5 UNIVERSIDADE CATÓLICA BRASÍLIA - UCB Pró-Reitoria de Graduação Curso de Psicologia Trabalho de Conclusão de Curso CURSO DE PSICOLOGIA PROFESSORES: DESAFIOS E PRAZERES PROJETO DE PESQUISA NO TRABALHO EM Mental dos professores da rede públicaFEDERAL do DF ESCOLASSaúde PÚBLICAS DO DISTRITO Luciana Maria Dias Mota Orientadora: Gleicimar Gonçalves Cunha Autora: Luciana Maria Dias Mota Orientadora: Profª. MSc. Gleicimar Gonçalves Cunha Projeto de Pesquisa apresentado como parte das exigências para conclusão da Graduação em Psicologia Brasília 2011 Brasília - DF 2011 LUCIANA MARIA DIAS MOTA PROFESSORES: DESAFIOS E PRAZERES NO TRABALHO EM ESCOLAS PÚBLICAS DO DISTRITO FEDERAL Artigo apresentado ao curso de graduação em Psicologia da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para obtenção do Título de Psicólogo. Orientadora: Cunha Brasília 2011 MSc. Gleicimar Gonçalves Artigo de autoria de Luciana Maria Dias Mota, intitulada de “Professores: desafios e prazeres no trabalho em escolas públicas do Distrito Federal”, apresentada como requisito parcial para a obtenção do grau de Psicólogo da Universidade Católica de Brasília, em 14 de junho de 2011, defendida e aprovada pela banca examinada abaixo assinada: MSc. Gleicimar Gonçalves Cunha Orientadora Psicologia - UCB MSc. Lúcia Henriques Sallorenzo Banca examinadora Psicologia - UCB Brasília 2011 AGRADECIMENTOS Ao longo dessa caminhada estiveram ao meu lado pessoas essenciais para a conquista desse sonho, que viveram comigo momentos de angústia, desesperança, dificuldades e enfrentamento das batalhas diárias. Durante a trajetória acadêmica, os obstáculos e desafios foram muitos, mas ao meu lado pude contar com o apoio de pessoas que jamais deixaram de acreditar no meu potencial. Não tenho dúvidas que Deus foi um dos meus maiores alicerces para acreditar que seria possível, esteve comigo em todos os momentos, principalmente naqueles de maior dificuldade e jamais me deixou desistir! A minha mãe Delzuita pelo exemplo de vida, por me incentivar, acolher, aconselhar e jamais deixar de acreditar nos meus sonhos. Você com certeza é a maior responsável pela realização deste sonho. Foi a pessoa que mais me estimulou na minha trajetória acadêmica. Te amo incondicionalmente. A minha avó Maria Avelina (In- Memoriam) pelo carinho, incentivo, investimento escolar e por acreditar no meu potencial. Ao meu pai Manoel (In-Memoriam) por me educar e pela maneira de me fazer entender a vida. Ao meu irmão Jonathan pela companhia, cumplicidade e alegria de viver. Você me ensina todos os dias. Aos meus tios Milton e Dejanira pelo apoio e incentivo. Ao meu namorado Rômulo, que com sua presença amorosa, tornou os meus dias mais felizes, compartilhou todos os momentos de angústia e alegria durante minha trajetória acadêmica. Por todo carinho, cumplicidade, compreensão, especialmente nos momentos em que estive ausente. A minha amiga de graduação, Fabiana, pela convivência, carinho, pelos incansáveis momentos de estudo, e por estar em distintos e importantes momentos da minha graduação. Mais que uma amiga, tornou-se uma irmã. As minhas amigas Solange e Juliana pela amizade, compreensão, paciência e apoio. A minha orientadora Gleicimar, pela disponibilidade, transmissão de conhecimento, paciência, pelas conversas esclarecedoras e motivadoras, principalmente nos momentos de aflição. Obrigada pela tranquilidade e apoio. A professora Lúcia, por aceitar o convite para participar da banca examinadora. Aos participantes dessa pesquisa pela gentileza e delicadeza de aceitar o convite. 5 PROFESSORES: DESAFIOS E PRAZERES NO TRABALHO EM ESCOLAS PÚBLICAS DO DISTRITO FEDERAL LUCIANA MARIA DIAS MOTA Resumo: Este artigo tem como objetivo principal conhecer as principais vivências de prazer e sofrimento dos professores da rede pública do Distrito Federal (DF), que atuam na Regional de ensino de Taguatinga. Participaram deste estudo, seis professores de diferentes níveis de ensino (dois de ensino infantil; dois de ensino fundamental e dois de ensino médio), incluindo a clientela da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Na busca dos objetivos expostos, a metodologia utilizada foi a pesquisa qualitativa, alicerçada na Psicodinâmica do trabalho de Dejours e reflexões teóricas a respeito da Educação. A coleta de dados foi realizada a partir de entrevistas individuais guiadas por um roteiro de entrevista semi-estruturada. Para compreensão das informações levantadas, utilizou-se da análise dos núcleos de sentido (ANS), elaborada por Ana Magnólia (2007), inspirada e adaptada na análise de conteúdo categorial temática desenvolvida por Bardin (2004). Desse modo, foram identificados três eixos temáticos: vivências de sofrimento na docência, vivências de prazer na docência e estratégias de enfrentamento. Em cada eixo temático foram contemplados diferentes aspectos: perspectiva teórico-metodológica de ensino, referência familiar, influência da informática, rotina de trabalho, desvalorização do professor, recursos físicos/humanos, adoecimento, autorealização, contato com os alunos. Os resultados apontam que determinados fatores potencializam o sofrimento dos professores: a falta de interesse dos alunos, as condições de trabalho, e principalmente o não reconhecimento social da docência. A maior fonte de prazer é a relação com o aluno. Dentre as estratégias de enfretamento utilizadas pelos docentes, o apoio e cooperação dos colegas de trabalho são os mais utilizados. Palavras chaves: Professores, trabalho, vivências de prazer e sofrimento. Teachers: challenges and pleasures at work Abstract: This article aims at knowing the main experiences of pleasure and pain of public school teachers in the Federal District (DF), who work in regional schools in Wansbeck. Participated in this study, six teachers from different education levels (two kindergarten, two in elementary school and two in high school), including customers of Youth and Adults (EJA). In pursuit of the objectives set out the methodology used was qualitative research, based on the psychodynamics of work Dejours and theoretical background in Education. Data collection was performed from individual interviews guided by a roadmap for semi-structured interview. The methodology for data analysis, we used analysis of meaning units (NSA) prepared by Ana Magnolia (2007), inspired and adapted in the analysis of categorical content theme developed by Bardin (2004). Thus, we identified three main themes: experiences of suffering in teaching, experiences of pleasure in teaching and coping strategies. The themes were divided into themes, the life experiences of suffering in teaching were found: the theoretical methodology of teaching, reference family, the influence of information technology, work routine, devaluation of the teacher, physical / human and illness. In experiencing pleasure in teaching identified four themes: the theoretical methodology of teaching, the influence of information technology, self-realization and connect with students. The coping strategies were presented by the units of meaning. The results indicate that certain 6 factors, potentiate the plight of teachers: the lack of student interest, working conditions, and especially not social recognition of their work. The greatest source of pleasure concerns relations between teachers and students. Among the coping strategies used by teachers, the support and cooperation from coworkers are the most used. Keywords: Teachers, work, experiences of pleasure and pain. 1 INTRODUÇÃO Este estudo aborda a saúde mental dos professores na rede pública do DF. Esta proposta decorre da preocupação com a qualidade de vida desses docentes, cujas condições de trabalho configuram um quadro problemático, permeado por desafios que vão desde condições precárias de trabalho até a desvalorização social da docência. Adicionado a esse quadro, os professores sofrem com baixos salários; escassez de recursos didáticopedagógicos; ausência de espaços para reflexão; falta de motivação para o estudo por parte deles próprios e de seus alunos; baixa participação dos pais no processo de escolarização dos filhos; descontinuidade das políticas públicas na área da educação; autoritarismo na implementação dos projetos político-pedagógicos; insuficiente apoio afetivo; alunos muito diferentes dos idealizados por eles; centralização das decisões administrativas e pedagógicas; exigências que resultam em um excesso de responsabilidade para o professor. Em virtude da gravidade do quadro, cujas consequências incidem não somente sobre o professor, mas também sobre seus alunos e consequentemente sobre a sociedade, o número de pesquisas nesta área vem crescendo significativamente, indicando a necessidade urgente de compreensão deste assunto. Entretanto, mais que compreender é essencial promover ações que possam contribuir de maneira efetiva para qualidade de vida do trabalho docente. Não é difícil compreender porque existem percentuais tão altos de abandono da profissão docente e de adoecimento do professor (BRAND, 2008; CLARO, 2009; ESTEVE, 1999; CODO & GAZZOTTI, 1999, SOUZA, 2007). Claro que não são apenas as condições organizacionais da educação as responsáveis pelos problemas com a saúde dos professores, características da própria atividade, exigências da sociedade e características pessoais também são fatores que devem ser levados em consideração. Diante desse cenário, propõe-se esta pesquisa cujo objetivo capital é conhecer as principais vivências de prazer e sofrimento no trabalho docente. Nesse sentido, inicialmente serão tecidos alguns comentários sobre o significado do trabalho na pós-modernidade, com intuito de compreender as mudanças do mundo do trabalho e suas repercussões junto ao trabalhador. Em seguida, o trabalho docente será abordado com foco em seus prazeres e desafios, dado que o trabalho é fonte de realizações importantes para qualquer ser humano, mas também desafios diários, sobretudo porque, na atualidade, o papel do professor ultrapassa o contexto escolar, pois, além da responsabilidade de educar, esse profissional assumiu o compromisso de formar cidadãos. Por último, apresentar-se-á um resgate da psicodinâmica do trabalho, tendo como embasamento teórico Cristophe Dejours, a fim de analisar as vivências de prazer e sofrimento no trabalho. Em última instância, pretende-se oferecer subsídios para o desenvolvimento de ações frente aos desafios presentes na atuação do professor, levando em consideração que uma prática pedagógica bem sucedida requer uma leitura cuidadosa dos fatores que podem influenciar de forma positiva ou negativa o processo de ensino aprendizagem. 7 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 SIGNIFCADO DO TRABALHO NA PÓS- MODERNIDADE De acordo com Borges e Yamamoto (2004) e Mendes (1999), existe uma gama de significados para a palavra trabalho, pois cada sujeito atribui um sentido diferenciado conforme suas vivências individuais e o contexto em que está inserido. Sabe-se, através de incansáveis estudos sobre o assunto, que o trabalho deriva de necessidades naturais do homem, desde os primórdios da civilização até os dias atuais. Além disso, o trabalho possui um papel importante na vida do homem tanto no aspecto individual como social. Portanto, não existe um conceito restrito do que significa trabalho. Existe um conjunto de ideias construídas ao longo da história, que carregam consigo diferentes concepções. O aprofundamento dessas concepções requer uma passagem minuciosa sobre o trabalho no campo da economia, sociologia, psicologia, administração, política, direito, dentre outras. Entretanto, nesta pesquisa será privilegiado o trabalho na pós- modernidade, sobretudo porque com o surgimento do capitalismo as mudanças no mundo do trabalho tornaram-se mais visíveis. Segundo Silva e Biehl (2006), o trabalho começou a sofrer alterações no início da pósmodernidade, devido ao avanço tecnológico e o processo de globalização. Dentre as várias discussões geradas por tantas mutações, o papel do trabalho tem suscitado diferentes concepções, existindo aqueles que defendem o trabalho como mal necessário ou como forma de dignificar o homem. Mendes (1999) acrescenta que o mal necessário assume uma visão de trabalho como obrigação, esforço, necessidade de sobrevivência, castigo e sofrimento, ou seja, meios necessários para sustentar a vida. Já a visão de dignificar o homem traz o sucesso, a independência, riqueza, status, capacidade de produção e prazer, como características que permitem “alcançar satisfação plena”. A globalização tem gerado transformações nas instituições e na vida do trabalhador, que antes vivenciava um mundo de trabalho delimitado, com atividades repetitivas e sem especialização, agora passou a se ver diante uma ruptura drástica, tanto no modo de sentir como executar suas tarefas. Dessa forma, impõe-se um novo perfil profissional, exigindo atividades laborais com foco na eficácia e nos resultados, em detrimento da maneira como esses resultados venham a ser alcançados. Cabe ressaltar que a adaptação do trabalhador não se deu de forma simples, mas foi um desafio tanto para eles como para as organizações (SILVA & BIEHL, 2006; CLARO, 2009). Dentro dessa perspectiva, as atribulações no mundo do trabalho são decorrentes das inúmeras mudanças ocorridas nas últimas décadas, a partir daí, abriram-se novas formas e significados que regulam a ação do homem. O trabalho passou a ser marcado cada vez mais pela lucratividade e competitividade. Sobre isso, Claro (2009, p.30) afirma: [...] O mundo do trabalho passou a ser marcado cada vez mais pela competição no mercado. O trabalhador, com a crise de poder dos sindicatos, precisou organizar-se e reestruturar-se de forma isolada, para assimilar as novas exigências apresentadas pela globalização. Numa outra perspectiva de análise, percebe-se que a inovação tecnológica é uma das responsáveis pelo surgimento do trabalho flexível 1, tendo como um dos principais objetivos, colaboradores com várias habilidades, capacitados para exercer diversas funções, reduzindo, 1 Conceito de flexível é caracterizado para exemplificar as novas formas de trabalho, que possibilitam ao homem exercer uma variedade de tarefas no seu processo de trabalho, permitindo ainda a utilização de diversas competências individuais. 