OS CERVÍDEOS NA ARTE RUPESTRE EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS –DO CÔA AO TEJO Mila Simões de ABREU* Sara GARCÊS** *Unidade de Arqueologia, Departamento de Geologia Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro; Grupo de Quaternário e Pré-História do Centro de Geociências; Lucy Cavendish College, Cambridge University . [email protected] ; [email protected] **Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do vale do Tejo. Grupo de Quaternário e Pré-História do Centro de Geociências. Doutoranda da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Email: [email protected] Resumo: Os cervídeos ocupam um lugar de relevo entre as figuras de animais conhecidas na arte rupestre portuguesa. A sua distribuição geográfica estende-se essencialmente pela zona Norte e Centro do país. Do ponto de vista cronológico conhecemos diversas dezenas de figuras de cervos e animais semelhantes, tanto a picotado como a filiforme, em estilo Paleolítico. Tais achados concentram-se em especial na zona do Vale do Côa e em vales paralelos como Vale da Vermelhosa e o Vale de Cabrões, na bacia hidrográfica do rio Douro, mas foram também identificadas figuras filiformes semelhantes em Porta Portel, na zona de influência da barragem do Alqueva, no Guadiana, embora o seu número seja diminuto. A maior concentração de figuras de cervídeos, podemos afirmar com certeza, encontra-se infelizmente hoje debaixo de água, em pleno rio Tejo, na área que vai das Portas do Ródão à barragem do Fratel. No presente trabalho são dados a conhecer os resultados da análise de figuras desse tipo, quer do ponto de vista tipológico quer do cronológico, identificadas na literatura e nalguns dos moldes em látex feitos com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian antes da submersão e que aos quais tivemos recentemente acesso. Palavras-chave: Cervídeo; Arte Rupestre; Vale do Tejo; Vale do Côa; Gravura; Mila Simões de ABREU & Sara GARCÊS Introdução São hoje conhecidos mais de 800 sítios de arte rupestre em território Português. O número de figuras não é preciso mas deve aproximar-se das 50 mil, com grandes concentrações de figuras no Vale do Côa, a Norte e no Vale do Tejo, no Centro do país. Mais de 95% dessas localidades tem apenas representações gravadas e o número de abrigos pintados é ainda muito reduzido, conhecendo-se até ao momento apenas uma única gruta profunda – o Escoural – pertencente à chamada tradição franco-cantábrica. Na distribuição espacial das zonas gravadas a geologia tem um papel relevante, dividindo, tanto do ponto de vista temático, como do cronológico, o território português em duas grandes áreas: a dos granitos e a dos xistos. Os primeiros abundam nas zonas altas de Trás-os-Montes, no interior das Beiras e mais no litoral no Minho. Os xistos, por seu lado, podem ser identificados, no interior do país, nos vales dos grandes rios como o Douro, a Norte, o Tejo no Centro e o Guadiana mais para Sul. A presença de gravuras nas margens e até, por vezes, no próprio leito do rio não se limita, porém, apenas ao rio principal, tendo papel relevante afluentes como, por exemplo, o rio Côa e o Sabor no caso do Douro, o Ocreza e o Zêzere no caso do Tejo. Ao olharmos a actual distribuição da arte rupestre não podemos deixar de recordar que se trata de uma visão fragmentaria devido ao facto de, à natural erosão dos milénios, se juntou, na segunda metade do século XX, o avassalador impacto da construção de numerosas barragens. Se a existência de gravuras foi, ainda que sumariamente, reconhecida e publicada nalgumas dessas zonas que acabaram por ser submersas, como o Vale da Casa, nas proximidades da actual barragem do Pocinho, no rio Douro, já no caso da ribeira de Pracana, na bacia do Tejo, a sua presença só pode ser hipotizada. A B 824 C Figura 1 – A: Mapa de Portugal com as duas zona principais zona referidas (1- Vale do Côa; 2-Vale do Tejo). B: o Vale do Côa visto da Pedreira dos Poios. C: o Vale do Tejo em S. Simão. 13/ Animais na arte rupestre – Animals in the rock art OS CERVÍDEOS NA ARTE RUPESTRE EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS –DO CÔA AO TEJO Do ponto de vista temático os dois tipos de rochas vão produzir também substancialmente dois grandes tipos de Arte. Uma, a que chamamos “Grande Tradição dos Granitos” – GTG e outra, “Grande Tradição o Xisto” – GTX (ABREU no prelo). Embora seja possível encontrar figuras chaves, ou emblemáticas, de uma na noutra e vice-versa. Tal é o casos, por exemplo, dos círculos concêntricos que, embora não completamente idênticos, se encontram nas duas Grandes Tradições. É por outro lado bem visível a ausência quase total de “covinhas” nas bancadas de xisto de áreas como Vale do Côa. Cronologicamente essas duas “Grandes Tradições” podem-se dividir em diversas outras “Tradições”, como a “Tradição Covinhas”, “Tradição Douro-Côa” etc. (ABREU no prelo) que, com temáticas e cronologias diferentes, igualmente se cruzam e sobrepõem entre si, mas que essencialmente, no que diz respeito à datação, se