EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA: REPRESENTAÇÕES E DESAFIOS Maria das Graças Sandi Magalhães1, Luciana Maria Crestani2, Eliane Quinelato3, Patrícia de Moraes Gomes4, Mirela Nascimento Rodrigues5, Clinio Jorge de Souza n, 1 2 3 [email protected]; [email protected]; [email protected]; [email protected] - Anhanguera Educacional /IPADE, Grupo de pesquisa 26-Multiletramento, Al. Maria Tereza, 4226, Valinhos-SP. 4 5 [email protected]; [email protected] Faculdade Anhanguera de São José/Pedagogia-EaD, Av. João Batista de Souza Soares, 4121, Colônia Paraíso, São José dos Campos - SP. n Resumo- A baixa qualidade atribuída aos cursos de graduação na modalidade Educação a Distância, em reportagens veiculadas pela mídia impressa de grande circulação e também em artigos acadêmicos são o objeto desse estudo, apoiando-se nas concepções desenvolvidas por Foucault e Chartier em relação aos conceitos de formação discursiva e representação. Falta de planejamento, diminuição de custos, desvalorização docente, má formação devido à falta de autonomia dos alunos, emprego dos métodos tradicionais, adaptados às novas tecnologias, são os principais problemas apontados pelo meio acadêmico e apropriados em parte pela imprensa. Entretanto, essas questões revelam apenas uma parcela dos desafios que surgem pela aproximação cada vez maior das metodologias aplicadas aos cursos presenciais e a distância. A análise sobre as representações sobre a Educação a Distância e o estudo de caso desenvolvidos pelo grupo de discussão sobre multiletramento, no qual este artigo se insere, indicam caminhos para minimizar as dificuldades apresentadas, considerando-se a perspectiva da alfabetização acadêmica. Palavras-chave: Educação a Distância; Multiletramento; Alfabetização Acadêmica Área do Conhecimento: Ciências Humanas - Educação Introdução Um dos obstáculos a superar na consolidação dos cursos em Educação a Distância (EaD) é a associação dos mesmos à baixa qualidade. Em textos recentes que tratam dessa modalidade de ensino, acadêmicos ou não, quase sempre a EaD é apresentada como uma opção mais barata para a formação de jovens e adultos, cuja expansão é irreversível, porém ainda pouco eficiente no que se refere à qualidade dos formandos e futuros profissionais. Analisar os discursos e as concepções que sustentam essas representações possibilita identificar os problemas a superar e propor novas formas de diálogo com os envolvidos com a introdução das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) não só na EaD, mas nos diferentes níveis de ensino. A redução da discussão em torno das motivações mercadológicas que seriam responsáveis pela expansão dos cursos de graduação à distância obscurece aspectos essenciais ao processo de apropriação dos conhecimentos científicos pelos graduandos. Processo que depende da aquisição de novas habilidades por parte dos estudantes, uma vez que, dada a evolução dos suportes de leitura e escrita e à diversidade cultural que nestes meios circulam, o conceito de letramento já se expandiu para o de multiletramento, porque as práticas de leitura e escrita atuais demandam outros e mais amplos conhecimentos implicados nos processos de produção e recepção de textos. Letrar um aluno apenas para a leitura e escrita de textos em suporte papel é, no mínimo, ignorar as práticas sociais de leitura e escrita que o circundam e com as quais ele precisa interagir para ser tornar sujeito atuante numa sociedade globalizada, multicultural e multissemiótica no que tange à produção e difusão do conhecimento e informação (SOUZA et al, 2013, p. 2). Nesse sentido, este artigo, além de investigar diferentes representações acerca da EaD, procura avançar no reconhecimento e análise de formas de apropriação dos conhecimentos disponibilizados aos alunos, a partir do conceito de multiletramento. De forma mais incisiva, no Ensino a Distância, as habilidades leitoras e escritoras devem ser exercidas em um contexto de gerenciamento adequado dos recursos oferecidos pelos Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA), aspecto considerado como parte do conceito de letramento digital. Os resultados iniciais de estudo de caso apresentados neste artigo são parte de XVII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica, XIII Encontro Latino Americano de Pós Graduação e III Encontro de Iniciação à Docência – Universidade do Vale do Paraíba 1 projeto de pesquisa sobre o multiletramento acadêmico, que investiga formas de trabalho, de leitura e escrita