8 assim, o quadro de funcionários nas organizações. Dentro desse modelo, o trabalho passou a ocorrer por processos, ou seja, sequências de atividades com início, meio e fim, o que acarretou aos sujeitos maior responsabilidade sobre seu trabalho (SILVA & BIEHL, 2006). De acordo com Castro-Silva (2006), os padrões flexíveis de trabalho modificaram elementos como jornada de trabalho, estabilidade no emprego, a forma como as atividades são discriminadas, relações de hierarquia, dentre outras características que demonstram como o trabalho passou a ser regido por tarefas. O trabalho flexível tem como característica a liberdade e a autonomia, as quais foram dadas ao sujeito para cumprir metas e alcançar bons resultados, ou seja, essa concepção é contraditória, dado que a “liberdade” é ilusória, pois a responsabilidade e as exigências decorrentes do trabalho vêm requerendo do trabalhador empenho e dedicação, sob risco de serem vistos como incompetentes se fracassarem em qualquer uma das atividades (SILVA & BIEHL, 2006). Borges e Yamamoto (2004) destacam ainda outra particularidade ocasionada pela adoção da tecnologia na produção do trabalho: a especialização dos colaboradores e líderes de equipe, por existir uma resistência por parte dos trabalhadores da inserção do uso das máquinas. Além disso, para alguns, a tecnologia significava a desqualificação e extinção de cargos trabalhistas. Por essas razões, muitas organizações passaram a utilizar novas técnicas de gestão, que consistem em estratégias pra lidar com o trabalhador, dentre elas, está à participação do trabalhador nas decisões dos processos de trabalho, ou seja, gestão participativa. Sendo assim, o trabalhador precisou se organizar de forma rápida e isolada, para assimilar as novas exigências apresentadas pela globalização. Ainda sobre essa perspectiva, Landini (2007) ressalta que é importante considerar que a forma de organização do trabalho na modernidade, marcada pela racionalização, sobrecarga de trabalhos burocráticos, precarização, perda de autonomia, excesso de trabalho e a rotina, aciona um processo que passa pela ruptura entre trabalho como expressão da realização humana e trabalho como mercadoria. Por essas razões, o impacto da tecnologia continua sendo discutido, porque aliada a ela ocorreram diversas mudanças nas estruturas organizacionais e de gestão. As mudanças de modelos antigos sempre trouxeram críticas, por exemplo, o modelo fordista/taylorista tinha como proposta a organização e controle dos processos de trabalhos, tarefas repetidas, divisão do trabalho, amplo conhecimento técnico, dentre outras atividades que exigiam o corpo como ferramenta principal do trabalho. Essas reformas tinham como principal objetivo abandonar antigos sistemas e começar tudo de novo, porém, essas transformações implicam diretamente na mudança de comportamento do trabalhador, pois, em decorrência das expectativas das organizações, este se sente obrigado a se adaptar às novas mudanças de forma rápida (BORGES & YAMAMOTO, 2004; CLARO, 2009). Diante desse cenário, cabe destacar a qualificação do trabalhador, como uma das características que fizeram parte da pós- modernidade e afetaram diretamente o trabalhador. As instituições passaram a exigir dos trabalhadores não apenas o conhecimento do produto do trabalho, mas a eficácia, vasta experiência e adaptação ao novo, ou seja, um conjunto de conhecimentos científicos e técnicos. Para tal objetivo, tornou-se necessário qualificar os profissionais, através de cursos, treinamentos e investimentos gerais que proporcionavam aos sujeitos maior conhecimento sobre seu trabalho (MERLO & LAPIS, 2007). Alves e Antunes (2004) destacam que compreender os trabalhadores ou a classe trabalhadora atualmente, implica entender este conjunto de seres sociais que vivem da venda da sua força de trabalho. O sujeito se reconhece em seu trabalho, que, como qualquer outra atividade, precisa ter um significado, um valor para aquele que o realiza. Contudo, com tantas exigências para um bom perfil profissional, a vergonha do fracasso tornou-se um sentimento repetitivo na pós-modernidade, substituindo a culpa da modernidade. 9 Aliado a esses fatores, os trabalhadores enfrentam sentimentos e emoções diferenciados, pois se vêem obrigados a tomar decisões de forma individualizada, solitária e indecisa. Disso decorre um aprofundamento de sua subjetividade privatizada, que lhe impõe questões existenciais difíceis de serem solucionadas: Quem sou eu? O que considero justo? A culpa é minha? Será que consigo desempenhar esse trabalho? O que estou fazendo é certo ou errado? Diante dessas questões, o homem se encontra numa situação de conflito e dúvida. Dessa forma, o homem é lançado à condição de desamparo, obrigando-se a escolher seus caminhos e ser responsável pelas consequências dessa escolha (FIGUEIREDO & SANTI, 2002), ainda que nem sempre encontre dentro de si estratégias de enfrentamento necessárias e criativas para lidar com os desafios que o processo decisório e o universo do trabalho lhe impõem. 2.2 O TRABALHO DOCENTE: SEUS PRAZERES E DESAFIOS Houve um tempo em que o ingresso na carreira docente era cercado de grandes expectativas. Nessa atividade vislumbrava-se o reconhecimento, a realização e o prazer de transmitir conhecimentos para formar bons cidadãos. Há alguns anos o docente exercia um papel de grande valor, de aliado dos pais para o cumprimento da disciplina. Percebe-se no atual contexto que o papel do professor vem modificando conforme as transformações aceleradas. Há algumas décadas, se o aluno obtivesse baixo rendimento, a responsabilidade era exclusiva dele, atualmente a responsabilidade é toda do professor (ESTEVE, 1999). Segundo Gasparini et al (2005) e Landini (2007), as condições de trabalho, as reformas educativas, as transformações sociais, administração pública burocrática e os modelos pedagógicos, são alguns fatores que geraram mudanças na profissão docente, estimulando a reformulação de políticas públicas. Para Oliveira (2004), essas reformas são marcadas pela padronização e massificação dos processos pedagógicos, com o objetivo de ampliar o acesso à escolaridade, que, por sua vez, tem como interesse político a suposta “redução de desigualdades sociais”. A igualdade de oportunidade para todos é ilusória, dado que cada vez mais novos profissionais entram no mercado de trabalho, e não poderia ser diferente com a categoria dos profissionais de educação. A violência, a indisciplina nas salas de aula, agressões físicas e verbais são alguns dos desafios enfrentados no dia a dia desses trabalhadores. Essa situação se torna ainda mais crítica, quando o professor se depara com a necessidade de cumprir vários papéis, que exigem dele uma estrutura emocional nem sempre presente. Dessa maneira, Esteve (1999, p. 31) relata que: [...] Assim, exige-se do professor que seja um companheiro e amigo dos alunos ou, pelo menos que se ofereça a eles como apoio, uma ajuda para seu desenvolvimento pessoal, mas, ao mesmo tempo, exige-se que ele faça uma seleção ao final do curso, na qual, abandonando seu papel de ajuda, deve-se adotar um papel de julgamento que é contraditório ao anterior. Exige-se do professor que se ocupe do desenvolvimento individual de cada aluno, permitindo o nascimento e a evolução de sua própria autonomia [...] Soratto e Oliver-Heckler (2002) acrescentam que o trabalho docente carrega consigo conflitos diários, entre os quais a variedade de atividades exercidas, as quais contribuem para o desgaste físico e emocional. Apesar dessas atividades serem flexíveis, permitindo que o professor possa preparar um aula com antecedência, criar situações do dia a dia para exemplificar a aula, utilizar sua criatividade para repassar alguns conteúdos e repensar propostas curriculares, colabora para que esse docente se sinta responsável por todo o 10 processo de ensino-aprendizagem dos alunos, o que implica utilizar de horas extra classe para cumprir algumas atividades burocráticas, sacrificando, desse modo, sua vida pessoal. Essa relação retrata o prazer que o professor tem de se sentir importante para o outro e as dificuldades enfrentadas para a realização do trabalho docente. Para Soratto e OliverHeckler (2002, p.121), “enquanto muitos trabalhadores suportam o trabalho e através do salário buscam satisfazer seus desejos, o professor, ao contrário, suporta o salário para continuar tendo o privilégio de satisfazer um desejo que é de todos nós, mudar o mundo através da sua ação”. No caso do desgaste emocional relacionado ao trabalho do professor, diferentes pesquisas como as de Codo e Vasques-Menezes (1999); Esteve (1999); Claro (2009), Landini (2007), referem-se à síndrome da desistência – burnout. Essa expressão designa uma exaustão emocional ligada ao trabalho e compreende, atualmente, uma das principais doenças desenvolvidas pelos professores. Frente a esse quadro percebe-se que os docentes se encontram em uma via de mão dupla: por um lado, o prazer e a satisfação de um trabalho desafiador, que explora suas potencialidades e o permite contribuir com um desiderato muito nobre, a transformação da sociedade; por outro, a desvalorização e acúmulo de exigências, que prospecta possíveis patologias. Segundo Brand (2008), enquanto muitos trabalhadores têm como produto de trabalho os objetos ou a força de trabalho, para o educador o produto é o “Outro”. Essa relação permeia afeto, nela estão envolvidos sentimentos de alegrias, satisfações, sonhos, carinho e outros fatores envolvendo a subjetividade, que o professor não tem poder de controlar, sendo assim, eles precisam ter um equilíbrio emocional em relação aos próprios sentimentos. Nesse sentido, Soratto e Oliver-Heckler (2006, p. 115) afirmam que “quando não há espaço para que se dê vazão a essa afetividade, quando não é possível o reconhecimento do próprio esforço no produto final, ameaçando a identidade do trabalhador, ele sofre”. Cabe salientar ainda que o trabalho docente deixa pouco tempo para a vida familiar e o lazer, pois além de enfrentar uma dupla jornada de trabalho, precisam cuidar das atividades domésticas, acompanhar a vida dos filhos e demais responsabilidades pessoais. A atuação do professor é composta por uma série de contradições, ao tempo que exige estudo, dedicação e horas a mais de trabalho, existe, por outro lado, fontes de satisfações e gratificações. De acordo com Neves e Silva (2006), a interação professor-aluno é uma das características que proporcionam prazer a esses trabalhadores, uma vez que o relacionamento sócio-afetivo com os alunos estabelece uma percepção do professor sobre os resultados de seu trabalho, além de desafiar e estimular seu desenvolvimento. O professor de ensino fundamental torna-se instrumento responsável pelo sucesso ou fracasso da alfabetização dos alunos, revelando a injusta cobrança da sociedade, que não leva em consideração a importância da participação das políticas atuais da educação, as quais, em geral, sequer contemplam as necessidades reais do universo escolar. Em uma de suas pesquisas, Muniz e Mariano (2006) ressaltam que as professoras de ensino fundamental, enfrentam, no cotidiano do seu trabalho, a falta de interesse dos alunos, a falta de atenção às aulas, o desrespeito ao mestre em sala de aula e a falta de retorno positivo, como um conjunto de sentimentos que ocasionam angústia, cansaço, desgosto, desesperança, estresse e desmotivação, comprometendo a saúde do docente. Além disso, atualmente um elevado número de alunos com histórico de reprovação no ensino fundamental e consequente defasagem série-idade abandona os bancos escolares, permanecendo afastado da escola até alcançar a idade que os permite ingressar na Educação de jovens e Adultos (EJA). Esta modalidade de ensino, nesse sentido, compreende um enorme desafio para o professor, pois requer deste uma atuação que recupere um atraso acumulado ao longo de um processo de escolarização marcado pelo fracasso e abandono. 