Celso Leopoldo Pagnan
Doutor em literaturas de língua portuguesa
Resenhas dos livros de
leitura obrigatória
da UEL 2013/2014
Londrina, 2012
1a edição
1
Direção-Geral do Sistema Maxi de Ensino e da
Maxiprint
Mário Ghio Jr.
378
P156r
Coordenação do Centro Pedagógico
José Milanez
Pagnan, Celso Leopoldo.
Resenhas dos livros de leitura obrigatória da UEL
2013/2014. Organização Celso Leopoldo Pagnan. —
Londrina : Maxiprint, 2012. – 144p.
1. Resenhas – Literatura – vestibular. 2. UEL – vestibular
2013/2014. I. Título.
Coordenação do Centro Pedagógico
Heleomar Gonçalves
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ATENÇÃO!
Este volume da coleção Resenhas destina-se especificamente aos candidatos aos cursos de graduação da UEL – Universidade
Estadual de Londrina (PR), nos concursos vestibulares para os anos letivos de 2013 e 2014.
Estas resenhas, porém, não têm a intenção nem a pretensão de substituir o texto integral das referidas obras, cuja leitura
consideramos indispensável não apenas para o vestibular, mas para a formação básica em Literatura para os que pretendem exercer
qualquer profissão em nível superior, pois os textos aqui abordados constituem o cerne da literatura luso-brasileira e por isso são
representantes exemplares de épocas e ideologias que marcam nosso atual modo de ser e o explicam.
Ocorre que detalhes como ambientação da obra, o estilo do autor, a plena caracterização dos personagens, o ritmo da narrativa e
a própria “mensagem” da obra, entre outros aspectos importantes, ficarão incompletos para o leitor de uma resenha por mais fiel que
esta tente ser, daí nossa recomendação para que estas linhas sirvam de preparação ou de complementação à leitura do texto integral
das respectivas obras, pois a intenção do presente volume é abrir caminhos a quem vai lê-las ou preencher eventuais lacunas a quem
as leu.
Esteja o vestibulando consciente de que nada suprirá a necessidade de leitura integral dos textos. E, como já dissemos, que este
livro sirva como introdução ou como complemento a essa enriquecedora atividade que é a leitura integral de uma obra de arte.
Prof. José Milanez
Coordenador do Centro Pedagógico do Sistema Maxi de Ensino
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ÍNDICE
III III IV VVI VII VIII IX X-
Cidade de Deus, de Paulo Lins ............................................................................................... 5
As melhores crônicas de Rachel de Queiroz ......................................................................... 10
Espumas Flutuantes, de Castro Alves .................................................................................. 16
São Bernardo, de Graciliano Ramos .................................................................................... 23
Papéis avulsos, de Machado de Assis .................................................................................. 28
Sagarana, de Guimarães Rosa .............................................................................................. 37
Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente .................................................................................. 44
Bagagem, de Adélia Prado .................................................................................................... 49
O Planalto e a Estepe, de Pepetela ....................................................................................... 54
O primo Basílio, de Eça de Queirós ..................................................................................... 58
4
CAPÍTULO I - Cidade de Deus, de Paulo Lins
DE DEUS OU DO DIABO
que caracterizava o Naturalismo do século XIX. No entanto,
essa exposição explícita da criminalidade, com linguagem solta
e sem meios-termos, também sugere que o livro é mais realista
que a própria realidade, se é que não poderíamos dizer que é
exagerado. É preciso, pois, um pouco de desprendimento moral
e paciência para a toda hora ler os palavrões, os diversos modos
de fazer sexo, os diversos modos de enganar, roubar, matar. Um
leitor mais sem paciência diria logo que se trata de lixo cultural.
Outro pode descortinar, com boa vontade, valor na narração da
vida bandida, pelo que tem de compreensão social, o que garante
alguma qualidade ao livro. Um terceiro, vencendo a lama
narrativa, veria alguma qualidade estética. Estamos tentando nos
encaixar nesses dois últimos.
Narrado em terceira pessoa, o livro não tem exatamente uma
personagem principal, pelo próprio objetivo, que é o de não ter
um centro narrativo. É como se todas as personagens tivessem
sua importância, além de garantir que não haja propriamente
um herói no livro. O máximo que existe é uma divisão em três
partes, em cada qual com ênfase na história de algum bandido:
Inferninho, Pardalzinho e Zé Pequeno. Cada história representa
um momento do modo de praticar crimes a partir da Cidade
de Deus, que se revela a grande personagem do livro. Cada
parte narra, pois, a história de um bandido em particular, que
acaba representando também as fases do desenvolvimento da
criminalidade no bairro e, por extensão, na cidade do Rio de
Janeiro. Da prática de crimes para a mera sobrevivência até a
organização de práticas criminosas de modo mais sistemático.
Apesar disso, é possível dizer que Busca-Pé é uma espécie
de testemunha ocular dos acontecimentos mais importantes,
um morador da Cidade de Deus. Trata-se de um alter ego do
autor, pois, assim como Paulo Lins, Busca-Pé sonha algo a mais
para ele do que apenas virar um bandido, um traficante ou um
drogado.
O livro se inicia com Busca-Pé e Barbantinho fumando
maconha e apreciando a orla da cidade. Enquanto isso, Busca-Pé
faz uma série de considerações sobre sua vida, sobre seus projetos,
que podem nunca se realizar. Em seguida, o leitor é logo levado
a conhecer a Cidade de Deus, seja a parte geográfica, dos tipos
de moradia, sejam os moradores, particularmente os malandros
e pequenos ladrões, que praticam roubos para a subsistência
imediata e não com o objetivo de efetivamente ficarem ricos.
A primeira parte tem como título “A história de Inferninho”.
No caso, os principais bandidos têm apelidos e são apenas
identificados como tais. Para não parecerem apenas tipos, sem
humanidade ou profundidade psicológica, o narrador, quando
possível, cita alguns motivos que os teriam tornado bandidos
e como chegaram à Cidade de Deus. Os que se destacam
são Tutuca, Martelo, Passistinha, Pará, Pelé e, obviamente,
Inferninho. Depois aparecem outros, mais malandros ou
drogados que bandidos, como Laranjinha, Acerola, Jaquinha,
Manguininha e Verdes Olhos.
Além disso, há a explicação das causas do crescimento do
conjunto habitacional. Grupos provindos de outras favelas
foram se instalando na Cidade de Deus, estabelecendo-se a área
de cada um, como o grupo dos evangélicos.
Paralelamente a esse painel, começam a se desenrolar as
histórias pessoais, em particular a dos primeiros bandidos do
bairro, com destaque para o grupo liderado por Inferninho.
Cometiam pequenos assaltos a comerciantes do bairro, ao
caminhão que fazia a distribuição do gás. Em uma ocasião, para
Cidade de Deus (1997) é o romance que deu a Paulo Lins
status de escritor de alcance nacional. É claro que isso aconteceu
também pela adaptação do romance ao cinema, em 2002, sob
a direção de Fernando Meireles, embora o livro tenha alguma
qualidade por conta própria.
Paulo Lins nasceu em 1958 e, antes desse romance, já havia
publicado um livro de poesia pela UFRJ, intitulado Sobre o sol,
em 1986, resultado de sua participação da Cooperativa de Poetas,
que colabora para a edição dos trabalhos literários de poetas
independentes. Ex-favelado, morador do bairro Cidade de Deus,
no subúrbio carioca, Paulo Lins aproveitou-se dessa experiência
de vida para escrever seu romance mais audacioso em termos
de conteúdo e mesmo de linguagem, seja pela forma solta, seja
pela coloquialidade, mas também pelos elementos poéticos
disseminados aqui e ali, como que abrandando a temática dura e
complexa do livro.
Basicamente, seu objetivo é o de narrar a trajetória do bairro
homônimo do título, que passou de moradia de trabalhadores,
nos anos 1960, a nascedouro da criminalidade de pequenos
malandros e vagabundos e a ascensão do crime organizado,
baseado em roubos, comércio de drogas e assaltos a bancos.
A experiência de vida do autor no lugar o ajudou a compor
o romance, mas ele também se aproveitou de sua participação
em uma pesquisa antropológica sobre a criminalidade e as classes
populares no Rio de Janeiro, o que lhe permitiu uma visão mais
ampla e mais técnica sobre o assunto. O romance também é
resultado de uma bolsa de estudos que obteve da Fundação
Vitae, que apoia pesquisas e produção na área cultural.
A leitura de Cidade de Deus não é particularmente
simples, tendo em vista a multiplicidade de acontecimentos,
de lembranças, de alusões e referências internas. Isso para a
construção. Tal simbiose de acontecimentos fez alguns críticos
aproximarem a narrativa de Paulo Lins à de Guimarães Rosa,
porque são histórias que correm dentro de outras histórias,
numa sucessão que faz o leitor desatento perder o fio da meada,
os liames do enredo. Mas, obviamente outros aspectos são bem
diversos num e noutro escritor, com muita vantagem para o
escritor mineiro.
Outro ponto de contato se dá por conta da temática,
voltada para a perspectiva dos marginalizados. Ao se fazer isso,
encontra-se como referência na literatura, ainda mais o registro
carioca, a figura de Lima Barreto, que se voltou para o indivíduo
suburbano desqualificado, socialmente falando.
No que diz respeito à tematização da violência gratuita na
literatura, a referência é outro carioca, Rubem Fonseca, cujo
hiper-realismo deve ter servido de inspiração a Paulo Lins.
O grande problema nas quase 500 páginas do livro é a
excessiva repetição de situações que tendem a cansar o leitor.
Basicamente, a narrativa se resume aos atos de malandros que
se organizam para fazer pequenos assaltos, malandros que
“cheiram” e fumam para comemorar os assaltos e policiais
(alguns tão bandidos quanto) que saem em busca dos malandros,
ora para prendê-los, ora para matá-los, ora para extorqui-los.
Sem contar o sem-número de palavrões, o sem-número de
situações que rebaixam o ser humano a um animal que tenta
sobreviver em uma selva urbana.
Nesse sentido, o livro tem um quê de naturalista, pela
expressão nua e crua, sem, é claro, a preocupação cientificista
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Outro ponto é o assalto praticado a um motel, que deu
notoriedade aos bandidos locais, tendo sido inclusive manchete
de jornal, pela violência praticada. Desse modo, Inferninho
e seus comparsas (Pretinho, Pelé e Pará, além de Inho, que
viria a se tornar o Zé Pequeno) tornam-se respeitados como
grandes bandidos, pelo temor que passaram a inspirar na
comunidade. Para isso, roubaram primeiro um automóvel Opala
e foram até o motel, onde os quatro fizeram o assalto tanto ao
motel em si, quando aos clientes que lá estavam. Chegaram a
matar dois frequentadores. Inho, por sua vez, ficara a certa
distância, vigiando, pois ainda era muito criança para participar
diretamente do assalto:
ganhar a simpatia dos moradores, permitiram que os moradores
pegassem os botijões de gás. No entanto, um dos comerciantes,
cansado dos assaltos, vai atrás de Inferninho, mesmo com medo,
para recuperar os objetos roubados. Outro morador, Francisco,
resolve denunciá-lo à polícia. Com isso, Tutuca e Martelo
resolvem sair do conjunto residencial, esperando que as batidas
policiais esfriem. Em represália, Inferninho resolve se vingar
e assassina Francisco, visto por todos como alcaguete, algo
impensável no código ético dos bandidos, por assim dizer.
Os crimes trazem para a comunidade a pressão por justiça,
pela presença mais atuante da polícia. O problema é que os
policiais não são exatamente modelos de conduta, o que é
indicado pelos nomes com que são conhecidos: Belzebu e
Cabeça de Nós Todos. Apelidos, obviamente, mas que sugerem
atitudes nem sempre dignas de quem está do lado da lei, como
expressão de maldade e comando nem sempre adequado.
O narrador procura explicar, ao longo da narrativa, a origem
de algumas personagens. Em particular sobre Inferninho, e o que
se afirma não chega a ser muito diferente da trajetória das demais
personagens: família desestruturada, revolta contra a sociedade,
imediatismo para conseguir dinheiro e também para gastá-lo,
violência e pouca consciência social. Em seu caso particular,
expressa uma visão racista contra brancos, os mais ricos, os quais
são vistos como os que impediriam sua ascensão social, sua
melhoria de vida. Como resposta imediatista, usa a violência:
Inho só conseguiu ir na última hora; insistiu tanto que
os amigos concordaram em deixar um garoto participar de
um serviço de homem. Mesmo sabendo que teria participação
igual à dos parceiros na divisão dos lucros só por ter escoltado a
parada, o que o deixaria feliz de verdade era poder acompanhar
os amigos. (p. 67)
Esse assalto, além de trazer dividendos, trouxe prejuízo, pois
o governo, a sociedade e a imprensa passaram a cobrar mais
empenho da polícia para solucionar o caso. E de fato é o que
tentam Belzebu e Cabeça de Nós Todos, o qual, mais do que
pretender fazer justiça, queria matar e extorquir os bandidos.
“Queria dar flagrante em maconheiro para extorquir uma grana”.
O caso se presta também a quebrar qualquer centro a partir do
qual a narrativa se construa. Heróis ou bandidos se equivalem,
não se diferenciam. Tudo depende para quem alguém é herói
ou coisa que o valha. No caso, a resposta foi a morte, sem dó,
de Pelé e de Pará, cujas origens são narradas em seguida, e, em
essência, não diferem muito.
A primeira boca de fumo um pouco mais organizada,
nesse momento, pertencia a Tereza ou Tê, que aprendera
com o marido. Viúva, percebeu que era o único caminho para
continuar a se sustentar e a sustentar as filhas. É assim, pois, que
aos poucos o crime vai se organizando em Cidade de Deus:
Sentiu vontade de matar toda aquela gente branca, que
tinha telefone, carro, geladeira, comia boa comida, não morava
em barraco sem água e sem privada. (p. 24)
Essa mesma visão é compartilhada por outros marginais no
livro, como Grande, que:
Tinha prazer em matar branco, porque o branco tinha
roubado seus antepassados da África para trabalhar de graça, o
branco criou a favela e botou o negro para habitá-la, o branco
criou a polícia para bater, prender e matar o negro. (p. 191)
Assim se iniciou na vida do crime. A sua boca de fumo,
agora bem administrada, rendeu-lhe melhores frutos. Conseguiu
aumentar a casa, as filhas substituíram os molambos que
vestiam por roupas decentes, alimentavam-se melhor. (p. 93)
O pai de Inferninho era o típico malandro, bom de briga
e de samba, embora vivesse alcoolizado. A mãe, por sua vez,
era prostituta. Como qualidade que Inferninho destaca é a sua
capacidade de lutar, de brigar contra quem tenta enganá-la. Por
fim, há um irmão. Para seu desapontamento, era homossexual
assumido e, vez ou outra, se prostituía para conseguir algum
dinheiro. Em dado momento da história, chega a assumir de vez
sua condição e se traveste, tornando-se primeiro prostituto, até
conseguir uma espécie de marido. O primeiro deles foi Pouca
Sombra, com o qual brigava muito. Depois, tornou-se amante
de um médico, doutor Guimarães, bem-sucedido, casado e pai
de dois filhos, mas que se realizava mesmo no relacionamento
com outro homem. No entanto, tudo tinha de ser secreto, às
escondidas:
Esse aspecto também faz parte da lógica do crime. Não
importa que outros sejam prejudicados, o importante é que
quem pratica se dê bem. É bem verdade que esse “se dar bem”
é momentâneo, passageiro. Apenas para satisfazer necessidades
imediatas. Por esse motivo, Tê representa o crime organizado,
ainda que de modo embrionário, isto é, crime como meio de
construção de uma vida.
Cabeça de Nós Todos tinha, como objetivo maior, matar
Inferninho. Já tentara outras vezes sem sucesso. Aquela vida,
porém, de policial e de bandido ao mesmo tempo cansara a
mulher, que o abandonou. Talvez por isso, por se sentir sozinho,
abandonado, em uma ronda pela Cidade de Deus é morto por
outro bandido, irmão de um que fora assassinado pelo policial.
Assim, se sob uma perspectiva mais tradicional de narrativa o
embate deveria ser entre Inferninho e Cabeça, na narrativa sem
centro de Paulo Lins não é o que ocorre. A estratégia acaba
sendo positiva, ao menos nesse aspecto.
“Tinha vergonha de pensar em Ana Rubro Negra perto dela
e dos filhos”(p. 242)
Outros pontos de destaque na narrativa, pode-se dizer, são
a constituição de uma ética dos criminosos, como respeitar aos
que se destacam, não entregar os amigos à polícia (acalguetar),
não trair a confiança do amigo, não trair o amigo com sua
mulher, etc. Casos assim eram punidos com a morte violenta do
que cometia o delito.
Inferninho ficou sabendo do episódio por intermédio da
6
esposa [Berenice], mas não saiu para ver o corpo, somente fumou
um baseado e tomou umas cervejas para comemorar em sua
própria casa. (p. 161)
de uma pena maior. Isso acontecia quando a condenação de
um detento já alcançava os trinta anos e, mesmo condenado de
novo, ficaria preso no máximo até atingir esse limite previsto em
lei. Nada é tão ruim que não possa trazer algum proveito...
Ainda nessa primeira parte, anuncia-se a história de Zé
Pequeno, o Inho, depois Zé Miúdo, que vem a se tornar o
principal traficante e organizador da vida social da Cidade de
Deus, ao menos a vida da bandidagem. Ao lado do parceiro,
Pardalzinho, proíbe os roubos no local e domina todas as bocas
de fumo. Por consideração, permite que apenas Tereza continue
vendendo drogas, porque era antiga e não chegava a atrapalhar.
Inho até tentara (sem muito esforço, é verdade) ser honesto.
Começara a engraxar sapatos. Mas rapidamente percebeu que
assaltar os clientes dava mais dinheiro que ficar engraxando
para depois receber míseros trocados. Aquela vida fez nascer a
amizade com Pardal e com outros bandidos.
Também há a narração de fatos da vida dos cocotas, isto é,
dos jovens brancos moradores de prédios um pouco melhores da
Cidade de Deus, que fazem a ponta entre o local e a cidade do
Rio de Janeiro, a classe média. Fazem parte do grupo Busca-Pé
e Barbantinho. Estão no limite entre a marginalidade e a vida
honesta, seja pelo convívio com os bandidos do local, seja pelo
desejo de enriquecer com facilidade.
São eles: Rodriguinho, Daniel, Leonardo, Paype,
Marisol, Gabriel, Busca-Pé, Álvaro Katanazaka, Dom Paulo
Carneiro, Lourival e Robespierre, entre outros. Uma marca de
diferenciação é que todos os brancos são identificados por nomes
e não apelidos, à exceção de Busca-Pé.
O ponto alto dessa primeira parte é a morte de Inferninho,
morto por Belzebu. O interessante é que a narração alterna
momentos de violência e de paz, esta obtida com a morte. Podese dizer que se trata de pequenas situações líricas em meio ao
caos urbano narrado pelo livro:
A partir desse dia, Cabelo Calmo fazia sexo com o xerife
regularmente, agia como mulher de malandro. (p. 254)
[...]
Há os que são selecionados apenas por terem pena muito
extensa, porque nesses casos um crime a mais não alteraria a
pena. (p. 257)
Paralelamente a isso, Pardalzinho percebe que ter dinheiro
pode levá-lo a mudar de estilo, a se vestir melhor e até a se portar
de modo mais grã-fino. O bandido representa a ascensão do
crime como meio de participar mais diretamente da sociedade,
sem ser visualmente agressivo às pessoas da alta classe ou da
classe média. No seu caso específico, aquilo estava começando
a acontecer, mas não se concretizou por conta de sua morte
prematura. Chega a se casar, mas isso não representa que vá
procurar uma vida mais decente, consoante uma ordem legal.
Nessa segunda parte, narra-se um pouco da história de
Busca-Pé, que se integra os chamados cocotas. Busca-Pé começa
a trabalhar em um supermercado, até conseguir dinheiro para
comprar sua primeira máquina fotográfica, o que viria abrir-lhe
caminho para registrar o que se passava na Cidade de Deus e
trilhar o futuro rumo ao jornalismo:
Num sábado de final de mês, Busca-Pé, cansado, foi
trabalhar no supermercado Macro. Já não aguentava mais
aquela vidinha de fiscal. Queria mesmo era fotografar.
Trabalharia mais um tempo e faria tudo para ser mandado
embora, com o dinheiro da indenização compraria a tão
sonhada máquina fotográfica, entraria num curso e pronto. (p.
310)
Talvez nunca tenha buscado nada, nem nunca pensara em
buscar, tinha só de viver aquela vida que viveu sem nenhum
motivo que o levasse a uma atitude parnasiana naquele universo
escrito por linhas tão malditas. (p. 187)
Busca-Pé representa, pois, a tentativa de fugir ao padrão dos
jovens moradores da favela, cuja possibilidade de entrar para a
vida criminal era sempre maior que seguir caminho diferente, o
da honestidade.
Na Cidade de Deus, há também o início de outro grupo de
traficantes, que irá fazer o confronto com o grupo de Zé Miúdo.
É o grupo de Coca-cola e Manguinha. Adiante, tal confronto
irá se intensificar a ponto de se estabelecer uma guerra entre
quadrilhas, algo verificável nos morros cariocas ainda hoje. Esse
grupo rival é identificado como os Lá de Cima, pela posição
geográfica em que se encontravam.
Obviamente que isso acaba por atrapalhar os planos de
Miúdo de pacificar por completo a favela, seja pela disputa das
bocas de fumo, seja pela desobediência a sua ordem de não se
praticarem crimes comuns no local, como estupros ou roubos
a moradores. Não porque se importasse efetivamente com o
destino dos moradores ou tivesse consciência social: era apenas
um meio de evitar que a polícia desse batidas no morro em busca
de criminosos comuns.
Por isso, quando sabe que Botucatu e seu parceiro Pança
violentam e matam a namorada do primeiro, por ter engravidado
de um terceiro, chama seu bando para aplicar o devido corretivo.
No entanto, em vez de matarem os bandidos, a pedido de Pardal
apenas os espancam. Isso causa revolta em Botucatu e decide
que, na primeira oportunidade, irá matar Zé Miúdo.
É o que de fato tenta, mas consegue apenas ferir o bandido, e
Atitude parnasiana seria exatamente esse lirismo, essa busca
por momentos perfeitos, belos, em contraste com a vida de
morte, de roubo, de drogado a que se submetera o marginal.
Em seguida, narra-se a segunda parte: “A história de
Pardalzinho”, que não chega a quebrar de modo grande o tempo,
uma vez que as personagens dessa parte já haviam aparecido na
anterior. Além de Pardal, Zé Miúdo (o Inho, do assalto ao motel
quando ainda era criança). Aprofunda-se também a narração do
modo de vida dos cocotas, com suas disputas internas e a ponte
que colaboram para estabelecer entre os drogados de classe média
e os traficantes do morro:
O movimento aumentou. Os Apês eram de fácil acesso para
os fregueses de fora, que chegavam a fazer fila para comprar
bagulho bom. [...] Pardalzinho era o único sócio, era o único
em quem confiava. [...] O dinheiro entrava fácil para o bolso de
Miúdo e de Pardalzinho. (p. 203)
Um parceiro dos bandidos, Cabelo Calmo, é preso. O fato
serve para ilustrar como é a vida de um bandido na cadeia, que
acaba tanto sendo obrigado a prestar favores sexuais a outros
detentos e mesmo a policiais, quanto também assumindo crimes
praticados por outros, como meio de livrar um companheiro
7
tinham crime algum para vingar, contudo entravam na guerra
porque a coragem, aliada à disposição para matar exibida
pelos bandidos, lhes conferia um certo (sic) charme aos olhos de
algumas garotas. (p. 387)
atinge mortalmente Pardalzinho, embora não fosse seu intento:
Miúdo correu ensanguentado, tinha forças para trocar tiros
mesmo baleado, porém receou que houvesse vários bandidos ao
lado de Botucatu por causa dos crimes que cometera por ali. (p.
323)
Em paralelo a isso tudo, o consumo de drogas ia
aumentando, o que possibilitava aos quadrilheiros se armarem
mais e melhor. Compravam armamento pesado e utilizado
apenas pelas Forças Armadas. Toda a violência levou o governo
do Estado a agir e a ordenar rondas policiais constantes. Desse
modo, instala-se o inferno no local, tanto para os moradores
comuns como para os usuários e drogados que iam até lá para
comprar seus entorpecentes.
Como resultado, acabam prendendo Miúdo, que tem
de pagar ao Comando Vermelho uma quantia semanal para
permanecer vivo. Aos poucos, a guerra vai esfriando, nem sabem
mais por que continuavam a guerra, a não ser, é claro, em razão
da disputa pelo poder e pelas bocas de fumo.
Miúdo sai da cadeia, arruma novos parceiros de crime e passa
a roubar.
Como não se trata de dar um desfecho ao livro, como um
romance tradicional, em que o destino de cada personagem
é definido claramente com base em projetos de vida ou de
objetivos traçados, as personagens de Cidade de Deus apenas
seguem suas vidas. Alguns se casam, como Busca-Pé; outros
seguem a vida, com a consciência de terem feito o melhor dela,
como Tereza, que consegue ver as filhas casadas e tendo uma
vida melhor que a dela; outros se regeneram e se convertem a
igrejas, como a Evangélica.
O destino de Zé Miúdo é o esperado. Acreditando que
poderia retomar suas bocas de fumo, tenta se impor aos novos
donos do tráfico, que eram apenas adolescentes. No entanto,
Tigrinho e Borboletão matam o ex-dono da Cidade de Deus e
iniciam uma nova dinastia da bandidagem e do tráfico.
O final tem um quê de irônico e simbólico, pois, após
matarem Zé Miúdo, os meninos vão soltar pipa com cerol.
No enterro de Pardal, há outro momento em que se mesclam
dor e felicidade. Se não é uma morte parnasiana, ao menos seu
velório se dá durante uma festa, um pagode, sob a alegação de
que ele certamente iria gostar.
A terceira e última parte, “A história de Zé Miúdo”, é
iniciada com uma espécie de resumo de vários acontecimentos,
entre eles a vida dos cocotas, com destaque para Busca-Pé e os
acontecimentos envolvendo Botucatu.
– Busca-Pé sumiu!
– É... Tá sumidão!
– O cara se destacou mermo, né?
– Pode crer!
– Só vejo ele passando...
– Ele tá colado com aquele pessoal do Conselho de
Moradores...
– Ele virou retratista mermo!
– Pode crer! (p. 328)
Zé Miúdo até tenta uma vida um pouco diferente após a
morte do amigo Pardal, chega a namorar sério uma moça “de
família”. Mas, como não dura muito por pressão familiar, volta
à velha rotina e inicia uma guerra velada contra os Lá de Cima,
roubando e estuprando os moradores daquela parte da favela.
O problema é que acaba por estuprar uma loura na frente do
namorado, que se revolta. Era conhecido como Zé Bonito.
Este começa a espalhar a notícia de que, assim que tivesse uma
chance, iria se vingar. Por isso, Miúdo vai até sua casa, mas acaba
por matar apenas o avô de Bonito, que tenta matar o bandido,
atingindo-o com uma faca de cozinha. Com isso, Bonito inicia
uma guerra particular contra a quadrilha de Miúdo, matando
vários de seus comparsas.
Outros moradores ou bandidos, sabendo do caso, vão
tomando partido, ora a favor de Bonito, por quererem se vingar
de Miúdo, ora a favor deste, para poderem se agrupar e tirar
alguma vantagem da situação. Não demorou muito a que o
grupo dos Lá de Cima começasse, por interesse próprio, a apoiar
Zé Bonito. De guerra velada, instalou-se a guerra declarada:
Era tempo de pipa em Cidade de Deus. (p. 446)
Em resumo, o livro, cujo objetivo era o de narrar a
formação do crime organizado em favelas do Rio de Janeiro,
particularmente na Cidade de Deus, termina como deveria,
sem um desfecho, sem a resolução do problema, apenas com a
sugestão, real, de que aquele processo foi apenas o começo para o
que se veria em termos de violência na cidade.
Miúdo continuava a pensar em Bonito. Pela primeira vez,
soube o que era medo. O bruto atirava sem se esquivar, tinha
pontaria e o pior: não o temia. (p. 349)
Exercícios
1. (Unesp) A boca era de Sérgio Dezenove, também conhecido
como Grande, bandido famoso em todo o Rio de Janeiro
pela sua periculosidade e coragem, pelo seu prazer em
matar policiais. Grande também fora morador da extinta
favela Macedo Sobrinho, mas não foi para Cidade de Deus,
porque achava que ali seria muito fácil a polícia o encontrar.
Gostava de morro, de onde se pode observar tudo de sua
culminância. Havia se escondido em quase todo o Rio de
Janeiro, dos morros da Zona Sul até a Zona Norte, mas
a polícia já o encontrara em todos eles. Por esse motivo,
chegara ao morro do Juramento, no subúrbio da Leopoldina,
dando tiro em tudo quanto era bandido, derrubando barraco
aos pontapés, gritando que quem mandava ali agora era o
Grande: o Grande que tomou a maioria das bocas de fumo
E adiante:
A Cidade de Deus, segundo a imprensa, tornara-se o lugar
mais violento do Rio. O conflito entre Zé Miúdo e Zé Bonito
fora qualificado como guerra. Guerra entre quadrilhas de
traficantes.
A sequência é a narração de pequenos conflitos, de mortes,
de estupros, de roubos, tráfico, etc., realizados pelos dois grupos.
O que era vingança pessoal de Zé Bonito colabora para a
construção e organização de grupos de bandidos. É o início do
crime organizado:
Também houve casos em que os futuros quadrilheiros não
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(C) Não apresenta nenhuma perspectiva de redenção aos
moradores de Cidade de Deus.
(D) Narra o desenvolvimento do tráfico de drogas.
(E) Narra a disputa por pontos de tráfico de drogas.
dos morros da Zona Sul; o Grande de quase dois metros de
altura, com disposição para encarar cinco ou seis homens na
mão de uma só vez; o Grande que tinha uma metralhadora
conseguida na marra de um fuzileiro naval em serviço na
praça Mauá; o Grande que teve sangue-frio para cortar o seu
próprio dedo mindinho e colocá-lo num cordão; o Grande
que matava policiais por achar a raça a mais filha da puta de
todas, essa raça que serve aos brancos, essa raça de pobre que
defende os direitos dos ricos. Tinha prazer em matar branco,
porque o branco tinha roubado seus antepassados da África
para trabalhar de graça, o branco criou a favela e botou o
negro para habitá-la, o branco criou a polícia para bater,
prender e matar o negro. Tudo, tudo que era bom era dos
brancos. O presidente da República era branco, o médico era
branco, os patrões eram brancos, o-vovô-viu-a-uva do livro
de leitura da escola era branco, os ricos eram brancos, as
bonecas eram brancas e a porra desses crioulos que viravam
polícia ou que iam para o Exército tinha mais era que morrer
igual a todos os brancos do mundo.
3. Aponte a alternativa que contemple características de Cidade
de Deus, de Paulo Lins.
(A) linguagem culta e sem gírias.
(B) narrativa tradicional, linear, com enredo padrão.
(C) narrado em primeira pessoa, da perspectiva de Zé Miúdo.
(D) narrado em terceira pessoa, em linguagem repleta de
gírias.
(E) a história se passa na favela, mas, sobretudo, em
Copabacana.
4. (Unifei) Assinale a alternativa que descreve corretamente o
romance Cidade de Deus.
(A) Assim como O Cortiço, de Aluísio Azevedo, é um romance
social - seu objetivo, já anunciado no título, é enfocar uma
coletividade.
(B) O acúmulo de episódios violentos tem como claro objetivo
levar o leitor a habituar-se à violência, passando a
considerá-lanormal.
(C) A ação é dividida em duas épocas, a da criminalidade
incipiente e a do domínio total da Cidade de Deus pelo
tráfico.
Cada uma delas é associada ao nome de um bandido
famoso.
(D) Os chefões do tráfico, no livro de Paulo Lins, são
normalmente oriundos da classe alta.
(Paulo Lins. Cidade de Deus.)
Com relação a questões de linguagem presentes no texto de
Paulo Lins, responda:
a) Como deve ser entendida a palavra boca na frase que
inicia o trecho do romance de Paulo Lins reproduzido: “A
boca era de Sérgio Dezenove…”?
5. Qual é o problema social central dos morros cariocas,
retratado pelo texto de Paulo Lins?
b)
Seria correto afirmar que o enunciador do texto vale-se, na
maioria das vezes, da reprodução da modalidade oral da
língua para construir seu discurso? Justifique sua resposta
por meio de exemplos retirados do texto.
6. Por que a personagem Grande nutre ódio pelos policiais e
pelos brancos?
2. Sobre o romance Cidade de Deus, de Paulo Lins, aponte a
alternativa incorreta:
(A) É dividido em três partes principais, em que se narra a
trajetória de três bandidos moradores de Cidade de Deus.
(B) Apresenta policiais corruptos, o que impede a perspectiva
de um herói, como em romances tradicionais, de bandido e
mocinho.
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CAPÍTULO II - As melhores crônicas de Rachel de Queiroz
Rachel de Queiroz (1910-2003) nasceu em Fortaleza e, ainda
jovem, publicou seu primeiro romance, O quinze, em 1930.
Em seguida vieram outros seis romances, tendo sido o último
Memorial de Maria Moura, publicado em 1992. Ainda publicou
cinco peças de teatro e quatro livros voltados para crianças.
Notabilizou-se, porém, como cronista, tendo reunido as cerca de
duas mil crônicas que foram publicadas em jornais e revistas ao
longo de sua vida como escritora (em quatorze diferentes livros).
Vamos tratar, nesta resenha, da coletânea de crônicas da série
Coleção melhores crônicas. No caso, a coletânea apresenta crônicas
de seis livros diferentes: A donzela e a Moura Torta (1948), 100
crônicas escolhidas (1958), O caçador de tatu (1967), As terras
ásperas (1993), O homem e o tempo (1995) e Falso mar, falso
mundo (2002). São 71 crônicas selecionadas dos seis livros.
Antes de tratarmos de algumas, vamos abordar dois tópicos:
a definição de crônica e as características mais gerais do modo de
escrever dessa autora.
A palavra “crônica” apresenta a mesma raiz do termo
cronológico, isto é, a sequência de determinados acontecimentos.
Por esse motivo, na sua origem tinha a função de fazer o registro
dos acontecimentos. Caso famoso é o de Fernão Lopes, cronista
da época do Humanismo (século XV) encarregado de escrever a
história dos primeiros reis de Portugal.
Já no século XIX, a crônica passou a ser escrita com o
propósito que se tem ainda hoje, que é a de fazer registros
variados do cotidiano, e ser veiculada preferencialmente em
jornais, ou modernamente, na internet. Por isso, a crônica
passou a ser associada ao gênero jornalístico, sem grande
valor ou preocupação literária. No entanto, até como meio de
sobrevivência, vários grandes escritores passaram a escrever
crônicas e deram a esse gênero qualidades literárias específicas.
Entre tais escritores, podemos citar José de Alencar e Machado
de Assis, no século XIX; Carlos Drummond de Andrade e
Rubem Braga, entre outros tantos no século XX, como a própria
Rachel de Queiroz.
Desse modo, não demorou muito a que a crônica passasse
a ter caráter mais literário ao lançar mão de aspectos poéticos,
líricos e também fantasiosos. É bem verdade que se discute, em
âmbito acadêmico, até que ponto a crônica é um gênero literário
ou meramente jornalístico. Discute-se também se, em sendo
literatura, teria o mesmo valor de um conto, de um poema ou
mesmo de um romance. Discussões à parte, o fato é que cabe de
tudo na crônica, inclusive a poetização da linguagem.
No caso específico das crônicas de Rachel de Queiroz, sabese que a autora, por conta de suas experiências de vida e de sua
formação política, procurou tratar de temática social, seja para
tratar das questões da seca, seja para falar da difícil vida do
trabalhador comum no Brasil. Mas vai além disso ao tratar dos
aspectos cotidianos e de sua vida pessoal, cuja reflexão ultrapassa
a mera subjetividade, pois aborda assuntos de ordem literária,
questões relacionadas à tradição e à modernidade, bem como
fatos do cotidiano que a autora teria vivenciado.
Em A donzela e a moura torta, a autora conta, em “O
Catalão”, a história de um mestre-curtidor que trabalhava para
o pai dela. Tal mestre fez parte do seu imaginário infantil e mais
tarde veio a saber que ele morrera lutando na Espanha, por conta
das lutas separatistas na Catalunha. Outras histórias da Rachel
criança são lembradas pela mulher já adulta, com mais de trinta
anos, e servem para compor o cenário da sua vida pessoal e
também da sociabilidade nacional.
Em “O grande circo zoológico”, narra seu encontro com
uma trupe circense que viajava às margens do rio São Francisco.
Depois de ver os animais e tecer alguns comentários, faz uma
análise dos artistas do circo, dando destaque para o fato de
que normalmente pertencem à mesma família ou constituem
família entre eles. Trata-se, pois, de uma análise sociológica sem
academicismos, mas que expressa um modo de olhar para o
Brasil que vai do poético ao jornalístico.
As histórias não têm um cenário único: este pode ser o
Nordeste em geral, o Ceará em particular ou o Rio de Janeiro,
onde morou, ou as viagens que fez, à Europa, por exemplo.
Isso fica até mais claro em “Retrato de um brasileiro”, que
narra a história de um homem comum, que teve suas desilusões
amorosos, o desapontamento pelos filhos, o trabalho constante e
o pouco reconhecimento dos seus. Em paralelo, trata das eleições
pós-ditadura getulista, em que a personagem conclui que valia
a pena votar naquele que pagava mais que propriamente em
projetos para a coletividade. Seu maior desapontamento será não
poder vender o seu próprio voto, o da atual esposa e o de uma
filha, caso venha nova ditadura.
“Se houver algum raio de barulho, começa tudo de novo e
adeus eleição. Adeus esperanças, adeus os três votos que já são
como dinheiro no bolso”. (p. 79)
Como se vê, um retrato que serve como referência histórica
do Brasil.
Na mesma linha temática, há “Morreu um expedicionário”,
que narra a história de um jovem que acreditava “na verdade, na
justiça e na liberdade”, por isso foi lutar pela FEB na 2a Guerra
Mundial. O que Rachel parece pretender é a compreensão das
razões que levam um indivíduo, jovem, com a vida pela frente,
sem a obrigação de lutar em uma guerra, a querer tornarse mártir por seu país. É o mérito da autora o de tentar as
motivações humanas, para o bem ou para o mal. Por exemplo,
na crônica que dá título ao livro, Rachel narra história comum
no sertão, num mundo ainda sem muitas leis, sem a presença do
Estado. É a história, meio medieval, da briga entre famílias que
se odeiam, sem nem saber as causas. O que importa é continuar
a matar, a exterminar os inimigos.
Os oitos filhos de Guiomar liquidaram num tiroteio três dos
dez filhos da Moura Torta. E os Pereiras, então, numa vingança
que ainda faz muita gente tremer, tocaram fogo na cidade
dos Lopes e mataram até os cachorros na rua e as criações nos
quintais. (p. 55)
Em “O padre Cícero Romão Batista”, como especifica o
título, fala sobre o santo popular, o padre Cícero, relatando, de
modo um tanto descrente, como veio a se tornar referência no
sertão e, aos poucos, em todo o Nordeste. Ainda na linha da
cultura nordestina, em “O senhor são João”, defende o Nordeste
contra seus detratores no sul do Brasil, que veriam a região como
local apenas de dança e festa. Para Rachel, que era cearense,
embora as festas existissem, elas seriam concentradas e poucas,
dando certa alegria à população. Ao passo que a maior parte do
tempo seria dedicada ao trabalho e às durezas da vida. Como se
vê, tal crítica apenas aumentou.
