EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA: REPRESENTAÇÕES E DESAFIOS
Maria das Graças Sandi Magalhães1, Luciana Maria Crestani2, Eliane Quinelato3,
Patrícia de Moraes Gomes4, Mirela Nascimento Rodrigues5, Clinio Jorge de Souza n,
1
2
3
[email protected];
[email protected];
[email protected];
[email protected] - Anhanguera Educacional /IPADE, Grupo de pesquisa 26-Multiletramento, Al.
Maria Tereza, 4226, Valinhos-SP.
4
5
[email protected]; [email protected] Faculdade Anhanguera de São José/Pedagogia-EaD,
Av. João Batista de Souza Soares, 4121, Colônia Paraíso, São José dos Campos - SP.
n
Resumo- A baixa qualidade atribuída aos cursos de graduação na modalidade Educação a Distância, em
reportagens veiculadas pela mídia impressa de grande circulação e também em artigos acadêmicos são o
objeto desse estudo, apoiando-se nas concepções desenvolvidas por Foucault e Chartier em relação aos
conceitos de formação discursiva e representação. Falta de planejamento, diminuição de custos,
desvalorização docente, má formação devido à falta de autonomia dos alunos, emprego dos métodos
tradicionais, adaptados às novas tecnologias, são os principais problemas apontados pelo meio acadêmico
e apropriados em parte pela imprensa. Entretanto, essas questões revelam apenas uma parcela dos
desafios que surgem pela aproximação cada vez maior das metodologias aplicadas aos cursos presenciais
e a distância. A análise sobre as representações sobre a Educação a Distância e o estudo de caso
desenvolvidos pelo grupo de discussão sobre multiletramento, no qual este artigo se insere, indicam
caminhos para minimizar as dificuldades apresentadas, considerando-se a perspectiva da alfabetização
acadêmica.
Palavras-chave: Educação a Distância; Multiletramento; Alfabetização Acadêmica
Área do Conhecimento: Ciências Humanas - Educação
Introdução
Um dos obstáculos a superar na consolidação
dos cursos em Educação a Distância (EaD) é a
associação dos mesmos à baixa qualidade. Em
textos recentes que tratam dessa modalidade de
ensino, acadêmicos ou não, quase sempre a EaD
é apresentada como uma opção mais barata para
a formação de jovens e adultos, cuja expansão é
irreversível, porém ainda pouco eficiente no que
se refere à qualidade dos formandos e futuros
profissionais. Analisar os discursos e as
concepções que sustentam essas representações
possibilita identificar os problemas a superar e
propor novas formas de diálogo com os envolvidos
com a introdução das Tecnologias de Informação
e Comunicação (TICs) não só na EaD, mas nos
diferentes níveis de ensino.
A redução da discussão em torno das
motivações
mercadológicas
que
seriam
responsáveis pela expansão dos cursos de
graduação à distância obscurece aspectos
essenciais ao processo de apropriação dos
conhecimentos científicos pelos graduandos.
Processo que depende da aquisição de novas
habilidades por parte dos estudantes, uma vez
que,
dada a evolução dos suportes de leitura e
escrita e à diversidade cultural que nestes meios
circulam, o conceito de letramento já se expandiu
para o de multiletramento, porque as práticas de
leitura e escrita atuais demandam outros e mais
amplos conhecimentos implicados nos processos
de produção e recepção de textos. Letrar um
aluno apenas para a leitura e escrita de textos em
suporte papel é, no mínimo, ignorar as práticas
sociais de leitura e escrita que o circundam e com
as quais ele precisa interagir para ser tornar
sujeito atuante numa sociedade globalizada,
multicultural e multissemiótica no que tange à
produção e difusão do conhecimento e informação
(SOUZA et al, 2013, p. 2).
Nesse sentido, este artigo, além de investigar
diferentes representações acerca da EaD, procura
avançar no reconhecimento e análise de formas
de
apropriação
dos
conhecimentos
disponibilizados aos alunos, a partir do conceito de
multiletramento.