11 Dessa maneira, os desafios atuais do trabalho docente não se concebem apenas por transmissão de saberes, mas necessita de um espaço para reflexão e de construção de conhecimento, uma vez que no EJA há uma diversidade de problemáticas relacionadas ao contexto social, econômico e político, que estão intimamente entrelaçadas nas práticas pedagógicas (SCORTEGAGNA & OLIVEIRA, 2008). Diante dos prazeres e desafios encontrados no trabalho docente, torna-se fundamental investigar as vivências de prazer e sofrimento no trabalho, buscando entender o discurso desses profissionais com enfoque na saúde mental. 2.3 CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A PSICODINÂMICA DO TRABALHO As vivências de prazer e sofrimento no trabalho vêm sendo estudadas pela abordagem da psicodinâmica do trabalho, desenvolvida por Christophe Dejours (1994). Esta tem como proposta privilegiar o debate acerca da saúde mental dos trabalhadores vinculados à situação de trabalho, propondo-se a analisar a dinâmica dos processos psíquicos. Neste sentido, o autor articula que o trabalho é o lugar de encontro com o prazer, e o sofrimento, sendo, por esta razão, dada ênfase no estudo da psicodinâmica do trabalho, ou seja, das relações dinâmicas entre organizações do trabalho e subjetivação (DEJOURS & ABDOUCHELI, 1994; MENDES, 1999). Segundo Mendes (2007), a psicodinâmica do trabalho tem sua trajetória histórica e conceitual compreendida por três fases. Na primeira, conhecida como psicopatologia do trabalho, inaugurada por psiquiatras sociais, buscava o nexo causal entre condições de trabalho e adoecimento mental, concentrando, assim, os estudos na compreensão do sofrimento e das estratégias defensivas individuais e coletivas. Influenciado por essas ideias, Dejours (1994) tinha como intenção compreender as vivências de prazer e sofrimento. Desse modo, surge a segunda fase da psicodinâmica do trabalho, que trouxe como enfoque as vivências de prazer e sofrimento, considerando as dialéticas inerentes ao contexto de trabalho, assim como as estratégias que são utilizadas pelos trabalhadores para manter a saúde e evitar o adoecimento. Na última fase, o foco não está somente nas vivências de prazer e sofrimento, mas no reconhecimento da realidade das situações concretas. Em outros termos, no sentido atribuído a essas vivências e no uso de estratégias, especialmente as defesas coletivas e a cooperação. De acordo com Mendes (1999), as vivências de prazer são sentidas quando o trabalho favorece a valorização e o reconhecimento tanto para a instituição como para sociedade. A criatividade, admiração e o orgulho pelo que faz, também são fontes de prazer. Por outro lado, as vivências de sofrimento estão associadas à divisão e padronização de tarefas, rigidez hierárquica, exagero de procedimentos burocráticos, ingerências políticas, falta de participação nas decisões, falta de reconhecimento e a não perspectiva de crescimento profissional. Para compreender a complexidade das relações de trabalho, Castro- Silva (2006) relata que o trabalho é mais do que o ato de trabalhar ou vender sua força de trabalho em busca de remuneração. O trabalho caracteriza-se como atividade humana ontológica, mediada individual e coletivamente, que se caracteriza por garantir a sobrevivência e proporcionar bem estar ao indivíduo. O trabalho é um encontro com o prazer, e o sofrimento instala-se quando a realidade não oferece as possibilidades de gratificação dos desejos, sendo do tipo de organização do trabalho e funcionamento organizacional específico que se encontram as origens deste sofrer, que não é permanente e constitui um mobilizador para a busca de prazer (MENDES, 1999, p. 48). 12 A descoberta empírica mais surpreendente do estudo da psicodinâmica do trabalho refere-se a estratégias defensivas. Elas referem-se aos modos de agir individualmente ou coletivamente levando os trabalhadores a camuflar a percepção da realidade que os faz sofrer. Visam evitar o sentimento doloroso que muitas vezes está “escondido”, sendo difícil o confronto com esse sentir, pois se trata de uma operação estritamente mental. Essas defesas levam à modificação, mobilização e transformação de situações vividas no trabalho, sendo demonstradas de diferentes formas de manifestações comportamentais (DEJOURS & ABDOUCHELI, 1994; e CASTRO-SILVA, 2006). Segundo Dejours e Abdoucheli (1994), as estratégias mais utilizadas pelos trabalhadores são em sua maioria coletivas e não individuais; o grupo une seus esforços para enfrentar o sofrimento e encontra soluções para lidar com essas situações. Portanto, na estratégia coletiva, os sujeitos se submetem a uma regra, essas regras supõem um acordo partilhado, ela deixará de funcionar à medida que os sujeitos não desejam mais (poderá acontecer quando alguém do grupo romper com as regras). Para Mendes (1999), as estratégias individuais se diferenciam das coletivas na medida em que, na primeira, o indivíduo está sozinho para operar um mecanismo de defesa e construir uma nova realidade. Já na segunda, a realidade é reconstruída coletivamente, além de depender da presença de condições externas. De acordo com Dejours e Abdoucheli (1994), prazer e sofrimento são vivências subjetivas, pertencem ao domínio privado. Isso porque cada sujeito é portador de uma singularidade, de uma história e de uma vivência, experimentando e sentindo de forma única e particular. Desse modo, é a partir da construção do sentido dessas vivências que emergem o prazer e sofrimento. Vale ressaltar que as condições nas quais o trabalho é realizado, a natureza da tarefa, o tipo de exigência que envolve a capacidade do indivíduo são fatores que exercem influências múltiplas no funcionamento psíquico, incluindo vivências de prazer e sofrimento. Nesta perspectiva, a organização do trabalho aparece como uma constante ruptura para a saúde mental dos trabalhadores. A organização do trabalho foi conceituada como divisão do trabalho: divisão de tarefas, relações de poder, relações socioprofissionais, modalidades de comando, repartições de responsabilidades. É importante considerar que cada instituição e categoria profissional está submetida a um modelo específico de organização de trabalho, podendo ser um facilitador ou não das vivências de prazer-sofrimento dos trabalhadores (DEJOURS & ABDOUCHELI, 1994; MENDES, 1999; CASTRO- SILVA, 2006). Tendo em vista que este estudo pretende analisar também o sofrimento psíquico, fazse necessário a compreensão deste conceito. Entretanto não é tarefa fácil devido às inúmeras maneiras de compreender saúde mental, visto que o termo saúde evoca seu binômio, a doença. Sendo assim, será adotado para esta pesquisa o conceito definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS): Saúde Mental não é somente ausência de um transtorno mental. É definido como um estado de bem estar no qual cada indivíduo pode realizar seu próprio potencial, pode enfrentar o estresse normal da vida, pode trabalhar de forma produtiva e frutífera e está apto a contribuir com a sua comunidade. Por sua vez, Dejours e Abdoucheli (1994), problematizando a relação trabalho-saúde, destacam que o trabalho torna-se arriscado à saúde quando o trabalhador não encontra prazer. Para os autores, a problemática do bem estar acerca dos profissionais, principalmente daqueles que lidam diretamente com pessoas, como: professores, enfermeiros, bancários, podem levar esses profissionais à perda da auto-estima, desprezo por sua profissão, podendo levar ao absenteísmo e abandono de seu trabalho. Para psicodinâmica do trabalho, o processo de busca da saúde envolve um longo percurso conceitual, sendo que nessa busca o sofrimento 13 é visto como um “drama”, algo que mobiliza o sujeito no mundo e no trabalho para busca de condições de saúde. Dessa forma, o processo de saúde e adoecimento é resultado de uma dinâmica repleta de conflitos e contradições, visto que o saudável não implica ausência de sofrimento, e sim mobilização subjetiva2 de cada trabalhador, uma vez que permite a resignificação do sofrimento em prazer (MENDES, 2007). Para a autora, a saúde no trabalho é vista como um equilíbrio marcado pela presença de prazer e sofrimento, pela gratificação do seu trabalho, e, ainda, pelo reconhecimento, que se apresenta como componente fundamental no processo da construção da identidade. 3 OBJETIVOS 3.1 GERAL Conhecer as principais vivências de prazer e sofrimento no trabalho docente. 3.2 ESPECÍFICOS Analisar as principais fontes de prazer e sofrimento psíquico na docência; Conhecer as características organizacionais e suas repercussões na saúde do professor; Identificar as principais estratégias construídas pelos professores para enfrentar o sofrimento; Oferecer subsídios que contribuam para o estabelecimento de ações comprometidas com a promoção da qualidade de vida no trabalho docente. 4. METODOLOGIA Esta pesquisa é de base qualitativa do tipo descritiva e exploratória, tendo em vista que se busca neste estudo conhecer as vivências de prazer e sofrimento no trabalho docente. A importância de ouvir o discurso dos sujeitos é um critério necessário para entender o significado subjetivo para cada um no contexto escolar, por este motivo a escolha pelo método qualitativo se justifica pela necessidade de conhecer através da fala essas vivências. Para Turato (2005), a metodologia qualitativa consiste em descrever, compreender e interpretar o fenômeno no ambiente natural, buscando o envolvimento ativo dos participantes, o que favorece o alcance dos objetivos, assim como a criação do modelo de entendimento profundo, sensível ao não dito, que é invisível ao olhar comum. O significado que as pessoas dão às coisas tem função estruturante nesse tipo de metodologia, tendo ainda como características a flexibilidade, interatividade e uma visão holística. 2 Mobilização subjetiva é o processo pelo qual o sujeito utiliza recursos psicológicos, permitindo a resignificação das situações geradoras de sofrimento em situações geradoras de prazer. 14 4.1. PARTICIPANTES Mediante os objetivos supracitados, esta pesquisa foi realizada junto a 6 professores: dois do ensino infantil; dois do ensino fundamental e dois do ensino médio, atuantes na rede pública do DF na Regional de Ensino de Taguatinga. Portanto, como critério de inclusão dos participantes, foi adotado o local de trabalho. Assim, somente participaram da pesquisa professores cujas unidades escolares estivessem localizadas na mencionada Regional. Eles foram contatados em seus próprios locais de trabalho, e seus dados encontram-se discriminados na tabela a seguir. Os nomes dos entrevistados são fictícios, no intuito de preservar a identidade dos entrevistados. Tabela 1- Perfil dos participantes Entrevistado Idade Sexo João Maria4 Aparecida5 Francisca Joana Lívia 49 M 50 F 35 F 46 F 46 F 43 F Formação Tempo de Carga docência Ocorrência horária (anos) de semanal adoecimento3 Rede SEDF (horas) particular Pósgraduação Pósgraduação Pósgraduação Pósgraduação Pósgraduação Graduação 4 18 16 40 Não 18 40 Sim 15 40 Sim 10 40 Sim 26 40 Não 25 40 Sim 4.2 INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS Para alcançar os objetivos previstos nesta pesquisa, foi construído um roteiro de entrevista semi-estruturado (Anexo 01), composto por questões sócio-demográficas e por perguntas norteadoras, pelas quais foi possível uma investigação mais ampla e aprofundada dos entrevistados. Esta técnica permitiu uma interação face a face, pela qual o entrevistador buscou obter informações, opiniões, crenças, ideias ou temas relevantes para alcançar os objetivos propostos (SILVA et al.,2006). As entrevistas foram individuais e gravadas com o auxílio de um MP4. Cada entrevista durou em média 37 minutos. 