VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013. Narrador de Brasília:1 a cidade no discurso imagético de Luis Humberto Beatriz Vilela2 Resumo Este artigo propõe uma abordagem sobre a narrativa fotográfica urbana a partir da obra do fotógrafo Luis Humberto, que registrou Brasília dos anos 1960 a 1990. Buscou-se destacar a maneira como Luis Humberto narra a capital, levando-se em conta os referentes históricos e suas escolhas técnicas e estéticas. Valorizou-se a noção do fotógrafo como narrador para compreender como o autor se revela nos próprios registros fotográficos. Foram analisadas 30 fotografias que compõem o ensaio O homem e o espaço, do livro Do Lado de Fora da Minha Janela, do Lado de Dentro da Minha Porta (Rio de Janeiro: Tempo d Imagem, 2010), por ser uma série cujo tema principal retratado é o espaço urbano e a arquitetura de Brasília, o assunto principal da reflexão proposta neste trabalho. Palavras-chave Fotografia; Brasília; narrador; narrativa visual. Introdução Este artigo se volta para as narrativas visuais sobre as cidades, e para a maneira como elas podem ser reveladoras de um sujeito narrador. Quando Joseph Niépce optou pela paisagem de sua janela para o primeiro registro, cultivou aquele que seria um dos gestos mais naturais desde sua descoberta: fotografar o ambiente em que se vive. Pode-se afirmar que, da mesma forma, Brasília e fotografia andam juntas desde a construção da cidade. A capital foi registrada por muitas lentes desde o início, quando o cenário era apenas a terra vermelha do planalto central. 1 Trabalho apresentado no GT 1 - Arte, Imagens, Estéticas e Tecnologias da Comunicação do VI Congresso de Estudantes de Pós-Graduação em Comunicação, na categoria pós-graduação. UERJ, Rio de Janeiro, outubro de 2013. 2 É formada em comunicação social, com habilitação em jornalismo, pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Tem pós-graduação em comunicação e crítica de arte pela Universidade de Girona, na Espanha. É autora do livro Ousadia em imagens (ITS, 2012), que faz parte da Coleção Arte em Brasília: Cinco Décadas de Cultura. Atualmente faz mestrado em comunicação social, na linha de imagem e som, na Universidade de Brasília (UnB). www.conecorio.org 1 VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013. Quando a fotografia despontou, tornou-se um agente relevante na maneira pela qual se produzia conhecimento. Associadas ao surgimento da indústria gráfica, as imagens fotográficas foram então capazes de ser difundidas e reproduzidas inúmeras vezes. Auxiliavam na documentação da história, e não apenas na esfera social, também integraram o âmbito individual, quando o homem começou a registrar a própria vida com recortes fotográficos. “A descoberta da fotografia propiciaria, de outra parte, a inusitada possibilidade de autoconhecimento e recordação (...)” (KOSSOY, 2001, p.27). Falar de uma pessoa como produtora de narrativas visuais implica pensar em sua subjetividade. Quando alguém conta uma história, narra a partir da própria bagagem cultural, dos conhecimentos que tem do assunto, dos interesses pessoais, entre outras questões peculiares ao olhar do narrador visual. Os fotógrafos não apenas registram, mas também interpretam os lugares. Desse modo, a narrativa visual sobre uma cidade é feita a partir de percepções: o narrador seleciona, concentra a atenção, prioriza questões, personagens e temas. A narrativa visual de Brasília pode suscitar, então, muitos sentidos e ter vários desdobramentos. Nessa perspectiva, este artigo propõe observar a maneira como o fotógrafo Luis Humberto vê e narra Brasília, a fim de destacar características da influência do olhar do autor na execução do próprio registro fotográfico. A partir daí, pensar no modo como ele percebe, sintetiza e compõe aspectos da capital por meio de narrativas visuais. E, além disso, a maneira como ele se revela por meio das próprias imagens. Para tanto, foram observadas