Pró-Reitoria de Graduação Curso de Psicologia Trabalho de Conclusão de Curso A VIDA PROFISSIONAL DE TRAVESTIS: DA MARGINALIZAÇÃO À INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO FORMAL Autora: Mariana da Silva Orientador: Prof. Msc. Alexandre Cavalcanti Galvão Brasília – DF 2012 MARIANA DA SILVA A VIDA PROFISSIONAL DE TRAVESTIS: DA MARGINALIZAÇÃO À INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO FORMAL Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de graduação em psicologia da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para obtenção do Título de Psicóloga. Orientador: Prof. Msc. Alexandre Cavalcanti Galvão BRASÍLIA-DF 2012 Trabalho de Conclusão de Curso de autoria de Mariana da Silva, intitulado “A VIDA PROFISSIONAL DE TRAVESTIS: DA MARGINALIZAÇÃO À INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO FORMAL”, apresentada como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Psicologia da Universidade Católica de Brasília, em 21 de junho de 2012, defendida e aprovada pela banca examinadora abaixo assinada: Prof. Msc. Alexandre Cavalcanti Galvão Orientador Psicologia - UCB Prof. Msc. Luciana da Silva Santos Psicologia – UCB Brasília - DF 2012 AGRADECIMENTOS À Deus por estar sempre me guiando e protegendo, por apaziguar meu coração nos momentos de desespero, me acolher em seus braços e cessar minhas lágrimas. Por me dar forças para continuar lutando pelos meus sonhos e me mostrar que nada é impossível. Obrigado, pai. Sem ti, eu nada seria. À minha pãe (pai e mãe), pela motivação e incentivo em relação aos meus estudos, por sempre me apoiar nos momentos difíceis, por acreditar em mim quando eu mesma duvidava da minha própria capacidade, pela dedicação e amor incondicional. Nós vencemos, mais uma vez, minha querida. Devo a você tudo o que sou. Essa conquista é em sua homenagem, mãezinha. À todos os meus amigos pelos risos e lágrimas compartilhadas, pelo carinho, atenção e as palavras de incentivo. Enfim, a família que escolhi para estar ao meu lado, por tornarem minha caminhada nesse plano mais doce e divertida. Não citarei nomes para não correr o risco de me esquecer de alguém. Amo todos vocês. Aos meus familiares, pelo carinho, apoio e palavras de incentivo. A todos os professores e mestres, pela paciência e compreensão, por compartilharem seus conhecimentos e vivências, contribuindo para a minha formação intelectual e pessoal. Por fim, por serem uma fonte de inspiração. Serei Eternamente grata a todos. À Jaqueline Gomes de Jesus, Patrick Thiago Bomfim, Ludymilla Santiago e Andre Peredo pelo auxílio e as informações prestadas. Muito Obrigada por contribuírem para a realização desse trabalho, mesmo que indiretamente. À professora Luciana da Silva Santos pela disponibilidade, atenção e leitura cuidadosa desse trabalho. Muito obrigada pelas preciosas sugestões, que contribuíram para enriquecer ainda mais esse trabalho. Ao meu orientador, profissional e ser humano admirável, professor Alexandre Cavalcanti Galvão, por partilhar seus conhecimentos, pelo apoio, paciência, atenção, dedicação, generosidade, incentivo e acolhimento nos momentos de angústia. Foi um prazer inenarrável contar contigo nessa caminhada que trilhei rumo à realização de um sonho. Você abrilhantou ainda mais concretização desse trabalho. Foi uma honra tê-lo como orientador. Por fim, a Flor e a Monique pela disponibilidade em participar dessa pesquisa, pelo desprendimento, abertura e partilha de suas vivências. Sem vocês realmente, esse trabalho não teria se concretizado. Muito obrigada, mesmo. RESUMO SILVA, Mariana da. A vida profissional de travestis: Da marginalização à inserção no mercado de trabalho formal. 2012. 52 páginas. Trabalho de Conclusão de Curso Psicologia, Universidade Católica de Brasília, Brasília. Este estudo teve como objetivo principal examinar as dificuldades enfrentadas e as expectativas que as travestis têm em relação à inserção no mercado de trabalho formal. Essa pesquisa foi realizada numa perspectiva qualitativa, com abordagem fenomenológica. Foram realizadas entrevistas com perguntas semi estruturadas com duas travestis. A análise de dados foi realizada por meio da análise de depoimentos, para posteriormente o conteúdo das entrevistas ser dividido em unidades de significado. Os resultados obtidos formaram três unidades de sentido: prostituição percebida como único caminho viável, a vivência de gênero e a construção do corpo e o impacto da vivência de gênero feminina na vida familiar, social e profissional das travestis. Os resultados obtidos evidenciaram que as participantes encontram na prostituição uma oportunidade de obtenção e complementação de renda devido a um cenário restrito no mercado de trabalho para as travestis, que abandonam a escola ainda na adolescência em função do preconceito com sua vivência de gênero. Preconceito vivenciado cotidianamente em âmbito familiar, escolar e trabalhista, e que deixa marcas na vida das pessoas que fazem parte do universo da travestilidade. Palavras Chaves: Travestis, Vida Profissional, Mercado de Trabalho. SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO.....................................................................................................................4 2. REVISÃO DE LITERATURA.............................................................................................7 2.1 CIDADANIA E TRABALHO...........................................................................................13 2.2 PROBLEMA.......................................................................................................................18 2.3 OBJETIVOS.......................................................................................................................18 2.2.1 Objetivo geral................................................................................................................18 2.2.2 Objetivos específicos.......................................................................................................18 3. METODOLOGIA.................................................................................................................18 3.1 PARTICIPANTES..............................................................................................................19 3.2 INSTRUMENTOS E MATERAIS.....................................................................................20 3.3 PROCEDIMENTOS E COLETAS DE DADOS...............................................................20 3.4 PROCEDIMENTOS E ANALISE DOS DADOS.............................................................21 4. RESULTADOS E DISCUSSÕES........................................................................................22 4.1 UNIDADE DE SENTIDO 1: A PROSTITUIÇÃO PERCEBIDA COMO ÚNICO CAMINHO VIÁVEL...............................................................................................................23 4.2 UNIDADE DE SENTIDO 2: VIVÊNCIA DE GÊNERO: A CONSTRUÇÃO DO CORPO E DE UMA VIDA NOVA .......................................................................................................28 4.3 UNIDADE DE SENTIDO 3: SOCIEDADE, TRAVESTILIDADE E PRECONCEITO: OS IMPACTOS DA VIVÊNCIA DE GÊNERO FEMININA NA VIDA FAMILIAR, SOCIAL E PROFISSIONAL DAS TRAVESTIS....................................................................32 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS...............................................................................................38 6. REFERÊNCIAS..................................................................................................................41 ANEXOS..................................................................................................................................46 ANEXO A................................................................................................................................46 ANEXO B.................................................................................................................................48 4 1. INTRODUÇÃO A trajetória profissional do universo transgênero no Brasil é distintamente marcada pela presença de transexuais e travestis em espetáculos performáticos em casas de shows, palcos teatrais e eventos culturais na década de 1950, passando nos anos 1980 e 1990 pela popularização desse universo, através da participação em programas de auditório de grande audiência, novelas, filmes e seriados; com destaque atualmente, para a grande presença de travestis e transexuais nas esquinas e calçadas das grandes cidades (LIMA, 2009). É a partir da visibilidade alcançada por meio da participação em espetáculos teatrais, televisivos, e cinematográficos que a sociedade em geral toma conhecimento e entra em contato com o fenômeno da travestilidade (SILVA 2007, apud LIMA 2009). Atualmente, são consideradas travestis as pessoas biologicamente do sexo masculino que vivenciam o gênero feminino cotidianamente, utilizam hormônios e silicone a fim de alterar seu corpo de forma permanente, com o objetivo de tornar-se o mais semelhante possível, fisicamente, com o sexo oposto. Diferentemente da transexual, que não se identifica com o gênero relacionado ao seu sexo biológico, e sente-se presa em um corpo que não lhe pertence, apresentando uma sensação de desconforto com seu sexo anatômico; as travestis sentem-se bem com seu órgão sexual, reconhecendo-o como um instrumento de prazer. O órgão sexual é considerado um atrativo, o que as diferencia das mulheres, e irá atrair os homens: um corpo feminino com órgão sexual masculino (LOURENÇO, 2009). Jesus (2012) descreve as travestis como pessoas do sexo masculino, que tem uma vivência de gênero relacionada aos papéis sociais femininos, porém não se reconhecem como mulheres ou homens, e sim, como elementos que fazem parte de um terceiro gênero ou um não-gênero. Já as pessoas transexuais sentem que seu corpo não corresponde ao o gênero com o qual se identificam, a forma como pensam e sentem, e por isso, querem adequar seu corpo ao seu estado psíquico. Essa autora relata que a concepção de gênero é uma construção social e o sexo é biológico. Apesar da prática de vestir-se e viver diariamente como o sexo oposto ser secular, apenas no final do século XIX foram desenvolvidos os primeiros estudos sobre travestismo, tendo como marco a publicação do livro Psychopathia Sexualis, de Richard Von KrafftEbing. Nessa época, os indivíduos com orientação sexual homossexual, ou transtorno de identidade sexual eram considerados, pela Medicina, portadores de instinto sexual invertido ou contrário. Já no início do século XX, o termo travestimo foi desenvolvido pelo médico alemão Magnus Hirschfeld, para designar uma categoria distinta que abarcava os 5 homossexuais que se travestiam, e também, os indivíduos considerados com identidade sexual invertida (SPIZZIRRI; AZEVEDO; ABDO, 2011). Assim como Lima (2009) nesse estudo optaremos em utilizar o termo travestilidade ao invés de travestismo, evitando a patologização intrínseca ao emprego do sufixo “ismo”, como também empregaremos o substantivo travesti no feminino, como forma de valorizar a vivência de gênero e a subjetividade das pessoas pertencentes a esse universo. Segundo Lima (2009, p. 2): “O termo travesti remete imediatamente ao movimento transitório e farsesco de um gênero para o outro pelo ato de vestir-se com trajes típicos do sexo oposto. E é justamente devido à visualidade ambígua (ou seria híbrida?) de um feminino construído a partir de um corpo biologicamente masculino – desconstruído para ser reconstruído com aparatos, artifícios, e elementos simbólicos e materiais convencionados femininos – que a travestilidade permeia a esfera da cultura e do cotidiano com uma imagem estigmatizada e degenerada”. A esfera social é construída por fatores culturais estabelecidos historicamente, que definem o que é considerado normal e anormal, que deve ser aceito ou rejeitado socialmente. A vida das travestis na sociedade tem sido assinalada pela posição marginalizada das mesmas, que tem em seus corpos a marca da subversão devido ao rompimento da fronteira instituída por padrões normatizados de gênero e sexualidade. As travestis, portanto, são reconhecidas como transgressoras de valores culturais, sendo então, segregadas à margem da sociedade por fugir aos modelos heteronormativos de gênero e sexualidade. Sua cidadania é negada em virtude de sua vivência de gênero, não adequada aos padrões definidos socialmente como normais e aceitos (LIMA, 2009). De acordo com Figueiredo (2008) as travestis partilham histórias de exclusão social e discriminação, que lhes causa muito sofrimento, confirmado através de discursos sobre a violência e o cerceamento social que sofrem diariamente. Refletem em sua fala um sentimento de dor relativo à sua sociabilidade cotidiana, caracterizada pelos confrontos e enfrentamentos rotineiros, devido a não-aceitação da sociedade. Um dos principais problemas enfrentados pelas travestis em nossa sociedade é a falta de oportunidade. Em função do preconceito que sofrem nas escolas, muitas abandonam os estudos ainda na adolescência, por vergonha, período no qual iniciam seus processos de transformação corporal. Com baixa escolaridade e sem qualificação adequada, a oferta de trabalho é limitada. Em um cenário restrito no mercado de trabalho, as travestis praticamente só são bem aceitas nos ramos da beleza e da moda, desempenhado as funções de cabeleireiras, maquiadoras, estilistas, entre outras. Contudo, como o campo de trabalho é sempre limitado, a 6 prostituição aparece como um meio de subsistência encontrado por grande parte das travestis (LOURENÇO, 2009). A prostituição pode ser interpretada como uma imposição da sociedade que nega às travestis sua cidadania, seus direitos, acesso a bens e serviços. As pessoas que exercem essa atividade são estigmatizadas e marginalizadas pela sociedade. As discriminações e os estigmas sociais afetam o estado emocional e psicológico da população de transgêneros, causando rebaixamento da autoestima, crises de angústia, ansiedade, e depressão, comprometendo a saúde mental de travestis e transexuais (PERES, 2004). Apesar de muitas travestis encontrarem na prostituição uma forma de sobrevivência, Peres (2004) salienta que travestis não são sinônimos de prostituição, ainda que, exista no imaginário social uma tendência a estigmatizar o universo da travestilidade, devido a essa frequente associação. Esse autor relata ser possível encontrar, embora em número reduzido, travestis com formação universitária, trabalhando em diversas áreas, como: advocacia, psicologia, história, engenharia, entre outras. Descreve a existência de travestis desempenhando funções nas mais diversas ocupações, em cargos nos serviços públicos, trabalhando como web-designers e também prestando serviços domésticos. A idéia de desenvolver uma pesquisa relacionada à inserção das travestis no mercado de trabalho surgiu devido há escassez de estudos relacionados ao tema e da importância do desenvolvimento de uma pesquisa que busque conhecer em maior profundidade a realidade profissional das pessoas pertencentes ao universo da travestilidade, frequentemente discriminado e excluído socialmente. Essas cidadãs tem seus direitos solapados e são preteridas de uma perspectiva de vida em sociedade com qualidade, dignidade, respeito, e segurança, devido ao preconceito em função de sua vivência de gênero; que resulta na marginalização social experimentada pelas mesmas, submetidas diariamente a episódios de violência psicológica, moral e física. Bonfim (2009) relata que o termo travesti está ligado à visão de saúde e prostituição, assinalado assim, por estigmas e estereótipos. Contudo, o cotidiano das pessoas pertencentes ao universo das travestilidades possui aspectos que extrapolam esses campos e devem ser desnudados por meio da compreensão e promoção do pleno exercício da cidadania. Faz-se de extrema relevância a realização de um trabalho relacionado à vivência profissional das travestis, que segundo Lourenço (2009) apresentam narrativas de dor e sofrimento decorrentes de sua posição marginalizada na sociedade. Objetiva-se então, através dessa pesquisa contribuir para o desenvolvimento científico, social e político acerca do tema para que, assim, a realidade profissional das travestis possa ganhar uma maior visibilidade, e a posição das mesmas na sociedade seja repensada. 