3 Problemas de saúde relacionados ao trabalho durante a trajetória profissional. Professora afastada da sala de aula estando em readaptação- cujo termo significa prestar serviço dentro da escola em qualquer atividade menos com a atividade de docência. 5 Professora afastada da sala de aula, atuando na coordenação pedagógica há sete anos. Fonte: Entrevistas, 2011. 4 15 4.3 PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS Por se tratar de uma pesquisa que envolve seres humanos, este projeto foi submetido ao Comitê de Ética da Universidade Católica de Brasília (UCB). Após a aprovação do comitê, foi estabelecido contato com escolas públicas do Distrito Federal, a fim de solicitar o acesso às informações do quadro funcional, bem como explicar os objetivos e métodos da pesquisa. Conforme sugere o instrumento de pesquisa, este estudo foi feito mediante a realização de entrevistas semi-estruturadas individuais, que foram agendadas de acordo com a disponibilidade dos participantes. Estas entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas de forma literal. Anterior à realização das entrevistas, os participantes foram convidados a assinarem o termo de consentimento livre e esclarecido (Anexo 02), a fim de esclarecer informações sobre a pesquisa e a liberdade do sujeito na participação da mesma. 4.4 PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE DOS DADOS Para análise dos dados coletos foi utilizada a técnica de “Análise dos Núcleos de Sentidos”, proposta por Mendes (2007). Este procedimento baseia-se na análise de conteúdo categorial desenvolvida por Laurence Bardin (2004), que propõe três processos básicos de organização das informações. O primeiro momento refere-se à descrição dos depoimentos, que é feita através da leitura flutuante, depois é feita uma exploração, que consiste em discriminar as unidades e fazer a interpretação da análise, e por fim, a codificação, que busca através dos relatos, os significados importantes a serem considerados. A adaptação da Análise dos Núcleos de Sentidos (ANS) tem a finalidade de agrupar o conteúdo latente e manifesto, além disso, é levada em consideração desde o momento das entrevistas, a forma com que o sujeito constrói seu discurso. Sendo assim, qualquer expressão ou emoção do participante é considerada importante para a investigação. “Nas interpretações, deve ser considerada a rede de significados revelados no conteúdo dos núcleos, que tem expressão em particularidades da linguagem (...) o status de núcleo de sentido é dado pela força dos temas” (MENDES, 2007, p.73). Esta técnica é frequentemente aplicada em pesquisas da psicodinâmica do trabalho, nas quais o objeto de estudo está nas relações dinâmicas entre organização do trabalho e processos subjetivos, podendo ser acessados pela escuta e fala. Dessa forma, ao considerar que a saúde mental dos professores envolve um componente subjetivo, acredita-se que este procedimento é adequado para análise das vivências de prazer e sofrimento através da fala desses profissionais. 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO Em virtude da qualidade das informações levantadas, as mesmas serão apresentadas segundo seus eixos temáticos extraídos das falas dos próprios sujeitos, em conformidade com os objetivos previstos nesta pesquisa, os quais, de modo geral, pretendem esclarecer as vivências de prazer e sofrimento no trabalho docente. Desse modo, apesar dessas vivências não ocorrerem necessariamente de forma isolada, neste artigo elas serão contempladas em separado para melhor compreensão de suas especificidades. Em cada entrevistada foram identificados temas, que posteriormente foram agrupados em núcleos dos sentidos. 16 5.1 VIVÊNCIAS DE SOFRIMENTO NA DOCÊNCIA Atualmente os educadores estão experimentando diferentes aspectos desestruturantes da sua identidade profissional, como por exemplo, sua formação, seu papel social na educação, questionamentos do saber e saber-fazer, da sua competência para lidar com as exigências do mundo atual, problemas com violência e os recursos que a escola possui. Esses fatores têm influenciado de diferentes formas a “realidade do trabalho” nas escolas e ao funcionamento psíquico dos professores, ocasionado vivências de sofrimento na docência (BATISTA E CODO, 1999). Outro elemento a destacar refere-se à relação que o educador tem com seu trabalho, levando em consideração as mudanças da pós-modernidade. O papel do professor na história tem sofrido muitas alterações que contribuem para o conflito da sua identidade profissional, o que certamente influencia na sua relação com o trabalho (SILVA, 2010). Globalmente, os resultados referentes às vivências de sofrimento na docência revelaram os seguintes temas: perspectiva teórico-medotológica de ensino, influência da informática, recursos físicos/humanos, rotina de trabalho, desvalorização do professor, referência familiar e adoecimento. 5.1.1 Perspectiva teórico-metodológica de ensino A análise das entrevistas individuais indicou quatro núcleos de sentido referentes à perspectiva teórico-metodológica de ensino. As manifestações mais frequentes de sinais de sofrimento nessa categoria remetem aos hábitos, costumes e educação familiar, que entraram em colapso na pós-modernidade, causando modificações nos processos dos sistemas educativos e impondo aos professores, ações pedagógicas diferenciadas. O núcleo 1 - “Porque a criança tá agitada na sala, não tá desenvolvendo e você precisa saber o está acontecendo com ela pra você poder ajudar. Isso é extremamente prejudicial! E aí, vem o estresse! Você começa a se aborrecer, porque você não consegue entender, porque aquela criança está se comportando daquela maneira” (Entrevistada Joana) - revela que o professor preocupa-se em compreender o aluno, pois a medida que o mesmo demonstra dificuldade na aprendizagem, o docente vivencia estresse, aborrecimento e angústia, ou seja, sofrimento. Isso demonstra o quanto o profissional de educação se vê em condições adversas para estimular o aprendizado dos seus alunos, compreender as diferentes manifestações comportamentais dos mesmos, e de que maneira isso interfere no processo de ensino aprendizado. No núcleo 2 - “Ele teve as dificuldades, ele teve né? Particulares de não compreender, de não se adequarem naquela metodologia que foi utilizada com ele. Ele teve os problemas familiares, que são vários!” [...] “Eu acho que o projeto pedagógico caminha quando as coisas estão caminhando bem” (Entrevistada Aparecida) – evidencia-se a dificuldade da professora em desenvolver seu trabalho, que é voltado para projetos pedagógicos, pois existem questões externas à escola que não permitem o envolvimento do aluno no processo de ensino, trazendo consigo preocupações para esses profissionais quanto à metodologia mais adequada. Nota-se que a dificuldade enfrentada por estes profissionais não se difere dos demais professores entrevistados, uma vez que no núcleo 3, referente às atividades de trabalho, foi destacado que, “Sempre você precisa tá buscando, buscando...o interesse do 17 aluno”(Entrevistada Francisca). Essa busca do professor por métodos que despertem o interesse dos seus alunos em sala de aula ultrapassa o exercício de reproduzir conteúdos, mas inclui o esforço para responder às exigências que este trabalho impõe. Pode-se dizer que, diante dessas vivências, diferentes manifestações são experimentadas por esses docentes, como estresse, angústia, nervosismo, esgotamento e insegurança, causando profundo sofrimento psíquico. Cabe ressaltar que a situação apontada pelos professores propõe um desafio pessoal, demandando habilidades como, por exemplo, a criatividade, para que assim possa tornar sua aula mais dinâmica, conforme revela o núcleo 4 - “aí torna a aula mais dinâmica, eles não sentem tanto o tempo passar” [...] “Pra eles se sentirem é... assim... soltos, alegres, interessados, brincado e aprendendo ao mesmo tempo” (Entrevistado João). Essa ação do professor retrata a preocupação pedagógica e ao mesmo tempo a busca incansável de satisfação para seus alunos. Grande (2010), em pesquisas com professores da escola pública de Brasília, evidenciou que mesmo quando o professor faz o melhor trabalho, buscando diferentes maneiras de estimular seu aluno, não ver resultados concretos mexe com seu senso de competência e sua motivação. Dessa forma, o sujeito se vê diante do fracasso, surgindo sentimento de impotência, irritação e decepção, emergindo então o sofrimento. Percebe-se que os professores têm um papel ativo em suas atividades diárias, pode-se inferir que algumas dessas atividades acarretam sofrimento em maior ou menor grau, pois quando esses profissionais se deparam com situações advindas de problemas pedagógicos e não alcançam os objetivos previstos por ele, vivenciam stresse. No estudo desenvolvido por Silva (2010), a autora chama a atenção para este novo desafio imposto aos professores: fazer “ajustes” no conjunto de suas funções, conforme exigências da pós-modernidade. Assim, este sujeito encontra-se em conflito com sua prática pedagógica e com a diversidade de comportamentos emitidos por seus alunos. Sendo assim, o professor se depara com a necessidade de criar, estimular e dinamizar situações de aprendizagem para seus alunos diariamente. 5.1.2 Influência da informática Sob a perspectiva dos avanços tecnológicos, os resultados demonstram que os docentes vivenciam dificuldades com a influência da informática. Segundo um dos participantes, esse meio interfere no processo de ensino - aprendizado dos alunos, crescentemente desinteressados por leituras de livros, tendo dificuldades na escrita, pouco conhecimento especializado e linguagem restrita da internet. “As pessoas não estão sabendo mais escrever, ficam nessa linguagem internáutica. Elas não escrevem mais no papel com facilidade né? Quando escrevem é cheio de problemas, de erros gramáticos e inconsistências né? As pessoas estão com urgência de tudo, não tem paciência com nada, é tudo a um clique né?” (Entrevistado João). Para Hagemeyer (2004) o acesso rápido e fácil do conhecimento influencia na intensa mudança de valores e significações, e com a entrada desses novos recursos, os professores têm a grande preocupação do valor educativo e nas consequências que podem ser geradas na educação desses alunos. Além disso, exige-se do professor ações e mudanças na metodologia de ensino, de modo que este desperte interesse do aluno, dado este tem estado cada vez mais habituado a mídias audiovisuais como fonte de informação, o que torna a sala de aula enfadonha. O núcleo de sentido da entrevistada Lívia representa a falta de estímulo dos alunos: “Como hoje em dia as gerações estão assim muito né? Eles aprendem tudo muito 18 rápido com esse negócio da internet, né? Do computador. Então parece que a escola nem sempre é um atrativo pra eles”. Cabe ressaltar que o professor se vê diante de descompassos quanto à informatização na sala de aula, conforme ilustra a verbalização: “Poder modernizar a escola e colocar tecnologia de ponta aqui dentro. É o que não acontece. Nós estamos ainda na pré- história dentro da escola pública. Porque você tem em sala de aula giz, quadro, caneta ou canetão, marcador de quadro, apagador e gogó” (Entrevistado João). Ao mesmo tempo em que existe uma facilidade dos alunos no acesso à informática, a tecnologia ainda não chegou à escola pública, fato que ocasionou à docência, desigualdades na transmissão de conhecimento, trazendo vivências de sofrimento. 