Também há espaço para o idílio amoroso, em suas crônicas,
mesmo ante as adversidades. No caso, em “Rosa e o fuzileiro”,
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conta a história da moça da Ilha do Governador que tinha um
pai que era uma fera, mas que acaba se apaixonando por um
fuzileiro naval, mesmo sob as ameaças de morte por parte do pai.
“Ai, que faria contra a arte de amar daquele fuzileiro
experimentadíssimo a pobre Rosa, dentro dos seus quinze anos
que são o limite de toda inocência?” (p. 73)
O texto é escrito em prosa, mas lembra um poema,
particularmente alguns poemas líricos de Camões.
Como são muitos os textos, fica difícil tratarmos de
maneira aprofundada de todos. O importante é ter uma
noção geral para que se estabeleçam as devidas relações. Outro
ponto é saber interpretar os textos em particular. Aqui damos
um direcionamento, mas cabe a cada um a leitura atenta das
crônicas.
Por exemplo, em “Vozes d’África”, é interessante saber que
o título que faz referência a famoso poema de Castro Alves. Na
crônica, temos a história de uma família de negros cuja origem
remonta à época da escravidão. Trata-se de uma família pobre,
moradora da Baixada Fluminense, constituída por treze filhos, os
quais o pai tenta manter, sem muito sucesso, na linha moral. Ela
fica, portanto, entre a construção de uma identidade negra e a
observação da moral e dos preceitos da sociedade branca.
Mas há também as crônicas sobre personagens misteriosos
que fazem parte do imaginário da Rachel menina. É o caso de
“O solitário”, história de um homem misterioso que morava
sozinho no sertão. A autora recorda dele e diz que morreu como
viveu, de modo solitário. Uma espécie de misantropo. Em
“Jimmy”, o retrato em um bar parisiense, com destaque para a
personagem do título. A narradora, observadora, vê o desenrolar
da entrada da personagem, dos que tentam chamar sua atenção,
como uma poetiza, e a pessoa que desperta o interessa de Jimmy,
no caso uma senhorita.
Há espaço também para as situações trágicas por excelência,
como em “História da velha Matilde”, que trata de um fato
narrado pela própria Matilde sobre um viajante que, certa feita,
teve de socorrer a uma moça. Ela estava sendo perseguida por
vários homens. Achando que poderia ser assalto, tentativa de
estupro ou ainda que ela teria cometido algum crime, inquire
dela a causa da fuga. Ela responde então que fugia para são ser
devorada pelos homens, que havia dias não comiam. Assim, o
viajante propôs aos famintos que a deixassem ir. Em troca, deulhes um burro para que saciassem a fome.
Outra crônica na linha meio trágica é “O caso da menina
da estrada do Canindé”, que se passa na época da seca de
1915, tema de seu romance O quinze. A crônica trata de uma
adolescente sozinha que, deixada pelo pai que fora negociar na
cidade, recebe a visita inesperada de um vizinho que imaginava
estar o local deserto. Seu objetivo era roubar o dinheiro que o
pai da menina deixara escondido. Ao deparar-se com a menina,
resolveu que teria de matá-la. No entanto, quando preparava
a corda para enforcá-la, acabou tropeçando e ele próprio se
enforcou.
Tratou de o experimentar na própria cabeça, mas ao fazêlo não sei que jeito deu no corpo, o banco perdeu o precário
equilíbrio, fugiu-lhe debaixo dos pés, o laço correu, apertou-lhe
o pescoço, e o desgraçado ficou balançando no ar, enforcado na
forca que preparara para a inocente. (p. 103)
Na mesma linha temática do trágico está “A princesa e o
pirata”, que trata de dois jovens namorados que acabaram se
afogando.
A crônica acaba sendo meio de registar os acontecimentos,
eternizar o passado. Apesar disso, em “Saudade”, Rachel diz não
ter saudade de nada. Quando muito lembranças, mas saudade
do que passou não parece ser um sentimento muito agradável.
Claro que isso pode ser apenas um meio de aplacar algum
sentimento, porque em “Pátria amada”, por exemplo, procura
mostrar que, para além de símbolos, elementos concretos, a
pátria é um sentimento que se pode ter em qualquer lugar. Ora,
isso é um tipo de saudade, ou ao menos um querer viver aquilo
que ficou em outro momento.
“E assim, pois, que diremos que é Pátria? Ai, diga-se
também que Pátria é uma dor no peito”. (p. 124)
Ou como em “Natal”, em que relata não ter saudade de
natal nenhum, nem mesmo o da infância; aliás, nem sequer tem
saudade da infância. A crônica, ao contrário do romance ou do
conto, pode revelar muito sobre o autor, pois tem seu quê de
relato factual. Apesar disso, sempre há espaço para o ficcional,
para a invenção, para o embuste. Difícil dizer com certeza se a
autora fala de si ou de personagens que vai criando. De qualquer
modo, pela repetição de alguns conceitos, o leitor é levado a
acreditar em algumas verdades expressas ou em alguns temas
recorrentes. Como o dos retirantes, já tratado em O quinze.
Em “Cantiga de navio”, por exemplo, um navio, personificado,
canta a tristeza de ter de levar gente de sua terra natal para outra
terra, a fim de conseguir trabalho, sustento. É antes um lamento
que uma satisfação do navio por ter de fisgar os retirantes e leválos embora.
Também “Terra”, publicada em O homem e o tempo, fala
do campo, mas não à maneira idílica dos árcades, e sim pela
óptica do sertanejo e sua vida difícil, de enfrentamento das
condições adversas causadas pela seca.
Não tem nada dos encantos tradicionais do campo, como os
reconhecemos pelo mundo além. Nem sebes floridas, nem regatos
arrulhantes, nem sombrios frescos de bosque – só se a gente der
para chamar a caatinga de bosque. (p. 207)
Nessa crônica, ainda, estabelece uma comparação entre
o sertanejo, entre a terra nordestina e a Terra Santa, pelo que
ambas têm de árido, de sofrido, bem como pela força do povo
que resiste a isso tudo.
Ou ainda “Verão”, em que ironiza o fato de sulistas irem
ao nordeste passar as férias de verão e quererem encontrar o tal
retirante, como se fosse um elemento do turismo.
De qualquer modo, em “Felicidade” a autora procura
mostrar que o sertanejo pode ser muito mais feliz que um
morador da cidade grande, pois suas expectativas e desejos
são menores, restringem-se às necessidades básicas: moradia,
alimentação, vestuário. Isso é o que basta.
“O homem daqui, seu conceito de felicidade é muito mais
subjetivo: ser feliz não é ter coisas; ser feliz é ser livre, não
precisar de trabalhar.” (p. 143)
As crônicas de Rachel abordam os temais mais variados. Em
“Quaresma”, fala sobre o choque entre a moral, entre o olhar
vigilante dos pais e mesmo da Igreja e o desejo de liberdade
dos jovens (de todas as épocas, por sinal), que querem antes se
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divertir que propriamente obedecer a regras. Ou em “Praia do
Flamengo”, em que a autora traça um perfil dos frequentadores
da praia, de acordo com o horário, expectativas, faixa etária, indo
das mães, babás e crianças até os jovens que querem se exibir
mutuamente como meio de conquista, de paquera, passando
pelas domésticas, que só podem frequentar a praia no fim do dia,
depois de largarem o expediente.
Esses se misturam com os banhistas do meio-dia e da tarde,
que são a nata dos frequentadores. Exibem-se nessa hora os
brotos mais sensacionais das adjacências. (p. 138)
Em “O estranho”, por sua vez, após criar um clima de certo
suspense, revela que o estranho é seu neto que nascera há 22
dias e fora responsável por transformar a rotina da família toda.
Interessante que depois a autora passa a escrever diversas crônicas
para tratar sobre o ser avó, como é o caso de “A arte de ser avó”,
publicada em O homem e o tempo.
As crônicas selecionadas de O caçador de tatu seguem
essa linha temática variada. No entanto, um tema recorrente
é o amor. Em uma dessas crônicas, intitulada simplesmente
“Amor”, faz uma espécie de enquete para saber a definição desse
sentimento, de modo mais específico entre casais. Conforme a
experiência de vida tem as mais variadas respostas, com destaque
para a última, dada por uma matrona sossegada.
Amor? Amor é uma coisa que dói dentro do peito. Dói
devagarinho, quentinho, confortável. É a mão que vem da
cama vizinha, de noite, e segura na sua, adormecida. E você
prefere ficar com o braço gelado e dormente a puxar a sua mão e
cortar aquele contato, tão precioso ele é. [...] Mas o que o amor é
principalmente, são duas pessoas neste mundo. (p. 162)
Há também o amor que podemos direcionar a cidades,
objetos, etc. É o caso de “Pequena cantiga de amor para Nova
Iorque”. O título é autoexplicativo. Ainda há o amor voltado
para outras pessoas, como em “Irmão”.
A crônica que dá título do livro conta um episódio inusitado
do tal caçador de tatu. Antes, a autora lembra que houve uma
grande seca na região, depois vieram as doenças e trinta e três
anos depois, há esse caçador. Certa noite, foi caçar seus tatus e
deixou a mula amarrada. Quando voltou, quase pela manhã, foi
pegar a mula para ir embora, mas ela estava muito arisca. Houve
mesmo uma luta. Foi então que ele percebeu, espantando o
cansaço e o sono, que na verdade era uma onça. Conclui que a
onça havia comido a mula e ele, por conta da escuridão e tudo
o mais, se confundiu. Aliás, histórias de caçadas são comuns no
universo das crônicas de Rachel de Queiroz. Outra se encontra
em O homem e o tempo, no qual se lê crônica dedicada ao neto
Flávio, já citado em “O estranho”. Trata-se de “Duas histórias
para o Flávio – ambas de onça”. A primeira história é a de um pai
que obriga o filho a caçar uma onça. Após muita luta, cansaço e
ferimentos, o filho até consegue, mas, sentindo-se abandonado
pelo pai, ele próprio resolve ir embora e larga tudo, família e
casa. A segunda história é sobre um homem que encontra dois
filhotes de onça e tenta pegá-los, mas é surpreendido pela mãe,
que o coloca para correr.
Nesse mesmo livro, encontramos crônicas que tratam da
vida na cidade, como “O caso dos bem-te-vis”. Segundo consta,
os tais passarinhos estariam namorando em fios de alta tensão
quando provocaram um curto-circuito que privou a cidade de
luz por algumas horas. Ou “O brasileiro perplexo”, que fala
sobre dinheiro, política e inflação no Brasil dos anos 50 e 60.
Em “Menino e o Caravelle”, temos o primeiro voo de um
menino e a descoberta do avião, objeto mágico no imaginário
infantil. Em “Mapinguari”, uma lenda amazônica, trata de um
ser que se alimentaria de carne humana e, na crônica, mata um
seringueiro e persegue outro. “Ai, Amazonas”, por sua vez, trata
de algumas características da região. Em outros termos, Rachel
procura retratar todos os lugares que conheceu, seja o Ceará,
onde nasceu, seja o Rio de Janeiro, onde morou, ou outras
regiões do Brasil e do mundo.
Do Rio defende, no início da década de 1970, a volta dos
bondes como meio de transporte, seja por não poluir, seja pelo
aspecto romântico,seja ainda pela segurança; afinal, bondes
causam bem menos acidentes que ônibus e demais veículos
motorizados.
Então, ante a dura realidade, ante os dinossauros assassinos
disparados pelo asfalto, deixem-me sonhar com os bondes. Nessa
cidade feroz, seria cada bonde uma ilha de segurança, de amável
fraternidade, sempre cabia mais um de saudades. (p. 227)
A São Paulo dedica igualmente uma crônica (“São Paulo
e eu”), em que destaca alguns pontos da cidade, assim como
a poluição. E há outra para Brasília (“Brasília e a rosa-dosventos”), em que analisa a posição geográfica da capital federal,
destacando o fato de ter ficado isolada das demais capitais. Ainda
sobre o Rio, faz um breve diagnóstico da cidade pós-Brizola, em
“Esses moços, felizes moços”, dando destaque para um período
de decadência da cidade. Também chama a atenção para o
aumento da violência, para o culto ao corpo, para uma visão
negativa sobre juventude. Como o título sugere, Rachel defende
a ideia de que, apesar dessa visão negativa, pode surgir daí uma
geração mais consciente, mais preparada para o futuro, com mais
informação, graças ao início da popularização da informática (a
crônica é de 1988).
Meu palpite é que, se não derraparem em caminho, vai sair
deles uma humanidade muito especial. (p. 239)
Talvez isso possa vir a acontecer mesmo.
Crônica bem interessante é “Os sobrenomes”, em que faz
uma análise geral sobre os tipos de sobrenomes utilizados pelos
brasileiros, por que se utilizam alguns e não outros, como nomes
de árvores (adotam-se nomes como Carvalho, Pereira, mas não
bananeira ou aroeira. Dos nomes de Estados, usam Amazonas
ou Bahia, mas não Mato Grosso ou Sergipe. E por aí vai. Talvez
alguns dos sobrenomes não utilizados à época da crônica (1973)
possam estar sendo usados agora, mesmo assim como análise é
interessante.
Do livro As terras ásperas foram selecionadas cinco crônicas.
Um delas, “A imponderável aflição de estar vivo”, fala da vida
nas cidades, em particular da violência e dos assaltos, mas
também das doenças tipicamente urbanas, como o cólera, razão
pela qual o título se explica.
Há uma crônica que trata do fim do ano, da última década
do século, que marcaria também o fim do milênio, “Ao som dos
foguetes do ano-novo”. Nela, demonstra sua insatisfação pelos
festejos, seja porque a hora exata em que se comemora o fim de
um ano e o início do outro nunca é exata, seja porque a vida não
muda de maneira significativa por conta da simbologia em torno
dos números que marcam esse ou aquele ano. Aproveita, pois,
para chamar a atenção para os que trabalham diariamente, como
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o homem do campo, ou os que já trabalharam por toda uma
vida e não têm o devido reconhecimento, como os aposentados.
Em outra crônica, trata da literatura: “Jorge Amado, oitenta
anos”, uma homenagem a um dos mais importantes escritores de
sua geração, responsável pela criação de tipos memoráveis, como
Tieta, Dona Flor e Quincas Berro d’Água, entre outros. Depois
em “A contagem regressiva está correndo”, fala sobre amigos
que já haviam falecido ou vieram a falecer entre os anos 80 e
90, com destaque para José Olympio, em homenagem ao editor
que publicou e tornou mais conhecida a literatura nacional, a
literatura de autores que, como a própria Rachel de Queiroz,
iniciaram sua carreira na década de 30. Olympio morreu em
1992 e Rachel diz ao final da pequena crônica:
“Au revoir, mano velho, me espera que eu já estou na
contagem regressiva, já fiz 82...” (p. 256).
Apenas para lembrar, a autora viria a morrer apenas em
2003, aos 93 anos de idade. Em “Ah, os amigos (de Falso mar,
falso mundo), sem se referir a nomes específicos, também presta
uma homenagem às pessoas que fizeram parte de sua vida e que
se foram antes dela.
Por fim, em “Uma simples folha de papel”, trata da difícil
tarefa de escrever, em especial para o jornal, devido à constante
necessidade de agradar ao público, à constante necessidade de
manter os leitores satisfeitos. Desse modo, o cronista, o escritor
fica entre a obrigação mercantilista de ajudar a vender o jornal e
a da sua própria consciência, com o que acha correto falar e do
modo que prefere escrever.
Aliás, para fazer justiça, não é propriamente o jornal o nosso
tirano. O déspota implacável é mesmo o público, de quem o
jornal é apenas o humilde, solícito, serviçal. (p. 244)
Falso mar, falso mundo é o último livro da autora. Publicado
em 2002, as crônicas revelam as impressões de um mundo em
transformação (os anos 80 e 90 do século XX), marcados pelo
fim da guerra Fria, pelo fim dos governos ditatoriais na América
Latina, a consequente redemocratização, mas também as
transformações midiáticas, com a popularização da internet e as
mudanças discursivas, entre outros pontos. Em resumo, Rachel
de Queiroz retrata, nessa coletânea de crônicas, sua visão sobre
a vida e sobre o cotidiano, sobre sua experiência pessoal e a
observada.
Tratemos, pois, de algumas dessas crônicas.
Uma das crônicas que têm como objetivo a abordagem
da literatura é “O nosso humilde ofício de escrever”. Inicia a
crônica dizendo que uma jovem escritora havia lhe perguntado
como se deveria fazer para escrever um romance. Logo de início,
diz que cada escritor tem seu próprio processo criativo e que os
escritores dos países mais desenvolvidos, como a França, teriam
mais material romanesco que um autor brasileiro. Em seguida,
diz que, em seu caso particular, escreve apenas quando sente a
devida inspiração, a devida necessidade. Como efeito, Rachel
publicou, em setenta anos de carreira, poucos romances (sete no
total). “E muito menos eu, que só faço meus livrinhos quando
eles querem sair”, diz.
Depois, explica como cria o cenário, o enredo, o nome
das personagens, sobre o uso da tecnologia para escrever
(computadores). Ao contrário de muitos autores, Rachel diz
não se deixar prender por um padrão criativo. Prefere deixar-se
levar pelo processo em si. Trata-se de uma visão meio romântica,
amparada na inspiração, o que soaria como uma afronta a
autores como Autran Dourado ou João Cabral de Melo Neto,
tão afeitos à criação literária baseada na racionalização. Isso não
significa que, de fato, Rachel seja displicente com sua obra, mas
apenas que expressa outra concepção do processo criativo.
Ao tratar do modo de escrever, se à mão, se com uso de
tecnologia, por conta de sua formação, diz preferir a máquina
de escrever ao computador, mesmo tendo ganhado um quando
residia em Paris. Apesar disso, tentou comprar um, mas sempre
ocorria algo que a impedia, como ter sido roubada quando ia
fazê-lo, ou um contrabandista que lhe traria um importado
ter sido preso. Em conclusão, diz: “era evidente que Deus não
queria que eu possuísse o computador!”.
Outra temática recorrente nas crônicas de Rachel de Queiroz
é a passagem do tempo, o envelhecer, o ganhar experiência.
Mas faz isso não segundo o senso comum. Para ela, termos
criados recentemente não espelham a realidade: são antes meio
ufanistas de pensar a vida, como a expressão “terceira idade” ou
o equivalente “melhor idade”. Claro que o envelhecer garante
experiência de vida, garante uma percepção mais ampla do que
se fez e do que fazem os mais jovens. O preço, porém, são as
doenças mais constantes, o fraquejar do corpo. Esse era inclusive
um dos seus temores pessoais. Imaginava que, ao chegar aos
oitenta anos, teria de usar muletas, seria uma idosa ranheta
e cheia de manias. Para sua alegria, nada disso aconteceu na
virada do milênio, quando completou 89 anos. Na crônica “A
cobra que morde o rabo”, trata exatamente desses temores e da
satisfação de estar bem:
[...] e já cá estou, sem bastão, andando livremente (até de
salto alto, às vezes), enfrentando a vida e suas tristezas.
A autora, que morreria aos 93 anos, sabia bem dar valor à
vida, e acredita que sua força viria de sua origem cearense.
Obviamente que não se trata de uma explicação determinista;
de qualquer modo, as dificuldades naturais daquele Estado
colaboram para que o cearense tente vencer as adversidades.
Não sei muito bem como se comportam os outros ante a
adversidade, mas creio que nós, cearenses, temos a alma elástica:
a batida vem, mas a gente reage sempre e se levanta.
Tal predisposição a ajudou a encarar a vida de acordo com
os problemas reais, verdadeiros, e não as pequenas dificuldades
comezinhas da vida, como se o salto do sapato quebrou, ou se o
vestido não ficou bom.
Outro ponto de sua reflexão nessa crônica diz respeito ao fim
do milênio, à época, envolto em muito misticismo, crendices,
incluindo a do fim do mundo, e toda sorte de projeções. Mas,
para ela, no fim das contas, mesmo com mais experiência, em
rigor, as pessoas não se diferem muito.
Mas o curioso é que viver não é um aprendizado. Um velho
de cabelos brancos é tão inexperiente e crédulo quanto um
menino, diante da vida. Cai nos mesmos tropeços, o menino ao
aprender a andar, o velho que já não pode confiar nas pernas
para cruzar os passos. E a gente acaba, na vida, no mesmo ponto
onde começou. Como a cobra que morde o rabo.
Ainda sobre a velhice, há diversas crônicas, como “Não
aconselho envelhecer”, por conta das razões já aludidas: maior
facilidade para adoecer, perda da vivacidade. Por isso, seu
13
eu sinto que estes noventa anos são uma injustiça imerecida (p.
285).
conselho, ainda que soe irônico, serve para reafirmar que o mais
importante é permanecer jovem e que é preciso aproveitar a vida
em toda sua plenitude. Diz a autora:
Entre os processos cruéis da natureza, é a velhice o mais
cruel. Implacável, insidiosa, ataca por todos os lados, abre a
porta a todas as moléstias mortais. Pensando bem, é uma espécie
de HIV a longo prazo. Te ataca o coração, o pulmão, todas as
demais vísceras – a tripa, o fígado, o que nos abatedouros se
chama o arrasto. E mais a fiação arterial e venosa; e a coluna!
E não falei na atividade cerebral. E também esqueci os ossos,
a infame osteoporose, que te rói os ossos pelo tutano, deixandoos como frágeis cascas de ovos. E então te basta um pequeno
escorregão na banheira para deixar um fêmur fraturado (p.
265).
Em “De armas na mão pela liberdade”, temos outra crônica
a tratar da velhice. Segundo Queiroz, tratar-se-ia de uma
história real, ao menos o argumento básico, com acréscimos
ficcionais. O fato é que Queiroz quis, mais uma vez, explorar
as condições a que muitas vezes são submetidos os idosos, tanto
pelas condições naturais de ser velho, quanto por um processo
social. No caso, uma senhora de 90 anos foi presa portando dois
revólveres. Segundo a explicação dada, ela morava em um asilo
cuja diretora não permitia a saída dos idosos pela rua, como
medida de segurança, mas que era, na verdade, um modo de os
controlar. Assim, a idosa, conforme sugere o título da crônica,
quis reconquistar sua liberdade de armas em punho.
Não estou inventando: saiu no jornal: ‘Em Porto Alegre,
senhora de 90 anos (90, sim) arma-se com dois (dois!) revólveres
e abre caminho para a rua, garantindo o seu direito de ir e vir’
(p. 115).
Com efeito, foram anos marcados por um clima de alegria e
desencanto, ao mesmo tempo. Seja por conta do aludido futebol
brasileiro (campeão em 94, mas derrotado em 98), seja por conta
da falência da democracia inicial, marcada pelo impeachment
de Fernando Collor, o primeiro presidente eleito pelo povo
após um longo período de eleições realizadas pelo Colégio
Eleitoral. Também é uma década que marcava o fim do século
e do milênio, o que criava um clima próprio para esoterismos e
crenças absurdas, bem como para esperança de uma vida melhor
após o ano 2000.
Outras três crônicas abordam assuntos variados, mas que
se encontram na busca de uma compreensão da vida, uma
compreensão do ser e do estar no mundo. São elas: “Ah, os
amigos”, “Os riquésimos também padecem” e “Menino que
vota não é também cidadão?”. Na primeira, encontramos uma
declaração de amor aos diversos amigos, aos que apoiaram a
autora nas horas difíceis, as lembranças do sertão quando estava
em Berlim: “Me vi de repente no Ceará, tal como deve ele estar
agora...”, diz a cronista, e a apologia da amizade: “Se você não é
capaz de ter amigos, você é um erro da natureza...”
Na crônica que dá título ao livro, “Falso mar, falso mundo”,
Rachel de Queiroz discute uma série de temas relativos à
vida moderna, seja a semelhança dos quartos em um hotel,
seja a explicação para como um avião voa ou ainda a mídia
moderna. O que domina tais considerações é a suposição de
que os indivíduos, aos poucos, perdem o senso de humanidade
para assumirem mecanicamente determinados padrões de
comportamento, razão pela qual o mundo estaria se falsificando
passivamente. Esse falso mundo se relaciona ao falso mar por
conta de uma reportagem sobre uma praia artificial no Japão.
Diz a cronista:
O acontecimento serve à autora para tecer uma série de
considerações sobre ser livre, ser cidadão, uma vez que, em sendo
idoso, o indivíduo acaba por perder aquilo por que lutou a vida
toda, razão pela qual Rachel diz ser tão ruim a velhice.
A crônica “Os Noventa” também revela a preocupação da
autora com tempo. Neste caso, porém, é o tempo em geral, e
não a do corpo, a do indivíduo. Trata-se de uma crônica que faz
um resumo da década, com destaque para o futebol e a perda
do pentacampeonato mundial de futebol em 1998; fala sobre
os amigos de profissão, os amigos; sobre as origens no sertão
cearense, a vida no Rio de Janeiro. Como conclusão geral, diz
serem os anos noventa muito ruins, sem graça.
Mas nesta semana vi na TV uma reportagem que me
horrorizou como prova de que, a cada dia, mais renunciamos
às nossas prerrogativas de seres vivos e nos tornamos robotizados.
Foi a ‘Praia Artificial’ no Japão (logo no Japão, arquipélago
penetrado e cercado de mar por todos os lados!). É um galpão
imenso, maior do que qualquer aeroporto, coberto por uma
espécie de cúpula oblonga, de plástico. E filas à entrada, lá
dentro de um guichê, o pessoal paga a entrada, que é cara, e
some. Deve entrar no vestiário, ou antes, no despiário, pois
surgem já sem roupa, convenientemente seminus, como se faz
na praia. Pois que debaixo daquele imenso teto de plástico está
um mar, com a sua praia. Mar que, na tela, aparece bem azul
com ondas de verdade, coroadas de espuma branca; ondas que
chegam a derrubar as pessoas e sobre as quais jovens atletas
surfam e rebolam. E um falso sol, de luz e calor graduáveis; e
a praia é de areia composta por pedrinhas de mármore, a cujo
contato algumas moças de biquíni se queixavam de que doía um
pouco. ‘Mas valia a pena’ (p. 263).
Por que as dezenas são importantes, a gente não sabe muito
bem. Mas sempre procuro dar uma explicação a cada dezena
de anos que completo. Desde os cinquenta. Talvez seja uma
maneira de fugir ao impulso natural de negar a idade quando
ela nos parece excessiva. Talvez uma defesa também: se eu
proclamo a minha idade ninguém se interessará em alegá-la
contra mim, setenta, oitenta e agora estes antipáticos noventa.
Não estou achando a menor graça: e lá dentro do meu coração,
Trata-se de uma praia artificial, uma das que vieram a
se tornar bem comuns nos mais diversos parques temáticos
espalhados pelo mundo. O que chama a atenção da cronista é
a falsidade a que todos aderem a um falso mar, que acaba por
espelhar o falso mundo em que vivemos, ou o mundo das
expressões padronizadas, sem espontaneidade, do mass media,
do mercado, sem espaço verdadeiro para as individualidades, que
só podem se expressar se forem para repetir a visão dominante.
Ninguém parece entender que a primeira condição para o
velho não se sentir tão velho é deixá-lo sentir-se livre. Resolver
seus problemas pessoais; ser ele próprio quem conte os seus
sintomas ao médico, ser ele próprio quem decide se toma ou não
os remédios prescritos – como faz todo mundo. (p. 117).
14
diferentes regiões. As características regionais exploradas no
texto manifestam-se
a) na fonologia.
b) no uso do léxico.
c) no grau de formalidade.
d) na organização sintática.
e) na estruturação morfológica.
Em outros termos, é o diferente que colabora para manter o
padrão, que não chega a alterar a lógica do mundo, a lógica do
mercado.
Há uns vinte anos, Oyama e eu nos hospedamos num hotel
americano que tinha vinte e cinco andares; o nosso quarto
ficava no segundo andar, e cada andar era cópia fiel do outro,
superpostos corredor sobre corredor, quarto sobre quarto. E,
de noite, eu não conseguia dormir, pensando que, por cima
de nós, empilhados em montes, estavam vinte e três quartos
iguais, e as camas iguais, uma sobre a outra. E em cada cama
um casal dormindo, roncando, brigando. E se de repente o
hotel afundasse, os assoalhos afundassem... Lembrei aí que,
embaixo de nós tinha um quarto igual, outro casal na cama;
e a impressão era desagradabilíssima, não sei se me entendem,
aquela espécie de promiscuidade invisível mas concreta, cada
casal na sua alcova, como aqueles montes de caixas de ovos nas
prateleiras dos supermercados (p. 47).
Essa padronização encontra amparo nos mass media, nos
meios de comunicação de massa, em especial a televisão, que
acaba por instituir e difundir os padrões de comportamento, os
discursos considerados corretos, como o da terceira idade ou,
pior, melhor idade, no sentido de que esconderiam a realidade,
segundo a autora.
Para finalizar, há que se destacar a crônica que escreveu para
tratar da derrota do Brasil na Copa de 1998, quando a seleção de
futebol foi derrotada pela França, adiando o projeto do penta, o
que viria ocorrer em 2002. A crônica serve para a autora tratar
da paixão do brasileiro pelo futebol e de como tal esporte chegou
aqui pelas mãos da elite, vindo a se tornar o esporte mais popular
do país.
Em resumo, os textos de Rachel de Queiroz abordam
variados temas, com destaque para os ligados à terra, à sociedade
brasileira, aos lugares que conheceu, além de curiosidades em
geral.
2. Sobre as Crônicas Escolhidas de Rachel de Queiroz, é
FALSO afirmar que:
(B) por conta de suas experiências de vida e de sua formação
política, procurou tratar de temática social, seja para
tratar das questões da seca, seja para falar da difícil vida
do trabalhador comum no Brasil.
(B) trata dos aspectos cotidianos e de sua vida pessoal, cuja
reflexão ultrapassa a mera subjetividade, pois aborda
assuntos de ordem literária, questões relacionadas à
tradição e à modernidade, bem como fatos do cotidiano
que a autora teria vivenciado.
(C) Em “O grande circo zoológico”, narra seu encontro com
uma trupe circense que viajava às margens do rio São
Francisco. As histórias não têm um cenário único: este
pode ser o Nordeste em geral, o Ceará em particular ou
o Rio de Janeiro, onde morou, ou as viagens que fez, à
Europa, por exemplo.
(D) Em “Retrato de um brasileiro”, narra a história de um
homem comum, que teve suas desilusões amorosos, o
desapontamento pelos filhos, o trabalho constante e o pouco
reconhecimento dos seus.
(E) Preocupada com o apuro formal da linguagem, a autora
peca pelo hermetismo, pois o leitor comum se depara, nessa
obra, com um texto repleto de cientificismos e arcaísmos
injustificáveis para o gênero.
REFERÊNCIAS
HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Rachel de Queiroz: coleção melhores
crônicas. São Paulo: Global, 2004.
Exercícios
1. (ENEM) Quando vou a São Paulo, ando na rua ou vou ao
mercado, apuro o ouvido; não espero só o sotaque geral dos
nordestinos, onipresentes, mas para conferir a pronúncia
de cada um; os paulistas pensam que todo nordestino fala
igual; contudo as variações são mais numerosas que as
notas de uma escala musical. Pernambuco, Paraíba, Rio
Grande do Norte, Ceará, Piauí têm no falar de seus nativos
muito mais variantes do que se imagina. E a gente se goza
uns dos outros, imita o vizinho, e todo mundo ri, porque
parece impossível que um praiano de beira-mar não chegue
sequer perto de um sertanejo de Quixeramobim. O pessoal
do Cariri, então, até se orgulha do falar deles. Têm uns tês
doces, quase um the; já nós, ásperos sertanejos, fazemos um
duro au ou eu de todos os terminais em al ou el – carnavau,
Raqueu... Já os paraibanos trocam o l pelo r. José Américo só
me chamava, afetuosamente, de Raquer.
Raquel de Queiroz comenta, em seu texto, um tipo de
variação linguística que se percebe no falar de pessoas de
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CAPÍTULO III - Espumas Flutuantes, de Castro AlveS
Poesia épico-social e lírica, exaltação da
natureza e metalinguagem
No prólogo a Espumas flutuantes, Castro Alves explica as
razões do livro, único organizado por ele em vida e publicado em
1870. Diz ele:
Ó espíritos errantes sobre a terra! Ó velas enfunadas sobre os
mares!... Vós bem sabeis quantos sois efêmeros... [...] E quando
– comediantes do infinito – vos obumbrais nos bastidores do
abismo, o que resta de vós?
– Uma esteira de espumas... – flores perdidas na vasta
indiferença do oceano. – Um punhado de versos... – espumas
flutuantes no dorso fero da vida!...
O poeta voltava à terra natal – Bahia –, vindo do Rio
de Janeiro, onde tivera contato com a intelectualidade mais
renomada (José de Alencar e Machado de Assis, entre outros).
Lá também conhecera o amor (o caso mais famoso se deu com a
atriz portuguesa Eugênia Câmara) e também pudera aprimorar
sua técnica literária e iniciar luta em prol de ideais libertários,
particularmente pelo fim da escravidão.
No prólogo, explica o título e sugere a ideia de
transitoriedade, de coisas fugidias e perdidas no tempo e no
espaço, sobre as quais não se tem controle. A razão biográfica é
que o poeta morreria no ano seguinte, vitimado por uma doença,
que lhe retirava, aos poucos, a força. A causa original fora uma
caçada mal-sucedida, durante a qual, por acidente, sua arma
disparou e atingiu o próprio pé, o que o levaria, algum tempo
depois, a ter a perna amputada. Como o problema da infecção
nunca fora resolvido com precisão, outras doenças se instalaram
em seu corpo débil e, em julho de 1871, veio a falecer aos 24
anos de idade.
O livro contém 53 poemas, além de uma “Dedicatória”
na qual se percebe a tônica do livro, isto é, a da poesia como
meio de salvação pessoal e social. Aludindo à história bíblica de
Noé, o eu lírico pede à pomba (à poesia) que lhe traga um ramo
no bico, como prova de que a salvação está próxima, de que a
libertação é possível.
[...]
Vai, pois, meu livro! e como louro agreste
Traz-me no bico um ramo de... cipreste!
Castro Alves é poeta pertencente à 3a geração da poesia
romântica no Brasil. Como se sabe, a ênfase temática da primeira
recaiu sobre a questão nacional, indianista; os poetas da 2a
voltaram-se para a tematização do “eu”, da individualidade, do
distanciamento amoroso; ao passo que a 3a geração, cujo poeta
principal é exatamente Castro Alves, teve como foco a luta pela
vida, pela liberdade.
Por esse motivo, a 3a geração ficou conhecida como
condoreira, por referência à ave de grande envergadura, que vive
nos Andes, o condor. A comparação se deve ao fato de tal ave
expressar o ideal de liberdade, assim como a capacidade, pela
altitude alcançada, de conseguir uma visão ampla do espaço, do
seu habitat. Assim também deveria ser o poeta: ter visão ampla
da sociedade e não ficar limitado à expressão egocêntrica de seus
próprios anseios.
No caso de Espumas flutuantes, há pelo menos 11 poemas
com essa característica condoreira. É bem verdade que, em livro
que ainda estava preparando, Os escravos, Alves exploraria ainda
mais essa visão libertária.
São estes os poemas, em ordem de aparecimento:
“O livro e a América”;
“Quem dá aos pobres empresta a Deus”;
“Ahasverus e o gênio”;
“Ao dois de julho”;
“O voo do gênio”;
“A Maciel Pinheiro”;
“Pedro Ivo”;
“Oitavas a Napoleão”;
“Jesuítas”;
“Ode ao dois de julho” e
“As trevas”.
O primeiro é uma ode, uma exaltação ao Novo Mundo,
propício a construir-se de modo diverso do que acontecera até
então em outros países, onde reinara a injustiça, os desmandos,
a falta de perspectiva. E o caminho para isso seria pelo livro
(por isso o título), pela cultura, pela solidificação cultural do
país. Uma luta também de José de Alencar, por exemplo,
em uma época em que 80% da população era analfabeta. Se
hoje isso pode ser visto como truísmo (a necessidade óbvia da
leitura, da alfabetização para o crescimento...), à época o poema
deve ter sido lido em tom idealista. De qualquer modo, para
Castro Alves a verdadeira liberdade passa por esse caminho, o
do aprimoramento cultural, para o que o livro seria o mais
importante meio:
[...]
Filhos do séc’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro – esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Éolo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade voou!...
No poema seguinte – “Quem dá aos pobres empresta a
Deus” – o conceito é o mesmo. O livro se equipararia ao sabre, à
espada, porque ambos se prestam à luta pela liberdade. O poema
é rico em referências. Entre elas a Moema, índia preterida por
Diogo Álvares Correia em O Caramuru, poema épico escrito por
Frei da Santa Rita Durão e publicado em 1781. O objetivo é
exaltar a raça brasileira, sua força e sua vontade de ser livre:
16
[...]
E foram grandes teus heróis, ó pátria,
– Mulher fecunda, que não cria escravos – ,
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos:
“Parti – soldados, mas voltai-me – bravos!
E qual Moema desgrenhada, altiva,
Eis tua prole, que se arroja então,
De um mar de glórias apartando as vagas
Do vasto pampa no funéreo chão.
Três poemas tratam de momentos revolucionários no Brasil,
e dois exaltam o dia 2 de julho de 1823, quando as tropas do
Exército e da Marinha Brasileira, na Bahia, conseguiram a
separação definitiva do Brasil do domínio de Portugal. Isso
porque tropas portuguesas dominavam Salvador, mas no dia 2
de julho foram definitivamente derrotadas e a Independência
brasileira, consolidada. Agora, a luta é apenas a armada,
não a dos livros. Ainda assim, o objetivo é exaltar a liberdade
conquistada, é revelar uma epopeia, ocorrida em solo brasileiro.
Como se pode perceber, o termo mais comum é a liberdade, a
luta por ela, em um país que, ironicamente, mantinha como
base econômica a escravidão:
[...]
Não! Não eram dous povos, que abalavam
Naquele instante o solo ensanguentado...
Era o porvir – em frente do passado,
A Liberdade – em frente à Escravidão,
Era a luta das águias – e do abutre,
A revolta do pulso – contra os ferros,
O pugilato da razão – com os erros,
O duelo da treva – e do clarão!...
O terceiro poema é dedicado a Pedro Ivo, um dos líderes
da revolução Praieira em Pernambuco, movimento de caráter
liberal e separatista ocorrido entre 1848 e 1850 que marca o
fim dos movimentos contrários ao governo imperial brasileiro.
Depois disso, o Império, sob a regência de D. Pedro II,
conheceu um período mais calmo, no que diz respeito às
revoltas locais. O objetivo de Castro Alves, com o poema, não
é tanto o de defender o separatismo em Pernambuco, mas sim
o de exaltar a luta pela liberdade. Por isso, Pedro Ivo, embora
fosse considerado uma espécie de vilão pelo governo regencial,
também poderia ser visto como herói no sentido de lutar por
liberdade, por querer implantar a República no país. À época
de Castro Alves, na década de 70 do século XIX, começava a
se engendrar e fortalecer um grupo republicano, não de caráter
separatista, mas sim integrador, o que viria a se consolidar em
1889, com a proclamação da República:
República!... Voo ousado
Do homem feito condor!
Raio de aurora inda oculta
Que beija a fronte ao Tabor!
Deus! Por qu’enquanto que o monte
Bebe a luz desse horizonte,
Deixas vagar tanta fronte,
No vale envolto em negror?!...
