eram aceitas contribuições, conforme a condição de cada aluno. A taxa girava em torno de R$ 10,00 e era utilizada para comprar materiais de uso dos alunos, como: bolas, coletes, tênis etc. À época, o principal parceiro do projeto era o governo do Estado, através da Polícia Militar, que além de disponibilizar as suas instalações, colocou a disposição sua equipe técnica de saúde, que dava apoio com o seu quadro de saúde, para atender as demandas dos participantes do projeto. Ano Dotação Autorizada 2004 R$ 2.187.336,00 2005 R$ 3.904.154,45 2006 R$ 2.873.330,12 2007 R$ 4.319.068,00 2008 R$ 6.609.999,00 2009 R$ 5.387.025,00 QUADRO 4 – Orçamento da PMAP Fonte: Amapá (2009c). A PMAP recebeu para sua manutenção os informes contidos no Quadro 3, os quais demonstram que: em 2004 a dotação autorizada pela Secretaria de Planejamento (SEPLAN) e pelo Governo do Estado do Amapá (GEA) foi de R$ 2.187.336,00; em 2005 foi de R$ 3.904.154,45; em 2006 foi R$ 2.873.330,12; em 2007 foi de R$ 4.319.068,00; em 2008, R$ 6.609.999,00; e em 2009 R$ 5.387.025,00. 78 Ano Dotação Autorizada 2004* R$ 67.336,00 2005* R$ 165.888,00 2006* R$ 24.013,00 2007 R$ 0,00 2008 R$ 201.308,00 2009 R$ 378.000,00 QUADRO 5 – Orçamento do Programa Policial Mirim (Projeto "Campeões do Amanhã") * O projeto estava inserido como ação social do Policial Mirim. Fonte: Amapá (2009). De acordo com os dados contidos no Quadro 4, pode-se afirmar que a PMAP após a autorização da SEPLAN/GEA iniciou o projeto investindo R$ 67.336,00 em 2004; R$ 165.888,00 em 2005; em 2006 recebe R$ 24.013,00; em 2007 recebeu R$ 0,00 o que gerou uma ruptura no desenvolvimento do Projeto; em 2008 recebeu R$ 201.308,00 e em 2009 a dotação autorizada foi de R$ 378.000,00. Já em 2004, o projeto "Escolinha de Futebol Campeões do Amanhã" é assumido como ação institucional do Comando Geral da Polícia Militar do Amapá, recebendo neste mesmo ano sua parcela orçamentária, como ação dos projetos sociais do governo do Estado, sendo discriminado na planilha de despesas orçamentárias como Policial Mirim com o objetivo de proporcionar atendimento a crianças e adolescentes carentes e em situação de riscos, com vistas a melhoria da situação de vida. No primeiro ano e meta era atender 350 menores carentes. Atualmente, são cerca de trezentas crianças e adolescente, entre 07 e 15 anos atendidos. Sua localização estratégica – no Quartel do Comando Geral da Polícia Militar do Estado do Amapá – zona sul, aproveitando a estrutura física existente, favorece a participação de meninos e meninas residentes em vários bairros da Cidade Macapá. 79 FIGURA 4 – Mapa de Macapá *Observações Alves, 2010. Fonte: Google Earth, 2010 É importante destacar que o participante deve estar regularmente matriculado em escola, preferencialmente pública, e seu desempenho é acompanhado pelos gestores do projeto com visitas constantes a escola e a interação com os professores. Segundo a instituição, o projeto tem o objetivo de "integrar a instituição militar com as demais instituições da sociedade civil, proporcionando uma atividade a mais através do esporte na modalidade futebol de campo". Dentre os objetivos específicos aparece com ênfase à preocupação com a socialização de crianças e adolescentes; ocupar o tempo livre. Entretanto, o que parece mais significativo é o desejo de promover a interação da instituição militar com outras organizações sociais, notadamente a escola e a comunidade. Assim, o projeto também se insere na estratégia de construção da imagem de uma polícia cidadã que para além da função repressiva, assume um papel de guardiã da paz social e da ordem pública. Essa estratégia favoreceria, também, a parceria entre a polícia e os segmentos sociais no enfrentamento da criminalidade. 80 Aliada às ações para (re) inserção social de crianças e adolescentes, o projeto constrói parcerias com clubes de futebol de Macapá, tais como o Canário Futebol Clube e o São José Esporte Clube, na perspectiva de disponibilizar os atletas que revelam maior talento, para participarem dos campeonatos federados nas diversas categorias existentes. Nesses 04 anos, 06 dos seus mais de 300, participantes foram chamados a participar de escolas de treinamento dos seguintes clubes: Flamengo/RJ (02), Vasco da Gama/RJ (01), Internacional/RS (01), Paissandu/PA (01) e no Clube do Remo/PA (01). Os participantes do projeto comparecem 03 vezes por semana no seu contra turno escolar e permanecem por 02 horas em suas atividades esportivas e educacionais, em horários compreendidos entre 08:30 as 10:30 horas pela manhã e de 15:30 as 17:30 pela tarde. A Polícia Militar do Estado do Amapá, de acordo com documentos pesquisados, declara que está em seus objetivos o bem estar social dos habitantes do Estado, através da prática esportiva dentro e fora das suas instalações, isso tem sido uma fonte de incentivo a todos que desejam praticar o esporte. Ao identificar os problemas que afetam as crianças e adolescentes da cidade de Macapá, acredita-se que essa pesquisa poderá contribuir para a diminuição do risco social ao qual essa parcela da sociedade amapaense está exposta. Nesse sentido, questiona-se a princípio, como promover a inclusão social e a cidadania através do esporte? Poucos fenômenos sociais têm tanta inserção na sociedade quanto os esportes e em se tratando de sociedade brasileira, amapaense, o seu destaque é o futebol. Dificilmente ficamos indiferentes às alterações de alguns eventos esportivos que provocam em nosso cotidiano uma sensível mudança, estou falando das competições Campeonato Brasileiro de Futebol e Copa do Mundo, principalmente e aqui no extremo norte o chamado "AMAPAZÃO". Contudo, os esportes, de forma geral, ainda não gozam da legitimidade social como demandas de políticas públicas, mesmo tendo sua afirmação legal na Carta de 1988. 81 Inegavelmente, a prática esportiva possui potencial integrativo, de comunhão, de pertencimento, de congregar pessoas em torno de si. Concordo que a prática regular do esporte pode contribuir para a saúde. Mas isso não implica em desconsiderar que práticas esportivas já foram e são ainda usadas de formas disformes do seu potencial social como, por exemplo: a afirmação de uma classe social sobre a outra, de um povo sobre outro ou para a afirmação de uma hegemonia político-econômica de alguns países. Também não podemos deixar de ver os riscos que a prática esportiva pode ocasionar a pessoas sedentárias que de repente, em nome da saúde, começam a praticar esporte ocasionalmente, se expondo assim a sérios riscos. Outro ponto a ser entendido claramente é a relação entre esporte e educação. O esporte pode ser e é uma ferramenta a mais na educação de crianças e adolescentes, mas há de se ter uma visão cuidadosa, de que o esporte também pode educar para um projeto de uma sociedade egoísta, competitiva, individualista, em que se busca a vitória a qualquer custo, em que os meios justificam o fim, em que a prática esportiva se resume na busca de resultados, em que o outro praticante é um inimigo que precisa ser vencido a qualquer custo e não apenas um adversário momentâneo na prática esportiva. Nessa concepção, aponta o chamado esporte de alto-rendimento ou esporte espetáculo, uma das dimensões do esporte moderno, como aquele que faz parte da instituição esportiva, os clubes, as federações e confederações, caracterizando-se pelo espetáculo, pelo mercado das práticas e dos produtos esportivos, mas esta não é a dimensão esportiva que estamos abordando neste trabalho. Nosso foco é dado à outra dimensão do esporte o chamado esporteeducacional ou esporte-educacão, onde o caráter lúdico da prática esportiva significa enfatizar o prazer que existe em se praticar qualquer modalidade esportiva. As práticas esportivas principalmente no espaço educacional ou em sua extensão como é o caso do projeto aqui em estudo, devem se configurar como momentos de lazer e não um campo de batalha. Assim podemos dar a oportunidade de participação de praticantes menos habilidosos, velozes, altos, fortes, quando o referencial da participação não é o rendimento físico-técnico, negando assim as 82 áreas de "dominação" do esporte de alto rendimento e proporcionando uma maior "inclusão social". Apontando para esse entendimento, e com base no referencial teórico já explorado no capítulo anterior, passamos a acompanhar o cotidiano dos participantes, onde o pesquisador ficou durante os meses de agosto, setembro e outubro de 2009 apenas observando os participantes sem intercessão nenhuma. Dessa observação podemos destacar alguns pontos que vão nos auxiliar no entendimento dessa pesquisa. A chegada: eles aparecem como se fossem formigas para o seu trabalho. Enfrentam as distâncias que os separam dos seus sonhos de várias formas, a pé, de ônibus, de carona, mas o principal meio de transporte são suas bicicletas. Não importa a distância o que eles querem é jogar bola, correr atrás da “redonda”. O início dos trabalhos é previsto para as 08:30 horas, mas lá pelas 08:00 eles já começam a aparecer, são "formigas" para o trabalho. Nesta época do ano, agosto/setembro, é o verão amazônico, nossa temperatura é em torno dos 35 graus, isso quando é a turma da manhã, aqueles que estudam no turno vespertino, quando a temperatura já está perto dos 38 graus, mas nada disso é empecilho, eles estão na busca dos seus sonhos. Há um banco de madeira na lateral do campo é lá que se reúnem, em muitas das vezes trocam inibidos cumprimentos, mas logo alguém aparece com uma bola e pronto tudo se transforma. O desenvolvimento: Esse alguém, normalmente é o professor M..., que com seu jeito suave, nunca alterando sua voz, comando com maestria esses sonhadores. Rapidamente inicia sua preleção matinal/vespertina e em seguida bota a molecada para jogar. É o que todos querem. Seu material de trabalho é precário, poucas bolas, coletes, cones etc... mas assim mesmo cria e demonstra como se deve jogar o futebol, não esquecendo nunca que ali estão os futuros "Campeões do Amanhã", mas não apenas no sentido restrito da palavra, mas na sua mais perfeita abrangência. Esse professor é um voluntário, não recebe nada, nenhuma forma de pagamento, para ser o treinador dos meninos sonhadores, mas mesmo assim ele está lá, firme em sua vocação, vivendo o seu papel social de ser uma ferramenta de transformação na vida de cada um desses "craques". 83 O intervalo: para quem parece ter uma bateria de energia inesgotável para que intervalo. É bola correndo desde o primeiro silvo de apito até o último e ainda tem as cobranças de pênaltis. Mas o verão amazônico é implacável, mesmo para aqueles meninos sonhadores que parecem ter uma energia inesgotável, é tempo de abastecer as energias e a única fonte disponível para isso são duas torneiras de água que servem para molhar o campo, que agora, para aqueles meninos são a única fonte de abastecimento naquele local. Uma tristeza. Água que com toda a certeza não está tratada como deveria estar, principalmente para esses sonhadores que se encontram em desenvolvimento corporal e ainda estão com o corpo em, digamos, pequena fadiga. Quantas dores de barriga poderiam ser evitadas se houvesse um, dois bebedouros de água potável por perto. Bem para esses sonhadores isso não é obstáculo, já se acostumaram. A saída: como "formigas" antevendo uma chuva, que não veio como num passe de mágica eles retornam, exaustos, felizes para suas casas da mesma forma como chegaram, sem muitos cumprimentos e já saem pensando nos próximos encontros com a bola e com seus sonhos. 