Revista do Curso de Administração ISSN 1679-723X v. 1, n. 1, jan./jul. 2003 Publicação semestral da Faculdade Farias Brito © Distribuição: Rua: Fortaleza: Cep: Fones: Fax: e-mail: Organização Editorial: Capa: Tiragem Mínima: FACULDADE FARIAS BRITO COORDENAÇÃO DO CURSO DE ADMINISTRAÇÃO Castro Monte, 1364 – 2º andar CE 60175-230 (0 _ _85) 486.9090 e 486.9003 (0 _ _85) 267.5169 [email protected] Ana Waleska Ferreira de Lima Síntese 1.000 exemplares Diretor da FFB Tales de Sá Cavalcante Diretor de Ensino Genuino Francisco de Sales Editor Científico Fernando Ribeiro de Melo Nunes, Dr. - UFC Conselho Editorial Carlos Manuel Taboada Rodrigues, Dr. – UFSC Sérgio Henrique Arruda Cavalcante Forte, Dr. – UNIFOR Augusto César de Aquino Cabral, Dr. – UFC Cláudia Buhamra, Dra. - UFC Ana Cristina Teixeira Leite, Dra. – FFB Anna Cristina Barbosa Dias de Carvalho, Dra. – UFC Assessoria Didático-metodológica Neide Fernandes Monteiro Veras, MsC – UFC Projeto Gráfico Andréa Duarte de Carvalho Ficha Catalográfica Ffbusiness: revista do curso de administração/ Faculdade Farias Brito. v. 1, n. 1 (jan. a jul.) – Fortaleza: Faculdade Farias Brito, 2003 – Semestral ISSN 1679-723X 1. Pesquisa. 2. Tecnologia. I. Faculdade Farias Brito CDD–658.05 E DITORIAL Iniciar uma revista de cunho científico na área de Administração é uma tarefa arrojada pela responsabilidade de apresentar artigos que tragam para o leitor informações, interessantes para a leitura, com possibilidades de aplicações práticas e imediatas, e, essencialmente úteis para aqueles que fazem pesquisa bibliográfica em busca do conhecimento científico estabelecido. A Faculdade Farias Brito abre, por intermédio de sua Revista do Curso de Administração, um espaço para que os pesquisadores do conhecimento na formação de executivos possam compartilhar, com todos aqueles que estejam atuando em áreas semelhantes, de suas experiências de sucesso. Incentiva-se o diálogo, o questionamento de posições e o debate cientifico sadio e construtivo. Para isto, disponibiliza-se, sob solicitação do interessado, os endereços eletrônicos dos autores, que podem fornecer cópias de seus arquivos e responder a questionamentos. O primeiro número traz oito artigos sobre as várias áreas do conhecimento administrativo, dos recursos humanos à produção, passando pelas finanças, os sistemas de informação e a qualidade, sob a visão da estatística. São pesquisadores em atividade que estão oferecendo ao debate suas posições. Alguns trabalhos são fruto de teses de doutorado, outros de dissertações de mestrado, os demais são o resultado de investigações científicas com interessantes resultados. Desejamos nos próximos números abrir espaço para um trabalho de iniciação científica dos alunos de graduação por edição, devidamente orientados e em parceria com professores doutores. Também desejamos abrir a toda a comunidade científica, diretamente ligada a universidade e faculdades, ou à iniciativa privada, espaço para este debate de idéias e formação do conhecimento científico. Agradecemos a todos os participantes e abrimos o convite à apresentação de trabalhos para a segunda edição, referente ao semestre 2003.2. O editor ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Os textos são de inteira responsabilidade de seus autores Artigos e colaborações devem ser remetidos a: Faculdade Farias Brito Rua Castro Monte, 1364, 2º andar Fortaleza – CE – CEP 60175-230 Fones: (0 _ _85) 486 9090 Fax: (0 _ _85) 267 5169 E-mail: [email protected] ○ 4 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ SUMÁRIO MEIO AMBIENTE E CULTURA ORGANIZACIONAL Rose Mary Palmeira da Silva ............................................................................................................................. 6 OS SISTEMAS DE PLANEJAMENTO E CONTROLE DA PRODUÇÃO DAS INDÚSTRIAS DE CONFECÇÕES DO ESTADO DO CEARÁ - ESTUDO DE MÚLTIPLOS CASOS Sérgio José Barbosa Elias Dálvio Ferrari Tubino ...................................................................................................................................... 1 9 A LOGÍSTICA E AS CONFECÇÕES: ESTUDO SOBRE A INFLUÊNCIA DOS FLUXOS DE MATERIAIS, INFORMAÇÕES E FINANCEIRO NA DETERMINAÇÃO DO TAMANHO MAIS INDICADO PARA OBTER LONGEVIDADE E EFICÁCIA CASO DA PRODUÇÃO DE JEANS PARA ADOLESCENTES E JOVENS Fernando Ribeiro de Melo Nunes Carlos Manuel Taboada Rodriguez .................................................................................................................. 2 5 UMA INVESTIGAÇÃO DOS FATORES CRÍTICOS DA GESTÃO PELA QUALIDADE TOTAL NO CENÁRIO INDUSTRIAL CEARENSE João Welliandre Carneiro Alexandre José Joaquim do Amaral Ferreira .................................................................................................................... 4 8 UMA ARQUITETURA DE MODELAGEM DE PROCESSOS DE NEGÓCIOS José Belo Torres Gregório Jean Varvakis Rados ........................................................................................................................ 5 7 A INSERÇÃO E MANUTENÇÃO DAS PESSOAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA NO MERCADO DE TRABALHO Rosanne Mª Medina Ávila Gomes Sandra Maria dos Santos ................................................................................................................................ 6 8 OS SERVIÇOS DE TELECOMUNICAÇÕES NO CEARÁ APÓS A PRIVATIZAÇÃO SOB A ÓTICA DO CONSUMIDOR Sandra Maria dos Santos Maria Naiúla Monteiro Pessoa José Nelson Tenório Maria Célia Gomes Vasconcelos ...................................................................................................................... 8 0 OS PRÓS E CONTRAS DA GESTÃO ATIVA E A PASSIVA DE FUNDOS DE INVESTIMENTOS EM AÇÕES José Maria Porto Magalhães Sobrinho ............................................................................................................. 8 8 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 5 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ MEIO AMBIENTE E CULTURA ORGANIZACIONAL ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Rose Mary Palmeira da Silva Mestre em Administração Docente da Faculdade Farias Brito RESUMO A preservação ambiental antes não considerada pelo mercado, vem gradativamente ocupando espaço significativo no âmbito das organizações, requerendo mudanças em sua cultura organizacional. Este trabalho tem como objetivo verificar a utilização dos artefatos concretos da cultura organizacional para inserir e/ou sedimentar a questão ambiental no interior da organização e identificar as fases de envolvimento empresarial com o meio ambiente por parte das empresas industriais sediadas no Ceará. Como suporte teórico relativo aos objetivos da pesquisa utilizou-se a classificação de Ralph Kilmann e, para identificar as fases de envolvimento empresarial com o meio ambiente, trabalhou-se com o Modelo de Ackerman e Bauer. A pesquisa constitui-se um estudo de casos múltiplos. Concluiuse que as empresas pesquisadas não estão, em sua maioria, investindo numa cultura de preservação ambiental, nem utilizando seus artefatos concretos como meios auxiliares nesse sentido. Em alguns casos têm sido implantados políticas e procedimentos de preservação ambiental, sem investimentos em ações proativas e preventivas permanentes. PALAVRAS-CHAVE: preservação ambiental; integração empresa-meio ambiente; gestão ambiental na empresa; cultura organizacional. ABSTRACT Environment preservation, usually an issue not considered by the market, has gradually occupied a significant space in the organizations ambit, requiring changes in their organizational culture. The objective of this work is to verify the utilization of concrete artifacts of the organizational culture to insert and/or sediment the environmental issue inside the organization and identify the business involvement phases of the industrial businesses in Ceará state with the environment. Ralph Kilmanns classification was used as a theoretical support to the researchs objectives, and Ackerman & Bauers model was used to identify the phases of the business involvement. The research is constituted by a study of multiple cases. It was concluded that the researched businesses are not, in its majority, investing on an environment preservation culture, neither are using concrete artifacts as auxiliary means in this sense. Environment preservation procedures and politics, without proactive and permanently preventive actions, have been implemented in some cases. KEY WORDS: environment preservation; environment in the organizational; organizational-environment integration; organizational culture. ○ 6 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ O PROBLEMA E A METODOLOGIA ○ 2 INTRODUÇÃO Na busca da excelência ambiental, as empresas industriais hoje se encontram diante de uma necessária mudança na relação com o meio ambiente pelo fato de que não só utilizam recursos finitos da natureza, mas principalmente porque geram resíduos industriais nocivos à vida humana e dos demais seres vivos, dos quais o próprio homem depende para viver. Esta constatação tem levado as empresas a uma reavaliação de suas operações, uma vez que cabe as mesmas buscar soluções para os problemas por elas criados. De fato, a indústria tem demonstrado não em sua maioria, que por meio da tecnologia e da racionalização pode melhorar a eficiência no uso de recursos naturais. Durante o período de outubro de 1998 a outubro de 1999 foram ouvidos os responsáveis pela área ambiental das empresas selecionadas por meio de aplicação de questionários, seja em discussões de grupos em algumas empresas mais integradas ou por meio de entrevista individuais. Estes momentos estão detalhados na primeira seção deste artigo. Nesse movimento que se gesta no interior das relações sociais, entende-se a importância da ação do homem na construção da sociedade, entretanto não se pode negar os impactos negativos, que determinados empreendimentos humanos têm causado ao meio ambiente. Reconhecer este problema como central na continuidade da vida no Planeta requer uma mudança na cultura vigente no mundo dos negócios onde prevalece a racionalidade econômica. Para dar embasamento e orientação ao processo de coleta e interpretação dos dados, a literatura referente à responsabilidade social e cultura organizacional foram revisitadas e compõem a segunda seção. Como foi desenvolvido um estudo de casos múltiplos, cada empresa foi apresentada separadamente com seu breve histórico a fim de que se configurasse uma contextualização e as fontes geradora de seus estados atuais no que se refere à relação empresa-meio ambiente resgatados naquele momento, para análise. Assim está configurada a terceira seção. Este estudo buscou trazer para o mundo acadêmico uma amostra do quadro situacional dessa questão, para que se pudesse analisa-la à luz de teorias e modelos voltados para a realidade empresarial. A quarta e última seção registra as considerações finais da pesquisa seguida de sugestões para uma nova agenda de investigações, que venham a contribuir com o processo de conscientização ambiental na sociedade. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 7 ○ Nos últimos tempos com o uso excessivo e desordenado do aparato tecnológico, têm-se impactado a base dos recursos naturais de maneira comprometedora, haja visto o caso da água em diversas regiões do mundo. Diante das constatações sintomáticas da estrutura de uma sociedade de consumo industrializada onde suas ações sempre desconsideraram a conexão homem-natureza no sentido de sua interdependência, vive-se hoje uma extrema pressão sobre esses recursos naturais. Tendo em vista o caráter multidisciplinar da questão ambiental, o impacto das atividades humanas ao meio ambiente e a urgente necessidade de rever essa relação nos dias atuais, são cada vez mais necessários estudos que venham elucidar como se processa a internalização dessa problemática. Portanto, este trabalho, é relevante.Elegeu-se um bloco de oito (08) empresas de negócios e impactos ambientais diferentes bem como suas culturas e origens,que compuseram o estudo de casos múltiplos aqui ora apresentado. Os objetivos traçados para a pesquisa voltaram-se para a verificação do uso dos artefatos concretos da cultura organizacional na inserção e/ou sedimentação da variável ambiental/ ecológica nas empresas industriais do segmento exportador sediadas no Ceará bem como para a identificação das fases de envolvimento nas quais se encontravam as empresas pesquisadas. ○ ○ ○ 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 2.1 PLANEJAMENTO E ESTRATÉGIA DA INVESTIGAÇÃO c) Identificação e indicação das empresas com alguma iniciativa de preservação ambiental, através dos sindicatos das categorias envolvidas. ○ ○ ○ ○ ○ De acordo com YIN1 tomado por base para a condução desta pesquisa, o estudo de caso enquanto estudo empírico que, investiga um fenômeno atual dentro de seu contexto real, no qual as fronteiras entre o fenômeno e o contexto ainda não são claramente definidas, exige por essa razão, a utilização de várias fontes de comprovação ou evidência. Nesse sentido, foram utilizadas: entrevistas, observação direta, análise documental e aplicação de uma escala composta por uma seleção de frases afirmativas envolvendo alguns elementos da cultura que compõem o padrão cultural de uma organização, os artefatos concretos da cultura segundo a classificação de Kilmann, como registrado no referencial teórico. Por fim, foram identificadas as práticas de preservação ambiental envolvendo os principais problemas ambientais hoje considerados críticos: poluição atmosférica, das águas, do solo e o uso de energia; essas práticas por sua vez, auxiliam na identificação das fases de envolvimento da empresa com o meio ambiente segundo o Modelo de Ackerman E Bauer, respectivamente percepção, compromisso e ação, (cf. a descrição no Quadro II contido no referencial teórico). d) Diversidade cultural dessas empresas: nacionais com filiais em outros estados da federação, empresas genuinamente cearenses e empresas multinacionais. Considerados os requisitos e disponibilidade das empresas para participarem da pesquisa contou-se com oito delas, configurando-se assim, o estudo de casos múltiplos. FASE 2 ELABORAÇÃO A partir das orientações teóricas quanto à diversidade das fontes de evidência para se alcançar os objetivos dessa investigação, foram construídos os seguintes instrumentais: os roteiros de entrevista e observação direta e as vinte e uma afirmativas a serem avaliadas numa escala tipo Likert obedecendo ao continumm de 0 a 4. Essas afirmativas foram relacionadas aos seguintes aspectos: padrão cultural da empresa para que se pudesse avaliar seu envolvimento com a questão ambiental, através dos seguintes elementos selecionados para este fim: a filosofia de gestão, as políticas de T & D e o processo de comunicação organizacional interno e externo; os artefatos concretos da cultura organizacional de acordo com a categorização de Kilmann; as fases de envolvimento empresa X meio ambiente segundo o modelo de Ackerman e Bauer, apud Donaire2. O desenvolvimento da pesquisa necessitou das fases, abaixo descritas para que se pudessem alcançar os objetivos traçados uma vez que, a inserção da questão ambiental no interior das empresas ainda não é percebida como uma questão obrigatória. FASE 1 CRITÉRIOS DE SELEÇÃO DAS EMPRESAS a) Reconhecimento das atividades industriais de maior envolvimento com a variável ambiental ou ecológica - Consulta a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (SEMACE) e ao SEBRAE(CE). As atividades apontadas por estas instituições foram: metal-mecânico, têxtil, petroquímico, veterinário, siderúrgico, bebidas, químico e agroindústria. O reconhecimento das fases: percepção, comprometimento e ação (Ackerman e Bauer), se deu através das práticas ambientais vigentes nas organizações pesquisadas bem como do padrão cultural evidenciado e da cultura revelada pelos seus artefatos concretos. Dessa forma, obteve-se um demonstrativo do quadro situacional da empresa quanto ao seu comportamento com a questão ambiental. b) Identificação de pelo menos 20 (vinte) maiores empresas no ranking exportador do Ceará, pelo fato de que estas são mais pressionadas a responderem às exigências do mercado na questão ambiental. Para isso, analisou-se uma lista dessas empresas fornecida pelo Centro Internacional de Negócios (CINTER), da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) para posterior contato e seleção para participarem da pesquisa. 1 ○ 8 FASE 3 VALIDAÇÃO DO INSTRUMENTO O pré-teste do instrumento com as 21(vinte e uma) afirmativas foi realizado em três empresas. YIN, Robert K. Case study research: design and methods in Applied Social Research Methods Series. Califórnia: SAGE Publications, 1989. v. 5. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ INSTRUMENTOS DOS 2 ○ ○ ○ DONAIRE, Denis. Interiorização da variável ecológica na organização das empresas industriais. USP, Livre-docência, 1993, p. 13-14 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Considerando que a questão ambiental, é uma variável do macro-ambiente ainda em fase de internalização nas organizações, buscou-se na teoria organizacional, a explicação de como essa internalização vem ocorrendo conforme visto no referencial teórico dessa pesquisa. 2.2 EXECUÇÃO a) Cronograma de Aplicação - Foi elaborado de acordo com a agenda dos entrevistados. Aconteceram dois adiamentos não previstos e dois retornos a uma mesma empresa. Todas as entrevistas foram realizadas. A linha de condução teórica do estudo, está pautada especificamente quanto ao uso da cultura organizacional, na inserção e/ou sedimentação da questão ambiental na empresa e, na identificação das fases de envolvimento desta com o meio ambiente verificando-se as práticas de preservação ambiental. Estas por sua vez, cruzam com o modelo de Ackerman & Bauer quanto ao envolvimento da empresa com as variáveis socioambientais, demonstradas através das fases de percepção, compromisso e ação. b) Visitas - aos dirigentes das empresas selecionadas com documento de apresentação da Universidade de Fortaleza (UNIFOR), explicando os objetivos da referida pesquisa e solicitando apoio para sua execução. Todas as empresas selecionadas foram receptivas ao trabalho. 2.4 PROTOCOLO b) Aspectos-chave do Estudo As fontes de evidência utilizadas enquanto técnicas de coleta de dados foram: Entrevista pessoal com os dirigentes e/ ou responsável direto pela questão ambiental na empresa seja sob forma de atividade ou função com os quais aplicouse a escala. l Observação Direta utilizou-se um roteiro de observação(ver anexo) como suporte para verificação dos artefatos concretos da cultura organizacional manifestados através: dos símbolos específicos nas diversas áreas da empresa; a própria decoração existente nos diversos ambientes, as publicações que circulam tais como jornais, informativos e revistas. Treinamentos para empregados inclusive, recém-chegados à empresa, a existência de murais voltados para registros dos eventos ambientais. Essas manifestações foram registradas nas anotações de campo para subsidiar o relatório final. l 2.3 PLANO DE INVESTIGAÇÃO Apresentada a condução metodológica da presente pesquisa, passa-se agora, a mostrar seu plano de investigação. Por se tratar de um estudo de casos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ FORMALIZAÇÃO / a) Propósitos Verificar o uso da cultura organizacional por meio de seus artefatos concretos segundo a categorização de Kilmann, como veículo de inserção e/ou sedimentação das práticas de preservação ambiental na empresa bem como identificar as fases de envolvimento organizacional com a questão ambiental segundo o modelo de Ackerman & Bauer. Os resultados totais referentes ao padrão cultural, artefatos concretos da cultura e as fases de envolvimento empresa X meio ambiente do Modelo adaptado de Ackerman e Bauer, que aponta três fases pelas quais as empresas necessariamente, passam nesse processo de amadurecimento de sua relação interna e externa com as variáveis macro ambientais de cunho socioambiental, foram organizados em gráficos segundo as categorias de análise já mencionadas. ○ ESTUDO DESTE IMPLEMENTAÇÃO/ANÁLISE c) Organização dos dados obtidos entrevistas, observação direta e aplicação da escala. Os itens da escala foram totalizados em escores segundo as categorias de análise para a verificação do padrão cultural, da cultura organizacional quanto aos artefatos concretos, que se apresentam em três níveis: o verbal, o comportamental e o físico, conforme a categorização de Kilmann. Considerou-se também, as práticas ambientais, que evidenciaram a relação empresa meio ambiente, identificadas através do Modelo de Ackerman e Bauer, que identifica as fases de envolvimento empresa X meio ambiente como percepção, compromisso e ação. Em seguida, esses escores foram transformados em uma escala discreta de zero a quatro. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 9 ○ ○ ○ Após as correções necessárias, o instrumento com 21 (vinte e uma) afirmativas foi aplicada em oito empresas de médio e grande portes, de setores e impactos ambientais diferenciados. ○ múltiplos, procurou-se obter informações de diferentes setores industriais para que se pudesse chegar aos objetivos traçados. ○ FASE 4 VERSÃO FINAL DO INSTRUMENTO ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ l ○ ○ ○ ○ ○ ○ Documentação foram analisados documentos probatórios sobre o comportamento da empresa em relação a questão ambiental: comunicações, planos, relatórios, projetos, parcerias, eventos, organogramas, fluxogramas e ecofluxogramas do processo produtivo. ○ ○ A fase analítica da pesquisa realizou-se ao final porque conteve como fonte principal, as respostas às afirmativas da escala aplicada que faz parte da base de dados coletados. c) Anotações de campo Os registros feitos por ocasião das entrevistas e as anotações através da observação direta formaram um pequeno relato individual de cada empresa pesquisada, que subsidiaram o relatório final. c) A base de dados deste estudo se compõe de: Caracterização do setor pesquisado; Caracterização da atividade/função ligada à variável ambiental/ecológica; Perfil gerencial da área ambiental; Padrão cultural das empresas; Cultura organizacional e meio ambiente: um estudo de múltiplos casos; Fases do envolvimento organizacional com a questão ambiental. l l l l l l 3 Este estudo proporcionou condições de responder aos objetivos propostos tendo em vista, que o resultado da escala composta pelas vinte e uma afirmativas os confirmou em cada uma das oito empresas pesquisadas, representadas pelos seus respectivos setores de atuação no mercado (agroindústria, bebidas, metal-mecânico, petroquímico, químico, siderúrgico, têxtil e veterinário) a pouca importância dispensada à questão ambiental. 2.5 PLANO DE ANÁLISE a) Estudo Individual de cada caso Cada setor de atividade selecionado foi analisado individualmente para que se pudesse, de acordo com os objetivos da pesquisa, caracterizar seu padrão cultural, identificar seus artefatos concretos da cultura organizacional e suas práticas de preservação ambiental. Utilizou-se a escala, as entrevistas e as anotações da observação direta realizada, constante nas anotações de campo. Para identificar as fases de envolvimento organizacional com o meio ambiente, utilizou-se o modelo de Ackerman e Bauer, que para determinar as fases apontadas pelo modelo, recorreu-se às práticas de preservação ambientais identificadas na escala. Foram trabalhados na pesquisa os seguintes aspectos, de acordo com os objetivos do estudo: o primeiro deles o padrão cultural existente, considerandose os seguintes elementos da cultura (a filosofia de gestão, as políticas de treinamento e desenvolvimento e o processo de comunicação organizacional interno e externo), que formam o padrão cultural; os artefatos concretos da cultura organizacional (verbal, comportamental e físico), segundo a categorização de Kilmann (quadro 2), as práticas de preservação ambiental mais usuais relativas aos quatro principais problemas ambientais globais( poluição da água, ar, solo e uso da energia), e as fases de envolvimento organizacional com o meio ambiente,(percepção, compromisso e ação) como indicado no modelo de Ackerman e Bauer (quadro 3), partindo-se das práticas de preservação ambiental encontradas. Dessa forma obteve-se, um quadro aproximado da relação empresarial com o meio ambiente. b) Análise cruzada dos dados A análise cruzada dos dados como parte integrante do clássico estudo de casos múltiplos é posterior à apresentação individual dos casos estudados conforme afirmam Herriot e Grass 3. Foram considerados como fatores de cruzamento de interesse desse estudo, o padrão cultural mediante os elementos selecionados para este fim, os artefatos concretos da cultura organizacional evidenciados de acordo com a classificação de Kilmann bem como as fases de envolvimento da empresa com o meio ambiente, a partir do modelo adaptado de Ackerman e Bauer, que foi interpretado pelas práticas de preservação ambiental e artefatos concretos da cultura e padrão cultural vigente nas empresas. Esse cruzamento de dados permitiu verificar como cada empresa vem trabalhando essa questão. 3 ○ A seguir, apresentam-se os dados primários e secundários obtidos no estudo de campo por meio da observação direta, da aplicação da escala, das entrevistas e da verificação documental, com suas respectivas análises por setor de atividade, conforme o protocolo desta investigação. Para efeito compreensivo teórico do leitor, desenvolveu-se o detalhamento da escala em todos os aspectos citados anteriormente. construída especificamente para esta pesquisa. Como se pôde analisar, tanto o uso da cultura organizacional quanto as fases do envolvimento empresarial com o meio ambiente estão voltadas com muita ênfase para a solução de problemas da empresa percebidos pela alta administração. Observem-se os quadros 4, 5 e 6. HERRIOT; GRASS. The dinamics of planned educational change. Berkeley: Mc Cutchan, 1979, p. 14. ○ 10 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ APRESENTAÇÃO E RESULTADO DO ESTUDO DE CASOS MÚLTIPLOS ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Rituais e cerimônias - Identificação de a tivida de s cole tiva s re a liza da s na organização, por exemplo: dramatizações, jogos, gincanas, festas, teatros, danças, treinamentos e seminários, que dêem ênfase aos padrões de comportamento relacionados à preservação ambiental. Apresentados através de: CO MPO RTAMENTAIS S ímbolos - Constatação da existência de publicações internas, tais como: jornais e revistas, folders, cartazes, objetos de decoração, tais como: vasos de flores, jardins internos e externos que simbolizem e s e ja m ve ículo inform a tivo da s concepções organizacionais relativas ao meio ambiente. Normas - Verificação da existência de documentos escritos que orientem o tratamento dispensado ao meio ambiente no âmbito da empresa. Apresentados através de: FÍSICOS Fonte: KILMANN, R. H.; SAXTON, M. J.; SERRA, R. And Associates, Going Control of the Corporate Culture. San Francisco: Jossey-Boss Publishers, 1988. Estórias Identificação de narrativas fictícias ou reais sobre preservação ambiental que circulam entre os membros da organização. Tabus Orientações subjetivas que delimitam áreas consideradas proibidas relativas à preservação ambiental. Heróis - Identificação de pessoas que transmitem conceitos sobre preservação ambiental, inspirando os membros da organização a seguirem o exemplo. Mitos - Identificação de estórias fictícias que se harmonizam com os valores e as crenças da organiza ção, narrando e ventos re ferente s à preservação ambiental. Apresentados através de: VERBAIS Quadro 2 - Plano de Investigação - Artefatos Concretos da Cultura Organizacional (Categorização de KILMANN. et al. 1988) ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 11 ○ ○ ○ Quadro 3 - Fases do Envolvimento Organizacional no Processo de Conscientização Social das Organizações (adaptado de ACKERMAN, R; BAUER, R. Corporate Social Responsiveness: The modern Dilemma p. 128) citado por DONAIRE1 FASE 3 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 12 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ c) D e s e nv olv e proje tos e s pe c ia is internos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 1 DONAIRE, Denis. Deteriorização da Variável Ecológica na Organização das Empresas Industriais. Trabalho apresentado no concurso livre-docência, FEA/USP, 1993, p. 14. e) Incorpora função na atividade linha da estrutura organizacional f) Modifica os processos e investe recursos g) D issemina a responsabilidade por toda a organização (insere na Cultura) c) S oluciona problemas técnicos c) P rovoca a lterações na s unida de s d) D esenvolve sistema de aprendizado operacionais nos níveis técnicos/administrativos d) Aplica os dados desenvolvidos na e) D esenvolve sistema de interpretação a v a lia çã o do de s e m pe nho do ambiente externo organizacional f) R e p re s e n t a a o r g a n i z a ç ã o externamente FASE 1: Preocupação social existe, mas não está especificamente ligada com a organização (PERCEPÇÃO) FASE 2: Fica clara a implicação da organização, mas a obrigatoriedade da ação é reduzida (COMPROMISSO) FASE 3: Exige ações específicas da organização e torna-se possível a ocorrência de sanções (AÇÃO) UNIDADE ADMINIS TRATIVA AS S E S S ORIA ES P E CIALIZADA CÚPULA a) Reconhece importância na política a) Obtém conhecimento organizacional b) Contrata assessoria b) E screve e comunica essa importância aos grupos externos a) Obtém compromissos organizacionais. b) Modifica padrões de desempenho organizacional ○ FASE 2 ○ FASE 1 ○ NÍVEL ORGANIZACIO NAL ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Fonte: Afirmativas constantes da escala construída para a realização desta pesquisa 12 A empresa divulga interna /externamente suas ações ecologicamente corretas. 12 Há um entendimento pelos chefes/supervisores sobre o que devem fazer pela preservação ambiental e a imagem da empresa nessa área. 3. Processo de Comunicação organizacional 12 A área ambiental está integrada às demais áreas da empresa. 12 A empresa também se preocupa com a higiene industrial – a qualidade do ambiente de trabalho e a saúde do trabalhador. 12 A empresa não estende a os empregados problemas ambientais, apenas aqueles estritamente necessários. 12 A política ambiental adotada reflete o compromisso da alta administração com a melhoria contínua do desempenho ambiental da empresa. 2. Filosofia/Modelo de Gestão 12 Freqüente agenda de discussões e eventos relativos às ações de preservação ambiental na empresa. 12 Investimento em P rogramas de E ducação Ambiental 12 Utilização no TI (Treinamento Introdutório aos Novos E mpregados) de conceitos de preservação ambiental. 1. Políticas de T & D I - PADRÃ O CULTURAL Quadro 4 – Padrão Cultural ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 13 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Quadro 6 Fases do Envolvimento Empresa Meio Ambiente/ Práticas de Preservação Ambiental ○ ○ ○ ○ ○ 1. PO LUIÇ Ã O A TMO S FÉRIC A A empresa controla suas emissões atmosféricas, se acionada pelo órgão fiscalizador e/ou a comunidade. 2. Poluição da Á gua/ Racionalização do C ons umo E xiste na empresa estação de tratamento de efluentes. A empresa vem utilizando um processo de racionalização da água, dada a sua escassez na Região. Há necessidade de redução de produtos químicos a serem descartados pela empresa em seu processo produtivo. 3. Us o e racionalização de Energia A empresa possui estudo e/ou programa de racionalização de energia 4. Res íduos Industriais S ólidos A empresa reutiliza materiais e produtos gerados por ela e/ou outras organizações. A empresa trabalha com coleta seletiva de resíduos gerados. ○ ○ • • • • • • • • • • Fonte: Afirmativas constantes da escala construída para realização desta pesquisa O método de análise apresenta os cortes analíticos dentro do segmento empresarial de exportação, a partir da definição de seu porte, da diferenciação da atividade industrial que, por sua vez, indica a intensidade de seu impacto ambiental. constantes da listagem do Centro Internacional de Negócios (CINTER) nem através da companhia telefônica. Dessa forma, apenas oito empresas apresentaram as condições exigidas para este estudo, e se dispuseram a participar da pesquisa sem a identificação da empresa. Dentro deste conjunto situacional, inserem-se os dados primários obtidos através da aplicação da escala, entrevistas e observação direta bem como os secundários extraídos da análise documental. Contudo, como se trata de um estudo de casos múltiplos, a quantidade aqui não compromete a qualidade da pesquisa, e sim, seu aprofundamento com as bases teórico-empíricas trabalhadas. Na tabela 1, tem-se a composição da amostra selecionada. Após contato com as vinte empresas selecionadas, houve uma dificuldade em obter telefones corretos, algumas pareciam não existir mais, pois, não se conseguiu contato em nenhum dos telefones Tabela 1 Caracterização da Amostra, por Setor e Porte SETO R /PO RTE MIC RO PEQ UENA MÉDIA G RA NDE TO TA L Agroindústria - - - 1 1 B ebidas - - - 1 1 Exploração Extração de P etróleo - - - 1 1 Metal-Mecânico - - - 1 1 Refino de P etróleo - - 1 - 1 S iderúrgico - - 1 - 1 Têxtil - - - 1 1 Veterinário - - 1 - 1 TOTAL - - 3 5 8 Fonte: Pesquisa direta ○ ○ 14 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Quadro 7 - Caracterização da Amostra, por Setor e Origem S ETO R C A RA C TERÍS TIC A O RG A N IZA C IO N A L Agroindústria Multinacional B ebidas L ocal E xpl.E xtr.P etróleo Nacional Metal-Mecânico L ocal Refino de P etróleo Nacional S iderúrgico Nacional Têxtil Nacional Veterinário Multinacional Fonte: Pesquisa direta Um terceiro fator considerado na pesquisa foi o impacto ambiental da atividade industrial em seus diversos graus porque é este o principal determinante da intensidade do envolvimento empresarial com o meio ambiente. Esta informação atividade/impacto ambiental somente foi possível por meio do SEBRAE, pois o órgão fiscalizador, por uma questão de ética, não identificou as empresas e seus graus de comprometimento ambiental. Este comportamento revelou, mesmo sem uma pesquisa aprofundada, como o nível de conscientização ambiental ainda não se instalou no Ceará, comparado à realidade americana onde o próprio órgão fiscalizador e a sociedade publicam listas das empresas poluentes e reincidentes. Dessa forma, agruparam-se os setores pesquisados e seus respectivos impactos ambientais para que se possa refletir sobre a necessidade urgente de um processo de conscientização ambiental. Observe-se o quadro 8. Q uadro 8 - Caracterização da Amostra, por S etor e Impacto Ambiental S ETO R IMPA C TO A MBIENTA L Agroindústria Alto B ebidas Médio Expl.Extr.petróleo Alto Metal-Mecânico Alto Refino de P etróleo Alto S iderúrgico Alto Têxtil Médio Veterinário Médio Fonte: S E B RAE Pôde-se verificar que o nível de envolvimento das empresas com a questão ambiental está diretamente relacionado com o impacto ambiental que sua atividade provoca. Este, por sua vez, depende do estágio tecnológico do setor, tipos de matéria-prima e energia utilizadas no processo produtivo. Somando-se a esse fator encontram-se as pressões dos diversos atores sócio-político-econômicos e culturais envolvidos direta ou indiretamente em seus negócios em diferentes gradações dependendo do grau de conscientização alcançado com relação à preservação ambiental. Estas pressões, por sua vez, podem referir-se à poluição do ar, da água, do solo ou uso da energia. Todas as empresas pesquisadas afirmaram possuir atividade/função ambiental/ecológica, entretanto, necessário se fez estabelecer uma sutil diferença entre desenvolver a atividade específica, juntamente com as atividade de Saúde e Segurança do Trabalho, por exemplo, e considerando-se o nível hierárquico (departamentalização ou assessoria), com a função meio ambiente definida. Observem-se essas diferenças, e a quantificação das empresas nesse aspecto, nas tabelas 2 e 3, respectivamente. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 15 ○ ○ ○ ○ ○ Esta caracterização do setor e sua origem, permitiu verificar as diferenças existentes na orientação da gestão em cada uma delas, e as dificuldades decorrentes. Isto posto, destacam-se as multinacionais pois, depende de orientações muitas vezes conflitantes com a cultura do país e da região onde estão instaladas. Este aspecto dificulta o ajustamento à cultura local. Observe-se, o quadro 7. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Ta b e la 2 – E m presas que não possuem atividade/função a m biental/ecológica O R IG E M Nº Médio /G ra nde Multina ciona l 2 Gra nde / Mé dio Na ciona l 2 L oca l 2 ○ ○ PO R TE TOTAL 6 F o nt e : P esquisa D ireta Nessa primeira situação, em que as empresas não possuem na estrutura organizacional, a função específica para o meio ambiente, esta geralmente delegada à área de produção ou seja, a responsabilidade dos problemas ambientais fica sob sua tutela; essa foi a realidade encontrada nesta pesquisa, na maioria das empresas, com exceção de uma delas, que agregou as questões do meio ambiente à Coordenação de Qualidade. Uma segunda situação, onde a empresa cria na sua estrutura organizacional, a função específica para o meio ambiente percebe-se uma maior importância dada a questão. Encontrou-se apenas em duas empresas nacionais cujas atividades são de alto risco ambiental, sendo pelos menos três delas, recentemente certificadas pela ISO 14.001 e SA 8.800 com uma unidade no Ceará. Foi necessário o deslocamento da pesquisadora até Natal, na sede da empresa para que fosse possível coletar todas as informações necessárias ao trabalho relativo a essa unidade do Ceará no município de Paracuru, observe-se a tabela 3. Tabela 3 – Empresas que possuem a atividade ecológica/ambiental na estrutura organizacional S ETO R PO RTE O RIG EM Nº P etroquímico Médio Nacional 1 Refino de P etróleo Grande Nacional 1 - - 2 Total Fonte: P esquisa D ireta No tocante aos ocupantes da função/atividade ambiental, pôde-se observar que todos são do sexo masculino, e se encontram na faixa etária entre os 35 a 45 anos, com experiência superior a três anos. Foi importante verificar a recente qualificação dos recursos humanos para a área ambiental encontrada nesta pesquisa, pelo fato de que esta pode ser considerada como um fio condutor de mudanças na postura empresarial, principalmente quando a área está definida enquanto função na estrutura organizacional, na tabela 4. Ta b e la 4 – P erfil G erencia l da Área Am bienta l N º ID A D E ( 3 5 -4 5 ) N º E X PE R IÊ N C IA ( S U P. 3 A N O S ) N º E S PE C . N º M E S TR A D O Ma sc 8 8 8 3 F em - - - - Tota l 8 8 8 3 S EX O F o nt e : P esquisa D ireta ○ ○ 16 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Não se pretende, neste momento final, simplesmente repetir ou resumir as várias descobertas originadas dos oito (08) casos estudados. Busca-se evidenciar, explicitar e refletir sobre as diferentes culturas dessas empresas multinacionais, nacionais e locais e suas relações com o meio ambiente a partir de suas práticas de preservação ambiental. Desse modo, podese realizar prognósticos de necessidades de mudança cultural no trato da questão ambiental. Para as empresas enfrentarem essas mudanças, reconhecerem a necessidade da preservação ambiental, e responsabilizarem-se pelos efeitos de suas atividades no meio ambiente para quem dantes definia o que interessava ao consumidor e desconsiderava o meio ambiente não tem sido fácil. Além disso, à luz dessas reflexões, revisita-se as principais tendências apontadas pelos resultados da pesquisa empírica, e realçando o que acredita-se terem sido as mais relevantes contribuições deste estudo. Neste sentido, a revisão de literatura mostrou que os processos organizacionais relativos ao trabalho com a cultura organizacional não são fáceis de mudar, requerem dedicação e estratégias inteligentes bastante participativas para transformá-las. Este trabalho, iniciou-se destacando a evolução das relações do homem com a natureza, os principais problemas ambientais globais, o novo redesenho da cultura empresarial focada na cidadania e responsabilidade socioambiental. Associam-se, também, nesse contexto, as ferramentas tecnometodológicas de abordagem ambiental no âmbito empresarial, que foram encontradas em uso em algumas das empresas pesquisadas. Ao selecionar-se a categorização de Kilman para a verificação dos artefatos concretos da cultura organizacional a serem trabalhados na pesquisa, pôdese verificar, ao aplicá-las em cada caso, uma maior ou menor utilização dos artefatos concretos culturais como auxiliares na inserção da questão ambiental na empresa. Este fato, evidenciou na realidade, o pouco ou quase nenhum conhecimento por parte da organização da força de sua cultura para uma mudança situacional requerida. Dentre os muitos fatores contribuintes para essas mudanças no quotidiano empresarial, podemos dizer que, um deles está relacionado com as novas posturas do consumidor quando da aquisição de produtos industrializados. Até bem pouco tempo, o consumidor fazia apenas pesquisas de preços; atualmente considera além da qualidade, durabilidade, eficiência, e confiabilidade do produto, os atributos ambientais, que também entram na lista de verificação. Esse consumidor hoje utiliza com bastante freqüência e desenvoltura, o Código de Defesa do Consumidor em busca de seus direitos. Finalmente, ficou bem claro o estágio de envolvimento organizacional da empresa com o meio ambiente, quando da aplicação do Modelo de Ackerman e Bauer, voltado para essa identificação. Desse modo, viu-se em cada caso, a diversidade cultural existente e o estágio de envolvimento organizacional com o meio ambiente. Historicamente, essa evolução se deu por meio de diversos estudos e lutas de vários atores (ambientalistas e cientistas dentre outros) interessados na evolução da ciência e da qualidade de vida do homem e do planeta. Com o desenvolvimento do processo de conscientização do consumidor, os atributos ambientais estão se tornando commodities: produtos recicláveis aproveitáveis como fertilizantes de jardins, sabão líquido e detergente lava-louça biodegradáveis, geladeiras ecológicas (sem gás CFC, que destrói a camada de ozônio da Terra) dentre outros. Estas são algumas das respostas das indústrias à preservação ambiental. Considerando-se as múltiplas culturas, que nessas empresas convivem recomenda-se trabalhar aspectos da cultura organizacional sob pena de não se conseguir os objetivos de qualquer projeto empresarial, que envolva mudança cultural. Neste sentido, a academia contribui com o empresariado, por estar mais familiarizada com a teoria, nesse tipo de pesquisa; muitas investigações poderão ser desenvolvidas para que realmente sejam criadas abordagens e ferramentas que de fato expressem a urgente necessidade de mudança de foco, do mercado, ainda hoje pautado tão-somente no aspecto econômico. Por outro lado, as empresas vêm se surpreendendo a cada dia com as comunidades, em seu entorno, funcionários e organizações não governamentais conscientes e atuantes, lhes cobrando qualidade de vida e qualidade ambiental. Todo este cenário se traduz na formação de uma nova cultura, que se gesta em meio ao conturbado momento social nos dias atuais. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 17 ○ ○ ○ Essa exigência de mudança na postura das empresas em relação ao meio ambiente já está também presente nas instituições financeiras, que operam com linhas de crédito e seguros. Estas não aprovam cadastros de empresas que não apresentem uma boa performance ambiental, nem com passivos ambientais. ○ CONSIDERAÇÕES FINAIS ○ 4 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ○ ○ ○ ○ ○ DAMATTA, Rober to. Relativizando: uma introdução à antropologia social. 5. ed. São Paulo: Rocco, 1987. ALENCAR, Alexandrino de Salles Ramos de. A gerência ambiental na química do negócio. Case Studies, nov-dez/97, p. 20-38. 1997. DEMO, Pedro. Educar pela Pesquisa. 3. ed. Campinas, SP; Autores Associados, 1998. 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É utilizado para este trabalho o estudo de casos múltiplos, envolvendo cinco empresas sediadas no Ceará nos portes pequeno, médio e grande, tendo sido usado um questionário para a obtenção das informações. Os dados obtidos são apresentados e analisados. Este artigo serve como um referencial teórico sobre o assunto e também como um indicativo das ações a serem tomadas no sentido da melhoria dos Sistemas de Planejamento e Controle da Produção das indústrias de confecções. PALAVRAS-CHAVE: Sistemas de Planejamento e Controle da Produção; aparelhos industriais. ABSTRACT This paper presents an analysis of the Production Planning and Control Systems (PPCS) used by the apparel industries located in the state of Ceará, representing one of the most important sectors of the local economy. Initially it is characterized the sector, showing its economic importance and the problems faced. Following, it is realized a bibliographic research over the theme PPCS and the most relevant points in the apparel industry. It is used a multiple case study involving five companies located in Ceará, with small, medium and large sizes, collecting data with the aid of a questionnaire. All results were analyzed and presented. This paper serves as a theoretical reference about the subject as well as an indication to the actions that should be taken in order to improve the Production Planning and Control Systems for the apparel industries. KEY WORDS: PPCS; apparel industries. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 19 ○ ○ ○ ○ ○ ○ 1 ○ ○ ○ INTRODUÇÃO 2.1 FUNÇÕES DE LONGO PRAZO DO PCP ○ ○ ○ ○ ○ Entende-se por funções de longo prazo aquelas que possuem um relacionamento mais estreito com o planejamento estratégico da corporação, envolvendo desta forma aspectos mais abrangentes relacionados à produção, tais como a definição da estratégia de produção a adotar, se será tradicional ou mais avançada, como do tipo just in time, por exemplo; estabelecimento do plano de produção em função do plano de vendas desejado, o que envolverá a definição prévia dos recursos produtivos necessários (mão-deobra, materiais e máquinas) para que este plano seja atendido. Nesta etapa também deverá ser realizada a previsão de vendas, que será a base fundamental para a definição do plano de produção (TUBINO, 2000). A indústria de confecções do Estado do Ceará é considerada uma das mais representativas, já tendo sido classificada como o segundo maior polo de confecções do Brasil. De acordo com Oliveira & Ribeiro (1996), as regiões Sul e Sudeste concentram grande parte da produção, respondendo por 87% dos confeccionados têxteis. Ainda segundo o mesmo informe, os Estados de São Paulo e Santa Catarina são os que mais se destacam, sendo que o Ceará possui forte representatividade. A indústria de confecções possui tipicamente um processo produtivo por lotes, caracterizando-se como uma produção do tipo intermitente repetitiva. Assim sendo, o sistema de Planejamento e Controle da Produção (PCP) utilizado contribui fortemente para um desempenho favorável ou desfavorável da organização, trazendo à tona a questão de qual modelo de PCP deve ser adotado para que possa contribuir para a maior competitividade da empresa. 2.2 FUNÇÕES DE MÉDIO PRAZO As funções de médio prazo compreendem aquelas atividades que se relacionam com a definição do plano-mestre de produção, que é definido a partir do plano de produção estabelecido. Poucas são as empresas de confecções que possuem um patamar organizacional superior, havendo O MPS (Master Production Schedule ou Planejamento Mestre da Produção) coordena a demanda do mercado com os recursos internos da empresa de forma a programar taxas adequadas de produção de produtos finais, sendo um nível intermediário de planejamento responsável pelo processo de desdobramento dos planos estratégicos, de vendas e de operações em planos operacionais (CORRÊA et al, 2001). um grande número de empresas defasadas, que competem via custo de mão-de-obra ou terceirização, um mecanismo geralmente usado em busca de ganhos de produtividade, mas, que no Brasil, vem se confundindo com redução de custos através da informatização (OLIVEIRA; RIBEIRO, 1996, p. 2). No caso específico do Ceará, os últimos dados disponíveis que constam no Plano de Expansão e Modernização da Indústria de Confecções do Ceará (1994) apontam uma queda significativa da participação da Indústria de Confecções em relação ao segmento industrial. Esta mesma análise considera que a indústria de confecções faz parte de um complexo produtivo de extrema importância para o Estado do Ceará. 2.3 FUNÇÕES DE CURTO PRAZO As funções de curto prazo relacionam-se com o planejamento operacional do PCP, aproximando-se assim das atividades ligadas às operações realizadas em nível de chão de fábrica, necessitando então de maior nível de detalhamento. Abrange a gestão dos estoques, seqüenciamento da produção, programação das ordens de fabricação e acompanhamento e controle da produção (TUBINO, 2000). No Brasil, a indústria do vestuário apresenta sérias limitações em seus níveis de qualidade e produtividade (FERRAZ et al, 1995). Este artigo busca identificar e analisar os sistemas de PCP utilizados pela indústria de confecções do Estado do Ceará, avaliando esses sistemas em termos da adequação das técnicas utilizadas e seus reflexos no desempenho do sistema produtivo. Essa análise cobrirá as funções de longo, médio e curto prazo. 2 Incluem-se nesse nível o MRP, MRP II, ERP, kanban, OPT e os sistemas híbridos de PCP. 2.4 A INDÚSTRIA DE CONFECÇÕES Podem ser muito variadas as possibilidades de produção de roupas devido aos vários tipos de confecções possíveis, tais como: calças, camisas, vestidos, saias, roupa íntima, artigos de cama e mesa, linha praia etc. Esta heterogeneidade fica mais evidente se for considerara a fragmentação do mercado por sexo, idade, renda etc. (OLIVEIRA; RIBEIRO, 1996). Entretanto, o sistema produtivo apresenta algumas características comuns que são apresentadas aqui para clarificar, em linhas gerais, como ele funciona. O PLANEJAMENTO E CONTROLE DA PRODUÇÃO E A INDÚSTRIA DE CONFECÇÕES Em termos de abrangência, o PCP pode se dedicar a aspectos relativos a decisões de longo, médio ou curto prazo. ○ ○ 20 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ APLICAÇÃO DOS QUESTIONÁRIOS E RESULTADOS OBTIDOS 4.1 AS EMPRESAS PESQUISADAS Foram pesquisadas cinco empresas fabricantes de roupas, três sediadas em Fortaleza e duas no município de Maracanaú, distrito industrial situado próximo à capital. Objetivando preservar sua identidade e manter o sigilo das informações prestadas, as empresas serão neste trabalho identificadas pelos números 1, 2, 3, 4 e 5. A indústria do vestuário, sendo tipicamente de moda, é um ambiente bastante propício à utilização de técnicas de flexibilização da produção, tais como o JIT/Kanban (TAVARES, 1990). 4.2 ANÁLISE DOS DADOS Os resultados obtidos das cinco empresas pesquisadas demonstram que, apesar das diferenças de porte, produtos e mercados, elas possuem muitas semelhanças em termos de sistema de planejamento e controle da produção, e algumas divergências, conforme pode ser observado no quadro 1. METODOLOGIA DE PESQUISA 3.1 MÉTODO DE PESQUISA É interessante observar a inexistência de um órgão formal de PCP na maior empresa pesquisada, que é de grande porte, e o sentimento do seu gerente de produção que não vê isso como uma necessidade, uma vez que ele considera que tudo está bem assim. Esse aspecto levanta a questão da importância ou não da existência de um órgão estruturado de PCP para a melhoria do desempenho da organização. Mesmo as empresas pesquisadas que possuem um órgão de PCP, suas atribuições, embora pertinentes, possuem pouca abrangência e relevância estratégica para a organização, concentrando-se basicamente em atividades operacionais. As atribuições mais estratégicas encontramse nos níveis superiores da organização. Para a coleta das informações necessárias à identificação e análise dos sistemas de PCP utilizados pelas indústrias de confecções do Estado do Ceará, optou-se pelo uso do Estudo de Casos Múltiplos. 3.2 O INSTRUMENTO DE PESQUISA Nesta pesquisa, foi utilizado um questionário com perguntas fechadas, semifechadas e abertas. Esta flexibilidade que foi utilizada para as perguntas visou dar maior mobilidade para que pudesse ser obtida a informação com o maior grau de detalhe possível, sem, entretanto, cansar o respondente já que havia o interesse de aprofundar as questões. 3.3 NÚMERO DE EMPRESAS PESQUISADAS Considerando-se a abordagem teórica proposta, cinco empresas é um número suficiente (DONAIRE, 1997). Por outro lado, a opção pela obtenção de informações mais aprofundadas relativas ao sistema de PCP das empresas, que tem por conseqüência a necessidade de uma maior dedicação dos respondentes, aliado ao caráter confidencial dos dados, restringem a disponibilidade destas em participarem da pesquisa. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 21 ○ ○ ○ 4 ○ O questionário é composto de seis blocos: A,B,C,D,E,F. Cada bloco de questões busca obter informações sobre determinados aspectos relacionados ao PCP: A - Dados Gerais Sobre a Empresa; B Visão Geral do PCP da Empresa; C - Funções de longo prazo do PCP; D - Funções de médio prazo do PCP; E- Funções de Curto Prazo; F - Outras informações ligadas ao PCP. Após a definição dos produtos a serem produzidos, é realizado o corte do tecido procurandose aproveitá-lo ao máximo, por intermédio do processo de encaixe. Após o corte, os componentes gerados são encaminhados para as áreas de preparação onde são costurados os componentes, preparando-os para as sub-montagens e montagens, possibilitando assim a produção da roupa. Após isso, é feito o acabamento, com a colocação de peças acessórias, tais como rebites, botões, zíperes etc, bem como retiradas pontas de linha, inspeção final e outros acabamentos pertinentes. No caso de roupas jeans, antes deste acabamento é realizada uma lavagem para dotá-la da coloração e maciez necessária. Há também a passadoria onde é feita a passagem da roupa pronta com ferros de engomar. Finalmente é realizada a embalagem. Estas etapas podem sofrer algumas variações em função do tipo de roupa que está sendo confeccionada. (ÌTALO, 1987; NUNES,1998). 3 QUESTIONÁRIO DE PESQUISA ○ 3.4 O O setor tem como característica básica ser fortemente influenciado pela moda, podendo lançar quatro coleções por ano: inverno, primavera-verão, verão e alto verão. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Um aspecto comum às empresas e que está bastante evidente é a ausência de planejamento de longo prazo e de uma definição formal da estratégia de produção, o que traz, consequentemente, indefinição de rumos nos níveis de médio e curto prazo. Esse fato, possivelmente, está relacionado à instabilidade econômica do nosso país que torna muito vulneráveis os planos de longo. Embora a referida instabilidade seja verdadeira, isso não justifica o falta da determinação dos horizontes da organização, uma vez que é melhor ter-se algum rumo, mesmo incerto, a não possuir rumo algum.. Por outro lado, e por conseqüência, a inexistência de uma estratégia formal de produção, possivelmente, está associada a visão predominante de que a produção não exerce um papel estratégico para a organização, visão essa que está em desacordo com os tempos atuais. que fazer ajustes posteriores no plano de produção devido à sua imprecisão. Além do mais, a previsão pode ser feita para família de produtos, sem descer a detalhes por referência. As empresas pesquisadas demonstram nesse aspecto confiar muito na experiência da direção da empresa, inclusive e principalmente do próprio dono, que indica, pelo seu sentimento, o que deverá ser mais vendido. Demonstram também, no caso das maiores, um certo poder de influência junto aos lojistas na oferta daquilo que está sendo produzido. Excluindo-se o fato de todas usarem arranjo físico celular, as empresas demonstram não estarem em sintonia com as modernas abordagens gerenciais que aprimoram o PCP, tais como o JIT, TQC etc, com exceção da empresa 3 que usa parcialmente algumas ferramentas da qualidade. Neste sentido, pode ser observado que a entrega de alguns aviamentos é feito de uma forma muito rápida devido à proximidade dos fornecedores. Esse fato pode facilitar uma parceria cliente-fornecedor externo no sentido de proporcionar entregas JIT, agilizando o processo de produção e contribuindo para a redução dos custos. Mesmo no caso do fornecimento dos tecidos, isso também pode ser viabilizado, uma vez que existem muitas tecelagens no Ceará. Observa-se também que os objetivos de desempenho declarados pelos respondentes possuem certa coincidência, uma vez que custo e qualidade estavam sempre em primeiro lugar, excetuando-se uma que os colocou em segundo. Entretanto, não foi observado nenhuma ligação formal desses objetivos de desempenho com o sistema de PCP adotado. Possivelmente essa vinculação não esteja tão clara para a organização A consciência de que o PCP pode contribuir para a redução dos custos, uma vez que elimina desperdícios, poderá estimular a adoção de sistemas mais adequados. Nenhuma empresa pesquisada faz uso de procedimentos estruturados para definição do plano de produção, confiando-se basicamente em sua experiência. Devem existir possibilidades de melhoria neste aspecto, por meio de soluções mais economicamente viáveis para a definição do plano. Como já foi mencionado, a não formalização de um plano de produção (para um horizonte de longo prazo) ratifica a pouca preocupação das empresas pesquisadas com relação ao plano estratégico, com evidentes reflexos negativos nas ações de médio e longo prazos. Além disso, por sua informalidade, as decisões carecem de mensurações mais precisas em termos dos custos das alternativas de produção. Outro ponto comum, é o uso predominante do arranjo físico celular, que na área de confecções é chamado de grupo compacto, o que contribui para redução do lead time e aumento da flexibilidade. Entretanto, esses objetivos poderiam ser incrementados com o uso do kanban, que não é usado em nenhuma delas, embora possuam baixíssimo tempo de setup que facilitaria sua viabilização. Conforme pode ser coletado durante a pesquisa, esse tipo de arranjo físico é de uso disseminado nesse tipo de indústria. A utilização do arranjo físico celular é de mais fácil utilização em confecções tendo em vista a maior facilidade de locomoção e rearranjo dos postos de trabalho. Embora algumas empresas pesquisadas usem técnicas relacionadas à gestão econômica dos estoques, elas ainda são tímidas, o que indica a necessidade do aprimoramento dessa gestão. Predomina nesse aspecto o uso da prática, carecendo assim de aspectos técnicos. As empresas que utilizam a lógica do MRP não a usam integralmente, predominando apenas a noção de aquisição dos materiais em função da demanda dos produtos finais, sem usar, entretanto, uma visão integrada de gestão. A classificação ABC é utilizada só pelas empresas 2 e 5, entretanto, não foi identificada nenhuma regra clara, de efetivo uso, para essa classificação. O dimensionamento dos lotes é feito também baseado, em todas elas, na prática, sem considerações mais precisas desse dimensionamento em fatores tais como custos ou lead time. A ausência de técnicas estatísticas de previsão de vendas também foi comum a todas elas, o que contribui para tornar frágil o planejamento da produção. Muito provavelmente, isso se deve ao fato da demanda nesse setor ter características sazonais, com produtos que mudam suas características em função da moda, e da produção estar baseada em parte na carteira de pedidos confirmados. Deve ser observado, porém, que algumas das empresas pesquisadas produzem produtos com certa estabilidade de demanda, ou seja, que não sofrem tanta influência da moda, como é o caso das que produzem calças jeans e camisas tear. Assim sendo, mesmo com produtos que variem em função da moda, isso não invalida o uso de previsões estatísticas, uma vez que, como pode ser observado, algumas têm ○ ○ 22 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ De uma forma global, pode-se afirmar que as empresas de confecções pesquisadas possuem boa margem de possibilidades de melhoria nos seus sistemas de PCP. A adoção de sistemas híbridos deve ser considerada com o uso, por exemplo, do MRP, para o nível macro de planejamento agregado e gestão dos materiais e emissão de ordens de compra, e o kanban para o nível operacional de fábrica, ou outra combinação pertinente. A utilização dessas práticas teria certamente, reflexos positivos no desempenho da organização. É ponto também comum a possibilidade de aprimoramento dos métodos de controle e acompanhamento da produção. Como pode ser observado, apenas a empresa 3 usa ferramentas da qualidade e apenas as empresas 2 e 3 utilizam mais alguns indicadores de produção, além do cálculo da eficiência, para mensurar o processo. É interessante observar que a empresa 3, que utiliza ferramentas da qualidade, apresenta um lead time de 6 dias, menor entre as médias e grandes e igual à pequena, o que pode estar indicando um aprimoramento no seu processo de produção gerado por essas ferramentas. Isso se torna ainda mais relevante ao se levar em consideração que é a única que trabalha somente com pedidos dos clientes, que contribui para um menor nível de padronização e, consequentemente, uma maior complexidade da produção. CONCLUSÕES Conforme foi proposto na introdução deste trabalho, as informações obtidas possibilitaram a identificação e análise crítica dos sistemas de PCP utilizados pelas empresas de confecções do Estado do Ceará e uma abordagem da adequação dos referidos sistemas às necessidades das empresas, abrangendo os horizontes de curto, médio e longo prazo. Nenhuma das empresas faz uso do kanban, embora a idéia predominante nas respostas tenha sido a redução dos estoques. O kanban é plenamente possível de ser usado por esse tipo de indústria. Entretanto, há um fator inibidor que é a variação dos modelos em função da moda, o que necessitaria um trabalho das empresas no sentido de proporcionar uma certa estabilidade dos projetos dos produtos, fato esse que não é tão complexo, tendo em vista que muitas possuem uma linha básica, em cima dos quais são feitas variações em termos de aparência, que às vezes não são tão significativas. Em outros casos, como nas camisas tear, a variação entre modelos é insignificante. Além disso, há fatores favoráveis à adoção do kanban, como o arranjo físico celular presente em todas elas e o reduzido tempo de setup. As empresas de confecções do Estado do Ceará fazem pouco uso das filosofias/técnicas mais recentes da engenharia de produção, tendo sido observado apenas como ponto comum a todas a adoção do arranjo físico celular. Mesmo com relação às técnicas tradicionais, pôde ser observado um uso pouco aprimorado delas, carecendo de critérios adequados que as dêem sustentação. A partir das informações obtidas e da análise crítica, pôde ser detectado que há uma defasagem entre as práticas de PCP utilizadas e as possibilidades que a moderna gestão dos sistemas de planejamento e controle da produção podem possibilitar. Excetuandose o fato de que todas as empresas que foram pesquisadas utilizarem um arranjo físico celular, demonstrando uma boa prática nesse sentido (embora isso esteja relacionado mais à infra-estrutura física do que ao sistema de PCP propriamente dito, ainda que exerça influência sobre o seu desempenho), a ausência de uma prática formal de planejamento de longo prazo, do uso de técnicas como o MRP I, MRP II, ERP, OPT, kanban, ou outras correlatas, certamente deve estar comprometendo o seu poder de competitividade. As respostas dadas ao questionamento relativo ao giro dos estoques mostraram um desconhecimento dos que atuam no PCP em relação a esse aspecto, uma vez que não houve resposta precisa para esse quesito, o que indica a pouca importância dada pelos gestores das empresas a esse indicador como um mensurador das práticas desenvolvidas na produção e do sistema e PCP adotado. Já o reduzido tempo de setup que foi declarado por todas as empresas, mostra uma grande vantagem desse tipo de fábrica já que lhe confere boa flexibilidade e a possibilidade de trabalhar com lotes pequenos. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 23 ○ ○ ○ ○ ○ Através dessa pesquisa, após obter todos esses resultados, tem-se o sentimento que as empresas parecem não conhecer as possibilidades de melhoria existentes em termos de PCP, ou então, não têm segurança de que os modelos oriundos da teoria possam surtir efeitos práticos em sua fábrica. Esse fato é confirmado pelas informações bastante reduzidas que foram obtidas a respeito dos pontos fortes e fracos. Mesmo considerando que duas das empresas pesquisadas utilizam um software para apoio no seqüenciamento da produção, é ponto comum a todas o não uso de algoritmos de seqüenciamento que possibilitem efeitos efetivos nos objetivos de desempenho pretendidos, tal como o desempenho na entrega, que esteve entre o primeiro e segundo lugar no desejo das empresas. O uso predominante do PEPS e das prioridades denota essa desvinculação entre objetivo de desempenho e a prática da produção. Além disso, a visão da OPT não foi identificada em nenhuma das empresas pesquisadas. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Quadro 1 - Principais informações obtidas a respeito dos Sistemas de PCP adotados pelas cinco empresas pesquisadas ○ ○ ○ ○ Empresa 1 Empresa 2 Empresa 3 Empresa 4 Empresa 5 (2.489 func.) (579 func.) (542 func.) (42 func.) (168 func.) Não S im S im Não S im E stratégia de produção Informal Informal Informal Informal Informal Arranjo físico predominante Celular Celular Celular Celular Celular Uso de técnicas matemáticas ou de tentativa e erro para preparação do plano de produção Não Não Não Não Não Técnicas estatísticas de previsão de vendas Não Não Não Não Não Definição do que produzir P edidos e previsão de vendas P edidos e previsão de vendas P edidos dos clientes P revisão de vendas (90%) P edidos e P revisão de vendas P lanejamento das necessidades de material através do uso efetivo do MRP Não Não Não Não Não P EP S / prioridade de venda P rioridade de venda P EP S PEPS / prioridade de venda PEPS / prioridade de venda Ferramentas da Qualidade para controle e acompanhamento da produção Não Não S im Não Não Uso do Kanban Não Não Não Não Não 1 0 dias 1 5 dias 6 dias 6 dias 1 5 dias ○ ○ Empresa ○ C aracterística Órgão de P CP Regra de S eqüenciamento da produção predominante Lead time a partir da emissão da ordem de Corte REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CORRÊA, H.; GIANESI, I. G. N.; CAON, M. Planejamento, programação e controle da produção: MRP II/ERP - conceitos, uso e implantação. São Paulo: Gianesi Corrêa & Associados: Atlas, 2001. PLANO DE EXTENSÃO E MODERNIZAÇÃO DA INDÚSTRIA DE CONFECÇÃO DO CEARÁ-PEMIC. Análise conjuntural da indústria de confecções do Ceará. Fortaleza, 1994. SLACK, N. et al. Administração da produção. São Paulo: Atlas, 1997. DONAIRE, D. A utilização do estudo de casos como método de pesquisa na área de administração. Revista do Instituto Municipal de Ensino Superior de São Caetano do Sul, n. 40, p. 9-19, maio/ago. 1997. TAVARES, S. R. S. Modernização industrial em indústria de mão-de-obra: automação, informatização e inovações organizacionais na indústria do vestuário. Produção: Rio de Janeiro, v.1, n.1, p. 41-48, 1990. UFSC. ELIAS, Sérgio J. B. Os sintomas de planejamento e controle da produção das indústrias de confecções do Estado do Ceará. (Dissertação do Mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina. jun./99. 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Informe Setorial: Rio de Janeiro, n. 9: Sistema BNDES, dez/96. ○ ○ 24 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ A LOGÍSTICA E AS CONFECÇÕES: ESTUDO SOBRE A INFLUÊNCIA DOS FLUXOS DE MATERIAIS, INFORMAÇÕES E FINANCEIRO NA DETERMINAÇÃO DO TAMANHO MAIS INDICADO PARA OBTER LONGEVIDADE E EFICÁCIA CASO DA PRODUÇÃO DE JEANS PARA ADOLESCENTES E JOVENS Fernando Ribeiro de Melo Nunes Dr. Eng. Universidade Federal do Ceará Carlos Manuel Taboada Rodriguez Dr. Eng. Universidade Federal de Santa Catarina RESUMO Neste trabalho o autor, usando sua experiência vivida em 25 anos de trabalho em empresas de confecções, formula proposições, logo transformadas em três hipóteses, demonstradas ao longo do trabalho, com o objetivo de mostrar que os fluxos logísticos influenciam no tamanho e na longevidade das empresas de confecções. O método utilizado foi o de formular proposições a partir do levantamento das características operacionais do setor, transformando estas proposições em hipóteses, a serem fundamentadas no conhecimento teórico da logística e demonstradas por meio de pesquisa de campo com aplicação de questionário. O tamanho mais eficiente de empresa de confecções para trabalhar em um ambiente de alta mutabilidade, como o segmento de jeans feminino para adolescentes e jovens, é o pequeno. A vida útil das empresas que operam neste segmento depende da vida produtiva do proprietário. A logística estratégica é capaz de possibilitar o crescimento ordenado das empresas de confecções, mesmo as que convivem em ambientes mutáveis. Na conclusão fica demonstrada a contribuição deste trabalho para a área da logística e da administração em geral, tanto na prática empresarial como na fundamentação teórica. PALAVRAS-CHAVE: Logística; confecções; tamanho e longevidade. ABSTRACT In this paper the author, using his experience of 25 years of work in apparel companies, makes proposals, later transformed in hypotheses demonstrated through the paper, to show that the logistic fluxes have influence over the size and longevity of the apparel enterprises. The method used was the formulation of proposals based on the operational characteristics of the apparel industry, later transformed in hypothesis having fundament on the theoretical knowledge of logistics and demonstrated through a field research using a questionnaire. The most efficient size to work in an environment of high mutability, like the one that produces feminine jeans for teens and young ladies, is the little size. The life span of the enterprises dealing in this environment depends upon the useful life of the owner. Strategic logistics is capable of allowing the orderly growth of apparel enterprises, even those operating in the market segment presented. At conclusion it stays demonstrated the paper contribution to logistics area and to general administration, both practical and theoretical. KEY WORDS: Logistics; apparel companies; size and longevity. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 25 ○ ○ ○ ○ ○ ○ 1 ○ ○ ○ INTRODUÇÃO empresários, renovação constante de idéias, criatividade e conseqüentemente formação e treinamento contínuos, características empresariais que diminuem com a idade dos dirigentes, gerando redução de competitividade e o conseqüente fechamento das empresas. ○ ○ ○ ○ ○ Este trabalho trata da determinação da influência da logística sobre o tamanho e a longevidade das empresas de confecção. Estas empresas trabalham no universo da moda, ambiente de rápida mutação e incerteza, sujeito à influência de um grande número de variáveis. O segmento escolhido para servir de base ao estudo foi o da confecção de jeans femininos para adolescentes e jovens, em razão de ser o mais volátil da indústria de confecções.O estudo foi desenvolvido na Região Metropolitana de Fortaleza, importante pólo brasileiro de confecções de moda. O problema da mortalidade precoce tem várias causas, fixar-se-á no estudo da parte do problema gerado pelos fluxos logísticos. Os fluxos de informação, de produção e financeiro, da forma como são realizados no setor de confecções, requerem um tempo de reação incompatível com a dinâmica do setor e exigem um capital desproporcional ao porte das empresas. O autor, em razão de ter trabalhado durante vinte e cinco anos como dirigente de empresas de confecção de jeans, ter sido dirigente do sindicato patronal da categoria e ser professor universitário na área de engenharia de produção, durante todo este período, teve a oportunidade privilegiada de interagir e pesquisar as empresas do ramo com maior facilidade. 1.2 A IMPORTÂNCIA DO PROBLEMA Em todo o Brasil, o ramo do vestuário e em particular as confecções de jeans, são grandes empregadores de mão-de-obra e têm significativa influência na arrecadação fiscal de boa parte dos estados da União. No Estado do Ceará, as empresas de confecção ocupam lugar de destaque. A indústria têxtil, em razão de ser um dos mais antigos ramos industriais, foi bastante pesquisada e já não oferece a mesma atratividade investigatória que as industrias eletrônicas, de automação ou de informática. Entretanto, verifica-se que a cadeia têxtil em geral, e as confecções em particular, se constituem em um canteiro propício à aplicação de todas as mais recentes inovações científicas e tecnológicas. A indústria de confecções é uma das maiores empregadoras de mão de obra feminina com baixa instrução e o segmento de jeans femininos para adolescentes e jovens, usando equipamento convencional, criatividade e mão de obra habilidosa e barata, é um laboratório aberto ao desenvolvimento de novos modelos de gestão e ao estabelecimento de novos aportes ao conhecimento teórico. Tendo como vantagem competitiva a grande habilidade manual da mulher cearense e contando com os incentivos da SUDENE Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, inicialmente, e com o FNE Fundo de Desenvolvimento do Nordeste, atualmente, além de incentivos fiscais do Governo do Estado, a indústria de confecções migrou de vários Estados para o Ceará, tornando-o um pólo avançado da moda no Brasil. A Região Metropolitana de Fortaleza abriga cerca de 9% das empresas brasileiras da indústria de confecção. No período entre 1970 e 1990, as confecções responderam por uma arrecadação entre 25 e 28% do PIB cearense. Evidente se torna, que o problema da mortalidade nas empresas de um setor tão representativo na economia do Estado do Ceará e na do Brasil, como grande gerador de empregos e com participação significativa no PIB do Estado, é um problema importante e que precisa de solução. A importância cresce na proporção em que os escassos recursos são investidos na criação de empresas de curta duração. Os prejuízos dados ao Governo em termos de impostos não recolhidos e nos novos investimentos necessários ao treinamento e relocação da mão-deobra dispensada são significativos, como também os danos causados a outros setores, provocados pelos créditos de fornecedores não pagos, abalando o equilíbrio da economia e dificultando a abertura de novos negócios. Todos estes são fatores que demonstram a importância de estudar e tentar resolver este problema. 1.1 O PROBLEMA São fatos comprovados em todo o mundo as dificuldades que sofrem as novas empresas para sobreviver nos seus primeiros anos de vida. A mortalidade precoce do setor industrial das confecções apresenta valores superiores à média dos demais setores. O autor identifica a curta longevidade das empresas de confecções como uma conseqüência visível do real problema de sobreviver em um ambiente de incerteza e rápida variabilidade. Grande parte das empresas que atuam nos segmentos mais sujeitos às oscilações da moda, morre antes de atingir a adolescência. Este fato gera uma inexperiência generalizada entre os empreendedores e um êxodo da mão de obra treinada, o que propicia a reincidência nos mesmos erros, sem que se adotem ações corretivas. As empresas que sobrevivem, precisam de constante atualização para acompanhar as necessidades dos clientes, o que exige vitalidade dos ○ ○ 26 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Demonstrar que a aplicação da logística estratégica é capaz de aumentar a probabilidade de sucesso nas empresas de maior tamanho e idade; Propor uma metodologia de análise que permita, através de uma abordagem da logística estratégica, do marketing, do empreendedorismo e da organização, explicar as causas do problema da mortalidade precoce nas empresas de moda e propor medidas para evitá-las. o conhecimento desenvolvido e sistematizado sobre o setor de confecções, gerou farto material para promover um treinamento eficaz, dirigido às empresas do setor e às possíveis entrantes. uma abordagem teórica diversificada mas integrada, que considera a Logística em seus níveis empresarial e estratégico, o Marketing e a Estratégia. Específicos Aplicar a metodologia proposta no setor da confecção de jeans femininos para adolescentes e jovens, na região metropolitana de Fortaleza, através da: Ü Determinação dos indicadores para a eficiência logística nas empresas fabricantes de confecção de jeans femininos para adolescentes e jovens; Ü Determinação do tamanho mais indicado para uma empresa de confecções ter a maior probabilidade de sucesso, a partir das necessidades de operação e dos problemas referentes aos fluxos logísticos; Ü Estabelecimento da longevidade esperada para as empresas de confecção de jeans femininos para adolescentes e jovens, a partir dos requerimentos logísticos impostos pelo ambiente dos negócios. 1.6 LIMITAÇÕES O setor convive com alto índice de informalidade, o que dificulta o levantamento de dados nas empresas de menor porte, por serem aquelas que mais facilmente proliferam neste ambiente. Declarações do presidente do Sindicato de Confecções Femininas a um jornal de grande circulação em Fortaleza, atestam o fato (DIÁRIO DO NORDESTE, 1998): Segundo levantamento da Secretaria da Fazenda, o Estado do Ceará possui 4.327 empresas, estando 2.972 só em Fortaleza. Este número, quando comparado com as 1.555 empresas regularmente registradas no ano de 1998 na Região Metropolitana de Fortaleza, mostra um percentual de 47,7% de informalidade. O setor, em razão de depender da imagem que passa ao público sobre sua capacidade de interpretar as tendências da moda, é avesso a fornecer informações. Sente nisto a possibilidade de vazar informações para as mãos erradas, o que pode se transformar em uma ameaça à seu sucesso. A pesquisa sofre as limitações da dissimulação nas respostas. 1.4 HIPÓTESES A partir dos estudos teóricos e da observação realizada sobre as atividades das indústrias de confecções, realizada durante 25 anos, é possível formular as hipóteses a seguir: A amostragem foi do tipo voluntária no seu início, o que apresenta bias, já que somente participa quem tem interesse. O ajuste promovido para focar a pesquisa nas empresas produtoras de jeans, apresenta vício quando a seleção das empresas visitadas segue o critério da projeção comercial. Foram pesquisadas as empresas mais representativas do setor, segundo opinião dos dirigentes sindicais e das associações de classe. Hipótese 1: Existe um tamanho mais indicado para as empresas de confecções, determinado pelos fluxos logísticos; Hipótese 2: A vida útil das empresas de confecções depende da vida ativa do proprietário; Hipótese 3: Existe uma logística estratégica mais adequada às empresas de confecções. l l l O estudo foi realizado em somente um segmento da indústria de confecções, devido às restrições de tempo e à complexidade do problema. Procurou-se aquele segmento mais sujeito à influencia da moda e portanto mais dependente da logística. 1.5 RESULTADOS ALCANÇADOS A utilização das conclusões desta pesquisa será um, dentre outros pontos, que possibilita: uma diminuição na mortalidade das empresas de confecções e um aumento no tempo médio do horizonte da sua vida útil. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 27 ○ ○ ○ Gerais ○ Este fato ajuda na melhoria da rentabilidade destas empresas, em uma maior harmonia nas relações de trabalho entre as empresas os operários, na redução do risco de prejuízos aos fornecedores e no aumento da estabilidade na arrecadação fiscal do Estado. DO TRABALHO ○ 1.3 OBJETIVOS ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 2 ○ ○ ○ O UNIVERSO DAS CONFECÇÕES como o vestir certo. A moda varia em função do local, tempo e condições climáticas. Ela é influenciada pelos costumes, a cultura, as inovações tecnológicas, os eventos internacionais, regionais e locais (Figura 1). Também merece citação as chamadas ondas, que são movimentos rápidos de variação dos padrões de vestir de determinadas classes sociais, principalmente atuante entre os jovens, que ocorrem motivadas pôr eventos esportivos, culturais ou sociais.. O movimento da moda é descendente na pirâmide de distribuição da renda. Há uma constante tentativa das classes de renda superior de se diferenciarem das de rendas inferiores e um movimento inverso das inferiores de imitar as superiores, guardadas as limitações das possibilidades financeiras. Devido a esta movimentação contínua, a moda está sempre em mutação, podendo mudar rapidamente de direção. ○ ○ ○ ○ ○ O ato de vestir tem a finalidade de proteger o usuário contra as agressões da natureza e do clima, satisfaz o preceito moral de cobrir a nudez, realça a beleza e os dotes físicos de quem veste. Todo homem civilizado usa roupa e a grande maioria está sempre tentando manter-se atualizado com os mais recentes estilos da moda. A indústria de confecções atende a uma necessidade básica do ser humano, o vestir. A roupa tem suas origens na época das cavernas, quando o homem descobriu que podia usar a pele dos animais como proteção ao seu corpo. A razão de vestir tem sido motivo de muitas pesquisas e estas, apontam como causas fundamentais a proteção, já mencionada, o decoro, com suas raízes bíblicas que remontam ao tempo de Adão e Eva, o conforto que a roupa oferece ao usuário, o status transmitido pôr ela, quer identificando profissões quando veste o soldado, a enfermeira ou o piloto, quer ressaltando classes sociais ou mesmo grupos étnicos e pôr fim, o adorno, embelezando quem a veste. A roupa nos enquadra no grupo a que pertencemos e nos dá o status que temos, ou que queremos ter (NUNES, 1973). Ninguém tem garantia de que o consumidor final vai aceitar os produtos oferecidos. As empresas seguem pistas, sugestões e opiniões quando lançam novas coleções, não há certeza nas ações. A indústria de confecções opera em um ambiente de contínua incerteza. O que se quer hoje pode não ser o mesmo daqui a uma semana. Os movimentos não chegam a ser caóticos, mas às vezes não têm qualquer racionalidade. A questão que se apresenta então é: como planejar e controlar as atividades em uma indústria que vive em estado de constante incerteza? A indústria de confecções é uma indústria de moda e tal como na definição estatística, a moda é a representação do que a maioria das pessoas adota Figura 1 Fatores que influenciam a geração e o movimento da moda Eventos Tempo Usos Cultura Folclore Moda Lugar Costumes Clima Movimento descendente na pirâmide de classes de renda A indústria de confecções se insere dentro da cadeia têxtil, cujas etapas industriais vão desde o beneficiamento das fibras até a confecção de peças prontas para o uso. A confecção é a última atividade industrial antes da comercialização. Consiste no corte e transformação de tecidos planos ou de malha em peças de vestuário, com a ajuda de máquinas de costura e a fixação através de aviamentos como linhas, botões e zíperes, dentre muitos outros. ○ ○ 28 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ As confecções trabalham abastecidas por oligopólios que fornecem as principais matérias primas, tais como tecidos, malhas, linhas e zíperes. Seu produto é altamente elástico e volátil, uma vez que acompanha os ditames da moda. Com tantos fornecedores, o planejamento das compras, a estocagem e o transporte são pontos vitais para o bom funcionamento do setor. A competência produtiva da empresa fica dependente da habilidade dos seus administradores em coordenar a chegada dos materiais e serviços necessários à produção. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Seu mercado, à exceção de alguns monopólios técnicos, se constitui em um mercado de concorrência perfeita (ROSSETTI, 1997) e determina o preço que aceita pagar por cada produto. Nenhuma empresa detém mais de 2% do mercado. A demande de confecções é elástica ao preço, mas principalmente à situação da economia. Em tempos de vaca magra a demanda de vestuário é reprimida pelos consumidores. A venda é sazonal, sendo mais importante no segundo semestre. Localizadas por todo o Brasil, as empresas de confecções têxteis, e em particular as empresas de fabricação do vestuário, são os grandes empregadores de mão de obra feminina e têm influência significativa no recolhimento de impostos de vários estados brasileiros (quadro 1). O Estado de São Paulo detém a mais forte concentração deste tipo de empresas, a grande maioria de PME, dominando 54,26% do mercado brasileiro. Lá também existe forte concentração de empresas de fiação, tecelagem, malharia e acabamento têxtil, facilitando o suprimento de suas empresas de confecção. A diferença de prazos de pagamento entre os que se consegue dos fornecedores e o que exigem os clientes situa-se em torno de 60 dias, o que eleva a necessidade de capital de giro a três vezes o valor da imobilização. O financiamento bancário é uma necessidade a todas as empresas não capitalizadas. Quadro 1 Distribuição da produção das confecções no Brasil Parc ela do Merc ado Bras ileiro detida pelas C onfec ç ões dos Es tados Líderes S ão P aulo 54,26 % Rio de Janeiro 1 2,80 % Minas Gerais 5,95 % Ceará 4,27 % Outros 22,72 % Fonte: Pesquisa SEBRAE-CE, 1996. Os dados estatísticos sobre o Brasil (IBGE 1997) mostram um PIB equivalente a $ 806,24 bilhões de dólares americanos e uma renda média por habitante de $ 5.039,00 dólares americanos. A superfície do Brasil é de 8.512.000 km², e sua população é de 165.864.341 habitantes. A distribuição por regiões é mostrada na tabela 1, abaixo. Tabela 1 Dados estatísticos do Brasil Dado/Região Brasil Norte Nordeste C entro O este Sudeste S ul S uperfície 8.51 2.000km² 38,2% 1 9,3% 24,2% 1 0,6% 7,7% P opulação 1 65.864.341 habitantes 5,8% 28,5% 8,0% 42,7% 1 5,0% P IB US $ 806,24 bilhões 4,6% 1 6,5% 7,2% 53,7% 1 8,0% Fontes: IBGE, Target/ Simonsen Associados In Exame, ed. 673 1998. Como se pode depreender claramente dos dados da tabela 1, o maior mercado consumidor se situa na região sudeste, grande alvo de todas as empresas de confecções brasileiras. Esta região também detém a maior parte das empresas fornecedoras de insumos para a indústria de confecções, o que provoca, um forte fluxo de materiais entre esta região e as demais. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 29 ○ ○ ○ ○ Os clientes atrasam os pagamento sempre que suas vendas aos consumidores finais caem. Esta situação é mais grave no primeiro semestre de cada ano, ocasião em que reduzem as encomendas às fábricas de confecções. Estes clientes além de atrasar costumam recusar o pagamento dos juros sobre os atrasos, fato que dificulta o trabalho dos bancos que passam a recusar sistematicamente o financiamento às confecções ou a cobrar maiores taxas de juros devido ao maior risco. As fabricas de confecções ficam com duas opções: parar de fornecer a estes comerciantes ou financia-los com seu próprio capital. ○ As confecções estão situadas na posição final da parte industrial da cadeia têxtil, têm empresas industriais a montante e empresas comerciais a jusante. Elas tratam com duas formas distintas de organização. Os fornecedores são empresas industriais, que querem a continuidade dos negócios e buscam a eficiência através da produção padronizada. Os clientes são empresas comerciais, que buscam a variedade e são oportunistas para conseguir bons negócios, mesmo em prejuízo das relações com as confecções que os suprem. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 2.1 S ITUAÇÃO DAS CONFECÇÕES NA Estes dados mostram que o problema da mortalidade nas empresas de um setor tão representativo na economia do Estado do Ceará e na do Brasil, como grande gerador de empregos e impostos, é um problema importante e que precisa de solução. Os gastos infrutíferos na criação destas empresas, os prejuízos dados ao Governo em termos de impostos não recolhidos e novos investimentos no retreinamento e relocação da mão-de-obra desempregada, as perdas provocadas pelos créditos não pagos aos fornecedores, são as conseqüências da mortalidade das empresas de confecções mais visíveis. REGIÃO METROPOLITANA DE FORTALEZA ○ ○ ○ ○ ○ O setor industrial responde por 29,3% do PIB cearense, que por sua vez responde por 2,17% do PIB brasileiro (EXAME, ed. 673 - 1998). No contexto da indústria de transformação do Ceará, o segmento de vestuário apresentava em abril de 1991 a seguinte composição: 1989 empresas com 28.599 empregos, representando 37% do número de empresas na indústria de transformação e 22,58% do número de empregados, constituindo-se no maior número de empresas por categoria e o segundo maior empregador. As micro-empresas representavam 90,35% do total de empresas do setor, com 26,04% dos empregos gerados, enquanto que as pequenas, médias e grandes empresas somam 9,64 % das empresas, empregando 73,96% do total de pessoas, salientando-se que deste total as grandes empresas, em número de seis, empregavam sozinhas 33,41% de todo o contingente de empregados O setor tem grande informalidade e as estimativas extra oficiais, à época, eram de que existiam 7.500 empresas de confecções no Ceará (Secretaria do Planejamento do Estado do Ceará - Seplan, In PEMIC, 1993). A diferença entre os percentuais de decrescimento, 29,4% na mão de obra empregada e 31,8% no número de empresas, mostra uma mudança no perfil das empresas e do produto fabricado, indicando produtos mais elaborados, o que provoca menor produtividade por operário empregado. As empresas de confecções do Estado do Ceará e a região Sudeste, distante 4.000 Km, mantém forte intercâmbio comercial. O Ceará importa matérias primas e produtos acabados do Sudeste, maior mercado produtor e consumidor (Tabela 1), e exporta para lá parte dos seus produtos acabados. A ligação entre as regiões é quase que integralmente feita por via rodoviária, com pequena participação do transporte aéreo principalmente nas épocas finais de coleção. Os dados oficiais têm registrado quedas, desde os últimos dados apresentados e o farão até que se restabeleça o equilíbrio no mercado. Dados oficiais do Ministério do Trabalho e da Secretaria da Fazenda do Estado do Ceará (SEFAZ-CE), mostram na tabela 2: 2.2 O As empresas de confecção trabalham sobre uma coleção de modelos que atende aos requisitos da moda e têm vida útil de curta duração. A criação das coleções é realizada após um período de pesquisa das tendências da alta costura, das previsões das revistas especializadas e do que é exposto nas feiras internacionais da moda. O projeto da coleção é seguido da fabricação de protótipos, de sua análise de viabilidade comercial, industrial e financeira, e de uma previsão de vendas. Fruto das análises de viabilidade e da previsão de vendas, procede-se às correções sugeridas nos protótipos e às compras das materias primas e acessórios correspondentes. Tabela 2 Estatística sobre o setor de confecções na região metropolitana de Fortaleza A no N úm e ro de e m pre s as Q uantidade de e m pre go s o fic iais 1 997 1 540 20.1 89 1 998 1 555 1 9.967 1 999 1 520 23.044 Fonte: SEFAZ-CE, e Ministério do Trabalho do Brasil. O número de funcionários com carteira registrada, em novembro de 1997, era 20.189 empregados, representando um decréscimo de 29,4% em 7 anos. Quanto ao número de estabelecimentos, a quantidade era de 1.540 empresas em fins de 1997, um decréscimo de 22,5 % no mesmo período, oscilando um pouco em 1998 e 1999, quando chegou a 1520 empresas e 23.044 empregados. Já os números informais, estimados pelos mesmos órgãos oficiais, apontam, conforme declarações feitas pelo presidente do Sindiconfecções (DIÁRIO DO NORDESTE, 1998): Segundo levantamento da Sefaz, o Ceará possui 4.327 empresas, estando 2.972 em Fortaleza, um decréscimo de 42,30% no número total de empresas, maior do que o percentual das empresas oficiais, fruto da ação fiscal que se intensificou no período. ○ ○ 30 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ FUNCIONAMENTO DAS EMPRESAS DE CONFECÇÃO Cada vendedor ou representante comercial da empresa trabalha com um mostruário completo da coleção em venda. Os mostruários de venda são fabricados dentro das linhas de produção, concomitantemente com a produção regular dos modelos da coleção anterior, para permitir a aferição do grau de dificuldade. A direção comercial faz um pré-lançamento da coleção, apresentando-a aos 20% dos clientes que respondem por 80% das vendas. Um ajuste na previsão de vendas é feito. Em seguida se procede ao balanceamento das linhas de produção, definição das seqüências de fabricação e determinação dos custos previstos e preços de venda. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Figura 2 Ciclo projeto produção venda ALTA COS TURA Coleções dos estilistas célebres B IRÔS DE MOD A Revistas especializadas F EIRAS INTERNACIONAIS Paris, Milão, Londres, Nova York VIAB ILIDADE INDUS TRIAL P ROJE TO DA COL EÇÃO FAB RICAÇÃO DOS P ROTÓTIP OS VIAB ILIDADE COMERCIAL VIAB ILIDADE F INANCE IRA FAB RICAÇÃO DOS MOS TRUÁRIOS COMP RAS P RE VIS ÃO INICIAL DE VE NDAS B AL ANCE AMENTO DAS LINHAS D E P RODUÇÃO P RÉ P RODUÇÃO PRÉ VENDA (Pareto) AJUS TAR A COL EÇÃO VE ND AS S E QÜENCIAR MOD ELOS PARA A P RODUÇÃO FINAL Na cadeia de suprimento as coleções seguem um calendário que acompanha as estações do ano (figura 3). Devido à diferença de seis meses entre as estações nos hemisférios norte e sul, a moda no Brasil chega às lojas seis meses antes de chegar às lojas européias, embora os lançamentos dos grandes costureiros tenham sido feitos a partir das capitais européias. Figura 3 Diagrama de coordenação tecelagem/malharia confecção retalhistas FIM DE ANO OUTONO INVERNO ALTO VERÃO 4 78 9 16 84 7 8 6 7 6 M AR 1 4 FE V 94 12 8 7 4 JUL 1 JUN PRIMAVERA VERÃO 8 4 4 78 3 4 9 EZ JAN 4 D 4 3 4 123 4 45 OUT 6 6 NO 78 V 4 89 7 56 514 ET 4 S 3 57 O G A 8 16 7 8 1 6 5 A BR MA 75 I Confecções Tecidos/Malhas Retalhistas Fonte: Abranches e Brasileiro, 1990. Como se pode observar, o período de vendas para cada coleção é de três (3) meses somente em todas as etapas da cadeia de suprimento. As quantidades vendidas em cada coleção são diferentes e portanto o período que as empresas necessitam para fabricar os produtos também varia. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Um terço da previsão de vendas é usualmente fabricado antes do início das vendas aos retalhistas. Após os primeiros resultados das vendas se promove novo ajuste nas seqüências de fabricação para a totalidade dos produtos que restam (figura 2). ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 31 ○ ○ ○ ○ ○ ○ 3 ○ ○ ○ CONTRIBUIÇÕES DO CONHECIMENTO TEÓRICO À EXPLICAÇÃO DO MODO DE FUNCIONAMENTO LÓGICO DAS EMPRESAS DE CONFECÇÃO confecções. Com este objetivo serão explorados todos os pontos, dentro e fora da empresa, que podem colaborar na redução do tempo do ciclo de prestação do serviço (figura 4). A pesquisa bibliográfica das contribuições teóricas à explicação do modo de funcionamento lógico das empresas de confecções foi desenvolvida nos campos da logística, da estratégia e do marketing. Procurou-se estabelecer um fio condutor dentro da logística envolvendo a estratégia e o marketing, para demonstrar a unicidade de propósitos destas três disciplinas, representada pelo que Colin e Fabbe-Costes (1999) denominaram logística estratégica. O fio condutor será puxado pela busca da redução dos tempos de reação e do ciclo de produção, principal indicador logístico deste ramo industrial, fator que será demonstrado durante a análise das empresas de Inicia-se com o estudo da evolução do conceito da logística e o estabelecimento do seu entendimento neste trabalho. Busca-se a evolução da estratégia e do marketing com o intuito de clarificar a noção de unicidade de pensamento e ação com a logística. Parte-se então para analisar a cadeia de suprimento e nela, detalhar as ações logísticas nas etapas da aquisição, produção e distribuição, com o intuito de determinar os pontos onde se pode reduzir tempo e custos, além de aumentar a flexibilidade do sistema. Finalmente são analisadas as principais estratégias logísticas e a participação dos empreendedores no sucesso de suas aplicações. ○ ○ ○ ○ ○ Figura 4 Esquema das contribuições teóricas ao funcionamento lógico das confecções MARKETING LOGÍSTICA ESTRATÉGIA LOGÍSTICA ESTRATÉGICA EMPREENDEDORISMO E ORGANIZAÇÃO CADEIA DE SUPRIMENTO ESTRATÉGIAS LOGÍSTICAS 4.1 CONCEITUAÇÃO DA LOGÍSTICA prioriza o atendimento e na sua falta o impede, fato constatado na experiência empresarial vivida pelo autor. Desta forma, a definição de logística adotada neste trabalho é um consenso das opiniões dos autores citados, tendo a seguinte redação dada pelo autor: Entender bem o conceito da logística é fundamental para que possamos desenvolver o racional teórico deste trabalho. Cada autor de livro ou trabalho se preocupa em mostrar como entende a logística. As associações que congregam os que trabalham com esta atividade firmam posição. Identifica-se dois direcionamentos claros: o pensamento europeu de que a logística é a coordenação dos fluxos de produção e da informação, liderados pela corrente francesa, e o pensamento norte americano de que a logística é uma ferramenta dentro da gestão da cadeia de suprimento, liderados pela escola da Universidade de Michigan. Logística é o processo de planejar, implementar e controlar os fluxos de produtos ou serviços, de informações e financeiro, desde a obtenção das matérias-primas, passando pela fabricação e satisfazendo os clientes em suas necessidades de tipo, tempo e lugar, através da distribuição adequada, com custos, recursos e tempo mínimos. O autor considera que a idéia de fluxo de suprimento, introduzida por Magee (1968), adotada e enriquecida pelo US Council of Logistics Management (1986) com o acréscimo do fluxo de informações, confirmada por Lambert (1993), Taylor (1997) e Balou (1998), reforçada por Rushton e Oxley (1993) e detalhada por Tixier, Mathe e Colin (1996), deve ser acrescida da menção ao fluxo financeiro, fator que ○ ○ 32 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ A seguir, no quadro 2, apresenta-se um sumário dos aportes de cada autor ou associação ao conceito da logística. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Quadro 2 Sumário de contribuições ao conceito da logística A UTO R DEFINIÇ Ã O DA LO G ÍS TIC A Movimento e manutenção de mercadorias do ponto de produção ao ponto de venda. Movimento desde os fornecedores, passando pela cadeia produtiva e em direção aos consumidores. Atividades de transporte, estocagem, previsão de vendas, escolha e localização das fábricas e entrepostos Gestão do fluxo. Determinação das necessidades, suprimento, distribuição e manutenção. Tornar disponível as mercadorias em um lugar e tempo determinados. Atividades que coordenam o fluxo dos produtos. Nível de serviço a custo mínimo. P lanejamento, implementação e controle dos fluxos físicos, de informação e da estocagem, para satisfazer às especificações dos clientes. Fluxos físicos e de informação. P rocesso de gestão estratégica que utiliza o marketing para satisfazer os pedidos com o menor custo. Logística do suprimento, logística da produção e logística da distribuição. P rocesso inteiro de movimentação dos materiais que entram, passam e saem da empresa. Integração, coordenação e controle da movimentação dos materiais, estocagem dos produtos finais e informações. S istema de controle dos fluxos físicos para suportar a estratégia das “unidades de negócios”. Garantia de menores custos, coordenação entre a oferta e a demanda nos planos estratégico e tático. Gestão estratégica do fluxo de informação, de suprimento e a estocagem dos materiais e produtos acabados. Missão de disponibilizar o produto certo, no lugar certo e na hora certa dentro das especificações determinadas. P arte da cadeia de suprimento que realiza a movimentação e o armazenamento dos produtos. American Marketing Association - 1 948 National Council of P hysical Distribution Management 1 962 John F. Magee - 1 968 C.A.S tone - 1 968 J.L. Heskett, N.A., R.M. Ivie et Glaskowsky Jr. - 1 973 James L. Heskett - 1 977 Council of Logistics Management -1 986 Lambert & S tock - 1 993. David H.Taylor - 1 997 A. Rushton et J. Oxley - 1 993 John L. Gattorna - 1 994 J. Cooper, M. B rowne et M. P eters - 1 994, J.C. Johnson et D.F. Wood - 1 996 IMAM- S ão P aulo - 1 996 D.J. B owersox et D.J. Closs - 1 996 Tixier, Mathe et Colin - 1 996 Martin Christopher - 1 997 Ronald H. B allou - 1 999 Council of Logistics Management - 2000 No quadro 3 sumariam-se as principais definições de estratégia, dadas pelos autores mais conhecidos. Estratégia é a concepção das ações envolvendo os recursos de que dispõe uma empresa, visando estabelecer uma posição futura que seja diferencial com relação à concorrência e coerente com o meio ambiente. Em todas as definições citadas existem elementos comuns que merecem ser destacados: (1) recursos / forças da empresa, (2) meio ambiente e (3) concepção do negócio futuro. As diferenças estão no que se quer atingir no futuro. Acredita-se neste trabalho que a sustentabilidade de futuras posições fica mais sólida na proporção em que elas são únicas. O conceito de estratégia adotado neste trabalho pinça as boas idéias dos autores citados: ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 33 ○ A estratégia é, por excelência, o lugar de confrontação entre o pensamento e a ação. O caminho da estratégia exige uma inteligência de conceitos e de reflexões e a leitura das teorias se banaliza se não as podemos confrontar aos procedimentos práticos, pelos exemplos, pelos estudos de casos ou a própria experiência nos negócios. ○ A problemática de desenvolvimento das empresas está no centro da estratégia. Os princípios da maximização do valor e da análise do meio ambiente constituem as bases teóricas que fundamentam a reflexão estratégica. Criar valor, desenvolver uma vantagem competitiva e maximizar o lucro são palavras de ordem na estratégia. ○ ○ ○ ○ 4.2 DEFINIÇÕES DA ESTRATÉGIA ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Quadro 3 Sumário comparativo das definições de estratégia ○ ○ ○ DEFINIÇ Ã O DE ES TRA TÉG IA Conhecendo as forças da empresa, propor o campo, o direcionamento e a taxa Ansoff, 1 970 de expansão da empresa E laborar uma política que externamente seja coerente com o meio ambiente e Martinet, 1 983 internamente promova a coesão das estruturas da organização. Conceber o negócio futuro a partir do diagnóstico da situação atual da Andrews, 1 987 organização e do meio ambiente. Conjunto de reflexões, decisões e ações que levam a escolher meios para Marchesnay, 1 993 atender as metas futuras. Ação formalizada que define as manobras que permitem atingir uma posição Mintzberg, 1 993 favorável e durável no meio ambiente. É uma mistura do que o ambiente impõe e o que os recursos da empresa Koenig, 1 996 recomendam. E scolha de forma deliberada de um conjunto diferente de atividades para ter P orter, 1 996 um mix único de valores que lhe dê uma posição sustentável. ○ ○ ○ ○ A UTO R 4.3 DEFINIÇÕES DE MARKETING O marketing é uma ciência onde a dominação norte americana é quase total, fato que se comprova pela grande quantidade de autores e publicações. No quadro 4 selecionou-se autores americanos e europeus que apresentam as últimas tendências no pensamento do marketing. A ponta de lança das empresas, ligação entre a identificação do desejo insatisfeito dos clientes e as possibilidades da empresa, o marketing é o terceiro ponto de apoio deste trabalho. Desenvolvido como arma para combater a saturação do mercado, o marketing passou por diversas fases no seu processo evolutivo, de facilitador de vendas a integrador do planejamento de novos produtos, de componente da estratégia das empresas a ponto chave da logística. Quadro 4 Sumário das definições de marketing A UTO R DEFINIÇ Ã O Drucker, 1 975 Conhecer bem os clientes e adaptar os produtos ou serviços. Dubois e Jolibert, 1 992 Ações para compreender e influenciar nos objetivos e nas condições de troca. Kotler e Dubois, 1 992 Mecanismo econômico e social para satisfazer as necessidades e desejos pela criação e troca de produtos e outras entidades de valor. McCarthy e P erreault, 1 997 S atisfação do consumidor através do esforço total da empresa visando o lucro e não só a venda. Kotler, 1 999 Arte de encontrar, desenvolver e lucrar com as oportunidades. Christopher, 1 999 Ações para criar e desenvolver relacionamentos duradouros e lucrativos com os clientes. Fabbe-Costes e Colin (1999), os mais destacados representantes da corrente de pensamento logístico francesa, explicam a transição da estratégia logística para a logística estratégica. A abordagem clássica para a formulação da estratégia logística consiste em começar com a estratégia global da empresa e então definir a estratégia logística que permitirá à firma alcançar seus objetivos. A logística é concebida como um sistema funcional de suporte e uma ferramenta para a estratégia global. O controle dos fluxos de materiais e produtos acabados hoje, constitui-se em um fator chave para o sucesso em numerosos campos de ação, o que justifica a abordagem por eles proposta: Como se pode observar, as definições de marketing tem pontos comuns que são o conhecimento do cliente, a identificação de oportunidades e a lucratividade pelo produto e pelo relacionamento prolongado. Para este trabalho a definição adotada é: Marketing é o conjunto de ações desenvolvido por uma empresa para identificar oportunidades, conhecer os clientes e canalizar o total dos seus esforços para desenvolver um relacionamento duradouro, que satisfaça ao cliente e seja lucrativo para a empresa. 4.4 LOGÍSTICA ESTRATÉGICA A logística, assim como outras funções tal como o marketing e informática, também abrem novas linhas estratégicas de ação. Para formular estas novas linhas, é imperativo reverter a abordagem clássica e pensar em logística estratégica ao invés de estratégia logística. As correntes de pensamento européias na área da logística empresariais, principalmente a francesa e a inglesa, se definem atualmente pelo reconhecimento de que a logística é o motor e a fonte para a geração de uma estratégia global para as empresas. ○ ○ 34 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Quadro 5 Principais diferenças entre a logística estratégica e a estratégia logística V isões → Estratégia Logística Logística Estratégica Percepção das expectativas logísticas S uporte estratégico Fundação estratégica Efeitos na organização Melhora, evolução Mudança, transmutação Pontos de V ista ↓ Fonte: Fabbe-Costes e Colin, 1999. O fator determinante para reverter as perspectivas, parece ser a maturidade na percepção de que a logística é um domínio de gestão interfuncional aberto, que aumenta a eficiência operacional nas empresas. A experiência, o saber fazer e os sistemas desenvolvidos pelas ações logísticas retroagem sobre a estratégia, tornando-se o vetor para a sua reformulação e permitindo à empresa diferenciar-se pelos serviços logísticos que fornece, pelo crescimento da gama combinada de produtos e serviços ou ainda pela diversificação das atividades logísticas. Christopher (1999), o mais avançado representante do pensamento logístico inglês, trata neste seu livro, da fusão do marketing e da logística, considerando ser este composto o componente essencial da estratégia empresarial global. Para apoiar sua proposição ele mostra que atualmente existe pouca diferenciação na funcionalidade dos produtos e que os clientes são sofisticados e experientes, o que leva à redução na eficiência dos gastos com publicidade na decisão de compra, conduzindo esta decisão à competição de preços e à disponibilização dos produtos e serviços. Hipótese 1: Existe um tamanho mais indicado para as empresas de confecção de jeans femininos para adolescentes e jovens, determinado pelos fluxos logísticos; Hipótese 2: A vida útil das empresas de confecção de jeans femininos para adolescentes e jovens depende da vida ativa do proprietário; Hipótese 3: Existe uma logística estratégica mais adequada às empresas de confecção de jeans femininos para adolescentes e jovens. Para a validação, adotou-se o levantamento de dados oficiais e das empresas que atuam no segmento de mercado em estudo, feito por enquête a partir de questionário escrito e complementada através de entrevista com os dirigentes das empresas identificadas no questionário, bem como seus fornecedores e principais clientes. 4.1 MODELO DA TESE O tempo tornou-se um dos mais importantes elementos no processo competitivo, pois os clientes, devido à rápida mutação das necessidades, buscam tempos de espera cada vez menores. Isto faz com que a disponibilidade do produto supere a fidelidade à marca. Somente a logística, como gerador e fundamento da estratégia, capacita a empresa a lutar por seu espaço no universo competitivo. 4 A moda, o mercado e os fornecedores se constituem nos algozes que ditam as regras de operação das empresas de confecção. Estas regras são captadas pelas empresas através dos fluxos de informação, financeiro e material, e forçam modificações nos seus procedimentos estratégicos, táticos e operacionais para se ajustarem com sucesso ao ambiente de negócios. Segundo o tamanho e a idade da empresa, sua adaptação a este ambiente se faz de diferentes formas e com diferentes graus de adequação. MODELAGEM DA PESQUISA O autor construiu proposições a partir da sua interação com as empresas de confecção onde trabalhou e pesquisou. Estas proposições são transformadas em hipóteses, a seguir especificadas, a serem validadas junto ao universo a ser pesquisado. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 35 ○ ○ ○ ○ da estratégia global e que se preveja como, em situações tipo a da indústria de confecções, a logística pode ser a real fundação das ações estratégicas. O quadro 5 mostra as principais diferenças entre as duas visões estratégicas. ○ A logística estratégica consiste em imaginar e desenvolver ações estratégicas, que seriam impossíveis de obter sem que exista forte competência logística. Este ponto de vista torna necessário que se pense em logística no momento em que se inicia a elaboração ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ O modelo escolhido para mostrar a influência da logística sobre o tamanho e a longevidade das empresas que confecionam jeans femininos para adolescentes e jovens, trabalha sobre os efeitos mensuráveis aparentes para concluir sobre as causas reais em estado latente. Identificam-se as variáveis manifestas do ambiente de negócios que representam a influência no problema da variável latente chamada de logística. Identificam-se a seguir as variáveis manifestas das empresas de confecção que representam os efeitos do ajuste destas empresas à pressão da logística. Estas variáveis manifestas mostram o comportamento das variáveis latentes chamadas de tamanho e idade, frente à ação da outra variável latente chamada de logística. A reação de ajuste das empresas de confecção a esta influência da logística sobre sua idade e tamanho, se faz sentir através das variáveis manifestas que demonstram as mudanças nas empresas provocadas pela variação destes dois itens em estudo. Estas são as variáveis manifestas das empresas. 4.2 ESQUEMA DE COLETA DE DADOS O esquema para a coleta de dados envolve os órgãos públicos, detentores das informações gerais da indústria de confecção e as empresas que atuam no segmento da fabricação de jeans femininos para adolescentes e jovens. A concepção do esquema vai mostrada na figura 7, sendo delhada em seguida. Na figura 5, apresenta-se em um esquema, todos os itens relacionados ao problema, influenciando no funcionamento das empresas de confecção ou sendo conseqüência deste funcionamento. A figura contém sete colunas onde se mostra desde os itens mensuráveis das variáveis manifestas do ambiente de negócios, coluna A, até os itens mensuráveis das varáveis manifestas das empresas de confecção, referentes aos ajustes feitos por estas para se enquadrarem nas exigências do ambiente de negócios, coluna G. O primeiro passo foi conhecer o universo das empresas de confecção registradas e em funcionamento regular. Contatou-se a Secretaria da Fazenda do Estado do Ceará (SEFAZ), para fornecer a relação com o nome e endereço destas empresas, bem como os indicadores gerais referentes ao faturamento, compras e estoque, tudo separado por volume de faturamento, conforme se mostra na tabela 3. Contatou-se o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), para fornecer a relação de admissões, demissões e estoque de empregados, com os índices de rotatividade da indústria. Contatou-se a Junta Comercial do Estado do Ceará (JUCEC), para fornecer os nascimentos e mortes de empresas de confecções por ano, e a relação das vivas por idade. Os clientes forneceriam dados sobre o meio ambiente da comercialização das confecções jeans femininas. Na coluna B se mostram os fatores representativos do ambiente de negócios: moda, mercado e fornecedores. A coluna C mostra os meios utilizados pela variável latente causa, a logística, para captar a pressão exercida pelos fatores representativos do ambiente de negócios. A coluna D mostra o desdobramento da variável latente logística nos seus instrumentos de ação, os fluxos de informação, financeiro e físico. A coluna E mostra as variáveis latentes influenciadas pela logística, no caso o tamanho e a idade das empresas de confecção de jeans para adolescentes e jovens. A análise preliminar da relação fornecida pela SEFAZ constatou que, o maior contingente das empresas está na categoria vestuário em geral e que existem empresas registradas em uma categoria mas atuando em outra. Desta forma, não se consegue isolar o segmento das empresas fabricante de jeans femininos. A coluna F mostra os pontos onde são refletidas as ações de ajuste promovidas pelas empresas de confecção, em função do seu tamanho e idade. Os itens mensuráveis, conforme já dito anteriormente, vão explicitados sob a forma de variáveis manifestas na coluna G. Decidiu-se então que, todo o universo de 1520 empresas, constante da relação da SEFAZ precisava ser contatado individualmente, para se poder identificar quais as que pertencem ao segmento em estudo. O contato presencial seria muito demorado, o que inviabilizaria o trabalho. Optou-se então por elaborar um questionário com perguntas objetivas e cruzadas, que permite levantar dados gerais sobre a indústria de confecção e dados específicos sobre a influência dos fluxos logísticos nas empresas de confecção. Além disso se pode identificar quais dentre elas fabricam jeans femininos. O modelo da tese, obtido como fruto da análise estratégica da indústria de confecções desenvolvida ao longo deste capítulo, vai sintetizado na figura 6. Mostra de forma simplificada e objetiva a influência da logística na idade e tamanho das empresas de confecções. Estas variáveis são latentes e o estudo de suas inter-relações é realizado indiretamente, através de variáveis manifestas que representam as excitações de entrada e dos ajustes de saída do sistema. Na entrada, o sistema vai incitado a reagir pelo ambiente de negócios, através das restrições logísticas a que estão sujeitas as empresas de confecções de jeans femininos. Estas são as variáveis manifestas do meio ambiente. ○ ○ 36 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ A ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Diversidade produtos Preço de venda Prazos Crédito clientes Qualidade produtos Prazos Qualidade Custo Nível serviço Atualização Variação FORNECEDOR MERCADO MODA B ○ Treinamento Estoques Flexibilidade Prazos Qualidade PF Controle Qualidade MP Automação Máquinas Sistemas gestão Financ/bancário Taxa de juro Garantias Fluxo Caixa Crédito fornec. Capital social Informatização Sistema de inform. Vigilância C FLUXO FÍSICO FLUXO FINANCEIRO FLUXO DE INFORMAÇÃO D IDADE E TAMANHO ○ Tempos de ciclo Ajustes Cores Acessórios Tecidos Estilo Figura 5 – Itens que influenciam no funcionamento da s empresas de confecção ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ TECNOCRATIZAÇÃO VELOCIDADE DE DECISÃO CONTROLE CUSTOS NÍVEL SERVIÇO FLEXIBILIDADE RENTABILIDADE ORGANIZAÇÃO CULTURA CONHECIMENTO F ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Tempo decisão Processo rígido Administração pesada Finalização negócios Obsolescência estoq. Estoques obsoletos Consumo de tecido Estoques Prazos Tempo de reação Mudança de pedidos Adaptação às ondas Margem fraca Taxa FC/FAT Sistema de inform Centralização Risco Idiossincrasias Personalização Humanização Produtos Fornecedores Processo fabric. Clientes G ○ ○ 37 ○ ○ VARIÁVE IS MANIFE S TAS D O ME IO AMB IE NTE Figura 6 - Modelo de Tese IDADE VARIÁVEIS MANIFESTAS DA EMPRESA ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 38 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Vigilância tecnológica Vigilância da moda ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ P CP – P lanejamento e Controle da P rodução Custos da compra Prazos dos fornecedores Financiamento dos fornecedores Financiamento bancário Diversidade de produtos Rapidez da variação Nível de qualidade Prazo do mercado ○ Preço de venda Processos Máquinas Tecidos Estilo FC – F luxo de Caixa LOGÍSTICA ○ FAT – Fatura mento TAMANHO PCP Nível automação Flexibilidade Nível manutenção Treinamento Centralização administrativa Estrutura Controles Qualificação do empreendedor Grau de terceirização Controle da qualidade Sistema de informação Rotação Estoques Nível/Controle Grau de obsolescência Custos das vendas Tipo Financiamento Prazo Custo Mercado e vendas % atraso recebimentos Tamanho da coleção Rapidez da mudança Prazo de transporte Tempo de reação Margem de rentabilidade Razão FC/FAT Benefícios operários Ambiente trabalho Nível supervisão ○ Nível de humanização ○ ○ Cores Ajustes ○ VARIÁVE IS L ATE NTE S ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ PESQUISADOR ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ FORNECEDORES CLIENTES JUCEC MTE SEFAZ ○ ○ ○ ○ ○ moda Preço de aquisição Prazos do mercado Nível de qualidade Diversificação Velocidade da Nascimentos, mortes e idade das empresas de confecções Relação de admissões, demissões e estoque de funcionários Indicadores de faturamento, compras e estoque Relação de empresas por CAE e tamanho Indicadores gerais tamanhos Visitas a empresas de diversos Análise das variáveis manifestas do meio ambiente Fabricantes de outras categorias de vestuário Envio de questionários pelo correio Figura 7 – E squema da coleta de dados realizada Indicadores específicos Análise das variáveis manifestas da empresa Fabricantes de jeans femininos Coleta de respostas ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 39 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Este questionário teve como base o modelo de tese e as perguntas identificam as variáveis manifestas do ambiente de negócios e da empresa. Consta de 97 perguntas. Dentre as perguntas existem as que servem para descontrair o entrevistado, as que identificam indicadores gerais da indústria de confecção e as que tratam da eficiência individual de cada empresa. As perguntas foram cruzadas e colocadas em posições diferentes do questionário, de modo a checar a veracidade das respostas. O questionário foi encaminhado através de correspondência explicativa, assinada pelos dirigentes das entidades de classe e órgão de apoio. Identificados os fabricantes de jeans femininos, estes foram contatados pessoalmente para se poder complementar as informações. Foram feitas seis novas perguntas, sendo solicitado que cada empresa identificasse seus principais fornecedores e clientes. Os clientes foram entrevistados pessoalmente pelo autor. Os fornecedores foram acessados através de seus representantes comerciais. A massa de dados gerada é suficiente para permitir a análise e validação das hipóteses. O detalhamento das etapas vai mostrado nos sub-itens apresentados durante o desenvolvimento deste capítulo. As respostas a esta forma de pesquisa, classificada como amostragem voluntária, permitem separar as empresas em duas categorias, as que fabricam jeans femininos, podendo também fabricar outros artigos, e as que fabricam somente outros tipos de artigos do vestuário, interior ou exterior. As variáveis manifestas do ambiente de negócios e das empresas fabricantes de jeans femininos são identificadas através das respostas aos questionários e sua análise permite o estabelecimento de indicadores específicos que contribuem para a validação das hipóteses. 4.3 UTILIDADE DOS DADOS OFICIAIS Boa parte dos dados oficiais fornecidos foi útil ao trabalho (figura 8), principalmente os fornecidos pela SEFAZ, que possibilitaram determinar com precisão o universo de empresas a ser pesquisado no município de Fortaleza. A informação sobre o faturamento, compra e estoque médio por faixa de tamanho das empresas, possibilita a determinação de padrões de uso e permite a análise comparativa com os indicadores do meio ambiente. Figura 8 Resultado da coleta de dados oficiais Nascimentos – Registros deficientes Mortes – Ausência de registros JUNTA COME RCIAL P E S QUIS ADOR MINIS TÉ RIO DO TRAB ALHO E D O E MP RE GO Admissões e D emissões E stoque de pessoal empregado S E CRE TARIA D A FAZE NDA E mpresas por faixa de faturamento (tamanho) e classificação fiscal; Compra, E stoque e Faturamento médio por tamanho. DE DADOS JUNTO AO MERCADO adquirido dos fabricantes de jeans femininos para adolescentes e jovens. O público alvo destas lojas que comercializam confecções jeans femininas são as classes A, B, C e D. Também foi feito levantamento junto a micro empresas localizadas em um galpão mercado que comercializa produtos unicamente para a classe E. A amostra, embora local, é representativa do que existe nas grandes cidades brasileiras em termos de comercialização de produtos de moda. O mercado foi pesquisado através de entrevistas pessoais com os maiores clientes dos fabricantes de jeans femininos, com representatividade no mercado brasileiro e tendo lojas filiais ou franquias no município de Fortaleza. A ótica da entrevista foi a quantidade comercializada, a qualidade e a sofisticação do produto Foram selecionadas empresas pertencentes a grandes cadeias de lojas locais, regionais e nacionais, grandes magazines especializados em confecções, grandes supermercados, lojas franqueadas de grandes grifes nacionais e pequenas lojas de mercados populares. Ao todo foram entrevistados 20 dirigentes lojistas. Os dados sobre a mão de obra empregada, fornecida pelo MTE são de grande utilidade e permitem fazer inferências sobre a sazonalidade das contratações na indústria. Já os dados da JUCEC de nada servem pois não merecem credibilidade. A longevidade será analisada a partir dos dados colhidos junto às próprias empresas de confecções. 4.4 LEVANTAMENTO ○ ○ 40 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ 4.6 P L A N E JA M E N TO DA ENTREVISTA COM O questionário foi dividido em cinco partes, tendo 97 quesitos desestruturados, parte deles quantitativos, a maioria qualitativa. Os qualitativos trazem opções preestabelecidas, podendo o entrevistado marcar mais de uma opção. A quase totalidade das questões elaborada visa determinar as variáveis manifestas do meio ambiente e da empresa, de acordo com o modelo de tese estabelecido. Existem algumas questões que somente foram postas com o intuito de evitar que o entrevistado fosse tendencioso nas suas respostas. A posição da questão está colocada de acordo com seu assunto, embora se possa ter questões que tratam de uma mesma variável manifesta, colocadas em partes diferentes. OS REPRESENTANTES COMERCIAIS DOS FORNECEDORES As entrevistas foram realizadas com a colaboração de alguns dos fabricantes de jeans femininos. Os representantes comerciais foram indagados sobre a participação no mercado local e nacional, preços, prazos de entrega, tipo de frete usado e seu custo. Foram feitos comentários sobre a tendência das vendas, a organização dos fabricantes de jeans femininos e os índices de atraso nos pagamentos de seus clientes. 