Outro poema, em que exalta o valor heroico, a crença em um
mundo melhor, é “Jesuítas”. Este é apenas um dos três poemas
que Castro Alves dedicou à congregação religiosa conhecida,
popular e resumidamente, por essa denominação. Além desse,
em Espumas flutuantes há ainda “Jesuítas e frades” e “Frades”,
publicados em Os escravos. Há certa progressão nos títulos em
que os jesuítas cedem lugar aos frades. A explicação está nos
próprios poemas, pois os semeadores da Igreja nascente no Brasil
são exaltados como os que colaboraram na edificação do Novo
Mundo, ao qual deram a própria vida em nome da liberdade e
da religião:
Eles diziam mais do que os estoicos:
“Dor, – tu és um prazer!
“Grelha, – és um leito! Brasa, – és uma gema!
Cravo, – és um cetro! Chama, – um diadema
Ó morte, – és o viver!”
Além desses poemas de caráter épico-social, há os líricos.
São mais de 20 poemas com essa temática. E aqui merece logo
de início um registro. Ao contrário dos desejos não realizados
cantados pelos poetas da 2a geração romântica, Castro Alves
viveu-os (em especial com Eugênia Câmara, a quem dedica
diversos de seus poemas) e procurou explorar essas experiências
reais em sua poesia, que expressa alguma tendência platônica,
mas que se revela mais próxima de uma realização de fato, em
que o erotismo é latente e tudo o que lhe diz respeito, como
o ser voyeur, que se inspira na observação da mulher amada.
Para tanto, estabelece um jogo entre o amor sexuado e a
natureza, entre o desejo e a realização. No entanto, não despreza
totalmente os preceitos da poesia de Lord Byron, tão difundida
pelos poetas da 2a geração, cujo principal expoente foi Álvares
de Azevedo e cuja poesia (por alusão ou citação) se faz presente
também nos textos líricos de Castro Alves.
Como já se disse, o Poeta dos Escravos acabou falecendo
jovem, aos 24 anos; no entanto, não era o que desejava. Se
Álvares de Azevedo poetiza o desejo de morrer, Castro Alves
quer viver. Esse aspecto pode ser verificado em “Mocidade e
morte”, onde o eu lírico, embora saiba que vá morrer, ou agora
ou depois, conclama pela vida, exalta a vida. A morte, portanto,
como escapismo, seria uma afronta ao amor, à capacidade de
amar do ser humano. Viver é amar, é manifestar a genialidade,
é criar. O poema é de 1864, bem antes, pois, do acometimento
que o levaria efetivamente à morte.
É, assim, uma forma de crítica à 2a geração, cujos poetas
buscavam a morte como solução para uma vida frustrada:
Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh’alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n’amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...[...]
Tais considerações aparecem em “Quando eu morrer”,
no qual, ao contrário de Álvares de Azevedo, pede para não
ser esquecido, pede para ser lembrado, lido, pois assim poderá
continuar a viver pela literatura.
A poesia lírica de Castro Alves é meio de expressar a
realização, como se constata em “O laço de fita”, “Boa noite”
e “Adormecida”. Neste último caso, tem-se um exemplo de
voyeurismo. Enquanto a mulher dorme e é levemente tocada
pelos galhos de um jasmineiro, o eu lírico observa e se delicia
com o quadro. No segundo poema, é um ato de despedida, que
se revela outro de chegada. Assim, enquanto se despede de uma
mulher, apresenta-se a outra. E no primeiro poema, o laço de
fita se transforma em fetiche, em fantasia que levará o eu lírico a
apaixonar-se pela mulher que o traz, além da presença do cabelo,
que, quando desarrumado, sugere o ato amoroso:
[...]
Grandes homens! Apóstolos heroicos!...
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Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.
[...]
verdes”, de Gonçalves Dias. A diferença é que, no texto de Alves,
é o homem quem espera pela mulher, e no de Dias é a mulher.
Ainda assim, é possível estabelecer uma comparação imediata.
Vejamos:
Boa-noite!... E tu dizes – Boa-noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito
– Mar de amor onde vagam meus desejos.
[...]
Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
À voz do meu amor moves teus passos?
Da noite a viração, movendo as folhas,
Já nos cimos do bosque rumoreja. (Gonçalves Dias)
Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...
[...]
Vem! É tarde! Por que tardas?
São horas de brando sono,
Vem reclinar-te em meu peito
Com teu lânguido abandono!... (Castro Alves)
Ainda sobre “Adormecida”, é possível verificar a simbiose
entre amor e natureza, o que também ocorre em “A duas flores”
e em “O coração”, cuja definição se estabelece, mais uma vez,
pela comparação entre o sentimento amoroso e os elementos da
natureza:
Apesar disso, Castro Alves não despreza totalmente a poesia
de caráter melancólico, a tematização do amor contemplativo,
distanciado, o amor frustrado ou apenas desejado. Como
exemplo, podemos citar “É tarde!”, em que trata da frustração
amorosa:
O Coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um – tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.
É tarde! É muito tarde! O templo é negro…
O fogo-santo já no altar não arde.
Vestal! Não venhas tropeçar nas piras...
É tarde! É muito tarde!
Em “Os três amores”, Castro Alves se aproveita de três casais
famosos da literatura, para ilustrar formas diferentes de amar.
São três estrofes, em cada qual há uma referência diferente.
Na primeira estrofe, o eu lírico se apresenta como o poeta
italiano Tasso e sua amada, Eleonora. Nesse sentido, há
idealização amorosa, o que pode ser verificado em termos como
sonhadora, primavera, solidões, típicos do universo romântico.
Na segunda estrofe, o eu lírico se transforma em Romeu e, a
amada, em Julieta. É o amor já quase realizado, amparado no
sentimento, mas também no desejo carnal: “Sonho-te às vezes
virgem... seminua...”. No entanto, a pressão social impede
a realização plena. Por fim, na última estrofe, o eu lírico se
apresenta como Don Juan, é a retomada de “Boa noite”, o que
ama todas as mulheres, o que realiza a si mesmo e aos desejos
femininos. São etapas, pois, do amor, do distanciamento,
passando pela sublimação entre o amor carnal e espiritual, até a
voluptuosidade sexual:
Na volúpia das noites andaluzas
O sangue ardente em minhas veias rola...
Sou D. Juan!... Donzelas amorosas,
[...]
Tal realização com volúpia é tema também de “O gondoleiro
do amor” (apesar do tom platônico, distanciado) e, de certa
forma, de “O ‘Adeus’ de Teresa”. Neste último caso, porém, o
D. Juan, que tudo faz para ter a mulher cativa por seu amor,
após realizar seu intento, abandona-a para ir em busca de novas
aventuras amorosas: “E ela arquejando murmurou-me: ‘adeus!’”
Em outros termos, ao tematizar o amor, Castro Alves não
exalta propriamente a mulher idealizada, mas busca o amor
carnal, real e sempre com sensualidade e erotismo.
Castro Alves acaba por tratar também dos desencontros
amorosos. Em “Onde estás?”, o eu lírico chama a amada, a
amante, mas ela não aparece. Pela temática e pelo modo com
que o tema foi tratado, o poema se assemelha a “Leito de folhas
Em “Os anjos da meia noite”, escrito em 1870, o eu
lírico expressa, em forma de delírio, como já fizera em “Os
três amores”, diferentes tipos de mulher, diferentes tipos de
relacionamento. São oito anjos ou sombras, referidos em
sonetos, cada qual representando uma mulher. São referências a
mulheres seduzidas, segundo o conceito de D. Juan, de amar ao
máximo, para prosseguir em nova conquista. O último anjo é a
própria morte que o levará e encerrará o delírio de amar. Ainda
assim, sabe que deve entregar-se a ele:
[...]
Quem és tu? Quem és tu? – Es minha sorte!
És talvez o ideal que est’alma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!...
Isso, o delírio de amar, fica mais claro na série de poemas
que escreveu à atriz teatral Eugênia Câmara, com quem teve
um relacionamento tumultuado, polêmico, mas muito intenso.
Destaquemos o poema “A uma atriz” e também “Hebreia”.
Outro ponto da poética de Castro Alves a ser destacado é a
tematização da natureza. Isso vai ser mais comum em outro livro,
A cachoeira de Paulo Afonso, mas neste, Espumas flutuantes, Alves
paga seu tributo à natureza exuberante do Brasil, como qualquer
romântico. São três poemas que apresentam uma temática mais
específica, ainda que outros façam referências também. São eles:
“Murmúrios da tarde”, “Aves de arribação” e, de certo modo,
“Sub tegmine fagi”.
Há nesses poemas a exaltação da natureza, é meio de o poeta
explorar toda sua versatilidade com vocabulário adequado e uso
de metáforas de expressão grandiloquente. De qualquer modo,
a descrição da natureza se presta também como cenário para
explorar ou o lirismo ou a temática social. Como exemplo do
primeiro caso, podem-se citar “Murmúrios da tarde” e “Sub
tegmine fagi” (em latim, “Sob a sombra das faias”, isto é, das
árvores):
18
Amigo! O campo é o ninho do poeta...
Deus fala, quando a turba está quieta,
As campinas em flor.
– Noivo – Ele espera que os convivas saiam...
E n’alcova onde as lâmpadas desmaiam
Então murmura – amor – [...]
(“Sub tegmine fagi”)
Em “Aves de arribação”, após descrever o cenário em que
as aves voam, buscam novos lugares para viver, migram, enfim,
em busca de ares melhores, o eu lírico, na parte IV, expressa
sua visão sobre a poesia, sobre a atividade do poeta. O poeta
também deve migrar, deve buscar novos ares. Não deve se
prender a um único tema, deve inspirar-se na vida, ter por musa,
como ele próprio diz, “o amor e a natureza!”. Além disso, o ato
de poetar pressupõe o trabalho, a atividade com a linguagem, e a
genialidade, nem sempre compreendida ou aceita:
O Poeta trabalha!... A fonte pálida
Guarda talvez fatídica tristeza...
Que importa? A inspiração lhe acende o verso
Tendo por musa -– o amor e a natureza!
Essa preocupação metalinguística, isto é, o tratar sobre a arte
literária e sobre o papel do poeta pela própria poesia, acontece
em diversos outros poemas. Ao menos em dez. Por exemplo,
em “O livro e a América”, em que exalta os que semeiam
cultura e em “O fantasma e a canção”, em que também revela
a incompreensão do papel da poesia, mas que, apesar disso, ela
sobrevive, encontra guarida e apoio em parte da sociedade:
[...]
Bati a todas as portas
Nem uma só me acolheu!...
– “Entra! –: Uma voz argentina
Dentro do lar respondeu.
– “Entra, pois! Sombra exilada,
Entra! O verso – é uma pousada
Aos reis que perdidos vão.
A estrofe – é a púrpura extrema,
Último trono – é o poema!
Último asilo – a Canção!...”
Kant), essa genialidade seria a responsável pela força criadora
do artista. É o conceito que se verifica em “O voo do gênio” e
também em “Ahasverus e o Gênio”. Neste poema, em particular,
o eu lírico, ou o gênio, equipara o seu destino a de Ahasverus,
isto é, o judeu errante, o que perdeu a Graça divina, sem lugar
no mundo, mas que, por isso mesmo, pertence a todos os
lugares. O poeta também perdeu seu lugar no mundo moderno,
no mundo das máquinas, da técnica, da agitação urbana, onde
o que importa é o sucesso profissional, a ascensão social etc. De
qualquer modo, o poeta resiste, busca seu lugar nas ausências,
nas lacunas da vida:
[...]
O Gênio é como Ahasverus... solitário
A marchar, a marchar no itinerário
Sem termo do existir.
Invejado! A invejar os invejosos.
Vendo a sombra dos álamos frondosos...
E sempre a caminhar... sempre a seguir...
Em “Poesia e mendicidade”, Alves traça um rápido painel
da poesia desde o princípio, passando pelas idades Média e
Moderna, sempre mostrando como grandes poetas estiveram
à mercê de alguém, de um provedor ou mecenas, mas sem
que seu valor fosse louvado por todos. Também na idade
Contemporânea (século XIX), o poeta busca seu espaço, busca
o reconhecimento social, isto é, quer mostrar a importância da
palavra, do trabalho com a palavra. Cabe ao poeta colaborar para
a reforma da sociedade pela palavra poética:
Senhora! A Poesia outrora era a Estrangeira,
Pálida, aventureira, errante a viajar,
Batendo em duas portas – ao grito das procelas –
Ao céu – pedindo estrelas, à terra – um pobre lar!
[...]
Bem sei, Senhora, que ao talento agora
Surgiu a aurora de uma luz amena.
Hoje há salário p’ra qualquer trabalho
Cinzel, ou malho, ferramenta ou penal.
Em “As três irmãs do poeta”, o conceito da incompreensão é
retomado. Apesar disso, cabe ao poeta continuar o seu trabalho,
continuar a ser uma espécie de porta-voz da humanidade, que
defende os valores da liberdade (leia-se Abolição e República),
mas também o cantor dos amores, frustrados ou felizes. Por isso,
ante a Indiferença, a Fome e a Morte (em letra maiúscula mesmo
para personificá-las), o poeta deve prosseguir, não importa como
ou onde. Trata-se da visão romântica, segundo a qual o poeta
teria uma missão a cumprir. Com alguma variação, a mesma
ideia se lê em “A meu irmão Guilherme de Castro Alves”:
[...]
Assim, Poeta, é tua vida imensa,
Cerca-te o gelo, a morte, a indiferença...
E são lavas lá dentro o coração.
Outro conceito contido nessas considerações é a do gênio,
isto é, o indivíduo dotado de qualidades especiais, em particular
o dom da criação, o dom da poesia, Para os alemães (como
[...]
Então, Senhora, sob tanto encanto
Pede o Poeta (que não tem renome)
– Versos – à brisa p’ra vos dar um canto...
Raios ao sol – p’ra vos traçar o nome!...
Em resumo, esses são os quatro pontos essenciais do livro
Espumas flutuantes: poesia social (libertária, republicana,
condoreira), lírica (em que se misturam certo idealismo, mas
com ênfase maior ao sensualismo, à realização de fato), exaltação
da natureza e metalinguagem (com ênfase no papel social do
poeta).
Quanto ao estilo, Castro Alves procura explorar diversas
possibilidade criativas; é conhecido por seu modo grandiloquente
de escrever, como em “As duas ilhas”, e nos demais poemas.
Explora as possibilidades estilísticas da pontuação, em especial
as reticências. Como característica desse estilo grandiloquente
está o uso de diversas figuras de linguagem, como metáforas,
comparações, hipérboles, assonâncias, apóstrofes. Alves vale-se
também da exploração retórica, com inversões sintáticas e uso
de antíteses.
Em geral, finaliza um poema de modo a obter um efeito
19
4. (PUC-Camp-SP)
“E fui... e fui... ergui-me no infinito,
Lá onde o voo d’águia não se eleva...
Abaixo – via a terra – abismo em treva!
Acima – o firmamento – abismo em luz!”
superior, elevado. Eis alguns exemplos:
Deus colhe gênios no céu!...
(“O livro e a América”)
Enquanto que a glória rolava sua alma
Nas margens da história, na areia do céu!...
(“Pedro Ivo”)
Os versos anteriores pertencem aos poemas “O voo do
gênio”, do livro Espumas flutuantes. Esses versos ilustram a
seguinte característica da poética de Castro Alves:
(A) Ênfase emocional, apoiada nos recursos retóricos das
antíteses, das hipérboles e do paralelismo rítmico-sintático.
(B) Intimismo lírico, marcado pela hesitação das reticências e
pelo temor do enfrentamento das adversidades.
(C) Sacrifício do tom pessoal em nome de ideais históricos,
representados por símbolos épicos herdados do Classicismo.
(D) Emprego de paradoxos, com a intenção de satirizar a
ambição de genialidade cultivada pelos ultrarromânticos.
(E) Contraste entre as fortes marcas retóricas do discurso e o
sentimento da melancolia, que atenua o tom declamatório.
No curso audaz constelações de ideias,
Marcha e recresce no marchar sem fim!...
(“Perseverando”)
Ainda do ponto de vista formal, sua poesia não obedece a
uma métrica padrão, pois está sempre em busca de novas formas,
para poemas diferentes. Pelo tom grandiloquente, dá preferência
ao verso decassílabo, ainda que também explore versos mais
populares, como as redondilhas.
Exercícios
1. (UEMS) Com base na leitura de Espumas flutuantes, de
Castro Alves, é correto afirmar que as “espumas” a que se
refere o título da obra representam, metaforicamente,
(A) as forças líricas que movem o poeta.
(B) as poesias que compõem o livro.
(C) os amores do poeta por artistas de teatro.
(D) os interesses sociais do poeta.
2. (UEMS) Com base na leitura da obra, é incorreto afirmar
que, na poesia de Espumas flutuantes, o condoreirismo se
caracteriza por
(A) afetação de humildade.
(B) exaltação da civilização.
(C) retórica altaneira.
(D) uso de hipérboles.
3. (Fuvest-SP)
“Oh! eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh’alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n’amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
– Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.”
Nessa estrofe de “Mocidade e morte”, de Castro Alves,
reúnem-se, como numa espécie de súmula, vários dos temas
e aspectos mais característicos de sua poesia. São eles:
(A) Identificação com a natureza, condoreirismo, erotismo
franco, exotismo.
(B) Aspiração de amor e morte, titanismo, sensualismo,
exotismo.
(C) Sensualismo, aspiração de absoluto, nacionalismo,
orientalismo.
(D) Personificação da natureza, hipérboles, sensualismo
velado, exotismo.
(D) Aspiração de amor e morte, condoreirismo, hipérboles,
orientalismo.
5. Em “Os três amores”, poema de Castro Alves, lê-se:
“I
MINH’ALMA é como a fronte sonhadora
Do louco bardo, que Ferrara chora...
Sou Tasso!...a primavera de teus risos
De minha vida as solidões enflora...
Longe de ti eu bebo os teus perfumes,
Sigo na terra de teu passo os lumes...
— Tu és Eleonora...
II
Meu coração desmaia pensativo,
Cismando em tua rosa predileta.
Sou teu pálido amante vaporoso,
Sou teu Romeu...teu lânguido poeta!
Sonho-te às vezes virgem...seminua
Roubo-te um casto beijo à luz da lua
— E tu és Julieta...
III
Na volúpia das noites andaluzas
O sangue ardente em minhas veias rola...
Sou D. Juan!...Donzelas amorosas,
Vós conheceis-me os trenos na viola!
Sobre o leito do amor teu seio brilha...
Eu morro, se desfaço-te a mantilha...
Tu és — Júlia, a Espanhola!...”
Uma das opções a seguir não caracteriza a poética de Castro
Alves. Indique-a.
(A) Linguagem grandiloquente, rica em hipérboles e apóstrofes.
(B) Oratória adequada para temas sociais, visando ao
convencimento do ouvinte/leitor.
(C) Defesa de problemas sociopolíticos, como a escravidão dos
negros e os ideais republicanos.
(D) Manutenção do gosto ultrarromântico, quanto ao
tratamento de temas, especialmente, na vertente líricoamorosa.
(E) Poesia de cunho social associada ao condoreirismo, cujo
símbolo é o condor, ave que alcança grandes altitudes.
6. (UFRS) Considere as seguintes afirmações sobre a obra de
Castro Alves:
I-
20
A poesia amorosa do autor registra personagens
femininas, algumas notáveis pela pureza e intangibilidade
angelicais, outras destacadas pela sensualidade e
disponibilidade satânicas.
II - O poeta destacou-se pela poesia de protesto contra
a injustiça e a violência presentes na sociedade brasileira
em geral e evidentes nas condições de vida a que estava
submetida a população escrava.
III - A retórica grandiloquente rendia ao poeta autênticos
poemas-discurso para serem antes ouvidos do que lidos, quer
fossem denúncias contra a sociedade, quer fossem a exaltação
da mulher amada.
Quais estão corretas?
(A) Apenas I.
(B) Apenas III.
(C) Apenas I e III.
(D) Apenas II e III.
(E) I, II e III.
7. (UFRN) O poema de Castro Alves, transcrito a seguir,
servirá de base para a próxima questão:
Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.
‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.
De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos — beijá-la.
Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...
Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!
E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despertada a meio,
P’ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...
Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
‘Ó flor! — tu és a virgem das campinas!’
‘Virgem! — tu és a flor da minha vida!...’
Considerando as fases da poesia romântica brasileira, é
correto afirmar que o poema apresenta uma
(A) negação do ato amoroso, devido ao clima de sonho
predominante.
(B) atitude de culpa, devido à violação do ambiente celestial.
(C) atmosfera de erotismo, manifestada pelos encantos da
mulher.
(D) tematização da natureza, manifestada na imagem da flor.
(E) desilusão amorosa, por isso o poeta busca o escapismo via
morte.
8. (UFV-MG) Leia com atenção os versos do poema “Boa
noite”, de Castro Alves:
Boa Noite
“Boa noite, Maria! Eu vou-me embora,
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa noite, Maria! É tarde... É tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.
Boa noite!... E tu dizes: — Boa noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
— Mar de amor onde vagam meus desejos.”
Assinale a afirmativa que não corresponde a uma leitura correta
do poema:
(A) A abordagem do amor em Castro Alves notabiliza-se por
um sensualismo ousado que o distancia da experiência
imaginária dos poetas românticos anteriores.
(B) Em “Boa Noite”, Castro Alves destitui a mulher romântica
de sua aura espiritualizante, traço que a definia, sobretudo
na poesia da segunda geração do Romantismo brasileiro.
(C) Os versos acima inserem-se na poética lírico-amorosa do
período romântico e são marcados por um forte apelo
sensual.
(D) O poema castroalvino reflete uma visão mais direta
do corpo feminino e uma maior objetividade no
relacionamento com a mulher amada.
(E) O lirismo que se evidencia no texto supracitado fundese com momentos de profunda introspecção e com as
incertezas do eu lírico diante da vida.
9. O Romantismo foi um movimento marcado pelo
individualismo e pelo egocentrismo. Com frequência, o
destino da grandeza individual dos escritores românticos era
o distanciamento pessoal da vida em sociedade, por meio da
solidão voluntária. Considerando esse aspecto, leia o poema
de Castro Alves e assinale a afirmativa incorreta.
“O livro e a América”
“Oh! Bendito o que semeia
Livros, livros à mão cheia...
E manda o povo pensar...
O livro caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar.”
(A) Castro Alves supera o extremo individualismo dos poetas
anteriores de sua geração, dando ao Romantismo um
sentido social e revolucionário.
(B) Castro Alves exalta o papel social do poeta na divulgação
da cultura.
(C) Castro Alves não apenas realizou uma poesia humanitária,
participando de toda a propaganda abolicionista e
republicana, como celebrou a instrução.
(D) O poeta vê a leitura como um instrumento de libertação.
(E) Esse poema de Castro Alves revela sua preocupação em
expressar os sentimentos individualistas, próprios do
romântico.
10. (ENEM) O trecho a seguir é parte do poema “Mocidade e
morte”, do poeta romântico Castro Alves:
“Oh! eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh’alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n’amplidão dos mares.
21
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
— Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.
ao final, descobre o amor verdadeiro.
(E) ressaltam o verdadeiro amor de Teresa, que se intensifica a
cada encontro.
Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.”
Castro Alves. Os melhores poemas de Castro Alves. Seleção
de Lêdo Ivo. São Paulo: Global, 1983.
Esse poema, como o próprio título sugere, aborda o
inconformismo do poeta com a antevisão da morte
prematura, ainda na juventude.
A imagem da morte aparece na palavra
(A) embalsama.
(B) infinito.
(C) amplidão.
(D) dormir.
(E) sono.
11. Para responder à questão 11, leia, atentamente, o poema
abaixo:
“O ‘Adeus’ de Teresa”
“A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala...
E ela, corando, murmurou-me: ‘a deus’.
Uma noite... entreabriu-se um resposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
‘Adeus’ lhe disse conservando-a presa...
E ela entre beijos murmurou-me: ‘adeus!’
Passaram tempos... séc’los de delírio
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse — ‘Voltarei!... descansa!...’
Ela, chorando mais que uma criança,
Ela em soluços murmurou-me: ‘adeus!’
Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz d’ Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...
E ela arquejando murmurou-me: ‘adeus!’”
São Paulo, 28 de agosto de 1868. ALVES, Castro. Espumas
Flutuantes. São Paulo: FTD, 1987, p. 53.
12. (UFPB) Em “O ‘Adeus’ de Teresa”, os versos 6, 12, 18 e 24
(A) isolam a palavra “adeus”, modificando a sequência lógica
do poema.
(B) assinalam a sequência de atitudes de Teresa, no poema,
indo da descoberta do amor à traição.
(C) indicam que os sentimentos de Teresa não sofreram
qualquer mudança do primeiro ao último encontro.
(D) evidenciam uma mudança nos sentimentos de Teresa que,
22
CAPÍTULO IV – São Bernardo, de Graciliano Ramos
Reificação e consciência
como herdeiros, assumissem um dia o lugar do pai:
“São Bernardo” (1934) é o segundo romance de Graciliano
Ramos. Publicado à época do governo Getúlio Vargas, e no
período literário que se convencionou chamar de Romance de
30, ou neo-realista, o romance retrata, em outros aspectos, as
mudanças por que passava a sociedade brasileira nas primeiras
décadas do século XX, particularmente o auge e o declínio da
República Velha e o início exatamente do Estado Novo.
Apesar de Graciliano Ramos nunca ter admitido a
similitude, ao contrário, “São Bernardo”remete o leitor a outra
importante obra da literatura brasileira, estudado neste livro
de ensaios. Refiro-me a “Dom Casmurro”. Ainda que sejam
histórias diferentes em contextos diversos, o processo de recontar
a própria vida como meio de tentar compreendê-la permite
aproximar Paulo Honório do personagem Bento Santiago, o
Bentinho.
Ambos os personagens tiveram sua vida marcada pelo
casamento. Embora sob aspectos outros, Bento e Paulo Honório
desconfiaram de suas respectivas esposas, Capitu e Madalena, e
essa desconfiança levou-os a rever os possíveis erros a partir da
recuperação do passado. A diferença capital, no entanto, é que,
enquanto Bentinho lança dúvidas sobre a possível traição, Paulo
percebe que exagerara ao acusar sua esposa de adultério. Porém,
nos dois casos o resultado é o mesmo: o casamento desfaz-se e
tenta-se um resgate da humanidade por intermédio da narração
do passado.
Mas deixemos a comparação de lado, para nos
concentrarmos na análise específica do romance de Graciliano
Ramos. Narrado em primeira pessoa pelo próprio Paulo
Honório, inicia a narrativa com o anúncio do objetivo: a
elaboração de um livro - para o qual contaria, a princípio, com
a participação de alguns amigos, entre eles o Padre Silvestre,
João Nogueira, seu advogado, e de Gondim, redator e diretor
de um jornal. Porém, sem nenhum pejo ou escrúpulo, Honório
rejeita de início o estilo com que João Nogueira gostaria de usar
no livro de memórias. O padre, por questões políticas, afastase do fazendeiro. E finalmente o Gondim, apesar de ter escrito
um pouco, também não agradou devido ao estilo pomposo. Por
isso, decide ele mesmo redigir o texto, e opta por uma linguagem
coloquial:
– Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está
pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa
forma! (p. 9)
Em um primeiro momento, pensa em abandonar o projeto,
mas retoma-o por conta do pio da coruja, que representa as
lembranças de Madalena e de toda a história que os envolveu.
O enredo é, até certo ponto, simples e linear. O narrador, de
origem incerta e andanças por aqui e por ali, passa a trabalhar
na fazenda de São Bernardo, no município de Viçosa, em
Alagoas; com trabalho lícito e esforços ilícitos consegue comprála do Padilha, último representante de uma família tradicional
da região. Em seguida, seu projeto é transformar a fazenda
São Bernardo no maior e mais produtivo latifúndio da região.
Realiza-o com grande êxito.
No momento em que se encontrava em boa situação
financeira resolve casar-se. E da mesma maneira que adquiriu
a fazenda e outros bens, via no matrimônio outra espécie de
aquisição, com o intuito de constituir família para que os filhos,
Amanheci um dia pensando em casar. Foi uma ideia que
me veio sem que nenhum rabo-de-saia a provocasse. Não me
ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que
mulher é um bicho esquisito, difícil de governar. (...) O que
sentia era desejo de preparar um herdeiro para as terras de S.
Bernardo. (p. 59)
Como fica claro, o casamento para ele tem função utilitária,
ou seja, presta-se a criar herdeiros dentro de uma legitimidade
que somente o casamento proporciona. Não conhecia muitas
mulheres e, amparado nesse projeto, acaba conhecendo meio
que por acaso Madalena, professora primária da cidade. Não a
ama de imediato; antes, vê nela qualidades, como inteligência e
beleza, capazes de dar-lhe bons filhos.
No entanto, esse primeiro impulso parece ceder lugar a um
sentimento ainda incompreensível da parte dele quando se casa
com Madalena. Esse sentimento apresenta-se dois anos após
o casamento e já com um filho: Paulo Honório passa a sentir
ciúmes incontrolados por Madalena. Passa a desconfiar de todos,
principalmente do Padilha e do Nogueira, e chega mesmo a ter
ciúmes do Pe. Silvestre:
Padre Silvestre passou por S. Bernardo – e eu fiquei de
orelha em pé, desconfiado. Deus me perdoe, desconfiei. Cavalo
amarrado também come. (p. 150)
Em um ano, a relação do casal torna-se insustentável. Além
dos ciúmes, diferenças no relacionamento com os empregados
ajudam a deteriorar ainda mais o casamento. Enquanto Paulo
via nos empregados objetos os quais poderiam lhe render lucro,
não se preocupando, portanto, com a educação ou com a saúde
deles, Madalena sentia a necessidade de tornar a vida desses
despossuídos mais humana, por assim dizer.
Em resumo, Madalena contrapõe-se ao marido porque se
revela solidária e manifesta o desejo de transformação social.
Essas diferenças minam, pouco a pouco, a estabilidade do
casamento. A mulher, vítima do ciúme brutal do marido,
suicida-se. O caso é narrado no capítulo 31. Passados alguns
dias, D. Glória, tia de Madalena, que se mudara para a fazenda
à época do casamento, resolve ir embora. Também seu Ribeiro,
que se tornara muito próximo de Madalena. Pe. Silvestre e o
Padilha engajam-se nas forças revolucionárias contra o Estado
Novo e também abandonam a fazenda, juntamente com alguns
empregados de S. Bernardo os quais se deixam convencer pelas
palavras do antigo proprietário da fazenda e que passara a ter um
discurso pré-socialista. Aos poucos, Paulo Honório vai ficando
mais sozinho e tenta não pensar nos acontecimentos, fechandose ainda mais em seu mundo, em S. Bernardo.
A Revolução de 30 procurou renovar as estruturas da
sociedade brasileira, presa a oligarquias coronelísticas, típicas
do século XIX e das primeiras décadas da república brasileira,
conhecida como República Velha. Embora Paulo Honório,
que percebera a necessidade de modernizar sua fazenda logo
que a adquiriu, transformando-a em uma empresa nos moldes
capitalistas, de oferecer boa produção a preços competitivos, não
adere ao movimento rebelde, especialmente devido a seu fracasso
pessoal no casamento, e também por estar ligado ao mundo que
morria em 1930.
23
Lamentava, sem dúvida, que o meu partido tivesse ido
abaixo com um sopro. Que remédio! (...) O mundo que me
cercava ia-se tornando um horrível estrupício. E o outro, grande,
era uma balbúrdia, uma confusão dos demônios, estrupício
muito maior. (p. 174)
Dois anos se passam, e Paulo Honório vê seu patrimônio
ruir pouco a pouco, fosse pelo parco interesse que demonstrava
agora, fosse pela ação contrarrevolucionária que se instalara no
Brasil. É nesse momento crucial que o fazendeiro resolve passar
a vida a limpo em forma de livro que planeja publicar sob
pseudônimo. Tendo como objetivo rever o passado, agora, sob
uma perspectiva mais crítica e objetiva, é tomado pelas seguintes
reflexões:
Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que
me deu qualidades tão ruins. É a desconfiança que me aponta
inimigos em toda parte! A desconfiança é também consequência
da profissão. (p. 187)
A decadência material e moral, esta última motivada pela
morte da mulher, é representada, metaforicamente, pelo pio de
corujas. Ave agourenta, segundo a tradição popular e bastante
comum também na própria literatura, a coruja aparece na
história no mesmo capítulo 31 em que se narra o suicídio de
Madalena:
Uma tarde subi à torre da igreja, e fui vê Marciano
procurar corujas. Algumas se haviam alojado no forro, e à noite
era cada pio de rebentar os ouvidos da gente. Eu desejava assistir
à extinção daquelas aves amaldiçoadas (p. 154, grifo nosso).
Toda vez que pensa em desistir de escrever o livro de
memórias, ouve o pio das corujas, o que interpreta como uma
obrigação. O livro torna-se, pois, meio de expiação de seus erros,
ou seja, tem de fazer o balanço de sua vida, que se revela trágica,
e percebe que teve de se desumanizar para poder viver:
Cinquenta anos gastos (...) a maltratar-me e a maltratar
os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um
arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a
sensibilidade embotada. (p. 181)
Apesar do livro, a consciência que adquire da derrota
social e humana leva Paulo Honório, no final do romance, à
terrível dificuldade para dormir; em outros termos, passa a ter
dificuldade para apagar as lembranças tormentosas.
Olhando para o romance de maneira abrangente, vemos
que o embate entre o casal possui elementos estruturais e
orgânicos que revelam vários aspectos da sociedade brasileira,
particularmente a passagem das condições de sociabilidade
próprias da República Velha (1894-1930) para o Estado Novo
(1930-1945), o qual marca a modernização do estado brasileiro
e também um desenvolvimento mais acentuado do sistema
capitalista de produção no Brasil.
A rigor, esse movimento social apreendido pelo romance está
sintetizado no capítulo 7, em que se narra, de maneira diminuta,
a vida de seu Ribeiro, que viria a se tornar o contador de S.
Bernardo. Diz Paulo Honório tê-lo conhecido em Maceió em
situação deplorável. Resolve trazê-lo para morar em S. Bernardo,
em seguida passa a narrar sua trajetória. Ribeiro, ou antes major
Ribeiro, exercia na juventude e meia idade, o papel de chefe
maior na região onde morava. Cabia a ele a manutenção da
organização social. Agia como mandatário de toda uma região; e,
como tal, era respeitado. Sua palavra era a lei.
Ora, essas coisas se passaram antigamente. Mudou tudo. (...)
O povoado transformou-se em vila, a vila transformou-se em
cidade, com chefe político, juiz de direito, promotor e delegado
de polícia. (p. 37)
Isso significa que a vida tornou-se mais complexa, que as
mudanças sociais levaram pouco a pouco o desaparecimento
do papel do coronel, ao menos nos moldes conhecidos. A
autoridade exercida por um coronel (ou major no caso de seu
Ribeiro) torna-se rudimentar em uma sociedade constantemente
em mudança. A passagem também ilustra, pois, a revolução
operada na década de 1930, quando as velhas oligarquias foram
sendo substituídas por uma presença mais acentuada do governo
federal, devido à urbanização e a um processo, ainda que inicial,
de industrialização da economia.
De sua parte, Paulo Honório representa o capitalismo
emergente no Brasil. Mesmo sem ter plena consciência disso,
sabe, pelo exemplo de seu Ribeiro, que a sociedade tornouse mais complexa e que é preciso estabelecer outras relações
de poder. Isso, claro, traz à tona problemas de relacionamento
social, claramente vivenciados por Paulo Honório, mas que os
percebe apenas quando da morte da esposa. A presença contínua,
por exemplo, na fazenda, do padre Silvestre, do advogado
João Nogueira e do jornalista Azevedo Gondim indicam que o
fazendeiro conhecia e valorizava o poder da Igreja nas regiões
interioranas em que pese o positivismo do Estado, a nova ordem
jurídica e o papel da imprensa na sustentação do esquema
sociopolítico da República Velha.
Uma das características da sociabilidade inerente ao
capitalismo, de que Honório passa a ser um expoente, é o da
“reificação”, ou “coisificação”, a que, em níveis diferentes,
submetem-se o próprio Paulo Honório, Madalena e ainda os
empregados com evidente degradação dos valores humanos. Em
sua consciência, o fazendeiro teria estragado tudo, sua vida, a de
Madalena e a de outras pessoas, devido à sua “alma agreste”, à
dureza das relações estabelecidas. A rigor, porém, pode-se dizer
que Graciliano Ramos quis mostrar em seu romance como
o processo de enriquecimento de uma minoria degrada tudo
à sua volta. A lógica proposta no romance é que, ao reificar
(transformar tudo - pessoas, animais - em coisas), Paulo Honório
teria construído sua derrocada como pessoa, o que colaborou
também, quando da consciência, o declínio econômico.
Segundo a visão presente em São Bernardo, o homem cria para
si estruturas sociais que acabam por gerar problemas graves,
aprisionando a si mesmo dentro dessas estruturas. Na outra
ponta, vemos Madalena, que, embora perceba os problemas
desse sistema social e produtivo, não possui uma visão crítica
da realidade histórica, podendo, assim, ser considerada uma
personagem ingênua. Esse papel também é exercido por Padilha.
Antigo proprietário da fazenda, jogador compulsivo e alcoólatra,
teve de vender, por um preço bem menor S. Bernardo ao exempregado, para saldar dívidas. Como passou a ser empregado
da fazenda, atuava como professor na escola. Padilha passou a
ver a sociedade como injusta. A solução seria caminhar para o
socialismo:
Uma tarde surpreendi no oitão da capela (...) Luís Padilha
discursando para Marciano e Casimiro Lopes (dois empregados
da fazenda):
24
– Um roubo. É o que tem sido demonstrado categoricamente
pelos filósofos e vem nos livros. Vejam: mais de uma légua de
terra, casas, mata, açude, gado, tudo de um homem. Não está
certo. (p. 59)
No capítulo 24, Paulo Honório narra o jantar em
comemoração aos dois anos de casamento. Compareceram
os amigos mais próximos. A conversa encaminhou-se para a
situação política do Brasil. Uma preocupação demonstrada é que
o país poderia seguir o exemplo da Rússia e adotar o comunismo
como sistema econômico. Padilha mostra-se favorável mais
uma vez ao experimento e, para surpresa de Paulo Honório,
Madalena também se mostrou simpática à ideia, apesar de não
expressá-la claramente.
“Qual seria a opinião de Madalena?”, pergunta-se, a todo
instante, o fazendeiro. Em dado momento, tenta compreender o
sentido de alguns termos, entre eles o de materialismo histórico:
“Que significava materialismo histórico?” Toda a cena se presta a
mostrar a importância das questões político-econômicas no livro
e também para reafirmar o pensamento divergente do casal em
vários pontos.
Sobre o materialismo histórico, é preciso dizer, sem a
pretensão de esgotar o sentido filosófico da questão, que se
trata de um termo criado por Marx para explicar que a história
do mundo é, basicamente, marcada pela luta de classes e pelas
mudanças nos sistemas econômicos, e que todo esse processo
levaria à consumação da revolução proletária em todo o mundo.
Falando entre parênteses, com efeito, o processo iniciou-se na
Rússia, com a fundação da União das Repúblicas Soviéticas
Socialistas (URSS) e estendeu-se por vários países até o início dos
anos 1990, quando tais repúblicas começaram a se desmembrar,
recuperando sua independência territorial e econômica.
Além das relações sociais, há no romance preocupação com
as de ordem psicológica, originadas pelos desvios de conduta
social. É o que se percebe nesta passagem do livro: “a culpa foi
minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste que me deu uma
vida agreste”. A reflexão é, obviamente, devido ao suicídio da
esposa. A culpa assume, pois, o papel de motivador da narrativa,
com isso, pode-se dizer, todos os aspectos externos ao indivíduo,
como o enriquecimento de Paulo Honório, as questões
políticas, o objetivo de ter um herdeiro, que é referido vaga e
esporadicamente após seu nascimento, prestam-se à análise
psicológica que empreende o narrador.