5.1.3 Recursos físicos/humanos Os professores estudados expressam vivências de sofrimento e frustração diante da precariedade de recursos materiais, o que dificulta o cumprimento de objetivos planejados. A verbalização a seguir ilustra que essas condições prejudicam a saúde desses profissionais, além disso, as condições físicas da escola interferem no processo de ensino - aprendizagem. “E aí você começa a adoecer de novo, porque você não tem um papel, não tem uma tinta, como é o meu caso. Não dá pra você ensinar só fazendo risquinho na areia” [...] “então a gente vai tendo essas dificuldades ao longo do caminho” (Entrevistada Joana). Tais dados apontam a verdadeira batalha enfrentada por esses educadores, os quais se encontram submetidos a condições de trabalho inadequadas, interferindo na qualidade do seu trabalho, gerando insatisfação no trabalho. Quanto às condições físicas, os professores se queixam de salas de aula com instalações insuficientes, acomodações da sala dos professores inadequadas, barulho intenso devido à proximidade e estrutura das salas de aula, o número extensivo de alunos, que contribuem para salas abafadas, espaço físico limitado para desenvolver atividades extraclasse e aulas práticas. “É uma escola muito ruidosa! E ao mesmo tempo e aquele barulho intenso, e é ensurdecedor. Eu saí do 2º ano porque eu não suportei isso [...] “As salas do lado são muito próximas. A aula que a professora está dando você tá acompanhando aqui “(Entrevistada Joana). “Existem falhas! A gente precisaria de um espaço, uma quadra coberta para que eles pudessem fazer uma atividade física, estarem ali em condições né? Que essas variações climáticas, não interferissem na prática da atividade física né?” [...] aqui tudo é na base do improviso né? Então em recursos... Essa parte de recursos físicos a gente tem essas dificuldades “(Entrevistada Aparecida). Esteve (1999); Codo (1999) e Neves & Silva (2006) se debruçam na investigação sobre as causas do sofrimento docente nas escolas públicas, e dentre os fatores causadores de primeira ordem encontram-se os recursos materiais e condições de trabalho. Os professores se queixam que os materiais fornecidos pela Secretária de Educação são restritos, sendo disponibilizados no início do ano letivo e posteriormente “improvisados” pelos alunos e demais profissionais da escola. No que tange aos recursos humanos, as principais queixas referem-se ao número insuficiente de professores para a quantidade de alunos inseridos nas escolas públicas. Ao se tratar desse tema diretamente com os professores, este estudo constatou uma desesperança por parte deles, que desacreditam que exista solução para o problema. Os resultados apontam, ainda, que precariedade de recursos físicos/humanos reflete de forma 19 negativa na saúde do professor, gerando insatisfação profissional, absenteísmo, baixo engajamento profissional e desmotivação. 5.1.4 Rotina de trabalho As questões relativas à sobrecarga de trabalho, insatisfação quanto aos representantes da categoria que, neste caso, é a Secretaria de Educação e a desvalorização, são queixas comuns dos professores, sendo mais uma aspecto a ser considerado na rotina de trabalho desses profissionais como causadores de sofrimento. Esses docentes declaram ainda que a falta de respeito da sociedade e a sobrecarga de trabalho são geradoras de esgotamento. As verbalizações a seguir ilustram algumas dessas vivências. “A nossa empresa que é a Secretaria de Educação também não nós, nos... olha com muito carinho né?” (Entrevistado João). “Essa profissão pra mim, ela sobrecarrega muito a sua vida pessoal, por que? Porque você leva trabalho pra fazer em casa. Então assim... é...Ela acaba dando uma apertada na nossa vida particular, na nossa vida pessoal”(Entrevistada Maria). “Infelizmente a gente tem que levar uma prova pra corrigir em casa, porque às vezes não dá tempo [...] Mesmo em casa você está ligada nos problemas da escola sabe?” “A gente vai perdendo em qualidade de vida, em momentos assim....alguma coisa que te dê prazer você já não consegue sentir mais tanta satisfação naquelas atividades que antes você conseguia né? Prazerosas!”(Entrevistada Aparecida). Conforme relato dos participantes, percebe-se que esses profissionais se mostram descontentes quanto ao tratamento da Secretaria de Educação, visto que esse órgão público deveria ser mais atencioso e “carinhoso”, principalmente levando em consideração a realidade profissional em que estão inseridos. O entrevistado João, ao ser questionado sobre sua rotina de trabalho, destacou que se incomoda com as colocações feitas pela Secretaria de Educação, que são frequentemente depreciativas, utilizando características como: preguiçosos, acomodados e incompetentes. Há o predomínio nas falas quanto ao excesso de tarefas a serem realizados fora do âmbito escolar, o que interfere na vida particular e na qualidade de vida desses profissionais. O sofrimento desses professores está em certa medida relacionado à rotina de trabalho, pois o momento de descanso e lazer fica comprometido, estando este profissional “conectado” aos problemas da escola. Observa-se, também, que a clientela para a qual esses profissionais trabalham não respeita a figura do professor, haja vista a incidência de situações de agressão verbal, levando ao sentimento de desprazer e desmotivação. Para a psicodinâmica do trabalho, o esforço empreendido pelo trabalhador só fará sentido se for reconhecido pelos pares, no caso dos professores, colegas, alunos, pais e sociedade. A maioria dos professores esforça-se para repassar o conteúdo, tornar sua aula mais dinâmica e proporcionar conhecimentos geradores de mudanças para seus alunos, mesmo que venha implicar em horas extraclasse. No entanto, percebe-se que a rotina de trabalho, juntamente com a falta de reconhecimento desses esforços são fontes de sofrimento para esses educadores (CZEKESTER, 2007). 20 5.1.5 Desvalorização do professor Além da desvalorização do próprio órgão em que trabalham, existe uma desvalorização de seus alunos e respectivos familiares. Os professores denunciam: Não há, por exemplo, por parte de todos os alunos, dos pais, uma...valorização em relação a nós e ao nosso trabalho, então tudo isso deixa a gente meio esgotado (Entrevistado João). Percebe-se que a desvalorização da mão de obra docente, leva este profissional a um esgotamento emocional. Além disso, a cobrança e autoritarismo por parte dos pais também são motivos de insatisfação para os docentes, o núcleo - “O pai chegar apontar o dedo no seu nariz e falar coisas, o que quer o que não quer” (Entrevistada Maria) - expressa esses aspectos negativos. Essa falta de valorização para com o professor é vivenciada em seu contexto de trabalho diariamente, não sendo apenas por parte dos pais, mas de toda a sociedade, fatores esses que contribuem para o sofrimento desses profissionais. Na análise das entrevistas, a categoria desvalorização do professor indicou uma vivência de sofrimento, essa característica é percebida na fala dos próprios sujeitos, que utilizam termos como frustração, angústia, estresse e esgotamento. A entrevistada Aparecida fala do sentimento de frustração dos colegas, também vivenciado por ela. “Então eu vejo que meus colegas estão cada vez mais frustrados porque não tem retorno do trabalho, né?”. Neste contexto, observa-se, conforme verbalizações, que os professores se deparam com um processo de valorização /desvalorização e crítica de diferentes formas. A falta de reconhecimento gera nos professores elevado grau de desmotivação. A fala a seguir mostra que em alguns momentos os professores se questionam do seu próprio valor. “E o aluno! Nem sempre sabe respeitar o professor” [...] “essa desvalorização da figura do professor. E é em todos os sentidos, a sociedade como um todo tem desvalorizado muito o professor, e até nós!” (Entrevistada Joana). Tais achados coadunam-se com o estudo de Silva (2010), que analisou as características que colaboram para o mal- estar docente. Nesta pesquisa, identificou-se que há quinze anos um dos motivos de interesse dos professores pela profissão era o salário pago para educadores em Brasília. Porém, com o passar dos anos esse quadro mudou bastante, uma vez que o trabalho do educador vem exigindo o aumento de responsabilidades sem que tenham sido oferecidos meios e condições adequadas para atender a essas novas demandas. Sendo assim, o fator salário é baixo comparado à proporção de exigências e responsabilidades, sendo necessário que o professor lecione para várias turmas, pois somente assim pode suprir suas necessidades financeiras. Esse fator têm sido um dos maiores motivos de insatisfação e desmotivação para os professores. 5.1.6 Referência familiar De acordo com os resultados, foram encontrados cinco núcleos de sentido, que demonstram que o tema referência familiar é um fator causador de sofrimento para os docentes. Este tema foi mencionado pelos cinco participantes em diversos momentos da entrevista. Núcleo de sentido 1 - “Nem sempre você consegue ter a família na escola, nem sempre você consegue sequer identificar se a criança tem ou não família” [...] “no momento que você solicita a presença de alguém, e esse alguém não aparece!” (Entrevistada Joana). 21 Núcleo de sentido 2 - “Ele teve a falta da presença do pai da mãe na vida deles né? Alguém que o orientasse! Ele chega sem orientação nenhuma! Não tem valores né? Valores mesmo de respeito ao ser humano” (Entrevistada Aparecida). Núcleo de sentido 3 - “Cada indivíduo importante na vida daquela criança tem uma postura para determinado assunto, e aí ela perde a referência. E aí é mais um aluno causador de problemas pra gente, porque ele vai expressar isso de alguma maneira, principalmente em sala de aula” (Entrevistada Lívia). Núcleo de sentido 4 - “Existe a questão familiar que pesa muito né?! Muitos meninos com problemas de família separada, pais separados, pais com problemas com álcool e drogas, então tudo isso afeta muito a criança e tira dela às vezes o estímulo, gera uma revolta né?” (Entrevistado João). Núcleo de sentido 5 - “Aqui a gente tem falta de estrutura familiar, mãe que nunca deu um beijo, nunca elogiou aquele filho. Tem menino que chega aqui, grosso, tosco e você vai assim...modelando sabe?”(Entrevista Francisca). Observa-se nos relatos dos participantes que a família é ausente no processo escolar dos seus filhos, ocasionando desgaste dos docentes, que passam a exercer além do papel de professor, o de educadores e cuidadores. Para esses profissionais, a falta de referência da família, reflete em diferentes problemas em sala de aula, e nos momentos que se faz necessário a presença dos pais, dificilmente eles comparecem. A falta de valores básicos, como respeito, cortesia e disciplina por parte dos alunos também interferem diretamente na reação do professor. Em decorrência do mau comportamento do aluno em sala de aula, o professor vivencia os problemas particulares dos mesmos, dificultando o trabalho que gostaria de realizar. Estas falas corroboram com o resultado do trabalho de Grande (2009), que relaciona a vida moderna como causador de estresse no campo pessoal e profissional, no caso dos profissionais de educação percebe-se, que além das responsabilidades ocupacionais requeridas pela docência, esses profissionais estão diante de fatores estressantes, como: a falta de manutenção da família e a preocupação cognitiva e social do seu aluno, levando ao estresse e ao sofrimento, pois estes aspectos têm exercido influências negativas sobre as suas atividades de docente. 5.1.7 Adoecimento Nesta categoria os resultados apontam alguns aspectos do adoecimento ligados ao trabalho docente. As verbalizações a seguir ilustram as vivências de sofrimento e processos de adoecimento: “Eu tive problemas com insônia, né? Principalmente no final do ano passado” [...] “Mas foi todo um processo, né? O organismo da gente reage de alguma forma, ele mostra que você está estressado de alguma maneira” (Entrevistada Aparecida). “Aí descobri que tava com problema no ombro, bussite, tendinite, todos os ites! [...] Essas coisas... escrevia muito no quadro e tome dor no ombro! [...] Excesso de trabalho, falta de alimentação, essas coisas todas. Ou seja, a primeira doença por causa da rotina do trabalho” [...] Fiquei seis meses de atestado (Entrevistada Maria). É possível constatar pelas falas que as condições de trabalho muitas vezes leva o professor ao adoecimento psíquico (insônia, estresse) e/ou físico (bussite, tendinite). Aparecida revelou que a insônia tem sido um de seus maiores sofrimentos, o qual, segundo a 22 mesma, compreende um sintoma decorrente de um acúmulo de atividades e preocupações inerentes à docência. Segundo a professora, os sintomas de adoecimento aparecem principalmente em períodos de maior atividade na escola e percebê-los requer coragem. Tais achados coadunam-se com as pesquisas de Codo (1999), que identifica algumas dificuldades encontradas pelos professores para cuidar de sua saúde, dentre elas, a sobrecarga de trabalho, falta de tempo e condições favoráveis para fazê-lo. Segundo o autor, o que muitas vezes leva o professor a não tomar medidas preventivas, se deve ao sentimento de culpa pelo estado “improdutivo”. Os professores sentem-se julgados pelos outros pelo fato de estarem afastados do trabalho por problemas relacionados à saúde. Maria também relaciona seus sintomas de adoecimento com sua rotina de trabalho. Suas principais queixas são doenças relacionadas às articulações, ocasionadas pelos movimentos repetitivos, além de falta de tempo para se alimentar. A professora também revela que durante sua trajetória profissional trabalhou a maior parte do tempo como professora de Educação Infantil. Isso, segundo ela, exigiu um esforço físico grande, gerador de cansaço, estresse e depressão, quadro que lhe resultou em um afastamento de 6 meses da sala de aula. Dejours (1994) enfatiza esse aspecto, ao afirmar que o trabalho, conforme a situação, poderá causar prazer, mas também