Trabalho 283
MULHERES: SENTIMENTOS EXPRESSOS NA
SALA DE ESPERA DO CENTRO CIRÚRGICO1
Anna Maria de Oliveira Salimena2
Maura Patrícia de Andrade3
Maria Carmen Simões Cardoso de Melo4
INTRODUÇÃO: A pessoa e sua doença não são mais os principais centros de atenção
e investigação da enfermagem, mas também, a família é vista como foco dessa atenção.
Neste sentido, encontramos estudos que fazem reflexões referentes aos aspectos da
experiência da família ao vivenciar uma situação conflitante e que é indispensável para
o planejamento da assistência de enfermagem a esta 1. A inquietação para desenvolver
este estudo emergiu ao observar mulheres que aguardavam na sala de espera do Centro
Cirúrgico o transcorrer do ato operatório de seu familiar, situação em que de várias
formas os sentimentos foram expressos. Portanto, o foco da atenção de cuidados do
enfermeiro não deve estar centrado apenas no paciente em trans-operatório, mas
também no familiar que vivencia esta situação. A enfermagem da família é uma área
nova que vem avançando em termos de conhecimentos teóricos, sendo considerada
ainda um ideal, ainda não se observa sua concretude em lugar de uma prática
predominante e para que cresça e se solidifique como área do saber é preciso que
desenvolva teorias para sustentar a prática 2. O progresso de conceitos específicos para
essa área demonstra-se oportuno, a fim de permitir melhor entendimento da experiência
da família e a proposta de intervenções avançadas com famílias que vivenciam situações
difíceis, como aquelas enfrentadas pela enfermidade, hospitalização ou cirurgia de um
membro da família. A presença do familiar imprime novo modo de organização no
trabalho da enfermagem, uma vez que assume certos cuidados que estão na esfera das
ações da enfermagem. No ambiente hospitalar cabe ao enfermeiro prover uma
comunicação efetiva e eficiente com o familiar, fazendo com que a informação chegue
de forma correta e compreensível, não ocasionando duvidas ou deixando lacunas,
proporcionando assim conforto e minimizando a ansiedade e outros sentimentos.
Quando nos preocupamos com esta comunicação, estamos nos preocupando com a
humanização do cuidado de forma integralizada, sendo a humanização o alicerce do
desenvolvimento de nossas atividades assistenciais. Sendo assim, na relação terapêutica
1
Recorte do relatório de Pesquisa realizada como Trabalho de Conclusão do Curso de
Enfermagem da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Juiz de Fora
(FACENF/UFJF).
Orientadora. Doutora em Enfermagem. Professora do Departamento Enfermagem Aplicada
FACENF/UFJF.
2
3
Enfermeira. Graduada no Curso de Enfermagem FACENF/UFJF.
Professora Doutora do Departamento Enfermagem Aplicada da FACENF/UFJF.
E-mail: [email protected]
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o enfermeiro deve respeitar a individualidade, crenças, valores dos familiares como
forma de compreensão de suas necessidades e buscar a melhor maneira de ajudá-los
neste momento de tensão. Neste contexto, durante as orientações do processo operatório
a equipe de enfermagem deve mostrar-se atenta e disponível ao familiar encorajando-o a
relatar suas queixas, preocupações e duvidas, evidenciando que a comunicação sob suas
diferentes formas é o principal meio para favorecer a interação entre a equipe de
enfermagem e os familiares3. A comunicação é parte essencial no processo terapêutico e
o enfermeiro deve considerar a comunicação com o familiar como um processo
recíproco, onde a finalidade é possibilitar o delineamento das necessidades a serem
atendidas, para ajudar a pessoa que esta aguardando a cirurgia de seu familiar sentir-se
um ser humano digno e reconhecido além de propiciá-lo a encontrar novos padrões de
comportamento diante do evento aguardado4. A inter-relação entre equipe de
enfermagem e familiar deve ser pautada na humanização do cuidado, levando em
consideração suas necessidades para o estabelecimento do plano de cuidados.