84 4 ANÁLISE DO JOGO 4.1 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS É importante iniciar este capítulo entendendo que a análise do jogo é a demonstração da interação existente entre o coletivo e o individual, enfatizando as conseqüências da relação grupal nos aspectos educacionais, sociais e econômicos das famílias das crianças e dos adolescentes que participam do Projeto "Campões do Amanhã". Tais relações têm sentidos e intenções diferentes, as quais expressam que a cidadania está por toda parte, apropriada por todo mundo. Pensar dessa forma torna-se contraditório, pois num certo sentido indica que a cidadania ganhou espaço na sociedade, por outro lado, face à velocidade e voracidade das várias apropriações dessa noção, nos coloca a necessidade de precisar e delimitar o seu significado: o que entendemos por cidadania, o que a PMAP quer entender por isso. Destacando o seu caráter de estratégia política, a cidadania assume duas dimensões: em primeiro lugar, o fato de que ela deriva e, portanto está intrinsecamente ligada à experiência concreta dos movimentos sociais, tanto os de reivindicação de acesso à infra-estrutura básica e urbana (e aqui é interessante notar como cidadania se entrelaça com inclusão social), quanto os movimentos de afirmação de direitos mais abstratos como as de mulheres, negros, homossexuais, ecológicos etc., na organização dos quais, a luta por direitos (tanto o direito à igualdade como o direito à diferença) constituiu a base fundamental para a emergência de uma nova noção de cidadania. Em segundo lugar, o fato de que, a essa experiência concreta, se agregou cumulativamente uma ênfase mais ampla na construção da democracia, porém, mais do que isso, na sua extensão e no seu aprofundamento teórico, o qual não será esmiuçado nesse momento, visto que se intenciona observar de que modos a cidadania, estratégia política e social pode gerar inclusão social de crianças e adolescentes em condições menos favorecidas. Nesse sentido, pretende-se deste ponto em diante, com base nos dados obtidos com as entrevistas realizadas com pais, professores e crianças e 85 adolescentes participantes do Projeto "Campeões do Amanhã", identificar a realidade dos objetivos desta dissertação, os quais sintetizam o projeto de inclusão social, através de atividade de cunho esportivo, educativo e, sobretudo de exercício de cidadania no Estado do Amapá. 4.2 OS INDICADORES METODOLÓGICOS 4.2.1 O perfil social e econômico das famílias das crianças e dos adolescentes que participam do Projeto "Campões do Amanhã" Neste item, pretende-se demonstrar os resultados dos dados obtidos com a construção do perfil social e econômico das famílias das crianças e dos adolescentes que participam do Projeto "Campões do Amanhã". GRÁFICO 1 – Quantidade de filhos beneficiados por família Fonte: Pesquisa de Campo/2009. O Gráfico 1 mostra que no processo de caracterização das famílias beneficiadas pelo Campeões do Amanhã, observou-se, de início, que 60% dos núcleos familiares tem apenas 1 filho inserido, enquanto 30% possui até 2 filhos. Somente 10% foi beneficiada com a inclusão de 3 filhos. Aqui, considera-se família, o grupo de pessoas que reside na mesma casa independente dos laços consangüíneos, pois se acredita que, contemporaneamente, se consolida um processo de recomposição dos núcleos 86 familiares. Esse processo de recomposição rompe com o conceito de família nuclear burguesa, instituindo novos arranjos no interior das famílias. No diálogo com os responsáveis acerca das expectativas da inclusão de seus filhos na escolinha de futebol, buscou-se identificar convergências e/ou divergências quanto aos resultados estratégicos da proposta para vida dos participantes do mesmo. A intenção foi compreender as expectativas construídas pelos diferentes atores envolvidos no projeto. GRÁFICO 2 – Expectativas dos pais ao matricular seus filhos no projeto Fonte: Pesquisa de Campo/2009. Conforme demonstram os dados contidos no Gráfico 2, 44% dos pais estão mais fortemente preocupados em melhorar o comportamento social dos filhos; para 28% o comportamento social, o desempenho escolar e a boa saúde são expectativas igualmente relevantes. TABELA 1 – Qual a importância do projeto para você Qual a importância do projeto para você n. Tirar as crianças e adolescentes da situação de risco social 9 Promover a inclusão social 1 Formar atletas 4 Proporcionar um futuro melhor Tornar as crianças e adolescentes mais disciplinados Total Fonte: Pesquisa de Campo/2009. 13 3 30 87 Quando questionados sobre a importância do projeto, conforme Tabela 1, pais afirmam que o aspecto mais importante é proporcionar um futuro melhor para os participantes; 9 indicam tirar crianças e adolescentes da situação de risco como ação mais relevante; somente 4 destacam a formação de atletas como aspecto relevante; 3 argumentam que tornar os participantes mais disciplinados é a contribuição mais importante. Curiosamente, apenas 1 dos pais entrevistados referem-se à inclusão social como elemento indicativo de importância. Vale destacar que a inclusão social é apontada nos documentos oficiais do Comando Geral da PM como objetivo geral do Projeto "Campeões do Amanhã". Observou-se que tanto em relação às expectativas, quanto à compreensão da importância do projeto, os pais divergem das concepções definidas por seus formuladores. A perspectiva da inclusão social apontada pelos coordenadores não tem destaque na opinião dos pais, isso pode indicar que eles mesmos não se percebem como excluídos, ou ainda que estejam partindo de outra percepção de exclusão, que se relacionam as múltiplas dimensões, aí incorporados os aspectos matérias e/ou subjetivos. Esse não reconhecimento como excluído pode ser explicado, também, pelo próprio nível de renda das famílias entrevistadas. De fato, existe uma incongruência com a adequação do perfil econômico dos beneficiários do projeto, definidos nos documentos oficiais da PMAP. Os dados de rendimento do Gráfico 3 indicam que, entre as famílias dos entrevistados, 33% recebem entre 3 e 4 salários mínimos; 17% obtém rendimentos de 5 salários mínimos. Ou seja, 50% das famílias participantes do projeto possuem rendimentos que variam entre R$ 1.530,00 e R$ 2.550,00. Enquanto, outros 10% tem rendimentos superiores a 5 s/m, isto é, acima de R$ 2.550,00. Somam-se, então, 60% do total das famílias entrevistadas com esse perfil de rendimentos, ficando os outros 40%, incluídos na faixa de rendimentos compreendida entre 1 e 2 salários mínimos, o que sem dúvida é um percentual significativo de famílias com nível de rendimentos considerados baixo. 88 GRÁFICO 3 – Renda familiar Fonte: Pesquisa de Campo/2009. Considerando os indicadores de rendimento, conforme demonstrado no Gráfico 3, percebe-se que parcela expressiva do grupo de meninos entrevistados não corresponde ao perfil dos convencionalmente denominados de pobres, pelos institutos oficias de pesquisa. Em relação a essa questão, fica ainda mais difícil precisar a análise sobre a condição de pobreza dos meninos atendidos pelo projeto, uma vez que o mesmo não explicita sua concepção de pobreza, debate problemático no âmbito de inúmeros projetos e programas sociais. No entendimento de alguns analistas, a pobreza não pode ser definida apenas com base em critérios de insuficiência de renda. Segundo Machado (2007, p.31), "a pobreza é um fenômeno complexo, constituído a partir da articulação de múltiplas dimensões, sobre as quais não existe consenso entre os pesquisadores." Em meio à persistência do debate, o critério de renda ainda persiste com o indicativo fundamental para definição do conceito de pobreza, tal como tomamos como referência na análise aqui desenvolvida sobre o perfil econômico do grupo familiar dos participantes do projeto. É relevante destacar que embora não explicite a concepção de pobreza que orienta a definição dos critérios de participação e acesso ao projeto, o "Campeões do Amanhã", utiliza o conceito de exclusão social para demarcar os objetivos de sua ação institucional. Essa postura pode indicar um avanço expressivo, pois na opinião de Lavinas (2003, p.27), "falar de exclusão social é tomar um registro mais amplo que o de carência ou déficit de renda para informar o 89 debate sobre a pobreza. É transitar do universo das necessidades básicas e vitais para o espaço da equidade, emancipação e do pertencimento." Os dados sistematizados acima revelam um ponto importante para a análise do Projeto "Campeões do Amanhã". Considerando os níveis de renda das famílias beneficiadas, constata-se que as ações são destinas a um público diferente do definido no bojo do projeto, pois os critérios de rendimento não indicam um grupo que possua insuficiência de recursos para prover necessidades consideradas básicas. Não se trata de negar o direito de qualquer criança e/ou adolescente, independente de sua condição socioeconômica, à prática esportiva e as vivências lúdicas, mas de alertar para possíveis desvios no perfil do público prioritário da ação do projeto. É preciso cuidado, inclusive, para não cair nas armadilhas históricas das políticas destinadas aos pobres no Brasil, que possuem como marca a lógica que levou a sociedade brasileira a um espetáculo da pobreza, impedindo-a de traduzir direitos proclamados em parâmetros mais igualitários de ação política (TELLES, 2006). Ainda segundo a autora, tais práticas revelam o: [...] retrato perfeito de uma República oligárquica: um mundo em que a delimitação da dimensão pública da sociedade que, em princípio, a lei proclama e a institucionalidade garante, não tem força normativa diante das vontades privadas; em que a ordem legal não é para valer ou só o é quando torna-se instrumento de interesses pessoais (TELLES, 2006, p.118). Seguindo essa perspectiva analítica, é relevante questionar em que medida o "Campeões do Amanhã" foi, aos poucos, perdendo a característica de atender criança e adolescentes considerados pobres, o que tem rebatimentos na perspectiva de promover práticas de inclusão aí preconizadas. Nessa mesma direção é importante refletir, também, sobre as categorias de inclusão e exclusão, presentes no discurso institucional sobre o projeto. Nesse âmbito, é possível inferir a superficialidade analítica de tais categorias, utilizadas indistintamente no discurso político de diferentes setores da sociedade, via de regra, para legitimar suas ações e práticas políticas. Na perspectiva de aprofundar essas reflexões, verificou-se qual a concepção de inclusão social presente na fala dos pais e/ou responsáveis pelos garotos inseridos no projeto e que colaboraram com a investigação, conforme 90 gráfico abaixo. Para 43% dos pesquisados, inclusão social assume o sentido de sair da área de risco social; para 25%, o conceito refere-se a possibilidade de se construir um futuro melhor para si e para os familiares; para 16% dos entrevistados, o conceito reconhece os direitos e deveres fundamentais, ou seja, a relaciona com a cidadania contemplada na Constituição Federal do Brasil de 1988, e; outros 16% declaram que o conceito tem relação com a oportunidade de ser cidadão. GRÁFICO 4 – O significado de inclusão social na visão dos pais dos participantes Fonte: Pesquisa de Campo/2009. As informações levantadas com a pesquisa não permitiram precisar o que, de fato, significa a possibilidade de ter um futuro melhor. Em determinados momentos, foi possível crer que as possibilidades de futuro dizem respeito às garantias materiais, isto é, conquista de uma posição econômica "tranquila". Em outros, concluiu-se que a garantia de futuro se refere a manter-se longe das drogas, da violência, da criminalidade. Nesse sentido, "futuro" articula a possibilidade de construção de um projeto de vida, o que tem ampla afinidade com a proposta de inclusão social. 4.2.2 Avaliação do desempenho escolar12 O Projeto "Campeões do Amanhã" tem uma filosofia de trabalho que alcança todos os participantes, indistintamente, e esta preconiza a valorização dos 12 Neste momento, serão apresentadas entrevistas, as quais não terão seu conteúdo modificado. As perguntas do entrevistador estão em forma de negrito. 91 estudos acima de tudo. Em outras palavras, o participante só permanecerá no projeto se, ao término do bimestre escolar, as notas estiverem de acordo com as ordens, conceituadas positivamente, e se a freqüência à escola também tiver sido comprovada como permanente (nenhuma falta). Assim, foi realizada pesquisa para se obter informações sobre o rendimento escolar das crianças que participam do projeto, e o Gráfico a seguir expõe os resultados sobre aprovação no ano letivo de 2009. GRÁFICO 5 – Situação ano letivo de 2008 Fonte: Pesquisa de Campo/2009. Em relação à amostra realizada pelo Gráfico 5, pode-se visualizar que 85% dos alunos pesquisados, participantes do Projeto "Campeões do Amanhã", tiveram sua aprovação sem dependências no ano de 2008, por sua vez, 10% dos alunos foram aprovados com dependência; e apenas 5% foram reprovados. A pedagogia do rendimento orienta-se pelo processo de adultização da infância que, no esporte, pode ser exemplificado pela precocidade com que elas são submetidas a treinamentos e competições semelhantes ao contexto adulto, em que se despreza a riqueza das práticas lúdicas em nome de se preparar os futuros atletas. Como Rosa (2000, p.6) aponta: O tempo lúdico da infância, antes dedicado às tradicionais brincadeiras de faz-de-conta, que marcavam a diferença entre o universo simbólico infantil e as preocupações da vida adulta, vem sendo cada vez mais substituído por obsessivas práticas de culto à estética, à erotização precoce e à fetichização dos objetos que denotam status econômico e social. 