sofrimento. A organização do trabalho é o ponto chave para essas causas, que, por sua vez, dimensionam os níveis de exigência, a forma como o trabalho é realizado, as relações de poder e as responsabilidades assumidas na organização, incidindo diretamente na forma como o docente reage a isso. Codo (2006), sobre essa questão, destaca que a sobrecarga de trabalho do professor acontece quando ele não tem como canalizar essa energia para outras ações prazerosas, o que pode levá-lo ao adoecimento. As verbalizações a seguir ilustram algumas vivências de sofrimento e adoecimento entre os docentes após alguns anos de profissão: “Eu percebo que de dois anos pra cá eu tenho adoecido físico e mentalmente pelo conjunto e pelo rumo que minha vida tomou” (Entrevistada Lívia); “E agora eu comecei a engordar, engordar... e eu acho que esse meu engordar também tá relacionado com a profissão, sabe? Porque a gente começa a querer resolver tudo! Muita ansiedade” (Entrevistada Aparecida). No relato da professora Lívia, pode-se observar que a mesma percebe que tem adoecido por consequência das exigências de seu trabalho. Ela associa o adoecimento ao cansaço diário, à tensão de sala de aula devido à clientela atendida e ao tempo de atuação. A professora Aparecida também percebe esse adoecimento, através do ganho de peso, pois à medida que se sente ansiosa tem a necessidade de comer compulsivamente para aliviar as tensões enfrentadas no dia a dia. Em consonância com esta pesquisa, estão os achados de Codo (1999); Esteve (1999) e Claro (2009), os quais analisam o stress e as repercussões negativas da prática docente sobre a saúde do professor. Os professores parecem expostos a uma ansiedade considerável que acaba produzindo estresse e casos de doença mental, o que representa consequências negativas não somente para o professor, mas também para aluno e para o sistema. Diante dos indicadores de adoecimento, conforme destacado anteriormente, percebe-se que os professores que não conseguem seus propósitos sentem ansiedade, raiva, culpa e outros sentimentos negativos, que potencializam seu sofrimento. O desconforto dos educadores em relação ao seu papel é subjetivo e singular, conforme aponta Claro (2009, p. 100), “a maneira como o professor avalia e enfrenta é que determina suas reações diante das situações. A avaliação é o processo que indica se o fator estressante é um desafio ou uma ameaça”. O mesmo autor menciona que as emoções também são sinais de alerta à saúde, devendo ser avaliadas e atendidas. No decorrer do estudo foram pesquisados diversos fatores no contexto de trabalho dos docentes, tais como, condições de trabalho ligadas à infra-estrutura, atividades exercidas, trajetória profissional, estratégias de enfrentamento para o sofrimento, prazer no trabalho e 23 sentimento em relação ao trabalho. Quando perguntados diretamente sobre o sofrimento no trabalho, os resultados apontaram para seis núcleos de sentido: Núcleo de sentido 1- “É a dificuldade também muitas vezes de atingir todos os alunos, né!?”[...] Então muitos alunos não se interessam, não querem fazer as tarefas, matam aula, fogem da escola, né? É... Existe a questão familiar que pesa muito né?”(Entrevistado João) - O professor João destaca como vivência de sofrimento a dificuldade encontrada para alcançar o bom desempenho de todos os alunos, visto que cada um tem suas dificuldades de aprendizagem e níveis de interesse pelos estudos. Ele desabafa expressando que a falta de interesse dos alunos o chateia e o deixa desmotivado. Além disso, as questões externas dos alunos influenciam no comportamento dos mesmos, gerando conflitos internos ao professor, que se vê diante de situações que o angustia e o entristece. No núcleo de sentido 2- O trabalho docente para a professora Maria já foi fonte de satisfação e realização, atualmente ela já não gosta tanto e atribuiu esse desgostar a vários fatores do seu contexto de trabalho, dentre eles, a exaustiva necessidade de dar atenção aos seus alunos, o que a impede de sair da sala de aula, levando em consideração que o público atendido pela professora em questão é educação infantil, o que exige atenção redobrada - “A sala de aula te prende muito [...] Você não pode sair por causa do aluno e eu não dou conta, não gosto de coisas que me prendam, sabe? (...) Mais eu preciso do físico também. Eu não sou só mente! [...] Eu não sou apaixonada pela minha profissão, posso até te dizer que não gosto mais da minha profissão, não gosto mais da minha profissão, porque eu desgostei, né?” (Entrevistada Maria). Quando a professora descreve a realidade das turmas que ela atende, fica claro o conflito existente entre o trabalho real e o prescrito, vivendo o sofrimento do que ela gostaria que fosse a sala de aula e de sua realidade vivida. O núcleo de sentido 3 evidencia essas situações “Assistir a cada dia essa degradação dessa juventude que a gente tem. Você ver um menino fumando droga na porta da escola, você vê-lo a todo o momento estar fora da sala de aula, porque aquilo ali dentro não lhe chama atenção, né?” (Entrevistada Aparecida). Contribuindo com essa discussão, Codo (1999) alerta para o sofrimento e a crise de identidade que os educadores vivenciam, os quais estão inseridos numa realidade social cada vez mais deteriorada, com um público cada vez mais diversificado, vivendo um conflito cotidiano entre o que é exigido, o que desejam e o que é realmente possível fazer. Para Dejours (2004), o formato entre o trabalho real e o prescrito influi diretamente no processo de adaptação do trabalhador, quando existe uma distância desse formato, como é o caso dos professores entrevistados neste estudo, acumula-se sentimentos como frustração e angústia. Os docentes, na realização de seu trabalho, mantém com os alunos uma relação marcada por sentimentos conflitantes. O depoimento da entrevistada Lívia revela o sofrimento marcado pela impotência para resolver todas as mazelas que seus alunos levam para escola: “O que me causa sofrimento é tentar resolver coisas que está fora do meu alcance. A família tá assim de tal e tal maneira, mas ele (aluno) chega aqui com tudo. Vou ter que trabalhar com ele independente de tudo que ele passar”- núcleo de sentido 4. Essa professora se depara com o que Esteve (1999) denomina “papéis contraditórios”, ou seja, ele se ajusta aos vários papéis, além de educador, exige-se que ele ofereça apoio psicológico, social e familiar. Para a autora, essa ampliação dos papéis do professor produziu uma sobrecarga de funções, que exige cada vez mais preparo e formação do docente. O núcleo de sentido 5 - “A única coisa, que eu acho assim... que eu vou levar de tristeza desses últimos anos de educação é isso! Essa desvalorização da figura do professor” - retrata o sentimento de tristeza quanto à desvalorização do trabalho docente. Na fala da professora Joana pode-se identificar o incômodo gerado pela falta de reconhecimento por parte dos pais, alunos e comunidades. Esta situação parece ter gerado um desencanto pela profissão, “eu amo pensar que eu vou aposentar daqui a quatro anos, mas não por causa dos 24 alunos, mas por causa do contexto”, esse processo de desvalorização fere o íntimo do docente, tendo em vista que, segundo Dejours (2004), o reconhecimento é condição indispensável no processo de mobilização subjetiva e da personalidade no trabalho, que vem derivado dos sentimentos de valorização, orgulho e identificação com o trabalho. No quisito sofrimento no trabalho, a professora Francisca sofre com a forma de tratamento dos alunos frente aos professores, queixando-se dos problemas de desrespeito, agressividade e até mesmo violência na escola, conforme relata a seguir: “O que causa sofrimento é isso aí! Esse público que vem pra ofender, xingar, desacatar, entendeu? [...] É... acho que o Governo não vai olhar pra gente mais uma vez. Então isso me dá um desprazer. Isso e a violência da escola” - núcleo de sentido 6. Nota-se ainda que a professora cita como fonte de desprazer o sofrimento e a falta de atenção do Governo aos docentes. Segundo a professora, este contexto dificulta a dinâmica de sala de aula, gerando medo e tensão. Segundo Esteve (1999), falta um estudo sério e minucioso sobre a violência nos centros de ensino. O tema violência no plano real é isolado, porém, produz uma série de efeitos psicológicos aos docentes, incluindo os que não vivenciam diretamente tais situações, provocando os sentimentos de intranqulidade e mal estar. Da mesma maneira, a falta de respeito apresenta modos comuns de sofrimento na relação com os alunos. 5.2 VIVÊNCIAS DE PRAZER NA DOCÊNCIA Todo trabalho traz consigo certa dose de sofrimento, mas Dejours; Abdoucheli; Jayet (1994) alertam que o trabalhador não está condenado a sofrer pelo seu trabalho, cada sujeito manifesta sua relação de prazer e sofrimento com o trabalho, de acordo com suas particularidades. Portanto, neste estudo, houve a preocupação de identificar não apenas o que no trabalho faz sofrer, mas também o que proporciona prazer. Para psicodinâmica do trabalho, o prazer é uma vivência individual ou compartilhada por um grupo de trabalhadores, que promove vários benefícios, dentre eles, gratificação provenientes da satisfação, bem estar que se manifesta por meio da realização, do reconhecimento e da liberdade (FERREIRA & MENDES, 2003). Os resultados no fator vivências de prazer na docência apontam para quatro temas: 1. perspectiva teóricometodológica de ensino; 2. Influência da informática; 3. auto-realização; e 4. contato com os alunos. 5.2.1 Perspectiva teórico-metodológica de ensino Em relação aos fatores que podem repercutir positivamente nas vivências de prazer dos docentes, a maioria dos professores demonstrou envolvimento com seu método de ensino, entrosamento com seus alunos, preocupação pedagógica e satisfação ao realizar determinadas atividades. Pode-se observar por meio das falas abaixo. “O conteúdo com a brincadeira e aí eu vou desenvolvendo e uso o livro didático como suporte” [...] daí a gente brinca, faz jogos, músicas, a gente canta o conteúdo, né?”(Entrevistado João). “Eu consegui trabalhar aqui com o professor de Matemática, mesma prova, questões artísticas” [...] então, eu consigo associar com vários professores, sabe? [...] pra mim isso é gratificante! [...] eu faço histórias em quadrinhos com eles, mas com eles sendo os personagens “(Entrevistada Francisca). 25 “Eu gosto! Se a gente não gostar de dar aula pra criança, se você não gostar de trabalhar com essa idade, a gente não consegue ficar muito tempo” [...] é muito uma troca, é um vai e vem, né? (Entrevistada Lívia). As verbalizações revelam o quanto à docência pode ser satisfatória, proporcionando produção de conhecimento tanto para o professor, quanto para os alunos, além de desenvolver diversas habilidades, pois a medida que o profissional busca recursos para aperfeiçoar sua aula, aprende com isso. 5.2.2 Influência da informática Os professores identificam que a informática pode ser tanto positiva, quanto negativa para o processo de ensino-aprendizagem. A introdução da tecnologia, por exemplo, pode mudar de forma incisiva o trabalho pedagógico, trazendo às crianças novos atributos cognitivos e aos jovens, o acesso às informações de forma rápida, conforme ilustram as verbalizações: “A tecnologia, principalmente a questão da informática, a internet, ela ajuda muito, porque a criança tem acesso a jogos, a brincadeiras de montar de juntar [...] Isso desenvolve muitas habilidades na criança” (Professora Joana); “Os recursos técnicos, por exemplo, permite ao aluno acessar uma internet na escola, você preparar campos de pesquisa para o aluno usar e buscar na internet” (Professora Francisca). Nesta ótica, percebe-se que a informática pode contribuir para o processo de ensinoaprendizagem coletivo. As novas tecnologias permitem ampliar a prática de sala de aula, pois funcionam como suporte ao trabalho do professor. Há indicadores que o uso de computadores e atividades nos laboratórios das escolas proporciona momentos de interação, descontração e criação, ou seja, prazer na realização desse tipo de atividade (KRAHE et al.; 2006). Cabe ressaltar, que os professores estudados relataram que a informática é um recurso que tem facilitado o seu trabalho. No entanto, revelam que muitas escolas da rede pública não disponibilizam computadores suficientes para o número de alunos atendidos, como ilustra a professora Joana: “O CAIC tem mais de 1.000 alunos e na realidade só 200 tem acesso a esses computadores. Assim, esse processo da modernização por meio da informática inserida no contexto escolar gera alguns descompassos, pois à medida que indica fonte de satisfação (permite recursos diferenciados para atividades com os alunos), também indica fonte de frustração. 