De forma mais incisiva, no
Ensino a Distância, as habilidades leitoras e
escritoras devem ser exercidas em um contexto de
gerenciamento adequado dos recursos oferecidos
pelos Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA),
aspecto considerado como parte do conceito de
letramento digital. Os resultados iniciais de estudo
de caso apresentados neste artigo são parte de
XVII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica, XIII Encontro Latino Americano de Pós Graduação e III Encontro de Iniciação à Docência – Universidade do Vale do Paraíba
1
projeto de pesquisa sobre o multiletramento
acadêmico, que investiga formas de trabalho, de
leitura e escrita acadêmica, abrangendo textos
multimodais, multissemióticos (SOUZA et al,
2013).
Metodologia
O tema a ser investigado neste artigo
relaciona-se ao projeto de pesquisa sobre
multiletramento,
financiada
pelo
IPADEAnhanguera Educacional/FUNADESP. Por meio
da investigação das representações veiculadas
em jornais de grande circulação e artigos
específicos do meio acadêmico, buscar-se-á
identificar as principais representações em torno
da qualidade atribuída aos cursos dessa
modalidade, analisando-se as mudanças e
permanências nas concepções disseminadas pela
mídia.
Para o desenvolvimento da pesquisa, com
caráter qualitativo, foram selecionadas duas
reportagens do jornal O Estado de São Paulo e
uma reportagem em revista de divulgação
científica - Nova Escola, além de três artigos
acadêmicos, que tratam da qualidade da
Educação a Distância. A análise dos discursos
presentes nesses impressos contempla as
concepções desenvolvidas por Foucault (1996) e
Chartier (1990) em relação aos conceitos de
formação
discursiva
e
representação,
respectivamente.
As proposições de Carlino (2005), Rojo (2012)
sobre os conceitos de multiletramento e
alfabetização acadêmica foram empregadas na
elaboração da proposta de estudo de caso, em
andamento, desenvolvido como parte do projeto
de pesquisa referido.
Resultados
Segundo Carlino (2005), não se conseguirá
soluções para o desencontro entre o que esperam
os docentes e o que os alunos alcançam
buscando apenas
aprimorar as habilidades
leitoras e discursivas dos alunos como um fim em
si mesmo. Para a autora, dispor-se a alfabetizar
no meio acadêmico implica em incluir nos planos
de aula o que a autora considera um dos mais
valiosos saberes desenvolvidos ao longo da
trajetória acadêmica dos docentes: "os modos de
indagar, de aprender e de pensar em uma área de
estudo, modos vinculados com as formas de ler e
escrever que se desenvolveram dentro da
comunidade acadêmica a que pertencemos"
(2005, p. 13).
Em acordo com essa concepção é que se
encontra em desenvolvimento estudo de caso, que
integra a pesquisa do grupo Multiletramento
Acadêmico,
que se dedica a identificar os
processos de apropriação de conhecimentos
científicos por alunos em cursos a distância, a
partir da identificação das formas de leitura e
acompanhamento das atividades no Ambiente
Virtual de Aprendizagem (AVA). As alunas
selecionadas para desenvolver a metodologia
adaptada das propostas formuladas por Carlino
(2005), no que se refere à alfabetização
acadêmica, cursam o quinto semestre do curso de
Pedagogia, na Faculdade Anhanguera de São
José dos Campos, tendo acesso ao conteúdo das
disciplinas e atividades de avaliação pelo AVA,
vinculado à plataforma aedu, sediada no Google
Apps, oferecida pela Anhanguera Educacional
aos discentes de todos os cursos da instituição.