OBJETIVO: Conhecer os sentimentos de mulheres que aguardam na sala de espera do
centro cirúrgico o trans-operatório de seu familiar. METODOLOGIA: Valeu-se da
abordagem qualitativa como meio de compreender os fenômenos e avaliar a
subjetividade5. O projeto de pesquisa foi deferido pelo Comitê de Ética do Hospital
Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora com o Parecer nº 0126/2010. O
estudo foi desenvolvido na sala de espera do Centro Cirúrgico do Centro de Atenção a
Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora. Foram sujeitos 17 mulheres/familiares
de pacientes que estavam em trans-operatório de pequeno ou médio porte, no período do
dia 04 a 29 de Novembro de 2010. Os depoimentos foram colhidos através de entrevista
aberta numa relação empática. Após identificado a essência dos significados realizou-se
a análise compreensiva7 desvelando-se as Unidades de Significados: Ansiedade;
Coração apertado, angustia e sofrimento. RESULTADO: A necessidade de uma cirurgia
ocorre, geralmente, de forma inesperada, resultando em um momento de crise tanto para
o cliente quanto para os seus familiares, necessitando receber ajuda para enfrentar este
momento de forma menos traumática possível. A família que vivencia um momento de
crise experimenta uma vasta gama de emoções, dentre eles: depressão, medo, ansiedade,
nervosismo7. Os familiares experimentam vários sentimentos e expectativas enquanto
aguardam a cirurgia de um membro de sua família. Esse período de espera revela-se
angustiante uma vez que se depara com um ambiente diferenciado, com pessoas
estranhas, ambiente este com normas e rotinas das quais não esta acostumado. Ao serem
indagadas sobre o que estavam sentindo naquele momento em que seu familiar estava
na sala de cirurgia, as depoentes trouxeram uma gama de emoções tais como: como,
ansiedade, nervosismo, estresse, preocupação, desespero, dentre outros. Este momento
de espera é descrito como sendo uma sensação desagradável, de tensão, apreensão ou
medo3. Pois que a ansiedade é um estado emocional indesejável e desconfortável que
pode variar em intensidade e duração e que se caracteriza por instabilidade emocional e
desprazer. Esta intensidade varia de individuo pra individuo, já que cada ser é único e
possui suas próprias vivencias que lhes dão bagagem para a experiência esse momento 9.
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A ansiedade é desencadeada por um tensor que é percebido como uma ameaça
desconhecida, potencialmente nociva e perigosa8. Acredita-se que a ansiedade é um
fator básico no desenvolvimento e é uma manifestação no comportamento humano.
Portanto, é necessário que o enfermeiro adquira uma profunda compreensão sobre suas
características, origem e adaptações em geral, para dar o suporte necessário ao paciente
e aos seus familiares que estão sob seus cuidados profissionais. Percebeu-se que a
ansiedade vem acompanhada de expressões e gestos caracterizando uma linguagem não
verbal como o esfregar das mãos, o balançar dos pés, a fisionomia de aflição pelo
momento, o olhar perdido e a inquietação de permanecer sentado ou andando para todos
os lados. É possível que a iminência do procedimento cirúrgico provoque sentimentos e
avaliações cognitivas que, influenciados pela individualidade, resultem em
comportamentos peculiares de adaptação, cuja finalidade é enfrentar os medos mais
profundos. As depoentes deste estudo vivenciam o início de um momento angustiante
com relação ao procedimento cirúrgico desde quando ainda em sua residência começam
a preparar-se para vir ao hospital, pois neste momento, começou a ocorrer uma mudança
na rotina de suas vidas, ao se predisporem a acompanhar mais de perto o seu familiar.
