Da demanda pelo feminino às conquistas do discurso anti-hegemônico: uma leitura de Como água para chocolate
Maria de Lourdes M. Pinto
Da demanda pelo feminino às conquistas do discurso anti-hegemônico:
uma leitura de Como água para chocolate
Maria de Lourdes de Melo Pinto
Doutora em Letras - UFRJ / Profª Adjunta da Universidade Estácio de Sá e do Instituto Superior de Educação
Palavras-chave: Como água para chocolate. Feminismo. Pós-modernidade.
Resumo
Reflexões sobre o percurso da Mulher e respectivo cotejo com a história patriarcal. Diálogo entre correntes teóricas das
pós-modernidade e do feminismo. Contextualização no universo latino-americano atual. Ilustração com leitura do livro
Como água para chocolate.
Introdução
Poder-se-á dizer que existe uma literatura feminina? E se existe, estaria acoplada às noções de
gênero? São perguntas que a crítica literária procura responder. Aparentemente, não poderíamos
delimitar os textos pelo sexo de seus autores, porque, se valorássemos a produção intelectual sob
parâmetros sexistas, estaríamos repetindo os mesmos erros cometidos anteriormente. Preferimos
encarar essa produção como uma vertente que apreende sua realidade em perspectivas distintas. Sob a
ótica dos silenciados, especificamente os recentes discursos feministas, demonstraremos as relações de
poder que mantiveram, ao longo dos últimos séculos, a estratificação das comunidades modernas.
Apresentaremos as propostas dos marginalizados como possíveis respostas ao caos
neocolonialista em que vivemos, demonstrando a mudança do olhar da metrópole para a periferia,
espaço no qual ainda existe uma possibilidade de inovação das discussões pela própria especificidade
do meio. A seguir, cotejaremos os discursos teórico-feministas com as práticas intelectuais e literárias
dessa periferia, apresentando as respostas estéticas deste contexto à realidade circundante.
Como conclusão da pesquisa, desenvolveremos uma leitura do livro Como água para chocolate,
aludindo à sua expressão cinematográfica, o que acreditamos apresentar possíveis contribuições destas
vozes silenciadas ao crescimento de uma nova sociedade mais igualitária.
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BREVE (?) PERCURSO À MULHER
O sangue derramado
O impulso que sustentou todo este trabalho de pesquisa
foi uma grande necessidade de desvelar o que chamamos
"feminino". Fala-se muito em "mundo feminino", "comportamento feminino", "necessidades femininas", e outras
tantas expressões semelhantes, mas parece que muito pouco se
esclarece com isso. Existe, é claro, e todos sabemos disto, um
certo padrão social que dita desde a posição da mulher na sociedade, até valores e condutas, préestabelecidas para a mulher - tudo derivado deste padrão social coletivo estruturado. Encontramos
muitos trabalhos na área da Sociologia, Antropologia e Literatura, e isso, especialmente nas últimas
décadas, quando vemos surgir um processo de acelerada desestruturação deste padrão social –
estreitamente ligado à sociedade patriarcal.
Convivemos, neste planeta, há milhões de anos, mas nossa espécie passou três quartos deste
tempo nas culturas de coleta e caça aos pequenos animais, sociedades que não exigiam a força física
como elemento norteador. Neste momento, as mulheres possuíam lugar de destaque pelo mágico poder
da criação. Quando a força física se tornou essencial para a sobrevivência do grupo, a supremacia
masculina começou a se instaurar tal qual a conhecemos; entretanto, a mulher ainda pertencia à esfera
do sagrado, porque não era conhecida a função masculina na procriação. Neste estágio, cria-se que os
deuses haviam privilegiado as mulheres em detrimento dos homens, o que causava profundo incômodo,
como afirmam Kramer e Sprenger:
Os homens se sentiam marginalizados nesse processo e invejavam as mulheres. Essa primitiva
"inveja do útero" dos homens é a antepassada da moderna "inveja do pênis" que sentem as
mulheres nas culturas patriarcais mais recentes. (KRAMER et SPRENGER, 1995, p. 15)
À luz de conhecimentos contemporâneos, a menina não precisa temer a castração, a falta do
falo a poupa de conflitos, permitindo integração menos traumática com suas emoções. Ao contrário, o
menino precisa se inscrever na Lei do Pai e abandonar tragicamente o mundo do amor materno. As
futuras sociedades patriarcais destruíram a cooperação dos primeiros tempos, transformando as
relações de fluidas em coercivas. Com a necessidade do grupo por novas áreas de alimento, instaura-se
a competitividade na busca de novos territórios, levando ao início do distanciamento da espécie da
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natureza.
Há estratificação social e sexual nas comunidades caçadoras, mas a repressão se completa
quando o homem começa a dominar a sua função reprodutora, o que, consequentemente, o leva a
influir na sexualidade feminina. Neste momento, surge a instituição do casamento, em que a mulher se
torna um bem do esposo e a herança se transmite através da descendência masculina. Ela deve
abandonar a casa do pai e assumir o nome da nova família, renegando origens e a si própria.
As comunidades primitivas assumiram formas bastante variadas. (...) A sua evolução, na Préhistória, esteve ligada ao desenvolvimento de novas formas de produção – agricultura, criação
de gado, artesanato - e processou-se em duas direções: no sentido da extensão da posse e da
propriedade individual dos bens e no sentido da transformação das antigas relações familiares.