7 2. REVISÃO DE LITERATURA Em muitas sociedades o ato de vestir-se com roupas e adereços típicos do sexo oposto constituía uma prática recorrente, muitas vezes necessária a participação em ritos festivos, míticos, religiosos, tendo vários significados, não sendo fundamentalmente relacionados ao prazer sexual (CARDOSO, 2005). Na Grécia Antiga, as representações teatrais eram realizadas apenas pelos homens da polis, às mulheres era vedada a participação em encenações teatrais, assim como também, a participação em qualquer evento social, fora do âmbito privado. Cabia aos atores masculinos trajar-se como mulheres para participar dos eventos teatrais, atividade realizada exclusivamente pelo gênero masculino, até meados do século XVII (LEITE JR, 2008 apud LIMA, 2009). Existem consideráveis descrições a respeito de sociedades indígenas, na América do Norte, nas quais haviam grupos instituídos denominados “berdaches”. As berdaches eram indivíduos biologicamente considerados homens, que, entretanto, adotavam as vestimentas e comportamentos relativos ao gênero feminino, desempenhavam tarefas e atividades reservadas às mulheres, além de praticar sexo com outros homens, geralmente no papel passivo. O papel social destes sujeitos era reconhecido e legitimado como pertencente ao gênero feminino, o que lhes propiciava a vivência de papéis específicos em sua cultura (BENEDETTI, 2005). Revisando a bibliografia de Benedetti (2005) verifica-se a presença de várias citações acerca da vivência de gênero que foge aos padrões heteronormativos, em diferentes épocas e sociedades. Esse autor cita a existência de documentos antropológicos referente à vivência semelhante a das berdaches em sociedades primitivas, como é o caso das mahu, no Taiti, que desempenhavam importante papel na definição das identidades de suas comunidades, pois serviam de exemplo tanto para os homens, quanto para as mulheres, do que era reprovável socialmente. Também cita as xanith, de Omã, que comporiam um terceiro sexo, cujo ofício mais comum era a prostituição. Além de mencionar a existência no Paraguai, das panemas, homens cujas funções de caçadores foram perdidas, passando, portanto, a utilizar a cesta ao invés do arco, os maiores símbolos, respectivamente de feminilidade e masculinidade em sua cultura. Todavia, o autor salienta que a descrição das referidas tribos acima, se limita aos aspectos considerados exóticos, relativos às diferentes personificações das transformações de gênero, não privilegiando o debate sobre a construção cultural de corpo e gênero. 8 No Brasil, Benedetti (2005) faz referência há relatos bastante remotos relacionados às práticas de vivência e transformação de gênero no país, a exemplo de um escravo vindo do Congo, que não atendia ao ser chamado por seu prenome masculino, respondia apenas ao ser tratado pela alcunha de “Vitória”, sendo considerada a “primeira travesti brasileira”. Menciona ainda, o fato de no Brasil seiscentista, muitas pessoas que se vestiam de forma semelhante ao sexo oposto, ou seja, homens com roupas femininas, ou mulheres com roupas masculinas, terem sido julgadas pelo tribunal da Inquisição. Contudo, os primeiros relatos documentados sobre travestilidade encontrados no Brasil são datados do século XIX, mais especificamente, do ano de 1853, na Bahia. Tais relatos constam em registros policiais da época, e por mais de três décadas, dos anos de 1853 a 1885, a prática da travestilidade foi apontada como o motivo de várias prisões. Nesse período era considerado crime, o fato de trajar-se como o sexo oposto, por fugir aos padrões normativos sexuais e de gênero, que designavam a diferenciação nas vestimentas de ambos os sexos e no traquejo social (SANTOS, 1997). Nessa época, meados do século XIX, as práticas divergentes dos padrões normativos de gênero eram (e continuam sendo na atualidade), consideradas transgressivas, posto que, o ato de vestir-se de forma semelhante ao sexo oposto constitui uma inversão simbólica, que não se restringe apenas a questão dos trajes. De acordo com Santos (1997) a vestimenta está relacionada a questões comportamentais e sociais, não se limitando apenas a mero tecido. Vai além, contribui para a construção da identidade pessoal e social do individuo, revelando, determinando e/ou produzindo valores, costumes, e preferências. Durante as festividades carnavalescas no Brasil, no inicio do século XX, o ato de vestir-se publicamente, como o sexo oposto, era legitimado socialmente. Esses acontecimentos, que só ocorriam sazonalmente, eram interpretados apenas como uma brincadeira satírica, típica dos blocos de carnaval (LIMA, 2009). Ainda na época do Brasil Colônia, a figura da travesti, que então já existia, só era tolerada devido a participação em representações teatrais (TREVISAN 2002, apud AMARAL; MEDEIROS, 2010). A travestilidade era uma prática comum no teatro, lugar no qual era aceito, que os atores representassem papéis femininos. Contudo, a prática de se vestir de mulher, realizada pelos atores, era feita sem muita preocupação em realmente parecer uma mulher (LIMA, 2009). Em meados de 1950, as travestis tiveram a presença marcada pela participação em espetáculos teatrais, eventos culturais e casa de shows. Todavia, essa participação ficava restrita a lugares muito específicos, localizados nos guetos, ou relacionados à prostituição, atraindo ainda mais a curiosidade em torno da figura enigmática das travestis (LIMA, 2009). 9 Para essa autora, a figura da travesti na sociedade brasileira passa a ter uma conotação artística, relacionada ao homem que se traveste de mulher em apresentações humorísticas e musicais. Diferentemente dos dias atuais, nos quais a imagem da travesti é associada à prostituição, nessa época a travesti era vista apenas como uma artista teatral e performática. É importante ressaltar que no Brasil, no inicio do século XX, a profissão de atriz era marginalizada e ligada à prostituição, devido ao fato de atrizes de pequenas trupes se prostituírem, prática também adotada posteriormente pelas artistas travestis (LEITE JR, 2008 apud LIMA, 2009). Na década de 1960, com o nascimento dos movimentos estudantis e a luta pelos direitos civis, surge um novo cenário, no qual eram reivindicadas perspectivas e visões sociais e culturais diferenciadas, até mesmo em relação a questões cotidianas, como a vivência de papéis de gênero. Nesse contexto, novos movimentos contra-hegemônicos, discursando a favor das minorias começaram a ganhar força, para que, fossem repensados os paradigmas culturais e sociais vigentes. Em meio a toda essa efervescência no cenário social dos países ocidentais, surge o conceito de gênero, derivado das contestações do movimento feminista, que propôs novas teorias e uma nova discussão acerca das questões relacionadas à sexualidade humana e aos papéis sociais (LIMA, 2009). Com o aparecimento dos chamados novos movimentos sociais, que reivindicavam o lugar da identidade dos indivíduos, politizando vários aspectos (sexualidade, corpo, relações afetivas, reprodução, formas cognitivas ou emocionais) até então considerados pertencentes à vida privada, houve a criação do movimento homossexual. Esses movimentos (feminista, estudantil, homossexual, defensores dos direitos humanos, entre outros) tinham como características a diversidade de valores e idéias. Lutavam por reformas institucionais que incluíssem a participação de seus membros nas tomadas de decisões políticas, para assegurar os direitos sociais de todos os cidadãos, que viviam em condições de exclusão social (RIBEIRO, 2005). O movimento feminista propôs novas interpretações sobre as diferenças entre masculino e feminino, que não fossem pautadas unicamente pelo binarismo sexual (baseado por características físicas e anatômicas do corpo), a fim de se romper com o pensamento biologista dominante, fundamentadas na afirmação de Simone de Beauvoir de que, “não se nasce mulher, torna-se” (LIMA, 2009). Essa autora ressalta que, com o surgimento do conceito de gênero tornou-se possível discutir os papéis de masculino e feminino, como construções culturais, históricas, simbólicas, materiais e discursivas, reproduzidas socialmente. O sexo dos indivíduos passou a ser compreendido como um produto sócio- 10 histórico, relação entre os fatores biológicos e sociais, tendo sua construção relacionada à concepção cultural de masculino e feminino. Para Ribeiro (2005) o movimento feminista teve vital importância na organização dos movimentos homossexuais, visto que, as discussões propostas pelos movimentos feministas proporcionaram a problematização da dimensão sexualidade, até então balizada pela repressão social. Reivindicava-se uma maior liberdade sexual, no qual era questionada a “heterossexualidade compulsória”, o que favoreceu ao movimento homossexual incorporar tal discussão, em favor de outras formas de vivências afetivas e sexuais. Os movimentos homossexuais, de acordo com esse autor, questionavam o conjunto de interpretações, construídos com fins classificatórios e categorizantes. Politizavam a discussão acerca de aspectos referentes à sexualidade e afetividade destes indivíduos, em prol de uma reflexão a respeito da redefinição de parâmetros, relacionados às suas vivências e experiências. Reflexão essa que tinha como finalidade, proporcionar a construção de novas interpretações, favorecendo a inserção destes indivíduos em novas formas de sociabilidade, pautada na construção de uma identidade social, com base na orientação sexual. No início dos anos 1970, travestis artistas que dublavam e interpretavam cantoras do rádio e atrizes hollywoodianas ficaram conhecidas como transformistas, apesar dessas performances também serem desempenhadas por outros artistas, inclusive heterossexuais. Contudo, a diferenciação entre travestis e transformistas já podia ser notada, devido aos processos distintos de transformação dos corpos, adotados por ambas (LIMA, 2009). As transformistas se travestem de forma semelhante ao sexo oposto, geralmente homens vestem-se como mulheres, para apresentar suas performances artísticas, fazendo a adoção de técnicas reversíveis com o intuito de suprimir os traços masculinos durante apenas as apresentações, adquirindo uma aparência e identidade feminina, em um dado momento. Já a vivência cotidiana, com uma caracterização feminina, não apenas durante a noite, mas também de dia, é realizada pelas travestis, mesmo com a perseguição sofrida nesse período, devido à ditadura militar. Contudo, como na década de 1970, os recursos para uma transformação corporal mais refinada ainda eram escassos, as travestis utilizavam-se dos mesmos artifícios que as transformistas para modificar seus corpos (LIMA, 2009). O uso de hormônios e silicone começou a ser incorporado pelas travestis na década de 1980, pois no inicio da década de 1970, isso ainda era novidade no Brasil. Lima (2009) relata que o surgimento de novas técnicas e recursos representaram um marco para a pretensa identidade travesti, graças as novas possibilidades de mudança, que produziram efeitos não só de ordem física, como também emocional e moral. 11 Nos anos 1980, os shows de transformistas começaram a ganhar espaço na televisão, passando a ser exibidos em programas populares de grande audiência em rede nacional, como “O Clube do Bolinha”, na rede Bandeirantes “Show de Calouros” apresentado por Sílvio Santos aos domingos no SBT, nos quais travestis e transformistas participavam de concursos em que disputavam o prêmio pela melhor dublagem. Na Rede Globo, o “Cassino do Chacrinha” trazia no corpo de jurados as travestis Rogéria e Roberta Close. Nas décadas de 1980 e 1990 as travestis ganharam muita visibilidade no país, por meio dos veículos de comunicação, que retratavam como um espetáculo a travestilidade, acentuando a aura de exotismo intrínseco a sua condição, devido à curiosidade acerca dos complexos processos de transformação corporal, aos quais as mesmas se submetiam. Figuras cada vez mais presentes e populares na cultura de massa, as travestis passam a ter seu universo associado ao glamour e entretenimento semelhante aos espetáculos burlescos, atraindo audiência para os programas televisivos dos quais participavam, devido à curiosidade e confusão causadas pela beleza feminina, fabricada em um corpo biologicamente masculino (LIMA 2009). Para a autora, a confusão e curiosidade se davam em grande parte devido à visualidade ambígua das travestis, com a aparência extremamente feminina, sendo chamada por seu nome de registro civil masculino, o que causava certo impacto no público ao se deparar com um corpo com aspectos totalmente feminino, em contraposição com sua identidade, originalmente masculina. O público era incitado a questionar se aqueles corpos realmente eram masculinos, pois as travestis tinham performances completamente femininas, e muitas vezes, utilizavam trajes minúsculos, o que levava o telespectador a tentar decifrar onde se escondia o pênis das travestis, cujos corpos eram considerados verdadeiros enigmas. De acordo com Lima (2009) apesar de a vivência da travestilidade não ser novidade, somente em 1980, com o surgimento dos movimentos sociais, que lutavam pelo fim da ditadura militar, e a favor da liberação sexual, foi que a figura das travestis passou realmente a ganhar visibilidade na sociedade brasileira. A travesti, então, passa a fazer parte da composição das paisagens urbanas, principalmente noturnas, das grandes cidades, e a prostituição se instituiu como uma prática que faz parte da construção da identidade travesti. Contudo Kulick (2008 apud LIMA, 2009) lembra que, apesar do espaço conquistado nos meios de comunicação por algumas travestis, que por conseqüência acumularam riquezas, e conseguiram ascender socialmente, tamanha visibilidade não provocou mudanças no cotidiano e na vida da maioria delas. Elas permanecem sendo discriminadas e marginalizadas pela sociedade, vivendo em guetos, tendo como principal local de trabalho, as ruas, de onde tiram meios para sua sobrevivência, por meio da prostituição. 