5.2.3 Auto-realização Quase todos os entrevistados ressaltaram como principal fonte de prazer no trabalho o reconhecimento e o resultado do seu trabalho. Os resultados apontam que dentre as vivências de prazer no trabalho docente o sentimento de utilidade, a mudança progressiva de comportamento dos alunos considerados indisciplinados, são motivos de satisfação. A fala da professora Aparecida exemplifica “Eu fico muito feliz quando eu vejo um aluno passando no PAS e fala que caiu tudo que eu ensinei, eu me sinto realizada! [...] Esse contato com os jovens! Eu sinto prazer nessa área”. Vasques-Menezes (1999) observa que a percepção do próprio trabalho como algo que tenha utilidade para a sociedade tem um valor importante para auto-estima do professor e para construção de sua identidade. Percebe-se que a professora se sentiu realizada na medida em que contribuiu para o crescimento e desenvolvimento dos seus alunos. O ato de ensinar com prazer torna-se um 26 fator de auto-realização, e faz do professor um sujeito ativo, bem desenvolvido e satisfeito com sua função, além disso, mais que transmitir conhecimento, os educadores se vêem na esperança de um futuro melhor ( LACROIX, 2007; SILVA, 2010). O núcleo - “a satisfação maior que a gente vê é quando aquele aluno que muitas vezes já esgotou suas possibilidades de ação e de repente, ele demonstra que entendeu. Então isso dá prazer porque muitas vezes você pensa que aquele aluno já é caso perdido” - revela que a professora expressa sentimento de prazer ao perceber que seu aluno está aprendendo o conteúdo, principalmente quando este aluno apresenta dificuldades disciplinares, cognitivas e sociais, as quais exigem do professor empenho para ensinar. “Quando este “esforço” apresenta resultados, o educador sente-se aliviado pelo papel que foi cumprido por ele “todo dia você tem retorno de alguma coisa que você ensinou”. De acordo com Dejours (1992), quando reconhecido, o trabalho oferece ganhos no registro da identidade, ou seja, o trabalhador ganha sentido em relação às expectativas subjetivas e à realização de si mesmo. A construção do sentido do trabalho pelo reconhecimento gera no indivíduo o sentimento de realização pessoal, gratidão, solidariedade e conquista pelo seu trabalho, contribuindo para transformação do sofrimento em prazer. 5.2.4 Contato com os alunos No eixo temático contato com os alunos, os resultados indicaram vivências de prazer, pois a convivência diária proporciona conversas, risadas e brincadeiras. A professora Francisca revelou que o prazer do contato com os alunos permitiu que ela retornasse ao trabalho o quanto antes para super a perda do marido, fato que desencadeou uma depressão: “esse contato com os jovens, eu sinto prazer! Eu estou saindo de uma depressão e eles estão me ajudando. Pra mim é isso, né? Essa interação mexe com a gente”. Já a professora Maria se emocionou ao relatar sobre o que mais lhe causa prazer no trabalho, percebe-se que além do contato com o público, a troca de conhecimento é fator motivacional para a mesma, “trabalhar com o ser humano, trabalhar com o outro, e principalmente eu me emociono, né? (choro) novos conhecimentos, eu gosto! [...] gosto de aprender coisas novas, pra depois eu saber onde eu vou usar aquilo ali”. Segundo Neves & Silva (2006), o professor tem como objeto de trabalho o próprio aluno, o que demanda dele afetividade. Dessa forma, a relação afetiva que os professores estabelecem com os alunos é uma das fontes de prazer no ambiente de trabalho. Corroborando com essa ideia, Codo (1999) ressalta que a atividade de ensinar propicia vínculos afetivos, e através destes, o afeto torna-se estímulo à aprendizagem do aluno e ato satisfatório ao professor. Esse achado se articula com a observação de Dejours (1994, p.137): “Quando o sofrimento pode ser transformado em criatividade, ele traz uma contribuição que beneficia a identidade. Ele aumenta a resistência do sujeito ao risco de desestabilização psíquica e somática. O trabalho funciona então como um mediador para a saúde”. Os resultados, portanto, indicaram que as relações com os alunos construídas diariamente influenciam de forma positiva o trabalho do professor, que, apesar de se ver diante de várias barreiras, encontra prazer no contato com seu público. Foram observadas, neste estudo, expressões de vivências de prazer e sofrimento no trabalho docente. Pode-se dizer que todo o processo de organização do trabalho do professor interfere em sua subjetividade. A dinâmica do contexto escolar pode interferir de maneira 27 positiva ou negativa, essa contradição obriga o professor a buscar estratégias de enfrentamento para minimizar o sofrimento, conforme retrata o tópico a seguir. 5.3 ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO DO SOFRIMENTO DOCENTE Ao analisar a prática profissional do professor, este estudo buscou compreender as “manobras” utilizadas como respostas das dificuldades enfrentadas diariamente. Desse modo, Mendes (2007, p. 37) considera que o “saudável está relacionado ao enfrentamento das imposições e pressões do trabalho que causam instabilidade psicológica”, quando ocorre o adoecimento significa que existem falhas no enfrentamento, e o sujeito é enfraquecido pela precarização da organização. As verbalizações a seguir ilustram o uso dessas defesas dos professores estudados. “No trabalho a gente tem sempre um espaço muito bom, que você pode trocar com os colegas suas angústias, o que você tá passando em relação a um determinado aluno” (Entrevistada Joana); “Tenho que apelar para direção [...] A gente procura ajuda da direção, pra poder chamar os pais se for o caso” (Entrevistada Francisca); “Então o melhor lugar é o próprio ambiente de trabalho. Eu sempre falo nas reuniões é... a gente tinha que ter mais tempo pra isso! Pra fazer terapia aqui dentro mesmo, pra falar do que tá acontecendo” (Entrevistada Lívia). Identificamos na fala de algumas professoras, que as vivências de sofrimento são enfrentadas através do diálogo com os colegas de trabalho. Essa estratégia colabora para sobrepujar o sofrimento advindo da realidade do trabalho. Essas profissionais utilizam o próprio ambiente de trabalho para compartilhar suas experiências em sala de aula, os assuntos conversados referem-se principalmente aos alunos indisciplinados, com dificuldades de aprendizagem e a situações nas quais não sabem como lidar. Os aspectos de cooperação e coleguismo produzem efeitos positivos para o enfrentamento das dificuldades cotidianas e auxiliam para o não- adoecimento no trabalho. Segundo Dejours (2004), trabalhar é preencher a lacuna entre o trabalho prescrito e o real, porém, para preencher essa lacuna existe um caminho a ser percorrido, pelo qual o trabalhador vivencia diferentes experiências no seu contexto laboral. Trazendo para o contexto escolar, o trabalho prescrito estabelece que os professores estão formando cidadãos, mas o trabalho real apresenta condições desfavoráveis, tornando esse “formar cidadãos” uma tarefa improvável. O mesmo autor aponta que as contradições entre o trabalho prescrito e real podem ser compreendidas através da escuta, o que abre espaço para compreensão dos fatores que desencadeiam o prazer e o sofrimento, bem como as estratégias de defesas pessoais e coletivas. Observa-se, na fala da professora Lívia, que a estratégia de enfrentamento utilizada por ela permitiu melhor rendimento no trabalho. Ela relatou que buscou ajuda na terapia, percebendo que à medida que foi sendo ouvida e expondo suas angústias, sentiu-se mais aliviada. “E eu sinto que eu rendi melhor no trabalho (...) a partir do momento que eu vou pra psicóloga e relato tudo que eu sinto na sala de aula, tudo que eu passo, então... sabe? Descarrega! E aí ajuda”. Para Codo (1999), a busca de resolução dos conflitos vividos pelos docentes pode ocorrer em duas dimensões: afetiva e racional. O enfrentamento dos conflitos afetivos, lida diretamente com as emoções e os sentimentos, o que pode provocar sofrimento do sujeito, sendo necessária ajuda externa (psicólogos e terapeutas) para um direcionamento desses conflitos. Outra estratégia identificada refere-se à tentativa de manter o equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional, a professora Aparecida busca manter distanciamento entre o ambiente de trabalho e sua vida particular, pois, segundo ela, seus familiares necessitam de 28 atenção - “Eu procuro sempre reservar as maiores angústias para aquele momento que eu estou na escola, para o meu mecanismo de defesa quando eu sair da escola... porque eu tenho toda uma vida lá fora. Eu tento não levar esses problemas pra minha vida particular”. Todos esses elementos contribuem para existência de um suporte sócio-afetivo dos professores investigados, o qual minimiza o desgaste profissional. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo objetivou investigar as principais vivências de prazer e sofrimento psíquico do trabalho docente, bem como analisar as características organizacionais e suas repercussões para a saúde do professores, além das principais estratégias utilizadas para enfrentar o sofrimento. Para tanto, foram realizadas entrevistas cujos relatos abordam diferentes aspectos das vivências de prazer e sofrimento dos profissionais da educação, com a intenção de verificar se há presença de sintomas que denunciem de alguma forma repercussões para saúde do professor. Para atender os objetivos da pesquisa, foram considerados estudos referentes ao contexto escolar, dentre os quais os desenvolvidos por Esteve (1999), Codo (1999) e Landini (2007) e, ainda, as contribuições da Psicodinâmica do Trabalho, desenvolvida por Dejours (1992, 1994, 2004) e aprofundada por Mendes (1999, 2007) no Brasil. Ao longo da investigação, levantou-se um conjunto de queixas acerca da situação do trabalho docente nas escolas públicas. No que diz respeito às vivências de sofrimento, foram encontrados os seguintes temas: perspectiva teórico-metodológica de ensino, referência familiar, influência da informática, rotina de trabalho, desvalorização do professor, recursos físicos/humanos e adoecimento. É importante destacar que o conjunto das entrevistas revelou semelhanças nas principais angústias sofridas pelos professores, dentre elas, a busca incansável de métodos de ensino que despertem o interesse dos alunos, a falta de apoio e participação dos pais, a inserção da informática como competidora no processo de ensinoaprendizagem, recursos físicos e humanos precários, com salas de aulas “lotadas” e número de professores insuficientes para a demanda, sobrecarga de trabalho, desvalorização do professor e insatisfação salarial. Com relação às vivências de prazer na docência, os resultados indicam que, sobretudo a relação afetiva que estabelecem com os alunos, é fonte de satisfação no trabalho. A relação com os colegas de trabalho, a troca de conhecimentos, o reconhecimento pelo trabalho realizado, principalmente quando este aluno consegue benefícios escolares, como passar no PAS e no vestibular, são geradores de prazer e reforça o sentido do trabalho docente. Outro aspecto evidenciado por esta pesquisa são as estratégias de enfrentamento que os professores constroem para lidar com as adversidades do seu trabalho. A cooperação e o coleguismo entre os professores foram levantados como estratégia eficiente para lidarem com dificuldades cotidianas, auxiliando para o não-adoecimento do trabalho. O estudo também revelou que alguns professores têm utilizado estratégias de defesa individuais, procurando ajuda de um profissional. Desse modo, o fato de se sentirem ouvidos, acolhidos, tendo espaço para dialogar sobre suas vivências de sofrimento, alivia suas tensões pessoais e principalmente profissionais. O trabalho docente na escola pública é complexo, abarcando inúmeras problemáticas e diversas situações, para as quais os professores não estão preparados. Diante dessas adversidades, o trabalho docente vem manifestando um rol de sinais e sintomas de sofrimento psíquico, expresso como, frustração, angústia, depressão, desânimo, manifestações de 29 irritação. As dificuldades relatadas pelos professores apontam para uma repercussão negativa na saúde, indicando não necessariamente adoecimento, mas vivências de sofrimento constante no cotidiano de trabalho. Com base nos resultados, pode-se afirmar que o contexto de trabalho estudado apresenta predominantemente indícios de vivências de sofrimento, as quais são enfrentadas de modo solitário, sem apoio social e institucional. Contudo, apesar de todas as dificuldades, os professores elaboram estratégias para driblar os obstáculos e tornar o seu trabalho mais prazeroso. Diante do exposto e por meio da psicodinâmica do trabalho - Dejours (1992, 1994, 2004) – percebe a necessidade de um espaço de escuta para esses profissionais, para que possam discutir refletir e encontrar alternativas coletivas para transformação das situações reais de trabalho, dado que existe uma discrepância entre o trabalho prescrito e real. Além disso, criar alternativas para prevenção e promoção de saúde no ambiente de trabalho juntamente com a Secretaria de Educação do Distrito Federal, poderá minimizar os riscos de adoecimento dos trabalhadores da Educação. A partir dessa investigação, sugere-se a realização de novos estudos voltados para saúde do professor, papel da Secretaria de Educação e as práticas escolares, uma vez que percebemos que os sintomas de sofrimento estão relacionados ao trabalho como um todo. Vale à pena ressaltar a importância de analisar a dimensão do trabalho coletivo para esses professores, visto que nessa pesquisa se deflagrou a cooperação como sendo uma das estratégias de enfrentamento. Sendo assim, estudos voltados para pesquisa-ação também irão contribuir de forma positiva para esses trabalhadores docentes. Esperamos que este estudo tenha contribuído para aguçar o olhar e a escuta desses trabalhadores, de modo que possibilite a construção de um ambiente favorável á saúde dos mesmos. 