Pró-Reitoria de Graduação
Curso de Psicologia
Trabalho de Conclusão de Curso
A VIDA PROFISSIONAL DE TRAVESTIS: DA
MARGINALIZAÇÃO À INSERÇÃO NO MERCADO DE
TRABALHO FORMAL
Autora: Mariana da Silva
Orientador: Prof. Msc. Alexandre Cavalcanti Galvão
Brasília – DF
2012
MARIANA DA SILVA
A VIDA PROFISSIONAL DE TRAVESTIS:
DA MARGINALIZAÇÃO À INSERÇÃO NO MERCADO DE
TRABALHO FORMAL
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado
ao curso de graduação em psicologia da
Universidade Católica de Brasília, como
requisito parcial para obtenção do Título de
Psicóloga.
Orientador: Prof. Msc. Alexandre Cavalcanti
Galvão
BRASÍLIA-DF
2012
Trabalho de Conclusão de Curso de autoria de Mariana da Silva, intitulado “A VIDA
PROFISSIONAL DE TRAVESTIS: DA MARGINALIZAÇÃO À INSERÇÃO NO
MERCADO DE TRABALHO FORMAL”, apresentada como requisito parcial para a
obtenção do grau de Bacharel em Psicologia da Universidade Católica de Brasília, em 21 de
junho de 2012, defendida e aprovada pela banca examinadora abaixo assinada:
Prof. Msc. Alexandre Cavalcanti Galvão
Orientador
Psicologia - UCB
Prof. Msc. Luciana da Silva Santos
Psicologia – UCB
Brasília - DF
2012
AGRADECIMENTOS
À Deus por estar sempre me guiando e protegendo, por apaziguar meu coração nos
momentos de desespero, me acolher em seus braços e cessar minhas lágrimas. Por me dar
forças para continuar lutando pelos meus sonhos e me mostrar que nada é impossível.
Obrigado, pai. Sem ti, eu nada seria.
À minha pãe (pai e mãe), pela motivação e incentivo em relação aos meus estudos, por
sempre me apoiar nos momentos difíceis, por acreditar em mim quando eu mesma duvidava
da minha própria capacidade, pela dedicação e amor incondicional. Nós vencemos, mais uma
vez, minha querida. Devo a você tudo o que sou. Essa conquista é em sua homenagem,
mãezinha.
À todos os meus amigos pelos risos e lágrimas compartilhadas, pelo carinho, atenção e
as palavras de incentivo. Enfim, a família que escolhi para estar ao meu lado, por tornarem
minha caminhada nesse plano mais doce e divertida. Não citarei nomes para não correr o risco
de me esquecer de alguém. Amo todos vocês. Aos meus familiares, pelo carinho, apoio e
palavras de incentivo.
A todos os professores e mestres, pela paciência e compreensão, por compartilharem
seus conhecimentos e vivências, contribuindo para a minha formação intelectual e pessoal.
Por fim, por serem uma fonte de inspiração. Serei Eternamente grata a todos.
À Jaqueline Gomes de Jesus, Patrick Thiago Bomfim, Ludymilla Santiago e Andre
Peredo pelo auxílio e as informações prestadas. Muito Obrigada por contribuírem para a
realização desse trabalho, mesmo que indiretamente.
À professora Luciana da Silva Santos pela disponibilidade, atenção e leitura cuidadosa
desse trabalho. Muito obrigada pelas preciosas sugestões, que contribuíram para enriquecer
ainda mais esse trabalho.
Ao meu orientador, profissional e ser humano admirável, professor Alexandre
Cavalcanti Galvão, por partilhar seus conhecimentos, pelo apoio, paciência, atenção,
dedicação, generosidade, incentivo e acolhimento nos momentos de angústia. Foi um prazer
inenarrável contar contigo nessa caminhada que trilhei rumo à realização de um sonho. Você
abrilhantou ainda mais concretização desse trabalho. Foi uma honra tê-lo como orientador.
Por fim, a Flor e a Monique pela disponibilidade em participar dessa pesquisa, pelo
desprendimento, abertura e partilha de suas vivências. Sem vocês realmente, esse trabalho não
teria se concretizado. Muito obrigada, mesmo.
RESUMO
SILVA, Mariana da. A vida profissional de travestis: Da marginalização à inserção no
mercado de trabalho formal. 2012. 52 páginas. Trabalho de Conclusão de Curso Psicologia, Universidade Católica de Brasília, Brasília.
Este estudo teve como objetivo principal examinar as dificuldades enfrentadas e as
expectativas que as travestis têm em relação à inserção no mercado de trabalho formal. Essa
pesquisa foi realizada numa perspectiva qualitativa, com abordagem fenomenológica. Foram
realizadas entrevistas com perguntas semi estruturadas com duas travestis. A análise de dados
foi realizada por meio da análise de depoimentos, para posteriormente o conteúdo das
entrevistas ser dividido em unidades de significado. Os resultados obtidos formaram três
unidades de sentido: prostituição percebida como único caminho viável, a vivência de
gênero e a construção do corpo e o impacto da vivência de gênero feminina na vida familiar,
social e profissional das travestis. Os resultados obtidos evidenciaram que as participantes
encontram na prostituição uma oportunidade de obtenção e complementação de renda devido
a um cenário restrito no mercado de trabalho para as travestis, que abandonam a escola ainda
na adolescência em função do preconceito com sua vivência de gênero. Preconceito
vivenciado cotidianamente em âmbito familiar, escolar e trabalhista, e que deixa marcas na
vida das pessoas que fazem parte do universo da travestilidade.
Palavras Chaves: Travestis, Vida Profissional, Mercado de Trabalho.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO.....................................................................................................................4
2. REVISÃO DE LITERATURA.............................................................................................7
2.1 CIDADANIA E TRABALHO...........................................................................................13
2.2 PROBLEMA.......................................................................................................................18
2.3 OBJETIVOS.......................................................................................................................18
2.2.1 Objetivo geral................................................................................................................18
2.2.2 Objetivos específicos.......................................................................................................18
3. METODOLOGIA.................................................................................................................18
3.1 PARTICIPANTES..............................................................................................................19
3.2 INSTRUMENTOS E MATERAIS.....................................................................................20
3.3 PROCEDIMENTOS E COLETAS DE DADOS...............................................................20
3.4 PROCEDIMENTOS E ANALISE DOS DADOS.............................................................21
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES........................................................................................22
4.1 UNIDADE DE SENTIDO 1: A PROSTITUIÇÃO PERCEBIDA COMO ÚNICO
CAMINHO VIÁVEL...............................................................................................................23
4.2 UNIDADE DE SENTIDO 2: VIVÊNCIA DE GÊNERO: A CONSTRUÇÃO DO CORPO
E DE UMA VIDA NOVA .......................................................................................................28
4.3 UNIDADE DE SENTIDO 3: SOCIEDADE, TRAVESTILIDADE E PRECONCEITO:
OS IMPACTOS DA VIVÊNCIA DE GÊNERO FEMININA NA VIDA FAMILIAR,
SOCIAL E PROFISSIONAL DAS TRAVESTIS....................................................................32
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS...............................................................................................38
6. REFERÊNCIAS..................................................................................................................41
ANEXOS..................................................................................................................................46
ANEXO A................................................................................................................................46
ANEXO B.................................................................................................................................48
4
1. INTRODUÇÃO
A trajetória profissional do universo transgênero no Brasil é distintamente marcada
pela presença de transexuais e travestis em espetáculos performáticos em casas de shows,
palcos teatrais e eventos culturais na década de 1950, passando nos anos 1980 e 1990 pela
popularização desse universo, através da participação em programas de auditório de grande
audiência, novelas, filmes e seriados; com destaque atualmente, para a grande presença de
travestis e transexuais nas esquinas e calçadas das grandes cidades (LIMA, 2009). É a partir
da visibilidade alcançada por meio da participação em espetáculos teatrais, televisivos, e
cinematográficos que a sociedade em geral toma conhecimento e entra em contato com o
fenômeno da travestilidade (SILVA 2007, apud LIMA 2009).
Atualmente, são consideradas travestis as pessoas biologicamente do sexo masculino
que vivenciam o gênero feminino cotidianamente, utilizam hormônios e silicone a fim de
alterar seu corpo de forma permanente, com o objetivo de tornar-se o mais semelhante
possível, fisicamente, com o sexo oposto. Diferentemente da transexual, que não se identifica
com o gênero relacionado ao seu sexo biológico, e sente-se presa em um corpo que não lhe
pertence, apresentando uma sensação de desconforto com seu sexo anatômico; as travestis
sentem-se bem com seu órgão sexual, reconhecendo-o como um instrumento de prazer. O
órgão sexual é considerado um atrativo, o que as diferencia das mulheres, e irá atrair os
homens: um corpo feminino com órgão sexual masculino (LOURENÇO, 2009).
Jesus (2012) descreve as travestis como pessoas do sexo masculino, que tem uma
vivência de gênero relacionada aos papéis sociais femininos, porém não se reconhecem como
mulheres ou homens, e sim, como elementos que fazem parte de um terceiro gênero ou um
não-gênero. Já as pessoas transexuais sentem que seu corpo não corresponde ao o gênero com
o qual se identificam, a forma como pensam e sentem, e por isso, querem adequar seu corpo
ao seu estado psíquico. Essa autora relata que a concepção de gênero é uma construção social
e o sexo é biológico.
Apesar da prática de vestir-se e viver diariamente como o sexo oposto ser secular,
apenas no final do século XIX foram desenvolvidos os primeiros estudos sobre travestismo,
tendo como marco a publicação do livro Psychopathia Sexualis, de Richard Von KrafftEbing. Nessa época, os indivíduos com orientação sexual homossexual, ou transtorno de
identidade sexual eram considerados, pela Medicina, portadores de instinto sexual invertido
ou contrário. Já no início do século XX, o termo travestimo foi desenvolvido pelo médico
alemão Magnus Hirschfeld, para designar uma categoria distinta que abarcava os
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homossexuais que se travestiam, e também, os indivíduos considerados com identidade sexual
invertida (SPIZZIRRI; AZEVEDO; ABDO, 2011). Assim como Lima (2009) nesse estudo
optaremos em utilizar o termo travestilidade ao invés de travestismo, evitando a patologização
intrínseca ao emprego do sufixo “ismo”, como também empregaremos o substantivo travesti
no feminino, como forma de valorizar a vivência de gênero e a subjetividade das pessoas
pertencentes a esse universo.
Segundo Lima (2009, p. 2):
“O termo travesti remete imediatamente ao movimento transitório e farsesco de
um gênero para o outro pelo ato de vestir-se com trajes típicos do sexo oposto. E
é justamente devido à visualidade ambígua (ou seria híbrida?) de um feminino
construído a partir de um corpo biologicamente masculino – desconstruído para
ser reconstruído com aparatos, artifícios, e elementos simbólicos e materiais
convencionados femininos – que a travestilidade permeia a esfera da cultura e do
cotidiano com uma imagem estigmatizada e degenerada”.
A esfera social é construída por fatores culturais estabelecidos historicamente, que
definem o que é considerado normal e anormal, que deve ser aceito ou rejeitado socialmente.
A vida das travestis na sociedade tem sido assinalada pela posição marginalizada das mesmas,
que tem em seus corpos a marca da subversão devido ao rompimento da fronteira instituída
por padrões normatizados de gênero e sexualidade. As travestis, portanto, são reconhecidas
como transgressoras de valores culturais, sendo então, segregadas à margem da sociedade por
fugir aos modelos heteronormativos de gênero e sexualidade. Sua cidadania é negada em
virtude de sua vivência de gênero, não adequada aos padrões definidos socialmente como
normais e aceitos (LIMA, 2009).
De acordo com Figueiredo (2008) as travestis partilham histórias de exclusão social e
discriminação, que lhes causa muito sofrimento, confirmado através de discursos sobre a
violência e o cerceamento social que sofrem diariamente. Refletem em sua fala um
sentimento de dor relativo à sua sociabilidade cotidiana, caracterizada pelos confrontos e
enfrentamentos rotineiros, devido a não-aceitação da sociedade.
Um dos principais problemas enfrentados pelas travestis em nossa sociedade é a falta
de oportunidade. Em função do preconceito que sofrem nas escolas, muitas abandonam os
estudos ainda na adolescência, por vergonha, período no qual iniciam seus processos de
transformação corporal. Com baixa escolaridade e sem qualificação adequada, a oferta de
trabalho é limitada. Em um cenário restrito no mercado de trabalho, as travestis praticamente
só são bem aceitas nos ramos da beleza e da moda, desempenhado as funções de cabeleireiras,
maquiadoras, estilistas, entre outras. Contudo, como o campo de trabalho é sempre limitado, a
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prostituição aparece como um meio de subsistência encontrado por grande parte das travestis
(LOURENÇO, 2009). A prostituição pode ser interpretada como uma imposição da sociedade
que nega às travestis sua cidadania, seus direitos, acesso a bens e serviços. As pessoas que
exercem essa atividade são estigmatizadas e marginalizadas pela sociedade. As
discriminações e os estigmas sociais afetam o estado emocional e psicológico da população de
transgêneros, causando rebaixamento da autoestima, crises de angústia, ansiedade, e
depressão, comprometendo a saúde mental de travestis e transexuais (PERES, 2004).