acadêmica, abrangendo textos multimodais, multissemióticos (SOUZA et al, 2013). Metodologia O tema a ser investigado neste artigo relaciona-se ao projeto de pesquisa sobre multiletramento, financiada pelo IPADEAnhanguera Educacional/FUNADESP. Por meio da investigação das representações veiculadas em jornais de grande circulação e artigos específicos do meio acadêmico, buscar-se-á identificar as principais representações em torno da qualidade atribuída aos cursos dessa modalidade, analisando-se as mudanças e permanências nas concepções disseminadas pela mídia. Para o desenvolvimento da pesquisa, com caráter qualitativo, foram selecionadas duas reportagens do jornal O Estado de São Paulo e uma reportagem em revista de divulgação científica - Nova Escola, além de três artigos acadêmicos, que tratam da qualidade da Educação a Distância. A análise dos discursos presentes nesses impressos contempla as concepções desenvolvidas por Foucault (1996) e Chartier (1990) em relação aos conceitos de formação discursiva e representação, respectivamente. As proposições de Carlino (2005), Rojo (2012) sobre os conceitos de multiletramento e alfabetização acadêmica foram empregadas na elaboração da proposta de estudo de caso, em andamento, desenvolvido como parte do projeto de pesquisa referido. Resultados Segundo Carlino (2005), não se conseguirá soluções para o desencontro entre o que esperam os docentes e o que os alunos alcançam buscando apenas aprimorar as habilidades leitoras e discursivas dos alunos como um fim em si mesmo. Para a autora, dispor-se a alfabetizar no meio acadêmico implica em incluir nos planos de aula o que a autora considera um dos mais valiosos saberes desenvolvidos ao longo da trajetória acadêmica dos docentes: "os modos de indagar, de aprender e de pensar em uma área de estudo, modos vinculados com as formas de ler e escrever que se desenvolveram dentro da comunidade acadêmica a que pertencemos" (2005, p. 13). Em acordo com essa concepção é que se encontra em desenvolvimento estudo de caso, que integra a pesquisa do grupo Multiletramento Acadêmico, que se dedica a identificar os processos de apropriação de conhecimentos científicos por alunos em cursos a distância, a partir da identificação das formas de leitura e acompanhamento das atividades no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA). As alunas selecionadas para desenvolver a metodologia adaptada das propostas formuladas por Carlino (2005), no que se refere à alfabetização acadêmica, cursam o quinto semestre do curso de Pedagogia, na Faculdade Anhanguera de São José dos Campos, tendo acesso ao conteúdo das disciplinas e atividades de avaliação pelo AVA, vinculado à plataforma aedu, sediada no Google Apps, oferecida pela Anhanguera Educacional aos discentes de todos os cursos da instituição. Tratando-se de pesquisa sobre o letramento digital, o suporte empregado foi considerado não só um dos aspectos metodológicos do estudo de caso, mas também objeto de pesquisa. Por essa razão, foi criado um grupo de discussão no Facebook, intitulado Multiletramento, com acesso restrito aos membros do grupo de pesquisa, para que a postagem das orientações, de comentários, das fichas de leitura e outras atividades, permitisse ampliar a análise sobre as apropriações e intervenções das alunas bolsistas a partir de uma mídia eletrônica. A escolha de alunas vinculadas ao curso de Pedagogia à distância permite refletir sobre os desafios propostos para essa modalidade. Discussão A iniciativa governamental em relação a EaD culminou com a criação da Universidade Aberta do Brasil em 2005 e uma sequência de regulamentações, com base nas indicações propostas pela Lei de Diretrizes e Bases aprovada em 1996. Entretanto, foram as instituições de ensino superior particulares as principais responsáveis pela expansão dos cursos universitários à distância no Brasil. Entre 2009 e 2010, o crescimento dos cursos no modelo semipresencial ganhou destaque em diferentes veículos de mídia. A Rede Globo destacou o fenômeno no seu telejornal de maior audiência, em uma série de reportagens sobre o ensino a distância em abril de 2009. Da mesma forma, o tema foi abordado em diferentes veículos da mídia impressa. A revista Nova Escola, publicada pela Editora Abril, em sua edição nº 227, de novembro de 2009, trazia como principal chamada “Educação a Distância: mitos e verdades”. A análise do texto dos repórteres Ana Rita Martins e Anderson Moço interessa a este artigo por tratar-se de uma reportagem disseminada em um impresso de