(ARRUDA, 1984, p. 37)
É consenso, nos estudos antropológicos, que as mulheres descobriram os ciclos da natureza e
que devem ter sido as primeiras plantadoras. Essa descoberta adveio da observação do próprio corpo
em comparação com o ambiente circundante. Entretanto foram os homens que, a partir da invenção do
arado, sistematizaram a agricultura, dando início a uma nova era. Os grupamentos nômades foram
obrigados a se tomarem sedentários, o que acarretou a surgimento das primeiras aldeias. Aqui, rompeuse a harmonia entre os princípios masculino e feminino, estava escrita a lei do mais forte.
Com o estabelecimento do direito de herança, a sexualidade feminina foi rigidamente tolhida. À
mulher cabia ser casta, sair das mãos do pai, virgem, e guardar-se do adultério - não era permitida a
concepção fora do casamento. Restringiu-se à casa o espaço permitido ao domínio feminino, as
decisões públicas estavam inteiramente reservadas ao homem, naquele momento. A restrição do direito
à voz implicou, também, a origem da dependência econômica que se caracterizou como mais uma
forma de dominação das consecutivas gerações. Posição acolhida, em outro contexto, pela escritora
Virgínia Woolf:
(...) Tudo o que poderia fazer seria oferecer-lhes uma opinião acerca de um aspecto
insignificante: a mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se pretende mesmo escrever
ficção; e isso, como vocês irão ver, deixa sem solução o grande problema da verdadeira
natureza da mulher e da verdadeira natureza da ficção. (WOOLF, 1985, p. 8)
Ao longo dos séculos, o derrame do sangue feminino não veio apenas do menstruo ou do parto,
mas, acima de tudo, da degradação a que foi impelida. A Grécia, tão decantada como berço da cultura,
alijava quase por completa a mulher das práticas sociais, reduzindo suas funções a mãe, prostituta ou
cortesã. Em Roma, a situação foi camuflada pela liberdade sexual. Só com o advento da Idade Média
acontece alguma transformação; o momento de sedimentação do Cristianismo entre as tribos na Europa
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acaba criando um espaço inusitado (e ambíguo) para a mulher. A escassez dos homens, causada pelas
constantes Guerras Santas, leva as mulheres a ocupar temporariamente um espaço vago no domínio
público, ou seja, quando os homens reassumissem seus lugares, seriam reencaminhadas ao domínio
privado, como nos testemunha a citação a seguir:
O feudalismo, de fato, é um sistema de exploração dos trabalhadores por um grupo restrito de
especialistas da guerra, que nada produzem e são alimentados por outros. Somente isto limita,
neste grupo social, as funções econômicas das mulheres. (...) Ela é ativa no interior da
habitação. (...) Se seu papel se estende fora destes limites, é por acidente, quando deve ocultar a
ausência de um marido ou de filho. (DUBY, 1992, p. 178)
Após esse período, com a recusa ao abandono das práticas médicas e ao poder social recém
adquirido, a mulher torna-se um empecilho à ordem patriarcal. Instaura-se a sistemática repressão do
feminino, ou ainda, a "caça às bruxas" que, segundo cálculos levantados por Marilyn French, chegam a
um "número mínimo de cem mil mulheres queimadas". (KRAMER et SPRENGER, 1995, p. 13) Eram
parteiras, anatomistas, médicas populares, mas, acima de tudo, confrarias organizadas que ameaçavam
as academias e o poder feudal. Diante desse quadro desestabilizador, os órgãos reguladores do poder
patriarcal elegeram dispositivos para assegurar a manutenção de seus princípios, dentre os quais
podemos apontar a Santa Inquisição, que levou às fogueiras e às câmaras de tortura os espíritos
rebeldes, moldando os corpos a uma docilidade alienante e normatizadora como constata a obra de
Michel Foucault, História da Sexualidade. Com a normatização da sexualidade, o saber feminino
entra para a clandestinidade ou recebe a marca masculina, sendo consequentemente descaracterizado.
A caça às bruxas introjetou valores patriarcais que encontraram eco durante gerações; as mulheres
passaram séculos transmitindo-os voluntariamente a seus filhos.
Hoje, acompanhamos outro fenômeno, a mulher (e a sociedade em geral) percebeu falhas no
discurso que a norteara, descobrindo que as promessas de desenvolvimento não foram saciadas a
contento. O preço da violência, por sua vez fora muito alto, e era necessário cambiar os processos antes
que fossem irreversíveis. Nesse contexto de diferenças e pluriculturalismos, surge finalmente um
espaço para reflexões e inserções na esfera pública, o que nos leva às produções contemporâneas.
Leituras do feminismo em tempos pós-modernos
O sexo feminino é misterioso até para a própria mulher, é escondido, atormentado, mucoso,
úmido; sangra todos os meses e é por vezes maculado de humores, tem uma vida secreta e
perigosa. E em grande parte porque a mulher não se reconhece como seus os desejos dele. Estes
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se exprimem de maneira vergonhosa. (BEAUVOIR, 1988, p. 140)
Essas palavras de Simone de Beauvoir tornaram possível a eclosão do sentimento de frustração
de nossas mães e avós, mas, ao contrário do que poderíamos imaginar, quarenta anos depois, suas
reflexões ainda continuam pertinentes à realidade feminina. Houve um avanço indiscutível nas
relações da mulher com o domínio do espaço público, mas, infelizmente, essa conquista acarretou um
acréscimo de responsabilidades que nossa sociedade precisa diagnosticar e corrigir.