Apesar de muitas travestis encontrarem na prostituição uma forma de sobrevivência,
Peres (2004) salienta que travestis não são sinônimos de prostituição, ainda que, exista no
imaginário social uma tendência a estigmatizar o universo da travestilidade, devido a essa
frequente associação. Esse autor relata ser possível encontrar, embora em número reduzido,
travestis com formação universitária, trabalhando em diversas áreas, como: advocacia,
psicologia, história, engenharia, entre outras. Descreve a existência de travestis
desempenhando funções nas mais diversas ocupações, em cargos nos serviços públicos,
trabalhando como web-designers e também prestando serviços domésticos.
A idéia de desenvolver uma pesquisa relacionada à inserção das travestis no mercado
de trabalho surgiu devido há escassez de estudos relacionados ao tema e da importância do
desenvolvimento de uma pesquisa que busque conhecer em maior profundidade a realidade
profissional das pessoas pertencentes ao universo da travestilidade, frequentemente
discriminado e excluído socialmente. Essas cidadãs tem seus direitos solapados e são
preteridas de uma perspectiva de vida em sociedade com qualidade, dignidade, respeito, e
segurança, devido ao preconceito em função de sua vivência de gênero; que resulta na
marginalização social experimentada pelas mesmas, submetidas diariamente a episódios de
violência psicológica, moral e física. Bonfim (2009) relata que o termo travesti está ligado à
visão de saúde e prostituição, assinalado assim, por estigmas e estereótipos. Contudo, o
cotidiano das pessoas pertencentes ao universo das travestilidades possui aspectos que
extrapolam esses campos e devem ser desnudados por meio da compreensão e promoção do
pleno exercício da cidadania.
Faz-se de extrema relevância a realização de um trabalho relacionado à vivência
profissional das travestis, que segundo Lourenço (2009) apresentam narrativas de dor e
sofrimento decorrentes de sua posição marginalizada na sociedade. Objetiva-se então, através
dessa pesquisa contribuir para o desenvolvimento científico, social e político acerca do tema
para que, assim, a realidade profissional das travestis possa ganhar uma maior visibilidade, e a
posição das mesmas na sociedade seja repensada.
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2. REVISÃO DE LITERATURA
Em muitas sociedades o ato de vestir-se com roupas e adereços típicos do sexo oposto
constituía uma prática recorrente, muitas vezes necessária a participação em ritos festivos,
míticos, religiosos, tendo vários significados, não sendo fundamentalmente relacionados ao
prazer sexual (CARDOSO, 2005). Na Grécia Antiga, as representações teatrais eram
realizadas apenas pelos homens da polis, às mulheres era vedada a participação em
encenações teatrais, assim como também, a participação em qualquer evento social, fora do
âmbito privado. Cabia aos atores masculinos trajar-se como mulheres para participar dos
eventos teatrais, atividade realizada exclusivamente pelo gênero masculino, até meados do
século XVII (LEITE JR, 2008 apud LIMA, 2009).
Existem consideráveis descrições a respeito de sociedades indígenas, na América do
Norte, nas quais haviam grupos instituídos denominados “berdaches”. As berdaches eram
indivíduos biologicamente considerados homens, que, entretanto, adotavam as vestimentas e
comportamentos relativos ao gênero feminino, desempenhavam tarefas e atividades
reservadas às mulheres, além de praticar sexo com outros homens, geralmente no papel
passivo. O papel social destes sujeitos era reconhecido e legitimado como pertencente ao
gênero feminino, o que lhes propiciava a vivência de papéis específicos em sua cultura
(BENEDETTI, 2005).
Revisando a bibliografia de Benedetti (2005) verifica-se a presença de várias citações
acerca da vivência de gênero que foge aos padrões heteronormativos, em diferentes épocas e
sociedades. Esse autor cita a existência de documentos antropológicos referente à vivência
semelhante a das berdaches em sociedades primitivas, como é o caso das mahu, no Taiti, que
desempenhavam importante papel na definição das identidades de suas comunidades, pois
serviam de exemplo tanto para os homens, quanto para as mulheres, do que era reprovável
socialmente. Também cita as xanith, de Omã, que comporiam um terceiro sexo, cujo ofício
mais comum era a prostituição. Além de mencionar a existência no Paraguai, das panemas,
homens cujas funções de caçadores foram perdidas, passando, portanto, a utilizar a cesta ao
invés do arco, os maiores símbolos, respectivamente de feminilidade e masculinidade em sua
cultura. Todavia, o autor salienta que a descrição das referidas tribos acima, se limita aos
aspectos considerados exóticos, relativos às diferentes personificações das transformações de
gênero, não privilegiando o debate sobre a construção cultural de corpo e gênero.
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No Brasil, Benedetti (2005) faz referência há relatos bastante remotos relacionados às
práticas de vivência e transformação de gênero no país, a exemplo de um escravo vindo do
Congo, que não atendia ao ser chamado por seu prenome masculino, respondia apenas ao ser
tratado pela alcunha de “Vitória”, sendo considerada a “primeira travesti brasileira”.
Menciona ainda, o fato de no Brasil seiscentista, muitas pessoas que se vestiam de forma
semelhante ao sexo oposto, ou seja, homens com roupas femininas, ou mulheres com roupas
masculinas, terem sido julgadas pelo tribunal da Inquisição. Contudo, os primeiros relatos
documentados sobre travestilidade encontrados no Brasil são datados do século XIX, mais
especificamente, do ano de 1853, na Bahia. Tais relatos constam em registros policiais da
época, e por mais de três décadas, dos anos de 1853 a 1885, a prática da travestilidade foi
apontada como o motivo de várias prisões. Nesse período era considerado crime, o fato de
trajar-se como o sexo oposto, por fugir aos padrões normativos sexuais e de gênero, que
designavam a diferenciação nas vestimentas de ambos os sexos e no traquejo social
(SANTOS, 1997).
Nessa época, meados do século XIX, as práticas divergentes dos padrões normativos
de gênero eram (e continuam sendo na atualidade), consideradas transgressivas, posto que, o
ato de vestir-se de forma semelhante ao sexo oposto constitui uma inversão simbólica, que
não se restringe apenas a questão dos trajes. De acordo com Santos (1997) a vestimenta está
relacionada a questões comportamentais e sociais, não se limitando apenas a mero tecido. Vai
além, contribui para a construção da identidade pessoal e social do individuo, revelando,
determinando e/ou produzindo valores, costumes, e preferências.
Durante as festividades carnavalescas no Brasil, no inicio do século XX, o ato de
vestir-se publicamente, como o sexo oposto, era legitimado socialmente. Esses
acontecimentos, que só ocorriam sazonalmente, eram interpretados apenas como uma
brincadeira satírica, típica dos blocos de carnaval (LIMA, 2009). Ainda na época do Brasil
Colônia, a figura da travesti, que então já existia, só era tolerada devido a participação em
representações teatrais (TREVISAN 2002, apud AMARAL; MEDEIROS, 2010). A
travestilidade era uma prática comum no teatro, lugar no qual era aceito, que os atores
representassem papéis femininos. Contudo, a prática de se vestir de mulher, realizada pelos
atores, era feita sem muita preocupação em realmente parecer uma mulher (LIMA, 2009).
Em meados de 1950, as travestis tiveram a presença marcada pela participação em
espetáculos teatrais, eventos culturais e casa de shows. Todavia, essa participação ficava
restrita a lugares muito específicos, localizados nos guetos, ou relacionados à prostituição,
atraindo ainda mais a curiosidade em torno da figura enigmática das travestis (LIMA, 2009).
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Para essa autora, a figura da travesti na sociedade brasileira passa a ter uma conotação
artística, relacionada ao homem que se traveste de mulher em apresentações humorísticas e
musicais. Diferentemente dos dias atuais, nos quais a imagem da travesti é associada à
prostituição, nessa época a travesti era vista apenas como uma artista teatral e performática. É
importante ressaltar que no Brasil, no inicio do século XX, a profissão de atriz era
marginalizada e ligada à prostituição, devido ao fato de atrizes de pequenas trupes se
prostituírem, prática também adotada posteriormente pelas artistas travestis (LEITE JR, 2008
apud LIMA, 2009).
Na década de 1960, com o nascimento dos movimentos estudantis e a luta pelos
direitos civis, surge um novo cenário, no qual eram reivindicadas perspectivas e visões sociais
e culturais diferenciadas, até mesmo em relação a questões cotidianas, como a vivência de
papéis de gênero. Nesse contexto, novos movimentos contra-hegemônicos, discursando a
favor das minorias começaram a ganhar força, para que, fossem repensados os paradigmas
culturais e sociais vigentes. Em meio a toda essa efervescência no cenário social dos países
ocidentais, surge o conceito de gênero, derivado das contestações do movimento feminista,
que propôs novas teorias e uma nova discussão acerca das questões relacionadas à
sexualidade humana e aos papéis sociais (LIMA, 2009).
Com o aparecimento dos chamados novos movimentos sociais, que reivindicavam o
lugar da identidade dos indivíduos, politizando vários aspectos (sexualidade, corpo, relações
afetivas, reprodução, formas cognitivas ou emocionais) até então considerados pertencentes à
vida privada, houve a criação do movimento homossexual. Esses movimentos (feminista,
estudantil, homossexual, defensores dos direitos humanos, entre outros) tinham como
características a diversidade de valores e idéias. Lutavam por reformas institucionais que
incluíssem a participação de seus membros nas tomadas de decisões políticas, para assegurar
os direitos sociais de todos os cidadãos, que viviam em condições de exclusão social
(RIBEIRO, 2005).
O movimento feminista propôs novas interpretações sobre as diferenças entre
masculino e feminino, que não fossem pautadas unicamente pelo binarismo sexual (baseado
por características físicas e anatômicas do corpo), a fim de se romper com o pensamento
biologista dominante, fundamentadas na afirmação de Simone de Beauvoir de que, “não se
nasce mulher, torna-se” (LIMA, 2009). Essa autora ressalta que, com o surgimento do
conceito de gênero tornou-se possível discutir os papéis de masculino e feminino, como
construções culturais, históricas, simbólicas, materiais e discursivas, reproduzidas
socialmente. O sexo dos indivíduos passou a ser compreendido como um produto sócio-
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histórico, relação entre os fatores biológicos e sociais, tendo sua construção relacionada à
concepção cultural de masculino e feminino.
Para Ribeiro (2005) o movimento feminista teve vital importância na organização dos
movimentos homossexuais, visto que, as discussões propostas pelos movimentos feministas
proporcionaram a problematização da dimensão sexualidade, até então balizada pela repressão
social. Reivindicava-se uma maior liberdade sexual, no qual era questionada a
“heterossexualidade compulsória”, o que favoreceu ao movimento homossexual incorporar tal
discussão, em favor de outras formas de vivências afetivas e sexuais.
Os movimentos
homossexuais, de acordo com esse autor, questionavam o conjunto de interpretações,
construídos com fins classificatórios e categorizantes. Politizavam a discussão acerca de
aspectos referentes à sexualidade e afetividade destes indivíduos, em prol de uma reflexão a
respeito da redefinição de parâmetros, relacionados às suas vivências e experiências. Reflexão
essa que tinha como finalidade, proporcionar a construção de novas interpretações,
favorecendo a inserção destes indivíduos em novas formas de sociabilidade, pautada na
construção de uma identidade social, com base na orientação sexual.
No início dos anos 1970, travestis artistas que dublavam e interpretavam cantoras do
rádio e atrizes hollywoodianas ficaram conhecidas como transformistas, apesar dessas
performances também serem desempenhadas por outros artistas, inclusive heterossexuais.
Contudo, a diferenciação entre travestis e transformistas já podia ser notada, devido aos
processos distintos de transformação dos corpos, adotados por ambas (LIMA, 2009).
As transformistas se travestem de forma semelhante ao sexo oposto, geralmente
homens vestem-se como mulheres, para apresentar suas performances artísticas, fazendo a
adoção de técnicas reversíveis com o intuito de suprimir os traços masculinos durante apenas
as apresentações, adquirindo uma aparência e identidade feminina, em um dado momento. Já
a vivência cotidiana, com uma caracterização feminina, não apenas durante a noite, mas
também de dia, é realizada pelas travestis, mesmo com a perseguição sofrida nesse período,
devido à ditadura militar. Contudo, como na década de 1970, os recursos para uma
transformação corporal mais refinada ainda eram escassos, as travestis utilizavam-se dos
mesmos artifícios que as transformistas para modificar seus corpos (LIMA, 2009). O uso de
hormônios e silicone começou a ser incorporado pelas travestis na década de 1980, pois no
inicio da década de 1970, isso ainda era novidade no Brasil. Lima (2009) relata que o
surgimento de novas técnicas e recursos representaram um marco para a pretensa identidade
travesti, graças as novas possibilidades de mudança, que produziram efeitos não só de ordem
física, como também emocional e moral.
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Nos anos 1980, os shows de transformistas começaram a ganhar espaço na televisão,
passando a ser exibidos em programas populares de grande audiência em rede nacional, como “O
Clube do Bolinha”, na rede Bandeirantes “Show de Calouros” apresentado por Sílvio Santos aos
domingos no SBT, nos quais travestis e transformistas participavam de concursos em que
disputavam o prêmio pela melhor dublagem. Na Rede Globo, o “Cassino do Chacrinha” trazia
no corpo de jurados as travestis Rogéria e Roberta Close. Nas décadas de 1980 e 1990 as
travestis ganharam muita visibilidade no país, por meio dos veículos de comunicação, que
retratavam como um espetáculo a travestilidade, acentuando a aura de exotismo intrínseco a sua
condição, devido à curiosidade acerca dos complexos processos de transformação corporal, aos
quais as mesmas se submetiam. Figuras cada vez mais presentes e populares na cultura de massa,
as travestis passam a ter seu universo associado ao glamour e entretenimento semelhante aos
espetáculos burlescos, atraindo audiência para os programas televisivos dos quais participavam,
devido à curiosidade e confusão causadas pela beleza feminina, fabricada em um corpo
biologicamente masculino (LIMA 2009). Para a autora, a confusão e curiosidade se davam em
grande parte devido à visualidade ambígua das travestis, com a aparência extremamente
feminina, sendo chamada por seu nome de registro civil masculino, o que causava certo impacto
no público ao se deparar com um corpo com aspectos totalmente feminino, em contraposição
com sua identidade, originalmente masculina. O público era incitado a questionar se aqueles
corpos realmente eram masculinos, pois as travestis tinham performances completamente
femininas, e muitas vezes, utilizavam trajes minúsculos, o que levava o telespectador a tentar
decifrar onde se escondia o pênis das travestis, cujos corpos eram considerados verdadeiros
enigmas.