grande circulação entre educadores do Ensino Básico e XVII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica, XIII Encontro Latino Americano de Pós Graduação e III Encontro de Iniciação à Docência – Universidade do Vale do Paraíba 2 estudantes, meio formador de opiniões em relação aos sistemas de ensino. Apontando um crescimento da EaD de “45.000% entre 2000 e 2009”, os autores indicam a desconfiança em relação aos profissionais oriundos desses cursos, em especial as graduações voltadas para a formação do professor, como um dos principais motivos da reportagem: “Muita gente, no entanto, ainda fica de pé atrás com quem tirou diploma de Pedagogia ou Licenciatura nessa modalidade. Para avaliar se isso é puro preconceito, veja o que é mito e verdade nessa área” (MARTINS, MOÇO, 2009). Constatando que as experiências com a Educação a distância começaram no país ainda no início do século XX, os jornalistas afirmam que os avanços tecnológicos, como a internet e a banda larga, permitiram estender esse tipo de ensino para os cursos de extensão, graduação e pós-graduação. Visto como uma saída para suprir a demanda de formação superior em um país de dimensões continentais e com desigualdades estruturais entre suas regiões, a Nova Escola aponta a falta de fiscalização governamental, a baixa remuneração, a formação deficitária dos tutores e o número ainda reduzido de formandos como um dos pontos fracos, responsáveis pela desconfiança do mercado de trabalho em relação à qualidade dos cursos na modalidade EaD. Segundo dados do Inep de 2006, enquanto na graduação presencial formaram-se 736.829 profissionais, na Educação a distância havia nesse ano 25.804 estudantes concluintes em cursos de graduação. Destacando vários mitos referentes à EaD, os repórteres apontam as concepções equivocadas em torno dessa modalidade de ensino, como a crença na facilidade de se obter o diploma devido ao custo baixo dos cursos, à forma das avaliações, à liberdade de horários e ao tempo menor de estudo. Ao mesmo tempo, esses itens seriam os responsáveis pela associação da baixa qualidade aos cursos à distância. O texto alerta os leitores para a necessidade de pesquisar as referências desse tipo de curso junto ao MEC. Além disso, os autores destacam o perfil que o estudante em EaD deve apresentar: ser disciplinado para estudar, em um curso com uma carga de leitura por vezes maior que a dos cursos presenciais, o que exige maior capacidade de interpretação, maturidade e autonomia por parte do estudante. Por essa razão, a faixa etária dos alunos, à época de reportagem, estaria na casa dos 30 anos, pois em geral “os alunos mais jovens não atingiram o nível de maturidade, comprometimento e responsabilidade que o planejamento de estudos da modalidade requer” (MARTINS; MOÇO, 2009). Segundo a revista, o estudante deveria levar em conta os custos de deslocamento para as aulas presenciais e avaliações, além do acesso a uma conexão à internet de boa qualidade como itens essenciais para a permanência e bom desempenho do estudante durante o curso e que permitiriam atingir a qualidade pedagógica semelhante a dos cursos presenciais. O jornal O Estado de São Paulo também dedicou duas reportagens sobre o tema, em abril e novembro de 2010, em dois cadernos diferentes do jornal: Vida & e Economia & Negócios. Em abril de 2010, da mesma maneira que a reportagem da Nova Escola, o crescimento da EaD foi destacado pela repórter Mariana Mandelli na chamada do início da notícia: “Ensino a distância atrai 1 a cada 5 estudantes”. Entretanto, a tônica da reportagem atém-se aos aspectos positivos da modalidade, pouco conhecida da maioria da população, segundo o jornal. Versatilidade, modularidade, capacidade de inclusão, facilidade de acesso, além de bom desempenho no ENADE são os itens favoráveis apresentados pela reportagem, que considera a EaD como um fenômeno mundial, que “no Brasil demorou para se estabelecer”, segundo o secretário de Educação a Distância do MEC, Carlos Eduardo Bielschowsky, que dá seu depoimento na reportagem. Um dos exemplos da resistência a essa modalidade, de acordo com a repórter do jornal O Estado de São Paulo, foi a resolução do Conselho Federal de Biologia de proibir a concessão de registro profissional para os alunos formados a distância, decisão suspensa pela Justiça Federal. O mesmo jornal, em dezembro de 2010, retomou o tema, dessa vez no caderno Economia & Negócios, por meio da reportagem de Lígia Aguilhar, que aborda a questão da aceitação dos profissionais formados em EaD