Claro, não se pode reduzir o romance ao psicologismo, nem
também descartar os aspectos sociais; antes, é preciso perceber
que em S. Bernardo a estrutura social leva à reflexão psicológica.
Paulo Honório imaginou que poderia simplesmente
transferir a praticidade com que lidava com seus empregados,
fornecedores e clientes, para o casamento. A própria escolha de
Madalena como esposa segue uma lógica de cunho capitalista.
Ela é boa pessoa, inteligente e pode dar-lhe bons herdeiros. O
resto, leia-se o amor, importa pouco:
Ora essa! Não lhe tenho contado pedaços da minha vida? O
que não contei vale pouco. A senhora, pelo que mostra e pelas
informações que peguei, é sisuda, econômica, sabe onde tem as
ventas e pode dar uma boa mãe de família. (p. 89)
E adiante, quando decidem pelo casamento, e ela pede um
ano:
Um ano? Negócio com prazo de ano não presta. Que é que
falta? Um vestido branco faz-se em vinte e quatro horas. (p. 93)
Assim, o processo de reificação concretiza-se também no
casamento. Madalena não é objeto de desejo, é tão-somente
objeto para cumprir com uma meta: dar ao futuro marido a
estabilidade do casamento (porque sexo tinha com prostitutas
e com a Rosa, esposa do Marciano, um de seus empregados),
possibilitar-lhe herdeiros e ser fiel. No entanto, a complicação e
a transformação da realidade de Paulo Honório dão-se quando
os objetivos não são cumpridos à risca. “Essa mulher é difícil de
controlar” repete várias vezes. Uma vez instalada a cisão, abre-se
caminho para o conflito e, ao fim e ao cabo, redenção de Paulo
Honório como ser humano.
Outra questão a salientar é em relação à linguagem, que
procura mimetizar as contradições de um país que passava
de uma economia rural para outra urbano-industrial. Desse
modo, encontramos na narração de Paulo Honório um
discurso regional, com expressões nordestinas, mas que não
foge ao padrão gramatical médio de qualquer centro urbano
brasileiro. O livro põe em discussão questão importante para
os modernistas: como deveria ser escrito um livro, se com uma
linguagem distante da realidade imediata das pessoas comuns,
como queria Gondim, ou na maneira simples e coloquial do
próprio Paulo Honório. Vence a segunda opinião. Com isso,
sem o saber, Paulo Honório aproxima-se da visão modernista da
expressão literária.
Essa característica do livro, a de discutir o próprio processo
da escritura, chamada de metalinguagem, chamou a atenção dos
críticos, sobretudo porque demandou uma discussão em torno
da obtenção de verossimilhança (capacidade de tornar ficção
semelhante à verdade). Ora, custa a crer que uma pessoa que
se revela tão bruta, ignorante em várias questões, entre elas a
da escrita refinada, tenha conseguido redigir uma narrativa tão
sofisticada no que diz respeito à composição geral. Em muitos
momentos, Paulo Honório reafirma que não está preocupado
com o valor literário de suas memórias:
As pessoas que me lerem terão, pois, a bondade de traduzir
isto em linguagem literária se quiserem. Se quiserem, pouco se
perde. Não pretendo bancar escritor. (p. 5)
De fato, o narrador usa uma linguagem direta, sem recursos
exagerados de retórica, palavras e expressões regionais ou criadas
por ele mesmo: “S. Bernardo não vale o que um periquito rói.
O Pereira tem razão. Seu pai esbagaçou a propriedade” (grifos
nossos). Por outro lado, percebe que o ato de escrever requer
alguns cuidados e técnica diferente em relação à expressão oral.
Essa conversa, é claro, não saiu de cabo a rabo, como
está no papel. Houve suspensões, repetições, mal-entendidos,
incongruências, naturais quando a gente fala sem pensar que
aquilo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante. (grifo
nosso, p. 77)
Quanto ao plano da narrativa, o romance é dividido em
36 capítulos. 33 pertencem ao tempo do enunciado, ou seja,
referem-se à época dos acontecimentos, principalmente ao
período de compra, ampliação lícita e ilícita das terras de S.
Bernardo, e aos três anos de casamento, além dos dois após o
suicídio de Madalena. Os dois primeiros capítulos por sua
vez marcam o tempo da enunciação, isto é, referem-se aos
25
acontecimentos do presente do narrador, narra o que aconteceu
recentemente ou está acontecendo no momento da escritura do
texto. Aliás, o leitor é pego de surpresa por várias informações
logo de início, tem contato com nomes de personagens sem saber
quem são, que papel exercem na narrativa etc. Sabe também que
o livro seria escrito a oito mãos, por assim dizer. Numa alusão
ao processo de divisão de trabalho capitalista. Cada um seria
responsável por uma parte. O processo se realizaria caso Paulo
Honório não percebesse que um livro é um processo diferente
do da produção de café, por exemplo.
Outro capítulo em que o tempo da enunciação mistura-se
ao do enunciado é o 19o. Iniciador da segunda metade do livro,
esse capítulo revela o estado atual de Paulo Honório. Agora, “a
linguagem seca do tempo do enunciado cede lugar à lamentação
elegíaca do tempo da enunciação, e o ritmo rápido da narrativa
é substituído pelos compassos mais lentos de uma reflexão
problematizada, difícil e tortuosa” (LAFETÁ, 1985, p. 210). Ou
seja, esse capítulo retira do narrador toda a dureza, a praticidade,
o realismo com que constrói a narrativa. Os fantasmas de
Madalena, de seu Ribeiro, de D. Glória aparecem para torturar
a consciência do fazendeiro, a qual é metaforizada pelo pio da
coruja.
“São Bernardo” é um romance publicado no período
conhecido como Romance de 30, ou neo-realista. Nesse período,
por influência de Gilberto Freyre, para quem o verdadeiro
Modernismo deveria ser difundido e realizado no Nordeste
brasileiro, vários escritores nordestinos impuseram-se a tarefa
de realizar a proposta do sociólogo pernambucano. Por essa
razão, qualquer livro publicado, à época, por algum escritor de
um estado nordestino era logo classificado como regionalista.
Não foi diferente com Graciliano Ramos. Alagoano, Ramos
ambientava seus romances, de preferência, em seu estado natal.
Assim aconteceu com Caetés, seu primeiro romance, e São
Bernardo. No entanto, a crítica especializada logo percebeu
que este romance não seguia, de fato, os mesmos objetivos dos
romances nordestinos regionalistas. Falou-se, inicialmente, em
regionalismo universal, um oxímoro sem razão de ser. Depois,
abandonou-se o termo regional a favor unicamente do universal,
isso porque sua obra tratava do homem, da sociedade. O
ambiente importava pouco. O próprio narrador Paulo Honório
chama a atenção do leitor para a falta de paisagem em seu texto:
Uma coisa que omiti e produziria bom efeito foi a paisagem.
Andei mal. Efetivamente a minha narrativa dá ideia de uma
palestra realizada fora da terra. (p. 78)
De qualquer modo, pela preocupação em tematizar uma
realidade sócio-histórica, pelo esforço em denunciar as injustiças,
e também por beneficiar-se do uso da linguagem oral, com
regionalismos, o livro inscreve-se no 2º período do modernismo
brasileiro, cuja abrangência compreende os mesmos anos do 1º
governo de Getúlio Vargas, entre 1930 e 1945.
O termo neo-realista aplica-se devido ao fato de retomar
características da estética realista do final do século XIX, porém
sem preocupações cientificistas típicas daquele momento, com
uma nova roupagem, pois. Além do próprio Graciliano Ramos,
fizeram parte dessa geração Jorge Amado, José Lins do Rego,
Érico Veríssimo, entre outros. Todos adotaram alguns princípios
básicos, quais sejam:
• a verossimilhança – isto é, a submissão da ficção a
princípios da realidade.
• o retrato histórico-social;
• a linearidade narrativa – isto é, a progressão da narrativa.
• a caracterização de classes sociais por meio de indivíduos,
como no caso de Paulo Honório e Madalena, que representam,
respectivamente, o oligarca pré-capitalista e a socialista utópica e
• a visão ampla das relações socioeconômicas.
Alfredo Bosi (1993, p. 438) resumiu bem o que foi o decênio
de 30:
O modernismo e, num plano histórico mais geral, os abalos
que sofreu a vida brasileira em torno de 1930 (a crise cafeeira,
a Revolução, o acelerado declínio do Nordeste, as fendas
nas estruturas locais) condicionaram novos estilos ficcionais
marcados pela rudeza, pela captação direta dos fatos, enfim por
uma retomada do naturalismo.
Porém,
Ao realismo ‘científico’ e ‘impessoal’ do século XIX
preferiram os nossos romancistas de 30 uma visão crítica das
relações sociais. (grifo do autor)
Uma “visão crítica das relações sociais”, em resumo é o que
se pode dizer de “São Bernardo”.
Exercícios
1. (UFRS) Assinale com V (Verdadeiro) ou com F (Falso)
as afirmações abaixo sobre o romance São Bernardo, de
Graciliano Ramos:
( ) O projeto de escrever um livro em conjunto, pela divisão
do trabalho, não tem êxito. Paulo Honório critica os
padrões quinhentistas seguidos por João Nogueira e a
linguagem empolada de Azevedo Gondim, mas acaba
adotando a mesma forma de escrever.
( ) Embora pretenda reproduzir fielmente os fatos de sua
vida, Paulo Honório desrespeita os acontecimentos,
introduzindo personagens que de fato não existiram.
( ) Paulo Honório seleciona os episódios mais significativos
de sua vida, centrando-se nas circunstâncias que levam ao
desenlace do drama sobre o qual se interroga.
( ) Paulo Honório, em várias ocasiões, interrompe o relato
para discutir as regras que presidem a sua escrita ou para
confessar suas dificuldades de expressão.
( ) Através do relato, Paulo Honório tem oportunidade de
reavaliar sua vida, refletindo sobre seus atos e vendo a
esposa sob uma nova perspectiva.
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de
cima para baixo, é:
(A) F — F — V — F — V
(B) V — F — V — F — V
(C) V — F — F — V — F
(D) F — F — V — V — V
(E) V — V — F — V — V
2. (Cefet-PR) O diálogo a seguir é entre Paulo Honório,
narrador, e Gondim, jornalista contratado inicialmente por
Paulo para escrever o romance:
“– Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço.
Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale
dessa forma!
Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou
os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um
artista não pode escrever como fala.
26
– Não pode? Perguntei com assombro. E por quê?
Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode.
– Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu
Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente,
mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse
escrever como falo, ninguém me lia.”
possuído e possuidor. Tal é a relação estabelecida entre
Paulo Honório e o mundo. Seu desenvolvido sentimento de
propriedade leva-o a considerar todos que o cercam como
coisas que se manipulam à vontade e se possui.”
A seguir leia trechos extraídos da obra em questão:
(Graciliano Ramos: “São Bernardo”, cap. 1)
I - “Bichos. As criaturas que me serviram durante anos
eram bichos. Havia bichos domésticos, como o Padilha,
bichos do mato, como Casimiro Lopes, e muitos bichos para
o serviço do campo, bois mansos.”
Com base no texto, pode-se afirmar que:
(A) a concepção de literatura da 1a fase do modernismo
expressa-se na opinião de Gondim.
(B) as ideias de Paulo aplicam-se à obra de Graciliano, não a
outros autores modernos.
(C) as buscas da prosa da 2a fase do modernismo não aparecem
no ponto de vista de Paulo.
(C) a divergência entre Gondim e Paulo é antes temática que
estilística.
(E) a concepção de literatura da 1a e 2a fases do modernismo
está no parecer de Paulo.
3. (Mackenzie-SP) Em São Bernardo, a velhice é o momento
em que o narrador-protagonista Paulo Honório:
(A) aproveita, apesar dos problemas cotidianos, toda a riqueza
e prestígio que conseguiu durante sua vida de sacrifícios.
(B) se vê falido economicamente e se conscientiza de que sua
vida foi consumida inutilmente na posse da fazenda S.
Bernardo.
(C) reconhece a forma desumana como tratou Madalena e
as demais pessoas, mas não é capaz de reconstruir novo
projeto de vida.
(D) se sente contrariado, pois, apesar de saudável física e
emocionalmente, constata que viveu apenas em função dos
outros.
(E) avalia o passado positivamente, contrastando-o com a
solidão do presente e a incerteza do futuro.
4. (ITA-SP) O romance “São Bernardo”, de Graciliano Ramos,
publicado em 1934, é narrado em primeira pessoa pelo
narrador-personagem Paulo Honório, que decide escrever o
livro em determinada altura da sua vida. O principal motivo
que levou Paulo Honório a escrever a sua história foi:
(A) o desejo de mostrar como ele conseguiu, com enorme
esforço, tornar-se um proprietário rural bem sucedido,
apesar de sua origem extremamente humilde.
(B) o desejo de mostrar como se formavam os conflitos políticos
e sociais no interior do Nordeste brasileiro, tema recorrente
na ficção da chamada “Geração de 30”.
(C) a tristeza que toma conta dele depois que a fazenda São
Bernardo deixa de ser produtiva, o que ela tinha sido
graças ao seu empenho.
(D) tentar compreender o que teria levado Madalena ao fim
trágico da sua existência, bem como as razões de a vida
conjugal deles não ter se realizado como gostaria.
(E) revelar quais foram os motivos pelos quais Madalena
se matou, visto que ela se sentia culpada por ter traído
o marido com Padilha, antigo proprietário da São
Bernardo.
II - “Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz coisas
ruins que me deram lucro. E como sempre tive a intenção de
possuir as terras de S. Bernardo, considerei legítimas as ações
que me levaram a obtê-las.”
III - “Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha
mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou
forçado a escrever.”
O(s) trecho(s) de “São Bernardo” que exemplifica(m) a
análise do crítico literário é (são):
(A) I e II;
(B) II e III;
(C) I e III;
(D) Somente I;
(E) Somente II.
6. (Unioeste-PR) Sobre o romance “São Bernardo”, de
Graciliano Ramos, numa visão geral de fatos, personagens,
características e estrutura, todas as afirmativas abaixo são
procedentes, exceto:
(A) o romance é narrado em terceira pessoa.
(B) predomina no romance o monólogo interior.
(C) Paulo Honório não vê propriamente a natureza, pois
repara apenas nas coisas que lhe pudessem ser rendosas.
(D) tudo o que em São Bernardo é tenebroso, inumano
e doloroso é durante a noite que se forja, acontece ou se
realiza.
(E) a coruja, que antes tinha atuado como prenúncio da
morte de Madalena, virá a ser depois a voz que trará à
mente de Paulo Honório a lembrança da tragédia, que tão
duramente o persegue.
5. (ESPM-SP) A respeito da obra São Bernardo, de Graciliano
Ramos, o crítico literário e professor João Luiz Lafetá
afirma: “Todo valor se transforma — ilusoriamente —
em valor-de-troca. E toda relação humana se transforma
— destruidoramente — numa relação entre coisas, entre
27
CAPÍTULO V - Papéis avulsos, de Machado de Assis
Papéis avulsos é o terceiro livro de contos de Machado de
Assis. Publicado em 1882, assim como ocorrera com Memórias
póstumas de Brás Cubas, inaugura uma nova fase na produção
de contos. Abandona o romantismo de Contos fluminenses e
Histórias da meia-noite, em favor de uma visão mais realista da
vida, marcada pela ironia e pelo fim das ilusões.
Na Advertência que escreveu, Machado diz que o título
pode ser enganoso, uma vez que, apesar do termo avulsos há
uma unidade na seleção e na publicação conjunta dos textos,
que podem ser classificados como contos ou segundo outros
gêneros literários. Com efeito, o que se verifica nos doze textos
do livro é uma visão sarcástica e cética sobre as ilusões, os desejos
e as incoerências do ser humano. Em resumo, o narrador não
vê muita solução para os conflitos humanos, sejam os pessoais,
sejam os de ordem coletiva.
Além disso, uma característica comum é a tematização das
contradições humanas entre o ser e o parecer, entre a necessidade
de se manter a vida pública ilibada, a despeito do que de fato se
deseja, dos impulsos obscuros a que temos de reprimir, embora
no âmago e nas situações mais conflitantes se revelem. Instala-se
assim a mistura entre desejo, interesse e valor social responsável
pelo conflito das personagens dos respectivos contos.
Os contos são os seguintes:
a) “O alienista”
b) “Teoria do medalhão”
c) “A chinela turca”
d) “Na arca”
e) “D. Benedita”
f) “O segredo do Bonzo”
g) “O anel de Polícrates”
h) “O empréstimo”
i) “A sereníssima república”
j) “O espelho”
k) “Uma visita de Alcibíades”
l) “Verba testamentária”
Analisemos cada um dos doze contos, dando destaque para
as características gerais, mas atentos a aspectos particulares de
cada texto.
“O alienista” é o primeiro e mais longo conto do livro.
Trata-se da história de um psicanalista que funda a primeira
casa para tratamento de loucos no Brasil. Sigmund Freud estava
fundando a Psicanálise por esse tempo, mas Machado resolveu
abordar o assunto, não para discutir se essa ou aquela teoria
seria mais condizente para o tratamento de pessoas com algum
problema mental. O objetivo é antes o de revelar as contradições
humanas, posto que a atitude e as escolhas dependeriam antes
das circunstâncias que propriamente da manutenção de uma
linha de raciocínio ou da busca do resultado mais justo.
Simão Bacamarte consegue verba pública para abrir um
hospício em Itaguaí, no Estado do Rio de Janeiro, a cerca de
70km da capital. O caso é visto por todos como um desperdício,
afinal não se acreditava em tratamentos desse tipo, o próprio
Freud encontrou resistências.
Bacamarte passa a dedicar-se inteiramente à sua casa de
tratamento e a abrigar pessoas que, com efeito, eram tidas como
loucas ou que tinham algum desvio de conduta.
Outro da mesma espécie era um escrivão, que se vendia por
mordomo do rei; outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania
era distribuir boiadas a toda a gente, dava trezentas cabeças a
um, seiscentas a outros, mil e duzentas e outro, e não acabava
mais. Não falo dos casos de monomania religiosa; apenas citarei
um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia ser o deus
João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse e as penas
do inferno aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que
não dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a
proferir uma só palavra, todas as estrelas se despregariam do céu
e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus. Assim
o escrevia ele no papel que o alienista lhe mandava dar, menos
por caridade do que por interesse científico.
Bacamarte tinha sempre ao seu lado o Crispim, o boticário
(farmacêutico da cidade), que tinha pelo doutor tanto respeito
como certo temor também. Esse temor era exercido sobre todos
na cidade também. Tudo ia bem, incluindo o suporte financeiro,
que garantia boa estabilidade à vida privada do doutor e lhe
proporcionava cobrir as despesas do hospício, até que Bacamarte
levou para tratamento um moço considerado são por todos.
Quatro dias depois, a população de Itaguaí ouviu
consternada a notícia de que um certo Costa fora recolhido à
Casa Verde.
— Impossível!
— Qual impossível! foi recolhido hoje de manhã.
— Mas, na verdade, ele não merecia... Ainda em cima!
depois de tanto que ele fez...
Costa era um dos cidadãos mais estimados de Itaguaí.
Costa herdara uma grande fortuna, mas dilapidara seu
patrimônio emprestando a uma e a outro, sem qualquer controle
ou cobrança. Não demorou muito para que viesse a empobrecer.
O caso despertou o interesse do doutor, que viu na atitude um
desvio indicativo da loucura.
Depois outros e mais outros foram recolhidos à Casa Verde,
nome dado ao hospício por causa da cor das paredes. A própria
esposa fora recolhida, uma vez que demonstrava ter algum desvio
pelo fato de nunca se decidir que colar usaria em uma festa. A
preocupação excessiva com futilidades também seria sinal de
loucura.
Aos poucos, isso gerou uma revolta, liderada por um
barbeiro, Porfírio, mas chamado de Canjica. Primeiro tentaram
acabar com a Casa Verde indo à câmara de vereadores, como
não obtiveram apoio, posto que os vereadores não queriam se
envolver em caso tão complicado, organizaram uma espécie de
motim. Por analogia, o caso lembra a Queda da Bastilha, prisão
francesa que foi derrubada à época da Revolução, em 1789, e
que era símbolo da opressão do governo absolutista. Inicia-se,
pois, sob a liderança do barbeiro a Revolta dos Canjicas, que
tentam a todo custo derrubar a Casa Verde.
Após algumas pequenas batalhas, em que houve feridos e
algumas mortes, Bacamarte, percebendo que sua morte mudara,
resolve receber Porfírio, que já exercia grande poder sobre a
população e mirava já a vereança, para uma conversa e negociar
a rendição.
28
Não se demorou o alienista em receber o barbeiro; declaroulhe que não tinha meio de resistir, e portanto estava prestes a
obedecer. Só uma coisa pedia, é que o não constrangesse a assistir
pessoalmente a destruição da Casa Verde.
Para o estranhamento, porém, de Bacamarte, Porfírio mudou
o discurso. Disse que não queria se intrometer em assuntos da
ciência. A verdade é que o barbeiro tinha em mente, mais do
que manter as instituições, demonstrar pleno poder sobre todos
e via em Bacamarte um aliado capaz de conferir-lhe autoridade.
Bacamarte, entretanto, viu na contradição um sinal de loucura.
Manteve-se calmo. Dali a cinco dias, recolheu o barbeiro e mais
cinquenta revoltosos ao tratamento, incluindo o boticário que,
para se livrar da perseguição dos revolucionários, aderira ao
movimento. Bacamarte viu na atitude o mesmo sinal de loucura
que vira no Porfírio.
Este ponto da crise de Itaguaí marca também o grau máximo
da influência de Simão Bacamarte. Tudo quanto quis, deu-selhe; e uma das mais vivas provas do poder do ilustre médico
achamo-la na prontidão com que os vereadores, restituídos a
seus lugares, consentiram em que Sebastião Freitas também fosse
recolhido ao hospício. O alienista, sabendo da extraordinária
inconsistência das opiniões desse vereador, entendeu que era
um caso patológico, e pediu--o. A mesma coisa aconteceu ao
boticário. O alienista, desde que lhe falaram da momentânea
adesão de Crispim Soares à rebelião dos Canjicas, comparou-a à
aprovação que sempre recebera dele, ainda na véspera, e mandou
capturá-lo. Crispim Soares não negou o fato, mas explicou-o
dizendo que cedera a um movimento de terror, ao ver a rebelião
triunfante, e deu como prova a ausência de nenhum outro ato
seu, acrescentando que voltara logo à cama, doente. Simão
Bacamarte não o contrariou; disse, porém, aos circunstantes
que o terror também é pai da loucura, e que o caso de Crispim
Soares lhe parecia dos mais caracterizados.
O último lance do conto ocorre quando Bacamarte formula
uma nova teoria. Percebe que há muitos internos na Casa Verde.
Assim sendo, o que seria anormal se tornava mais comum. E se
o comum é o normal ninguém poderia ser considerado louco de
fato. A loucura estaria com quem seria diferente da normalidade.
Uma consulta com pessoas próximas o fez ver que o único a ser
assim era ele próprio. Dessa feita, resolveu internar-se, liberando
antes todos que estavam sob seus cuidados.
loucura, é descortinar as contradições humanas, sintetizadas nas
figuras de Porfírio e de Crispim, bem como de D. Evarista, a
esposa de Bacamarte. Além disso, o conto pode ser lido como
uma sátira ao Naturalismo, uma vez que tal escola literária,
contemporânea da obra de Machado de Assis, tomava como
parâmetro a ciência e nela se pautava para defender suas teses.
O caso específico se dá com o casamento de Bacamarte, que
escolhe a noiva, não por sua beleza ou por amor, mas sim por
uma análise científica, segundo a qual ela seria uma boa esposa
e lhe daria diversos filhos. No entanto, ela jamais conseguiu
engravidar. Por isso mesmo, resolveu entregar-se totalmente a
seus estudos.
A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne
de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e
à sua resistência, — explicável, mas inqualificável, — devemos
a total extinção da dinastia dos Bacamartes. Mas a ciência
tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico
mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina.
Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente
a atenção, — o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral.
O conto seguinte, “Teoria do medalhão”, segue a técnica
dos diálogos socráticos, em que pela conversa vai se chegando a
determinadas conclusões. Aqui, porém, para além das discussões
filosóficas ou da busca de uma ética para o bom convívio social,
têm-se os conselhos que um pai dá a seu filho na passagem da
maioridade deste (no caso vinte e um anos).
Como o próprio título do conto indica, os conselhos,
sob um ponto de vista mais crítico e mais ético, seriam pouco
condizentes com uma verdadeira lição de vida para construção
do caráter de um filho. Isso porque a lógica paterna é que, para
se dar bem na vida, o filho tem que ser um bajulador, mas sem
se demonstrar, tem que ficar sempre próximo dos que decidem,
nunca divergir deles, fingindo que tem ideias. É preciso, porém,
que tais ideais sejam de ordem geral, metafísica, que não agridem
ninguém, pois “nesse ramo dos conhecimentos humanos, tudo
está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os
alforjes da memória”.
Outra lição é sempre divulgar o que faz, com cuidado para
não ferir aos que verdadeiramente mandam. Desse modo, o
rapaz poderia ocupar uma boa posição na sociedade e manter-se
nela sem sustos.
Chegado a esta conclusão, o ilustre alienista teve duas
sensações contrárias, uma de gozo, outra de abatimento. A de
gozo foi por ver que, ao cabo de longas e pacientes investigações,
constantes trabalhos, luta ingente com o povo, podia afirmar
esta verdade: — não havia loucos em Itaguaí; Itaguaí não possuía
um só mentecapto. Mas tão depressa esta ideia lhe refrescara
a alma, outra apareceu que neutralizou o primeiro efeito; foi
a ideia da dúvida. Pois quê! Itaguaí não possuiria um único
cérebro concertado? Esta conclusão tão absoluta, não seria por
isso mesmo errônea, e não vinha, portanto, destruir o largo e
majestoso edifício da nova doutrina psicológica?
[...]
Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e
à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a
dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido
alcançar nada.
Como se afirmou, o objetivo do conto, mais do que estudar a
Longe de inventar um Tratado científico da criação dos
carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma
de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus
concidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe
o teu nome ante os olhos do mundo. Comissões ou deputações
para felicitar um agraciado, um benemérito, um forasteiro, têm
singulares merecimentos, e assim as irmandades e associações
diversas, sejam mitológicas, cinegéticas ou coreográficas. Os
sucessos de certa ordem, embora de pouca monta, podem ser
trazidos a lume, contanto que ponham em relevo a tua pessoa.
É a realização plena do princípio do parecer. Não importa
o que se é, e sim o que parece ser. Uma máscara, embora
condenável eticamente, capaz de permitir a presença na
sociedade, capaz de proporcionar colocações em uma sociedade
baseada no favor, na politicagem da bajulação, e não na
meritocracia, como seria de se esperar em uma República.
“O anel de Polícrates” é uma continuação de “A teoria
29
do medalhão”, mas uma continuidade no sentido de revelar
que quem não segue os conselhos daquele pai pode acabar
como o Xavier, pobre e desacreditado. Também escrito ao
modo socrático, dois amigos, identificados pelas letras A e Z
conversam sobre um terceiro, chamado Xavier. Para surpresa
de A, Z diz que Xavier empobrecera e passara a viver em um
contínuo caiporismo, isto é, em uma contínua onda de azar.
O interessante é que fazia questão disso. Deixou-se levar pelo
caiporismo.
O Xavier não só perdeu as ideias que tinha, mas até exauriu
a faculdade de as criar; ficou o que sabemos. Que moeda rara se
lhe vê hoje nas mãos? Que sestércio de Horácio? Que dracma de
Péricles? Nada. Gasta o seu lugar-comum, rafado das mãos dos
outros, come à mesa redonda, fez-se trivial, chocho...
Um dia, porém, ocorreu algo que o fez mudar um pouco o
rumo de sua vida. Estava na rua e viu um cavaleiro quase cair
do cavalo na frente de diversas pessoas. Com medo da vergonha,
conseguiu controlar o cavalo e saiu aplaudido. Xavier então
formulou um conceito:
comparou a vida a um cavalo xucro ou manhoso; e
acrescentou sentenciosamente: Quem não for cavaleiro, que o
pareça. Realmente, não era uma ideia extraordinária; mas a
penúria do Xavier tocara a tal extremo, que esse cristal pareceulhe um diamante.
Em outros termos, mais uma vez, tem-se maior importância
dada ao parecer que ao ser.
E nesse ponto é que vem a explicação do porquê do título.
Polícrates era rei na ilha de Samos por volta do século VI a.C.
Grande conquistador, era um homem feliz. Com medo de que
seu destino mudasse, resolve fazer um sacrifício e joga ao mar
um anel que lhe era muito querido. Porém, um pescador, dias
depois, resolve entregar-lhe um peixe que pescara no mar. Para
sua surpresa, o anel estava dentro do peixe. A ideia é de que
mesmo não querendo, não se pode fugir ao destino. O retorno
do anel significa que o sacrifício era dispensável, pois a realidade,
o fado, o decreto do destino não mudaria.
No caso do conto de Machado, Xavier luta pelo caiporismo,
ele quer a infelicidade de modo deliberado. Mas passa a repetir
a frase. Até que ela cai no uso do povo. Torna-se inclusive frase
de uma peça de teatro e repetida depois por pessoas em geral.
O conto exemplifica o que seriam as limitações da felicidade
humana.
Outro conto que segue essa linha é “O espelho”, cujo
subtítulo é “Esboço de uma nova teoria da alma humana”. Nesse
conto, o narrador, na faixa dos 40 anos, já um medalhão, conta
a quatro amigos como descobrira, na juventude, a existência
de duas almas: a interior, que todos conhecem, matéria da
espiritualidade, e a exterior, matéria com que iria se ocupar.
par de botas, uma cavatina, um tambor, etc.
O narrador, rapaz pobre que se chama Jacobina, quer, pois,
dizer que a alma exterior é o que nos mantém presos à vida
social, para o bem ou para o mal. São seres ou objetos que nos
manteriam vivos e integrantes da sociedade. Mais uma vez o que
importa é o parecer, o que é visível e não o que se é, com efeito.
Feitas essas considerações, Jacobina passa então a narrar
o que lhe sucedera para que tivesse tal conclusão da vida.
Quando tinha vinte e cinco anos foi nomeado alferes da Guarda
Nacional, um antigo agrupamento civil e militar que atuava,
preferencialmente, no interior do país.
Todos os seus parentes ficaram muito orgulhosos pela
nomeação, que, em rigor, pouca importância tinha. Era como
ganhar o título de miss simpatia em um concurso de beleza...
Ainda assim, todos o chamavam de senhor alferes e o enchiam
de mimos e bajulações.
Um de suas tias, viúva de um capitão da mesma Guarda
Nacional, quis ver o sobrinho fardado e convidou-o a passar
uns dias com ela no sítio onde morava. Na casa dessa tia, que se
chamava Marcolina, havia um espelho de longa data, da época
de D. João VI, isto é, por volta de 1808. E será peça-chave do
conto.
No sítio, a bajulação continuava, ao ponto de Jacobina
perceber que mais importante que ele próprio, que sua essência
como ser humano e como Jacobina, era o cargo que ocupava, era
a vida exterior, sua outra alma:
O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas
naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva
cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade.
Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar,
o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser
a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto,
nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que
ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente;
a outra dispersou-se no ar e no passado.
Em dado momento da narrativa, sua tia Marcolina e outros
parentes têm que se ausentar por um tempo do sítio. Nesse
momento, os empregados e escravos aproveitam para fugir
e Jacobina fica sozinho na casa. A princípio não seria nada
demais, porém com o fim das bajulações, Jacobina percebe-se
incompleto, percebe que o que ele era dependia da alma exterior,
da roupa de alferes e do que ela representava. Caiu em depressão
por esses dias. Foi então que decidiu vestir a farda e se olhar no
antigo espelho da época de D. João VI.
Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz
duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra
que olha de fora para entro... Espantem-se à vontade, podem
ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica.
Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior
pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens,
um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um
simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; — e
assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um
30
Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me
de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos,
e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura
integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso;
era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior.
Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com
os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem
que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver,
depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não
conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este
é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá.
Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava
para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava,
sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era
um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a certa
hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo
olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra
vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão
sem os sentir...
Em “O segredo do Bonzo”, temos conceito semelhante ao
expresso em “O espelho”. Embora com modos diferentes de
tratar do assunto, a preocupação de Machado é antes revelar a
importância maior à vida externa que propriamente encontrar a
essência humana.
Para tanto, remete o leitor a um imaginário episódio na
vida do expedicionário português Fernão Mendes Pinto (15101584), que estaria em Fuchéu, no Oriente, no reino do Bungo.
Andavam o narrador Diogo Meireles e Fernão pelo reino,
quando depararam duas cenas inusitadas: a explicação da
origem dos gafanhotos, que teriam nascido da conjunção do ar,
das folhas do coqueiro e da lua nova; e a ideia de que o futuro
poderia estar contido na gota de sangue de uma vaca.
Os dois casos são absurdos em si mesmos, mas arrastavam
uma multidão e serviram de base, no conto, para o que viriam
descobrir depois, o tal segredo do Bonzo, revelado por um
homem que teria 180 anos! E era conhecido como Pomada.
Revela então seu segredo:
— Haveis de entender, começou ele, que a virtude e o saber,
têm duas existências paralelas, uma no sujeito que as possui,
outra no espírito dos que o ouvem ou contemplam. Se puserdes
as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em
um sujeito solitário, remoto de todo contato com outros homens,
é como se eles não existissem. Os frutos de uma laranjeira, se
ninguém os gostar, valem tanto como as urzes e plantas bravias,
e, se ninguém os vir, não valem nada; ou, por outras palavras
mais enérgicas, não há espetáculo sem espectador.
Papel, aliás, exercido pela literatura, que deve partir do real para
criar a ficção, de modo a olhar novamente para o real. Escrito em
1875, esse conto ainda tem como pano de fundo o Romantismo,
decadente é verdade. Mas aparece em uma peça que escreveu
um dos dois personagens principais, no caso o Major Lopo
Alves, que vai visitar um amigo, o Bacharel Duarte, por volta
das 9h da noite. O Bacharel preparava-se para sair, mas o major
insistiu, pois queria ler para ele uma peça de teatro que escrevera.
Embora não quisesse, o Bacharel atendeu ao pedido do amigo,
que passou a ler a peça.
A certa altura, o Major percebeu que Duarte pouco se
importava com a peça e resolveu deixar o local. Em seguida,
Duarte recebeu outra visita. Vinham prendê-lo sob a acusação de
ter roubado uma chinela turca.
Mesmo sabendo tratar-se de algo infundado, fantasioso,
acompanha o que parecia ser um oficial da polícia. Chegando
ao local, descobre que não se tratava de um roubo, antes um
pretexto. Fora levado até lá porque deveria se casar com uma
moça, mas seria morto em seguida.
— Três coisas vai o senhor fazer agora mesmo, continuou
impassivelmente o velho: a primeira, é casar; a segunda, escrever
o seu testamento; a terceira engolir droga do Levante...
Quando já se sentia perdido por aquela situação surreal,
inusitada, percebeu que o major ainda lia o drama na sua frente.
Ele na verdade, dormira e sonhara com tudo aquilo. Desse
modo, volta à realidade, embora seja a realidade do conto, isto
é, a ficção criada por Machado. Há assim um sonho, uma ficção
dentro da ficção, estabelecendo-se uma metalinguagem um tanto
involuntária, por assim dizer. Isso porque da ficção pensada
nasceu uma ficção espontânea e imaginária.
Duarte acompanhou o major até à porta, respirou ainda
uma vez, apalpou-se, foi até à janela. Ignora-se o que pensou
durante os primeiros minutos; mas, a cabo de um quarto de
hora, eis o que ele dizia consigo: — Ninfa, doce amiga, fantasia
inquieta e fértil, tu me salvaste de uma ruim peça com um
sonho original, substituíste-me o tédio por um pesadelo: foi um
bom negócio.
É como a farda do Jacobina. Sem ninguém para bajular o ser
que a veste, de nada vale, nem o homem, nem o alferes, posto
que não existem.
As duas teorias, absurdas, são reais porque haveria quem
acreditava nelas. Desse modo, o Pomada chega à seguinte
conclusão:
Considerei o caso, e entendi que, se uma coisa pode existir
na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade,
sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências
paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade,
que é apenas conveniente.
Uma total inversão da ordem, mas que faz sentido na lógica
que Machado quer destacar: a de querer acreditar naquilo que
é bom, que é vantajoso para si, independente da existência real.
Como episódio final no conto, cita a experiência que teve
Diogo Meireles. Os moradores do local, acometidos de uma
doença que deixava o nariz disforme, não sabiam mais a quem
recorrer para resolver o problema, sem terem de extirpar o nariz.
Diogo, então, baseado no segredo do Bonzo diz que poderia
trocar o nariz de cada doente, mas essa troca não seria visível,
“isto é, [seria] inacessível aos sentidos humanos, e contudo tão
verdadeiro ou ainda mais do que o cortado”. Como ninguém
queria duvidar disso, aceitaram a ideia e passaram a fazer a
“troca” do órgão defeituoso.
Desse modo, se a realidade não é favorável, fiquemos com a
imaginada, posto que é melhor e mais conveniente.
Já “A chinela turca” tematiza o jogo entre sonho e realidade.
Em “Na Arca – três capítulos inéditos do Gênesis”, o
ponto principal está na eterna disputa por espaço, por terra,
sob o nome do egoísmo, da disputa, da tentativa de exercer
poder sobre o outro. Escrito à maneira bíblica, em capítulos e
versículos, o conto mostra a disputa entre Jafé e Cam sobre a
divisão das terras, assim que as águas do dilúvio baixassem. A
discussão ia bem até o ponto em que divergiram sobre o rio que
dividiria cada terra. A discussão chegou a tal ponto que Noé teve
de intervir e, percebendo que a questão não se encerraria ali, ou
seja, com o dilúvio, com a separação de animais de cada espécie,
vaticinou algo estranho aos ouvidos dos seus:
31
26. — “Eles ainda não possuem a terra e já estão brigando
por causa dos limites. O que será quando vierem a Turquia e a
Rússia?”
27. — E nenhum dos filhos de Noé pôde entender esta
palavra de seu pai.
28. — A arca, porém, continuava a boiar sobre as águas do
abismo.
Evidente que se trata de uma intertextualidade praticada por
Machado, uma vez que à suposta época de Noé nenhum desses
países existia. Tal guerra por disputa territorial se deu entre 1877
e 1878, ainda bem fresco, portanto, na memória dos leitores
contemporâneos do autor. O objetivo é o de revelar a constante
luta entre as pessoas, cuja solução parece simplesmente não
existir de fato.
Com “D. Benedita – um retrato”, Machado quer analisar
as veleidades, as ilusões que construímos para nossas vidas,
para que possamos continuar a viver em um mundo nem
sempre favorável. A protagonista é marcada pela hesitação, pela
volubilidade, pela inconstância no agir. Isso porque D. Benedita
era casada com o ilustre desembargador Proença, mas que,
devido ao trabalho ou para se livrar da esposa, fora designado
para trabalhar no Pará. E lá foi ficando, ficando. D. Benedita a
toda hora pensa em visitar o marido, mas a viagem é adiada ano
após ano. Até que ele vem a falecer. Cogita então ir até lá para
construir-lhe um jazigo digno, mas também adia o intento e os
anos continuam a passar. Pensa em casar a filha Eulália com o
filho de uma grande amiga, o Leandrinho. Embora faça algo por
isso, atende ao desejo da filha que prefere outro homem para se
casar. Por fim, sabendo da viuvez, dois homens passam a cortejála. Ela, embora aprecie a ideia, continua em sua eterna indecisão
e permanece viúva.