92 O esporte infantil, nesse sentido, também assume a condição de objeto de desejo de crianças e pais, que o percebem como uma representação de status, percepção esta que alimenta a obsessão pelo consumo de uniformes e tênis iguais aos dos grandes atletas, que transforma o esporte em uma prática com cargas excessivas de treinamento, e que atribui responsabilidades adultas às crianças, como horários rígidos de treinamentos e fins de semana repletos de competições, sem sobrar muito tempo para brincadeiras livres ou outras atividades infantis. Ser criança passa a ser nada mais do que um estágio preparatório para a vida de verdade, em que a ludicidade cede espaço para a seriedade, em que o riso infantil é substituído pelo estresse. Reforçando essa idéia, é importante compreender a visão do professor sobre os alunos que participam de Projetos Sociais, como é o caso do "Campeões do Amanhã". Na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Amapá, localizada na Rua Jovino Dinoá s/n.º, Bairro do Trem, próximo do Quartel da Polícia Militar, auxiliou na compreensão da melhora do rendimento dos alunos participantes do projeto. A Professora JMMF, a qual relatou melhoras no rendimento dos seus alunos: Sim, os alunos participam do Projeto "Campeões do Amanhã", e acerca da conduta deles, só posso afirmar que eles não me dão trabalho não, eles são meninos super disciplina, eles prestam a atenção e têm um rendimento muito bom mesmo. Sim, eles têm condições sim de passar de ano e especialmente em todas as matérias. Sobre o ponto de vista social da relação deles com os demais colegas de turma, só posso dizer que eles são crianças normais. Eles brincam. Eles tem um bom entrosamento com todos, e é aquilo que eu disse, eles não são alunos agressivos, alunos que realmente prestam atenção e penso que o projeto vem somando muito com isso. Não ainda não tinha conhecimento não sobre os detalhes do programa da PM/AP, mas percebo que houve uma melhora nos alunos, até porque nas tarefas escolares a gente observa que eles são muitos empenhados mesmo. Sobre os pais, a presença deles em reunião, os pais do A... são mais presentes, do B... não, pouco vêm, só quando a gente chama o B... na escola é que eles vêm, mas nas reuniões quando são chamados eles comparecem. Sim eu credito que estes projetos podem facilitar um rendimento dos alunos no entendimento do seu papel como cidadão. Eu vejo que a criança que participa de esporte ou tem outra atividade, ela é uma criança bem desinibida, ela se comunica bem, ela não tem dificuldade de expressar aquilo que ela está pensando, aquilo que ela sente. Sim com certeza a atividade física é um 13 complemento na formação de cidadania, através do esporte . Em sua primeira resposta, a Professora JMMF empolga-se ao tomar conhecimento da participação dos alunos em um projeto social que trabalha com esporte. Anima-se também em descrever que os alunos são dedicados e esforçados 13 Professora JMMF, entrevistada realizada em 10/10/2009. 93 para aprender "[...] eles são meninos super disciplinados, eles prestam atenção e têm um rendimento muito bom mesmo [...]". Posteriormente, pode-se observar na descrição da professora que os alunos estão na escola para estudar e sabem que se não for assim a reprovação é certa. Mesmo assim, como crianças que ainda são, prezam pelo entrosamento com todos os demais colegas, o que leva a uma distração nas aulas devido a conversas, entretanto, o esforço e interesse nas pesquisas, o que os faz procurar a biblioteca, torna-os equilibrados em matéria de rendimento escolar. O equilíbrio ainda é mais evidente com a participação dos pais dos dois alunos referidos nas reuniões, o que mostra que em casa os conselhos são para uma educação construtiva, cientes da necessidade de melhora de condição da família e de um futuro melhor para si e para a própria família que irão construir. Os pais do B... são mais ausentes, vindo à escola somente quando são convidados, entretanto, não deixam de comparecer às reuniões. A participação dos pais é de fundamental importância para que se consiga obter uma melhor interpretação social do aluno na escola. A professora descreve a situação de seus alunos de uma forma bem cativante, mostrando que ambos possuem condições de não beirarem o "risco social", e nesta tarefa, o esporte, através do Projeto "Campeões do Amanhã", auxilia na educação que os meninos recebem da escola e da família para evitar que as drogas, o ócio e a baixa auto-estima os acometam. O atendimento dos adolescentes nesse caso requer a organização de vivências enfeixadas por uma proposta pedagógica curricular voltada para sua realidade e situação, a fim de que, sob acompanhamento e assistência de educadores, eles possam refletir, problematizar, dialogar, argumentar e interagir em situações planejadas e intencionalmente criadas em torno de sua problemática de vida, sem, no entanto, explorar-se diretamente os atos infracionais que lhes foram atribuídos. A educação é área privilegiada para fazê-los pensar, compreender o mundo que os cerca, conhecer-se melhor e desenvolver capacidade de crítica e de responsabilidade social. Assim, a educação é a dominação de ideias e práticas regidas pelas diferenças entre as diversas realidades sociais, que como bem analisado por Brandão (1981), a escola surge com o desenvolvimento do cristianismo na Antiga Europa para uma educação que salvaria almas, e isso perdurou até o final do século 94 XIX quando a educação vira fato social, um consenso harmônico que mantêm o ambiente social. Nessa luta para impedir a opressão e gerar libertação, a educação proposta pelo Projeto "Campeões do Amanhã" não se restringe somente aos valores esportivos. Pelo contrário, auxilia o sistema educacional escolar e o familiar, que essas crianças recebem, gerando motivação para buscarem uma nova profissão, um melhor desempenho escolar e social que lhes possibilitará uma rápida inserção na atual sociedade, repleta de valores dúbios, na qual sem uma base conceitual existencial, as crianças não conseguirão sobreviver. O projeto possibilita não somente a inclusão social, mas a conquista de auto-estima, que transformará uma concepção deturpada em necessidade de mudança social, comportamental e principalmente, a construção de uma nova mentalidade de si na sociedade globalizada em que estamos inseridos e lutando continuamente para não fugirmos aos seus moldes. A professora J... já sabe o que os órgãos públicos deveriam lutar em processo constante, lutar por uma infância mais valorizada, fundamentada nos valores morais, educacionais e sociais, priorizando não somente a Escola, mas também o esporte como uma estratégia formadora da personalidade das crianças que vivem a beira do risco social. Outra importante contribuição foi a da Professora MSBN, também da EMEF Amapá, que relatou a sua análise de rendimento escolar de um dos seus alunos, o GCA; 9 anos, recém aprovado na 4.ª série, ele é descrito em suas palavras de maneira a entendermos como o projeto social auxilia na construção da personalidade cidadã construtivamente. Enfatizamos as características importantes aos objetivos da dissertação: Pra mim, educadora, falar sobre a vida escolar, social do aluno GCA não é difícil. Até que ele é um menino bem dócil. O comportamento dele é bom, ele é ótimo. Ele participa das atividades escolares, ele faz suas tarefas. O problema dele, que eu acho é que ele tem uma pequena, pequena deficiência é nas faltas. Não sei se é porque ele tem problema de saúde, eu na verdade eu acho que ele tem. Ele é meio sensível, porque hoje ele está até com tersol, sabe, mas a mãe dele está sempre presente, ele é um bom menino. Ele cumpre as tarefas escolares, participa, socialmente ele é agregador. [...] A conduta dele é boa, ele brinca, não se envolve em confusão, briga essas coisas com as outras crianças. [...] sobre G. ir a biblioteca, isso pouco acontece. Entretanto, em minhas conversas com eles percebo que ele está mais consciente do seu papel de aluno, ele tem consciência disso de estudar. Ele é um menino esforçado. Ele tem assim algumas deficiências de aprender porque ele gosta de brincar, ele fica nas distrações, uma conversinha aqui outra acolá, mas ele tem consciência sim que ele tem que estudar. Não, não 95 tinha conhecimento de sua participação nesse projeto que funciona na polícia militar, chamado campeões do amanhã. Olha o que eu acho é que o esporte ele facilita, só que tem que deixar bem claro para as crianças, eu acho assim, que agente nota assim na escola, eles gostam mais do esporte do que aprender, a obter os conhecimentos, eles estão assim tocando mais para o esporte, porque qualquer horário vago, eles correm para a quadra, eles não querem outra coisa senão jogar bola, jogar vôlei, eles querem brincar. Minha opinião sobre o esporte ajudar na formação do cidadão, posso afirmar que ajuda sim, ajuda pelo fato de eles não ficarem só naquela questão do egocentrismo, quererem só para si, então eles tem que ter noção de participar, saber perder e ganhar. Isso a gente coloca justamente para eles não terem aqueles atritos, aquela briga, aquela confusão. Se respeitarem na hora do jogo, porque eles tem sempre aquele negócio de dizer assim, vamos lá no popular, dizer que o outro está roubando, então a gente tem que sempre conscientizar eles que é uma brincadeira, que eles estão brincando, que não há assim uma disputa séria. Tudo bem se ganhar, que vença o melhor, mas que eles não pensem em só ganhar14. Analisando-se as palavras da Professora MS, entende-se que GCA, de 9 anos, é um aluno de fácil interação educacional, por sua facilidade em receber os conteúdos ministrados em sala de aula e por ser um aluno exemplar para os demais alunos da turma. Sua participação na escola é eximia; mas, a professora acha sua saúde fragilizada. Entretanto, com o conhecimento do aluno no Projeto Social da PMAP, entende porque sua busca por aprender tem melhorado. Visualmente, a professora mostra-se curiosa em querer ampliar os horizontes do Projeto "Campeões do Amanhã" em sua escola, principalmente ao destacar a importância do esporte como auxiliador na formação da personalidade dos alunos e na formação de uma personalidade cidadã, que luta por seus direitos com respeito e com visão consciente do seu papel construtor da coletividade e não apenas da individualidade. Diante dessas evidências, a pergunta a ser feita é: seria possível, dentro de uma conjuntura de subdesenvolvimento, alcançar índices sociais tão significativos sem a presença do Estado na implementação de políticas públicas e, neste caso, de esporte, com a perspectiva de inclusão e redistribuição de riquezas enquanto direito individual e coletivo? A esse respeito, Marshall (1963) observa que o direito está vinculado a três categorias: direitos civis, direitos políticos e direitos sociais. Tais direitos surgem dentro de um processo histórico. Os direitos políticos, segundo Marshall (1963), relacionam-se com o exercício do poder político: votar e ser votado. Esses direitos se desenvolveram no século XIX e estão relacionados com a organização da classe 14 Professora MSBN, entrevistada realizada em 10/10/2009. 96 operária da França e Inglaterra. Por último, os direitos sociais, que se referem a um mínimo de bem-estar e dizem respeito ao serviço social e ao sistema educativo. Em sua entrevista, GAC expõe o seguinte quadro: Para mim o Projeto "Campeões do Amanhã" é bom, ensina as crianças que não sabem jogar bola, também eu aprendi muito lá como professor Moisés. É isso é muito bom. Tenho 9 anos e jogo como zagueiro. Torço para o Flamengo. Antes do projeto, bem eu era meio brigão um pouco, mas ele me deu condições de melhorar. Minhas, ah! boas elas não são, mais ou menos, tenho notas entre 16, 17 e 18 pontos. Eu vou a biblioteca, mas os meus colegas não estão querendo vir mais para cá pesquisar. Sei que para ser um bom atleta eu preciso estudar 15 bastante . Como se pode entender a partir das respostas de GAC, a escola é percebida como fundamental para seu desenvolvimento como pessoa e como cidadão, principalmente porque antes de entrar para o Projeto "Campeões do Amanhã", seu comportamento era de valentão da turma, brigão, o que foi mudado com os conselhos do Professor M..., Coordenador do Projeto "Campeões do Amanhã": O professor M... me ensina que a atividade de esporte, o futebol pode sim me melhorar para melhor. Com certeza. O Professor fala que tenho que jogar mais e falar menos. [...] Os meus pais freqüentam as reuniões do projeto. Somos 3 irmãos. Meu pai trabalha e minha mãe está procurando emprego. O trabalho da minha mãe é tomar conta de nós, que já dá um trabalhão, principalmente do meu 16 outro irmão . Assim, GAC ao falar sobre o Professor M..., mostra que este possui um papel muito importante, o de dar conselhos que auxiliam na formação do caráter, que dão confiança às crianças e adolescentes a não participarem de delitos infracionais como o roubo, a negarem as drogas, enfim, são conselhos que o faz “[...] jogar mais e falar menos [...]”