pelo mercado de trabalho, problema levantado também pela reportagem da Nova Escola no ano anterior. A chamada da seção Sua Carreira explicita o tom diferenciado em relação à reportagem de abril do mesmo ano: “O dilema da educação a distância”. As resistências do mercado de trabalho foram expostas a partir de depoimentos de consultores e responsáveis por recrutamento, que alegam a falta de convívio com outras pessoas como um dos elementos que impediriam a troca de experiências e prejudicariam a qualidade da formação dos alunos dos cursos a distância, uma vez que segundo esses especialistas, os chats e fóruns não substituiriam o convívio em sala de aula. A falta de parâmetros para avaliar a qualidade desses cursos é outro fator que a reportagem apresenta como elemento que gera a desconfiança das empresas, inclusive para as XVII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica, XIII Encontro Latino Americano de Pós Graduação e III Encontro de Iniciação à Docência – Universidade do Vale do Paraíba 3 graduações ou pós-graduações oferecidas por instituições renomadas. A única exceção seriam os cursos complementares e de curta duração. Para Úrsula Angeli, gerente geral de RH da Whirlpool, eleita em 2010 a melhor empresa para se trabalhar no Brasil, esse sistema de educação está em processo de amadurecimento no País. Por uma questão cultural e pela falta de uma avaliação mais consistente, os recrutadores ainda não consideram esse sistema maduro. [...] As empresas ainda não estão preparadas para assumir essa insegurança (In O Estado de São Paulo, 08/11/2010). Por meio das reportagens selecionadas, podese observar que diferentes órgãos da mídia impressa, reconhecendo o espaço conquistado pela Educação a distância no Brasil, vêm reproduzindo discursos institucionais, como os do MEC, e do setor empresarial, reforçando o aspecto da baixa qualidade na formação dos egressos das graduações nessas modalidades. Um dos questionamentos em torno desses discursos se refere às formas como as reflexões oriundas das universidades se relacionam com as representações sobre a EaD veiculadas pela imprensa. Por essa razão, para a análise desse aspecto, foram selecionados três artigos que circularam em forma impressa ou em meio digital e/ou apresentados em fóruns acadêmicos vinculados à educação entre 2006 e 2010. Procurando contemplar tanto revistas acadêmicas como os trabalhos apresentados em Congressos, fóruns privilegiados de circulação de ideias entre os pesquisadores, foram selecionados três artigos científicos para análise das representações sobre a EaD. Um deles foi apresentado na revista Em Aberto, publicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP. Os outros dois são oriundos de comunicações apresentadas à reunião anual da Associação Nacional de PósGraduação em Educação - ANPED e ao Encontro anual da ANPOCS. Títulos como Educação a distância ou educação distante? O programa Universidade Aberta do Brasil, o tutor e o professor virtual (ZUIN, 2006); Educação a distância e precarização do trabalho docente (LAPA; PRETTO, 2010) e Educação a distância, tecnologias e competências no cenário da expansão do ensino superior: pontuando relações, discutindo fragilidades (GARCIA, 2008) permitem identificar de imediato uma tônica comum às reflexões sobre a EaD no âmbito acadêmico, em especial na área da educação. A associação entre formação, valorização docente e qualidade da EaD tem se repetido em diversos trabalhos científicos recentes. Para Chartier, as lutas de representações têm tanta importância como as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção do “mundo social", os valores que são os seus, o seu domínio (1990, p. 17). Com base nessas considerações, identificar o pertencimento social dos que produzem os discursos nos artigos selecionados torna-se um aspecto metodológico importante para a investigação proposta neste artigo. Os autores dos textos aqui analisados se vinculam a universidades, federais e particulares (UFSCar; UFSC - Laboratório de Novas Tecnologias (Lantec), UFBA, UNIUBE), em diferentes regiões do Brasil, participando de projetos e/ou grupos de pesquisas que estudam a influência das TICs no processo educacional, com produções sobre a EaD que ganharam destaque em espaços formadores de opinião entre seus pares. Nesse sentido, pode-se, a partir de um critério qualitativo, considerar os artigos científicos analisados como emblemáticos de um conjunto de representações sobre a EaD, disseminado por um grupo específico: professores/pesquisadores