Anais do 5º Encontro do Celsul, Curitiba-PR, 2003 (950-957) QUAL O VALOR ATRIBUÍDO À GRAMÁTICA INTUITIVA DOS ALUNOS? Maria de Lourdes BARBALHO (Universidade Estadual de Londrina) ABSTRACT: It analyses the intuitive grammar of sixty students of a public school about six phenomenon’s of linguistic variation: reduction of the preposition to; analogy of the verb put; substitution of the pronoun we to “a gente” and the regency of the verbs to go and to arrive indicating time. KEYWORDS: grammar; intuitive; student; phenomenon; variation. 0. Introdução A língua seja na sua modalidade falada ou escrita, reflete, em boa medida, a organização da sociedade. Contudo, a escrita, por estar pautada pelo padrão, não é estigmatizadora e não serve como fator de identidade individual ou de um grupo. Decorre também que, devido a sua faceta predominantemente institucional, ou seja, ser adquirida na escola, é provida de caráter mais prestigioso como bem cultural desejável. MARCUSCH (2001:34). Por outro lado, a oralidade, embora tenha uma primazia cronológica sobre a escrita, pode facilmente levar à estigmatização do indivíduo. Aquela, por atestar a variação e, em geral, pautar-se por algum desvio da norma, tem caráter identificador. Em conseqüência disso, a constituição da língua falada como objeto científico só se revelou recentemente nos estudos lingüísticos. CASTILHO (2001:14). Em se tratando das pesquisas universitárias, constata que as mesmas têm atacado uma série de convicções fortemente arraigadas entre professores e autoridades de ensino. No caso particular da Língua Portuguesa, não se acredita mais que a função da escola deva concentrar-se no ensino da língua escrita, a pretexto de que o aluno já aprendeu a língua falada em contexto doméstico. Referencia também que, se nós, professores desta disciplina, nos concentrássemos mais na reflexão sobre a língua que falamos, deixando de lado a reprodução de esquemas classificatórios, logo descobriríamos a importância da língua falada, mesmo que fosse para a aquisição da língua escrita. Importante salientar que o que está sendo proposto não é o abandono de uma moda lingüística por outra. Ao contrário, sugere que se faça uma observação mais intuitiva da língua como enunciação para, em seguida, desenvolver uma análise mais “técnica” da mesma como um enunciado, enriquecendo-se, assim, a percepção do fenômeno lingüístico. Sem dúvida, é no contexto em sala de aula onde ocorre a dicotomia entre oralidade e escrita. SUASSUNA (1995) afirma que, de um lado, a escola não é tão decisiva para o aprendizado do oral e, por outro lado, as práticas do ensino tradicional desconsideram a presença, a força e a constância do oral na vida dos alunos. Sobre esta polêmica, MARCUSCHI (2001) divulga que, na sociedade atual, tanto a oralidade quanto a escrita são imprescindíveis. Desta forma, seus papéis e contextos de uso não podem ser confundidos. Segundo ele, a visão dicotômica da relação entre fala e escrita não mais se sustenta; a escrita não representa a fala, ambas possuem diferenças que não são polares e sim graduais e contínuas. São duas alternativas de atualização da língua nas atividades sócio-interativas diárias as quais apresentam um continuum de variações, ou seja, a fala varia e a escrita varia. Para que tal dinâmica se efetue, torna-se necessário, conforme enuncia LOPES (1996), que a formação teórico-crítica do professor de línguas esteja envolta em dois tipos de conhecimentos: um teórico a respeito da linguagem em sala de aula e fora dela e outro que trate da atuação na produção do conhecimento sobre o uso da linguagem no primeiro contexto, isto é, nos processos de ensinar/aprender línguas. Neste sentido, TRAVAGLIA (2000) afirma que o modo como se concebe a natureza fundamental da língua altera em muito o como se estruturam as atividades com a língua em termos de ensino. Em outras palavras, a que se considerar qual a