Parece que o fato de lidar com coisas concretas fazem o familiar voltar-se para si e,
desse modo, emerge o medo de que alguma coisa decorrente da cirurgia aconteça,
revelando em sofrimento10. O medo do desconhecido, o medo do que pode acontecer, o
medo da morte, a falta de noticia e as experiências não bem sucedidas com outros
familiares que necessitaram de cirurgia são as principais causas das inseguranças e dos
sentimentos de angustia e preocupação desse familiar 11. O corpo e os gestos
expressaram a angustia e o sentimento de coração apertado vivido pelas familiares
depoentes bem como seus olhos se encheram de lágrimas, em um momento sublime de
ternura e amor. A expressão de ficar com o “coração apertado” subjetiva um estado de
intensa dor experenciada, como foi expresso. Portanto, acolher o familiar de forma
cordial, promovendo-lhe um ambiente tranqüilo e confortável, apresentando-lhe a
equipe que cuidará de seu familiar nos próximos momentos, esclarecendo-lhes sua
duvidas, são atitudes que fazem com que a sistematização de assistência contribua na
amenização dos sentimentos de coração apertado. A equipe de enfermagem representa o
elo mais forte entre o ambiente da unidade de cirurgia e o familiar, por serem esses
profissionais que exercem por maior tempo atividades junto ao paciente. Por isso a
humanização das unidades cirúrgicas pode estar interligada á atuação dos profissionais
de saúde diante aos fatores estressantes10. Neste contexto, o cuidado humanizado
permite estabelecer relações que contribuem para aliviar as fontes geradoras de
sofrimento para os pacientes e seus familiares durante a fase perioperatória.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: Desvelou-se neste estudo que as familiares que
aguardavam na sala de espera do Centro Cirúrgico a cirurgia de algum membro da
família ficaram mais susceptíveis a experiências e sentimentos diversos como a
ansiedade, o sofrimento, a angustia, a dor, ao medo, o estresse e o sofrimento em geral.
Percebemos que a ansiedade se fez presente de forma marcante e que uma das causas
mais frequente para que essa se manifestasse foi à falta de informação sobre o que
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estava acontecendo com seu familiar na sala de cirurgia, o medo de que algo de ruim
pudesse acontecer com ele, decorrente das dúvidas sobre o procedimento cirúrgico bem
como a anestesia. Portanto, consideramos que cabe ao enfermeiro proporcionar estas
informações, sanar as dúvidas destas familiares, promover uma assistência de qualidade
balizada na sistematização da assistência. Bem como, que tanto o enfermeiro como os
demais membros da equipe de saúde devem estabelecer maior interação com os
familiares. Percebê-los também como clientes que precisam ser assistidos nas unidades
dos hospitais, a fim de possibilitar uma assistência integral, visando não só o
decréscimo da ansiedade, mas o aumento da confiança, cooperação, aceitação do
diagnóstico e dos procedimentos utilizados, melhorando a relação de entendimento e de
empatia.
Palavras-chave: Enfermagem, Sentimentos, Centro Cirúrgico.
REFERÊNCIAS
1 Ferrioli DR; Acosta LS; Gomes GC; Filho WDL. Cuidando de Famílias de Pacientes
Internados em uma Unidade de Terapia Intensiva. Família Saúde e Desenvolvimento,
Curitiba, 2003. 5(3);193-202.
2 Perrengill MAM; Angelo M. Identificação da vulnerabilidade da família na prática
clínica. Revista da Escola de Enfermagem da USP. 2006. 40 (2): 78-86.
3 Squassante ND; Alvim LNAT. Relação equipe de enfermagem e acompanhantes de
clientes hospitalizados: implicações para o cuidado. Revista Brasileira de Enfermagem.
2009; 62 (1): 11- 8.
4 Santos KMAB; Silva MJP. Percepção dos profissionais de saúde sobre a comunicação
com os familiares de pacientes em UTIs. Revista Brasileira de Enfermagem. 2006. 59
(1): 61-7.
5 Gil AR; Light RHG; Santos BRM. Por que fazer pesquisa qualitativa em saúde?
Caderno de Pesquisa em Ciências da Saúde. 2006. 1 (2): 5 – 19.
6 BRASIL, Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Resolução 196/96.
Dispõe sobre pesquisa envolvendo humanos. Brasília; 1996.
7 Salimena AMO. Buscando compreender os sentimentos da mãe ao deixar o filho à
porta da sala de cirurgia. 2000. [Dissertação] - Escola de Enfermagem, Universidade
Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais. 2000.
8 Lima FB; Silva JLL; Gentile ACA. Relevância da Comunicação Terapêutica na
Amenização do Estresse de Clientes em Pré-Operatório: Cuidando Através de
Orientações. Informe-se em Promoção da Saúde. 2007. 3 (2): 17-8.
9 Silva WV; Nakata AS. Comunicação: uma necessidade percebida no período préoperatório de pacientes cirúrgicos. Revista Bras. de Enfermagem. 2005.58 (6): 673-77.
10 Nascimento LJ. Humanização de enfermagem no período perioperatório e
estratégias aplicadas para a redução de ansiedade. [Monografia]. Centro Universitário
Clarentiano, Batatais, São Paulo, 2006.
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