CONCEPÇÕES DE FORMAÇÃO DOCENTE NACAMPANHA DE PÉ
NO CHÃO TAMBÉM SE APRENDE A LER
AQUINO, Fernanda Mayara Sales de1 - UFRN
SAMPAIO, Marisa Narcizo2 - UFRN
Grupo de Trabalho – Formação de Professores e Profissionalização Docente
Agência Financiadora: não contou com financiamento
Resumo
Esta investigação se reporta à Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler,
realizada na cidade do Natal/RN nos anos de 1961-1964, cujo objetivo era a alfabetização e
escolarização de crianças e adultos. Objetivamos discutir elementos de referência presentes na
formação de professores da Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler e oferecer
subsídios para reflexões sobre formação docente no tempo presente. Para tanto, realizamos
pesquisa bibliográfica a fim de estudar a Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a
Ler (GERMANO, 1981, 2010; GÓES, 2010; CORTEZ 2005) e utilizamos as narrativas de
professores e gestores que trabalharam no Centro de Formação de Professores e na Escola de
Demonstração da Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler, pois entendemos que
essas narrativas com suas singularidades nos revelam práticas formativas da Campanha que
não foram escritas na história oficial, bem como proporcionam a revalorização das vozes,
conhecimentos e práticas educativas desses sujeitos. Com base nas vozes dos professores
depreendemos a ênfase dada ao tema da formação docente como ponto central para uma
educação de qualidade na Campanha, a influência dos princípios freireanos de educação
popular, a relação entre teoria e prática, a prática reflexiva, a educação continuada, presença
das questões culturais no currículo e integração das disciplinas nas práticas de formação de
professores chamados aqui de elementos de referência. Portanto, a memória dessa Campanha,
transmitida pelos sujeitos que fizeram parte dessa experiência educativa, apresenta ações de
ensino-aprendizagem que oferecem elementos para uma reflexão mais aprofundada sobre
formação de professores nos dias hodiernos.
Palavras-chave: Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler. Formação de
Professores. Elementos de referência.
1
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
(UFRN) e estagiária do NUHMEJA-RN. E-mail: [email protected].
2
Doutora em Educação, Professora Adjunto do Centro de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte e Coordenadora do NUHMEJA-RN. E-mail: [email protected]
9088
Introdução
Este artigo discorre sobre formação de professores na Campanha De Pé no Chão
Também Se Aprende a Ler, como resultado de trabalho realizado a partir de pesquisas do
Núcleo de História e Memória da Educação de Jovens e Adultos do Rio Grande do Norte
(NUHMEJA-RN), do qual participamos. Esse Núcleo se propõe a reconstituir a memória da
Educação de Jovens e Adultos e da Educação Popular do RN, por meio de pesquisa por
documentos históricos e da realização de entrevistas com sujeitos que fizeram parte da
história da educação popular e da EJA no nosso Estado.
O estado do RN no final dos anos de 1950 e no início da década de 1960 foi cenário de
experiências significativas de educação de adultos, dentre as quais estamos destacando a
Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler. Evocamos a memória dessa Campanha
por entendê-la como subsídio para refletirmos sobre a formação docente de hoje,
estabelecendo relação entre práticas de formação atuais e de outrora. Assim, chamamos
atenção para a necessidade do diálogo entre o presente e o passado da época em que vivemos,
pois, segundo aponta Hobsbawm (1995), esse é um problema que vem configurando a
sociedade desde o final do século XX.
A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa
experiência pessoal à de gerações passadas – é um dos fenômenos mais
característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje
crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o
passado público da época em que vivem. (HOBSBAWM, 1995, p. 13).
Há uma supervalorização do presente e busca pelo novo em detrimento do passado;
pouco se considera a relevância do passado para as reflexões acerca do presente. No entanto,
“[...] o que fomos e o que somos estão desde sempre imbricados, conectados. O conhecimento
do presente – fatos, conhecimentos, processos, teorias, estruturas – permite compreender e
avaliar conhecimentos passados.” (CARVALHO; BARBOSA, 2011, p. 68). Destacamos a
memória da Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler enquanto espaço de
profundas ponderações em torno da relação entre presente e passado no campo da formação
docente.
