Juventude e Vestibular: um ritual de passagem e/ou um ritual de impasse?
Joelma Batista do Nascimento/UFPB
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André Luiz da Costa Gomes/UFPB
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Resumo
Em tempos atuais, a escola tem permeado por diversas mudanças que para alguns
autores, como Miguel Abad (2003), acaba por configurar uma crise institucional (Mary
Douglas, 1998), pois já não consegue garantir aos jovens a inserção no mercado de
trabalho. Acarretando perca de sua eficácia simbólica como ordenadora da sociedade.
Essa nova configuração, consequentemente, interfere diretamente na condição de ser
jovem, na formação de uma cultura escolar, trazendo á tona caminhos mais complexos
para agregar-se ao mundo dos adultos. A nossa proposta é buscar compreender o
vestibular como um processo ritual (Machado Pais; Van Gennep; Victor Turner) de
passagem e/ou impasse. A partir da concepção dos jovens do 3° ano do ensino médio,
da Escola Escritor José Lins do Rego, localizada em João Pessoa, onde desenvolvemos
um projeto
de
pesquisa Programa
Institucional de
Bolsas
de
Iniciação
á
Docência. Inseridos nessa conjuntura e nas novas condições para ser jovem: o vestibular
pode ser considerado uma ferramenta que demarca um ritual de agregação ao espaço
acadêmico? Quando o aluno não consegue êxito no PSS ficará a margem da sociedade?
Podemos ainda considerá-lo como um ritual de impasse?
Introdução
Propomos-nos a estudar o vestibular como um processo ritual, pois o rito é um
elemento importante na dinâmica da sociedade possibilitando compreender como ela
está estruturada, que agentes interferem nesta estruturação e qual papel cada pessoa
exerce nesta estrutura. Os ritos, portanto, permanecem como mecanismos centrais na
construção das diversas sociedades e de suas diferentes formas de organização. Estas
passagens estão em concordância com os ciclos da vida, compreendendo o ser humano
em suas relações sociais.
O cenário escolar se caracteriza pela diversidade, formação de vários grupos
entre professores, alunos e funcionários, entre os iguais e os anti-sociais, as interações
entre ambos e as antipatias, os laços de solidariedade e de individualismo. Com a perda
de garantia da escola em inserir os jovens no mercado de trabalho as relações sociais
dentro da mesma passa por diversas mudanças, sendo uma delas a transferência de
responsabilidade ao indivíduo na inserção no mercado de trabalho, portanto, cabendo ao
aluno trilhar os seus próprios passos.
O vestibular é um caminho a ser percorrido para ingresso no espaço acadêmico,
que dentre outras finalidades, se caracteriza pela qualificação profissional, mas que
infelizmente também perdeu em certa medida, a garantia de assegurar a independência
financeira
dos
jovens.
Detemo-nos ao
universo
juvenil
no
ensino
médio,
especificamente aos alunos do 3° B na Escola Escritor José Lins do Rêgo, localizada no
bairro Cristo Redentor, João Pessoa–PB, onde participamos do Programa Institucional
de Bolsas de Iniciação á Docência- PIBID, no intervalo de dois anos, o qual possibilitou
a entrada nesse espaço. A nossa contribuição na escola foi auxiliar, e em vários
momentos lecionar as aulas de sociologia na turma já citada, o que nos permitiu nos
familiarizarmos com o espaço escolar e com os jovens designadamente dessa turma.
Através dos ritos todos os seres humanos transitam na estrutura social e
adquirem novos papéis sociais e grupos sociais. Deste modo, buscaremos compreender
o vestibular como um processo ritual que marca a inserção em um novo momento de
vida dos jovens ou em um rito de impasse, pois nem todos conseguem atingi-lo na
primeira tentativa. Nessa perspectiva, nossa intenção é estudar que tipo de interpretação
ou representação os alunos possuem de si mesmos nesse processo, do vestibular em si
mesmo e o papel de seus familiares.
De acordo com Machado (2009) um dos traços que mais caracteriza a atual
condição juvenil é a situação de impasse vivida por muitos jovens em relação ao seu
futuro, ou seja, os jovens até podem tramitar simbolicamente da condição de jovem a
idade adulta, mas mediante a precariedade no mercado de trabalho poderão manter-se
financeiramente dependentes dos pais. Como veremos mais adiante a juventude
brasileira tem enfrentado várias situações de impasse para tornar-se adulto,
principalmente pela permanência de dependência financeira dos pais.
O primeiro contato com a escola: um desafio de alteridade
A inserção na Escola Estadual Escritor José Lins do Rêgo foi proporcionada a
partir do projeto de extensão Programa Institucional de Bolsa de Iniciação á Docência –
PIBID de Sociologia - da Universidade Federal da Paraíba, do qual participei por cerca
de dois anos. A nossa função consistia basicamente em auxiliar os professores de
sociologia a lecionarem suas aulas.
Na primeira semana fui muito bem recepcionada por uma das professoras da
escola que se mostrou empolgada com a nossa presença e disponível para qualquer
necessidade, a fim de desenvolvermos nosso trabalho naquele espaço. No primeiro mês
era tudo muito estranho, eu não conhecia o espaço físico da escola e ás vezes me perdia
nos corredores, como também na medida em que eu observava era observada e os préconceitos se formavam de ambas as partes.