12 Segundo Benedetti (2005) com o surgimento da epidemia causada pelo vírus HIV nos anos 1980, foram desenvolvidos vários trabalhos sobre a sexualidade humana em diferentes áreas de pesquisa social, recebendo a homossexualidade atenção diferenciada. Mesmo não enfocando especificamente as travestis, esses estudos colaboraram para que se fosse colocando em pauta as temáticas a respeito da sexualidade, corpo, e gênero, na agenda política do governo, e na academia, promovendo um maior interesse no desenvolvimento de pesquisas nas áreas correlacionadas. O Ministério da Saúde, desde a década de 1980, adotou estratégias para enfrentar a epidemia HIV/AIDS, contando com os movimentos sociais, vinculados aos direitos da população LGBTTT como parceiros, fortalecendo a participação destes grupos na luta pela saúde. O reconhecimento da complexidade da saúde LGBTTT demandou uma articulação entre os movimentos sociais e outras áreas do Ministério da Saúde, expandindo o conjunto de demanda dessa população na área da saúde, protegendo suas especificidades (BRASIL, 2010). As práticas sexuais tornaram-se cada vez mais visadas por discursos públicos e políticos, principalmente nos casos de grupos considerados de risco, com o governo investindo em campanhas para conscientizar a população dos riscos de infecção por HIV, orientando e patrocinando projetos de ONGS-AIDS (BORBA, 2010). De acordo com Brasil (2008), a epidemia de AIDS no país contribuiu para se dar visibilidade às condições de vida e de saúde dos homossexuais (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). Desde a década de 1980 até junho de 2010 já foram notificados 608.230 casos, o que fez com que o governo tomasse a iniciativa em desenvolver planos nacionais de enfrentamento da epidemia (BRASIL, 2011). Em contrapartida, a visibilidade que os grupos homossexuais adquiriram contribuiu para o aumento de processos discriminatórios, devido à vinculação da orientação sexual e a identidade de gênero como fatores relacionados à maior vulnerabilidade às DST/AIDS. Para o Ministério da Saúde, a orientação sexual e a identidade de gênero são categorias consideradas determinantes e condicionantes da condição de saúde, por implicar práticas sexuais e sociais especificas, mas também, por expor Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais a agravos decorrentes do estigma e da exclusão social. Na atualidade, é possível ver com certa freqüência, em diversas situações, a presença de travestis e transexuais em programas televisivos, que vão desde programas como shows de calouros semelhantes ao quadro “Os transformistas", humorísticos iguais a “Praça é Nossa”, da mesma emissora, SBT, até reality shows. Entretanto, muitas vezes, a imagem retratada é caricatural, estereotipada, representada de forma negativa, apelando para uma estética grotesca e marginalizada. É comum a presença de travestis envolvidos em escândalos e 13 polêmicas com personalidades públicas, como políticos, atores e cantores, em programas sensacionalistas, iguais ao apresentado por Luciana Gimenez, na emissora Rede TV. Ou até mesmo, de modo recorrente na pauta de telejornais, como no ano de 2008, em que o jogador de futebol, Ronaldo, e os atores Gabriel Braga Nunes e Rômulo Arantes Neto, tornaram-se manchete de revista e jornais ao requisitar os serviços de travestis, profissionais do sexo (LIMA, 2009). Diante exposto acima, podemos percebemos que os meios de comunicação se configuram em espaços de construção e reprodução de representações sociais simbólicas, que reforçam a imagem de desviante das travestis, favorecendo a instituição de relações de opressão desses sujeitos que desempenham papéis de gênero que não se encaixam nos padrões heteronormativos vigentes (LIMA, 2009). A mídia exerce um importante papel ao retratar as pessoas pertencentes ao universo da travestilidade de forma estereotipada e com uma conotação negativa, pois funcionam como uma ferramenta favorável a naturalização de práticas discriminatórias e a permanência da situação marginalizada, vivenciada cotidianamente pelas travestis, que são assujeitadas socialmente e não se percebem como cidadãs, tendo direitos e deveres. CIDADANIA E TRABALHO O significado de cidadania vai além do simples exercício do voto. A compreensão do termo cidadania extrapola os direitos e deveres políticos, e implica também na participação efetiva da população no controle e fiscalização da atuação em esfera pública, seja por meio de órgãos governamentais ou de entidades populares, como sindicatos, associações e ou movimentos sociais. Independente do caráter do órgão ou entidade, seja ele governamental ou não, a participação da sociedade civil tem a função de fiscalizar e denunciar irregularidades no governo e no poder público, cobrar e exigir dos governantes os direitos de toda a população, como acesso à saúde, educação, segurança, trabalho, entre outros (NETO; AGNOLETI, 2008). Segundo Portela (2009) um dos pressupostos fundamentais da cidadania é a relação inerente entre indivíduo/Estado. A cidadania é considerada a identidade social do indivíduo, construída a partir da relação existente entre determinada sociedade e os interesses do ambiente social ao qual este indivíduo pertence. Para a autora, a cidadania é um reflexo do momento histórico vivenciado, da conjectura política, econômica e social de um determinado período e por isso é sempre dinâmica. É construída historicamente, tendo um aspecto sócio- 14 histórico intrínseco, do qual fazem parte os valores e crenças estabelecidas por determinada época e sociedade, e pode ser divida em três partes: civil, política, e social, (MARSHALL, 1967 apud PORTELA, 2009). O Estado no mundo contemporâneo deve garantir a igualdade a todos em uma sociedade, pois é dele que derivam os direitos e deveres dos indivíduos, assim como também a justiça e a moralidade. Enquanto autoridade civil, é do Estado que procedem os direitos civis, políticos e sociais. Os direitos civis estão relacionados à liberdade individual, já os políticos à participação no exercício do poder político, podendo ser através da participação direta ou representação; e os sociais dizem respeito a tudo o que está relacionado ao bem estar do indivíduo: saúde, educação, trabalho, segurança, lazer e cultura. O trabalho na sociedade contemporânea passou a ser considerado um fator indispensável à conquista da cidadania, juntamente com a educação, elementos que fazem parte do processo de construção da cidadania (PORTELA, 2009). Historicamente, o trabalho tem função fundamental para a humanidade devido a uma questão de sobrevivência, por atribuir sentido a existência humana, além de ser um fator estruturante socialmente. Está profundamente relacionado à existência e a realização humana, e por isso, o seu valor é considerado socialmente inalienável. As relações de trabalho podem explicar a vivência do homem em sociedade, pois é através destas que o homem entra em contato com o coletivo, e consigo mesmo, constrói e modifica o meio social onde vive; e acima de tudo, é por meio da sua relação com seu semelhante que o homem constrói a si próprio, se faz homem, torna-se humano e se apresenta ante o outro. O trabalho proporciona ao homem o desenvolvimento de suas habilidades, a utilização de sua imaginação, além de favorecer ao autoconhecimento, por meio da rotina laboral, o homem tem a oportunidade de conhecer suas capacidades e limitações, o que está relacionado à auto-imagem e visão de mundo. Fonte de obtenção de realização e prazer, o trabalho, ou até mesmo a falta de uma profissão, também pode causar dor, sofrimento e alienação (ARAÚJO; SACHUK, 2007). Essas autoras relatam que devido à atual conjuntura político-econômica mundial, e com o surgimento da globalização, a esfera trabalhista vem sofrendo importantes transformações. Com o aparecimento de inovações tecnológicas, as formas de organização do trabalho estão sofrendo alterações, o que consequentemente, está causando mudanças no mercado de trabalho. As novas formas de tecnologia, de divisão do trabalho e de gerenciamento na produção favorecem o aumento da produtividade, e em contrapartida, geram a diminuição dos postos de trabalho permanentes, beneficiando o crescimento do setor informal, ou causando desemprego estrutural e exclusão. 15 Em meio a essas transformações paradoxais, cabe ao trabalhador buscar meios para se ajustar na tentativa de sobreviver. Portela (2009) citando informações provenientes de documentos do Ministério do Trabalho relata que, apesar da queda na taxa de crescimento populacional no Brasil, há uma considerável oferta de mão de obra a espera de oportunidade para ingressar no mercado de trabalho. Essa autora cita também uma mudança na faixa etária dos sujeitos inseridos no mercado de trabalho em função do nível de escolaridade e de qualificação, sendo os trabalhadores com idade entre 25 a 39 anos considerados mais qualificados e experientes. No atual cenário trabalhista, a educação é considerada um diferencial na competição por uma vaga no mercado de trabalho, que está demandando uma mão de obra mais escolarizada. A mão de obra terá como fator favorável um maior nível de escolaridade, não necessariamente relacionado com a função a ser desempenhada no posto de trabalho, mas sim como um diferencial para competir em melhores condições por um emprego. Contudo, as mudanças estruturais no mundo trabalhista não estão acompanhando a expansão educacional, pois o sistema educacional oferece uma força de trabalho com maior nível de escolaridade, não absorvida totalmente devido ao número reduzido de vagas existentes no mercado de trabalho, formando um panorama de vulnerabilidade econômica, social e de exclusão (LETELIER, 1999). De acordo com Segnini (2000) a educação e a formação profissional atualmente possuem funções instrumentais, ou seja, basicamente funcionam para favorecer a competitividade e aumentar a concorrência, adequar a mão de obra às transformações técnicas e diminuir o impacto do desemprego. As transformações estruturais pelas quais o mercado de trabalho tem passado, tem como resultado: altas taxas de desemprego, precariedade das novas configurações de emprego e insegurança crescente. Em decorrência dessas mudanças há uma maior flexibilização da força de trabalho, um aumento de ofertas de trabalho por contratos temporários, subcontratação e terceirização. Os discursos sobre os níveis de escolaridade estão atrelados a ocupação e permanência em cargos considerados essenciais para os processos de produtividade, visto que, quanto mais qualificados os trabalhadores de um país, mais elevadas às possibilidades de absorver as novas tecnologias predominantes, e maior é a probabilidade de se obter um rápido crescimento da produção. O desemprego é descrito por essa autora como sendo intrínseco ao crescimento econômico, e não como resultado da deficiência no desenvolvimento econômico. A expansão econômica no Brasil tem como reflexo a disparidade nas relações trabalhistas e uma intensa heterogeneidade. O mercado de trabalho não foi capaz de instituir a 16 generalização do emprego formal, com direitos sociais e garantias para toda a população, acontecendo justamente o inverso, um cenário no qual predominam a flexibilização do trabalho, com condições em sua maioria precárias. No país, esse fato se mistura às mazelas sociais nunca resolvidas como a profunda disparidade na distribuição de renda, analfabetismo, os baixos índices educacionais, a saúde, com conseqüência nefastas nas escassas condições para o exercício da cidadania (SEGNINI, 2000). Em meio ao cenário econômico atual, a situação da maioria da população travestis em nossa sociedade é considerada de grande vulnerabilidade social e exclusão, visto que, essa população não tem acesso a políticas públicas que garantam sua proteção contra violência simbólica e física em âmbito escolar e a oportunidade de inclusão no mercado de trabalho. Assim como mencionado por Garcia (2007) faz-se de extrema relevância contextualizar aqui a conjuntura histórica em que as travestis se destacaram como grupo social distinto, tendo a prostituição como principal atividade laboral desempenhada nos anos de 1970 e 1980, correspondendo a um período que perdura até os dias atuais, no qual a prática da prostituição ainda é exercida pelas travestis, que diante da falta de oportunidade, encontra na prostituição um meio de subsistência. É de essencial importância destacar aqui que a prostituição enquanto prática individual e autônoma não é considerada ilegal no Brasil, e sim a exploração sexual. Todavia, não há o reconhecimento desse ofício como uma profissão, o que favorece a utilização de ensejos legais na forma de acusações de atentado ao pudor e escândalo público; como mecanismos para a inibição e a criminalização dos sujeitos que exercem essa atividade, com o fim de coibir a prática da prostituição (GUIMARÃES; MERCHÁN-HAMANN, 2005). O termo profissional do sexo começou a ser utilizado na década de 1980. Com a abertura política, após a ditadura e o aparecimento dos movimentos sociais passou-se a reivindicar a regulamentação da prostituição, como forma de garantir os direitos trabalhistas das pessoas que desempenham essa atividade (GARCIA, 2007). Embora a prostituição ainda não tenha sido legalizada, pois a luta pela sua regulamentação se arrasta até a atualidade, o ofício de profissional do sexo é reconhecido como uma ocupação pela Classificação Brasileira de Ocupações do Ministério do Trabalho. O que chama a atenção nessa classificação é o fato de travestis e transexuais serem utilizadas como sinônimo de profissional do sexo para identificar quem exerce esse oficio, junto a outras nominações como: Garota de Programa, Garoto de Programa, Meretriz, Messalina, Michê, Mulher da Vida, Prostituta, Puta, Quenga, Rapariga, e Trabalhador do Sexo (BRASIL, 2010). 17 Essa correlação estabelecida na classificação de ocupações do Ministério do Trabalho, entre os sujeitos que se identificam como transgêneros e a prostituição, demonstra o fato de as travestis não terem acesso ao mercado de trabalho e muitas vezes recorrem à prostituição como forma de sobrevivência, devido às ínfimas oportunidades de trabalho oferecidas a elas. Dessa forma, o fato de serem retratadas como sinônimo de prostituição por uma classificação pertencente a um órgão (entidade) governamental reforça oficialmente a situação de exclusão, discriminação e estigma social vivenciados pela população travesti. Por ser um tema relacionado a outros assuntos igualmente complexos, os debates sobre a prostituição tem permanecido restritos a discursos repressivos, a respeito das chamadas sexualidades vagabundas, da vigilância sanitária e da criminalidade. Normalmente, as reflexões acerca desse tema ganham destaque devido a suas características negativas e por sua ligação a assuntos que, muitas vezes, extrapolam os dilemas daqueles que vivenciam o exercício da prostituição no seu cotidiano, como fenômenos graves relacionados ao tráfico de crianças, adolescentes e mulheres para agenciamento, comercialização e turismo sexual. O debate sobre a legalização da prostituição ganhou novamente destaque na sociedade brasileira desde a criação do Projeto de Lei (PL) 98/2003 de autoria do ex-deputado federal Fernando Gabeira, que tinha como objetivo assegurar a remuneração pelos serviços prestados e garantir os direitos trabalhistas das pessoas que se prostituem (GUIMARÃES; MERCHÁNHAMANN, 2005). O Projeto de Lei (PL) 98/2003 que chegou a tramitar no Congresso Nacional foi arquivado, e posteriormente se iniciou a discussão acerca de uma proposta de criação de um Projeto de Lei PL 4244/2004 do ex-deputado Eduardo Valverde, com base no PL anterior e em uma lei alemã que regulamenta as relações jurídicas no âmbito do mercado do sexual. A proposta do novo PL visa regulamentar a prostituição e desenvolver mecanismos para o fortalecimento da cidadania dos profissionais do sexo, garantindo que o exercício dessa atividade seja remunerado e esses trabalhadores possam de fato ser reconhecidos como profissionais, com direitos e deveres; e assim, saiam da situação de marginalização que vivenciam cotidianamente (WILLYS, 2012). No entanto, para que isso ocorra é preciso considerar as pessoas que exercem essa atividade, como sujeitos de direito, posto que, atualmente há uma organização significativa na reivindicação pelo direito de exercer a profissão de forma digna. (GUIMARÃES; MERCHÁN-HAMANN, 2005). 