9089
A Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler é reconhecida nacional e
internacionalmente devido aos expressivos resultados alcançados na área de educação popular
nos primeiros anos da década de 1960 na cidade do Natal. Essa Campanha foi desenvolvida
num período quando o número de analfabetos na cidade do Natal chegava a mais de trinta
mil, numa população de 154.276 habitantes (GERMANO, 2010). Por meio da Campanha,
procurou-se oferecer educação para todos os analfabetos da cidade do Natal, crianças e
adultos.
A ideia dos organizadores da Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler
consistia em realizar uma forte e rápida mobilização da população para conter a elevada taxa
de analfabetismo da cidade ao mesmo tempo em que impulsionava a cultura local. O Governo
municipal, com base nas reivindicações populares, assumiu como prioridade de sua
administração o problema do analfabetismo na cidade do Natal. Nesse sentido, a prefeitura
municipal contou com a colaboração da comunidade, que cedeu salas, gratuitamente, para
instalação de classes de alfabetização, denominadas de Escolinhas. Posteriormente, por meio
dos Comitês Nacionalistas, especialmente o Comitê do bairro das Rocas, houve a proposição
de construção de acampamentos escolares feitos de palha de coqueiro e chão de barro batido,
ante a falta de recursos financeiros para construção de escolas de alvenaria.
Segundo Germano (2010, p. 144), a Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a
Ler fez com que surgisse em Natal “[...] não somente uma nova rede escolar, mas também
uma completa organização cultural da cidade de Natal.” Esse processo teve como
desdobramento a criação de Escolinhas; dos Acampamentos Escolares; das Praças de Cultura;
do Centro de Formação de Professores (CFP); da Campanha de Pé no Chão Também se
Aprende uma Profissão; da Interiorização da Campanha; dos Círculos de Cultura e das
Escolas de Alvenaria.
Em termos da Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler é válido enfatizar
a preocupação com a formação dos professores, com vistas a viabilizar uma educação de
qualidade. Nesse sentido, foi criado o Centro de Formação de Professores (CFP) em 1962,
órgão responsável pela coordenação pedagógica da Campanha e pela formação do corpo
docente. Esse Centro ofereceu três cursos para formação de professores, os quais foram: o
Ginásio Normal, destinado à formação de professores que já haviam feito cursos de
Emergência e que faziam parte da Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler; o
Colégio Normal, voltado a professores da Campanha que já haviam cursado o Curso Ginasial
9090
e outros que desejavam ingressar na Campanha; o curso de Emergência, destinado à
preparação de professores dos Municípios do interior que mantinham convênios com a
prefeitura do Natal (CORTEZ, 2005).
Nos cursos de formação docente do CFP, os professores em formação realizavam
estudos das disciplinas de fundamentos psicológicos, educacionais, filosóficos e econômicos,
dentro de uma perspectiva de integração curricular (CORTEZ, 2005), com ênfase na
metodologia, no cotidiano da sala de aula, na produção de materiais didáticos, avaliação e
acompanhamento pedagógico, democracia e cultura popular.
Segundo Cortez (2005), as ideias de Paulo Freire foram incorporadas à Campanha De
Pé no Chão Também Se Aprende a Ler, integrando, assim, as concepções formativas do
Centro de Formação de Professores. Segundo essa autora:
A Campanha De Pé no Chão incorporou as ideias de democracia, diálogo, mudança
social e do professor como crítico da realidade, presentes no discurso de Freire por
meio de palestras feitas por ele e de cursos realizados pela Secretaria de Educação
da Prefeitura de Natal, dos quais toda equipe pedagógica participava. (CORTEZ,
2005, p. 68).
O Centro de Formação de Professores também contou, em sua estrutura, com a Escola
de Demonstração, onde os professores em formação tiveram a oportunidade de experimentar
na prática o que haviam estudado nos cursos de formação do CFP. Assim, a Escola de
Demonstração se constituiu em uma espécie de laboratório para as professoras e alunas dos
diversos cursos do referido Centro.
No tocante ao currículo dos cursos do Centro de Formação de Professores, trabalhavase numa perspectiva de integração curricular; visando manter uma relação entre as várias
disciplinas.