O etnógrafo ao mesmo tempo em que observa é observado, além
disso, se o etnógrafo perturba determinada situação, até cria uma
situação nova, devido a sua presença, é por sua vez eminentemente
perturbado por essa situação, pois a antropologia é também a ciência
dos observadores capazes de observarem a si próprios, e visando a que
uma situação de interação (sempre particular) se torne o mais
consciente possível. (LAPLANTINE, 1988, p. 170)
Outra grande dificuldade que encontrei foi a rotina da escola, o comportamento
dos alunos em sala de aula, as conversas, a aparente falta de interesse dos mesmos com
as disciplinas ministradas, e do corpo docente também, com a educação no geral. Para
mim tudo era muito novo, pois minha trajetória escolar sempre percorreu espaços
privados onde a lógica e sentido da educação era avessa a que agora presenciava.
[...] no trabalho de campo o antropólogo se defronta constantemente
com tensões que se opõem a compreensão “por dentro” e a
compreensão “por fora”, o seu ponto de vista e o ponto de vista dos
outros e os mesmos se configuram no momento em que o pesquisado
vive dentro de si tensões, frequentemente polêmicas, esforçando-se
em pensá-las e dar conta delas. (LAPLANTINE, 1988, p. 183)
Eu me sentia extremamente alheia aquele espaço e em vários momentos tive
vontade de não retornar, os alunos percebiam minha ausência, o que só agravava ainda
mais a situação. Portanto, a minha posição impossibilitava o desempenho de meu
trabalho na escola, então, assim como Malinowski (1997) tive que criar condições
favoráveis para o desenvolvimento de minha pesquisa, me distanciando de meus valores
e buscando interiorizar a cultura daquela comunidade.
O trabalho de campo antropológico [...] requer, além dos
conhecimentos teóricos e a preparação técnica, um certo tipo de
personalidade ou temperamento e, segundo, que às vezes um
pesquisador pode ser inábil com um grupo, mas sentir-se à vontade
com outro, já que --como havia enfatizado Rivers décadas antes -- é
preciso interesse e empatia para o sucesso de uma pesquisa (EvansPritchard, l972 apud Peirano, 1998).
Deste modo, na medida em que conheci a história de vida dos alunos,
adquiri uma nova posição, buscando olhar a realidade em que eu estava introduzida não
apenas a partir da sala de aula, mas de toda uma conjuntura em que os alunos estavam
imersos, aspectos dentre outros, culturais, econômicos e sociais.
Assim a etnografia é antes a experiência de uma imersão total,
consistindo em uma verdadeira aculturação invertida, na qual, longe
de compreender uma sociedade apenas em suas manifestações
‘exteriores’ (Durkheim), devo interiorizá-la nas significações que os
próprios indivíduos atribuem a seus comportamentos (LAPLANTINE,
1988, p. 150).
Se a primeira instância eu havia adquirido uma atitude etnocêntrica, tomando os
meus valores como superiores aos outros, nesse momento o outro adquiria singularidade
e respeito, um ser que estava imerso numa realidade social e cultural diferente da minha
e que consequentemente isso geraria diferenças, mas que estas não poderiam ser
medidas ou apreendidas como superiores ou inferiores.
Em cada cultura, os valores são ligeiramente diferentes, as pessoas
aspiram a diferentes objetivos, seguem diferentes impulsos, anseiam
por formas diversas de felicidade. Em cada cultura, encontramos
diferentes instituições nas quais o homem manifesta o seu interesse
pela vida, diferentes costumes pelos quais satisfaz suas aspirações,
diferentes códigos de lei e de moral, que recompensam suas virtudes e
punem seus defeitos. (MALINOWSKI, 1997, p. 48)
Enfim, foi durante essas experiências, no convívio nas aulas de sociologia, nos
corredores, nas salas dos professores, que ouvi e observei grande desmotivação
por parte do alunado em prestar vestibular com poucas expectativas quanto ao futuro,
em termos de mercado de trabalho, de sonhos, de ascensão social, de mudanças
familiares, relacionamentos amorosos, entre outros. Deste modo, me vi desafiada a
estudar essa temática “juventude e vestibular” na escola José Lins do Rego, com a
turma 3° B do ensino médio, participando todas as sextas-feiras das aulas, seja para
auxiliar a professora em sala, seja simplesmente para observá-los.
Metodologia aplicada
Optamos pelo uso da observação participante, pois desde o início do 1° semestre
do ano de 2011 estivemos diretamente envolvidos na turma do 3° B acompanhando uma
vez por semana a turma em sala de aula, observando as interações entre os alunos nos
intervalos, afim de compreendermos a partir de suas práticas as interações e os
significados dos relacionamentos propostos nesse ambiente: “[...] o caráter residual de
um ato se expressa fundamentalmente no comportamento concomitante, no modo pelo
qual é
praticado
(...) se
observarmos
e
pessoas podemos perceber imediatamente o
anotarmos
o
comportamento
grau de vitalidade do
das
costume”
(MALINOWSKI,1997, p.43). Portanto, a pesquisa etnográfica como escreve Peirano
possibilita montar um esquema nítido e claro da constituição social e separar leis e
regularidades de todos os fenômenos culturais do que for irrelevante.
Segundo Peirano (1992), o lugar da pesquisa de campo no fazer da antropologia
não se limita a uma técnica de coleta de dados, mas é um procedimento com
implicações teóricas específicas “a pesquisa etnográfica é o meio pelo qual a teoria
antropológica se desenvolve e se sofistica, quando desafia os conceitos estabelecidos
pelo confronto que se dá entre i) a teoria e o senso comum que o pesquisador leva para o
campo e ii) a observação entre os nativos” (PEIRANO, 1992, p. 8).
Enfim, usamos também como ferramenta para coleta de dados entrevistas com
quatro alunos, sendo 3 meninas e 1 menino, uma entrevista com a diretora da escola,
uma entrevista com uma das professoras e um estudo dirigido com a turma do 3° B do
ensino médio e que participaram 11 alunos no total, sendo 9 meninas e 2 meninos.