18 2.2 PROBLEMA Pergunta-se quais as dificuldades que as travestis encontram em sua inserção no mercado de trabalho formal? Quais são suas expectativas em relação à vida profissional? Como o trabalho das travestis se reflete em sua auto-percepção de cidadania? 2.3 OBJETIVOS 2.3.1 Objetivo geral: Examinar as dificuldades enfrentadas e as expectativas que as travestis têm em relação a sua inserção no mercado de trabalho formal. 2.3.2 Objetivos específicos: Identificar os atuais campos de trabalho das travestis. Investigar a influência da vivência de gênero e dos procedimentos de transformação corporal no processo de escolarização. Compreender as formas de conflitos que permeiam a vivência laboral e social das travestis. Investigar a opinião das travestis acerca dos movimentos sociais que representam o universo da travestilidade. Conhecer as perspectivas das travestis em relação a sua vida profissional. 3. METODOLOGIA Neste estudo, realizaremos uma pesquisa numa perspectiva qualitativa, com abordagem fenomenológica. A pesquisa será realizada com uma amostra de sujeitos pertencentes à população travesti, a fim de se conhecer de forma mais aprofundada aspectos relacionados à vida profissional dessa população. Goldenberg (2007) descreve a utilização dos métodos qualitativos como uma forma de ressaltar as peculiaridades de um fenômeno em termos de seu significado para o grupo pesquisado, através de um mergulho profundo. A autora relata que nas pesquisas qualitativas 19 em ciências sociais, a representatividade dos dados está relacionada à possibilidade de compreensão do significado e descrição detalhada dos fenômenos estudados em seus devidos contextos. Por meio de uma imersão intensa e profunda é realizada a observação participante por um período prolongado de tempo, entrevistas densas, e a análise de variadas fontes, sob diferentes perspectivas, que permitam uma maior compreensão não alcançada com a utilização de métodos quantitativos. A fenomenologia busca apreender a essência dos fenômenos, superando as aparências imediatas. O método fenomenológico privilegia, dentro do campo de estudo da sociedade, a vivência cotidiana do homem, suas angústias e preocupações. A análise fenomenológica substitui as hipóteses explicativas pela descrição concreta da realidade do sujeito pesquisado, através do ponto de vista dos atores sociais e dos sentidos atribuídos pelos mesmos, aos objetos e ações sociais que desenvolvem (GOLDENBERG, 2007). O método fenomenológico na Psicologia tem como principal objetivo captar o significado da vivência cotidianamente por cada sujeito. As situações vivenciadas pelo sujeito não possuem unicamente um significado em si, como também, adquirem um sentido para quem as experiencia, relacionado à própria maneira de existir. A experiência vivenciada pelo sujeito é extremamente íntima, e tem um sentido que, geralmente escapa ao observador, pois o ser humano não é transparente; para revelar essa experiência o pesquisador precisa de informações fornecidas pela própria pessoa. O método fenomenológico apresenta-se como um recurso adequado para se pesquisar a vivência, ao contrário do método experimental, que se restringe apenas a observação dos fatos e significado destes, considerando-os em si mesmo (FORGHIERI, 1997). 3.1 PARTICIPANTES A pesquisa contou com a presença de duas participantes pertencentes ao universo da travestilidade população, devido à extrema dificuldade de se entrar em contato com possíveis participantes da população alvo. O número de participantes se deu em função da disponibilidade, do interesse em participar da pesquisa e do curto período de tempo para a realização das entrevistas em decorrência da demora em conseguir fazer contato com os sujeitos da população alvo. Ambas as participantes são habitantes do Distrito Federal, possuem o ensino fundamental incompleto e idades de 44 e 55 anos. Com o intuito de manter o sigilo da identidade das participantes, doravante as nomearemos como Flor e Monique. Flor reside no Recanto das Emas (DF), tem 55 anos, possui a 4ª série do Ensino Fundamental, exerce (esporadicamente) a ocupação de profissional do sexo, obtém uma renda mensal de R$ 20 800,00, sendo que R$622,00 desse valor provém de uma aposentadoria por invalidez. Monique reside em Sobradinho (DF), tem 44 anos, possui a 6ª série do Ensino Fundamental, exerce a ocupação de profissional do sexo, e obtém uma renda mensal de R$2.000,00, sendo que deste total o valor R$620,00 provém do auxilio doença que recebe do INSS. Devido à dificuldade de se entrar em contato diretamente com possíveis participantes da pesquisa, foi realizado contato com o Núcleo de Atenção à Diversidade e Intolerância Sexual, Religiosa e Racial do Distrito Federal, conhecido como NUDIN, pertencente à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do Distrito Federal – SEDEST. O NUDIN foi criado em 5 de fevereiro de 2009, com a finalidade de proporcionar atendimento especializado às vítimas de intolerância e discriminação sexual, racial e religiosa. Foi realizada uma solicitação, por meio de um ofício contendo a apresentação da pesquisadora e o objetivo da pesquisa. A solicitação passou por um processo de análise, e após a aprovação e autorização, foi realizada uma triagem de possíveis participantes pelo psicólogo da instituição. Foram incluídas na pesquisa somente travestis, habitantes do Distrito Federal e indicadas pelo NUDIN. Não foram estabelecidos parâmetros com relação à idade, grau de escolaridade e profissão. Também foi estabelecido como critério de inclusão a participação voluntária. 3.2 INSTRUMENTOS E MATERIAIS Foi utilizado um roteiro de entrevistas semi-estruturado (Anexo A) elaborado de acordo com as finalidades da pesquisa. As perguntas que compõem o roteiro contemplam aspectos relacionados à profissão atual, profissões anteriores, transformações corporais, vivência/identidade de gênero, travestilidade na sociedade atual, movimento social e cidadania, expectativas para o futuro. Antes de iniciar a entrevista, apresentamos o Termo de Compromisso Livre e Esclarecido (Anexo B) às participantes da pesquisa, esclarecendo quaisquer dúvidas e colhendo suas assinaturas, de acordo com os preceitos da Resolução 196/1996. 3.3 PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS As entrevistas foram agendadas e realizadas de acordo com a disponibilidade de horário das participantes e a disponibilidade da sala de atendimento do NUDIN. 21 Esta pesquisa foi submetida à análise e aprovação do Comitê de Ética (Número do Parecer: 35317) tendo em vista o envolvimento de seres humanos como participantes da pesquisa. Como assegurado pela Resolução 196/1996, que considera a possibilidade de em todo projeto de pesquisa que conta com a participação de seres humanos haver algum risco, caso ocorresse algum desconforto ou experiência emocional desagradável em decorrência do conteúdo investigado na pesquisa, o participante poderia solicitar o apoio psicológico gratuito a qualquer momento da entrevista ou posteriormente. O acolhimento psicológico será realizado no Centro de Formação em Psicologia Aplicada (CEFPA) da Universidade Católica de Brasília, pela própria pesquisadora, sob a supervisão do seu professor orientador. Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com o objetivo de examinar as dificuldades enfrentadas e as expectativas que as travestis têm em sua inserção no mercado de trabalho formal. As entrevistas, que tiveram a duração média de aproximadamente 1 hora foram registradas através da gravação de áudio, para posteriormente serem transcritas integralmente pela pesquisadora. As entrevistas foram realizadas na sala reservada para atendimento no NUDIN, cuja instalação era bem iluminada, arejada e contava com uma mesa e cadeiras. 3.4 PROCEDIMENTO DE ANÁLISE DOS DADOS A análise de dados foi realizada com embasamento no método fenomenológico. Para analisar o significado da vivência experienciada pelo sujeito em determinadas situações, o método fenomenológico utiliza-se da redução fenomenológica. A redução fenomenológica consiste em se fazer uma reflexão profunda a respeito da vivência dos sujeitos, de forma a se ter acesso a maneira como esta se constitui no próprio existir humano, e se abranger a essência do conhecimento (FORGHIERI, 1997). Para termos acesso ao significado que os sujeitos da pesquisa atribuem à vivência investigada, será utilizada a análise de depoimentos, citada por Bruns; Holanda (2003) constituída dos seguintes passos: 1- Apreensão do Sentido do Todo (leitura de toda a entrevista, com o objetivo de obter um sentido integral, na tentativa de captar o que estava sendo descrito como todo). 22 2- Discriminação das Unidades de Sentido (divisão em unidades de significado captando os momentos de variação psicológica sensível de cada situação, formando unidades constitutivas do texto). 3- Análise dos relatos existenciais obtidos nas entrevistas e transformação em linguagem psicológica. 4- Sistematização dos relatos da vivência das participantes em unidades de sentido. 4.0 RESULTADOS E DISCUSSÕES Após a realização da coleta de dados, transcrição e leitura sistematizada das entrevistas, fez-se a interpretação dos dados, a partir da qual foram elaboradas três unidades de significado com o objetivo organizar o discurso das participantes acerca da temática investigada. As unidades de significado surgiram a partir da descrição vivencial de cada participante e foram identificadas a partir do eixo central relacionado ao tema pesquisado. A primeira unidade de sentido refere-se à profissão exercida atualmente. A segunda diz respeito à vivência de gênero, o corpo suas transformações e o surgimento de uma vida nova. A terceira é referente à forma como a sociedade percebe a vivência da travestilidade e o impacto dessa percepção na vida das travestis. As unidades de sentido estão inter-relacionadas de forma a propiciar uma compreensão global do tema central da pesquisa. O objetivo dessa discussão é explorar a inserção das travestis no mercado de trabalho, porém sempre respeitando e valorizando a vivência existencial de cada sujeito, que é único, e o contexto no qual vivem. 4.1 UNIDADE DE SENTIDO 1: A PROSTITUIÇÃO PERCEBIDA COMO ÚNICO CAMINHO VIÁVEL A primeira unidade de sentido diz respeito à profissão atual e seu significado para as participantes. Os indicadores centrais referentes a essa unidade dizem respeito à atuação como profissional do sexo impulsionada principalmente pela necessidade financeira. Percebemos semelhanças e divergências no que tange a escolha, as motivações e pontos negativos referentes ao exercício da profissão. As travestis encontram na prostituição um meio de 23 obtenção e/ou complementação de renda, uma forma para alcançar sua independência financeira. Ambas participantes começaram a trabalhar como profissional do sexo devido a um mercado de trabalho limitado, em decorrência do preconceito com a identidade de gênero das travestis. Fato que fica claro nas seguintes falas: “A prostituição para mim significa o único caminho encontrado em 1975. É (...) por não ter conseguido me manter em uma sala de aula por causa do alto índice de preconceito, discriminação. E, eu não tinha capacidade nenhuma para tá trabalhando, e nem tinha também uma aceitação no mercado de trabalho formal” (Flor). “Necessidade. Que eu tava (...) que não tinha jeito, eu ganhava muito pouco. Então, eu já botei a prostituição como minha profissão. Eu não tenho outra, não vão me dar outra” (Monique). O mercado de trabalho para as travestis é restrito e geralmente oferece oportunidades de trabalho apenas nas áreas da beleza e estética (LOURENÇO; 2009). Como as oportunidades nessas áreas de trabalho são limitadas, a prostituição acaba sendo uma forma que as travestis encontram de garantir o seu sustento. Como citado em pesquisa realizada por Bonfim (2009) a vida social e laboral da maioria das travestis ganha contornos através de experiências noturnas de prostituição e diurnas em salões de beleza. Por terem uma vivência de gênero que foge a inteligibilidade social, seguindo os padrões heteronormativos de gênero e sexualidade, a inserção desses sujeitos no mercado de trabalho muda radicalmente (RODRIGUES; NARDI, 2009). Para esses autores, o enfraquecimento das redes sociais que exercem o papel de apoio, tem como conseqüência a adesão a precárias alternativas de trabalho. O apoio familiar foi mencionado nas entrevistas como um fator que pode ter forte influência na entrada das travestis no mercado do sexo. Na adolescência, ao iniciarem as modificações corporais, as travestis são expulsas de casa ou até mesmo optam por sair devido a não aceitação de sua vivência de gênero. Sem um lar, precisando obter um meio de sustento, a prostituição surge, então, como uma via possível de sobrevivência mediante a falta de apoio social. O apoio da rede social, principalmente da família é de suma importância para que a travesti não precise recorrer à prostituição para sobreviver. As falas a seguir retratam a opinião e a vivência das entrevistadas a respeito do relacionamento familiar e da importância do apoio da rede social: “Quando a família apóia a pessoa trans ou a pessoa travesti, ela tem 50% de oportunidade de ser uma cidadã normal. Quando a família expulsa essa travesti, ainda bastante adolescente de casa, não aceita, não entende, essa travesti tem 90 % de chance de ir para a marginalidade, infelizmente” (Flor). 