O currículo do Colégio Normal, com duração de três anos, seguia a orientação do
Curso Científico [...] no último ano estudavam-se as disciplinas pedagógicas,
obedecendo-se aos mesmos critérios de integração do currículo. [...] sem perder de
vista as várias disciplinas. (CORTEZ, 2005, p. 110).
9091
Outro espaço formativo para os professores da Campanha De Pé no Chão Também Se
Aprende a Ler se refere às reuniões de acompanhamento e planejamento da equipe do CFP
com os supervisores dos acampamentos e desses com os professores. Segundo Cortez (2005),
nessas reuniões, discutiam-se os problemas enfrentados durante a semana, bem como se
realizavam estudos, análise e planejamento dos trabalhos a serem desenvolvidos.
Até aqui trabalhamos com dados provenientes da revisão bibliográfica (GERMANO,
1981, 2010; GÓES, 2010; CORTEZ, 2005), que nos ajudaram na compreensão da
organização político-estrutural da Campanha e de sua proposta de formação de professores.
Entretanto, neste artigo nossa ênfase se reporta à memória das professoras que trabalharam no
CFP, para discutirmos a formação docente no cotidiano desta experiência de educação.
Com base na memória de professores/gestores da Campanha De Pé no Chão Também
Se Aprende a Ler, buscamos discutir elementos de referência presentes na formação de
professores da Campanha, numa perspectiva de oferecer subsídios para reflexões sobre
formação docente no tempo presente. Estamos chamando de elementos de referência um
conjunto de princípios pedagógicos que fundamentaram as práticas de formação e
pedagógicas de professores da referida Campanha.
Compreendemos a memória dos professores na perspectiva de Halbwachs (1990). Para
esse autor a memória individual existe sempre a partir da memória coletiva, visto que todas as
lembranças são constituídas no interior de um grupo. Tomamos como fonte a memória
individual de professores da Campanha compreendendo que essas memórias individuais têm
origem e são inspiradas no grupo que corresponde a todos quantos fizeram parte da
Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler.
Narrativas de formadores do Centro de Formação de Professores da Campanha De Pé
no Chão Também Se Aprende a Ler
Para além da pesquisa bibliográfica detemo-nos nas narrativas de professores e
gestores da Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler, cedidas pelo NUHMEJARN. Assim, destacamos as narrativas da professora Maria Diva Lucena, vice-coordenadora e
professora de História do Centro de Formação de Professores; da professora Maria Salonilde
Ferreira, que trabalhou nos cursos de formação de professores leigos e lecionou na Escola de
Demonstração; do professor Josemá Azevedo, coordenador e alfabetizador do Círculo de
9092
Cultura de Nova Descoberta, tendo participado de treinamento com Paulo Freire no Centro de
Formação de Professores.
Na fundamentação metodológica de nossa pesquisa, entendemos as narrativas como
processos de produção de discursos por meio dos quais os sujeitos expressam o que
compreendem/percebem, aquilo que acreditam existir (TEXEIRA; OLIVEIRA; CAMPOS,
2011), no nosso caso aquilo que esses professores – sujeitos da nossa pesquisa – acreditam ter
vivenciado na Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler no que concerne à
formação de professores. Logo, ao produzir narrativas de suas práticas vivenciadas, esses
professores difundem suas convicções, saberes e valores, expressando suas experiências
vividas no espaço/tempo da Campanha, que muitas vezes permanecem um tanto obscuras na
história oficial. Deste modo, é que destacamos a necessidade e importância de recorrermos
aos depoimentos desses professores.
Fazemos apelo aos testemunhos para fortalecer ou debilitar, mas também para
completar, o que sabemos de um evento do qual já estamos informados de alguma
forma, embora muitas circunstâncias nos permaneçam obscuras. (HALBWACHS,
1990, p. 25).
Nas narrativas, é possível encontrar relatos sobre a ênfase dada à formação docente na
Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler, o que culminou na criação do Centro
de Formação de Professores em 1962. As narrativas reforçam o que vislumbramos na
literatura a respeito das concepções e propostas formativas, pois descrevem a influência das
ideias de Paulo Freire; a relação entre teoria e prática; a necessidade de uma prática reflexiva;
educação continuada, as questões da inserção das práticas culturais no currículo; a relação ou
integração entre as disciplinas, o que, atualmente, se apresenta para nós como
interdisciplinaridade.