Os movimentos feministas das décadas de 60 e 70 tornaram-se grandes marcos de luta contra o
discurso vigente, mas a dinâmica da sociedade nos impele a constante problematização dos próprios
passos. Parece-nos curioso como o pensamento teórico feminista encontrou caminhos de consolidação
em momento histórico-social tão conturbado. Afinal, apesar de demonstrar sua força como ideologia
política desde o século XIX, foi neste contexto de desilusão que se legitimou, provocando o
deslocamento da perspectiva excludente do patriarcado. Convém, antes de enveredarmos pelos
tortuosos caminhos da alteridade, uma contextualização da contraditória condição pós-moderna em que
estamos inseridos. "Alguns vêem no pós-moderno um salto para frente, outros uma fuga para o
passado - seria uma nova vanguarda ou uma regressão ao arcaico." (ROUANET, 1992, p. 229)
Não é possível estabelecer rígidos padrões de observação do Pós-modernismo, porque, ao
contrário de outros fenômenos culturais, não está aberto a conceituações. Como nos afirma Sérgio
Paulo Rouanet, "reflete um estado de espírito, mais que uma realidade já cristalizada" (ROUANET,
1992, p. 230). Não se apresenta como um estilo, mas sim, como espaço de coexistência de diferentes
feições, o que aponta para o risco das generalizações. Não podemos estabelecer como critério uma
posição de ordem essencialmente histórica, ou seja, aproximá-lo das sociedades pós-industriais,
altamente desenvolvidas e baseadas na informação, porque excluiria ampla parcela de produções.
Não podemos esquecer que, se o acoplarmos a uma etapa do desenvolvimento das sociedades
capitalistas ou ao esvaziamento do que se convencionou como moderno, imcompatibilizaríamos o
processo latino-americano com esse fenômeno. Não é de nossa competência discutir a polêmica a
respeito da definição ou mesmo da nomenclatura escolhida, pois os matizes seriam inúmeros. Para
nossa leitura é suficiente atentarmos para a pluralidade do conceito e a idéia de que há vários pósmodernismos, todos propondo a crítica aos discursos dos grupos hegemônicos.
Quando verificamos a heterogeneidade como marca do pós-moderno, assim como a
desconstrução paulatina das grandes narrativas, abre-se um espaço para as vozes dissonantes
imiscuírem-se no quadro geral com respostas ou propostas específicas. No caso da crítica feminista, o
debate sobre as questões da alteridade, do descentramento da noção de sujeito e da diferença,
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teorizadas pela escola pós-estruturalista francesa, consolidou o movimento como uma "nova força
política emergente” (HOLLANDA, 1995, p. 8) Há, inclusive certos exageros nos procedimentos
sociais, como a conhecida proposta do politicamente correto.
Entre as linhas de pensamento mais frequentes nas produções teórico-feministas clássicas,
encontramos os estudos de Foucault sobre os conceitos de representação e poder e os trabalhos de
Jacques Derrida, que estabelecem como eixo da metafísica ocidental os processos, a saber: "o
fonocentrismo - o reinado do sujeito ou o primado da voz-consciência -, o logocentrismo - o primado
da palavra como lei - e o falocentrismo - o primado do falo com árbitro da identidade." (HOLLANDA,
1995, p. 9)
Contudo, apesar dos pontos de contato entre a problematização pós-estruturalista e a
experiência feminista, no que concerne aos sistemas de representação, convém demarcar as diferenças
atuais de articulação. Segundo a Profª Heloísa Buarque de Hollanda, se procura nos estudos femininos
a articulação com a crítica da hegemonia do idêntico, em abordagem que localize historicamente a
construção da categoria Mulher, libertando-a de perspectivas ontológicas e essencialistas. Postura que,
para os pós-estruturalistas, incorreria na existência de um "sujeito difuso e descentrado, muitas vezes
nomeado' feminino'." (ibidem, p. 10)
Apesar de todo o avanço, presenciamos um momento de incerteza quanto ao desgaste dos
estudos. Reconhecemos, nas primeiras vozes, o valor do brado, mas o momento já não requer
demonstrações desta estirpe. Atualmente, o campo da produção teórica feminista está cindido entre o
feminismo anglo-americano e o feminismo francês. A primeira corrente desenvolve estudos que
denunciam os "aspectos arbitrários e mesmo manipuladores das representações da imagem feminina"
(Ibidem, p. 11) pela ideologia patriarcal, problematizando a constituição do cânone literário e propondo
o resgate de textos que tenham sido silenciados ao longo da História. No outro extremo, as francesas
aproximam suas pesquisas da psicanálise, acreditando que esta teoria respaldaria "a exploração do
inconsciente e a emancipação do pessoal'. (Ibidem, p. 11) Com bases lacanianas, buscam, na malha do
texto, indicativos do que chamam écriture féminine. Investigam o contraditório do não-dito da
linguagem.
Seguindo caminhos distintos, as duas correntes procuram uma unidade perdida, o retorno ao
Jardim das Delícias. Todavia, devemos atentar para que, na ratificação da mulher como um outro, não
incorramos na legitimação da identidade hegemônica do mesmo, como tão bem nos alertou Julia
Kristeva. Convém, também, vigiar as reflexões centradas em uma natural especificidade da escrita
feminina, porque esta prática pode implicar essencialismos, biologismos ou protecionismos, o que
prejudicaria a revisão da historiografia literária.