. O Trabalho do projeto é de suma importância para a família de Gabriel, visto que estes participam das suas reuniões, mostrando assim o interesse e a vontade de que os filhos não façam parte das estatísticas da marginalidade que não pára de crescer no Estado do Amapá. O rendimento de GAC é regular, suas notas no ano de 2009 ficaram em torno de 62 pontos em Língua Portuguesa (média de 15,5 por bimestre) e 68 pontos em Matemática (média de 17 por bimestre), como bem demonstrado na Tabela 1. 15 16 Aluno GCA, entrevistada realizada em 10/10/2009. Aluno GCA, entrevistada realizada em 10/10/2009. 97 Diante da realidade analisada anteriormente, para afirmar a melhora no rendimento escolar dos alunos que participam do projeto, apresentamos no quadro a seguir informações sobre o ultimo ano letivo, visualizadas a partir da análise dos boletins escolares dos alunos participantes do Projeto "Campeões do Amanhã". GRÁFICO 6 – Rendimento escolar dos alunos que participam do projeto *Baseado na análise dos boletins escolares do ano letivo. Fonte: Amapá (2009a), Macapá (2009) e Alves (2009). O Gráfico acima expõe que 95% dos alunos participantes do projeto foram aprovados, e 5% foram aprovados com dependência em matérias que não são de carga horária prolongada, como matemática e língua portuguesa. Além de analisar os dados, conseguiu-se obter informações sobre rendimento escolar com os alunos, como eles visualizam sua participação na escola em que estão estudando, diagnósticos na melhora do rendimento escolar e, por fim, a relação do Projeto Social com o rendimento escolar, social e familiar. Sob esse enfoque, analisa-se a entrevista de AAC, participante do projeto há um ano, Sobre o Projeto "Campeões do Amanhã", penso que ele é bom ele incentiva a gente a fazer mais coisa, a sair da rua. Ele te incentiva a respeitar mais as pessoas. O que o professor M... fala que nós temos que ter mais educação. E quando estou participando lá, me sinto um cidadão melhor. Me sinto melhor e me relaciono bem com meus amigos. Brigo menos na escola. Faço todos os meus deveres de casa. Tenho 11 anos, jogo no meio de campo. Na escola, vou sim a biblioteca, faço todos os trabalhos, os meus pais participam das reuniões da escola e do projeto. Acho o projeto importante, porque eu vou ser um grande jogador de futebol. Mas sei que para ser um grande jogador de futebol, tenho também que ser estudante, para ser melhor. Lá no projeto tenho muitos amigos, o 98 mais amigo deles é esse daqui. [...] B... [...]. para mim, o que pode melhorar aqui 17 no projeto é o banheiro para a gente usar . A entrevista obtida com AAC, revela em primeiro plano, o desenvolvimento de um estratégia comportamental modificada graças à aplicação proveitosa e eficaz de um Projeto de Política Pública Governamental. Analisando-se o primeiro plano, o Professor M... é uma liderança no projeto que tem a função de encaminhar a função desportiva, as regras do jogo e, principalmente, fundamentar a consciência da coletividade e do desenvolvimento humano associado ao esporte. Para o aluno, o projeto lhe permite ser uma pessoa melhor e o auxilia a se relacionar melhor com seus amigos. A prova dessa melhora é que não participa mais de brigas, faz todos os deveres de casa e tem sua auto-estima voltada para ser um grande jogador de futebol e um cidadão com direitos e respeito. Entretanto, a entrevista de AAC mostra também que o projeto não é um "céu de deleite" na visão de todos os alunos, há problema de ordem estrutural que somente uma investigação criteriosa identifica. O aluno ao ser questionado sobre o que pode ser melhorado no projeto declarou que o banheiro precisa ser melhorado. Como se observa, esse aspecto fundamental da vivência humana com dignidade merece atenção, mostrando que existem graus de cidadania. Para muito brasileiros, a reivindicação é a busca por direitos, e o direito a fazer suas necessidades fundamentais elementares em um banheiro adequado é uma luta que A... relata como sugestão para melhorar o quadro de trabalho do projeto social. Atender essa necessidade será a mais pura afirmação da busca de cidadania. Ele sente que merece, que o projeto não é um favor ao qual ele só tem a agradecer, ele merece mais do poder público, nos dando o caminho para o reconhecimento do seu direito. É desagradável interpretar que a cidadania não está sendo alcançada e exercida por estas crianças e adolescentes do Projeto "Campões do Amanhã", pois são tratados como pré-cidadãos, sem direito ao básico do básico, banheiro para suas necessidades fundamentais; percebe-se assim a ausência de espírito republicano, mostrando que o que não serviria para nossos filhos serve para os pobres. Outra entrevista a ser analisada é a de BAS, 11 anos, que estuda na EMEF Amapá; ele conta que o futuro para si é ser um jogador de futebol, e mais: 17 Aluno AAC, entrevistada realizada em 10/10/2009. 99 Eu penso no futuro ser jogador de futebol. Lá no projeto tenho condições de ser isso. Ele ajuda muito. Acho importante o estudo para ser um bom jogador de futebol. Por isso sou bom em Matemática, Português, História e Ciências. Tenho boas notas no colégio. Sou mais disciplinado, e tenho uma boa relação com os moleques daqui. O professor M... fala que tem que ter educação, respeito e disciplina. Falar isso para ser cidadão melhor. Lá tenho amigos, o AA é o meu melhor. Jogo como Zagueiro. Na escola tenho ido mais a biblioteca, me relaciono melhor com meus amigos de turma. Tenho respeitado muito os meus pais, até porque eles vão muitos nas reuniões e conversam lá com o Professor. O projeto tem me ajudado sim a ser uma pessoa melhor, a ser um jogador melhor e ter um futuro trabalhando. É um projeto que tá me dando condições de saber respeito, disciplina. Ultimamente tenho ido pro projeto de short, meião, camisa e com minha chuteira e vou a pé. Moro só um pouquinho longe. Vou 3 vezes ao projeto por semana. Para melhorar o projeto, sinto que poderia ter um Banheiro melhor, a água, o campo e tudo18. A entrevista realizada com BAS é repleta de significados que auxiliam a interpretar a objetividade da temática desta dissertação. A iniciar pela sua resposta sobre a representação do projeto em sua vida, ao afirmar pensar no futuro, sendo um jogador de futebol. O futuro é a mais pura representação de esperança, de autoestima, de certeza de que o projeto lhe proporcionará meios para conquistar o seu desejo. Entretanto, o aluno entende a importância dos estudos nos dias de hoje, e inclusive para a formação de um jogador de futebol de sucesso. Na escola, seu relacionamento com os colegas é bom, e no projeto, esta relação se estabelece em definitivo, criando laços afetivos de amizade que perdurarão por toda a existência, como quando cita o aluno A como seu melhor amigo. Assim, BAS mostra que se sente uma pessoa melhor, o que é comprovado também ao afirmar que o projeto dá informações para ser um jogador melhor e ter um futuro trabalhando. Aqui pode-se extrair um sentido para a relação entre trabalho e cidadania que merece ser aprofundada, pois assim como o aluno A, o BAS apresenta uma série de problemas estruturais que demonstram a importância de se respeitar os direitos dos alunos à cidadania, enumerando como principais melhoras a serem feitas no projeto o banheiro, a água para beber e o campo. A falta desses itens básicos de sobrevivência e de dignidade humana demonstra que a cidadania, assim considerada – conclui brilhantemente o Prof. JAS –, "consiste na consciência de pertinência à sociedade estatal como titular dos direitos fundamentais, da dignidade como pessoa humana, da integração participativa no processo do poder, com a igual consciência de que essa situação 18 Aluno GCA, entrevistada realizada em 10/10/2009. 100 subjetiva envolve também deveres de respeito à dignidade do outro e de contribuir para o aperfeiçoamento de todos". Vestir a camisa de cidadão, então, é ter consciência dos direitos e deveres constitucionalmente estabelecidos e participar ativamente de todas as questões que envolvem o âmbito de sua comunidade, de seu bairro, de sua cidade, de seu Estado e de seu país, não deixando passar nada, não se calando diante do mais forte nem subjugando o mais fraco. A entrevista realizada com o pai de B, Senhor WCCM, 49 anos, expressa bem a intenção que seu filho tem a partir da sua entrada no Projeto "Campeões do Amanhã", e a sua melhora no campo escolar. Em primeiro lugar eu vou dizer que a unidade é muito boa faz um bom trabalho, e tanto prova disso que eu estou trazendo aqui o meu outro filho, ele está aqui presente, que eu quero ver se ele faz parte desse projeto, que através disso muito melhor faz para as crianças. Observo que há uma melhora comportamental. É uma mudança mesmo geral, isso é muito bom, tanto é que a ida dele lá para a Polícia o ajudou a ficar uma pessoa mais séria. Porquê antes ele era até muito solto, agora ele está uma pessoa mais segura, até na própria escola já fica mais ativo, fica mais bem seriamente, é um trabalho muito bom, a gente como pai vê a diferença da criança. Na escola, antes ele tinha algumas chamadas, mas agora ele é um bom aluno, coisas de criança, mas desde que ele está no projeto nunca mais fui chamado. Tem tirado boas notas sim. Olha sobre leitura ele é meio lento, mas é por causa do jeito dele mesmo assim, mas ele tem melhorado cada vez mais. Olha na minha visão que eu tenho ele é mais interessado no projeto Campeões do Amanhã, assim ele sempre me pede para comprar uma chuteira, ele quer ficar mais visado no projeto, e pelo que ele fala ele quer ser um jogador de futebol. O que quero e falo sempre para ele é para ele estudar, porque é fundamental. Não, não participei de nenhuma reunião, esta é a primeira vez que estou participando. [...] Não o que eu queria dizer é que estou aqui com o meu outro filho e sei que o projeto lá é muito bom e queria saber como é a possibilidade de colocar esse meu 19 outro filho lá? . Como se observa na fala do pai de B, WCCM, o projeto é uma porta para a mudança da situação comportamental dos filhos frente à sociedade, à família e à escola. Tal assertiva indica que o projeto tem resultados positivos, o que se comprova pelo fato de que o pai quer inserir o seu outro filho para melhorar sua conduta como ser humano. Em se tratando do B..., o filho que participa do projeto, o pai afirma que aconteceram mudanças positivas no comportamento do filho. O filho tornou-se uma pessoa responsável e passou a tratar a vida com respeito e segurança a partir do trabalho social e psicológico realizado com os coordenadores do projeto. Como conseqüência, atesta a melhora do caráter em todos os sentidos, 19 Pai WCCM, entrevistada realizada em 10/10/2009. 