A influência do pensamento de Paulo Freire incide na Campanha De Pé no Chão
Também Se Aprende a Ler com as ideias de democracia, diálogo e do professor como crítico
da realidade. Nesse sentido, afirma a professora Diva Lucena: “[...] era uma educação voltada
para construir a liberdade do ser humano, para construir a democracia, para a vivência da
democracia em termos de participação popular [...].” (Professora Diva). A narrativa da
professora Diva revela que na Campanha a formação de professores estava fundamentada
9093
numa proposição política democrática, voltada para a construção da liberdade do ser humano
e para vivência da democracia em termos de participação popular.
Se há um saber que só se incorpora ao homem experimentalmente, existencialmente,
este é o saber democrático. Saber que pretendemos, às vezes, os brasileiros, na
insistência de nosso gosto intelectualista, transferir ao povo, nocionalmente.
(FREIRE, 2006, p. 13).
Outro aspecto indicado nas narrativas é a relação entre teoria e prática. Segundo o
depoimento da professora Diva “O Centro de Formação tinha uma escola de demonstração
para a prática daquelas alunas que estavam fazendo um curso.” (Professora Diva). A Escola
de Demonstração do Centro de Formação de Professores era o lugar onde, durante a
formação, os professores, tinham a oportunidade de estabelecer uma relação entre a teoria e a
prática em sala de aula, bem como o exercício de uma prática reflexiva.
Em relação a essa prática reflexiva, a professora Salonilde afirma: “Semanalmente
tinha as visitas nos acampamentos [...]. Tudo era discutido com os professores, com as
diretoras dos acampamentos [...]. Essa visita não era só pra olhar não! Eram reuniões que
fazíamos de acompanhamento, de discussão, de sugestões.” (Professora Salonilde). Segundo
Cortez (2005), fazia parte da pauta de reuniões o levantamento dos problemas ocorridos
durante a semana e o estudo de possíveis soluções para tal problema. Essa prática nos leva a
pensar sobre indícios de uma prática reflexiva no sentido de uma reflexão sobre a ação
desempenhada, que decorria das dificuldades encontradas (PERRENOUD, 2002), em uma
formação continuada.
É válido destacar, ainda, uma prática formativa ancorada na ideia de professor
inacabado e consciente de sua inconclusão. “Este é um saber fundante da nossa prática
educativa, da formação docente, o da nossa inconclusão assumida. O ideal é que, na
experiência educativa, educandos, educadoras e educadores, juntos, ‘convivam’ de tal
maneira com este como com outros saberes.” (FREIRE, 2011, p. 57). Essa ideia caracteriza a
formação docente como um processo social de busca, que ocorre permanentemente e não
apenas na formação inicial; o que atualmente denominamos de formação continuada. Segundo
defende Sampaio (2006),
9094
[...] formação continuada não por meio de cursos que tentam ensinar como ensinar,
mas da problematização da própria prática, pois é nela que se concentram os
desafios constantes que os/as professores/as têm que enfrentar. (SAMPAIO, 2006, p.
7).
Outro elemento presente nas narrativas se refere à valorização de práticas culturais
respaldando a formação de professores no Centro de Formação da Campanha De Pé no Chão
Também Se Aprende a Ler. Todos os depoimentos tratam da presença de práticas culturais
norteando as práticas de formação e pedagógicas da Campanha. Entendemos práticas culturais
“[...] como o todo de uma representação na religião, na música, nas manifestações tradicionais
e artísticas, nas festas, bem como os momentos em que essas práticas se vinculem, como
compromisso ou conflito em um contexto social.” (PINHEIRO, 2011, p.124). Desta feita,
destacamos os depoimentos das professoras Salonilde Ferreira e Diva Lucena:
O acampamento era um centro de cultura. Tudo da comunidade acontecia ali, as
festas, o resgate das festas tradicionais, pastoris, fandangos. Tudo isso era
introduzido no currículo e aconteciam as festas no acampamento. (Professora
Salonilde).
Era um processo de educação preocupado com uma dimensão pedagógica humana,
democrática, que procurava abranger todas as dimensões do processo educativo –
cultura, teatro, música, literatura. (Professora Diva).