Dentro dos onze, 7 informaram que prestariam vestibular. A nossa coleta de dados foi
efetuada ás vésperas do PSS da UFPB e também após a realização das provas, o que a
nosso ver foi muito favorável, pois durante esse período os alunos se encontraram com
muito anseio em conversar sobre o assunto, as ações, gestos foram extremamente
significantes para apreensão de nosso trabalho.
A partir da metodologia usada apreendemos alguns dos significados atribuídos
pelos jovens ao vestibular, o papel da família e da escola nesse processo.
Gostaríamos de ressaltar que as entrevistas realizadas com a professora e com a
diretora foram desenvolvidas para ter uma visão mais geral sobre a educação e que
serviram também para ora afirmar, ora contrapor as representações dos alunos. Porém
não fizemos uso dessas falas de maneira direta, pois o nosso trabalho teve como
objetivo de análise a representação dos alunos desse processo.
Juventude como categoria social
A juventude é definida por Groppo (2000) como uma categoria social. Ela
possui, portanto, um perfil sócio-cultural pré-definido, uma posição social, por
conseguinte, se configura numa representação simbólica dos grupos sociais ou
indivíduos caracterizados como jovens. Na perspectiva do autor a juventude não se trata
apenas de uma faixa etária de vida, mais principalmente numa representação simbólica
para acontecimentos sociais. O autor distingue essa categoria através de duas principais
características: o critério etário que está relacionado a faixas etárias - o curso da vida – e
o critério sócio-cultural. Para Groppo (2000) a maneira de comportamento dos jovens
variará de acordo com sua classe social, a nacionalidade, gênero, contexto histórico,
grupo étnico e outros.
A categoria da juventude fora antes vivida pelas classes dominantes para depois
se tornar um direito das classes trabalhadoras. A princípio, a mocidade seria aquela que
estaria na cidade, branco, masculino, pessoas do ocidente. Mas com as sociedades
modernas essas características dos jovens foram se transformando até chegar ao rural,
negros, mestiços, femininos, ou seja, há uma diversidade de representações e relações
sociais. Esse atributo social se coloca como uma metamorfose na modernidade, por
causa das diversidades sócio-cultural: estrato, classe social, etnia, religião, as quais não
permitem uma representação homogênea.
Segundo Bourdieu (1983) as classificações por idade têm por finalidades
estabelecer limites, produzindo uma ordem social que deve ser seguida, na qual cada
indivíduo precisa se manter em seu lugar. De modo, que a idade se caracteriza como um
dado
biológico
socialmente
manipulado
e
manipulável
e
prova
disto
é
atribuir à juventude uma unidade social, dotado de interesses em comum, de
comportamento, de conduta e de consumo.
Na modernidade, as faixas etárias ocupam uma posição arbitrária, mas eficiente,
pois através dela vários fatores sociais serão desenvolvidos, como por exemplo,
atribuição de direitos e deveres aos indivíduos. As experiências sociais vivenciadas
pelas juventudes são experiências diferenciadas pelos adultos quando eram jovens em
sua época. Mannheim a classifica como paradoxal, pela força potencial transformadora
e também pela força de conservação “[...] a faixa etária juvenil, assim como os demais
grupos de idade, são uma criação sócio-cultural própria, marcante e fundamental dos
processos de modernização e da configuração das sociedades contemporâneas.”
(GROPPO, 2000, p.27).
As mudanças no ensino médio e superior a partir da década de 90’
Em 1990 o ensino médio do Brasil passava por problemas de estrutura e de
conceito, mas sem conseguir mostrar quais seriam as metas de melhoria para a
educação, retirando alguns detalhes de reformas passadas como a de 71. Com a virada
do século justificou uma discussão sobre um novo modelo curricular nas escolas de
ensino médio e no modelo educacional do país. Algumas características daquela época
foram quem deram o inicio a essa discussão curricular, como: Explosão da demanda por
matriculas; Requisitos do novo contexto produtivo; Exigência de desenvolvimento de
conhecimento e valores para a construção da cidadania democrática; Exigência de
aproximação entre currículo e cultura juvenil.
Consequentemente um grande número de alunos foram inseridos no ensino
médio, em alguns anos mais de 4 milhões passaram a frequentar as salas de aulas, com
esses números houve uma democratização do ensino médio. Porém com o surgimento
de novas necessidades devido a variedade de personalidades e de aprendizagem dos
mesmos. Sobre este ponto o autor retrata:
Em contrapartida, a maior heterogeneidade do alunado reforça a
crítica a conteúdos enciclopédicos e descontextualizados, bem
como a métodos tradicionais de ensino, exigindo-se uma reforma
que torne a escola média realmente inclusiva (...) (Dagmar M. L.
Zibas, 2005, pág.25)
A população por décadas vem discutindo como integrar os jovens as novas
mudança da virada do século, tanto tecnológicos, socioeconômicas e culturais. É sobre
isso que se trata o segundo ponto que o autor cita, é preciso ver como essa nova
demanda de mercado não ultrapasse a demanda de formação. Um ponto certo é que a
escola não pode render-se a esse papel só de mercado, se voltando totalmente para a
“racionalização” do mercado. A escola ensina como o jovem consegue se adequar a esse
modelo mundial “em outras palavras, que desenvolva a cidadania democrática, aqui entendida como a
compreensão histórica das relações estruturantes do mundo econômico e social, de forma que a sociedade
seja percebida como passível de ser transformada.” (autor, ano, pág.25) O problema é aplicar esse
modelo ao modelo histórico e social que a escola trouxe consigo.
