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ZERO HORA QUARTA-FEIRA, 14 DE OUTUBRO DE 2009
Sobreviventes
MARIA
VERANICE SILVA
mulher da vítima
Confira casos recentes de
professores que correram risco
de vida ao ensinar:
Certidão atesta
a morte de
Ozório Felini
no hospital,
nove dias após
as agressões
FOTOS ARQUIVO PESSOAL
‘‘
Colegas meus
ouviram coisas
como ‘qualquer
coisa, venho
armado’. Esses,
eu não chamo
de alunos.
REJANE MARIA SANCHES
– Ao tentar apartar dois
alunos da 2ª série da
Escola Municipal de Ensino
Fundamental Núcleo Habitante
Dunas, em Pelotas, a docente
de 49 anos levou uma
cadeirada na cabeça. Atingida
no olho direito, perdeu a visão.
Rejane deixou de lecionar.
Pacificador da escola foi
morto à facada por aluno
Mulher desistiu
de ser professora
Durante um intervalo entre as aulas,
duas alunas puxavam os cabelos uma
da outra e trocavam tapas e socos. O
namorado de uma delas, Claudiomiro de Abreu, 18 anos, divertia-se com
a cena. Após abandonar os estudos no
ano anterior, era a primeira noite em
que voltava ao colégio. Com as mãos
nos bolsos da jaqueta, irritou-se ao
perceber a aproximação do professor.
– Não te mete – avisou.
Felini não deu ouvidos. Tentou afas-
GENARO JONER
Deitado em uma cama de hospital, o professor Ozório Alceu Felini, 45
anos, ouviu em março do ano passado
um pedido sussurrado pela mulher:
– Para de pensar um pouco nos teus
alunos, pensa nas tuas filhas.
Maria Veranice Maciel Silva, 47 anos,
queria que o marido abandonasse um
tumultuado colégio de Vacaria para
resguardar a família da violência estudantil. Mesmo ferido à faca por um
aluno, o educador rejeitou a súplica
de Vera, como é conhecida, com uma
ponderação desconcertante.
– A melhor forma de proteger as
nossas filhas é melhorando a sociedade – argumentou.
O educador, formado em Direito e
corretor de imóveis, doou-se ao magistério justamente por influência da
mulher, também professora. Havia
cinco anos, cumpria a dura tarefa de
civilizar o ensino como coordenador
do turno da noite na Escola Estadual
Bernardina Rodrigues Padilha. No estabelecimento, entre outras obrigações,
era responsável por abordar alunos
brigões, pedir respeito aos insolentes
e convencer estudantes descompromissados a comparecer às aulas. Em
17 de março, em sua última missão,
o pacificador do colégio correu para a
frente do banheiro do estabelecimento
depois de ouvir gritos.
GLÁUCIA TEREZINHA SOUZA
DA SILVA – A professora da 4ª
série do colégio estadual Bahia,
em Porto Alegre, envolveu-se
em uma discussão com uma
aluna de 15 anos em 23 de
março. A estudante jogou a
educadora ao chão. Gláucia
bateu a cabeça e precisou ser
internada no HPS.
tar o estudante para pôr fim à briga,
mas ele se colocou à sua frente. Tentou uma segunda vez, e Claudiomiro
novamente se interpôs. Na terceira,
segurou o adolescente pelos braços.
Sem tirar a mão do bolso, o estudante
empurrou uma lâmina contra o abdômen de Felini e saiu correndo. O professor só percebeu que havia sido atingido quando alunos apontaram para
o sangue que manchava sua camisa.
Sangrando, caminhou até a secretaria,
onde chamou a polícia. Foi levado por
um colega até o hospital em que ficou
nove dias internado.
Seu estado de saúde piorou rapidamente, e o professor morreu no dia 26
de março. Nos dias seguintes, detectores de metais passaram a ser utilizados no colégio para barrar a entrada
de armas e facas.
Para a família, a perda de Felini é
um trauma não superado. Assustada
com a rotina de indisciplina, Vera não
encontra forças para retornar ao trabalho nas duas escolas estaduais em
que atuava, a Padre Pacífico e a Professor José Fernandes de Oliveira. O temor da ex-professora é reforçado por
relatos de conhecidos que seguem no
front da educação e relatam episódios
de carros de docentes riscados, ameaças e brigas.
– Colegas meus ouviram coisas como “qualquer coisa, venho armado”.
Esses, eu não chamo de alunos – diz.
Claudiomiro foi preso pela polícia
em Caxias do Sul na véspera da morte do professor. Ele negou a agressão,
contrariando a versão da própria vítima e de pelo menos cinco testemunhas. Em 27 de março deste ano, foi
julgado e condenado a 14 anos e meio
de prisão pelo assassinato do professor
que sonhava em pacificar a educação
gaúcha.
SIMONE MENDICELLI – Em
maio de 2006, a educadora da
2ª série da Escola Estadual
Lídia Moschetti aplicava um
teste quando um aluno de 11
anos começou a perturbar os
colegas. Simone, então com
32 anos, pediu para o menino
parar e acabou atingida por
uma pedra de 450 gramas.
Professor assassinado
deixou mulher Vera e
as filhas em Vacaria
SEGUE >
D OMINGO
Professores
sob medicação
HOJE
S EGUNDÃ
A rotina
da violência
A morte
no colégio
ONTEM
A MANHÃ
O tráfico
cerca a escola
Como superar
o drama
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Pacificador da escola foi morto à facada por aluno