forma de concepção da linguagem defendida pelo professor, seja ela única e exclusivamente a expressão do pensamento, seja um instrumento de comunicação ou como forma de processo de interação em que os usuários da língua ou interlocutores interagem como sujeitos que ocupam lugares sociais. Sabemos, porém, que o ideal previsto pela última concepção citada não corresponde à realidade praticada na maioria das escolas. O que se vê é a prática de uma gramática tradicional com seus paradigmas morfológicos e suas regras de sintaxe e concordância, de regência e de colocação. Neste sentido, é desprezada quase totalmente a atividade de reflexão e operação sobre a linguagem, resultando, Maria de Lourdes BARBALHO 951 assim, numa organização dos trabalhos em compartimentos totalmente afastados: de um lado, a redação e leitura com interpretação de texto e, de outro, a gramática enquanto conhecimento do quadro de entidade de língua assim como algum conhecimento do que se considera bom uso da língua. NEVES (2002). De acordo com BRITTO (2000), associa-se a isto uma ação difusa, de ordem ideológica, que incide sobre as situações públicas de uso da linguagem, identificando a questão da língua como uma questão nacional, atribuindo ao domínio do português considerado como correto uma garantia de ascensão social. Esta visão, avaliada como própria da escola, é sustentada e reproduzida, a todo o momento, por um conjunto de formadores de opinião como a mídia, os vestibulares e o livro didático os quais, de maneira geral, mantêm o preconceito lingüístico, valorizando, em sua retórica, uma forma de linguagem ideal que não corresponde nem mesmo a que se manifesta nos próprios textos escolares. Em conseqüência disso, fenômenos gramaticais como a regência dos verbos ir e chegar com sentido diretivo, analogia ao verbo pôr, troca do pronome nós por a gente, uso da reduzida pra em lugar de para e o rotacismo são referenciados pelos falantes considerados cultos como caos lingüístico o qual deve ser extinto. Sob tais pressupostos, compartilhamos da proposta de CASTILHO (2000) que propõe a integração da língua falada em nossas práticas escolares a fim de que haja uma mudança no fazer pedagógico, isto é, incorporação do aluno em seu processo de formação, atuação de professores empreendedores de projetos de investigação e, mais do que isto, possível transformação de um aluno descontente com a escola em um sujeito curioso por desvendar seu próprio conhecimento lingüístico. Sua proposta concebe a gramática como um lugar de reflexão, de debates, de questionamentos. Isto porque, a mesma não é fonte de certezas absolutas e, em sala de aula, não devemos transferir nossa capacidade de reflexão para o autor de quaisquer gramáticas, por melhor que ele seja. Não é útil passar para o aluno o pacote gramatical, o famoso ponto de gramática cujo efeito prático será, infelizmente, afastar os educandos da reflexão. Sendo assim, aliamos as reflexões do autor em questão à sugestão de BAGNO (2001) de nos transformarmos em professor investigador por meio da utilização, junto aos alunos, do “teste de aceitabilidade” no qual, segundo ele, a riqueza da pesquisa está envolta na própria pesquisa, no processo de investigação, na exploração do material, na aplicação das teorias, no levantamento das hipóteses. Outro aspecto importante é o fato de que os enunciados que compõem o corpus em análise têm origem na fala do dia a dia dos alunos e devem ser votados segundo os critérios de mais normal, mais fácil, o mais freqüente e o mais difícil. 