C. R. Jamil Cury fala que:
Dessa forma, o conceito de sistema único de educação ou
mesmo o de sistema unificado de educação tem como desafio
maior o horizonte da igualdade, cujo motor maior não se radica
na escola, mas no próprio sistema social (...) (pág.1189).
O uso político como garantia de uma boa educação, para com isso democratizar
conquistas de direitos na vida social aos trabalhadores. A educação tem que ser
garantida pelo Estado, pois com ela se garantia a conquista de novos direitos. As
desigualdades sociais características do país sempre refletiu nas escolas, mesmo este
tendo status de direito social garantido democraticamente:
O trecho do Manifesto, citado no início, retoma uma passagem de
livro de Anísio Teixeira, cujo título bem poderia ser a Escola
capitalista no Brasil. Esse trecho denuncia a escola até então
existente caracterizada por conter em si dois sistemas ou duas
redes opostas (...) (Cury, 2008, pág.1190)
O manifesto citado por Jamil Cury tenta ser regido por um currículo e normas
comuns na educação para todos, sendo fundamentada em uma educação comum e para
todos. Essa discussão transfere a briga entre Elite x Povo -> Educação privilegiada x
Educação comum, “Contudo, ainda no jogo privilégio versus direito, no ensino ulterior ao primário,
ainda que tendencialmente gratuito, a Constituição de 1934 diz que haverá limitação da matrícula à
capacidade didática do estabelecimento e seleção...” (...) (Cury, 2008, pág.1191). Tendo claro o
privilégio ao elitismo no ensino superior, no caso piorando a análise educacional do
Brasil como a instalação da ditadura do Estado Novo. Vários modelos de educação
foram sendo colocados em prática no país, deixando e dando brechas à não exigência do
ensino de base em certos casos.
Com a constituição de 67’ se amplia os anos do ensino primário para 8 anos e
somado ao êxodo rural da época, as escolas precisam se ampliar o que acarretaria
mudanças perante a estrutura física e pedagógica para suprir as novas necessidades do
novo tipo de alunado.
C. R. Jamil Cury fala que:
Com mais crianças nas escolas e menos recursos, a consequência
seria inevitável: a precarização do trabalho docente e das
condições de trabalho conduziria a itinerários com evasão e
repetência e a um desempenho sofrível. (...) (2008, pág.1194)
Em 1988 com a nova constituição a educação ganha uma força e o papel
fundamental, as escolas primarias se torna obrigatória tentando fazer um acerto de
contas com a modernidade. Terá então à escola em tese, chegado a cobrir todo nível de
igualdade de reconhecimento das necessidades do grande território brasileiro? “O texto
constitucional reconhece o direito à diferença de etnia, de idade, de sexo e situações peculiares
de deficiência, sem abrir mão do princípio da igualdade (Cury, 2005).” Perante a constituição
o artigo 3º procura modificar a herança das antigas formas de governo, desigualdade
social e do autoritarismo militar.
Poderemos ver agora dados sobre a educação no Brasil detalhando a entrada
dos alunos nas universidades brasileiras, e alguns contra pontos com alguns países da
América Latina. Entre 60’ e 02’ houve um crescimento de 37 vezes o numero de vagas
para graduados, mas esse crescimento foi diferente nas instituições privadas e públicas,
“as matrículas na rede privada cresceram 59 vezes, na rede pública o aumento foi de 20 vezes”
(...) (Cury, 2008, pág.729). Atualmente (2002) o setor privado corresponde a uma fatia de
70% das universidades do Brasil, desde 68’ em pleno período militar e durante o
governo FHC, não havendo êxito.
Podemos acompanhar um crescimento gigante das universidades particulares,
que cresceram 5,3 vezes mais, contra 1,9 das universidades federais, 3,9 das
universidades estaduais e 1,4 das municipais. Ocorrendo um problema entre a
quantidade de candidatos e vagas para o setor, juntando o crescimento das instituições
públicas no geral, dirigindo-se para o setor público números de alunos, e as
universidades particulares cresceram 52% em dois anos o numero de vagas, ocorreu o
que se era esperado faltou aluno, “ao passo que no setor público a razão inscritos/vaga
cresceu 2,7 vezes no período de 1974 a 2002, no setor privado, a partir de 1980, essa razão é
descendente, sendo inferior a 2 a partir de 2000, o que sinaliza uma nítida saturação no setor.”
(...) (Cury, 2008, pág.734).
Fonte: MEC/INEP.
Outro ponto que podemos ver é que a região Norte e a Sudeste são as duas
régios com maior problema de procura aluno/vagas, e o Nordeste apresenta menor
entrada nas universidades, reflexo do problema na formação básica que os impedem de
concluir o ensino em seus níveis. O problema das universidades privadas era grande,
chegaram em 02’ a não preencher 580 mil vagas. “Constata-se também que, ao passo que
no sistema público predomina a matrícula no período diurno (64% do total), no setor privado as
matrículas no noturno respondem por 67% do total.” (...) (Cury, 2008, pág.738). Um bom dado
são que 300 mil vagas foram abertas no período noturno nas instituições públicas e 58%
dessas vagas foram nas regiões Norte e Nordeste do país. Falando em expansão de
crescimento, a educação a distancia também cresceu 24 vezes entre 2000 e 2002.
A discussão sobre o acesso a educação superior no Brasil, se dá sobre a vertente
da reprodução da desigualdade social reinante em sociedade. Chegando a dizer que se
cria uma disparidade no Ensino Superior Brasileiro, os alunos de famílias ricas que
frequentaram escolas particulares e com isso teriam maior facilidade de entrar e passar
com êxito nos exames vestibulares, enquanto os alunos que frequentaram as escolas
públicas oriundos de famílias pobres, vão para as instituições particulares por ser mais
fácil a entrada, (...) “Uma segunda revelação trazida pelos dados, e que se choca frontalmente
com o senso comum, aponta que em todos os cursos considerados as IES públicas são menos
elitizadas que suas congêneres privadas.” (...) (Pinto, 2004, pág.742).