De acordo com Lima (2009) apesar de a vivência da travestilidade não ser novidade,
somente em 1980, com o surgimento dos movimentos sociais, que lutavam pelo fim da
ditadura militar, e a favor da liberação sexual, foi que a figura das travestis passou realmente a
ganhar visibilidade na sociedade brasileira. A travesti, então, passa a fazer parte da
composição das paisagens urbanas, principalmente noturnas, das grandes cidades, e a
prostituição se instituiu como uma prática que faz parte da construção da identidade travesti.
Contudo Kulick (2008 apud LIMA, 2009) lembra que, apesar do espaço conquistado
nos meios de comunicação por algumas travestis, que por conseqüência acumularam riquezas,
e conseguiram ascender socialmente, tamanha visibilidade não provocou mudanças no
cotidiano e na vida da maioria delas. Elas permanecem sendo discriminadas e marginalizadas
pela sociedade, vivendo em guetos, tendo como principal local de trabalho, as ruas, de onde
tiram meios para sua sobrevivência, por meio da prostituição.
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Segundo Benedetti (2005) com o surgimento da epidemia causada pelo vírus HIV nos
anos 1980, foram desenvolvidos vários trabalhos sobre a sexualidade humana em diferentes
áreas de pesquisa social, recebendo a homossexualidade atenção diferenciada. Mesmo não
enfocando especificamente as travestis, esses estudos colaboraram para que se fosse
colocando em pauta as temáticas a respeito da sexualidade, corpo, e gênero, na agenda
política do governo, e na academia, promovendo um maior interesse no desenvolvimento de
pesquisas nas áreas correlacionadas.
O Ministério da Saúde, desde a década de 1980, adotou estratégias para enfrentar a
epidemia HIV/AIDS, contando com os movimentos sociais, vinculados aos direitos da
população LGBTTT como parceiros, fortalecendo a participação destes grupos na luta pela
saúde. O reconhecimento da complexidade da saúde LGBTTT demandou uma articulação
entre os movimentos sociais e outras áreas do Ministério da Saúde, expandindo o conjunto de
demanda dessa população na área da saúde, protegendo suas especificidades (BRASIL, 2010).
As práticas sexuais tornaram-se cada vez mais visadas por discursos públicos e
políticos, principalmente nos casos de grupos considerados de risco, com o governo
investindo em campanhas para conscientizar a população dos riscos de infecção por HIV,
orientando e patrocinando projetos de ONGS-AIDS (BORBA, 2010). De acordo com Brasil
(2008), a epidemia de AIDS no país contribuiu para se dar visibilidade às condições de vida e
de saúde dos homossexuais (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). Desde a
década de 1980 até junho de 2010 já foram notificados 608.230 casos, o que fez com que o
governo tomasse a iniciativa em desenvolver planos nacionais de enfrentamento da epidemia
(BRASIL, 2011). Em contrapartida, a visibilidade que os grupos homossexuais adquiriram
contribuiu para o aumento de processos discriminatórios, devido à vinculação da orientação
sexual e a identidade de gênero como fatores relacionados à maior vulnerabilidade às
DST/AIDS. Para o Ministério da Saúde, a orientação sexual e a identidade de gênero são
categorias consideradas determinantes e condicionantes da condição de saúde, por implicar
práticas sexuais e sociais especificas, mas também, por expor Lésbicas, Gays, Bissexuais,
Travestis e Transexuais a agravos decorrentes do estigma e da exclusão social.
Na atualidade, é possível ver com certa freqüência, em diversas situações, a presença
de travestis e transexuais em programas televisivos, que vão desde programas como shows de
calouros semelhantes ao quadro “Os transformistas", humorísticos iguais a “Praça é Nossa”,
da mesma emissora, SBT, até reality shows. Entretanto, muitas vezes, a imagem retratada é
caricatural, estereotipada, representada de forma negativa, apelando para uma estética
grotesca e marginalizada. É comum a presença de travestis envolvidos em escândalos e
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polêmicas com personalidades públicas, como políticos, atores e cantores, em programas
sensacionalistas, iguais ao apresentado por Luciana Gimenez, na emissora Rede TV. Ou até
mesmo, de modo recorrente na pauta de telejornais, como no ano de 2008, em que o jogador
de futebol, Ronaldo, e os atores Gabriel Braga Nunes e Rômulo Arantes Neto, tornaram-se
manchete de revista e jornais ao requisitar os serviços de travestis, profissionais do sexo
(LIMA, 2009).
Diante exposto acima, podemos percebemos que os meios de comunicação se
configuram em espaços de construção e reprodução de representações sociais simbólicas, que
reforçam a imagem de desviante das travestis, favorecendo a instituição de relações de
opressão desses sujeitos que desempenham papéis de gênero que não se encaixam nos padrões
heteronormativos vigentes (LIMA, 2009). A mídia exerce um importante papel ao retratar as
pessoas pertencentes ao universo da travestilidade de forma estereotipada e com uma
conotação negativa, pois funcionam como uma ferramenta favorável a naturalização de
práticas discriminatórias e a permanência da situação marginalizada, vivenciada
cotidianamente pelas travestis, que são assujeitadas socialmente e não se percebem como
cidadãs, tendo direitos e deveres.
CIDADANIA E TRABALHO
O significado de cidadania vai além do simples exercício do voto. A compreensão do
termo cidadania extrapola os direitos e deveres políticos, e implica também na participação
efetiva da população no controle e fiscalização da atuação em esfera pública, seja por meio de
órgãos governamentais ou de entidades populares, como sindicatos, associações e ou
movimentos sociais. Independente do caráter do órgão ou entidade, seja ele governamental ou
não, a participação da sociedade civil tem a função de fiscalizar e denunciar irregularidades
no governo e no poder público, cobrar e exigir dos governantes os direitos de toda a
população, como acesso à saúde, educação, segurança, trabalho, entre outros (NETO;
AGNOLETI, 2008).
Segundo Portela (2009) um dos pressupostos fundamentais da cidadania é a relação
inerente entre indivíduo/Estado. A cidadania é considerada a identidade social do indivíduo,
construída a partir da relação existente entre determinada sociedade e os interesses do
ambiente social ao qual este indivíduo pertence. Para a autora, a cidadania é um reflexo do
momento histórico vivenciado, da conjectura política, econômica e social de um determinado
período e por isso é sempre dinâmica. É construída historicamente, tendo um aspecto sócio-
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histórico intrínseco, do qual fazem parte os valores e crenças estabelecidas por determinada
época e sociedade, e pode ser divida em três partes: civil, política, e social, (MARSHALL,
1967 apud PORTELA, 2009).
O Estado no mundo contemporâneo deve garantir a igualdade a todos em uma
sociedade, pois é dele que derivam os direitos e deveres dos indivíduos, assim como também
a justiça e a moralidade. Enquanto autoridade civil, é do Estado que procedem os direitos
civis, políticos e sociais. Os direitos civis estão relacionados à liberdade individual, já os
políticos à participação no exercício do poder político, podendo ser através da participação
direta ou representação; e os sociais dizem respeito a tudo o que está relacionado ao bem estar
do indivíduo: saúde, educação, trabalho, segurança, lazer e cultura. O trabalho na sociedade
contemporânea passou a ser considerado um fator indispensável à conquista da cidadania,
juntamente com a educação, elementos que fazem parte do processo de construção da
cidadania (PORTELA, 2009).
Historicamente, o trabalho tem função fundamental para a humanidade devido a uma
questão de sobrevivência, por atribuir sentido a existência humana, além de ser um fator
estruturante socialmente. Está profundamente relacionado à existência e a realização humana,
e por isso, o seu valor é considerado socialmente inalienável. As relações de trabalho podem
explicar a vivência do homem em sociedade, pois é através destas que o homem entra em
contato com o coletivo, e consigo mesmo, constrói e modifica o meio social onde vive; e
acima de tudo, é por meio da sua relação com seu semelhante que o homem constrói a si
próprio, se faz homem, torna-se humano e se apresenta ante o outro. O trabalho proporciona
ao homem o desenvolvimento de suas habilidades, a utilização de sua imaginação, além de
favorecer ao autoconhecimento, por meio da rotina laboral, o homem tem a oportunidade de
conhecer suas capacidades e limitações, o que está relacionado à auto-imagem e visão de
mundo. Fonte de obtenção de realização e prazer, o trabalho, ou até mesmo a falta de uma
profissão, também pode causar dor, sofrimento e alienação (ARAÚJO; SACHUK, 2007).
Essas autoras relatam que devido à atual conjuntura político-econômica mundial, e com o
surgimento da globalização, a esfera trabalhista vem sofrendo importantes transformações.
Com o aparecimento de inovações tecnológicas, as formas de organização do trabalho estão
sofrendo alterações, o que consequentemente, está causando mudanças no mercado de
trabalho. As novas formas de tecnologia, de divisão do trabalho e de gerenciamento na
produção favorecem o aumento da produtividade, e em contrapartida, geram a diminuição dos
postos de trabalho permanentes, beneficiando o crescimento do setor informal, ou causando
desemprego estrutural e exclusão.
15
Em meio a essas transformações paradoxais, cabe ao trabalhador buscar meios para se
ajustar na tentativa de sobreviver. Portela (2009) citando informações provenientes de
documentos do Ministério do Trabalho relata que, apesar da queda na taxa de crescimento
populacional no Brasil, há uma considerável oferta de mão de obra a espera de oportunidade
para ingressar no mercado de trabalho. Essa autora cita também uma mudança na faixa etária
dos sujeitos inseridos no mercado de trabalho em função do nível de escolaridade e de
qualificação, sendo os trabalhadores com idade entre 25 a 39 anos considerados mais
qualificados e experientes.
No atual cenário trabalhista, a educação é considerada um diferencial na competição
por uma vaga no mercado de trabalho, que está demandando uma mão de obra mais
escolarizada. A mão de obra terá como fator favorável um maior nível de escolaridade, não
necessariamente relacionado com a função a ser desempenhada no posto de trabalho, mas sim
como um diferencial para competir em melhores condições por um emprego. Contudo, as
mudanças estruturais no mundo trabalhista não estão acompanhando a expansão educacional,
pois o sistema educacional oferece uma força de trabalho com maior nível de escolaridade,
não absorvida totalmente devido ao número reduzido de vagas existentes no mercado de
trabalho, formando um panorama de vulnerabilidade econômica, social e de exclusão
(LETELIER, 1999).
De acordo com Segnini (2000) a educação e a formação profissional atualmente
possuem funções instrumentais, ou seja, basicamente funcionam para favorecer a
competitividade e aumentar a concorrência, adequar a mão de obra às transformações técnicas
e diminuir o impacto do desemprego. As transformações estruturais pelas quais o mercado de
trabalho tem passado, tem como resultado: altas taxas de desemprego, precariedade das novas
configurações de emprego e insegurança crescente. Em decorrência dessas mudanças há uma
maior flexibilização da força de trabalho, um aumento de ofertas de trabalho por contratos
temporários, subcontratação e terceirização. Os discursos sobre os níveis de escolaridade
estão atrelados a ocupação e permanência em cargos considerados essenciais para os
processos de produtividade, visto que, quanto mais qualificados os trabalhadores de um país,
mais elevadas às possibilidades de absorver as novas tecnologias predominantes, e maior é a
probabilidade de se obter um rápido crescimento da produção. O desemprego é descrito por
essa autora como sendo intrínseco ao crescimento econômico, e não como resultado da
deficiência no desenvolvimento econômico.
A expansão econômica no Brasil tem como reflexo a disparidade nas relações
trabalhistas e uma intensa heterogeneidade. O mercado de trabalho não foi capaz de instituir a
16
generalização do emprego formal, com direitos sociais e garantias para toda a população,
acontecendo justamente o inverso, um cenário no qual predominam a flexibilização do
trabalho, com condições em sua maioria precárias. No país, esse fato se mistura às mazelas
sociais nunca resolvidas como a profunda disparidade na distribuição de renda, analfabetismo,
os baixos índices educacionais, a saúde, com conseqüência nefastas nas escassas condições
para o exercício da cidadania (SEGNINI, 2000).
Em meio ao cenário econômico atual, a situação da maioria da população travestis em
nossa sociedade é considerada de grande vulnerabilidade social e exclusão, visto que, essa
população não tem acesso a políticas públicas que garantam sua proteção contra violência
simbólica e física em âmbito escolar e a oportunidade de inclusão no mercado de trabalho.
Assim como mencionado por Garcia (2007) faz-se de extrema relevância contextualizar aqui
a conjuntura histórica em que as travestis se destacaram como grupo social distinto, tendo a
prostituição como principal atividade laboral desempenhada nos anos de 1970 e 1980,
correspondendo a um período que perdura até os dias atuais, no qual a prática da prostituição
ainda é exercida pelas travestis, que diante da falta de oportunidade, encontra na prostituição
um meio de subsistência.