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As vozes instigantes que têm surgido nos últimos anos ecoam de países "periféricos", com
características marcadamente peculiares. Percebendo que os modelos teóricos europeus e norteamericanos não respondiam às necessidades básicas, iniciaram questionamentos que vêm acrescendo à
crítica feminista novas feições, como: discursos nacionalistas, anti-semitismo, imperialismo,
colonialismo, racismo, para indicar as temáticas mais recorrentes. Além disso, elas apontam para a
distinção entre o pensamento elitizado das feministas e a realidade colonial da mulher terceiro
mundista, enfoque que será abordado com maior vagar na leitura de uma das obras literárias que
surgiram nesse contexto mais recente da produção latino-americana.
AMÉRICA LATINA: QUESTÃO DE GÊNEROS?
A mulher da (na) "periferia"
O patriarcado desenvolveu uma série de características femininas que pertencem ao domínio
comum, a saber: docilidade, modéstia, subserviência, humildade. São adjetivações metafísicas
utilizadas como padrões de sexualidade e comportamento impostos por normas sociais e culturais.
Esses pressupostos, quando por elas recusados, causam estranhamento e estigmatização de antifemininas ou anti-naturais.
Dizer que a "feminilidade" é uma construção cultural e opressiva não apresenta nenhuma
novidade; o que se mostra conveniente é perguntar se o feminismo deveria desenvolver características
inéditas, normatizando, ainda, a mulher em oposições binárias. Afirmar a força, a integração com a
natureza, a criatividade como feições dessa nova mulher seria tão rotulador quanto a etapa anterior.
Diante deste quadro de conflitos internos, os movimentos europeus e norteamericanos têm
acolhido as contribuições dos países "periféricos", entre eles a Índia e o bloco latino-americano. A
heterogeneidade e o claro pluralismo da construção dessas realidades estão estimulando novas leituras
e abrindo perspectivas para debates regionais. Vivemos uma era "pós-colonial", que repercute
maneiras distintas de posicionamento entre dominados e dominantes. Os contextos diferentes exigem
modelos alternativos, como a crítica ao "culturalismo político, cujo veículo é a escritura de histórias
legíveis, seja do discurso dominante, seja das histórias alternativas." (HOLLANDA, 1995, p. 189)
Contudo, convém ressaltar que acreditar nas experiências femininas, em sentido lato, como
base para a análise das condições das mulheres em geral seria uma prática reducionista e infundada.
Afinal, compartilhar experiências não implica necessariamente posicionamentos convergentes.
Segundo Toril Moi, em The feminist reader, a relação dialética marxista entre teoria e prática pode ser
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cotejada com a experiência feminina e as políticas feministas. A escolha de textos de mulheres como
alvo de investigações para as críticas feministas deve ser encarada como uma prática política e não
como pressupostos definitivos. Se assim o fosse, incorreríamos em outra redução, pois obliteraríamos
as contribuições da tradição feminina que não fossem partidárias desse discurso.
Retomando a discussão citada anteriormente sobre a mudança do olhar da metrópole para a
periferia, podemos observar as palavras de Gayatri Spivak, em seu texto "Quem reivindica
alteridade?". Essa autora acredita que os estudos alternativos devem atentar sobre a cisão das
mulheres nesses contextos polissêmicos, não devendo desprezar as diferenças entre as emancipadas e
as subalternas. Afinal, estas encontram-se duplamente deslocadas. Não possuindo voz na sociedade,
acabam-se colocando na posição de espécimem in vitro, pois quando seus conhecimentos orais foram
desprestigiados como saber, acabaram incutindo e, consequentemente, reproduzindo valores
estratificados, mantendo, assim, as esferas coloniais vinculadas às identidades nacionais, o que auxilia
sua própria discriminação. A seleção de textos para revisões historiográficas, assim como as leituras
que desmintam o iluminismo ocidental, são requisitos mínimos para uma real emancipação, pois, no
seu bojo, se fomentaria a tão discutida "descolonização".
Convém, como forma de ratificação de nossas reflexões, nos aproximarmos de uma realidade
mais conhecida - a América Latina, incluindo o Brasil com sua peculiaridade linguística. É um
continente onde culturas indígenas tribais convivem proximamente com o campesinato tradicional, e os
descendentes de escravos, por sua vez, dividem o espaço com o proletariado urbano e com uma elite
cosmopolita, contexto que, por si só, denota a efervescência dessa sociedade onde:
(...) as hierarquias tradicionais deviam ser legitimamente destituídas, a base ideológica tinha
que se transformar, e a base natural tal como será redefinida era não só a qualidade aquisitiva
do homem. mas também a sexualidade produtiva, a diferença constitutiva entre os seus
humanos, que os torna desejáveis e (re)produtivos. (HOLLANDA, 1995, p. 175)
Reprodução à qual a mulher foi impelida para obedecer o postulado do "crescei e multiplicaivos". Um continente imenso e vazio dependia de sua participação, mas não queria sua intromissão. Não
é inédito o uso da maternidade como forma coercitiva do desenvolvimento feminino.
A manipulação da maternidade pela sociedade é visível. Nota-se o quanto os diferentes poderes
se utilizaram da reprodução feminina, basta lembrar a maneira como o período nazista visava
doutrinar as jovens para a reprodução, chegando a estimular a liberação das tradições sexuais,
deixando de punir o adultério e protegendo a mãe solteira. A mulher era doutrinada a obedecer a
ordem do três K: kinder, kirche, küche (crianças, igrejas e cozinha). (ROMAGNOLI, 1990, p. 64)
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Vagarosamente a conjuntura feminina vem ganhando novas tonalidades, imiscuindo-se na vida
intelectual e artística com grande força, participando ativamente dos debates estético-teóricos. Mas essa
emergência não pode ofuscar as conquistas sociais que ainda devemos buscar. No âmbito literário, a
corrente de estudos feministas ou a recherche de uma mulher perdida têm sido aclamada. Podemos
citar o fenômeno editorial do pós-boom como uma estética que considera esse discurso uma de suas
vertentes, dando voz a escritoras como: Maria Luisa Puga, Ethel Krause, Angélica Gorodischer, Rema
Roffé, Ana Maria Shúa, Cristina Pen-Rosi, Isabel Allende, Laura Esquivel, Rosário Ferré, Ana Lygia
Veja, entre outras.