101 tanto escolar (com menos chamadas dos pais para reuniões), social (maior entrosamento com amigos, não participando de rodas de marginalidade e de uso de drogas) e familiar (atenção aos pais, maior interação com diálogos e transmissão de suas idéias e vontades, ciente de sua realidade e carências). Nota-se que a educação em Direitos Humanos pode ser considerada a base para as demais disciplinas curriculares. A cidadania precisa ser vivenciada em sala de aula por todo educador que se pretenda cidadão e que não queira estabelecer sua prática sobre bases esquizofrênicas. Isto não se confunde com "liberalismo", nem com qualquer coisas com que nos querem assustar os mistificadores, amantes da velha ordem. Isto confunde-se com...democracia! Tem nome, tem proposta, tem honestidade intelectual, não nega nem superestima as diferenças nos papéis professor/aluno e até hoje não tem qualquer problema com a questão da competência (BALESTRERI, 2010, p.1). Para WCCM o estudo é fundamental, o conselho aos filhos é para que não deixem de estudar. O pai nunca participou das reuniões, vindo ao projeto somente por sentir a necessidade de inscrever seu outro filho. Isso mostra um descaso por parte do pai. Entender as opiniões do pai sobre seu comportamento em relação ao primeiro filho não é tarefa fácil, com certeza, as sazonalidades da vida, como é o caso do trabalho, tornam o papel paternal reduzido em determinadas circunstancias, como por exemplo, em participar das reuniões do projeto. É muito importante criar condições e mecanismos de participação para os diferentes atores sociais, para que possam contribuir com os diferentes espaços de decisão e responsabilidade nas unidades escolares. A participação pode ser entendida como processo complexo que envolve vários cenários e múltiplas possibilidades organizativas. Não existe apenas uma forma ou lógica de participação. Outra entrevista a ser analisada é a de JEFO, que tem 11 anos de idade e relata não ter melhor amigo, mas que todas as pessoas ao seu redor são seus amigos e que após participar do projeto, o crescimento do círculo de amizades se tornou inevitável: Minha vida lá dentro do Projeto "Campeões do Amanhã" é bem melhor do que está na rua, por aí é melhor, melhora na escola, melhora em tudo lá, conheci novos amigos, o professor é muito legal, o professor Júnior, o professor M.. jogo como atacante e lateral, torço para o Corinthians. Lá no projeto não tem melhor amigo, todos são meus amigos, fiz muitas amizades. E o professor M... conversa muito com a gente, pega um papelzinho escreve para a gente, ele ensina a gente a dizer não as drogas, para sermos um jogador disciplinado. Ele fala que para a 102 gente não fazer violência, respeitar os mais velhos. Quando eu crescer quero ser um jogador de futebol. Se não der pra ser isso, quero ser engenheiro. Lá na escola, tem uns professores lá que são ruins, mas eu sempre tiro boas notas. [...] 20 Sou um bom aluno . JEFO afirma em suas respostas a manifestação dos conselhos promovidos pelo Professor M..., quais sejam: vida no projeto é melhor do que na rua, a partir do projeto há melhora na escola, nas amizades, na relação com os professores e com os coordenadores do projeto. O respeito é acima de tudo uma função condicional para o sucesso do aluno na participação e na construção do Projeto "Campeões do Amanhã". A partir da compreensão de cada dimensão apresentada acima, torna-se possível estabelecer a necessidade de articulação entre as dimensões de modo a compreender a complexidade e a dinamicidade da realidade das relações e do comportamento social e institucional. O desrespeito pelo próximo está cada vez mais presente em nossa sociedade devido ao individualismo existente e pela busca do poder dominante. Acredita-se que com a construção de uma cultura de Direitos Humanos, este problema será minimizado. Mas para fortalecer essa cultura é necessário e preciso trabalhar a educação em Direitos Humanos em todos os setores do tecido social e institucional, especialmente no espaço escolar. Acredita-se que a educação em Direitos Humanos deve e pode ser trabalhada desde os primeiros contatos da criança com a escola, pois é lá que ela tem a experiência de participar efetivamente de um grupo social organizado. Porém, na realidade, a maioria dos educadores não tem a prática de refletir sobre a dimensão desta questão. Hess (1992 apud BASTOS, 1997) afirma que, quando se fala em educação, é preciso ter se tenha clareza do tipo de pessoa que se quer formar. A inteligência do professor é fundamental para que a criança e o jovem perceba que tem o seu espaço e que este é limitado, uma vez que precisa respeitar o espaço do colega e passar a percebê-lo como alguém que o desafia a crescer. "O ideal da educação não é aprender, ao máximo, maximalizar os resultados, mas é, antes de tudo, aprender a aprender, é aprender a se desenvolver 20 Aluno JEFO, entrevistada realizada em 10/10/2009. 103 e aprender a continuar a se desenvolver depois da escola" (PIAGET, 1983, p.225 apud ZORTÉA; HESS, 2010, p.1). Os jovens da atualidade estão cada vez mais se marginalizando diante da falta de oportunidade de uma vida digna. Estão perdendo a admiração pela vida, pela dignidade humana. Muitos nem ao menos conhecem o sentido do valor da dignidade humana. Hoje, mais do que nunca, é preciso incorporar em cada disciplina o mérito pela cidadania assim como também realizar oficinas pedagógicas de Direitos Humanos nas escolas (BARCELOS, 1992). O respeito é condição para se estabelecer um elo entre educação e desenvolvimento social e humano, assim sendo, quando JE relata que existem professores ruins, declara logo em seguida que mesmo com a presença desse tipo de professores, a qualidade da relação que os mesmos possuem com seus alunos, não impede que os alunos tirem boas notas. E nessa relação harmoniosa entre projeto, escola e família, os pais de JEF... (AN – Mãe; IO – Pai) são unânimes em afirmar que o projeto tem auxiliado na transformação dos comportamentos de seu filho: Olha eu acho assim. Na hora em que ele começou a participar deste projeto, ele não é um menino assim que dê trabalho, ele melhorou muito mais, ficou mais responsável com suas coisas. No dia de treino sem eu chamar ele acorda, eu fico até impressionada. Gosta muito dos colegas, dos companheiros, melhorou na escola, muito mesmo, que as notas dele são de 07 para cima, 08, 09, 10, tem o boletim para aprovar e ele mesmo se incentivou, ele foi o primeiro a gostar, ele gosta muito, disso aí, do professor Moisés, antes era o professor Júnior, que aconteceu aquilo com ele, ele ficou muito triste, ele chorou até aqui para a gente, ele viu um vídeo do professor Júnior e ele disse para nós que ele não conseguia assistir todo, ele gostava muito do professor Júnior. O professor Júnior foi o primeiro que deu oportunidade para ele jogar, jogou um jogo todinho e então ele sentiu muito. A primeira vez ele sentiu muito a falta do professor Júnior, depois ele foi com o professor Moisés, ele foi conversando, mas eu vou dizer uma coisa para o senhor é nota dez, o projeto na vida do meu filho melhorou 100%, não que ele já fosse um menino rebelde, sempre foi um ótimo menino, mas o projeto ajudou mais ainda para ele pensar mais lá na frente, ele sempre diz “mãe se depender de mim eu vou ser um bom jogador” e vai ser tudo melhor, porque ele pensa sempre na família, então eu vou comprar uma casa para a senhora eu sendo jogador de futebol. [...] Olha o esporte está na nossa família, tanto do lado da mãe dele, eu fui jogador profissional, só não fiz carreira porque eu era funcionário do [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial-]SENAI, e aí não podia seguir a carreira como jogador de futebol, mas o irmão dela era um dos maiores atletas do estado do Maranhão que era o Joãozinho Neri, muito conhecido. O pai dela foi jogador de futebol lá em Belém-Pa, o Tenente Neri, era militar e todos nós vivemos “arrudiado” pelo esporte. O JE, o quê, que eu busquei no projeto da Polícia Militar, a disciplina militar, não, como a mãe dele falou, ele fosse um menino rebelde, mas que continuasse buscando aquela disciplina, como eu vi no exército, eu queria que 104 ele alcançasse aqui na Polícia Militar e com isso ele gradativamente ele melhorando na escola, cuidando dos seus afazeres, dando conta das suas lições em dia, melhorando as notas dele, então como o projeto veio ajudar meu filho é eu espero que ajude muitos outros que tenham problema dentro de casa, porque esse é o objetivo do projeto, tentar corrigir alguma falha familiar, preenchendo com prática de esporte, não só o futebol, como natação que é muito bom para as crianças o projeto da Polícia Militar. Muito bem. [...] Olha, eu, anteontem mesmo ele estava aqui debatendo com esse irmão dele mais velho, sobre geografia, sobre ciências, até a gente ficou admirado de ver o quanto ele sabe, de ver os conhecimentos dele, porque a gente estava assistindo TV e ele me perguntou “mãe a senhora sabe quem foi os maias”? Aí eu fiquei olhando, mas os maias. Quer dizer ele foi buscar coisas que eu não sei. Aí eu fiquei assim, eu me admirei muito, é uma coisa, se eu disser para você que o Zézinho melhorou, não sei assim, totalmente 100%, ele estuda mais, ele presta mais atenção, ele vai a escola, ele não falta, só se tiver um caso mesmo assim extremo, vai a igreja, quando eu não vou ele vai, então eu acho que foi uma mudança geral. [...] Participamos sim de duas reuniões do projeto, as duas que foram convocadas nós participamos. E eu achei assim muito bom, muito bom mesmo as reuniões. Foram coisas assim, como é que se diz, abertas. Sabe explicaram direitinho o que ia ser o projeto, como ia ser, então eu achei que foi esclarecedor para nós. [...] eu tomei conhecimento do projeto por ele. A informação foi dele, através dos colegas dele, ele foi buscando, na realidade ele foi convidado a participar do projeto, acho que a habilidade dele com bola chegou ao conhecimento do professor e aí ele foi convidado, aí a gente apoiou. Vimos que era muito bom para ele e para nós 21 também. O projeto em si ajuda mais o contexto familiar e ajuda o atleta também . Na entrevista desses pais, o importante a considerar é que o projeto ajudou o filho a pensar mais lá na frente, fazendo-o entender a importância de se ter um futuro profissional nos dias atuais. Aqui é evidente que a cidadania de JE tem se relacionado diretamente com a perspectiva de futuro, levando-o a negociá-lo com o presente. De acordo com Malina e Bouchard (2002, p.420) o atleta jovem pode ser assim caracterizado de acordo com o seu crescimento e estado de maturação. Os atletas jovens são geralmente descobertos em competições escolares e, em seguida, são encaminhados para treinamento num clube, onde iniciam as três fases do treinamento, o treinamento básico se necessário, o treinamento de conexão e o treinamento de formação, esse já como profissional (WEINECK, 1999, p.36). A afirmação que melhor resume a periodização tanto de profissionais quanto de jovens é a de Weineck (1999, p.60), que afirma que o decurso do treinamento de principiantes ou de avançados deve ser correlacionado com o desempenho máximo próprio daquela faixa etária, de modo que a elevação gradual do desempenho atinja seu ponto máximo no momento característico de desempenho máximo daquela modalidade esportiva. 21 Pais, entrevistada realizada em 10/10/2009. 105 Os participantes, por sua vez, apresentam motivações para frequentarem a escola e obterem notas melhores a cada bimestre. Como foi constatado nas entrevistas, as crianças e os adolescentes buscam estudar, para poderem praticar o esporte que gostam, e para poderem (quem sabe?) alçar para um nível de futebol profissional, ou mesmo formarem-se e constituírem uma carreira sólida, como foi obtido na entrevista de A..., 12 anos, 7ª série: Tenho doze anos estudo no colégio Gonçalves Dias, 7 série, turma 721, nome dos meus pais é JC e VL, meu pai morreu, é isso aí. Estar no projeto é muito bom, o professor M... é um cara bacana, é isso aí. O projeto é bem legal a gente participa de campeonatos, ainda não participei de nenhum, mas quero participar algum dia. Na escola melhorei um pouco, mas não foi tanto assim, minhas notas são um pouco razoáveis. Aqui no Projeto “Campeões do Amanhã” aprendi saber a respeitar o próximo, sobre isso aí, que o professor M. fala muito sobre isso aí, saber viver a vida com mais educação e respeito é isso aí. [...] É que ele o professor M. não gosta disso aí, fumar drogas, então quem usar isso aí está fora do projeto. [...] Minha mãe ainda não veio aqui, ela não tem como se movimentar ela está desempregada, ela não tem como vir. Somos dois irmãos, meu irmão chamado V., tem 8 anos ele cursa a 1 série. Venho para cá de bicicleta. É bicicleta eu venho lá da 13 de setembro sozinho. É o que eu quero é ser um jogador de futebol, mas a gente sabe que é muito difícil isso aí. [...] É esse é meu sonho se 22 Deus quiser vou ser jogador de futebol. Jogo no ataque, mais pela lateral . A... é indício forte que o esporte gera não somente expectativas de futuro, vai mais além, gera rendimentos para uma vida mais proveitosa, gera esperança para um bem estar melhor mais adiante, enfim, a certeza de que os esforços para estudar e realizar aquilo se propõe fazer, ou aquilo que mais gosta de fazer (futebol nesse caso), poderá acarretar na construção de uma vida social mais receptiva pela coletividade, que não o excluirá. Sobre os campeonatos comentados por A... no início de sua entrevista, salienta-se que estes são realizados esporadicamente, organizados pelos próprios professores do Projeto "Campeões do Amanhã", agregando times já organizados e participantes de campeonatos locais para enfrentarem o time do projeto. A ansiedade dos meninos em participar dos campeonatos internos é imensa, todos querendo mostrar o seu engajamento tanto na escola como no projeto. Em outra entrevista, JMAS expõe sobre o projeto, declara que sua participação tem sido muito construtiva para sua vida, pois assim, consegue-se os 22 A..., entrevistada realizada em 10/10/2009. 