É de essencial importância destacar aqui que a prostituição enquanto prática individual
e autônoma não é considerada ilegal no Brasil, e sim a exploração sexual. Todavia, não há o
reconhecimento desse ofício como uma profissão, o que favorece a utilização de ensejos
legais na forma de acusações de atentado ao pudor e escândalo público; como mecanismos
para a inibição e a criminalização dos sujeitos que exercem essa atividade, com o fim de
coibir a prática da prostituição (GUIMARÃES; MERCHÁN-HAMANN, 2005). O termo
profissional do sexo começou a ser utilizado na década de 1980. Com a abertura política, após
a ditadura e o aparecimento dos movimentos sociais passou-se a reivindicar a regulamentação
da prostituição, como forma de garantir os direitos trabalhistas das pessoas que desempenham
essa atividade (GARCIA, 2007). Embora a prostituição ainda não tenha sido legalizada, pois a
luta pela sua regulamentação se arrasta até a atualidade, o ofício de profissional do sexo é
reconhecido como uma ocupação pela Classificação Brasileira de Ocupações do Ministério do
Trabalho. O que chama a atenção nessa classificação é o fato de travestis e transexuais serem
utilizadas como sinônimo de profissional do sexo para identificar quem exerce esse oficio,
junto a outras nominações como: Garota de Programa, Garoto de Programa, Meretriz,
Messalina, Michê, Mulher da Vida, Prostituta, Puta, Quenga, Rapariga, e Trabalhador do
Sexo (BRASIL, 2010).
17
Essa correlação estabelecida na classificação de ocupações do Ministério do Trabalho,
entre os sujeitos que se identificam como transgêneros e a prostituição, demonstra o fato de as
travestis não terem acesso ao mercado de trabalho e muitas vezes recorrem à prostituição
como forma de sobrevivência, devido às ínfimas oportunidades de trabalho oferecidas a elas.
Dessa forma, o fato de serem retratadas como sinônimo de prostituição por uma classificação
pertencente a um órgão (entidade) governamental reforça oficialmente a situação de exclusão,
discriminação e estigma social vivenciados pela população travesti.
Por ser um tema relacionado a outros assuntos igualmente complexos, os debates
sobre a prostituição tem permanecido restritos a discursos repressivos, a respeito das
chamadas sexualidades vagabundas, da vigilância sanitária e da criminalidade. Normalmente,
as reflexões acerca desse tema ganham destaque devido a suas características negativas e por
sua ligação a assuntos que, muitas vezes, extrapolam os dilemas daqueles que vivenciam o
exercício da prostituição no seu cotidiano, como fenômenos graves relacionados ao tráfico de
crianças, adolescentes e mulheres para agenciamento, comercialização e turismo sexual. O
debate sobre a legalização da prostituição ganhou novamente destaque na sociedade brasileira
desde a criação do Projeto de Lei (PL) 98/2003 de autoria do ex-deputado federal Fernando
Gabeira, que tinha como objetivo assegurar a remuneração pelos serviços prestados e garantir
os direitos trabalhistas das pessoas que se prostituem (GUIMARÃES; MERCHÁNHAMANN, 2005).
O Projeto de Lei (PL) 98/2003 que chegou a tramitar no Congresso Nacional foi
arquivado, e posteriormente se iniciou a discussão acerca de uma proposta de criação de um
Projeto de Lei PL 4244/2004 do ex-deputado Eduardo Valverde, com base no PL anterior e
em uma lei alemã que regulamenta as relações jurídicas no âmbito do mercado do sexual. A
proposta do novo PL visa regulamentar a prostituição e desenvolver mecanismos para o
fortalecimento da cidadania dos profissionais do sexo, garantindo que o exercício dessa
atividade seja remunerado e esses trabalhadores possam de fato ser reconhecidos como
profissionais, com direitos e deveres; e assim, saiam da situação de marginalização que
vivenciam cotidianamente (WILLYS, 2012).
No entanto, para que isso ocorra é preciso considerar as pessoas que exercem essa
atividade, como sujeitos de direito, posto que, atualmente há uma organização significativa na
reivindicação pelo direito de exercer a profissão de forma digna. (GUIMARÃES;
MERCHÁN-HAMANN, 2005).
18
2.2 PROBLEMA
Pergunta-se quais as dificuldades que as travestis encontram em sua inserção no
mercado de trabalho formal? Quais são suas expectativas em relação à vida profissional?
Como o trabalho das travestis se reflete em sua auto-percepção de cidadania?
2.3
OBJETIVOS
2.3.1 Objetivo geral:
Examinar as dificuldades enfrentadas e as expectativas que as travestis têm em relação a
sua inserção no mercado de trabalho formal.
2.3.2 Objetivos específicos:
Identificar os atuais campos de trabalho das travestis.
Investigar a influência da vivência de gênero e dos procedimentos de transformação
corporal no processo de escolarização.
Compreender as formas de conflitos que permeiam a vivência laboral e social das
travestis.
Investigar a opinião das travestis acerca dos movimentos sociais que representam o
universo da travestilidade.
Conhecer as perspectivas das travestis em relação a sua vida profissional.
3. METODOLOGIA
Neste estudo, realizaremos uma pesquisa numa perspectiva qualitativa, com
abordagem fenomenológica. A pesquisa será realizada com uma amostra de sujeitos
pertencentes à população travesti, a fim de se conhecer de forma mais aprofundada aspectos
relacionados à vida profissional dessa população.
Goldenberg (2007) descreve a utilização dos métodos qualitativos como uma forma de
ressaltar as peculiaridades de um fenômeno em termos de seu significado para o grupo
pesquisado, através de um mergulho profundo. A autora relata que nas pesquisas qualitativas
19
em ciências sociais, a representatividade dos dados está relacionada à possibilidade de
compreensão do significado e descrição detalhada dos fenômenos estudados em seus devidos
contextos. Por meio de uma imersão intensa e profunda é realizada a observação participante
por um período prolongado de tempo, entrevistas densas, e a análise de variadas fontes, sob
diferentes perspectivas, que permitam uma maior compreensão não alcançada com a
utilização de métodos quantitativos.
A fenomenologia busca apreender a essência dos fenômenos, superando as aparências
imediatas. O método fenomenológico privilegia, dentro do campo de estudo da sociedade, a
vivência cotidiana do homem, suas angústias e preocupações. A análise fenomenológica
substitui as hipóteses explicativas pela descrição concreta da realidade do sujeito pesquisado,
através do ponto de vista dos atores sociais e dos sentidos atribuídos pelos mesmos, aos
objetos e ações sociais que desenvolvem (GOLDENBERG, 2007). O método fenomenológico
na Psicologia tem como principal objetivo captar o significado da vivência cotidianamente
por cada sujeito. As situações vivenciadas pelo sujeito não possuem unicamente um
significado em si, como também, adquirem um sentido para quem as experiencia, relacionado
à própria maneira de existir. A experiência vivenciada pelo sujeito é extremamente íntima, e
tem um sentido que, geralmente escapa ao observador, pois o ser humano não é transparente;
para revelar essa experiência o pesquisador precisa de informações fornecidas pela própria
pessoa. O método fenomenológico apresenta-se como um recurso adequado para se pesquisar
a vivência, ao contrário do método experimental, que se restringe apenas a observação dos
fatos e significado destes, considerando-os em si mesmo (FORGHIERI, 1997).
3.1 PARTICIPANTES
A pesquisa contou com a presença de duas participantes pertencentes ao universo da
travestilidade população, devido à extrema dificuldade de se entrar em contato com possíveis
participantes da população alvo. O número de participantes se deu em função da
disponibilidade, do interesse em participar da pesquisa e do curto período de tempo para a
realização das entrevistas em decorrência da demora em conseguir fazer contato com os
sujeitos da população alvo. Ambas as participantes são habitantes do Distrito Federal,
possuem o ensino fundamental incompleto e idades de 44 e 55 anos. Com o intuito de manter
o sigilo da identidade das participantes, doravante as nomearemos como Flor e Monique. Flor
reside no Recanto das Emas (DF), tem 55 anos, possui a 4ª série do Ensino Fundamental,
exerce (esporadicamente) a ocupação de profissional do sexo, obtém uma renda mensal de R$
20
800,00, sendo que R$622,00 desse valor provém de uma aposentadoria por invalidez.
Monique reside em Sobradinho (DF), tem 44 anos, possui a 6ª série do Ensino Fundamental,
exerce a ocupação de profissional do sexo, e obtém uma renda mensal de R$2.000,00, sendo
que deste total o valor R$620,00 provém do auxilio doença que recebe do INSS.
Devido à dificuldade de se entrar em contato diretamente com possíveis participantes
da pesquisa, foi realizado contato com o Núcleo de Atenção à Diversidade e Intolerância
Sexual, Religiosa e Racial do Distrito Federal, conhecido como NUDIN, pertencente à
Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do Distrito Federal
– SEDEST. O NUDIN foi criado em 5 de fevereiro de 2009, com a finalidade de proporcionar
atendimento especializado às vítimas de intolerância e discriminação sexual, racial e religiosa.
Foi realizada uma solicitação, por meio de um ofício contendo a apresentação da
pesquisadora e o objetivo da pesquisa. A solicitação passou por um processo de análise, e
após a aprovação e autorização, foi realizada uma triagem de possíveis participantes pelo
psicólogo da instituição.
Foram incluídas na pesquisa somente travestis, habitantes do Distrito Federal e
indicadas pelo NUDIN. Não foram estabelecidos parâmetros com relação à idade, grau de
escolaridade e profissão. Também foi estabelecido como critério de inclusão a participação
voluntária.
3.2 INSTRUMENTOS E MATERIAIS
Foi utilizado um roteiro de entrevistas semi-estruturado (Anexo A) elaborado de
acordo com as finalidades da pesquisa. As perguntas que compõem o roteiro contemplam
aspectos relacionados à profissão atual, profissões anteriores, transformações corporais,
vivência/identidade de gênero, travestilidade na sociedade atual, movimento social e
cidadania, expectativas para o futuro.
Antes de iniciar a entrevista, apresentamos o Termo de Compromisso Livre e
Esclarecido (Anexo B) às participantes da pesquisa, esclarecendo quaisquer dúvidas e
colhendo suas assinaturas, de acordo com os preceitos da Resolução 196/1996.
3.3 PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS
As entrevistas foram agendadas e realizadas de acordo com a disponibilidade de
horário das participantes e a disponibilidade da sala de atendimento do NUDIN.
21
Esta pesquisa foi submetida à análise e aprovação do Comitê de Ética (Número do
Parecer: 35317) tendo em vista o envolvimento de seres humanos como participantes da
pesquisa.
Como assegurado pela Resolução 196/1996, que considera a possibilidade de em todo
projeto de pesquisa que conta com a participação de seres humanos haver algum risco, caso
ocorresse algum desconforto ou experiência emocional desagradável em decorrência do
conteúdo investigado na pesquisa, o participante poderia solicitar o apoio psicológico gratuito
a qualquer momento da entrevista ou posteriormente. O acolhimento psicológico será
realizado no Centro de Formação em Psicologia Aplicada (CEFPA) da Universidade Católica
de Brasília, pela própria pesquisadora, sob a supervisão do seu professor orientador.
Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com o objetivo de examinar as
dificuldades enfrentadas e as expectativas que as travestis têm em sua inserção no mercado de
trabalho formal. As entrevistas, que tiveram a duração média de aproximadamente 1 hora
foram registradas através da gravação de áudio, para posteriormente serem transcritas
integralmente pela pesquisadora.
As entrevistas foram realizadas na sala reservada para atendimento no NUDIN, cuja
instalação era bem iluminada, arejada e contava com uma mesa e cadeiras.
3.4 PROCEDIMENTO DE ANÁLISE DOS DADOS
A análise de dados foi realizada com embasamento no método fenomenológico. Para
analisar o significado da vivência experienciada pelo sujeito em determinadas situações, o
método fenomenológico utiliza-se da redução fenomenológica. A redução fenomenológica
consiste em se fazer uma reflexão profunda a respeito da vivência dos sujeitos, de forma a se
ter acesso a maneira como esta se constitui no próprio existir humano, e se abranger a
essência do conhecimento (FORGHIERI, 1997). Para termos acesso ao significado que os
sujeitos da pesquisa atribuem à vivência investigada, será utilizada a análise de depoimentos,
citada por Bruns; Holanda (2003) constituída dos seguintes passos:
1- Apreensão do Sentido do Todo (leitura de toda a entrevista, com o objetivo de
obter um sentido integral, na tentativa de captar o que estava sendo descrito como
todo).
22
2- Discriminação das Unidades de Sentido (divisão em unidades de significado
captando os momentos de variação psicológica sensível de cada situação,
formando unidades constitutivas do texto).
3- Análise dos relatos existenciais obtidos nas entrevistas e transformação em
linguagem psicológica.
4- Sistematização dos relatos da vivência das participantes em unidades de sentido.
4.0 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Após a realização da coleta de dados, transcrição e leitura sistematizada das
entrevistas, fez-se a interpretação dos dados, a partir da qual foram elaboradas três
unidades de significado com o objetivo organizar o discurso das participantes acerca da
temática investigada. As unidades de significado surgiram a partir da descrição vivencial
de cada participante e foram identificadas a partir do eixo central relacionado ao tema
pesquisado. A primeira unidade de sentido refere-se à profissão exercida atualmente. A
segunda diz respeito à vivência de gênero, o corpo suas transformações e o surgimento de
uma vida nova. A terceira é referente à forma como a sociedade percebe a vivência da
travestilidade e o impacto dessa percepção na vida das travestis. As unidades de sentido
estão inter-relacionadas de forma a propiciar uma compreensão global do tema central da
pesquisa. O objetivo dessa discussão é explorar a inserção das travestis no mercado de
trabalho, porém sempre respeitando e valorizando a vivência existencial de cada sujeito,
que é único, e o contexto no qual vivem.