1. Metodologia Esta pesquisa possui um caráter diagnóstico, uma vez que está centrada na investigação processual da gramática intuitiva de 60 alunos do primeiro ano do Ensino médio de uma escola pública, onde atuo como professora de Língua Portuguesa. Pode ser considerada também de natureza etnográfica, pois através de recursos como entrevistas e conversas informais com os envolvidos, colocamos o foco na percepção que os participantes têm quanto às diversas possibilidades de uso da língua no contexto social em que estão envolvidos. MOITA LOPES (1998). Em primeira instância, partindo do pressuposto de que a norma padrão tradicional oferece apenas uma das muitas possibilidades de combinação dos recursos existentes no sistema da língua, tomamos como um dos enunciados para a votação dos alunos aquele que reproduzisse a forma considerada correta pela gramática tradicional. Os demais refletem a fala da maioria de nós em situações de interlocução corriqueiras nas quais a presença de fenômenos de variação lingüística é uma constante. Por um lado, tomamos como objeto de estudo dois fenômenos que sofrem estigmatização social como o rotacismo (bicicreta, Frávio) e a analogia ocorrida ao verbo pôr (ponhei, ponhava). Em contrapartida, analisamos a síncope da preposição para ( Vou pra Feira da Lua), a utilização da forma a gente em substituição ao pronome nós (A gente vamos fazer a prova) e a regência dos verbos ir e chegar com sentido de direção (Vou em casa; Vou para casa; Vou a casa). Metodologicamente e, com algumas adaptações, fizemos uso do teste de aceitabilidade sugerido por BAGNO (2001) o qual consiste na apresentação aos alunos de um grupo de enunciados em que haja uma única alternativa aceita pela tradição gramatical acompanhada por outras três consideradas “erradas” a fim de que possam, intuitivamente, votar naquelas construções que eles considerem a mais normal, a mais fácil de ser entendida, a mais difícil e a mais freqüente no modo de falar deles e de seus familiares. Finalmente, divulgaremos a opinião dos envolvidos sobre as diversas opções que a língua oferece sob a forma de gráficos, acompanhados por uma análise qualitativa e reflexiva dos mesmos. 952 QUAL O VALOR ATRIBUÍDO À GRAMÁTICA INTUITIVA DOS ALUNOS? 2. Pressupostos Teóricos Sobre Os Fenômenos De Variação Em Debate. Um Recorte. TERRA (2002), ao concluir o capítulo sobre fonologia, trata dos alofones e, antes de iniciar sua explanação, deixa claro seu preconceito lingüístico ao afirmar que suas discussões estão baseadas na norma culta, mas, no nosso cotidiano, no português do Brasil, são observadas realizações diferentes de um mesmo fonema, algumas até se afastando do uso culto. Exemplifica o caso de palavras em que o fonema /l/ está no final da sílaba e, às vezes, em algumas regiões, é pronunciado como semivogal /w/ e, em outras, como consoante /r/. Ao tratar do uso dos pronomes pessoais do caso reto, faz uma ressalva sobre o uso de a gente em substituição ao pronome reto de primeira pessoa nós referenciando que quando utilizamos a expressão a gente, a concordância deve ser feita na terceira pessoa do singular. Dessa forma, a frase “A gente somos inútil”, de uma conhecida canção popular, pode ser entendida como uma irreverência artística. Na linguagem coloquial, devemos dizer “A gente é inútil” e na formal, “Nós somos inúteis”. Sobre o fenômeno do rotacismo, BAGNO (1999) descreve que nas regiões banhadas pelo rio Tietê, utilizadas pelos bandeirantes, as pessoas realmente trocam o l pelo r (arto, iguar, tarco, etc.) por influência da língua dos indígenas, que não conheciam o som lê, mas apenas o som rê brando de caro, barato. Os bandeirantes, preocupados em se aproximar dos índios bem como de suas riquezas, faziam o que era possível para serem compreendidos, amáveis e gentis, modificando toda palavra que tinha lê por rê. Afirma que o rotacismo verificado em alto>arto também aconteceu na língua portuguesa padrão, ainda em seu período de formação. O fato é que as consoantes /l/ e /r/ são, do ponto de vista articulatório, parentes muito próximos, o que faz com que, na história de muitas línguas, elas se substituam uma a outra indiferentemente. São as chamadas consoantes líquidas, as quais têm muito parentesco com as vogais (o que faz também com