106 melhores amigos, bem como melhorar o rendimento escolar. Assim, ao ser perguntado sobre o que o projeto lhe representa, afirma o seguinte: Ah é bom estar aqui, é bom aprender a jogar bola para ajudar o pessoal daqui. Aqui eu tenho muitos amigos, é muito bom eles são os meus melhores amigos, eles me ajudam muito também. Venho pra cá de bicicleta, lá do Santa Inês prá cá, prá jogar bola aqui. É uma boa pernada lá do Santa Inês prá cá. Meus pais vieram aqui para uma reunião. Lá na escola melhorei. É eu bem, porque a minha mãe vai me dar um prêmio se eu passar no fim do ano, é, eu estou me esforçando. Eu tirei só uma nota vermelha. Gosto mais de matemática porque é melhor aprender números do que aprender a ler. Lá na escola vou as vezes na biblioteca fazer pesquisa. Vou quando a minha professora de português, história passa um trabalho eu vou fazer lá na biblioteca. Aqui no projeto, o Professor M. não é muito bom, porque assim quando tem um jogo ele coloca alguns moleques para jogar, ele prefere colocar uns e não coloca outros. Eu não gosto de ficar na reserva. Não é porque tem espaço para jogar e ele não coloca. Jogo na zaga de zagueiro. Pro futuro quero jogar futebol para ser um jogador de futebol. Não busco outra profissão ainda. Agora se não der pra ser, então gostaria de trabalhar em outras coisas, por exemplo, gostaria de trabalhar de empregado de, de taxista de 23 motorista. Meu pai trabalha com venda de açaí . Na entrevista de J..., é importante compreender a importância da presença e da participação efetiva dos pais. A presença dos pais torna as atividades do projeto mais desafiadoras, motivadoras, e com certeza, gerarão subsídios para a mudança de comportamento, principalmente quando o pai participa dos eventos, das reuniões e dialoga sempre com o Professor M... Outra importante característica é o auxílio que o projeto realiza, esse por sua vez, é evidente na maneira de condução das ações do participante em sua vida social, escolar e familiar. A presença dos pais, os conselhos do Professor M..., os exemplos de mudança entre os amigos, a busca por notas melhores para permanecer no projeto, somados ao fator interesse e inclusão, geram a melhora na condição de vida dos participantes do projeto. A pedagogia do rendimento não se restringe à prática do esporte, mas parece estar presente no dia-a-dia das pessoas que se submetem e são submetidas à obrigatoriedade de render, de ser o melhor em qualquer situação: ser o primeiro na lista de aprovados do vestibular, o profissional com melhor remuneração, o melhor aluno. Nessa perspectiva, o esporte infantil também não se constitui como uma prática pedagógica isolada, mas está diretamente relacionado aos significados de infância expressos nas relações sociais estabelecidas entre crianças e adultos ao longo dos tempos. 23 JM, entrevistada realizada em 10/10/2009. 107 Outro importante papel que o Professor M... tem executado, que tem possibilitado a mudança de atitude dessas crianças e adolescentes frente aos seus estudos, é o fato de ensiná-los a pensar. Fazendo-os entender que é somente "quem pensa certo, mesmo que às vezes pense errado, quem pode ensinar a pensar certo" (FREIRE, 2003, p.27). O autor acredita que ensinar exige rigor metódico, e o dever do educador democrático é reforçar a capacidade crítica do educando, sua curiosidade, sua insubmissão, tornando seu aprendizado fundamentalmente humano, possibilitando aos alunos formarem opiniões e construírem seus juízos de valores condizentes com a realidade social em que estão inseridos, portanto, levando-os à esperança e certeza de que somente pelo estudo pode acontecer a inclusão social e a tão sonhada cidadania. Eu penso em me formar ser um bom jogador de futebol. Respeitar os outros, como eu quero que me respeitem, e não brigar, aprender a jogar bola, quando eu entrei aqui eu não sabia nada, não sabia chutar, não sabia correr, agora eu to, aprendi muito aqui. Lá na escola estou bem. É eu não brigo, com os meus colegas, é quando a gente vai fazer um trabalho e aí eles ficam zoando e aí a briga é boca a boca, mas eu entendo direitinho. Eu pretendo me formar e ser um bom jogador de futebol. [...] Tenho, boas notas. Eu só tenho uma nota vermelha que é em matemática. Eu não sou muito bom em matemática. Aqui no projeto me ajuda a ser um aluno melhor sim, ajuda, porque aqui eu aprendo a não falar nome (palavrão), eu aprendo a não brigar, jogar bola, se formar. Em vez de você ficar pela rua, por aí perambulando, você vem para cá, jogar futebol. Eu estudo de manhã e de tarde, quando dá para vir eu venho, quando não tem aula de manhã para mim eu venho, às vezes eu peço para a mamãe para vir a tarde, eu faço reforço de tarde. Eu venho lá para a casa do professor e aí depois a gente se desloca para cá. Pego uma carona dele. Não tenho ido muito no biblioteca da escola, só de vez em quando, eu vou mais na internet pesquisar o trabalho, na biblioteca eu nem vou muito. Meus pais já vieram alguma aqui no projeto para conversar com o professor para ver como é que eu estava e aí o professor disse 24 que eu estava bem . Como se observa na entrevista de FVA, o Projeto "Campeões do Amanhã" não é a solução de todos os déficits educacionais dessas crianças e adolescentes participantes, pelo contrário, sua função é socializar e promover a inclusão social. Em outras palavras, "[...] ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educandos e exige também a apreensão da realidade" (FREIRE, 2003, p.66). Outra entrevista demonstra que o Projeto "Campeões do Amanhã" tem uma função social para estas crianças e adolescentes, fazendo-os respeitar os valores sociais, a obediência aos pais e a valorização da cultura local como um todo. 24 FVA, entrevista realizada em 10/10/2009. 108 Eu acho, eu acho que o projeto é muito bacana, ajuda muitas crianças a sair da rua, é tira muitas crianças do mundo das drogas. Antes de entrar para o projeto eu era meio rebelde, respondia para a mamãe e pro papai, aí aqui o projeto eu aprendi a respeitar mais as pessoas, não brigo mais, acho que é isso. Eu, de vez em quando, era brigão lá na escola, hoje respeito melhor meus colegas agora. Minhas notas Tá tudo azul só não em matemática. Eu quando tem alguns minutos de intervalo eu vou lá para a biblioteca ler um pouquinho. Gosto de ler assim livros interessantes, fazer meus trabalhos. Eu venho de bicicleta para cá, o meu pai não tem condições de pagar ônibus para mim. Já isso aí eles vem é muito aqui nas reuniões, meus pais participam de tudo. Quando crescer, quero ser jogador profissional de futebol. Se não der quero servir o BOPE. Tenho 11 anos, jogo na 25 Ponta direita, lateral. Torço pro Fluminense . No relato de J..., é visível a mudança no desenvolvimento comportamental do aluno na escola e na sociedade, motivados pelas ações empreendidas pelo Projeto "Campeões do Amanhã". Define-se papel social como sendo o comportamento esperado de uma pessoa que detém um certo status. Cada pessoa pode ter inúmeros status aos quais correspondem papéis apropriados. De acordo com o status do indivíduo na sociedade, as pessoas sabem o que esperar ou exigir. Caso o ocupante de um determinado status não cumpra o papel esperado pela sociedade, esta possui meios para puni-lo. A socialização é, na maior parte, processo de aprendizagem dos papéis sociais que o indivíduo ocupará ao longo de sua vida. As pessoas precisam aprender a preencher papéis como filho, estudante, pai, membro da Associação de Pais e Mestres, cidadão e muitos outros. O conjunto de papéis é uma expressão utilizada para indicar que um status pode não ter apenas um papel associado à posição, mas uma quantidade de papéis que se ajustam no seu conjunto. Um pai também é filho, parente, vizinho, cidadão, membro de uma igreja e, assim por diante. Para Freire (2003), ensinar exige a convicção de que a mudança é possível, pois a história deve ser vista como uma possibilidade e não uma determinação. Para mudar deve-se ser esperançoso, ou seja, ter esperança de que se pode ensinar e produzir junto com os educandos para resistir aos obstáculos a nossa alegria. Entretanto, o Projeto "Campeões do Amanhã" auxilia a escola demonstrando esses problemas sociais e mostrando racionalmente através de técnicas, entre jogadas e passes, que é possível ser melhor pelo estudo e pelo que se gosta de fazer, jogar futebol. 25 JP, entrevista realizada em 10/10/2009. 109 4.2.3 Consciência comunitária da PMAP A PMAP, por meio do Projeto "Campeões do Amanhã" busca construir não somente uma consciência comunitária, mas também a cultura democrática, a qual é crucial para o Amapá, que é um Estado com desigualdade econômica, social, centralizador de renda, que tem miséria e fome como aspectos mais visíveis de um ordenamento social presidido pela organização hierárquica e desigual do conjunto das relações sociais. Nesse sentido, sua eliminação constitui um desafio fundamental para a efetiva democratização da sociedade, que conquistada, gerará a cidadania, tão comentada durante todo o trabalho. De acordo com a Entrevista realizada com o Major QOPM EST – Coordenador Geral dos Programas Sociais da Polícia Militar do Amapá, o projeto se insere num contexto mais amplo. Vejamos como é caracterizado: Atualmente os programas são em número de 06, é o programa "Campeões do Amanhã", Peixinhos Voadores, Cidadão Mirim, Campeões do Basquete, Telecentro e PROERD. Esses programas tem como objetivo fazer a inclusão social de crianças, adolescente e jovens que se encontram em situação de risco social, oferecendo a eles um lugar mais propicio ao seu desenvolvimento social e cidadão. Cerca de 5.000 já foram atendidas nesses projetos por ano. [...] Nós temos uma grande dificuldade com relação a essa questão, porque todos os projetos exigem uma demanda orçamentária e financeira para que eles possam funcionar. Apesar de previsto no orçamento da Polícia Militar, uma certa cota, para atender os projetos, mas nós temos uma certa dificuldade para receber essa cota. Só para se ter uma idéia, este ano de 2009, já estamos no segundo semestre e não recebemos nenhuma cota para atender os projetos. [...] Bem é preciso muita imaginação e arranjos para vencer estes obstáculos. Com relação ao corpo técnico, a maioria dos meus auxiliares possuem formação superior, principalmente em se tratando daqueles que estão trabalhando no PROERD, é o nosso principal programa social. Todos os instrutores passam por curso de formação e estão em constante reciclagem. Quanto aos demais temos dificuldades na formação e qualificação dos instrutores (professores). E quanto ao Projeto "Campeões do Amanhã" o gerente tem é formado em Educação Física. Com relação aos locais onde funciona o Projeto "Campeões do Amanhã", dentro das nossas instalações, mas precisa de um melhor aporte de material e pessoal qualificado. [...] A coordenadoria foi criada recentemente e ainda não existe um controle sobre essa condição, ou seja, estamos "apostando" que esse participante vá seguir um caminho do bem, que ele possa se tornar um cidadão consciente dos seus direitos e deveres, mas nós não temos um mecanismo de aferição para verificar essa relação, se esse jovem que passou no programa social ou que está ainda possa ter melhorado sua consciência social. Sim existe uma sistemática de visita nas residências desses garotos, ou reuniões com os seus responsáveis é feita reunião com os responsáveis periodicamente, onde são discutidas as diretrizes do programa e é feito um relato da conduta dos seus filhos nos programas e onde buscamos a colaboração dos responsáveis, no que diz respeito a sua importante participação na melhoria social de seus filhos. [...] A própria coordenadoria se encarrega disso e é assim que vamos realizando as nossas metas e busca dos nossos objetivos, que é a inclusão social desses participantes. E dentro do Governo a Secretaria de Mobilização Social é a nossa maior parceira. Existe uma grande procura da comunidade querendo inscrever seus filhos, há uma grande 110 demanda reprimida e nós dentro do possível vamos atendendo, infelizmente nós não podemos crescer por falta de estrutura geral. Com relação a divulgação dos programas. Os programas sociais são maiores do que a propaganda eles por si só já são a propaganda e como eu disse nós não temos ainda estrutura para atender 26 toda a procura . Nas