podem definir: com uma cronologia longa para a GTX - com incidência no Paleolítico mas com continuidade até à Idade do Ferro); e uma, mais curta, para a GTG – essencialmente correspondendo ao período que vai da Idade do Bronze à Idade do Ferro. Em geral a maioria das gravuras em território Português são simples “covinhas” e cruzes que, quer pela execução, quer pela própria temática, são difíceis de datar, podendo ter sido feitas em época Pré-histórica mas igualmente em época Medieval, ou até muito posteriormente. Em seguida encontramos aquelas figuras, que actualmente ainda que talvez por conveniência, optou-se por caracterizar como “simbólicas”. Correspondendo essas tipologicamente as figuras como “covinhas”, círculos e canais, círculos concêntricos, “ferraduras”, pegadas etc., essencialmente dominantes na GTG. Muito menos comuns, mas igualmente presentes, são as figuras de meandriformes ou labirintiformes. Objectos e armas aparecem principalmente num contexto de execução técnica bem característico, ou seja, foram feitos na maioria dos casos com a técnica de polissoir (abrasão continua) e com o riscado (filiforme), tal como acontece com figuras presentes em estações como Sortes, Ridevides e Vale da Casa, mais a Norte, ou em Molelinhos, Pedra Escrita de Góis ou Rocha da Fechadura, no Centro. Finalmente, encontramos as figuras que são mais facilmente identificáveis, como os antropomorfos e os zoomorfos. Os primeiros são na maioria muito esquemáticos, por vezes quase “cruciformes”, mas presentes tanto na GTG como na GTX. Nesta última conhecem-se diversos exemplos, mais naturalísticos e executados em técnica filiforme, como o famoso “Homem de Piscos” provavelmente de época paleolítica ou os guerreiros do Vale da Vermelhosa pertencentes à Idade do Ferro. São no entanto os zoomorfos as gravuras reconhecíveis mais comuns e mais presentes em ambas as “Grandes Tradições” e encontrando-se distribuídos por todo o País. Entre essas figuras de animais as mais frequentes são sem dúvida, o cavalo e o cervídeo. É exactamente desta última que vamos tratar neste texto, tanto quanto à sua presença e estilo, como cronologia e significado e em especial nas duas das áreas onde aparece mais predominantemente – o Vale do Douro e o Vale do Tejo. Porquê cervídeos? Nas gravuras, pela própria dificuldade de execução inerente à técnica, as imagens não aparecem tão definidas como são, por exemplo, são algumas pinturas rupestres. Detalhes anatómicos aparecem simplificados ou apenas esboçados. Nos animais a presença de figuras com apêndices na cabeça é no entanto comum e reconhecível. O tamanho e a própria forma, em conjunto com detalhes do resto do corpo, faz com que seja possível distinguir facilmente, na maioria dos casos, entre bovídeos, caprídeos e cervídeos. Os primeiros são principalmente auroques (Bos primigenius), com os cornos em forma de lira, e aparecem exclusivamente em horizonte estilístico Paleolítico. As diversas espécies de cabras (Capra pyrenaica, Rupicapra pyrenaica) representadas possuem chifres pequenos e simples e são facilmente reconhecidas pela sua cauda característica, assim como pelo tamanho reduzidos dos membros. O terceiro grupo de figuras possuí nitidamente as chamadas galhadas (hastes em forma de galhos), ou seja estruturas ossificadas ramificadas, e são genericamente chamados cervos (da família Cervidae). Trata-se de um grande grupo de herbívoros ruminantes que conta 40 espécies, subdivididas em pouco menos que 200 subespécies. Sabemos que as galhadas se desenvolvem todos os anos, estão presentes na maioria dos casos só nos machos e só durante algumas épocas do ano. Muitas das figuras rupestres, apesar de desprovidas desse apêndice, entraram tipologicamente no entanto nesse grupo, tratando-se provavelmente de fêmeas. Na impossibilidade de no momento identificar com maior precisão, no que diz respeito às diferentes espécies, essas figuras optámos por genericamente chamar a todos –cervídeos. Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL 825 Mila Simões de ABREU & Sara GARCÊS O Vale do Côa Nas margens do rio Côa, um afluente da margem esquerda do Douro, encontramos gravadas mas paredes xistosas a maior concentração de arte rupestre de Portugal. A sua existência tornou-se pública em Novembro de 1994 e o facto de se estar a construir então na zona uma mega-barragem, motivou uma intensa campanha internacional que teve a coordenação da IFRAO e que levou à criação do “Movimento para a salvaguarda das gravuras do Vale do Côa”. Um ano de pedidos e protestos tanto a nível nacional como internacional e a consciencialização da importância do achado forçaram o Governo eleito em Outubro de 1995 a abandonar a construção da barragem e a criar o “Parque Arqueológico do Vale do Côa”. O valor da zona foi universalmente reconhecido com a entrada para lista do Património Mundial da UNESCO em 1998. 