Nesta proposta de ouvir os silenciados, o trabalho seguirá a partir desta etapa as estradas do pósboom latino-americano, chegando à ilustração de todo esse discurso teórico feminista com a leitura do
romance Como água para chocolate, de Laura Esquivel.
O pós-boom em ebulição
Em oportunidades anteriores, aludimos à condição da heterogeneidade na formação da América
Latina, mas não houve um espaço para uma discussão mais acirrada sobre os processos de produção
intelectual e literária das últimas décadas. Apenas a apresentação dos pressupostos da atual corrente
literária - o pós-boom - nos pareceu uma proposta no mínimo fluida, porque essa visão sincrônica
falsearia o processo de construção desse panorama artístico-literário. Sintetizaremos, então, o ambiente
que possibilitou o uso da partícula pós. Quais os vieses que permitiram a estruturação desse ambiente
cultural?
A produção estética modernista euro-norte-americana do início do século passado se
caracterizava pela utilização do lúdico-experimental como forma de alienação, ou melhor, o
hermetismo de suas construções procurava estabelecer o distanciamento hierárquico entre popular e
erudito.
Enquanto isso, a produção latino-americana investia em construções experimentais com clara
postura política de contestação dos valores estéticos (sociais) da tradição ortodoxa, fugindo
conscientemente dos rebuscamentos formais e adotando linguagens alternativas, como as coloquiais e
regionalistas. Cotejamos as duas realidades para demonstrar a especificidade dos processos culturais
desenvolvidos na Latino-America nos períodos posteriores.
A produção dos anos 50 e 60 projetou a Literatura latino-americana no âmbito internacional,
fato que estabeleceu uma de suas nomenclaturas - "a narrativa do boom", pela explosão editorial
verificada na Europa. Ao pós-guerra, a América Latina responde com a possibilidade de a luta
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(armada) oferecer alguma transformação social. A temática narrativa acompanha os movimentos
exteriores, desenvolvendo uma proposta universalizante, ou seja, não somos mais cubanos ou
brasileiros, mas sim latino-americanos. Época em que os romances se aspiram épicos, inserindo
pesquisas metalinguísticas e intertextuais, avançam, também, na exploração de outros níveis de
realidade, como: o onírico, o fantástico e o real-maravilhoso.
Infelizmente, os projetos de socialização se viram tolhidos pelos blocos internacionais, pelas
políticas totalitárias e o "sonho acabou". Diante dessa realidade niilista, o discurso das grandes causas
reduzido a níveis ínfimos, deflagrando-se um processo de individualização do sujeito que a Literatura
não pode negar. O poder contestatório do texto não foi abandonado, é claro, mas houve procura por
outras formas de expressão que nos apresentam um momento novo - o pós-boom. Procuraremos, então,
mapear esse contexto que se apresenta, porque defini-lo seria matá-lo.
Apesar de apresentar marcas de continuidade, as inovações são inegáveis, a saber: fragmentação
do texto, polifonia de vozes narrativas, influência da mídia, uso de pastiche e paródia,
interdiscursividade, intertextualidade acentuada, desconstrução do texto como verdade, busca do leitor,
simplificação discursiva, fim da utopia, dessacralização das relações autor/leitor, abordagem de
temáticas femininas e homossexuais, e revalorização dos romances históricos como voz alternativa
para a legitimação do presente, e/ou policial, como meio de descrição da sociedade.
A escritura desse momento abandona a elaboração retórica, forçando o leitor a reconhecer o
espaço da escrita como mera criação linguística, não permitindo a sedução e os processos catárticos
provenientes dela. Se catarse há, demonstra-se na busca por um virtuosíssimo verbal como recurso para
a recuperação das vozes da oralidade.
Reconhecemos, também, nesta escrita, a presença massiva dos meios de comunicação
audiovisuais, a linguagem cinematográfica se torna tônica em vários romances, aparecendo, inclusive,
o próprio cinema como temática. Há uma demanda pela transcodificação dessas linguagens a partir do
instante em que a nova fonte mítica passou a ser a cultura de massa. Cabe-nos, portanto, observar mais
detidamente esse processo de alteridade e procura por novos espaços da mulher em um dos romances
dessa modalidade, a saber: Como água para chocolate.
Cozinha: espaço de escritura
Após toda a problematização da
condição feminina apresentada neste estudo,
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sentimos a necessidade de passar a palavra para uma representante destas lutas, Laura Esquivei, que,
nascida na cidade do México na década de 50, pôde sentir todo o peso de ser mulher neste mundo
neocolonial. Escolhemos como objeto de debrução o romance Como água para chocolate, pela
repercussão editorial e cinematográfica que alcançou nessas procuras de uma identidade feminina.
Como demonstramos anteriormente, a temática feminina se constitui em uma das vertentes de
expressão do pós-boom na Latino-América, acompanhando a tendência atual, da revisão dos canônes.