que, em algumas variedades, sejam substituídas por vogais, como é o caso do l de final de sílaba que, em quase todo o Brasil é pronunciado por /w/). De acordo com os estudos de BARBALHO (2000), são poucos os autores de gramática tradicional que discutem a presença da forma reduzida Pra em enunciados lingüísticos e quando o fazem, tratam-no de maneira sucinta, considerando-a como forma sincopada da preposição Para. Também afirmam que sua utilização ocorre na linguagem coloquial. É o caso de THOMAS (1960 apud PONTES, l992), que caracteriza o Pra como sendo a reduzida de Para, CEGALLA (s/d) registra tal forma como mais freqüente na fala popular e PONTES (1992) nota que o Pra, por ser considerada não marcada, fica átona na frase incorporando-se ao sintagma preposicionado. Sobre o uso das formas verbais ponhei/ ponhava, BAGNO (2001) toma como base a analogia, a qual é definida como “uma mudança lingüística causada pela interferência de uma forma já existente”. O verbo pôr possui uma forma estranha, irregular, quando comparada aos demais verbos da língua, cujos infinitivos sempre terminam em ar, er, ir, do português padrão. Sendo assim, o português não padrão, baseando-se na forma conjugada eu ponho criou o infinitivo ponhar regular e muito mais fácil de ser conjugado. Isto porque, se podemos dizer “eu ganho/ganhei/ganhava, por que não dizer também ponhei/ponhava, ocorrendo, assim, o fenômeno de analogia. No que se refere às preposições, CÂMARA (1976) assinala que, ao enriquecimento formal das preposições, acompanhou um empobrecimento quanto às formas. Desse modo, grande parte das preposições latinas se perderam e outras partículas tiveram seu emprego aumentado, num processo de simplificação e economia. Também investiga que tal procedimento distancia os fatos lingüísticos uns dos outros, criando uma falsa impressão de que cada classe de palavras, neste caso, as preposições, é um compartimento isolado, sem relações com o resto da estrutura da língua. Sob a concepção dos gramáticos modernos, isto é inviável porque as classes de palavras só podem ser devidamente caracterizadas umas em funções das outras, analisando-se o comportamento dos vocábulos dentro das orações da língua. PONTES (1992), ao examiná-las, percebeu que algumas das listadas pelas gramáticas não estão sendo mais usadas na língua coloquial. Logo verificou que, no processo de desaparecimento, as preposições são omitidas primeiro em seu uso literal, isto é, de espaço, porém, permanecem no uso metafórico influenciando a história gramatical dos vocábulos. Exemplificando, a preposição A já não é mais usada na maioria das acepções de espaço na língua coloquial, tendo sido substituída por em e para, mas continua sendo um pouco mais usada quando indica tempo. A autora acredita que seu desaparecimento se deve ao fato de ser esta preposição átona e muito reduzida fonologicamente. A respeito do emprego da preposição “A”, retoma as idéias de THOMAS (1960) sobre a existência de uma forte tendência no português falado em relação à substituição desta por “em”, “para”, “de”, “por”, etc, em muitas expressões. Este mesmo autor consigna que para indicar a locação permanente ou habitual e em casos limítrofes, a preposição Para é utilizada, de certa forma, para sustentar o paradigma culto do sistema escolar, por exemplo, Vou “para” o Rio. Maria de Lourdes BARBALHO 953 Sobre a influência da escola na conservação da maioria das preposições, NEVES (2002) salienta que as pessoas de nível mais alto de escolaridade, que são as que mantêm o uso das preposições, estão sujeitas à influência da escola, que sempre insiste em retardar a evolução. No entanto, observa que mesmo sendo possível ainda se ouvir “Vou à cidade”, principalmente por falantes mais escolarizados, a evolução já chegou com a substituição por em, para, com, de etc, em muitas expressões. Em muitos casos, a preposição em é usada em substituição à