826 Figura 2 - Vale do Côa, Penascosa, rocha 10. O grande veado. Embora muitas das zonas e milhares de figuras estejam ainda por publicar o número das gravuras atingirá certamente os milhares, distribuídos por pelo menos 30 diferentes localidades ou estações. A chamada “Tradição Douro-Côa” – TDC, espalha-se, no entanto, por ambas as margens do Douro, compreendendo alguns dos vales paralelos ao Côa como Vale de Cabrões, Vale da Vermelhosa, Vale João Esquerdo etc., e indo até a margens mais distantes do mesmo rio, já na parte internacional, como em Mazouco. No vale de outro afluente duriense, o Sabor, foram também identificadas até ao momento quatro outras estações com figuras semelhantes às do Côa. A essas devemos somar a já referida zona de Vale da Casa, que com dezenas de rochas quase inteiramente submersas desde 1982 pelas águas da barragem de Pocinho. É necessário dizer de imediato que até ao momento as figuras de cervídeos estão ausentes em muitas dessas localidades da Zona Douro-Côa como, por exemplo, no Vale do Sabor. Uma das figuras incompletas de Mazouco (a 4, mais no alto) podia ter sido um cervo, mas está demasiado fragmentada, o mesmo acontecendo na verdade com uma outra figura presente em Pousadouro, no já referido Sabor. No próprio Côa a presença de auroques, cavalos e até mesmo de cabras, parece superar em muito os cervídeos. António Martinho Baptista (2009:113) diz que na analise que fez das 117 rochas que segundo ele tem arte exclusivamente em estilo Paleolítico, só 10,2% tem figuras de cervídeos. No entanto talvez pela sua beleza e qualidade estética acabam por estar entre as figuras mais apreciados. É interessante notar que existam no Vale do Côa poucos cervídeos executados a picotado, a maioria são filiformes e com dimensões reduzidas. Para além disso os cervídeos a picotado parecem ser menos curados na execução, mais modestos e até um pouco decadentes na sua forma. A figura mais imponente desse tipo foi gravada no Vale de Cabrões, Vila Nova de Foz Côa (ver figura nº3) e tal como o veado da Rocha 33 da Canada do Inferno recorda, como vamos se vai ver mais adiante, alguns dos veados do Tejo, por exemplo, o facto de ter o pescoço e a cabeça preenchidos. 13/ Animais na arte rupestre – Animals in the rock art OS CERVÍDEOS NA ARTE RUPESTRE EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS –DO CÔA AO TEJO Figura 3 – Vale de Cabrões, Parque Arqueológico do Vale do Côa, Rocha 1. Veado a picotado. (Foto MSA para o Projecto Gravado no Tempo – Portugal) Tanto no que diz respeito ao tamanho como ao modo de execução o cervo da rocha 10 de Penascosa, Castelo Melhor, (ver figura nº 2) é uma clara excepção que confirma a regra. De grandes dimensões é bem visível a grande distância e foi feito com grande cura. Trata-se de um caso de sinalização para que nos “visitantes” não qualificados não entrassem na zona, como acontece, por exemplo, em localidades rupestre Australianas de no Norte dos Estados Unidos? A sua técnica é particularmente original pois o “artista” criou como que uma ilusão óptica de figura rapando suavemente a superfície. Do ponto de vista estilístico aproxima-se muito de outras figuras filiforme presentes nas rocha 14 e 20 da Canada do Inferno, V.N de Foz Côa. Se é verdade que a maioria das figuras de cervídeos na zona do Parque Arqueológico do Vale do Côa são filiformes pouco visíveis, é igualmente correcto dizer que muitos são anatomicamente mais precisos que as figuras a picotado. O pêlo é representado por série de linhas paralelas que ajudam também a dar volume à figura principalmente na zona do ventre. As hastes, quando presentes, aparecem bem desenhadas com as partes mais pontiagudas bem evidentes. Bom exemplo disso são as figuras da rocha 16 de Vale José Esteves, V.N. Foz Côa (BAPTISTA 2009:118). No que diz respeito à distribuição a maioria das figuras de cervídeos parece estar localizada nos já citados vales paralelos ao rio Côa. Vale de Cabrões e, em especial, no Vale de José Esteves e no Vale da Vermelhosa. Nestes últimos em só duas rochas – a rocha 16 de Vale José Esteves e a rocha 1 de Vermelhosa – tem em cada uma delas mais de 10 figuras de cervídeos. Figura 4 - Vale da Vermelhosa, rocha 1 painel central, pequena figura cervo fêmea. Estilo Paleolítico (15.000-8.000 ) (foto e decalque “Projecto Gravado no Tempo – Portugal) Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL 827 Mila Simões de ABREU & Sara GARCÊS São figuras feita com um traço muito fino quase invisível, provavelmente usando um cristal pois foi encontrado um aos pés da rocha 1 que se parece com um verdadeiro lápis. As linhas paralelas ou traços múltiplos, encontram paralelos estilísticos na arte rupestre de algumas grutas paleolíticas, como descreveu já nos anos oitenta Martin Almagro (ALMAGRO BASH 1980) e principalmente entre as numerosíssimas plaquetes gravadas encontradas na gruta de Parpalló, em Gandía, Valência, Espanha. (VILLAVERDE BONILLA 1994). Figura 5 - Vale da Vermelhosa, rocha 1 painel central, figuras de cervos fêmeas e machos com as hastes exageradas. Estilo Paleolítico - 15.000-8.000 anos (foto e decalque “Projecto Gravado no Tempo – Portugal) Algumas das gravuras são desprovidas das hastes enquanto