Em relação às questões culturais, nos cursos de preparação pedagógica realizavam-se
discussões sobre a cultura popular e o livro de leitura de adultos3. Assim sendo, a inserção de
práticas culturais foi componente importante que influenciou a formação dos professores da
Campanha. Além disso, o Centro de Formação de Professores promoveu, em 1963, o 1°
Congresso de Cultura Popular, com participação de representantes dos Estados de
Pernambuco, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte. Sobre esse
congresso, relata Germano (2010):
3
O livro de leitura para adultos da Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler também é conhecido
como cartilha de alfabetização. Trata-se de uma adaptação do livro de leitura para adultos do Movimento de
Cultura Popular de Recife, feita pela professora Maria Diva Lucena.
9095
Constou do programa a apresentação de peças teatrais [...]. Foram realizadas
exposições de arte, feito o lançamento do segundo volume, Viola de Desafio dos,
‘Cadernos do Povo Brasileiro’, com a presença de Enio Silveira, e do disco da UNE
O povo Canta. Foram realizadas, ainda, palestras e debates sobre: Cultura e
Alienação, Arte Popular [...] e exibidos os documentários Aruanda e Cajueiro
Nordestino, de Linduarte Noronha. (GERMANO, 2010, p. 129).
Com base nessa iniciativa do Centro de Formação de Professores, merece destaque o
caráter da formação docente realizada na Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a
Ler baseada no processo de construção da identidade cultural dos sujeitos. Esse processo tem
que ver com o respeito e valorização da cultura do educando; com o propiciar uma educação
em que os alunos, em suas relações uns com os outros e com o professor, ensaiem a
experiência profunda de assumir-se (FERIRE, 2011). Mais recentemente, defende-se esta
ideia como a necessidade de “[...] ocasiões que favoreçam a tomada de consciência da
construção da identidade cultural de cada um de nós, docentes e gestores, relacionando-a aos
processos socioculturais do contexto em que vivemos e à história de nosso país.”
(MOREIRA; CANDAU, 2007, p.26).
A influência dos princípios freireanos na prática pedagógica dos professores da
Campanha foi corroborada em 1963 com a criação dos Círculos de Cultura, que utilizaram o
método Paulo Freire para alfabetização de adultos. Após um treinamento formal realizado
pelo próprio Paulo Freire em Natal, a fim de preparar os alfabetizadores para aplicação de seu
método no processo de alfabetização de adultos, foram criados Círculos de Cultura nos
bairros das Rocas e em Nova Descoberta. (GÓES, 2010). O resultado desses cursos foi uma
prática docente fundamentada no diálogo, na reflexão crítica da realidade, na valorização da
cultura do aluno, conforme atestamos a seguir.
Nos Círculos de Cultura, o processo de alfabetização à luz da perspectiva freiriana
ocorreu tendo por base o diálogo entre os saberes dos alfabetizadores e educandos, permeado
do processo de conscientização política dos analfabetos, que proporciona aos sujeitos a leitura
do mundo onde vivem. “Para ser um ato de conhecimento o processo de alfabetização de
adultos demanda, entre educadores e educandos, uma relação de autêntico diálogo.”
(FREIRE, 2006, p. 56). Esse diálogo se inicia quando o educador realiza investigações na
realidade social dos educandos a fim de sistematizar o conteúdo programático da educação. O
conteúdo a ser trabalhado com os alunos parte de sua realidade existencial. A organização dos
conteúdos de ensino, sistematizados pelo professor Jozemá – que lecionou no Círculo de
9096
Cultura de Nova Descoberta –, parte desse pressuposto freiriano. Nesse sentido, afirma
Josemá Azevedo:
[...] e a gente tinha esse contato com a comunidade. Primeiro fazendo essa pesquisa
do universo vocabular deles. Desse universo vocabular, daquelas palavras a gente
fazia as sílabas [...] a partir daí a gente fazia palavras, que eram palavras conhecidas
deles; a partir desse universo vocabular usado por eles. (Professor Jozemá).