Foi por esse tempo que um negociante, viúvo, teve ideia de
cortejar D. Benedita. O primeiro ano da viuvez estava passado.
D. Benedita acolheu a ideia com muita simpatia, embora sem
alvoroço. Defendia-se consigo; alegava a idade e os estudos do
filho, que em breve estaria a caminho de São Paulo, deixando-a
só, sozinha no mundo. O casamento seria uma consolação, uma
companhia. E consigo, na rua ou em casa, nas horas disponíveis,
aprimorava o plano com todos os floreios da imaginação vivaz
e súbita; era uma vida nova, pois desde muito, antes mesmo da
morte do marido, pode-se dizer que era viúva. O negociante
gozava do melhor conceito: a escolha era excelente. Não casou.
Hesitação, indecisão e ilusão permanecem.
O narrador inicia “O empréstimo” dizendo tratar-se
não de uma história fictícia, mas sim de algo real, algo que
de fato aconteceu. É uma estratégia narrativa para conferir
verossimilhança ao relato.
Narra-se a história de Custódio, um homem de quarenta
anos, na idade de ser um “medalhão”, portanto, vive às penúrias,
tanto por ser pouco afeito ao trabalho duro, quanto por ser nada
predisposto no acerto das escolhas em investimentos. Conforme
diz o narrador:
Custódio não recusava meter-se em alguns negócios, com a
condição de os escolher, e escolhia sempre os que não prestavam
para nada. Tinha o faro das catástrofes. Entre vinte empresas,
adivinhava logo a insensata, e metia ombros a ela, com
resolução. O caiporismo, que o perseguia, fazia que as dezenove
prosperassem, e a vigésima lhe estourasse nas mãos. Não importa;
aparelhava-se para outra.
Conforme o título sugere, lutava agora para conseguir um
empréstimo de cinco contos (uma quantia razoável) para investir
em uma fábrica de alfinetes. Pediu a um e a outro, sempre com
negativas. Lembrou-se de pedir a um conhecido, o tabelião Vaz
Nunes, homem digno, direito e correto em suas obrigações.
O foco do conto é narrar exatamente a conversa que
Custódio e Vaz Nunes têm; aquele tentando persuadir a este
de que o valor não era muito; e este tentando persuadir aquele
de que não dispunha de quantia alguma. O valor vai dos cinco
contos aos cinco mil-réis (uma quantia irrisória). O interessante
do conto está nesse jogo de pedidos e negativas, de suposições e
certezas, que aumentam a angústia de Custódio e também do
leitor.
— Realmente, custa-me repetir-lhe o que disse; mas, enfim,
nem os duzentos mil-réis posso dar. Cem mesmo, se o senhor os
pedisse, estão acima das minhas forças nesta ocasião. Noutra
pode ser, e não tenho dúvida, mas agora...
— Não imagina os apuros em que estou!
— Nem cem, repito. Tenho tido muitas dificuldades nestes
últimos tempos.
Ao fim, quando aceita emprestar cinco mil-réis, Vaz Nunes
se sente satisfeito por se livrar do pedinte, sabendo que a
quantia jamais será devolvida, mas ao menos é um valor baixo,
e Custódio sai, achando-se vitorioso, ao menos por ter obtido o
valor para o jantar...
Com a mão esquerda no bolso das calças, ele apertava
amorosamente os cinco mil-réis, resíduo de uma grande
ambição, que ainda há pouco saíra contra o sol, num ímpeto
de águia, e ora habita modestamente as asas de frango rasteiro.
Com “A sereníssima república”, Machado discute a validade
ou não das eleições. Não que fosse exatamente contrário à
prática, mas por saber que eram sempre viciadas (era o tempo
do voto de cabresto). À época em que publicou o conto (1882),
o Brasil ainda era um Império, não uma República, o que
viria a acontecer apenas em 1889, no entanto, votava-se para
deputado, para senador e os membros dos Conselhos Gerais
das Províncias. As eleições não respeitavam o que se chama hoje
sufrágio universal. Poucas pessoas podiam votar. Além disso,
o Imperador tinha poder de veto (há o caso célebre do escritor
José de Alencar, que ganhou a eleição para o Senado, mas foi
preterido por D. Pedro II, de quem era inimigo político). O
que Machado quer discutir no conto não é nem tanto a validade
desse tipo de eleição ou a reforma do sistema representativo.
Quer antes mostrar dois aspectos: a busca pelo poder supera
qualquer ética aceita pela média social e que a linguagem pode
ser usada de modo a manipular os demais.
Com efeito, o conto, que assume ares de fábula, e escrito
ao modo de uma conferência científica, é o discurso do cônego
Vargas, que descobrira a língua das aranhas. Conseguiu, então,
reuni-las e chegou a ter mais de duzentos indivíduos. Desse
modo, era preciso ajudá-las a organizar a sociedade, incluindo o
sistema de governo e a forma de eleger os representantes.
Sim, senhores, descobri uma espécie araneída que dispõe do
uso da fala; coligi alguns, depois muitos dos novos articulados,
e organizei-os socialmente. O primeiro exemplar dessa aranha
maravilhosa apareceu-me no dia 15 de dezembro de 1876.
Foi então que pensou no sistema republicano adotado
em Veneza, a qual era chamada de Sereníssima, daí a razão do
título. E deu-se início às eleições. A primeira foi anulada porque
o nome de um candidato constava em duas bolas que serviriam
para eleger um ou outro. A segunda eleição também foi anulada,
porque faltou, de propósito ou não, o nome de um candidato. A
terceira eleição também foi considerada viciada, pois os nomes
32
de dois candidatos, Hazeroth e Magog estavam escritos faltandolhes uma letra do nome.
Por fim, relata a eleição para uma vaga na Assembleia. O
nome do eleito foi Nebraska. No entanto, também faltava-lhe
uma letra do nome, a letra A. O caso serviu a uma artimanha
retórica a outro candidato para dizer que ele seria o eleito de
fato. Assim, pronuncia-se:
Logo, a falta é intencional, e a intenção não pode ser outra,
senão chamar a atenção do leitor para a letra k, última escrita,
desamparada, solteira, sem sentido. Ora, por um efeito mental,
que nenhuma lei destruiu, a letra reproduz-se no cérebro de dois
modos, a forma gráfica e a forma sônica: k e ca. O defeito, pois,
no nome escrito, chamando os olhos para a letra final, incrusta
desde logo no cérebro, esta primeira sílaba: Ca. Isto posto, o
movimento natural do espírito é ler o nome todo; volta-se ao
princípio, à inicial ne, do nome Nebrask. — Cané. — Resta a
sílaba do meio, bras, cuja redução a esta outra sílaba ca, última
do nome Caneca, é a coisa mais demonstrável do mundo. E,
todavia, não a demonstrarei, visto faltar-vos o preparo necessário
ao entendimento da significação espiritual ou filosófica da
sílaba, suas origens e efeitos, fases, modificações, consequências
lógicas e sintáxicas, dedutivas ou indutivas, simbólicas e outras.
Mas, suposta a demonstração, aí fica a última prova, evidente,
clara, da minha afirmação primeira pela anexação da sílaba ca
às duas Cane, dando este nome Caneca.
“Uma visita de Alcibíades” se presta, mais uma vez pelo jogo
entre fantasia e realidade, a discutir um aspecto da sociedade,
que é a moda. Alcibíades, um importante general grego do
século V a. C., visita em carne e osso o narrador em uma noite
de 1875. Após o susto do inesperado, começam a conversar.
O narrador conta-lhe então que iria a um baile naquela noite,
Alcibíades decide querer conhecer, mas precisaria de trajes
normais da época. E então é vestido com um smoking que o
deixa sufocado e estranho. Ao longo da conversa, vão tecendo
considerações sobre a moda e como ela pode ser efêmera e
atender a interesses nem sempre do conforto, antes das ilusões
sociais. Ao fim, Alcibíades morre novamente por não se sentir
confortável vestido do modo moderno.
— Oh! venha alguma coisa que possa corrigir o resto! tornou
Alcibíades com voz suplicante. Venha, venha. Assim, pois, toda
a elegância que vos legamos está reduzida a um par de canudos
fechados e outro par de canudos abertos (e dizia isso levantandome as abas da casaca), e tudo dessa cor enfadonha e negativa?
Não, não posso crê-lo! Venha alguma coisa que corrija isso. O
que é que, falta, dizes tu?
— O chapéu.
“Verba testamentária” trata de um protagonista doentio.
Nicolau B. de C., sabendo que iria morrer, deixa um testamento
pedindo que seu caixão fosse feito por Joaquim Soares, o mais
simples artesão da região. O que causa estranheza em todos. Na
verdade, desde a infância Nicolau demonstrara atitudes pouco
aceitáveis socialmente: destruía brinquedos de outras crianças,
rasgava a roupa delas. Era, enfim, uma espécie de misantropo,
alguém que não tinha interesse no bom convívio. Órfão de pai
e mãe na adolescência passa a ser cuidado pela irmã mais velha,
que já era casada.
Por sugestão do cunhado, que é médico, Nicolau é isolado
em um ambiente rico, onde sua autoestima é estimulada por
meio de falsas notícias ruins, publicadas em jornais também
inexistentes. Apesar disso, ele piora com o passar do tempo.
O jogo entre aspectos reais e fantasiosos é novamente
utilizado como técnica literária, uma vez que o nome completo
do protagonista é omitido, como se fosse alguém conhecido da
sociedade; por outro lado, para dar ar de veracidade ao relato,
relaciona momentos da vida de Nicolau a outro da vida real,
como a renúncia de D. Pedro I em 7 de abril de 1831, ou as
referências a artistas que seriam contemporâneos de Nicolau,
como o ator João Caetano ou o poeta Gonçalves Dias.
Nicolau parece sofrer de uma doença no baço que o leva a
ter um sentimento destrutivo por tudo, o que o equipara a um
animal raivoso, que pouco se importa com os outros. Assim, ao
escolher um caixão em que seria enterrado ser de má qualidade é
apenas mais um lance, o último de sua vida, pelo qual demonstra
suas atitudes extravagantes e perturbadoras. Com isso, Machado
quer mostrar que uma visão negativa é tão humana quanto
outra positiva, e que o ser humano não é tão racional quanto se
poderia imaginar naquele momento.
Exercícios
1. (UESC-BA) Duarte acompanhou o major até a porta,
respirou ainda uma vez, apalpou-se, foi até à janela. Ignorase o que pensou durante os primeiros minutos; mas, ao cabo
de um quarto de hora, eis o que ele dizia consigo: — Ninfa,
doce amiga, fantasia inquieta e fértil, tu me salvaste de uma
ruim peça com um sonho original, substituíste-me o tédio
por um pesadelo: foi um bom negócio. Um bom negócio e
uma grave lição: provaste-me ainda uma vez que o melhor
drama está no espectador e não no palco.
ASSIS, Machado de. “A chinela turca”. Obra completa.
Rio de Janeiro: José Aguilar 1962. v. 1, p. 303.
Com base no fragmento contextualizado na obra, está
correto o que se afirma em
01) O narrador abstém-se de opinar sobre o narrado.
02) O conto evidencia o tema da volubilidade do amor.
03) A relação de Duarte com o major Lopo Alves é pautada
pela sinceridade afetiva.
04) O major Lopo Alves representa o literato de grande
mérito, porém injustiçado pelo público leitor.
05) A narrativa apresenta dois dramas: um escrito por Lopo
Alves e outro vivenciado como experiência simbólica pelo
personagem Duarte.
2. (UESC-BA) Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir
o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa
curiosidade! Tu não és só a alma da civilização, és também
o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não
aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa
de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os
olhos estão no Jacobina, que concerta a ponta do charuto,
recolhendo as memórias. Eis aqui como ele começou a
narração:
— Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de
ser nomeado alferes da guarda nacional. Não imaginam o
acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão
orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes.
Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila,
note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes,
como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto
33
tinha muitos candidatos e que estes perderam. Suponho também
que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da
simples distinção.
ASSIS, Machado de. “O espelho”. “Papéis avulsos”. In: Obra completa. Rio de
Janeiro: José Aguilar, 1963. p. 347.
Um dos problemas humanos tematizados na obra de
Machado de Assis é o da identidade, e isso se faz presente no
conto “O Espelho”. Com base no fragmento e na narrativa
em sua totalidade, analise — no plano simbólico — o
valor do uniforme em relação à integridade psicológica da
personagem Jacobina.
e)
5. (UFMG) Leia estes trechos:
TRECHO 1
“Tinham batido quatro horas no cartório do tabelião
Vaz Nunes, à Rua do Rosário. Os escreventes deram ainda as
últimas penadas: depois limparam as penas de ganso na ponta
de seda preta que pendia da gaveta ao lado; fecharam as gavetas,
concertaram os papéis, arrumaram os autos e os livros, lavaram
as mãos; alguns, que mudavam de paletó à entrada, despiram o
do trabalho e enfaram o da rua; todos saíram. Vaz Nunes ficou
só.”
MACHADO DE ASSIS, J.M. “O empréstimo”. In: Papéis
avulsos. São Paulo: Martin Claret, 2007. p.120-121.
TRECHO 2
“Um dia, andando a passeio com Diogo Meireles, nesta
mesma cidade Fuchéu, naquele ano de 1552, sucedeu depararse-nos um ajuntamento de povo, à esquina de uma rua, em torno
a um homem da terra, que discorria com grande abundância de
gestos e vozes. O povo, segundo o esmo mais baixo, seria passante
de cem pessoas, varões somente, e todos embasbacados.”
MACHADO DE ASSIS, J.M. “O segredo do bonzo”. In:
Papéis avulsos. São Paulo: Martin Claret, 2007. p.102.
3. (UFOP-MG) Leia a seguinte afirmativa de Machado de
Assis a respeito de seu conto “A sereníssima república”,
incluído em Papéis avulsos:
“Este escrito (...) é o único em que há um sentido restrito: −
as nossas alternativas eleitorais. Creio que terão entendido isso
mesmo, através da forma alegórica.”
(Machado de Assis, 2006, p.166).
REDIJA um texto, caracterizando a posição do narrador
em relação ao acontecimento narrado em cada um desses
trechos.
Com base na declaração de Machado de Assis, pode-se
afirmar que a alegoria do conto “A sereníssima república”
implica uma sátira política. Justifique.
4. (Fecilcam-PR) É correto afirmar sobre Machado de Assis e
sua obra:
a) As personagens do romance Senhora são apresentadas sob o
ponto de vista psicológico, desnudando-se ante os olhos do
leitor graças à delicada sutileza com que o autor as analisa
e expressa;
b) Estão presentes na prosa machadiana: narrativa passional,
tipos humanos idealizados, disputa entre o interesse
material e os sentimentos mais nobres;
c) Sua obra está diretamente comprometida com a estética
naturalista, marcada pela associação direta entre meio e
personagem e pelo estilo agressivo que está a serviço das
teses deterministas da época;
d) Seus contos, sobretudo a partir de Papéis avulsos, são
obras-primas de análise psicológica, alegorização social e
interpretação das fraquezas humanas;
Seus primeiros romances consagraram-no como um grande
prosador realista, mas a partir de D. Casmurro sua obra
tomou o rumo inesperado da ficção memorialista.
6. (UFPI) Temas gerais da ficção de Machado de Assis
encontram-se na alternativa:
a) a idealização da beleza feminina; o casamento imposto
por alianças familiares; o comportamento insubmisso dos
pobres e oprimidos.
b) a confiança na precisão do conhecimento científico; a
utopia da fraternidade universal e cristã; os sofrimentos
impostos pela vida em sociedade.
c) a nostalgia do passado; a concepção da cultura brasileira
como resultante de três raças; o reconhecimento da
superioridade cultural portuguesa.
d) o patriotismo manifesto nos dramas nacionais; a
peculiaridade da natureza brasileira; a valorização do
sertanejo como representante do homem brasileiro.
e) a reversibilidade da razão e da loucura; a indistinção
entre o fato ocorrido e o que se pensa sobre os fatos; a
divisão imprecisa entre o real e as aparências.
34
7. (UFPI) Leia o texto abaixo.
A notícia dessa aleivosia do ilustre Bacamarte lançou o
terror à alma da população. Ninguém queria acabar de crer
que, sem motivo, sem inimizade, o alienista trancasse na Casa
Verde uma senhora perfeitamente ajuizada, que não tinha outro
crime senão o de interceder por um infeliz.
Assis, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. V. 2.
P. 263
Fundamentando-se no texto acima, escreva V, para
verdadeiro, e F para falso.
( ) Louco é quem for declarado louco por uma autoridade
médica.
( ) A sabedoria e a ciência são remédios contra a insanidade
mental.
( ) O alienado é um indivíduo que perdeu a consciência de si
e da realidade.
a) F - V - F.
b) V - F - F.
c) V - V - F
d) F - F - V
e) V - F – V
A questão 8 explora o texto abaixo:
As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos
vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da
nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e
das Espanhas.
Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos
regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse
em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo
os negócios da monarquia.
— A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego
único; Itaguaí é o meu universo.
Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e
alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras,
e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta
anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora
de vinte cinco anos, viúva de um juiz-de-fora, e não bonita nem
simpática.
Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e
não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disselho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia
condições fisiológicas e atômicas de primeira ordem, digeria
com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e
excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos,
sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, – únicas dignas da
preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de
feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não
corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação
exclusiva, miúda e vulgar da consorte.
D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe
deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a
longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro,
depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da
matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera
para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas
e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen
alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente
com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às
admoestações do esposo; e à sua resistência, - explicável, mas
inqualificável, - devemos a total extinção da dinastia dos
Bacamartes.
ASSIS, Machado de. “O alienista”. ln: Obra completa. Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, 1986, v. 2. p. 254
8. De acordo com o texto, numere a 2ª coluna de forma a
completar corretamente a informação da 1a.
1 Simão Bacamarte não permaneceu na Europa.
2 Simão Bacamarte renunciou aos serviços burocráticos.
3 Simão Bacamarte decidiu desposar D. Evarista.
4 Simão Bacamarte desejou ter filhos.
( 2) Isso o impediria de dedicar-se totalmente aos estudos.
( 3) Essa escolha chocou um de seus tios.
( 1) Lá, ele não desenvolveria seus conhecimentos científicos.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
a) 2 - 3 - 1
b) 2 - 4 - 3
c) 3 - 1 - 2
d) 4 - 2 - 1
e) 1 - 4 – 2
As questões 9, 10 e 11 exploram o texto a seguir:
A aflição do egrégio Simão Bacamarte é definida pelos
cronistas itaguaienses como uma das mais medonhas tempestades
morais que têm desabado sobre o homem. Mas as tempestades
só aterram os fracos; os fortes enrijam-se contra elas e fitam o
trovão. Vinte minutos depois alumiou-se a fisionomia do
alienista de uma suave claridade.
“Sim, há de ser isso”, pensou ele.
Isso é isto. Simão Bacamarte achou em si os característicos
do perfeito equilíbrio mental e moral; pareceu-lhe que possuía
a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a
veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim
que podem formar um acabado mentecapto. Duvidou logo,
é certo, e chegou mesmo a concluir que era ilusão; mas sendo
homem prudente, resolveu convocar um conselho de amigos, a
quem interrogou com franqueza. A opinião foi afirmativa.
— Nenhum defeito?
— Nenhum, disse em coro a assembleia.
— Nenhum vício?
— Nada.
— Tudo perfeito?
— Tudo.
— Não, impossível, bradou o alienista. Digo que não sinto
em mim essa superioridade que acabo de ver definir com tanta
magnificência. A simpatia é que vos faz falar. Estudo-me e nada
acho que justifique os excessos da vossa bondade.
A assembleia insistiu; o alienista resistiu; finalmente o padre
Lopes explicou tudo com este conceito digno de um observador:
— Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades,
que aliás todos nós admiramos?
É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras: - a
modéstia.
Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça, juntamente
alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste. Ato contínuo,
recolheu-se à Casa Verde. Em vão a mulher e os amigos lhe
disseram que ficasse, que estava perfeitamente são e equilibrado:
nem rogos nem sugestões nem lágrimas o detiveram um só
instante.
9. Simão Bacamarte se recolhe à Casa Verde:
a) para alcançar uma cura milagrosa.
35
b)
c)
d)
e)
por reunir em si a ciência e a loucura.
porque ameaçava a segurança pública.
posto que desconfiava das opiniões alheias.
pois contaminaria as pessoas com sua loucura.
10. Assinale V ou F, conforme sejam verdadeiras ou falsas as
afirmações.
( ) A compreensão do que é perfeito equilíbrio é a mesma para
Simão Bacamarte (linha 6) e para a mulher e os amigos
(linha 25).
( ) As reações de Simão Bacamarte, nas passagens “alumiou-se
a fisionomia do alienista de uma suave claridade” (linhas
3 e 4) e “curvou a cabeça ( ... ) mais alegre do que triste”
(linhas 24 e 25), têm como causa, respectivamente, a
descoberta e a confirmação do que ele buscava.
( ) A doutrina nova (linha 27) é resultado de uma pesquisa,
na qual sujeito e objeto são o próprio Simão Bacamarte.
A sequência correta é:
a) F - V - V.
b) F - V - F.
c) F - F - V.
d) V - F - F.
e) V - F - V.
11. No trecho “Ato contínuo recolhe à Casa Verde” (linha 25), a
expressão grifada assegura que Simão Bacamarte:
a) retirou-se, sem demora.
b) decidiu-se após refletir bastante.
c) continuou a conversa antes de recolher-se.
d) dirigiu-se à Casa Verde, como de costume.
e) afastou-se indiferente à opinião dos amigos.
36
CAPÍTULO VI - Sagarana, de Guimarães Rosa
João Guimarães Rosa (1908-1968) é mineiro de
Cordisburgo. Foi médico, diplomata, morou na Alemanha
nazista da década de 30. Mas ficou conhecido mesmo como
escritor. Embora tenha escrito alguns contos ainda na década
de 20 e na seguinte, publicou oficialmente seu primeiro apenas
em 1946. Trata-se exatamente de Sagarana, que apresenta nove
contos:
“O burrinho pedrês”
“A volta do marido pródigo”
“Sarapalha”
“Duelo”
“Minha gente”
“São Marcos”
“Corpo fechado”
“Conversa de bois”
“A hora e vez de Augusto Matraga”
Rosa notabilizou-se por buscar soluções linguísticas diversas
para escrever seus textos literários (contos, novelas, romances).
É conhecido como o mago da linguagem ou da palavra. Não é
difícil perceber isso. Basta uma leitura inicial de qualquer texto
seu. Obviamente que se trata de língua portuguesa, mas não
a comum, a tradicional, e sim uma constante recriação com a
finalidade de repensar o processo de criação literária. Se em um
primeiro momento, isso causa estranheza ao leitor iniciante
de Guimarães Rosa, com o tempo ocorre uma familiaridade
o que facilita a leitura dos textos. O próprio título Sagarana é
indicativo desse trabalho criativo. O termo SAGA é radical de
origem germânica, e significa “canto heroico”; RANA, por sua
vez, é de origem indígena, que significa “à maneira de”. Assim,
temos histórias à maneira de um canto heroico, ao modo épico.
Importante lembrar ainda que épica era a poesia que servia
para narrar e exaltar os feitos heroicos de personagens da
história real, como Ulisses na Ilíada e na Odisseia ou Vasco da
Gama, em Os lusíadas, apenas para citar alguns. A diferença,
porém, é que nos contos de Rosa o herói não é nenhum rei ou
personalidade que entraria para a história apenas por sua função
na sociedade. São pessoas comuns, do interior mineiro e sem
maiores disposições para grandes feitos. Porém, seguindo a visão
moderna de que herói pode ser qualquer cidadão, em qualquer
lugar (lição aprendida, por exemplo, no Ulisses – 1922, de James
Joyce, que narra a odisseia do homem urbano, de classe média e
vida comum em um dia de sua vida), dá destaque para os feitos
de um burrinho ou de um cafajeste, como Augusto Matraga.
Interessante que a referência a Ulisses, personagem de Joyce, se
dá exatamente na história do burrinho pedrês, sobre o qual diz
o narrador:
Mas nada disso vale fala, porque a estória de um burrinho,
como a história de um homem grande, é bem dada no resumo de
um só dia de sua vida. E a existência de Sete-de-Ouros cresceu
toda em algumas horas – seis da manhã à meia-noite – nos
meados do mês de janeiro de um ano de grandes chuvas, no vale
do Rio das Velhas, no centro de Minas Gerais. (p. 18)
O que se verifica nos contos é que há sempre um momento
crucial, uma “hora e vez”, uma “travessia”, ápice da existência,
resumo de seu sentido. Enfim, é a saga do ser humano nos
percalços da vida.
Há no livro a figura de “o contador de estórias”, tal e qual
os rapsodos gregos ou as canções de gesta medievais. Há um
quê de contos de fada, como em “Era um burrinho pedrês...”,
que poderia ser reproduzido em sua fórmula original: “Era uma
vez...”.
Analisemos os contos do livro, começando por “O burrinho
pedrês”. É a história de Sete-de-Ouros, nome do burrinho.
Apesar de ser idoso, sem enxergar direito, Sete-de-Ouros é
escolhido para servir de montaria num transporte de gado. São
cerca de 460 cabeças para se fazer a travessia.
– São só quatro léguas: o João Manico, que é o mais leviano,
pode ir nele. (p. 25)
No início do conto, o narrador tece uma série de elogios à
sabedoria do burrinho, à sua sagacidade e experiência, que lhe
possibilitam fazer algumas escolhas. A ideia é, pois, servir de
lição como símbolo de paciência e persistência.
Para além da história do burrinho, há os conflitos dos
homens. No caso, um dos vaqueiros, Silvino, está com ódio de
Badu, que anda namorando a moça de quem ele gosta. Silvino
pensa em matar o rival durante a travessia para o transporte do
gado.
– [...] O que é, é que eu sei, no certo, mas mesmo no certo,
que Silvino vai matar o Badu, hoje. (p. 29)
Outra complicação do enredo é que se avizinha uma grande
chuva, o que pode fazer transbordar os rios e causar uma grande
enchente.
– “Olha só, vai trovejar...” E Leofredo mostrava o gado:
todos inquietos, olhos ansiosos, orelhas eretas, batendo os
parênteses das galhas altas. – “Não é trovoada. São eles que
estão adivinhando que a gente está na hora de sair...” Mas,
nem bem Sinoca terminava, e já, morro abaixo, chão a dentro,
trambulhavam, emendados, três trons de trovões.” (p. 32)
Ao longo da viagem, os vaqueiros vão contando histórias
variadas, que, de um modo de outro, se inter-relacionam
com a história maior, que é a do burrinho. Sete-de-Ouros vai
aguentando como pode. Ainda mais por sofrer admoestações de
João Manico, que o montava.
– Burrico miserável!... – desabafa João Manico, cravando
as esporas nos vazios de Sete-de-Ouros, que abana a cabeça,
amolece as orelhas, e arranca, nada macio, no seu viageiro
assendeirado, de ângulo escasso, pouca bulha e queda pronta. (p.
36)
Retomando a história de Silvino e Badu, aquele de fato,
mesmo com a proibição do major para qualquer tipo de briga
entre os vaqueiros, em uma artimanha, faz que um boi avance
sobre o Badu, que consegue, com sua experiência, se desvencilhar
do animal e sai ileso.
Já de volta, após a entrega dos bois, a comitiva para em um
bar. Bêbado, Silvino revela a seu irmão como pretendia matar
Badu. Alertado pelos vaqueiros, o major Saulo, líder da tropa,
pede que todos fiquem de olho para evitar o pior.
Ao final, porém, o que se temia ocorre. O córrego da Fome
transborda. Vaqueiros e cavalos se afogam. Salvam-se apenas
37
Badu e Francolim, um montado e outro pendurado no rabo do
burrinho, que se mostra forte e resoluto.
Noite feia! Até hoje ainda é falada a grande enchente da
Fome, como oito vaqueiros mortos, indo córrego abaixo. [...] (p.
78)
Em “A volta do marido pródigo”, de início temos
novamente a presença de um burrinho, não por acaso. Como são
antropomorfizados, tais animais acabam por alegorizar a própria
condição humana, isto é, os aspectos que caracterizam o ser
humano, como a luta pela sobrevivência, (comum a qualquer ser
vivo), a busca do amor, a busca da felicidade, a manutenção de
uma honra, etc. Podem simbolizar ainda o peso da vida, a vida
baseada no trabalho, as dificuldades que ela oferece.
O título é uma clara referência à parábola bíblica do filho
pródigo, isto é, liberal, inconsequente, desajuizado, desobrigado,
gastão, dado ao imediatismo dos prazeres, etc. No caso, é o
marido (Lalino Salathiel), que, cansado da vida doméstica, do
trabalho, resolve partir em busca de novas aventuras e vai para a
cidade grande onde espera encontrar a felicidade na companhia
de belas mulheres, como as que vira em revistas. Em conversa
com seu patrão, diz o que imagina ser:
– Tem lugar lá, que de dia e de noite está cheio de mulheres,
só de mulheres bonitas!... Mas, bonitas de verdade, feito santa
moça, feito retrato de folhinha... Tem de toda qualidade:
francesa, alemanha, turca, italiana, gringa... É só a gente
chegar e escolher... Elas ficam nas janelas e nas portas, vestindo
de pijama... de menos ainda... Só vendo, seus mandioqueiros!
Cambada de capiaus!... (p. 90)
E diz mais ainda, que homens se fantasiam de mulheres no
teatro.
Em outras palavras, se na parábola de Cristo, no que tange à
condição e ao gesto do filho, a ideia é mostrar o arrependimento
do filho liberal, do filho pródigo, no conto de Guimarães Rosa,
não há arrependimentos, apenas se obedece às conveniências
para se dar bem.
“Sarapalha” tem seu enredo passado em um povoado
dizimado pela malária.
Tapera de arraial. Ali, na beira do rio Pará, deixaram
largado um povoado inteiro: casas, sobradinho, capela; três
vendinhas, o chalé e o cemitério; e a rua, sozinha e comprida,
que agora nem mais é uma estrada, de tanto que o manto a
entupiu. (p. 133)
Dois últimos moradores do local resistem. Primo Ribeiro e
primo Argemiro, ambos com malária.
Sabem que vão morrer em breve e resolvem relembrar o
passado, particularmente Luísa, mulher de primo Ribeiro que,
ao manifestar-se a malária, tinha-o abandonado por causa de
outro.
– É isso, Primo Argemiro... Não adianta mais soligar
a ideia... Esta noite sonhei com ela, bonita como no dia do
casamento... E, de madrugadinha, inda bem as garrixas ainda
não tinham pegado a cochichar na beirada das telhas, tive
notícia de que eu ia morrer... Agora mesmo, garrei a ‘maginar’:
não é que a gente pelejou p’ra esquecer e não teve jeito?... Então
resolvi achar melhor deixar a cabeça solta... E a cabeça solta
pensa nela, Primo Argemiro...
E dessa conversa, de lembranças, de delírio causado pela
febre, Primo Argemiro se encoraja e resolve contar um segredo
que trazia consigo, pois quer ter a consciência tranquila ao
morrer. Quando se mudou para a casa de Ribeiro foi pela atração
que sentia por Luísa.
– Você não estará inventando? Onde foi que tu viu isso?
– Ora, seu Marrinha, pois onde é que havia de ser?!... No
Rio de Janeiro! Na capital... (p. 92)
Assim, mesmo tendo uma mulher que o ama, Maria Rita,
quer aventurar-se, quer conhecer a todas. Em sua fantasia chega
a imaginar mais de mil mulheres a sua espera, à espera de quem
fosse até lá... Emprestou dinheiro de um, juntou o que tinha e
partiu para essa aventura.
Maria Rita chora por um tempo, mas depois de três meses
sozinha, acaba por morar com um espanhol, chamado Ramiro.
Lalino não demora muito mais por lá e decide voltar, mas
encontra o outro morando com Ritinha.
Como estava sem moral para expulsar o outro de lá, arma
um plano. Primeiro fala com Oscar, filho do major Anacleto,
chefe político do local. Procura convencer o filho de que é um
novo homem e que poderia ser um cabo eleitoral do Major, com
vistas a ganhar as eleições próximas.
Arma então uma série de intrigas contra o adversário
político, e consegue o sucesso eleitoral do patrão. Reconciliase com a mulher, Maria Rita, que nunca o deixara de amar. A
narrativa aproxima-se das novelas picarescas e um típico exemplo
do malandro, tal e qual o Leonardo Pataca, de Memórias de
um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, ou o
Macunaíma, de Mário de Andrade.
O narrador, em terceira pessoa, não tece julgamentos morais
sobre as atitudes de Lalino, apenas ironiza uma atitude ou outra.
– Eu... eu também gostei dela, Primo... Mas respeitei
sempre... respeitei o senhor... sua casa... Nós somos parentes...
Espera, Primo! Não foi minha culpa, foi má-sorte minha... (p.
150)
Ribeiro reage mal a essa confissão. Implacável, manda
Argemiro embora na hora em que começa a agonia causada pela
febre forte e passa a delirar no meio do mato.
Interessante que a linguagem do conto acompanha o
clima de desgraça e doença, com o desvario dos dois doentes.
Há uma série de reticências, que indicam tanto o temor e o
delírio causados pela doença, quanto os senões das confissões e
lembranças.
Pode-se dizer também que há uma analogia entre a malária
e a mulher. Ambas chegam devagar, invadem tudo. A mulher, o
coração do homem; a doença, todo o seu corpo. E ambas levam
o homem à derrocada.
38
– A moça que eu estou vendo agora ‚ uma só, Primo...
Olha!... É bonita, muito bonita é a Sezão. Mas não quero...
Bem que o doutor, quando pegou a febre e estava variando,
disse... você lembra?... disse que a maleita era uma mulher de
muita lindeza, que morava de-noite nesses brejos, e na hora da
gente tremer era quem vinha... e ninguém não via que era ela
quem estava mesmo beijando a gente... (p. 148)
Em “Duelo”, de novo há uma história de traição. No caso,
Turíbio Todo testemunha a traição de sua mulher com o exmilitar Cassiano Gomes, e faz planos de vingança. Mas o capiau,
o matuto, sabe que não poderia enfrentá-lo de frente, teria que
urdir um plano.
colégio interno. Dissimulada quando quer, dengosa em outros
momentos. Embora tenham sido namorados na infância, algo
nada sério, portanto, Maria se diz noiva de outro homem, mas
não fala isso de modo claro ao narrador, que fica em dúvida da
seriedade da afirmação.
Todavia, como o bom, o legítimo capiau, quanto maior é a
raiva tanto melhor e com mais calma raciocina, Turíbio Todo
dali se afastou mais macio ainda do que tinha chegado, e foi
cozinhar o seu ódio branco em panela de água fria. (p. 159)
– Está mesmo? É sim? De quem?
– Não. Não sei. E depois? – e Maria Irma riu, com rimas
claras. (p. 208)
Fez-se dissimulado com a mulher, para ela não saber que ele
sabia de tudo. Enquanto isso preparara sua vingança. Queria
matar o oponente pelas costas. No entanto, no dia que arma
para isso, erra o alvo e acaba por assassinar o irmão de Cassiano,
Levindo Gomes, que, de costas era semelhante ao irmão.
Desse modo, a guerra entre eles está armada, e inicia-se uma
perseguição mútua. Cassiano, porém, fica doente e falece. Antes,
confidencia seu intento a um capiau que ajudara, chamado
Vinte-e-Um.
Turíbio, que se encontrava distante do local, sabe da morte
do adversário.
Turíbio Todo soube da boa notícia, por uma carta da
mulher, que, agora carinhosa, o invocava para o lar. (p. 182)
O problema é que, ao retornar a casa, não tem como fugir do
destino que já sabia traçado. Mesmo tendo morrido Cassiano,
Vinte-e-um resolve cumprir o que Cassiano não pôde. E mata
Turíbio Todo com uma garrucha.
O conto tem como foco discutir o destino, mesmo que se
lute contra ele, é difícil fugir dele. É algo inexorável, presente em
diversos contos de Guimarães Rosa.
O conto “Minha gente” tem início com o narrador, chamado
por um guia de doutor, que está em viagem à fazenda de um
tio, chamado Emílio. No caminho, encontra Santana, a quem já
conhecia. Culto (conhece Literatura grega e Filosofia), tem por
hábito jogar xadrez, mesmo andando a cavalo.
E Santana estende-me a carteirinha, porque há também
a carteirinha, o xadrezinho de bolso, que eu me esquecera de
mencionar; tão permanente na algibeira do meu amigo como os
óculos de um míope na cara de um míope. (p. 193)
Cavalgam juntos até o destino de Santana, no Tucanos.
O guia se chama José Malvino, que vai instruindo o narrador
sobre as coisas do sertão, sobre a natureza e a vida local. Tem o
conhecimento do mundo local, sabe ler os sinais que a natureza
oferece e se torna “professor” do doutor e de Santana.
– Que é que você está olhando, José?
– É o rastro, seu doutor... Estou vendo o sinal de passagem
de um boi arribado. [...] Olha só: ali ele trotou mais devagar...
– Mas, como é que você pode saber isso tudo, José? (p. 199)
Já na fazenda do tio Emílio do Nascimento, por ter nascido
no dia de Natal, o narrador conta que o tio havia deixado sua
simplicidade interiorana ao entrar para a política. Tornou-se
mais refinado, mas um refinamento local, nada além disso.
Por fim, surge a principal figura do conto, Maria Irma, filha
de Emilio, por quem o narrador se apaixona. Porém, não é moça
simples, do tipo capiau, caipira. Mesmo porque estudara em
Ela se revela uma hábil jogadora de xadrez da vida, isso
porque avança, recua no contato com o primo, mas com
outro objetivo, o de fazê-lo se casar com Armanda, filha de
um fazendeiro da região. O narrador, por sua vez, investe para
se casar com a própria Maria, que era apaixonada por outro
homem, Ramiro, na verdade namorado de Armanda. Ele trazia
livros para Maria.
O plano, portanto, de Maria, que ainda não era noiva
quando disse isso a seu primo, era afastar Armanda de seu
caminho, colocando-a no caminho de outro, no caso o próprio
primo.
O problema é que o narrador está apaixonado pela prima,
e faz de tudo para conquistá-la. Por outro lado, devido à sua
cultura letrada, mais do que ver Maria com uma mulher real,
ele a vê segundo a ótica das mulheres literárias, das heroínas de
romances, em sua docilidade e paixão.
Dormi mal, acordei de saudades, corri para junto de Maria
Irma. Antes não o tivesse feito: quanto mais eu pelejava para
assentar o idílio, mais minha prima se mostrava incomovível,
impassível, sentimentalmente distante. (p. 225)
E o jogo se estabelece. As peças do tabuleiro são movidas,
sempre com mais habilidade por Maria Irma.
Paralelamente a essa história, seu tio Emílio pede-lhe que o
ajude com cartas a correligionários, de modo a tentar o controle
da política local, o que no fim também não ocorre.
O narrador tem de se ausentar por um tempo. Quando
retorna, vai logo procurar Maria Irma, que está com Armanda.
Após preparar o terreno, deixa os dois sozinhos. E não demora,
Maria Irma consegue o que queria: o primo pede a mão de
Armanda em casamento.
E foi assim que fiquei noivo de Armanda, com quem me
casei, no mês de maio, ainda antes do matrimônio da minha
prima Maria Irma com o moço Ramiro Gouveia. (p. 238)
Outras personagens aparecem no texto, de forma secundária.
É o caso de Bento Porfírio, que comete adultério com de-Lurde
e é assassinado pelo esposo dela, Alexandre.
“São Marcos” também é narrado em primeira pessoa.