outras tem-nas bem ramificadas e de dimensões enormes, quase exageradas (ver figuras 4-5). (ABREU et al. 1996 & ARCÁ 1996) 828 A dificuldade em ver estas figuras leva-nos a perguntar para quem podiam ter sido feitas pois só um observador que estivesse a pouco centímetros da parede as podia ver, mesmo tendo em consideração o facto da pátina ser no passado muito mais clara e, portanto, a imagem muito mais evidente. O espaço que rodeia a rocha não dá também oportunidade a que um grande número de pessoas possa estar ao mesmo tempo junto à parede decorada. Não se trata pensamos nós de uma “arte pública” ou, como descrevemos anteriormente ao falarmos do grande cervo de Penascosa, para ser admirada de longe. A cronologia da arte rupestre do Vale Côa desde a sua identificação tem sido sujeita a intenso debate internacional com propostas de datação que vão dos 25.000 anos a pouco mais de 300 anos... (BEDNARIK 1995; WATCHMAN 1995; ZILHÃO 1995). As figuras de cervídeos não fogem a essa problemática. Em pelo menos num caso, na rocha 1 do Vale da Vermelhosa existe uma figura de cervídeo sobreposta por uma figura de cavaleiro claramente datada à época do Ferro (ver figura nº6). A cor da patina de ambos é nitidamente diferente sendo a figura mais recente muito mais clara e visível. (ABREU et al 1996; ARCÀ 1996) Figura 6 - Levantamento e detalhe de figura de cervídeo sobreposta por cavaleiro da Idade do Ferro - I século A.C. Note-se a diferença de cor da patina das duas figuras (decalque e foto “Projecto Gravado no Tempo – Portugal’) 13/ Animais na arte rupestre – Animals in the rock art OS CERVÍDEOS NA ARTE RUPESTRE EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS –DO CÔA AO TEJO Apesar de diversas tentativas de datação, quer absoluta quer relativa, (AUBRY et al. 2006 e 2008; BEDNARIK 1995; DORN 1997; PHILLIPS et al. 1997) a arte do Côa, como aliás a maioria da arte rupestre ao ar livre na Europa, continua a ser datada por considerações de carácter estilístico, estratigráfico e temático. Por outro lado a investigação arqueológica na zona do Douro-Côa apesar de ter dados inequívocos de uma ocupação humana antiga (AUBRY et al 1997; AUBRY 1998) não forneceu qualquer vestígio ósseo animal para as épocas mais antigas estando ainda esse tipo de achado limitado a contextos da Pré-história recente provenientes de localidades como Castelo Velho em Freixo de Numão (FIGUEIRAL & JORGE 2008). O Vale do Tejo As estações do habitualmente chamado “Complexo de Arte Rupestre do Vale do Tejo” (CARVT) situam-se ao longo das margens dos rios: Tejo (margem esquerda e direita), Ocreza (essencialmente na margem direita) e Sever (margem esquerda). Administrativamente ocupam os municípios de Mação, Nisa e Vila Velha de Ródão estendo-se hoje para além da fronteira Espanhola. Outras gravuras descobertas e estudadas de recente também pertencem à grande bacia hidrográfica do Tejo, tal é o casos das “covinhas” de Abrantes (CRUZ 2008; BATISTA & CRUZ 2007), as figuras em estilo Paleolítico do Vale da Rovinosa Poço do Caldeirão, Barroca, Fundão e de Costalta no rio Zêzere (BAPTISTA 2001e 2009) e Figueiredo, Sertã (BATATA et al. 2004; 2005) mas quer por motivos temáticos quer estilísticos não fazem parte deste estudo. 829 Figure 7 – São Simão. Uma das zona com arte rupestre do Vale do Tejo ainda ao ar livre (foto MSA) Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL Mila Simões de ABREU & Sara GARCÊS Nas últimas décadas esta área do Vale do Tejo tem sido alvo de inúmeros trabalhos arqueológicos começando com investigações sobre a Pré-história antiga passando pelo período de transição para o agro-pastoril até mais estritamente para o horizonte megalítico (OOSTERBEEK & CURA 2007) mas com um ponto fulcral de pesquisa centrado no estudo da arte rupestre. Na verdade as gravuras rupestres descobertas no início da década de 70 do século XX, por um grupo de estudantes da Faculdade de Lisboa, foram quase na totalidade submersas no ano de 1974, a quando da que a entrada em funcionamento da barragem do Fratel. Geograficamente espalham-se por cerca de 40km, num troço compreendido entre a margem direita rio Ocreza, nas proximidades da sua foz, até, sensivelmente, à fronteira com a Espanha. Existindo figuras ao longo das margens e em ambos os lados do Tejo como já dissemos. O número exacto das gravuras que se perderam não é preciso, para alguns 20.000, mesmo 30.000 (SERRÃO 1978; GOMES 2001), para outros apenas 5000. A maioria dos autores apontam para o desaparecimento de 90% das gravuras que teriam existido aquando da descoberta. Na época das descobertas perante a inevitabilidade da construção da barragem e graças ao trabalho de muitos jovens e com o contributo financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian de Lisboa foi recolhida o máximo da documentação. Na impossibilidade de se decalcar toda a área e sabendo que o destino das rochas estava marcado e seguindo o conselho de especialistas estrangeiros optou-se por realizar moldes em látex de muitas das gravuras. Esses moldes por vezes reproduzem áreas bastante grandes das superfícies historiadas e são cerca de 1700. Com o auxilio do método “neutro” ou bicromático que torna as figuras mais visíveis foram também fotografadas muitas das gravuras. O objectivo foi sempre aquele de se recolher informações para a elaboração de um Corpus das imagens sistemático que permitiria si mais tarde elaborara sucessivos estudos. O que se passou a seguir não foi talvez o esperado. Os anos foram passando e só meia dúzia de rochas foram estudadas e publicadas, estando ainda a maioria das figuras por decalcar e estudar. 