do ensino superior no Brasil. Compreende-se, a partir dessa constatação, porque as reflexões dos autores passem pela questão da formação docente e pela problematização do papel do professor nos cursos a distância. Sintomático dessa “luta de representações”, o texto de Garcia afirma que: [...] a expansão da educação superior, em termos quantitativos é significativa, contém possibilidades para inclusão social de segmentos sociais “excluídos”, conforme o discurso oficial; porém as contradições que emergem destas políticas apontam para a inclusão precária dos alunos e para a introdução no campo da educação superior das formas flexíveis de trabalho docente e sua face perversa - a precarização da condição social do professor de ensino superior (2008, p.12). Ressaltando as diferenças entre o discurso oficial – produzido pelos idealizadores da Universidade Aberta do Brasil, vinculada ao MEC – e o que é produzido pelo meio acadêmico, a expansão do ensino superior por meio da criação de cursos à distância é vista pela autora como uma política pública que visa responder, sem um planejamento adequado, à demanda educacional do país, diminuindo custos e, ao mesmo tempo, desvalorizando o trabalho docente. A diferenciação entre as políticas públicas governamentais e as propostas do campo educacional também é ressaltada por Lapa e XVII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica, XIII Encontro Latino Americano de Pós Graduação e III Encontro de Iniciação à Docência – Universidade do Vale do Paraíba 4 Pretto (2010), que partem da caracterização de que a Universidade Aberta introduz, em relação a EaD, “o risco da prescrição e da padronização de um modelo único de educação – evidenciado pelo nível de detalhamento das atividades e funções descritas na Resolução CD/FNDE”. Para os autores, apoiando-se nos estudos de Giroux, o MEC caminha na contramão das principais discussões postas no campo educacional no sentido de se valorizar a realidade dos alunos, trabalhando a partir dos seus contextos, e de se fortalecer o papel do professor como um intelectual (LAPA; PRETTO, 2010, p. 89). Os autores destacam as deficiências na formação dos docentes no que concerne ao uso das TICs, em seus aspectos pedagógicos. O crescimento da EaD, para Lapa e Pretto, se deu a partir de uma sobrecarga do trabalho docente e com a contratação de tutores em condições de trabalho precárias. O predomínio dos aspectos econômicos sobre os pedagógicos seria responsável pela tensão mencionada por Moran (2008), entre uma educação encarada como necessidade e direito e a concepção de educação como um bem econômico ou serviço. Tratando da relação professor-aluno na EaD, Zuin (2010) discute a transformação do professor em “entidade coletiva”. Para o autor, o processo responsável pela liquefação da figura do professor, que se torna uma espécie de prestador de serviços [...] ou mesmo um recurso para o aluno, ilustra, despudoradamente, o seu processo de coisificação (2010, p. 947). É inegável que o processo rápido de expansão dos cursos a distância produziu uma série de problemas não só no que concerne ao trabalho docente e a formação dos tutores, mas também no que se refere à própria relação desses profissionais com os estudantes. Cabe questionar até que ponto a discussão sobre a valorização dos docentes não tem excluído das análises tanto a reflexão sobre as mudanças que a introdução das TICs produziram nos cursos superiores como a discussão sobre necessidade de redimensionar-se a atuação docente frente a esse contexto, inclusive nos cursos presenciais. O exercício da docência, frente à introdução das TICs, também tem sido objeto dos estudos de Dirce M. F. Garcia (2008). Entretanto, para a autora, o “novo” papel do docente como mediador do processo ensino-aprendizagem defronta-se com realidades que não são contabilizadas pelos defensores da EaD. Para Garcia, o aluno autônomo não é o que o professor encontra na maioria dos cursos, o que indica que a autonomia implica em habilidades e competências que devem ser desenvolvidas inclusive nesse nível de ensino. Comumente, se justificam as altas taxas de evasão na EaD, culpabilizando os estudantes que abandonam os cursos, argumento que busca isentar as instituições de ensino superior em relação à promoção da autonomia do graduando ao longo do curso. A banalização do conceito tem ocasionado inúmeros problemas na estrutura dos cursos a distância. Segundo Zuin, a palavra autonomia vai desenvolvendo novos avatares e hoje parece ser a palavra de ordem