O narrador é um médico jovem, como era o próprio João
Guimarães Rosa, antes de se tornar embaixador e escritor. Chega
ao Calango-Frito. Autonomeia-se supersticioso. Apesar disso,
não acredita em feitiçaria e vive caçoando de um curandeiro
e feiticeiro local – o João Mangolô. Outras pessoas estavam
igualmente envolvidas em feitiçaria, como Nhá Tolentina, Dona
Cesária e o menino Deolindinho.
39
Uma barbaridade! Até os meninos faziam feitiço, no
Calango-Frito. (p. 243)
Certo domingo, o narrador passa perto da cafua de João
Mangolô e zomba do curandeiro.
– Ó Mangolô!: “Negro na festa, pau na testa!...” (p. 246)
O narrador, médico em Laginha, conversa com Manuel Fulô,
que era filho do Peixoto, mas adotado pela família Veigas, no
sentido de ter os cuidados de uma família importante do local.
Era na verdade mulato e gostava da amizade com o médico, o
que lhe conferia mais respeito diante das pessoas comuns.
Depois, encontrou Aurísio Manquitola. O narrador começou
a zombar das crendices de novo, iniciando uma oração malvista
a São Marcos. Aurísio não gostou e pediu para que parasse.
– Vou lhe contar, seu doutor: sou filho natural do Nhô
Peixoto! O senhor não reparou que eu não sou branquelo nem
perrengue como estes Veigas?... Meu pai é meu pai por cortesia, e
eu respeito... (p. 281)
– Para, creio-em-deus-padre! Isso é reza brava, e o senhor
não sabe com o que é está bulindo!... (p. 247)
E passou a contar histórias de pessoas que tiveram problemas
com essa reza, como o Gestal da Gaita, o Compadre Silvério, o
Tião Tranjão, o Cypriano, o Felipe Turco, entre outros.
Em seguida, embrenha-se de novo no mato, absorto na
contemplação da natureza. E se depara com versos grafados no
bambu. Responde com outros versos.
No domingo seguinte, volta ao bambuzal onde há novos
versos. Como não sabe quem é, chama-o de “Quem-Será”,
que fica sendo seu melhor amigo na região. Na verdade, estava
perdido ali, fruto do feitiço por ter iniciado a reza de São
Marcos. Na floresta, passa a explorá-la, conhecê-la. Porém, em
dado momento, outra coisa lhe sucede, fica cego.
E, pois, foi aí que a coisa se deu, e foi de repente: como uma
pancada preta, vertiginosa, mas batendo de grau em grau – um
ponto, um grão, um besouro, um anu, um urubu, um golpe de
noite... E escureceu tudo. (p. 261)
Fica mais perdido do que estava, tentando entender o que se
passava. Usa de outros sentidos para tentar se localizar: o tato, o
olfato, a audição.
Tão claro e inteiro me falava o mundo, que, por um
momento, pensei em poder sair dali, orientando-me pela escuta.
(p. 264)
Foi então que decidiu que o melhor a fazer seria rezar a tal
reza brava de São Marcos de novo. De repente, começa a ouvir
vozes, era do Mangalô, e tudo se esclareceu. Para se vingar das
caçoadas, fez um feitiço, colocando vendas em um boneco para
assim cegar o médico. Não querendo dar o braço a torcer, diz
que de nada adiantou com ele, que tinha o santo forte.
O conto explora, pois, a crendice popular, sem querer
confirmar aquilo em que o povo acredita, nem negar. A ideia
é explorar a poeticidade de toda essa magia. Mostrar a força
criadora da crendice, que acaba por se coadunar com a força
criativa da literatura. Ambas inventam mundos, que talvez
existam de fato, se pensamos com os objetivos do conto.
“Corpo fechado” trata também de feitiçaria, mas sob outra
óptica. O narrador é novamente um médico, algo recorrente
na literatura de Guimarães Rosa, que ouvia muitas histórias
em suas andanças pelo sertão mineiro. O foco do conto é tratar
dos valentões da região, o mais respeitado e temido. No caso,
Manuel Fulô, com quem o médico conversa e fica sabendo de
histórias diversas sobre aspirantes a valentões.
José Boi, Desidério, Miligido, Dejo... Só podia haver um
valentão de cada vez. Mas o último, o Targino, tardava em
ceder o lugar. (p. 275)
Vivera com os ciganos, não gostava de trabalhar, vivia
de pequenos golpes; era noivo, mas pensava em ter um arreio de
gaúcho, para poder cavalgar por mais tempo, sem cansar em sua
mula Beija-Fulô, maior orgulho e paixão de Manuel.
... Quando eu larguei a ciganagem, vim p’r’aqui p’r’o
arraial, negociar por minha conta. Aí foi que eu ganhei um
dinheirão. Merenguém bonito...
– Lesando os outros Manuel? (p. 285)
Manuel conta toda sua vida ao doutor enquanto bebem
cerveja. Targino, o então valentão do local, aparece no bar e diz
a Manuel que iria se deitar com das-Dor, a noiva de Manuel.
Apenas após isso, é que eles poderiam se casar.
O doutor decide ajudá-lo, diz que irá encontrar uma
estratégia para vencer a valentia de Targino. Ninguém tinha a
coragem de ajudar, porém. Todos o aconselhavam a deixar como
estava. Targino faria o que tinha de fazer e depois era seguir a
vida em paz.
Nesse momento é que o título do conto se justifica. Antonico
das Pedras, feiticeiro do local, a quem o doutor abomina, se
oferece para ajudar e, em troca da mula, fecha o corpo de
Manuel.
E assim enfrenta Targino e, para espanto de todos, mata-o
com uma faquinha do tamanho de um canivete.
O casamento com a das-Dor se realiza e o médico é
convidado para ser o padrinho. Torna-se, pois, o valentão
do lugar. E é o último, pois em seguida é destacado um
policiamento para o local. Invertendo a lógica, ou o ditado, a
última impressão é a que fica.
Em “Conversa de bois”, que pela temática remete o leitor
inicialmente à história do burrinho pedrês. O narrador não
presenciou o que será relatado, mas ouviu de Manuel Timbora,
que ouviu de Risoleta, testemunha do narrado. Como isso
sugere o ditado “quem conta um conto aumenta um ponto”, o
narrador já pede licença para contar a história a seu modo.
– Só se eu tiver licença de recontar diferente, enfeitado e
acrescentado ponto e pouco... (p. 303)
Afinal, o que é a literatura senão algo inventivo, ficção?
A história é sobre uma travessia pelo sertão, durante um
dia todo, de um carro com oito bois – Buscapé e Namorado,
Capitão e Brabagato, Dançador e Brilhante, Realejo e Canindé
–, conduzido por um menino, chamado Tiãozinho. Ele está
muito triste. No carro, está Agenor Soronho, homem cruel.
Levam o cadáver do pai de Tiãozinho, seo Jenuário, falecido
naquela manhã após longa enfermidade. O que explica a tristeza
de Tiãozinho. Agenor Soronho era amante da mãe de Tiãozinho.
O menino chora pela morte do pai e também pelo adultério da
mãe. Além disso, é ultrajado por Soronho.
40
O ponto central é a discussão entre os oito bois e outros que
encontram pelo caminho. Para uma estranheza do leitor (embora
já acostumado com o maravilhoso, fantasioso, feitiçarias, força de
um burrico, etc., dos contos anteriores), os bois refletem sobre o
mundo dos homens e tecem comentários os mais diversos sobre
o bicho homem, porque convivem com ele.
– Podemos pensar como o homem e como os bois. Mas é
melhor não pensar como o homem...
– É porque temos de viver perto do homem, temos de
trabalhar... Como os homens... Por que é que tivemos de
aprender a pensar?
– É engraçado: podemos espiar os homens, os bois outros...
– Pior, pior... Começamos a olhar o medo... o medo grande
e a pressa... O medo é uma pressa que vem de todos os lados,
uma pressa sem caminho... É ruim ser boi de carro. É ruim
viver perto dos homens... As coisas ruins são do homem: tristeza,
fome, calor – tudo pensado é pior... (p. 311)
Os bois discutem as injustiças que os homens praticam com
os animais, lembram-se do caso envolvendo o boi Rodapião,
que morrera por decifrar o pensamento dos homens. Brilhante é
quem conta toda a história, que serve para mostrar como a razão
humana é insuficiente para explicar o mundo a sua volta.
Também analisam o que se passava com Tiãozinho,
compadecendo-se dele. Ao passo que Agenor é visto como vilão
da história.
Ao chegarem a uma ladeira chamada Morro-do-Sabão,
Agenor encontra, espatifado, o carro da Estiva, carreado por
João Bala. Como os bois estavam com medo de prosseguir,
Agenor passa a bater neles até sangrarem, o que causa a revolta
dos animais.
Por isso, percebendo que era o desejo de Tiãozinho também,
resolvem fazer justiça. Soronho estava no carro de bois; como
parecia dormir, os bois fizeram um movimento, Soronho
desequilibrou-se. No chão, a roda do carro passou sobre seu
pescoço, matando-o.
O conto pode ser lido como metáfora da luta entre razão e
instinto. Isso porque há um jogo entre o que é ser racional de
fato (os homens como Soronho?) e o que é ser irracional, ilógico
(os bois?).
O que Guimarães Rosa busca com histórias assim
é questionar as verdades absolutas, os preceitos morais
estabelecidos, para levar o leitor a ter outra visão, uma visão mais
ampla da vida, ainda mais na época em que escreveu, marcada
pelos totalitarismos, de esquerda, de direita na década de 1940.
O último conto do livro, “A hora e a vez de Augusto
Matraga”, é a história de um valentão arrependido. Matraga ou
Augusto Esteves, ou ainda Nhõ Augusto, era filho do Coronel
Afonsão Esteves.
Como o Targino de “Corpo fechado”, pegava mulheres
casadas e noivas, sem que alguém ousasse a enfrentá-lo. Embora
fosse casado, Dona Dionora, e tivesse uma filha, Mimita, pouco
se importava com elas.
Com a morte do pai, tudo piora para Augusto, pois perde
o poder e o respeito da família, além de gastar todo o dinheiro
para seu bel-prazer.
Agora, com a morte do Coronel Afonsão, tudo piorara,
ainda mais. Nem pensar. Mais estúrdio, estouvado e sem regra,
estava ficando Nhô Augusto. E com dívidas enormes, política
do lado que perde, falta de crédito, as terras no desmando, as
fazendas escritas por paga, e tudo de fazer ânsia por diante, sem
portas, como parede branca. (p. 346)
Por isso, não demora muito, Dionora foge com outro
homem, Ovídio Moura, levando Mimita.
Dionora amara-o três anos, dois anos dera-os à dúvidas, e o
suportara os demais. Agora, porém, tinha aparecido outro. Não,
só de por aquilo na ideia, já sentia medo... Por si e pela filha...
Um medo imenso. (p. 346)
Matraga, sozinho, sem dinheiro, sem mulher, resolve
trabalhar para seu principal rival, o Major Consilva Quim
Recadeiro. Queria reunir forças para se vingar da mulher, mas
quando viajava em busca dela, é surpreendido por antigos rivais
que lhe fazem uma emboscada. Para fugir da morte, cai em um
desfiladeiro e é dado como morto por seus inimigos. E aí começa
sua redenção. Isso porque é salvo por um casal, Mãe Quitéria e
pai Serapião, que o levam para cuidar de seus ferimentos.
Inspirado nas palavras de um padre, arrepende-se de seus
pecados, converte-se e passa a rezar para conseguir o perdão
divino.
– Eu acho boa essa ideia de se mudar para longe, meu filho.
Você não deve pensar mais na mulher, nem em vinganças.
Entregue para Deus, e faça penitência. Sua vida foi entortada
no verde, mas não fique triste, de modo nenhum, porque a
tristeza é aboio de chamar o demônio, e o Reino do Céu, que é
o que vale, ninguém tira de sua algibeira, desde que você esteja
com a graça de Deus, que ele não regateia a nenhum coração
contrito!
– Fé eu tenho, fé eu peço, Padre... (p. 356)
Mesmo tendo descoberto onde se encontravam sua ex-esposa
e sua filha, resolve deixá-las em paz, pois certamente estariam
melhor sem ele. Prova de seu arrependimento. Sabia que tinha
sido muito ruim para elas.
Tudo caminhava bem, até a chegada ao vilarejo Tombador
do bando do jagunço Joãozinho Bem-Bem.
O povo não se mexia, apavorado, com medo de fechar as
portas, com medo de ficar na rua, com medo de falar e de ficar
calado, com medo de existir. Mas Nhô Augusto, que vinha de
vir do mato, carregando um feixe de lenha para um homem
chamado Tobias da Venda, quando soube do que havia, jogou a
carga no chão e correu ao encontro dos recém-chegados. (p. 365)
Matraga hospeda e serve aos jagunços. Admira-se com as
armas dos jagunços. Por sua presteza, falta de medo, Bem-Bem o
convida a se juntar ao grupo. Augusto fica tentado, mas prefere
sua nova vida, quieta e religiosa.
De qualquer modo, Matraga e Bem-Bem juram amizade
eterna, pela gratidão mútua. Houve uma identificação pronta.
Depois desse episódio, Matraga fica pensando em sua vida e
resolve ir embora. Em um burro corta o sertão. Por acaso, volta
a se encontrar com Joãozinho Bem-Bem e seu bando. Estão está
prestes a matar a família do assassino de um de seus homens,
mas como não encontram a quem queriam, resolvem matar as
mulheres e as crianças.
Matraga se interpõe entre Joãozinho e a família.
41
– Não faz isso, meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem, que o
desgraçado do velho está pedindo em nome de Nosso Senhor e da
Virgem Maria! E o que vocês estão querendo fazer em casa dele
é coisa quem nem Deus não manda e nem o diabo não faz! (p.
382)
Diante do inevitável, Matraga mata os capangas de BemBem, depois atraca-se com Joãozinho numa briga de facas.
Ambos morrem no combate.
A cena é ao mesmo tempo épica e dramática, pelo que tem
de heroico e de exemplar para os que assistem à cena.
E aí o povo encheu a rua, à distância, para ver. Porque não
havia mais balas, e seu Joãozinho Bem-Bem mais o Homem do
Jumento tinham rodado cá para fora da casa, só em sangue e em
molambos de roupas pendentes. E eles negaceavam e pulavam,
numa dança ligeira, de sorriso na boca e de faca na mão. (p.
384)
C) Primo Ribeiro, de Sarapalha.
D) João Mangolô, de São Marcos.
E) Augusto Matraga, de A hora e vez de Augusto Matraga.
3. (UEL-PR) O trabalho com a linguagem por meio da
recriação de palavras e a descrição minuciosa da natureza, em
especial da fauna e da flora, são uma constante na obra de
João Guimarães Rosa. Esses elementos são recursos estéticos
importantes que contribuem para integrar as personagens
aos ambientes onde vivem, estabelecendo relações entre
natureza e cultura. Em Sarapalha, conto inserido no livro
Sagarana, de 1946, referências do mundo natural são usadas
para representar o estado febril de Primo Argemiro.
Com base nessa afirmação, assinale a alternativa em que
a descrição da natureza mostra o efeito da maleita sobre a
personagem Argemiro:
A) “É aqui, perto do vau da Sarapalha: tem uma fazenda,
denegrida e desmantelada; uma cerca de pedra seca, do
tempo de escravos; um rego murcho, um moinho parado;
um cedro alto, na frente da casa; e, lá dentro uma negra,
já velha, que capina e cozinha o feijão.”
B) “Olha o rio, vendo a cerração se desmanchar. Do colmado
dos juncos, se estira o voo de uma garça, em direção à
mata. Também, não pode olhar muito: ficam-lhe muitas
garças pulando, diante dos olhos, que doem e choram, por
si sós, longo tempo.”
C) “É de-tardinha, quando as mutucas convidam as
muriçocas de volta para casa, e quando o carapana mais
o mossorongo cinzento se recolhem, que ele aparece, o
pernilongo pampa, de pés de prata e asas de xadrez.”
D) “Estava olhando assim esquecido, para os olhos... olhos
grandes escuros e meio de-quina, como os de uma
suaçuapara... para a boquinha vermelha, como flor de
suinã...”
E) “O cachorro está desatinado. Para. Vai, volta, olha,
desolha... Não entende. Mas sabe que está acontecendo
alguma coisa. Latindo, choramingando, chorando, quase
uivando.”
Ambos morrem na batalha, mas Matraga, já transformado,
sabe morrer e reconhece o valor de seu oponente, a quem deseja
apenas o bem, pelo respeito que lhe tem.
O título sugere que ninguém foge de seu destino, ideia
presente em outros contos do livro. Matraga não morreu na
emboscada posto que ainda precisava recuperar sua honra.
Redimido, tem uma morte grandiosa, pública, que funciona
como expiação de seus pecados. Augusto deixa de ser visto como
o valentão, o pecador, o pródigo, para ser elevado à categoria de
herói do sertão. É a sua hora, a sua vez, o seu destino.
Exercícios
1. (UEL-PR) Em 1937, João Guimarães Rosa participou de
concurso de contos promovido pela Editora José Olympio.
A obra entregue intitulava-se Contos. Coube-lhe o segundo
lugar. Em dezembro do mesmo ano, o autor cuidou de
encaderná-la, intitulando-a Sezão, conforme originais
presentes no Arquivo Guimarães Rosa, do Instituto de
Estudos Brasileiros. Em 1945, reviu-a e atribuiu-lhe o nome
definitivo: Sagarana. Sabendo-se que “sezão” significa “febre
intermitente ou cíclica”, conclui-se que, em 1937, o nome
da obra esteve diretamente vinculado ao seguinte conto:
a) “A hora e a vez de Augusto Matraga”, pois o protagonista,
depois da surra que leva dos empregados do Major
Consilva, é acometido pela malária.
b) “O burrinho pedrês”, posto que Sete-de-Ouros, depois da
travessia do Córrego da Fome, foi acometido pela malária.
c) “Sarapalha”, visto que aí se depara o leitor com dois
primos acometidos pela malária a ajustarem velhas contas.
d) “O burrinho pedrês”, porque Sete-de-Ouros vive numa
fazenda na qual a malária acometeu os moradores.
e) “Sarapalha”, uma vez que aí se estabelece o diálogo de dois
primos a rememorarem Luísa, morta em decorrência da
malária.
2. (Fuvest) Ao dizer: “(...) promessa é questão de grande
dívida de honra”, Olímpico junta, em urna só afirmação,
a obrigação religiosa e o dever de honra. A personagem
de Sagarana que, em suas ações finais, opera uma junção
semelhante é:
A) Major Saulo, de O burrinho pedrês.
B) Lalino, de Traços biográficos de Lalino Salãthiel ou A
volta do marido pródigo.
4. (PUC-SP) O conto “Conversa de bois” integra a obra
Sagarana, de João Guimarães Rosa. De seu enredo como um
todo, pode afirmar-se que:
A) os animais justiceiros, puxando um carro, fazem uma
viagem que começa com o transporte de uma carga de
rapadura e um defunto e termina com dois.
B) a viagem é tranquila e nenhum incidente ocorre ao longo
da jornada, nem com os bois nem com os carreiros.
C) os bois conversam entre si e são compreendidos apenas
por Tiãozinho, guia mirim dos animais e que se torna
cúmplice do episódio final da narrativa.
D) a presença do mítico-lendário se dá na figura da irara,
“tão séria e moça e graciosa, que se fosse mulher só se
chamaria Risoleta” e que acompanha a viagem, escondida,
até à cidade.
E) a linguagem narrativa é objetiva e direta e, no limite,
desprovida de poesia e de sensações sonoras e coloridas.
5. (Unemat-MG) Uma das atitudes na criação literária de
Guimarães Rosa era incluir em seus contos peças da cultura
popular ou criar ao seu molde. Leia as quadrinhas extraídas
do conto “A hora e vez de Augusto Matraga”, do livro
Sagarana (1969).
42
1 - “Mariquinha é como a chuva:
boa e p’ra quem quer bem!
Ela vem sempre de graça,
só não sei quando ela vem...” (p.321)
2 - “O terreiro lá de casa
não se varre com vassoura:
Varre com ponta de sabre,
bala de metralhadora...” (p.350)
3 - “A roupa lá de casa
não se lava com sabão:
lava com ponta de sabre
e com bala de canhão...” (p.354)
Assinale a alternativa correta.
a. Os versos não têm nenhuma relação com a história que
está sendo contada.
b. O conto de Guimarães Rosa é narrado em forma de versos.
c. Alguns versos servem apenas para demonstrar a valentia de
Augusto Matraga.
d. As quadrinhas contribuem para caracterizar as
personagens da história de Matraga.
e. Guimarães Rosa define a matéria das quadrinhas
populares como único recurso de sua criação literária.
43
CAPÍTULO VII - Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente
Gil Vicente (1465-1523?) é tido como iniciador do teatro
em Portugal. Embora se encenassem peças anteriormente à
primeira obra de Vicente, isso em 1502, nada restou do teatro
pré-vicentino. Inserido no contexto do Humanismo, deixou
como legado uma obra que vai do religioso e sério ao profano
e cômico. Escreveu autos, farsas, pastoris, mas seguindo a visão
humanista de tratar não apenas de questões divinas ou em
torno delas, como acontecera na produção literária medieval,
mas também de questões humanas, de teor burguês, ao mesmo
tempo que nobre.
Em Farsa de Inês Pereira, temos exatamente a história de
uma moça que tem aspirações românticas (burguesa) de se casar
por amor ou ao menos ter a liberdade de escolher com quem
iria se casar, mas acaba se dando melhor com um casamento
arranjado, tão comum na sociedade de base aristocrática e
medieval.
A peça foi apresentada pela primeira vez para o rei D. João
III, em 1523, ano da provável morte do dramaturgo e foi escrita
em português, mas com presença do galego-português, uma
mistura entre o espanhol e o português propriamente dito.
O Humanismo é marcado pela nomeação de Fernão Lopes
na função de Guarda-Mor da Torre do Tombo (1418). Com
isso, Lopes deveria registrar a História de Portugal e zelar
pelos documentos do reino. Houve diversas mudanças no
plano político-econômico, com as descobertas marítimas na
passagem do século XV para o XVI, bem como a revalorização
da cultura greco-romana, com novos ideais de beleza estética e
de concepção filosófica, entre os quais, maior importância à vida
terrena, em detrimento da visão teocêntrica medieval.
É, pois, no fim desse cenário de mudanças que Gil Vicente
aparece para a literatura. Seu teatro não é clássico no sentido
de obedecer aos preceitos definidos pelos gregos antigos, nem
exclusivamente medieval, no sentido de obedecer aos preceitos
eclesiásticos. É uma mescla, cujo sentido se amplia também
para a mistura entre a comicidade e a seriedade com que trata
os temas, assim como para a mistura entre o popular e o erudito.
Nesse sentido, Farsa de Inês Pereira revela a preocupação
de Vicente em discutir questões humanas, especialmente
como as escolhas, boas ou ruins, trazem consequências
positivas ou negativas, mas são importantes para o processo de
amadurecimento do indivíduo. Com isso, o dramaturgo faz uma
análise do comportamento humano com base em valores mais
temporais que propriamente em uma visão puramente religiosa.
A peça foi escrita para exemplificar um ditado popular
da época: Mais quero asno que me carregue que cavalo que me
derrube. Toda a trama gira em torno de Inês Pereira e seu desejo
de se casar com alguém de quem ela goste de fato, que seja
galante, inteligente, que saiba fazer rimas, saiba cantar.
INÊS:
Porém, não hei-de casar
Senão com homem avisado
Ainda que pobre e pelado,
Seja discreto em falar
Pelado significa sem grandes posses, sem roupas boas;
e avisado, que seja alguém que saiba falar de modo elegante e
educado. Um homem com essas qualidades, naquele momento,
só poderia ser um nobre, ainda que decadente, sem fortuna.
A peça se inicia com Inês lamentando sua sorte, pois queria
ter uma vida com mais graça, mais aventura e não apenas ficar
em casa limpando, lavando. É uma vida doméstica comum, do
tipo burguesa, mas seu sonho mesmo era viver como uma dama
da corte, sendo bajulada com versos a todo instante, vivendo
em um mundo de fantasias e adornos. Trata-se, pois, de um
contraponto entre a vida burguesa e a da nobreza.
INÊS:
Coitada, assi hei-de estar
Encerrada nesta casa
Como panela sem asa,
Que sempre está num lugar?
E assi hão-de ser logrados
Dous dias amargurados,
Que eu possa durar viva?
E assim hei-de estar cativa
Em poder de desfiados?
A solução para isso é, com efeito, o casamento. Lianor Vaz,
uma alcoviteira, propõe a Inês que se case com Pero Marquez,
um homem simples, rude, burguês e que tinha dinheiro. Diz
Lianor sobre o pretendente:
Eu vos trago um bom marido,
Rico, honrado, conhecido.
Diz que em camisa vos quer
Em camisa, isto é, que tem posses, por oposição ao pelado
dos versos anteriores. Lianor traz uma carta de Marquez, em
que faz formalmente o pedido. Inês, porém, não gosta dele,
sobretudo pela maneira rude como ele lhe escreve.
INÊS:
Des que nasci até agora
Não vi tal vilão com’este,
Nem tanto fora de mão!
Vilão no sentido de morador de vila, no interior, e não em
uma cidade grande ou mesmo na capital. Apesar da insistência
de Lianor para que o aceite como marido, Inês prefere esperar,
prefere ter a chance de escolher outro marido, de acordo com
o que sonhava para si mesma. Se isso poderia hoje ser visto
como algo positivo, pelo que tem de escolha individual, à época
tal prática era condenável, sobretudo porque se deveria tomar
o casamento como uma relação social, mais do que satisfação
amorosa. O ideal, claro, era unir as duas possibilidades. Inês,
porém, é descrita como leviana, ociosa, querendo viver para o
prazer apenas.
Sob o ponto de vista pragmático, de se buscar um casamento
mais satisfatório, Pero Marques seria mesmo a solução, mas não
para Inês que preferia o regozijo sentimental, o prazer de uma
vida a dois, a ascensão social, a despeito do conselho de Lianor:
Queres casar a prazer
No tempo d’agora, Inês?
Antes casa, em que te pês,
Que não é tempo d’escolher.
Por se tratar de uma farsa, a ideia é fazer rir, com o objetivo
último de educar os espectadores, defender determinados
44
valores. Depois de ler a carta e dispensar o pretendente, ele
próprio aparece para ouvir dela a resposta. No entanto, como
meio de mostrar sua simplicidade, fica em dúvida em como deve
se sentar numa cadeira, uma vez que onde morava não se tinha o
costume de utilizá-las:
um escudeiro que, embora revele ser nobre, é pobretão e vê no
casamento uma solução para sua vida. Isso fica muito claro na
conversa que tem com seu criado, a quem pede discrição e ajuda
para que consiga se casar.
ESCUDEIRO:
E se me vires mentir
Gabando-me de privado,
Está tu dissimulado,
Ou sai-te pera fora a rir
Isto te aviso daqui,
Faze-o por amor de mi.
MÃE: Tomai aquela cadeira.
PÊRO: E que val aqui uma destas?
INÊS: (Ó Jesu! que João das bestas!
Olhai aquela canseira!)
Assentou-se com as costas pera elas, e diz:
PÊRO: Eu cuido que não estou bem...
Trazia presentes a ela, frutas, mas que se perderam no
caminho, mostra-se ingênuo, imaginando que Inês era moça
e totalmente disponível para o casamento. Ao final da peça,
porém, ficamos sabendo que ela já havia tido seus namoros
ocasionais.
Mesmo ante a recusa de Inês, Pero Marques mostra-se
disposto a se casar apenas com ela e afirma:
PÊRO:
Não vos anojarei mais,
Ainda que saiba estalar;
E prometo não casar
Até que vós não queirais.
O moço vê com desconfiança, pois sabia que o escudeiro era
pouco confiável. Mesmo sem querer muito, acaba por auxiliá-lo
e consegue uma viola para que o escudeiro impressione Inês.
ESCUDEIRO:
Oh que boas vozes tem
Esta viola aqui!
Leixa-me casar a mi,
Depois eu te farei bem.
O escudeiro então se apresenta à Inês e faz um discurso
elogioso à possível noiva, revelando-se de acordo com o que ela
buscava.
Em seguida, Inês recebe dois judeus, Ladão e Vital,
ditos casamenteiros. São antes bajuladores e enganadores. É
importante dizer que, ao longo dos tempos, os judeus foram alvo
de todo tipo de preconceito, normalmente descritos de modo
negativo. Gil Vicente participa dessa visão.
A função dos dois é, com base em um pagamento realizado
por Inês, encontrar um pretendente a se casar com ela, segundo
seu ideal de marido, ou seja, um homem tocador de viola, bem
falante e de comportamento cortês.
Mais uma vez, para criar um efeito cômico, apresenta-os
como atrapalhados, enrolados e simpáticos até certo ponto. O
objetivo, porém, é o de criticar a prática, especialmente porque
não cumpriram o que prometeram. Revelam-se ardilosos e
bajuladores, apenas para conseguir o que desejam, no caso que
Inês aceite o pretendente escolhido.
Ao contrário de Lianor, Ladão elogia o desejo de Inês por
querer se casar não exatamente por arranjo e sim por querer
sentir algo a mais pelo homem com quem irá se casar. É preciso,
porém, olhar com ressalva, pois Inês não é propriamente uma
mulher romântica. O que deseja é unir o útil ao agradável.
Tanto melhor se o futuro marido for alguém de quem ela goste,
mas o que importa também é a possibilidade de sair de uma vida
medíocre e sem maiores perspectivas.
VIDAL:
Vós amor, quereis marido
discreto e de viola...
LATÃO:
Esta moça não é tola,
que quer casar por sentido...
ESCUDEIRO:
Antes que mais diga agora
Deus vos salve, fresca rosa,
E vos dê por minha esposa,
Por mulher e por senhora;
Que bem vejo
Nesse ar, nesse despejo,
Mui graciosa donzela,
Que vós sois, minha alma, aquela
Que eu busco e que desejo
[...]
ESCUDEIRO:
Eu não tenho mais de meu,
Somente ser comprador
Do Marechal meu senhor
E sou escudeiro seu.
Sei bem ler
E muito bem escrever
E bom jogador de bola,
E, quanto a tanger viola,
Logo me ouvireis tanger
A mãe de Inês não vê o casamento com escudeiro de modo
positivo, seja porque não gostou da figura, seja porque foi
achado dos judeus. Ela representa, no caso, a voz da consciência
a que Inês, como qualquer jovem, não ouve bem, posto que está
fixa em sua ideia.
Discreto está diretamente ligado à ideia de nobreza, não
propriamente ao conceito de pessoa reservada.
Os judeus relatam a dificuldade de se encontrar um noivo
nessas condições, mas acabam por apresentar Brás da Mata,
45
MÃE:
Agora vos digo eu
Que Inês está no Paraíso!
INÊS:
Que tendes de ver com isso?
Todo o mal há-de ser meu.
MÃE:
Quanta doidice!
Inês Pereira, mesmo sem o apoio da sua mãe, acaba por se
casar com Brás da Mata, a quem julgava ser o marido ideal e
sonhado.
marido. Lianor aproveita e sugere a Inês que se case com o
pretendente anterior, Pero Marques, que herdara um bom
dinheiro e propriedades. Inês vê então a chance de consertar o
erro do primeiro casamento e busca, pois, em Pero o “asno que
me carregue”.
INÊS:
Eu, aqui diante Deus,
Inês Pereira, recebo a vós,
Brás da Mata, sem demanda,
Como a Santa Igreja manda.
Após a festa que se realiza, Inês se sente feliz casada com o
escudeiro. Mas nesse momento, tem-se a segunda parte do
ditado que serviu de base para a peça se realizar (Mais quero
asno que me carregue que cavalo que me derrube). O cavalo
representa aqui o nobre, o elegante, o homem ideal, porém que
se mostra pouco amoroso, pouco afeito ao modo de casamento
com que Inês sonhara. Quando se vê sozinho com ela, Brás
determina que Inês não cante mais, não saia de casa, nem para ir
à Igreja, não fique à janela para conversar, não receba ninguém
em casa. Ele quer ter o controle total sobre ela.
ESCUDEIRO:
Vós não haveis de falar
Com homem nem mulher que seja;
Nem somente ir à igreja
Não vos quero eu leixar
Já vos preguei as janelas,
Porque não vos ponhais nelas.
Estareis aqui encerrada
Nesta casa, tão fechada
Como freira d’Odivelas.
INÊS:
Que pecado foi o meu?
Porque me dais tal prisão?
ESCUDEIRO:
Vós buscastes discrição,
Que culpa vos tenho eu?
INÊS:
Andar! Pêro Marques seja.
Quero tomar por esposo
Quem se tenha por ditoso
De cada vez que me veja.
Por usar de siso mero,
Asno que me leve quero,
E não cavalo folão.
E assim faz. Inês agora se vê livre para ir e vir, para
cantar, para se divertir e mesmo para reencontrar um antigo
pretendente. Isso ocorre no final da peça, quando Inês está
realizando seu intento de sair de casa, de não se deixar prender
pelo marido como fizera no caso de Brás.
Encontra um ermitão, que lhe pede esmola. Era antes um
homem que a desejara quando eram mais jovens. Fala a Inês em
espanhol, mas ela não demora a reconhecê-lo e combina de ir até
sua ermida para levar a esmola.
INÊS:
Jesu, Jesu! manas minhas!
Sois vós aquele que um dia
Em casa de minha tia
Me mandastes camarinhas,
E quando aprendia a lavrar
Mandáveis-me tanta cousinha?
Eu era ainda Inesinha,
Não vos queria falar.
O adultério se configura, não sem antes Inês exercer o papel
de dominadora sobre o marido, que aceita passivamente tudo o
que ela lhe diz.
É a desilusão para Inês, que não imaginava que seria tratada
como prisioneira em sua própria casa. Brás resolve tornar-se
cavaleiro e partir em luta contra os mouros, não sem antes pedir
ao moço, seu criado que cuide de Inês, vigiando-a para que ela
continue sem sair de casa.
Inês, então, lamenta novamente sua sorte. E diz que se
pudesse escolheria agora um marido diferente, um homem
submisso que lhe permitisse fazer o que bem desejasse.
Não demora muito para que receba notícia vinda de seu
irmão que Brás havia sido morto por um mouro. O que poderia
ser visto com tristeza e desapontamento pela agora viúva, tornase, ao contrário, motivo de alegria pelo que isso representaria sua
liberdade.
MOÇO: Oh que triste despedida!
INÊS:
Mas que nova tão suave!
Desatado é o nó.
Se eu por ele ponho dó,
Nesse momento, Lianor Vaz aparece para consolar a viúva,
que se mostra dissimulada, fingindo chorar pela morte do
INÊS:
Olhai cá, marido amigo,
Eu tenho por devoção
Dar esmola a um ermitão.
E não vades vós comigo
PÊRO:
I-vos embora, mulher
Não tenho lá que fazer
O falso ermitão cumpre a função na peça de mostrar quais os
verdadeiros interesses de Inês no novo casamento: não querer se
prender por um marido, mas tendo a segurança do casamento.
Além disso, serve para comprovar a primeira parte do ditado,
a de preferir um asno que a carregue. Por fim, mesmo sendo
um falso religioso, serve a Gil Vicente para tecer suas críticas à
corrupção da Igreja, cujos membros, muitas vezes, se utilizam
de seu poder para conseguir algum benefício ou favor, fosse de
ordem sexual, fosse de ordem econômica.
No início da peça, Lianor, quando aparece pela primeira vez,
em conversa com a mãe de Inês revela que fora assediada por um
padre e que tivera muito trabalho para se livrar. A própria mãe
de Inês disse que um dia passara por situação semelhante.
46
D) reformadora, do Renascimento português, com forte
apelo religioso, pois se apresenta a religião como forma de
orientar e salvar as pessoas pecadoras.
E) cômica, pertencente ao Humanismo português, no qual
Gil Vicente, de forma sutil e irônica, critica a sociedade
mercantil emergente, que prioriza os valores essencialmente
materialistas.
LIANOR:
Tamanho? Eu to direi:
Vinha agora pereli
Ó redor da minha vinha,
E hum clérigo, mana minha,
Pardeos, lançou mão de mi;
Não me podia valer
Diz que havia de saber
S’era eu fêmea, se macho.
[...]
MÃE:
Assi me fez dessa guisa
Outro, no tempo da poda.
Eu cuidei que era jogo,
E ele... dai-o vós ao fogo!
Tomou-me tamanho riso,
Riso em todo meu siso,
E ele leixou-me logo.
Em conclusão, Gil Vicente atingiu seu objetivo com a peça,
que era o de mostrar que as mudanças de seu tempo levaram à
perda de alguns valores por ele considerados fundamentais, pela
adoção de práticas fúteis e imorais, como o engodo, o desejo
de ascensão social sem base efetiva, a ociosidade ou parasitismo
social. Nesta obra, outras questões também discutidas pelo
Humanismo, como o livre-arbítrio (nos conflitos e decisões
de Inês) e a crítica religiosa (na figura do ermitão, um falso
religioso), mostram-se na verve literária de Gil Vicente.
Suas peças não apresentam o aprofundamento psicológico
de um Shakespeare, mas certamente conseguiram espelhar uma
sociedade portuguesa em transformação, para o bem ou para o
mal
Exercícios
1. (Unifesp) Para responder à questão, leia os versos seguintes,
da famosa Farsa de Inês Pereira, escrita por Gil Vicente:
Andar! Pero Marques seja!
Quero tomar por esposo
quem se tenha por ditoso
de cada vez que me veja.
Meu desejo eu retempero:
asno que me leve quero,
não cavalo valentão:
antes lebre que leão,
antes lavrador que Nero.
Sobre a Farsa de Inês Pereira, é correto afirmar que é um
texto de natureza:
A) satírica, pertencente ao Humanismo português, em que se
ridiculariza a ascensão social de Inês Pereira por meio de
um casamento de conveniências.
B) didático-moralizante, do Barroco português, no qual as
contradições humanas entre a vida terrena e a espiritual
são apresentadas a partir dos casamentos complicados de
Inês Pereira.
C) religiosa, pertencente ao Renascimento português, no qual
se delineia o papel moralizante, com vistas à transformação
do homem, a partir das situações embaraçosas vividas por
Inês Pereira.
2. (PUC-SP) O argumento da peça Farsa de Inês Pereira, de
Gil Vicente, consiste na demonstração do refrão popular
“Mais quero asno que me carregue que cavalo que me
derrube”. Identifique a alternativa que não corresponde ao
provérbio, na construção da farsa:
(A) A segunda parte do provérbio ilustra a experiência
desastrosa do primeiro casamento.
(B) O escudeiro Brás da Mata corresponde ao cavalo, animal
nobre, que a derruba.
(C) Cavalo e asno identificam a mesma personagem em
diferentes momentos de sua vida conjugal.
(D) O segundo casamento exemplifica o primeiro termo, asno
que a carrega.
(E) O asno corresponde a Pero Marques, primeiro pretendente
e segundo marido de Inês.
3. (Unicamp-SP) Leia as seguintes estrofes, que se encontram
em passagens diversas da Farsa de Inês Pereira, de Gil
Vicente:
Inês:
Andar! Pero Marques seja!
Quero tomar por esposo
quem se tenha por ditoso
de cada vez que me veja.
Por usar de siso mero,
asno que leve quero,
e não cavalo folão;
antes lebre que leão,
antes lavrador que Nero.
Pero:
I onde quiserdes ir
vinde quando quiserdes vir,
estai quando quiserdes estar.
Com que podeis vós folgar
que eu não deva consentir?
(nota: folão, no caso, significa “bravo”, “fogoso”.)
a) A fala de Inês ocorre no momento em que aceita casarse com Pero Marques, após o malogrado matrimônio
com o escudeiro. Há um trecho nessa fala que se relaciona
literalmente com o final da peça. Que trecho é esse? Qual é o
pormenor da cena final da peça que ele está antecipando?
b) A fala de Pero, dirigida a Inês, revela uma atitude contrária a
uma característica atribuída ao seu primeiro marido. Qual é
essa característica?