24 “Eu passo necessidade, se for pra mim comer o pão puro, eu como o pão puro. Nem na casa da minha mãe eu fico tocado, de tanta maldade que ela fez comigo. Deixei ela de mão. Não faço participo de festa dela, não participo de festa deles. Acabou.Sempre sobra uma piada pra eles dizer. E, eu não to nem aí para eles. Já peguei briga com eles. Eu e minha família não se cheira muito, não” (Monique). Além das áreas de trabalho já mencionadas por Bonfim (2009) e Lourenço (2009) as entrevistadas relatam também ser comuns às travestis ofertas de emprego em áreas relacionadas ao ramo da alimentação, serviços gerais, limpeza, e panificação, para exercerem funções como: cozinheira, auxiliar de cozinha, faxineira, empregada doméstica, diarista e auxiliar de padeiro. A seguir são apresentadas falas das participantes em relação à oportunidade de emprego para travestis no mercado de trabalho: “Ah, hoje em dia, só salão de beleza. Só salão de beleza. No Lago Norte, tem as patroas que (...) doméstica, quer que as bichas sejam domésticas. Que é mais aceita é como domésticas, tá entendendo?! Assim, comércio (...) é muito raridade, eles não pegam” (Monique). “Bom, o mercado de trabalho é bom. Eu acho que falta capacitação, nem mesmo no (...) como surgem várias oportunidades de trabalho. Mas, eu acredito que o brasileiro (...) ainda falta muita capacitação para o mercado de trabalho. Para a travesti, isso é pior ainda. É bem pior (...) a capacitação” (Flor). A respeito das áreas mencionadas nas falas acima, além das supracitadas por autores como Lourenço (2009) e Bonfim (2009) é interessante analisar para além dos recortes de gênero relacionados a essas atividades. Dois aspectos relevantes e que chamam a atenção nas falas das entrevistas é o fato da maioria ou todas as profissões aludidas terem a sua realização geralmente atribuída ao gênero feminino e também o fato de serem consideradas muitas vezes, como subempregos, profissões que não são valorizadas socialmente. Apesar de o aspecto financeiro ter sido mencionado como crucial na decisão de se recorrer à ocupação de profissional do sexo como uma forma de sobrevivência, a escolha desse ofício também está relacionada a outros fatores, como liberdade, autonomia, autoestima, reconhecimento, prazer, diversão. A prostituição é vista como a possibilidade de trabalhar em algo que se goste dentro de um cenário restrito no mercado de trabalho, que lhes oferece poucas oportunidades de emprego. Não é exigida qualificação profissional, grau de escolaridade, e em contrapartida remuneração é considerada boa, sendo possível obter um rápido retorno financeiro. 25 “Eu acredito que (...) a motivação seja essa mesma, a falta de mercado de trabalho. É a certeza de que esse retorno financeiro, ele é imediato. E não me exige nenhuma formação profissional” (Flor). “Não falta dinheiro” (Monique). Para Pelúcio (2005), o trabalho como profissional do sexo no caso das travestis pode ser compreendido sob três prismas: (1) uma atividade desempenhada exclusivamente por necessidade financeira; (2) uma forma de ascensão social com aquisições materiais e simbólicas; (3) uma atividade que além de gerar renda, propicia um ambiente de sociabilidade. Os meios de comunicação de massas e as instituições sociais reproduzem uma idéia equivocada, corrente no senso comum, de que as pessoas nascidas biologicamente do sexo masculino, porém com vivência de gênero feminina, realizam complexos processos de modificação corporal, subjetividade e identidade social com a principal finalidade de ter acesso ao mercado do sexo (BENEDETTI; 2011). Para esse autor, a relação entre o universo da travestilidade e o exercício da prostituição e seus espaços, são considerados elementos essenciais na construção da identidade social das travestis. Além de um espaço profissional ou de sobrevivência, o ambiente da prostituição no Brasil institui importantes locais de sociabilidade e aprendizado para as travestis, fato que contrapõem a visão de que a causa da transformação de gênero e corporal realizada pelas travestis teria como objetivo principal a entrada no mercado sexual. É corrente a idéia de que as travestis iniciam o processo de transformação corporal para exercer a atividade de profissional do sexo, e os espaços de prostituição freqüentados são percebidos apenas como locais de trabalho. Porém, esses espaços são os principais lugares de convívio social, e troca de informações a respeito dos processos de construção do corpo e do gênero das travestis, e, por conseguinte de construção de sua identidade social (BENEDETTI, 2005). O mundo da prostituição é considerado para as travestis um canal de acesso para a transformação do corpo e um meio de convívio social. No caso das entrevistadas, além do ambiente de socialização proporcionado, a prostituição tem um significado importante relacionado à auto-estima, reconhecimento e respeito. Narraram sentir-se valorizadas, pois embora não sejam mais jovens, são procuradas por clientes e bem tratadas pelos mesmos, demonstrando que ainda são desejáveis e fazem bem o seu trabalho. Como é possível perceber nas falas a seguir: “Eu acho que até mesmo uma busca de afirmação, se ainda alguém para pra mim e me paga, isso é porque ainda eu com 55 anos, eu ainda não estou tão detonada, né?!” (Flor). 26 “Você conhece homens legais. Você é bem tratada também, tá entendendo?!” (Monique). Outro aspecto citado pelas entrevistadas é o fato de serem pagas para fazer algo que lhes proporciona prazer, descrito por ambas como um dos poucos pontos positivos do exercício da prostituição: “Ao sexo, ao sexo. Porque eu gosto do sexo remunerado. E em Sobradinho eles não remuneram. Sair com um rapazinho não remunera, sair com homem casado lá, não remunera. Então, eu gosto remunerado, porque além de eu me divertir, do prazer, eu ainda ganho o meu por fora, a parte” (Monique). “O único aspecto positivo na prostituição é que a profissional do sexo faz por prazer” (Flor). Não obstante, os seus relatos apontam também para outras características relacionadas à vida laboral no mercado do sexo, como o fato de a prostituição não ser reconhecida por lei como uma profissão, ser uma carreira curta e sofrida, que não oferece perspectiva de futuro; além de ser considerado um ofício perigoso de ser exercido devido à violência nas ruas e o contato constante com o mundo das drogas. Mesmo a prostituição sendo reconhecida como uma atividade laboral, um meio de obtenção de renda e autonomia financeira pelo Catálogo Brasileiro de Ocupações do Ministério do Trabalho, essa ocupação ainda não foi regulamentada como uma profissão e quem a exerce não tem nenhum direito trabalhista garantido, o que faz com que permaneçam trabalhando em circunstâncias precárias e inseguras. Conforme mencionado por Maia (2010) os profissionais do sexo são estigmatizados e sofrem preconceitos, são expostos diariamente a violência e falta de segurança por exercerem seu ofício nas ruas. De acordo com Piscitelli (2005) mulheres, travestis e homens se prostituem devido a questões de sobrevivência e para se discutir essa profissão envolta em uma aura de marginalização e violência, há que se pensar nessas pessoas de maneira mais humana e respeitosa. As falas a seguir expressam a visão das participantes acerca do ofício da prostituição: “É uma ilusão. Porque não é uma profissão organizada, não é uma profissão regularizada, você não tem (...) você num (...) exige muita coisa de você. E é muito curto o tempo de prostituição, e é muito difícil você ver uma pessoa fazer um pé de meia na prostituição. Sempre acaba numa maior idade, numa melhor idade, numa 3ª idade dependente do Estado, da igreja, das associações” (Flor). “Pra um dia eu ficar livre da droga de vez, eu vou ter que largar a prostituição. Porque a prostituição atrai a droga” (Monique). 27 Ao se abordar o tema prostituição faz-se necessário realizar algumas reflexões a respeito do contingente histórico relacionado a essa prática, seus limites imprecisos, e o fato de os sujeitos que a praticam não serem compreendidos em sua totalidade existencial (GARCIA; 2007). A prostituição está inserida em um contexto social e assume características específicas que derivam das peculiaridades desse campo. É importante examinar atentamente os parâmetros acerca das práticas que o termo define, pois ao se discutir aspectos relacionados à prostituição, geralmente é realizada alusão apenas ao escambo efetivado entre sexo e dinheiro, ignorando outros tipos de relação velada que acontece nesta troca, configurando uma permuta de favores envolvendo pessoas que não consideradas profissionais do sexo (PISCITELLI, 2005). A esse respeito às entrevistadas relataram terem começado a se prostituir mesmo antes de saber o significado do termo prostituição e de recorrer à atividade sexual como forma de obtenção de renda, posto que, na adolescência faziam sexo em troca de hormônios, roupas, calçados e até mesmo em troca em proteção em ambientes hostis de trabalho. “Quando criança, isso já começou acontecer na minha vida, sexo trocado por presentes, hormônio” (Flor). “Aí, eu sempre gostei, sempre gostei de coisa boa. Roupa boa, sapato bom. Esse cara com quem eu andava, ele que comprava as roupas, comprava sapato, calcinha, assim tudo era ele que comprava” (Monique). Na presente pesquisa, ambas participantes também desempenham atividades laborais em outras funções, além da prostituição, porém em caráter praticamente voluntário, contando apenas com ajuda de custo. Para Flor, a prioridade é o trabalho como ativista no movimento social, a prostituição tem a função de complementar sua renda. Trabalha como profissional do sexo apenas se não tiver nenhum compromisso com o movimento social. Já Monique trabalha como cuidadora de idosos e afirma que esse trabalho é somente para ajudar a senhora de quem cuida, sem compromisso. Ela esporadicamente recebe alguns trocados pelos favores prestados. A necessidade financeira contribui para que permaneçam atuando no mercado do sexo, visto que não são remuneradas pelas outras atividades que exercem. As aposentadorias, auxílio doença, e/ou benefícios recebidos por meio do Estado ajudam com as despesas mensais, mas não são suficientes para que possam se sustentar. Diante da falta de recursos financeiros, a prostituição oferece a oportunidade negada pelo mercado de trabalho formal. Segundo Peres (2004) é imprescindível refletirmos a respeito dos diversos contextos (cultural, histórico, e sócio-econômico) nos quais os sujeitos que desenvolvem esta atividade estão inseridos, como também as relações de poder instituídas e que determinam as práticas 28 de opressão e exclusão social, cultural, econômica, racial, sexual e de gênero. Assim como destaca esse autor, é importante ressaltar aqui que seria mais interessante se houvesse a possibilidade de se pensar no exercício da prostituição unicamente como livre arbítrio, ao invés de ser muitas vezes imposição de uma sociedade. A sociedade não oferece oportunidades igualitárias de inserção no mercado de trabalho a todos os seus cidadãos e cidadãs, nega direitos, acesso a bens e serviços a população travesti, que foge aos padrões heteronormativos de gênero e sexualidade, que tem sua cidadania usurpada. No caso específico das travestis, que sofrem cotidianamente com a estigmatização social em virtude da sua vivência de gênero, há uma maior dificuldade de inserção no mercado de trabalho. A falta de capacitação profissional é um agravante no caso das travestis que abandonam precocemente a escola em decorrência do preconceito que enfrentam em âmbito escolar. Com uma baixa escolarização, sem capacitação profissional e com poucas oportunidades de trabalho, em campos de atuação que nem sempre estão relacionados às suas habilidades, vocações, ou interesses pessoais, as travestis encontram na prostituição um meio de obtenção de renda viável. Ainda que tenham qualificação, as travestis em sua maioria acabam sendo forçadas a trabalhar como profissionais do sexo. Todavia, não cabe fazermos generalizações, pois nem toda travesti é profissional do sexo (JESUS, 2012). 4.2 UNIDADE DE SENTIDO 2: “ VIVÊNCIA DE GÊNERO: A CONSTRUÇÃO DO CORPO E DE UMA VIDA NOVA” Os indicadores centrais referentes a essa unidade são acerca de questões relacionadas à vivência de gênero, as modificações do corpo, o surgimento de uma nova vida associada à sua identificação de gênero. Essa unidade também está relacionada à percepção da forma como cada entrevistada se percebe a partir dessas mudanças, e ao significado que atribui a sua nova vida em meio a sua existência no contexto social no qual está inserido. Foram identificadas nas falas das entrevistadas aspectos relativos à forma como se percebem e se identificam, a influência do meio social nessa percepção, e o impacto das modificações corporais em suas vidas. Em relação à percepção do gênero com o qual se identificam é possível perceber que a forma como as travestis relacionam-se com seu gênero tem início ainda na infância ou na adolescência, e essa percepção é atravessada pelo meio social. Apesar de se identificarem e vivenciarem o gênero feminino desde tenra idade, as travestis lidam diariamente com o não reconhecimento de sua vivência de gênero por parte da 29 sociedade. A forma como a sociedade lida com a vivência de gênero das travestis, que foge aos padrões binários heteronormativos, terá um forte impacto em sua autopercepção. Em função do preconceito vivenciado pode haver uma introjeção desse não reconhecimento, o que consequentemente, faz com que haja uma negação em relação à forma como se identificam, e a sua própria vivência de gênero. Ou, há uma apropriação do gênero com o qual a travesti se identifica, e uma busca por autoafirmação, que tem início através da escolha do nome social, por mais que este não seja respeitado, e das modificações corporais. Seguem a seguir as falas das entrevistas acerca de como percebem sua vivência de gênero: “Não, apesar de que era chamada de (...) eu não tinha identidade de gênero feminina respeitada, mas eu sempre percebo desde que eu entendo por gente, um pouquinho (...) não era igual aos outros meninos, não tinha aqueles comportamentos tão tradicionais masculinos. Sempre fui uma pessoa assim (...) mais feminina” (Flor). “Aí, eu sou gay. Não sou mulher, nem sou homem. Eu sou um gay, tá entendendo?! Tipo transformista. Quando eu era mais novo eu podia me assegurar, aí eu sou um travesti” (Monique). Segundo Jesus (2012) reconhecer a si mesmo como uma pessoa pertencente ao universo da transgeneralidade e tomar a decisão de como e quando se apresentar a sociedade de acordo com a forma com a qual se identifica, é considerado a primeira prova de fogo a ser enfrentada. Essa autora ressalta que no Brasil ainda não há um consenso a respeito do termo transgênero, porém expõem uma visão partilhada com especialistas e militantes, que reconhecem em meio à diversidade de configurações de vivência de gênero, dois aspectos relacionados à dimensão transgênero: a identidade (no caso de travestis e transexuais); e a funcionalidade (representado por crossdressers, drag queens, drag kings e transformistas). Essa duas dimensões descrevem as distintas expressões dessa condição. Faz-se necessário explicitar o conceito de gênero utilizado aqui. Diferentemente do sexo que é biológico, o gênero está relacionado ao social. Extrapola o sexo biológico, não é definido pelos cromossomos ou conformação genital, e sim, pela auto-percepção e a forma como vive e se expressa em meio à sociedade. A vivência de um gênero divergente da sua anatomia humana, do sexo, é uma questão de identidade, e é o que ocorre com as pessoas conhecidas como travestis e transexuais, que coletivamente são tratadas como pertencendo ao mesmo grupo, denominado “transgênero” (JESUS, 2012). De acordo com Benedetti (2005), o reconhecimento do gênero feminino e as modificações corporais fazem parte do processo de construção