das propostas de educação a distância, pois o principal objetivo é o de facilitar o desenvolvimento da chamada aprendizagem autônoma (2010, p. 946). Para o autor, dadas as características da implantação da EaD no Brasil, o professor, em boa parte dos cursos, passou a ser considerado como mais um dos recursos do aluno, cedendo o lugar de sua autoridade para o que Zuin denomina “autoritarismo imagético que arrefece o desenvolvimento das representações e, portanto, do raciocínio crítico” (2010, p. 949). Falta de planejamento, diminuição de custos, desvalorização docente, má formação devido à falta de autonomia dos alunos, emprego dos métodos tradicionais, numa adaptação às tecnologias aplicadas à EaD, são os principais problemas apontados pelos artigos científicos analisados. Questões parcialmente apropriados pela mídia imprensa, com ênfases diferenciadas, em função não só dos interlocutores, como também dos grupos sociais que veiculam os discursos. As reflexões sobre os desafios propostos pela EaD buscam respostas para esses problemas, especialmente no que se refere ao letramento digital, definido por Soares (2002) como as práticas de leitura e escrita que computadores e o acesso a internet possibilitam. Entretanto, essas novas possibilidades entram em conflito com a constatação de que dificuldades não superadas durante o processo de alfabetização se mantém em boa parte dos casos dos estudantes de graduação que apresentam baixo desempenho, fenômeno que independe do tipo de mídia ou suporte de leitura empregado. Entre os docentes, as reclamações sobre as dificuldades de compreensão e o baixo interesse dos estudantes se acentuam, em todos os níveis de ensino. A crítica às dificuldades que os alunos apresentam em identificar informações implícitas em textos não é um fenômeno recente. A introdução das TICs, tanto nos cursos presenciais como semipresenciais implica em adotar outra perspectiva de análise, como a que está em XVII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica, XIII Encontro Latino Americano de Pós Graduação e III Encontro de Iniciação à Docência – Universidade do Vale do Paraíba 5 desenvolvimento no Grupo de Pesquisa 26 (FUNADESP/IPADE, 2012, 2013), ao qual se vincula o presente artigo. O conceito de multiletramento tornou-se objeto desse grupo de estudo a partir de algumas interrogações acerca do trabalho docente na graduação: entendendo que os textos multissemióticos fazem parte do nosso dia a dia (e dos nossos alunos) e que a sociedade da informação e da tecnologia exige cada vez mais o domínio de tal modalidade, surge a inquietação: como propor formas de trabalho, de leitura e escrita acadêmica, abrangendo textos multimodais, multissemióticos? Ou melhor, como propiciar o desenvolvimento dos multiletramentos em sala de aula? (SOUZA et al., 2012, p. 23). Conclusão Segundo Moran, “quanto mais tecnologias avançadas, mais a educação precisa de pessoas humanas, evoluídas, competentes, éticas” (2007, p. 165). Para o autor, as mudanças introduzidas não só nas instituições educacionais, mas em todos os aspectos da sociedade contemporânea, indicam que quanto mais acesso as pessoas têm aos meios digitais, maior a necessidade de intermediação. Os problemas identificados tanto pelos pesquisadores do meio acadêmico quanto os que são disseminados pela mídia revelam apenas uma pequena ponta do iceberg representado pela introdução nas TICS e pela aproximação cada vez maior das metodologias aplicadas aos cursos presenciais e a distância. Entretanto, questões básicas em torno do processo de apropriação do conhecimento por parte dos alunos que ingressaram no ensino superior não têm merecido a devida atenção, apesar do crescimento do acesso aos cursos de graduação no Brasil, a partir dos programas de bolsa, dos financiamentos governamentais e das políticas de cotas. Por essa razão, as indagações acerca do letramento acadêmico, do letramento digital e do multiletramento se tornam fundamentais. Referências - AGUILHAR, Lígia. O dilema do ensino a distância. In O Estado de São Paulo (08/11/2010) disponível em: http://economia.estadao.com.br/noticias/suacarreira,o-dilema-da-educacao-adistancia,42368,0.htm, acesso em 18/07/2012 - BEHAR, P. A. Modelos Pedagógicos em Educação a Distância. Porto Alegre: Artmed. 2008, 316p. - CARLINO, P. Escribir, leer y aprender en la universidad: una introducción a la alfabetización acadêmica. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2005. - CHARTIER, R. 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