as fotografias do ensaio O homem e o espaço, que fazem parte do livro Luis Humberto – Do lado de fora da minha janela, do lado de dentro da minha porta, publicado pela editora Tempo d’Imagem, em 2010. Organizada pelo também fotógrafo Salomon Cytrynowicz, com textos de Rubens Fernandes Júnior e Pedro Afonso Vasquez, a publicação se divide em cinco séries fotográficas, mescladas. Considerando a grande quantidade de imagens e assuntos, foram apreciadas as referidas fotografias porque elas retratam o espaço urbano e a www.conecorio.org 2 VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013. arquitetura de Brasília, atendendo aos objetivos principais propostos para este trabalho. Ao observar os elementos da escrita fotográfica de Luis Humberto, serão considerados aspectos de sua biografia e de sua trajetória como fotógrafo a fim de atingir os objetivos apresentados. Sendo assim, os livros escritos por ele e sobre ele configuram-se essenciais para obter tais informações. A partir de então, estes elementos serão usados para pensar como eles se refletem na narrativa visual do autor. Vale dizer que o discurso imagético de Luis Humberto sobre Brasília também abrange a política, tema das fotos mais conhecidas do fotógrafo e que fazem parte do ensaio Liturgia do Poder. Entretanto, ponderando os objetivos propostos para este artigo, julgou-se apropriado refletir apenas sobre a série já mencionada, pois ela permite a abordagem escolhida. O espaço da política, portanto, não será tratado por estar fora do contexto que se quer abordar, e não por estar ausente da obra do referido autor. A narrativa fotográfica e o narrador Em sua própria definição, o ato de narrar está relacionado à representação de uma ação, que se desenvolve ao longo do tempo, organizada em um enredo. Os fatos são arranjados de acordo com a experiência perceptiva de um narrador: a sequência desses eventos se faz por meio do discurso, que por sua vez é formado por uma série de enunciados colocados em sequência. “Narrar é, portanto, relatar processos de mudança, processos de alteração e de sucessão interrelacionados” (MOTTA, 2013, p. 71). O conceito de narrativa, de acordo com o Dicionário de Imagem (2011), está relacionado principalmente com as imagens em sequência, animadas (cinema, vídeo, televisão) ou fixas (fotonovela). De fato, implica a ideia de mudança e, consequentemente, de um percurso que conduz de um estado inicial a um estado final. Contudo, a despeito e em complemento a tal formulação, tem-se que: www.conecorio.org 3 VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013. No entanto, a imagem fixa isolada não está excluída do campo da narratividade. Jacques Aumont observa, por exemplo, que alguns quadros que representam vários momentos de um acontecimento ou da vida de uma personagem têm o mesmo valor que uma sequência e são totalmente narrativos, com a narrativa a requerer não tanto uma duração tangível, mas sim um princípio de ordem e de sucessão dos acontecimentos (GOLIOTLÉTÉ et al, 2011, p. 264). A imagem está relacionada de alguma forma a uma temporalidade, mesmo sem ser ela mesma temporalizada. A narrativa, assim, se desenvolve tanto no espaço como no tempo. Na fotografia, o episódio e as pessoas retratadas ligam-se diretamente à representação de uma ação ou de uma diegese3. Neste sentido, qualquer imagem figurativa contém em si os elementos da narratividade, possibilidade que aparece plenamente em determinadas representações. Em uma narrativa estática, como na fotografia, por exemplo, o recorte fotográfico é fixo, mas os olhos e a mente do espectador e do narrador fazem o movimento. Sherline Pimenta e Ravi Poovaiah (2010) defendem que a mente humana pode imaginar e realizar exercícios mentais sem muito esforço, reunindo imagens da memória, da imaginação ou do cotidiano. Logo, elas podem fluir rapidamente no movimento que o intelecto faz ao ver uma representação – e desencadear outras tantas