Há, nos referidos círculos, a valorização da cultura dos educandos. Isso pode ser
constatado tanto por ser um dos fundamentos do pensamento de Paulo Freire, que norteia a
prática pedagógica do círculo de cultura como pela observância de práticas culturais na
prática educativa do círculo. O professor Josemá Azevedo, acerca de sua prática, assim se
expressa sobre a valorização da cultura dos alunos:
[...] era uma coisa importante que o prefeito Djalma dava uma atenção especial a
essa área da cultura, em que nós tínhamos todos [...]. Então quando a gente tinha a
oportunidade se apresentava a esse grupo alguma coisa dessa natureza. [...] a gente
mostrava que capoeira faz parte da cultura, o menino soltando pipa. Tudo isso é
cultura. Era importante mostrar e a valorização dessas coisas. Coisas que em geral
pertence ao universo dessas pessoas. (Professor Jozemá).
Com base na fala do professor Jozemá, tem-se como ponto de reflexão o entendimento
de cultura que fundamentava suas práticas. Ao afirmar que “capoeira faz parte da cultura, o
menino soltando pipa”, isso remete ao conceito de cultura sustentado por Freire (2011). Tratase do conceito antropológico de cultura que se refere à distinção entre o mundo da natureza e
o mundo da cultura, sendo cultura o acréscimo que o homem faz ao mundo natural. Além
disso, há um esforço por parte do professor Josemá Azevedo em levar os alunos, em processo
de alfabetização, não somente a reconhecer suas práticas como sendo cultura, mas também a
valorizá-las. Nesse processo, Freire (2011, p. 143) defende que o educando,
descobriria que tanto ele como o letrado têm um ímpeto de criação e recriação.
Descobriria que tanto é cultura o boneco de barro feito pelos artistas, seus irmãos do
povo, como cultura também é a obra de um grande escultor, de um grande pintor, de
um grande místico, ou de um pensador.
As experiências socioculturais dos educandos devem constituir a fonte primária de
organização dos conteúdos a serem trabalhados nos círculos de cultura. É preciso que os
conteúdos sejam significativos para os educandos, o que, segundo Freire (1987), só é possível
se esses conteúdos trabalhados forem resultado de uma pesquisa na realidade social desses
alunos. Sendo assim, “[...] o conteúdo programático da educação não é uma doação ou
9097
imposição, mas a devolução organizada, sistematizada e acrescentada ao povo daqueles
elementos que este lhe entregou de forma desestruturada” (FREIRE, 1987, p. 58).
Além do respeito e valorização da cultura dos alunos, as narrativas das professoras do
Centro de formação também apontam para uma prática formativa atualmente conceituada
como interdisciplinar. Segundo a coordenadora do Centro de Formação e o relato das outras
professoras, um dos objetivos da formação foi fazer com que os professores se apropriassem
das metodologias até então atuais, por exemplo, a pedagogia de projetos que parte de um tema
e procura integrar as várias áreas do conhecimento. Desse modo, buscava-se trabalhar as
disciplinas de forma integrada, o que Fazenda (1998, p. 89) aponta como “[...] a arte do tecido
que nunca deixa que se estabeleça o divórcio entre os diferentes elementos”.
A partir do tema se estudaria as várias áreas do conhecimento. Naquele tema como é
que ele seria feito o estudo da ciência, da matemática, da língua portuguesa, da
geografia, da história [...]; integrava história, geografia, uma parte de ética [...]. Na
prática era interdisciplinar, a gente nunca estudou na época essa história de
interdisciplinaridade não, mas se fazia interdisciplinaridade (FERREIRA, 2011).
Reportamo-nos à memória das práticas de formação de professores na Campanha De
Pé no Chão Também Se Aprende a Ler por entendermos que essas práticas pedagógicas
revelam a natureza do trabalho docente, na medida em que “[...] integram numa organização a
própria natureza do trabalho dos professores.” (PERRENOUD, 1997, p. 19). Além disso, a
visibilidade das práticas desenvolvidas por professores da Campanha permite a valorização do
saber desses professores como produtores de um conhecimento produzido com base na
vivência de sua prática pedagógica (TARDIF, 2000). Por fim, a partir das narrativas de
professores da Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler, reveladoras de suas
práticas de formação, é possível dialogar em torno da formação docente da Campanha e
propostas atuais de formação, com base numa memória que faz crescer a história, uma vez
que procura reconstituir o passado para servir ao presente e ao futuro (LE GOFF, 1990).