Começamos nossa observação pelos elementos paratextuais do livro, ou seja, título e índice. O
título Como água para chocolate nos remete ao contexto mexicano quando descobrimos tratar-se de
uma expressão regionalista que significa estar a punto de; característica que, já em primeiro momento,
demonstra o retorno às origens, abandonando o discurso universaIizante da estética anterior e propondo
leituras específicas de cada realidade. Trabalha com a ambiguidade porque, além da tradução imediata,
ainda possui as significações de muita raiva ou de muito calor, que se traduziria no estado de ebulição
das sociedades atuais.
Enquanto isso, o sumário nos apresenta uma divisão em doze meses do livro, o que, com uma
leitura superficial, não encontraria função direta; afinal, a narrativa não se estrutura espaçotemporalmente no período de um ano. Percebemos, então, a metáfora de circularidade que dialoga com
os símbolos inconscientes, constituindo-se, assim, uma leitura interdiscursiva própria desta corrente, ou
seja,
(...) O doze simboliza o universo no seu curso cíclico espaço-temporal.
(...) simboliza também o universo na sua complexidade interna.
(...) A combinação do quatro do mundo espacial e do três do tempo sagrado medindo a criaçãorecriação, dá o número doze, que é o do mundo acabado. (CHEVALIER et GHEERBRANT,
1995, p. 348)
A narrativa se passa em um rancho na fronteira de Eagles Pass e Piedras Negras, no período da
Revolução Mexicana, um índice de especificidade local; logo ao principio do romance, somos
informados desse cronotopos para não nos equivocarmos em procurar características generalizadoras.
Utiliza o recurso do distanciamento histórico para evitar maiores envolvimentos do leitor e sua possível
catarse; também podemos perceber aqui a tendência atual da releitura desmistificadora da História, pois
trabalhará com o que se "ouvia na cozinha".
O rancho pertence à família La Garza, um espaço
negado aos homens. As relações são matrilineares desde o
início da narrativa, quando são apresentadas as personagens;
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a voz do poder masculino não existe, porque, com a morte do pai, não foi dado o direito a nenhum
outro de assumir esse lugar. Existe a mãe e uma hereditariedade dinástica que contraria a ordem
patriarcal vigente, os conhecimentos (mágicos) e suas respectivas responsabilidades não pertencem à
primogênita, mas sim à caçula a quem "corresponde cuidar da mãe até o dia de sua morte".
(ESQUIVEL, 1993, p. 8) Além das (novas) estruturas de poder, podemos verificar nesta família uma
característica recorrente dos romances latino-americanos: a utilização dos nomes como instituições
simbólicas, a partir desse dado, leia-se que
O simbolismo da garça é semelhante ao dos pernaltas em geral. Os "textos o associam
freqüentemente a uma metáfora relativa às contorções guerreiras do herói. (...) Simboliza a
indiscrição daquele que mete o nariz em tudo. (...). No ocultismo antigo, passava por símbolo
da ciência divina. (...) É símbolo de piedade filial, pois se pretende que alimente seu pai velho.
(...) Símbolo de longevidade ou imortalidade. (CHEVALIER et GHEERBRANT, 1995, p. 460)
Tais características da pernalta apontam, em verdade, para os retratos das personagens, técnica
utilizada para evitar maiores descrições. A narradora (sobrinha-neta da protagonista) nos informa o
essencial sobre a família, caminhando na narrativa lado-a-lado com o leitor enquanto está cozinhando.
Afinal, nunca nos deixa esquecer de que o livro não é um romance, mas sim um manual (diário)
culinário. A narrativa começa com o nascimento da protagonista, aquela que alimentará a família e
perpetuará as tradições, a saber:
Tita despencou nesse mundo prematuramente, sobre a mesa da cozinha, entre os aromas de
uma sopa de massinha que cozinhava. (...) Tita nasceu chorando de antemão, talvez porque ela
sabia que seu oráculo determinava que nesta vida lhe estava negado o casamento. (ESQUIVEL,
1993, p. 3 e 4)
Nasce duplamente marcada, pois, além de mulher, caracteriza-se como escolhida dos deuses e,
consequentemente, com prospecções trágicas. A intertextualidade é clara entre narrativa
contemporânea e tragédia grega, apontando as vaticidades do oráculo. Informam-nos de antemão que,
como heroína, sofrerá as vicissitudes da sua condição, pois a heroína não lhe será permitida a escolha
de seu destino. A posição intermediária que ocupa entre mortais e imortais acabará levando-a a
ultrapassar o metron e, como sabemos, a ordem transgredida exigirá a punição.
Há referências míticas evidentes em relação a esta personagem, como os mitos de Penélope e/ou
de Perséfone. No primeiro caso, Tita efetua o movimento contrário à narrativa tradicional, pois não tem
a esperança de Penélope pela volta do amado. Tece (e não desfaz) um manto para tentar aquecer sua
existência vazia; a segunda referência aparece em uma variante do mito de Perséfone, amplamente
conhecido como um rito feminino de passagem, a mãe, Deméter, encerra Core em uma caverna para
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impedi-la de ser descoberta pelos possíveis pretendentes. Durante o período de amadurecimento,
dedica-se à tecelagem em postura de espera. Como Tita, Core só pode abandonar o manto quando se
livrar da imagem da mãe castradora, essa aproximação pode ser constatada na passagem a seguir:
Descobriu que o oco não era fome; era mais álgida sensação dolorosa. Era preciso desfazer-se
do frio desagradável. (...) Por último, tirou de sua caixa de costura uma colcha que tinha
começado a tecer no dia em que Pedro lhe falou em casamento. (...) Decidiu dar utilidade e
chorou e teceu, até que pela madrugada terminou a colcha e jogou-a sobre si mesma. De nada
adiantou. Nem nessa noite nem em muitas outras enquanto viveu conseguiu controlar o frio.