no pensamento. Segundo Tânia Pellegrini (2003, p. 22), são jorros de memória que acontecem quando o fotógrafo recorre a lembranças no momento de compor a foto. Ana Maria Mauad corrobora essa ideia e acrescenta: Ao fixar a imagem da experiência humana de diferentes maneiras, as fotografias se tornam o substrato material das memórias contemporâneas. Nesse mundo de instantâneos e incertezas, reabilitar a ideia de tempo como duração nos permite atribuir uma dimensão narrativa ao ato fotográfico, por meio do qual se reunifica a capacidade criativa do sujeito social e sua técnica (2008, p. 39). Sendo assim, se a ação é vista como movimento, todas as formas narrativas estão de alguma maneira articuladas em continuidades temporais, não interessa se lineares, se incompletas, inversas ou interpostas. As sequências, no caso da narrativa fotográfica, se realizam por meio de representações imagéticas. O tempo da memória, das imagens do pensamento não coincide com as medidas temporais objetivas, “trata3 Dimensão ficcional da narrativa, à parte da realidade externa de quem a vê. www.conecorio.org 4 VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013. se do tempo entendido como duração, o tempo da mente” (PELLEGRINI, 2003, p. 21). O espaço, neste caso a cidade, está integrado ao tempo e também associado às figuras retratadas e ao narrador, pois é dele o ponto de vista, o olhar, e o aparato técnico (a câmara fotográfica) que “enfoca e recorta a realidade” (PELLEGRINI, 2003, p. 25). O fotógrafo utiliza os elementos que constroem a imagem, como as possibilidades de luz, temas e enfoques, para situar personagens e dar vida ao lugar. É o olho através da câmera que conduz a narração. Por conseguinte, o pensamento de que a narrativa pode ser plenamente objetiva e delinear-se sem a intervenção de alguma pessoa, é substituído pela fragmentação, e pela imagem fotográfica. Pellegrini complementa que “(...) a câmera não é neutra. Há sempre alguém por trás dela que seleciona, recorta e combina, extraindo uma nova síntese do material desordenado que o mundo visível oferece” (2003, p. 27). Esta noção do fotógrafo como narrador, como autor da imagem, permite pensar nas maneiras como ele se revela nos próprios registros fotográficos. Mesmo que estes tenham sido produzidos para fins de documentação ou informação jornalística, não existe uma objetividade completa. Tal perspectiva compreende a fotografia como uma expressão visual baseada em uma linguagem própria – a linguagem fotográfica. Desse modo, se a fotografia é uma escrita, o que ela diz sobre o fotógrafo-narrador? A ideia da imagem fotográfica como resultado de uma ação do autor constituiu ampla discussão na aceitação da fotografia como possibilidade expressiva. Segundo afirma André Rouillé (2009), a foto como documento está ligada à sociedade industrial, aos seus valores e paradigmas técnicos e econômicos, por isso responde mal às condições da sociedade da informação. Ainda de acordo com o autor, a representação fotográfica se transformou e se expandiu para outras áreas, passando a se relacionar de novas maneiras com a arte, o que levou a fotografia-documento a abrir espaço para a fotografia-expressão. www.conecorio.org 5 VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013. No início dos anos 1980, acentuam-se os limites da fotografia-documento, suas dificuldades em assumir as tarefas documentais do tempo atual. Era preciso inventar novas visibilidades, não bastava apenas designar, constatar ou descrever. Nesse caso, o documento demanda uma escrita, um formato assumido inteiramente por um autor. Segundo tal processo, as visibilidades não se formam diretamente a partir das coisas, mas estas são produzidas indiretamente, trabalhando a forma, a imagem e a escrita fotográficas (ROUILLÉ, 2009, p. 163). A máxima de Rouillé apresenta-se adequada para pensar a fotografia não apenas como um documento, mas um meio de expressão de ideias e