Capítulo I
NEM PROSTITUTA NEM ENDEMONINHADA
À
força de lendas, tradições e invencionices, Maria Madalena
converteu-se no protótipo da pecadora arrependida. Nem
sequer entre os cristãos se manteve outra idéia. Mas Maria
Madalena, a mulher mais citada nos Evangelhos, não foi uma prostituta nem esteve possuída por demônios impuros. É assim, no entanto, que foi apresentada essa personagem desde os primórdios do
cristianismo e como o testemunham milhares de pinturas sobre ela:
como prostituta arrependida que se retirou para o deserto a fim de se
penitenciar por seus luxuriosos pecados. Assim aparece durante séculos, descrita em infinitos sermões nas igrejas, em exercícios espirituais e em numerosos escritos católicos. Chegou-se, inclusive, a considerar Madalena como a padroeira das prostitutas.
Na atualidade e após o Concílio Vaticano II, a Igreja já não considera
Madalena como uma prostituta. Esta modificação se produziu quase
em silêncio, como é habitual nas transformações eclesiásticas que podem causar alguma alteração nas crenças dos fiéis. Nos ofícios de sua
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festa litúrgica (22 de julho) Maria Madalena já não aparece como a
“penitente”, o que faria supor que tinha sido efetivamente “pecadora”.
Na nova liturgia, em vez da passagem de Lc 7, 36-50 em que se
descreve a unção da prostituta, lê-se agora o Evangelho de São João
(20, 1-2 e 11-18), no qual se narra que Maria Madalena foi a primeira a se dirigir ao sepulcro após a crucificação e a primeira a anunciar aos apóstolos que o Mestre estava vivo. Para a Igreja, em sua
nova liturgia, Madalena já não é uma ex-prostituta convertida, mas
sim uma mulher santa que foi testemunha e apóstolo na primeira
comunidade cristã.
A Igreja rendeu-se, pois, diante da evidência dos modernos estudos bíblicos e teológicos, e liberou Madalena da difamação de pecadora arrependida. Quem foi, então, Maria Madalena? Esse é o problema. Reconhece-se hoje o que ela não foi, porém ainda não se tem
a coragem de admitir qual foi seu verdadeiro papel na fundação do
cristianismo e, menos ainda, em suas relações, inclusive sentimentais, com o profeta de Nazaré, tão bem documentadas nos Evangelhos canônicos e não só nos apócrifos.
Os Textos da Confusão
Na verdade, o equívoco sobre Maria Madalena como prostituta
que acabou se arrependendo de sua vida de pecado, graças a Jesus,
nasceu no princípio da interpretação errônea do citado texto de Lucas
(Lc 7, 36-50), no qual se narra que Jesus foi convidado a comer na
casa de um fariseu. Sabendo que o Mestre estava no lugar, “uma
mulher pecadora pública”, quer dizer, uma prostituta, ali se apresentou com um frasco de alabastro cheio de perfume, “e pondo-se a
seus pés, começou a chorar e com as lágrimas lhe molhava os pés e
com a cabeleira os secava; beijava-lhe os pés e os ungia com perfume”.
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O fariseu, escandalizado, pensa que, se Jesus fosse um verdadeiro
profeta, saberia que tipo de mulher o estava tocando, pois era conhecida publicamente como pecadora. O fariseu pensava: “Se este fosse
o profeta, saberia quem é e a que classe pertence esta mulher...”
Jesus, nessa bela cena, de uma grande riqueza literária, adivinha os
pensamentos do fariseu e, após reprovar-lhe por não ter cumprido
com as normas elementares judaicas usadas para receber um hóspede e amigo — oferecer-lhe água para lavar os pés, dar-lhe o beijo de
boas-vindas e ungir-lhe a cabeça com azeite —, o faz ver que aquela
mulher é que o tinha feito e que, portanto, ela possuía maior capacidade de amar que ele. À mulher, Jesus disse que seus pecados lhe
estariam perdoados e que podia ir em paz.