4.1 UNIDADE DE SENTIDO 1: A PROSTITUIÇÃO PERCEBIDA COMO ÚNICO
CAMINHO VIÁVEL
A primeira unidade de sentido diz respeito à profissão atual e seu significado para as
participantes. Os indicadores centrais referentes a essa unidade dizem respeito à atuação como
profissional do sexo impulsionada principalmente pela necessidade financeira. Percebemos
semelhanças e divergências no que tange a escolha, as motivações e pontos negativos
referentes ao exercício da profissão. As travestis encontram na prostituição um meio de
23
obtenção e/ou complementação de renda, uma forma para alcançar sua independência
financeira. Ambas participantes começaram a trabalhar como profissional do sexo devido a
um mercado de trabalho limitado, em decorrência do preconceito com a identidade de gênero
das travestis. Fato que fica claro nas seguintes falas:
“A prostituição para mim significa o único caminho encontrado em 1975. É (...) por
não ter conseguido me manter em uma sala de aula por causa do alto índice de
preconceito, discriminação. E, eu não tinha capacidade nenhuma para tá
trabalhando, e nem tinha também uma aceitação no mercado de trabalho formal”
(Flor).
“Necessidade. Que eu tava (...) que não tinha jeito, eu ganhava muito pouco. Então,
eu já botei a prostituição como minha profissão. Eu não tenho outra, não vão me dar
outra” (Monique).
O mercado de trabalho para as travestis é restrito e geralmente oferece oportunidades
de trabalho apenas nas áreas da beleza e estética (LOURENÇO; 2009). Como as
oportunidades nessas áreas de trabalho são limitadas, a prostituição acaba sendo uma forma
que as travestis encontram de garantir o seu sustento. Como citado em pesquisa realizada por
Bonfim (2009) a vida social e laboral da maioria das travestis ganha contornos através de
experiências noturnas de prostituição e diurnas em salões de beleza. Por terem uma vivência
de gênero que foge a inteligibilidade social, seguindo os padrões heteronormativos de gênero
e sexualidade, a inserção desses sujeitos no mercado de trabalho muda radicalmente
(RODRIGUES; NARDI, 2009). Para esses autores, o enfraquecimento das redes sociais que
exercem o papel de apoio, tem como conseqüência a adesão a precárias alternativas de
trabalho. O apoio familiar foi mencionado nas entrevistas como um fator que pode ter forte
influência na entrada das travestis no mercado do sexo. Na adolescência, ao iniciarem as
modificações corporais, as travestis são expulsas de casa ou até mesmo optam por sair devido
a não aceitação de sua vivência de gênero. Sem um lar, precisando obter um meio de sustento,
a prostituição surge, então, como uma via possível de sobrevivência mediante a falta de apoio
social. O apoio da rede social, principalmente da família é de suma importância para que a
travesti não precise recorrer à prostituição para sobreviver. As falas a seguir retratam a
opinião e a vivência das entrevistadas a respeito do relacionamento familiar e da importância
do apoio da rede social:
“Quando a família apóia a pessoa trans ou a pessoa travesti, ela tem 50% de
oportunidade de ser uma cidadã normal. Quando a família expulsa essa travesti,
ainda bastante adolescente de casa, não aceita, não entende, essa travesti tem 90 %
de chance de ir para a marginalidade, infelizmente” (Flor).
24
“Eu passo necessidade, se for pra mim comer o pão puro, eu como o pão puro. Nem
na casa da minha mãe eu fico tocado, de tanta maldade que ela fez comigo. Deixei
ela de mão. Não faço participo de festa dela, não participo de festa deles.
Acabou.Sempre sobra uma piada pra eles dizer. E, eu não to nem aí para eles. Já
peguei briga com eles. Eu e minha família não se cheira muito, não” (Monique).
Além das áreas de trabalho já mencionadas por Bonfim (2009) e Lourenço (2009) as
entrevistadas relatam também ser comuns às travestis ofertas de emprego em áreas
relacionadas ao ramo da alimentação, serviços gerais, limpeza, e panificação, para exercerem
funções como: cozinheira, auxiliar de cozinha, faxineira, empregada doméstica, diarista e
auxiliar de padeiro.
A seguir são apresentadas falas das participantes em relação à oportunidade de
emprego para travestis no mercado de trabalho:
“Ah, hoje em dia, só salão de beleza. Só salão de beleza. No Lago Norte, tem as
patroas que (...) doméstica, quer que as bichas sejam domésticas. Que é mais aceita é
como domésticas, tá entendendo?! Assim, comércio (...) é muito raridade, eles não
pegam” (Monique).
“Bom, o mercado de trabalho é bom. Eu acho que falta capacitação, nem mesmo no
(...) como surgem várias oportunidades de trabalho. Mas, eu acredito que o brasileiro
(...) ainda falta muita capacitação para o mercado de trabalho. Para a travesti, isso é
pior ainda. É bem pior (...) a capacitação” (Flor).
A respeito das áreas mencionadas nas falas acima, além das supracitadas por autores
como Lourenço (2009) e Bonfim (2009) é interessante analisar para além dos recortes de
gênero relacionados a essas atividades. Dois aspectos relevantes e que chamam a atenção nas
falas das entrevistas é o fato da maioria ou todas as profissões aludidas terem a sua realização
geralmente atribuída ao gênero feminino e também o fato de serem consideradas muitas
vezes, como subempregos, profissões que não são valorizadas socialmente.
Apesar de o aspecto financeiro ter sido mencionado como crucial na decisão de se
recorrer à ocupação de profissional do sexo como uma forma de sobrevivência, a escolha
desse ofício também está relacionada a outros fatores, como liberdade, autonomia, autoestima, reconhecimento, prazer, diversão. A prostituição é vista como a possibilidade de
trabalhar em algo que se goste dentro de um cenário restrito no mercado de trabalho, que lhes
oferece poucas oportunidades de emprego. Não é exigida qualificação profissional, grau de
escolaridade, e em contrapartida remuneração é considerada boa, sendo possível obter um
rápido retorno financeiro.
25
“Eu acredito que (...) a motivação seja essa mesma, a falta de mercado de trabalho. É
a certeza de que esse retorno financeiro, ele é imediato. E não me exige nenhuma
formação profissional” (Flor).
“Não falta dinheiro” (Monique).
Para Pelúcio (2005), o trabalho como profissional do sexo no caso das travestis pode
ser compreendido sob três prismas: (1) uma atividade desempenhada exclusivamente por
necessidade financeira; (2) uma forma de ascensão social com aquisições materiais e
simbólicas; (3) uma atividade que além de gerar renda, propicia um ambiente de
sociabilidade.
Os meios de comunicação de massas e as instituições sociais reproduzem uma idéia
equivocada, corrente no senso comum, de que as pessoas nascidas biologicamente do sexo
masculino, porém com vivência de gênero feminina, realizam complexos processos de
modificação corporal, subjetividade e identidade social com a principal finalidade de ter
acesso ao mercado do sexo (BENEDETTI; 2011). Para esse autor, a relação entre o universo
da travestilidade e o exercício da prostituição e seus espaços, são considerados elementos
essenciais na construção da identidade social das travestis.
Além de um espaço profissional ou de sobrevivência, o ambiente da prostituição no
Brasil institui importantes locais de sociabilidade e aprendizado para as travestis, fato que
contrapõem a visão de que a causa da transformação de gênero e corporal realizada pelas
travestis teria como objetivo principal a entrada no mercado sexual. É corrente a idéia de que
as travestis iniciam o processo de transformação corporal para exercer a atividade de
profissional do sexo, e os espaços de prostituição freqüentados são percebidos apenas como
locais de trabalho. Porém, esses espaços são os principais lugares de convívio social, e troca
de informações a respeito dos processos de construção do corpo e do gênero das travestis, e,
por conseguinte de construção de sua identidade social (BENEDETTI, 2005).
O mundo da prostituição é considerado para as travestis um canal de acesso para a
transformação do corpo e um meio de convívio social. No caso das entrevistadas, além do
ambiente de socialização proporcionado, a prostituição tem um significado importante
relacionado à auto-estima, reconhecimento e respeito. Narraram sentir-se valorizadas, pois
embora não sejam mais jovens, são procuradas por clientes e bem tratadas pelos mesmos,
demonstrando que ainda são desejáveis e fazem bem o seu trabalho. Como é possível perceber
nas falas a seguir:
“Eu acho que até mesmo uma busca de afirmação, se ainda alguém para pra mim e
me paga, isso é porque ainda eu com 55 anos, eu ainda não estou tão detonada, né?!”
(Flor).
26
“Você conhece homens legais. Você é bem tratada também, tá entendendo?!”
(Monique).
Outro aspecto citado pelas entrevistadas é o fato de serem pagas para fazer algo que
lhes proporciona prazer, descrito por ambas como um dos poucos pontos positivos do
exercício da prostituição:
“Ao sexo, ao sexo. Porque eu gosto do sexo remunerado. E em Sobradinho eles não
remuneram. Sair com um rapazinho não remunera, sair com homem casado lá, não
remunera. Então, eu gosto remunerado, porque além de eu me divertir, do prazer, eu
ainda ganho o meu por fora, a parte” (Monique).
“O único aspecto positivo na prostituição é que a profissional do sexo faz por
prazer” (Flor).
Não obstante, os seus relatos apontam também para outras características relacionadas
à vida laboral no mercado do sexo, como o fato de a prostituição não ser reconhecida por lei
como uma profissão, ser uma carreira curta e sofrida, que não oferece perspectiva de futuro;
além de ser considerado um ofício perigoso de ser exercido devido à violência nas ruas e o
contato constante com o mundo das drogas. Mesmo a prostituição sendo reconhecida como
uma atividade laboral, um meio de obtenção de renda e autonomia financeira pelo Catálogo
Brasileiro de Ocupações do Ministério do Trabalho, essa ocupação ainda não foi
regulamentada como uma profissão e quem a exerce não tem nenhum direito trabalhista
garantido, o que faz com que permaneçam trabalhando em circunstâncias precárias e
inseguras. Conforme mencionado por Maia (2010) os profissionais do sexo são
estigmatizados e sofrem preconceitos, são expostos diariamente a violência e falta de
segurança por exercerem seu ofício nas ruas. De acordo com Piscitelli (2005) mulheres,
travestis e homens se prostituem devido a questões de sobrevivência e para se discutir essa
profissão envolta em uma aura de marginalização e violência, há que se pensar nessas pessoas
de maneira mais humana e respeitosa. As falas a seguir expressam a visão das participantes
acerca do ofício da prostituição:
“É uma ilusão. Porque não é uma profissão organizada, não é uma profissão
regularizada, você não tem (...) você num (...) exige muita coisa de você. E é muito
curto o tempo de prostituição, e é muito difícil você ver uma pessoa fazer um pé de
meia na prostituição. Sempre acaba numa maior idade, numa melhor idade, numa 3ª
idade dependente do Estado, da igreja, das associações” (Flor).
“Pra um dia eu ficar livre da droga de vez, eu vou ter que largar a prostituição.
Porque a prostituição atrai a droga” (Monique).
27
Ao se abordar o tema prostituição faz-se necessário realizar algumas reflexões a
respeito do contingente histórico relacionado a essa prática, seus limites imprecisos, e o fato
de os sujeitos que a praticam não serem compreendidos em sua totalidade existencial
(GARCIA; 2007). A prostituição está inserida em um contexto social e assume características
específicas que derivam das peculiaridades desse campo. É importante examinar atentamente
os parâmetros acerca das práticas que o termo define, pois ao se discutir aspectos relacionados
à prostituição, geralmente é realizada alusão apenas ao escambo efetivado entre sexo e
dinheiro, ignorando outros tipos de relação velada que acontece nesta troca, configurando
uma permuta de favores envolvendo pessoas que não consideradas profissionais do sexo
(PISCITELLI, 2005). A esse respeito às entrevistadas relataram terem começado a se
prostituir mesmo antes de saber o significado do termo prostituição e de recorrer à atividade
sexual como forma de obtenção de renda, posto que, na adolescência faziam sexo em troca de
hormônios, roupas, calçados e até mesmo em troca em proteção em ambientes hostis de
trabalho.
“Quando criança, isso já começou acontecer na minha vida, sexo trocado por
presentes, hormônio” (Flor).
“Aí, eu sempre gostei, sempre gostei de coisa boa. Roupa boa, sapato bom. Esse
cara com quem eu andava, ele que comprava as roupas, comprava sapato, calcinha,
assim tudo era ele que comprava” (Monique).
Na presente pesquisa, ambas participantes também desempenham atividades laborais
em outras funções, além da prostituição, porém em caráter praticamente voluntário, contando
apenas com ajuda de custo. Para Flor, a prioridade é o trabalho como ativista no movimento
social, a prostituição tem a função de complementar sua renda. Trabalha como profissional do
sexo apenas se não tiver nenhum compromisso com o movimento social. Já Monique trabalha
como cuidadora de idosos e afirma que esse trabalho é somente para ajudar a senhora de
quem cuida, sem compromisso. Ela esporadicamente recebe alguns trocados pelos favores
prestados. A necessidade financeira contribui para que permaneçam atuando no mercado do
sexo, visto que não são remuneradas pelas outras atividades que exercem. As aposentadorias,
auxílio doença, e/ou benefícios recebidos por meio do Estado ajudam com as despesas
mensais, mas não são suficientes para que possam se sustentar. Diante da falta de recursos
financeiros, a prostituição oferece a oportunidade negada pelo mercado de trabalho formal.