sentimentos. Por isso a fotografia-expressão tem alta consciência da forma e de explorar seus infinitos componentes visuais, pois é a escrita que determina o sentido da foto. Trata-se de considerar o fotógrafo como narrador, como autor e produtor de sentidos. Pode-se dizer que há uma interação e interpretação dialética daquilo que se vê/lembra e daquilo que se fotografa; os olhos que narram estão diretamente envolvidos na narração. Nada obstante, é possível ampliar ainda mais esta percepção, pois a imagem, mesmo como resultado da prática/ação de um indivíduo, não constitui produto apenas deste sujeito individual, mas de um contexto. Sua construção realiza-se de acordo com a época na qual o autor está inserido. Essa relação acontece por meio dos posicionamentos do fotógrafo em relação às reflexões de seu tempo, os partidarismos que acolhe ou rejeita, os diálogos que estabelece com outras produções culturais, as técnicas e ferramentas disponíveis e as articulações que o repertório simbólico de seu tempo permite. Vida e obra: para conhecer a prática fotográfica de Luis Humberto Vale fazer, antes de uma reflexão sobre seu trabalho, um breve recorte na história de Luis Humberto – o que facilitará o entendimento da mistura entre vida e obra do narrador. O fotógrafo saiu do Rio de Janeiro, em 1962, para integrar o grupo de professores fundadores da Universidade de Brasília (UnB), primeiro como docente www.conecorio.org 6 VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013. de arquitetura e urbanismo e depois de fotografia. Nesta última disciplina foi o primeiro professor titular em uma universidade brasileira, em 1992. Setor Comercial Sul, década de 1970. Superquadra Sul, 1970. www.conecorio.org 7 VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013. Luis formou-se em arquitetura, mas trocou a profissão pela fotografia, em 1966, destacando-se, sobretudo, nas revistas Veja (1968/1978) e Isto É (1978/1982). Foi diretor de arte e editor de fotografia do Jornal de Brasília (1973); colaborou igualmente com as revistas Quatro Rodas, Cláudia e Realidade. Foi diretor-executivo da Fundação Cultural do Distrito Federal, assumindo em seguida a direção da Divisão de Foto-Imagem da Fundação das Pioneiras Sociais, passando a se dedicar integralmente ao ensino a partir da década de 1990. As imagens de Luis Humberto se destacam dentre as narrativas visuais de Brasília principalmente porque fazem parte da história da cidade, configuram o olhar de quem presenciou o surgimento e a concretização da capital. Isto porque o fotógrafo desenvolveu trabalhos de expressão pessoal por meio de documentação da paisagem urbana e de sensíveis ensaios intimistas de postura autobiográfica. Luis Humberto é autor dos livros Fotografia: Universos & Arrabaldes, e Fotografia, a poética do banal. Lançou também a Coleção SENAC de Fotografia; e publicou ainda Brasília, Sonho do Império, Capital da República (1981). Sendo assim, a visão deste fotógrafo pode abordar a capital sob perspectivas mais abrangentes, considerando que o referido autor-narrador trabalha em campos de atuação diferentes. É importante ressaltar que Luis Humberto atuou como fotojornalista, mas seu trabalho extrapola em muito aquilo que os jornais se interessam em publicar. Assim, é analisado enquanto autor que tem uma “visão de mundo”, traduzida nas próprias fotografias sobre Brasília. www.conecorio.org 8 VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013. Filhos de Luis Humberto. Supremo Tribunal Federal, 1995. Eixo Monumental, década de 1970. www.conecorio.org 9 VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013. O homem e o espaço de Luis Humberto As imagens que compõem o livro Luis Humberto: do lado de fora da minha janela, do lado de dentro da minha porta foram registradas com objetivos e situações pessoais distintas, muitas vezes ao mesmo tempo. Resultam em cinco universos, combinados por uma visão particular da vida: Liturgia do