concepções do Major T..., os recursos são fundamentais para o sucesso de qualquer atividade que trabalhe com a questão social, como a inclusão e principalmente, com a fomentação social da cidadania. No caso do Projeto "Campeões do Amanhã", o que se pode depreender é a necessidade de se melhorar para alcançar resultados positivos mais significativos, alcançando um público alvo maior e mais abrangente, com diversificação etária. Outra importante questão que precisa ser entendida e analisada é a necessidade de melhor aporte de material e pessoal qualificado, sendo visível também a questão orçamentária/financeira, a dificuldade de se obter mais recursos para estabelecer um melhor aparelhamento do projeto, o que deixa uma certa ambigüidade no conceito cidadão que o projeto busca, principalmente no que concerne a ausência de infra-estrutura adequada como por exemplo: é o caso de banheiros e água potável. Para o coordenador geral da PMAP, falta um sistema de avaliação de projetos que permita mensurar os ganhos efetivos e a relação custo X benefício a partir dos seus resultados concretos. Nesse sentido, o conceito de cidadania é associado à idéia do ser cidadão, aquele que tem participação na sociedade, participação na produção, o acesso igualitário do atendimento aos serviços sociais básicos como educação, saúde, segurança etc. "Cidadão é aquele que, mesmo diferente do ponto de vista cultural, físico, religioso ou de habilidades profissionais, tem participação na produção, e em todos os serviços básicos" (BONETI, 1997, p.203). A cidadania pode ser vista no plano das ausências ou carências ou ativa, como cidadania não passiva, e no plano da plenitude, que concebe o cidadão como alguém dentro da sociedade, em pleno gozo de sua autonomia, com capacidade de intervir, enfim, um ator que usa seus recursos econômicos, sociais, políticos e culturais para atuar no espaço público. Esse é o cidadão que a sociedade deverá formar e que por sua vez atuará na sociedade num processo dialético de 26 Major QOPM EST, entrevista realizada em 10/10/2009. 111 construção, e que dele ninguém fique fora, pois fora não há cidadania, ou melhor dizendo, fica comprometida a cidadania e seus fundamentos republicamos. A cidadania traduz-se no direito de ter direitos, o que se aplica a todas as pessoas, que devem ter respeitados seus direitos à vida, à dignidade, à liberdade, à convivência familiar e comunitária, à igualdade de oportunidades em saúde, educação, trabalho e à participação social, explicitados na constituição brasileira. Por ora, o Projeto "Campeões do Amanhã" tem modificado concepções sociais até então concebidas pelo autoritarismo estatal. Salienta-se que o projeto contribui para a socialização dos seus participantes, como bem descrito por um dos seus professores, o Professor MOC, atual Gerente do Projeto "Campeões do Amanhã": Bem eu sou formado como professor de primeiro grau, já trabalho há 24 anos com o futebol aqui no Estado do Amapá, vim para cá na PMAP a convite do Júnior, antes eu trabalhava no bairro do Buritizal, na escola Coelho Neto, como monitor da SEDEL, e o Junior me convidou para fazer uma parceria com os alunos deles aqui da PMAP. Eu nunca aceitei parceria, mas como o trabalho aqui da PMAP é um trabalho sério eu resolvi vir trabalhar porque eu já tenho 24 anos trabalhando no futebol aqui no Estado só com escolhinha formando garotos. Hoje nós temos muitos garotos nossos que são soldados da PMAP. Eles se formaram e às vezes eles vem aqui dar parabéns para mim. Tem também garotos que trabalham aí em outras áreas, então nós temos toda uma formação própria para trabalhar com os garotos. [...] É professor habilitado, é certo que já fiz vários cursos na área de futebol de campo, pela federação amapaense de futebol, pela SEDEL, pelo governo do Estado enfim vários cursos na área, todo ano faço curso de reciclagem para repassar nossos conhecimentos para os nosso alunos. Procuro sempre estar atualizado com a questão do futebol, ensinamento, aprendizado etc... Eu vou fazer 40 anos agora né. Desses 40, 24 anos são especiais para os projetos, e eu posso garantir que às vezes eu não tenho tempo nem para mim, eu me dôo mais para o meu trabalho, meus alunos, como se eles fossem meus filhos. Porque é assim, quando você vê uma criança praticando uma coisa errada, você fica triste porque você não quer aquilo, você muitas das vezes, você esquece de você mesmo para ajudar o próximo, isto é muito gratificante, porque mais tarde, DEUS vai nos gratificar, se eu não receber ajuda aqui na terra, mas lá de DEUS tenho certeza de 27 que não vai faltar . Ao descrever seu perfil profissional, percebemos que o Professor M... é qualificado profissionalmente para a realização das atividades do Projeto "Campeões do Amanhã". E ao definir uma avaliação informal, impressionista, valoriza seus alunos como bons jogadores, alunos que se tornaram soldados, alunos que trabalham em outras atividades, alunos que voltam para agradecer, além da condicionalidade quase que total da aprovação escolar dos participantes. 27 Professor M..., entrevista realizada em 10/10/2009. 112 FIGURA 5 – Professor M... Fonte: Alves (2010). Como se vê, a luta pelos direitos sociais está longe de ser encerrada, mas mudou de direção. Agora é a própria sociedade civil que se torna a protagonista da solução dos problemas que os direitos sociais pretendiam prevenir. No caso do Projeto "Campeões do Amanhã", uma autarquia governamental (PMAP) tenta organizar os socialmente excluídos com pouco ou quase nenhum apoio. E nessa tarefa, o Professor M... ainda afirma: [...] o Projeto "Campeões do Amanhã" é voltado, justamente, nós temos uma parceria com a Polícia Militar, Governo do Estado do Amapá, Secretaria do Esporte e Lazer – SEDEL, é funciona da seguinte maneira: Isso aqui é uma maneira de trazer o garoto para cá e trabalhar na função, de não só o futebol, mas sim também nas outras áreas, trabalhamos a religião, a área social, educacional, a cidadania, fazemos palestras com eles, então o futebol de campo é uma maneira de trazer eles, chamar eles para cá, para que eles façam parte do projeto da Polícia Militar. [...] Olha, nós trabalhamos com as duas funções, porque se não for bom cidadão ele não tem condições de ser um bom jogador de futebol, apesar que já revelamos bons jogadores que já foram para fora do Estado, Flamengo, Remo e outros clubes e aqui nós estamos conscientizados a todos os garotos que eles tem 28 que estudar mesmo para serem bons cidadãos . O professor M... ainda expõe outras informações de suma importância para a compreensão da relação da PMAP com a sociedade amapaense: Nós fazemos as reuniões com os responsáveis uma vez por mês, onde a gente passa a avaliação de cada um para os responsáveis, para eles saberem como é que cada um deles está aqui no projeto e perguntamos a eles como é que eles (filhos) estão em casa e na vida escolar, porque o aluno aqui só entra se estiver na escola, porque nós fazemos o acompanhamento escolar com eles (responsáveis), conforme as notas deles, se eles não estiverem com as notas 28 Professor M..., entrevista realizada em 10/10/2009. 113 boas, automaticamente nós damos um afastamento nele para que ele possa se dedicar mais aos estudos, até eles voltarem a ter uma nota alta na escola. Quer dizer, se o aluno não tiver bom desempenho escolar ele é automaticamente afastado do projeto e só retornar quando ele recuperar esse rendimento. Esse rendimento a gente tira uma vez no ano, a escola manda as informações, notas de todos os alunos, nós fazemos uma avaliação, procuramos saber porque aquele aluno não está bem na escola, porque que ele tirou aquela nota baixa e tentamos ajudar ele. Já que na PMAP nós temos psicólogos, professores que podem ajudar o aluno. Muitas das vezes o problema é dentro de casa, as vezes não é, e aí nós procuramos saber para ajudar os nossos alunos. [...] Com certeza, fica a disposição, visto que o projeto cresceu muito e aqui na PMAP existem outros projetos também, a PMAP está de parabéns porque ela realmente se preocupa com a parte social, atuando preventivamente. [...] Nós temos uma empresa de informática que nos ajuda repassando algum material de treinamento, em algumas oportunidades ela ajuda algum material escolar dos garotos, não é muito mais ajuda, principalmente que a maioria dos nossos garotos é de origem humilde e o empresário procura ajudar, apesar de ser uma empresa que está começando aqui no Estado mas, ela se preocupa com o futebol e ela ajuda também outras escolhinhas. [...] Olha nós temos dificuldade, muita dificuldade mesmo. Porque pela quantidade de garotos que temos no projeto, nós estamos precisando de material e material de qualidade. Este ano (2009) nós estamos com muita dificuldade e estamos procurando parcerias para resolvermos este problema. [...] É muitas das vezes eu venho até doente para cá né, porque eu não consigo deixar eles com outras pessoas, eu gosto de estar eu mesmo aqui perto deles, muitas das vezes eu deixo outros compromissos para estar aqui com eles, a minha família me cobra muito a minha ausência com eles, quando é que tu vais tirar um tempinho para ti, para passear, a minha esposa vive dizendo isso, às vezes nem férias eu tenho, aí eu digo não é disso que eu gosto, eu acho que é nisso que eu 29 vou encerrar a minha carreira é nisso aí . Como se observa nas palavras do professor M..., o desenvolvimento de uma nação não depende somente de mudanças e avanços na área econômica, mas de um reequilíbrio dos desafios sociais e de distribuição de renda causados por este próprio crescimento. É preciso analisar os conceitos aqui discutidos e constatar que apenas investimento financeiro não será suficiente se não fizermos uma mudança radical em nossa cultura organizacional, na qual o conceito de desenvolvimento só reside no econômico, não abrangendo também o social. As razões que sensibilizam o Professor M... para a ação voluntária residem nos impulsos mais primitivos do ser humano, podendo-se afirmar que, tratando-se de uma manifestação natural , ela se encaixa no que Freud chamou de instinto gregário do ser humano. Nele, o impulso natural para ajudar o outro acaba garantindo que a própria espécie possa perdurar. Esses processos de autopreservação do ser humano alcançam também outras espécies do planeta – vegetais, animais, minerais – buscando manter um equilíbrio na vida do planeta Terra e, por conseqüência, garantindo que a espécie não corra risco de extinção. 29 Professor M..., entrevista realizada em 10/10/2009. 114 O professor M... também relata suas considerações como ser humano, enfatizando características ainda pouco visualizadas no decorrer o trabalho, como por exemplo, o seu voluntarismo em fomentar a inclusão social através do esporte, a geração de consciência cidadã nas crianças e adolescentes envolvidas no projeto, e principalmente, a mudança comportamental: Sim, notei que esses garotos que participam aqui, eles melhoram seu comportamento social, seu comportamento esportivo e familiar, há um indicador de melhoramento, muitas das vezes eu fico parado pensando será que eu vou conseguir melhorar esse garoto, assim como chega aquele garoto já recuperado aqui, de família legal, mas chega também aquele garoto que precisa ser ajudado e as vezes se você não tiver uma experiência você desiste, porque o garoto é rebelde, ele é valente, então você nunca tem que praticar violência com violência, você precisa saber onde é que está o problema, e aí quando você chega no problema, lá no pontinho aí você vai encontrar formas de ajudar aquele aluno, as vezes os problemas são familiares, aqui nesse projeto 75% dos problemas são familiares de pais separados, eles não aceitam separação, ta entendendo, eles já trazem o problema lá da casa deles, "pô professor meu pai se separou da minha mãe eu não vou aceitar isso", aí você tem que sentar com ele e dizer que a vida é assim, que a vida continua. [...] eu acredito que sim, porque eu tenho experiência própria de ter recuperado vários alunos, que muitas das vezes as pessoas julgavam, "ah esse aí não tem jeito" e eu topei o desafio, fui criticados em várias oportunidades, mas ta aí o resultado, a gente está provando e cada dia que passa é uma prova, muita gente diz "ah o futebol aqui no Amapá não tem futuro", tem futuro sim ele está tirando muitos garotos das ruas, garotos que estavam em situação de risco, hoje estão na escola outros já estão se formando e muitos mais tarde vem agradecer pra gente e eu fico feliz, quando ele vai passando na rua ele para no carro e diz "ei professor o senhor se lembra de mim" às vezes eu não estou nem lembrando e ele diz "eu sou aquele seu aluno da escolhinha de futebol, 30 o senhor está lembrado? O senhor me ajudou." Pôxa como eu fico feliz. OK . A prática de solidariedade se concretiza tanto nas ações de caridade quanto nas ações políticas, explicando a origem e a permanência das práticas solidárias em organizações de fé e nas organizações e movimentos sociais. Motivada pelos valores de solidariedade ou de participação cidadã, a busca do trabalho voluntário representa uma ruptura com o isolamento. O isolamento, vivido na esfera privada, transforma-se em expectativa de um novo "tornar a ser" na esfera pública. Esse isolamento, "impasse no qual os homens se vêem quando a esfera política de suas vidas, onde agem em conjunto na realização de um interesse comum, é destruída" (ARENDT, 2005, p.243), é rompido por aqueles que desenvolvem uma ação voluntária. 