830 Recentemente no seio do trabalho de investigação conduzido pelo Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo, em Mação, no âmbito de um projecto aprovado pelo IGESPAR e com a colaboração do Instituto Politécnico de Tomar e da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro com a colaboração de diversos alunos do Mestrado Eramus-Mundus “Arqueologia Pré-histórica e Arte Rupestre” e deu-se inicio a um detalhado programa de revisão sistemático do material conhecido1. O objectivo do Projecto é contribuir para a organização do corpus de representações gráficas e desenvolver estudos de pormenor. No âmbito do mestrado foram já realizadas duas teses de mestrado com temas relacionados com a arte rupestre Tagana e num dos casos (uma das signatárias deste texto - S.G.) depois de ter defendido a tese com enfoque nos cervídeos do Tejo, propôs sucessivamente como tema de dissertação de doutoramentos um estudo mais sistemático de todas as figuras e um enquadramento mais geral da temática. Neste quadro, estão a ser decalcados todos os moldes feitos nos anos 70 e está a ser elaborado o catalogo de todas das figuras que em breve esperamos poder disponibilizar. Os cervídeos do Tejo no material publicado e nalguns dos moldes realizados Foram estudados seis sítios de arte rupestre do CARVT – Alagadouro, Chão da Velha, Fratel, Cachão do Algarve, S. Simão e rio Ocreza – o material analisado foi, em primeiro lugar, o publicado pelos diferentes autores ao longo destes quase 40 anos e, em segundo, alguns dos moldes em látex realizados no passado e que começámos a ter em nossa posse e que foram decalcados e catalogados até Junho de 2009. Em todas essas estações os cervídeos apresentam-se como figuras de grande interesse já que eventualmente podem ser interpretados como integrando cenas de caça, acasalamento e eventuais rituais. Alguns desses zoomorfos parecem estar associados com a presença de armas de caça. Os investigadores que se dedicaram até agora ao estudo da arte do Tejo deram pouca importância a essas ocorrências aparecendo na literatura apenas uma ou duas ocasionais referências (GOMES 2001), não podemos, porém, deixar aqui de suscitar dúvidas sobre se realmente se trata de uma arma, pela simplicidade da própria representação em si, mas também pela dificuldade em decifrar tipo de armas representadas. 1 Projecto Ruptejo 13/ Animais na arte rupestre – Animals in the rock art OS CERVÍDEOS NA ARTE RUPESTRE EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS –DO CÔA AO TEJO Alagadouro No núcleo de Alagadouro contámos 6 figuras de cervos, algumas não estão completas, como é o caso da figura 1 (ver tabela 1). Cerv o Localizaçã o 1 Alagadour o 36-A 2 Alagadour o 43 3 Alagadour o 45 4 Alagadour o 60 Moldes do 2 Tejo Figuração mais completa (bibliografia) Outras variações (bibliografia) 831 5 Alagadour o 60 6 Alagadour o 60 Tabela 1: Figuras de cervídeos do núcleo do Alagadouro. Entre elas encontramos no entanto uma das mais curiosas e mais controversas representações conhecidas no Tejo. Mário Varela Gomes diz textualmente: “No painel vertical correspondendo à rocha 60 do Alagadouro observa-se, perto de uma das extremidades, casal de cervídeos, de grandes dimensões, mostrando as cabeças e as armações bem pormenorizadas. As características anatómicas de cada um deles permitem a diagnose sexual, reconhecendo-se a fêmea, com a armação menos desenvolvida, o corpo bem mais largo, talvez representando uma gravidez, e com pelagem diferente. No lado oposto, a cerca de 0.50m de distância e junto ao limite do suporte, identifica-se figura antropomórfica, de pé, com os braços semi-erguidos e, ao que parece, envergando saiote. Trata-se, possivelmente, de caçador, que espreita as suas presas, encoberto por denso conjunto de fissuras verticais. Importa revelar que, uma vez mais, os acidentes do suporte concorrem na estruturação da composição, como o facto de surgir mais um casal de zoomorfos, denunciando a importância da problemática da fecundidade” (GOMES 2001:11). De opinião contrastante é António Martinho Baptista (1981) que defende a não existência de cenas de caça nem do quotidiano na arte tagana já que, segundo este autor, caso existisse este tipo de representações, tornar-se-ia inexplicável a grande quantidade de círculos, espirais e toda a panóplia de figurações consideradas geométricas no Tejo. Cachão do Algarve O sítio do Cachão do Algarve é, a seguir ao núcleo do Fratel, o conjunto que maior