Poder, O Cerrado, O homem e o espaço, Paisagem doméstica e Tempo veloz são títulos de exposições realizadas por Luis Humberto ao longo de sua trajetória. Em sua obra, percebe-se o papel que a foto desempenha de propor a reflexão, de instigar o pensamento, e de contestar as formas naturalizadas do olhar. Ele fotografou a política, o espaço urbano, o cerrado, a família, o abstrato, dentre uma enorme variedade de temas. Estas questões fornecem um valioso significado para o conjunto da narrativa porque fazem parte do espírito criativo do fotógrafo. É nesse sentido que as narrativas visuais produzidas por Luis Humberto têm um ponto em comum, que se traduz na maneira como o referido livro foi organizado: a ausência de separação entre os capítulos (entre as séries fotográficas) demonstram que, para ele, tudo está misturado: a família, o trabalho, o espaço urbano, a natureza, todos os elementos estão de alguma forma presentes em sua obra e na própria vida. Para Luis Humberto era difícil separar os assuntos, e por isso mesmo, o fotógrafo saía para trabalhar com duas câmeras: uma para registro pessoal e outra como instrumento de trabalho. “A personalidade inquieta só se satisfazia na multiplicidade de temas. De certa forma, a fotografia estimulava calma e disciplina, dois substantivos que ajudavam no controle dos nervos” (MACIEL, 2008, p. 30). Em 1965, em consequência da Ditadura Militar e de uma demissão coletiva na Universidade de Brasília – onde Luis Humberto era docente –, ele parou de lecionar, fato marcante em sua produção visual. A nova condição o forçou a descobrir outras áreas. Desempregado, ele saía mais para fotografar e caminhar pela Praça do Três Poderes em companhia dos filhos e da máquina fotográfica. Luis Humberto percorreu Brasília registrando assuntos diferentes e unindo vários de seus temas preferidos em imagens despretensiosas e sem um objetivo determinado. A cidade registrada é imensa, na maioria da vezes plana, sem muros, e www.conecorio.org 10 VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013. aquela imensidão de quase vazio prendia a atenção do olhar do fotógrafo. Assim nasceu o ensaio O homem e o espaço. No livro aqui analisado, esta série é composta por 30 imagens, sendo metade em preto e branco e a outra colorida: O homem e o espaço é uma abordagem visual própria e original, que transita entre o preto e branco e o mundo das cores, entre o monumental e o playground da superquadra. Uma nova cidade surge diante de seus olhos de urbanista e arquiteto. Espaço urbano novo, radicalmente distinto de sua Rio de Janeiro natal (CYTRYNOWICZ apud HUMBERTO, 2010, p. 8). Arquiteto, Luis Humberto deixa transparecer seu olhar de formação. “LH é, não apenas mais um arquiteto na fotografia, ou um fotógrafo de arquitetura. É, fundamentalmente, um arquiteto da fotografia” (MACIEL, 2008, p. 16). O resultado aparece em suas composições e usos da luz e no elaborado tratamento plástico. Também está presente no arranjo das linhas e planos propostos pelo espaço e na maneira como ele insere o homem nesse arranjo fotográfico, que imprime a percepção de imensidão do ambiente urbano de Brasília. Sua formação em arquitetura lhe permitiu tal compreensão do espaço, que ele consegue representar em uma fotografia, no plano bidimensional, as quatro dimensões sugestivas ao espaço arquitetônico. Porém, o olhar fotográfico é definitivo em Luis Humberto, de tal modo que ele se revela por meio da própria escrita fotográfica, sendo a foto um elemento de expressão, e não apenas uma faceta do arquiteto. Determinado ângulo e composição escolhidos pelo fotógrafo ressaltam ainda mais o olhar de arquiteto, que sabia registrar e expressar as escalas arquitetônicas. Ao apontar a câmera para cima, em 5 imagens desse ensaio, enfatizou a grandiosidade dos prédios, das curvas e da beleza da arquitetura de Brasília. Luis Humberto mudava a posição da câmera para mostrar outros pontos de vista, mas seu