(ESQUIVEL, 1993, p. 16)
A herança da tradição clássica não impede a iniciação de Tita no espaço da cozinha como um
ambiente sagrado. Nesse local dito cotidiano é testemunha de todos os processos alquímicos a que a
nossa heroína é iniciada por sua mestra Nacha, uma índia que conhece os segredos esquecidos da
tradição pré-colombiana. Instaura-se, dessa maneira, a procura de um espaço feminino de representação
que não esteja alijado dos seus comprometimentos com o resgate de uma identidade nacional anterior à
descoberta de América.
Convém salientar, como característica do pós-boom, a inclusão da tradição oral pré-colombiana
na história escrita como elemento inquisitivo da História. As receitas, além de serem reconhecidas
como elementos literários, contribuindo para a dessacralização do texto como verdade, imprimem o
questionamento entre os saberes oral e científico, como fica caracterizado no trecho transcrito:
Como Tita não podia nem queria desprender-se do lado de Pedro, ordenou a Chencha que
trouxesse claras de ovo batidas com azeite e bastantes batatas cruas bem amassadas. Estes eram
os melhores métodos que conhecia contra as queimaduras. (...) O que aplicaria para evitar
cicatrizes'? Nacha deu-lhe a resposta, que por sua vez “Luz do Amanhecer" havia dado a ela: o
melhor neste casos era colocar em Pedro cascas da árvore de tepezchuite. (ESQUIVEL, 1993,
p. 166)
Além das receitas, outros recursos podem ser enumerados como agentes dessacralizadores da
verdade do texto, como: os elementos "mágicos" e o estilo folhetinesco. Os primeiros, tão caros ao
cotidiano latino-americano, não são esquecidos, demonstrando com suas hipérboles que aquela
realidade não pode ser identificada como verossímil, a única realidade admissível é a textual. A
passagem, a seguir, ilustra esse maravilhoso da literatura de Latino-América:
Contava Nacha que Tita foi literalmente empurrada para este mundo por uma torrente de
lágrimas transbordando sobre a mesa e o chão da cozinha. (...) De tarde, quando o susto já tinha
passado e a água graças ao efeito do sol, tinha evaporado, Nacha limpou o resíduo das lágrimas
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caídas sobre a lajota vermelha que cobria o chão. Com o sal encheu um saco de cinco quilos
que utilizaram para cozinhar bastante tempo. (ESQUIVEL, 1993, p. 4)
Os folhetins, como é do conhecimento geral, eram editados diariamente nos jornais para o
deleite das senhoras; entretanto, aqui surgem como espaço de contestação, ou seja, construindo uma
história com estruturação romanceada; na verdade, se está buscando a crítica às novelas rosas,
ironizando os próprios cânones que imputaram à escrita feminina a condição de "linguagem
imaginativa ou sensibilidade contemplativa" (HOLLANDA, 1995, p. 12). Ainda podemos observar,
neste item, a interdiscursividade com os "folhetins eletrônicos" atuais - "Continua ... Receita seguinte:
Bolo de Chabela (de casamento)". (ESQUIVEL, 1993, p. 16)
As receitas pré-colombianas adquirem, nesta narrativa, um valor sagrado, permitindo-se a
legitimação da cultura oral pelo discurso acadêmico. Nacha é a indígena, representante do massacre da
política metropolitana a quem narrativas tradicionais não permitiriam fala, mas Como água para
chocolate se propõe a ouvir essas vozes silenciadas.
A constante busca no romance pela fragmentação das estruturas sociais estratificadas, imputa-se
ao próprio plano da elaboração textual, influenciando na posição do narrador, que perde o seu poder
onisciente e onipresente. Verifica-se a indiscriminada mudança de foco entre Tita e sua sobrinha-neta,
causando olhares entrecruzados e falseadores da realidade. Urge buscar novas formas de apreensão do
mundo, e o romance desvia a percepção tradicional do campo visual para novas experiências sensitivas,
como olfato, paladar e tato. Uma resposta sensual das mulheres à representação do mundo pela ótica
patriarcal.
Segundo Isabel Allegro, a escrita do corpo relaciona-se com o próprio ensejo no mundo. A
percepção feminina tem oferecido uma captação redonda (não-vetorial) da realidade, alargando os
diversos sentidos como antenas para apreensões plurais da vida. Francamente aberta às circularidades
da vida, a narrativa desenvolve-se em movimentos cíclicos, entremeando experiências textuais com as
próprias manifestações de suas personagens. A marcação dos meses como títulos dos capítulos,
anteriormente comentada, indica o ciclo da vida - nascimento, apogeu e morte, processos que
acompanham a construção dos personagens, além de possuir valor simbólico inegável, a saber:
O três é um número fundamental universalmente, designa os níveis da vida humana: material,
racional, espiritual ou divino, assim como as três fases da evolução mística: purgativa,
iluminativa e unitiva. (CHEVALIER et GHEERBRANT, 1995, p. 902)
Verificamos, também, a constante presença do número cinco ao longo da narrativa, o que,
segundo o dicionário dos símbolos, introjeta a marca da androgenia. As personagens são mulheres com
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forte caráter de completude e integração com o elemento masculino, diminuindo sensivelmente o papel
dos homens, que sempre se demonstram faltantes, seja por morte ou covardia, pois
O número cinco é símbolo de união, número nupcial, segundo os pitagóricos; número, também,
do centro da harmonia e do equilíbrio. Será, por conseguinte, a cifra das hierogamias, o
casamento do princípio celeste (3) e do princípio terrestre da mãe (2). (Ibidem, p. 241)
O cinco demarca, também, a circularidade das personagens, que se constituem como presença
da Grande Mãe, com facetas diferenciadas, mas integradas entre si. Há sempre cinco personagens que
se intercalam ou se substituem para não desfalcar o arquétipo. Podemos ratificar tal informação citando
a substituição da figura de Mamãe Elena pelo nascimento de Esperanza, indicador das transformações
vindouras. Percebemos, no traçado de algumas personagens, a influência mítica (arquetípica) já
delineada na protagonista. Mamãe Elena, a matriarca da família, é castradora, uma Helena de Tróia,
pomo de discórdia que será "castigada" pela ousadia de assumir o papel masculino de prover. A
respeito dessa personagem, selecionamos a seguinte citação que acreditamos oferecerá ao leitor uma
discrição adequada:
Indubitavelmente, tratando-se de partir, desmantelar, desmembrar, devastar, desfarretar,
destruir, desbaratar, devastar ou desmamar alguma coisa, Mamãe Elena era mestra. Desde que
Mamãe Elena morreu, nunca ninguém pode voltar a realizar esta proeza (com a melancia).