47
c) Considerando o desfecho dos dois casamentos de Inês,
explique por que essa peça de Gil Vicente pode ser
considerada uma sátira moral.
apresenta uma donzela casadoura que se lamenta das
canseiras do trabalho doméstico e imagina casar-se com um
homem discreto e elegante. O trecho a seguir é a fala de
Latão, um dos judeus que foi em busca do marido ideal para
Inês, dirigindo-se a ela:
“Foi a coisa de maneira,
tal friúra e tal canseira,
que trago as tripas maçadas;
assim me fadem boas fadas
que me soltou caganeira...
para vossa mercê ver
o que nos encomendou.”
friúra: frieza, estado de quem está frio
maçadas: surradas
fadem: predizem
(VICENTE, Gil. Farsa de Inês Pereira. 22. ed. São Paulo: Brasiliense,
1989. p. 95.)
4. (Fuvest-SP-modificado) Em Farsa de Inês Pereira, Gil
Vicente:
a) retoma a análise do amor do velho apaixonado,
desenvolvida em O velho da horta.
b) mostra a humilhação da jovem que não pode escolher seu
marido, tema de várias peças desse autor.
c) tematiza a revolta da jovem confinada aos serviços
domésticos, e que vê no casamento solução para a vida que
levava.
d) conta a história de uma jovem que assassina o marido
para se livrar dos maus-tratos.
e) aponta, quando Lianor narra as ações do clérigo, uma
solução religiosa para a decadência moral de seu tempo.
5. (UFSC) Marque a alternativa incorreta a respeito do
Humanismo:
a) época de transição entre a idade Média e o Renascimento.
b) o teocentrismo cede lugar ao antropocentrismo.
c) Fernão Lopes é o grande cronista da época.
d) Garcia de Resende coletou as poesias da época, publicadas
em 1516 com o nome de Cancioneiro Geral.
e) a Farsa de Inês Pereira é a obra de Gil Vicente cujo
assunto é religioso, desprovido de critica social.
6. (UM-SP) Leia as três afirmações abaixo a respeito da Farsa
de Inês Pereira.
IPode ser colocada como representante do teatro de
costumes vicentino.
II- Encaixa-se na tradição da farsa medieval sobre o
adultério feminino desenvolvida por Gil Vicente.
III- Inês Pereira é uma moça que vive na vila e pretende
subir de condição.
a) Todas estão corretas.
b) Todas estão incorretas.
c) Apenas a I e a II estão corretas.
d) Apenas a I e a III estão corretas.
e) Apenas a II e a III estão corretas.
7. (UEL-PR) Em Farsa de Inês Pereira (1523), Gil Vicente
48
Sobre o trecho, é correto afirmar:
a) Privilegia a visão racionalista da realidade por Gil
Vicente, empregada pelo autor para atender as necessidades
do homem do Classicismo.
b) É escrito com perfeição formal e clareza de raciocínio, pelas
quais Gil Vicente é considerado um mestre renascentista.
c) Retrata uma cena grotesca em que se notam traços da
cultura popular, o que não invalida a inclusão de Gil
Vicente entre os autores do Humanismo.
d) Sua linguagem é característica de um período já marcado
pelo Renascimento, o que se evidencia pela referência de
Gil Vicente a figuras mitológicas clássicas, como as “boas
fadas”.
e) Revela em Gil Vicente uma visão positiva do homem de fé
que se liberta da doença pelo recurso à divindade.
CAPÍTULO VIII - Bagagem, de Adélia Prado
Observe estes versos:
Um trem de ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.
(“Explicação de poesia sem ninguém pedir”)
Bagagem é o primeiro livro de Adélia Prado, que o publicou
com quase quarenta anos, em 1976. São 113 poemas, divididos
em cinco partes não iguais. Quais sejam:
“O modo poético” – com 66 poemas
“Um jeito e amor” – com 19 poemas
“A sarça ardente I” – com 14 poemas
“A sarça ardente II – com 13 poemas
“Alfândega” – com um poema apenas
primeira parte, “O modo poético”, em que Adélia Prado trata a
respeito do papel da poesia e do poeta na sociedade e pelo menos
mais dois dedicados a Carlos Drummond (“Agora, Ó José”,
“Todos fazem um poema a Carlos Drummond de Andrade”.
Há também uma consonância entre a palavra poética e a
religiosidade, outra constante na literatura da autora. Isso porque
a linguagem é criadora, é pela palavra que Deus criou o mundo
(E Deus disse...) e é pela linguagem que o poeta cria seu mundo,
espelha o mundo em que vive. Em “Antes do nome” essa relação
é clara.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. (p. 20)
Outro escritor a que Adélia Prado faz referência constante é
Guimarães Rosa, conhecido por usar da palavra de modo muito
criativo. Em “Poema com absorvências no totalmente perplexas
de Guimarães Rosa”, escreve ao modo de Rosa, com seu
regionalismo, com o uso de neologismos, tratando da dúvida,
uma marca de Riobaldo, personagem de Grande sertão: veredas.
Sua poesia é marcada pelos seguintes temas:
a) própria poesia
b) família
c) religião
d) memória individual e coletiva
e) vida doméstica
f) amor
g) visão da mulher sem cair num feminismo radical
Pra a reta eu alimpar com o meu brabo cavalo.
Ara! que eu não nasci pra permanência desta duvidação (p.
23)
O título do livro é bastante sugestivo: bagagem, o que se leva
em uma viagem, no caso a viagem da vida, tudo o que se trouxe
até então e o que se levará daí em diante. O poema de abertura,
“Com licença poética”, sugere a trajetória do papel da mulher na
sociedade, bem como a expressão do que se pode ter e exercer
pela poesia. Trata-se de um dos poemas mais significativos
do livro, pelos motivos expostos e também por ser uma clara
referência intertextual com o “Poema de sete faces”, de Carlos
Drummond de Andrade. Em seu poema, Drummond diz:
A escrita em Adélia assume um papel claro: escreve-se para
criar, para refletir sobre as dúvidas, escreve-se para perpetuar,
para resgatar a memória (bagagem). Escreve-se para ser. Há
um conceito recorrente de que a escritura, a literatura é uma
morta-viva. Morta porque é apenas palavra impressa, e viva pois
a leitura recupera a palavra impressa, atualiza os significados,
atualiza o que o escritor quis expressar. E para Adélia, isso vale
ainda mais, posto que para a autora a literatura estabelece um
grande diálogo interno, entre ela própria, e com o sagrado, com
a criação divina. Em “A invenção de um modo”, isso é muito
explícito, sobretudo nos versos finais, em que diz:
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblia. Tudo é Grande Sertão. (p. 25)
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
[...]
O João é o Guimarães Rosa. Em outros termos, há na
literatura e na Bíblia o papel criador do mundo pela palavra. O
que um novo escritor faz é tão somente recuperar esse passado,
essa bagagem, e dar sua visão, sua versão, é perpetuar o passado
essencial. A poesia é assim meio de salvação, não com o mesmo
sentido religioso de salvação dos pecados, e sim como meio de
conferir sentido à vida e de criar a vida.
E Adélia:
Quando nasci um anjo esbelto
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
[...]
Observe como há uma oposição entre termos: torto/esbelto;
sombra/trombeta; gauche/bandeira. Se no poema de Drummond
há uma constatação de que a vida não é harmoniosa, de que o eu
poemático está em conflito com o mundo, no poema de Adélia
há um anúncio de que, se a vida pode não ser perfeita, que
conflitos podem ocorrer, o eu poemático irá lutar, irá defender
bandeiras a despeito das dificuldades do ser mulher. E fará isso
pela palavra, cujo uso é o dom de todo poeta: “Mas o que sinto
escrevo. Cumpro a sina”.
Há diversos outros poemas no livro, especialmente na
A poesia me salvará
Falo constrangida, porque só Jesus
Cristo é o Salvador, conforme escreveu
um homem – sem coação alguma. (“Guia”, p. 63)
É o que se observa igualmente em “O que a musa eterna
canta” (referência a Luís de Camões), “Explicação de poesia
sem ninguém pedir”, “Sedução”, “Anunciação ao poeta”. Em
“Reza para as quatro almas de Fernando Pessoa”, verifica-se
49
a mesma ideia criadora da palavra, criadora de novos mundos,
de novos seres, ao ponto de fazer crer que aquilo que não existe
tem existência própria. É o caso específico de Fernando Pessoa,
criador de heterônimos, cada qual com uma personalidade
própria, uma biografia, um estilo literário. Por esse motivo, as
quatro almas de que fala o título, a do próprio Pessoa e as Alberto
Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, os heterônimos mais
conhecidos do poeta português.
pego Sua barba branca,
Ele joga pra mim a bola do mundo,
eu jogo pra Ele. (“Duas maneiras”, p. 72)
Mas não se trata apenas de uma comunhão com o sagrado
assistemático. Há em Adélia uma relação próxima com as
instituições, locais de encontro e de troca de experiências,
particularmente na Igreja Católica. Em “Sítio”, onde se lê:
Pai nosso, criador da noite, do sonho,
do meu poder sobre os bois,
eis-me, eis-me. (p. 52)
O último poema da primeira parte, “O modo poético”, tem
o mesmo título e deixa bastante explícito esses pontos de que
estamos tratando na poesia de Adélia Prado.
Que a fonte da vida é Deus,
há infinitas maneiras de entender. (p. 80)
Igreja é o melhor lugar.
Lá o gado de Deus para pra beber água,
[...]
É minha raça, estou
em casa como no meu quarto. (p. 76)
O poeta é aquele que, mesmo passando por momentos de
dor, de tristeza, deve ser a voz da essência, deve ser a voz da
esperança, o que cantará as coisas belas do mundo.
Muito maior que a morte é a vida.
Um poeta sem orgulho é um homem de dores,
Muito mais é de alegrias. (p. 79)
Pode-se mesmo dizer que a memória expressa pela poesia
é meio de chegar ao sagrado e de recuperar aquilo que é
importante no cotidiano, como a família. É o caso de poemas
como “Orfandade” ou “Poema esquisito”, escritos ao modo de
uma oração, assim como outros tantos do livro (“Um salmo” ou
“Um homem doente faz a oração da manhã”, por exemplo).
Mãe, ó mãe, ó pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão. (p. 19)
A poesia, pelo que tem de linguagem, pelo que tem de
criação, é como pedaços de semente sagrada que acabam por
fertilizar aquilo que se diz: o corpo, a família, os elementos
da natureza, a vida enfim. Como afirma em “Tarja”, em que
primeiro fala da oração que se deve fazer aos que já morreram,
para concluir com um verso simbólico e sintético de sua poesia
como um todo:
“A poesia, a mais ínfima, é serva da esperança.” (p. 54)
A poesia faz, pois, o resgate do cotidiano, sacralizando-o. É
o que se verifica em outro poema que trata de mortos, presentes
na memória do eu lírico: “Uma forma para mim”. Ou em
“Bendito”, cujo foco é a crença na esperança de um mundo
melhor, ainda que seja no além. Ou “Tabaréu” em que a poesia,
que se encontra nas coisas, se revela no discurso de quem a
escolheu, de quem busca expressar-se por meio dela. Ou ainda
“Exausto”:
Quero o que antes da vida
Foi o profundo sono das espécies,
A graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes. (p. 26)
A comunhão entre poesia e o sagrado tem um caráter de
salvação, mas também de (re)significação. A mulher, relegada
a segundo plano na História, encontra na palavra (poética,
criadora) novas possibilidades, cria um novo diálogo com o
sagrado e é elevada de sua condição inferiorizada historicamente.
Quando Ele dá fé, já estou no colo d’Ele,
Ou:
[...] A vida é mais tempo
Alegre do que triste. Melhor é ser. (p. 46)
Nesse sentido, cabe ao poeta, pelo que domina a palavra,
destacar a essência das coisas, descortinar o sagrado na vida
prosaica, para conferir aquilo que é permanente, constate. Para
ver nelas, a verdade.
Outra constante temática do livro é a família, que representa
um pouco de tudo o que já foi anunciado anteriormente: são as
origens (o passado), a essência, a comunhão com o sagrado, a
formação do ser.
A referência aos membros da família, notadamente pai, mãe
e irmã, ocorre em pelo menos oito poemas da primeira parte,
para ser uma constante nas outras três seguintes: Um jeito e
amor; Sarça ardente I e II.
Tal característica se coaduna com o fato de Adélia dar grande
importância à vida doméstica, às relações do dia a dia, uma vez
que se constituem na raiz de que precisa para ir além.
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como. (“Grande desejo”, p. 10)
A vida doméstica, a vida em família, com suas dores,
tristezas, alegrias e crescimento é tematizada em diversos outros
poemas, como: “Círculo”, “Resumo”, “Orfandade”, “Leitura”,
“Pistas”, “Vigília”, “Clareira”, em que a vida simples, da visita
das comadres, das fofocas sem maldade, das brincadeiras, é
valorizada, tem tanta importância como qualquer discussão
sobre metafísica, sobre a essência das coisas.
Em “Impressionista”, por exemplo, dá-se grande importância
à cor, como de resto em diversos outros poemas, como
“Louvação para uma cor”, “Roxo”, “Anímico” e “Um sonho”.
Isso porque poesia não se escreve apenas com palavras (sonoro),
a ideia é explorar os outros sentidos (olfato, paladar, visual) pelas
referências às comidas, às cores, que estimulam a memória, a
lembrança.
50
O meu cabelo limpo refletia vermelhos,
O meu vestido era num tom de azul, cheio de panos, lindo,
O meu corpo era jovem, as minhas pernas gostavam
Do contato da seda. [...] (“Um sonho”, p. 75)
alegria que proporciona acabam sendo compensadores, por isso é
um sentimento que se realiza sempre, independente de qualquer
frustração, mesmo porque
O universo feminino também é tema de sua poesia. Mas
como já se disse, não como um feminismo radical, que considera
a vida apenas a partir da perspectiva da mulher, mas sim o que
busca uma comunhão, um encontro com o outro; e também
como o que percebe na mulher um mundo rico e simbólico,
muitas vezes impossível de ser apreendido em toda a sua
dimensão.
Amor é a coisa mais alegre
Amor é a coisa mais triste
Amor é a coisa que mais quero (p. 86)
Visão parecida se encontra em “Psicórdica”.
O amor pode ser apenas uma paixão, uma sensação corpórea,
que faz bem como em “Os lugares comuns”;
[...] Seu nome é:
Salvador do meu corpo. (p. 89)
Vendo que eu não mentia ele falou:
as mulheres são complicadas. Homem é tão singelo.
Eu sou singelo. Fica singela também.
[...]
Como nenhum de nós podia ir mais além,
solucei alto e fui chorando, chorando,
até ficas singela e dormir de novo. (p. 15)
Mas a poetisa não se esquece de outro tipo de amor, o amor
às fontes, aos poetas que, de um modo ou de outro, colaboraram
para sua formação, como em “Bilhete em papel rosa”, dedicado
a Castro Alves. Interessante que se declara ao poeta romântico,
mas empresa versos de um poeta simbolista, Alphonsus de
Guimaraens.
Adélia vê na mulher um novo papel, o da não submissão,
o da construção de si mesma, a despeito das dificuldades, do
machismo ainda imperante (estávamos nos anos 1970).
Outra temática, que se coaduna com a vida doméstica, a vida
em família, é a percepção de uma paisagem ainda bucólica, das
cidades pequenas em contraste com a vida urbana em um grande
centro. Trata-se de uma nostalgia positiva, posto que recupera
o que se foi e o que se é, independente do local onde se vive.
Poemas como “Bucólica nostálgica”, “Para comer depois” e
“Metamorfose” exploram a ideia.
Na minha cidade, nos domingos de tarde,
As pessoas se põem na sombra com faca e laranjas.
Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta.
[...]
Daqui a muito progresso tecno-ilógico,
Quando for impossível detectar o domingo. (“Para comer
depois, p. 43)
Em “Um jeito e amor”, os poemas tratam basicamente do
tema anunciado: o amor em todas as suas nuances, embora
particularmente seja o amor paixão, o amor que tanto causa
alegria, quanto desperta sentimentos ruins, tristes, pela falta dele
ou por incompreensão. É também o amor virtual, possível, o
sentimento aprendido, curtido, curado e superado.
“Amor violeta”, por exemplo, trata sobre as feridas curadas,
embora não totalmente cicatrizadas.
Quantas loucuras fiz por teu amor, Antônio.
Vê estas olheiras dramáticas,
este poema roubado:
“o cinamomo floresce
Em frente do teu postigo.
Cada flor murcha que desce,
Morro de sonhar contigo.” (p. 92)
E ao modo de outros poemas, “Medievo”, “A serenata”, a
janela (postigo) permite o contato seguro entre os apaixonados,
bem como proporciona a entrada nos aposentos, bem como no
coração da amante.
Adélia aborda ainda o papel da mulher no amor, de submissa
à provocadora, a que toma atitude e assusta o homem, pouco
afeito, criado para ser o condutor das relações. Como em “Fatal”
ou em “Um jeito”, no qual a mulher, quando acha que deve,
quando tem desejo, clama por alguém. É uma mulher liberada,
em busca da satisfação do próprio desejo, o que causa estranheza
a um tipo de homem mais tradicional:
Meu amor é assim, sem nenhum pudor.
Quando aperta eu grito da janela
[...]
Por hora dou é grito e susto.
Pouca gente gosta. (p. 94)
Assim, todas as faces do amor, sob perspectiva feminina, são
abordadas. Da mulher romântica (“Para cantar com o saltério”)
ou à mulher pragmática de “Amor feinho”, em que se sabe ser
o amor uma ilusão e que é preciso aproveitar-se dele enquanto
possível, enquanto se quer.
[...] Macero ele,
Faço dele cataplasma
E ponho sobre a ferida. (p. 83)
Ou “Serenata”, em que a mulher está sempre à espera.
Mesmo gritando contra aquilo que lhe faz mal, aceita sua
condição de amante nem sempre satisfeita.
“Uma vez visto” retoma a lenda do flautista de Hamelin,
aquele que teria encantado ratos com sua flauta, mas no caso
o encantamento é da mulher por um homem possível, ou seja,
haveria alguém capaz de causar tal encantamento ao ponto de
fazer uma mulher segui-lo?
Apesar das tristezas que o amor possa causar, a satisfação, a
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho. (p. 97)
A iniciativa da mulher pode se revelar na luta contra as
desilusões de uma mulher traída, que expõe a todos seus
sentimentos, que briga literalmente e depois tenta se reconstruir,
como em “Briga no beco”.
51
Encontrei meu marido às três horas da tarde
com uma loura oxigenada.
[...]
Ataquei-os por trás com mão e palavras
que nunca suspeitei conhecer. (p. 99)
Na parte II da “Sarça ardente”, os poemas tratam da morte,
da morte que ainda está viva, ardendo, consumindo-se sem
nunca acabar na memória de quem fica. Como ilustração,
podemos destacar o poema “Para perpétua memória”, em que
o eu lírico relembra de alguém, que pode ser o pai, a mãe ou
qualquer outra pessoa querida:
A parte seguinte, “Sarça ardente”, divide-se em duas. Na
primeira, os poemas retomam a vida doméstica, a vida em
família; na segunda, trata dos mortos, vivos ainda na memória
tal e qual o princípio da sarça ardente. Para se ter uma visão mais
precisa, reproduzimos trecho de Êxodo 3, 2-4:
2 O anjo do Senhor apareceu-lhe numa chama (que saía)
do meio a uma sarça. Moisés olhava: a sarça ardia, mas não
se consumia. 3 “Vou me aproximar, disse ele consigo, para
contemplar esse extraordinário espetáculo, e saber por que a
sarça não se consome.” 4 Vendo o Senhor que ele se aproximou
para ver, chamou-o do meio da sarça: “Moisés, Moisés!” “Eis-me
aqui!” respondeu ele.
A sarça arder e não se consumir tem um significado
interessante. Simboliza o poder não destruidor do fogo
espiritual, bem como a Virgem Maria, que era mulher, gerou um
filho, mas manteve-se inviolada, manteve-se pura e virgem. No
caso dos poemas, a ideia é mostrar como o passado, de alegria,
de tristeza, de nascimento, de morte, de amor, de decepções,
permanece presente, arde, mas não se consome. E cabe ao poeta,
pela palavra, manter isso vivo, conferir significado onde se vê
apenas uma sarça. Mas a vida está nela, a origem da vida pode
estar nela, ou na esteira dos poemas, naquilo que fez parte da
vida em algum momento. “Epifania”, que significa revelação, vai
bem ao encontro dessa visão:
Um destas coisas vai acontecer:
um cachorro late,
um menino chora ou grita,
ou alguém chama do interior da casa:
‘o café está pronto’.
Aí, então, o gerúndio se recolhe
e você recomeça a existir. (p. 106)
Depois de morrer, ressuscitou
e me apareceu em sonhos muitas vezes.
[...]
a alegria é tristeza,
é o que mais punge. (p. 133)
Ou “As mortes sucessivas”, em que fala da morte da irmã,
depois da mãe e finalmente da morte do pai.
Quem me consolará desta lembrança?
Meus seios se cumpriram
e as moitas onde existo
são pura sarça ardente de memória. (p. 134)
A última parte, “Alfândega”, tem apenas um poema,
homônimo; é como se fizesse uma espécie de testamento do
que leva da vida, do que aprendeu até ali, e pedisse passagem,
permissão à alfândega da vida para prosseguir, para continuar
e levar sua bagagem adiante, juntando mais coisas, mais
experiências para aumentar ainda mais tal bagagem.
Para finalizar, é preciso ainda destacar que a arte poética
de Adélia Prado é livre, na maior parte das vezes os versos
são brancos, em extensão diferenciada, de acordo com a
necessidade temática ou rítmica do poema. É a lição aprendida
de Drummond e dos modernistas. É a lição aprendida por uma
grande poetisa, cuja sarça certamente vai continuar ardendo sem
se consumir.
Exercícios
O passado significativo se encontra nos demais poemas:
“Chorinho doce”, lembrança de uma casa que agora pertence a
outra pessoa; “O vestido”, em que a peça do vestuário guarda
lembranças diversas; “A cantiga”, que serve como ponto de
referência para se lembrar do pai, da mãe, da vida em família;
“Dona doida”, em que a chuva se presta à lembrança da mãe, ao
ponto de o eu lírico se deslocar no tempo e viver o passado como
se fosse presente de fato; “Verossímil”, lembrança dos tempos
de menina em que o eu lírico se vestia de anjo para a coroação
de Nossa Senhora; “A menina do olfato delicado”, igualmente
lembrança da vida familiar, bem como “A flor do campo” e
“Registro”.
Por fim “Ensinamento”, um dos poemas mais conhecido de
Adélia Prado, em que trata das obrigações domésticas, familiares,
em que se manifesta o a amor mútuo, sem que se torne explícito,
sem que seja efetivamente falado.
1. (Unioeste-PR) Assinale a(s) alternativa(s) procedente(s) com
relação à(s) temática(s) abordada(s) por Adélia Prado em
Bagagem.
(01) A importância dada aos temas religiosos e a prática
simultânea de todas as religiões encontra, em diferentes
igrejas, enquanto instituições, a força redentora da
humanidade.
(02) A religião é uma constante em seus poemas,
caracterizando-se como recuperação salvística do
sagrado em contraste com as formas institucionalizadas.
(04) Os poemas de Adélia Prado, típicos da pósmodernidade, caracterizam-se pela anulação e morte do
sujeito.
(08) A memória tem o poder de recuperar a imagem
perdida, construída e fixada através da linguagem
poética.
(16) É notório o diálogo de Adélia Prado com a tradição
poética, através de alusões a poetas como Castro Alves e
Carlos Drummond de Andrade.
Soma:
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento. (p. 118)
2. (Unioeste-PR) Tendo em vista a diversidade temática do
livro Bagagem, de Adélia Prado, assinale a(s) alternativa(s)
procedente(s).
52
(01) Referências à Bíblia e aos rituais católicos, marcantes
na poética de Adélia Prado, revelam um eu lírico que
atribui à fé e à prática religiosa um valor fundamental.
(02) Em Bagagem, são constantes os temas radicalmente
feministas e a negação dos traços culturais que atrelam
a mulher ao cotidiano doméstico.
(04) A negação dos prazeres do corpo, relacionados à ideia
de pecado e de negação da fé, é uma das temáticas
marcantes de Bagagem.
(08) Adélia Prado, ao se filiar à arcaica erudição literária,
renega a cultura oral e os temas cotidianos que, a partir
da Semana de Arte Moderna, se integraram à Literatura
brasileira.
(16) A saudade dos pais, a nostalgia de uma forma singela
de vida e a consciência da passagem do tempo são
temáticas recorrentes em Bagagem.
(32) A linguagem provinciana, o erotismo banalizado, a
descrença no ser humano e o engajamento político são
temáticas recorrentes em Bagagem.
(64) A ruptura com o universo doméstico e o engajamento
com as causas feministas fazem da poética de Adélia
Prado o protótipo da perspectiva feminina do final do
século XX.
02)
04)
08)
Soma:
3. (UEM-PR) Leia os textos a seguir e assinale o que for
correto.
Quando nasci, um anjo torto
Desses que vivem na sombra
Disse: vai Carlos! Ser gauche* na vida.
(Carlos Drummond de Andrade. In: Alguma poesia, 1964)
*Gauche: palavra de origem francesa que corresponde a
“esquerda” em nosso idioma. Em sentido figurado, o termo
pode significar “acanhado”, “inepto”, “desajustado”.
16)
Quando nasci, um anjo esbelto
Desses que tocam trombeta, anunciou:
Vai carregar bandeira.
Carga muito pesada pra mulher
Esta espécie ainda envergonhada. (...)
Vai ser cocho na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
(Adélia Prado. In: Bagagem, 1986)
32)
Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim.
(Chico Buarque. In: Letra e música, 1989)
01) Pode-se afirmar que o processo pelo qual a poesia se
alimenta de temas já explorados em outros textos,
procurando estabelecer um diálogo entre diferentes
visões de mundo, é denominado “intertextualidade”.
Há, nesse processo, sempre um texto original que
funciona como ponto de partida para a elaboração do
que se poderia chamar de textos-produto ou intertextos.
É o que acontece nos poemas cujos fragmentos
53
reproduzimos acima: a temática abordada no texto
original de Drummond é desdobrada nos textos de
Adélia Prado e de Chico Buarque.
Os textos derivados dos originais podem resultar
em simples imitação, ou, por outro lado, podem
pretender a paródia, a polêmica, chegando a propor
uma reavaliação do tema em questão a partir de um
novo ponto de vista, seja ele histórico, ideológico
ou estético. Em relação aos intertextos construídos a
partir do poema de Drummond, dos quais destacamos
os fragmentos acima, pode-se afirmar que foram
construídos por reiteração de ideias, ou seja, as ideias
que constituem o poema original foram confirmadas e/
ou repetidas nos poemas que dele derivam.
Apesar de a intertextualidade consistir em um recurso
estético, de certo modo, bastante usado pelos poetas
contemporâneos, a crítica, em geral, costuma reagir
negativamente frente a esse tipo de produção literária.
O principal argumento é que a mesma soa como falta
de criatividade, incapacidade de o artista engendrar o
novo, o original, o inusitado.
O fragmento do poema de Chico Buarque dialoga com
o poema de Drummond na medida em que reitera a
ideia básica do mesmo. Ambos põem em cena um
eu-lírico gauche, marcando seu desencontro, ou sua
incompatibilidade, com o mundo. Esse “eu” deslocado
vê o mundo por meio de uma perspectiva particular,
diferente do modo como as pessoas comuns o veem. O
resultado é um tom que se não é de todo relacionado
ao tom dos perdedores, beira o pessimismo, a tristeza, a
desilusão, próprio de quem lamenta a incapacidade de
se ajustar ao mundo.
O fragmento do poema de Drummond foi retirado
do conhecido “Poema de sete faces”, composto de
sete estrofes, aparentemente desconexas entre si, que
parecem apenas retratar flashes da realidade, mas que
acabam por compor o perfil desajustado do poeta
em relação ao mundo. Trata-se de um texto bastante
característico da vasta produção literária desse grande
poeta brasileiro, cujos temas abordados são igualmente
vastos. Vão desde o “desajustamento do indivíduo com
o mundo” (caso do poema em questão), passando pelo
tema da “infância”, da “monotonia”, da “nostalgia
do passado”, da “participação social e política”, entre
outros, até chegar ao tema da “própria poesia”.
O fragmento do poema de Adélia Prado dialoga com
o poema de Drummond na medida em que contesta a
ideia básica do mesmo: a de o eu lírico estar à margem
da vida, ser um indivíduo deslocado, desajustado,
condenado a viver de forma “torta”, assim como o anjo
que lhe assiste o nascimento. Ao invés disso, a poetisa,
trazendo à tona a problemática sociocultural da mulher,
põe em cena um eu lírico que não pode se dar ao luxo
de aceitar os desígnios do “destino” de marginalizado.
Tem que “carregar bandeira”, ou seja, reivindicar e
lutar por um modo de estar no mundo que lhe seja
mais favorável.
Soma:
CAPÍTULO IX - O Planalto e a Estepe, de Pepetela
Há uma linha de preocupação, no cenário internacional,
por maior integração dos países falantes da língua portuguesa.
Isso pode ser verificado na tentativa de unificar a grafia da
língua portuguesa por meio do Acordo Ortográfico, e também
por uma popularização de escritores de países africanos falantes
do português. É o que tem ocorrido com o moçambicano Mia
Couto, cuja obra O outro pé da sereia foi selecionada como
leitura obrigatória para o vestibular da UEL (PR) e de outras
importantes universidades, e agora com o angolano Artur Carlos
Maurício Pestana dos Santos, ou simplesmente Pepetela. Autor
de diversos livros, publicados desde a década de 1970, tem
discutido a Angola ainda colônia de Portugal, a Angola da guerra
civil e a Angola da atualidade, em que se tenta a reconstrução
e a afirmação da nacionalidade, das características locais, sem o
nacionalismo exacerbado comum em países pós-colonizados.
No caso, o romance selecionado como leitura obrigatória é
O Planalto e a Estepe, e segue uma linha de internacionalização
dos temas em sua obra. Isso porque tem como argumento
principal o namoro entre um angolano branco e uma mongol
que se conheceram enquanto estudavam em Moscou. O título
é devido ao fato de que o personagem masculino, Júlio, nasceu
no planalto da Huíla, no sul de Angola, e Sarangerel na estepe
da Mongólia. Além dos três países, a história se passa também
na Argélia e em Cuba, pois o autor foi partidário, no passado, do
comunismo soviético e procura trazer para suas obras aspectos da
ideologia comunista e como tal visão suplanta as necessidades e
interesses dos indivíduos.
O romance é uma espécie de resumo ficcionalizado da
trajetória do próprio autor, que foi comunista, lutou pela
libertação de Angola, iludiu-se e desiludiu-se com a vida, no que
diz respeito à política, às ideologias. Mas que também marca
suas crenças em uma vida melhor para todos.
Publicado originalmente em 2009, o romance trata ainda do
descobrimento de Angola revelado na narração desde a infância
de Júlio na província de Huíla. Júlio narra as brincadeiras, as
descobertas mais diversas da vida, envolvidas naquele ambiente
de grande alegria, na Tundavala, ou seja, no ponto geográfico
onde termina o planalto angolano. Tinha três irmãos: Zeca, Rui
e Olga. Esta se mostrava a mais racista, a que criticava Júlio por
ter amigos negros.
Com efeito, apesar de certo clima de felicidade infantil, já
nesse período vai percebendo a condição especial de seu país,
afinal não podia brincar livremente com seus amigos negros.
Imperava certo terror por conta da polícia e dos defensores do
regime de Salazar, presidente e ditador português que ainda
tinha Angola como uma colônia. E “um branco com amigos
negros era um branco estranho, malvisto. Subversivo”. (p. 21)
Ele, um menino branco, descendente de portugueses,
não poderia se misturar com aqueles seres. Isso marca já sua
percepção sobre colonialismo, sobre racismo e outras pragas
sociais que irá procurar combater explícita ou implicitamente em
sua vida.
Estávamos situados no fundo da escala social entre os
brancos, chicoronhos, o que era uma corruptela sem maldade de
colonos. Já o termo mapundeiros era ofensa usada pelos outros
brancos contra nós, por a nossa zona ser a Mapunda, onde se
refugiavam os mais miseráveis dos brancos. No entanto, éramos
ricos se comparados com os negros, nossos serviçais. (p. 18)
Na adolescência, é iniciado sexualmente por uma prostituta,
a quem sempre recorre para satisfazer suas “necessidades”. Do
episódio, dois pontos chamam a atenção, primeiro porque,
embora ela fosse negra, só ficava com os brancos. Segundo o
que ela própria explicou depois a Júlio: “porque se um branco
souber que me deitei com um negro, não vai querer se deitar
mais comigo. E os brancos é que têm dinheiro” (p. 18) Outro
ponto é que Júlio acaba pegando uma doença venérea e tem de
terminar esse primeiro “romance” com a prostituta.
De formação católica, aos poucos vai perdendo sua fé, ao
ponto de não mais acreditar em Deus. Se bem que, vez ou outra
tem lances de fé. Acaba por perder a fé de vez quando estuda
para se tornar comunista. Mas isso acontecerá adiante.
Antes, Júlio, no início da guerra pela libertação de Angola
vai estudar medicina em Coimbra. Após algum tempo, resolve
voltar para lutar por seu país, mas por ser branco é discriminado,
segregado por conta das diferenças de cor. No lugar do front,
os comandantes o enviam a Moscou para estudar economia, isso
em 1964.
Era um grupo misturado, todas as cores. Depois dividiramnos. Os mais escuros iam combater. Receberiam treino militar
na fronteira entre Marrocos e Argélia. Os mais claros tinham
bolsas de países amigos, iam estudar para a Europa. [...]
De novo as raças a separarem os grupos. Fiquei desiludido,
sobretudo humilhado. (p. 31)
Em Moscou, fez duas amizades mais sólidas, com JeanMichel, do Congo, e Moussa, do Senegal. Em lances rápidos,
o narrador conta qual o clima da cidade, os medos, os possíveis
amores, a subserviência, a tentativa de manter-se livre, ao menos
no pensamento, o temor de ser visto como contrarrevolucionário
e ser enviado a Sibéria.
“Nós não merecíamos confiança, éramos estrangeiros” (p.
40).
No segundo ano, em 1965, conhece Sarangerel. Apaixonamse, mas sua história de amor é interrompida pelas necessidades
do Estado. Transforma-se, pois, numa história de amor
impossível, não tanto porque as famílias não permitem, mas
porque as condições políticas são pouco favoráveis a esse tipo de
relacionamento em que há um amor mais profundo. No caso,
ela, filha do Ministro da Defesa da Mongólia, tinha seu destino
traçado para se casar com um homem influente e, portanto,
manter o poder familiar.
O drama se intensifica quando Sarangerel engravida, o
que poderia ser uma bênção sob um ponto de vista, é algo
preocupante, por conta das diferenças culturais, por conta de ela
ser filha do Ministro. Pensam em um aborto, o que na URSS
não era nada difícil, porém a família seria informada e Sarangerel
não quis correr o risco.
Júlio tenta convencer a namorada de que poderia lutar por
ela, de que poderiam se casar e serem felizes. Porém, Sarangerel
sabia ser isso impossível.
54
– Posso convencê-lo a deixar-te casar e continuarmos a
estudar. Bolas, e o internacionalismo proletário? A Mongólia,
como país socialista, apoia a luta dos povos oprimidos. O meu
povo é colonizado e eu sou um lutador pela liberdade do meu
povo. O meu Movimento é aliado do Partido dele, tem de ser
sensível a esse argumento. Agarremo-nos à política, ela pode
ajudar-nos.
Sarangerel segurou a minha mão. Com as duas, como era
seu hábito.
– Não conheces o meu pai. Não conheces a Mongólia. Acho
até que não conheces os países socialistas. (p. 64)
O problema se intensifica quando uma companheira de
Sarangerel, Erdene, que era, na verdade, uma espiã mongol
cuja missão era vigiar os passos da moça, relata o que estava se
passando. Que ela tinha um namorado, e que não era mongol.
A mãe vem falar com a filha, tentar resolver o caso, convencê-la
a fazer um aborto e também levá-la a Leningrado para terminar
os estudos. Apesar dos esforços, da luta da moça em prol do seu
amor, é levada de volta a Mongólia. Júlio fica sabendo que ela
fora raptada:
– Sarangerel foi para Ulan Bator. Apareceram no lar três
homens da embaixada, nem a deixaram arrumar as coisas,
levaram à força. Só no dia seguinte apareceu uma senhora
para fazer as malas e sumir com elas. Essa senhora disse-me que
Sarangerel tinha sido uma má menina e por isso foi expulsa
para a Mongólia, para casa dos pais. (p. 89)
Júlio relata em seguida toda a dor, todo o sofrimento por
que passou. Decide pedir apoio a quem pode na URSS, mas
como qualquer atitude mais drástica poderia abalar as relações
estratégicas entre a pátria comunista e a Mongólia, os dirigentes
preferem abafar o caso, como se ele não existisse. O máximo
que Júlio consegue é apoio dos seus pares que, como ele, nada
podem fazer. O congolês Jean-Michel resume bem a situação em
que o amigo se encontra:
[...] meu velho, deixa-te de ilusões, o internacionalismo
proletário é uma treta, a amizade indestrutível entre os povos é
outra, o que conta é que tu não és mongol, portanto, és um ser
inferior. (p. 67)
O episódio se presta à percepção do próprio Júlio e de outros
estudantes que tal visão de mundo comunista é pouco humana,
pouco prática, no sentido de que pregavam a igualdade, a
solidariedade como meio de vencer o capitalismo, explorador
dos trabalhadores, mas que em rigor era apenas uma visão
idealizada de um mundo perfeito, que não existia e nem poderia
existir na URSS totalitarista. Em outros termos, a propalada
igualdade, união dos povos, era apenas meio ideológico de
manter o poder nas mãos de poucos, que vendiam a ideia de
que o mundo fora do comunismo era terrível e nada humano.
Com efeito, o interesse soviético em Angola, e, por consequência
nos angolanos, era mais com o intuito expansionista do sistema
comunista, da ideologia comunista que exatamente uma
preocupação humanitária.
[...] o mal-amado por ter denunciado anos antes, uma série
de crimes e erros do endeusado Estaline, dando assim munições
ao inimigo, foi derrubado e sucedeu-lhe o cinzento Brejnev,
buldogue de cara e corpo, de cuja boca opaca nunca sairia nada
de que o Partido se arrependesse. Havia golpes e contragolpes
na pátria perfeita do socialismo, cartas escondidas debaixo da
mesa, pior, facas escondidas nos casacos, sangue escorrendo pelas
paredes.
— Vês? — disse Jean-Michel na altura da queda de
Kruchev. — Ensinam-nos a pureza das ideias, mas praticam
todas as sujidades. Isto foi um verdadeiro golpe de Estado. (p.
46)
Júlio, que estudava, que era doutrinado para pensar assim,
logo percebe, por essa dolorosa experiência, que tudo era
nada mais que um idealismo. O episódio também serve como
contraponto aos tempos ditosos na sua infância. Uma espécie
de visão romântica ao modo de “Meus oitos anos”, do poeta
romântico brasileiro Casimiro de Abreu.
Oh que saudade que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais.
[...]
Passados vários meses, Júlio descobre, por intermédio de
outra mongol, que era pai de uma menina, o que renova as
forças do angolano de que poderia ainda resgatar sua família.
Impossível nos países da chamada Cortina de ferro. O máximo
que consegue é escrever à sua amada e receber algumas notícias,
mesmo assim sempre sob o olhar vigilante da polícia, que sempre
temia um imbróglio diplomático.