preposição a, com verbos de movimento, como nos exemplos: “Vou em casa”. “ Vou na fazenda”. Evidencia-se, aqui, a oposição com Para (Prá), indicando um movimento em direção de um lugar, porém sem a implicação de que vai permanecer lá. 3. Análise quantitativa/qualitativa dos resultados GRUPO 1 100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% D C B A Normal Fácil Freqüente (a) Às terças-feiras, costumo ir à feira da lua com meus amigos. (b) Nas terças-feiras, costumo ir na feira da lua com meus amigos. (c) Às terças-feiras, costumo ir para a feira da lua com meus amigos. (d) Nas terças-feiras, costumo ir pra feira da lua com meus amigos. Dif ícil Este gráfico ilustra as escolhas dos alunos da seguinte forma: 1) O enunciado mais normal (b) representa 36% dos votos; 2) A alternativa (b) foi também votada como a mais fácil e apresenta a regência do verbo ir com a preposição na, contração de em +a, com 30%; 3) Quanto ao mais difícil, o enunciado (a) reflete a regra defendida pela gramática tradicional com 43% dos votos seguido pela opção (c) com 36%. Estes índices confirmam a opinião da maioria dos alunos de que a gramática normativa ensinada nas escolas é um conteúdo difícil; 4) O enunciado votado como o mais freqüente (d), com 45% contém, ao mesmo tempo, a preposição na e a forma reduzida pra que é considerada pelos gramáticos como manifestação da linguagem coloquial. Neste caso, os números refletem que, ao contrário do que apregoam os defensores da gramática normativa, estes fenômenos de variação lingüística já estão incorporados à língua dos falantes de forma marcante e não estigmatizada, até mesmo no discurso dos interlocutores considerados mais cultos. BAGNO (2001:142) informa que o verbo ir, com sentido de direção pode reger três preposições: em, a e para. O uso Em é condenado pelas gramáticas normativas, que só aceitam A e Para, cada uma delas com empregos bem delimitados: A deve ser usada com o verbo ir para indicar uma idéia temporária, passageira, uma permanência breve em algum lugar. Já a preposição Para deve ser usada para indicar uma permanência maior ou até mesmo definitiva. No entanto, os enunciados proferidos pelos alunos, embora estejam sendo usados com a idéia da preposição A, pois a feira da lua termina, no máximo, às 23:30 horas, apresentam o verbo ir regido pelas preposições em e para sem que haja prejuízo ao entendimento no processo de interlocução. GRUPO 2 100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% D C B A Normal Fácil Freqüente Difícil (a) Quando chego em casa, jogo a bolsa no sofá e caio na cama. (b) Quando chego a casa, jogo a bolsa no sofá e caio na cama. (c) Quando chego na casa, jogo a bolsa no sofá e caio na cama. (d) Quando chego até em casa, jogo a bolsa no sofá e caio na cama. 954 QUAL O VALOR ATRIBUÍDO À GRAMÁTICA INTUITIVA DOS ALUNOS? A análise discorrida no grupo 1 se confirma da seguinte forma neste conjunto de enunciados com o verbo chegar: 1) A alternativa mais normal (a) constitui 58% das opções; 2) Também votado como o mais fácil, alternativa (a), com 31%; 3) O uso da preposição A, refletindo a regra da gramática tradicional foi considerado o mais difícil (b), perfazendo um total de 46% dos votos; 4) O mais freqüente (a) com 71% estão marcados com a preposição Em. Segundo BAGNO (2001), tal preposição encontra-se em pleno declínio, dá-se preferência à preposição Em, apesar da campanha prescritivista de tentar indicar diferenças de significado. Esse mesmo declínio pode talvez explicar as dificuldades de muitos brasileiros alfabetizados quanto ao emprego do acento indicador da crase. Uma hipótese para explicar esse uso cada vez menos freqüente da preposição seria o fato de haver outros itens gramaticais na língua com a mesma realização fonética: o verbo há e o artigo feminino A. Assim, para eliminar eventuais dificuldades causadas pela existência de três itens gramaticais com igual pronúncia: no português do Brasil o artigo A, substituição do verbo há por tem e a troca da preposição A por Em ou Para, conforme o verbo. A exemplo dos resultados de outras pesquisas em que ocorre a predominância do uso [- padrão], apesar de toda a condenação dos prescritivistas, esta pesquisa mostra que, segundo a gramática intuitiva dos alunos, o mais normal, o mais freqüente e o mais fácil é a ocorrência da preposição Em. Em oposição à preposição Em, o enunciado contendo a preposição À foi considerado pelos alunos como a mais difícil. Então, conclui-se que a construção com A se limita cada vez mais à escrita monitorada. GRUPO 3 100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% D C B A Normal Fácil Freqüente (a) Hoje a gente vamos fazer a prova em dupla e com consulta? (b) Hoje nós vamos fazer a prova em dupla e com consulta? (c) Hoje nós vai fazer a prova em dupla e com consulta? (d) Hoje a gente vai fazer a prova em dupla e com consulta? Dif ícil Sobre a substituição do pronome nós por a gente: 1) O enunciado considerado o mais normal (b) obteve 45% dos votos; 2) Ao mesmo tempo, é também o mais fácil com 33%. Salientamos ser este enunciado (b), o apregoado pela gramática normativa, ou seja: pronome nós na função de sujeito; 3) Em se tratando da expressão a gente, o enunciado considerado difícil de ser encontrado é o (a) com 36%, se acompanhado com o verbo no plural: a gente vamos; 4) Já o mais freqüente (c) com 35% também é marcado pelo mesmo pronome, porém com a concordância do verbo no singular: nós vai. Diferentemente dos resultados obtidos nos grupos anteriores, este fenômeno de variação lingüística, isto é, a substituição de nós por a gente foi considerada difícil de ser encontrada em relação ao uso da variante culta. E, se compararmos os índices de votação entre os enunciados (a) e (d), conferimos que, mais uma vez, mesmo em se tratando da linguagem coloquial, a opção vista como a mais difícil refere-se à marcada pela concordância da expressão a gente com o verbo no plural, conforme apregoa TERRA (2002). Em suas pesquisas, SILVA (2002:63) trata desta questão relacionada à substituição do pronome nós pela expressão a gente com função de sujeito como uma variação sintática a qual, assim como as demais, causam reflexos na escrita e, consequentemente, são objetos constantes de confronto entre o que prediz a norma padrão e o que vai se encontrar, naturalmente, na escrita e na fala dos estudantes e das pessoas com as quais convivem. Não obstante, LEITE e CALLOU (2002:53) divulgam que, no português do Brasil, a distribuição de uso de a gente e nós é mais ou menos equilibrada, apesar de a substituição ainda não ter atingido, na norma culta, o mesmo nível de aceitação que se verifica na fala popular. Maria de Lourdes BARBALHO GRUPO 4 100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% D C B A Normal Fácil Freqüente 955 a) Quando você tiver algum problema com a bicicleta, liga para o Flávio. b) Quando você tiver algum probrema com a bicicreta, peça ajuda pro Flávio. c) Se a bicicleta continuar com probrema, volta e peça ajuda pro Flávio. d) Se a bicicleta não tiver boa, vorta pro Flávio olhar novamente. Difícil Em se tratando do Rotacismo: 1) O enunciado considerado o mais normal pelos votantes é o (a) com 41% dos votos; 2) Eleito como o mais fácil, o enunciado (b), com 30%, é marcado pela presença do fenômeno em nomes comuns como bicicreta e pobrema e ausência do fenômeno em nomes próprios como Flávio; 3) O enunciado votado como o mais difícil (c), com 30%, refere-se à alternância da presença do rotacismo em nomes comuns e o uso em nomes próprios; 4) o mais freqüente (a), com (31%), é o que apresenta o fenômeno, ou seja, representa a regra preconizada pela gramática normativa. GRUPO 5 100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% D C B A Normal Fácil Freqüente (a) Sábado ponhei meu tênis novo pra caminhar e não consegui