Escola: espaço de preparação para vestibular?
“Se eu passar é um milagre mesmo!” (ALUNO 2, 3° B, E.E.E.J.L.R.)
Como vimos, a escola na modernidade adquiriu para si, o papel de preparar os
indivíduos em relação a sua vida econômica e profissional na sociedade moderna com
grande especialização, tarefas que estão além das possibilidades da esfera familiar. “[...]
as escolas transformaram-se em um sistema institucionalizado e quase universal ‘para a
consecução de status social total’ e passaram a organizar a vida das crianças durante
vários anos, com forte acentuação técnico-preparatória.” (GROPPO, pp.43-44).
Antigamente as opções escolares ao término do primário eram cursos complementares
em escola técnica, em colégios ou liceu. O que deixava bem claro os limites escolares
fortemente interiorizados e que proporcionavam na classe trabalhadora sentimentos de
passividade quanto ao fracasso de ascensão profissional. Enquanto, nos dias atuais, com
a ampliação de oferta dos cursos superiores, a crise se estabelece a partir de outros víeis
bem mais complexos, mas em que se perdura a mesma lógica, o sistema escolar
continua a contribuir para reproduzir os privilégios de uma classe.
Na escola José Lins do Rego a única atividade realizada no ano de 2011 com
vistas ao vestibular foi o cursinho “Pbvest”, assegurado pelo Estado da Paraíba. O
mesmo teve início no mês de julho, do corrente ano, sendo as aulas ministradas nos
sábados e domingos em horário integral. Porém por razões desconhecidas pelos alunos
foi posteriormente transferido depois de pouco tempo para a escola Estadual Liceu
Paraibano, localizada no centro da cidade de João Pessoa, prejudicando assim, alguns
dos alunos da escola José Lins do Rego.
Para os alunos a escola pouco possibilita atividades direcionadas para a
realização das provas de vestibulares, apesar da mesma dispor de reforços, em horário
oposto ao de suas aulas, durante a semana. No entanto, essas aulas não atendem as suas
necessidades, já que as matérias que eles mais possuem dificuldade – química e física –
não é contemplada nesse programa desenvolvido pela escola.
As principais dificuldades apontadas foram: falta de interesses dos professores
para ministrar as aulas, e consequentemente, as mesmas tornam-se entediantes, falta de
apoio por parte do corpo docente e administrativo da escola para desenvolver atividades
que visem o vestibular e que contemplem as suas necessidades, além de
dificuldades para compreender o conteúdo abordado em sala de aula, principalmente
química e física. De maneira que, a principal justificativa dos alunos que não fizeram
inscrição de vestibular deu-se por não sentirem-se preparados, mas, impossibilitados de
realizarem as provas do processo seletivo seriado (PSS), tendo em vista um alto grau de
deficiência nas disciplinas de física e química. De modo geral, as suas inquietações
podem ser ilustradas com a seguinte indagação: “Para quê fazer vestibular se já
sabemos que não iremos passar?”
Conforme Bourdieu, a escola é um espaço de manipulação das aspirações. O
antigo sistema escolar era menos nebuloso que o sistema atual, com seus complexos
desdobramentos que fazem as pessoas terem aspirações incompatíveis com suas chances
reais. “A escola, facto que se esquece sempre, não é simplesmente um lugar onde se
aprendem coisas, saberes, técnicas, etc., é também uma instituição que atribui títulos,
quer dizer direitos, e confere no mesmo acto aspirações” (BOURDIEU, p. 155-156).
Foi apontada também como problema, a falta de diálogo com o setor
administrativo da escola, devido à posição ocupada pelos alunos no espaço escolar. Eles
estão a ponto de concluírem o ensino médio, portanto não faz sentido reivindicarem
qualquer coisa, além de terem receio de ao criticar sobre algo ou de algum professor
serem reprovados.
Uma das explicações para o
pensamento e ações dessa turma pode
ser compreendido a partir de sua própria posição nesse espaço, pois os mesmos se
encontram na concepção de van Gennep no período limiar (fase de transição) e que é
marcado pela ambigüidade, consistindo-se numa etapa em que os indivíduos se
desprendem da estrutura social e cultural “as distinções de classes e posição
desaparecem, ou são homogeneizadas”. “[...] a passagem entre “status” e estado cultural
que foram cognoscitivamente definidos e logicamente articulados. Passagens liminares
e “liminares” (pessoas em passagem) não estão aqui nem lá, são um grau intermediário.
Tais fases e pessoas podem ser muito criativas em sua libertação dos controles
estruturais, ou podem ser consideradas perigosas do ponto de vista da manutenção da lei
e da ordem.” (TURNER, 1974, p.5).
Neste aspecto Victor Turner acentua quem está na liminaridade não tem status
definido, não pertence a rigor a nenhuma parcela da sociedade, permanecendo, por isso,
num limbo onde não tem compromisso com o interesse de nenhum grupo social.
Vestibular, família e mercado de trabalho
“Eu vou contar aos meus amigos eu tô na faculdade!!! [ênfase]” (ALUNA 4,
3° B do ensino médio, E.E.E.J.L.R.)
A pós-liminaridade – chamada assim por van Gennep de Communitas composta de seres liminares totalmente desprovidos de status e grupo social anteriores
serão reagregados e na qual se imprimirão os novos atributos para o novo status social,
mais elevado ou mais baixo. Essas pessoas liminares são determinantes para o
funcionamento da sociedade, pois legitimam a estrutura processo de reagregação
“reconhecem um laço humano essencial e genérico, sem o qual não poderia haver
sociedade” (TURNER, 1974, p. 119).