Segundo Peres (2004) é imprescindível refletirmos a respeito dos diversos contextos
(cultural, histórico, e sócio-econômico) nos quais os sujeitos que desenvolvem esta atividade
estão inseridos, como também as relações de poder instituídas e que determinam as práticas
28
de opressão e exclusão social, cultural, econômica, racial, sexual e de gênero. Assim como
destaca esse autor, é importante ressaltar aqui que seria mais interessante se houvesse a
possibilidade de se pensar no exercício da prostituição unicamente como livre arbítrio, ao
invés de ser muitas vezes imposição de uma sociedade. A sociedade não oferece
oportunidades igualitárias de inserção no mercado de trabalho a todos os seus cidadãos e
cidadãs, nega direitos, acesso a bens e serviços a população travesti, que foge aos padrões
heteronormativos de gênero e sexualidade, que tem sua cidadania usurpada. No caso
específico das travestis, que sofrem cotidianamente com a estigmatização social em virtude da
sua vivência de gênero, há uma maior dificuldade de inserção no mercado de trabalho.
A falta de capacitação profissional é um agravante no caso das travestis que
abandonam precocemente a escola em decorrência do preconceito que enfrentam em âmbito
escolar. Com uma baixa escolarização, sem capacitação profissional e com poucas
oportunidades de trabalho, em campos de atuação que nem sempre estão relacionados às suas
habilidades, vocações, ou interesses pessoais, as travestis encontram na prostituição um meio
de obtenção de renda viável. Ainda que tenham qualificação, as travestis em sua maioria
acabam sendo forçadas a trabalhar como profissionais do sexo. Todavia, não cabe fazermos
generalizações, pois nem toda travesti é profissional do sexo (JESUS, 2012).
4.2 UNIDADE DE SENTIDO 2: “ VIVÊNCIA DE GÊNERO: A CONSTRUÇÃO DO
CORPO E DE UMA VIDA NOVA”
Os indicadores centrais referentes a essa unidade são acerca de questões relacionadas à
vivência de gênero, as modificações do corpo, o surgimento de uma nova vida associada à sua
identificação de gênero. Essa unidade também está relacionada à percepção da forma como
cada entrevistada se percebe a partir dessas mudanças, e ao significado que atribui a sua nova
vida em meio a sua existência no contexto social no qual está inserido.
Foram identificadas nas falas das entrevistadas aspectos relativos à forma como se
percebem e se identificam, a influência do meio social nessa percepção, e o impacto das
modificações corporais em suas vidas. Em relação à percepção do gênero com o qual se
identificam é possível perceber que a forma como as travestis relacionam-se com seu gênero
tem início ainda na infância ou na adolescência, e essa percepção é atravessada pelo meio
social. Apesar de se identificarem e vivenciarem o gênero feminino desde tenra idade, as
travestis lidam diariamente com o não reconhecimento de sua vivência de gênero por parte da
29
sociedade. A forma como a sociedade lida com a vivência de gênero das travestis, que foge
aos padrões binários heteronormativos, terá um forte impacto em sua autopercepção. Em
função do preconceito vivenciado pode haver uma introjeção desse não reconhecimento, o
que consequentemente, faz com que haja uma negação em relação à forma como se
identificam, e a sua própria vivência de gênero. Ou, há uma apropriação do gênero com o qual
a travesti se identifica, e uma busca por autoafirmação, que tem início através da escolha do
nome social, por mais que este não seja respeitado, e das modificações corporais. Seguem a
seguir as falas das entrevistas acerca de como percebem sua vivência de gênero:
“Não, apesar de que era chamada de (...) eu não tinha identidade de gênero feminina
respeitada, mas eu sempre percebo desde que eu entendo por gente, um pouquinho
(...) não era igual aos outros meninos, não tinha aqueles comportamentos tão
tradicionais masculinos. Sempre fui uma pessoa assim (...) mais feminina” (Flor).
“Aí, eu sou gay. Não sou mulher, nem sou homem. Eu sou um gay, tá entendendo?!
Tipo transformista. Quando eu era mais novo eu podia me assegurar, aí eu sou um
travesti” (Monique).
Segundo Jesus (2012) reconhecer a si mesmo como uma pessoa pertencente ao
universo da transgeneralidade e tomar a decisão de como e quando se apresentar a sociedade
de acordo com a forma com a qual se identifica, é considerado a primeira prova de fogo a ser
enfrentada. Essa autora ressalta que no Brasil ainda não há um consenso a respeito do termo
transgênero, porém expõem uma visão partilhada com especialistas e militantes, que
reconhecem em meio à diversidade de configurações de vivência de gênero, dois aspectos
relacionados à dimensão transgênero: a identidade (no caso de travestis e transexuais); e a
funcionalidade (representado por crossdressers, drag queens, drag kings e transformistas).
Essa duas dimensões descrevem as distintas expressões dessa condição.
Faz-se necessário explicitar o conceito de gênero utilizado aqui. Diferentemente do
sexo que é biológico, o gênero está relacionado ao social. Extrapola o sexo biológico, não é
definido pelos cromossomos ou conformação genital, e sim, pela auto-percepção e a forma
como vive e se expressa em meio à sociedade. A vivência de um gênero divergente da sua
anatomia humana, do sexo, é uma questão de identidade, e é o que ocorre com as pessoas
conhecidas como travestis e transexuais, que coletivamente são tratadas como pertencendo ao
mesmo grupo, denominado “transgênero” (JESUS, 2012).
De acordo com Benedetti (2005), o reconhecimento do gênero feminino e as
modificações corporais fazem parte do processo de construção da identidade travesti. O rito
de passagem de garotos para travestis é experienciado por meio do corpo. O processo de
30
transformação corporal de ambas as entrevistadas teve início na adolescência, através do
envolvimento com parceiros amorosos que tinham conhecimentos sobre a utilização de
hormônios, e ocorreu concomitantemente ao começo no exercício na prostituição.
Anteriormente, ao início da realização das modificações do corpo, as participantes afirmaram
já possuir algumas características físicas femininas, como cabelos compridos e pernas
torneadas. A transformação corporal se deu de forma gradual, com a utilização de hormônios,
e, posteriormente, a aplicação de silicone industrial. Em relação aos processos de
transformação corporal o hormônio é associado ao ganho de características femininas sutis,
relativas ao aspecto da pele, o crescimento de cabelo, inibição do crescimento de pelos faciais,
desenvolvimento dos mamilos, rosto mais femininos; e as modificações visíveis são
relacionadas ao uso de silicone. De acordo com Lourenço (2009), os hormônios tem efeitos
em longo prazo, podendo demorar meses ou anos para apresentar resultados visíveis, já o
silicone industrial proporciona resultado imediato.
O processo de transformação corporal pode ser percebido como um decurso natural,
por dizer respeito à adequação do corpo ao gênero com o qual a travesti se identifica. A
transformação é citada pelas entrevistadas como a concretização da construção de uma nova
vida, uma nova identidade, que pode ser associada a aspectos positivos ou negativos,
dependendo das circunstâncias nas quais se deu essa transformação, e o impacto desta na vida
familiar e social. Acerca das transformações corporais, seguem as falas das entrevistadas:
“Eu não percebi muito, eu vim perceber que tinha mudado mesmo, foi quando eu
cheguei na minha cidade, as outras pessoas: ‘nossa, como você engordou”, “nossa
como você está diferente”, “nossa, você esta uma mulher escrita”. “E aí, os
comentários, comentários, eu: Meu Deus, eu não sou mais um menino daqui da
roça.” Eu voltei, e agora eu (...) quando voltei para [nome da idade] eu já voltei com
a consciência maior do que a mulher existia (risos), que ali já não tinha mais (...) eu
tinha uma dúvidas assim (....)será que eu voltar um dia, parar de tomar hormônio.
Mas, quando eu percebi de que a mudança tinha sido tão grande, eu vi que era um
caminho sem retorno, aquilo ali era o que eu queria, e era a minha vida” (Flor).
“Fiquei feminina, mesmo. Fiquei feminina. Já tinha as pernas grossas, tá
entendendo?! E o semblante feminino. Até depois de velha ainda ficou um pouco em
mim” (Monique).
No caso das entrevistadas pode se perceber que a construção do corpo pode ser
relacionada ao êxito na realização de um objetivo, a concretização de um corpo feminino que
condiz com o gênero com o qual a travesti identifica-se, quando há aceitação por parte da
família, ou pode estar relacionada à rejeição, desamparo, e fracasso quando a travesti que não
conta com apoio de sua rede familiar e social. No caso de Flor que contou com o apoio da
família, o nascimento de sua nova identidade estava associada ao êxito em ter conseguido
31
construir um corpo que expressava o gênero com o qual se identifica. E mesmo em uma
situação de adversidade ao ser contaminada com o vírus HIV, Flor assumiu uma nova
identidade que teve como marco a escolha de um nome relacionado ao carinho da família, e
que, para ela significou uma nova oportunidade na vida, uma chance de recomeçar. Já o
nascimento da nova identidade de Monique aconteceu após a saída de um emprego no qual
gostava de trabalhar, tinha reconhecimento, proteção e apoio. A saída desse emprego tem um
significado de trauma e fracasso para ela, que não contou com o apoio familiar no período em
que decidiu vivenciar o gênero feminino. Até mesmo a escolha do nome se deu em uma
situação aversiva, começou a ser chamada pelo nome feminino quando foi presa, sendo assim,
sua nova vida está associada a uma série de situações e aspectos negativos. A respeito do
impacto de suas transformações corporais no âmbito familiar, as participantes declararam:
“O impacto foi a mudança da vestes, radical. Eu viajei para [nome da cidade] fiquei
6 meses, quando retornei, já tinha seios enormes, hábitos totalmente femininos, e
quando eu cheguei em casa, minha mãe não me reconheceu mais. Foi uma
transformação assim (...) em um ano de garoto para garota. Mas, eu nunca abandonei
a minha família, nunca achei que deveria fugir da minha família por ser uma pessoa
trans. Sempre voltei, sempre cobrei deles um compromisso, tá entendendo?! E por
isso eu tenho uma boa (...) um bom relacionamento com a minha família, a minha
família nunca me expulsou, nunca me abandonou. Pode ter sido difícil lidar comigo,
mas nunca deixaram de tá presente no meu dia-a-dia” (Flor).
“Ah, eles acharam muito ruim também. Me discriminou muito a minha família. Eu
tive um tio que tinha um loteamento por um tempo, e eu fui morar nesse loteamento,
ele teve a zona do loteamento, ele me pediu o barraco lá porque o loteamento tava
crescendo e não podia ter gente no barraco, meu próprio tio” (Monique).
A nova identidade construída através das transformações corporais e da incorporação
de símbolos do universo feminino, como o nome, os cabelos (cor e tamanho), vestimentas, a
forma de andar, o olhar, e o gestual são carregados de significados para as travestis,
relacionados à sua subjetividade e a experiências vivenciais. O novo nascimento está
relacionado ao impacto que a transformação do corpo e o surgimento de uma nova identidade
tem em nível subjetivo e interrelacional na vida das travestis. Para Benedetti (2005) o
processo de transformação ao qual as travestis se submetem é análogo ao nascimento.
Entretanto, esse novo nascimento não diz respeito apenas a questões relacionadas ao corpo
e/ou gênero, mas a toda a subjetividade do sujeito ante as essas transformações, e a forma
como essa nova vida vai refletir socialmente.
32
4. 3 UNIDADE DE SENTIDO 3: SOCIEDADE, TRAVESTILIDADE E PRECONCEITO:
O IMPACTO DA VIVÊNCIA DE GÊNERO FEMININA NA VIDA FAMILIAR, SOCIAL
E PROFISSIONAL DAS TRAVESTIS
Os indicadores centrais dessa unidade são relativos à percepção da sociedade acerca
do fenômeno da travestilidade, à compreensão dessa vivência de gênero, e ao impacto dessa
percepção social na vida das travestis. Essa unidade diz respeito aos processos de
discriminação, preconceito, e exclusão social vivenciado pelas travestis, que se revelam
através de violência simbólica e física, e tem como uma de suas conseqüências a evasão
escolar e o mercado de trabalho restrito. Além de também abordar aspectos referentes ao
apoio familiar, dos movimentos sociais e do surgimento de um novo cenário social para as
travestis.
De acordo com Santos e Santos (2011), a vida das travestis é assinalada pela exclusão,
que tem início a partir do momento em que expressam comportamentos distintos do atribuído
ao gênero correspondente ao seu sexo, posto que, a compreensão de gênero construída
socialmente está relacionada à anatomia humana, ou seja, fêmea - gênero feminino e macho gênero masculino.
As falas das entrevistadas muitas vezes remetem ao imenso sofrimento referente à
forma como a sociedade lida com a diversidade de gênero, que rompe com os padrões
binários heteronormativos. Os relatos das participantes expressam a dor, amargura, e a
frustração advinda de seu cotidiano de exclusão social, permeados pela discriminação e
violência. Devido às recorrentes situações de discriminação, enfrentamento social e exclusão
há uma introjeção do preconceito vivenciado, que causa baixa autoestima, medo, sentimento
de rejeição, ansiedade, depressão, desmotivação, trauma, isolamento social, perda de apetite,
distúrbio do sono, sendo também relacionado ao uso de drogas como uma forma de
enfrentamento. Segundo Bento (2011, p. 551):
“As experiências de trânsito entre os gêneros demonstram que não somos
predestinados a cumprir os desejos de nossas estruturas corpóreas. O sistema não
consegue a unidade desejada. Há corpos que escapam ao processo de produção dos
gêneros inteligíveis e, ao fazê-lo, se põem em risco porque desobedeceram às
normas de gênero, ao mesmo tempo revelam as possibilidades de transformação
dessas mesmas normas. Esse processo de fuga do cárcere dos corpos-sexuados é
marcado por dores, conflitos e medos”.