ir muito longe. (b) Sábado coloquei meu tênis novo pra caminhar e não consegui ir muito longe. (c) Sábado pus meu tênis novo para caminhar e não consegui ir muito longe. (d) Sábado calcei meu tênis novo para caminhar e não consegui ir muito longe. Difícil Sobre a analogia do verbo pôr no pretérito perfeito do indicativo: 1) O enunciado considerado mais normal é o (b), com 33%; 2) É também o mais fácil (b), com 35%, estando marcado pelo uso de um sinônimo: colocar. Isto é, prefere-se a realização de uma substituição a correr o risco de pronunciar uma palavra que não seja a adequada; 3) O enunciado votado como o mais difícil (c), com 33%, representa a norma padrão através do emprego da forma verbal “pus”. Uma das possíveis causas para esta opção seria o fato de que, em alguns casos, tal palavra ser entendida apenas como “ferida”. Em algumas situações, alguns professores, desconhecedores da sistematização deste fenômeno de variação, julgam ser necessário encaminhar o aluno a um especialista em fonoaudiologia. 4) No entanto, o mais votado como freqüente (a), com 43%, contém a forma verbal “ponhei”. Isto mostra que tal fenômeno, embora sofra uma grande pressão da norma padrão, é bastante empregado, sendo até capaz de provocar a visão estereotipada de “ignorante” a toda uma comunidade lingüística. 956 QUAL O VALOR ATRIBUÍDO À GRAMÁTICA INTUITIVA DOS ALUNOS? GRUPO 6 100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% D C B A Normal Fácil Freqüente a)Você não ouviu que é pra ponhá os dois nomes no trabalho? b)Você não ouviu que é pra colocar os dois nomes no trabalho? c)Você não ouviu que é para pôr os dois nomes no trabalho? d)Você não ouviu que é para colocar os dois nomes no trabalho? Difícil Ainda sobre o verbo pôr, porém no tempo presente do indicativo, confirma-se também: 1) O enunciado votado como o mais fácil é o (b) com 36% dos votos; 2) O mais normal (b), com 41% representa a opção pela troca da forma verbal em discussão pelo sinônimo colocar. Esta atitude é resultado das orientações recebidas nos anos anteriores de escolaridade quando, por desconhecimento teórico do fenômeno, vários professores direcionaram seus alunos a fazerem a troca a fim de evitar o desvio à norma padrão; 3) A opção mais difícil (c), com 22%, está marcada com a forma “Pôr”, apregoada pelas regras de conjugação verbal. Como sabemos, este verbo possui uma conjugação estranha, diferente, irregular, se comparado aos demais. Então, para resolver esta polêmica, tomando como base a primeira pessoa: eu ponho, surgiu o infinitivo ponhar, e mais informalmente, ponhá em analogia a falar/falá, ganhar/ganhá, etc. BAGNO (2001:154). 4) O enunciado mais freqüente é o (a), com 43% e está marcado pela forma verbal ponhá. 4. Conclusão A escola é, sem dúvida, um dos espaços em que o conflito quanto à variação lingüística se torna mais acentuado, uma vez que, tomando como base os preceitos da gramática normativa, nós, professores, concebemos e transmitimos aos nossos alunos a concepção de que a língua é algo feito e acabado, sob do princípio do certo e errado. Contudo, algo diferente é passível de acontecer. O processo pelo qual passamos no decorrer deste trabalho foi marcado por um clima diferente, houve o envolvimento dos alunos e da minha pessoa enquanto professora investigadora, à medida em fomos permeados pelo desejo da descoberta científica. CASTILHO (2000:22). Além disso, conforme postula tal pesquisador, enquanto ordenávamos os dados, pudemos formar regras gramaticais as quais estão vinculadas à questão da variabilidade lingüistica. Vivemos momentos em que foi possível sensibilizarmo-nos e, simultaneamente, fomos despertados quanto à valoração das regras pescritivas como também da freqüência das ocorrências destas em relação as demais consideradas “menos privilegiadas” pela comunidade. Os resultados da eleição sobre a gramática intuitiva dos alunos refletem, sobremaneira, a