(Esquivel, 1993, p. 80)
Em outro extremo, encontra-se Gertrudes, a legítima representante da exacerbação libidinosa. É
a imagem da Aftodite Urânia, aquela que assume o sexo com o vigor masculino, não falseando seus
desejos e "queimando" de paixão por seu general. Transgressora por excelência, abandona a casa
materna à procura de "apagar seu fogo" e conhecer o mundo. Mundo de Pancho Villa em conflitos
armados pela independência à qual ela abraça tornando-se "generala do exército revolucionário. Esta
nomeação havia conquistado a pulso, lutando como ninguém no campo de batalha". (ESQUIVEL,
1993, p. 147) No entanto, acerca de Gertrudes, selecionamos uma passagem anterior à fuga para
exemplificar sua natureza febril:
Parecia que o elemento que estava ingerindo produzia nela um efeito afrodisíaco, pois começou
a sentir que o intenso calor lhe invadia as pernas. Um formigamento no centro do corpo não a
deixava ficar sentada direito na cadeira. Começou a suar e a imaginar o mesmo que sentiria se
estivesse sentada no lombo de um cavalo, abraça por um soldado vilista, um desses que tinha
visto uma semana antes entrando na praça da cidade, cheirando a suor, a terra, a amanheceres
de perigos e incertezas, a vida e a morte. (Ibidem, p. 41)
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Na conformação da alma feminina, não poderia faltar a voz do código; o discurso regulador nos
chega pela boca de Rosaura. Demonstrando a podridão do discurso patriarcal, a pobre personagem
acaba sofrendo de um horrível mal-hálito, causado pelas besteiras que fala; e de flatulências, indicando
o paulatino esvaziamento de seu discurso. Por fim, acaba morrendo entre odores insuportáveis
causados por um flato gigantesco. Chega ao final uma era de códigos e tradicionalismos, sendo
permitido à Esperanzas caminhar por novas searas. Transcrevemos exatamente essa passagem terminal
de Rosaura:
A princípio não causou estranheza a Pedro escutar, mesmo com a porta fechada, as
ventosidades de Rosaura. Mas começou a prestar mais atenção a estes desagradáveis ruídos
quando um deles se prolongou mais que de costume. (...) Preocupado, (...) perguntou se estava
bem. Não obtendo resposta, abriu a porta e deparou-se com uma Rosaura de lábios roxos, corpo
esvaziado, olhos saltados, olhar perdido, que dava o último e flatulento suspiro. (Ibidem, p.
192)
À Esperanza, está reservado um destino diferente daquele que marcou sua tia ao nascer.
Vivendo em novos tempos, é a personagem que completa o círculo, sendo a voz efetiva desta nova
mulher que pode conhecer as alquimias culinárias, mas a quem se permitem outras escolhas. Aqui, o
discurso feminista subliminar contesta o fim das utopias, apresentando desejos prospectivos de
melhoria e desenvolvimento, nos pensamentos de Tita.
Como se sentia orgulhosa de ver Esperanza tão segura de si mesma, tão inteligente, tão
preparada, tão feliz, tão capaz, mas ao mesmo tempo tão feminina e tão mulher no mais amplo
sentido da palavra. (Ibidem, p. 199)
Convém, como último tópico, ressaltar algumas imagens que não foram explicitadas em
oportunidades anteriores. A opção pela cozinha como espaço feminino remonta à manipulação das
ervas pelas mulheres da Idade Média, as ditas bruxas, detentoras de um saber que a moral cristã insistiu
em castrar. Saber que carregava o caminho da vida pelo parto ou por outras esferas.
Há, no livro, propostas de interdiscursividade com a Cabala, mas escolhemos a cena do
incêndio final como ilustração mais evidente dessa transmutação feminina. O fogo consome todos os
males, remetendo à tradição de purificação, iluminação e amor; entretanto, não se tratou de qualquer
chama, mas sim daquela produzida por um orgasmo sublime, o que, na crença cristã medieval, só seria
alcançado pela fricção dos órgãos genitais de feiticeiras. Diante dessa proposta, esperamos que nossas
contemporâneas mantenham certas tradições de nossas antepassadas e possam ter várias “pequenas
mortes” no seu dia a dia.
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Maria de Lourdes M. Pinto
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