30 Professor M..., entrevista realizada em 10/10/2009. 115 Diante dessas constatações, é visível que o Projeto "Campeões do Amanhã” põe em prática princípios e metodologias especialmente elaborados para transformar potenciais em competências cognitivas, produtivas, relacionais e pessoais. Isto é, a aplicação da tecnologia social da educação pelo esporte para o desenvolvimento humano, contribui para a viabilização de todas as dimensões da vida, contribuindo para que as crianças e adolescentes compreendam a sua realidade e participar da sociedade como cidadãos. 116 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante dos resultados obtidos com a pesquisa realizada junto aos atores sociais envolvidos na concretização do Projeto "Campeões do Amanhã", projeto social promovido pela Polícia Militar do Estado do Amapá infere-se que sua política preza pela inclusão social dos seus participantes, em sua totalidade crianças e adolescentes, estudantes do Ensino Fundamental em Rede pública de ensino, matriculados e assíduos, que tenham seus pais como co-participantes das atividades e das reuniões. Assim, a PMAP, como instrumento de política pública, se encaixa com devidas ressalvas, que não deixamos de expor nas afirmações de Carvalho (2000), ao descrever que a mesma sociedade que cria e mantém mecanismos de exclusão, desenvolve políticas assistencialistas que, por seu caráter instrumental, não resolvem a natureza reprodutiva dos problemas cujos efeitos pretendem compensar, cristalizando-se, portanto, os padrões de exclusão e de segregação. Porém, na mesma sociedade que exclui, surgem movimentos próinclusão, liderados pelos mesmos grupos de excluídos, como é o caso do movimento de luta dos portadores de necessidades especiais, das mulheres, dos homossexuais etc... e por outros grupos interessados na conquista e garantia nos direitos explicitados nas Constituições. Por assim dizer, o movimento de inclusão nas últimas décadas tem tomado força, e é nesse sentido que atualmente, diante da multiplicidade das diferenças humanas que povoa o tecido social contemporâneo, a palavra de ordem de todas as instituições civis, e particularmente da escola, é uma só: inclusão, sem a qual toda a legitimidade dos princípios democráticos está irremediavelmente ameaçada (AQUINO, 1998, p.8). Embora o conceito de inclusão não seja novo, durante todo o corpo desta dissertação ficou evidente que sua prática vem exigindo uma discussão atualizada e mesmo uma conceituação mais ampla, onde questões como cidadania, política pública, movimentos sociais e interesses econômicos sejam considerados, pois a inclusão, no caso do Projeto "Campeões do Amanhã", não se enquadra em uma tendência 117 evolutiva, pelo contrário, é um processo colaborador que busca promover, além da inclusão, a cidadania, evidenciando primeiramente o quanto a sociedade é excludente. No projeto existem problemas estruturais. Afinal não se pode admitir que um projeto que se destina a promover a inclusão social e a cidadania, que recebe dinheiro público, participa da propaganda governamental, que se utiliza das instalações de um órgão público, neste caso a PMAP, não disponha das condições mínimas para o seu funcionamento, não tenha em sua equipe de profissionais qualificados, e que não busque a sua avaliação. Em se mantendo assim, visualizo três tendências: a primeira é de que estamos tratando de meio-cidadão, então para eles meio projeto basta; a segunda é de que o projeto se constitui muito mais como um arremedo de política pública, o que me leva a pensar em algo como um "jogo de finta". Nota-se a urgência da vinculação entre as políticas públicas esportivas e o discurso de promoção da cidadania ou da inclusão social. A terceira tendência é a de considerar o esporte importante mecanismo de controle social de crianças e adolescentes, visando apenas dominar os impulsos violentos e produzir uma nova sociabilidade, capaz de gerar uma prática que possa afastar os jovens das drogas e dos crimes. Essa tendência seria então a confirmação estatal para o ocultamento da real gênese do problema que supostamente se pretenda enfrentar. Qualquer ação que afaste as crianças e adolescentes das ruas é resgate de cidadania, qualquer ação solidária, como filantropia empresarial, ação caridosa de uma igreja, ou mesmo as novas políticas esportivas de atletas famosos, tudo se transforma em promoção da "cidadania". É preciso termos cuidado com isso, o termo cidadania está na "moda". Podemos perguntar se a prática esportiva por si só é garantidora da cidadania, ou ainda estamos relacionando-a como uma forma de ampliação desse conceito? Ao meu entender essa resposta está relacionada com a vontade cada vez maio de exercermos a plenitude da nossa cidadania. O conceito de cidadania tem várias interpretações: por ora, descaracterizo-o com a finalidade de se referir como plano de um futuro que somente o esporte poderá gerar, não é correto aos participantes visualizá-lo dessa forma por existir um conceito distinto, coletivo e equitativo; a cidadania deve ser aplicada como conquista de direitos fundamentais elementares (por exemplo, no corpo da dissertação, constatou-se a ausência de banheiro apropriado, de água 118 potável, pessoal qualificado para os alunos) e vários dos seus participantes apontaram essa falha, talvez até sem saber, mas estavam justamente fazendo valer o conceito de cidadania. Para o primeiro fator de descaracterização da cidadania, entendendo-a como uma entidade máxima de formação do ser humano e o esporte como uma ferramenta a mais para a conquista dos direitos fundamentais e pela inclusão social. Quanto ao segundo, atento para a fala de muitos participantes do projeto que sonham em se tornarem jogadores de futebol profissional, bem remunerados, reconhecidos pela sociedade, enfim, uma utopia que merece ser (re)construída com a participação dos alunos, da sociedade, da família e da escola; e que pode ser conquistada com a aplicação de palestras e educação nas escolas voltadas para a construção do ideal cidadão responsável, que reconhece à vida a "margem do risco social" e entenda as ferramentas à sua disposição para a mudança de atitudes. Nesse contexto, a escola é um dos instrumentos mais importantes no processo de construção de uma sociedade para todos. Não há como refletir sobre a escola dissociada da sociedade da qual ela faz parte e com a qual forma uma totalidade complexa, há entre elas uma ação recíproca, podendo ambas interferir e modificar uma a outra numa relação constante. Essa é uma das razões porque a escola é considerada o mais autêntico "lócus" republicano, um lugar privilegiado para educar em direitos humanos e na construção da cidadania. Assim, a escola deve assumir o compromisso de capacitar os indivíduos para serem autores e atores do projeto de sociedade em que vivem, trabalhando a consideração pela liberdade do outro e seus direitos individuais, lutando em defesa dos interesses sociais e dos valores culturais e combatendo os preconceitos, respeitando as diferenças e os diferentes portadores delas. É, portanto também recomendável à PMAP que construa elos de ligação entre as escolas dos bairros que compreendem a Zona Sul, visto ser o Projeto "Campeões do Amanhã" um projeto social de esporte que não se articula bem com a dimensão da educação, com a escola: nenhuma professora sabia do projeto. Ao tomarem conhecimento, ficam interessadas e sentem a necessidade de integração da PMAP com a Escola, construindo parcerias, para por exemplo, premiar seus alunos das escolas, participantes do projeto, pelo seu desempenho escolar, aferido 119 em freqüência, notas e bom comportamento. É indispensável que a PMAP construa laços de reciprocidade com a escola, haja vista que o professor é qualificado e atua como auxiliar na construção da personalidade de crianças e adolescentes a beira do risco social, ajudando-os a não conhecer as drogas, a sair das ruas, e a valorização da educação escolar e familiar como fatores de permanência no projeto. É importante que haja correções nos vícios de concepções da cidadania entre a sociedade amapaense e os atores do projeto, entendendo a cidadania como conquista de direitos fundamentais elementares. Onde já se viu um projeto social, promovido pela Polícia Militar, autarquia de reconhecida dotação orçamentária garantida nas Políticas Públicas, construir programas sociais e não dispor o mínimo de respeito com sua clientela, não disponibilizando banheiros e água para consumo dos alunos? Isso é um verdadeiro desrespeito aos objetivos do projeto. Entretanto, respostas podem serem obtidas no montante orçamentário/financeiro destinado ao projeto, que não são liberados ou quando o são, não suprem as suas necessidades, sendo desvirtuado de sua objetividade por diversas razões que serão apresentadas num estudo futuro, critério no tratamento organizacional e orçamentário das informações da PMAP, investigando as razões para a falta de aplicação total dos recursos destinados ao projeto. Após todas as análises apresentadas, concluí-se que as contradições presentes no processo de cidadania, no que tange as relações entre Estado e Sociedade, estão implícitas nas políticas públicas sociais que, se por um lado, visam resolver os problemas sociais, como a fome, o analfabetismo e a miséria, por outro, são assistencialistas, incluem a tutela, mascarando as discriminações, e não atingindo o cerne do problema. Concretizam-se, portanto, como desmobilizadoras e controladoras, o que tolhe a verdadeira participação, o desenvolvimento da autonomia e emancipação dos indivíduos. O Estado propõe ao indivíduo uma situação de direito, que ele próprio não consegue incorporar e absorver. A racionalidade dominante, nesta relação, gerada por uma forma de poder, estabelece a desigualdade entre indivíduos e Estado. Assim, a cidadania vem sendo construída a partir de movimentos sociais, desvinculados do Estado. 120 Em nosso país há os que são mais cidadãos, os que são menos cidadãos e os que nem mesmo ainda o são. Pois o cidadão deve ser multidimensional, onde cada dimensão se articula com as demais na procura de um sentido para a vida, de uma nova sensibilidade. As contradições fazem do país um contexto de desigualdade e subdesenvolvimento que se explicitam nas mais diversas problemáticas conjunturais. Já a democracia no nosso país ainda está por ser implementada, por democracia entendem-se a existência de eleições, de partidos políticos e da divisão republicana dos três poderes, além da liberdade de pensamento e de expressão. Em lugar de democracia, temos instituições vindas dela, mas operando de modo autoritário. Por fim, o lazer, como foi amplamente discutido neste texto, é, modernamente entendido como algo mais do que o simples descanso ou mero divertimento (duas de suas importantes "funções"), constituindo-se, em uma experiência de desenvolvimento social e humano ocorrida dentro do tempo-espaço disponível das pessoas, abrangendo os interesses culturais físico-esportivos, artísticos, sociais, manuais e intelectuais. Os diversos conteúdos culturais do lazer, tais como os físico-esportivos, representam uma oportunidade singular de desenvolvimento da qualidade de vida e da cidadania, dois atributos fundamentais na execução de qualquer política social. Transformação, renovação e evolução são as ações e respostas naturais ao momento em que vivemos. 121 REFERÊNCIAS ALVES JÚNIOR, A. et al. Um gol de placa na cidadania: uma análise crítica das propostas de inclusão social de adolescentes e jovens pobres pelo esporte na cidade de Macapá. 2008. 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