Tratando-se de pesquisa sobre o letramento
digital, o suporte empregado foi considerado não
só um dos aspectos metodológicos do estudo de
caso, mas também objeto de pesquisa. Por essa
razão, foi criado um grupo de discussão no
Facebook, intitulado Multiletramento, com acesso
restrito aos membros do grupo de pesquisa, para
que a postagem das orientações, de comentários,
das fichas de leitura e outras atividades,
permitisse ampliar a
análise sobre as
apropriações e intervenções das alunas bolsistas
a partir de uma mídia eletrônica.
A escolha de alunas vinculadas ao curso de
Pedagogia à distância permite refletir sobre os
desafios propostos para essa modalidade.
Discussão
A iniciativa governamental em relação a EaD
culminou com a criação da Universidade Aberta do
Brasil em 2005 e uma sequência de
regulamentações, com base nas indicações
propostas pela Lei de Diretrizes e Bases aprovada
em 1996. Entretanto, foram as instituições de
ensino superior particulares as principais
responsáveis pela expansão dos cursos
universitários à distância no Brasil.
Entre 2009 e 2010, o crescimento dos cursos no
modelo semipresencial ganhou destaque em
diferentes veículos de mídia. A Rede Globo
destacou o fenômeno no seu telejornal de maior
audiência, em uma série de reportagens sobre o
ensino a distância em abril de 2009.
Da mesma forma, o tema foi abordado em
diferentes veículos da mídia impressa. A revista
Nova Escola, publicada pela Editora Abril, em sua
edição nº 227, de novembro de 2009, trazia como
principal chamada “Educação a Distância: mitos e
verdades”. A análise do texto dos repórteres Ana
Rita Martins e Anderson Moço interessa a este
artigo por tratar-se de uma reportagem
disseminada em um impresso de grande
circulação entre educadores do Ensino Básico e
XVII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica, XIII Encontro Latino Americano de Pós Graduação e III Encontro de Iniciação à Docência – Universidade do Vale do Paraíba
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estudantes, meio formador de opiniões em relação
aos sistemas de ensino.
Apontando um crescimento da EaD de
“45.000% entre 2000 e 2009”, os autores indicam
a desconfiança em relação aos profissionais
oriundos desses cursos, em especial as
graduações voltadas para a formação do
professor, como um dos principais motivos da
reportagem: “Muita gente, no entanto, ainda fica
de pé atrás com quem tirou diploma de Pedagogia
ou Licenciatura nessa modalidade. Para avaliar se
isso é puro preconceito, veja o que é mito e
verdade nessa área” (MARTINS, MOÇO, 2009).
Constatando que as experiências com a
Educação a distância começaram no país ainda
no início do século XX, os jornalistas afirmam que
os avanços tecnológicos, como a internet e a
banda larga, permitiram estender esse tipo de
ensino para os cursos de extensão, graduação e
pós-graduação. Visto como uma saída para suprir
a demanda de formação superior em um país de
dimensões continentais e com desigualdades
estruturais entre suas regiões, a Nova Escola
aponta a falta de fiscalização governamental, a
baixa remuneração, a formação deficitária dos
tutores e o número ainda reduzido de formandos
como um dos pontos fracos, responsáveis pela
desconfiança do mercado de trabalho em relação
à qualidade dos cursos na modalidade EaD.
Segundo dados do Inep de 2006, enquanto na
graduação presencial formaram-se 736.829
profissionais, na Educação a distância havia nesse
ano 25.804 estudantes concluintes em cursos de
graduação.
Destacando vários mitos referentes à EaD, os
repórteres apontam as concepções equivocadas
em torno dessa modalidade de ensino, como a
crença na facilidade de se obter o diploma devido
ao custo baixo dos cursos, à forma das
avaliações, à liberdade de horários e ao tempo
menor de estudo. Ao mesmo tempo, esses itens
seriam os responsáveis pela associação da baixa
qualidade aos cursos à distância. O texto alerta
os leitores para a necessidade de pesquisar as
referências desse tipo de curso junto ao MEC.