da identidade travesti. O rito de passagem de garotos para travestis é experienciado por meio do corpo. O processo de 30 transformação corporal de ambas as entrevistadas teve início na adolescência, através do envolvimento com parceiros amorosos que tinham conhecimentos sobre a utilização de hormônios, e ocorreu concomitantemente ao começo no exercício na prostituição. Anteriormente, ao início da realização das modificações do corpo, as participantes afirmaram já possuir algumas características físicas femininas, como cabelos compridos e pernas torneadas. A transformação corporal se deu de forma gradual, com a utilização de hormônios, e, posteriormente, a aplicação de silicone industrial. Em relação aos processos de transformação corporal o hormônio é associado ao ganho de características femininas sutis, relativas ao aspecto da pele, o crescimento de cabelo, inibição do crescimento de pelos faciais, desenvolvimento dos mamilos, rosto mais femininos; e as modificações visíveis são relacionadas ao uso de silicone. De acordo com Lourenço (2009), os hormônios tem efeitos em longo prazo, podendo demorar meses ou anos para apresentar resultados visíveis, já o silicone industrial proporciona resultado imediato. O processo de transformação corporal pode ser percebido como um decurso natural, por dizer respeito à adequação do corpo ao gênero com o qual a travesti se identifica. A transformação é citada pelas entrevistadas como a concretização da construção de uma nova vida, uma nova identidade, que pode ser associada a aspectos positivos ou negativos, dependendo das circunstâncias nas quais se deu essa transformação, e o impacto desta na vida familiar e social. Acerca das transformações corporais, seguem as falas das entrevistadas: “Eu não percebi muito, eu vim perceber que tinha mudado mesmo, foi quando eu cheguei na minha cidade, as outras pessoas: ‘nossa, como você engordou”, “nossa como você está diferente”, “nossa, você esta uma mulher escrita”. “E aí, os comentários, comentários, eu: Meu Deus, eu não sou mais um menino daqui da roça.” Eu voltei, e agora eu (...) quando voltei para [nome da idade] eu já voltei com a consciência maior do que a mulher existia (risos), que ali já não tinha mais (...) eu tinha uma dúvidas assim (....)será que eu voltar um dia, parar de tomar hormônio. Mas, quando eu percebi de que a mudança tinha sido tão grande, eu vi que era um caminho sem retorno, aquilo ali era o que eu queria, e era a minha vida” (Flor). “Fiquei feminina, mesmo. Fiquei feminina. Já tinha as pernas grossas, tá entendendo?! E o semblante feminino. Até depois de velha ainda ficou um pouco em mim” (Monique). No caso das entrevistadas pode se perceber que a construção do corpo pode ser relacionada ao êxito na realização de um objetivo, a concretização de um corpo feminino que condiz com o gênero com o qual a travesti identifica-se, quando há aceitação por parte da família, ou pode estar relacionada à rejeição, desamparo, e fracasso quando a travesti que não conta com apoio de sua rede familiar e social. No caso de Flor que contou com o apoio da família, o nascimento de sua nova identidade estava associada ao êxito em ter conseguido 31 construir um corpo que expressava o gênero com o qual se identifica. E mesmo em uma situação de adversidade ao ser contaminada com o vírus HIV, Flor assumiu uma nova identidade que teve como marco a escolha de um nome relacionado ao carinho da família, e que, para ela significou uma nova oportunidade na vida, uma chance de recomeçar. Já o nascimento da nova identidade de Monique aconteceu após a saída de um emprego no qual gostava de trabalhar, tinha reconhecimento, proteção e apoio. A saída desse emprego tem um significado de trauma e fracasso para ela, que não contou com o apoio familiar no período em que decidiu vivenciar o gênero feminino. Até mesmo a escolha do nome se deu em uma situação aversiva, começou a ser chamada pelo nome feminino quando foi presa, sendo assim, sua nova vida está associada a uma série de situações e aspectos negativos. A respeito do impacto de suas transformações corporais no âmbito familiar, as participantes declararam: “O impacto foi a mudança da vestes, radical. Eu viajei para [nome da cidade] fiquei 6 meses, quando retornei, já tinha seios enormes, hábitos totalmente femininos, e quando eu cheguei em casa, minha mãe não me reconheceu mais. Foi uma transformação assim (...) em um ano de garoto para garota. Mas, eu nunca abandonei a minha família, nunca achei que deveria fugir da minha família por ser uma pessoa trans. Sempre voltei, sempre cobrei deles um compromisso, tá entendendo?! E por isso eu tenho uma boa (...) um bom relacionamento com a minha família, a minha família nunca me expulsou, nunca me abandonou. Pode ter sido difícil lidar comigo, mas nunca deixaram de tá presente no meu dia-a-dia” (Flor). “Ah, eles acharam muito ruim também. Me discriminou muito a minha família. Eu tive um tio que tinha um loteamento por um tempo, e eu fui morar nesse loteamento, ele teve a zona do loteamento, ele me pediu o barraco lá porque o loteamento tava crescendo e não podia ter gente no barraco, meu próprio tio” (Monique). A nova identidade construída através das transformações corporais e da incorporação de símbolos do universo feminino, como o nome, os cabelos (cor e tamanho), vestimentas, a forma de andar, o olhar, e o gestual são carregados de significados para as travestis, relacionados à sua subjetividade e a experiências vivenciais. O novo nascimento está relacionado ao impacto que a transformação do corpo e o surgimento de uma nova identidade tem em nível subjetivo e interrelacional na vida das travestis. Para Benedetti (2005) o processo de transformação ao qual as travestis se submetem é análogo ao nascimento. Entretanto, esse novo nascimento não diz respeito apenas a questões relacionadas ao corpo e/ou gênero, mas a toda a subjetividade do sujeito ante as essas transformações, e a forma como essa nova vida vai refletir socialmente. 32 4. 3 UNIDADE DE SENTIDO 3: SOCIEDADE, TRAVESTILIDADE E PRECONCEITO: O IMPACTO DA VIVÊNCIA DE GÊNERO FEMININA NA VIDA FAMILIAR, SOCIAL E PROFISSIONAL DAS TRAVESTIS Os indicadores centrais dessa unidade são relativos à percepção da sociedade acerca do fenômeno da travestilidade, à compreensão dessa vivência de gênero, e ao impacto dessa percepção social na vida das travestis. Essa unidade diz respeito aos processos de discriminação, preconceito, e exclusão social vivenciado pelas travestis, que se revelam através de violência simbólica e física, e tem como uma de suas conseqüências a evasão escolar e o mercado de trabalho restrito. Além de também abordar aspectos referentes ao apoio familiar, dos movimentos sociais e do surgimento de um novo cenário social para as travestis. De acordo com Santos e Santos (2011), a vida das travestis é assinalada pela exclusão, que tem início a partir do momento em que expressam comportamentos distintos do atribuído ao gênero correspondente ao seu sexo, posto que, a compreensão de gênero construída socialmente está relacionada à anatomia humana, ou seja, fêmea - gênero feminino e macho gênero masculino. As falas das entrevistadas muitas vezes remetem ao imenso sofrimento referente à forma como a sociedade lida com a diversidade de gênero, que rompe com os padrões binários heteronormativos. Os relatos das participantes expressam a dor, amargura, e a frustração advinda de seu cotidiano de exclusão social, permeados pela discriminação e violência. Devido às recorrentes situações de discriminação, enfrentamento social e exclusão há uma introjeção do preconceito vivenciado, que causa baixa autoestima, medo, sentimento de rejeição, ansiedade, depressão, desmotivação, trauma, isolamento social, perda de apetite, distúrbio do sono, sendo também relacionado ao uso de drogas como uma forma de enfrentamento. Segundo Bento (2011, p. 551): “As experiências de trânsito entre os gêneros demonstram que não somos predestinados a cumprir os desejos de nossas estruturas corpóreas. O sistema não consegue a unidade desejada. Há corpos que escapam ao processo de produção dos gêneros inteligíveis e, ao fazê-lo, se põem em risco porque desobedeceram às normas de gênero, ao mesmo tempo revelam as possibilidades de transformação dessas mesmas normas. Esse processo de fuga do cárcere dos corpos-sexuados é marcado por dores, conflitos e medos”. Para Peres (2004), ao decidirem viver de acordo com o gênero com o qual se identificam, homossexuais e travestis passam a ser vítimas de discriminação e começam a sofrer cobranças, agressões verbais, físicas e em algumas vezes, acabam sendo expulsos de 33 casa. As situações de discriminação e exclusão em âmbito familiar e social, aos poucos que vão minando a autoestima e a capacidade de ação dos sujeitos pertencentes ao universo da travestilidade, fazendo-os perder a confiança em si mesmos que, consequentemente, passam a ver de forma natural as agressões verbais, físicas, e morais sofridas. A família, os amigos e o reconhecimento dos pares tem um importante papel na construção da subjetividade e na situação de exclusão para pessoas que possuem a identidade de gênero travesti. Nas entrevistas surgiram importantes aspectos relativos ao apoio de familiares, amigos e pessoas pertencentes ao universo transgênero. Pôde se perceber que o suporte da rede social, ou a falta dele, contribui de forma direta na autopercepção da identidade de gênero, ou na negação desta, e na maneira como a travesti vai lidar com as situações de hostilidade e discriminação no âmbito de sua sociabilidade. A falta de apoio da rede social pode está relacionado, a sentimentos de rejeição, frustração, decepção, isolamento social e depressão. E o inverso também acontece, a presença desse apoio pode estar relacionada às formas de enfrentamento que a travesti vai construir para buscar o reconhecimento de sua cidadania e se autoafirmar socialmente. Simultaneamente a exclusão familiar também ocorre uma onda de exclusão em diversos âmbitos da vida desses sujeitos, como a exclusão escolar, social, econômica, cultural, religiosa, sexual, racial, configurando assim, o que Peres (2004) denomina de “rede de exclusão”. Essa rede de exclusão tem como característica principal a supressão de direitos, que impossibilita esses sujeitos de exercerem o direito constitucional de suas cidadanias. Os episódios de preconceito e discriminação também foram citados pelas participantes quando as mesmas referem-se aos seus processos de escolarização, a falta de oportunidade que tem no mercado de trabalho formal, e até em fatos corriqueiros do cotidiano, como a dificuldade em se alugar um imóvel para habitar, no fato de terem de pagar um valor diferenciado (mais caro) pela prestação de alguns serviços como ir ao cabeleireiro, pegar um táxi e na perseguição policial que sofrem ao exercerem a ocupação de profissional do sexo. Fato que é possível perceber por meio das seguintes falas: “Eu tenho certeza absoluta, nos somos cafetinadas. Quando você vai alugar um imóvel, o dono do imóvel já que alugar mais caro pra você, numa corrida de táxi, no cabeleireiro. Tudo, tudo pra eles (...) a sociedade nos explora muito, muito, muito. Tudo para nós é mais caro um pouquinho” (Flor). “É igual o que aconteceu quando vai alugar barraco na casa do povo “não, não aluga barraco pra essa bicha não, que ela vai encher isso aqui de homem”. Já aconteceu de eu pagar o aluguel e tudo e a mulher devolver, porque falaram pra mulher que eu ia encher a casa da mulher de homem, tá entendendo?!” (Monique). 34 Podemos perceber que a escola se concretiza como mais um lugar pertencente à rede de exclusão. As instituições escolares se depararam com problemas relacionados a questões de gênero e orientação sexual e acabam desempenhando um importante papel como fomentadoras de atitudes preconceituosas, pois ao se silenciarem diante de situações de violência, legitimam os padrões sociais de discriminação, agressão e exclusão (PERES, 2005). As falas a seguir retratam a influência do preconceito no processo de evasão escola: “Eu sai da escola com 13 anos, eu deixei de estudar. Eu pensei em fazer um colegiado no colégio interno agrícola, mas também não fui aceito por causa (...) da minha imagem, bastante feminina” (Flor). “É porque eles (colegas de escola) estavam mexendo comigo, me perturbando, ameaçando me bater. Aí, eu: “Ah, não vou mais, não”. Aí, eu não voltei mais pra escola, nem fechei minha matrícula. Até hoje minha matrícula não é fechada. Não fui pro quartel, nunca me alistei. A vida pra mim foi (...) sei lá, até hoje pra mim, é meio estranha. Eu fico perdido (...) no meio da multidão, eu me perco” (Monique). Segundo Santos e Santos (2011), o processo de estigmatização em âmbito escolar é atravessado por práticas discriminatórias e preconceituosas realizadas tanto por colegas, como por professores (as) e seu diretores (as). O descaso dos (as) professores (as) e diretores (as) diante das agressões simbólicas e físicas, tem como implicação direta no processo de evasão escolar, e consequentemente na situação de marginalização vivenciada pelas travestis. Além de aspectos concernentes ao âmbito familiar e escolar, a forma como outras camadas da sociedade percebem e lidam com a travestilidade também foi mencionada. A forma hostil como a sociedade percebe as travestis foi descrita através de relatos sobre as perseguições realizadas pela polícia. As participantes relataram que há um tempo atrás não tinham liberdade de ir e vir, eram perseguidas pelas polícia e estigmatizadas por serem retratadas como criminosas, devido ao envolvimento de algumas travestis em episódios de roubos e furtos, e uso de drogas. MacDowell (2008), em sua pesquisa etnográfica realizada sobre o espaço e a corporalidade das travestis de Brasília que se prostituem, afirma que a polícia que trabalha em áreas delimitadas como de prostituição da capital federal é conhecida por compor o cenário de violência que as travestis vivenciam. Esse autor relata que a polícia tem um papel ativo nas injúrias sofridas por travestis e profissionais do sexo, incluindo atos de violência física e sexual, extorsão, exploração sexual do trabalho junto às cafetinas, cafetões e formas de violência simbólicas. Peres (2004) afirma que as experiências de violência e exclusão vivenciadas nas relações das travestis com vizinhos, amigos ou até com desconhecidos, hora de forma cruel, 35 hora sutil ferem os corpos e as almas humanas; e essa violência produz intensas e variadas formas de opressão que evidenciam a desigualdade social, de gênero e sexual. Esse mesmo autor, em uma pesquisa realizada em 2005, narra que por meio do trabalho realizado com as travestis, os episódios de violência são mencionados nos relatos de suas vivências cotidianas, nas relações com instituições, pessoas, e até consigo mesmas. As histórias de vida das travestis são atravessadas por discursos de dor em decorrência dos rotineiros enfrentamentos que as mesmas experimentam na relação estabelecida com a sociedade como um todo (FIGUEIREDO, 2008). Em meio a esse contexto de preconceito, discriminação e violência, devido a sua vivência de gênero, a maioria das travestis vive em circunstâncias de exclusão e vulnerabilidade