O que ocorre é que nem nessa passagem nem em nenhum outro
lugar se disse jamais que aquela prostituta que se introduziu na casa
do fariseu Simão, fascinada pela figura e pela doutrina do profeta
que a todos perdoava, fosse ou se chamasse Maria Madalena.
De Madalena fala pouco depois o mesmo evangelista Lucas (8, 14), quando afirma que Jesus, enquanto percorria povoados e aldeias,
“era acompanhado dos 12 apóstolos e de algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e enfermidades, entre elas
Maria, chamada Madalena, de quem haviam saído sete demônios”.
Também é citada Joana, esposa de um funcionário judeu, e uma
certa Suzana. Pela continuidade das passagens, ou por outras razões,
se identificou a prostituta da casa do fariseu com Maria Madalena,
da qual Jesus tinha arrancado sete demônios, ainda que Lucas não
assinale em nenhum momento que a prostituta se chamasse assim.
Por último, há que acrescentar outra passagem, que conduz a identificar Madalena com a mulher de má vida que tinha banhado os pés
do Mestre com suas lágrimas, ungindo-os com perfume. É o texto de
João 12, 1-8, no qual se narra que seis dias antes da Páscoa e da Paixão
de Jesus, ao estar ceando em casa de Lázaro, seu amigo — a quem havia
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ressuscitado de entre os mortos —, sua irmã Maria, “tomando uma
libra de perfume de nardo puro, muito caro, ungiu os pés de Jesus e os
secou com seus cabelos. E a casa encheu-se do olor do perfume”.
Judas Iscariotes, o apóstolo que entregaria o Mestre dias depois
por trinta moedas de prata, se irrita e comenta que melhor teria sido
vender aquele perfume, que custava trezentos denários,* quer dizer,
uma pequena fortuna, para dá-los aos pobres. Jesus, enigmático como
de costume, responde a Judas: “Deixa-a; que o guarde para o dia de
meu sepultamento. Pois sempre tereis pobres convosco, enquanto
que a mim nem sempre me tereis.”
Assim, os Evangelhos advertem que Jesus sabia que o andavam
buscando e que conhecia seu destino final; por essa razão alude aos
perfumes que se utilizavam para honrar os corpos dos falecidos antes
de enterrá-los.
Três Marias
Em resumo, os leitores dos Evangelhos conhecem uma pecadora
pública em casa do fariseu: Maria Madalena, uma das mulheres piedosas que seguiam Jesus; e Maria, a irmã de Lázaro. Como se chegou
a confundir as três mulheres? Por caminhos tortuosos, em muitos
casos interessados em identificar Madalena com uma mulher de má
fama. Se a Maria irmã de Lázaro fosse, com efeito, a mesma que
ungiu também os pés de Jesus em casa do fariseu, isto significaria
que a irmã de Lázaro era prostituta, algo que vai contra toda evidência bíblica. E a evidência bíblica fala de três mulheres: a prostituta
sem nome, a piedosa-endemoninhada — chamada explicitamente
* Denário, que se refere ao número dez, é uma moeda romana de ouro, equivalente a
cem sestércios. Sestércio é outra moeda antiga, da época. (N. da T.)
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Maria, a Madalena — e a irmã de Lázaro, Maria. Não se pode ter
certeza de que qualquer dessas três fosse a que visitou o túmulo de
Jesus, ainda que este tenha observado que a irmã de seu amigo reservava perfume para sua sepultura.
A identificação de Maria, a irmã de Lázaro, com Maria Madalena
tem sido muito forte e tem dado lugar a não poucas lendas sobre o
paradeiro de Madalena. Uma teoria especialmente estranha sugere
que se teria refugiado no sul da França junto com Lázaro e sua irmã
Marta, perseguidos porque se havia descoberto que ela era a mulher
de Jesus. Lenda à parte, não resta dúvida de que dos Evangelhos é
impossível deduzir que Maria, a irmã de Lázaro, o grande amigo do
Mestre, a quem ressuscitou após a morte, fosse uma mulher pública
e escandalosa, uma prostituta ou uma rameira.