Além disso, os autores destacam o perfil que o
estudante em EaD deve apresentar:
ser
disciplinado para estudar, em um curso com uma
carga de leitura por vezes maior que a dos cursos
presenciais, o que exige maior capacidade de
interpretação, maturidade e autonomia por parte
do estudante. Por essa razão, a faixa etária dos
alunos, à época de reportagem, estaria na casa
dos 30 anos, pois em geral “os alunos mais jovens
não
atingiram
o
nível
de
maturidade,
comprometimento e responsabilidade que o
planejamento de estudos da modalidade requer”
(MARTINS; MOÇO, 2009).
Segundo a revista, o estudante deveria levar
em conta os custos de deslocamento para as
aulas presenciais e avaliações, além do acesso a
uma conexão à internet de boa qualidade como
itens essenciais para a permanência e bom
desempenho do estudante durante o curso e que
permitiriam atingir a qualidade pedagógica
semelhante a dos cursos presenciais.
O jornal O Estado de São Paulo também
dedicou duas reportagens sobre o tema, em abril e
novembro de 2010, em dois cadernos diferentes
do jornal: Vida & e Economia & Negócios. Em abril
de 2010, da mesma maneira que a reportagem da
Nova Escola, o crescimento da EaD foi destacado
pela repórter Mariana Mandelli na chamada do
início da notícia: “Ensino a distância atrai 1 a cada
5 estudantes”. Entretanto, a tônica da reportagem
atém-se aos aspectos positivos da modalidade,
pouco conhecida da maioria da população,
segundo o jornal.
Versatilidade, modularidade, capacidade de
inclusão, facilidade de acesso, além de bom
desempenho no ENADE são os itens favoráveis
apresentados pela reportagem, que considera a
EaD como um fenômeno mundial, que “no Brasil
demorou para se estabelecer”, segundo o
secretário de Educação a Distância do MEC,
Carlos Eduardo Bielschowsky, que dá seu
depoimento na reportagem. Um dos exemplos da
resistência a essa modalidade, de acordo com a
repórter do jornal O Estado de São Paulo, foi a
resolução do Conselho Federal de Biologia de
proibir a concessão de registro profissional para os
alunos formados a distância, decisão suspensa
pela Justiça Federal.
O mesmo jornal, em dezembro de 2010,
retomou o tema, dessa vez no caderno Economia
& Negócios, por meio da reportagem de Lígia
Aguilhar, que aborda a questão da aceitação dos
profissionais formados em EaD pelo mercado de
trabalho, problema levantado também pela
reportagem da Nova Escola no ano anterior. A
chamada da seção Sua Carreira explicita o tom
diferenciado em relação à reportagem de abril do
mesmo ano: “O dilema da educação a distância”.
As resistências do mercado de trabalho foram
expostas a partir de depoimentos de consultores e
responsáveis por recrutamento, que alegam a falta
de convívio com outras pessoas como um dos
elementos que impediriam a troca de experiências
e prejudicariam a qualidade da formação dos
alunos dos cursos a distância, uma vez que
segundo esses especialistas, os chats e fóruns
não substituiriam o convívio em sala de aula.
A falta de parâmetros para avaliar a qualidade
desses cursos é outro fator que a reportagem
apresenta como elemento que gera a
desconfiança das empresas, inclusive para as
XVII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica, XIII Encontro Latino Americano de Pós Graduação e III Encontro de Iniciação à Docência – Universidade do Vale do Paraíba
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graduações ou pós-graduações oferecidas por
instituições renomadas. A única exceção seriam
os cursos complementares e de curta duração.
Para Úrsula Angeli, gerente geral de RH da
Whirlpool, eleita em 2010 a melhor empresa para
se trabalhar no Brasil,
esse sistema de educação está em processo
de amadurecimento no País. Por uma questão
cultural e pela falta de uma avaliação mais
consistente,
os
recrutadores
ainda
não
consideram esse sistema maduro. [...] As
empresas ainda não estão preparadas para
assumir essa insegurança (In O Estado de São
Paulo, 08/11/2010).