social. O preconceito com as identidades que rompem com os padrões binários de gênero tem um impacto direto na inserção das travestis no mercado de trabalho formal. As colaboradoras dessa pesquisa disseram nunca ter vislumbrado a possibilidade de conseguir um emprego no mercado de trabalho formal, devido ao preconceito com o gênero travestis, e por isso nunca participaram de processo seletivo ou cogitaram trabalhar com a carteira assinada, e ter os seus direitos trabalhistas assegurados por lei. Sobre a possibilidade de inserção no mercado de trabalho, elas declararam: “Não. Não, não, não. Porque a vida toda desde os 17 até os 40 na prostituição. Então, eu nunca tive, eu nunca parei pra pensar em está trabalhando em outra coisa sem ser a prostituição. Isso já tinha sido descartado da minha vida” (Flor). “Ah, nunca vai ter não. Porque a gente nunca vai ser respeitada nesse ponto. Eles vão achar que a gente vai fazer lá dentro prostituição. Não tem tranqüilidade, no serviço público não tem, só se ela for igual o do Senado, discreto. Porque o do senado é discreto. Ele durante o dia, ele usa um bom terno, tá entendendo?! O cabelo amarrado pra trás. Todo mundo sabe que ele é, mas é discreto” (Monique). Pode-se observar nas falas acima que em decorrência da dificuldade de aceitação social de seu gênero, as travestis não se percebem tendo o direito de acesso ao mercado de trabalho formal. Reproduzem uma idéia de que para trabalharem no mercado de trabalho formal, elas não podem vivenciar o gênero com o qual se identificam cotidianamente. Relatam que devido as suas características físicas femininas mais acentuadas, a forma como se vestem, juntamente com o estigma da prostituição, enfrentam uma maior dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, em comparação as transexuais. De acordo com as entrevistadas, por necessidade profissional as travestis vestem-se de uma forma mais exuberante, chegando muitas vezes ao exagero, pois, precisam expor seus corpos para se prostituir e quem se veste adequadamente tem uma maior oportunidade de conseguir emprego 36 fora da prostituição. Em pesquisa realizada por Bonfim (2009) acerca da identidade, cotidiano e religiosidade de transexuais e travestis, as transexuais relataram que as condições de vida vivenciadas pelas travestis legitimam manifestações de preconceito, devido ao fato de as travestis se prostituírem e não se darem ao respeito, vestindo-se de forma considerada vulgar, estendendo esse aspecto aos seus comportamentos e a maneira como se comunicam. As transexuais se percebem como pertencendo a um grupo diferenciado, que luta pelo respeito, inclusão em trabalho. A condição das transexuais, segundo esse autor, supostamente assinala uma inserção e inclusão social. Expressam o desejo de trabalhar como profissionais autônomas, diante do panorama trabalhista citado, que é extremamente limitado e oferece oportunidade de emprego apenas nas áreas da beleza, estética, ramo de alimentação e serviços domésticos. A falta de qualificação profissional também é um fator apontado por elas como dificultador em sua inserção no mercado de trabalho. O mercado de trabalho em seu panorama no geral é descrito como bom, que oferece oportunidades, contudo a falta de capacitação além do preconceito é um agravante. Uma das reivindicações das participantes dessa pesquisa é acerca da criação de políticas públicas que visem à capacitação das travestis, para que as mesmas sejam inseridas no mercado de trabalho e tenham a oportunidade de exercer outras profissões, além das supracitadas. Frisam ainda a importância de a capacitação profissional ser relacionada à vocação e áreas de interesse das travestis, para que se possa assim, haver uma ampliação do leque de opções no mercado laboral para essa população. Além de políticas voltadas para o âmbito trabalhista, foi citada a necessidade de criação de políticas públicas na área da saúde, para atender as demandas específicas da população travesti e também políticas voltadas para as travestis da 3ª idade, que não contam com o apoio familiar e não tem residência própria. Apesar do cenário de violência, sofrimento, e exclusão social no qual ainda vivem, de acordo com os relatos das entrevistadas, aos poucos a percepção da travestilidade na sociedade está mudando, porém a passos lentos. Os movimentos sociais foram citados como tendo um significado importante nessa mudança. Foi atribuída aos movimentos sociais e aos direitos humanos a visibilidade, e o respeito que a população LGBTTT, que aos poucos está adquirindo. Flor descreveu o movimento social e seu trabalho como ativista, como uma prioridade em sua vida. Monique relatou achar os movimentos sociais importantes para que as travestis possam ganhar visibilidade e respeito, apesar de não ser tão participativa no meio. Apesar da importância do movimento, ambas as participantes disseram haver uma divergência de opiniões acerca de temas importantes na agenda do movimento, como a legalização da prostituição e demandas relacionadas à esfera trabalhista, o que dificulta na reivindicação de 37 políticas e leis relativas a essas questões. As falas a seguir, expressam à opinião das participantes acerca dos movimentos sociais: “O significado do movimento é (...) ele pra mim é como se fosse mais do que um prazer, é uma obrigação. Em primeiro lugar nós, travestis e transexuais, se exigimos da sociedade um (...) uma política publica de trabalho, educação, saúde, e cidadania; então, a gente tem que regaçar as mangas e fazer a nossa parte, não ficarmos paradas esperando que as coisas aconteçam. Então, isso pra mim, é como se fosse assim... prioridade, fazer minha parte” (Flor). “Acho. Se eu for... eu vou... eu vou, no dia em que o [nome do psicólogo do Nudin] me chamou pra ir na formatura dele, eu fui, tá entendendo?! Eu fui com o maior prazer. Ele me chamou pra ir na convenção ali acima do Hospital de Base, foi do HRAN, eu fui. Eu vou nas coisas que ele me chama. Só quando dá mesmo, agora quando não dá, eu... se tiver cansado...porque de que adianta eu ir pra um lugar cansado, né?! Aí, é ruim demais. Mas, eu participo. Se me chamar, eu vou, se eu tiver um tempinho e vou” (Monique). Nos anos 1990 houve um notório desenvolvimento e fortalecimento do movimento LGBTT, batalhando pela criação de políticas públicas que reconheçam os direitos da população em questão no mundo inteiro, e no Brasil não foi diferente (NETO; AGNOLETI, 2008). Para esses autores, mostra-se extremamente relevante a criação de políticas públicas que favoreçam o empoderamento, reconhecendo as diferenças e promovendo a igualdade dessa população. Benedetti (2008) descreve que o movimento social das travestis tem uma história própria impulsionada após a epidemia de AIDS, e relata a existência de associações de travestis atuantes em todos os estados do país, mesmo em cidades do interior. Entre as bandeiras desse grupo na luta pela garantias de seus direitos está a questão do trabalho sexual, porém essa questão é motivo de divergência interna no movimento, não há uma posição política clara e consolidada em relação a essa questão, e muitas vezes esse assunto é motivo de tensão e ambigüidades nos encontros realizados. No Encontro Nacional de Travestis e Transexuais (ENTLAIDS) principal evento de caráter político do movimento social das travestis, o trabalho sexual e a prostituição fazem parte da pauta, juntamente com outras reivindicações como: o acesso ao mercado de trabalho formal, acesso e especificidades a serviços de saúde, educação, além de questões relacionadas à violência, exploração, migração e tráfico de pessoas. Apesar das divergências internas existentes no Encontro Nacional de Travestis e Transexuais (ENTLAIDS) e no movimento LGBTTT, acerca da regulamentação da prostituição como profissão, assim como Neto; Agnoleti (2008) cabe aqui salientar a importância dos movimentos sociais no Brasil, que funcionam destacadamente como mola propulsora na mobilização e articulação da população, na luta pela conquista de direitos, 38 democratização de espaços públicos, melhorias de condições de vida, valorização dos direitos humanos, denuncia de injustiças sociais e conduta opressora. O movimento social aponta então, como uma importante possibilidade de se conquistar o poder de reivindicação de direitos da população travesti, busca de visibilidade social e de uma vida com maior dignidade e respeito. 5.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente trabalho teve como finalidade abordar aspectos relativos à vida profissional das travestis, suas opiniões a respeito das dificuldades enfrentadas em sua inserção no mercado de trabalho formal, campo de trabalho atual e expectativas a respeito do panorama futuro no mercado de trabalho para os sujeitos pertencentes ao universo da travestilidade. Diante de tudo o que foi abordado nessa pesquisa, faz se necessário ressaltar a importância de se contextualizar e refletir acerca da situação vivenciada pelas pessoas que fazem parte do universo da travestilidade na sociedade brasileira contemporânea, que ainda exclui e marginaliza os sujeitos que rompem com os padrões heteronormativos de gênero, vivência afetiva e sexualidade. Em meio à atual conjuntura sócio-econômica, política, e cultural a maioria da população travesti em nossa sociedade vive em condições de pobreza e exclusão social, sem acesso a educação, saúde, qualificação profissional, oportunidade de inclusão no mercado de trabalho formal, e políticas públicas que contemplem suas demandas específicas. A vida das travestis é marcada por dor e sofrimento devido à rejeição social. A família e a escola são apontadas como os primeiros lugares onde essa rejeição é experimentada. Jovens travestis são expulsas do seio familiar e abandonam a escola precocemente, o que tem repercussão direta em suas vidas profissionais. Nesse estudo, as entrevistadas relataram ter encontrado na prostituição o único caminho viável para obtenção e/ou complementação de renda, sendo motivadas a desempenhar essa atividade devido à necessidade financeira. A prostituição, relatada como uma forma de subsistência aparece também como um meio de sociabilidade e uma possibilidade de desempenhar um ofício que seja aprazível, dentro de um cenário restrito no mercado de trabalho; além de ser um meio de conseguir dinheiro e informação para se adquirir hormônio e silicone a fim de realizar o processo de transformação corporal. 39 O fato de as travestis não terem acesso a inserção no mercado de trabalho formal é resultado de uma contingência social excludente, devido a sua vivência de gênero. A escola e o estado, muitas vezes, são coniventes com essa situação de marginalização, pois esta tem início na escola, que supostamente, deveria ser um ambiente no qual se aprende o respeito e a valorização a diversidade de gênero, sexual, étnica e religiosa. Contudo, o que acontece em âmbito escolar é justamente o contrário, a escola acaba tornando-se o lugar no qual são perpetrados atos discriminatórios e preconceituosos; episódios de violência psicológica, moral, e física, legitimados pela falta de preparo de professores e diretores, que se silenciam e ficam inertes diante de tais fatos. A escola é uma das primeiras esferas sociais a legitimar atos homofóbicos, lesbofóbicos e transfóbicos, tornando-se mais um local de exclusão social, o que provoca a evasão escolar das travestis que abandonam a escola precocemente em função da intolerância e hostilidade em âmbito escolar. O maior obstáculo apontado pelas participantes em sua inserção no mercado de trabalho é a dificuldade de aceitação social. Essa não aceitação pode ser introjetada pelas travestis, e ter como conseqüência um rebaixamento da autoestima, a perda da autoconfiança em suas capacidades, provocando sentimentos de impotência diante de episódios discriminatórios e de violência, e de apatia perante a reivindicação de seus direitos, e no exercício de sua cidadania. Junta-se a isso também, agravantes como a baixa escolaridade e a falta de qualificação profissional, e o panorama que se apresenta é um cenário restrito no mercado de trabalho. Geralmente as poucas vagas ofertadas às travestis são nas áreas da beleza, estética, alimentação, limpeza e serviços domésticos, que oferecem baixa remuneração, e precárias condições de trabalho. Nem sempre essas áreas condizem com suas vocações ou áreas de interesses, o que pode estar relacionado ao fato de as participantes mencionarem o interesse de, no futuro, ter uma profissão possam que exercer como trabalhadoras autônomas, em um negócio próprio. Em meio às circunstâncias que vivenciam em suas vidas laborais atualmente, e em relação à inserção no mercado de trabalho no futuro, é de suma importância se pensar em estratégias que favoreçam a inclusão das travestis no cenário trabalhista formal, como a criação de cursos para capacitação profissional em suas áreas de interesse, valorizando suas habilidades e vocações. Além da necessidade de cursos de capacitação, o apoio familiar e os movimentos sociais despontam como tendo uma função essencial no desenvolvimento de mecanismos de enfrentamento e na construção da cidadania das travestis diante das situações de discriminação, violência e exclusão social. 40 A articulação entre as famílias e os movimentos sociais pode propiciar o fortalecimento desses sujeitos, e favorecer a criação de políticas públicas que visem atender as especificidades da população travesti, que vive em situação de vulnerabilidade social. A criação de políticas públicas é imprescindível para se garantir a visibilidade social e o empoderamento dessa população, para que esta possa ter dignidade, respeito e uma qualidade de vida. A escola também tem um papel fundamental na construção da cidadania desses sujeitos, posto que, a educação é um dos direitos básicos dos cidadãos e cidadãs. Por isso, faz se extremamente necessário se repensar os modelos binários heteronormativos de gênero, vivência afetiva e sexualidade reproduzidos e reforçados em âmbito escolar, com o intuito de se valorizar a diversidade humana em todas as suas peculiaridades, evitando-se assim, a evasão escolar de travestis. Através do trabalho realizado, notou-se uma grande carência de estudos acadêmicos relacionados à inserção das travestis no mercado de trabalho, o que evidencia uma necessidade de se desenvolver mais trabalhos relativos a essa temática, para que se possa favorecer um maior aprofundamento dos profissionais das áreas de ciências humanas nesse campo de conhecimento. A formação dos (as) profissionais, especialmente de Psicologia, deve contemplar estudos relacionados ao universo da travestilidade, propiciando a estes (as) uma maior familiaridade com essa temática. A psicologia tem um importante papel nesse contexto, e pode contribuir, evitando a patologização destes sujeitos, respeitando a diversidade e a vivência de gênero, afetiva e sexual, garantindo assim, o cumprimento da resolução Nº 001/99 do Conselho Federal de Psicologia. 