4.7 PLANEJAMENTO DO QUESTIONÁRIO DE PESQUISA 4.8 IDENTIFICAÇÃO JUNTO AOS FABRICANTES DE JEANS DAS QUESTÕES QUE LEVANTAM AS VARIÁVEIS MANIFESTAS Planejou-se um questionário com conhecimento prático do tipo de pergunta que poderia ser respondida pelos entrevistados. As perguntas são simples, ao nível dos conhecimentos dos dirigentes das empresas, e sua apresentação facilita ao máximo as respostas. As questões mais pessoais, que seriam refugadas se Variáveis manifestas do ambiente de negócios: Levantadas a partir de entrevista com lojistas e por meio do questionário aplicado às empresas de confecções (quadro 6). Quadro 6 Variáveis manifestas no ambiente dos negócios Nº ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ V a riá v e l m a nife s t a d o a m b i e nt e d e ne g ó c io s F o nt e d e o b t e nç ã o 1 Vigilâ ncia te cnológica que sitos 7 6 e 7 7 2 P re ço de ve nda P e squisa com lojista s 3 P ra zo d o m e rca do P e squisa com lojista s 4 Níve l de qua lida de P e squisa com lojista s 5 Ra pide z da va ria çã o P e squisa com lojista s 6 D ive rsida de de produtos P e squisa com lojista s 7 F ina ncia m e nto dos forne ce dore s Que sitos 41 e 46 8 P ra zo d os forne ce do re s Que sitos 44 e 45 9 C ustos da com pra Que sitos 42 e 47 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 41 ○ ○ ○ ○ As entrevistas foram marcadas com o apoio do SINDICONF, que ajudou a selecionar os clientes mais representativos. As perguntas se fixaram na determinação das variáveis manifestas referentes ao ambiente dos negócios. Foram perguntados os percentuais de marcação dos preços de venda, os prazos de entrega solicitados nos pedidos, o nível de qualidade exigida dos produtos, a diversidade dos produtos comprados para formar o mix de vendas, a rapidez na variação da moda e os prazos de pagamento das compras. As respostas deveriam ser tabuladas para gerar indicadores logísticos. ○ perguntadas diretamente, foram divididas em partes e espalhadas nas diferentes seções do questionário. Como exemplo cita-se o faturamento, pergunta que se feita diretamente ao entrevistado tem sua resposta negada, ou se recebe uma resposta falsa. Para obter este dado e poder compara-lo com a faixa em que a empresa se encontra pelos dados oficiais, perguntou-se na primeira seção quais os principais artigos produzidos e qual a produção média anual por artigo. Na quarta seção se pediu o preço médio de venda dos dois principais artigos da empresa. São perguntas que isoladas não se constituem em ameaça ao entrevistado, mas que em conjunto, ao serem multiplicadas dão o valor aproximado da média de faturamento da empresa. 4.5 PLANEJAMENTO DA ENTREVISTA COM OS LOJISTAS ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Variáveis manifestas da empresa Levantadas a partir do questionário enviado às empresas de confecções e das entrevistas realizadas com os fabricantes de jeans femininos (quadro 7). ○ ○ ○ ○ Quadro 7 Variáveis manifestas da empresa Nº ○ ○ 42 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ V ariáveis manifestas da empresa Fonte de obtenção 1 Nível de humanização a B enefícios a operários Quesito 25 b Ambiente de trabalho Quesito 28 e 82 c Nível de supervisão Quesito 29 2 Flexibilidade a P lanejamento e Controle da P rodução Quesito 67 a 75 b Nível de automação Quesito 93 a 95 c Nível de manutenção Quesito 96 e 97 d Treinamento Quesito 26 e 27 3 Controles Quesito 65, 66, 78 a 81 4 Centralização administrativa Quesito 1 6 5 E strutura Quesito 1 7 a 22 6 Qualificação do empreendedor Quesito 1 1 a 1 5 7 Grau de terceirização Quesito 23 e 24 8 Controle da qualidade Quesito 83 a 87 9 S istema de informação Quesito 30 a 33 10 E stoques a Rotação pesquisa S E FAZ b Nível de controle Quesito 88 a 92 c Grau de obsolescência Quesito 57 11 Margem de rentabilidade Quesito 1 02 12 Financiamento Quesito 63 e 64 13 Razão fluxo de caixa x faturamento Quesito 1 03 14 % atraso nos recebimentos Quesito 59 15 Tamanho da coleção Quesitos 37 a 40 16 Rapidez da mudança Quesito 34 17 P razo de transporte Quesito 48 e 49 18 Tempo de reação Quesito 45 a 47 19 Custos da venda Quesito 56 a 62 20 Mercado Quesito 53 a 55 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Após a análise detalhada das respostas aos questionários aplicados às empresas fabricantes de confecções em geral e jeans em particular, bem como as respostas dos lojistas de diversos tamanhos, atuando em classes sociais distintas, pode-se elaborar um sumário conclusivo sobre as variáveis manifestas do meio ambiente, responsáveis pela imposição das condições de trabalho neste ramo industrial, e sobre as variáveis manifestas das empresas de confecções, refletoras da idade e do tamanho nas formas de ação estratégica. A análise realizada nos itens anteriores aponta para a validação de parte da hipótese 1: os fluxos logísticos influem sobre o tamanho das empresas de confecções. 5.1 VARIÁVEIS MANIFESTAS DO MEIO AMBIENTE estabelecem as condições mínimas de acesso ao mercado e indicam os caminhos que devem ser explorados para aumentar as chances de sucesso. Como se detalha a seguir, as variáveis manifestas do meio ambiente deixam claro a necessidade de coordenação dos fluxos logísticos, quando priorizam a vigilância da moda como ponto de partida e mostram que as condições impostas nas duas pontas, venda e suprimento, são desfavoráveis às empresas de confecções no que tange aos prazos de entrega e pagamento. A velocidade da variação define claramente a necessidade básica de flexibilidade. l l ○ ○ ○ ○ 5.2 V ARIÁVEIS MANIFESTAS DAS EMPRESAS retratam os padrões de comportamento das empresas, sendo característicos do tamanho e da longevidade. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Crescimento exagerado dos itens a controlar, face ao crescimento da necessidade de ter coleções com maior quantidade de modelos. Isto gera erros na tendência da moda e resulta em itens que para ser vendidos demoram mais que o período de uma coleção, aumentando o capital de giro necessário, forçando descontos e atrapalhando as vendas; Necessidade de programação das matérias primas em prazos e quantidades maiores para garantir o suprimento, o que diminui a flexibilidade e aumenta a necessidade de capital de giro; Aumento do absenteísmo dos operários e redução na sinergia do processo devido à quantidade de funcionários que cresce e a distância entre comandantes e comandados que aumenta; Aumento no tamanho do mercado, tanto do ponto de vista dos clientes, que gera uma baixa na qualidade do crédito, como do ponto de vista geográfico, que gera custos de frete, aumento no controle das entregas e da cobrança, resultando em mais necessidade de capital de giro; Aumento do tempo de reação às solicitações do mercado, o que diminui a flexibilidade, fator vital às confecções de jeans femininos. l Vigilância da moda Verifica-se que a função criação é considerada vital a partir do tamanho pequeno de empresa. É a forma que as empresas encontram para dar identidade às suas marcas próprias, fazendo sua interpretação pessoal das tendências da moda, ou ajustando-a a eventos locais, nacionais ou internacionais; Vigilância tecnológica Há uma preocupação em reduzir custos e aumentar a eficiência produtiva através de novas máquinas, mais especializadas e automatizadas, quando possível, novos processos produtivas e novas técnicas de planejamento e controle. O acesso às informações vem através dos vendedores, consultores, feiras e cursos de treinamento; Condições de mercado Os preços de venda são pressionados para baixo, em função da redução do mark up dos lojistas. O cliente, em virtude da rapidez dos meios de comunicação, está cada vez mais consciente do que está em moda e por isso, os prazos de mudança estão diminuindo. A diversidade da oferta aumenta como uma forma de customisação dos produtos, tentando elevar a qualidade através do seu conceito básico de satisfação das necessidades dos clientes; l l l l l Os indicadores acima comentados, apontam para a validação da hipótese 1: o tamanho pequeno nas empresas de confecção de jeans femininos para adolescentes e jovens é o que reúne as maiores condições de sucesso. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 43 ○ ○ ○ O suprimento de matérias primas para os jeans Setor oligopolizado nos tecidos e principais aviamentos, trabalha com prazos de pagamento curtos (60 dias no máximo), vende FOB e entrega sob programação, com prazos de até 60 dias (quando se trata de lançamentos, os prazos de pagamento são reduzidos, predominando a venda a vista). Desta forma condiciona o trabalho das confecções a ser antecipado, comprando quase sempre antes de vender e assumindo o risco total pelo erro de previsão. l ○ SUMÁRIO DAS VARIÁVEIS MANIFESTAS DO MEIO AMBIENTE E DAS EMPRESAS ○ 5 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Com relação à longevidade, as variáveis manifestas mostram que há grande concentração nas que têm menos de dez anos, não havendo nenhuma que ultrapassou a barreira dos vinte anos sem problemas financeiros e legais. As principais variáveis manifestas indicam que: Quando mais velhas são as empresas, mais rígidos são os controles e mais centralizada é a decisão, especialmente no que tange aos lançamentos de coleções, o que dificulta a flexibilidade; Nas empresas mais velhas diminui o treinamento dos funcionários, o que é forte indicador que a capacidade de inovação diminui e portanto a capacidade de se adaptar às variações do mercado, ponto fundamental para ter flexibilidade; O nível de instrução dos funcionários é outro ponto que indica dificuldades de adaptação para as empresas velhas. É mais baixo que o das empresas novas e representa dificuldades maiores de adaptação e menor flexibilidade; O sistema de informações nas empresas mais velhas é menos informatizado e mais informal, o que propicia imprecisão e atrasos que são vitais às mudanças temporais; Somente uma, dentre as sessenta e sete empresas que responderam ao questionário, conseguiu passar do comando do empreendedor fundador para o comando de um técnico, parente em terceiro grau e que começou na empresa como funcionário em cargos subalternos, galgando a posição por seus méritos próprios. l l l l l A redução da taxa de risco de errar a tendência da moda é uma preocupação vital para a sobrevivência das empresas fabricantes de jeans femininos para adolescentes e jovens. A redução do ciclo de atendimento dos pedidos é uma solução visualizada pela maioria. l Os pontos acima mostram que o uso da logística é uma exigência inerente às características operacionais do ramo de confecções em geral e especialmente dos fabricantes de jeans femininos para adolescentes e jovens. Um número bastante considerável dos problemas enfrentados pelas empresas de confecção, surge porque a logística não foi considerada quando da formulação da estratégia destas empresas. A essência da logística é a gestão da cadeia de suprimentos; uma empresa que é concebida e cresce segundo uma logística estratégica tem condições de manter um crescimento sustentável, podendo enfrentar e resolver problemas inerentes ao tamanho médio e grande de empresas com sucesso. Retardar a fabricação, aumentar a flexibilidade da empresa, reduzir o ciclo de produção e fazer parcerias com fornecedores e clientes, são estratégias logísticas que devem ser adotadas pelos empresários do segmento de mercado em estudo, para conseguirem conviver com as restrições imposta pelo meio ambiente. Os indicadores comentados, apontam para a validação da hipótese 3: existe uma logística estratégica mais adequada às empresas de confecção de jeans femininos para adolescentes e jovens. 5.3 VALIDAÇÃO DOS RESULTADOS Estes indicadores apontam para a validação da hipótese 2: a vida útil das empresas de confecção de jeans para adolescentes e jovens, depende da vida ativa do proprietário. Utilizando a fórmula proposta por Stevenson (1981, p. 213) calcula-se o erro desta amostragem em população finita. Com relação à análise das entrevistas com os gestores maiores das empresas de confecção que fabricam jeans femininos para adolescentes e jovens, foram estabelecidos os seguintes pontos comuns: As exigências temporais ditadas pelo ambiente dos negócios, juntamente com a identificação das necessidades dos clientes e a tendência da moda, são os pontos de partida na formulação da estratégia das empresas; A coordenação das atividades desenvolvidas por setores da empresa ou de empresas terceirizadas ou aliadas, é o principal problema enfrentado pelos gestores; l l ○ ○ 44 ○ ○ ⎡ ⎛ x ⎞⎤ ⎢1 − ⎜ n ⎟⎥ (N) ⎣ ⎝ ⎠⎦ n= ⎛ x ⎞ ⎡ ⎛ x ⎞⎤ (N-1) e 2 + z 2 ⎜ ⎟ ⎢1 − ⎜ ⎟⎥ ⎝ n ⎠ ⎣ ⎝ n ⎠⎦ ⎛x⎞ z2⎜ ⎟ ⎝n⎠ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ n tamanho da amostra = 67 N tamanho da população finita = 1520 x/n participação do item pesquisado na amostra = 0,796 z normal padrão: usa-se o z para os casos de 99% de confiança (2,58), 95% de confiança (1,96) e 90% de confiança (1,65) ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Tabela 3 Erros cometidos dependendo do intervalo de confiança z (1 - α) erro 2,58 0,99 +/- 0,124 1,96 0,95 +/- 0,094 1,65 0,90 +/- 0,079 À área da logística: fortaleceu o conceito de logística estratégica ao aplica-lo nas empresas sujeitas a restrições temporais e a alto nível de incerteza da demanda. A confecção de jeans femininos para adolescentes e jovens foi o meio utilizado, por estar sujeita a rápidas variações temporais da moda e ter sua demanda dependente de um público instável, devido à idade, e que tem na moda uma forma de auto afirmação; posicionou a logística estratégica como única função não terceirizavel nas empresas que operam no mercado de moda. A logística estratégica passa a ser a geradora da identidade destas empresas, não podendo portanto ser delegada a terceiros. Foi usado o caso real de Victor Fung, empreendedor chinês, para apoiar a proposição; identificou a logística como a gestão da cadeia de suprimento, ao se demonstrar seu papel como fator de coordenação e integração de atividades funcionais diferentes nas empresas, começando na sua concepção e na identificação das necessidades dos clientes e passando por toda área operacional, agindo na aquisição das matérias primas, na fabricação dos produtos e na sua distribuição até o ponto de venda; reforçou o papel do tempo como medida de eficiência logística. Sempre e quando a logística atue em segmentos sujeitos a restrições temporais, sua eficiência será demonstrada através da sua capacidade de interagir entre os setores envolvidos e reduzir os tempos de ciclos das atividades necessárias à complementação dos objetivos; adicionou o conhecimento da influência dos fluxos logísticos de produção, informação e financeiro, sobre o tamanho e a longevidade das empresas que trabalham em ambientes de incerteza, com informações imprecisas e sujeitos a mudanças rápidas nas características do produto demandado. Utilizou-se o estudo das empresas fabricantes de jeans femininos para adolescentes e jovens, cujo ambiente de negócios se enquadra na situação descrita e onde se pode mostrar que as restrições logísticas apontam para um tamanho de empresa com maior chance de sucesso, no caso a pequena, e que estas mesmas restrições logísticas restringem a vida da empresa à vida útil do seu proprietário. l CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES Este trabalho foi realizado a partir de uma nova proposição de abordagem epistemológica, o uso do construtivismo e do positivismo em um mesmo problema. Esta foi a forma de adequação desenvolvida para situações onde o pesquisador tem muita vivência prática no ramo em estudo, podendo assim inadvertidamente introduzir bias na pesquisa, o que comprometeria a imparcialidade do estudo. As proposições construídas pelo autor de forma interativa com o meio pesquisado puderam, desta forma, ser confrontadas com a realidade vivida pelas empresas componentes do segmento de mercado analisado, fato realizado através de uma observação positivista feita em um estudo multicasos. l l Salienta-se o valor metodológico deste trabalho, que estabeleceu uma forma inovadora para a pesquisa da influência da logística sobre o tamanho e a idade das empresas de moda, feito a partir do estudo do segmento das confecções de jeans femininos para adolescentes e jovens, na região metropolitana de Fortaleza. Os passos seguidos foram: l estudo do universo das empresas de confecção para determinação do problema central a ser resolvido; l levantamento das contribuições teóricas à explicação do modo de funcionamento lógico da indústria de confecção, a partir dos conhecimentos atualizados da logística, da estratégia, do marketing e da teoria das organizações; l análise estratégica das confecções, para estabelecer as razões que fundamentam a construção das proposições, que explicam as causas do problema central identificado e propõem soluções; l modelagem da pesquisa a partir da transformação das proposições em hipóteses, possibilitando a construção do modelo da tese. O modelo desenvolvido propõe que o estudo das variáveis latentes, que explicam a influência dos fluxos logísticos sobre o tamanho e a idade das empresas de moda, seja feito a partir das variáveis manifestas que podem ser mensuradas. Estas, permitem estabelecer um roteiro para a pesquisa e elaborar um questionário, através do qual se coletam os dados necessários para validar as hipóteses; ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ l l ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 45 ○ ○ ○ ○ análise dos resultados inferidos a partir do estudo dos dados tabulados, permitindo a validação das hipóteses; l estabelecimento dos aportes teóricos e das contribuições aplicadas aos modelos de gestão. As contribuições deste trabalho ao conhecimento teórico, são relacionadas nos pontos comentados a seguir: l ○ Calculando-se o valor do erro a partir da fórmula acima, encontramos (tabela 3): ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ l ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ apresentou as estratégias logísticas como elemento modificador das restrições do ambiente de negócios, possibilitando que as empresas promovam ajustes que propiciam sua adequação ao meio ambiente e possam assim crescer a tamanhos maiores com sucesso; identificou quais são as variáveis que podem ser manuseadas, para promover o ajuste às restrições logísticas a que estão sujeitas as empresas que operam em ambientes de moda. Estas variáveis são inerentes à ação da logística operacional. ○ ○ l estabelecimento de parâmetros operacionais para os diversos tamanhos de empresas fabricantes de jeans femininos. Foram estabelecidos parâmetros gerais, tais como proporção das compras sobre o faturamento, giro dos estoques, ciclo de fabricação, tempo de reação, e parâmetros específicos da região, tais como rotatividade da mão de obra, nível de estocagem, tempo de transporte, % de custo do frete da matéria prima e dos produtos acabados com relação ao faturamento; l determinação dos indicadores logísticos capazes de medir a eficiência operacional das empresas fabricantes de jeans femininos no segmento de mercado estudado. Para cada indicador foram estabelecidos os componentes necessários à sua geração e determinado como levanta-los. Como conseqüência se tem estabelecido as variáveis que devem ser controladas para permitir o ajuste destas empresas às restrições logísticas; l estabelecimento dos pontos de coincidência na atuação das empresas de confecção em termos internacionais, comparando fatos locais com os mesmos fatos apontados na França, Itália, Estados Unidos e Hong Kong. A operação em redes de subcontratados, a concentração das organizações maiores na atividade logística, englobando o marketing, a aversão das empresas de confecção a dar informações sobre sua operação, a dificuldade de automatização das operações de fabricação na área dos jeans femininos de moda, são pontos comuns determinados. Por fim, este trabalho aportou ao conhecimento teórico e à prática da indústria de confecções, três proposições transformadas em hipóteses e validadas: l À área da administração em geral: explorou a integração dos conhecimentos de logística, marketing e estratégia sob a égide da logística estratégica, contribuindo para a consolidação dos conceitos desta área do conhecimento; acrescentou subsídios à Teoria da Economia dos Custos de Transação, para justificar que o aumento do tamanho das empresas sujeitas a mercados de moda, provoca rendimentos decrescentes, devido ao volume de informações imprecisas e aos custos associados ao treinamento de pessoal para operar o sistema de planejamento e controle; relacionou os estudos de Mintzberg referentes à idade das empresas, com as restrições logísticas que influem na longevidade daquelas que trabalham em mercados de moda. Foi mostrado que as características inerentes à idade das empresas, associam-se às características de reação ligadas à idade do fundador, com quem a empresa de moda se identifica. Quanto mais idade tem o empresário da moda, mais lento reage aos problemas e mais segurança busca em suas decisões. O ambiente de negócios dos fabricantes de jeans femininos para adolescentes e jovens é arriscado e veloz, incompatível portanto com as ações normais dos líderes idosos; estabeleceu um modelo capaz de identificar as características das empresas que trabalham em um ambiente de moda. Este modelo permite analisar as influências a que estas empresas estão submetidas, permitindo encontrar mais facilmente a solução para seus problemas. A extrapolação da análise aos problemas de setores semelhantes, fica viabilizada através deste modelo. l l l l l Este trabalho adicionou à prática empresarial da indústria de confecções, sub ramo da indústria têxtil, os seguintes aportes: ○ ○ ○ l sistematização dos conhecimentos sobre a operação das empresas de confecção em geral. O processo produtivo foi detalhado, os controles estabelecidos e a operação metodizada de forma a possibilitar a sua utilização em outras empresas similares do ramo das confecções; l 46 o tamanho de empresa pequeno é o mais indicado para as empresas de confecção de jeans femininos que operam no segmento de adolescentes e jovens, em razão dos parâmetros de eficiência mínima dos fluxos logísticos impostos pelo mercado de moda; os fluxos logísticos impostos pelo ambiente dos negócios de moda, influem na longevidade das empresas de confecção femininas que trabalham nos segmentos de mercado sujeitos a maior incerteza e variabilidade, o dos adolescentes e jovens, limitando esta longevidade à vida ativa do proprietário; a logística estratégica é capaz de influir na longevidade e no tamanho das empresas de confecção operando em ambientes de alta e rápida variabilidade. Estabeleceu-se que a logística é a força propulsora capaz de conceber estratégias que possibilitam maiores tamanhos e longevidade para as empresas de confecção de jeans femininos para adolescentes e jovens. l ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ l a urgente implantação, pelos sindicatos patronais e as associações de classe, de programas massificados de treinamento que tragam ao seio das empresas de confecção o s e n t i m e n t o l og í s t i c o, fo r n e c e n d o instrumentos de adequação aos requisitos do ambiente de negócios; l l REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRANCHES, G. P.; BRASILEIRO JR., A.; Manual da gerência de confecções: a indústria de confecções de estrutura elementar. Rio de Janeiro: Senai, 1990. KOTLER Philip. Administração de marketing análise, planejamento, implementação e controle. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1999. ANDREWS, Kenneth Richmond. 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Recomenda-se: ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ UMA INVESTIGAÇÃO DOS FATORES CRÍTICOS DA GESTÃO PELA QUALIDADE TOTAL NO CENÁRIO INDUSTRIAL CEARENSE ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ João Welliandre Carneiro Alexandre Dr. - Universidade Federal do Ceará José Joaquim do Amaral Ferreira Dr. - Escola Politécnica da Universidade de São Paulo RESUMO O objetivo deste artigo é apresentar alguns dos resultados de uma pesquisa empírica organizacional que investigou a implantação da Gestão pela Qualidade Total (GQT) nas indústrias manufatureiras de portes médio e grande do Estado do Ceará. A partir de uma extensa revisão bibliográfica um modelo de referência com base nos fatores críticos de sucesso da GQT foi elaborado e, para medir esses fatores, um questionário contendo medidas operacionais (práticas) da GQT foi construído e aplicado nessas indústrias. Dentro outros resultados a pesquisa revelou que as indústrias manufatureiras médias e grandes do Estado do Ceará que não têm qualquer programa de gestão pela qualidade, têm desempenho inferior nos resultados da qualidade e aplicam de forma precária todos os elementos da GQT. PALAVRAS-CHAVE: gestão pela qualidade total; fatores críticos de sucesso; indústria manufatureira cearense. ABSTRACT The objective of this article is to show some of the results of a research done in the State of Ceará that investigated the implementation of Total Quality Management (TQM) in medium and big manufacturing industries. After an extensive literature revision a reference model based on the success critical factors of TQM was elaborated. A questionnaire containing operational measures (practices) of TQM, for measuring these factors, were created and applied in these industries. Among other results the research reveled that medium and big manufacturing industries of the State of Ceará havent any quality program, they have lower performance in the quality results and less intensive application of the elements of TQM. KEY WORDS: total quality management; success critical factors; manufacturing industries of the state of Ceará. ○ ○ 48 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ 2 Surge então a seguinte questão: Como investigar a maturidade na implantação dos elementos da GQT através de pesquisas empíricas organizacionais? O modelo de referência para a investigação dos fatores críticos da GQT foi fundamento em três direções: a primeira, baseada nos modelos filosóficos de Galgano (1993), Merli (1993) e Shiba et al (1993), referenciados acima; a segunda, baseada nos fatores críticos da GQT, que efetivamente interferem no sucesso de sua implantação (SARAPH et al, 1989; PORTER e PARKER, 1993; BADRI et al, 1995; TAMMI, 1995; TAMIMI e GERSHON, 1995; CROFTON e DALE, 1996; AHIRE, 1996; AHIRE et al, 1996; NGAI e CHENG, 1997; SOLER, 1997); a terceira, baseada nos prêmios nacionais da qualidade (REIMANN, 1989; STRATTON, 1990; GHOBADIAN e WOO, 1996). Como ilustração desses prêmios, podem ser citados: Prêmio Deming de Aplicação (PDA - Japão), Malcolm Baldrige National Quality Award (MBNQA - Estados Unidos da América), Prêmio Australiano da Qualidade (PAQ - Austrália), Prêmio Europeu da Qualidade (PEQ da EFQM - European Foundation for Quality Management). No Brasil existe o Prêmio Nacional da Qualidade e o seu primeiro processo de premiação ocorreu no ano de 1992. O trabalho pioneiro nessa linha de pesquisa pode ser creditado a SARAPH et al (1989) que após uma revisão literária elaboraram e aplicaram um modelo contendo os fatores críticos que afetam o sucesso na implantação da GQT. O objetivo, portanto, deste artigo, é colaborar nessa direção tomando como cenário o setor manufatureiro do Estado do Ceará - um Estado pobre inserido dentro de um país em desenvolvimento, com turbulência econômica, que é o Brasil. Este artigo apresenta alguns resultados e análises de uma pesquisa realizada em Fortaleza que investigou a aplicação das práticas da GQT nas indústrias manufatureiras de portes médio e grande do Estado do Ceará. Maiores detalhes destes resultados podem ser vistos em Alexandre (1999). Alexandre e Ferreira (2001) apresentam dois outros importantes resultados desta pesquisa: l ○ ○ ○ O modelo de referência sintetizado da teoria é composto dos seguintes elementos da GQT: As indústrias cearenses têm menor desempenho da qualidade e aplicam de forma menos intensa os elementos da GQT, que as indústrias não-cearenses (aquelas cuja matriz é de outra região, como por exemplo, Regiões Sul e Sudeste) instaladas no Estado do Ceará. Acredita-se que esse cenário tende a se modificar, uma vez que instituições de classes, como por exemplo, a Federação das Indústrias do Estado do Ceará FIEC e o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado do Ceará SEBRAE-CE vêm desenvolvendo importante papel na disseminação da filosofia da Gestão pela Qualidade (GQ). As indústrias manufatureiras cearenses de grande porte aplicam de forma mais intensa os elementos da GQT e têm desempenho superior, que as indústrias manufatureiras cearenses de médio porte. Uma provável explicação para esse fenômeno é a estratégia l ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ O MODELO DE REFERÊNCIA Comprometimento da alta administração Mensuração da qualidade Treinamento Envolvimento dos funcionários Melhoria contínua Parceria com fornecedor Foco no consumidor Empowerment Benchmarking Resultados da qualidade do produto (medida de desempenho) l l l l l l l l l l Esses elementos foram medidos a partir da elaboração de um conjunto de práticas da GQT, ou seja, para cada elemento foram elaboradas questões (sentenças) no sentido de medi-lo (ver Apêndice). ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 49 ○ ○ ○ A construção de modelos teóricos da Gestão pela Qualidade Total (GQT) evoluiu de forma inversa ao que normalmente ocorre: a princípio a implantação da filosofia da GQT era uma colcha de retalhos. A partir de experiências de sucessos das organizações, diversos autores sintetizaram essa filosofia em um modelo teórico conceitual. Como ilustração podem ser citados SHIBA et al (1993), que apresentam o modelo da GQT focado no ambiente norte-americano; MERLI (1993), que apresenta um modelo europeu de referência da GQT; e GALGANO (1993), que sintetiza o modelo da GQT baseado na experiência japonesa. ○ política agressiva do Governo do Estado do Ceará, no incentivo de instalações de novas indústrias no Estado, para proporcionar maior crescimento econômico e do parque industrial cearense. Grande parte dessas indústrias que têm origem, em sua maioria, das regiões Sul e Sudeste, centros mais avançados economicamente, trazem o know-how tecnológico de suas matrizes, e aplicam em suas filiais sediadas no Estado do Ceará. Acredita-se que esse fato pode servir como um ponto positivo, um incentivo para que as indústrias cearenses busquem a implantação de programas de GQ. INTRODUÇÃO ○ 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 3 ○ ○ ○ METODOLOGIA DE PESQUISA (4) Concordo Parcialmente. Significa que o fundamento descrito na afirmação é aplicado em sua maioria. (3) Indeciso. Significa que existem dúvidas se o fundamento é aplicado em sua maioria ou minoria. (2) Discordo Parcialmente. Significa que a indústria não aplica o fundamento descrito em sua maioria. (1) Discordo Totalmente. Significa que a indústria não aplica o fundamento descrito. ○ ○ ○ ○ ○ A pesquisa desenvolveu-se entre os meses de agosto de 1998 a fevereiro de 1999. Foram selecionadas 72 indústrias manufatureiras localizadas na região metropolitana de Fortaleza e no interior do Estado do Ceará. A coleta de informações foi feita essencialmente por meio de entrevistas pessoais, executadas pelos próprios pesquisadores (do total de 72 indústrias pesquisadas, apenas em 4 indústrias, localizadas no interior do Estado, o processo foi via correio). As indústrias selecionadas faziam parte do Guia Industrial do Ceará/ 1998, que estava em processo de elaboração pela Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC). 4 RESULTADOS E ANÁLISES É apresentado, na Tabela 1, o número de indústrias pesquisadas segundo o porte e o ramo de atividade (dentre as 72 indústrias pesquisadas 50 são de porte médio e 22 indústrias são de grande porte). A escala de Likert com 5 categorias (1-5) foi utilizada como instrumento de registro das respostas. O gerente da qualidade, diretor ou gerente com visão mais abrangente da indústria foram os profissionais escolhidos para marcar as respostas, conforme a indústria se enquadrava nas sentenças, segundo as seguintes definições: É importante informar que o porte da indústria é classificado de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): indústria de porte médio, de 100 a 499 funcionários; indústria de porte grande, de 500 ou mais funcionários. (5) Concordo Totalmente. Significa que a indústria aplica totalmente o fundamento descrito na afirmação. Tabela 1: Distribuição do número de indústrias por porte e ramos de atividades Porte Ramos de A tividades Total Médio G rande 1. Vestuários, Calçados, Artefatos de Tecidos, Couro e P eles 11 4 15 2. P rodutos Alimentares 8 6 14 3. P rodutos de Minerais Não-Metálicos 8 1 9 4. Metalúrgica 8 1 9 5. Têxtil 1 7 8 6. Material E létrico e de Comunicação 2 1 3 7. Mecânica 2 1 3 8. B ebidas 2 1 3 9. P rodutos Farmacêuticos e Veterinários 2 - 2 1 0. Mobiliário 1 - 1 1 1 . Química 1 - 1 1 2. P erfumaria, S abões e Velas 1 - 1 1 3. Editorial e Gráfica 1 - 1 1 4. S iderúrgica 1 - 1 1 5. Indústrias Diversas 1 - 1 50 22 72 TO TA L ○ ○ 50 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Tabela 1: Distribuição do número de indústrias por porte e ramos de atividades 40 34 35 30 Freqüências 25 20 15 12 8 9 9 10 5 0 Tem GQT Não Tem Programa GQ Alternativo IS O 9000 e GQT Tem ISO 9000 e GQT Pro gramas de G Q Tem ISO 9000 Tabela 2: Distribuição do número de indústrias, segundo a ordem de implantação de programas O rdem de Implantação de Programas de G Q N o. % Indústrias Indústrias 1. B usca Implantar P rimeiro a GQT e Depois a IS O 9000 31 43,0 2. Não P retende nem IS O 9000 nem a GQT 12 1 6,7 3. Certificada ou B usca a Certificação IS O 9000 e depois a GQT 11 1 5,3 4. B usca S omente Implantar a GQT 10 1 3,9 5. B usca S omente Implantar a IS O 9000 8 1 1 ,1 72 1 00,0 TO TA L ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 51 ○ ○ Muito embora a opção outros tenha sido 8 (21,1%), não há nenhum motivo com freqüência acima de 1. Os motivos são diluídos, como por exemplo em melhoria da qualidade de vida dos funcionários, busca de mercado externo, visão estratégica da empresa, etc. ○ A tabela 2 discrimina a ordem de implantação dos programas de GQT e ISO 9000, segundo as indústrias pesquisadas. Dois resultados podem ser destacados: o primeiro, 31 (43,0%) das empresas afirmaram que pretendem implantar primeiro a GQT e depois a ISO 9000; o segundo, 12 (16,7%) dos profissionais afirmaram que suas indústrias não A pesquisa buscou identificar, também, entre as indústrias que declararam ter programas de GQ (38 indústrias), quais são os motivos que levaram a sua implantação. Os resultados (gráfico 2) mostram que, fundamentalmente, motivações internas levaram as indústrias a buscarem programas de GQ: 28 (73,7%) das indústrias afirmaram que o motivo foi busca da melhoria dos processos, 21 (55,3%) sucessos nos negócios e 16 (42,1%) sobrevivência da indústria. Quanto às motivações externas, a concorrência 15 (39,5%), foi o fator predominante. ○ pretendem buscar nem a ISO 9000 nem a GQT. Contudo, eles afirmaram que essa é uma posição de momento, não descartando a hipótese de, futuramente, desenvolverem a implantação de um modelo de GQ (baseado na ISO 9000 ou GQT, por exemplo). ○ Os dados mostram que 38 (52,8%) das indústrias têm algum programa de GQ e 34 (47,2%) não têm qualquer programa de GQ (gráfico 1). Programas de GQ, abordados aqui, são discriminados em programas de GQT, ISO 9000, simultâneo de GQT e ISO 9000, e alternativo a GQT e ISO 9000 (programas definidos pela própria indústria, sem o rótulo de serem quer seja da GQT ou da ISO 9000). A maioria, portanto, dos empresários parece ter despertado para programas de GQ. Contudo, observando isoladamente 12 (16,7%) das indústrias aplicam somente a GQT e 9 (12,5%) aplicam a GQT e a ISO 9000 simultaneamente. Tomando esses dois valores conjuntamente, 21 (29,2%) aplicam a GQT. É necessário, portanto, um maior despertar dos empresários cearenses para a GQT. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ GRÁFICO 2: Distribuição do número de motivos que conduzem a busca pela GQ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 35 ○ 30 28 25 Freqüências 21 20 16 15 15 10 8 5 3 0 B usca Melhoria P rocessos S ucessos Negócios S obrevivência Indústria Concorrência As hipóteses, definidas e analisadas a seguir, foram fatores de investigação da pesquisa, que serão comprovadas ou não pelos resultados. Para maiores detalhes sobre os testes aplicados ver Costa Neto (1977). 2 E xigência Consolidação Consumidor Imagem Outros Motivos O resultado do teste t-student (unilateral) confirma essa hipótese. Somente para os elementos envolvimento dos funcionários e empowerment aos funcionários não existe estatisticamente, aos níveis de 1% e 5% de significância, uma superioridade das indústrias de desempenho superior sobre as indústrias com desempenho inferior (tabela 3), na implantação das práticas da GQT. HIPÓTESE 1: As indústrias cearenses (ou localizadas no Estado do Ceará), com desempenho superior nos resultados da qualidade do produto (26 indústrias), aplicam mais intensamente os elementos da GQT, do que aquelas com desempenho inferior (46 indústrias). Conclui-se, então, que a aplicação de forma mais intensa dos elementos da GQT conduz a resultados superiores no desempenho da qualidade dos produtos. Provavelmente, isso se deve a que as indústrias com desempenho superior buscam mais programas de GQ (das 26 indústrias com desempenho superior, 16 (61,5%) têm programas de GQ, enquanto que das 46 indústrias com desempenho inferior, isso acontece somente para 22 (47,8%) indústrias). Para efeito deste trabalho, foi convencionado como indústria com desempenho superior, aquela que obteve uma média igual ou superior a 4,3 no item Resultados da Qualidade do Produto (esse valor foi determinado por meio de uma regra de três simples, baseado no trabalho de Ahire et al (1996), que considera desempenho superior uma média igual ou superior a 6, em uma escala de Likert 1-7). Tabela 3: Teste para comparação de médias, segundo o desempenho da indústria Desempenho Superior Desvio Média P adrão 4,1 7 0,78 3,89 0,72 3,33 0,95 3,50 0,96 3,1 7 1 ,1 7 4,23 0,61 3,65 0,81 2,97 1 ,23 3,74 0,91 ELEMENTO S DA G Q T 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. Comprometimento da Alta Administração Foco no Consumidor Parceria com Fornecedor Envolvimento dos Funcionários Treinamento Mensuração da Qualidade Melhoria Contínua B enchmarking Empowerment ** Significativo a 1% ○ ○ 52 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Desempenho Inferior Desvio Média Padrão 3,60 1 ,09 3,21 0,89 2,79 0,76 3,1 7 0,85 2,56 1 ,1 2 3,64 0,85 2,95 0,97 2,43 1 ,08 3,43 0,84 V alor da Estatística t 2,60 ** 3,33 ** 2,64 ** 1 ,50 2,1 9 * 3,41 ** 3,1 5 ** 1 ,94 * 1 ,44 * Significativo a 5% ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Contudo, é razoável supor que indústrias mais experientes em programas de GQ devem ser significativamente superiores na aplicação de todos os elementos da GQT e no desempenho da qualidade, do que as indústrias menos experientes. Todavia, esse teste não confirma essa suposição. Isso conduz a duas observações: a primeira, o questionamento da definição de 3 anos como limite de maturidade na aplicação das práticas da GQT; a segunda, se há na realidade, um efetivo processo de implantação da GQT nas indústrias pesquisadas afetando, assim, os seus resultados. O que prevalece, segundo este estudo, é a segunda observação. O teste t-student (unilateral) revela que, para melhoria contínua e benchmarking, há estatisticamente uma superioridade a um nível de 1% de significância das indústrias mais experientes sobre as menos experientes. Para foco no consumidor, treinamento e empowerment, essa significância é de 5% (Tabela 4). Das 38 indústrias que têm algum programa de GQ, 16 indústrias, dentre as 21 que executam programas de GQ, a menos de 3 Tabela 4: Teste para comparação de médias, segundo o tempo de execução de programas de GQ Indústria Mais Experiente Desvio Média P adrão 4,50 0,59 3,94 0,79 3,46 0,70 3,74 0,68 3,85 0,91 4,1 5 0,76 3,99 0,82 3,43 1 ,20 4,07 0,67 4,1 9 0,53 ELEMENTO S DA G Q T 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 1 0. Comprometimento da Alta Administração Foco no Consumidor P arceria com Fornecedor E nvolvimento dos F uncionários Treinamento Mensuração da Qualidade Melhoria Contínua B enchmarking E mpowerment Resultados da Qualidade do P roduto ** Significativo a 1% ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 1 ,52 1 ,83 * 1 ,36 0,95 2,07 * 0,39 2,54 ** 2,46 ** 2,1 8 * 1 ,53 Esses resultados reforçam a afirmação de que uma condição necessária para uma indústria apresentar um desempenho superior, nos resultados da qualidade do produto, é uma aplicação efetiva de programas de GQ baseado nos elementos da GQT. Esses resultados vêm corroborar, mais uma vez, que a GQT é uma forma de gestão, um diferencial competitivo superior para as indústrias se manterem vivas no mercado competitivo, frente à concorrência. Conforme o teste t-student (unilateral), descrito na Tabela 5, há uma superioridade estatisticamente, ao nível de 5% de significância, nos resultados da qualidade, das indústrias com algum programa de GQ, sobre aquelas que não têm programas de GQ. Essa tabela mostra, também, um resultado já esperado: indústrias com programas de GQ aplicam mais intensamente os elementos da GQT, do que as indústrias sem programas de GQ (para benchmarking, essa superioridade é significante ao nível de 5%, e para os outros elementos é de 1%). ○ V alor da E statística t * Significativo a 5% HIPÓTESE 3: Indústrias cearenses (ou localizadas no Estado do Ceará), com programas de GQ (38 indústrias), têm desempenho superior nos resultados da qualidade do produto, do que aquelas sem programas de GQ (34 indústrias). ○ Indústria Menos Experiente Desvio Média Padrão 4,1 5 0,79 3,54 0,55 3,07 0,98 3,50 0,83 3,25 0,88 4,07 0,51 3,30 0,82 2,40 1 ,33 3,54 0,82 3,88 0,67 ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 53 ○ ○ ○ ○ anos, são cearenses. Isso pode ter conduzido a essas diferenças significativas, uma vez que a pesquisa revelou, também, que as indústrias não-cearenses instaladas no Estado do Ceará parecem ser superiores às cearenses, na aplicação dos elementos da GQT. ○ HIPÓTESE 2: As indústrias cearenses (ou localizadas no Estado do Ceará), com maior experiência (3 ou mais anos) em programas de GQ, aplicam mais eficientemente os elementos da GQT e têm desempenho da qualidade superior, do que aquelas menos experientes. Das 38 indústrias pesquisadas que têm programas de GQ, 21 executam programas de GQ a menos de 3 anos e 17 executam esses programas com 3 ou mais anos (a definição de 3 anos como limite, baseia-se no trabalho de Ahire (1996)). ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Tabela 5: Teste para comparação de médias, segundo a existência de programas de GQ Tem Programa de G Q Desvio Média Padrão ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ELEMENTO S DA G Q T Comprometimento da Alta Administração 4,31 0,72 3,25 1 ,03 5,02 ** 2. Foco no Consumidor 3,72 0,69 3,1 6 1 ,00 2,72 ** 3. P arceria com Fornecedor 3,24 0,88 2,69 0,77 2,83 ** 4. Envolvimento dos Funcionários 3,61 0,77 2,94 0,91 3,42 ** 5. Treinamento 3,52 0,93 1 ,96 0,80 7,59 ** 6. Mensuração da Qualidade 4,1 1 0,63 3,57 0,93 2,83 ** 7. Melhoria Contínua 3,61 0,88 2,75 0,86 4,1 9 ** 8. B enchmarking 2,86 1 ,36 2,36 0,83 1 ,92 * 9. Empowerment 3,78 0,79 3,29 0,90 2,46 ** 4,01 0,62 3,74 0,77 1 ,72 * ** Significativo a 1% * Significativo a 5% CONCLUSÕES E COMENTÁRIOS FINAIS Os resultados da pesquisa levam às seguintes conclusões: l O desempenho superior nos resultados da qualidade do produto está positivamente associado à implantação das práticas da GQT (Hipótese 1). Esse é um forte argumento para que as indústrias cearenses busquem a filosofia da qualidade como forma de gestão. Convém acrescentar, que a GQT não é a atividade FIM, para uma indústria e, sim, uma atividade MEIO, para que ela sobreviva no mercado. Esse é um equívoco de conhecimento assumido por muitas indústrias. É possível concluir, também, que a chave para a superioridade das indústrias de médio e grande porte da manufatura cearense, com desempenho superior nos resultados da qualidade dos produtos, sobre as indústrias com desempenho inferior, parece estar mais relacionada às ferramentas e técnicas da GQT, tais como, mensuração da qualidade, parceria com fornecedor, treinamento, melhoria contínua, benchmarking, do que aos aspectos intangíveis envolvimento dos funcionários e empowerment, uma vez que não há superioridade estatisticamente significativa nesses dois elementos ao se estratificar pelo desempenho da empresa; l Da hipótese 2, conclui-se que as indústrias cearenses (ou localizadas no Estado do Ceará) mais experientes na aplicação dos elementos da GQT, não são significativamente superiores em todos esses elementos, do que as indústrias menos experientes. Uma explicação pode ser decorrente do seguinte fato observado na pesquisa: parece não haver, em muitas indústrias, um modelo de sistema estruturado de implantação dos programas de GQ. Isso pode demandar um tempo maior para a efetiva implantação dos ○ ○ ○ ○ V alor da Estatística t 1. 1 0. Resultados da Qualidade do P roduto 54 Não Tem Programa de G Q Desvio Média Padrão ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ elementos da GQT e para a obtenção de desempenho superior na qualidade do produto. Provavelmente, a definição do tempo limite de maturidade de 3 anos de aplicação de programas de GQ, definido nesta pesquisa, pode ter afetado os resultados. Dentro desse cenário, esse tempo de maturidade será mais longo; Uma das conclusões mais importantes desta pesquisa é que as indústrias manufatureiras de portes médio e grande do Estado do Ceará, que não têm qualquer programa de GQ, têm desempenho inferior nos resultados da qualidade e aplicam de forma precária todos os elementos da GQT, aqui pesquisados, do que as indústrias com algum programa de GQ (hipótese 3). l Algumas restrições referentes a este estudo devem ser esclarecidas para efeito das conclusões: Os resultados da pesquisa podem ter sido influenciados por outros fatores que não foram isolados como, por exemplo, o ramo de atividade (devido ao pequeno número de dados) das empresas; Não foram analisadas isoladamente indústrias que têm somente programas de GQT, em função da pequena quantidade de dados. Contudo, para todos os estratos, as variáveis estudadas para investigação das práticas da GQ são, na realidade, os elementos da GQT; Barreiras iniciais que influenciam na implantação de programas de GQ, tais como, cultura organizacional para a qualidade e monopólio de mercado, não foram investigados na pesquisa; Replicações da pesquisa devem ser efetuadas para melhor corroborar os resultados. Como sugestão, envolver um maior número de indústrias na pesquisa e abranger, também, indústrias dos portes micro e pequeno. l l l l ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ AHIRE, S.; WALLER, M. A.; GOLHAR, D. Y. Quality in TQM versus no-TQM firms: an empirical investigation. International Journal of Quality & Reliability Management, v. 13, n. 8, p. 8-27, 1996. NGAI, E. W. T.; CHENG, T. C. E. Identifying potential barriers to total quality management using principal component analysis and correspondence analysis. 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Comprometimento da alta administração 2.2 Avaliação Periódica da qualidade executada pela alta administração Fornecimento das reclamações dos consumidores a todos os departamentos 2.3 1.2 Discussão da importância da qualidade pela alta administração Utilização das reclamações do cliente como base para a melhoria da qualidade 2.4 1.3 Alocação de verbas e recursos para a qualidade definida em orçamento Manutenção de um serviço de atendimento ao consumidor 2.5 Realização periódica de pesquisas junto ao consumidor 1.4 Definição (identificação) e documentação das metas da qualidade 1.5 As metas da qualidade inseridas no planejamento estratégico da empresa 3.1 Qualidade e preço como critérios para a seleção do fornecedor 1.6 Comunicação ativa da alta administração do compromisso pela qualidade 3.2 Realização de contratos de longo prazo com fornecedor 3.3 Fornecimento de assistência técnica ao fornecedor 3.4 Participação do fornecedor no processo de desenvolvimento e fabricação 1.1 2. Parceria com o fornecedor: Foco no consumidor: 2.1 ○ 3. ○ ○ ○ Comparação da satisfação do cliente com indicadores internos/concorrentes ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 55 ○ ○ ○ ○ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 4. ○ ○ ○ Envolvimento dos funcionários (relação com os funcionários) 8. Benchmarking: 4.1 Realização periódica de reuniões em cada área para discussão sobre qualidade 4.2 Reuniões periódicas de equipes interfuncionais para discussão sobre qualidade 4.3 Avaliação de todas as sugestões dos funcionários 4.4 Implantação das sugestões dos funcionários 4.5 Prêmios e/ou recompensas não financeiras pelas melhores sugestões ○ ○ ○ ○ ○ 9. 7. ○ Visita em outras reconhecidamente líderes organizações 8.2 Efetivo procedimento de benchmarking dos competidores mais fortes 8.3 Efetivo procedimento de benchmarking com líderes não competidores 8.4 Manutenção efetiva do benchmarking como uma política da empresa Empowerment(delegação de poderes) aos funcionários: 5. Treinamento: 6. 8.1 9.1 Delegação de poderes aos funcionários para a solução de problemas 5.1 Alocação de recursos necessários para o treinamento em qualidade 9.2 5.2 Envolvimento de todos os escalões no treinamento em qualidade Fornecimento de apoio aos funcionários para a solução de problemas 9.3 5.3 Treinamento de muitos funcionários em técnicas de solução de problemas Inspeção da qualidade executada pelos funcionários (não por um inspetor) 9.4 5.4 Treinamento dos funcionários em ferramentas/ técnicas estatísticas Divulgação das experiências de sucesso na solução de problemas 1 0 . Resultados da Qualidade do Produto Mensuração da Qualidade: 10.1 Aumento significativo da produtividade 6.1 Execução de inspeções por amostragem durante o processo de produção 10.2 Redução significativa de erros e desperdícios 6.2 Avaliação da qualidade não executada somente com inspeção final 6.3 Medição periódica dos desperdícios e falhas de produto não-conforme 10.5 Redução significativa no número de reclamações dos consumidores 6.4 Manutenção de registros das avaliações da qualidade 10.6 Diminuição significativa dos custos referentes à qualidade 6.5 Fornecimento dos resultados das avaliações a todos os funcionários 6.6 Resultados das avaliações como suporte para a melhoria da qualidade 10.3 Aumento considerável da lucratividade 10.4 Aumento significativo da posição competitiva Melhoria Contínua: ○ 56 ○ 7.1 Manutenção de estrutura organizacional específica para apoiar a Qualidade 7.2 Há programa formal para a redução de tempo e custo nos processos internos 7.3 Execução de avaliações nos processos chaves de produção 7.4 Há um programa formal para a redução do tempo de entrega de produto 7.5 Há um programa formal para a redução do tempo de fabricação ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ RESUMO Um problema identificado na modelagem de processos de negócios é que as organizações são estruturadas em funções em vez de processos. Dentro desse contexto, é importante que as organizações sejam centradas em processos. São identificadas duas etapas para estruturar uma organização em processos. A primeira é organizar as unidades de negócios em torno de um processo central e, em seguida, adicionar a essas unidades os outros tipos de processos. Este trabalho tem como objetivo apresentar uma arquitetura de modelagem de processos de negócios - AMPN que selecione as técnicas de modelagem em função dos objetivos de um projeto de processo. Essa arquitetura deve apoiar o desenvolvimento de modelos voltados para a gestão do valor dos processos que propiciem a visão dos negócios em diferentes perspectivas através das técnicas de modelagem. PALAVRAS-CHAVE: Modelagem de processos; arquitetura de modelagem. ABSTRACT One problem identified in modeling is that the organizations are structured in functions instead of processes. Within this context, it is important that the organizations should be centered in processes. Two stages are identified in order to structure one organization in processes. The first one is to organize the units of business around a central process and, afterward, to attach to these units the other kind of processes. On this way, this work has as objective to present a AMBP that selects the techniques of modeling in function of the objectives of processes project. This architecture has to give a support to the development of models that consider the processes value and produce a business vision on different perspectives using the modeling of process techniques. KEY WORDS: Modelling of processes; modelling architecture. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 57 ○ José Belo Torres Dr. Eng. Universidade Federal do Ceará Gregório Jean Varvakis Rados PhD Universidade Federal de Santa Catarina ○ ○ ○ ○ ○ UMA ARQUITETURA DE MODELAGEM DE PROCESSOS DE NEGÓCIOS ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 1 INTRODUÇÃO Um problema identificado na modelagem é que as organizações são estruturadas em funções em vez de processos. Dentro desse contexto, é importante que as organizações sejam centradas em processos. Vanharverbeke (1998) identifica duas etapas para estruturar uma organização em processos. A primeira é organizar as unidades de negócios em torno de um processo central e em seguida adicionar, a essas unidades, os outros tipos de processos. ○ ○ ○ ○ ○ Para Ould (1998), existem várias razões para se utilizar uma estrutura organizacional centrada em processos. Em um contexto de BPR, deseja-se uma estrutura organizacional centrada em processos, já que essa abordagem propõe modelar seus processos. Na melhoria contínua, é necessária uma estrutura em processos para que as suas ferramentas apóiem a melhoria contínua através da identificação das atividades que não agregam valor. Quanto às metodologias de representação de processos de negócios, Pandya (1997) afirma que existem basicamente dois tipos. O primeiro é voltado para os sistemas de informações, enquanto o segundo é voltado para a gestão de valor dos processos. Uma diferença básica entre os dois tipos é que as metodologias voltadas para os sistemas de informações têm como princípio básico a intenção de implementação para um projeto computacional. Já para as metodologias de gestão de valor dos processos têm como objetivo recuperar e avaliar as medidas de seus desempenhos. Phalp (1998) afirma que as técnicas para modelagens de processos de negócios foram originalmente desenvolvidas para o estudo dos sistemas de informações. Para Gonçalves (2000), uma organização centrada em processos está surgindo como a forma organizacional dominante para o século XXI. Essa visão horizontal das empresas é uma maneira de identificar e aperfeiçoar as interfaces funcionais que são os pontos nos quais o trabalho está sendo realizado. Esses processos horizontais são desenhados utilizando como base o fluxo de trabalho através de uma equipe que executa todo o processo. Em relação à modelagem de processos de negócios, deve-se buscar uma arquitetura que permita uma visão do negócio em diversas perspectivas (CURTIS, 19992), (LUO, 1999), (TAIT, 2000), (YU, 2000a, 2000b), (PRESLEY, 2001), (TORRES, 2002). Uma arquitetura, segundo Luo (1999), deve ser capaz de atender aos objetivos de um projeto de processo. Normalmente, é fundamentada nas perspectivas que os modelos passam de uma visão de um negócio através das técnicas de modelagem de processos. Para Yu (2000a), os modelos podem ser vistos de diferentes perspectivas e, assim, apoiar os usuários a identificar e clarear aspectos particulares de um negócio. Entende-se, assim, o modelo como uma ferramenta que disponibiliza uma ou mais perspectivas de um negócio. Neste trabalho, aplica-se a AMPN para selecionar as técnicas que devem atender ao desenvolvimento de um modelo voltado para a gestão do valor dos processos. Essa arquitetura é constituída de um conjunto de elementos, como perspectivas, características, qualidades e técnicas de modelagem. 2.1 AS ARQUITETURAS DE MODELAGEM DE PROCESSOS Diversos trabalhos para o desenvolvimento de sistemas de informações ou para a gestão de valor dos processos (CURTIS, 1992), (LUO, 1999), (PRESLEY, 2001), propiciam, em relação à modelagem de processos, uma visão do negócio em diferentes perspectivas. Os mais explorados são o Open System Architecture CIMOSA para o CIM (Computer Integrated Manufacuring) (LEPKINSON, 1998), (VALIRIS, 1999), (WESTON, 1999), (BORJE, 2000), (YU, 2000a, 2000b), (PRESLEY, 2001), o modelo de Curtis (CURTIS, 1992) e o modelo de Zachman (VALIRIS, 1999), (TAIT, 2000). Esses trabalhos foram propostos para atender o desenvolvimento de SI e para eles foram dados o nome de Arquiteturas de Sistemas de Informações ASI. Este trabalho está organizado em quatro seções. As técnicas de modelagem de processos são apresentadas na seção 2. Na seção 3, é proposta uma arquitetura de suporte à modelagem de processos. Esta arquitetura tem como objetivo dar uma visão holística e organizar o modelo de processos sobre um conjunto de perspectivas e características. Na seção 4, são feitas as considerações finais. 2 A MODELAGEM DE PROCESSOS DE NEGÓCIO Segundo Boothroyd (apud PIDD, 1998), os modelos são mundos artificiais que têm sido deliberadamente criados para ajudar o entendimento das possíveis conseqüências de ações particulares. Eles são partes de um processo de reflexão antes da ação. Os modelos podem ser quantitativos, mas, em qualquer dos casos, eles serão abstrações simplificadas do sistema de interesse. O conceito de modelo, segundo Pidd (1998), é uma representação externa e explícita de parte da realidade vista pela pessoa que quer usar aquele modelo para entender, mudar, gerenciar e controlar parte daquela realidade. ○ ○ 58 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Em um trabalho clássico sobre modelagem de processos para engenharia de software, Curtis (1992) sugere que o modelo de processos apresente uma ou mais perspectivas e identifica as quatro mais comumente utilizadas: a funcional, a comportamental, a organizacional e a informacional. Neste artigo, o autor descreve cada uma dessas perspectivas. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ A metodologia GRAI (PANDYA, 1997) propõe uma visão do sistema de produção dentro de três subsistemas, o subsistema de tomadas de decisão, o subsistema de informação (estrutural) e o subsistema físico. Foi desenvolvida em 1980 na universidade de Bordeaux e concentra-se nas funções existentes de um companhia, para analisar o gerenciamento dos sistemas de informações. O sistema de decisão, o qual tem uma estrutura hierárquica, controla o sistema físico através dos dados fornecidos pelo sistema de informação. No sistema físico, ocorre a transformação dos materiais em produtos acabados. O quadro 1 mostra um resumo das arquiteturas levantadas. Yu (2000b) propõe em uma pesquisa nos Sistemas Flexíveis de Manufatura - FMS, uma arquitetura que identifica as perspectivas funcional, informacional e de controle, utilizando as técnicas IDEF0, IDEF1 e SLAMII respectivamente. Ele conclui que a abordagem que representa as múltiplas perspectivas fornece o conhecimento necessário para o entendimento correto e seguro de um sistema e consequentemente fornece as facilidades para realizar análises com mais confiabilidade. Uma observação importante, em relação as arquiteturas apresentadas, é quanto às semelhanças de algumas perspectivas propostas. Por exemplo, a perspectiva funcional pode ser vista como uma perspectiva de atividades no sentido de que ambas objetivam identificar as transformações de entradas em saídas. A diferença básica entre elas é que a funcional identifica quem está realizando as atividades. A perspectiva informacional, embora mais ampla, é semelhante à perspectiva de dados ou de objetos, enquanto a de objetos se assemelha com as perspectivas de recursos e de dados. Luo (1999), por sua vez, sugere um framework de seleção de técnicas de modelagem de processos de negócios. Afirma que, para se modelar os processos, é necessário que os seus objetivos sejam descritos. Esses objetivos devem determinar a visão do negócio através de suas perspectivas, e dessa visão selecionar as técnicas de modelagem. A seleção, portanto, das técnicas de modelagem é função dessas perspectivas e qualidades do modelo para atender os objetivos do negócio. Agora, existem algumas perspectivas que, acredita-se, estão mais para as características ou categorias das técnicas de modelagem. Por exemplo, a perspectiva comportamental pode ser vista como uma característica dinâmica através das interações, quando da execução de um processo. O mesmo pode ser observado em relação à perspectiva de dado, essa está aqui devido à importância dos sistemas de informações. Quanto às perspectivas que aparecem poucas vezes, como estratégias, decisão, controle e desempenho, são de fundamental importância, mas de difícil representação através das técnicas de modelagem. Já Presley (2001) apresenta uma abordagem centrada em processos utilizando um esquema de modelagem de processos para análise e projeto de negócios convencionais e estendidos. Negócios estendidos significam um conjunto de processos de negócios distribuídos em multi-companhias ou negócios virtuais. Para isso, utilizou-se de uma abordagem baseada em holons da ARRI (Automation & Robotics Research Institute), para modelar os componentes de um negócio que permitisse o desenvolvimento de uma visão integrada através das seguintes perspectivas: atividade, processo, organizacional, regras e recurso. Para o desenvolvimento dessas perspectivas, foram utilizadas as técnicas de modelagem da família - IDEF. Dentro desse contexto, observa-se que a arquitetura deve servir para atender aos objetivos do trabalho que se pretende realizar. Assim, quando o objetivo é atender as metodologias de desenvolvimento de SI, algumas perspectivas devem ser obrigatoriamente apresentadas, como, por exemplo, a perspectiva informacional, enquanto para as metodologias voltadas para a gestão de valor dos processos as perspectivas que devem ser apresentadas, pelo menos, são as perspectivas de processos e controle em que as seqüências de atividades podem ser visualizadas e a simulação pode ser realizada. Segundo Bal (1998), um processo de negócio deve ser observado de várias perspectivas dependendo da espécie de informação requerida. São dos tipos: Que (What) trabalhos estão sendo feitos; Quem (Who) está realizando, Como (How) está sendo feito e Quando (When) será feito e, por último, quem tomará a decisão. Dentro dessa ótica, afirma que existem várias ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 59 ○ ○ ○ ○ perspectivas para uma visão de negócio: funcional, comportamental, organizacional, informacional (estas quatro fazem parte do modelo de Curtis), de recursos e de decisão. ○ A arquitetura CIMOSA foi definida pelo projeto ESPRIT e consiste de um conjunto de perspectivas da visão organizacional as quais, juntas, dão uma completa descrição da organização (VALIRIS, 1999). O modelo CIMOSA é uma das arquiteturas mais abrangentes, na medida em que inicia pela definição estratégica de negócio. Esta procura visualizar a manufatura segundo uma matriz de perspectivas e atividades começando com a visão estratégica e terminando com a implementação dos sistemas de informações. As perspectivas utilizadas são a funcional, a informacional, a de recursos e a organizacional. Observa-se, assim, uma arquitetura voltada para o desenvolvimento dos sistemas de informações. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Quadro 1 - Arquiteturas de Modelagem de Processos de Negócios ○ ○ ○ ○ ○ A RQ UITETURA S ○ PERS PEC TIV A S ○ CIMOS A Funcional GRAI Zachman Curtis X X X X X Comportamental Organizacional X X X X Informacional X X X X ARRI Yu Luo B al ARIS X X X X X X X X X X Objetos X Atividades X X Regras X X Recursos X X P rocesso X Dados X E stratégia X X X X X X X X X X Desempenho X Decisão X Controle X 2.2 AS TÉCNICAS DE MODELAGEM DE PROCESSOS Diversas são as técnicas empregadas para identificar as diferentes perspectivas de negócios. Uma descrição mais detalhada dessas técnicas pode ser vista em Torres (2002). Entre elas podem ser citadas: a metodologia Roles Activity Diagrams RAD, a simulação, a Rede de Petri, a Rede de Atividades RA, a Orientação a Objetos OO, a UML, os componentes de Software, a família IDEF e o Workflow. Luo (1999) afirma que as técnicas de modelagem de processos de negócios não têm somente características diferentes, mas também proporcionam perspectivas diferentes da visão dos negócios. Uma técnica de modelagem deve atender aos objetivos de um projeto, pois, assim, pode-se limitar o modo pelo qual os processos podem ser descritos e analisados. A seleção de uma técnica para modelagem de processos de negócios deve atender aos objetivos que pretende alcançar, como, por exemplo, representar, avaliar, comunicar e controlar um processo existente. 2.3 UMA ANÁLISE PROCESSOS Nickols (1997) propõe uma classificação dos modelos em estático, dinâmico e comportamental. Estático devido aos modelos estruturais (dados) e dinâmico devido ao modelo comportamental e de processos. A característica dinâmica relaciona-se com a avaliação dos modelos de processos de negócios por meio da simulação. O dinâmico pode ir além da simulação, ou seja, pode permitir que os modelos interajam com os recursos organizacionais dinamicamente. Dessa forma, ao fazer as apresentações das técnicas nas próximas seções, as análises serão feitas em função das perspectivas acrescidas dos aspectos estático e dinâmico. ○ ○ 60 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ DAS TÉCNICAS DE MODELAGEM DE Esta seção tem como objetivo fazer uma avaliação das técnicas apresentadas em função das perspectivas e características estáticas e dinâmicas. As características estáticas foram divididas em duas outras características, ou seja, estrutura organizacional e informacional. A estrutura organizacional está relacionada com os recursos da organização, como os equipamentos e recursos humanos, enquanto a informacional está relacionada com as entradas e saídas, ou seja, os dados e os seus relacionamentos e os documentos ou materiais. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Quanto aos aspectos de representação de dados ou objetos, existem as técnicas IDEF1, IDEF1x e IDEF5 que tratam essas características muito bem. O IDEF1 usa o modelo tradicional, idêntico ao MER, para modelar logicamente um banco de dado relacional, enquanto o IDEF5 modela as ontologias de seus objetos, de forma idêntica às abstrações da OO. O IDEF1x, somente, aperfeiçoa o IDEF1 utilizando mais semântica. Na perspectiva de processo, por exemplo, pode ser observado o tempo de ciclo, enquanto na perspectiva de recursos pode ser observada a produtividade. Do levantamento das técnicas descritas e suas características montou-se o quadro 2. Este quadro, portanto, apresenta a capacidade de percepção das características e perspectivas através das técnicas descritas. Utilizou-se, para isso, o critério qualitativo descritivo realizado a seguir. Em relação à RA e à rede de Petri, são técnicas semelhantes que têm os mesmos objetivos quanto à modelagem de processos de negócios. Essas representam com qualidade as características dinâmicas. Foram consideradas boas para a avaliação no sentido de que são técnicas que descrevem os fluxos de processos e que podem ser desenvolvidas como objetos e assim ter autonomia de cálculo para recuperação de medidas de desempenho. Também, podem apoiar eficientemente na derivação para uma ferramenta de simulação com o apoio de outras técnicas como o IDEF0, por exemplo. Isso é possível devido a essas técnicas descreverem as rotas ou atividades realizadas no tempo por um processo. Quanto ao controle, isso se deve por expressar em seus modelos as ações que deve tomar um elemento do modelo quando um determinado evento ocorrer. Neste quadro, observa-se que o IDEF0 representa as características estáticas. Embora não represente bem os relacionamentos de dados, consegue ser abrangente, modelando as entradas, saídas, mecanismos e recursos utilizados nas atividades. Assim, o seu modelo ou diagrama é uma ótima ferramenta para apoiar outras técnicas de modelagem como as ferramentas de simulação, por exemplo. Na perspectiva informacional, os dados ou documentos que estão sendo processados Quadro 2 - Análise das Técnicas de Modelagem de Processos C A RA C TERÍSTIC A S Técnicas de Modelagem Estática/Estrutural Dinâmica Estrutura O rganizacional Informacional C omportamental A valiação * * *** * ** ** OO * *** UML * *** RAD Ferramentas S imulação de C ontrole *** ** *** ** * *** ** * Rede de P etri ** ** RA ** ** ** ** IDE F0 * ** IDE F1 ** IDE F1 x ** IDE F2 IDE F3 ** IDE F5 ** ** Componentes *** * ** *** *** Workflow *** E spaço em branco nada representa ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ * Média ○ ○ ○ ○ ○ ○ ** B oa ○ ○ ○ ○ ○ *** Muita boa ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 61 ○ ○ ○ ○ são descritos, mas não mostra as relações com outras entidades, como nos modelos de E-R. A grande vantagem do IDEF0 é a facilidade de entendimento do seu modelo projetado. ○ Quanto às características dinâmicas, foram divididas em comportamental, de avaliação e de controle. A característica comportamental é tratada como dinâmica no sentido da interação que é realizada entre duas entidades. A característica de avaliação observa o comportamento dos modelos através das medidas de desempenho por meio da simulação, enquanto a característica de controle propõe o monitoramento de forma dinâmica das medidas de desempenhos da organização. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Quanto à UML e à OO, pode-se observar que preenchem bem quase todas as características, sejam elas estáticas ou dinâmicas. Isso acontece porque essas técnicas, voltadas para modelos, têm uma grande quantidade de diagramas. Assim, para possibilitar todas essas características, um certo número de diagramas tem que ser desenvolvidos influenciando na capacidade de seus modelos serem íntegros e consistentes. Em um diagrama de classes, por exemplo, as suas classes devem estar presentes nos outros diagramas com as mesmas características. realizadas como a junção de uma ou mais perspectivas e a eliminação de outras por dificuldade de representação. Essas perspectivas eliminadas podem ser definidas através de uma forma descritiva. Quanto às restrições, decidiu-se, primeiramente, eliminar a perspectiva funcional e identificá-la como de atividades. Assim, a organização deve ser vista através de processos ou atividades sendo realizada por alguém e liberando produtos para os processos seguintes. Com a mesma motivação, definiu-se a perspectiva organizacional, no sentido apresentado por Presley (2001), para a perspectiva de processos de negócio. A pouca representatividade para a avaliação se deve, principalmente, a OO não propor nenhum modelo que mostre as seqüências de atividades no tempo e principalmente a quantificação dos recursos. A característica comportamental é vista através da interação entre dois objetos, enquanto a característica de controle é vista através dos seus eventos. Quanto à RAD, é uma boa técnica para representar as dinâmicas comportamentais das funções organizacionais como o diagrama de caso de uso da UML. O seu grande problema é que se preocupa em modelar as interações entre funções, esquecendo o principal objetivo da modelagem que é o processo. Quanto às semelhanças de perspectivas, foram identificadas a informacional, de dados e de objetos que representam os dados, documentos ou entidades, e foi denominada de perspectiva de objeto informacional. Podia ser chamada, também, de objetos, mas decidiu-se por informacional para não se prender ou se confundir com os objetos da OO. A perspectiva de objetos foi identificada como uma nova perspectiva, a de recursos. E, por último, as perspectivas de regras e controle são agrupadas na perspectiva de controle. A modelagem com componentes descreve a estrutura organizacional com os seus recursos, as relações desses recursos, os eventos e os métodos que permitem a interação com do modelo com os recursos organizacionais. Dessa forma esta técnica pode ser comparada como um misto de modelo dinâmico das metodologias OO e das ferramentas de simulação. Essas características dão a essa técnica a viabilidade de avaliação e controle através de seu modelo. A sua característica de representar os recursos organizacionais faz com que represente bem a estrutura organizacional. A perspectiva de controle é diferente da característica de controle. Na primeira, o modelo identifica as atividades que devem ser realizadas conforme a ocorrência de um evento, enquanto a segunda se deve à condição de o modelo interagir, de forma dinâmica, com os recursos da organização recuperando e armazenando informações no banco de dados BD corporativo da organização. As técnicas como rede de Petri e componentes possibilitam a perspectiva dos recursos de forma dinâmica como o desempenho de produtividade, por exemplo. O que é importante nessa análise é que uma técnica isoladamente não consegue representar todas as características de um modelo de negócio. Dessa forma, deve-se selecionar um conjunto de técnicas que não sejam muitas, em torno de três, para que representem bem a visão de negócio, conforme o objetivo da modelagem proposta. Outra questão importante é que os modelos possam não só representar, mas também interagir, de forma dinâmica, com os recursos organizacionais através de seus elementos. Em relação à análise do quadro 3, as seguintes considerações podem ser feitas. Quanto às técnicas da RAD, esta possibilita uma visão dos processos e das atividades de uma forma dinâmica comportamental. A OO e UML permitem a visão através de um conjunto de perspectivas. Observa-se, entretanto que não são as melhores técnicas, pois não propõem aos modelos, a representação dos múltiplos recursos utilizados na organização. Uma outra análise foi realizada e resumida no quadro 3. Este quadro descreve as relações entre as perspectivas, características e técnicas com o objetivo de visualizar de forma integrada esses três elementos. O quadro identifica que uma determinada técnica possibilita uma determinada perspectiva de forma estática ou dinâmica. Para elaboração desse quadro, algumas restrições quanto às perspectivas foram ○ ○ 62 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Quadro 3 - Relacionamento entre Características, Perspectivas e Técnicas ○ ○ C A RA C TERÍSTIC A S Dinâmica ○ Estática ○ PERSPEC TIV A S O rganizacional Informacional • Componentes • Ferramentas de S imulação • Rede de P etri P rocesso C omportamental • OO • UML • ID E F0 A valiação C ontrole • RAD • OO • UML • ID EF3 • OO • UML • RA • Rede de P etri • Ferramentas de S imulação • Componentes • IDE F2 • RA • Rede de P etri • Componentes • Workflow • RA • Rede de P etri • Componentes • Workflow • Componentes • Ferramentas de S imulação • Rede de P etri • OO • UML • ID E F0 • RAD • OO • UML • ID EF3 • OO • UML • RA • Rede de P etri • Ferramentas de S imulação • Componentes • IDE F2 Objetos Informacionais • OO • UML • ID E F0 • OO • UML • ID E F0 • ID E F1 • ID E F1 x • ID E F5 • OO • UML • RAD • OO • UML • Componentes • Workflow Recursos • OO • UML • ID E F0 • OO • UML • ID E F0 • OO • UML • RAD • OO • UML • Rede de P etri • Componentes • Rede de P etri • Componentes Controle • OO • UML • ID E F0 • OO • UML • ID E F0 • OO • UML • ID EF3 • OO • UML • Componentes • Rede de P etri • Componentes • Workflow Atividades Para possibilitar todas estas perspectivas com essas características, as técnicas de OO utilizam-se de um conjunto de diagramas, que, muitas vezes, dificulta a integridade desses diagramas, o que torna sua utilização menos vantajosa. Assim, em vez de selecionar técnicas de uma única metodologia, deve-se buscar outras técnicas de outras metodologias. Dessa forma, esse conjunto de técnicas pode contribuir para que as perspectivas sejam visualizadas de modo estático e dinâmico possibilitando uma arquitetura de modelagem de processos de negócios que venha apoiar as abordagens organizacionais como BPR e melhoria contínua tornando-se, realmente, uma disciplina de engenharia de negócios. Quanto à RA e à rede Petri, juntamente com a técnica de componentes, permitem a visão de negócio através das perspectivas de processos e das atividades com as características de avaliação e controle. Isso se deve à recuperação de forma dinâmica de suas medidas de desempenho como custo, tempo de ciclo e produtividade. A família IDEF, como a OO, possibilita uma visão ampla em relação às características estáticas. Somente o IDEF3 descreve as características dinâmicas comportamentais com as perspectivas de processos, atividades e controle. O IDEF3 mostra, portanto, o seqüenciamento ou coordenação de atividades, enquanto o IDEF2, somente, diz da importância da avaliação, mas não propõe nenhuma técnica. 3 A AMPN é definida, neste trabalho, como uma framework para a construção de um conjunto de perspectivas da visão de um negócio através das técnicas de modelagem de processos de negócios. Essa arquitetura é utilizada, tanto para as metodologias voltadas para sistemas de informações quanto para as metodologias voltadas para gestão de valor dos processos. A figura 1 mostra a arquitetura proposta. Observa-se que a arquitetura utiliza-se um de modelos genéricos que podem personalizados para uma organização específica. A arquitetura utiliza-se de um conjunto de técnicas, perspectivas, características e qualidades apresentadas e analisadas na seção anterior. Esses elementos são, então, selecionados através de um conjunto de etapas estruturadas. A seguir, são descritas as etapas e ao mesmo tempo é feita a aplicação da AMPN para seleção das técnicas que serão utilizadas em um determinado projeto. Por último, o modelo de componente. Este é baseado nas ferramentas de simulação mostrando as interações entre os recursos (equipamentos), entidades (matéria-prima) e dados. Esta técnica, juntamente com a RA ou rede de Petri, que identificam as rotas ou lógicas e mais o IDEF0 conseguem modelar as perspectivas de recursos, objetos informacionais e atividades. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ UMA ARQUITETURA DE MODELAGEM DE PROCESSOS DE NEGÓCIOS (AMPN) ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 63 ○ ○ ○ ○ ○ ○ · ○ ○ ○ ETAPA 1 IDENTIFICAR PROCESSO OBJETIVOS OS DE PROJETO DE ○ ○ ○ ○ ○ O objetivo primário da aplicação da AMPN é dar suporte às metodologias voltadas para a gestão de valor dos processos, enquanto o segundo é possibilitar que o modelo de processos possa ser utilizado nas diversas etapas de um projeto de processo como representar, simular e controlar. O modelo de processo deve, assim, ser capaz de recuperar de forma dinâmica as medidas de desempenho como custo, tempo de ciclo e produtividade, por exemplo. Nesta etapa, identifica-se os objetivos de um projeto de processos de negócios. Assim, o modelo de processos de negócios é construído segundo o tipo de projeto, ou seja, se o projeto é voltado para o desenvolvimento de sistemas de informações ou para gestão de valor dos processos. Dessa forma, neste trabalho, a AMPN é aplicada para selecionar os elementos que serão utilizados na metodologia de gestão de valor dos processos. Figura 1 - Arquitetura de Modelagem de Processo de Negócios Perspectivas Q ualidade (Curtis) Técnicas X Características Características Técnicas Dinâmica Estáticas 1 . Processo de Negócio 2. Atividades RAD Ferramenta S imulação 3. Regras OO e UML 4. Recursos Comportamental Informacional Arranjo Físico 2. Comunicação Humana Avaliação 3. S uporte para o GP Avaliação / Comportamental Informacional 4. Orientação / Automatização P rocesso Avaliação / Controle Avaliação / Controle RA Rede de Petri ID E F0 ID E F1 ID E F1 x ID E F2 5. Objetos Informacionais 1 . Facilidade E ntendimento 5. Facilitar E struturação P rocesso Informacional Informacional Informacional Avaliação Avaliação / Comportamental ID E F3 Informacional Arranjo F ísico / Informacional ID E F5 Componentes Avaliação / Controle Controle Workflow E tapas para a S eleção das Técnicas da AMP N 1 . Identificar Objetivos do Projeto 2. S elecionar os E lementos da AMP N 2.1 S elecionar as Perspectivas Necessárias 2.2 S elecionar as Características Necessárias 3. S elecionar as Qualidades Necessárias 4. S elecionar as Técnicas E lementos da AMP N Técnicas Perspectivas, Características e Qualidade ○ ○ 64 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ · ETAPA 2.1 SELECIONAR PERSPECTIVAS AS Essa etapa está preocupada com as diferentes perspectivas que o modelo de processos de negócio deve representar para que os objetivos de projeto sejam alcançados. Para a seleção, foram utilizadas as análises realizadas e resumidas no quadro 3. Para este trabalho, foram, então, selecionadas seis perspectivas que, acredita-se, sejam fundamentais para alcançar os objetivos propostos do projeto. São elas: processos de negócios, atividades, recursos, objetos informacionais, controle e regras. Novas perspectivas, entretanto, podem ser selecionadas caso os objetivos do projeto sejam outros. Essas perspectivas procuram dar uma visão global partindo do negócio da organização até os níveis operacionais. O quadro 4 mostra as perspectivas selecionadas. · ETAPA 2.2 SELECIONAR Nesta etapa, buscam-se as características que deve ter o modelo de processos conforme os objetivos especificados na etapa 1. As características foram divididas em estática e dinâmica. A característica dinâmica foi, ainda, subdividida em avaliação e controle. A característica dinâmica de avaliação recupera as medidas de desempenho através da simulação dos processos, enquanto a característica de controle recupera as medidas de desempenho em tempo de execução dos processos. Quadro 4 - As Perspectivas da AMPN Perspectivas ○ Descrição P rocessos de Negócios E ssa perspectiva tem como objetivo representar de uma forma macro, o modo como as organizações realizam seus negócios. Disponibiliza, então, um conjunto de processos interrelacionados que pode ser adotado estrategicamente, iniciando com uma cadeia de valor genérica. Atividades E ssa perspectiva representa o modo como a organização operacionaliza seus negócios. Recursos E ssa perspectiva descreve os elementos que executam as atividades. S ão, então, definidos como equipamentos e recursos humanos envolvidos na execução da atividade. Objetos Informacionais Nesta perspectiva, as entidades ou objetos que interagem com as atividades são descritos. E sses objetos são identificados como dados e documentos que são processados. Controle É uma perspectiva que mostra as ocorrências de eventos e as rotas das atividades. Regras Nesta perspectiva, são identificadas as ações que devem ser realizadas caso as medidas de desempenho não estejam com resultados satisfatórios. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ CARACTERÍSTICAS AS A perspectiva de recursos, por exemplo, deve ser vista por meio das atividades, como, também, da quantidade necessária para executar uma atividade. A visão através dessa perspectiva é estática. Na característica dinâmica, a perspectiva de recurso é vista em função das suas medidas de desempenho como produtividade, por exemplo. Em relação às técnicas, pode-se observar que o IDEF0, juntamente com a RA e o modelo com componentes de software propiciam essas diversas perspectivas e características. Dessa forma, o modelo de processos deve possuir as características dinâmicas de avaliação e controle. Quanto à característica dinâmica comportamental, não é importante para o projeto de um processo em que o objetivo é a recuperação das medidas de desempenho. Acredita-se, assim, que essa característica está voltada para o desenvolvimento de sistemas de informações. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 65 ○ ○ ○ Nesta etapa, selecionam-se os elementos básicos da AMPN. Primeiramente, as perspectivas, características e qualidades necessárias são selecionadas e, em seguida, as técnicas de suporte desses elementos. Nas próximas seções, serão aplicadas as etapas para seleção dos elementos da AMPN. ○ Na perspectiva de processos de negócios, identifica-se como as organizações podem realizar seus negócios, como a logística de entrada definida em uma cadeia de valor genérica, por exemplo. Na perspectiva de atividades, identifica-se como as organizações operacionalizam seus negócios e quem é responsável por sua execução. A perspectiva de recursos identifica os recursos e a quantidade necessária para operacionalização das atividades das organizações. As informações como dados e documentos são identificadas na perspectiva de objetos informacionais. Já a perspectiva de controle mostra o seqüenciamento das atividades em função da ocorrência dos eventos. Nas perspectivas de regras, são identificadas as ações caso as medidas de desempenho não sejam satisfatórias, como também identifica o modo como as atividades devem ser executadas. ○ · ETAPA 2 SELECIONAR OS ELEMENTOS DA AMPN ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ · ETAPA 2.3 SELECIONAR QUALIDADES AS Então, as técnicas selecionadas devem possibilitar as perspectivas e características selecionadas nas etapas anteriores, como também possibilitar que as perspectivas sejam observadas de uma forma estática e dinâmica. Entre as características estáticas, foram selecionadas as estruturas físicas dos recursos organizacionais, dados e documentos, enquanto nas características dinâmicas identificaram-se as necessidades da avaliação e controle. ○ ○ ○ ○ ○ As qualidades selecionadas para este trabalho foram as propostas por Curtis (1992). Outras qualidades podem ser incorporadas ao modelo. A seleção pelo modelo de Curtis foi devido a sua grande abrangência, como também atender aos objetivos propostos da AMPN. Primeiro, as qualidades 1 e 2, facilidade de entendimento e comunicação humana, devem estar implícitas em qualquer modelo de processos de negócios. É importante que o modelo seja facilmente entendido pelas pessoas que irão executar os processos para verificar se o projeto, realmente, fará o que se está propondo. Observou-se, através da seleção das técnicas, que as mesmas podem propiciar perspectivas iguais, mas com ênfases diferentes. Ou seja, uma perspectiva pode ser mais detalhada em função da técnica utilizada. Uma técnica, também, pode possibilitar mais de uma perspectiva, embora com menos detalhes. No IDEF0, por exemplo, observam-se as perspectivas de atividades, objetos informacionais e de recursos de forma estática, enquanto as ferramentas de simulação identificam as perspectivas de recursos para realizar a avaliação do modelo de forma dinâmica. · ETAPA 3 SELECIONAR AS TÉCNICAS As técnicas são selecionadas em função dos seguintes elementos da AMPN: perspectivas, características e qualidades. Uma vez selecionados esses elementos, pode-se utilizar o quadro 3 para selecionar as melhores técnicas. O quadro 5 apresenta as técnicas selecionadas com as suas perspectivas, características e qualidades, assim como a justificativa de sua seleção para o desenvolvimento de um modelo voltado para gestão do valor dos processos. A AMPN buscou a RA para representar o fluxo de trabalho ou rotas, as perspectivas de processos de negócios e atividades de forma dinâmica. O IDEF0 foi usado para representar os aspectos estáticos do modelo de processos de trabalho. A técnica com componentes de software foi proposta para representar tanto os elementos do IDEF0 de forma quantitativa quanto as rotas da RA. Essa técnica utiliza os mesmos conceitos que são utilizados nas ferramentas de simulação, como recursos e entidades. Quadro 5 - Técnicas, Características e Perspectivas Técnicas C aracterísticas Perspectivas Q ualidade Negócio RA Avaliação Atividade Controle Regras e 2 3 Objetos 2 Recursos 3 Atividades Representação dos P rocessos de trabalho através dos componentes de software ○ ○ 66 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Avaliação Informacionais 3 Recursos 4 Controle ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ E sta técnica vem complementar as outras duas através da execução de controle dos diversos elementos apresentados. Assim, enquanto no IDE F 0 identificam-se quais os recursos necessários, esta técnica quantifica os recursos que são utilizados. Objetos E strutura F ísica ○ E sta técnica foi selecionada por ser de largo alcance das perspectivas estáticas. Assim, ela é bastante útil para fazer a derivação para outras perspectivas, como a perspectiva de controle. 1 Informacionais Informacionais Duas são as técnicas que igualmente possibilitam essas perspectivas e possuem as características desejadas, a RA e a rede de P etri. Como já foi observado, a escolha recaiu sobre a RA devido a esta ter sido proposta como uma particularidade da rede de P etri e assim torná-la mais específica para o presente trabalho. 1 Controle IDE F0 J ustificativas Controle ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Assim, os processos operacionais podem ser projetados (desenhados) através dos conceitos do IDEF0, RA e da representação dos recursos através dos componentes de software. Enquanto o IDEF0 identifica os recursos como entradas, saídas, mecanismos, controles e recursos, a RA identifica as interdependências entre os processos. Já as entidades e recursos são representados, mais detalhadamente pelos componentes de software para realizar o controle dos processos de trabalhos. Conclui-se, portanto, que a arquitetura de modelagem de processos de negócios propicia uma forma autônoma de agir através das técnicas de modelagem. Um elemento do modelo de processos é identificado como um componente ou holon. Este componente deve interagir com os recursos organizacionais recuperando de uma forma dinâmica os desempenhos organizacionais. A AMPN utiliza-se de três técnicas RA, IDEF0 e a representação com componentes de software. Essas técnicas, além de propiciar diferentes perspectivas, possibilitam as características estática e dinâmica do modelo de processos. O IDEF0 e a RA representam as características estáticas e dinâmicas respectivamente. O modelo de representação dos recursos operacionais pelos componentes de software apóiam a dinâmica REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS TORRES, J. B. et al. Uma ferramenta de gerenciamento dinâmico de processos para tecnologias avançadas de produção. XV COBEM, 1999. BAL, Jay. Process analisys tools for process improvement. The TQM Magazine, v. 10, n. 5, p. 342-354, 1998. BORJE, V.; HARDING, J. A; TOH, K. T. K. Product reengeneering process using an entreprise modelling archictetures. 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Isso mostra a importância de uma estrutura organizacional em processo. ○ pela recuperação das medidas de desempenho através de sua autonomia. Essa representação é um misto de diagrama dinâmico da metodologia OO e o modelo das ferramentas de simulação. ○ CONSIDERAÇÕES FINAIS ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ A INSERÇÃO E MANUTENÇÃO DAS PESSOAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA NO MERCADO DE TRABALHO ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Rosanne Mª Medina Ávila Gomes - Especialista em Administração de Recursos Humanos - Consultoria Organizacional. Sandra Maria dos Santos Dra. - Universidade Federal do Ceará RESUMO A inserção e manutenção das pessoas portadoras de deficiência no mercado de trabalho vêm se transformando num grande dilema para as instituições, principalmente no momento atual em que as mudanças organizacionais estão se processando a um ritmo muito intenso e dentro de um contexto crescente de globalização dos mercados. A polivalência, a capacitação, a agilidade são essenciais para este novo perfil produtivo. Daí, manter-se dentro desses padrões torna-se imprescindível para disputar uma vaga no mercado de trabalho. Sendo assim, portar uma deficiência significa ter um requisito a menos para os empregadores, os quais consideram estes segmentos sociais, muitas vezes, como incapazes de garantir a produtividades dos seus setores. O objetivo deste trabalho é analisar as principais dificuldades encontradas na admissão e manutenção dos portadores de deficiência inseridos no âmbito do trabalho. O estudo utilizou-se de técnicas de documentação indireta (pesquisa bibliográfica e documental). Compreende um estudo de caso de uma empresa têxtil do Ceará. Os resultados observados mostram que os principais entraves desta problemática foram: o preconceito por parte das relações sociais, trabalhistas e culturais; os obstáculos arquitetônicos; a baixa qualificação dos que portam deficiências; a falta de profissionalização e de flexibilização da legislação brasileira. Os portadores de deficiência, basicamente, ficam relegados dos meios sociais e produtivos, tornando-se um exército de excluídos. PALAVRAS-CHAVE: mercado de trabalho; portadores de deficiência; Ceará. ABSTRACT The insertion and maintenance of disabled (handicapped) people in the work market has become a great dilemma for the institutions, mainly at the present moment, when organizational changes are being processed at a very intensive rate and within a context of increasing market globalization. The polyvalence, the qualification, the agility are essential for this new productive profile. Thus, remaining within these standards becomes indispensable to dispute a vacancy in the work market. This way, carrying a disability means having one less requirement for the employers, that many times, consider these social segments as incapable of warranting the productivity of their sectors. The objective of this paper is to analyze the main difficulties found in the admission and maintenance of people with disabilities in the scope of the work. The observed results show that the main impediments of this problem were: the prejudice on the part of the social, working and cultural relations; the architectural obstacles; the low qualification of the disability carriers; the lack of professionalization and flexibility of the brazilian legislation. The handicapped are, basically, relegated by the social and productive means, becoming an army of excluded. KEY WORDS: work market; disabled (handicapped) people; Ceará. ○ ○ 68 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ 1 Investigar a problemática do portador de deficiência não é tarefa fácil. Isso se justifica pelo fato de qualquer noção ou definição de deficiência implicar uma imagem que a sociedade faz sobre esses indivíduos. Toda vez que forem usadas palavras como: excepcional, louco, aleijado, deficiente mental, etc, são construídas algumas concepções daquilo que todas essas palavras querem dizer. Isso significa que todos esses rótulos compõem a personalidade do indivíduo, partindo-se da premissa de que ele é diferente das pessoas consideradas normais. 1.1 C ONTEXTO H ISTÓRICO N O T R ATA M E N TO QUESTÃO DA DEFICIÊNCIA Ao longo da história da humanidade, a deficiência teve um percurso marcado por sérias conseqüências em relação a seus portadores. A forma pela qual tais segmentos sociais eram considerados, tratados ou compreendidos sempre variou muito nas diversas sociedades, visto que estas não se constituem em organismos estanques e imutáveis, sendo composta por seres humanos, que estabelecem as relações sociais, as quais são envolvidas por valores, normas e costumes que estão em constante devir, de acordo com o contexto histórico-social que os envolvem. a sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias. Assim, verifica-se que desde o início dos tempos os portadores de deficiência foram alijados do convívio social e impedidos de participar e desenvolver suas capacidades como seres humanos e cidadãos, em virtude de apresentarem uma inteligência ou habilidade inferior àquela considerada normal para os padrões da época. O Brasil é um dos países que apresenta um alto índice de pessoas portadoras de algum tipo de deficiência. Estima-se, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, que, neste país, 16 milhões de pessoas são portadoras de deficiência, sendo registradas como mais freqüentes as físicas e as mentais. Paralelamente a este fato, encontra-se neste país uma das menores taxas de participação deste segmento social no mercado de trabalho, visto que 9 milhões estão em idade de trabalhar, entretanto os que trabalham no mercado formal somam cerca de 2%, enquanto nos países mais avançados esta proporção fica entre 30% e 45% (PASTORE, 2000:76). É possível perceber tal fato desde o período da pré-história, quando o homem se associou a outros homens para poder sobreviver diante de uma natureza hostil. Nesta fase, cada membro do grupo era importante para a própria sobrevivência da coletividade. Porém, aqueles que não eram considerados úteis (conforme os valores do momento) foram colocados à margem por não terem a capacidade de se defender. A questão da deficiência não se limita ao desenvolvimento físico, auditivo e mental, nem exclusivamente no comportamento humano, mas, sobretudo, nas implicações sociais que revestem o portador de deficiência, emerge a necessidade de ser apresentado o enfoque social e trabalhista da problemática. A antiguidade foi a época em que os portadores de deficiência, foram considerados como seres malditos, depositários do mal, fonte de repulsa, de medo, seres divinizados ou com uma conotação de dádiva ou castigo divino. Isto se deve ao fato de tal sociedade ser marcada fortemente pelo misticismo, passando a atribuir a entidades ocultas, o que para ela era inexplicável. Desta forma, propõe-se, portanto, compreender e analisar a realidade da inserção e manutenção do portador de deficiência no atual mercado de trabalho. Para a realização desse estudo, partiu-se de uma compreensão teórica dentro da perspectiva social e trabalhista sobre a questão da deficiência, e da análise dos dados coletados nos relatos das pessoas portadoras de deficiência sobre a sua inserção e as maiores dificuldades enfrentadas para conseguirem se manter no mercado de trabalho. Nas sociedades escravagistas, mais especificamente em Esparta, cidade militarista da Grécia Antiga, no século XI (a.c), os portadores de deficiência eram propriedades do Estado. Quando uma criança nascia, era levada a um lugar pelos anciãos da tribo que a examinavam. Se ela fosse robusta e forte, poderia sobreviver. Se por acaso fosse defeituosa, julgavam que a morte era melhor tanto para a criança como para a cidade. Assim, após o exame, resolviam jogá-la do alto do monte Taygetos (CARNEIRO, 1995: 12). Longe de tentar esgotar a temática, esse estudo busca contribuir para o debate acerca da problemática dos portadores de deficiência inseridos nas empresas, oferecendo subsídios para novos trabalhos nessa área. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ A problemática da deficiência não é específica das sociedades modernas, uma vez que emerge nas relações milenares dos homens com os homens. São estas que geram direta ou indiretamente as pessoas portadoras de deficiência. A sociedade favorece tais concepções, pois estabelece padrões de normalidade que devem ser obedecidos por todos. Aqueles que fogem das suas normas são colocados à parte e excluídos do meio social. Segundo Goffmam (1988:62), ○ DA ○ ○ A DEFICIÊNCIA COMO FENÔMENO SOCIAL ○ INTRODUÇÃO ○ ○ ○ ○ ○ 69 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ No decorrer da Idade Média, estava presente a ideologia da Igreja Católica, que considerava o homem um ser feito à imagem e semelhança de Deus. Tal concepção demonstrava que os indivíduos deveriam ter as mesmas características divinas da capacitação e da perfeição. Por este motivo, aqueles concebidos como incapacitados ou fora dos padrões da normalidade, eram colocados à margem do âmbito da realidade, sendo misturados aos loucos ou reunidos aos criminosos e possuídos pelo demônio (REGEN; ARDORE, 1993: 22). No século XIX, surgem aqueles que reconhecem a necessidade do portador de deficiência não ser vista sob a lente do médico, tão exclusivamente, introduzindo em seu tratamento a preocupação e a atenção pedagógica e psicomotora. Neste momento, estes indivíduos passam a ser considerados como pessoas com alguma intercorrência (orgânica ou acidental), daí tornarem-se limitados. Com a ampliação da sociedade capitalista do século XX, surge um mecanismo ideológico que propõe o afastamento do meio social dos deficientes e o tratamento em instituições especializadas, como: escolas, hospitais psiquiátricos, clínicas e centros de reabilitação, visando a reintegração do portador de deficiência na sociedade e na família, objetivando principalmente desenvolver suas capacidades para que um dia possam participar do sistema produtivo. Neste mesmo período, nos países cristãos, onde estavam presentes os tribunais de inquisição, estes tribunais foram criados no século XII pelo Papa Gregório IX com o objetivo de julgar e descobrir os praticantes de heresias, isto é, das doutrinas contrárias aos dogmas oficiais da igreja (COTRIM, 1989:100), vários portadores de deficiência perderam a vida por não terem condições de se defender quando acusados de heresias. Tais segmentos sociais também foram muito negligenciados, no final da Idade Média, durante a Reforma Protestante sendo considerados por Lutero e Calvino como indivíduos possuídos por Satanás (REGEN; ARDORE, 1993: 123). O processo capitalista de produção expressa uma maneira historicamente determinada dos homens produzirem e reproduzirem as condições materiais de sua existência e relações sociais através das quais levam a efeito a produção. Com todas as suas implicações, esta estrutura sócio-econômica supervaloriza a produção, o produto, o lucro, em detrimento do trabalhador, do ser humano, enquanto indivíduo e cidadão. Neste processo, a pessoa portadora de deficiência passa a ser, então, alguém definitivamente improdutivo e excluído das relações normais de vida. Entretanto, com o Renascimento, movimento ocorrido nos séculos XV e XVI de renovação literária, artística e científica, baseado em grande parte na imitação da Antiguidade greco-romana, (COTRIM, 1989) e presente entre o final da Idade Média e o início da Idade Moderna, surgem modificações mais sutis que se afirmaram com perspectivas humanitárias prolongadas até o século XVIII. Nessa perspectiva, a dimensão humana passa a ser atribuída aos deficientes, criando-se um terreno propício às tentativas de educação e à abordagem científica, que tomam o impulso no século XIX (REGEN; ARDORE, 1993: 122). 1.2 DEFICIÊNCIA: TERMOS Vários são os conceitos e termos sobre a deficiência encontrados nas obras e nos textos relativos ao tema. Para Holanda (1986:141), o termo deficiente vem assim enunciado: Deficiente - falto, falho, carente, incompleto e imperfeito. De acordo com o Dicionário Michaelis (2000: 483) deficiente significa: falho; incompleto; que tem deficiência. Assim, a partir de meados do século XVI, verifica-se que com o advento do Renascimento, no setor científico, surge um novo perfil do homem das ciências, mais racional, opondo-se ao obediente religioso que tudo acreditava em nome da fé. Ultrapassando estas noções dos dicionários, se encontrou a uma variedade de conceitos. Doll citado por Telford (1974:152), indica alguns critérios essenciais para a definição da deficiência, dentre estes: incompetência social, subnormalidade mental, origem constitucional e algo incurável. Para a Liga Internacional de Associação Pró-Pessoas com Deficiência Mental (LSMH), as pessoas são consideradas como portadoras de deficiência mental quando o seu funcionamento intelectual é significativamente abaixo da média, proporcionando limitações no que consiste ao ajustamento social. Com a expansão do capitalismo, no século XVIII, surgem algumas instituições, métodos e recursos especiais para a educação dos portadores de deficiência. Emerge um maior interesse por parte dos pesquisadores A medicina passa a fazer parte deste contexto, contribuindo para a institucionalização da ordem social, pois, com sua expansão, os portadores de deficiência começam a ser tratados como doentes, demandando cuidados médicos associados a um tratamento específico de acordo com a deficiência. Por outro lado, a sociedade os considera como vítimas da desgraça e dignos de piedade. ○ ○ 70 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ CONCEITOS SOCIAIS E Percebe-se que as definições elaboradas pelos diversos autores, dicionários e associações citadas, deixam evidente uma noção de deficiência como falta, incompetência, imperfeição e limitação. Todas estas conceituações centralizam o foco nas pessoas portadoras de deficiência, tornando-as por completo atípicas e anormais. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Essas classificações também não deixam de ser preconceituosas, pois consideram os deficientes como seres incompletos, nos quais o organismo humano não desempenha satisfatoriamente suas funções, sem nenhuma perspectiva de desenvolvimento no futuro. Todavia, apesar das variedades de conceituações, um ponto que parece ser comum entre estas, se relaciona ao fato de os deficientes estarem afastados dos padrões de normalidade por serem considerados diferentes. Desta forma, torna-se importante ressaltar que a conceituação da problemática da deficiência não está apenas no desenvolvimento físico, mental, intelectual, comportamental ou de adaptação do indivíduo, mas, sobretudo, nas implicações sociais que revestem o portador de deficiência. Ao longo do tempo, algumas tentativas surgiram para solucionar esses conflitos com relação às definições utilizadas e, conseqüentemente, aproximar os portadores de deficiência da sociedade. A primeira destas foi a da Organização das Nações Unidas (1975) ao homologar a Declaração dos direitos das pessoas deficientes, que propunha abolir os conceitos mais preconceituosos. Na sua concepção, a pessoa deficiente refere-se a qualquer pessoa incapaz de assegurar por si mesma, total ou parcialmente, as necessidades de uma vida individual ou social normal, em decorrência de uma deficiência congênita ou não, em suas capacidades físicas ou mentais (FILGUEIRA, 1995:35). Tais implicações foram construídas ao longo da história, sendo repassadas através de gerações, que encaram a deficiência como sinônimo de inutilidade social e a pessoa deficiente como ser dependente. Em momento algum foram presenciados, nas diversas definições existentes no trabalho, estes segmentos sociais como sujeitos capazes, que, independente de qualquer situação, têm o direito a um espaço em nossa sociedade. Os conceitos aqui utilizados limitaram-se às áreas específicas de cada autor, sem se deter ao termo deficiente como sendo proveniente de um contexto histórico e ideológico. Apesar do enunciado ter tentado amenizar os termos e expressões usadas de forma discriminada socialmente, a Organização das Nações Unidas não deixa de reafirmar o velho conceito de incapacidade voltado para o deficiente. A Organização Mundial de Saúde, em um documento elaborado neste mesmo período, define deficiência como: Nestas concepções se verifica que o indivíduo, com um desenvolvimento atípico, passa a ser deficiente pelo comprometimento que porta, e não porque é dificultado em seu desenvolvimento pelos preconceitos e rejeições que o acompanham no decorrer da história. Dificuldade existente para desempenhar uma ou mais atividades que, de acordo com a idade, o sexo e o papel social da pessoa, são geralmente aceitas como componentes básicos essenciais da vida diária, tais como: o autocuidado; as relações sociais e as atividades econômicas (FILGUEIRA, 1995:36). Esta discussão enraíza a questão da estigmatização, citada no próximo item do trabalho, onde será mostrado que em qualquer grupo de pessoas que compartilham de um conjunto de valores, com base no qual desenvolvem normas sociais, construídas historicamente, aqueles que não aderem a essas normas são divergentes e tornam-se socialmente estigmatizados e excluídos. Para Organização Internacional do Trabalho (OIT): A pessoa portadora de deficiência foi definida como aquela cuja possibilidade de conseguir, permanecer e progredir no emprego é substancialmente limitada em decorrência de uma reconhecida desvantagem física ou mental (PASTORE, 2000:39). No Brasil, a partir da Constituição de 1988, o termo adotado para se referir a estes segmentos sociais foi pessoa portadora de deficiência. Tal termo diminui o estigma da deficiência, ressaltando e valorizando o conceito de pessoa e, conseqüentemente, reduz a situação de desvantagem que caracteriza esse grupo de indivíduos. Essa nova terminologia tem o objetivo ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 71 ○ ○ ○ ○ ○ de demonstrar o portador de deficiência apenas como uma pessoa portadora de algumas limitações, não os impedindo de conviver em sociedade e tornarem-se úteis, ou seja, sem restringi-los por completo. Muitos termos em pleno final do século XX são utilizados de forma desatualizada, com relação aos portadores de deficiência, visto que as marcas corporais ou intelectuais desses indivíduos ainda impõem uma imagem superficial, não permitindo que a sociedade enxergue o ser humano além da deficiência.Em outras palavras, presencia-se a existência de algumas tendências que utilizam o termo deficiência para se referir às pessoas portadoras de falhas sensoriais, motoras ou mentais. Estas tentam demonstrar que tais indivíduos são inúteis e incapacitados por completo. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Portanto, ao terem sido apresentadas algumas das definições acerca da deficiência, a pretensão do trabalho foi de demonstrar como, ao longo dos anos, foram se colocando as diversas formas de compreendê-la, classificá-la e qualificá-la, numa tentativa de comprovar que as várias maneiras que se buscam para apresentar que tais explicações estão intimamente ligadas ao modo individual, específico e coletivo de perceber e inserir-se no mundo. Ou seja, essas definições recebem um tratamento histórico, contextualizado, condizente com a ordem social que impera num certo momento em um determinado espaço. entre outros, pois de acordo com este autor, as palavras são expressões verbais criadas a partir de uma imagem que nossa mente constrói. Constata-se, dessa forma, que os conceitos e valores culturais ainda são semelhantes aos utilizados em décadas passadas. Muitas generalizações feitas de forma discriminatórias se mantêm presentes. Tal fato é explicado, em parte, devido à falta de informações corretas quanto à questão da deficiência e de uma educação que incentive as pessoas a pensarem e terem suas próprias concepções. Desta forma, continua-se mantendo nos dias atuais estereótipos, que são concretizações, julgamentos qualitativos que têm como base o preconceito. Em outras palavras, conclui-se esse momento afirmando que Ao falar em preconceito, uma outra categoria paira sobre as demais consciências. Esta categoria é o Estigma, entendido como uma marca ou impressão de conotação degradativa e desprezível. Baseados em Goffmam serão utilizados tal termo quando surgirem referências a um atributo profundamente depreciativo. todas as classificações que estigmatizam ou não as pessoas portadoras de deficiência são arbitrárias e só são úteis com referência às épocas e finalidades que servem (TELFORD; SAWREY, 1974:14). De acordo com Goffmam (1988:14) existem três tipos de estigmas nitidamente identificáveis: 1.3 ESTIGMA SOCIAL X DEFICIÊNCIA No decorrer deste trabalho, é percebido que ao longo da história foram diversas as discriminações e os preconceitos voltados para as pessoas portadoras de deficiência, pois não atendiam os padrões estabelecidos como ideais para o momento. Em primeiro lugar, há as abominações do corpo e da mente, isto é, as várias deformidades físicas e mentais. Em segundo, as culpas de caráter individual, percebidas como vontade fraca, paixões tirânicas ou não naturais, crenças falsas e rígidas, desonestidade, sendo essas inferidas a partir de relatos conhecidos de, por exemplo: Alcoolismo, homossexualismo, vício, prisão, desemprego e comportamento político radical. Finalmente, há os estigmas tribais de raça, nação e religião, que podem ser transmitidos através de linhagem e contaminar por igual todos os membros de uma família. Como qualquer civilização mundial, a cultura brasileira é uma herança de valores compartilhada por um grupo humano, relativamente ligado, apesar das mais diferentes manifestações culturais dentro do mesmo país. De acordo com o que foi colocado por Teles e citado por Ribas (1995:38), a cultura não somente nos envolve, mas nos penetra modelando a nossa identidade, personalidade, maneira de agir, pensar e sentir. As normas, os princípios, os padrões e os conceitos dentro do indivíduo são valores culturais criados no decorrer da história e aceitos por grande parte da sociedade. Em outras palavras: Vale ressaltar que, entre esses diversos tipos que foram citados, encontram-se as mesmas características sociológicas, isto é, relaciona-se a um indivíduo que possui traços que se destacam com diferenças em relação às pessoas normais. É importante salientar o que está sendo considerado como indivíduo normal, isto é, julga-se normal àquelas pessoas cujas características aparentes não choquem os sentidos e os sentimentos emocionais, morais e estéticos, ou seja, pessoas sem nenhum distúrbio visível. A noção de ser humano normal pode ter sua origem na abordagem médica da humanidade. Assim é que em qualquer sociedade existem valores culturais que se consubstanciam no modo como a sociedade está organizada. São valores que se refletem no pensamento e nas imagens dos homens e norteiam as suas ações. São valores que terminam por se refletir nas palavras com que os homens se expressam. Assim sendo, em todas as sociedades a palavra deficiente adquire um valor cultural segundo padrões, regras e normas estabelecidas no bojo de suas relações sociais (RIBAS,1985:12). De acordo com o referido autor (1995:7), as pessoas deficientes são sempre representadas por termos preconceituosos, estigmatizados, usados pela população, tais como: excepcional, retardado, louco, aleijado, inválido, inútil, improdutivo, ○ ○ 72 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Desta forma, pela lógica dos valores sociais dominantes, uma pessoa estigmatizada deve tentar parecer o mais normal possível, para evitar situações constrangedoras e estabelecer um melhor relacionamento com seus familiares, meios produtivos e com aqueles que estão ao seu redor. No que se refere aos portadores de deficiência, esta busca da normalidade surge, de acordo com vários paises e com a própria sociedade, a partir do momento em que este indivíduo inicia os tratamentos especiais, os quais são vistos como meios capazes de desenvolver as capacidades físicas e mentais destes deficientes, possibilitando um melhor relacionamento com seu meio social. Neste pressuposto, constata-se que a probabilidade de uma pessoa ser apontada como deficiente é afetada pela cultura em que ela vive. Tomando como exemplo uma sociedade ou área altamente industrializada, com acirrada competição e um desenvolvimento acelerado, a incapacidade de interação é mais suscetível de tornar-se óbvia que em meios menos exigentes. Porém, vale ressaltar que, por mais que o indivíduo já tenha passado por todas as fases do seu tratamento, perante a sociedade ele dificilmente obterá um status de pessoa totalmente normal, pois sua mudança ocorrerá apenas no sentido de sair da condição de alguém que era portador de uma deficiência, para a de alguém com o histórico de correção de um problema. Em outras palavras, é possível justificar essa problemática dos portadores de deficiência inseridos no meio urbano, baseados no atual modelo de produção existente em uma sociedade industrializada, no qual é exigido um novo tipo de trabalhador, mais qualificado, especializado, polivalente e que tenha principalmente um bom desempenho intelectual e físico para que possa assumir qualquer fase do processo produtivo, compreendendo, assim, todas suas inovações tecnológicas (TEIXEIRA, 1994:17). Assim, evidencia-se que para a sociedade a palavra deficiente tem um significado muito forte, pois se opõe a eficiente. Ser eficiente, por mais que já tenha sido reabilitado e qualificado, não significa ser totalmente capaz, eficaz. Verifica-se, portanto, que as pessoas ainda não deixaram de formar visões distorcidas e estigmatizadas quanto a estes segmentos sociais, e continuam sem se preocupar com a verdadeira identidade que eles possuem. Dessa forma, conforme afirma Goffmam (1988:25), Nesse âmbito, onde a robotização e a automação se fazem fortemente presentes, verifica-se que o portador de deficiência é relegado por não ser visto como perfeito, ou seja, por não atender os valores exigidos pelo novo modo de produção capitalista.É exatamente isto que é denominado de estigma, esta marca imposta pela sociedade às pessoas que não se enquadram às suas normas e regras estabelecidas. de um modo geral, a sociedade ainda constrói uma identidade deteriorada em nome do preconceito, levando, assim, a negação dos portadores de deficiência de exercerem os seus direitos e sua práxis de cidadãos. Na realidade, é importante perceber que o estigma não está na pessoa ou, neste caso, na deficiência que ela possa apresentar. Em sentido inverso, são os valores culturais estabelecidos que permitem identificar quais pessoas são estigmatizadas. Uma pessoa traz em si o estigma social da deficiência. Contudo, é estigmatizada porque se estabeleceu que ela possui uma marca que a distingue pejorativamente das outras pessoas. São estas diferenças sociais valorativas e não necessariamente as biológicas, portanto, que determinam as pessoas deficientes como pessoas submissas. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 73 ○ ○ ○ ○ ○ São estas diferenças sociais que fabricam mecanismos de exclusão, fazendo com que os considerados diferentes construam um mundo próprio, mórbido, na medida em que não se encaixam e não se reconhecem neste mundo que também é deles (RIBAS. 1985:24). Baseados em uma visão funcionalista verificase que para funcionar bem uma sociedade precisa estar organizada com todos os seus membros em perfeito equilíbrio e harmonia. Nesta, não podem existir membros desequilibrados ou não eficientes, pois caso existam serão considerados fora do normal. Tal visão ainda pode ser encontrada nos dias atuais, ou melhor, na sociedade capitalista (que prima pelo progresso e pela ordem), visto que no conjunto de seus valores culturais estão incluídos padrões de beleza, estética e realizações intelectuais, que definem um corpo esculturalmente bem formado e uma inteligência bem desenvolvida. Com certeza, todos aqueles que não estão enquadrados de acordo com estes padrões são tidos como agressores da normalidade, sendo colocados à margem desta sociedade. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 2 ○ ○ ○ A I NSERÇÃO E M ANUTENÇÃO DAS P ESSOAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA NO MERCADO DE TRABALHO para o portador de deficiência, alvo de tantos preconceitos. Desta forma observa-se este segmento social em subempregos. A vasta maioria é constituída de pedintes de rua, camelôs que trabalham irregularmente, vendedores de bilhetes de loteria, distribuidores de adesivos nos semáforos, entre outras funções (RIBAS, 1995:52). ○ ○ ○ ○ ○ 2.1 A QUESTÃO DA DEFICIÊNCIA FRENTE AO MERCADO DE TRABALHO Para que possa ser feita uma análise da questão dos portadores de deficiência no campo trabalhista, fazse importante desvendar o significado do termo Mercado de Trabalho. Assim, este passará a ser considerado como: o conjunto de operações pelas quais se oferece emprego, se compra ou se vende mão-de-obra, em épocas e locais determinados, para fins de produção (TEIXEIRA, 1994:32). No Brasil o espaço de trabalho legal é muito limitado, o que poderia ser diferente, visto que 7 milhões de portadores de deficiência possuem limitações que, com acomodações razoáveis do ambiente de trabalho, da arquitetura e do transporte, teriam condições de trabalhar de forma produtiva. Apenas 2 milhões apresentam limitações muito mais severas e mais difíceis de solucionar através de acomodações de baixo custo (PASTORE, 2000:75). Respaldado nesta relação mercantil, verifica-se que o mercado de trabalho brasileiro possui características específicas de um país capitalista, entretanto em virtude dos traços culturais, da política, da realidade social e econômica do país, este passa a assumir uma identidade exclusiva. Neste sistema de produção, o lucro é o objetivo maior das organizações e este é garantido pelos trabalhadores considerados aptos. Nessa conjuntura, tendo mão-de-obra não deficiente à vontade no mercado de trabalho, os empregadores não irão optar evidentemente por uma classe que eles acreditam ser inabilitada. Nas suas concepções esta é uma demanda onerosa que não garante produtividade em curto prazo. O Sistema Capitalista de produção expressa uma maneira historicamente determinada de os homens produzirem e reproduzirem as condições materiais de sua existência e as relações sociais através dos quais levam a efeito a produção. Neste sistema há uma supervalorização do produto, da produção, do lucro em detrimento do trabalhador, do ser humano. O homem é considerado apenas como mão-de-obra e valorizado conforme a sua capacidade de produzir. A sociedade na qual ele está inserido, é muito competitiva e discriminatória. Através das observações feitas quanto a esta questão da deficiência, desde seu histórico até os dias atuais, detecta-se que, vários são os fatores que favorecem a não inserção dos portadores de deficiência no mercado de trabalho. Dentre estes fatores destacam-se desde o preconceito e a má informação, até a falta de educação e ausência de qualificação no que diz respeito a essa demanda, bem como a inexistência de estímulos para as empresas quanto à admissão deste segmento da sociedade. A pessoa portadora de deficiência, embora esteja apta e possua uma grande potencialidade para assumir o sistema produtivo, sente a resistência das organizações para contratá-las. 2.2 F ATORES QU E D IFICULTA M A I NSERÇÃO E MANUTENÇÃO DOS PORTADORES DE DEFICIÊNCIA NO MERCADO DE TRABALHO Muitas pessoas, hoje, ainda evitam o contato social, o relacionamento profissional no que diz respeito aos portadores de deficiência, devido à ignorância, ao preconceito e à falta de informação, deixando por sua vez seres humanos produtivos sem oportunidade de competir no mercado de trabalho. Conforme o que foi apresentado no decorrer deste trabalho, fica patente que mesmo após vários séculos, as atitudes preconceituosas permanecem presentes, mantendo-se relativamente estáveis. As sociedades avançaram em muitos aspectos, mas muito pouco na superação dos preconceitos, os quais foram apenas variando na sua manifestação. Assim como o trabalho, a beleza e a forma física são também supervalorizados nos dias atuais. Muitos grupos sociais usam estes atributos como indicadores de sucesso. Assim, as deformidades, as limitações e as deficiências são vistas como entraves da eficiência e do êxito. As percepções distorcidas, preconceituosas, estigmatizam muitos seres humanos para vida social e para o trabalho. A deficiência, sendo vista por este ângulo, tem suas raízes ligadas muito mais ao meio social e ao tratamento que as pessoas e organizações oferecem aos portadores de deficiência do que as suas próprias limitações. O número de portadores de deficiência no Brasil é expressivo, chega em torno de 16 milhões de pessoas, sendo que o Nordeste concentra a maior parte destes com um percentual de 40%; o Norte possui 14%; o Sudeste, 12%; o Sul, 18%; e o Centro-Oeste, 16%. Destas 16 milhões de pessoas portadoras de deficiência estimase que 9 milhões estejam em idade de trabalhar, entretanto as que trabalham formal e informalmente chegam aproximadamente a um milhão (PASTORE, 2000:72). Na atual conjuntura presencia-se uma grande crise sócio-econômica, o desemprego, um mercado de trabalho excludente versus uma grande oferta de mãode-obra. A conquista de um emprego para uma pessoa considerada normal é difícil, logo é possível imaginar ○ ○ 74 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Essa educação básica lhes possibilitaria, num segundo momento, sua capacitação por intermédio da oferta de cursos profissionalizantes. Dessa forma, poderiam ser inseridas no contexto, sendo parte integrante e contribuindo para o desenvolvimento social e econômico do país, através das suas forças de trabalho. Ao abordar esta questão da educação, percebese que ela reflete diretamente nas grandes organizações, onde há outro fator impeditivo quanto à inserção dos portadores de deficiência no mundo produtivo, ou seja, as pesquisas mostram que os empregadores, de um modo geral, tendem a resistir ao ingresso e à manutenção dos portadores de deficiência nas suas empresas, visto que estes alegam haver a falta de candidatos qualificados, bem como as pequenas e médias empresas apresentam grandes dificuldades em ter que assumir despesas arquitetônicas e de equipamentos para poderem efetivar a contratação das pessoas portadoras de deficiência. As mesmas alegam não terem condições financeiras para tanto e se queixam por não possuírem nenhum tipo de apoio e estímulo por parte das políticas governamentais (PASTORE, 2000:106). Dentre os fatores que geram obstáculos na inserção dos portadores de deficiência no mercado de trabalho, a educação é um forte indicador desta fatalidade, visto que estes sofrem sérias restrições em termos educacionais. A proporção dos que possuem uma educação adequada é restrita, pois se sabe que este campo voltado para aqueles que tem limitações é bastante limitado. A falta de formação e preparação dos docentes nesta área é de fato um grande entrave. São poucos os alunos portadores de deficiência que freqüentam as escolas de ensino regular, visto que nem sempre estas se encontram em condições de atender esta clientela. Quanto às escolas de ensino especial, essas são muito reduzidas e muitas vezes distantes das periferias, onde muitos permanecem (PASTORE, 2000:77). A realidade pela qual as organizações de pequeno, médio e grande porte vêm passando, atualmente, destacam de fato o lado financeiro, o qual também sofrerá forte impacto no que diz respeito às despesas voltadas para os custos administrativos, visto que todo o ambiente de trabalho deverá estar preparado para receber os portadores de deficiência, incluindo-se aqui toda a reorganização do meio social, ou seja, o treinamento das chefias e dos colegas de trabalho para recebê-los. Muitas chefias, por sua vez, apresentam resistências aos cursos e treinamentos oferecidos para que possam se relacionar com os deficientes nos seus setores. Alguns se opõem, visto que consideram tais pessoas sem habilidade para o processo produtivo, logo não aceitam a possibilidade de ocorrer uma queda na produtividade do seu setor. No que diz respeito à qualificação/ profissionalização destes segmentos sociais, o quadro também é bastante preocupante devido à escassez de órgãos especializados. Os poucos que existem atualmente necessitam de uma melhor divulgação. Os colegas de trabalho, por sua vez, também temem que o apoio à entrada dos portadores de deficiência nas organizações em que trabalham possa significar, no médio prazo, o risco de sua dispensa. Esta apreensão em perder seus empregos ainda tornase maior quando há exigência de ser cumprido o sistema de cotas. Em certos casos, surge o sentimento de discriminação negativa, pois é questionado o fato de ter estas vagas garantidas apenas para deficientes e não haver nada nesse sentido para os demais. A dificuldade em torno da obtenção de um curso superior também não poderá deixar de ser mencionada, pois as pessoas portadoras de deficiência, além de terem que enfrentar vários obstáculos arquitetônicos para chegar e entrar nas universidades, estes irão se deparar com um sistema de ensino que possui professores despreparados para lidar com este tipo de clientela juntamente com alunos considerados normais. O material didático em Braille e a preparação do corpo docente através dos cursos de Linguagem Brasileira de Sinais (LIBRAS), que facilitaria a comunicação com estes deficientes é bastante dispendioso, logo são raros. É, sobretudo, importante e necessário que se criem meios para qualificar estes segmentos sociais, levando-se em conta as especificidades de suas limitações, ou seja, é imprescindível dar a essas pessoas ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 75 ○ ○ ○ ○ oportunidade para freqüentarem a escola regular e, assim, terem um mínimo de instrução que lhes permitam fazer uma leitura crítica do mundo que as cerca. ○ O preconceito, enfim, é transformado numa construção social, a qual passa a ser considerada como uma grande barreira para a vida profissional, afetiva e social das pessoas que portam algum tipo de limitação. A globalização da economia e a alta concorrência fizeram e ainda fazem com que os empresários modernos busquem de forma obsessiva a produtividade. O ambiente tecnológico demanda mais qualificação, as tarefas se modificam com grande rapidez e exigem dos trabalhadores condições de aprendizagem e reciclagem. Verifica-se que cada vez mais as organizações estão sendo obrigadas a adotar novas tecnologias e novas formas de trabalhar para poder competir neste mercado globalizado. Desta forma é muito importante para elas contar com trabalhadores que resolvam da forma mais efêmera seus problemas. Tal fato exige muito mais dos seus funcionários. A educação e a qualificação nunca em toda a história da humanidade foram tão significantes para que as pessoas conseguissem um emprego e principalmente permanecessem empregados. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Vale ressaltar que nos países de primeiro mundo, as políticas públicas oferecem incentivos para as empresas admitirem e manterem os portadores de deficiência. Dentre os incentivos destacam-se: I isenção de contribuições, onde os empregadores podem receber a isenção total ou parcial de encargos sociais quando empregam portadores de deficiência; II complemento dos salários, que é feito através de um repasse às empresas de uma parcela do salário a fim de compensar as despesas de acomodação ou diferencial de produtividade do portador de deficiência em relação ao não portador e se esta empresa superar a cota exigida para a contratação; ou III ajuda para adaptação que servirá para cobrir parte dos custos referentes aos investimentos e adaptações feitas para admissão e manutenção desta clientela no âmbito do trabalho (PASTORE, 2000:150). 2.2.1 O S ISTEMA TRABALHO ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ M ERCADO DE É exigida por este sistema de cotas uma definição de portador de deficiência para saber quem entra e quem não entra na categoria dos empregáveis. Além disso, o sistema solicita a demonstração da qualificação e a capacidade produtiva do portador de deficiência. Quanto à avaliação da qualificação, esta busca estimar e medir habilidade, aptidão e a potencialidade da pessoa. Esta avaliação se divide em duas: na Funcional onde se medem as capacidades para verificar o potencial de trabalho ou as necessidades de habilitação e reabilitação; e a Ocupacional, que busca verificar as habilidades do portador de deficiência em função das exigências das ocupações que pretende exercer. Estes testes e avaliações geram na maioria das vezes desconforto para as pessoas portadoras de deficiência, um vez que se sentem muitas vezes alvo de discriminação e de estigma. Por outro lado, àquelas empresas que não desejam contratá-las podem criar subterfúgios elevando as exigências de qualificação de modo a reduzir o máximo possível o número de candidatos aptos ao cargo. Diante de todos esses empecilhos para contratar pessoas que portam deficiência, nas empresas, se torna importante para amenizar esta problemática, que sejam tomadas as seguintes providências: preparar o deficiente, buscando a sua qualificação e profissionalização; educar o empregador, proporcionando a sua conscientização, visto que esta questão é mais do que um mandamento constitucional e legal, pois faz parte de sua responsabilidade social; e por último dispor de políticas públicas que interfiram nesta questão, conforme ocorre nos países mais desenvolvidos. ○ DE Este sistema prosperou em toda a Europa sendo expandido para militares e não-militares. Em 1923 a Organização Internacional do Trabalho (OIT) recomendou a aprovação de leis nacionais que obrigavam entidades públicas e privadas a empregar um certo montante de portadores de deficiência causada por guerras. Em 1944 esta mesma Organização passou a induzir os demais países a empregar portadores de deficiência não-combatentes. Dentre estes, os primeiros a aderirem à idéia foram: a Inglaterra, a Holanda, a Grécia, a Espanha, a Bélgica, entre outros (PASTORE, 2000:159). Antes de ser apresentado o grande entrave da maioria das organizações para contratar os portadores de deficiência, ou seja, o sistema de cotas exigido por lei, que será abordado no próximo item, vale ressaltar que para ter acesso ao trabalho, este portador de deficiência sofre com todo o despreparo da sua cidade para poder transitar nos demais locais. Em outras palavras, nos demais estados ainda são encontrados vários obstáculos arquitetônicos e transportes inadequados que prejudicam a locomoção destas pessoas. ○ R ESERVAS No intuito de favorecer uma melhor compreensão sobre o sistema de reservas de mercado de trabalho utilizada pela maioria das organizações brasileiras, torna-se necessário uma breve abordagem a cerca do seu histórico e desenvolvimento em alguns países que passaram a adotá-la.Os sistemas de reservas de mercado, também conhecido como sistemas de cotas para emprego de portadores de deficiência, foram desenvolvidos na Europa, no início do século XX, com o objetivo de acomodar os feridos da Primeira Guerra Mundial (PASTORE, 2000:157). No Brasil, a escassez estímulos que forneçam a inserção dos portadores de deficiência no mercado de trabalho trás fortes conseqüências para esta problemática, aumentando, assim, o exército de excluídos. As poucas políticas sociais, com relação a esta classe, encontramse desarticuladas. A combinação de educação e reabilitação com estímulos às empresas e às entidades especializadas ainda necessitam ser consolidadas. O avanço atingido até estão está registrado nos mecanismos legais impressos na Constituição, mas estes necessitam sair da teoria e passar a fazer parte da realidade destes segmentos sociais, não se limitando às imposições e punições àqueles que não cumprem com suas cotas, mas incentivado e educando toda uma comunidade para recebê-los e considerá-los como seres humanos que também são capazes de conviver e participar nos meios produtivos e sociais. 76 DE ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ No sistema de cota-contribuição, a obrigação maior das empresas é oferecer oportunidades de trabalho, entretanto quando tal fato torna-se impossível, estas organizações possuem a obrigação de recolher uma certa quantia para uma determinada instituição, como compensação à parcela da cota legal não preenchida. Este referido sistema, além disso, poderá premiar as empresas que ultrapassam suas cotas ou que admitem pessoas com deficiências mais severas (PASTORE, 2000:187). O sistema de cota terceirizada favorece as demais empresas no preenchimento do seu percentual exigido, visto que estipula uma quantidade de pessoas portadoras de deficiência com vínculos empregatícios, conforme a lei exige e o restante poderá ser contabilizado para o preenchimento da cota com pessoas deficientes contratadas pelas empresas terceirizadas, ou seja, sem vínculos trabalhistas. Assim o trabalhador autônomo, cooperado, free-lancer, por tarefa, por projeto, domiciliar, entre outros, poderá ser contado para cota da empresa contratante (PASTORE, 2000:196). Quanto à questão das demissões, a legislação, ao obrigar a reposição do antigo trabalhador por outro colaborador deficiente, traz outro grande entrave para as organizações, visto que poderá eventualmente mudar sua atividade, estabelecendo-se em outro local com outro ramo de negócios e exigindo um quadro com novas qualificações. Em outras palavras, mesmo que não haja mais vaga, a admissão deverá ser feita, independente da situação existente. Trata-se, portanto, de uma operação complexa e conflitiva que exige, de certa forma, um bom nível de flexibilidade, a qual não é oferecida pela atual lei, implicando e dificultando nas demais contratação destes segmentos sociais. Diante dessa flexibilização vários projetos foram desenvolvidos junto às empresas para ajudá-las a remover as barreiras arquitetônicas, ajustar os móveis e equipamentos, subsidiar salários, promover treinamentos e várias outras atividades. No que se refere aos portadores de deficiência, os recursos arrecadados são usados para a reabilitação e qualificação profissional. Enfim, os fatores, citados acima, que vêm impedindo, gerando obstáculos, para que um número maior de portadores de deficiência seja admitido no mercado de trabalho, acirram constantemente esta problemática, inibindo e castrando os portadores de deficiência de desenvolverem os seus verdadeiros potenciais. Na atual conjuntura brasileira, a lei estabelece o sistema de cotas progressivas, que variam de 2% a 5%, de acordo com o tamanho das empresas e exige que a vaga decorrente da dispensa de um trabalhador portador de deficiência seja obrigatoriamente ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 77 ○ ○ Segundo Pastore (2000:138) a simples imposição de uma obrigatoriedade não garante que ela seja cumprida e, muito menos que as empresas venham a oferecer condições favoráveis de trabalho para os portadores de deficiência. Ademais, uma instituição poderá estar com seu quadro de pessoal completo, não havendo necessidade de mais funcionários. Assim, para que fosse contratado um portador de deficiência, a mesma teria que despedir um trabalhador aleatoriamente. Este fato poderá gerar um clima conflituoso entre os empregados veteranos e os candidatos aos seus postos de trabalho. ○ Nos últimos anos o sistema de cota nestes países evoluiu muito no que diz respeito à flexibilidade. Surgem neste cenário outros tipos de cotas, ou seja, a cota contribuição e a cota terceirizada. Verifica-se diante deste contexto, um grande entrave para as empresas brasileiras quanto à questão da inserção dos portadores de deficiência nos seus campos produtivos diante desta falta de flexibilidade nos sistemas de reserva de mercado, bem como falta de estímulos e flexibilidade presentes nesta realidade. ○ preenchida por outro trabalhador deficiente. Este país, por sua vez, não possui flexibilidade nos sistemas de cotas. Ao invés disso, ele optou por um sistema de cotas isoladas, sem exceções e sem estímulos, que repercutem principalmente nas grandes empresas, as quais devem adotar cotas altas. Tal fato gera um impacto negativo quanto a estes sistemas para as demais organizações. O fato delas não cumprirem as cotas estipuladas repercute em punições através de multas com valores elevados. ○ Nos países da Europa o percentual de cotas varia entre 1,5% e 7%, sendo muitas vezes também fixado em função do tamanho da empresa. Aqueles que desrespeitam a cota violam a lei e são sujeitos às penalidades. Alguns destes países também possuem um rígido sistema de demissão, como por exemplo, a Áustria, onde os portadores de deficiência só podem ser demitidos mediante a aprovação de uma comissão responsável por supervisionar a questão da deficiência. Neste caso os empregadores deverão apresentar uma justificativa do motivo da demissão e fazer a defesa perante esta comissão. Na Alemanha a dispensa destas pessoas portadoras de deficiência só pode ser efetivada depois de obtida uma autorização de órgão oficial. Quanto à Bélgica, se por acaso houver uma demissão de um portador de deficiência de forma injustificada, o empregador deverá pagar uma indenização muito alta ao empregado (PASTORE, 2000:159). ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ CONCLUSÃO O simples ato de punir ou aplicar penalidades àqueles que não cumprem com o que nos papéis estão estabelecidos, não irá oferecer ao deficiente a sua condição de cidadão. Ao contrário, isto faz com que esta demanda da sociedade sinta-se constrangida, por ter que haver subterfúgios para abrir os seus caminhos, objetivando a sua participação nos meios de produção. ○ ○ ○ ○ ○ Acredita-se que este preconceito dirigido às pessoas portadoras de deficiência nasça de uma cadeia de valores que atravessa todas as gerações, levando o estigmatizado a uma condição de descrédito de suas capacidades e potencialidades em relação ao todo social, tido como normal. Baseado neste fato acredita-se que, as políticas de apoio aos portadores de deficiência necessitam considerar que o centro de todas as ações deve ser um ser humano que tem limitações superáveis. Para tanto, não basta emitir decretos e leis punitivas sem que antes sejam negociados com as partes envolvidas no sistema. Faz-se, assim, necessário um esforço conjunto e bem articulado com a sociedade como um todo na busca de prover meios para que estes segmentos tenham uma vida digna, produtiva e de progresso individual. Este sentimento de incapacidade atribuído à pessoa deficiente surge também em decorrência da sociedade, bem como das políticas públicas, não oferecerem melhores condições necessárias para o pleno desenvolvimento e independência destes segmentos sociais. Nos países do terceiro mundo, em desenvolvimento, a questão da deficiência está muito atrelada à questão social. A incidência de portadores de deficiência torna-se maior em virtude das suas condições de vida na maioria das vezes estar vinculada a pobreza, a fome, a ignorância, a falta de prevenção e assistência. A flexibilidade nos sistemas de reserva de mercado também se faz importante para favorecer um maior índice de empregos aos deficientes. A rigidez do sistema de cotas inibe as empresas de ampliarem as oportunidades de emprego para os que portam limitações, e por conseqüência, de se aproximarem dos percentuais exigidos pela legislação. É dentro deste contexto, permeado por desigualdades na concentração de renda e pelos preconceitos imputados pelas organizações sociais, trabalhistas e culturais que se encontram as pessoas portadoras de deficiência candidatos a disputarem uma vaga no competitivo mercado de trabalho. Enfim, objetivando reduzir as distorções e as fragmentações da imagem construída a cerca dos portadores de deficiência, bem como a possibilidade de proporcionar um maior espaço para estes nos meios produtivos, cabe aos empregadores, a sociedade, aos meios de comunicação e as políticas sociais ampliarem as discussões sobre a referida temática, favorecendo, por sua vez, uma maior conscientização destes indivíduos como seres capazes de produzir e viver socialmente. Com base no que foi exposto, surge então a necessidade de serem tomadas algumas providências quanto a esta questão. Dentre estas acredita-se que o candidato deficiente que disputa uma vaga no mercado de trabalho necessita de maiores atenções por parte de todos. A educação e a profissionalização destinada a estes ainda está muito distante do que realmente é cobrado pelas organizações. Quanto aos empregadores, emerge a necessidade de terem uma maior conscientização no que se refere a esta problemática. Para estes, conforme afirma Pastore (2000:208), faz-se importante que tenham a certeza de que mais do que um mandamento constitucional e legal, a facilitação da entrada dos deficientes no mercado de trabalho faz parte das suas responsabilidades sociais. Portanto, longe de esgotar esta questão das pessoas portadoras de deficiência, acredita-se que este trabalho, de alguma forma, poderá contribuir para levantar discussões sobre esta problemática, favorecendo, por sua vez, novos elementos e um maior aprofundamento para as diversas pesquisas relacionadas a este assunto. As políticas públicas existentes na atual conjuntura, além de poucas serem voltadas para esta demanda social, encontram-se também desarticuladas, isoladas. A combinação da educação com a reabilitação e com estímulos oferecidos às empresas e às entidades especializadas é essencial para o trabalho dos portadores de deficiência inseridos nas indústrias. Embora a Constituição Federal apresente um arcabouço legal moderno e compreensivo, as ações de atendimento aos que portam limitações são precárias para mantê-los em condições de respeito e dignidade. Esses dispositivos legais imputam as instituições à contratação de pessoas que portam deficiência sem oferecer incentivos e condições favoráveis, tanto para a organização como para os que convivem com os deficientes nos meios sociais. ○ ○ 78 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ MICHAELIS, C. Dicionário escolar da língua portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 2000. CARNEIRO, Stella Luiza Moura. O que querem os deficientes? Revista Temas sobre Desenvolvimento, São Paulo: v. 4, n. 24, p. 19-25, mai./jun. 1995. PASTORE, José. Oportunidades de trabalho para os portadores de deficiência. São Paulo: LTR, 2000. REGEN, Mina; ARDORE, Marilena. Mães e filhos especiais. BRASIL. 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Brasília: Senado Federal, Centro Gráfico, 1988. ○ ○ ○ ○ ○ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ OS SERVIÇOS DE TELECOMUNICAÇÕES NO CEARÁ APÓS A PRIVATIZAÇÃO SOB A ÓTICA DO CONSUMIDOR ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Sandra Maria dos Santos Dra. - Universidade Federal do Ceará Maria Naiúla Monteiro Pessoa Dra. - Universidade Federal do Ceará José Nelson Tenório Mestrando - Universidade Federal de Pernambuco Maria Célia Gomes Vasconcelos - Especialista - Universidade Federal do Ceará RESUMO Este trabalho consiste na abordagem da privatização das telecomunicações, com enfoque na opinião dos usuários, que passaram a conviver em um novo cenário. Uma das conseqüências da privatização foi o surgimento da concorrência, que por si só, deveria favorecer à sociedade, tendo em vista a disputa pela conquista dos clientes. Passados três anos da privatização, se encontrou um nível de insatisfação muito grande, tanto em quantidade quanto em qualidade dos serviços. Existe grande parcela da população que ainda não dispõe de telefone, por não poder pagar e, quem pode pagar sofre com a má qualidade dos serviços. Ao abordar a privatização das telecomunicações sob a ótica do usuário, objetivou-se captar a percepção que a sociedade, especificamente a cearense, teria observado diante das mudanças ocorridas, tal como a instalação de novas operadoras de telefonia; e a influência que porventura ocorrera em sua vida, como por exemplo, mais facilidade de acesso aos serviços de telefonia, melhor atendimento, possíveis reduções de tarifas, etc. A pesquisa foi realizada na capital e nos dez maiores municípios cearenses, em termos de população. PALAVRAS-CHAVE: privatização; telecomunicação; consumidor. ABSTRACT This work consists of the approach of the privatization of the telecommunications, with focus in the users opinion. One of the consequences of the privatization was the appearance of the competition, that by itself, it should favor the society, tends in view the dispute for the customers conquest. After three years of the privatization, it was a higher level of dissatisfaction, in amount and in quality of the services. Great portion of the population that doesnt still have telephone exists, for not could pay and, who can pay suffers with the bad quality of the services. When approaching the privatization of the telecommunications under the users optics, it was aimed at to capture the perception that the society, specifically the from Ceará, it would have observed before the happened changes, just as the installation of new telephony operators; and the influence that by chance had happened in your life, as for instance, more access to the telephony services, better attendance, possible reductions of tariffs, etc. This research was accomplished in the capital and in the ten larger municipal districts from Ceará, in population terms. KEY WORDS: privatization; telecommunications; consumer. ○ ○ 80 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ O Processo de privatização do setor de telecomunicações passou, inicialmente, por um programa de modernização e reestruturação. E isto implicou inclusive em alterações na legislação vigente de forma a possibilitar a abertura do setor ao capital privado. Destacando-se: a) a Emenda Constitucional no.8 (1995) que pôs fim ao monopólio da operação dos serviços (FERREIRA, 1999). b) Lei específica (Lei 9295/96) - permitindo a privatização dos primeiros serviços, entre os quais o celular da banda B, a comunicação de dados, os serviços de valor adicional (VAS) e os por via satélite (ANATEL, 2000). c) Licitação para a Banda B - a terceira etapa consistiu na implementação da Lei específica, por meio de licitação internacional que selecionou os novos operadores da banda B celular nas dez áreas do mercado (LIMA, 2000). d) Lei Geral de Telecomunicações (julho de 1997) que redefiniu o modelo institucional do setor, criando um órgão regulador (a Agência Nacional de Telecomunicações - ANATEL) e estabelecendo as linhas gerais do processo de privatização (FERREIRA, 1999). No entanto, a comunicação deixou de limitar-se apenas ao telefone, ampliando-se para uma variedade de serviços de transmissão e recepção de vídeo, voz e dados. As técnicas digitais aumentaram espantosamente as alternativas de inovação. Novas idéias e produtos nascem todos os dias. O desenvolvimento e a demanda de novos serviços e produtos cresceram num ritmo muito mais acelerado que a capacidade de investimento do Estado. Num mundo em que novas tecnologias passaram a ser fator de competitividade, eficiência e poder, e em que as telecomunicações não se limitam mais ao telefone, mas abrangem uma miríade de serviços, o Estado sofreu um verdadeiro imobilismo diante da dinâmica tecnológica. Essas novas tecnologias não apenas passaram a incorporar os tradicionais produtos e processos industriais como possibilitaram um profundo redimensionamento do comércio internacional. Com tantas alternativas e variáveis, não foi possível manter estes instrumentos nas mãos de um monopólio estatal, por mais potente e dinâmico que este fosse. No modelo anterior, todo o sistema de regulação era voltado para as empresas operadoras, que embora prestassem serviço público, os seus planos não estavam sujeitos a sanções e nem corriam o risco de perder a concessão. No novo modelo, o foco principal está centrado nas necessidades e direitos do cidadão, firmados em documentos de cumprimentos obrigatórios pelas operadoras. Nesse cenário, as telecomunicações vêm desempenhando um papel de fundamental importância, pois são a um só tempo, geradoras e beneficiárias do novo paradigma tecnológico. A ANATEL, criada em 1997 através da Lei no. 9.472/97, tem por objetivo viabilizar o novo modelo de telecomunicações brasileiro, e assumindo ações reguladoras e fiscalizadoras do Estado, garantindo o acesso de toda população aos serviços de telecomunicações. O interesse pelos serviços de telecomunicações vai do analfabeto ao cientista, do empresário ao trabalhador informal, dos moradores dos grandes centros urbanos até os que ainda estão isolados em longínquas localidades no interior do País. Ou seja, no âmago de todas estas mudanças, o que deve estar acima dos objetivos técnicos e mercadológicos, é o atendimento às necessidades e interesses da população, em todos os seus estratos e em conformidade com as diferenças que permeiam a sociedade. A universalização - popularização com metas obrigatórias de expansão e de qualidade é, portanto, o primeiro pilar das telecomunicações brasileiras. O segundo pilar é a competição entre empresas prestadoras de serviços de telecomunicações, a fim de que o jogo, com regras claras e confiáveis produza benefícios para o consumidor e mesmo para o cidadão que ainda não dispõe de telefone fixo residencial ou celular. Ao mesmo tempo em que, tem nítida preocupação social, o novo modelo confere às telecomunicações tratamento como componente vital de infra-estrutura de novas empresas no país. (GUERREIRO, 2000). Esse estudo tem por objetivo verificar o nível de conhecimento e o grau de satisfação da população cearense em relação às mudanças observadas no sistema de telecomunicações, após a privatização. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 81 ○ ○ Considerando a importância das telecomunicações, a maioria dos países escolheu como processo de implantação e exploração, o monopólio pelo Estado (MELO, 1999), na crença de que somente o governo teria o capital e o interesse necessários para a prestação do melhor serviço. Na verdade, o modelo funcionou num certo período, sobretudo no lançamento dos empreendimentos, no seu crescimento e operação nos primeiros anos. Isto se deveu, talvez, a estabilidade dos investimentos e ao reduzido ritmo de inovações. ANTECEDENTES DA PRIVATIZAÇÃO NO BRASIL ○ 2 ○ INTRODUÇÃO ○ 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Com a privatização das telecomunicações, várias empresas passaram a atuar no Ceará, assim como nos demais estados da federação, prestando serviços de telefonia fixa, móvel e de longa distância. Na telefonia fixa atuam duas empresas: a TELEMAR e a VESPER. No caso da telefonia celular a disputa pelos clientes está polarizada entre as empresas TIM ( Banda A) e a BCP (Banda B). Para a comunicação de longa distância tem-se a EMBRATEL, TELEMAR e INTERLIG. A amostra foi calculada pela fórmula da amostra casual simples onde todos os elementos da população têm a mesma probabilidade de serem selecionados, com erro de estimativa de 10% e nível de confiança de 95%. Que conforme valores e fórmula abaixo, necessitava-se uma amostra de 96 questionários, número arredondado para 100 (POLASEK; KARMEL, 1976). Fórmula utilizada para o cálculo da amostra: Essa situação reflete um dos argumentos do governo para justificar a privatização das telecomunicações, ou seja, estimular a concorrência na disputa pelos usuários e com isso se espera que haja uma redução das tarifas e dos preços, bem como uma melhoria na qualidade dos serviços. Onde: d = margem de erro; Z = abscissa da distribuição normal correspondente ao grau de confiança (1 1 ) estipulado; P = proporção de usuários satisfeitos; Q = proporção de usuários insatisfeitos (1P) Diante dessa nova realidade, esse estudo visa conhecer a opinião dos usuários sobre os serviços de telecomunicações no Ceará. 3 METODOLOGIA Dados para o cálculo da amostra: Para viabilizar o objetivo desse estudo de natureza qualitativa, que pretende detectar o nível de conhecimento e satisfação em relação aos serviços de telecomunicações no Ceará após a privatização, procedeu-se a realização de uma pesquisa de campo. d = 0 ,10 1 − α = 95 % ⇒ Z = 1,96 P = 50 % = 0 ,50 Segundo Munhoz (1989, p. 84): A pesquisa de campo tem por objetivo a coleta de elementos não disponíveis, que, ordenados sistematicamente, de acordo com processos adequados, possibilitem o conhecimento de uma determinada situação, hipótese ou norma de procedimento. Dessa forma justifica-se o uso da técnica de documentação direta (aplicação de questionário) utilizada no referido estudo. Q = 50 % = 0 ,50 A distribuição da amostra foi proporcional à população, resultando na aplicação de 70 entrevistas na Capital e 30 no Interior. Os municípios pesquisados no interior do estado foram: Juazeiro, Crato, Iguatu, Sobral, São Benedito, Camocim, Aquiraz, Aracati, Quixadá e Quixeramobim. A realização da pesquisa se deu nos meses de julho e agosto de 2001. Outro aspecto a considerar diz respeito a amplitude da pesquisa de campo realizada. No caso específico, utilizou-se o método estatístico de amostragem. A amostragem fundamenta-se em leis estatísticas que lhe conferem o rigor científico para representar a população. As técnicas de seleção da amostra e o seu cálculo dependem muito do tipo de estudo e dos objetivos da pesquisa. 4 Do total de pessoas entrevistadas, tem-se que 63,0% sâo do sexo feminino. Considerando-se o nível de escolaridade dos participantes da pesquisa constatase que, 32,0% têm o segundo grau completo, 13,0% superior incompleto, e 20,0% com grau superior completo; os demais 25% têm no máximo o segundo grau incompleto (Tabelas 1). A amostragem aleatória simples constitui o mais puro tipo de amostragem aleatória. Essa característica é verdadeira por duas razões. Inicialmente, dada certa população de tamanho N, todas as amostras de mesmo tamanho, n, têm a mesma chance de ser sorteadas. Ademais, a fim de constituir cada uma das n amostras possíveis, cada elemento da população tem a mesma probabilidade de ser sorteado, relativamente aos demais. (BARBETTA, 2001, p.155). ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ SERVIÇOS DE TELECOMUNICAÇÕES APÓS A PRIVATIZAÇÃO ÓTICA DOS USUÁRIOS CEARENSES 4.1 PERFIL DOS ENTREVISTADOS Sendo assim, optou-se pelo uso da amostragem probabilística, o que significa dizer que o tamanho e seleção da amostra obedeceram rígidos critérios técnicos, e mais especificamente, optou-se pela amostragem aleatória simples. 82 Z2 ⋅ P ⋅ Q d2 n0 = ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ % 1 ,0 1 6,0 1 4,0 4,0 32,0 1 3,0 20,0 1 00,0 Dos serviços de telecomunicações disponíveis, as telefonias, fixa e celular, são os mais utilizados, por 93,9% e 53,7% da população, seguidos pela Internet (28,0%), Caixa Postal (19, 5%) e TV por Assinatura. (Tabela 4). Fonte: Pesquisa direta. Tabela 2 - Distribuição dos entrevistados por atividades profissionais - 2000 PRO FISS Õ ES E studante E mpregado do setor público E mpregado do setor privado P rofissional liberal Autônomo Dona de casa Desempregado Aposentado E mpresário Total Tabela 4 - Nível de utilização dos serviços de telefonia pelos entrevistados - 2000 % 7,0 1 3,0 34,0 5,0 1 9,0 9,0 1 1 ,0 1 ,0 1 ,0 1 00,0 S ERV IÇ O S Entre os motivos por não dispor de uma linha fixa destacam- se: desinteresse em dispor de uma linha fixa (28,0%) e não dispor de renda suficiente (32,0%), o que é perfeitamente compreensível se for levado em conta o percentual de desempregados (11,0%) e dos que percebem menos de um salário mínimo e os sem remuneração (28,0%). A falta de interesse, talvez seja justificada, pelo fato do valor da tarifa mensal que a época da privatização era R$ 0,44, e passou atualmente a custar R$ 23,32. Tabela 3 - Distribuição dos entrevistados por faixa de renda - 2000 Quanto à telefonia celular, observa-se que, semelhantemente à telefonia fixa, a falta de interesse (45,5%) e a insuficiência de renda (38,2%), foram os dois fatores preponderantes para a não aquisição de uma linha celular. % 22,0 Menos de um salário mínimo 6,0 Um salário mínimo 1 1 ,0 Acima de 1 sm a 3sm 31 ,0 Acima de 3sm a 6sm 1 3,0 Acima de 6sm a 9sm 07,0 Acima de 9sm 1 0,0 Total Pode-se inferir que, apesar de existir a concorrência entre empresas que operam o Serviço de Telefonia Móvel Celular no estado do Ceará, a população não foi, ainda, beneficiada com redução de preços e tarifas. Continuando a ser um serviço inacessível para a maioria da população. 1 00,0 Fonte: Pesquisa direta ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 93,9 53,7 9,8 1 9,5 1 7,1 28,0 Fonte: Pesquisa direta. Obs: Resposta de Múltipla escolha A faixa de renda dos que ganham acima de 1 (um) a 3 (três) salários mínimos, concentrou o maior número de entrevistados. É também expressivo o número dos entrevistados, que estão sem remuneração ou que percebem menos de um salário mínimo (Tabela 3). S em remuneração % Telefone fixo Telefone celular F ax Caixa postal Tv por assinatura Internet Fonte: Pesquisa direta. REMUNERA Ç Ã O ○ Uma linha celular, que já chegou a custar R$ 360,00, pode ser comprada hoje pelo mesmo preço estando inclusos neste valor o aparelho e a habilitação. (ANATEL, 2000). ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 83 ○ ○ ○ Antes da privatização, uma linha telefônica residencial de telefone fixo custava perto de R$ 1.120,00, pagos em até 24 meses. Hoje (2001) pode ser comprada por R$ 50,00, na maioria dos estados, enquanto em outros já é possível ter um telefone em casa com gastos em torno de R$ 15,00, pagos só depois que o telefone entrar em operação.(ANATEL, 2000). Tabela 1 - Distribuição dos entrevistados por grau de escolaridade - 2000 ESC O LA RIDA DE Analfabeto 1 º grau incompleto 1 º grau completo 2º grau incompleto 2º grau completo S uperior incompleto S uperior completo Total ○ 4.2 GRAU DE UTILIZAÇÃO DOS SERVIÇOS ○ As atividades profissionais dos entrevistados são bastante diversificadas, como consta na Tabela 2, tendo preponderância de empregados do setor privado (34,0%), profissionais liberais (19,0%), e empregados do setor público (13,0%). É de razoável relevância, também, o número de entrevistados que se encontram desempregadas (11,0%). ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Esta inacessibilidade se torna mais visível quando se analisa o grau de utilização dos serviços de Fax (9,8%), Caixa Postal (19,5%), Tv por Assinatura (17,1%) e Internet (28,1%), observando-se que apenas uma pequena parcela da população usufrui destes serviços. Na telefonia celular, a distinção entre as empresas concorrentes mostrou-se maior, a troca dos nomes das empresas foi praticamente insignificante, com 3,9% trocando os nomes das empresas por marcas dos aparelhos celulares Ericsson e Motorola. Com o advento da telefonia celular e da privatização de empresas, surgiram vários termos que são utilizados com freqüência pela mídia de um modo geral. Procurou-se saber o grau de assimilação destes termos, por parte da população. 4.3 NÍVEL DE CONHECIMENTO EM RELAÇÃO ÀS EMPRESAS E AOS SERVIÇOS DE TELECOMUNICAÇÕES DAS EMPRESAS QUE OPERAM NO ESTADO DO CEARÁ Na seção anterior, foi mostrado que, com a privatização, várias empresas passaram a explorar os serviços de telefonia no Ceará, sendo a Telemar e Vésper as empresas de telefonia fixa e Tim e BCP de celular. Embratel, Intelig e Telemar, operando em ligações de Longa Distância. Sendo assim, buscou-se verificar se os usuários tem conhecimento dessas empresas e suas atividades. O resultado demonstrou que 81,0% dos entrevistados afirmam conhecer as empresas operadoras de telefonia fixa e 76,0% as empresas operadoras de telefonia celular. No entanto, o consumidor não faz distinção das atividades desenvolvidas pelas empresas. Apesar de 98,7% terem afirmado com precisão o nome da Telemar, a Embratel e a Intelig, operadoras de longa distância, foram confundidas como operadoras de telefonia fixa, por 41,2% e 26,5%, respectivamente. Além de outros nomes citados que sequer são empresas operadoras de telefonia, por exemplo, Telenorte e Anatel. A Vésper que opera a telefonia fixa, concorrendo com a Telemar, mostrou-se pouco conhecida, mencionada por apenas 26,5% dos entrevistados. Conforme exposto na Tabela 7, apesar de estes termos serem freqüentemente utilizados pela mídia, observa-se que eles são desconhecidos quase que totalmente pela população. Apenas a ANATEL mostrou-se familiar aos entrevistados. Tabela 7- Percentual de conhecimento pelo usuário da nomenclatura das telecomunicações - 2000 B anda A B anda B B anda C E mpresa – espelho E mpresa – espelhinho ANATE L 81 ,0 Telefonia Celular 76,0 Total 1 00,0 Fonte: Pesquisa direta. % 98,7 41 ,2 26,5 1 ,2 26,2 2,5 1 ,2 Telemar E mbratel Interlig Telenorte Vésper Tim Anatel Obs: Resposta espontânea de múltipla escolha ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 25,0 24,2 1 2,0 2,0 2,0 41 ,0 A ANATEL revelou - se a mais familiar pelos entrevistados, foi identificada corretamente como sendo uma empresa reguladora (15,0%), ou órgão regulador (35,0%), empresa de fiscalização (10,0%) e pelo significado da sua sigla como Agência Nacional de Telecomunicações (17,5%). Fonte: Pesquisa direta. 