Por meio das reportagens selecionadas, podese observar que diferentes órgãos da mídia
impressa, reconhecendo o espaço conquistado
pela Educação a distância no Brasil, vêm
reproduzindo discursos institucionais, como os do
MEC, e do setor empresarial, reforçando o
aspecto da baixa qualidade na formação dos
egressos das graduações nessas modalidades.
Um dos questionamentos em torno desses
discursos se refere às formas como as reflexões
oriundas das universidades se relacionam com as
representações sobre a EaD veiculadas pela
imprensa. Por essa razão, para a análise desse
aspecto, foram selecionados três artigos que
circularam em forma impressa ou em meio digital
e/ou apresentados em fóruns acadêmicos
vinculados à educação entre 2006 e 2010.
Procurando
contemplar
tanto
revistas
acadêmicas como os trabalhos apresentados em
Congressos, fóruns privilegiados de circulação de
ideias entre os pesquisadores, foram selecionados
três artigos científicos para análise das
representações sobre a EaD. Um deles foi
apresentado na revista Em Aberto, publicada pelo
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira – INEP. Os outros
dois são oriundos de comunicações apresentadas
à reunião anual da Associação Nacional de PósGraduação em Educação - ANPED e ao Encontro
anual da ANPOCS. Títulos como Educação a
distância ou educação distante? O programa
Universidade Aberta do Brasil, o tutor e o
professor virtual (ZUIN, 2006); Educação a
distância e precarização do trabalho docente
(LAPA; PRETTO, 2010) e Educação a distância,
tecnologias e competências no cenário da
expansão do ensino superior: pontuando relações,
discutindo fragilidades (GARCIA, 2008) permitem
identificar de imediato uma tônica comum às
reflexões sobre a EaD no âmbito acadêmico, em
especial na área da educação. A associação entre
formação, valorização docente e qualidade da
EaD tem se repetido em diversos trabalhos
científicos recentes.
Para Chartier,
as lutas de representações têm tanta
importância como as lutas econômicas para
compreender os mecanismos pelos quais um
grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção do
“mundo social", os valores que são os seus, o seu
domínio (1990, p. 17).
Com base nessas considerações, identificar o
pertencimento social dos que produzem os
discursos nos artigos selecionados torna-se um
aspecto metodológico importante para a
investigação proposta neste artigo.
Os autores dos textos aqui analisados se
vinculam a universidades, federais e particulares
(UFSCar; UFSC - Laboratório de Novas
Tecnologias (Lantec), UFBA, UNIUBE), em
diferentes regiões do Brasil, participando de
projetos e/ou grupos de pesquisas que estudam a
influência das TICs no processo educacional, com
produções sobre a EaD que ganharam destaque
em espaços formadores de opinião entre seus
pares.
Nesse sentido, pode-se, a partir de um critério
qualitativo, considerar os artigos científicos
analisados como emblemáticos de um conjunto de
representações sobre a EaD, disseminado por um
grupo específico: professores/pesquisadores do
ensino superior no Brasil.
Compreende-se, a partir dessa constatação,
porque as reflexões dos autores passem pela
questão
da
formação
docente
e
pela
problematização do papel do professor nos cursos
a distância. Sintomático dessa “luta de
representações”, o texto de Garcia afirma que:
[...] a expansão da educação superior, em
termos quantitativos é significativa, contém
possibilidades para inclusão social de segmentos
sociais “excluídos”, conforme o discurso oficial;
porém as contradições que emergem destas
políticas apontam para a inclusão precária dos
alunos e para a introdução no campo da educação
superior das formas flexíveis de trabalho docente
e sua face perversa - a precarização da condição
social do professor de ensino superior (2008,
p.12).
Ressaltando as diferenças entre o discurso
oficial – produzido pelos idealizadores da
Universidade Aberta do Brasil, vinculada ao MEC
– e o que é produzido pelo meio acadêmico, a
expansão do ensino superior por meio da criação
de cursos à distância é vista pela autora como
uma política pública que visa responder, sem um
planejamento adequado, à demanda educacional
do país, diminuindo custos e, ao mesmo tempo,
desvalorizando o trabalho docente.