41 REFERÊNCIAS AMARAL, Marília dos Santos; MEDEIROS, Marcos Pippi de. De Madame à Satã: As subjetividades retratadas na construção do corpo travesti. Universidade Federal de Santa Catarina, 2010. Disponível em: < http://www.fazendogenero.ufsc.br/9/resources/>. Último acesso em: <08 de Agosto de 2011>. ARAUJO, Romilda Ramos de; SACHUK, Maria Iolanda. Os sentidos do trabalho e suas implicações na formação dos indivíduos inseridos nas organizações contemporâneas. Revista de Gestão USP, v. 14, n. 1, p. 53-66, janeiro/março 2007. São Paulo, 2007. Acesso em 13 de março de 2012. Disponível em http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/rege/v14n1/ v14n1a5.pdf BENEDETTI, Marcos. Toda Feita: o corpo e o gênero das travestis. Rio de Janeiro: Garamond, 2005. BENEDETTI, Marcos (2008). Travestis, prostituição, política e direitos: uma nota etnográfica. Disponível em: < http://www.ciudadaniasx.org/content/view/765/157>. Acesso em: 08 de março de 2012. BENTO, Berenice. Na escola se aprende que a diferença faz a diferença. Estudos Feministas, Florianópolis 19(2): 336, maio-agosto/2011. Acesso em: 17 de Abril de 2012. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/ref/v19n2/v19n2a16.pdf>. BONFIM, Patrick Thiago dos Santos. Identidade, Cotidiano, e Religiosidade de Travestis e Transexuais. Pró-Reitoria de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia. Mestrado. Universidade Católica de Brasília. Brasília, 2009. Acesso em 08 de Março de 2012. Disponível em: <http://bdtd.ucb.br/tede/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1138> BORBA, Rodrigo. Intertext (sex) ualidade: A construção discursiva de identidades na prevenção de DST/AIDS entre travestis. Universidade Federal Rio de Janeiro, 2010. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/tla/v49n1/03.pdf >. Último acesso em: <02 de Outubro de 2011>. BRASIL, Ministério da saúde. Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, e Transexuais. Brasília, 2008. Disponível em:< portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/texto_da_politica_lgbt_sgep.pdf>. Último acesso em: <13 de Outubro de 2011>. BRASIL, Ministério da saúde. Politica Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, travestis, e transexuais. Brasília, 2010. Disponível 42 em:http://www.abglt.org.br/docs/Politica Nacional SaudeIntegral LGBT.pdf. Último acesso em: < 13 de Outubro de 2011>. BRASIL, Ministério da saúde. A AIDS no Brasil. Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais. Brasília, 2011. Disponível em: < http://www.aids.gov.br/pagina/aids-no-brasil>. Último acesso em 04 de junho de 2012. BRASIL, Ministério do Trabalho. Catálogo Brasileiro de Ocupações. Acesso em 15 de Maio, 2012. Disponível em < http://www.mte.gov.br. >. BRUNS, Maria Alves de Toledo; HOLANDA, Adriano Furtado. Fenomenologia: Reflexões e Perspectivas. Campinas: Editora Alínea, 2003. Psicologia e CARDOSO, Luiz Fernando. Inversões do Papel de Gênero: “Drag Queens”, Travestismo e Transexualismo. Universidade do Estado de Santa Catarina. Psicologia, Ciencia e Reflexão, 2005. Disponível em: < www.scielo.br/pdf/prc/v18n3>. Último acesso em: <10 de Outubro de 2011>. FIGUEIREDO, Adriana. “Se pudesse ressurgir eu viria como o vento”. Das Narrativas da dor: Um estudo sobre corporalidade e emoções na experiência da travestilidade. Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder. Florianópolis, de 25 a 28 de agosto de 2008. Disponível em: <www.fazendogenero.ufsc.br.>. Último acesso em: <10 de Outubro de 2011>. FORGHIERI, Yolanda Cintrão. Psicologia Fenomenológica: Fundamentos, Métodos e Pesquisas. São Paulo: Pioneira, 1997. GARCIA, Marcos Roberto Vieira. Dragões: Gênero, Corpo, Trabalho e Violência na Formação da Identidade Entre Travestis de Baixa Renda. Departamento de Psicologia Social e do Trabalho. Instituto de Psicologia. Universidade de São Paulo. São Paulo, 2007. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-04032010115652/pt-br.php>. GOLDENBERG, M. A arte de pesquisar: como fazer uma pesquisa qualitativa em ciências sociais. Rio de Janeiro: Record, 2007. GUIMARÃES, Kátia; MERCHÁN-HAMANN, Edgar. Comercializando Fantasias: a representação social da prostituição, dilemas da profissão e construção da cidadania. Rev. Estudos Feministas. Florianópolis, 2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ref/v13n3/a04v13n3.pdf>. Último acesso em: 13 de novembro de 2011. 43 JESUS, Jaqueline Gomes de. Orientações sobre Identidade de Gênero: Conceito e Termos. Guia técnico sobre pessoas transexuais, travestis e demais transgêneros, para formadores de opinião. Publicação online, sem tiragem impressa. Brasília, Abril de 2012. Acesso em 25 de Abril de 2012. Disponível em: <http://issuu.com/jaquelinejesus/docs/orienta__es_popula__o_trans> LETELIER, Maria Eugenia. ESCOLARIDADE E INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO. Caderno de Pesquisa, nº 107, p. 133-148, julho 1999. São Paulo, 1999. Último acesso em 12 de março de 2012. Disponível em: <http://.scielo.br/pdf/cp/n107a05.pdf>. LIMA, Aline Soares. Representações e construção de valores hegemônicos: olhares sobre as travestilidades no cotidiano social. Programa de Pós- Graduação em Cultura Visual da Faculdade de Artes Visuais, da Universidade Federal de Góias, 2009. Disponível em: <http://www.mostreseuvalor.org.br >. Último acesso em: <10 de Outubro de 2011>. LOURENÇO, Amanda Nogueira. Travesti: A Construção do Corpo Feminino Perfeito e Suas Implicações Para a Saúde. Dissertação de Mestrado do Curso Saúde Coletiva, Universidade Federal de Fortaleza- UNIFOR. Fortaleza, Ceará, 2009. Disponível em: <http://www.unifor.br/tede//tde_busca/arquivo.php?codArquivo=838651>. Último acesso em: <10 de Outubro de 2011>. MACDOWELL, Pedro de L. O lugar da abjeção: Espaço e corporalidade na experiência de travestis que se prostituem. Programa de Pós Graduação em Antropologia Social. Mestrado. Universidade de Brasília, 2008. Acesso em: 12 de maio de 2012. Disponível em: <http://www.abep.nepo.unicamp.br/encontro2008/docsPDF/ABEP2008_1467.pdf> MAIA, Alessandra Daniely Costa. Cada dia na batalha e a batalha de cada dia: Psicodinâmica do trabalho e sofrimento psíquico na trajetória de travestis e mulheres transexuais que se prostituem. Fazendo Gênero 9- Diásporas, Diversidades, Deslocamentos 23 a 26 de agosto de 2010. Disponível em http://www.fazendogenero.ufsc.br/9/resources/anais/1278297709_ARQUIVO_Cadadianabata lhaeabatalhadecadadia.pdf>. Último acesso em: 13 de novembro de 2011. NETO, José Batista de Mello; AGNOLETI, Michelle Barbosa. Cidadania ativa: elegibilidade e participação política das travestis. Fazendo Gênero 8 – Corpo, Violência e Poder. Florianópolis, 2008. Acesso em: 13 de março de 2012. Disponível em: < http://www.fazendogenero.ufsc.br/8/sts/ST61/Neto-Agnoleti_61.pdf>. PELUCIO, Larissa. Na noite nem todos os gatos são pardos. Em: Cadernos Pagu. Nº 25, julho-dezembro 2005. p. 217-48. Acesso em 20 de Outubro de 2011. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/cpa/n25/26528.pdf>. PERES, William Siqueira. Subjetividade das travestis brasileiras: da vulnerabilidade da estigmatização à construção da cidadania. Tese de Doutorado em Medicina Social. 44 Programa de Pós Graduação em Saúde Coletiva. Universidade do Estadual do Rio de Janeiro, 2005. Acesso em: 16 de março de 2012. Disponível em: <www.gete.net.br>. PERES, William Siqueira. Violência, Exclusão e Sofrimento. Anais Homossexualidade: Produção Cultural, Cidadania e Saúde. Rio de Janeiro, 2004. Disponível em: < http://www.abiaids.org.br/_img/media/anais>. Último acesso em: 20 de Outubro de 2011. PISCITELLI, Adriana. Apresentação: gênero no mercado do sexo. Cad. Pagu n. 25. Campinas, July/Dec. 2005. Acesso em 15 de Abril 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-83332005000200001&script=sci_arttext> PORTELA, Josania Lima. RELAÇÃO: EDUCAÇÃO, TRABALHO E CIDADANIA. Universidade Federal do Ceará. Ceará, 2009. Acesso em: 12 de março de 2012. Disponível em: <http://168.96.200.17/ar/libros/anped/0918T.PDF>. RIBEIRO, Aldry Sandro Monteiro. Os homossexuais em busca de visibilidade social. Instituto de Psicologia. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Universidade de Brasília. Brasília, 2005. RODRIGUES, Manoela Carpenedo; NARDI, Henrique Caetano. Diversidade Sexual e Trabalho: Reinvenções do Dispositivo. Acesso em 20 de Outubro de 2011. Disponível em: < http://www.cchla.ufrn.br/bagoas/v02n03art07_rodriguesnardi.pdf>. SANTOS, Rodrigo Marcio Santana dos; SANTOS, Ailton da Silva. Memórias de trajetórias escolares de travestis. Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISNN 2179-9636, Ano 1, n. 3. Setembro de 2011. Acesso em: 15 de Abril de 2012. Disponível em: < http://www.faceq.edu.br/pdf/MemoriasdeTrajetoriasEscolaresd eTravestisRodrigoMarcioSantanadosSantosAiltondaSilvaSantosREGSRevistadaFaculdadeEc adeQueirosFACEQ.pdf>. SANTOS, Jocélio Teles dos. “Incorrigíveis, afeminados, desenfreiados”: Indumentária e travestismo na Bahia do século XIX. Departamento de Antropologia, Universidade Federal da Bahia. Rev. Antropol. vol.40 n.2. São Paulo, 1997. Disponível em: <http://www.scielo.br/ra/v40n2/3234.pdf >.Último acesso em: <08 de Agosto de 2011>. SEGNINI, Liliana Rolfsen Petrilli. Educação e Trabalho: Uma relação tão necessária quanto insuficiente. Revista São Paulo em Perspectiva, vol. 14, nº 2. São Paulo, 2000. Acesso em: 13 de março de 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/spp/v14n2/9791.pdf>. SPIZZIRRRI, Giancarlo; AZEVEDO, Roberta Noronha; ABDO, Carmita Helena Najjar. Travestismo de duplo papel ou bivalente: considerações gerais. Programa de Estudos em 45 Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 2011. Disponível em: <http://files.bvs.br/upload/S/1413-9979/2011/v16n1/a1845.pdf>. Último acesso em: <29 de setembro de 2011>. WYLLYS, Jean. Jean Wyllys (PSOL/RJ) e sociedade civil discutem PL que visa regulamentar a prostituição e fortalecer a cidadania de profissionais da área, 2012. Acesso em: 25/04/2012. Disponível em: <http://jeanwyllys.com.br/wp/jean-wyllys-psolrj-esociedade-civil-discutem-pl-que-visa-regulamentar-a-prostituicao-e-fortalecer-a-cidadania-deprofissionais-da-area>. 46 ANEXOS 47 ANEXO A ROTEIRO DE ENTREVISTA DATA: ____ / _____/ 2012. HORA DE INÍCIO: __________ HORA DE TÉRMINO DA ENTREVISTA:___________ IDADE: ______ ESCOLARIDADE: ___________________________ PROFISSÃO: ______________________________________________ RESIDÊNCIA: _____________________________________________ RENDA FAMILIAR:________________ FILHOS:_________________ RELIGIÃO: ________________________________________________ Relação com o trabalho atual Relação com o futuro 1 - Conte-me um sobre o seu trabalho atual. - Tempo de trabalho? - Significado da profissão - Motivações para a profissão? - Como se deu essa escolha? - Conciliação da vida profissional com a pessoal? - Desafios no dia-a-dia? - Como enfrenta esses desafios? -Quais facilidades tem sua profissão? - Conte-me a sua rotina de um dia: dia e noite; local de moradia; com quem mora. - Rede social em ambiente de trabalho? - Percepção do mercado de trabalho? 2 – Que planos/expectativas você tem para o futuro? - Pessoal - Profissional - Social 48 Relação com o passado Relação com a cidadania 3 – Conte-me como foi o processo de transformação corporal. - Início - Como surgiu essa nova identidade? (nome, características físicas – cabelo, formas corporais, vestimentas, etc) - Como você relaciona essa nova identidade com a antiga? - Impacto na vida familiar e social? - Impacto na vida escolar/profissional? - Já participou de processo seletivo em alguma empresa? Se sim, se candidatou para qual cargo? Como foi essa experiência? - Experiências profissionais anteriores a atual? - Quando pequena você queria trabalhar com o que? Isso mudou com a transformação da identidade? Explique. 4 – Como você percebe a travestilidade na sociedade atual? - Consequências pessoais, sociais e profissionais? - Educação, saúde, políticas públicas. - Direitos, deveres e cidadania. - Reconhecimento dos pares? - Participação em grupo ou movimento social? Em caso de preconceito e discriminação Exemplos - Como você lida com isso? -Pessoas e grupos que estão envolvidos nesses episódios? 49 ANEXO B TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Você está sendo convidada a participar da pesquisa intitulada: “Da marginalização à inserção no mercado de trabalho formal: A vida profissional das travestis no Distrito Federal”. A pesquisa cujo objetivo é examinar as dificuldades enfrentadas, e as expectativas que as travestis no DF têm em relação à inserção no mercado de trabalho será realizada pela estudante da Graduação em Psicologia Mariana da Silva e seu orientador Prof. MSc. Alexandre Cavalcanti Galvão; Esclarecemos que: a) Este estudo surgiu a partir da necessidade de se desenvolver uma pesquisa relacionada à inserção das travestis no mercado de trabalho, devido há escassez de pesquisas relacionadas ao tema. Essa pesquisa busca conhecer de forma mais aprofundada aspectos relacionados à vida profissional da população travesti no Distrito Federal, as dificuldades enfrentadas pelos sujeitos que fazem parte do universo das travestilidades em sua inserção no mercado de trabalho, para que, dessa forma possamos contribuir para o desenvolvimento científico, social e político acerca do tema. b) Sua participação é inteiramente voluntária e não obrigatória. A qualquer momento, você poderá desistir de participar e retirar seu consentimento. Sua recusa não trará nenhum prejuízo em sua relação com os pesquisadores ou com a instituição, e não acarretará ônus algum. c) Você não receberá nenhuma gratificação ou reembolso, e não arcará com nenhum custo decorrente da participação na entrevista. d) Trata-se de uma entrevista de aproximadamente 1 hora de duração, que com sua permissão terá o áudio gravado. Os dados obtidos através da entrevista serão utilizados para fins acadêmicos e seu nome será mantido sob sigilo. e) A referência ao seu nome será codificada para evitar qualquer identificação e serão divulgados apenas os dados diretamente relacionados com os objetivos da pesquisa. f) Caso ocorra algum desconforto ou experiência emocional desagradável em decorrência do conteúdo investigado na pesquisa, você poderá solicitar o apoio 50 psicológico gratuito a qualquer momento da entrevista, ou posteriormente. O acolhimento psicológico será realizado no Centro de Formação em Psicologia Aplicada (CEFPA) da Universidade Católica de Brasília, pela própria pesquisadora, sob a supervisão do seu professor orientador. Eu,_______________________________________Identidade_________________, declaro que fui informada e devidamente esclarecida sobre a participação nesta pesquisa, e consinto voluntariamente com esta participação. ____________________________________ Assinatura do declarante Brasília______de______________ de 2012. Você poderá esclarecer eventuais dúvidas sobre a pesquisa com a estudante graduanda Mariana da Silva pelo telefone: 9922-0017 ou pelo e-mail [email protected], e seu professor orientador Alexandre Cavalcanti Galvão, através do e-mail: [email protected] Declaração do pesquisador Declaro, para fins da realização da pesquisa, que cumprirei todas as exigências acima, na qual obtive de forma apropriada e voluntária, o consentimento livre e esclarecido do declarante acima, qualificado para a realização desta pesquisa. ____________________________________ Assinatura do pesquisador responsável Brasília______de______________ de 2012.