84 25,0 22,3 8,0 6,0 2,0 46,0 50,0 52,5 80,0 92,0 96,0 1 3,0 Com referência às empresas - espelho e espelhinho, apesar do índice de desconhecimento dos termos ser bem elevada, nota-se que as pessoas que afirmaram que sabiam o significado, realmente o fizeram com uma certa convicção. As empresas - espelho foram corretamente identificadas por 28,6%, e as demais respostas não fugiram em demasia do assunto. Interessante é notar, que em relação às empresas espelhinho, todas as respostas foram corretas 100,0%. Tabela 6 - Índice de conhecimento pelo usuário das empresas de telecomunicações atuantes no Ceará 2000 EMPRESA S OUVIRAM FALAR % Para confirmar se o índice de conhecimento era taxativo, foi solicitado às pessoas que responderam que conheciam ou ouviram falar sobre os termos, que explicassem o que os mesmos significavam. Os resultados foram os seguintes: com relação as Bandas A e B, observa-se que há uma associação quanto a ambas serem de telefonia analógica (26,9%) e digital (34,8), respectivamente, o que não corresponde a realidade, tanto a Banda A quanto a Banda B, usam tecnologia digital. Apenas 15,4%, 13,0% e 20,0%, acertaram respondendo que Bandas A, B e C, respectivamente, tratam-se de uma faixa de freqüência. % Telefonia Fixa CO NHECEM % Fonte: Pesquisa direta Tabela 5 - Índice de conhecimento pelo usuário dos tipos de telefonia no Ceará - 2000 O PÇ Ã O NÃ O CO NHECEM % TERMO S ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ 4. 4 A SATISFAÇÃO DOS USUÁRIOS CEARENSES SERVIÇOS DE TELEFONIA EM GERAL % S atisfeito 54,0 Insatisfeito 46,0 Total 1 00,0 Dentre os motivos elencados pelos clientes insatisfeitos, prepondera o aparecimento de cobranças indevidas na conta com 25%, seguido pelo atendimento que foi considerado péssimo por 23,% e, o aumento de tarifas foi relacionado com representação de 20%. Dentre os entrevistados, 46,0% já procurou diretamente as empresas para fazer algum tipo de reclamação, com 68,7% classificando o atendimento da reclamação entre regular e ruim. Apesar da insatisfação com o atendimento ser alto, apenas 6,1% recorreram a órgãos de defesa do consumidor. A privatização é colocada como benéfica para a população, na medida em que traz concorrência, que gera competição e assim, uma possível redução de preços na tentativa de se conquistar o cliente. Contudo, a pesquisa revelou que a competição entre as empresas não gerou uma redução de preços e tarifas que fosse sentida pela população de maneira uniforme. Pouco menos da metade da população afirmam que se sentiram beneficiadas com redução de tarifas (43,0%), enquanto que a maioria não percebeu estas reduções (57,0%). Tabela 10 - Classificação do atendimento às reclamações do usuário em relação aos serviços de telefonia no Ceará - 2000 Tabela 8 - A competição trouxe redução de tarifas 2000 S im 43,0 Não 57,0 Total 1 00,0 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ NÍV EL % Ótimo 6,5 B om 34,8 Regular 34,8 Ruim 23,9 Total 1 00,0 Fonte: Pesquisa direta. Verificou-se que os serviços prestados pelas empresas de telecomunicações após a privatização não gozam de conceito elevado perante a população. Solicitados a fornecerem um conceito para os serviços, apenas 6,5% dos entrevistados os conceituaram como ótimos, com a grande maioria colocando-os como regular (34,8%) ou ruim (23,9%). Fonte: Pesquisa direta ○ ○ G RA U D E S A TIS FA Ç Ã O Fonte: Pesquisa direta Buscando obter informações sobre a penetração destes projetos junto à população, verificou-se que eles são desconhecidos pela grande maioria (85,0%). E ainda, dos que afirmaram conhecer ou ouvir falar nos projetos, ao ser solicitado que especificasse o projeto, 30,7 % não souberam responder, ou especificar com precisão. % ○ Tabela 9- Índices de satisfação do usuário cearense com os serviços de telefonia 2000 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 85 ○ ○ Evidenciou-se que a população encontra-se de certa forma dividida no que diz respeito à sua satisfação com os serviços de telefonia. Conforme mostra a Tabela 9, dos entrevistados 54,0% se disseram satisfeitos com os serviços prestados pelas operadoras, em geral. Este percentual não fica muito distante dos que se mostraram insatisfeitos (46,0%). A BCP com o Projeto Dê um Alô para a Natureza, para colaborar com a preservação do meio ambiente; o Programa da Qualidade do Ensino, com o objetivo de melhorar o ensino público, com a formação continuada dos professores, avaliação da aprendizagem dos alunos e o reforço para aqueles com deficiência de aprendizagem e o Projeto da Fundação Gilberto Freire: a cidadania está no conhecimento, visando permitir a continuidade do trabalho de Gilberto Freire, com o compromisso de difundir as diversas manifestações de arte, da cultura e da ciência, especialmente as relativas ao Nordeste: a sua história, sua formação social e econômica, seus problemas e alternativas de solução. (BCP, 2001). RESPO STA S COM OS ○ Algumas destas empresas de telefonia, visando fixar sua imagem junto à população, implantaram projetos sociais, principalmente no setor educacional. A Telemar, com o Projeto Comunidade Virtual Telemar em parceria com a Universidade de São Paulo, visando facilitar o acesso de comunidades carentes à Internet. No Ceará, o Município beneficiado com este projeto é o de Paramoti.(TELEMAR, 2001). ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Isto pode ser corrigido se forem estabelecidas leis que obriguem as empresas a cumprir o seu papel social, e não visarem exclusivamente os lucros. Mesmo não sendo mais estatais, vale lembrar que a exploração dos serviços de telecomunicações é uma concessão governamental, e que o governo não só pode como deve estabelecer regras para que o acesso aos serviços seja universal e de boa qualidade. Neste sentido, a ANATEL, como órgão regulador e fiscalizador tem papel fundamental, não permitindo que as empresas ajam da forma que bem desejarem, criando suas próprias leis, como se não tivessem uma função social de grande relevância. A constatação é que, embora não se tenham dados de antes da privatização, para efeito comparativo, o usuário dos serviços de telecomunicações, continua tendo transtornos e aborrecimentos com as empresas após a privatização. CONCLUSÃO É inegável o avanço das telecomunicações no Brasil após a privatização. O avanço tecnológico propiciou que milhares de telefones fixos fossem instalados e que inúmeros celulares entrassem em operação em tão pouco tempo. Contudo, o aumento quantitativo não foi seguido de um aumento qualitativo. A pesquisa realizada evidenciou que o nível de insatisfação com a qualidade dos serviços prestados à população é enorme. A insatisfação com a qualidade dos serviços pelas empresas, por exemplo, chega aos 46,0%; o atendimento é considerado regular ou ruim por 58,7% dos entrevistados. O nível de informação do consumidor em relação à nova realidade e aos seus direitos, pode influir sobremaneira no comportamento das empresas, no sentido que lhe seja garantido um serviço e um atendimento de qualidade. Os dados da pesquisa mostraram que a população sente-se confusa diante do novo cenário que se formou, com novas empresas e termos antes não utilizados. Há desconhecimento de significados ou da utilidade destes termos, independente de classe social ou grau de instrução, deixando perceber que não houve realmente esclarecimento deste novo momento social. É verdade que o Estado, ao entregar as empresas nas mãos do capital privado, esperava que a competição gerada pelas empresas se revertesse em benefícios para a sociedade, pois sozinho não teria condições de bancar novas tecnologias, baratear os custos e tornar os serviços de telecomunicações acessíveis a todas as camadas da população. Porém, não é isso o que está efetivamente acontecendo, talvez porque as empresas que se instalaram não conseguiram fazer frente às empresas do governo que foram privatizadas, existindo, na realidade, um monopólio privado; ou porque ao privatizar o governo não estabeleceu metas ou condições que obrigassem as empresas a tornar o acesso possível a todos os cidadãos, e não somente aos que tenham condições de pagar caro por estes serviços. ○ ○ 86 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Tecnologicamente, a privatização trouxe avanços para o setor. A tecnologia digital e a fibra ótica, possibilitou velocidade de comunicação e na troca de informações. Mas socialmente, ainda é preciso avançar bastante. O acesso à comunicação, ainda não chegou às camadas menos favorecidas da população. As tarifas continuam elevadas, tornando o serviço inacessível para a população de baixa renda. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ MUNHOZ, Dércio Garcia. Economia aplicada: técnicas de pesquisa e análise econômica. Brasília: UNB, 1989. ARAÚJO, C. Helena; PIRES, José Cláudio L. Regulagem e arbitragem nos setores públicos no Brasil: problemas e possibilidades. Revista de Administração Pública, set-out. 2000. O PROJETO. Projeto Comunidade Virtual Telemar Disponível em: <http.//www.educação.telemar.com.br/comunidade/ apre.htm>. Acesso em: 15 abr. 2001. ANATEL. Três anos da Anatel. Revista da Anatel n. 3, ano 3, nov. 2000. PIRES, José Cláudio Linhares. A reestruturação do setor de telecomunicações no Brasil. Revista BNDES, Rio de Janeiro, v. 6, n. 11, p. 187-214, jun. 1999. BARBETTA, Pedro Alberto. Como fazer o planejamento e cálculo de amostras. In: BÊRNI, Duilio de Avila (Coord.). Técnicas de pesquisa em economia. 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Rio de Janeiro: José Olímpio, 1999. ○ ○ ○ ○ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ OS PRÓS E CONTRAS DA GESTÃO ATIVA E A PASSIVA DE FUNDOS DE INVESTIMENTOS EM AÇÕES ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ José Maria Porto Magalhães Sobrinho - Mestre em Administração Faculdades Integradas do Ceará RESUMO O desafio do gestor de um fundo de investimento é aplicar da melhor maneira possível, os recursos disponíveis em alternativas que proporcionem rentabilidade consistente no longo prazo. A grande maioria das instituições financeiras, vem oferecendo aos seus clientes, produtos de investimentos com estratégia de gestão ativa ou passiva. Essas alternativas de investimentos, podem comprometer seriamente a rentabilidade almejada pelo cliente desses fundos. Portanto, é necessário que o investidor conheça qual a técnica adotada pelo seu gestor a fim de não incorrer em custos ou até mesmo em prejuízos desnecessários. Este artigo tem o propósito, distinguir de uma forma clara e objetiva as diferentes técnicas adotadas por essas instituições, explicando o funcionamento das mesmas, seu processo decisório, qual o papel do administrador e do gestor do fundo de investimento em ações, e discorrer qual a visão do mundo acadêmico sobre esse conflito de estratégias. PALAVRAS CHAVE: fundos de investimento; gestão ativa e a passiva. ABSTRACT The challenge of the manager of an investment fund is to apply in the best possible way, the available resources in alternatives that provide consistent profitability in the long stated period. The great majority of the financial institutions, offer for its customers, options of investments with strategy of active or passive management. These alternatives of investments, may seriously compromise the profitability desired for the customer of these investment funds. Therefore, it is necessary that the investor knows which is the technique adopted for its manager, in order to do not incur in unnecessary costs or losses. This article has the intention to distinguish in a clear and objective form, the different techniques adopted by these institutions, explaining their rational, its decision process and what is the role of the administrator and the manager of the investment fund in actions, and to comment about which is the vision of the academic world on this conflict of strategies. KEY WORDS: investment funds; active or passive management. ○ ○ 88 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ Os fundos de investimento no Brasil detêm a maior representatividade no segmento de aplicações financeiras no mercado brasileiro, chegando inclusive a ultrapassar os valores aplicados na popular caderneta de poupança. Essa grande aceitação pelos investidores locais advém da sua visão condominial, a qual permite o acesso a pequenos e grandes investidores, remunerando-os com as mesmas taxas indistintamente,o que não era possível antes de sua criação. No caso do gestor, compete a si a administração dos recursos. Dentre as suas atividades, destacam-se a de escolher os ativos que irão compor a carteira do fundo, que maximize a utilidade para o investidor, selecionando aqueles com melhor perspectiva de rentabilidade, dado um determinado nível de risco compatível com a política de investimento adotada. Outra tarefa do gestor é a de emitir ordens de compra e venda dos ativos que compõem a carteira do fundo, em nome dos cotistas. Em relação às estratégias adotadas pelos administradores desses fundos, as instituições financeiras especializadas em gestão de recursos de terceiros, em sua grande maioria, vêm oferecendo aos seus clientes fundos de investimento de gestão ativa ou passiva. Entende-se como estratégia ativa, aquela que visa obter uma performance superior a de um índice de mercado contra o qual são comparados. Ë através dessa estratégia que o gestor do fundo de investimento em ações procura otimizar a relação entre o risco e o retorno do portfólio, escolhendo ativos que no conjunto apresentem uma performance superior a do próprio mercado que, no Brasil, é mensurado geralmente pelo Índice da Bolsa de Valores de São Paulo Ibovespa. Tanto o administrador como o gestor da carteira devem estar devidamente credenciados na CVM para poderem assumir suas funções. A maior responsabilidade do gestor é, no entanto, a de cumprir, da melhor forma possível, os objetivos do fundo, no tocante à rentabilidade do investimento, grau de exposição a risco e liquidez das aplicações. É papel do gestor do fundo entregar o que vendeu, ou seja, se foi estabelecido algum tipo de benchmark para o fundo, ele terá de se esforçar para atender a essa necessidade. Ressalte-se que não se espera que o gestor seja infalível, mas, em contrapartida, esperase que esse profissional aja como um expert, e não simplesmente como um homem prudente. Segundo Bernstein (1997:248), a regra do homem prudente (prudent man rule), vinha sendo utilizada desde 1828, e originou-se da decisão do juiz Samuel Putnam em uma ação judicial contra um administrador de patrimônio em Boston. Foi esta a decisão do juiz: A administração passiva, por sua vez, procura obter uma rentabilidade próxima a de um índice de mercado pré-estabelecido, que pode ser denominado de benchmark. Esse tipo de estratégia não requer maiores habilidades dos gestores no ato de escolher ativos para compor suas carteiras, pois o critério de seleção se faz apenas pela simples réplica do índice, ou seja, a carteira desses fundos, é semelhante à composição do índice escolhido. A gestão passiva é caracterizada por uma estratégia de comprar e manter, sendo a carteira modificada somente por ocasião da mudança da composição do próprio índice, no caso do Ibovespa, de quatro em quatro meses. Faça você o que fizer, o capital corre risco... Tudo que se pode exigir de um administrador do fundo fiduciário ao investir é que ele seja leal e criterioso. Ele deve observar como homens prudentes, criteriosos e inteligentes gerenciam seus próprios negócios, não no tocante à especulação, mas a disposição permanente de seus fundos, considerando a renda provável, bem como a segurança provável do capital a ser investido. Este artigo tem a finalidade de analisar, os prós e contras da gestão ativa e a passiva. Será detalhado o processo decisório de uma instituição administradora de recursos de terceiros, demonstrando o papel do administrador e do gestor de fundo de ações, o que é a gestão ativa e a passiva, e a opinião dos grandes nomes das finanças do mundo sobre o assunto. 2 Hoje, no entanto, prevalece o conceito do Expert Prudent, exigindo que o administrador utilize técnicas mais refinadas de gestão. Nesse caso, as decisões tomadas pelo administrador não devem ser analisadas caso a caso, mas no contexto de um portfólio, incorporando dessa forma os conhecimentos da Moderna Teoria dos Portfólios sobre a contribuição individual de cada ativo, para o risco e retorno da carteira. O PAPEL DO ADMINISTRADOR E DO GESTOR DO FUNDO DE AÇÕES Segundo a instrução normativa da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) n° 306/99, onde constam as normas para administração de carteira de títulos e valores mobiliários, o administrador do fundo de investimento, são pessoas físicas ou jurídicas, que tem ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 89 ○ ○ ○ como responsabilidade a contabilização das operações dos fundos, guarda dos valores mobiliários, recolhimento de impostos e uma série de outras obrigações impostas pelas autoridades fiscalizadoras Banco Central BACEN e CVM. A atividade foi inicialmente disciplinada pela Instrução CVM, n° 43/85, que foi depois revogada pela Instrução CVM, n° 82/88, e esta, por sua vez, o foi pela Instrução CVM, n° 306/99. ○ INTRODUÇÃO ○ 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Muitas das 44 instituições financeiras que se inscreveram na pré-seleção da Secretaria de Previdência Complementar (SPC)1 para gerir os recursos das fundações sob intervenção foram desclassificadas por um descuido imperdoável. Algumas das assets enviaram para avaliação da SPC fundos passivos com rentabilidade maior que os dos seus fundos ativos. (REVISTA INVESTIDOR INSTITUCIONAL:2001a). Para acompanhar a gestão desses profissionais, algumas instituições financeiras criaram a figura do compliance, que é uma espécie de auditor interno que cobra desses administradores e gestores o fiel cumprimento do que está estabelecido no regulamento do fundo. Além disso, devem ser adotados mecanismos rígidos de controle interno e padrões éticos. A referência citada acima, refere-se ao processo de seleção das instituições financeiras, instituído pela Secretaria de Previdência Complementar SPC, do Ministério da Previdência, autarquia responsável pela fiscalização e normalização os fundos de previdência privada do Brasil. Outro mecanismo interessante, implementado através da Resolução CVM n° 2.451/97 e Instrução CVM n° 306/99, seguindo uma tendência internacional, foi a adoção do Chinese Wall, em que as instituições financeiras devem segregar a administração de recursos de terceiros das demais atividades da instituição, constituindo divisão com diretoria própria ou contratando administradora de recursos independente. Isso foi feito para evitar o conflito de interesses entre o fundo e a instituição financeira. Foi nessa oportunidade que as instituições financeiras criaram suas próprias empresas, especializadas em gestão de recursos, mais conhecidas como Asset Management, que ficam, na maioria das vezes, fisicamente separadas de seus bancos de origem. 3 GESTÃO ATIVA DE FUNDOS INVESTIMENTOS EM AÇÕES O segundo artigo refere-se ao mercado norteamericano: Os fundos de gestão passiva vencem os fundos ativos pelo quinto ano consecutivo. No ano 2000, o índice Standard & Poors 500 - S&P 500 fechou com valorização de 27% e o Nasdaq Composite em quase 38%. Enquanto isso, a média dos fundos de administração ativa ficou em 13,29%, de acordo com a Morningstar, empresa norte-americana especializada em avaliação de fundos. Segundo a pesquisa os clientes já estão começando a telefonar para as administradoras reclamando dos resultados e questionando por que não estão num fundo passivo. (REVISTA INVESTIDOR INSTITUCIONAL, 1999). DE Na gestão ativa, os administradores acreditam que conseguirão superar os índices de mercado, movimentando posições de sua carteira. Esses administradores exercem essa forma de gestão, por entenderem que possuem habilidades em executar um giro mais eficiente da carteira, acertando os pontos ótimos de compra e venda e descobrindo ações que estejam com seus preços sub-avaliados, ou seja, abaixo do seu preço justo de mercado. O terceiro artigo, saiu com o seguinte título: Mestres dos EUA preferem fundos passivos, diz: Muitos dos melhores e mais brilhantes professores de finanças dos Estados Unidos compõem um pacato grupo com preferência por discretos investimentos e aplicações em fundos passivos de ações. Segundo o artigo, a maior parte desses professores evita uma administração direta dos seus portfólios, contribuindo para fortalecer a teoria dos mercados eficientes, pela qual os preços das ações são baseados em informações públicas relevantes e nas expectativas dos investidores, tornando impossível a um investidor visto de forma isolada levar vantagem sobre o mercado durante a longa corrida. (REVISTA INVESTIDOR INSTITUCIONAL, 2001). A administração ativa deve focar a análise do valor dos ativos, na tentativa de identificar aqueles que, na opinião do investidor, estão incorretamente precificados pelo mercado, ou seja, apresentam divergência em relação ao consenso. É claro que esta não é uma tarefa fácil especialmente quando se considera que existem milhares de outros investidores buscando fazer o mesmo e que os preços dos ativos negociados refletem o consenso dessas avaliações. (SÁ,1999:135). Kent (2001), professor de finanças da J.L. Kellogg Scholl, no mesmo artigo enfatiza: Estou relutante em pagar pela administração ativa. Minha impressão é de que, na maioria dos casos, não vale a pena. O autor denota que os artigos recentemente publicados pelas revistas especializadas em finanças, vêm corroborar com aquilo que se chama de conflito de estratégias. Whitelaw (2001), professor de finanças na Leonard N. Stern Scholl of Business, também se manifesta contrário à gestão ativa: Foram publicados três artigos na revista Investidor Institucional que abordam o tema estratégia ativa de fundos de investimento. O primeiro artigo, denominado Descuido Imperdoável, saiu com a seguinte nota: ○ ○ 90 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Não há nada que se ganhe com uma administração ativa. Pelo menos o suficiente para compensar o dinheiro que vai ser gasto com isso, diz Whitelaw, explicando o porquê de seus colegas e ele próprio manterem seus recursos em fundos passivos.(REVISTA INVESTIDOR INSTITUCIONAL, 2001). ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ 3. Modelos de análise técnica ou gráfica, que usam informações de preço e de volume dos ativos para detectar as tendências dos preços; O que é melhor: ter um portfólio administrado de forma passiva, aquela que acompanha apenas a tendência atual do mercado, ou ativa, aquela mais agressiva, de apostas firmes em determinadas ações ou tendências futuras? Sharpe respondeu o seguinte: Na média, é melhor ter um portfólio administrado passivamente. A matemática pura mostra que, se você olhar todos os portfólios ativos em qualquer ou em um dado mercado, eles se saem pior ao longo do tempo. 4. Modelos de informação particulares (insider information), que tentam obter mais ou melhores informações sobre um ativo, as quais estão disponíveis para outros investidores. 4 Outro ponto a ser abordado na gestão ativa é a identificação dos timings, ou seja, o ponto ótimo de compra e venda. O que se observa hoje em dia é que isso se tornou uma tarefa bastante difícil para os gestores de fundos de ações, dada a quantidade de variáveis que foram impostas pelo processo de globalização e aumentaram sobremaneira o risco sistemático, ou não-diversificável exemplos: crise na Rússia, Argentina, Ásia, economia americana etc. O PROCESSO DECISÓRIO NA GESTÃO DOS FUNDOS DE INVESTIMENTOS EM AÇÕES A alocação de ativos recomendada para um determinado portfólio é função dos objetivos do cliente e de seu perfil de risco. Uma boa escolha dos ativos que irão compor o portfólio dos fundos é fundamental. O risco sistemático, demonstrado pela volatilidade econômica, e política nacional e internacional, interferem no lado fundamentalista das empresas e prejudicam, sobremaneira, a rentabilidade dos fundos de ações. Essa busca incessante pela maximização da rentabilidade dos fundos requer uma estrutura pessoal e tecnológica que incorre em grandes custos para as instituições que os administram através da gestão ativa. A política de gestão de recursos das instituições financeiras, especializadas em administrar recursos de terceiros, é formulada pelos seus comitês de investimentos, estes normalmente são integrados pelas diretorias executivas e pelos responsáveis das áreas de análise econômica, análise de renda variável e análise de crédito. Elas são custosas, em termos de tempo e de recursos necessários para encontrar os valores mobiliários mal avaliados e de custos de transação, que podem variar ao longo das estratégias.(DAMODARAN, 1998:209). Esses comitês têm como responsabilidade a formulação das estratégias a serem adotadas nos seus fundos de investimento, de acordo com o objetivo dos seus clientes em relação ao benchmark estabelecido, retorno esperado e o grau de tolerância ao risco. O autor afirma que geralmente nesses comitês de investimentos são discutidas as seguintes questões: No entanto, os investidores estão prontos para aceitar esse alto custo, desde que eles sejam superados pelos benefícios que oferecem, por exemplo, superar o Ibovespa. As estratégias de seleção ativa dos fundos podem ser classificadas, de forma satisfatoriamente ampla, em quatro grupos, conceituam (DAMODARAM; BERNSTEIN:178): 1. Determinação e atualização da política de investimentos em linhas gerais, em função da sua análise dos acontecimentos políticos, econômicos e financeiros; 2. Determinação da implementação da estratégia de investimentos; 3. Controle da aderência ao benchmark, estabelecido pelo cliente através de relatórios produzidos pelos administradores de carteira; 4. Aprovação de propostas de investimentos, as quais fogem aos padrões usuais de gestão (por exemplo: diversificação, liquidez etc.); 5. Decisão sobre a submissão aos clientes de propostas alheias ao mandato, em função de oportunidades momentâneas de mercado; 6. Análise das performances das carteiras dos fundos de investimento com os seus respectivos administradores responsáveis; 1. Modelos de avaliação intrínseca, que usam informação financeira para encontrar se o ativo está sub ou superavaliado. Nesse modelo, o valor de qualquer ativo é visto como uma função do fluxo de caixa gerado pelo ativo, a vida do ativo, o crescimento esperado nos fluxos de caixa e o risco associado aos fluxos de caixa. Ou seja, o valor de um ativo pode ser visto como o valor presente dos fluxos de caixa esperados sobre aquele ativo; 2. Modelos de avaliação relativa, que tentam encontrar ativos que estão sub-avaliados em relação aos outros comparáveis. Na avaliação relativa, o núcleo da questão está em encontrar os ativos mais baratos ou caros em relação a como os ativos similares estão sendo precificados pelo mercado no momento. É, ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 91 ○ ○ ○ ○ portanto, inteiramente possível que um ativo caro com base na avaliação intrínseca, seja barato sob uma base relativa; ○ William Sharpe, um dos maiores estudiosos do mercado de capitais, em uma entrevista concedida à Revista Bovespa (1977), foi perguntado: ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ em relação ao binômio risco e retorno. A segunda fase, a de customisação, consiste em adequar essa carteira aos diversos fundos de investimento, com perfis diferenciados (conservadores, moderados ou agressivos). 7. Definição de limites para arbitragens de curto prazo (day trade)1 para a mesa de operações. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Na maioria das empresas de Asset Management, a formulação das estratégias, realizadas em seus comitês, dá ênfase à abordagem Top-Down que abrange uma análise macroeconômica, a definição do asset alocation composição da macrocarteira uma análise setorial e, por último, a análise da empresa. A análise macroeconômica é o início desse processo, pois é a partir dela que se desenha o possível cenário para a economia, em um prazo estabelecido pelo comitê, que geralmente é de um ano. O resultado desse trabalho deve projetar as principais variáveis que influenciam na conjuntura econômica do país e, em particular, no dia-a-dia das empresas, como taxa de juros, câmbio, inflação, evolução do PIB2, as necessidades de financiamento do governo, o balanço de pagamentos de um modo geral, onde é analisado principalmente o saldo da balança comercial - exportações e importações -, o déficit em transações correntes e o nível das reservas internacionais. Tendo essas variáveis projetadas, parte-se para a segunda fase, que é a definição do Asset Alocation, ou seja, em que ativos aplicar. No caso dos fundos de investimento, a decisão fica em que percentual serão distribuídos entre as classes de ativos de renda variável e renda fixa. O autor afirma que a alocação de ativos geralmente passa por quatro etapas: 1. Definição da classe de ativos (ações de grandes empresas, ações de pequenas empresas, papéis de renda fixa, privados e públicos, de curto prazo e longo prazo, ativos imobiliários etc); 2. Estimativa de retorno de cada classe de ativo; 3. Estimativa de volatilidade das diferentes classes de ativos; 4. Definição dos objetivos de retorno para cada nível de risco do cliente. Decidido o percentual a ser aplicado em cada classe de ativo, no caso dos fundos de ações, decide-se em que setor da economia serão aplicados esses recursos. Alguns setores tendem em determinado momento a liderar a composição do índice Ibovespa, como é o caso atualmente das empresas de Telecomunicações que detêm forte participação nesse índice. Após escolhidos os setores, inicia-se a fase de construção do portfólio. Essa fase consiste em três partes: a otimização, customisação e implementação das ordens de compra e venda dos papéis. Na otimização, fica a responsabilidade do administrador em selecionar a carteira ótima que atenda às expectativas do investidor 1 Após a construção do portfólio, inicia-se a fase de controle e monitoramento do mesmo, onde são criados os relatórios de acompanhamento de risco e revista a composição da carteira. Essa fase é de suma importância, pois nela se observa se as ações da carteira do fundo realmente se enquadram ao perfil de risco estabelecido pelo comitê de investimento. Se, por acaso, alguma ação não venha atendendo ao perfil de risco e retorno estabelecido, é realizada a revisão do portfólio, onde estas ações podem ser vendidas dando oportunidade para compra de novas ações. Finalmente, a análise de performance, que visa a comparar se a rentabilidade da carteira está adequada ao benchmark estabelecido pelo investidor do fundo de investimento. Essa rentabilidade é quantificada através do método de quotas e, em alguns poucos casos, por exigência do cliente, é realizado o cálculo pelo método da Taxa Interna de Retorno TIR. 5 BENCHMARK DE FUNDOS INVESTIMENTO EM AÇÕES DE A escolha de um benchmark adequado é fundamental para quem deseja aplicar em um fundo de ações. É ele que determinará toda a estratégia do gestor do fundo, inclusive qual o risco que ele poderá incorrer. Tanto em carteiras individuais como coletivas, é importante determinar, de início, o benchmark em relação ao qual o desempenho da carteira será avaliado de forma objetiva, obrigando o administrador e administrado a uma certa disciplina na hora de investir e na hora de julgar o desempenho... O benchmark tem um papel adicional muito importante, o de lastrear e dar consistência às decisões em momentos de grande incerteza, diminuindo dessa forma o risco de decisões equivocadas. (PRADO;1998:51). Day trade são operações de compra e venda, realizadas no mesmo dia, em bolsas de valores, de mercadorias ou futuros, com o intuito de obter ganhos de capital de curtíssimo prazo. O lucro se dá pela diferença entre a compra e a venda ou vice-versa. PIB é a denominação para Produto Interno Bruto, que representa a produção de bens e serviços de um país. 2 ○ A fase de implementação trata da parte operacional da estratégia, em que os operadores executam as ordens determinadas pelos gestores dos fundos de investimento. Nessas ordens são estabelecidos as ações ou títulos que devem ser negociados e seus respectivos níveis de preços para a entrada e saída das posições. ○ 92 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Figura 1 Política de Gestão de Recursos ○ ○ OBJETIVOS DO CLIENTE – Benchmark – Retorno esperado e tolerância ao risco FORMULAÇÃO DA POLÍTICA DE MEDICAMENTOS ANÁLISE DA PERFORMANCE – Monitoramento das Posições – Comitê de Investimentos POLÍTICA DE GESTÃO DE RECURSOS CONTROLE E MONITORAMENTO FORMULAÇÃO DAS ESTRATÉGIAS – Quantitativo – Macroeconômico e – Microeconômico (análise top-down) – Relatório de Risco – Revisão do Portfólio CONSTRUÇÃO DO PORTFÓLIO – Otimização – Customisação – Implementação Fonte: Baseado em Bernstein e Damodaran (2000:12) O mercado define como sendo um bom índice, aquele que atende às seguintes especificidades (PICTET MODAL ASSET MANAGEMENT:2000): O segundo índice é o Índice Brasil IBX, que também é calculado pela Bolsa de Valores de São Paulo - BOVESPA, sendo elaborado em 28/12/1995 e tendo sua divulgação a partir de 02/01/1997. Esse índice é composto por 100 ações mais negociadas na BOVESPA, e o critério de seleção baseia-se no índice de negociabilidade semelhante ao do Ibovespa. A ação para pertencer a esse índice tem de ter sido negociada em pelo menos 70% dos pregões ocorridos nos doze meses anteriores à formação da carteira. Sua carteira teórica tem vigência de quatro meses, quando então será reavaliada. 1. Ser teoricamente bem-definido e representativo do mercado; 2. Ser definido a priori, isto é, os participantes do mercado sabem qual a composição do índice antes do início do período para medir a performance; 3. Ser representativo das transações do mercado: as ações que integram o índice podem ser compradas no mercado; 4. Ser amplamente divulgado e utilizado e, O terceiro índice é o Índice Brasileiro de Ações IBA, que é publicado pela Comissão Nacional de Bolsas de Valores CNBV. Esse índice é calculado desde 1986, sendo o único índice brasileiro cuja ponderação é feita pelo valor de mercado das empresas, e, portanto, melhor definido do ponto de vista teórico. Apesar disso, o IBA apresenta alguns problemas. Para as empresas que possuem dois tipos de ações negociadas, por exemplo, ON e PN, apenas o papel mais líquido é incluído no índice. 5. Ser um índice cuja performance é difícil de ser batida (por exemplo, não colocar um índice de renda fixa, como o CDI, para benchmark de um fundo de ações). Os três índices de ações mais utilizados no Brasil são o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo - Ibovespa, o Índice Brasil IBX e o Índice Brasileiro de Ações IBA. A maior ênfase recai sobre o Ibovespa, principal índice do mercado acionário brasileiro, e benchmark, utilizado pelos fundos analisados neste trabalho. O Ibovespa é o mais importante indicador do desempenho médio das cotações do mercado de ações brasileiro. Retrata o comportamento dos principais papéis negociados na BOVESPA, que passou a ser a única Bolsa brasileira a negociar ações. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ São incluídas na amostra ações que tenham participado de pelo menos 80% dos pregões nos últimos 6 meses e que tenham tido, no mínimo, uma média de 10 negócios por pregão. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 93 ○ ○ ○ ○ ○ ○ 6 ○ ○ ○ Essa teoria tem levado a uma concentração de recursos aplicados em bolsa, em um pequeno número de empresas, o que pode estar causando enormes sobrevalorizações dessas ações. Isso é fruto exatamente da procura exacerbada de um benchmark para acompanhar a rentabilidade dos fundos de investimento. Ou seja, como todos querem acompanhar um determinado índice de bolsa, todos compram os mesmos papéis. Na realidade, isso pode ser explicado também pela procura de liquidez pelos investidores. Comprando os papéis do índice, estão comprando papéis que têm seu capital social pulverizado. Para os investidores globais que possuem um perfil claramente especulativo e que investem em ações de países considerados emergentes, é necessário que o investimento apresente uma porta de saída, o que só se torna possível através de ofertas de empresas listadas em bolsa que possuam excelente liquidez. GESTÃO PASSIVA DE FUNDOS DE INVESTIMENTO EM AÇÕES ○ ○ ○ ○ ○ Bodie et al (2000:253), conceitua a gestão passiva da seguinte forma: Uma estratégia passiva busca apenas estabelecer uma carteira bem diversificada de títulos, sem tentar achar ações sobre ou subvalorizadas. A gestão passiva é, normalmente, caracterizada por uma estratégia de comprar e manter. Os administradores que atuam de forma passiva, acreditam que, na média, os esforços e custos associados custo de pessoal e tecnológico, comissões de corretagem, taxa de administração e de performance, dentre outros não justificam eventuais pequenos ganhos de performance obtidos pelos administradores ativos. Conseqüentemente, é melhor construir uma carteira assemelhada a um índice de mercado e não correr riscos do que movimentar as ações, na tentativa de propiciar maiores ganhos ou gerar maior valor agregado, que nem sempre são verificados. A limitação básica dos fundos de gestão passiva é que eles não podem fornecer mais do que foi pactuado, ou seja, superar o índice de mercado escolhido como benchmark. Na medida em que um investidor quer ganhar do mercado, isso pode não ser uma boa alternativa. Pode-se também argumentar que a tendência de fundos passivos em reproduzir índices bemconhecidos (tais como o Ibovespa) pode resultar em uma superavaliação das ações nestes índices, especialmente quando os fundos indexados tornam-se mais populares. Enfim, o administrador de gestão passiva procura replicar sua carteira a um determinado benchmark, com o objetivo de acompanhar a rentabilidade desse índice. A carteira desses fundos, portanto, é semelhante à composição do índice escolhido. A mecânica dos fundos que pretendem acompanhar determinado índice de mercado é bastante simples. O primeiro passo é identificar o índice que o fundo planeja reproduzir. Em geral, são escolhidos pelos investidores, dois dos principais índices do mercado acionário brasileiro: o Ibovespa e o IBX. É importante salientar que o retorno desses índices no longo prazo é bastante correlacionado. O segundo passo é criar uma carteira de ações com os mesmos pesos da carteira do índice, e ficar atento em relação à mudança da composição dessas carteiras. O Ibovespa, por exemplo, revisa sua carteira quadrimestralmente. Nessas mudanças, pode ocorrer a entrada de novas ações, bem como a saída de algumas que perderam liquidez. CONCLUSÃO A moderna teoria de portfólio deu sua contribuição para a gestão passiva e alterou fundamentalmente os enfoques individuais e institucionais em direção ao investimento. Conforme enfatiza Rossman (2001: 278), As responsabilidades do gestor e do administrador e o processo decisório dos fundos de investimento, por exemplo, nem sempre são informados aos investidores. É necessário que o investidor conheça qual o estilo de gestão, se o fundo possui uma estratégia ativa ou passiva, pois isso permitirá um melhor acompanhamento de seu investimento e maiores questionamentos em relação a rentabilidade e risco incorridos sobre seu investimento. A indústria de fundos de investimento, devido à sua relevância no mercado financeiro, tem sido motivo de constante observação pelos investidores brasileiros. Apesar de sua pujança, em termos de volume administrado, os fundos ainda possuem um histórico relativamente pequeno, quando comparados aos investimentos mais tradicionais, como o certificado de depósito bancário e a caderneta de poupança. Este artigo teve o propósito de dirimir algumas dúvidas existentes sobre essa modalidade de aplicação financeira, fornecendo aos investidores subsídios para sua tomada de decisão. a teoria conclui que um portfólio bem diversificado é ótimo e mais bem adquirido através da manutenção de posições no mercado. Nesse caso, o mercado é considerado como o portfólio de ações listadas nas principais bolsas de valores, que nada mais é do que um índice de mercado, como o Ibovespa. ○ ○ 94 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ , v.1, n.1, jan./jul. 2003. ○ ○ ○ ○ ○ ○ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Mestres dos EUA preferem fundos passivos. Revista Investidor Institucional. São Paulo, n. 101, p. 24, 2001. BARBER, Brad; LEFTWICH, Richard. O falso chamariz dos retornos superiores. In: Dominando finanças. São Paulo: MAKRON Books, 2001. p. 259-266. MUNIZ, José Carlos; KISTLER, Henri Eduard. Portfólios ótimos: um exemplo prático. Informe SENN. Rio de Janeiro, n. 23, p.10-12, maio. 1994. BODIE, Zvi, Kane Alex; MARCUS, J. Alan. Fundamentos de investimentos. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2000. O desafio é popularizar os investimentos em fundos. Revista Gazeta Mercantil. Latino-Americana. Ano 2, n. 2, p. 11-12, 2001. 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Estudos empíricos do mercado financeiro, tem revelado ineficiências que podem ser exploradas para selecionar ○ ○ ○ Aceitamos permuta. Entre em contato! Rua Castro Monte, 1364 (esquina com Júlio Abreu) FONE: (0 _ _ 85) 486.9015 FAX: (0 _ _ 85) 267.5169 e-mail: [email protected]