número de zoomorfos parece possuir – 8 no total. Gomes (2007) considera-os como pertencendo aos períodos cronológicos mais antigos da arte do Tejo (Epi-Paleolítico e Neolítico Inicial). Este tipo de arte é, segundo o autor, própria das comunidades de caçadores-recolectores que prolongaram em tempos pós-glaciares uma economia e uma Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL Mila Simões de ABREU & Sara GARCÊS concepção figurativa e cognitiva de origem paleolítica (Gomes, 2007). Alguns casos de sobreposições suscitam no entanto alguma perplexidade quanto a essa atribuição. Na rocha 59 do Cachão do Algarve, uma das figuras mais estudadas e publicadas da arte tagana (fig. nº6) parece ser claro que o belo veado está a sobreposto à uma figura de espiral e que por sua vez encontram-se sobreposto por diversas figuras circulares/ovalóides, uma das quais uma provável pegada. Não é a única ocasião que figuras em estilo sub-naturalista aparentemente parece sobrepor-se a uma figura de estilisticamente pertencente a um período mais recente. Tal acontece também na rocha 155 de Fratel (BAPISTA 1981). Segundo as ideias pela primeira vez formuladas por Emmanuel Anati (1975) essas das figurações mais cuidadas, mais elegantes e com aspectos anatómicos mais pormenorizados, nalguns casos mesmo com o famoso corpo a raio-X devem ser colocadas no período mais antigo da arte do Tejo. Por outro lado no que diz respeito a cronologia é relevante a questão levantada por Mário Varela Gomes (2007) em relação às figuras dos cervídeos. Segundo o que defende esse autor, podem existir zoomorfos que apresentam características anatómicas diferentes mas que se encaixam no mesmo período cronológico. Martinho Baptista, (1981) defende que a figura da rocha 59, que ele coloca na sua Fase II (Neolítico Final), é a prova de que a espiral é mais antiga do que se pensa, uma vez que, na figura esta é sobreposta pelo cervídeo. 832 A B Figura 6 - Cachão do Algarve. A: rocha nº 59 figura nº 12. Veado sobrepõe espiral e é sobreposto por círculos (GOMES 2007:92) B: rocha 56 figura nº9 cervo atingido no dorso por arma de caça? (GOMES 2001) Uma outra figura muito interessante presente neste núcleo é o cervídeo a que demos o nº9 presente na rocha 56. Trata-se de um zoomorfo que apresenta uma linha vertical na parte superior do dorso e que tem sido interpretado como uma arma (flecha ou lança?) cravado no dorso. (GOMES 2001). Junto às pernas anteriores do animal aparece uma espiral e todos estes motivos estão envolvidos por um grande círculo, bastante imperfeito (QUEROL et al 1975; SERRÃO 1978). Uma cena semelhante aparece segundo Varela Gomes (GOMES 2001) na rocha 45 de Fratel. 13/ Animais na arte rupestre – Animals in the rock art OS CERVÍDEOS NA ARTE RUPESTRE EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS –DO CÔA AO TEJO Como já dissemos em contraste com esta posição está Baptista (1981) que acredita que não existem “cenas” na arte do Tejo, sejam de caça, de acasalamento ou do quotidiano. A presença de antropomorfos e zoomorfos isolados ou raramente associados a símbolos seria uma das provas disso e tornaria inexplicável a grande quantidade de círculos, espirais e todo o tipo de figuras geométricas. O que conhecemos de outras áreas de arte rupestre ao ar livre deste tipo como, por exemplo, a Valcamónica (Itália) ou o Mont Bego (França) demonstra que é possível ter no mesmo complexo artístico cenas e figuras isoladas, assim como, figuras naturalistas e esquemáticas ou geométricas. (FOSSATI et al. 1990) Cerv o 7 8 9 Localiza ção Moldes do Tejo Figuração mais completa (bibliografia) Outras variações (bibliografia) Cachão do Algarve 25 Cachão do Algarve 56 Cachão do Algarve 56 833 10 Cachão do Algarve 57 11 Cachão do Algarve 57 12 Cachão do Algarve 59 13 Cachão do Algarve 60 14 Cachão do Algarve 61 Tabela 2: Cervídeos do núcleo do Cachão do Algarve. Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL Mila Simões de ABREU & Sara GARCÊS Baptista acha coerente defender-se a ideia do vale do Tejo como um verdadeiro santuário rupestre, um (paleo)sistema aberto em que o significado da gravura, enquanto símbolo de uma pensamento lógico (interno ao sistema), é bastante preciso num dado momento histórico, mas que se pode alterar ao longo do tempo. Chão da Velha O conjunto de arte de Chão da Velha é dos núcleos menos presente na literatura contando apenas 4 figuras. Dos possíveis cervídeos presentes neste sítio, três apresentam-se isolados, sem contexto aparente, no entanto, o zoomorfo número 15 apresenta-se associado a outras figuras animais numa “(…) mitografia relacionada com a caça” Gomes (1990, 2001). Para este autor a palavra mitografia deve ser entendida como sendo a representação artística dos mitos. Cervo Localizaçã o 15 Chão da Velha 03 16 Chão da Velha Jusante 17 Chão da Velha Jusante 7 18 Chão da Velha M3 834 Moldes do Tejo Figuração mais completa (bibliografia) Outras variações (bibliografia) Tabela 3: Cervídeos do núcleo de Chão da Velha. Fratel O núcleo de Fratel é uma das maiores