E o fato de que fosse Maria Madalena quem se dirigisse à tumba
de Jesus com azeites para ungir o corpo do Mestre nada prova e,
assim, não assegura que fosse a mesma mulher pública que tinha
ungido os pés de Jesus em casa do fariseu: de fato, o evangelista não
diz como se chamava aquela mulher.
Esta identificação parte de certo desconhecimento dos costumes
daquele tempo: o uso de azeites e ungüentos era algo muito comum,
e afetava não só os rituais mortuários como também os do amor.
Foi tão comum e importante a unção do corpo com azeite que a
Igreja acabaria usando-a no sacramento da extrema-unção, chamada
também “unção dos enfermos”.
Enquanto a Igreja romana chegou a identificar as três mulheres — a
prostituta, Maria (irmã de Lázaro) e Maria Madalena — em uma só pessoa, a Igreja oriental sempre as distinguiu e considerou como personagens diferentes. Para a Igreja grega, Madalena era inclusive uma virgem.
Hoje é muito difícil que algum especialista nas Sagradas Escrituras e algum teólogo moderno considere Maria de Magdala como
uma prostituta.
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Os Demônios de Maria Madalena
Tal como se expôs, os textos falam de uma “Maria, a chamada
Madalena”, que seguia Jesus junto a outras mulheres (Lc 8, 1-3).
Diz-se que Jesus havia arrancado dela sete demônios. Este episódio
aparece explícito nos Evangelhos de Lucas, Marcos e João. O que
significam esses “sete demônios”?
Também neste ponto se fincou pé para reafirmar que Madalena
era uma pecadora. Considerava-se, com efeito, que a possessão diabólica era conseqüência do pecado e, fundamentalmente, do pecado
“de sexo”. Por isso, se Madalena era uma endemoninhada que Jesus
tinha livrado de sete demônios, era porque se tratava de uma prostituta. E não uma prostituta comum.
Em primeiro lugar, o número 7 tem profundos significados simbólicos na Bíblia. Os números são importantes na cultura judaico-cristã
e poucas vezes utilizados casualmente: o 3, o 7 e o 12 são números
básicos. Não é casual que a divindade se divida em três, que a Sagrada
Família seja composta de três, que o Nazareno fosse crucificado em
um grupo de três ou que Jesus ressuscitasse no terceiro dia. Tampouco
é casual que Deus tenha feito o mundo em sete dias, que o número
dos pecados capitais se estabelecesse em sete ou que Jesus expulsasse
sete demônios de Maria Madalena. Da mesma forma, tampouco se
utilizou o número 12 aleatoriamente: 12 foram as tribos de Israel e 12
os apóstolos escolhidos por Jesus, entre outros muitos exemplos. As
referências numéricas na Bíblia nem sempre devem ser consideradas
históricas, mas sim bem vinculadas a recursos simbólicos. No caso dos
“demônios” de Madalena, o número representa a importância que os
Evangelhos atribuíam a essa mulher.
Por outro lado, no tempo de Jesus qualquer transtorno de tipo
psíquico era confundido com possessão diabólica. Estar possuído por
um espírito diabólico significava também sofrer de uma enfermidade
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não reconhecida fisicamente. Por isso, se é histórica a alusão do Evangelho de que o Mestre arrancou de Madalena sete demônios — e não
se trata de uma interpolação posterior para diminuir a importância da
mulher mais amada por Jesus e que despertava ciúmes entre os próprios apóstolos varões —, o máximo que se pode afirmar é que Maria
Madalena tinha estado enferma e que Jesus a curou. Nada mais.
A possessão diabólica, nem sequer no sentido em que se entendia
na época de Jesus, nada tinha a ver com os pecados do sexo. Há
inclusive quem pense que aquele ter “arrancado dela sete demônios”
podia significar que a alma de Madalena vencera todas as formas do
mal, quer dizer, que Jesus a purificou de todo o mal. Esta é a teoria
de Jacir de Freitas Faria, inspirando-se no Evangelho gnóstico de
Madalena. No Evangelho gnóstico se diz que Maria Madalena “conheceu o Todo”, ou seja, foi uma iniciada nos mistérios de Jesus e
uma “inspirada”.