Para Peres (2004), ao decidirem viver de acordo com o gênero com o qual se
identificam, homossexuais e travestis passam a ser vítimas de discriminação e começam a
sofrer cobranças, agressões verbais, físicas e em algumas vezes, acabam sendo expulsos de
33
casa. As situações de discriminação e exclusão em âmbito familiar e social, aos poucos que
vão minando a autoestima e a capacidade de ação dos sujeitos pertencentes ao universo da
travestilidade, fazendo-os perder a confiança em si mesmos que, consequentemente, passam a
ver de forma natural as agressões verbais, físicas, e morais sofridas.
A família, os amigos e o reconhecimento dos pares tem um importante papel na
construção da subjetividade e na situação de exclusão para pessoas que possuem a identidade
de gênero travesti. Nas entrevistas surgiram importantes aspectos relativos ao apoio de
familiares, amigos e pessoas pertencentes ao universo transgênero. Pôde se perceber que o
suporte da rede social, ou a falta dele, contribui de forma direta na autopercepção da
identidade de gênero, ou na negação desta, e na maneira como a travesti vai lidar com as
situações de hostilidade e discriminação no âmbito de sua sociabilidade. A falta de apoio da
rede social pode está relacionado, a sentimentos de rejeição, frustração, decepção, isolamento
social e depressão. E o inverso também acontece, a presença desse apoio pode estar
relacionada às formas de enfrentamento que a travesti vai construir para buscar o
reconhecimento de sua cidadania e se autoafirmar socialmente.
Simultaneamente a exclusão familiar também ocorre uma onda de exclusão em
diversos âmbitos da vida desses sujeitos, como a exclusão escolar, social, econômica, cultural,
religiosa, sexual, racial, configurando assim, o que Peres (2004) denomina de “rede de
exclusão”. Essa rede de exclusão tem como característica principal a supressão de direitos,
que impossibilita esses sujeitos de exercerem o direito constitucional de suas cidadanias.
Os episódios de preconceito e discriminação também foram citados pelas participantes
quando as mesmas referem-se aos seus processos de escolarização, a falta de oportunidade
que tem no mercado de trabalho formal, e até em fatos corriqueiros do cotidiano, como a
dificuldade em se alugar um imóvel para habitar, no fato de terem de pagar um valor
diferenciado (mais caro) pela prestação de alguns serviços como ir ao cabeleireiro, pegar um
táxi e na perseguição policial que sofrem ao exercerem a ocupação de profissional do sexo.
Fato que é possível perceber por meio das seguintes falas:
“Eu tenho certeza absoluta, nos somos cafetinadas. Quando você vai alugar um
imóvel, o dono do imóvel já que alugar mais caro pra você, numa corrida de táxi, no
cabeleireiro. Tudo, tudo pra eles (...) a sociedade nos explora muito, muito, muito.
Tudo para nós é mais caro um pouquinho” (Flor).
“É igual o que aconteceu quando vai alugar barraco na casa do povo “não, não aluga
barraco pra essa bicha não, que ela vai encher isso aqui de homem”. Já aconteceu de
eu pagar o aluguel e tudo e a mulher devolver, porque falaram pra mulher que eu ia
encher a casa da mulher de homem, tá entendendo?!” (Monique).
34
Podemos perceber que a escola se concretiza como mais um lugar pertencente à rede
de exclusão. As instituições escolares se depararam com problemas relacionados a questões
de gênero e orientação sexual e acabam desempenhando um importante papel como
fomentadoras de atitudes preconceituosas, pois ao se silenciarem diante de situações de
violência, legitimam os padrões sociais de discriminação, agressão e exclusão (PERES, 2005).
As falas a seguir retratam a influência do preconceito no processo de evasão escola:
“Eu sai da escola com 13 anos, eu deixei de estudar. Eu pensei em fazer um
colegiado no colégio interno agrícola, mas também não fui aceito por causa (...) da
minha imagem, bastante feminina” (Flor).
“É porque eles (colegas de escola) estavam mexendo comigo, me perturbando,
ameaçando me bater. Aí, eu: “Ah, não vou mais, não”. Aí, eu não voltei mais pra
escola, nem fechei minha matrícula. Até hoje minha matrícula não é fechada. Não
fui pro quartel, nunca me alistei. A vida pra mim foi (...) sei lá, até hoje pra mim, é
meio estranha. Eu fico perdido (...) no meio da multidão, eu me perco” (Monique).
Segundo Santos e Santos (2011), o processo de estigmatização em âmbito
escolar é atravessado por práticas discriminatórias e preconceituosas realizadas tanto por
colegas, como por professores (as) e seu diretores (as). O descaso dos (as) professores (as) e
diretores (as) diante das agressões simbólicas e físicas, tem como implicação direta no
processo de evasão escolar, e consequentemente na situação de marginalização vivenciada
pelas travestis.
Além de aspectos concernentes ao âmbito familiar e escolar, a forma como outras
camadas da sociedade percebem e lidam com a travestilidade também foi mencionada. A
forma hostil como a sociedade percebe as travestis foi descrita através de relatos sobre as
perseguições realizadas pela polícia. As participantes relataram que há um tempo atrás não
tinham liberdade de ir e vir, eram perseguidas pelas polícia e estigmatizadas por serem
retratadas como criminosas, devido ao envolvimento de algumas travestis em episódios de
roubos e furtos, e uso de drogas. MacDowell (2008), em sua pesquisa etnográfica realizada
sobre o espaço e a corporalidade das travestis de Brasília que se prostituem, afirma que a
polícia que trabalha em áreas delimitadas como de prostituição da capital federal é conhecida
por compor o cenário de violência que as travestis vivenciam. Esse autor relata que a polícia
tem um papel ativo nas injúrias sofridas por travestis e profissionais do sexo, incluindo atos
de violência física e sexual, extorsão, exploração sexual do trabalho junto às cafetinas,
cafetões e formas de violência simbólicas.
Peres (2004) afirma que as experiências de violência e exclusão vivenciadas nas
relações das travestis com vizinhos, amigos ou até com desconhecidos, hora de forma cruel,
35
hora sutil ferem os corpos e as almas humanas; e essa violência produz intensas e variadas
formas de opressão que evidenciam a desigualdade social, de gênero e sexual. Esse mesmo
autor, em uma pesquisa realizada em 2005, narra que por meio do trabalho realizado com as
travestis, os episódios de violência são mencionados nos relatos de suas vivências cotidianas,
nas relações com instituições, pessoas, e até consigo mesmas. As histórias de vida das
travestis são atravessadas por discursos de dor em decorrência dos rotineiros enfrentamentos
que as mesmas experimentam na relação estabelecida com a sociedade como um todo
(FIGUEIREDO, 2008).
Em meio a esse contexto de preconceito, discriminação e violência, devido a sua
vivência de gênero, a maioria das travestis vive em circunstâncias de exclusão e
vulnerabilidade social. O preconceito com as identidades que rompem com os padrões
binários de gênero tem um impacto direto na inserção das travestis no mercado de trabalho
formal. As colaboradoras dessa pesquisa disseram nunca ter vislumbrado a possibilidade de
conseguir um emprego no mercado de trabalho formal, devido ao preconceito com o gênero
travestis, e por isso nunca participaram de processo seletivo ou cogitaram trabalhar com a
carteira assinada, e ter os seus direitos trabalhistas assegurados por lei. Sobre a possibilidade
de inserção no mercado de trabalho, elas declararam:
“Não. Não, não, não. Porque a vida toda desde os 17 até os 40 na prostituição.
Então, eu nunca tive, eu nunca parei pra pensar em está trabalhando em outra coisa
sem ser a prostituição. Isso já tinha sido descartado da minha vida” (Flor).
“Ah, nunca vai ter não. Porque a gente nunca vai ser respeitada nesse ponto. Eles
vão achar que a gente vai fazer lá dentro prostituição. Não tem tranqüilidade, no
serviço público não tem, só se ela for igual o do Senado, discreto. Porque o do
senado é discreto. Ele durante o dia, ele usa um bom terno, tá entendendo?! O cabelo
amarrado pra trás. Todo mundo sabe que ele é, mas é discreto” (Monique).
Pode-se observar nas falas acima que em decorrência da dificuldade de aceitação
social de seu gênero, as travestis não se percebem tendo o direito de acesso ao mercado de
trabalho formal. Reproduzem uma idéia de que para trabalharem no mercado de trabalho
formal, elas não podem vivenciar o gênero com o qual se identificam cotidianamente.
Relatam que devido as suas características físicas femininas mais acentuadas, a forma como
se vestem, juntamente com o estigma da prostituição, enfrentam uma maior dificuldade de
acesso ao mercado de trabalho, em comparação as transexuais. De acordo com as
entrevistadas, por necessidade profissional as travestis vestem-se de uma forma mais
exuberante, chegando muitas vezes ao exagero, pois, precisam expor seus corpos para se
prostituir e quem se veste adequadamente tem uma maior oportunidade de conseguir emprego
36
fora da prostituição. Em pesquisa realizada por Bonfim (2009) acerca da identidade, cotidiano
e religiosidade de transexuais e travestis, as transexuais relataram que as condições de vida
vivenciadas pelas travestis legitimam manifestações de preconceito, devido ao fato de as
travestis se prostituírem e não se darem ao respeito, vestindo-se de forma considerada vulgar,
estendendo esse aspecto aos seus comportamentos e a maneira como se comunicam. As
transexuais se percebem como pertencendo a um grupo diferenciado, que luta pelo respeito,
inclusão em trabalho. A condição das transexuais, segundo esse autor, supostamente assinala
uma inserção e inclusão social. Expressam o desejo de trabalhar como profissionais
autônomas, diante do panorama trabalhista citado, que é extremamente limitado e oferece
oportunidade de emprego apenas nas áreas da beleza, estética, ramo de alimentação e serviços
domésticos. A falta de qualificação profissional também é um fator apontado por elas como
dificultador em sua inserção no mercado de trabalho.
O mercado de trabalho em seu
panorama no geral é descrito como bom, que oferece oportunidades, contudo a falta de
capacitação além do preconceito é um agravante. Uma das reivindicações das participantes
dessa pesquisa é acerca da criação de políticas públicas que visem à capacitação das travestis,
para que as mesmas sejam inseridas no mercado de trabalho e tenham a oportunidade de
exercer outras profissões, além das supracitadas. Frisam ainda a importância de a capacitação
profissional ser relacionada à vocação e áreas de interesse das travestis, para que se possa
assim, haver uma ampliação do leque de opções no mercado laboral para essa população.
Além de políticas voltadas para o âmbito trabalhista, foi citada a necessidade de criação de
políticas públicas na área da saúde, para atender as demandas específicas da população
travesti e também políticas voltadas para as travestis da 3ª idade, que não contam com o apoio
familiar e não tem residência própria.
Apesar do cenário de violência, sofrimento, e exclusão social no qual ainda vivem, de
acordo com os relatos das entrevistadas, aos poucos a percepção da travestilidade na
sociedade está mudando, porém a passos lentos. Os movimentos sociais foram citados como
tendo um significado importante nessa mudança. Foi atribuída aos movimentos sociais e aos
direitos humanos a visibilidade, e o respeito que a população LGBTTT, que aos poucos está
adquirindo. Flor descreveu o movimento social e seu trabalho como ativista, como uma
prioridade em sua vida. Monique relatou achar os movimentos sociais importantes para que as
travestis possam ganhar visibilidade e respeito, apesar de não ser tão participativa no meio.
Apesar da importância do movimento, ambas as participantes disseram haver uma divergência
de opiniões acerca de temas importantes na agenda do movimento, como a legalização da
prostituição e demandas relacionadas à esfera trabalhista, o que dificulta na reivindicação de
37
políticas e leis relativas a essas questões. As falas a seguir, expressam à opinião das
participantes acerca dos movimentos sociais:
“O significado do movimento é (...) ele pra mim é como se fosse mais do que um
prazer, é uma obrigação. Em primeiro lugar nós, travestis e transexuais, se exigimos
da sociedade um (...) uma política publica de trabalho, educação, saúde, e cidadania;
então, a gente tem que regaçar as mangas e fazer a nossa parte, não ficarmos paradas
esperando que as coisas aconteçam. Então, isso pra mim, é como se fosse assim...
prioridade, fazer minha parte” (Flor).
“Acho. Se eu for... eu vou... eu vou, no dia em que o [nome do psicólogo do Nudin]
me chamou pra ir na formatura dele, eu fui, tá entendendo?! Eu fui com o maior
prazer. Ele me chamou pra ir na convenção ali acima do Hospital de Base, foi do
HRAN, eu fui. Eu vou nas coisas que ele me chama. Só quando dá mesmo, agora
quando não dá, eu... se tiver cansado...porque de que adianta eu ir pra um lugar
cansado, né?! Aí, é ruim demais. Mas, eu participo. Se me chamar, eu vou, se eu
tiver um tempinho e vou” (Monique).