A diferenciação entre as políticas públicas
governamentais e as propostas do campo
educacional também é ressaltada por Lapa e
XVII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica, XIII Encontro Latino Americano de Pós Graduação e III Encontro de Iniciação à Docência – Universidade do Vale do Paraíba
4
Pretto (2010), que partem da caracterização de
que a Universidade Aberta introduz, em relação a
EaD, “o risco da prescrição e da padronização de
um modelo único de educação – evidenciado pelo
nível de detalhamento das atividades e funções
descritas na Resolução CD/FNDE”. Para os
autores, apoiando-se nos estudos de Giroux, o
MEC caminha
na contramão das principais discussões postas
no campo educacional no sentido de se valorizar a
realidade dos alunos, trabalhando a partir dos
seus contextos, e de se fortalecer o papel do
professor como um intelectual (LAPA; PRETTO,
2010, p. 89).
Os autores destacam as deficiências na
formação dos docentes no que concerne ao uso
das TICs, em seus aspectos pedagógicos. O
crescimento da EaD, para Lapa e Pretto, se deu
a partir de uma sobrecarga do trabalho docente e
com a contratação de tutores em condições de
trabalho precárias. O predomínio dos aspectos
econômicos sobre os pedagógicos seria
responsável pela tensão mencionada por Moran
(2008), entre uma educação encarada como
necessidade e direito e a concepção de educação
como um bem econômico ou serviço.
Tratando da relação professor-aluno na EaD,
Zuin (2010) discute a transformação do professor
em “entidade coletiva”. Para o autor, o processo
responsável pela
liquefação da figura do professor, que se torna
uma espécie de prestador de serviços [...] ou
mesmo um recurso para o aluno, ilustra,
despudoradamente,
o
seu
processo
de
coisificação (2010, p. 947).
É inegável que o processo rápido de expansão
dos cursos a distância produziu uma série de
problemas não só no que concerne ao trabalho
docente e a formação dos tutores, mas também no
que se refere à própria relação desses
profissionais com os estudantes. Cabe questionar
até que ponto a discussão sobre a valorização dos
docentes não tem excluído das análises tanto a
reflexão sobre as mudanças que a introdução das
TICs produziram nos cursos superiores como a
discussão sobre necessidade de redimensionar-se
a atuação docente frente a esse contexto,
inclusive nos cursos presenciais.
O exercício da docência, frente à introdução
das TICs, também tem sido objeto dos estudos de
Dirce M. F. Garcia (2008). Entretanto, para a
autora, o “novo” papel do docente como mediador
do processo ensino-aprendizagem defronta-se
com realidades que não são contabilizadas pelos
defensores da EaD. Para Garcia, o aluno
autônomo não é o que o professor encontra na
maioria dos cursos, o que indica que a autonomia
implica em habilidades e competências que devem
ser desenvolvidas inclusive nesse nível de ensino.
Comumente, se justificam as altas taxas de
evasão na EaD, culpabilizando os estudantes que
abandonam os cursos, argumento que busca
isentar as instituições de ensino superior em
relação à promoção da autonomia do graduando
ao longo do curso. A banalização do conceito tem
ocasionado inúmeros problemas na estrutura dos
cursos a distância.
Segundo Zuin,
a palavra autonomia vai desenvolvendo novos
avatares e hoje parece ser a palavra de ordem das
propostas de educação a distância, pois o
principal objetivo é o de facilitar o desenvolvimento
da chamada aprendizagem autônoma (2010, p.
946).
Para o autor, dadas as características da
implantação da EaD no Brasil, o professor, em boa
parte dos cursos, passou a ser considerado como
mais um dos recursos do aluno, cedendo o lugar
de sua autoridade para o que Zuin denomina
“autoritarismo
imagético
que
arrefece
o
desenvolvimento das representações e, portanto,
do raciocínio crítico” (2010, p. 949).