O vestibular é um instrumento usado no Brasil para ingresso no espaço
acadêmico e que se configura como um ritual, pois demarca à passagem do indivíduo de
uma situação determinada a outra situação determinada, prova disto são os símbolos
usados pelos indivíduos – sobrancelha raspada com band-aid e cabeça raspada - e
reconhecidos socialmente quando passam por essa fase.
Os alunos – conforme a fala abaixo mencionada - sentem-se pressionados por
seus familiares, principalmente pela mãe, pelos professores e amigos, para prestarem
vestibular e ingressar no ensino superior. Eles atribuem a vitória ou derrota uma
responsabilidade exclusiva sua:
Eu me sinto obrigada a fazer. Primeiro em casa, depois pelos
professores – porque eles estão sempre dando conteúdo e lembrando
gente isso vai cair no vestibular – a gente meio que se sente na pressão
e tem que fazer para mostrar que tá aprendendo e tem capacidade [...]
mas tem a pressão não é obrigação, então, a gente se obriga, não é
ninguém obrigando a gente pela pressão a gente se obriga a fazer...
(ALUNA 5, 3° B do ensino médio, E.E E.J.L.R.)
Uma das conseqüências da modernidade é atribuir ao indivíduo todas as
responsabilidades, conquistas e derrotas, perdendo-se de vista toda a conjuntura política,
social e econômica em que este se encontra inserido. “Para explicar seu próprio
fracasso, para suportá-lo, estas pessoas devem questionar todo o sistema, em bloco, o
sistema escolar, e também a família, com a qual elas estão ligadas, e todas as
instituições.” (BOURDIEU, 1977, p. 118).
Levando, portanto, em consideração toda a conjuntura que os indivíduos estão
envolvidos para determinarem ou possibilitarem suas ações o modelo econômico
capitalista com suas crises cíclicas interferiu e continuar a ditar de certa forma essas
ações. Por volta da década de 60’ surge o “Neoliberalismo como resposta à crise do
capitalismo decorrente da expansão da intervenção do Estado, antagônica à forma
mercadoria, ainda que necessária para sustentá-la. Após alguns anos de diagnóstico e de
tateações (Crozier et alii, 1975)”. Para esses pensadores as liberdades continuam mais
só governos preocupados com a estabilidade econômica pensará como manter com
autoridade política, o controle da inflação, estabilidade financeira e monetária,
mantendo as reservas do país seguras. Arrocho dos gastos internos classifica que para
garantir as liberdades de mercado, é necessário controlar os gastos públicos, definindo
gastos essenciais e controle de crescimentos dos gastos essenciais da sociedade civil.
Sousa, Rainer fala que:
De acordo com tal teoria, os gastos públicos do governo
neoliberal com educação, previdência social e outras
ações de cunho assistencial devem ser reduzidas ao
máximo. Caso essas demandas se ampliassem, o próprio
desenvolvimento da economia proveria meios para que a
sociedade civil resolvesse tais questões.
Deste modo, nos países subdesenvolvidos como no Brasil o modelo neoliberal
foi constatado pelo avanço das privatizações de empresas públicas, que em troca trariam
uma melhora dos serviços de caráter essencial para a sociedade. Anos seguintes
constatou-se que a redução das empresas públicas não representou igualmente reflexo
de melhoria proporcional à quantidade de empresas vendidas e privatizadas. No Brasil
no governo Fernando Henrique Cardoso (FHC) esse modelo foi generalizado em vários
setores públicos, e refletindo em ações de governos estaduais que seguiram a
orientações do Estado.
Sousa, Rainer fala que:
De fato, o projeto neoliberal não conseguiu atingir as
prometidas metas que deveria promover os sonhados
tempos de desenvolvimento e modernização de certas
nações. Ao entregar empresas do setor público para o
capital privado, a situação de muitos trabalhadores esteve
ameaçada pelo interesse de ampliação dos lucros e a
redução do quadro de funcionários.
Uma grande onda de desagrado com tais políticas exercidas pelo governo
neoliberal foi crescente dentro do país. A sociedade ao se deparar com a falha e o
crescimento do desemprego pela necessidade de aumento no lucro das empresas
privadas “Além disso, a necessidade de constante modernização e mecanização de
serviços também fechou várias portas do mercado de trabalho.”. Formaram grupos que
lutassem pela ampliação dos direitos sociais, (...) “Nesse aspecto, a melhoria das
condições de vida, o acesso à informação e qualidade de ensino seriam pressupostos
inevitáveis para que o neoliberalismo – que não vem apresentando resultados nada
satisfatórios – fosse remodelado pela ação de transformações democráticas” (...) ( Sousa,
Rainer).
O avanço Neoliberal na Educação brasileira
Mesmo diante de impossibilidades disponibilizadas pela escola e de falta de
interesse da mesma os alunos sentem-se coagidos para ingresso na universidade. Uma
das explicações de acordo com uma das alunas, quanto a essa coerção está diretamente
vinculada a mercadorização da educação.
É assim a televisão pressiona os pais e os pais pressionam a gente...
[porque eles são] leigos... sem entender de nada, muita propaganda na
televisão vestibular de não sei o que, cursinho de não sei o que, então
eles assistem aquilo e acham que a gente também tem que seguir
aquele caminho sem saber e até mesmo perguntar a nossa opinião:
você quer fazer, o que é que você quer fazer? você quer ser o quê? a
pressão é essa: você vai fazer? (ALUNA 5, 3° B do ensino
médio, E.E.E.J.L.R.)