olhar fotográfico ainda era voltado para vastidão do cerrado, do quase vazio, característico dos primeiros anos da capital. Logo que chegou a Brasília, o arquiteto não se intimidou pelas obras e a terra vermelha que dominavam a paisagem. Da janela, por meio do visor da câmera, ele registrou o espaço geométrico e humano que aos poucos se estabelecia. As formas do cerrado lhe pareciam fascinantes, e é assim que aparecem nos recortes fotográficos: as www.conecorio.org 11 VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013. cores, as composições, os restos de obras, tudo permanece harmonioso na narrativa visual de Luis Humberto. Por conseguinte, uma característica que salta das imagens desse ensaio é o contraste entre a presença humana e o espaço em volta. As pessoas configuram pontos muito pequenos ao lado dos monumentos ou em meio às linhas do cerrado. Nos seus primeiros anos, a cidade ainda não tinha shoppings e os prédios eram poucos. A Esplanada dos Ministérios parecia interminável se percorrida por um pedestre. Em 19 imagens, Brasília é a personagem principal. Mesmo quando alguns habitantes fazem parte da composição da foto, a tonalidade das cores obscurece os indivíduos de modo que só́ é possível ver as silhuetas, mas não identificá-los. As fotografias revelam mais a cidade que seus habitantes. Estes, claro, estão ali, porém, o enquadramento da maioria das fotos valoriza os vazios, a capital planejada. As linhas contínuas e exatas compõem o registro da paisagem brasiliense. As fotografias passam a sensação de isolamento em meio a uma cidade monumental, de céu marcante, horizonte aberto e ainda pouco habitada. A pequenez humana não preenchia o vazio monumental, e talvez por isso a percepção de solidão, sublinhada pelo ângulo que o fotógrafo escolheu: em 12 fotografias, percebe-se que elas foram registradas do alto, da janela do próprio apartamento. Esta escolha acentua a distância, a amplitude do verde, e o contraste entre a escala humana e a monumental. O homem e a enorme urbe, a infância dos filhos e da própria cidade, um grande canteiro de obras e esqueletos, que cresciam e tomavam forma diante das lentes do fotógrafo. As crianças dividam o espaço com a política e a monumentalidade de Brasília, como pode ser visto em 5 fotografias da série – e em tantas outras que compõem o livro. Na Praça dos Três Poderes, escorregavam sobre o concreto, caminhavam ao lado de cúpulas ou subiam e desciam rampas para compor as imagens registradas pelo pai. Dessa forma, Luis Humberto criou um clima intimista, de quem acaba se misturando entre as próprias imagens ao envolver os filhos em seus comentários visuais. As fotografias poderiam compor um álbum de família, assim como documentam a Brasília dos anos 1960 a 1990. Enquanto as gerações iam mudando, www.conecorio.org 12 VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013. prédios eram construídos, estradas eram pavimentadas, lojas eram estabelecidas, e o fotógrafo compunha seus registros e crônicas fotográficas com todos esses elementos juntos. Sendo assim, pode-se dizer que cada imagem de O homem e o espaço afirmase como contribuição à memória de Brasília. Lembranças de uma capital em construção, marcadas pelas imagens de canteiros de obras ou de operários trabalhando. Reminiscências de uma época em que a cidade não impunha tantas regras, em que era possível circular livremente pelos ditos espaços do poder, como andar pelas cúpulas do Congresso ou subir nas pilastras dos Palácios de Oscar Niemeyer. Recordações de anos em que a natureza e a terra vermelha ocupavam mais espaço que os prédios, shoppings e estacionamentos lotados de carros. Os habitantes da capital não foram excluídos dessas memórias, eles aparecem aqui e ali dando a escala humana às obras fotografadas. Embora o que se vê, muitas vezes, é uma cidade deserta. Uma urbe que ainda não precisava de tantas pontes e cruzamentos, que nascia sob os olhos de quem acreditou