UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ CENTRO DE EDUCAÇÃO Ver a educação dissertação teses E EDITORA UNIVERSIDADE U F P A Belém – 1997 Título e texto amparados pela Lei N° 5988, de 14 de dezembro de 1973 ISSN 1413-1498 Copyright@ dos autores - 1997 Edição de texto: Bernadete Figueiredo Revisão de texto: Bernadete Figueiredo Projeto gráfico: Eunice Santos Capa: Alberto Damasceno (concepção) Paulo Martins (criação e arte) Composição eletrônica: Andréa Miranda Arte final: Ivanise Oliveira de Brito Montagem: Manuel Lima Periodicidade: Semestral Correspondência: Tiragem: 500 exemplares Universidade Federal do Pará Centro de Educação Campus Universitário - Setor Profissional CEP: 66075-110 - Belém/P A Fax: (091) 211-1648 - Fone: (091) 211-1105 Ver a educação. v.3, n.2 (Jul./dez. 1997). - Belém: UFPA/ Centro de Educação, 1997 - Semestral. 1. Educação - Periódicos CDD. 370.5 Depósito legal na Biblioteca Nacional, conforme Decreto N° 1825, de 20 de dezembro de 1907. SUMÁRIO As novas "qualidades pessoais" requeridas pelo capital Ronaldo Marcos de Lima ARAÚJO 1-26 Planos Educacionais para o 2° grau no Estado do Pará: pequena história do proposto e do concretizado para o período de 1983 a 1900 Maria Angélica Alberto do ESPÍRITO SANTO 27-52 O movimento docente na Universidade Federal do Pará: contra-poder frente à razão do Estado? 53-80 Vera Lúcia Jacob CRAVES Imagens de discursos: um estudo analítico de práticas discursivas sobre professores primários 81-118 Sônia Maria da Silva ARAÚJO Ver a educação, Belém, v. 3, n. 2, p.1-118, jul./dez., 1997 AS NOVAS “QUALIDADES PESSOAIS” REQUERIDAS PELO CAPITAL* ARAUJO, Ronaldo Marcos de Lima E ste trabalho, resumo da parte mais significativa de minha dissertação de mestrado, intitulada Inovações organizacionais e Qualificação: os aspectos atitudinais da qualificação, apresentada ao Programa de Estudos Pósgraduados em Educação: História e Filosofia, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, resulta de um estudo de caso de caráter exploratório sobre um conjunto de "atributos pessoais" hoje demandados aos trabalhadores pelas empresas que introduziram novas tecnologias organizacionais associadas ao paradigma da produção flexível e integrada. Atribui significados a alguns destes atributos, definindo seu conteúdo a partir das falas dos trabalhadores, supervisores e gerentes da filial de uma multinacional, aqui denominada Beta1, e de documentos fornecidos pela empresa. * Texto aprovado no GT de Trabalho e Educação da 20ª reunião anual da ANPED. O nome Beta é fictício para preservar a identidade da empresa. Todos os documentos da empresa citados, inclusive na bibliografia, bem como as referências feitas nas entrevistas reà1izadas, serão também identificados neste trabalho com este pseudônimo. A escolha desta empresa deveu-se ao fato de a mesma ter baseado seu "processo de modernização" na introdução de tecnologias de base organizacional. 1 Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 ARAUJO, Ronaldo Marcos de Lima 2 Esses novos atributos constituem-se como condição para que os trabalhadores se ajustem à nova estrutura organizacional das empresas que privilegiam as técnicas utilizadas pelas "empresas japonesas" e adéquam-se à idéia emergente de que um assalariado deve se submeter a uma validação permanente e a uma constante prova de sua adequação às atividades de trabalho, que baseia a também emergente ‘noção de competência’. (ROPÉ E TANGUY, 1994). Resultados de pesquisas2 indicam que algumas empresas que introduziram novas técnicas de organização do trabalho (CCQs, células de fabricação, kanban, just in time, etc.) passaram a dar maior importância a algumas "características pessoais", em detrimento dos saberes profissionais, como qualidades específicas necessárias aos trabalhadores que devam se inserir no trabalho organizado sob a égide da empresa flexível. Steinko (1992), por exemplo, em pesquisa sobre a evolução das qualificações dos operários em empresas espanholas usuárias de células flexíveis de fabricação, mostra que a introdução do trabalho das células exige mais uma troca de características pessoais dos trabalhadores do que um aumento daquilo que se poderia denominar de qualificação. "O pessoal realmente mais qualificado fica muito restrito e com o posto de trabalho muito distinto do operário de célula, são geralmente aqueles que se movem entre a oficina e o escritório." (STEINKO, 1992, p. 17). A geração de posturas e atitudes economicamente úteis (OFFE, 1990) é necessária para a adaptação da força de trabalho a determinadas situações de produção em vigor e para impedir a sua obsolescência. Refere-se, por um lado, às necessidades econômico-concorrenciais das empresas, e, por outro, à necessidade de motivação e de controle sobre o trabalhador. 2 RUSH Y FERRAZ. 1993 e STEINKO, 1992. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 As novas “qualidades pessoais” requeridas pelo capital 3 Entre as novas demandas por qualificação aos trabalhadores encontramos um grande e impreciso leque de qualidades humanas: iniciativa, espírito de equipe, capacidade de comunicação, sociabilidade, criatividade, disposição para aprender, curiosidade, disciplina, motivação, atenção, responsabilidade, estabilidade, confiança, autonomia, capacidade de gerar e se adaptar às mudanças, independência, capacidade de cooperação, lealdade, comprometimento, competitividade, habilidade de negociação, capacidade de pensar, de decidir, etc.. E claro também que "qualidades pessoais" adequadas ao trabalho sempre existiram, pode-se até dizer que a cada modo específico de produzir existiu um modo apropriado de se colocar frente a ele. O que diferencia a atual situação é a importância que ganham as novas "características pessoais" solicitadas aos trabalhadores. Mas, mesmo entre aquelas características já antes exigidas, houve um processo de redimensionamento, sendo hoje vistas de outra forma e tendo outra funcionalidade. A disciplina, por exemplo, refere-se hoje menos ao cumprimento de ordens superiores, normas e horários, apesar de ainda persistir esse aspecto, principalmente, para as categorias menos qualificadas. Visa mais ao compromisso com a redução de problemas e poros de tempo na produção, bem como com a execução dos lotes de fabricação definidos. Assim também a atenção, a responsabilidade e outros requisitos já antes requeridos. A caracterização desses "atributos pessoais" hoje, porém, não está dada. Não há consenso nem clareza a seu respeito, mesmo que muitos a citem. A tentativa de caracterização desses atributos coloca-se, então, como necessária, até porque o modelo de formação com ênfase nestes é apresentado por alguns autores enquanto "estratégia voltada ao desenvolvimento e à consolidação da cidadania", como a possibilidade de, sob o capitalismo, concretização do trabalhador integral, Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 ARAUJO, Ronaldo Marcos de Lima 4 (DESAULNIERS, [199-], p.8) e enquanto forma de construção da justiça social. (V ALLE, 1995). A introdução das novas técnicas de organização do trabalho na empresa estudada impôs a modificação das atitudes dos trabalhadores frente a seu trabalho e à empresa, e desenvolveu, concomitante a um forte discurso ideológico em torno da coesão fabril, a necessidade de revalorização do que é certo e do que é errado dentro dela, tendo como parâmetro a nova filosofia adotada com base na idéia de qualidade total. Sob esta nova filosofia, a empresa procurou desenvolver ações que se voltam para a promoção de valores e de determinadas atitudes por parte dos trabalhadores. A revalorização do trabalho e a promoção de certos atributos exigiu um brusco processo de modificação de valores e costumes por parte dos trabalhadores e a introjeção de uma ideologia que a justificasse. Como afirmava Gramsci (1991), em relação às exigências culturais do Fordismo, requereu um tirocínio geral, uma assimilação de caracteres que não se transferem por herança e nem são absorvidos no decorrer da infância e da adolescência. E isso foi uma coisa bastante brusca mesmo, a pessoa precisava ter um comportamento absolutamente diferente daquele que tinha antes. Aquela pessoa que cuja máquina parava e ela dizia: - Bom, vou cruzar os meus braços até o meu chefe vir e me dizer o que eu tenho que fazer. Essa pessoa passou, então, a ter que pensar um pouquinho: - Puxa que sugestão eu posso dar pra esta máquina voltar a andar? Então a empresa passou a esperar das pessoas aquilo que nós chamamos de competência social: a habilidade para trabalhar em grupo, capacidade de ouvir, capacidade de se Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 As novas “qualidades pessoais” requeridas pelo capital 5 expressar, escrita e oralmente, capacidade de argumentação, etc. (RH). Para a empresa, a oscilação das demandas do mercado e a renovação tecnológica determinam que o perfil dos trabalhadores e as suas características subjetivas devem mudar num movimento sem fim. A empresa busca mobilizar todas as capacidades humanas para gerar contínuos ganhos de produtividade. Isto pressupõe uma permanente reestruturação do modo de ser dos trabalhadores, sob a lógica do capital. A partir da constatação de que a situação atual é marcada pela instabilidade de produtos e de mercado e, conseqüentemente, da organização do sistema produtivo e das qualificações requeridas, a Beta busca redimensionar as funções e O pessoal envolvido nelas tendo em vista que uma nova "função exige novas habilidades, inclusive certas qualidades pessoais, novas competências necessárias à função". (RS). Na tentativa de conceituação das "qualidades pessoais" procuramos, sempre que possível, partir das definições contidas no modelo de formação profissional adotado pela empresa, o PETRA - Aprendizagem Dirigida aos Projetos e Voltada Para a Transferência de Conhecimentos3, para depois tentarmos cruzálas com as falas dos entrevistados tentando com isso perceber as coerências e dissintonias entre o discurso formal/oficial e as representações acerca dos mesmos. Esclarecemos, no entanto, que a conceituação das "qualidades pessoais" solicitadas aos trabalhadores da BETA 3 O PETRA constitui-se em um projeto de formação voltado aos trabalhadores industriais, que enfatiza o desenvolvimento de "características pessoais" junto com a formação teórica e o desenvolvimento das habilidades profissionais. O PETRA identifica e conceitua 39 características pessoais e as agrupa em tomo de 5 qualificações-chave intercambiáveis: organização e execução do trabalho, comunicação interpessoal, auto-desenvolvimento, autonomia e responsabilidade e resistência à pressão. Essas qualificações-chave funcionam como "campo de aplicação das características pessoais." Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 ARAUJO, Ronaldo Marcos de Lima 6 não podem ser generalizadas tendo em vista que as chamadas competências profissionais caracterizam-se por sua polissemia, opacidade e plasticidade, como diz Tanguy (1996b). Por adequar-se a atividades de trabalho específicas, os conceitos aqui formulados não podem ser transpostos a todas as situações fabris. O nosso interesse dirige-se a problematizar estas novas "qualidades pessoais" solicitadas aos trabalhadores e a contraargumentar o discurso de que a nova realidade produtiva requer um trabalhador desenvolvido omnilateralmente. As "Qualidades Pessoais" O espírito de equipe foi a "característica pessoal" que mais esteve presente nas entrevistas e nos documentos da Beta, e parece ser também a mais valorizada pela empresa. Pode-se dizer até que é a atitude-mãe sob a qual todas as outras deverão ser talhadas. A promoção do chamado "espírito de equipe" relaciona-se com as implicações da nova organização da produção que enfatiza a responsabilidade do grupo pelos resultados e a cobrança e o controle mútuo. O "espírito de equipe" não se encontra definido pelo PETRA, mas podemos identificá-lo em várias qualificações-chave. Dentro da qualificação-chave "comunicação interpessoal", por exemplo, que "tem como campos de aplicação o relacionamento entre pessoas e o comportamento grupal.” Para que o trabalhador "incorpore este espírito", é necessário que renuncie aos seus egoísmos internos; que seus interesses pessoais se subordinem aos "interesses sociais da empresa", como afirma um supervisor, pois "nunca se deve falar eu fiz alguma coisa, eu acho sempre que é o ‘nós' que deve prevalecer"; exige que todos se associem aos objetivos da empresa, ''pois se todo mundo tiver vontade com o mesmo objetivo, a coisa vai funcionar melhor"; faz com que os Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 As novas “qualidades pessoais” requeridas pelo capital 7 trabalhadores "consigam dar o sangue, o chamado veste a camisa"; e significa fazer com que "o pessoal vista cada vez mais a camisa como se fosse dele," em nome de uma democracia interna. O "interesses sociais da empresa" e a "democracia interna" não significam obviamente a existência de uma definição coletiva de prioridades que envolva a participação de funcionários e direção da empresa, como parece indicar os termos. A "democracia" se faz na base do cumprimento dos objetivos de produção estabelecidos pela empresa. A participação dos trabalhadores é' a garantia de que as coisas continuarão na mesma. Adorno e Horkheimer (1993) faziam a crítica do discurso que prega a subordinação dos interesses pessoais "egoístas" aos "sociais" e relacionavam-no com o que viria a ser a palavra de ordem do fascismo. Por trás desta premissa, falavam Adorno e Horkheimer, está a tentativa de redução do indivíduo a um mero exemplar do gênero e de atribuir-lhe uma importância subalterna. Sempre que se ouviu o chamado contra o egoísmo, continuam os autores, tratou-se, de fato, de querer convencer os homens de que não deveriam empenhar-se na busca da felicidade. A necessidade do trabalho em equipe e a identificação com os objetivos da empresa constituem a base do "espírito de equipe". Pressupõe a realização da ajuda mútua para produzir os lotes de produtos previstos no tempo determinado. No trabalho em equipe onde prevalece o seu respectivo "espírito" o controle externo é substituído pelo controle interno e mútuo fazendo com que os operários não enxerguem mais "o capataz que gritava com todos" (Op.l), ganhando, assim, formas mais sutis e eficazes de auto-controle. Objetiva-se trabalho em conjunto, harmonioso e sem conflito, produzindo entre os operários uma avaliação positiva acerca da aproximação da chefia que "hoje chega, senta, Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 ARAUJO, Ronaldo Marcos de Lima 8 conversa e que se introduziu mais na linha de produção. Não para as pessoas enxergarem que ele é um chefe e sim que ele é um funcionário igual a cada um. Então, aonde os problemas individuais existiam passaram a ser mútuos." (Op.1.). A responsabilidade pelo serviço passou a ser do grupo. O compromisso com a empresa expressa o chamado "espírito de equipe" e legitima as relações baseadas nos critérios de mercado como a única possível. "No fundo é bem isso mesmo, é uma troca de interesses", como fala um supervisor. A empresa tem o compromisso dos funcionários com o aumento da produtividade e os trabalhadores têm, em troca, a promessa de garantia de seus empregos. O discurso da "democratização interna", sob a idéia de mercado livre, pretende fazer aumentar o compromisso dos trabalhadores com os objetivos da produção. "Democracia" corres-ponde com trabalhar sobre os objetivos da empresa, pois esta valoriza o trabalho solidário em torno dos seus objetivos. "Se uma pessoa está em dificuldade numa montagem, num determinado tipo de coisa, a outra vai e ajuda." (Op.1.). Estabelece-se uma espécie de acordo em que os trabalhadores têm de assumir como se fossem seus os propósitos da empresa. Este movimento de cooptação resulta no desenvolvimento do "espírito de equipe", onde o capital espera que o trabalhador entregue-se todo. Como está colocado no PETRA, quando este define a qualidade pessoal envolvimento, é "a disposição para 'vestir a camisa; prontidão de responsabilizar-se, individualmente ou em grupo, pelos resultados obtidos no trabalho." O termo "equipe" pressupõe trabalhadores, supervisores de fábrica, gerência e direção, obscurecendo as relações de classe e os interesses coletivos, substituídos por uma multiplicidade de transações individuais vinculadas ao exercício e ao reconhecimento da competência. Por trás do "espírito" de equipe se esconde a intensificação do ritmo de trabalho. "Se tem uma determinada parte lá que tá Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 As novas “qualidades pessoais” requeridas pelo capital 9 com muito serviço", diz um operário, "e mais na frente tem menos serviço, a pessoa da frente vem prá cá e ajuda. Esse que é o chamado espírito de equipe". O "espírito de equipe" articulase em torno da realização técnica do trabalho mobilizando afetividades. Mistura-se, aparentemente de forma não ingênua, o profissional e o afetivo a ponto de que este é utilizado para justificar o baixo salário. Um supervisor cita, a propósito, um caso exemplar em que uma funcionária estava em dificuldades financeiras e recebeu ajuda do setor de serviço social da empresa. A assistente social "chegou ao ponto de administrar a conta dela, ela pegou todos os carnês da funcionária e ela é quem fez os pagamentos. Poxa, tudo bem, a empresa paga mal, não paga o que eu acho que ela deveria ganhar, mas num momento de dificuldade se ajudou essa pessoa. A mulher é grata até hoje. O que ela não faz pela empresa?" (Sup.2). Os supervisores consideram que os operários introjetaram apropriadamente o "espírito de equipe" posto que este se apresenta como o trabalho em conjunto para a manutenção do emprego. A ajuda mútua que se estabelece é apresentada como que entre os trabalhadores, onde "um ajuda o outro a trabalhar", camuflando as relações de poder existentes entre estes e a empresa. O compromisso e a responsabilização do grupo são requisitos necessários para a aceleração da produção e o aumento da produtividade. O "compromisso acertado com a empresa", onde se barganha "segurança" no trabalho em troca da intensificação do seu ritmo, uma vez "negociado", torna-se norma moral, sendo cobrado permanentemente pela Beta, não pode deixar de ser cumprido sob a pena possível de perda de emprego. A partir da definição desta norma é cobrado dos trabalhadores outra "característica pessoal" bastante citada nas entrevistas tanto de trabalhadores quanto dos supervisores: a responsabilidade. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 ARAUJO, Ronaldo Marcos de Lima 10 O requisito "responsabilidade" é definido como uma qualificação-chave dentro do PETRA. "Esta qualificação-chave tem como campos de aplicação a independência. e o compromisso do aluno, respectivamente, enquanto pessoa e participante de um grupo". E interessante notar nesta "qualificação-chave" que a "responsabilidade" e a "autonomia" dos trabalhadores são vinculadas. Na definição desta competência combinam-se qualidades tais como "iniciativa" e "envolvimento", "julgamento" e "reconhecimento das próprias limitações", "consciência de segurança" e "disciplina". Ser "responsável" e "autônomo" significa, a partir das definições do PETRA, que os operadores podem e devem "assumir e desenvolver um trabalho de forma espontâ¬nea e rápida com a prontidão de responsabilizar-se, individu¬almente ou em grupo, pelos resultados obtidos"; que os trabalhadores devem ter prontidão para julgar uma situação de trabalho reconhecendo suas limitações de julgamento. A "responsabilidade" se refere ao esforço de fazer cumprir o "compromisso" assumido com a empresa porque "no momento que você fechou um compromisso com a empresa, você tem que se desdobrar prá que aquilo dê certo". As determinações da empresa, sob o emblema da democracia interna, ganham a forma de um acordo "que todos têm que fazer funcionar", mesmo que não se concorde com os termos deste "acordo", como verifica um operário. - "Pô, eu acho que não vai dar, isso aí é uma loucura que estão fazendo. Estávamos há tanto tempo trabalhando e nunca tivemos problemas, agora..." A "responsabilidade" significa "todas as pessoas querendo fazer sua parte no serviço, não é você fazer por elas. Porque às vezes tem pessoas que às vezes é muito acomodada mesmo, tira o corpo fora" (Op.2). A "responsabilidade" está fortemente associada ao cumprimento dos lotes de fabricação determinados pela empresa. A responsabilidade maior dos trabalhadores, porém, Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 As novas “qualidades pessoais” requeridas pelo capital 11 parece ser com a manutenção de seus empregos que entra em jogo com as ameaças subliminares da empresa, "porque eu acho que pra gente preservar o emprego, a gente tem que fazer qualidade, porque no final do mês a gente tem que pagar as conta" (Op.2). Com a responsabilização do grupo pela produção e a promoção do "espírito de equipe", a empresa passou a valorizar o pessoal que se identifica com trabalhos voltados à realização em equipe, um funcionário que seja participativo, que busque agregar tarefas e que dê sugestões para melhoria da produção. A "responsabilidade" da produção passa da chefia, exclusivamente, para o grupo (célula), o que pressiona a produção para fluir no tempo determinado e com a qualidade esperada. Produz também outros comportamentos já evidenciados anteriormente como cooperação e cobrança, internalizados e mutuamente controlados. O trabalhador é responsabilizado pela produção, pela manutenção dos equipamentos, pela limpeza da célula e com a sua funcionabilidade. A "responsabilidade" também se refere ao compromisso de não se negar ao acumulo de trabalho, em função de intensificação do ritmo e/ou agregação de tarefas, como fala um operário: Porque quando a gente começa a trabalhar, a gente tem que primeiro olhar o lugar se tá organizado e limpo, porque se antes a gente cuidava de uma coisa só, agora a gente cuida até de ver se o colega tá fazendo direito ou se não vai precisar ir lá dar uma mãozinha. (Op.2). A idéia de democracia e liberdade hoje parece prevalecer, pelo menos nos discursos, dentro da empresa. Sob o discurso da liberdade interna é que se incentiva a autonomia dos trabalhadores. Liberdade existe como espaço para se resolver Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 ARAUJO, Ronaldo Marcos de Lima 12 problemas na produção ou, pelo menos, opinar sobre as soluções e como a predisposição do trabalhador em assumir tarefas e problemas que ocorram; corresponde à possibilidade de organizar a produção e poder atuar em vários postos de trabalho da empresa. "Tem como campos de aplicação", diz no PETRA, "a independência e o compromisso do aluno [trabalhador], respectivamente, enquanto pessoa e participante de um grupo". A "autonomia" está delimitada pelos objetivos em tomo dos quais o trabalho se organiza. A "autonomia" nas células se limita, portanto, à realização de mais de uma tarefa durante a mesma jornada; de se ajudar um companheiro com trabalho sobrecarregado; de se antecipar a possíveis problemas da produção; de realizar várias operações do processo produtivo. Ou seja, a "autonomia" refere-se à capacidade do trabalhador de se antecipar aos comandos das chefias e agregar voluntariamente várias tarefas e intensificar seu próprio ritmo de trabalho, "controlando tanto as suas ações como as dos outros", como diz no PETRA. Reforça-se com isso o controle interno e o controle externo passa a ser exercido através do volume de produção, da qualidade, tempo de produção, do desperdício de matéria-prima e insumos e dos estragos e defeitos de fabricação que deverão estar sujeitos às normas formais e políticas gerais da empresa. O controle interno é facilitado pelo novo leiaute da fábrica que favorece a visualização e o acompanhamento recíproco do andamento da produção. As decisões organizacionais permanecem restritas à direção das empresas e o controle da produção continua intocável. A aparência democrática parece ser necessária para possibilitar a adesão dos trabalhadores. Assim é percebida a "autonomia" pelos trabalhadores. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 As novas “qualidades pessoais” requeridas pelo capital 13 Agora essa pessoa tem mais liberdade de falar: - Poxa, vem aqui alguém me ajudar, e a outra pessoa toma a iniciativa de sair do lugar e vai ajudar. Antes as pessoas não podiam fazer isso. Se uma pessoa queria ajudar a outra, tinha que esperar a líder mandar, senão não ia. Agora não, mudou o comportamento das pessoas, e elas trabalham mais livremente, uma ajudando a outra sem tá precisando ninguém mandar. (Op.2). A iniciativa é uma das novas "qualidades pessoais" mais exigidas pelo capital. A capacidade de "iniciativa", que consta dentro do PETRA como uma qualidade pessoal correspondente à qualificação-chave "autonomia e responsabilidade", é definida como a "disposição para assumir e desenvolver um trabalho de forma espontânea e rápida". A iniciativa se associa ainda à capacidade do trabalho em equipe e se restringe à adoção de procedimentos e movimentos no interior da célula que tomem possível fazer mais produtivamente o que já está determinado. A "iniciativa" dos trabalhadores é limitada pelo que deve ser feito e que não pode ser alterado, como a concepção do produto. "Ninguém toma uma iniciativa de mudar o desenho, porque a gente tem que seguir aquele desenho e só mesmo os responsáveis têm autoridade pra mudar aquilo". (Op.2). Ter "iniciativa", portanto, é não ficar de braços cruzados e se comprometer com o lote determinado de produção. A necessidade de o trabalhador desenvolver a sua capacidade de comunicação é valorizada pela empresa sempre associada à idéia, descrita acima, de liberdade e autonomia. É requerida por exigência da responsabilização grupal pela produção. Apesar de ainda haver certas restrições, o relacionamento entre os diversos níveis hierárquicos dentro da fábrica parece ter mudado, facilitando a comunicação entre a Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 ARAUJO, Ronaldo Marcos de Lima 14 chefia, os mestres e o pessoal do chão da fábrica, que, antes, pouco se comunicavam. A pauta dessas comunicações incentivadas pela empresa deve se restringir, no entanto, a discussões que visem à otimização da produção e aos esclarecimentos acerca dos métodos particulares do trabalho tendo em vista a possibilidade de substituição de trabalhadores na função. Requer atitude "cooperativa", "empatia", "imparcialidade", "integração", "receptividade" e outras características determinadas pelo PETRA, que facilitem "a troca de idéias e opiniões sobre um assunto até que se alcance o consenso". A capacidade de comunicação refere-se ainda à necessidade de os trabalhadores "enxergarem os dois lados", eximindo-se de uma visão classista e incorporando os interesses do capital; associa-se também à facilidade de se comunicar com os superiores para que se possa resolver algum problema, ''para não se perder tempo com esse negócio de tá mandando e de tá pedindo". Esta maior comunicabilidade, portanto, restringe-se a uma pauta determinada: a reprodução do capital; não se permitindo, por exemplo, que se utilize desta capacidade para formas de relacionamento que desemboquem em reivindicações salariais ou que revelem os conflitos de classes. A necessidade de comunicação, associada à idéia de liberdade, favorece a resolução de problemas da produção e a apropriação do saber tácito dos trabalhadores. "Por exemplo, se algum trabalhador perceber que o serviço está acumulado, e se tiverem as peças arrumadas, ele vai assumir aquele trabalho como seu, porque é da sua equipe". (Sup.1). Ser comunicativo significa saber ouvir, aceitar sugestões, dar sugestões interferindo quando algo está errado na produção. "Porque antes, às vezes você trabalhava ali e agüentava calada, não falava mesmo se estava vendo as coisa erradas, você trabalhava sozinha dando de tudo pra tá dando conta do recado...". As coisas das quais se discordam e que devem ser Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 As novas “qualidades pessoais” requeridas pelo capital 15 relatadas devem se restringir aos problemas da produção. Qualquer outra forma de problema, salarial, por exemplo, deve ser tratada fora dos muros da empresa, ou respeitando-se a ótica da mesma. O debate e a crítica visam ao consenso e não à efetiva autonomia do trabalhador. Ou melhor, visam à crítica e à autonomia limitadas pelos objetivos da produção. O objetivo não é estimular a crítica e a divergência, mas obter um grupo coeso e homogêneo. Apesar do incentivo à comunicação, a hierarquia dentro da empresa continua a existir, mesmo que tenham sido reduzidos seus níveis, assim como o princípio da autoridade, pois "o chefe ainda é o chefe e você precisa saber organizar suas idéias pra poder dizer aquilo que você pensa que tá correto". O que parece ter mudado mais foi a forma como se trabalha com essa autoridade, permitindo a comunicação necessária entre alguns níveis hierárquicos da empresa, existindo, no entanto, a insegurança em face das mudanças de atitudes e comportamentos esperados pela empresa. Então, basicamente, o que mudou foi a necessidade que a empresa sentiu de ver fomentada nas pessoas as competências, algumas habilidades sociais, como assim são chamadas, que resumem tudo o que envolve trabalho em equipe no sentido mais profundo que a expressão quer dizer. Mas a gente notou que na fábrica houve muita insegurança ainda por parte das pessoas. (RH) Flexibilidade, outro atributo solicitado ao trabalhador da Beta, constitui-se numa reatualização de valores sob a ótica empresarial; é a capacidade do trabalhador de mudar hábitos arraigados, como fala um operário, "de ir mudando muitas coisas que a gente fazia e achava normal e que depois a gente Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 ARAUJO, Ronaldo Marcos de Lima 16 apren¬deu que é errado; a flexibilidade é essa, a gente tem que mudar um hábito que a gente já tinha que pra gente era normal, pra aprender o certo". (Op.1); é a possibilidade de se esquecer dos interesses contraditórios entre capital e trabalho e se permitir mudar de acordo com a conveniência da empresa e das inovações tecnológicas; é a capacidade de o trabalhador se permitir agregar mais tarefas no conjunto de suas responsabilidades e se permitir o mais-trabalho para que se efetive a reprodução do capital. Ou, como é dito no PETRA, é a capacidade de "adaptação, consciente [sic!] e rápida, de ações e atitudes planejadas diante de situações que se modificam". A flexibilização se dá em torno dos interesses da empresa. Em relação aos interesses dos trabalhadores que elevem sua qualidade de vida, como "plano de cargos e salários que ainda é perigoso de se falar", como afirma um supervisor, parece permanecer existindo uma rígida negativa. A "flexibilidade" dos trabalhadores é necessária para o acompanhamento da flexibilização da economia, do mercado, dos produtos e das tecnologias adotadas pela empresa. Esta capacidade está vinculada, no PETRA, à qualificação-chave designada “resistência à pressão", que tem "como ponto de aplicação os esforços físicos e mentais despendidos pela pessoa quando diante das condições desfavoráveis". Refere à capacidade do trabalhador de se ajustar à permanente oscilação das demandas empresariais, e de não ceder ao ritmo intenso de trabalho. Parece significar, portanto, a conformação com a ex¬ploração. Associa-se a esta capacidade, diz no PETRA, a ne¬cessidade de o trabalhador se dedicar "a um trabalho de forma tão intensa que as condições ambientais não interfiram nos seus pensamentos e ações". A identificação com os objetivos da empresa reflete uma atitude de cooperação em torno dos seus objetivos. A "cooperação" é definida pelo PETRA como uma "disposição de trabalhar eficazmente com outras pessoas em um grupo; Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 As novas “qualidades pessoais” requeridas pelo capital 17 prontidão de oferecer espontaneamente ajuda aos outros, sem tirar proveito da situação". Os objetivos da empresa são os únicos estímulos possíveis para servirem como elementos de motivação e coesão da equipe de trabalho nas células. Com a "cooperação", estes objetivos passam a ser encarados não mais como os objetivos da empresa, e sim como objetivo comum. A promoção desta característica é assegurada por um lado sob o discurso da coesão fabril e por outro com a ameaça velada de perda de emprego. Quanto melhor você se sentir, melhor você faz o seu trabalho e faz a coisa bem feita. Eu dirijo a nossa célula acreditando no ser humano, eu acho que se a pessoa tá voltada ao grupo, ela tá com o objetivo do grupo, não é cobrar o indivíduo com um chicote, não. A pessoa sabe porque ela tá lutando. Então eu acho que a pessoa tem que ter essa liberdade, eu acho que a gente só tem que cobrar os resultados. É como meu chefe faz, ele quer que eu toque resultados e é isso que faço com o pessoal, porque o trabalho é a soma de todos os segmentos da empresa. Se tem algum que não funciona, não vai dar certo, não adianta o gerente fazer uma puta de uma planilha de cálculo bem feita se tem um funcionário lá embaixo, num transformador lá, que faz uma solda mal feita. Se todo mundo tiver vontade com o mesmo objetivo, até porque é pra isso que a empresa paga os nossos salários, a coisa vai funcionar melhor. (Sup.l). Sob o discurso da cooperação realiza-se a cooptação dos trabalhadores. A relação afetiva passa a ser valorizada como elemento da produção, tentando-se romper a separação entre Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 ARAUJO, Ronaldo Marcos de Lima 18 ação profissional e relação afetiva, considerando o compromisso dos envolvidos como o resultado esperado. Valoriza-se enormemente a constituição de laços e relações entre as pessoas que trabalham e fortalecem uma comunidade de trabalho. "Se colhe carinho à gente", como afirma Castilho (s/d, p.311). É a ruptura do coletivo dos trabalhadores. Porque nós somos todos profissionais, eu respeito ele profissionalmente e ele me respeita profissionalmente, mas existem outros que são profissionais e amigos, se a gente puder ter os dois juntos eu acho melhor, acho que o comportamento da equipe se torna melhor, entende? Eu acredito muito que o grupo venha comigo nessas caminhadas aí que a gente coloca. (Sup.l). O interesse e a atenção estão definidos no PETRA como "a vontade de dirigir os seus sentidos para situações de aprendizagem ou trabalho durante certo período", referem-se à capa-cidade de resistir às pressões resultantes da intensificação do trabalho; referem-se à capacidade de executar um trabalho tal qual ele foi planejado e de seguir as prescrições dos manuais; e se concretiza, ainda, na procura de se conhecer mais as diversas tarefas da célula, em colaborar dando sugestões, "não ficar parada no tempo". Parece ser imprescindível à efetivação das novas técnicas organizacionais implantadas, como o MTP, e Housekeeping e o Kanban, segundo sua respectivas orientações de prática e uso. O interesse relaciona-se ainda à valorização da aprendizagem no trabalho pelo operário. O interesse do aprendizado, porém, deve coincidir com as necessidades da empresa. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 As novas “qualidades pessoais” requeridas pelo capital 19 O desinteresse pela produção pode significar uma incompatibilidade com a política de pessoal da empresa e resultar em demissão. "...que nem um abastecedor que foi mandado embora não tem nem um mês porque ele passou a ficar desinteressado com a nossa linha". (Op.1.). Este desinteresse é demonstrado por qualquer outro tipo de interesse que não esteja expresso nas diretrizes da empresa e reproduzido pela hierarquia superior. A promoção por parte da empresa de uma atitude que revele o "interesse" do trabalhador se volta para a viabilização de um objetivo comum. Visa a direcionar a atenção dos trabalhadores para os objetivos da produção e para a manutenção de uma coe-são no grupo. É sob este "interesse", que nega a possibilidade de interesses contrários ao capital, que a empresa procura evitar os conflitos internos e construir a coesão das células que "se tornam mais dinâmicas, sem o choque. Mas quando se encontra o pessoal que têm outros interesses, e muitas vezes têm, aí fica difícil”. (Sup.1). Em tomo deste "interesse", também, a. empresa busca transformar as relações de poder em relações do tipo familiar, onde prevaleça o objetivo comum. Acaba por reproduzir, assim, uma situação em que se infantiliza o trabalhador e se constrói a figura do "pai-patrão", severo, disciplinador, cobrador de resultados, mas ao mesmo tempo, bom, recompensador, aquele que sabe identificar e retribuir aos que honram seu nome e lhes são obedientes e que no fundo quer o bem de todos. Parece ser mais difícil, assim, discordar do "pai" do que do patrão. As novas "características pessoais" valorizadas e promovidas pela empresa parecem ter como idéia de fundo a possibilidade de intensificação do ritmo de trabalho e apropriação do saber tácito dos trabalhadores mediadas pelas novas técnicas organizacional. A nova racionalidade da empresa admite e incorpora certos conflitos e críticas, aproveitando-se dos mesmos para Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 ARAUJO, Ronaldo Marcos de Lima 20 tentar aumentar a sua produtividade e eliminar a dissidência. A empresa parece desvalorizar o trabalhador que se submete e produz pouco e aquele que só reclama sem apresentar solução. A empresa promoveu a substituição da lógica da produção fordista, calcada no cálculo e na obediência estreita de tempos e movimentos, pela lógica da flexibilidade, que valoriza certas características pessoais, a qualificação tácita e o trabalho real, ao invés da qualificação formal e o trabalho prescrito. A empresa busca atingir seus objetivos de maiores ganhos de produtividade e conformação operária com a ameaça, quase sempre velada, dos perigos da demissão para o trabalhador. O discurso da empresa leva o trabalhador a buscar uma capacidade de auto-mobilização para resolver problemas, o que lhe impõe uma permanente insegurança no mercado de trabalho por não ter um saber reconhecido e pelo fato de as "qualidades pessoais", entendidas enquanto competências, serem marcadas pela plasticidade e reconhecidas apenas nos momentos de exercício do trabalho. (DUGUÉ, 1994). Propaga-se uma ideologia cuja função é a legitimação do status quo como o único possível e desejável. Divulga-se o princípio da coesão interna, buscando uma forma de convivência que desenvolva ao máximo a paz industrial e a prosperidade na empresa, e não permita a contestação. O Modelo de formação adotado pela empresa, apesar do discurso de procurar desenvolver "qualidades pessoais" importantes nos trabalhadores, inviabiliza este mesmo discurso, pois só permite um sujeito estruturador da realidade: o capital. Na Beta, é o capital que define qual qualidade o trabalhador deverá ter, naturalizando-a, atuando, assim, como definidor das "características pessoais" do trabalhador. Ora, qualidade pessoal é qualidade da pessoa, do sujeito, mas à medida que o sujeito desta qualidade passa a ser o capital, torna-se impossível falarmos em "qualidade pessoal dos trabalhadores" sem as aspas que se fizeram presentes em todo o nosso texto. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.1-26, jul./dez., 1997 As novas “qualidades pessoais” requeridas pelo capital 21 Bibliografia ADORNO, HORKHEIMER. Indivíduo. In: Conceitos básicos da Sociologia. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1993, p. 45-60. ARAUJO, Ronaldo Marcos de Lima. Inovações Organizacionais e Qualificação: os aspectos atitudinais da qualificação. Dissertação (Mestrado em História e Filosofia da Educação). Programa de Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1996. BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1994. BARRIER-LYNN, Cristiane. Note Sur Post-Taylorisme. Sociologie du Travail. Montrouge Cedex/França: DUNOD, n. 3, 1994. BETA. Catálogos. São Paulo, 1995. __________. Dados e Fatos. [São Paulo], 1995. __________. Diretrizes Empresariais. São Paulo, [ca. 1995]a. __________. Identificação, Recrutamento e Recursos Humanos. São Paulo, [ca. 1995]b. Seleção de BRUNO, Lúcia et al. Organização, Trabalho e Tecnologia. São Paulo: Atlas, 1986. 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O período foi escolhido por ser rico em evidências que possibilitam detectar mudanças de rumos no tratamento dispensado à educação, uma vez que o poder político estava passando a outras mãos em conseqüência das pressões exercidas pela sociedade civil sobre o governo militar, em fase de agonia. Uma nova postura de atores sociais envolvidos no projeto de uma sociedade mais democrática era esperada com relação à educação, haja vista ser esta um dos fatores que possibilitam a concretização da democracia. * Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação do Centro de Educação da UFPA, Mestrado em Educação e Políticas Públicas. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 ESPÍRITO SANTO, Maria Angélica Alberto do 28 A partir dessa perspectiva, foi realizada a investigação por meio da qual cheguei a algumas conclusões provisórias, que espero possam ser posteriormente aprofundadas, uma vez que considero meu estudo apenas um dos primeiros passos dos muitos que precisam ser dados para que se possa ter um entendimento mais amplo da trajetória das políticas educacionais no Pará, particularmente com relação ao 2° grau. Quanto à Conjuntura Econômica O governo autoritário que se instalou em 1964 optou por um planejamento centralizado, respaldado em referências que negam a dimensão política do processo. O planejamento foi visto como instrumento fundamental para a intervenção do Estado na economia e nos demais setores da sociedade, dentre eles a educação. É também a partir desse período que o Estado passou a intervir mais radicalmente na Amazônia. Neste sentido, percebese que sua dinâmica foi fortemente condicionada a decisões e investimentos econômicos de fora para dentro, não sendo levadas em consideração as necessidades e aspirações de seus habitantes. Muito pelo contrário, o que os projetos elaborados pelo poder central visavam era a integração da região ao projeto de desenvolvimento nacional; e a Amazônia entrou nesse processo, não por conta de sua dinamicidade, mas pelas suas potencialidades minerais, hidrológicas, dentre outras. Assim é que durante as últimas décadas vemos políticas econômicas serem gestadas e implementadas sem que a população da região seja consultada sobre elas. Os grandes projetos nela instalados não se constituíram em elementos capazes de melhorar as condições de vida da população local. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 Planos Educacionais para o 2º Grau no Estado do Pará 29 Pelo contrário, eles provocaram graves problemas sociais tais como migração intensa e inchaço das periferias das cidades próximas a eles. Mas, na década de 80, o planejamento tecnocrata entrou em declínio e o governo central mudou o tom do discurso. Percebe-se que esta mudança tem relação com a perda gradativa de sua sustentação política. A concepção de planejamento participativo apareceu nos discursos oficiais. Se o discurso mudou, a realidade concreta continuou inalterada: as decisões dos rumos da economia da região continuam a ser tomadas nos gabinetes de Brasília. Uma das poucas transformações percebidas foi com relação aos beneficiários dos incentivos fiscais. Quanto à Conjuntura Política No nível político percebe-se que ocorreram mudanças de nomes, mas não no estilo de fazer política. Em 1964, o governo do estado foi assumido pelo Coronel Jarbas Passarinho e a prefeitura pelo Major Alacid Nunes. Este "novo poder" que se instalou colocou em declínio o domínio político de Magalhães Barata. Entretanto, a política não mudou de tom, continuou personalista. Divergências ou brigas por espaço político provocaram o rompimento de Jarbas Passarinho com Alacid Nunes. Este nas eleições diretas para governador em 1982 apóia o candidato de oposição, naquele momento representada pelo PMDB. O Sr. Jáder Barbalho assumiu o governo com promessa de novos tempos, entretanto governou o estado da mesma forma que seus antecessores, que tanto criticou durante sua campanha. Finalmente em 1986, quando das novas eleições para o governo, o Sr. Jáder Barbalho fez seu sucessor o Sr. Hélio Gueiros, Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 ESPÍRITO SANTO, Maria Angélica Alberto do 30 estabelecendo de forma acentuada o continuísmo das relações políticas. A desvinculação entre as políticas econômicas e as políticas sociais acabaram por aprofundar o grande fosso social entre os segmentos da sociedade, e isso facilitou a prática continuada de uma política pré-ideológica, que, dentre outras coisas, propiciou a permanência de relações do tipo clientelista. Entretanto, outras formas de organizações políticas estiveram presentes nesse cenário a partir da década de 80, mas estas, apesar de terem travado embates com as forças políticas tradicionais, não conseguiram impor seu predomínio. Especificamente com relação à educação os projetos econômicos/políticos consideravam as necessidades educacionais vinculadas às necessidades do mercado e possuíam caráter quase sempre compensatório, mas a prática destas políticas mostrou o quanto elas estavam equivocadas. E a educação de 2° grau como foi pensada nessa década? Que papel lhe foi reservado e em que concepção se apoiou? Nos Planos Nacionais de Desenvolvimento, Planos de Desenvolvimento da Amazônia e nos Planos Setoriais de Educação encontraremos o que se traçou para a Educação. Percebe-se que tanto o II PND, quanto o II PSEC e II PDA apontam para a necessidade de educação. Entretanto, adotam visões diferentes no que tange ao papel que ela deveria desempenhar. Considero o II PND mais avançado, pois nele já estão presentes, por exemplo, críticas à chamada "teoria do crescimento do bolo". O II PDA, apesar de reconhecer os problemas gerados pelo crescimento desequilibrado, superestima o papel da Educação para saná-lo, deixando de lado Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 Planos Educacionais para o 2º Grau no Estado do Pará 31 as causas estruturais do desequilíbrio. O II PSEDC continua a expressar uma visão tecnicista despolitizaste da Educação e inspira-se ainda na "teoria do capital humano li; é uma visão utilitarista, mas ao mesmo tempo considera que a igualdade de acesso à escola possibilitaria a ascensão social dos escolarizados. Ficam também evidentes as mudanças no nível do discurso entre o II e o III PND, principalmente quanto à concepção de planejamento utilizada; se no II PND o planejamento é eminentemente técnico, no III PND este passa a ser visto como um processo dinâmico condicionado pela própria evolução da sociedade. Na verdade, o Estado tenta, desta forma, pelo menos em nível de discurso, chegar mais perto da população, uma vez que suas bases de sustentação política encontravam-se extremamente frágeis. Conclui-se também que esta mudança de tom é também decorrente das pressões das demandas da sociedade civil organizada pela democratização do país. O III PND assume um discurso distributivista onde a expansão e melhoria da Educação estavam incluídas. O III POA preconiza igualmente a redução das desigualdades sociais via Educação, mas esta ainda permanece voltada essencialmente para o mercado de trabalho. Fica constatado, desta forma, que o caráter utilitarista da Educação continua a predominar, muito embora reconheça-se que as propostas de políticas públicas também possuem caráter distributivo e compensatório. O II PSEDC considera a Educação como mecanismo de redução das desigualdades sociais, ou melhor, para ele é a Educação que vai solucionar as distorções provocadas pelo mercado econômico; tal como o III PNO, dá à educação uma conotação distributivista. Este é o primeiro plano educacional em que está presente a idéia de que a Educação seria a Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 ESPÍRITO SANTO, Maria Angélica Alberto do 32 fomentadora da participação política e responsável pela conquista da cidadania. No que diz respeito à Região Norte, o III PSEDC conclui que a capacitação dos recursos humanos é primordial para que esses assumam papel de agentes de mudança. Esse ponto deveria ser um dos fundamentais, haja vista o grande número de professores leigos que atuam na Educação, principalmente no interior, onde as condições de trabalho, juntamente com os salários percebidos, podem ser considerados como a verdadeira "máquina" responsável pela criação dos mesmos. Em relação ao planejamento, constata-se que o III PSEDC adota a concepção de planejamento educacional descentralizado e participativo. Entretanto o que se constata é que, apesar da tônica participativa do discurso tanto do III PND como do III PSEDC, na prática não ocorrem mudanças, dado o acirramento da crise do Estado e a profunda recessão do período de 1981/84, o que impossibilitou a implementação das ações, em geral, e no setor educacional, em particular. No I Plano de Desenvolvimento da Amazônia da Nova República, percebe-se a preocupação em redefinir a função social e política da Educação. O Plano também reconhece que as desigualdades sociais são conseqüência de um modelo concentrador de renda e da propriedade, e passa a ver a Educação e a Cultura como instrumentos que, priorizados, se transformariam em forças sociais com o poder de acelerar a ruptura de uma ordem social subdesenvolvida e dependente. Assim, a Educação passa a ter a função de minimizar os efeitos provocados pelo modelo econômico adotado. Percebe-se no documento a preocupação de adequar o sistema educacional ao sistema ocupacional. A perda de impacto das políticas do Governo Central, bem como o enfraquecimento das linhas de financiamento, parece ter Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 Planos Educacionais para o 2º Grau no Estado do Pará 33 levado os Governos Estaduais a não elaborarem planos específicos. Isso ocorreu no Estado do Pará, onde o governador eleito em 1982 não elaborou um plano educacional para seu período de governo. Apesar das intenções declaradas pelo Governo com relação à Educação, para o período de 1983 a 1986, que podem ser resumidas nos seguintes objetivos: reciclagem urgente do quadro docente da rede pública e qualificação dos docentes leigos; construção de novas escolas pela própria comunidade, através de mutirões, associações, etc., para suprir o défict do pré-escolar e do ensino médio; interiorização do ensino fundamental e médio; expansão das oportunidades educacionais; melhoria da qualidade de ensino; valorização do magistério, quando se coteja o declarado com o concretizado percebe-se que: 1- Com relação à expansão da rede física: houve um aumento considerável da rede de ensino, mas este não se deu via construção de novas escolas e sim a partir do aproveitamento do espaço ocioso das escolas de 1º grau, principalmente no turno da noite, e através do SOME - Sistema Modular de Ensino para o interior. Os dados apontam também que a expansão foi eminentemente urbana e predominantemente feita pelo Estado. A rede particular neste período sofre inclusive uma diminuição de tamanho. 2- Quanto à melhoria do ensino e ampliação das oportunidades educacionais: apesar da expansão da rede física implicar ampliação do atendimento às demandas, não se descarta a possibilidade de terem sido privilegiadas áreas onde as necessidades eram menos prementes em função do caráter clientelista de que se tem revestido a criação de cursos. Não foi possível encontrar dados que possibilitassem detectar os turnos que estavam sendo ampliados tampouco dados substanciais Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 ESPÍRITO SANTO, Maria Angélica Alberto do 34 sobre a qualidade do ensino oferecido. O que se conseguiu verificar é que o aumento do número de matrículas no 2º grau foi muito reduzido. Constata-se tão-somente, comparando o período de 83/87, a ocorrência de um aumento expressivo de vagas, e este período corresponde exatamente ao fim do governo de Jáder Barbalho e início do governo Hélio Gueiros. Não foi possível obter dados que possibilitassem construir uma série histórica que levasse a conhecer a demanda real para o 2° grau. Pôde-se apenas constatar que o número de matrículas da 1ª série do 2°grau é muito maior que o número de concluintes da 8ª série, levando a inferir que o índice de evasão e repetência no início do ensino médio é muito alto. A adoção do "vestibulinho", ou seja, o exame ao qual são submetidos os candidatos à Ia série do 2° grau, pode indicar a procura da população pelo ensino de boa qualidade na rede estadual. Outra constatação é a de que os movimentos pela ampliação de vagas nas escolas ocorrem basicamente no início do ano letivo, quando da efetivação da matrícula; durante o resto do ano os demandantes aparentemente emudecem. A pesquisa também possibilitou concluir que informações que poderiam melhor qualificar o 2° grau não estão disponíveis, como o número de alunos por turno, o número de alunos que trabalham, dentre outras. O que chamou atenção foi o alto índice de abandono, aqui denominado de "repetência branca", ou seja, prevendo a reprovação ao final do período letivo, o aluno deixa a escola bem antes de seu término. É interessante observar que as habilitações oferecidas contemplam mais o setor terciário, já que os custos para seu funcionamento não são altos. O aluno matricula-se em tais habilitações mesmo sabendo que dificilmente terá no mercado Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 Planos Educacionais para o 2º Grau no Estado do Pará 35 de trabalho uma colocação onde possa colocar em prática aquilo que aprendeu. Assim como a expansão da rede física foi eminentemente pública, o mesmo ocorreu com relação à oferta de vagas. Os dados apontam que a rede estadual foi a grande absorvedora da demanda no período em questão. Enunciei que a ampliação das oportunidades educacionais seria vista também levando em consideração a trajetória do alunado deste grau de ensino. Neste sentido pude concluir que mesmo que proporcionalmente a rede pública estadual tenha sido a grande absorvedora da demanda, proporcionalmente não foi ela quem mais aprovou. Quanto à conclusão do 2° grau, os dados mostraram que na rede estadual no período de 1983 a 1986 houve um aumento relativo no número de concluintes na ordem de 17%. Isto posto, chega-se à conclusão de que no governo Jáder Barbalho as oportunidades educacionais, a grosso modo, aumentaram em termos do número de alunos que conseguiram ingressar no ensino de 2° grau, ou, dito de outro modo, houve a democratização das oportunidades educacionais muito embora ela não tenha sido acompanhada de uma melhoria de qualidade, a julgar pelos percentuais de aprovação e de perdas observadas no período. 3 - No que concerne à qualificação docente: apesar de todos os planos, tanto nacionais como regionais e estaduais, apontarem para a necessidade de investimento no pessoal docente, verificou-se que muito pouco foi feito. Até porque a possibilidade de ver concretizado o planejado depende, dentre outras coisas, de verbas e, pelo que pude observar durante o período de governo em questão, quase nenhuma verba foi destinada especificamente para qualificar professores de 2° grau. Mesmo assim considera-se que houve uma melhoria no nível de Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 ESPÍRITO SANTO, Maria Angélica Alberto do 36 formação inicial dos docentes que atuavam neste grau de ensino. A falta de especificação de recursos para essas ações é visível, tanto é que pude verificar que só em 83 e 85 aparecem especificadas despesas sob a rubrica de "treinamento de recursos humanos", nos outros anos não há especificação desta despesa. Apesar de o Governo ter estipulado as despesas que faria com capacitação, não foi possível constatar de que forma os gastos foram efetuados, por falta de relatórios referentes aos cursos (treinamentos) realizados pelos professores no período. O que se percebe com os dados e as falas é que, se houve esforço para aperfeiçoamento de docentes que atuavam no 2° grau, este foi mínimo, comparado ao que foi feito com relação aos da formação básica inicial. Em relação ao segundo período de governo, levado em conta pelo estudo, verifica-se que as propostas para o ensino, em geral, e para o 2° grau, em particular, não foram diferentes daquilo que foi proposto pelo Governo anterior. O Governo Hélio Gueiros, ao elaborar seu Plano Educacional, estabeleceu como objetivos: a ampliação das oportunidades educacionais; a estimulação do ensino de boa qualidade, que deveria orientar a formação do aluno para o exercício da cidadania; a expansão e diversificação de oferta de vagas; o aumento dos níveis de eficiência escolar; capacitação do pessoal docente e a expansão do ensino de 2º grau para a periferia e horário noturno. Mas ao confrontar o declarado com o realizado, conclui-se que: 1 - Quanto à expansão da rede física, tal qual no governo anterior, foi um fenômeno eminentemente urbano, feito predominantemente pelo poder público. Percebe-se ainda que o aumento do número de estabelecimentos de ensino médio foi muito maior no governo Hélio Gueiros (50), quando comparado ao governo Jáder Barbalho (22). Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 Planos Educacionais para o 2º Grau no Estado do Pará 37 2 - Quanto à melhoria do ensino e ampliação das oportunidades educacionais, verifica-se que entre 1987 e 1991 o ritmo de crescimento de matrículas na rede de ensino de 2° grau estadual foi mais acelerado que no período anterior. Os dados encontrados com relação aos índices de aprovação no 2° grau permitiram concluir que também a porcentagem de aprovação neste nível de ensino foi um pouco menor no governo Hélio Gueiros que no governo anterior. A rede estadual continuou a ser a grande absorvedora da demanda, ou seja, a expansão das oportunidades educacionais se deu predominantemente através do setor público. Ocorre, ainda, uma melhoria no desempenho da rede pública no que se refere ao número de alunos concluintes do 2° grau, quando comparado à rede privada. 3 - Quanto à qualificação docente, pude constatar que a proporção professor/aluno permaneceu estável tal como no governo anterior. Houve também um aumento significativo do número de docentes com licenciatura completa e incompleta, o que talvez tenha contribuído para a melhoria da qualidade do ensino ministrado. Talvez isso justifique, em parte, o maior número de reprovações, pois professores mais qualificados podem também ser mais exigentes e reprovar mais. As informações levantadas também possibilitam concluir que ocorreram algumas ações pontuais na tentativa de aperfeiçoamento em serviço do quadro docente, dentre elas, o Curso de Especialização em Administração em Educação Escolar. Outros registros dão conta da realização de treinamentos, cursos e seminários que atingiram 1.266 professores/técnicos. Quanto ao projeto CEFAM - Centro de Formação e Aperfeiçoamento -, que objetivava promover melhoria no magistério, não encontrei dados sobre quantos foram beneficiados por ele. Apesar da imprecisão dos dados, Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 ESPÍRITO SANTO, Maria Angélica Alberto do 38 ousa-se considerar que em termos de capacitação nesse período não ocorreram grandes avanços qualitativos. Resta então a confirmação da idéia de que a realidade sempre tende a mostrar a distância entre o discurso e sua concretização. Não pode deixar de ser mencionado o fato de que nesse período começa a haver um esforço de qualificação no nível superior através do Projeto de Interiorização da Universidade Federal do Pará, que objetiva melhorar a qualidade do ensino ministrado no interior do estado. Um dos objetivos do trabalho em questão foi o de identificar na expansão do 2° grau no Estado do Pará a influência de práticas clientelistas. Assim, no que concerne à relação entre política educacional e tais práticas chega-se às seguintes conclusões: • É quase consenso a idéia de que a educação é um dos alvos principais de políticos, principalmente durante campanhas eleitorais; certamente porque elas encontram respaldo na forte aspiração por mais e melhor educação encontrada nas mais diferentes camadas da população. As estórias sobre como os vereadores e deputados pressionam o Executivo com o objetivo de obterem uma vaga de servente para fulano, uma vaga de professor para sicrano, e um cargo de direção para beltrano são comuns, e passam de boca em boca. É comum, também, políticos funcionarem como mediadores das demandas educacionais da população, solicitando implantação de escolas e cursos, principalmente para o interior do estado. Entretanto, esses processos ocorrem através de práticas extra-oficiais que não são registradas nos documentos legais. Nos pedidos de construção/implantação de escolas/cursos, a troca de influências constatada através de inúmeros relatos permanece oculta, o que toma difícil a comprovação das práticas clientelistas que grassam no âmbito da educação. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 Planos Educacionais para o 2º Grau no Estado do Pará 39 • Algumas ações desenvolvidas no governo Hélio Gueiros, como A SEDUC vai à Escola, constituíram-se em mecanismos utilizados para quebrar as relações clientelistas existentes no sistema educacional. Isto, no meu entender, mostra que o Governo reconhece a existência dessas práticas na rede de ensino. Então, se o caminho da via política para a expansão do 2° grau fica claro, não dispus porém de muitas evidências sobre o uso dessa via para confirmar interesses particularistas. Para percebê-las de forma concreta, no caso da expansão física da rede de ensino de 2° grau, teríamos de detectar se as escolas construídas o foram em áreas onde elas se faziam realmente necessárias, em outras palavras, se elas realmente atenderam às necessidades daqueles que supostamente as demandaram. • O que se constatou foi que o processo de seleção de diretores para as escolas da rede estadual, apesar de passar por uma mediação de caráter técnico, continuou dependendo, em última instância, da indicação política dos dirigentes, não tendo sido introduzidas práticas que levassem a uma escolha mais democrática e participativa dos dirigentes de escolas. As leituras feitas para a realização deste estudo chamam atenção para uma questão: a necessidade de construção de uma identidade para o 2° grau, tanto com relação à sua função social, como também em função de sua estrutura organizativa. Considero esta questão fundamental, pois apesar das reformulações que sofreu este nível de ensino não conseguiu criar uma identidade e a maioria das propostas feitas para o seu funcionamento procuram relacioná-lo com as necessidades do mercado de trabalho. O certo é que não podemos deixar de reconhecer a existência de uma nova ordem onde o grande capital é o conhecimento. Como pensar em um 2º grau para atender aos novos requisitos, novas habilidades cognitivas que Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 ESPÍRITO SANTO, Maria Angélica Alberto do 40 esta nova ordem está a exigir? Pode até ser que nesta nova ordem o 2° grau não tenha um destaque. Pode ocorrer também que o sistema educativo gerenciado pelo Estado se integre com outros agentes educacionais para viabilizar o tipo de aprendizagem que a nova sociedade está exigindo. No momento, é exatamente isso que o Governo Central está fazendo, não com relação especificamente ao 2° grau, mas com a educação de forma mais ampla. Hoje o Governo Federal, ao repensar o papel da educação, aponta para a necessidade de se recolocar a questão da Educação Profissional e considera que esta tem que enfrentar alguns desafios, como integrar-se a uma política pública de emprego, trabalho e renda, tendo como pano de fundo a busca de um desenvolvimento sustentável. Na perspectiva do Governo, a Educação Profissional deve ser complementar e integrada à Educação Básica, e também deve ser entendida como um processo com começo meio e fim. Para isso, toma-se necessário restabelecer seu foco na empregabilidade, entendida não apenas como capacidade de obter emprego, mas, sobretudo, de se manter em um mercado de trabalho em constante mutação (BRASIL, 1995). Esta é a nova racional idade do Estado; e com ela objetivase uma qualificação profissional para a Amazônia que leve em conta a reorientação de sua estrutura produtiva. Essa reorientação deverá ser conduzida por uma renovação tecnológica das atividades econômicas de reconhecido impacto ambiental, para a modernização das atividades tradicionais e ecologicamente sustentáveis e para o desenvolvimento e implantação de novos ramos de atividades de grande potencial econômico e sustentabilidade ambiental (BRASIL, 1995). Que racionalidade irá se contra por à racionalidade do Estado? Muito embora reconheça que este é um dos primeiros documentos que avança no sentido de enfatizar a necessidade de Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 Planos Educacionais para o 2º Grau no Estado do Pará 41 reorientar a estrutura produtiva, parece pecar por não ter uma proposta para o 2° grau como um todo, mas sim, só para a profissionalização que irá atender os despossuídos. A educação assume, assim, caráter distributivo/compensatório. Os programas que estão sendo criados para colocar em execução estas idéias, como o Programa de Geração de Emprego e Renda - PROGER, consideram fundamental dar uma Educação Profissional, a fim de que o homem possa se inserir no mercado de trabalho e gerar sua própria renda. A clientela a ser atingida por esse programa será constituída de pessoas desempregadas ou subempregadas, das áreas de pobreza urbanas e rural, que serão submetidas a uma capacitação maciça baseada no princípio "aprender-fazendo". É bem provável que este projeto educacional do Estado para a Amazônia esteja respondendo a uma das perguntas que fiz: o sistema educativo, aquele gerenciado pelo Estado, vai dar conta das funções de ensino, ou será que não vamos poder fugir da integração com outros vários agentes educacionais, uma vez que na sociedade do conhecimento a aprendizagem terá de ser processual? Tudo indica que uma das respostas seja esta que o governo central está colocando. Esta é uma proposta de ensino profissionalizante para os despossuídos, resta saber que proposta está sendo feita para a sociedade como um todo. Algumas recomendações Uma das maiores dificuldades no decorrer do desenvolvimento desta investigação foi quanto aos dados disponíveis, ou acesso a eles, principalmente aqueles que em princípio são de responsabilidade da SEDUC. A falta de dados estatísticos impossibilitou que se caracterizasse com maior Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 ESPÍRITO SANTO, Maria Angélica Alberto do 42 exatidão, como era meu objetivo, o ensino de 2° grau. A sensação é que não existe por parte daqueles que são responsáveis pela coleta de informações o empenho necessário para obtê-las de forma rigorosa. Na maioria das vezes, os documentos consultados trabalham com informações fornecidas pela SEDUC, mesmo assim elas são bastante desencontradas em se tratando de um mesmo dado. Daí porque uma das sugestões que faço é que a SEDUC comece a ter como uma de suas preocupações centrais a necessidade de caracterizar ou qualificar com maior rigor o ensino em geral e o de 2° grau em particular. Esta sugestão baseia-se no pressuposto de que é impossível pensar em qualquer política pública sem se ter um profundo conhecimento da realidade. Como planejar se não sei para quem, quantos, onde e quando? Outras informações elementares, por exemplo, o número de alunos que a todo ano se inscrevem para o "vestibulinho", a SEDUC não tem. Pergunto: como é planejado esse exame, quantas provas são impressas? O desconhecimento da clientela a ser atendida implica desperdício do dinheiro público. Além da proposta do Governo Federal, de uma política educacional que tenta atender os despossuídos, não seria a oportunidade de fazer um amplo esforço para se ter uma fotografia bem nítida do 2° grau no Estado do Pará e a partir desta propor uma política educacional que realmente viesse a atender a grande maioria daqueles que demandam por esse nível de ensino e não apenas os despossuídos? Desta forma, estaríamos tentando superar a idéia de pensar políticas sociais tendo como alvo apenas os carentes, assumindo assim caráter eminentemente compensatório, para atingirmos outro patamar, ou seja, pensar as políticas sociais, dentre elas as educacionais, como geradoras do desenvolvimento econômico e Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 Planos Educacionais para o 2º Grau no Estado do Pará 43 social e, principalmente, do desenvolvimento da cidadania. Dito de outro modo, ver as demandas educacionais como "bens públicos" aos quais todos os segmentos da população têm direito a acesso. Para que isso pudesse vir a ser concretizado, um modo novo de fazer política teria de ser utilizado, uma vez que a política tradicional, tão conhecida no cenário paraense, que enseja práticas c1ientelistas, não dá conta de atender adequadamente uma política de massas. Segundo Ibarrola e Gallart (1994), a nova Educação Média deve insistir não somente naquela noção de "formação integral básica", que caracterizou, mas por vez diluiu o sentido das inovações educativas da década de 70; hoje, em decorrência da complexidade das sociedades, deve-se insistir na formação eficiente dos jovens, de maneira que sejam capazes de transformar as estruturas produtivas para gerar melhores condições de vida e de participação consciente como cidadãos na grande quantidade de decisões que vão delimitando o tipo de desenvolvimento nacional desejado. O crescimento e a heterogeneidade da população que ascende a este nível de ensino e a igual complexidade das demandas econômicas, políticas e culturais de um mundo imerso em mudanças vertiginosas impõem desafios à educação em geral e à Educação Média em particular. Desta forma, de acordo com as autoras citadas, quatro desafios se impõem ao 2° grau: 1 - Modificação dos conteúdos, de maneira que possam atender as exigências do desenvolvimento. 2 - Reconhecimento da heterogeneidade do alunado, que hoje acorre à Educação Média. 3 - Permitir que haja trânsito até a Educação Superior, porém também garantir uma formação pertinente e relevante Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 ESPÍRITO SANTO, Maria Angélica Alberto do 44 para o desempenho pessoal, profissional e social, ou seja, tratase de oferecer alternativas educativas levando-se em conta a diversidade de preferências e destinos, fazendo do nível secundário uma experiência educativa relevante e útil para todos. 4 - Transformar profundamente sua forma de gestão e organização, sem a qual não poderá haver as inovações necessárias para implantar uma educação de qualidade em um tempo em que as orientações são para a redução do Estado e o financiamento prevê avaliação de produtos e prioridade para a Educação Básica. Qualquer proposta que se faça deve levar em conta o volume de recursos destinados a estas transformações, não se pode pensar em transformar, expandir com recursos exíguos. Além do mais a competência técnica dos atores envolvidos com esta transformação é outro dado que não pode ser esquecido. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.27-52, jul./dez., 1997 Planos Educacionais para o 2º Grau no Estado do Pará 45 Bibliografia ALMEIDA, Maria Hermínia Tavares de. Federalismo e Políticas Sociais. In: Redefinição de Competências entre Esferas de Governo na Prestação de Serviços Públicos na Área So¬cial. São Paulo: IESP/FUNDAP, 1994. AVELAR, Lúcia. Mudanças Estruturais, Crise Política e Eleições no Brasil. Campinas: UNICAMP, 1994. (mimeo) __________, Clientelismo de Estado e política educacional brasileira. Campinas: UNICAMP: 1994. BARRETTO, Elba S. de Sá, et. al. Ensino de 1º e 2° graus: intenção e realidade. São Paulo: Cortez, set., 1979. 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Partimos da idéia de que as políticas para a educação superior são formuladas através de uma relação conflituosa estabelecida entre o Estado e outras forças sociais que compõem * Dissertação defendida no dia 29.11.96, junto ao Programa de Pós-Graduação do Centro de Educação da UFPA, Mestrado em Educação: Políticas Públicas, sob a orientação da Dra. Maria Cecília Pinto Pires. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 CHAVES, Vera Lúcia Jacob 54 a sociedade brasileira. Dentre essas forças sociais, destacamos o Movimento Sindical dos Docentes das Instituições de Ensino Superior. A intenção foi a de investigar se as ações políticoideológicas desenvolvidas pelo MD têm buscado construir outro projeto de universidade, que contribua para a formação de uma nova hegemonia, contrapondo-se ao projeto de Universidade Escolarizada, defendido pelo Governo Federal. Este estudo se situa no âmbito de uma análise históricopolítico-sociológica e não se alarga para uma análise macroeconômica por razões de limitação do tema/problema e do interesse da investigação. Respalda-se nas categorias Gramscianas de Estado, Intelectuais e de Hegemonia e nos conceitos de Poulantzas sobre poder. A pesquisa foi subsidiada por dados coletados em fontes primárias (14 entrevistas depoimentos com base em roteiro semi-estruturado adaptado de acordo com o desenrolar das mesmas) e secundárias (documentos existentes na ADUFPA e na UFPA como: atas de assembléias, levantamentos estatísticos, jornais, boletins e revistas, considerados relevantes para o estudo). O desenvolvimento do estudo Compreendemos que a Associação dos Docentes da UFPA-ADUFPA integra um movimento nacional, tendo suas ações pautadas em consonância/dissonância com as deliberações definidas nacionalmente nos Congressos e Conselhos Nacionais das ADs. Dessa forma, procuramos construir o perfil do Movimento Docente organizado, em âmbito local, estabelecendo relações com o Movimento Nacional. Para tanto, analisamos a atuação do MO desde o seu surgimento, Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 O Movimento Docente na UFPA... 55 considerando: as suas lutas e propostas, os conflitos com a política desenvolvida pelo Governo Federal, as relações estabelecidas com os servidores e os estudantes, as relações com a reitoria, os atritos internos do próprio MD, as greves e seus resultados. O trabalho foi estruturado em quatro capítulos. O primeiro, introdutório, trata das origens do trabalho, da problemática, dos objetivos e da metodologia utilizada no desenvolvimento do estudo. O segundo capítulo, denominado de O Estado e as relações de poder, trata dos aspectos teóricos da pesquisa, onde procuramos discutir as categorias Gramscianas: Estado, intelectuais orgânicos e hegemonia com o objetivo de subsidiar as análises sobre o objeto de estudo. O referencial teórico Gramsciano e os conceitos de Poulantzas sobre a questão do poder foram priorizados por possibilitarem a compreensão de que a Universidade, enquanto aparelho de hegemonia, constitui-se também num espaço de contradição de classes, onde se trava uma verdadeira luta ideológica em que o "velho" e o "novo" coexistem num campo de conflito. Conflito este decorrente dos conflitos da sociedade civil. Consideramos como "luta ideológica" o conflito existente entre o Movimento Docente organizado por meio de seu sindicato Nacional (ANDES) e o Governo Federal, representado pelo seu interlocutor - o Ministério de Educação (MEC). A ANDES defende um projeto "progressista" de "Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade" que atenda aos interesses da população, enquanto o MEC defende a manutenção do "conservadorismo", ou seja, o domínio político-ideológico da Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 CHAVES, Vera Lúcia Jacob 56 elite burguesa brasileira, hoje com a vestimenta do neoliberalismo. Iniciamos o capítulo discutindo a concepção de Estado em Gramsci que o define como "todo o conjunto de atividades teóricas e práticas com as quais a classe dirigente justifica e mantém não somente a sua dominação, mas também consegue obter o consenso ativo dos governados". (GRAMSCI,1988(b), p.87) Gramsci amplia a concepção de Estado, que em Marx está ligada à divisão da sociedade em classes, acrescentando novas determinações. Para ele, o Estado é produto de uma correlação de forças, não atendendo apenas aos interesses da burguesia como também da classe trabalhadora, porque precisa da hegemonia. O que garante a permanência dos interesses do Estado é, portanto, uma situação de equilíbrio de forças, mantidas pela coerção ou através de uma ação políticoideológica que garanta um consenso. Em sua formulação, o Estado é visto não somente em sua função coercitiva, mas como um mecanismo que estabelece o equilíbrio entre os interesses da sociedade política com a sociedade civil, garantindo, dessa maneira, a hegemonia ou a direção de um determinado grupo social sobre a sociedade nacional inteira. Concluímos que o Estado Nacional é marcadamente ideológico e substancialmente econômico estabelecendo-se pela capacidade que tem de persuadir de seduzir e não apenas de coagir. Para isso, utiliza seus aparelhos ideológicos, dentre eles as universidades, a fim de conquistar a hegemonia. Em seguida, refletimos sobre o papel dos intelectuais na formação da hegemonia, que, para Gramsci, têm por função homogeneizar a classe que representam, exercendo a direção Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 O Movimento Docente na UFPA... 57 ideológica e política de um sistema social. O que caracteriza o intelectual orgânico é sua adesão ao grupo social a que se vincula, em função do modo de produção. Assim como a classe dominante conta com seus intelectuais burgueses, a classe dominada firma aliança com grupos de intelectuais orgânicos que se colocam a seu serviço. Isto não significa que, necessariamente, os intelectuais originem-se diretamente da classe que representam, mesmo porque a maioria deles é oriunda das classes auxiliares à classe dirigente. É essa "autonomia" dos intelectuais em relação à classe originária que contribui para romper com o vínculo orgânico que os ligava a ela, denominado por Gramsci de crise orgânica. Para Gramsci, existem diferentes categorias de intelectuais: o tradicional, que é reacionário, conservador, não deseja mudanças e que está vinculado a interesses do modo de produção já ultrapassado. O eclesiástico, que é o tipo mais característico desta categoria intelectual. O revolucionário, que é o que luta pela revolução, trabalha por ela, está ligado à classe trabalhadora. As observações sobre os intelectuais tradicionais e orgânicos, os grupos tradicionais que se separam e tentam conquistar sua autonomia e as diferentes formas de assimilação dos intelectuais tradicionais, por parte dos novos grupos dominantes, movem-se todas no interior do critério da análise histórico política empreendido por Gramsci - o da identificação entre a direção e a hegemonia política, na análise do Estado. Para ser criado um novo sistema hegemônico é necessário que as classes subordinadas estejam organizadas no sentido de construírem a sua própria direção política e ideológica, antes da explosão da crise. A conquista da direção político-ideológica e do consenso de grande parte da população, denominada por Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 CHAVES, Vera Lúcia Jacob 58 Gramsci de guerra de posição, implica um consenso ativo, organizado e participativo, como também unidade na diversidade, isto é, um movimento dialético e democrático. O rompimento das classes subalternas com a ideologia dominante se dá através da aquisição da consciência de classe. Isto implicará a criação de seus próprios intelectuais orgânicos, a absorção dos intelectuais das camadas aliadas e o desenvolvimento de seu sistema hegemônico. A conquista da hegemonia passa pelos diferentes momentos da relação de forças. A questão da hegemonia não aponta apenas para a formação de uma vontade coletiva, capaz de criar um novo aparelho estatal e de transformar a sociedade. Aponta, também, para a difusão de uma nova concepção de mundo. É na luta pela hegemonia de uma classe sobre a outra, que ganha importância o reconhecimento das organizações ditas privadas da sociedade civil: a Igreja, os Sindicatos, as Escolas, etc. Gramsci destaca a importância das instituições educativas à medida que a escola pode se constituir num instrumento auxi¬liar de elaboração da hegemonia das classes subordinadas, antes da conquista do Estado. Em relação às universidades, é dado um papel fundamental na formação da consciência crítica, podendo emancipar os sujeitos do domínio ideológico da classe dominante e assim contribuir para a construção de uma nova concepção de mundo. No terceiro item do capítulo, procuramos refletir sobre as relações de poder e sua efetividade dentro do Estado, através do referencial teórico Gramsciano e dos conceitos de Poulantzas sobre poder. Afirmamos que qualquer grupo que aspira ao poder precisa atrair intelectuais, a fim de fortalecer a sua hegemonia. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 O Movimento Docente na UFPA... 59 Para compreender a questão do poder em Gramsci é necessário discutir a posição dos intelectuais na esfera da política e a importância de sua atuação para a conquista da hegemonia. Os intelectuais têm a função de dar a direção política e ideológica ao bloco histórico, pois são eles que elaboram a ideologia da classe dominante, transformando-a numa concepção de mundo que impregna todo o corpo social. Os "proletários" podem construir sua hegemonia e aspirar à direção da sociedade produzindo seus próprios intelectuais. A estratégia de Gramsci consiste em estabelecer organizações da classe trabalhadora que, através de seus intelectuais orgânicos e seus aliados, possam criar e difundir uma nova concepção de mundo, desenvolvendo seu próprio sistema hegemônico e rompendo com o bloco ideológico das classes dominantes. Destacamos que, na análise de Poulantzas sobre a questão do poder, as lutas de classe têm um papel fundamental, ultrapassando o poder do Estado, à medida que seu campo de atuação é o das relações de poder, relações estas que estão presentes tanto na exploração econômica como nas relações político-ideológicas de domínio. De acordo com Poulantzas, a política do Estado é definida a partir das contradições de classes e frações hegemônicas do bloco no poder que, divididos em redes e trincheiras diferentes, representam interesses divergentes. Neste sentido, compreendemos que as políticas educacionais para o ensino superior são atravessadas pelas lutas de classes e definidas a partir do jogo dessas contradições de classes. No terceiro capítulo, revisitamos a História da Política Educacional para a Universidade, situando a criação da Universidade Federal do Pará e a organização dos intelectuais universitários e seu projeto político para as Universidades. O Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 CHAVES, Vera Lúcia Jacob 60 debate travado entre o Movimento Docente e o Ministério da Educação sobre alguns temas como a autonomia e a avaliação foram incluídos, com o objetivo de buscar a compreensão e elucidar a definição desta política e as ações político-ideológicas que a permeiam. Compreendendo que a política educacional é parte das políticas sociais, iniciamos o capítulo fazendo um esclarecimento preliminar sobre como essas políticas têm sido definidas no Brasil. Assim, procuramos apresentar um panorama geral da situação da educação no Brasil, que é conseqüência das políticas desenvolvidas para o setor pelos governos brasileiros, legítimos representantes dos interesses das classes dominantes no país e defensores da ideologia liberal. O estudo evidenciou que as políticas sociais desenvolvidas pelo Estado Brasileiro são caracterizadas por práticas assistencialistas e clientelistas e pela privatização dos serviços sociais básicos, como a educação e a saúde, intenção presente na lógica do capital, dirigido pelo fenômeno da globalização. Em se tratando das políticas educacionais para as universidades públicas, o Estado brasileiro tem-se pautado pela ação intervencionista, procurando manter o controle político e jurídico, através de leis, decretos, medidas provisórias e da utilização do poder controlador do MEC e do Conselho Federal de Educação, limitando a autonomia das Universidades mesmo esta estando "garantida" na LDB de 1961 e na Constituição Federal de 1988. O Estado brasileiro cumpre uma função gerencial efetivada por uma ação intervencionista. No que tange à universidade pública brasileira é possível afirmar que, como aparelho ideológico do Estado, é marcada pela luta de classes e constitui-se num espaço de conflitos ideológicos em que convivem as posições políticas mais Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 O Movimento Docente na UFPA... 61 diversas. É uma instituição que vive numa situação de ambigüidade, pois, se por um lado tem como função a formação da elite intelectual burguesa e a reprodução de uma estrutura de poder mais conservadora, por outro existe no seu interior grupos de docentes, discentes e funcionários comprometidos com a defesa dos interesses da classe trabalhadora e com a formação de uma nova elite intelectual vinculada a esta classe. A análise histórica sobre a política para a educação superior apontou que, se durante muito tempo os docentes apresentaram uma postura quase débil em prol de mudanças na estrutura social, a partir do surgimento do Movimento Docente, no final da década de 70, estes têm constituído-se em importantes interlocutores nas negociações com a burocracia estatal para a definição das políticas universitárias no país. O quarto capítulo tem como objetivo analisar a atuação do movimento docente na definição das políticas para a UFPA, no período de 1979 a 1994. Este capítulo foi desenvolvido com base, principalmente, na análise das entrevistas realizadas. Demos destaque ao processo de democratização e suas implicações na disputa de poder na universidade, discutimos as relações internas da ADUFPA e as (des)articulações com as outras forças sociais organizadas na UFPA, e finalizamos com uma análise global das greves, dando ênfase para a questão político-ideológica, à medida que estas têm sido utilizadas como instrumento de resistência às políticas desenvolvidas pelos governos brasileiros para as Universidades Públicas Federais. Concluímos que, historicamente, as lutas travadas pelo Movimento Docente não se restringiram ao aspecto corporativista, embora tenham sido as questões salariais e de carreira que motivaram a maioria dos docentes no sentido de construir greves fortes e movimentos de massa. O MD teve um Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 CHAVES, Vera Lúcia Jacob 62 papel fundamental na luta pela democracia da sociedade brasileira. Organizaram-se e criaram sindicatos locais e, ao mesmo tempo em que reivindicavam condições dignas de salários, discutiam um projeto político para a Universidade e lutavam pela democracia na sociedade. A ANDES-SN Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior Sindicato Nacional - se diferenciou dos demais sindicatos, quando pensou e discutiu um projeto político para a Universidade Brasileira. Ao transformar-se em Sindicato Nacional, a ANDES assumiu a luta para a construção de uma nova cidadania, a dos trabalhadores, que passa pela ampliação dos direitos econômicos, pela reconstrução e redefinição das instituições, dimensionando novos conteúdos sociais, explicitados em defesa de direitos básicos, como saúde e educação. Nesse sentido, Florestan Fernandes faz a seguinte avaliação: Entidades como a APEOESP e a ANDES já nasceram e cresceram fora e acima das circularidades do paternalismo, do clientelismo e da inibição moral mal compreendida. Compuseram-se como formas de autoorganização coletiva dos professores, que cobraram da sociedade civil e do Estado o direito (e o dever) de falar grosso nas questões de níveis salariais, das condições de organização e funcionamento das escolas, do combate à ditadura e da defesa concomitante das liberdades civis e políticas, da democracia como governo e estilo de vida, etc. (1990, p. 75) Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 O Movimento Docente na UFPA... 63 Assim, dentre as ações desenvolvidas pelo MD, destacamos: a participação efetiva na luta pela anistia ampla, geral e irrestrita, na "marcha das diretas-já" e pela instalação da Assembléia Constituinte; a resistência ao projeto de transformação das universidades federais autárquicas em fundações; a conquista da atual carreira docente e de expressivos ganhos salariais; a defesa da qualificação dos professores e a existência de um quadro permanente de carreira; a luta pela democratização da universidade com a eleição direta de seus dirigentes, a começar pelo reitor; a rejeição do projeto GERES Grupo Executivo para Reformulação do Ensino Superior - e dos outros projetos apresentados pelo Governo Federal que pretendiam dividir a Universidade em duas: uma dedicada à pesquisa (Centros de Excelência) e outra dedicada ao ensino (Escolão de terceiro grau), situações vivenciadas até hoje. No que diz respeito à luta pela democratização da Universidade Federal do Pará, esta constituiu-se num processo dialético de avanços e recuos. Representou um avanço porque conquistou espaços democráticos nas esferas de poder da Universidade, através das eleições diretas para todos os cargos administrativos. Contraditoriamente constituiu-se, também, num retrocesso, à medida que foi desenvolvida, no interior da Universidade, uma prática eleitoral burguesa, baseada no fisiologismo e no c1ientelismo, o que provocou divisões internas entre os segmentos da comunidade universitária. Isto transformou a universidade numa arena para exercício do poder, distorcendo radicalmente o sentido da universidade enquanto espaço público de produção e difusão do conhecimento. Em se tratando da relação da ADUFPA com a Reitoria da UFPA, o estudo apontou que apesar das diferentes concepções político-ideológicas presentes nas Diretorias da ADUFP A, Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 CHAVES, Vera Lúcia Jacob 64 desde a sua origem, independentemente do grupo político que esteve à frente da direção da entidade, elas têm mantido uma relação autônoma e na maioria das vezes conflituosa com a Administração Superior da UFPA. As divergências com a Reitoria foram estendidas para o interior do movimento docente, contribuindo para o acirramento dos conflitos entre os grupos que disputavam o poder. As relações que se estabeleceram foram relações de poder que se confrontaram na disputa dos papéis sociais e políticos. O grupo que assumiu o poder na administração superior da Universidade possuía interesses divergentes e antagônicos em relação aos que assumiram o poder na ADUFPA. Diversos foram os momentos de agravamento das tensões entre as Diretorias da ADUFPA e a Reitoria. Destacamos a questão da incorporação da URP (26,05); a defesa pela Reitoria da "Proposta de uma Nova Política 'para o Ensino Superior", do Governo Collor, conhecida como PEC-56B, e o Projeto de Interiorização da Universidade Federal do Pará. Concluímos que o conflito existente entre as Diretorias da ADUFPA e a Reitoria é originado por concepções diferentes de universidade. Além do embate entre projetos, está, também, implícita uma disputa de poder que acabou interferindo no relacionamento da ADUFPA com a Associação dos Servidores da UFPA, hoje, SINTUFPA. Sobre as (des)articulações com funcionários e estudantes, podemos afirmar que, de acordo com o depoimento dos entrevistados, houve momentos em que a ADUFPA fez alianças conjunturais com o DCE e com a ASUFPA. Entretanto, a relação com esses segmentos tem sido difícil, chegando mesmo em algumas ocasiões a ocorrerem conflitos políticos, principalmente com a ASUFPA/SINTUFPA. Esta situação provocou o rompimento das relações entre eles. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 O Movimento Docente na UFPA... 65 A situação de conflito gerada entre as duas entidades sindicais fortaleceu a divisão da classe trabalhadora no interior da Universidade. Esta divisão contribuiu para o enfraquecimento de suas lutas em defesa de uma Universidade democrática, uma vez que as relações passam a ser de enfrentamento, como ficou evidenciado nos momentos de greve, quando as duas entidades não conseguiram conduzir o processo conjuntamente. As (des)articulações entre o movimento dos estudantes e o dos docentes se efetivaram principalmente na defesa pela democracia da Universidade. Ao mesmo tempo em que se articulavam na luta pelo processo democrático, contraditóriamente, os encaminhamentos tirados para definir os critérios das eleições se confrontavam, pois os estudantes desde o início defendiam voto universal, enquanto os docentes deliberavam em suas assembléias pelo voto proporcional. Isso criava atritos entre os dois movimentos, embora não afetando as relações cotidianas entre eles. Concluímos que os segmentos organizados, no interior da UFPA, estabelecem relações complexas e contraditórias que acabam contribuindo para a consagração e reprodução da hegemonia da fração de classe que detém o poder na Universidade, pois, segundo Poulantzas" Os aparelhos de Estado consagram e reproduzem a hegemonia ao estabelecer um jogo (variável) de compromissos provisórios entre o bloco no poder e determinadas classes dominadas. Os aparelhos de Estado organizamunificam o bloco no poder ao desorganizardividir continuamente as classes dominadas polarizando-as para o bloco no poder e ao curtoVer a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 CHAVES, Vera Lúcia Jacob 66 circuitor suas organizações políticas espec(ficas (1985, p. 163) O MD, em sua dinâmica interna, é permeado por contradições, dada a sua "composição social" heterogênea, o que gera divergências entre os docentes. É possível afirmar que existe na composição dos docentes da UFPA dois grupos distintos de intelectuais, que se confrontam, permanentemente, no interior da Universidade. As divergências internas do Movimento Docente são de natureza político-ideológica, mostrando a diversidade da categoria docente. Esse fator dificulta a formação de uma unidade de classe e a identificação dos docentes como classe trabalhadora. Isto prejudicou o encaminhamento para ampliação de alianças com os servidores, estudantes da Universidade e outros setores da sociedade civil, fragilizando o movimento e impedindo o avanço no enfrentamento das lutas maiores. Os governos brasileiros têm, sucessivamente, procurado desenvolver uma política autoritária e centralizadora para o ensino superior, que se contrapõe aos objetivos do Movimento Docente, provocando uma situação de conflito políticoideológico permanente. A cada investida do governo contra a universidade pública, os docentes resistem, organizando diferentes formas de mobilização, como a produção de documentos, denunciando o interesse do Governo em destruir a universidade pública; pressões no Congresso Nacional, evitando que projetos privatizantes sejam aprovados; realização de atos públicos, para esclarecer a população sobre as intenções do Governo; e, como recurso extremo, a utilização da greve. Esta, entretanto, acabou deixando de ser uma excepcionalidade para transformar-se numa rotina na vida das universidades públicas Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 O Movimento Docente na UFPA... 67 federais, devido à indiferença e à insensatez do Governo Federal. Tal situação produz preocupação nas lideranças do MD à medida que não querem passar à história como pessoas que só fazem greve. Ao contrário, as lições de greve ensejam estímulo ao ensino, à pesquisa e à extensão. Assim, no período definido para o estudo, de 1979 a 1994, foram realizadas 10 (dez) greves nacionais nas universidades públicas federais, com algumas diferenças em termos dos eixos fundamentais de pauta priorizados pelo movimento. A única greve nacional da qual os docentes da UFPA não participaram efetivamente foi a de 1985, porque foi uma greve específica das universidades - fundações. Tendo em vista os limites do presente estudo, não fizemos uma análise exaustiva das alianças e enfrentamentos em todas estas greves. Procuramos desenvolver uma análise global das greves, dando destaque para a questão político-ideológica, à medida que essas greves têm sido utilizadas como instrumento de resistência, conseguindo contrapor-se ao projeto político de manutenção da hegemonia estatal dominante, viabilizada pelo MEC. Elaboramos um quadro geral das greves nacionais, destacando os antecedentes, ou seja, as medidas adotadas pelo Governo para o Ensino Superior, bem como as ações do MD que contribuíram para a deflagração das greves; as principais reivindicações de cada greve; os atores envolvidos, compreendendo a adesão das ADs e os resultados do movimento para a categoria. Para elaborar esse quadro utilizamos fontes documentais existentes nos arquivos da ADUFP A, tais como: livro de atas, boletins, jornais, informativos e cadernos de teses dos Congressos e dos CONADs da ANDES. Em seguida, fizemos uma reflexão sobre os rituais de preparação do Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 CHAVES, Vera Lúcia Jacob 68 movimento grevista, a dinâmica das greves e suas conseqüências para a definição das políticas para as universidades públicas federais, tendo como referência o cotidiano das greves na Universidade Federal do Pará e as entrevistas realizadas com os dirigentes do movimento docente local. Ao analisarmos as greves organizadas pelo MD, constatamos que, apesar de terem como eixo central de luta a questão salarial e a carreira docente, sempre houve, por parte do movimento docente, uma preocupação em enfatizar questões gerais da política educacional. Assim, nas pautas de reivindicações apresentadas ao Governo Federal/MEC estão sempre presentes questões como: mais verbas para educação, reestruturação da Universidade com base na proposta da ANDES, defesa do ensino público e gratuito, mais verbas de OCC - outros custeios e capital - para as IFES, autonomia e democratização com escolha dos dirigentes das IFES por processo de eleições diretas e democráticas. O quadro geral das greves revela, também, que estas sempre são precedidas por políticas de arrocho salarial e pela apresentação sistemática de propostas de desmantelamento do serviço público no país e de privatização das universidades federais. Avaliando as conquistas das greves, a maioria dos docentes entrevistados apontou como as mais relevantes os ganhos salariais, a conquista da carreira docente, a questão da incorporação dos colaboradores, mais verbas para as universidades e a manutenção da gratuidade do ensino nas IFES. O estudo sobre as greves nas IFES apontou que estas têm se constituído num importante instrumento de luta do movimento docente frente à Razão do Estado, à medida que o MD vem, insistentemente, resistindo às investidas de implantação de uma política educacional privatista para o ensino Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 O Movimento Docente na UFPA... 69 superior. A resistência do MD, materializada através das greves, tem sido o maior obstáculo para que o Governo avance ainda mais na privatização das universidades públicas e, ao mesmo tempo, tem consolidado a ANDES-SN como importante sujeito coletivo no jogo das políticas educacionais para o ensino superior no país. Ao incluir em suas reivindicações a defesa de um projeto "novo" de Universidade, por meio da "Proposta da ANDES e das ADs para a Universidade Brasileira", elaborado coletivamente e que se opõe ao da elite dominante, o MD procura romper com as velhas concepções de mundo, ao mesmo tempo em que tenta superar as simples reivindicações econômicas. Recorrendo à Gramsci, diríamos que o Movimento Docente, alimentado por greves cíclicas, realizadas a cada um ano e meio ou dois anos, onde não se cansa de "repetir sempre os próprios argumentos", - tem procurado romper com as "velhas concepções de mundo". As greves dos docentes das IFES têm-se caracterizado pela longa duração, pela ampla abrangência (são nacionais) e pelas negociações demoradas e difíceis. Essas greves longas e constantes têm contribuído para o descrédito do movimento, tanto no interior das Universidades quanto externamente, na sociedade civil. Por outro lado, o Estado continua não estabelecendo negociações com os movimentos sindicais do setor público. As duas últimas greves analisadas (1993 e 1994), realizadas em conjunto com os demais servidores públicos federais (SPFs), foram as que apresentaram os resultados mais negativos, demonstrando que, enquanto instrumento de luta, já Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 CHAVES, Vera Lúcia Jacob 70 não conseguem pressionar o Governo como antes, devido à mudança da conjuntura política e histórica. Hoje, temos governos ditatoriais legitimados pelo voto popular, diferentemente dos governos ditatoriais instalados de forma autoritária. Essa legitimidade do Governo tem fortalecido a sua ação, apoiado pela mídia, em "convencer da validade" dos argumentos para a execução do projeto de "Universidade Modernizada". Este se orienta pelas exigências do capital, impostas pelos organismos internacionais como o FMI e o Banco Mundial. De acordo com a proposta do Governo, as universidades seriam transformadas em "organizações sociais" de direito privado, devendo ser gerenciadas pela lógica do mercado, o que configura a privatização do ensino superior público. Essa proposta começou a ser efetivada pelo governador do Estado do Tocantins que, de forma autoritária, baixou uma Medida Provisória extinguindo a Universidade de Tocantins, transformando-a em Fundação de Direito Privado. Considerações finais A Universidade tem sido palco de debates de projetos antagônicos, vivenciando uma "guerra de posições" da qual poderá emergir, segundo Gramsci, uma crise hegemônica. De um lado, o Governo Federal (fala do poder) tenta implementar um projeto de universidade escolarizada dentro da ótica e da lógica do capital. Contrapondo-se a tal projeto, tem-se o Movimento Docente (fala do contra-poder), que defende um outro projeto, no qual a Universidade se constitui numa instituição social de interesse público, responsável pela produção e difusão de Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 O Movimento Docente na UFPA... 71 conhecimentos científicos que possibilitem às massas a construção de uma nova hegemonia. Apesar das vitórias que o Movimento Docente conquistou ao longo dos quinze anos de atuação, as universidades brasileiras vivem uma situação cada vez mais difícil. A redução drástica de verbas para as IFEs estão contribuindo para a falência do ensino superior público no país. Além disso, o Governo Federal vem implementando uma série de medidas provisórias e projetos fragmentários para a educação superior, que fazem parte da "reforma do Estado". Dentre estas, recentemente foi implementado o exame final de curso, conhecido como "provão", que não passa de uma concepção fragmentada e contraditória de avaliação, que tem por objetivo exercer o controle sobre as Universidades, já que deverá ser utilizado para definir uma política de financiamento para as universidades, acabando com sua "autonomia". Essa "reforma do Estado" segue os ditames do Banco Mundial, que defende a "minimização" do Estado, desobrigando-o da prestação dos serviços essenciais à população. Esse processo, conhecido como privatização, inserese no programa de ajuste neoliberal, pretendido pelos grupos dominantes internacionais. Estes, em defesa da "flexibilização", empenham-se em derrotar os trabalhadores organizados. Para tanto, procuram suprimir direitos trabalhistas, arduamente conquistados, investindo contra o movimento sindical visando ao seu desmantelamento. Nesse sentido, atacam os servidores públicos, acusandoos, pejorativamente, de "privilegiados" por terem conquistado, após longas lutas, a estabilidade no emprego e a aposentadoria integral. A pretensão do Governo é a aniquilação dos serviços públicos, começando pelo controle ideológico da fome, uma vez Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 CHAVES, Vera Lúcia Jacob 72 que há mais de mil dias não há aumento salarial, em nome do "Plano Real". O desafio para o Movimento Docente organizado nas universidades está posto. Apesar das dificuldades atuais de participação dos docentes nas atividades organizadas pelas ADs e de refluxo do movimento, é necessário, mais do que nunca, construir/reconstruir a resistência da comunidade universitária em face das políticas do Governo para destruição da universidade pública. É preciso reassumir a vontade coletiva, a perspectiva classista, e enfrentar os entraves internos. É importante estabelecer pontos comuns entre os movimentos organizados no interior das universidades e entre os trabalhadores da sociedade civil organizada para combater, de forma efetiva, o projeto neoliberal de reestruturação da ordem capitalista mundial. Evidentemente que este trabalho não teve a pretensão de esgotar o assunto (e nem poderia dado a dinâmica do próprio objeto de estudo), mas sim, contribuir para estudos no campo da política educacional, em novos debates sobre os problemas relativos à definição das políticas para o ensino superior brasileiro. Nossa expectativa é que, apesar dos limites, este estudo possa inspirar outras pesquisas de aprofundamento dos estudos sobre os movimentos sindicais organizados no campo da educação, para que o conhecimento produzido enriqueça o acervo científico da comunidade intelectual, fornecendo alguns esclarecimentos necessários aos responsáveis pelas tomadas de decisões sobre as políticas educacionais para o ensino superior no país, uma vez que estamos vivendo a sociedade do conhecimento. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 O Movimento Docente na UFPA... 73 Referências bibliográficas ABRAMO, Perseu. O professor, a organização corporativa e a ação política. In: CATANI, Denise Bárbara (org.) Universidade, escola e formação de professores. São Paulo: Brasiliense, 1986. ADUFPA. Livro de atas. 1979-1986. ADUFP A. Boletim. Dez.,1994. ADUFRGS. Universidade e repressão: os expurgos na UFRGS. Porto Alegre: Ed. L&PM, ago., 1979. ADUSP. 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Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.53-80, jul./dez., 1997 IMAGENS DE DISCURSOS: Um Estudo Analítico de Praticas Discursivas sobre Professores Primários* ARAÚJO, Sônia Maria da Silva A s análises contidas neste texto sintetizam um estudo a respeito de práticas discursivas1 sobre professores primários elaboradas e emitidas a partir do território da Pósgraduação em Educação, portanto, do espaço acadêmico instituído. Ele parte da idéia-força de que os ditos-escritos pelos intelectuais da educação muito têm se aproximado das políticas públicas de qualificação de professores primários que, quase sempre, ignoram o poder de criatividade destes professores e suas tentativas de sobrevivência cultural, perante condições de trabalho tão pouco favoráveis. Para destecer esta idéia, rastreia três escritos - considerados chaves - elaborados na década de 80 e um campo analítico adjacente de produção composto de: artigos de revistas e periódicos da área da educação, de circulação nacional; textos apresentados em congressos, encontros e seminários sobre educação; documentos elaborados por instituições, como o INEP, administradas pelo Estado. Colocados os professores na condição de sujeitos sujeitados, objetos de conhecimento, os ditos-escritos pela * Dissertação de Mestrado defendida, em 22 de novembro de 1996, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), sob a orientação da Profa. Ora. Livre Docente Roseli Fischmann. 1 Práticas discursivas devem ser entendidas como um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que define, em dada época, determinada área social, econômica, geográfica ou lingüística, as condições de exercício da função enunciativa. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 82 academia re-apropriam, não raro, falas emitidas por estes professores, dando-lhes ressignificações distantes dos contextos dos quais foram emitidos, mas asseguram sua legitimação no terreno do dizivelmente aceito na época em que foram produzidos. As análises resultantes do estudo desses ditos-dizíveis demarcado cronologicamente pelo discurso da democratização das oportunidades escolares - revelam que as textualidades discursivas sobre os professores primários enredam interpretações que entretecem desqualificação/formação/saber pedagógico. Neste sentido, os discursos produzidos no território da academia desqualificam os professores como "sujeitos que nada sabem sobre si" e garantem, no nível dos micropoderes institucionais, o lugar daqueles que falam. Para melhor entendimento do percurso de estudo e dos meandros teóricos que trança, esta síntese concentra a essência da pesquisa em quatro pontos: (1) Cinco pontos de partida de um estudo 'de textos acadêmicos sobre professores primários; (2) Referencial teórico de análise; (3) O enredo analítico tecido; (4) Cinco notas em curso. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 83 1 Cinco pontos de partida de um estudo de textos acadêmicos sobre professores primários Sonho com o intelectual destruidor das evidências e das universalidades, que localiza e indica nas inércias e coações do presente os pontos fracos, as brechas, as linhas de forças; que sem cessar se desloca, não sabe exatamente onde estará ou o que pensará amanhã, por estar atento ao presente, que contribui no lugar em que está, de passagem, a colocar a questão da revolução, se ela vale a pena e qual (quer dizer qual revolução e qual pena). (FOUCAUL T, 1989). Interessa ressaltar, no momento, apenas alguns pontos que impulsionaram o estudo de pesquisa Imagens de Discursos. O primeiro, refere-se a uma hipótese inicial de trabalho segundo a qual o que se disse e o que se diz sobre os professores, ainda que colocados como verdades absolutas, não passam de meias verdades. Essa premissa adveio dos confrontos entre as experiências por mim vividas como professora e os textos que tratavam da prática de professores primários. Nos textos, muito me incomodava seus tons judicativos e, mais ainda, as soluções por eles indicadas. Foi preciso, então, já que queria transformar estas preocupações em um estudo acadêmico, tomar algumas decisões para a escolha e organização destes textos que tratavam, particularmente, desta questão e estudá-los esquematicamente. Após a leitura de toda a bibliografia pesquisada sobre o assunto, ficou-me a impressão inquietante de que só seria possível falar de professores discutindo-se a questão da formação. Professores e formação eram temas indissociáveis. Os Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 84 estudos de pesquisas, quase sem exceção, resvalavam numa analítica que condicionava esta relação professor-formação, o que de certa forma me situou na história (recente) das idéias sobre professores. Àquele momento, um segundo ponto de partida, de ordem fundamentalmente epistemológica, a mim se colocou: o de que as discussões acerca do professor, principalmente sobre os professores primários, cruzavam uma espécie de trindade que trançava desqualificação/ formação/ saber pedagógico. Ante esta premissa, algumas decisões precisavam ainda ser tomadas. O material até então rastreado era amplo e suscitava inúmeras questões, ainda que estas resvalassem na interpretação corrente de que a formação era o problema central. Com base no objetivo do estudo - analisar práticas discursivas sobre professores primários, elaboradas e emitidas do território da academia - decidi: 1°) trabalhar com textos oriundos das PUCs, porque de lá saía um número significativo de produções sobre professores, principalmente a PUC/SP e a PUC/RJ; 2°) analisar, do universo de pesquisas produzidas por estas instituições, aquelas que tivessem sido publicadas, portanto, que tivessem adquirido repercussão nacional e, quem sabe, sedimentado idéias opiniáticas sobre professores e consolidado conceitos; 3°) selecionar dentre os textos publicados na forma de livros aqueles que partissem de pontos diferenciados e que, portanto, apresentassem formações discursivas aparentemente distintas2. 2 As pesquisas escolhidas foram: - A prática pedagógica do professor de 1° grau: da competência técnica ao compromisso político de Guiomar Namo de Mello. 11ª edição, publicado pela Editora Cortez, produzido, em 1981, no curso de Doutorado PUC/SP Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 85 Até então, um terceiro e quarto pontos de partida se me impuseram. O terceiro _ o de que a conformação cultural de professores e a sua apropriação de bens culturais eram, nos estudos acadêmicos, curiosamente ignorados. O quarto _que havia um elo entre o que diziam as pesquisas acadêmicas e as políticas públicas de educação promovidas por governantes ultra-conservadores. Após uma primeira leitura destes escritos, que logo em seguida denomino de escritos-chave de análise, um quinto ponto se me apresentou: que os escritos destes textos eram, potencialmente, discursos; isto porque suas formações apresentavam dispersões que se apoiavam num mesmo sistema e que estas dispersões se moviam num jogo interligado com a história. Colocavam-se, para usar uma expressão de Foucault, como fragmentos de história. Mas, para fazer uma análise que se pretendesse ser histórica, era preciso recorrer a outros escritos. Nesta direção, defini um campo de análise adjacente constituído de textos de anais de seminários, encontros, congressos e conferências sobre educação; textos apresentados em encontros com temáticas referentes ao professor; artigos de revistas e periódicos de educação de circulação nacional; textos apresentados em encontros e congressos promovidos pelas Secretarias de Educação dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro; textos apresentados em eventos científicos promovidos pelo INEP e textos outros apresentados na forma de livro. Encerro provisoriamente esta primeira fase de digressão com três questões que nortearam a análise dos discursos estudados: 1 - O que fez esses discursos aparecerem? 2 - O que _ A formação da professora primária: da denúncia ao anúncio, de Isabel Alice Lelis publicado também pela Editora Cortez produzido, em 1983 no Mestrado da PUC/RJ. _ O professor como agente político. de Maria Anita Viviani Martins. 3" edição. publicado pela Editora Loyola. produzido também em 1983. no Mestrado da PUC/SP. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 86 fez dar lugar a outros discursos? 3 - O que fez com que os jogos de regra de formação contidos nesses discursos fossem considerados verdadeiros? 2 Referencial teórico de análise A ciência não tem normatividade nem funciona efetivamente como ciência numa época dada, segundo certo número de esquemas, modelos, valorizações e códigos, é um conjunto de discursos e práticas muito modestas, perfeitamente enfadonhas e cotidianas, que se repetem incessantemente. Existe um código desses discursos, existem normas para essas práticas, aos quais devem obedecer a esses discursos e práticas. Não há razão para se orgulhar disso; e os cientistas - eu lhes asseguro - não têm nenhum orgulho particular em saber que o que fazem é ciência. Eles o sabem, é tudo; e isto por uma espécie de comum acordo, que é a comunidade do código, e a partir do qual podem dizer: "Isto está aprovado, e isto não está" (FOUCAULT, 1971, p. 34-35). Mas, era preciso definir o referencial teórico capaz de sustentar uma análise histórica dos discursos. Interessava, então, identificar que postura tomaria diante dos textos, daquelas falas que se encontravam escritas, dos seus autores. Para isto, recorri às propostas de interpretação e de análise de discurso. Em meio a perspectivas férteis de análise, principalmente a hermenêutica e a análise lingüística do discurso proposta por Bakhtin, optei pela arqueologia de Michel Foucault, para quem o discurso é Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 87 um conjunto de enunciados que se apóiam na mesma formação discursiva (...); é constituído de um número ilimitado de enunciados para os quais podemos definir um conjunto de condições de existência (...); é uma forma ideal e intemporal que teria, além do mais, uma história; é (...) fragmento de história, unidade e descontinuidade na própria história, que coloca o problema de seus próprios limites, de seus cortes, de suas transformações, dos modos específicos de sua temporalidade, e não de seu surgimento abrupto em meio às cumplicidades do tempo (1986, p. 135-6). Ao contrário de alguns lingüistas que propõem o estudo filológico do discurso, Foucault constitui uma análise histórica, onde ao pesquisador cabe estabelecer o vínculo existente entre os acontecimentos e os documentos de seu tempo. Para isto, sugere não operar uma analítica que parta das palavras, mas de enunciados que, como já disse, para ele são a menor partícula analisável de um discurso. Enunciado para Foucault é função, uma função que cruza um domínio de estruturas e de unidades com conteúdos concretos porque existentes no tempo e no espaço. O enunciado é sua existência mesma. E o dito, e o que se produz pelo fato de ter sido dito. Isto significa dizer que o enunciado está intrinsecamente ligado à história de seu tempo, revela a trama que estrutura os saberes. Ora, esta proposta deixa de lado quem diz e se debruça sobre o que se diz, de onde se diz, para quem se diz e, o que é mais importante, porque se diz. Do autor, interessa situá-lo no tempo, no espaço, na consciência. Da obra, importa apenas identificá-la nos entremeios do saber ao qual está vinculada. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 88 Inspirado em Beckett, diz Foucault "Que importa quem fala, disse alguém, que importa quem fala" (1992, p. 34). Estas posturas são particularmente importantes de serem colocadas, porque situa teoricamente este estudo. Elas ignoram de certa forma, o sujeito que, para a análise realizada nesta pesquisa, é apenas o autor ilusório da obra assinada. A isto, vale lembrar as palavras de Foucault para quem o lugar do autor é um lugar determinado e vazio que pode ser efetivamente ocupado por indivíduos diferentes; mas esse lugar, em vez de ser definido de uma vez por todas e de se manter uniforme ao longo do texto, de um livro ou de uma obra, varia, ou melhor, é variável o bastante para poder continuar, idêntico a si mesmo, através de várias frases, bem como para se modificar a cada uma. Esse lugar é uma dimensão que caracteriza toda formulação enquanto enunciado, constituindo um dos traços que pertencem exclusivamente à função enunciativa e permitem descrevê-la. (1986, p. 109). Suspensas as palavras, a obra e seu autor3, os enunciados discursivos foram analisados segundo as similaridades e 3 Autor de escritos é tão-somente aquele que registra a rede discursiva de seu tempoespaço, operando um sentido no contexto desta rede; ele é uma função, um modo no conjunto da existência, circularidade e funcionamento de alguns discursos no interior de uma sociedade. Para Foucault, "um nome de autor não é simplesmente um elemeto de um discurso (que pode ser sujeito ou complemento, que pode ser substituído por um pronome, etc) ele exerce relativamente aos discursos um certo papel: assegura uma função classificativa um tal nome permite reagrupar um certo número de textos". Em síntese, "o nome de autor serve para caracterizar um certo modo de ser do discurso: para um discurso ter um nome de autor, o fato de poder dizer 'isto foi escrito por fulano' ou 'tal indivíduo é o autor', indica que esse discurso não é um discurso quotidiano, indiferente, um discurso flutuante e passageiro imediatamente Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 89 diferenças que possibilitaram a sua positividade, isto é, a unidade neles presente, a formação discursiva mesma que os interliga. No caso dos discursos sobre professores, metaforicamente, formação é o trajeto que circunscreve o esboço do desenho. Em síntese, os enunciados sobre os professores primários, ditos do lugar da academia, nada mais são do que a existência deles mesmos, o estudo de seus próprios ditos, do que se pensa sobre suas práticas, das perspectivas postas pelas políticas públicas no que concerne ao professor primário. O que precede, isto é, o porquê da própria existência dos enunciados, é, antes, orquestrada por uma ordem, por relações, por regras de jogo, e foi isto que a análise feita procurou apreender, pois entende-se que é isto que precisa, no momento, ser falado para entendermos como o professor, na condição de objeto de conhecimento, foi apropriado. As análises empreendidas sobre os professores primários, elaboradas pelos intelectuais da área, revelam o esgotamento de um discurso que serviu numa determinada época - década de 80 - mas que no momento deixa de fazer sentido, ainda que alguns persistam numa retórica em que desqualificação / formação / saber pedagógico se constituam na pedra-de-toque para as mudanças no interior da escola. Vale ressaltar, a princípio, que os discursos dos intelectuais da área, na década de 80, têm uma estética própria se comparados com discursos outros sobre educação. Esta propriedade está ancorada à pedagogia, ou seja, a um discurso que se diferencia e ao mesmo tempo tem sua identidade garantida no e pelo pedagógico. consumível. mas que se trata de um discurso que deve ser recebido de certa maneira e que deve, numa determinada cultura. receber um certo estatuto" (1992, p. 45). Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 90 Com base neste pedagógico, o dito pelos intelectuais da educação torna-se dizível. Existe, assim, um saber legitimado pela pedagogia que direciona os discursos daqueles que se arvoram a falar sobre educação, sendo que fora dele nada é aceitável, ao mesmo tempo em que, por outro lado, deixa de fazer sentido dadas as relações sociais que as novas tecnologias impõem. Concretamente, o campo de possibilidades estratégicas dos discursos analisados sustentou-se em três pontos que denomino de fios condutores de uma meada. São estes fios: - a expansão da escola; - o esgotamento da teoria reprodutivista; - a organização política de professores. No entrecruzar destes fios, os discursos apontam para uma alternativa que se transformou em obrigatória - a formação política. Para ela (a formação política), deveria, neste tempo, resvalar todo e qualquer discurso que se pretendesse verdadeiro, como constataremos a seguir. 3 O Enredo analítico tecido A análise do discurso está colocada, na maior parte do tempo, sob o signo da totalidade e da pletora. Mostra-se como diferentes textos de que tratamos remetem uns aos outros, se organizam numa figura única, entram em convergência com instituições e práticas, e carregam significações que podem ser comuns a toda uma época. (FOUCAUL T, 1986). A textura dos enunciados analisados encontra-se marcada pela produção do discurso da desqualificação do professor e da (re)construção do saber pedagógico; pela discussão de uma escola deteriorada pedagogicamente e que para isto teve um culpado: o professor. Mas, também, por um discurso Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 91 circunscrito pela esperança, a esperança no engajamento político de professores nos movimentos sociais ou na formação (formal) política. No que respeita à desqualificação, os discursos recorrem à questão da expansão das oportunidades escolares. Eles trabalham com a "verdade" de que a expansão provocou uma queda de qualidade da escola. Esta é uma questão corrente nos textos sobre os professores, de 1950 a 1980, sem colocar em pauta, salvo exceções, que o fracasso também foi produzido pelo discurso. Ao discutirem esta deterioração, os escritos responsabilizam o professor. Isto é dito em 1980, mas em 1953, a UNESCO, na XVI Conferência Internacional de Instrução Pública, já dizia isto. Só que nessa época, o dito aliava-se à preocupação corrente com a atuação extensa de professores leigos. Diz o documento final desta conferência que "um dos principais obstáculos da educação, no Brasil, é a penúria de mestres qualificados”4. Esta conferência, ocorrida em Genebra, é uma segunda etapa internacional de discussões ocorridas em 1948 no "Seminário Internacional sobre a Preparação de Mestres", realizado na Inglaterra, onde três temas mereceram destaque: o professor e o desenvolvimento físico, mental e espiritual da criança; o professor e a compreensão social; o professor e as relações internacionais. As discussões desse seminário articulavam uma interpretação que, não raro, resvalava na defesa de que o Ensino Normal (curso de formação de professores primários) para bem preparar o mestre deveria pautar-se 4 Cf. CALDEIRA, 1956, p. 29. A partir de documentos elaborados em Conferências Nacionais e Internacionais, o texto desta autora, intitulado "O Problema da formação de professores primários", rastreia discussões opiniáticas, dados estatísticos. decisões tomadas e propostas em torno do professor primário, visando à realidade brasileira. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 92 no desenvolvimento das boas relações humanas e de uma comunidade organizada de acordo com os princípios democráticos, onde os seus membros, estudantes e professores, desempenhem seu papel sem distinções e discriminações artificiais e o contato entre eles se realize numa atmosfera de liberdade, cordialidade e segurança. (CALDEIRA, 1956, p. 32). Veja-se que o terreno é o mesmo, mas o contexto histórico, no qual esse discurso emergiu, definiu saberes que se diferenciam dos da década de 80, ou seja, um saber que privilegiava a Biologia da Educação na perspectiva da saúde mental e a Sociologia Funcionalista. Esses saberes dariam solução para a questão da desqualificação. Em 1956, na Conferência Regional sobre Educação Gratuita e Obrigatória na América Latina, realizada no Peru, emergiu outro saber considerado necessário à formação de professores primários, que apontava que se organizasse em toda a América Latina um modelo único de escola de formação de professores primários, onde fossem considerados: a) aptidão; b) sensibilidade para valores humanos; c) cultura geral básica de um conteúdo superior aos conhecimentos que serão transmitidos no exercício da carreira; d) cultura pedagógica - filosófica e científica (prevalecendo os estudos dos aspectos psicológicos e sociológicos) - e mais uma relativa especialização em uma técnica ou arte determinada; e) capacidade prática. (CALDEIRA, 1956, p. 37). Nesta Conferência, também se evidencia uma significativa preocupação com a prática de ensino. Questão também Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 93 recorrente na década de 80, nos escritos-chave analisados e no campo analítico adjacente. Nessa época, o PNEd, preparado pelo Governo, dizia que a situação revela claramente a inadequação de programas, padrões de promoção e professorado. Não raro, as crianças permanecem três e mais anos na 1ª série, pois os professores não conseguem prepará-las adequadamente para a promoção. É, pois, urgente a melhoria dos programas de ensino e dos meios de aferir o rendimento escolar e, ainda, do preparo e aperfeiçoamento do professor. (PINHEIRO, 1966, p. 14). Para legitimar essa proposta, intelectuais da época e Governo recorrem ao 1º censo escolar brasileiro (1964), onde destaca-se o nível de escolaridade dos professores primários. Diz-se que o problema da má qualidade do ensino está na inadequada formação dos professores. O professor já é aqui responsabilizado pelo fracasso da escola. Ainda em 1966, em Porto Alegre, os participantes da II Conferência Nacional de Educação discutem, sob a lente do desenvolvimento econômico, como qualificar o professor de modo a atingir os objetivos contidos no Plano. A necessidade desta qualificação residia, fundamentalmente, na idéia de que a escola se constituía em instituição mediadora do equilíbrio social. O Estado, então, através do INEP/MEC, com o apoio de intelectuais da educação, financia cursos e promove pesquisas sobre o tema. Na II Conferência de Educação, os representantes do INEP/MEC dizem que o professor Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 94 se fez por processos livrescos e verbalistas, não desenvolvendo a capacidade de observação, acuidade de percepção, nem sensibilidade face às reações infantis. Não possuindo noção concreta dos interesses infantis nas várias idades, não conhecendo suas reações e seus mecanismos de defesa e ajustamento, o professor não emprega incentivos adequados, deixando de aproveitar interesses profundos e de atender necessidades fundamentais que impulsionam a criança à ação construtiva e à aprendizagem verdadeira. Empregando métodos de disciplina que geralmente se apóiam com exclusividade no princípio da autoridade, como decorrência de todo um processo artificial e compulsório de educar (..), não conduz a criança ao desenvolvimento da autodisciplina e do senso de responsabilidade, tão necessários à vida comunitária e fundamentais para o crescimento individual e social. (INEPIMEC, 1966). Em síntese, os enunciados dos textos dessa época vão tecendo interpretações de modo a responsabilizar o professor pelos "problemas" emergentes em sala de aula e a anunciar por onde se deveria atuar junto aos professores no seu processo de formação inicial. Falavam que comportamentos apresentados pelos alunos, do tipo delação, individualismo excessivo, falta de espírito de grupo e dissimulação indicavam lia falta de noção clara do professor sobre objetivos a atingir e maneira mais adequada de se formarem atitudes socialmente aprovadas”. (INEP/MEC, 1966, p. 19). Articulando a idéia de que as Escolas Normais determinam o funcionamento do ensino das escolas primárias, e Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 95 de que as primeiras não desenvolvem uma pedagogia adequada aos desafios da sociedade moderna, foram sugeri das mudanças urgentes nos cursos de magistério, principalmente no que concerne à dimensão didática. Indica-se, para a resolução deste problema, a adoção da Pedagogia Ativa pelas Escolas Normais. Nesse momento, o INEP/MEC investe fortemente nessa questão. Promove cursos em vários estados e financia pesquisas sobre a prática dos professores que atuam tanto no ensino primário quanto nos cursos de formação. Nestes últimos, os pesquisadores dobram-se à tentativa de analisar as disciplinas que os compõem, principalmente nas áreas da Psicologia, da Didática e da Biologia da Educação. Em publicação do INEP/MEC - Coleção Pesquisas e Monografias - estudos dão conta, por exemplo, de certa interpretação de que existe uma larga distância entre a Psicologia que se ensina nas Escolas Normais e o que o professor primário apresenta na sua sala de aula. Diz-se que "o ensino de Psicologia nas Escolas Normais não vem atendendo aos objetivos desejáveis, não habilitando o professor primário a resolver com sucesso os problemas próprios de seu trabalho diário com a criança". (INEPIMEC, 1971, p. 8). Considerando o conhecimento da Psicologia fundamental para o bom desempenho docente, estes escritos dizem ser esta disciplina importante à medida que assegura ao professor o exercício de atitudes adequadas a "uma série de problemas de manejo de classe, de aprendizagem e de orientação dos alunos, em geral, bem como problemas relacionados aos colegas, à direção e aos pais dos alunos." (Ibidem). Esta afirmativa pauta-se em "problemas" apresentados pelos alunos da escola primária como: fraca capacidade de fixação, atenção, concentração; falta de persistência no trabalho escolar; passividade e outros deste gênero. Asseguram os enunciados que estes "problemas" decorrem de carências do Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 96 próprio professor que, muitas vezes, não sabe dosar adéquadamente a duração dos trabalhos de classe, alterar atividades de vários tipos e atender aos interesses da criança em várias idades. Outros trabalhos são publicados e desenvolvidos pelo INEP/MEC, nesta mesma linha de análise. Experiências são registradas e, em decorrência, modelos de ensino e de posturas são arregimentados nos documentos finais, produzindo o discurso do fracasso do professor que será fortemente (re)colocado na década de 80. Nesta direção, trabalhos que visavam ressaltar práticas subordinadas a atitudes admissíveis em sala de aula agrupam professores mais capazes e menos capazes5. Deste discurso para a formação de cursos de treinamento e aperfeiçoamento, legitimados pela LDB 5692/71, é um passo. Os intelectuais que dominam os saberes que os professores precisam também apreender têm seus espaços garantidos no MEC e nos departamentos de recursos humanos das secretarias estaduais e municipais de educação. Estes dados são importantes para situar que a desqualificação provocada pela expansão, e tão decantada na década de 80, não se constitui num discurso novo, mas na dobra de um outro passado que já se sustentava na idéia-chave sobre a escola "de que o que era bom ficou perdido". Estas compreensões acabam por sedimentar a proposição de que os professores deveriam ser preparados de modo a garantirem o mínimo às crianças das camadas populares (chamadas de pobres e carentes). Em verdade, o discurso da desqualificação após a expansão do ensino, que responsabiliza o professor pelo fracasso escolar, dissimula a crença de que as crianças das camadas 5 Ver por exemplo, INEP/MEC/CBPE. Métodos, atitudes e recursos de ensino de professores primários da Guanabara, 1971. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 97 populares são potencialmente inferiores. Ao reduzir as atividades do professor à prática de bem ensinar estas crianças a ler, escrever e contar, os enunciados desses textos asseguram o mínimo para os filhos de famílias economicamente pobres, fazendo coro com as perspectivas liberais de compreensão do papel da escola para esta realidade brasileira. No rastro das discussões sobre a expansão da escolarização, as análises empreendidas sobre os professores primários têm, ao longo dos últimos tempos, emergido no bojo das interpretações de que a expansão da escola provocou a queda da qualidade do ensino por ela oferecido. Assim, os escritos que analisam, no transcurso da década de 80, os professores primários e suas práticas partem deste pressuposto, ainda que outros poucos os contestem enfaticamente6 Estas análises resvalavam em uma compreensão desesperançada da escola que não mais condizia com a abertura política de 80. E é por isso, também, que os discursos dos escritos-chave e do campo analítico adjacente rejeitam a teoria da reprodução sem, no entanto, eximir o professor da responsabilidade pelos destinos da escola Ao contrário, a ele é atribuída a responsabilidade por mudar o quadro. Agora existe, ainda, um agravante: além de agirem como incompetentes, os professores são acusados de pensarem retrogradamente. A idéia que cruza os discursos é de que existe no conjunto dos professores uma prática docente tradicional e a predominância de uma visão conservadora de explicar o fracasso escolar - aquela segundo a qual se utiliza da estratégia 6 Enunciados elaborados por outros autores como Azanha, Patto, Beisiegel. guardadas as devidas diferenças, criticam este argumento chamando-os de crítica conservadora que em síntese é a seguinte: "a escola perdeu qualidade, deteriorou-se, está enferma. portanto é necessário reconquistar os padrões de qualidade que essa escola tinha e perdeu. Uma crítica desse tipo vê a situação atual do ensino a partir dos pontos de referência situados no passado” (Grifo meu) (BEISIEGEL, 1981, p. 50-51). Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 98 de culpar a vítima (O aluno) para explicar seus resultados. Isto porque os enunciados emitem o juízo de que o professor deveria reconhecer-se como responsável pelo fracasso, mas não o faz porque é despreparado politicamente. Ante essa "verdade", os escritos indicam que o problema está na incompetência técnica e na falta de compromisso político dos professores. Dizem que os professores é que construíram uma espécie de fracasso escolar da criança pobre, pautados num ideário de bom aluno, um aluno de classe média que não mais pertence à escola pública. Acusam que os professores não assumem suas responsabilidades pelo fracasso ao atribuírem aos próprios alunos e à família a culpa pelos problemas escolares. Completam as análises afirmando que isto acontece porque a formação dos professores não consegue fazer deles sujeitos críticos e, por extensão, auto-críticos. Assim, indicam-se as soluções: a formal formação política ou o engajamento político do professor no sindicato e no partido político. O professor é o trabalhador da educação e como diz Florestan Fernandes "ele não recebe proventos, mas salários". Nesta segunda possibilidade, a qualidade da prática docente se elevaria à medida que o professor militasse, se engajasse nos movimentos sociais. Os escritos-chave argúem que as representações que tem o professor, da escola e de sua própria prática, especialmente acerca da seletividade, enclausuram-se num pensamento liberal largamente promovido ao longo da história. Decantada como promotora da igualdade social, a escola foi durante muito tempo colocada pelo Estado como garantia a todos de mesmas oportunidades de ascensão social. Com base nisso, explicam que, questões do tipo dom pessoal e capacidades individuais acabaram por cristalizar-se nos esquemas de representações dos professores ao ponto de justificarem, viesadamente, o fracasso e, em decorrência, dissimular a seletividade. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 99 A crítica presente nesses escritos condena uma suposta compreensão ingênua de que o fracasso escolar se deve ao sistema de ensino e à articulação de seus graus, suscitando a inaceitabilidade de um argumento que retira do professor a responsabilidade pelo fracasso, ratificam a idéia de que é o professor sim o culpado, o sujeito que tem determinado, com significativa força, o declínio da escola. Indicam ainda esses discursos existir uma tentativa de mudança no trato de questões sobre o fazer docente do professor, mas que não manifestam uma visão crítica do fracasso porque acenam, em geral, para alternativas que recaem nos métodos de ensino, nas situações de aprendizagem. Nesse caso, asseguram que (pseudo) mudanças revestem-se de teor psicológico e a preocupação com os conteúdos de ensino, ainda que "mexidos" na sua metodologia, continuavam vinculados a uma postura tradicional. Quando as análises recaem sobre a formação dos professores primários, sustenta-se a idéia de que os próprios professores da Escola Normal atuam e postam-se nas mesmas representações "negativas" apresentadas pelos professores de 1º grau. Diz-se que os professores do Curso de Magistério também justificam o fracasso das normalistas por via de suas carências e pelas condições socioeconômicas desfavoráveis de suas famílias. Ao fazerem isto, alerta-se, os professores retiram da escola parte da culpa que tem pelo fracasso escolar e revelam a assimilação de valores liberais. Estes professores, afirma-se, também responsabilizam a falta de "esforço pessoal" dos alunos para dissimular a sua falta de competência técnica e compromisso político no sentido de reverter esse quadro. Estes escritos procuram encontrar algo capaz de justificar uma possibilidade de mudança nas práticas docentes escolares. Neste sentido, recorrem à explicação de que no conjunto dos professores existem aqueles (em geral os mais bem preparados Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 100 no nível da formação) que assumem certa carga de bom senso ao reconhecerem sua "mea culpa". Dizem, parte dos escritos-chave e parte do campo analítico adjacente, que a saída para uma possível reversão deste quadro situa-se na questão da formação inicial. Mais: que é preciso redimensionar a formação do professor. Acredita-se que uma mudança na formação seria capaz de sedimentar, no nível das representações dos professores, uma nova visão de criança, de escola e do próprio conteúdo pedagógico. Indica-se uma formação pedagógica fundada em novos parâmetros ideológicos, em fundamentos políticos críticos capazes de neutralizar as interpretações liberais correntes no discurso do professor. O grupo que discute esta politização formal, ainda que veja a escola como degradada, a indica como solução para o professor. As soluções são apontadas em direção a uma mudança de currículo e de conteúdos das disciplinas dos cursos de magistério, e a uma relação democrática (aprendida) do professor com seus alunos, desprovida de preconceitos. Isto, asseguram os escritos, deve partir de uma disposição pessoal do professor, de uma suposta ''força de vontade". As discussões travadas e soluções inevitavelmente indicadas partem da idéia de que a saída para este problema estaria numa preparação teórica e prática mais sólida, carreada pela assimilação crítica de teorias pedagógicas e suas compreensões elaboradas à luz da realidade das crianças que fazem parte da escola neste momento. A degradação da formação desse professor é colocada ao lado de outras medidas internas do sistema escolar que colaboraram, diz-se, para que a incompetência do professor se agravasse. São elas: a generalização e formalização de processos destinados a racionalizar e supervisionar o trabalho docente; as normas administrativas e burocráticas que ordenam a admissão, Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 101 a remuneração e a carreira do magistério, além daquelas que regem o funcionamento da escola. A rigor, pode-se dizer que nesse passado tão próximo década de 80 - os problemas educacionais, grosso modo, eram analisados e vistos sob a lente de teorias sociais nas quais o dizível passava pelo crivo do político. Em sendo o político o ponto de confluência, coloca-se em debate a hipótese de que o sentido político, em si, de prática do professor se realiza também pela sua incompetência ou competência técnica. Para isto, recorre-se à dimensão pensada que o professor tem de si e de sua prática pedagógica. Ao operar interpretações sobre as idéias do professor, os discursos retomam o debate da competência docente. A estética textual destes escritos delineia um professor acabado, refém de suas próprias opiniões; as análises enunciativas sobre os professores encerram a apreciação de que ele se constituiu no mediador da seletividade. Baseadas num discurso que dá tratamento genérico7 ao professor e à escola, que é qualificada como sendo de crianças carentes, as análises acenam para uma tentativa de resgatar a esperança na escola. Para fazer isto, critica, veementemente, pensar a instituição escolar nos moldes de apropriações feitas pela Teoria da Reprodução. No rastro de um discurso contra-reprodutivista, diz-se que predomina no conjunto dos professores o bom-senso e que os mais críticos são os que acentuam e valorizam os aspectos 7 Mesmo referindo-se a um professor localizado e datado, como é o caso dos estudos de MELLO e LELIS, os textos emitem enunciados que falam estereotipadamente do professor. Tratando-o de maneira uniforme, as pesquisas apóiam-se em instrumentos empíricos e objetivos de coleta de dados que resultam em tratamento genérico do professor. Ante isto, as dissemelhanças possivelmente presentes entre os professores e as escolas estudadas se diluem em análises indiferenciadas. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 102 técnico-pedagógicos. Isto redunda na assertiva de que é possível trabalhar com professores. Para que essa possibilidade seja concretizada, os professores teriam que acreditar num certo grau de autonomia da escola com relação aos determinantes socioeconômicos, assumir parte do fracasso escolar produzido e operar o seu poder de minimizar essa realidade. Mas, para isto, reafirma-se que o professor precisa estar (pré) disposto a efetuar mudanças concretas em sua prática. Em face disto, retoma-se uma velha questão - a instrumentalização do fazer docente. Esta voz longínqua, emitida pelo discurso das habilidades e interesses em se exercer uma determinada profissão, retoma. Recupera-se, de certa forma, uma psicologia voltada para questões de recursos humanos que criou toda uma teoria acerca das habilidades e vocação. Fala-se de uma competência técnica articulada à capacidade de viabilizar a apropriação, pelas crianças pobres, do saber escolar dominante. Mas, afirma-se: - nada adianta métodologias sofisticadas se o professor não possuir domínio de conteúdo e habilidades essenciais a sua organização e transmissão. Pode-se supor que esta retomada do discurso da habilidade profissional, aliada às idéias de democracia e de realidade social mais ampla a qual deve estar vinculada à prática docente, constitui-se numa dobra do tema que, segundo as próprias condições históricas, tenta dar-lhe um outro sentido. Este outro sentido coloca-se por meio da crítica aos saberes pedagógicos postos como essenciais na qualidade do trabalho do professor. A didática, reconhecida e legitimada pela arregimentação de procedimentos metodológicos de ensino, é colocada em questão e discute-se a necessidade de um vínculo inquebrável entre a instrumentalização técnica e a realidade social. Expõe-se, assim, que a dimensão técnica do ato pedagógico alia-se a outra: a dimensão política. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 103 A saída para a situação de despreparo do professor primário e da superação do fracasso da escola pública estaria, por esta ótica, em outro conhecimento a ser instituído pela escola de magistério, de modo a alcançar esta dimensão política no fazer docente. Legitima-se saberes que deveriam fundar-se numa visão particular de criança das camadas populares: a de que elas são potencialmente capazes de efetivar aprendizagens escolares. Nesta ordem, os ditos (dizíveis) emitidos pela academia asseguram seu lugar nas instituições que acabam lhes dando legitimidade. Feito isto, o intelectual aproxima-se cada vez mais do Estado e garante os desdobramentos de seus ditos escritos. Importa ainda salientar que o sentido político dado à prática do professor articula-se a um fazer que garanta a permanência da criança na escola e a aprendizagem daqueles conteúdos mínimos. Esta interpretação, contida nos escritos, manteve propostas que não incomodaram os mecanismos institucionais estatais e tampouco alteraram as discussões referentes aos professores. Ao contrário, eclodem, com estes discursos, políticas públicas de formação do professor em serviço. Propostas sintetizadas por alguns escritos vêm ratificar estas relações institucionais que legitimam o discurso acadêmico. Sugere-se, por exemplo, colocar em operação, em todo o território nacional, uma ampla política de educação do educador em serviço de modo a ampliar a sua consciência no que se refere às relações entre educação escolar e sociedade, bem como instrumentalizá-lo para a prática pedagógica política competente e comprometida com a trans formação da sociedade, em função dos interesses e necessidades da maioria da população. (FUSARI, 1987, p. 15). Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 104 Em outra direção, acontece em Minas Gerais, 1983, na esteira de embates políticos no interior da academia, o Encontro Nacional de Reformulação dos Cursos de Preparação de Recursos Humanos para a Educação, que partia da concepção de uma educação comprometida com o processo históricosocial. A docência é colocada como elemento de profissionalização. Fica definido que o professor como profissional é aquele que: a) domina determinado conteúdo técnico, científico e pedagógico que traduz o compromisso ético e político com os interesses da maioria da população brasileira; b) é capaz de perceber as relações existentes entre as atividades educacionais e a totalidade das relações sociais, econômicas, políticas e culturais em que o processo educacional ocorre, sendo capaz de atuar como agente de transformação da realidade em que insere, as sumindo, assim, seu compromisso histórico8. Por intermédio da base comum nacional tentava a ANFOPE9 garantir uma unidade na formação, capaz de conduzir 8 Documento Final. Belo Horizonte - MG, 21 a 25/11/1983. A ANFOPE foi criada em 1980. em Goiânia, durante a I Conferência Brasileira de Educação, com o nome de Comitê Nacional Pró-Formação do Educador. Até então este movimento girava em torno de educadores preocupados com a reformulação do Curso de Pedagogia, ampliando-se mais tarde a outras licenciaturas. Afastando-se das discussões iniciais propostas pelo governo federal através do SESU/MEC. em 1982 por ocasião da SBPC, São Paulo, discute-se intensivamente, no GT de Educação, a reformulação dos cursos de preparação de recursos humanos em educação. Em 1983. Belo Horizonte, realiza-se o primeiro Encontro Nacional de Reformulação dos Cursos de Preparação de Recursos Humanos em Educação, onde se define a necessidade de uma base comum nacional de formação. Em 1986, discute-se. no segundo encontro, as dimensões epistemológicas, política e profissional desta base. Em 1988 realizou-se o terceiro encontro, com a finalidade de reorganizar o movimento em nível nacional. 9 Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 105 toda e qualquer prática docente, da pré-escola à universidade. Esta base deveria fundar-se no estímulo à capacidade questionadora da informação recebida e de sua crítica. A operacionalização desta linha comum de ação passaria por uma reformulação ampla nos cursos de formação de professores. Mobilizadora desta discussão, a ANFOPE, durante a década de 80, promove em todo o país ciclos de estudos para discutir a redefinição de todas as disciplinas das licenciaturas e cursos de magistério, em função do educador crítico, comprometido com a democracia brasileira. Por caminhos divergentes, outros discursos apontam a militância política como elemento capaz de qualificar a prática do professor e se atêm em negar os papéis imprimidos anteriormente a ele, conduzindo-o a assumir a tarefa de se posicionar como profissional. Articula-se, ainda, a idéia de que os movimentos coletivos foram e são os principais desencadeadores de mudanças efetivas nos destinos da escola. Defende-se a prática da ação coletiva porque ela é necessariamente política. Um movimento grevista, por exemplo, ressalta-se, educa muito mais que qualquer tentativa da escola porque para o trabalhador é esse o seu processo de educação enquanto classe. Sintetiza-se: "sob o ponto de vista da educação, nenhuma greve fracassa.” (GADOTTI, 1987, p. 36). Nesta dimensão, a formação política está nos movimentos sociais, no engajamento do professor, nas suas lutas enquanto categoria. Trata-se, em síntese, de um professor cuja qualidade passa pela conscientização de seus direitos e de uma visão mais Em 1989, quarto encontro, reviraram-se e atualizaram-se os princípios gerais do movimento. e em 1990 convocou-se o quinto encontro já com a transformação da Comissão Nacional em Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação - ANFOPE (Cf. VI Encontro Nacional da ANFOPE. Documento Final. 1992) Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 106 clara das possibilidades históricas de seu papel numa sociedade que discrimina e segrega. Seria o que se chama de "correlação entre a atividade do professor, numa sociedade subdesenvolvida, e o caráter político do que faz e do que deixa de fazer.” (FERNANDES, 1986, p. 14). Trata-se de uma interpretação onde o político se dá no exercício da cidadania dentro da sala de aula, mas que se aprende fora dela, no processo de tensão no qual o professor foi colocado ao ter sido posto, na ordem social, à condição de trabalhador. Esta ordem recoloca o discurso da formação política do professor numa outra perspectiva. Parte-se da idéia de que o processo de conscientização política, capaz de subsidiar uma prática pedagógica crítica, se aprende com o envolvimento nos movimentos sociais. Por esta ótica, a dimensão política da prática do professor não se dá por via da qualificação técnica, mas pelo grau de engajamento nas lutas sociais. Nesses escritos, o desempenho docente pedagogicamente qualificado conjuga-se a uma ação política que não está dentro, mas fora da escola e o professor se reeduca na sociedade; sua qualidade se eleva "à medida que aceita a condição de assalariado, que proletária sua consciência, portanto seus modos de ação" (FERNANDES, 1986, p. 33). As mudanças seriam possíveis a partir daí. Concomitantemente ao processo de envolvimento da sociedade civil e, por extensão, da organização de segmentos sociais, os discursos acadêmicos incorporam, de várias formas, esquemas enunciativos correntes em regimes democráticos. Inspirados nos princípios de autonomia e participação, as análises discursivas apostam no processo de conscientização política, ainda que colocada diferenciadamente nas tramas textuais. Mas, esses mesmos discursos acusam uma tentativa liberal de pensar a escola no conjunto dos textos de abordagem teórica crítica. Diz-se: Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 107 os educadores e "pedagogistas" neoliberais que se multiplicam hoje no Brasil estão fazendo intensa campanha de preservação da escola como uma ilha de pureza, "desideologizando" e empunhando, para isso, a bandeira da "competência técnica" e da "defesa da qualidade do ensino", (GADOTTI, 1984, p.21-30). Esta idéia traz à tona a visão de que a qualidade do ensino deve ser medida pela solidariedade de classe e que qualquer mudança na escola e nos processos de formação deve partir dos professores e ser assumida por eles e não ditadas por técnicos que supostamente resolveriam o problema da educação. Finalizo a análise dizendo que nesse jogo enunciativo entretecido por intenções diversas, expõe-se, enfim, que a valorização do magistério só seria possível com a organização política do professor e, neste sentido, a passagem de um discurso da qualificação docente para a militância em defesa de melhores salários logo se consolida. 4 Cinco Notas em Curso Há um otimismo que consiste em dizer: de todo modo, isso não poderia ser melhor. Meu otimismo consistiria, sobretudo em dizer: muitas coisas podem ser mudadas, frágeis como são, ligadas mais a contingências que a necessidades, mais ao arbítrio que a evidências, mais a contingências históricas complexas, mas passageiras, que a constantes antropológicas inevitáveis... Você sabe, dizer: somos muito mais novos do que pensamos não é modo de tirar de nossas costas todo o peso de nossa Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 108 história. É sobretudo, pôr à disposição do trabalho que podemos fazer com nós mesmos a maior parte possível do que nos é apresentado como inacessível (FOUCAUL T, 1994, p. 182). As margens e os rastros percorridos na análise desta pesquisa suscitaram a idéia de não concluí-Ia, mas tão-somente trançar algumas notas consideradas, no momento, passíveis de reflexão. Inspiradas na obra de Halo Calvino, Seis Propostas para o Próximo Milênio, estas conclusões, muito longe de encerrar o estudo, pretendem realçar os matizes de uma trajetória inacabada. Tratam-se de cinco outros pontos de partida, que as dobras enunciativas do jogo discursivo acadêmico sobre os professores primários, demarcado historicamente pelo discurso da democratização das oportunidades escolares, produzidos a partir do território da PósGraduação em Educação, fizeram emergir. São estas notas: Desconstrução Dedicado a analisar discursos, este estudo cria um outro discurso. Retextualiza as práticas discursivas sobre os professores primários ao destecer as vozes que entre cruzam os ditos escritos pela academia num tempo não muito distante deste presente. Emitidos de um lugar demarcado pelas relações de poder institucionais e, em muitos casos, enunciados do território da pós-graduação em Educação, os elementos de análise desses textos, não raro, fundam-se em falas de professores, desapropriadas de seu lugar. Ressignificadas, estas falas revestem-se de sentidos múltiplos ao serem recolocadas envoltas em teorias margeadas pelos acontecimentos de seu tempo e pela legitimidade do que era autorizado dizer. O estudo de textos possibilitou, assim, não apenas a reconstituição dos discursos e Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 109 seus entrecruzamentos, mas, fundamentalmente, revelou como eles construíram e reconstruíram vidas de professores e suas relações Sociais. No jogo dos ditos-dizíveis sobre os professores, onde a questão da democratização das oportunidades escolares se coloca como pano de fundo, há uma universidade que se constrói na crítica ao discurso daqueles que talvez já estejam sob a condição de infames. Na base desta elaboração que se processa numa lógica de desapropriação e reapropriação de fazeres e dizeres construídos no/pelo cotidiano, em muitos casos à sombra de teorizações estruturadas pela própria academia, veiculam-se preconceitos e sedimentam-se estigmas. Este jogo, jogado discursivamente pelos intelectuais da educação sobre os professores primários, entretece, ainda, temas cujos resultados interpretativos os colocam como responsáveis por uma desqualificação dada como certa. Este tratamento discursivo faz do professor um sujeito acabado, esgotado nas suas possibilidades. As falas textuais esboçam um diálogo conclusivo. A ausência do outro (talvez por questões narcísicas, morais ou de intolerância) explica o fato de as soluções aos problemas apontados não se situarem no professor, mas em estratégias que os intelectuais podem oferecer como as suas próprias consciências. Assim como a pobreza, que não raro é posta nos discursos como sinônimo de delinqüência, o professor é identificado, em meio a enunciados que produzem sentidos, como incompetente, ao atribuírem-lhe a responsabilidade por um fracasso escolar que, também, não por acaso, é produzido. Aposta-se na incompetência e para isto os argumentos se diferenciam. Buscam-se explicações nas Teorias de Estado e em experiências pedagógicas muitas vezes significativamente distantes das colocadas em questão. Ignoram-se, ao se discutir situações singulares, generalizadas, as diferenças culturais e infraVer a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 110 estruturais tão fortemente marcantes na caracterização do território nacional brasileiro. Por outro lado, a formação, equivocadamente, é colocada na condição de "tábua de salvação" para todos os "males" escolares, Sobre isto, vale ressaltar a observação de Perrenoud que, ao analisar os discursos reformistas da educação na Europa, diz que aparentemente, quase todas as críticas do sistema escolar são concentradas no mesmo bode expiatório [grifo do autor]: a formação de professores, que é considerada demasiado curta, inadequada, insuficiente, antiquada, Mas ela não merece nem este excesso de honra nem esta indignidade (1993, p. 94). Reciprocidade O discurso da desqualificação do fazer docente, produzido em larga escala pela sujeição do professor ao constituir-se em objeto de conhecimento, desvaloriza saberes conformados nas experiências profissionais de ser professor. Sem competência, estas práticas discursivas e não-discursivas são colocadas em planos inferiores, Mitificadas, as pedagogias que dizem o que se deve e o que não se deve fazer em sala de aula enrijecem olhares e ditam procedimentos admissíveis. A idéia de que o professor primário deve estar aberto e (pré)disposto à mudança parece servir, sobretudo, para aqueles que..lhe falam. Por esta via, a formação coloca-se como elemento condutor dos "erros pedagógicos" cometidos pelo professor. Responsabiliza-se a docência pela falta de qualidade no exercício de ensinar. Sobre isto, concorda-se com Azanha quando diz que Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 111 a questão da qualidade do ensino é, pois, uma questão institucional. São as escolas que precisam ser melhoradas. Sem este esforço institucional, o aperfeiçoamento isolado de docentes não garante que essa eventual melhoria do professor encontre na prática as condições propícias para uma melhoria do ensino (1995, p. 204). Nesta mira, o trabalho do intelectual da educação junto aos professores, principalmente os professores primários, deve despir-se do tom judicativo com o qual tem se firmado ao longo do tempo e criar espaços de exposição, debate e divulgação dos saberes por eles produzidos. Dar voz ao professor não tem garantido seu tratamento enquanto sujeito de saberes. Antes, é preciso que o próprio intelectual da educação deixe de supor-se um agente da consciência. Envolvimento Espraiar a categoria da consciência do sujeito para as práticas inter e extradiscursivas possibilitou enxergar, com mais clareza, o papel do intelectual da educação que, absorto em oferecer explicações e soluções totalitárias aos grupos que compõem a prática da educação escolarizada, limita-se a localizar ruínas e edificar generalidades. Ao intelectual da educação parece caber as propostas de intelectual específico identificadas por Foucault. Para isto, precisa despojar-se de teorias clássicas de revolução da história e envolver-se num outro processo de articulação da superação dos problemas vivenciados pelo professor. Cabe-lhe, nesta tarefa, categorizar, conceituar, enfim, teorizar os saberes de que o professor é portador. Sobre esta questão cabem as palavras Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 112 ditas por Nóvoa: "a formação não se constrói por acumulação (de cursos, de conhecimentos ou de técnicas), mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal. Por isso é tão importante investir a pessoa [sic] e dar um estatuto ao saber da experiência" (grifos do autor). (NÓVOA, [s.d.] p.3). Removido o silêncio a que foram submetidos os professores pelas interpretações de intelectuais universais, darse-ia vez a construções coletivamente ergui das pelos grupos de professores, superando-se quaisquer tentativas de controle e de enquadramento das práticas docentes. Na multiplicidade de saídas às situações de sala de aula, engendradas pelos matizes que a própria clientela da escola (circunstanciadas pelos seus espaços tempo) realça, estaria, então, assegurada uma politização global das práticas educativas, sem que regras gerais fossem prescritas. A estratégia seria a de abrir mão da função de consciência universal e, por extensão, da pretensão de ditar filosofias e visões de mundo capazes de conduzir toda e qualquer prática. Efemerídade Por outro lado, é preciso entender que as críticas sobre práticas discursivas e não discursivas dos professores primários, contidas nos ditos escritos analisados, resultam de acordos estabelecidos pelas regras tramadas pela história de seu tempo. Quando, por exemplo, diz-se que "O professor não sabe lidar com seus alunos", esta assunção decorre de uma visão ética e moral de práticas pedagogicamente não aceitas em direitos e deveres humanos regrados, muitas vezes universalmente, em contratos estabelecidos pela paisagem sociológica deste tempo presente. Quando se critica veementemente o fato de os professores utilizarem punições e ameaças para que os alunos Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 113 cumpram suas tarefas, vale lembrar que ela é válida para este momento no qual se fala. Ora, estas mesmas atitudes já foram defendidas há algum tempo por pais, professores e gestores escolares. O que as faz, no tempo em que são ditas, serem consideradas indesejadas e repudiadas são as relações históricas admissíveis nesse tempo, que se calam ante outras. Esta constatação é reveladora das ligações imediatas entre o saber pedagógico com seus códigos de legitimação e as condições históricas mais amplas e/ou específicas, que não estão necessariamente atreladas, como recorrentemente se ouve falar, à infra-estrutura socioeconômica, mas a relações mais complexas estabelecidas por acordos nacionais e internacionais determinados pelas relações de poder mais globais (como acontece hoje, por exemplo, com os direitos estabelecidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente), ou por crenças culturais bastante singulares e localizadas. Busca Os modos de discursos desta época produzem um conhecimento que formaliza a formação política ao concentrá-la nas experiências de sala de aula, arrefecendo, de certa forma, as possíveis contribuições que o envolvimento político do professor em movimentos sociais e de organização sindical poderia proporcionar. Num certo sentido, grande parte do volume discursivo presente nos textos analisados reduz qualquer perspectiva de transformação da prática docente aos cursos de formação inicial e/ou continuada. Ao contrário do que se tem feito no âmbito das políticas públicas de tentativas (vãs) de qualificação de professores, onde a tônica recai numa atitude de fazer com que eles sigam um modelo (pré)determinado de prática de ensino, os resultados deste estudo acenam para uma outra estratégia - a de tão- Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 ARAÚJO, Sônia Maria da Silva 114 somente incentivar-se, por meio de apoio financeiro, a vontade do próprio professor de buscar individual ou coletivamente o instrumental capaz de fazer prevalecer, ainda mais, no ensino que ministra a apreensão pensada de bens culturais pelos seus alunos. Enfim, após experiências de treinamento exploradas na década de 70 e a preparação em serviço, visando à formal preparação política, proposta na década de 80, fica evidenciado que as políticas de formação muito pouco têm contribuído no processo de emancipação cultural e autonomia do professor na busca de melhor desempenho profissional. Isto indica, guardadas as devidas restrições a qualquer tentativa de centrar o problema exclusivamente no professor, que outras alternativas de encaminhamento no sentido de mudar as condições atuais de escolaridade oferecida pela educação pública precisam ser postas em prática. Particularmente, este estudo sugere: que é preciso investir, por meio de recompensas materiais, em possibilidades de apropriação pelo professor dos bens culturais produzidos pela humanidade; que urge aliar a sistematização das experiências acumuladas pelo professor no exercício de seu fazer docente (respeitando-se os condicionantes espaços-temporais que o circundam) ao estímulo à vontade de buscar coletiva e individualmente apreender a cultura elaborada, particularmente, a literatura, a música, o cinema, a arte em geral. Esta possibilidade parece estar fora da própria escola e mais próxima da relação direta da vida de professor com o mundo da cultura. Espera-se que estas notas, ainda em elaboração, sirvam de pistas para outros estudos sobre o pensamento pedagógico brasileiro e, quem sabe, se constituam em uma via capaz de retomar seu movimento. Ver a educação, Belém, v.3, n.2, p.81-118, jul./dez., 1997 Imagens de Discursos: um estudo analítico... 115 Referências Bibliográficas AZANHA, José Mário Pires. Educação: temas polêmicos. São Paulo: Martins Fontes, 1995. BEISIEGEL, Celso de Rui. Relações entre quantidade e qualidade no ensino comum. Revista ANDE, s.l., v. 1 n. 1, p. 49-56,1981. BRASIL. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos. II CONFERÊNCIA NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Treinamento, formação e aperfeiçoamento de professores primários e o plano nacional de educação. Porto Alegre, 1966. BRASIL. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos. Psicologia no trabalho do professor primário. Rio de Janeiro, 1971. (Série VIII - Pesquisas e Monografias, 6). BRASIL. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos. Métodos, atitudes e recursos de ensino de professores primários da guanabara. Rio de janeiro, 1971. (Série VIII - Pesquisas e Monografias, 8) CALDEIRA, Eny. 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