Partindo do momento que os defensores neoliberais declaravam que os problemas
do país estavam ligados a participação do Estado nas políticas sociais e com isso,
carregavam os problemas da situação econômica e social pela grande participação e
responsabilidade pela sustentação dos serviços essenciais.
A educação começa a ser atacada pela retórica neoliberal. Dando funções
competitivas e de reprodução da desigualdade social e de mercado. “(...) 1) Atrelar a
educação escolar à preparação para o trabalho e a pesquisa acadêmica ao imperativo do
mercado ou às necessidades da livre iniciativa (...) 2) Tornar a escola um meio de
transmissão dos seus princípios doutrinários. O que está em questão é a adequação da
escola à ideologia dominante. Esta precisa sustentar-se também no plano das visões do
mundo, por isso, a hegemonia passa pela construção da realidade simbólica. (...) 3)
Fazer da escola um mercado para os produtos da indústria cultural e da informática, o
que aliás é coerente com a idéia de fazer a escola funcionar de forma semelhante ao
mercado (...).
Essas mudanças de como se pensa a educação, transfere a ideia de competição
do mercado para dentro da sala de aula, refletida em uma competição de alunos e seus
pais por vagas nas universidades e pela consolidação da guerra por uma vaga de
emprego, segundo Tomás Tadeu da Silva, promove uma regressão da esfera pública, na
medida em que aborda a escola no âmbito do mercado e das técnicas de gerenciamento,
esvaziando, assim, o conteúdo político da cidadania, substituindo-o pelos direitos do
consumidor. “É como consumidores que o neoliberalismo vê alunos e pais de alunos.”
Com isso conseguindo criar um local que não seja fértil para alternativas diferentes as
que são pensadas para o modelo capitalista.
Marrach, Sonia Alem fala que:
À universidade pública, o neoliberalismo propõe: a) que
parte dos estudantes arque com os custos do ensino nas
universidades federais (declaração de Bresser Pereira
em O Estado de S. Paulo, 11-3-95, p. A24), o que
obviamente ampliaria as barreiras sociais que entravam o
acesso à universidade e elitizaria o ensino superior,
talvez para melhor distinguir as escolas de elite das de
massa; b) novos tipos de contrato de trabalho, que
tendem a eliminar a dedicação exclusiva e ampliar o
quadro de professores de tempo parcial, o que representa
diminuição de gastos estatais e conseqüentemente
achatamento do salário. Mas a retórica neoliberal afirma
que o professor de tempo parcial, .por ter um outro
emprego, tem condições de levar à sala de aula
ensinamentos do mercado de trabalho; c) que vá buscar
recursos para suas pesquisas nas empresas industriais e
comerciais, associando-se a estas por meio de pesquisa,
consultaria, oferta de cursos etc., obrigando-a assim a
responder às demandas de mercado, a fazer pesquisas
utilitárias de curto prazo. Isso certamente favoreceria
ainda mais as áreas de microeletrônica, biotecnologia,
engenharia de produção, administração, em detrimento
da tão desvalorizada área de humanas. É o modelo
competitivo de universidade.
O capitalismo direciona que a educação é um produto e as escolas empresas, e
que seria saudável que elas disputassem os alunos que são consumidores. E pensam a
universidade como um campo de construção de mão de obra para o mercado, se
contrapondo com o boom tecnológico, refletindo assim um agravamento no desemprego
estrutural, crescendo a desigualdade social. E o estudante se transformando em um
consumidor feroz por um espaço na sua formação e depois no mercado de trabalho, sem
pensar na solidariedade entre classe e cidadania.
Enfim, as principais razões apontadas para prestar vestibular estão vinculadas a
influência da família e ao mercado de trabalho. De acordo com os entrevistados o
ingresso na universidade é o primeiro passo para a qualificação e a garantia de inserção
no mercado de trabalho, como a fala abaixo mencionada.
Porque é o futuro da gente, pronto se todo mundo prestasse vestibular
passar freqüentar uma universidade não estaria todo mundo
desempregado e era para a gente ser assim a gente ter uma vaga lá na
universidade porque é federal – que é da gente direito
de todos estudantes, ter o direito – terminando o terceiro ano pronto, a
gente já ia encaminhado direto para a faculdade... (ALUNA 2, 3° B do
ensino médio, E.E.E.J.L.R.).
Vestibular: ritual de passagem, de impasse, ou ambos?
Segundo Van Gennep (1978) nas sociedades modernas somente há separação
um pouco nítida entre a sociedade leiga e a sociedade religiosa, entre o profano e o
sagrado. Entretanto, o mundo profano e o mundo sagrado são incompatíveis, a tal ponto
que a passagem de um ao outro não pode ser feita sem um estágio intermediário, o qual
determina a elaboração de ritos.
Dialogando com Van Gennep, Victor Turner caracteriza os rituais de passagens
como simbolismo de mudanças seja de posição social, de lugar, de estado. Os ritos de
passagem são caracterizados por três etapas distintas: 1) separação: simbolicamente o
indivíduo se afasta do seu grupo de pertença seja em consideração a estrutura social ou
as condições culturais; 2) período limiar (fase de transição) marcado pela ambigüidade,
consiste numa etapa em que os indivíduos se desprendem da estrutura social e cultural
“as distinções de classes e posição desaparecem, ou são homogeneizadas”. 3)
agregação: o término da passagem e retorno da estrutura, com uma nova concepção de
vida o indivíduo é novamente caracterizado pelo seu papel social, sua ascensão de
status sendo incumbido aos mesmas obrigações e padronização de comportamento em
um sistema de posições sociais.