realidade de que a língua sofre mudanças contínuas e este processo é visto sob diferentes enfoques pelos alunos. Em outras palavras, ficou evidenciado que, dentre os seis fenômenos de variação lingüística abordados, há alguns que já foram incorporados pelos envolvidos, concebidos como normais, percebidos como freqüentes, independentemente do nível cultural e social. E, em sentido oposto, há outros que, assim como seus usuários, ainda se encontram à mercê de atitudes estigmatizadas em determinados contextos de interlocução. Mesmo diante da forte influência da gramática normativa sofrida pelos alunos durante seus onze anos de escolarização, os índices obtidos no resultado geral da votação demonstram a consciência de que a língua é heterogênea e, desta forma, sofre mudanças as quais tendem a diminuir as palavras (síncope da preposição Para); a simplificação do sistema pronominal (uso da expressão a gente); a analogia ocorrida com o verbo pôr (formas verbais ponhei, ponhá) e a regência dos verbos ir e chegar incompatível com as prescrições normativas (Fui na Feira da Lua). Desta forma, torna-se necessário que valorizemos, cada vez mais, no contexto escolar, a modalidade oral, a gramática intuitiva dos alunos, além de apenas tentarmos ensinar-lhes o uso deste ou daquele tipo de construção, até porque eles já falam desta ou daquela maneira. Trata-se de explicar o fenômeno, partindo de situações reais de interlocução, mostrando a lógica dos mesmos, sistematizá-los, Maria de Lourdes BARBALHO 957 divulgar que existem regras agindo ali, embora sejam de uma outra gramática, diferentes das divulgadas pela normativa tradicional. Logo, para que este processo de reconhecimento dos alunos a respeito da heterogeneidade da língua se amplie, torna-se urgente que tenhamos uma visão ampla da complexidade da linguagem e do quanto somos responsáveis em utilizá-la como instrumento de crescimento e transformação nas diversas oportunidades de atuação junto aos nossos educandos, através de uma prática permeada por constantes avaliações reflexivas e sistemáticas dos fenômenos de variação em toda a sua dimensão. Em última instância, referenciamos que a gramática intuitiva dos 60 alunos participantes da pesquisa em questão coaduna com os pressupostos de BAGNO (2001) de que alguns dos fenômenos aqui tratados estão sendo empregados, lentamente, pelos falantes mais cultos, deixando, aos poucos, de ser estigmatizadas até que, uma vez plenamente incorporados por todos os falantes, acabarão não sendo mais vistos como erro e/ou desvio da norma-padrão. Isto mostra que, por maior que seja a força da gramática aliada ao desejo de alguns segmentos em manter a língua estática e inatingível, nada poderá impedir que forças maiores como as mudanças naturais pelas quais passamos, a cada dia, transformem o que fora apregoado, há alguns séculos, como imutável. RESUMO: analisa a gramática intuitiva de sessenta alunos de uma escola pública sobre seis fenômenos de variação lingüística: redução da preposição para; analogia ao verbo pôr; substituição do pronome nós por a gente e regência dos verbos ir e chegar indicando tempo. PALAVRAS-CHAVE: gramática; intuitiva; alunos; fenômeno; variação. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico. São Paulo: Edições Loyola,1999. _____ , Marcos A língua de Eulália: novela sociolingüística. 11 ed. São Paulo: Contexto, 2001. _____ Marcos. Português ou Brasileiro? um convite à pesquisa. São Paulo: Parábola. Editorial, 2001. BARBALHO, Maria de Lourdes. Pra que cantar, cantar para quê? Síncope na preposição Para em canções populares. Monografia apresentada no curso de Pós-graduação em Língua Portuguesa. Londrina: UEL2000. BRITTO, Luiz Percival L. Os formadores de opinião e o normativismo. In: A Sombra do Caos. Ensino de Língua e Tradição Gramatical. Campinas: Mercado de Letras/ ALB, 2000. 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