Nos anos 1990 houve um notório desenvolvimento e fortalecimento do movimento
LGBTT, batalhando pela criação de políticas públicas que reconheçam os direitos da
população em questão no mundo inteiro, e no Brasil não foi diferente (NETO; AGNOLETI,
2008). Para esses autores, mostra-se extremamente relevante a criação de políticas públicas
que favoreçam o empoderamento, reconhecendo as diferenças e promovendo a igualdade
dessa população.
Benedetti (2008) descreve que o movimento social das travestis tem uma história
própria impulsionada após a epidemia de AIDS, e relata a existência de associações de
travestis atuantes em todos os estados do país, mesmo em cidades do interior. Entre as
bandeiras desse grupo na luta pela garantias de seus direitos está a questão do trabalho sexual,
porém essa questão é motivo de divergência interna no movimento, não há uma posição
política clara e consolidada em relação a essa questão, e muitas vezes esse assunto é motivo
de tensão e ambigüidades nos encontros realizados. No Encontro Nacional de Travestis e
Transexuais (ENTLAIDS) principal evento de caráter político do movimento social das
travestis, o trabalho sexual e a prostituição fazem parte da pauta, juntamente com outras
reivindicações como: o acesso ao mercado de trabalho formal, acesso e especificidades a
serviços de saúde, educação, além de questões relacionadas à violência, exploração, migração
e tráfico de pessoas.
Apesar das divergências internas existentes no Encontro Nacional de Travestis e
Transexuais (ENTLAIDS) e no movimento LGBTTT, acerca da regulamentação da
prostituição como profissão, assim como Neto; Agnoleti (2008) cabe aqui salientar a
importância dos movimentos sociais no Brasil, que funcionam destacadamente como mola
propulsora na mobilização e articulação da população, na luta pela conquista de direitos,
38
democratização de espaços públicos, melhorias de condições de vida, valorização dos direitos
humanos, denuncia de injustiças sociais e conduta opressora. O movimento social aponta
então, como uma importante possibilidade de se conquistar o poder de reivindicação de
direitos da população travesti, busca de visibilidade social e de uma vida com maior dignidade
e respeito.
5.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho teve como finalidade abordar aspectos relativos à vida profissional
das travestis, suas opiniões a respeito das dificuldades enfrentadas em sua inserção no
mercado de trabalho formal, campo de trabalho atual e expectativas a respeito do panorama
futuro no mercado de trabalho para os sujeitos pertencentes ao universo da travestilidade.
Diante de tudo o que foi abordado nessa pesquisa, faz se necessário ressaltar a
importância de se contextualizar e refletir acerca da situação vivenciada pelas pessoas que
fazem parte do universo da travestilidade na sociedade brasileira contemporânea, que ainda
exclui e marginaliza os sujeitos que rompem com os padrões heteronormativos de gênero,
vivência afetiva e sexualidade. Em meio à atual conjuntura sócio-econômica, política, e
cultural a maioria da população travesti em nossa sociedade vive em condições de pobreza e
exclusão social, sem acesso a educação, saúde, qualificação profissional, oportunidade de
inclusão no mercado de trabalho formal, e políticas públicas que contemplem suas demandas
específicas.
A vida das travestis é marcada por dor e sofrimento devido à rejeição social. A
família e a escola são apontadas como os primeiros lugares onde essa rejeição é
experimentada. Jovens travestis são expulsas do seio familiar e abandonam a escola
precocemente, o que tem repercussão direta em suas vidas profissionais. Nesse estudo, as
entrevistadas relataram ter encontrado na prostituição o único caminho viável para obtenção
e/ou complementação de renda, sendo motivadas a desempenhar essa atividade devido à
necessidade financeira. A prostituição, relatada como uma forma de subsistência aparece
também como um meio de sociabilidade e uma possibilidade de desempenhar um ofício que
seja aprazível, dentro de um cenário restrito no mercado de trabalho; além de ser um meio de
conseguir dinheiro e informação para se adquirir hormônio e silicone a fim de realizar o
processo de transformação corporal.
39
O fato de as travestis não terem acesso a inserção no mercado de trabalho formal é
resultado de uma contingência social excludente, devido a sua vivência de gênero. A escola e
o estado, muitas vezes, são coniventes com essa situação de marginalização, pois esta tem
início na escola, que supostamente, deveria ser um ambiente no qual se aprende o respeito e a
valorização a diversidade de gênero, sexual, étnica e religiosa. Contudo, o que acontece em
âmbito escolar é justamente o contrário, a escola acaba tornando-se o lugar no qual são
perpetrados atos discriminatórios e preconceituosos; episódios de violência psicológica,
moral, e física, legitimados pela falta de preparo de professores e diretores, que se silenciam e
ficam inertes diante de tais fatos. A escola é uma das primeiras esferas sociais a legitimar atos
homofóbicos, lesbofóbicos e transfóbicos, tornando-se mais um local de exclusão social, o
que provoca a evasão escolar das travestis que abandonam a escola precocemente em função
da intolerância e hostilidade em âmbito escolar.
O maior obstáculo apontado pelas participantes em sua inserção no mercado de
trabalho é a dificuldade de aceitação social. Essa não aceitação pode ser introjetada pelas
travestis, e ter como conseqüência um rebaixamento da autoestima, a perda da autoconfiança
em suas capacidades, provocando sentimentos de impotência diante de episódios
discriminatórios e de violência, e de apatia perante a reivindicação de seus direitos, e no
exercício de sua cidadania. Junta-se a isso também, agravantes como a baixa escolaridade e a
falta de qualificação profissional, e o panorama que se apresenta é um cenário restrito no
mercado de trabalho. Geralmente as poucas vagas ofertadas às travestis são nas áreas da
beleza, estética, alimentação, limpeza e serviços domésticos, que oferecem baixa
remuneração, e precárias condições de trabalho. Nem sempre essas áreas condizem com suas
vocações ou áreas de interesses, o que pode estar relacionado ao fato de as participantes
mencionarem o interesse de, no futuro, ter uma profissão possam que exercer como
trabalhadoras autônomas, em um negócio próprio.
Em meio às circunstâncias que vivenciam em suas vidas laborais atualmente, e em
relação à inserção no mercado de trabalho no futuro, é de suma importância se pensar em
estratégias que favoreçam a inclusão das travestis no cenário trabalhista formal, como a
criação de cursos para capacitação profissional em suas áreas de interesse, valorizando suas
habilidades e vocações. Além da necessidade de cursos de capacitação, o apoio familiar e os
movimentos sociais despontam como tendo uma função essencial no desenvolvimento de
mecanismos de enfrentamento e na construção da cidadania das travestis diante das situações
de discriminação, violência e exclusão social.
40
A articulação entre as famílias e os movimentos sociais pode propiciar o
fortalecimento desses sujeitos, e favorecer a criação de políticas públicas que visem atender as
especificidades da população travesti, que vive em situação de vulnerabilidade social. A
criação de políticas públicas é imprescindível para se garantir a visibilidade social e o
empoderamento dessa população, para que esta possa ter dignidade, respeito e uma qualidade
de vida. A escola também tem um papel fundamental na construção da cidadania desses
sujeitos, posto que, a educação é um dos direitos básicos dos cidadãos e cidadãs. Por isso, faz
se extremamente necessário se repensar os modelos binários heteronormativos de gênero,
vivência afetiva e sexualidade reproduzidos e reforçados em âmbito escolar, com o intuito de
se valorizar a diversidade humana em todas as suas peculiaridades, evitando-se assim, a
evasão escolar de travestis.
Através do trabalho realizado, notou-se uma grande carência de estudos acadêmicos
relacionados à inserção das travestis no mercado de trabalho, o que evidencia uma
necessidade de se desenvolver mais trabalhos relativos a essa temática, para que se possa
favorecer um maior aprofundamento dos profissionais das áreas de ciências humanas nesse
campo de conhecimento.
A formação dos (as) profissionais, especialmente de Psicologia, deve contemplar
estudos relacionados ao universo da travestilidade, propiciando a estes (as) uma maior
familiaridade com essa temática. A psicologia tem um importante papel nesse contexto, e
pode contribuir, evitando a patologização destes sujeitos, respeitando a diversidade e a
vivência de gênero, afetiva e sexual, garantindo assim, o cumprimento da resolução Nº 001/99
do Conselho Federal de Psicologia.
41
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46
ANEXOS
47
ANEXO A
ROTEIRO DE ENTREVISTA
DATA: ____ / _____/ 2012.
HORA DE INÍCIO: __________
HORA DE TÉRMINO DA ENTREVISTA:___________
IDADE: ______ ESCOLARIDADE: ___________________________
PROFISSÃO: ______________________________________________
RESIDÊNCIA: _____________________________________________
RENDA FAMILIAR:________________ FILHOS:_________________
RELIGIÃO: ________________________________________________
Relação com o trabalho atual
Relação com o futuro
1 - Conte-me um sobre o seu trabalho
atual.
- Tempo de trabalho?
- Significado da profissão
- Motivações para a profissão?
- Como se deu essa escolha?
- Conciliação da vida profissional com a
pessoal?
- Desafios no dia-a-dia?
- Como enfrenta esses desafios?
-Quais facilidades tem sua profissão?
- Conte-me a sua rotina de um dia: dia e
noite; local de moradia; com quem mora.
- Rede social em ambiente de trabalho?
- Percepção do mercado de trabalho?
2 – Que planos/expectativas você tem para
o futuro?
- Pessoal
- Profissional
- Social
48
Relação com o passado
Relação com a cidadania
3 – Conte-me como foi o processo de
transformação corporal.
- Início
- Como surgiu essa nova identidade? (nome,
características físicas – cabelo, formas
corporais, vestimentas, etc)
- Como você relaciona essa nova identidade
com a antiga?
- Impacto na vida familiar e social?
- Impacto na vida escolar/profissional?
- Já participou de processo seletivo em
alguma empresa? Se sim, se candidatou para
qual cargo? Como foi essa experiência?
- Experiências profissionais anteriores a
atual?
- Quando pequena você queria trabalhar com
o que?
Isso mudou com a transformação da
identidade? Explique.
4 – Como você percebe a travestilidade na
sociedade atual?
- Consequências pessoais, sociais e
profissionais?
- Educação, saúde, políticas públicas.
- Direitos, deveres e cidadania.
- Reconhecimento dos pares?
- Participação em grupo ou movimento social?
Em caso de preconceito e discriminação
Exemplos
- Como você lida com isso?
-Pessoas e grupos que estão envolvidos nesses
episódios?
49
ANEXO B
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Você está sendo convidada a participar da pesquisa intitulada: “Da marginalização à
inserção no mercado de trabalho formal: A vida profissional das travestis no Distrito Federal”.
A pesquisa cujo objetivo é examinar as dificuldades enfrentadas, e as expectativas que as
travestis no DF têm em relação à inserção no mercado de trabalho será realizada pela
estudante da Graduação em Psicologia Mariana da Silva e seu orientador Prof. MSc.
Alexandre Cavalcanti Galvão;
Esclarecemos que:
a) Este estudo surgiu a partir da necessidade de se desenvolver uma pesquisa relacionada
à inserção das travestis no mercado de trabalho, devido há escassez de pesquisas
relacionadas ao tema. Essa pesquisa busca conhecer de forma mais aprofundada
aspectos relacionados à vida profissional da população travesti no Distrito Federal, as
dificuldades enfrentadas pelos sujeitos que fazem parte do universo das travestilidades
em sua inserção no mercado de trabalho, para que, dessa forma possamos contribuir
para o desenvolvimento científico, social e político acerca do tema.
b) Sua participação é inteiramente voluntária e não obrigatória. A qualquer momento,
você poderá desistir de participar e retirar seu consentimento. Sua recusa não trará
nenhum prejuízo em sua relação com os pesquisadores ou com a instituição, e não
acarretará ônus algum.
c) Você não receberá nenhuma gratificação ou reembolso, e não arcará com nenhum
custo decorrente da participação na entrevista.
d) Trata-se de uma entrevista de aproximadamente 1 hora de duração, que com sua
permissão terá o áudio gravado. Os dados obtidos através da entrevista serão utilizados
para fins acadêmicos e seu nome será mantido sob sigilo.
e) A referência ao seu nome será codificada para evitar qualquer identificação e serão
divulgados apenas os dados diretamente relacionados com os objetivos da pesquisa.
f)
Caso ocorra algum desconforto ou experiência emocional desagradável em
decorrência do conteúdo investigado na pesquisa, você poderá solicitar o apoio
50
psicológico gratuito a qualquer momento da entrevista, ou posteriormente. O
acolhimento psicológico será realizado no Centro de Formação em Psicologia
Aplicada (CEFPA) da Universidade Católica de Brasília, pela própria pesquisadora,
sob a supervisão do seu professor orientador.
Eu,_______________________________________Identidade_________________, declaro
que fui informada e devidamente esclarecida sobre a participação nesta pesquisa, e consinto
voluntariamente com esta participação.
____________________________________
Assinatura do declarante
Brasília______de______________ de 2012.
Você poderá esclarecer eventuais dúvidas sobre a pesquisa com a estudante graduanda
Mariana da Silva pelo telefone: 9922-0017 ou pelo e-mail [email protected], e seu
professor
orientador
Alexandre
Cavalcanti
Galvão,
através
do
e-mail:
[email protected]
Declaração do pesquisador
Declaro, para fins da realização da pesquisa, que cumprirei todas as exigências acima, na qual
obtive de forma apropriada e voluntária, o consentimento livre e esclarecido do declarante
acima, qualificado para a realização desta pesquisa.
____________________________________
Assinatura do pesquisador responsável
Brasília______de______________ de 2012.
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Mariana da Silva - Universidade Católica de Brasília