concentrações de gravuras rupestres do Vale do Tejo, estendendo-se por cerca de 1,5km da margem direita daquele rio. É, também, o primeiro núcleo de gravuras situado a jusante do monumental acidente natural conhecido por Portas de Ródão, uma estreita garganta que o rio criou ao longo do tempo no maciço quartzítico. É nesta estação que se encontram duas das mais célebres rochas de todo o Complexo de Arte Rupestre do Tejo. São as rochas mais estudadas e citadas nas publicações referentes à arte tagana e são muito importantes no que diz respeito às representações de cervídeos. Dos 53 cervídeos estudados, 29 pertencem ao núcleo arte rupestre de Fratel e destes 29, 11 pertencem à famosa rocha número 49. Segundo Mário Varela Gomes (2007), os cervídeos nesta rocha apresentam-se em dois grupos distintos. No primeiro grupo os animais são estilisticamente semelhantes, características essas que os remete, sem dúvida, para o mesmo período cronológico de gravação. O estilo das gravuras é estilizado-estático e do ponto de vista da datação aponta para o Neolítico Inicial. 13/ Animais na arte rupestre – Animals in the rock art OS CERVÍDEOS NA ARTE RUPESTRE EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS –DO CÔA AO TEJO Cervo Localização 19 Fratel 45 20 Fratel 49¹C 21 Fratel 49 22 Fratel 49 23 Fratel 49 Moldes do Tejo Figuração mais completa (bibliografia) Outras variações (bibliografia) 835 24 Fratel 49 25 Fratel 49 26 Fratel 49 27 Fratel 49 28 Fratel 49 29 Fratel 49 30 Fratel 49 Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL Mila Simões de ABREU & Sara GARCÊS 836 31 Fratel 51 32 Fratel 71 33 Fratel 111 34 Fratel 111 35 Fratel 155 36 Fratel 155 37 Fratel 155 38 Fratel 155 39 Fratel 155 40 Fratel 155 41 Fratel 155 42 Fratel 155 13/ Animais na arte rupestre – Animals in the rock art OS CERVÍDEOS NA ARTE RUPESTRE EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS –DO CÔA AO TEJO 43 Fratel 155 44 Fratel 174/175 837 45 Fratel 174/175 46 Fratel 211A 47 Fratel 211A Tabela 4. Cervídeos do núcleo de Fratel. Já no segundo grupo, alguns dos cervídeos sobrepõem-se aos do primeiro grupo mas são de características diferentes. Apresentam menores dimensões e cronologicamente devem ser mais tardios. Têm já um estilo estilizado-dinâmico e remete-os para o Neolítico Pleno. Para além disso o referido autor a afirma que estes zoomorfos traduzem o que defende ser o período de expressão mitográfica das actividades cinegéticas. Essas cenas envolvem uma fauna muito variada constituída por figuras como cervídeos, cães, assim como cenas de acasalamento, casais de cervídeos e representações de bandos. As supostas cenas de acasalamento são, também, uma interpretação segundo Mário Varela Gomes (2007), associações de temática sexual detectadas em várias rochas da arte do Tejo e que reflectem a aprendizagem dos ciclos naturais e os aspectos míticos da fertilidade, sejam eles conectados com a denominada magia simpática ou com os rituais xamânicos. Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL Mila Simões de ABREU & Sara GARCÊS Uma outra rocha pertencente ainda ao núcleo de Fratel, é a rocha 175, (GOMES 2000), e faz parte do conjunto de moldes das rochas do Tejo já desenhados. Figura 7 - Decalque do molde da rocha 175 de Fratel. (Levantamento Projecto Ruptejo 2009)São Simão A Estação de arte rupestre de São Simão é um dos três núcleos onde ainda é possível ter acesso às rochas gravadas em determinadas alturas do ano e Tejo permitindo. Conjuntamente com o núcleo de Fratel e do Cachão do Algarve é considerado um dos locais com maior concentração de gravuras. 838 Os cervídeos até hoje conhecidos pertencentes a este local não são muitos, mas dos seis existentes, três deles inserem-se em contextos muito interessantes. Em particular o cervídeo nº50, rocha 158/241. Trata-se de um animal, aparentemente morto, suspenso ao alto por um antropomorfo provavelmente itifálico. Podemos interpretar-se tal cena de diversas formas. Será uma cena de caça, com consequente simbolismo de conquista, poder etc. Ou tratar-se de um ritual de iniciação por parte de um jovem caçador ou uma prova de força e de poder por parte de um membro importante na comunidade? Esta figura tem paralelos em outras cenas também no Vale do Tejo, mas nesses casos, o cervídeo morto fora substituído por representações solares que os antropomorfos elevam (fig. 8). Em contextos Europeus como, por exemplo, nas estátuas-estelas da Valcamónica (Itália) o disco solar transforma-se nas haste de uma veado e vice-versa, ocupando o mesmo lugar no alto nas composições. Na figura de São Simão as galhadas do veado estão quase fechada e fazem quase um círculo. Tal semelhança pode apontar para idêntica cronologia? Nesse caso esse tipo de figuras deve ser colocado em contexto Calcolítico - 5000 anos atrás (CASSINI & FOSSATI 2007). A B Figura 8. - A : São Simão Rocha 158/241. Cervídeo nº 50. Figura antropomórfica supostamente fálica sustendo nos braços um veado morto. (GOMES 2007) B : Fratel. Molde 126-A. Antropomorfo levando figura