Nesse sentido, a vida individual, qualquer que seja o tipo de sociedade, consiste
em passar sucessivamente de uma idade a outra e de uma ocupação a outra. De maneira
que toda alteração na situação de um indivíduo implique em ações e reações entre o
profano e o sagrado. Estas devem ser regulamentadas e vigiadas, para que a sociedade
não sofra nenhum constrangimento ou dano. Portanto, nas sociedades em que traçam o
ciclo da vida, e consequentemente, as relações sociais se estabelecem a partir das
idades, as passagens para cada estágio é acompanhada por atos especiais, cujo principal
objetivo são ofícios de aprendizagem. Deste modo, a vida de cada pessoa consiste em
uma sucessão de etapas, tendo por término e começo conjuntos da mesma natureza, a
saber, nascimento, puberdade social, casamento, paternidade, progressão de classe,
especialização de ocupação, morte. Assim, os rituais proporcionam à passagem de um
ser humano de uma situação determinada a outra situação determinada. Enfim, as
cerimônias rituais possuem geralmente uma sequência que perpassa por estágios de
separação, de margem e de agregação “O esquema completo dos ritos de passagem
admite em teoria ritos preliminares (separação), liminares (margem) e pós-liminares
(agregação)” (VAN GENNEP, 1977, p. 31).
“[...] para mim vai ser um momento mágico de crescimento,
amadurecimento, conhecer novas pessoas, vai ser tudo que eu
sempre quis, vai ser mágico, encantador, o que eu sempre quis”
(ALUNA 1, 3° B do ensino médio, E.E.E.J.L.R.).
Os alunos apreendem o vestibular como um ritual de passagem e que
proporcionaria uma nova configuração, seja no cenário escolar ou no familiar. No seio
familiar a passagem permitiria a agregação ao espaço que alguns já alcançaram, e na
universidade o ingresso num espaço novo que exigiria de cada qual responsabilidade até
então não ordenadas, esforço e ritmo de estudos mais acelerados e individuais,
conjuntamente com a expectativa de um futuro promissor e bem sucedido. Por outro
lado, a negação de ingresso na universidade provoca vários sentimentos negativos, entre
eles, os que mais ficaram presentes na fala dos alunos foram, angústia, ansiedade, medo,
culpa.
[...] assim eu tenho mais medo, eu tenho medo de não passar, eu tenho
medo de decepcionar meus pais, principalmente minha mãe, porque
tudo o que ela mais quer é que eu e minha irmã entre na universidade,
minha irmã é bem mais dedicada que eu sabe, eu estudo mais não
tanto quanto ela, tipo minha mãe deposita mais a confiança nela com
relação a isso do que em mim, minha irmã é muito dedicada apesar de
ainda estar no ensino fundamental. (ALUNA 1, 3° B do ensino
médio, E.E.E.J.L.R.)
Em termos do convívio familiar a figura da mãe apareceu como referência de
apoio, de cobrança, de intimidade e de preocupação com o futuro dos filhos, pois,
através do ingresso na universidade, maiores seriam as possibilidades de terem um
futuro profissional promissor. De acordo com os alunos pesquisados quanto mais se
tem familiares que passaram por esse ritual, mais eles se sentem pressionados a
conseguirem ingressar no ensino superior, atribuindo a essa passagem competências e
habilidades individuais, enquanto o contrário significa incapacidade, desleixo e
irresponsabilidade do indivíduo.
O vestibular também foi considerado como um ritual de impasse, pois a negação
de entrada na universidade proporcionaria um momento de reclusão social, de
isolamento e uma busca incessante para adquirir esse novo status social.
“[...] eu fiquei me esperniando quando soube a notícia que não tinha
passado no vestibular foi um desgosto muito grande... porque eu
queria ter passado – assim tipo por mais que diga ai por mim tanto faz
passar ou não passar, mas não é verdade – você quer ver o seu nome lá
na lista, apontar – é um sonho de qualquer jovem entrar numa
universidade, conquistar sua independência... minha mãe calma,
calma, calma eu fiquei louca da vida... foi a primeira vez que eu
fiquei... é sério.” (ALUNA 3, 3° B do ensino médio, E.E.J.L.R.)
“[...] espero quando eu terminar o 3° ano e terminar a prova do
terceiro ano meu nome esteja lá se não eu vou enlouquecer.” (ALUNO
2, 3° B do ensino médio, E.E.J.L.R.)
Conforme Machado (2009), um dos traços que mais caracteriza a atual condição
juvenil é a situação de impasse vivida por muitos jovens em relação ao seu futuro. Eles
até poderão galgar as fronteiras que, supostamente, permitem a passagem simbólica da
juventude para a idade adulta; contudo – porque a precariedade pauta as suas trajetórias
de vida – muitos deles não conseguem reunir condições de independência econômica
estável. E não obstante, independentemente de as fronteiras entre as várias fases de vida
se encontrarem sujeitas a uma crescente indeterminação, continuam a ser valorizados
determinados marcadores de passagem entre as várias fases de vida, havendo um
reconhecimento genérico quanto às idades mínimas para se ter relações sexuais, deixar a
escola, casar ou ter filhos.
Portanto, os ritos de impasse aparecem associados a situações de anomia,
quando necessidades essenciais de segurança e auto-estima não se satisfazem ou quando
sentimentos de pertença identitária se fragilizam. Se essas exigências vitais se frustram,
surge uma propensão para a indolência, traduzida em alienação social. A anomia pode
originar condutas violentas, envolvendo pessoas incapazes de vislumbrar um futuro,
como acontece com alguns jovens ou minorias marginalizadas. (MARCOS, 1995, P.
199 apud MACHADO, 2009, P. 380).
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Juventude e Vestibular: um ritual de passagem e/ou - Lajus