É o tema recorrente dos amores impossíveis, desde Romeu
e Julieta, passando por Simão e Teresa, de Amor de perdição, e
outros tantos de toda a literatura ocidental.
Assim, após perceber que dificilmente voltaria a ver o amor
de sua vida, termina os estudos, resolve integrar o MPLA
(Movimento Popular de Libertação de Angola), que à época,
lutava pela independência do país, o que ocorreu em 1975.
Participou de treinamentos no sul da URSS, na Argélia. Já no
exército, tornou-se o comandante Alicate. Não que concordasse
integralmente com as práticas do MPLA, mas era meio de poder
seguir a vida, de talvez poder um dia rever Sarangerel.
Depois da formatura, teria de sair de Moscovo para fazer
treino de guerrilha. O Movimento tinha finalmente acedido ao
meu pedido de participar ativamente na libertação. (p. 103)
Já em fins da década de 1980, quando a URSS começa a se
esfacelar, Júlio retoma seu pensamento sobre o país da aclamada
igualdade que pouco humano se mostrou em seu caso particular
e no de outros tantos.
No dia [...] quando a URSS implodiu fragorosamente,
relembrei, como todos os dias afinal, aquele general que nunca
aceitou ser meu sogro. Ainda existiria? O campo dito socialista
tinha derrocado com estrépito, em consonância com o Muro
de Berlim. A Mongólia iniciava um processo semelhante ao da
Rússia, com tentativas serpenteantes de passar a uma democracia
formal, mas denotando demasiado peso do passado maniqueísta.
(p. 139)
Desse modo, além da questão do amor impossível, Pepetela
quer revelar a falência do modelo soviético na construção de
um mundo melhor para todos.
Mesmo porque Angola
vinha já de um longo período de submissão a um país europeu,
no caso Portugal. Esse alinhamento com a URSS se era benéfico
num primeiro momento, acabará por revelar-se maléfico, pois
seria trocar uma metrópole por outra. Pepetela analisa todos
55
esses aspectos, tendo por base exatamente a história de amor.
Em resumo, todos esses pormenores acabam por salientar os
males do poder, o desejo de controle estatal sobre as vontades
individuais. Não é por acaso que depois da independência,
houve uma guerra civil envolvendo três grandes grupos que
queriam controlar o país. Tal guerra viria a acabar apenas em
1992, com a vitória do MLPA. Nesse momento, Júlio já é um
importante general do exército.
Outro aspecto do drama pessoal de Júlio é que ele não
tinha acesso à filha que tivera com Sarangerel, e, menos ainda
à própria mulher que escolhera para viver. Tal história passar
por trinta e cinco anos e tem como pano de fundo exatamente
todo esse cenário de guerras, revoluções, quedas, envolvendo
particularmente Angola e URSS, cujo fim se deu oficialmente
em 1991.
Quando ainda fazia treinamentos, conseguiu articular um
plano para viajar até a Mongólia. Arrumou um passaporte falso,
sob o nome árabe de Said Benselama. Conseguiu chegar a Ulan
Bator, mas foi interceptado pela polícia secreta. Depois de muita
negociação, conseguiu convencer que fora até lá para tentar
apenas ver sua filha, o que foi permitido, claro que não como
Júlio de fato gostaria.
Ao fim de certo tempo parou à nossa frente um carro igual ao
nosso. Dele saiu uma menina de uns seis anos, mas nitidamente
mais alta que as outras. A mulher ao meu lado sussurrou em
russo:
— É a sua filha. Como vê, está a ser bem tratada. (p. 111)
Depois disso, o carro o levou embora e ele teve de voltar a
Argélia. Anos se passam, sem que Júlio tenha novas notícias da
filha ou de Sarangerel. Tentou refazer sua vida amorosa, com um
ou outra, mas sem sucesso. É o princípio do amor romântico, do
amor eterno, impossível de ser substituído.
Enquanto isso, ia lutando pela liberdade de Angola, na
guerra civil, que ocorreu entre 1975 e 1992 (embora os conflitos
tenham se estendido até 2002), e representou, como outras
tantas guerras pelo mundo, a disputa entre os EUA e a URSS,
cujo foco era estender os respectivos domínios e poder de
influência mundo afora. Tal guerra ficou dividida do seguinte
modo:
Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA),
partido vitorioso na guerra, que comanda até hoje Angola e que
era apoiado pelo regime de Fidel Castro de Cuba e pela União
Soviética;
Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) apoiada
pelo Zaire (atual República Democrática do Congo) e pelos
Estados Unidos;
A União Nacional para a Independência Total de Angola
(UNITA), liderada por Jonas Savimbi, também apoiada pelos
Estados Unidos, pela África do Sul e diversos outros países
africanos.
Apenas para se ter uma visão geral do estado da política em
Angola, reproduzimos a seguir, um trecho extraído do site oficial
do governo angolano:
Desde 1992, ano das primeiras eleições gerais, que a
democracia multipartidária governa Angola. O MPLA em
conjunto com a UNITA e outras forças políticas com assento
parlamentar, geriu magistralmente a reconstrução de um dos
países de futuro mais promissor de toda a África que, no entanto,
paradoxalmente com a sua riqueza natural vive ainda uma
duríssima realidade. No âmbito de uma ampla programação
empurrando Angola para a modernidade, progresso e riqueza,
novas eleições foram realizadas em 2008. O MPLA, que sempre
governou desde a Independência, soube preservar a identidade
nacional. Do MPLA, saíram os dois presidentes que Angola
teve até ao momento. O primeiro, o fundador da Nação
Angolana, o Dr. Agostinho Neto e o segundo e atual Presidente
da República, o Eng. José Eduardo dos Santos, que se tornou,
quando da sua investidura, em 1979, o mais jovem presidente
do continente. Na cena internacional, Angola vem dando
forte apoio a iniciativas que promovam a paz e a resolução de
disputas regionais, favorecendo a via diplomática na prevenção
do conflito e a promoção dos direitos humanos. (fonte: http://
www.governo.gov.ao/Historia.aspx)
Já vitorioso, com o MPLA, Júlio reencontra sua família,
sua irmã Olga, que, para surpresa do irmão, lutava pela
independência angolana e acusava os sul-africanos e os norteamericanos de imperialistas, posto que estariam ali para destruir
a cultura local, e impediam o desenvolvimento econômico da
região. Por isso mesmo, Júlio foi recebido com festa e alegria por
todos, que o consideram um herói nacional.
O mundo se transformava, pois. A URSS já não existia
(voltou a ser Rússia, sob a liderança de Boris Yeltsin, em 1991),
e a Mongólia também tentava se reconstruir, sem mais o apoio
dos soviéticos.
A Mongólia iniciava um processo semelhante ao da Rússia,
com tentativas serpenteantes de passar a uma democracia
formal, mas denotando demasiado peso do passado maniqueísta.
(p. 139)
O fato é que para Júlio reacendiam as esperanças de rever
Sarangerel e conhecer de verdade sua filha. De sua parte, com o
fim da guerra, reformou-se do exército e passou a trabalhar em
uma empresa de transportes. Porém, fica sabendo por intermédio
de uma amiga, Esmeralda, que Sarangerel, como era de se
esperar, havia se casado com um embaixador mongol e vivia em
Cuba. Apesar disso, Júlio não pensou duas vezes. Conseguiu um
visto e partiu para Cuba, onde reencontrou o amor de sua vida.
Contou então o que se passara de mais importante em sua
vida, que fora até a Mongólia, que não o deixaram vê-la. Ela, por
sua vez, ficou emocionada, chorou ao saber da luta daquele que
era o pai de sua filha.
Os olhos de Sarangerel estavam marejados de lágrimas.
Também os meus, senti depois o frio escorrendo pela minha face.
(p. 154)
Ela tinha tido mais dois filhos, já era avó inclusive. Um
dos filhos morava nos EUA, o que era uma ironia da História,
afinal os mongóis, que lutaram contra o imperialismo norteamericano, tinham um neto do ministro da defesa vivendo em
solo americano.
Conversam, trocam confidências, relembram o passado,
ela diz viver bem com seu marido, que é um homem bom,
compreensível.
No dia seguinte, quando Júlio já se preparava para voltar
a Angola, sem esperança de viver com seu amor, recebe um
telefonema de Sarangerel, que lhe pedia um visto, que queria ir
viver com ele em Angola. Obviamente que não foi um processo
simples, mas no fim o marido, percebendo que poderia se
prejudicar politicamente com uma briga, cedeu.
Como diria Guimarães Rosa em um conto intitulado
56
“Desenredo”,
d)
Três vezes passa perto da gente a felicidade. [Os amantes]
retomaram-se, e conviveram, convolados, o verdadeiro e melhor
de sua útil vida. E pôs-se a fábula em ata.
Para encerrar, a história de amor impossível se revelou
no final bem possível, em meio a separações, guerras, disputas
políticas, lutas pelo poder. Uma visão um tanto romântica,
idealista, talvez, mas que funciona bem nesse belo romance de
Pepetela.
Exercícios
1. Sobre o romance O Planalto e a Estepe, de Pepetela, assinale
a alternativa incorreta:
a) O título é uma referência aos personagens principais, no
caso Júlio (Angola) e Sarangerel (Mongólia).
b) A história tem início ainda na época da Angola colônia,
mas seu auge ocorre durante as lutas por libertação
c) Boa parte da história é ambientada em Moscou, na URSS.
d) O livro faz uma defesa do comunismo, posto que esse
sistema apoia as liberdades individuais.
e) É possível acompanhar a história recente de Angola, pano
de fundo do enredo envolvendo a história de amor de Júlio
e Sarangerel.
2. Dadas as afirmações, assinale a alternativa que contempla as
corretas:
I.
Júlio Pereira, mesmo depois da independência de
Angola, devido ao ofício militar, continua mantendo contato
com os soviéticos.
II. A história do amor impossível entre o angolano Júlio
Pereira e a mongol Sarangerel tem como pano de fundo a
história do movimento de libertação angolano.
III. Os personagens se reencontram em Cuba e reatam sua
história de amor.
Está correto o que se afirma em:
a) I
b) II
c) III
d) I e III
e) I, II e III
3. Observe este trecho:
Estávamos situados no fundo da escala social entre os
brancos, chicoronhos, o que era uma corruptela sem maldade de
colonos. Já o termo mapundeiros era ofensa usada pelos outros
brancos contra nós, por a nossa zona ser a Mapunda, onde se
refugiavam os mais miseráveis dos brancos. No entanto, éramos
ricos se comparados com os negros, nossos serviçais. (p. 18)
Pode-se afirmar que:
a) Júlio era tão racista quanto sua irmã e os demais brancos
de Angola.
b) Júlio faz o relato como uma forma de crítica, pois não
entendia a divisão racial, nem aceitava.
c) Trata-se de uma visão colonialista de que Júlio participava
57
e)
com ardor.
O trecho revela uma das preocupações centrais do romance,
lutar contra o Apartheid em Angola.
O trecho é uma das variantes da defesa do comunismo
presente ao longo do livro.
CAPÍTULO X - O primo Basílio, de Eça de Queirós
Eça de Queirós (1845-1900) é escritor português. Fez parte
da chamada Geração de 70, que renovou as artes em Portugal,
tirando o país do ostracismo e de um Romantismo já decadente,
em direção à chamada Escola Realista. A despeito dos exageros
de tal escola literária, como o uso da ciência como explicação
para todos os atos dos personagens ou a intenção de explorar
pormenores sem importância, apenas para dar ar de realidade ao
que estava sendo narrado, o realismo histórico deu bons frutos,
especialmente nas mãos de Eça de Queirós.
Em 1871, houve as Conferências do Casino , e Eça proferiu
a palestra “A Literatura Nova” ou “O Realismo como nova
expressão da arte”. Tais conferências tinham como objetivo
provocar a discussão em torno do atraso português em diversas
áreas, das artes à economia. Tinham um intento republicano,
cientificista e anticlerical, por isso quando iam proferir a
sexta conferência, a polícia invadiu o Casino, hotel da época,
proibindo a sua sequência.
Depois disso, Eça de Queirós publicou O crime do padre
Amaro (1876), em que ataca a Igreja, apontando-lhe os pecados
e desvios de conduta; Os Maias (1888) em que faz um amplo
retrato da sociedade lisboeta, da burguesia à aristocracia; e, entre
os dois títulos, publicou O primo Basílio (1879). Os três livros
juntos formam uma visão de conjunto da sociedade portuguesa,
em seu atraso e modos de vida nem sempre dignos, apesar da
aparência.
O enredo de O primo Basílio não é original. Trata-se de um
triângulo amoroso, sem qualquer véu, ou meio de encobri-lo,
como Dom Casmurro, de Machado de Assis, no qual a traição
não é revelada de modo explícito, quando muito sugerida. A
inspiração de ambos os livros advém de Madame Bovary, do
francês Gustave Flaubert. A diferença entre os três é que no de
Machado a sutileza e a dúvida são bem maiores, o que torna o
romance mais singular.
Pois bem, o objetivo aqui é tratar de O primo Basílio.
Façamos primeiro um amplo resumo, para, sem seguida,
analisarmos alguns pontos mais significativos.
O livro gira em torno de dois personagens principais: Luísa,
casada com um engenheiro, Jorge, e Basílio de Brito, primo e
primeiro namorado de Luísa.
A ideia de Luísa talvez fosse se casar com Basílio, mas como
a família dele empobreceu, tiveram de partir para o Brasil, na
tentativa de recuperar a riqueza (como se sabe, mesmo após
a independência, a presença de portugueses no comércio
sempre foi muito forte no Brasil). Vendo-se sozinha, acabou
conhecendo Jorge, que também vivia só, e resolveram se casar.
Não propriamente por amor ou coisa que o valha, mas por ser
conveniente aos dois. Apesar disso,
Luísa, a Luisinha, saiu muito boa dona de casa; tinha
cuidados muito simpáticos nos seus arranjos; era asseada, alegre
como um passarinho, como um passarinho amiga do ninho e das
carícias do macho; e aquele serzinho louro e meigo veio dar à
sua casa um encanto sério. (p. 17)
Há dois meses que a tinha em casa e não se pudera
acostumar à sua fealdade, aos seus trejeitos. (p. 19)
Uma característica marcante na personalidade de Luísa é
que era uma sonhadora. Não se casara, sabe-se, por amor a
Jorge. Afeiçoara-se a ele e apenas isso. Sentia grande tédio, por
esse motivo lia muito, lia romances românticos, como A dama
das Camélias ou os livros de Walter Scott. Desse modo, poderia
dar expansão a sua alma sonhadora e sedenta de aventuras. Até
porque Luísa tinha poucas amigas, uma delas era Leopoldina,
abominada por Jorge, que a considerava muito liberal.
Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vícios.
Jorge odiava-a. E dissera muitas vezes a Luísa: Tudo, menos a
Leopoldina. (p. 24)
Apesar da recomendação, encontravam-se vez ou outra,
mais uma vez para que Luísa pudesse, pelas aventuras da amiga
da adolescência, dar vazão à sua imaginação, sair da realidade
imediata.
[...] olhava-a com espanto como se consideram os que
chegam de alguma viagem maravilhosa e difícil, de episódios
excitantes. (p. 26)
Há dois acontecimentos determinantes para o desenrolar
do romance: primeiro, a necessidade de Jorge ter de passar uma
temporada a trabalho no Alentejo, cerca de 300km de Lisboa;
depois, o anúncio no jornal Diário de notícias que Basílio
chegaria a Lisboa em poucos dias.
É o que ocorre. Doze dias depois de Jorge viajar, Luísa,
entediada como sempre, resolve ir à casa de Leopoldina. Mas
quando se preparava para sair, recebeu a visita inesperada de
Basílio, que se fizera anunciar como um homem de negócios.
Conversam, retomam o passado, falam do presente e Basílio
indica que estava ali por ela. Conta como fora sua vida no Brasil;
relata que tivera um breve relacionamento com uma mulata.
Quando Luísa pergunta o porquê não se casou com ela, a
resposta segue uma visão que obedecia aos conceitos raciais da
época:
Estava a mangar! Uma mulata! (p. 54)
Seguindo a visão cientificista da época naturalista, acreditavase em diferentes níveis raciais, e os mulatos, os miscigenados
estariam em uma escala inferior, por isso a resposta com desprezo
que acaba dando Basílio a sua prima.
Também contou sobre o período em que morara em Paris.
Tudo serve à alma fantasiosa de Luísa, que fica pensando como
seria bom viver as aventuras que lia nos romances, como seria
bom fazer como Basílio, como Leopoldina, a despeito da vida
boa que Jorge lhe proporcionava. O fato é que sua vida era um
tédio, sem desafios, sem aventuras.
Na casa, vivia Juliana, uma empregada de Jorge, que cuidara
da tia Virgínia, moribunda. Na verdade, ela assim o fizera para
tentar ser inclusa no testamento, o que não aconteceu. Como
Jorge não soube dessa intenção mesquinha de Juliana, resolveu
continuar com ela em sua casa. Apesar dessa gratidão, Luísa não
tinha qualquer simpatia por Juliana, que irá desempenhar papel
importante no enredo.
58
– Que vida interessante a do primo Basílio! – pensava. – O
que ele tinha visto! Se ela pudesse também fazer as suas malas,
partir, admirar aspectos novos e desconhecidos, [...] (p. 57)
Por esse período, Juliana já dá mostras de que está doente
do coração. Vai ao médico, tenta um tratamento. A doença
será importante para o desfecho do romance. Antes disso,
para surpresa de Juliana, Basílio volta a visitar Luísa, com
regularidade.
Diante do incômodo de Luísa, para evitar novos falatórios,
Basílio aluga um quartinho onde se encontram. O nome é bem
propício, Paraíso.
Aquela precipitação amorosa em arranjar o ninho –
provando uma paixão impaciente, toda ocupada dela –
produziu-lhe uma dilatação doce do orgulho; ao mesmo
tempo em que aquele paraíso secreto, como um romance, lhe
dava a esperança de felicidades excepcionais; e todas as suas
inquietações, os sustos da carta perdida se dissiparam de repente
sob uma sensação cálida, como flocos de névoa sob o sol que se
levanta. (p. 141-142)
E adiante:
– Está cá o peralta de ontem! Está cá outra vez! Traz um
embrulho! – Que te parece, Senhora Joana? Que lhe parece?
– Visitas... – disse a cozinheira. (p. 68)
Joana dá essa resposta, pois não queria se envolver com as
escolhas dos patrões. Juliana, por sua vez, que tentara a sorte com
a tia de Jorge e nada obtivera, ficou atenta aos acontecimentos a
ver se obteria alguma vantagem. E, de fato, é o que acontecerá.
Um dos amigos de Jorge, Sebastião, homem solitário, que
ficara mais solitário ainda após o casamento do engenheiro,
também percebe as constantes visitas de Basílio. E tem a
confirmação da boca de Juliana. Passa a questionar com outros,
que não querem se envolver. Ainda assim, percebe que algo ruim
pode vir a acontecer.
Sebastião não conhecia Basílio pessoalmente, mas sabia a
crônica da sua mocidade. Não havia nela, certamente, nem
escândalo excepcional, nem romance pungente. Basílio tinha
sido apenas um pândego e, como tal, passara metodicamente por
todos os episódios clássicos da estroinice lisboeta. (p. 89)
De sua parte, Basílio queria, mais do que viver uma história
de amor com Luísa, recuperar o passado, apenas ter uma mulher
com quem ficar durante sua estada em Lisboa. Para isso, usa de
todas as artimanhas para conseguir o que quer. Ele a faz sonhar,
imaginar. Ele a seduz, dá a ela o que quer, ou seja, motivos
para romper o tédio, motivos mais reais para viver uma história
romanesca, de sustos e medos, mas também de paixão e prazer.
Basílio exerce o papel de Don Juan, o sedutor sem escrúpulos,
que se ocupava da própria satisfação, a despeito do sofrimento
alheio. Isso fica claro quando Basílio conversa com o amigo que
com ele estava em Lisboa, o Visconde Reinaldo:
Ia , enfim, ter ela própria aquela aventura que lera tantas
vezes nos romances amorosos! (p. 145)
Mas para sua tristeza, o local em si não era exatamente o que
ela esperava. De sua parte, Basílio vai se cansando dela, após
atingir seu objetivo, que era o de apenas se aproveitar do corpo
de Luísa. Como desculpa, para evitar falatórios, dizia a todos
que ia visitar uma amiga, D. Felicidade Noronha, que andava
adoentada. Embora isso fosse verdade, passava lá vez ou outra
e ainda bem rápido para poder aproveitar melhor o tempo com
Basílio.
O problema é que não demora muito esse idílio. Juliana
resolve iniciar a chantagem sobre Luísa e conta-lhe que achara
aquele primeiro bilhete e outros.
Juliana pede a Luísa um valor bastante alto, 600 mil-réis,
uma fortuna para a época. Luísa conta o caso a Basílio, que
promete ajudá-la, mas na verdade queria apenas ganhar tempo e
ver como se safaria da enrascada.
Basílio saiu do Paraíso muito agitado. As pretensões de
Luísa, os seus terrores burgueses, a trivialidade reles do caso,
irritavam-no tanto, que tinha vontade de não voltar ao Paraíso,
calar-se, e deixar correr o marfim! Mas tinha pena dela, coitada!
E depois, sem a amar apetecia-a; era tão bem feita, tão amorosa.
(p. 192)
– E então essa questão da prima, vai ou não vai? Isto está
horrível, menino! Eu morro! Preciso o Norte! Preciso a Escócia!
Vamos embora! Acaba com essa prima. Viola-a. (p. 114)
Enquanto isso, a vizinhança também já repara nas visitas
constantes, o que fica ruim para Luísa. Avisada por Sebastião,
fica em dúvida sobre o que fazer, não queria perder Basílio, mas
também não queria ficar mal na vizinhança, e Jorge poderia
saber. Mesmo assim, vai se entregando àquela paixão. Depois
de uma noite em que ficaram juntos, recebe um bilhete. Resolve
responder, mas no momento em que escrevia uma carta para ele,
quando recebeu uma visita inesperada, exatamente do Sebastião.
Guardou a carta iniciada no bolso. Ele vinha novamente para
alertá-la sobre o que já se comentava.
Diante da dificuldade, Luísa pensa em pedir ajuda a
Sebastião, ver se ele lhe arrumava algum dinheiro. Mas por esse
tempo, Jorge anunciou que estava voltando. Luísa pede então
um tempo a Juliana, que promete esperar um pouco mais.
Mas pela dificuldade em conseguir tanto dinheiro, em
troca Luísa vai aos poucos se tornando a “empregada” da casa,
dá roupas a Juliana, faz o serviço dela. Outra solução seria
Leopoldina, mas a amiga tem apenas ideias como a de se oferecer
a algum homem que poderia lhe “emprestar” o dinheiro.
– Que horror! – exclamou Luísa subitamente indignada. –
E tu propões-me semelhante coisa? (p. 235)
– É que se repara... A vizinhança é a pior coisa que há,
minha rica amiga. Repara em tudo. Já se tem falado. A criada
do lente, a Paula. Até já vieram à tia Joana. E como o Jorge não
está... O Neto também reparou. Como não sabem o parentesco...
E como vem todos o dias... (p. 118)
Jorge, de sua parte, começa a estranhar as atitudes de Luísa
e também as de Juliana, pois a empregada virara patroa e viceversa, sem atinar o porquê de tamanho disparate.
No outro dia, Juliana, arrumando a roupa de Luísa,
descobriu o bilhete iniciado pela patroa. Esse é um momento
crucial no romance, pois a partir dele, tem-se o ápice até o
desfecho. Era o que Juliana queria para obter a vantagem que
gostaria.
– Não, essas condescendências hão de acabar por uma vez!
Ver aquele estafermo, com os pés para a cova, a prosperar em
minha casa, a deitar-se nas minhas cadeiras, a passear, e tu a
defendê-la, a fazer-lhe o serviço, ah! Não! É necessário acabar
com isso. (p. 265)
59
Sem atinar com o que fazer, Luísa procura efetivamente
ebastião e conta quase todo o caso. Sebastião vai até Juliana e
a obriga a entregar as cartas, sob pena de ir presa por roubo e
chantagem. Ante a ameaça, não pensa duas vezes.
Juliana estava alucinada de raiva, com os olhos saídos das
órbitas, veio para ele e cuspiu-lhe na cara!
Mas de repente a boca abriu-se-lhe desmedidamente,
arqueou-se para trás, levou com ânsia as mãos ambas ao
coração, e caiu para o lado, com um som mole, como um fardo
de roupa. (p. 289)
O que poderia ser uma alívio para Luísa se torna em sua
derrocada moral e física. Isso porque, diante dos acontecimentos,
a pressão de Juliana, o abandono de Basílio, a vergonha de ter
de encarar Jorge, cai doente. Por esse tempo, Basílio escrevera a
Luísa, perguntando-lhe se havia conseguido resolver o imbróglio
com a empregada. O problema é que Jorge leu a carta antes de
Luísa.
– Cartas? – perguntou Jorge.
– Uma pra senhora – disse o homem. – Há de ser pra
senhora...
Jorge olhou o envelope; tinha o nome de Luísa, vinha da
França.
Não leu de imediato. Mais tarde, viu que era uma carta de
Basílio, em que ele relata o porquê tivera de ir embora, falava
sobre os últimos acontecimentos. Apesar da raiva, manteve a
calma até encontrar a melhor forma de resolver o caso. Pensou
em matá-la, em expulsá-la. Conversou com Sebastião para saber
o que o amigo conhecia do caso.
– Vinha o primo às vezes, ao princípio. Quando D.
Felicidade esteve doente, ela ia vê-la... O primo depois partiu...
Não sei mais nada. (p. 303)
Jorge não interpelou Luísa de imediato, esperou que ela
melhorasse, o que aconteceu em duas semanas. Foi quando, ante
à interrogação dela sobre o porquê o marido andava triste, que
finalmente disse que encontrara as cartas enviadas por Basílio a
ela. Prontamente, empalideceu e desfaleceu. Dois dias depois,
Luísa morreria, após várias tentativas para reanimá-la.
E enquanto D. Felicidade num pranto aflito fechava os olhos
de Luísa, o Conselheiro, com o chapéu sempre na mão, cruzava
os braços, e oscilando a sua calva respeitável, dizia a Sebastião:
– Que profundo desgosto de família! (p. 318)
Jorge dispensou as empregadas e foi morar com Sebastião.
O Conselheiro Acácio, de sua parte, resolveu escrever um
necrológio em homenagem à amiga, e o fez seguindo seu
modo de falar vazio, querendo antes expressar uma visão
intelectualizada que propriamente algo real.
À memória da Sra. Luísa Mendonça de Brito Carvalho
Rosa d’amor, rosa purpúrea e bela,
Quem entre os goivos te esfolhou na campa? (p. 319)
dando um forte raspão no chão com a bengala:
– Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine! (p. 326)
O romance apresenta uma tese e busca comprová-la pelo
enredo. No caso, a ideia é mostrar que os mais fortes dominam
os mais fracos. No caso, Basílio e Juliana se apresentam como
os mais fortes, os mais preparados para viverem uma sociedade
capitalista, pouco humanista, ao passo que Luísa, com seu ar
romântico, aventuresco, se deixa dominar, se deixa levar por
ambos, tanto amorosa quanto economicamente. Os romances
naturalista-realistas baseavam-se nos princípios cientificistas de
Darwin (seleção das espécies, lei do mais forte), no Positivismo
de Auguste Comte, para quem o que importa é vida material,
não a espiritual, e Hipollyte Taine, cuja visão determinista
indicava que o homem era condicionado ao meio social, à raça.
Desse modo, Luísa representa o ser que não se sobrepõe ao meio,
mas é engolido por ele.
Não por acaso, além da história central de Luísa, há histórias
paralelas, de uma sociedade que gravita em torno da casa de
Jorge, com destaque para o Conselheiro Acácio, um homem
de palavrório complicado e inútil. Ele exemplifica o falso
moralismo, o apego às aparências. Gosta de frases de efeito
e citações morais, porém lê poemas obscenos e é amante da
própria empregada, Adelaide, a qual, por sua vez, o trai com
um caixeiro. Do personagem, surgiu o adjetivo acaciano, para
caracterizar os falsos moralistas ou pessoas que gostam de uma
exibição intelectual, sem serem de fato intelectuais.
O que sobressai do romance, para o bem ou para o mal, é a
excessiva descrição de cenas, pessoas, caracteres, com o objetivo
de ser o mais realista possível, isto é, permitir ao leitor uma visão
detalhada. Modernamente, uma prática que se torna cansativa
ao leitor, mas que tinha sua razão de ser para o contexto do
romance.
Outro ponto é a ironia do narrador, sobretudo quando
procura narrar e descrever situações em que importa mais
a aparência social, sobretudo com os casos envolvendo
personagens como o Conselheiro Acácio ou Julião. Jorge
também é visto ironicamente, pois, como homem típico do
século XIX (e mesmo do século XX), abomina as amizades da
esposa, sobretudo com Leopoldina, despreza a própria Luísa
com a descoberta do adultério, mas ele mesmo teve seus casos
no Alentejo, isto é, expressava uma visão cômoda de que para
o homem isso seria algo correto, ao passo que para a mulher
algo deplorável. Evidente que não se trata de uma visão de todo
superada...
Em rigor, essa mesma visão machista é a do Primo Basílio,
para quem a mulher deve servi-lo do melhor modo; como ser
“superior” mereceria usufruir a seu bel-prazer, até não precisar
ou não poder, ou não querer mais.
Em conclusão, pode-se dizer que há no romance duas críticas
básicas: uma à sociedade burguesa lisboeta pelo que tinha de
vazio, de exterior, de formal, sem grande preocupação com a
formação do ser; outra à visão burguesa, romântica, simbolizada
em Luísa, que mais do que sentimentos reais, profundos,
mostrava-se preocupada com suas fantasias que propriamente
com a realidade.
Basílio volta a Lisboa e descobre que Luísa havia morrido,
não demonstra tristeza, apenas descontentamento por não ter
mulher para passar os dias.
Basílio teve um sorriso resignado. E, depois de um silêncio,
Exercícios
1. (Fuvest-SP) Como se sabe, Eça de Queirós concebeu o livro
O primo Basílio como um romance de crítica da sociedade
60
portuguesa cujas “falsas bases” ele considerava um “dever
atacar”. A crítica que ele aí dirige a essa sociedade incide
mais diretamente sobre
a) o plano da economia, cuja estagnação estava na base da
desordem social.
b) os problemas de ordem cultural, como os que se verificavam
na educação e na literatura.
c) a excessiva dependência de Portugal em relação às colônias,
responsável pelo parasitismo da burguesia metropolitana.
d) a extrema sofisticação da burguesia de Lisboa, cujo luxo e
requinte conduziam à decadência dos costumes.
e) os grupos aristocráticos, remanescentes da monarquia, que
continuavam a exercer sua influência corruptora em pleno
regime republicano.
2. (Vunesp) Para responder à questão, leia o trecho seguinte,
extraído de O primo Basílio, de Eça de Queirós.
Bom Deus, Luiza começava a estar menos comovida ao pé
do seu amante, do que ao pé do seu marido! Um beijo de Jorge
perturbava-a mais, e viviam juntos havia três anos! Nunca se
secara ao pé de Jorge, nunca! E secava-se positivamente ao pé de
Basílio! Basílio, no fim, o que se tornara para ela? Era como um
marido pouco amado, que ia amar fora de casa! Mas então valia
a pena?
Onde estava o defeito? No amor mesmo talvez! Porque
enfim, ela e Basílio estavam nas condições melhores para
obterem uma felicidade excepcional: eram novos, cercava-os
o mistério, excitava-os a dificuldade... Por que era então que
quase bocejavam? É que o amor é essencialmente perecível, e na
hora em que nasce começa a morrer. Só os começos são bons.
Há então um delírio, um entusiasmo, um bocadinho do céu.
Mas depois! ... Seria, pois, necessário estar sempre a começar
para poder sempre sentir? E, pela lógica tortuosa dos amores
ilegítimos, o seu primeiro amante fazia-a vagamente pensar no
segundo!
No trecho, o amor é visto, predominantemente, como um
sentimento
a) eterno, pois Luiza não deixa de amar seu marido, Jorge,
apesar da distância que os separa.
b) passageiro e frágil, pois, para Luzia, só os começos são
bons.
c) intenso, pois Luiza se mostra profundamente divida entre
o amor de Basílio e Jorge.
d) terno e carinhoso, como se pode notar na boa lembrança
que Luiza tem do beijo de Jorge.
e) sofrido, pois Luiza e Jorge sofrem por se amar demais e por
não poderem ficar juntos.
e) Joana.
4. (Fuvest-SP) O primo Basílio pertence à fase dita realista
de seu autor, Eça de Queirós. É reconhecido, também,
como um romance de tese — tipo de narrativa em que
se demonstra uma ideia, em geral com intenção crítica e
reformadora. Tendo em vista essas determinações gerais, é
correto afirmar que, nesse romance:
a) O foco expressivo se concentra na interioridade subjetiva
das personagens, que se dão a conhecer por suas ideias e
sentimentos, e não por suas falas ou ações.
b) As personagens se afastam de caracterizações típicas,
tornando-se psicologicamente mais complexas e
individualizadas.
c) A preferência é dada à narração direta, evitando-se
recursos como a ironia, o suspense, o refinamento estilístico
de períodos e frases.
d) O interesse pelas relações entre o homem e o meio amplia o
espaço e as funções das descrições, tornadas mais minuciosas
e significativas.
e) A narração de ações, a criação de enredos e as reflexões
do narrador são amplamente substituídas pelo debate
ideológico-moral entre Jorge e o Conselheiro Acácio.
5. (Mackenzie-SP) Ia encontrar Basílio no Paraíso pela
primeira vez. E estava muito nervosa; (...) Mas ao mesmo
tempo uma curiosidade intensa, múltipla, impelia-a, com
um estremecimentozinho de prazer. – Ia, enfim, ter ela
própria aquela aventura que lera tantas vezes nos romances
amorosos! Era uma forma nova do amor que ia experimentar,
sensações excepcionais! Havia tudo – a casinha misteriosa,
o segredo ilegítimo, todas as palpitações do perigo! Porque
o aparato impressionava-a mais que o sentimento; e a casa
em si interessava-a, atraía-a mais que Basílio! Como seria?
Conhecia o gosto de Basílio, – e o Paraíso decerto era como
nos romances de Paulo Féval. A carruagem parou ao pé de
uma casa amarelada, com uma portinha pequena. Logo à
entrada um cheiro mole e salobro enojou-a. (Eça de Queirós,
O primo Basílio)
3. (Fuvest-SP) Prosperava, com efeito! Não punha na cama
senão lençóis de linho. Reclamara colchões novos, um tapete
para os pés da cama, felpudo! (...) Tinha cortinas de cassa
na janela, apanhadas com velhas fitas de seda azul; e sobre a
cômoda dois vasos da Vista Alegre dourados! Enfim um dia
santo, em lugar da cuia de retrós, apareceu com um chignon
de cabelo! (Eça de Queirós, O primo Basílio)
O trecho acima refere-se a:
a) Luísa.
b) Juliana.
c) D. Felicidade.
d) Leopoldina.
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Assinale o comentário crítico adequado ao fragmento
transcrito:
a) O romance realista, ao retratar o comportamento
feminino, busca desnudar as armadilhas da imaginação
decorrentes de uma educação romântica.
b) A personagem do romance romântico vivencia um
autêntico sentimento amoroso, cujo princípio é a fidelidade
ao ser amado.
c) O romance naturalista associa o sentimento amoroso a
uma anomalia fisiológica, responsável pelos devaneios da
personagem.
d) No romance romântico a crítica à idealização amorosa
está presente, por exemplo, na construção de personagem
frágil e sonhadora.
e) A ficção realista, ao retratar a figura feminina
apaixonada, tem por objetivo oferecer ao leitor um modelo
de conduta amorosa que enaltece a mulher.
Gabaritos:
I - Cidade de Deus, de Paulo Lins
1. a) Boca de fumo, local de tráfico de drogas.
b) sim, ele aproxima sua fala da dos personagens, ainda que nesse trecho não
fique tão claro isso. Há a seguinte passagem: Por esse motivo, chegara ao morro do Juramento, no subúrbio da Leopoldina, dando
tiro em tudo quanto era bandido
2. C 3. D 4. A
5. O texto de Paulo Lins retrata a violência presente nos morros cariocas, fruto da luta pelo domínio das “bocas-de-fumo”,
ou seja, dos pontos de venda de drogas. Pode-se entender, porém, que esse problema é consequência de uma desigualdade social
extrema, denunciada pela oposição simplista que o narrador faz entre brancos e negros.
6. Grande nutre ódio pelos policiais porque crê que eles servem aos brancos, protegendo a riqueza destes, à custa da opressão do
negro. Ele tem raiva dos brancos porque acha que eles tinham roubado os africanos, submetendo os descendentes destes a péssimas
condições de vida.
II - As melhores crônicas de Rachel de Queiroz
1. A 2. E
III - Espumas Flutuantes, de Castro Alves
1. B 2. A 3. A 4. A 5. A 6. D
7. C
8. E
9. E
10. E
11. B
12. E
IV - São Bernardo, de Graciliano Ramos
1. D 2. E 3. B 4. D 5. A 6. A
V - Papéis avulsos, de Machado de Assis
1. 05
2. O uniforme representa o status social que havia alcançado, é o olhar do outro, a tal alma exterior. Sem a aprovação social, de
pouco vale o indivíduo.
3. Sim, pois ele aborda como as eleições tendem a ser um jogo de cartas marcadas, bem como há pouco espaço para mudanças
reais nas relações de poder.
4. D
5. Leia estes trechos: É preciso perceber que há certo distanciamento do narrador, ao mesmo tempo que aponta para os detalhes e
aspectos significativos do que vai narrar em seguida.
6. E 7. C 8. A 9. B 10. A 11. A
VI - Sagarana, de Guimarães Rosa
1. C 2. E 3. B 4. A 5. D
VII - Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente
1. E 2. C
3. a) Esperava-se que o candidato identificasse o trecho “asno que leve quero / e não cavalo folão”, relacionando-o ao fato de
que, ao final da peça, Inês, a pretexto de não ter de molhar-se na travessia de um riacho, sobe às costas de seu marido. Note-se que,
para a obtenção do total de pontos neste item, não bastava relacionar os versos citados ao adágio popular, já que se pedia um trecho
concreto da peça que repetisse literalmente o que já se antecipara na fala de Inês.
b) Trata-se da truculência do escudeiro, manifestada por inúmeras atitudes, tais como proibi-la de cantar ou trancafiá-la em casa.
c) No que concerne aos dois casamentos de Inês, o autor demonstra que ambos são alheios a quaisquer sentimentos mais nobres
como o amor e o respeito mútuo. Inês, no primeiro caso, casa-se por seu interesse em ascender socialmente, isto é, de superar a sua
classe de origem, passando a pertencer a um segmento que sua mãe reconhece ser superior. No segundo casamento, Inês vinga-se do
autoritarismo do primeiro marido e da humilhação que este lhe infligira; casa-se “pró-forma” com um tipo simplório (Pero Marques)
que lhe faz todas as vontades, inclusive tolerando o adultério. Nota-se assim que Gil Vicente critica a dissociação entre casamento e
amor, já que em ambas as ocasiões Inês Pereira casa-se por interesse (ascenção social, conforto, acomodação).
4. C 5. E 6. A 7. C
VIII - Bagagem, de Adélia Prado
1. 26(02+08+16)
2. 17(01+16)
3. 57(01+08+16+32)
IX - O Planalto e a Estepe, de Pepetela
1. D 2. E 3. B
X - O primo Basílio, de Eça de Queirós
1. D 2. B 3. B 4. D 5. A
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