No entanto, durante séculos, a Igreja considerou Madalena como
o símbolo do pecado de sexo e como a pecadora arrependida, para
colocá-la em oposição, sem dúvida, a Maria, a Virgem e Imaculada.
Madalena seria o espelho de Eva, primeiro símbolo do pecado, pólo
contrário e simbólico da Virgem Maria, que seria a nova Eva, a mulher sem pecado.
A partir do século X, Maria Madalena foi considerada como “exemplo de perdição do mundo”, segundo afirmação do papa Gregório
Magno (540-604), que chegou a qualificá-la como “escrava da luxúria”. Honório de Autun, no século XII, escreveu que ela viveu “atormentada por desejos impuros”. Por isso, Madalena, segundo a dita
tradição, passou a vida escondida em uma gruta, no deserto, fazendo
penitência e mortificando sua carne.
A metamorfose foi perfeita. Maria Madalena tinha sido uma prostituta e uma endemoninhada. Converteu-se à fé e se transformou no
mito da cristã arrependida que chora e purga seus pecados. É tam21
bém uma mulher cristã forte, exemplo para todas as mulheres pecadoras, que soube chorar seus pecados passados.
Ao mesmo tempo, convertendo Madalena em uma simples prostituta arrependida, que passou o resto da vida fazendo penitência por
seus pecados, se faz com que ela não mais apareça como uma mulher
especial, a mais próxima de Jesus, ou como a mulher que recebeu do
Mestre seus segredos mais bem guardados, a primeira “apóstolo”,
aquela que, talvez, teria que ter sido — quem sabe — a verdadeira
fundadora do cristianismo, principalmente por ter sido ela a primeira e única testemunha da ressurreição. Não foi Paulo quem afirmou
que se Cristo não tivesse ressuscitado “vã seria a fé” dos cristãos?
Porém os apóstolos souberam que Jesus continuava vivo, após sua
Paixão na cruz, porque Madalena o revelou a todos, em nome dele.
Somente hoje — sobretudo depois da descoberta de alguns escritos
gnósticos no Egito, entre eles os Evangelhos de Madalena e de Tomás
— se tem começado, ainda que lentamente, uma revisão da figura
de Maria Madalena, aquela que os Evangelhos canônicos classificam
como a mulher mais importante da caravana apostólica de Jesus, a
qual, além do mais, cobria os gastos da comunidade com seus próprios pertences. Assim, nos Evangelhos se assegura que ela e “outras
muitas” serviam aos apóstolos e a Jesus “com seus próprios bens”.
Para reconstruir a figura de Madalena, o primeiro passo tem sido
fixar o que esta mulher não foi. Quer dizer, trata-se de recusar definitivamente a imagem negativa que a Igreja foi criando em torno dessa
personagem à medida que a instituição se hierarquizava, se masculinizava e se convertia em baluarte contra o sexo como exercício humano de diálogo e de felicidade. Assim, o sexo foi reduzido a mera
função procriativa, e estabeleceram-se o celibato e a virgindade acima inclusive do sacramento do casamento. Assim, o sexo tornou-se
pecado e Madalena seria a encarnação do pecado de sexo. A arrependida e a perdoada. Portanto, a santa.
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Prostituta, endemoninhada, pecadora, encarnação do mal, símbolo do arrependimento... Tudo, menos o que foi realmente: a mulher mais importante no cristianismo nascente. Só Maria, a mãe de
Jesus, pode obscurecer sua presença, mas, nos Evangelhos, é inclusive mais visível que a virginal Mãe de Deus. Efetivamente, segundo
os Evangelhos, Jesus aparece no domingo da Ressurreição para
Madalena, não para Maria: desta forma, o Mestre confere a essa
mulher uma formidável importância teológica.
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