Falta de planejamento, diminuição de custos,
desvalorização docente, má formação devido à
falta de autonomia dos alunos, emprego dos
métodos tradicionais, numa adaptação às
tecnologias aplicadas à EaD, são os principais
problemas apontados pelos artigos científicos
analisados. Questões parcialmente apropriados
pela mídia imprensa, com ênfases diferenciadas,
em função não só dos interlocutores, como
também dos grupos sociais que veiculam os
discursos.
As reflexões sobre os desafios propostos pela
EaD buscam respostas para esses problemas,
especialmente no que se refere ao letramento
digital, definido por Soares (2002) como as
práticas de leitura e escrita que computadores e o
acesso a internet possibilitam. Entretanto, essas
novas possibilidades entram em conflito com a
constatação de que dificuldades não superadas
durante o processo de alfabetização se mantém
em boa parte dos casos dos estudantes de
graduação que apresentam baixo desempenho,
fenômeno que independe do tipo de mídia ou
suporte de leitura empregado.
Entre os docentes, as reclamações sobre as
dificuldades de compreensão e o baixo interesse
dos estudantes se acentuam, em todos os níveis
de ensino. A crítica às dificuldades que os alunos
apresentam em identificar informações implícitas
em textos não é um fenômeno recente. A
introdução das TICs, tanto nos cursos presenciais
como semipresenciais implica em adotar outra
perspectiva de análise, como a que está em
XVII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica, XIII Encontro Latino Americano de Pós Graduação e III Encontro de Iniciação à Docência – Universidade do Vale do Paraíba
5
desenvolvimento no Grupo de Pesquisa 26
(FUNADESP/IPADE, 2012, 2013), ao qual se
vincula o presente artigo.
O conceito de multiletramento tornou-se objeto
desse grupo de estudo a partir de algumas
interrogações acerca do trabalho docente na
graduação:
entendendo que os textos multissemióticos
fazem parte do nosso dia a dia (e dos nossos
alunos) e que a sociedade da informação e da
tecnologia exige cada vez mais o domínio de tal
modalidade, surge a inquietação: como propor
formas de trabalho, de leitura e escrita acadêmica,
abrangendo textos multimodais, multissemióticos?
Ou melhor, como propiciar o desenvolvimento dos
multiletramentos em sala de aula? (SOUZA et al.,
2012, p. 23).
Conclusão
Segundo Moran, “quanto mais tecnologias
avançadas, mais a educação precisa de pessoas
humanas, evoluídas, competentes, éticas” (2007,
p. 165). Para o autor, as mudanças introduzidas
não só nas instituições educacionais, mas em
todos os aspectos da sociedade contemporânea,
indicam que quanto mais acesso as pessoas têm
aos meios digitais, maior a necessidade de
intermediação.
Os problemas identificados tanto pelos
pesquisadores do meio acadêmico quanto os que
são disseminados pela mídia revelam apenas uma
pequena ponta do iceberg representado pela
introdução nas TICS e pela aproximação cada vez
maior das metodologias aplicadas aos cursos
presenciais e a distância. Entretanto, questões
básicas em torno do processo de apropriação do
conhecimento por parte dos alunos que
ingressaram no ensino superior não têm merecido
a devida atenção, apesar do crescimento do
acesso aos cursos de graduação no Brasil, a partir
dos programas de bolsa, dos financiamentos
governamentais e das políticas de cotas.
Por essa razão, as indagações acerca do
letramento acadêmico, do letramento digital e do
multiletramento se tornam fundamentais.
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XVII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica, XIII Encontro Latino Americano de Pós Graduação e III Encontro de Iniciação à Docência – Universidade do Vale do Paraíba
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REPRESENTAÇÕES E DESAFIOS Maria das Graças Sandi