7. REFERÊNCIAS ALVES, G; ANTUNES, R. As mutações no mundo do trabalho na era da mundialização do capital. Educação e Sociedade, Campinas, v. 25, n. 87, p. 335-351, maio/ago. 2004. BARDIN, L. Análise de conteúdo. 3. ed. Lisboa: Edições 70, 2004. BORGES, L.O; YAMAMOTO, O. H. O mundo do trabalho. In: Zanelli, Borges- Andrade, Bastos (Org.) Psicologia, organizações e trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed, 2004. BRAND, R.M.W. O mal estar e os riscos da profissão docente. Universidade Estadual do Oeste do Paraná – PPGE/UFPel, Paraná, abril, 2008. CASTRO-SILVA, L.M. Casos de afastamento por LER/DORT e retorno ao trabalho bancário: uma análise psicodinâmica. 111 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade de Brasília, Brasília, 2006. CZEKSTER, M.V. Sofrimento e prazer no trabalho docente em escola pública. 152f. Dissertação (Mestrado em Administração) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2007. CLARO, G.R. Trabalho docente e saúde mental: um estudo de estresse no sistema de ensino municipal de Curitiba. 135f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2009. CODO, W; BATISTA. A. S. Crise de identidade e sofrimento. In ______. (Coord.). Educação: carinho e trabalho. 3ª ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1999. p. 60-85. ______; GAZZOTTI, A. A. Trabalho e afetividade. In: ______ (Coord.). Educação: carinho e trabalho. 3ª. ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1999.p. 48-59. ______; VASQUES- MENEZES, I. O que é burnout? In:______ (Coord.). Educação: carinho e trabalho. 3ª. ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1999. p. 237-260. DEJOURS, C.; ABDOUCHELI, E. Itinerário teórico em Psicopatologia. In: BETIOL, M.I.S. (Coord.). Psicodinâmica do trabalho: contribuições da escola dejouriana à análise da relação prazer, sofrimento e trabalho. São Paulo: Atlas 1994. P. 119- 145. ______. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: CortezAboré, 1992. ______. Da psicopatologia a psicodinâmica do trabalho. Rio de Janeiro: Fiocruz, Brasília: Paralelo 15, 2004. ESTEVE, J. M. O mal-estar docente: a sala de aula e a saúde dos professores. São Paulo: EDUSC, 1999. FERREIRA, M.C; MENDES, A.M. Trabalho e riscos de adoecimento: casos dos auditores fiscais da previdência social brasileira. Brasília: LPA, 2003. FIGUEIREDO, L.C.M; SANTI, L.R. Psicologia uma (nova) introdução. 2. ed. São Paulo: EDUC, 2002. 98 p. ISBN 85-283-0129-X. GASPARINI, S.M; BARRETO, S.M; ASSUNÇÃO, A. A. O professor, as condições de trabalho e os efeitos sobre sua saúde. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 2, p. 189199, maio/ago. 2005. GRANDE, C. O trabalho e o afeto: Prazer e sofrimento no trabalho dos professores da escola pública de Brasília. 213f. Dissertação (Mestrado em Sociologia)- Universidade de Brasília, Brasília, 2009. HAGEMEYER, R.C. de C. Dilemas e desafios da função docente na sociedade atual: os sentidos da mudança. Revista Educar, Curitiba, n. 24. p. 67- 85, Editora UFPR, 2004. KRAHE, E. D.; TAROUCO,L. M. R.; KONRATH, M. L. P. Desafios do trabalho docente: mudanças ou repetição. Revista Novas Tecnologias na Educação, Rio Grande do Sul, vol.4. n. 2, p. 1 a 8, Dezembro, 2006. Disponível em: <http://www.cinted.ufrgs.br/renot/dez2006/artigosrenote/25165.pdf>. Acesso em: 21 Maio de 2010. LANDINI, S.R. Professor, trabalho e saúde: políticas educacionais, a materialidade histórica e as conseqüências para a saúde do trabalhador-professor. Revista Colloquium Humanarum. Presidente Prudente – SP, v.4, n.1, p. 8 a 21, jun. 2007. MENDES, A. M. Da psicodinâmica à psicopatologia do trabalho. In:______(Org.). Psicodinâmica do trabalho: teoria, método e pesquisas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007. ______. Valores e vivências de prazer-sofrimento no contexto organizacional. 1999.314 f. Tese (Doutorado em Psicologia em Psicologia)- Universidade de Brasília, Brasília, 1999. LACROIX, M. J. Eros e Tânatos. Uma leitura do ato pedagógico. In: POURTOIS, J.P; MOSCONI, N (Org.). Prazer, sofrimento, indiferença na educação. São Paulo: Edições Loyola, 2007, p. 137-143. ______. Pesquisa em psicodinâmica: A clínica do trabalho. In:______ (Org.). Psicodinâmica do trabalho: teoria, método e pesquisas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007. p. 65 a 87. ______. Valores e vivências de prazer-sofrimento no contexto organizacional. 314 f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade de Brasília, Brasília, 1999. MERLO, A. R. C; LAPIS, N. L. A saúde e os processos de trabalho no capitalismo: reflexões na interface da psicodinâmica do trabalho e da sociologia do trabalho. Revista psicologia e sociedade. Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Porto Alegre, v. 19, n. 1, p. 61 a 68, jan/abril 2007. MUNIZ, H. P; MARIANO, M. S. S. trabalho docente e a saúde: o caso dos professores da segunda fase do ensino fundamental. Estudos e pesquisas em Psicologia. UERJ- Rio de Janeiro, ano 6, n. 1, p. 76 a 88, jun. 2006. NEVES, M. Y. R; SILVA. E.S. A dor e a delícia de ser (estar) professora: trabalho docente e saúde mental. Estudos e pesquisas em Psicologia. UERJ – RJ, ano 6, n. 1, p. 63 a 75, jun. 2006. OLIVEIRA, D.A. A reestruturação do trabalho docente: precarização e flexibilização. Educação e Sociedade. Campinas, vol. 25, n. 89, p. 1127-1144, Set./Dez. 2004. SCORTEGAGNA, P.A; OLIVEIRA, R.de C da S. A formação do professor da Educação de Jovens e Adultos: um processo contínuo e reflexivo. Dialogia, São Paulo, v.7, n. 1, p. 77-84, 2008. SILVA, G.R.F.; MACÊDO, K.N.F.; REBOUÇAS, C.B.A.; SOUZA, A.M.A. Entrevista como técnica qualitativa. Revista de Enfermagem. Niterói, v.5, n. 2, 2006. Disponível em: <http://www.objnursing.uff.br/index.php/nursing/article/view/382/88>. Acesso em: 17 ago. 2010. SILVA, M.A; BIEHL, K. Trabalho na pós- modernidade: crenças e concepções. Revista Mal - estar e subjetividade. Fortaleza, v. VI n. 2, p. 518 a 534, set. 2006. SILVA, R.de M. S. O mal estar docente: Um estudo da psicodinâmica do trabalho a partir de relatos de professores do ensino fundamental do Distrito Federal 161f. Dissertação (Mestrado)-Universidade Católica de Brasília, Brasília, DF, 2010. SORATTO, L; HECKLER, C. O. Trabalho: atividade humana por excelência. In:______ (Coord). Educação: carinho e trabalho. 3. ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1999. SOUZA, B. P. Funcionamentos escolares e a produção do fracasso escolar e sofrimento. In: B. P. Souza (org.). Orientação a queixa escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007, p. 241 a 278. TURATO, E. R. Métodos qualitativos e quantitativos na área da saúde: definições, diferenças e seus objetos de pesquisa. Rev Saúde Pública, São Paulo, 2005; 39 (3) p. 507- 514. ANEXO 1 – Roteiro de entrevista semi-estruturado I) Identificação: 1) Gênero: ( ) Masculino ( ) Feminino 2) Idade: ______ anos 3) Escolaridade: ( ) Ensino Médio Completo ( ) Magistério ( ) Superior Completo ( ) Superior incompleto ( ) Pós-graduação. 4) Formação: ____________________________________________________ 5) Tempo de atuação na educação: ___________________________________ 6) Carga horária semanal de atuação em sala de aula: ( ) menos de 20 horas ( ) acima 20 horas ( ) acima de 40 horas ( ) 60 horas. 7) Contrato de trabalho: ( ) Temporário ( ) Concursado 8) Afastamentos do trabalho neste ano por problema de saúde relacionado ao trabalho: ( ) Nenhum ( ) Entre 1 e 3 ( ) Mais de 3. II) Perguntas norteadoras: 1) Fale sobre sua trajetória profissional. 2) Descreva suas atividades de trabalho. Como é, pra você, realizar essas atividades? 3) O que lhe assegura prazer no trabalho? 4) O que lhe causa sofrimento no trabalho? 5) Que estratégias você utiliza para lidar com as vivências de sofrimento? 6) Como você avalia a estrutura organizacional (recursos físicos e humanos) da escola em que você trabalha? 7) Como você avalia sua vida pessoal em termos de dedicação à família, à saúde, ao trabalho doméstico e ao lazer, levando em consideração sua rotina profissional hoje? 8) Considerando as características da pós modernidade (de nosso tempo), o que você julga favorável ao processo de ensino aprendizado? 9) E o que julga desfavorável? 10) Como você avalia seu trabalho? Como você se sente em relação ao seu trabalho? ANEXO 2 – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) O (a) Senhor(a) está sendo convidado(a) a participar do projeto: “Professores: desafios e prazeres no trabalho em escolas públicas do Distrito Federal ”. O nosso objetivo geral: Conhecer as principais vivências de prazer e sofrimento no trabalho docente. E tem por objetivos específicos: analisar as principais fontes de prazer e sofrimento psíquico na docência, conhecer as características organizacionais e suas repercussões na saúde do professor, identificar as principais estratégias construídas pelos professores para enfrentar o sofrimento, e oferecer subsídios que contribuam para o estabelecimento de ações comprometidas com a promoção da qualidade de vida no trabalho docente. O (a) Senhor (a) receberá todos os esclarecimentos necessários antes e no decorrer da pesquisa e lhe asseguramos que seu nome não aparecerá, sendo mantido o mais rigoroso sigilo através da omissão total de quaisquer informações que permitam identificá-lo(a). A sua participação será através de uma entrevista semi-estruturada que você deverá responder nas dependências da escola em que atua e na data combinada com um tempo estimado para sua realização de 30 à 40 minutos. Não existe obrigatoriamente, um tempo prédeterminado, para a realização das entrevistas. Sendo respeitado o tempo de cada um para respondê-la. Informamos que a Senhor (a) pode se recusar a responder qualquer questão que lhe traga constrangimento, podendo desistir de participar da pesquisa em qualquer momento sem nenhum prejuízo para a senhor (a) no seu entendimento. Ao final da pesquisa, se você desejar, nós poderemos entrar em contato para uma sessão de apresentação dos resultados desta pesquisa. Os dados e materiais utilizados na pesquisa ficarão sobre a guarda de Luciana Maria Dias Mota (estudante de Psicologia da Universidade Católica de Brasília, condutora da pesquisa, sob orientação da Profª MSc. Gleicimar Gonçalves Cunha. A pesquisa subsidiará a elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) pela estudante. Se o Senhor(a) tiver qualquer dúvida em relação à pesquisa, por favor telefone para: Prof.ª MSc Gleicimar Gonçalves Cunha, na Universidade Católica de Brasília (UCB), pelo telefone: (61) 99783188; e-mail: [email protected] ou para Luciana Maria Dias Mota, na Universidade Católica de Brasília (UCB), pelo telefone: (61) 93036167. Este projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Católica de Brasília (UCB), e qualquer assunto relacionado à eticidade desta pesquisa, assim como questões ligadas a possíveis indenizações por danos, também podem ser tratados com os mesmo. O telefone do CEP é (61) 3356-9784 e o campus I da UCB localiza-se em Águas Claras- Taguatinga/DF. Este documento foi elaborado em duas vias, uma ficará com o pesquisador responsável e a outra com o sujeito da pesquisa. ______________________________________________ Nome / assinatura: ______________________________________________ Pesquisador Responsável Nome e assinatura: Brasília, ______ de ______________ de _________