35 ZERO HORA QUARTA-FEIRA, 14 DE OUTUBRO DE 2009 Sobreviventes MARIA VERANICE SILVA mulher da vítima Confira casos recentes de professores que correram risco de vida ao ensinar: Certidão atesta a morte de Ozório Felini no hospital, nove dias após as agressões FOTOS ARQUIVO PESSOAL ‘‘ Colegas meus ouviram coisas como ‘qualquer coisa, venho armado’. Esses, eu não chamo de alunos. REJANE MARIA SANCHES – Ao tentar apartar dois alunos da 2ª série da Escola Municipal de Ensino Fundamental Núcleo Habitante Dunas, em Pelotas, a docente de 49 anos levou uma cadeirada na cabeça. Atingida no olho direito, perdeu a visão. Rejane deixou de lecionar. Pacificador da escola foi morto à facada por aluno Mulher desistiu de ser professora Durante um intervalo entre as aulas, duas alunas puxavam os cabelos uma da outra e trocavam tapas e socos. O namorado de uma delas, Claudiomiro de Abreu, 18 anos, divertia-se com a cena. Após abandonar os estudos no ano anterior, era a primeira noite em que voltava ao colégio. Com as mãos nos bolsos da jaqueta, irritou-se ao perceber a aproximação do professor. – Não te mete – avisou. Felini não deu ouvidos. Tentou afas- GENARO JONER Deitado em uma cama de hospital, o professor Ozório Alceu Felini, 45 anos, ouviu em março do ano passado um pedido sussurrado pela mulher: – Para de pensar um pouco nos teus alunos, pensa nas tuas filhas. Maria Veranice Maciel Silva, 47 anos, queria que o marido abandonasse um tumultuado colégio de Vacaria para resguardar a família da violência estudantil. Mesmo ferido à faca por um aluno, o educador rejeitou a súplica de Vera, como é conhecida, com uma ponderação desconcertante. – A melhor forma de proteger as nossas filhas é melhorando a sociedade – argumentou. O educador, formado em Direito e corretor de imóveis, doou-se ao magistério justamente por influência da mulher, também professora. Havia cinco anos, cumpria a dura tarefa de civilizar o ensino como coordenador do turno da noite na Escola Estadual Bernardina Rodrigues Padilha. No estabelecimento, entre outras obrigações, era responsável por abordar alunos brigões, pedir respeito aos insolentes e convencer estudantes descompromissados a comparecer às aulas. Em 17 de março, em sua última missão, o pacificador do colégio correu para a frente do banheiro do estabelecimento depois de ouvir gritos. GLÁUCIA TEREZINHA SOUZA DA SILVA – A professora da 4ª série do colégio estadual Bahia, em Porto Alegre, envolveu-se em uma discussão com uma aluna de 15 anos em 23 de março. A estudante jogou a educadora ao chão. Gláucia bateu a cabeça e precisou ser internada no HPS. tar o estudante para pôr fim à briga, mas ele se colocou à sua frente. Tentou uma segunda vez, e Claudiomiro novamente se interpôs. Na terceira, segurou o adolescente pelos braços. Sem tirar a mão do bolso, o estudante empurrou uma lâmina contra o abdômen de Felini e saiu correndo. O professor só percebeu que havia sido atingido quando alunos apontaram para o sangue que manchava sua camisa. Sangrando, caminhou até a secretaria, onde chamou a polícia. Foi levado por um colega até o hospital em que ficou nove dias internado. Seu estado de saúde piorou rapidamente, e o professor morreu no dia 26 de março. Nos dias seguintes, detectores de metais passaram a ser utilizados no colégio para barrar a entrada de armas e facas. Para a família, a perda de Felini é um trauma não superado. Assustada com a rotina de indisciplina, Vera não encontra forças para retornar ao trabalho nas duas escolas estaduais em que atuava, a Padre Pacífico e a Professor José Fernandes de Oliveira. O temor da ex-professora é reforçado por relatos de conhecidos que seguem no front da educação e relatam episódios de carros de docentes riscados, ameaças e brigas. – Colegas meus ouviram coisas como “qualquer coisa, venho armado”. Esses, eu não chamo de alunos – diz. Claudiomiro foi preso pela polícia em Caxias do Sul na véspera da morte do professor. Ele negou a agressão, contrariando a versão da própria vítima e de pelo menos cinco testemunhas. Em 27 de março deste ano, foi julgado e condenado a 14 anos e meio de prisão pelo assassinato do professor que sonhava em pacificar a educação gaúcha. SIMONE MENDICELLI – Em maio de 2006, a educadora da 2ª série da Escola Estadual Lídia Moschetti aplicava um teste quando um aluno de 11 anos começou a perturbar os colegas. Simone, então com 32 anos, pediu para o menino parar e acabou atingida por uma pedra de 450 gramas. Professor assassinado deixou mulher Vera e as filhas em Vacaria SEGUE > D OMINGO Professores sob medicação HOJE S EGUNDÃ A rotina da violência A morte no colégio ONTEM A MANHÃ O tráfico cerca a escola Como superar o drama