Considerações Finais
O presente artigo abordou a questão da formação de professores no contexto da
Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler. Como já assinalamos, essa Campanha
foi realizada na cidade do Natal/RN no período de 1961-1962, sendo voltada para
alfabetização e escolarização de crianças e adultos.
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A memória dessa Campanha, narrada pelos sujeitos que fizeram parte dessa
experiência educativa, apresenta aspectos da formação de professores que podem contribuir
para uma reflexão mais aprofundada sobre formação docente nos dias hodiernos. Nesse
sentido, destacamos a ênfase dada à formação docente como ponto central para uma educação
de qualidade, que inclui elementos formativos, tais como a influência dos princípios
freireanos de educação popular, a relação entre teoria e prática, uma prática reflexiva,
educação continuada, inserção das questões culturais no currículo e integração das disciplinas.
Na Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler, a formação docente assume
protuberância, implicando na criação do Centro de Formação de Professores, que passa a
funcionar como “cérebro” da Campanha; responsável por toda articulação técnicopedagógica. Os princípios freireanos de educação popular integram as concepções de
formação docente do Centro, especialmente, no que se refere à proposta de uma educação
democrática e de valorização da diversidade cultural.
O Centro de Formação de Professores da Campanha contou em sua estrutura com uma
escola de demonstração. Nesse espaço, os professores em formação tiveram a oportunidade de
estabelecer uma relação entre a teoria estudada nos cursos e a prática docente exercida em
turmas de crianças ou adultos. Para além do espaço no Centro de Formação, os professores
em exercício nos acampamentos, por exemplo, participavam de reuniões para discussão da
prática educativa com a equipe do Centro, o que nos levou a perceber indícios de uma prática
reflexão sobre a ação e de uma formação continuada em parceria com o Centro de Formação
de Professores da Campanha.
As questões culturais também protagonizaram as concepções de formação docente do
Centro de formação de professores, que realizou discussões sobre cultura popular e o livro de
leitura para adultos. Embora o diálogo em torno das práticas culturais seja uma discussão
mais contemporânea, o que percebemos é uma forte valorização dessas práticas, bem como da
cultura dos alunos na Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler. Isso pôde ser
evidenciado tanto com base nas narrativas das professoras/gestoras do Centro de Formação de
Professores quanto da narrativa do professor Josemá Azevedo sobre sua prática no Círculo de
Cultura de Nova Descoberta.
Outro princípio pedagógico presente na formação de professores da Campanha De Pé
no Chão Também Se Aprende a Ler é a proposição da relação ou integração entre as
disciplinas, prática que atualmente conhecemos como interdisciplinaridade. Esse princípio é
9099
abordado, enfaticamente, na narrativa da professora Salonilde, que trabalhou no curso de
formação de professores leigos e na Escola de Demonstração.
Assim, destacamos a memória dessa Campanha, especificamente, das práticas
formativas de professores/gestores no que concerne a sua reconstituição e valorização para
compreensão do contexto histórico da educação de adultos e educação popular do RN, bem
como possibilidades formativas que se apresentam para pesquisadores e educadores. Deste
modo, a memória da Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler pode contribuir
para reflexão acerca das questões referentes à formação de professores da contemporaneidade.
REFERÊNCIAS
CARVALHO, Maria Elizete Guimarães; BARBOSA, Maria das Graças da Cruz. Memórias
da educação: a alfabetização de jovens e adultos em 40 horas (Angicos/RN, 1963). Revista
HISTERDBR on-line, Campinas, n. 43, p. 66-77, set. 2011.
CORTEZ, Margaria de Jesus. Memórias da Campanha De pé no chão também se aprende
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FAZENDA, Ivani C. A. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. Campinas/SP:
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FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
________. Ação cultural para liberdade: e outros escritos. 11. ed. Rio de Janeiro: Paz e
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GERMANO, José Willington. De é no chão também se aprende a ler: política e educação
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GÓES, Moacyr de. De pé no chão também se aprende a ler: (1961-1964) uma escola
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HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução de Laurent León Schaffter. São
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9100
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