solar. (Decalque Projecto Ruptejo) 13/ Animais na arte rupestre – Animals in the rock art OS CERVÍDEOS NA ARTE RUPESTRE EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS –DO CÔA AO TEJO Cervo Localizaçã o 48 SS 43 49 SS 119A 50 SS 158/241 51 SS158/241 52 SS158/241 53 SS 386 Moldes do Tejo Figuração mais completa (bibliografia) Outras variações (bibliografia) 839 Tabela 5. Cervídeos do núcleo de São Simão. Vale do Ocreza O Ocreza é um dos afluentes da margem direita do rio Tejo. Já na década de setenta do século passado durante os trabalhos de prospecção e levantamento da zona afectada pela já refeirda barragem do Fratel tinham sido identificadas algumas gravuras (BAPTISTA 2001). Nos últimos anos e, inicialmente graças aos trabalhos de construção do lanço Mouriscas/Gardete do IP6 (concessão SCUT da Beira Interior), a cargo do Centro Europeu de Investigação da Pré-História do Alto Ribatejo (CEIPHAR), a equipa do ex-CNART prospectou a área e identificados a primeira figura claramente em estilo Paleolítico da bacia do Tejo hoje conhecia como rocha 1. Tal descoberta levou a que fosse no Verão seguinte percorrida cuidadosamente toda a zona e fossem localizadas pela equipa coordenada por Hipólito Collado diversas figuras de cronologia mais recente tendo nos anos seguintes continuado a fazer novas descobertas. Actualmente o vale da Rovinhosa, Envendos, Mação conta com cinco figuras de cervídeos. Três encontram-se na rocha 2, chama “Rocha dos Cervídeos” (Fig. 9), enquanto os outros dois localizam-se na Rocha 3, a chamada “Rocha dos Dois Veados”. ( Fig.9.1) Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL Mila Simões de ABREU & Sara GARCÊS A primeira superfície, devido a proximidade com as águas (ficando frequentemente submersa) está já avançado estado de erosão e consequente é de difícil interpretação. Durante muito tempo foi mesmo dito que uma das figuras de cervo se tratava de um peixe – talvez um barbo! Figura 9 – 1: Vista da paisagem do Vale do Ocreza 2: Detalhe de duas das figuras de cervídeos (fotos cortesia do Museu de Arte Pré-histórica de Mação) (Fig.9.2) Do ponto de vista estilístico, e apesar de uma ter um corpo bastante alongado, as figuras desta superfície apresentando, por exemplo, o característico pescoço e cabeça totalmente picotados tantas vezes presente na arte do Vale do Tejo. Já a Rocha 3 apresenta um par de figuras zoomórficas identificadas como sendo cervídeos, apesar de somente estarem representadas as patas traseiras e apenas uma dianteira, enquanto uma série de picotados formam o que parece ser o pescoço. A cabeça está ausente mas vê-se com clareza uma parte do dorso onde é visível a dupla linha da barriga (muito comum em cervídeos do Tejo), assim como as patas traseiras. Cervo 840 54 55 Localização Moldes do Tejo Figuração mais completa (bibliografia) Outras variações (bibliografia) Vale da Rovinhosa 2 Vale da Rovinhosa 2 56 Vale da Rovinhosa 2 57 Vale da Rovinhosa Vale da Rovinhosa 58 Tabela 6. Cervídeos do núcleo do vale do Ocreza (Mação) . 13/ Animais na arte rupestre – Animals in the rock art OS CERVÍDEOS NA ARTE RUPESTRE EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS –DO CÔA AO TEJO Estilisticamente as figuras de animais no CART aparecem com frequência com uma linha ou duas linhas horizontais gravadas no dorso, talvez para dar volume ao ventre. O preenchimento do pescoço e da cabeça e depois quase uma “imagem de marca”. Por outro lado na arte do Tejo é interessante notar uma predilecção em gravar a figura do cervídeo como se apresenta numa certa época do ano. A maioria dos animais surge gravado com uma grande armação ramificada e, se tivermos em conta o ciclo anual da vida deste animal, é possível concluir que a maior parte das gravuras representassem indivíduos provavelmente no fim do Verão, princípio do Outono, auge do crescimento das armações, que servem, nessa altura do ano, para impressionar as fêmeas, lutar contra eventuais rivais e marcar território. Terá sido essa a época em que foram gravados? Conclusões Na analise, mesmo que por hora, superficial e talvez insuficiente, das figuras de cervídeos da área da “Tradição Douro-Côa” podemos afirmar com uma certa segurança que elas parecem ser na maioria filiformes e pouco visível, localizadas sobretudo nos pequenos vales paralelos ao rio principal e estar inseridas num contexto cultural de grupo de caçadores-recolectores do final do Paleolítico Superior –15 000-10000 anos atrás. No que diz respeito ao Vale do Tejo e ao contrário do que se passa no Douro-Côa, a figura do cervídeo desempenha um papel preponderante em quase todos os núcleos. A sua presença numérica e as frequentes sobreposições revelaram-se de extrema importância. A analise sistemática do material ainda agora se iniciou. Temos esperança que seja possível com a recolha de mais dados esclarecer horizontes culturais e clarificar problemáticas cronológicas. Bibliografia: - ABREU, Mila Simões de; Andrea ARCÀ; Angelo FOSSATI & Ludwig JAFFE. 1998. 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