em suas promessas. Para sintetizar, vale aproveitar as palavras do diretor de fotografia Walter Carvalho sobre Luis Humberto: Ele inaugurou a ideia de que a fotografia não era mera ilustração, que ela se prolongava como informação visual, além do código verbal vigente. Sempre me encantou o espaço diferenciado de Brasília. Mas eu não sabia o porquê. Luis Humberto me fez perceber, através de suas fotos, a proporção do homem em relação àquele espaço (apud MACIEL, 2008, p. 46). Sendo assim, o fotógrafo não só considera a fotografia como um conhecimento visual, quanto soube passar esta ideia por meio dos próprios recortes fotográficos. Como o próprio nome do ensaio analisado sugere, as imagens de Luis Humberto narram, sem auxílio de qualquer outra linguagem, sobre o homem inserido no espaço urbano de Brasília. As fotos comunicam por si sós a maneira como esse indivíduo ocupava o cerrado brasiliense e quais elementos dividiam lugar com ele. www.conecorio.org 13 VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013. Considerações finais O arquiteto, professor e fotojornalista explorou uma Brasília distante de um cartão-postal, em grande parte, lembrança de seu desenho urbano e da visão utópica modernista da época de sua criação. O próprio Luis Humberto deixou transparecer utopia em suas imagens, ao ver beleza na terra vermelha, ao acreditar na poesia de uma cidade construída a fim de ser exemplo para o país. Ao entender a fotografia como forma de expressão e o olhar individual como marca de uma obra fotográfica, denota-se que os fragmentos de vida, consciência ética, política, e profissional se confundem e dialogam com o conjunto do próprio universo cultural, sensível e criativo de Luis Humberto. Do mesmo modo que representam uma época da cidade, identificam um autor. As imagens surgem a partir de tais influências, que são subjetivas e particulares. A partir delas, evocam uma memória de Brasília que é própria do fotógrafo e ao mesmo tempo inerente à história da cidade. Além de exprimir-se, Luis Humberto se coloca na própria escrita fotográfica. Sua fotografia é, além de tudo, ele próprio, sua personalidade desvendada em ideias, conceitos e visões de mundo. É cronista visual inconfundível e determinante do momento que presenciou em Brasília. Referências bibliográficas BENTES, Duda. Fotojornalismo: o olhar interpretado. In: Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (coord.). Jornalismo de Brasília: impressões e vivencias. Brasília: Lantana Comunicação, 1993, pp. 147-157. GOLIOT-LÉTÉ, Anne et al. Dicionário da Imagem. Lisboa: Lexis 70, 2011. HUMBERTO, Luis. Luis Humberto: do lado de fora da minha janela, do lado de dentro da minha porta. Fortaleza: Tempo d’Imagem, 2010. ________________. Fotografia: a poética do banal. Brasília: Editora Universidade de Brasília. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2000. ________________. Fotografia: Universos e arrabaldes. Rio de Janeiro: Funarte, 1983. KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. www.conecorio.org 14 VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013. MACIEL, Nahima. Luis Humberto: A luz e a fúria. Brasília: Coleção Brasilienses, 2008. MAUAD, Ana Maria. O olhar engajado: Fotografia contemporânea e as dimensões políticas da cultura visual. In: ArtCultura, Uberlândia, v. 10, n. 16, p. 33-50, jan.-jun. 2008. MOTTA, Luiz Gonzaga. Análise Crítica da Narrativa. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2013. PELLEGRINI, Tânia. Narrativa Verbal e Narrativa Visual: possíveis aproximações. In: Literatura, cinema e televisão. São Paulo: Editora Senac, 2003. PIMENTA, Sherline; POOVAIAH, Ravi. On Defining Visual Narratives. In: Design Thoughts, Agosto 2010, Mumbai, India. Acessível em: http://www.idc.iitb.ac.in/resources/design-thoughts.html ROUILLÉ, André́ . A fotografia: entre documento e arte contemporânea. Tradução de Constancia Egrejas. São Paulo: Senac, 2009. www.conecorio.org 15