VI Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação – UERJ | UFF | UFRJ | PUC-RIO | Fiocruz
Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
Rio de Janeiro. 23 a 25 de outubro de 2013.
Narrador de Brasília:1
a cidade no discurso imagético de Luis Humberto
Beatriz Vilela2
Resumo
Este artigo propõe uma abordagem sobre a narrativa fotográfica urbana a partir da
obra do fotógrafo Luis Humberto, que registrou Brasília dos anos 1960 a 1990.
Buscou-se destacar a maneira como Luis Humberto narra a capital, levando-se em
conta os referentes históricos e suas escolhas técnicas e estéticas. Valorizou-se a
noção do fotógrafo como narrador para compreender como o autor se revela nos
próprios registros fotográficos. Foram analisadas 30 fotografias que compõem o
ensaio O homem e o espaço, do livro Do Lado de Fora da Minha Janela, do Lado de
Dentro da Minha Porta (Rio de Janeiro: Tempo d Imagem, 2010), por ser uma série
cujo tema principal retratado é o espaço urbano e a arquitetura de Brasília, o assunto
principal da reflexão proposta neste trabalho.
Palavras-chave
Fotografia; Brasília; narrador; narrativa visual.
Introdução
Este artigo se volta para as narrativas visuais sobre as cidades, e para a
maneira como elas podem ser reveladoras de um sujeito narrador. Quando Joseph
Niépce optou pela paisagem de sua janela para o primeiro registro, cultivou aquele
que seria um dos gestos mais naturais desde sua descoberta: fotografar o ambiente em
que se vive. Pode-se afirmar que, da mesma forma, Brasília e fotografia andam juntas
desde a construção da cidade. A capital foi registrada por muitas lentes desde o início,
quando o cenário era apenas a terra vermelha do planalto central.
1
Trabalho apresentado no GT 1 - Arte, Imagens, Estéticas e Tecnologias da Comunicação do VI
Congresso de Estudantes de Pós-Graduação em Comunicação, na categoria pós-graduação. UERJ, Rio
de Janeiro, outubro de 2013.
2
É formada em comunicação social, com habilitação em jornalismo, pelo Centro Universitário de
Brasília (UniCEUB). Tem pós-graduação em comunicação e crítica de arte pela Universidade de
Girona, na Espanha. É autora do livro Ousadia em imagens (ITS, 2012), que faz parte da Coleção Arte
em Brasília: Cinco Décadas de Cultura. Atualmente faz mestrado em comunicação social, na linha de
imagem e som, na Universidade de Brasília (UnB).
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Quando a fotografia despontou, tornou-se um agente relevante na maneira pela
qual se produzia conhecimento. Associadas ao surgimento da indústria gráfica, as
imagens fotográficas foram então capazes de ser difundidas e reproduzidas inúmeras
vezes. Auxiliavam na documentação da história, e não apenas na esfera social,
também integraram o âmbito individual, quando o homem começou a registrar a
própria vida com recortes fotográficos. “A descoberta da fotografia propiciaria, de
outra parte, a inusitada possibilidade de autoconhecimento e recordação (...)”
(KOSSOY, 2001, p.27).
Falar de uma pessoa como produtora de narrativas visuais implica pensar em
sua subjetividade. Quando alguém conta uma história, narra a partir da própria
bagagem cultural, dos conhecimentos que tem do assunto, dos interesses pessoais,
entre outras questões peculiares ao olhar do narrador visual. Os fotógrafos não apenas
registram, mas também interpretam os lugares.
Desse modo, a narrativa visual sobre uma cidade é feita a partir de percepções:
o narrador seleciona, concentra a atenção, prioriza questões, personagens e temas. A
narrativa visual de Brasília pode suscitar, então, muitos sentidos e ter vários
desdobramentos. Nessa perspectiva, este artigo propõe observar a maneira como o
fotógrafo Luis Humberto vê e narra Brasília, a fim de destacar características da
influência do olhar do autor na execução do próprio registro fotográfico. A partir daí,
pensar no modo como ele percebe, sintetiza e compõe aspectos da capital por meio de
narrativas visuais. E, além disso, a maneira como ele se revela por meio das próprias
imagens.
Para tanto, foram observadas as fotografias do ensaio O homem e o espaço,
que fazem parte do livro Luis Humberto – Do lado de fora da minha janela, do lado
de dentro da minha porta, publicado pela editora Tempo d’Imagem, em 2010.
Organizada pelo também fotógrafo Salomon Cytrynowicz, com textos de Rubens
Fernandes Júnior e Pedro Afonso Vasquez, a publicação se divide em cinco séries
fotográficas, mescladas. Considerando a grande quantidade de imagens e assuntos,
foram apreciadas as referidas fotografias porque elas retratam o espaço urbano e a
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arquitetura de Brasília, atendendo aos objetivos principais propostos para este
trabalho.
Ao observar os elementos da escrita fotográfica de Luis Humberto, serão
considerados aspectos de sua biografia e de sua trajetória como fotógrafo a fim de
atingir os objetivos apresentados. Sendo assim, os livros escritos por ele e sobre ele
configuram-se essenciais para obter tais informações. A partir de então, estes
elementos serão usados para pensar como eles se refletem na narrativa visual do
autor.
Vale dizer que o discurso imagético de Luis Humberto sobre Brasília também
abrange a política, tema das fotos mais conhecidas do fotógrafo e que fazem parte do
ensaio Liturgia do Poder. Entretanto, ponderando os objetivos propostos para este
artigo, julgou-se apropriado refletir apenas sobre a série já mencionada, pois ela
permite a abordagem escolhida. O espaço da política, portanto, não será tratado por
estar fora do contexto que se quer abordar, e não por estar ausente da obra do referido
autor.
A narrativa fotográfica e o narrador
Em sua própria definição, o ato de narrar está relacionado à representação de
uma ação, que se desenvolve ao longo do tempo, organizada em um enredo. Os fatos
são arranjados de acordo com a experiência perceptiva de um narrador: a sequência
desses eventos se faz por meio do discurso, que por sua vez é formado por uma série
de enunciados colocados em sequência. “Narrar é, portanto, relatar processos de
mudança, processos de alteração e de sucessão interrelacionados” (MOTTA, 2013, p.
71).
O conceito de narrativa, de acordo com o Dicionário de Imagem (2011), está
relacionado principalmente com as imagens em sequência, animadas (cinema, vídeo,
televisão) ou fixas (fotonovela). De fato, implica a ideia de mudança e,
consequentemente, de um percurso que conduz de um estado inicial a um estado final.
Contudo, a despeito e em complemento a tal formulação, tem-se que:
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No entanto, a imagem fixa isolada não está excluída do campo da
narratividade. Jacques Aumont observa, por exemplo, que alguns quadros
que representam vários momentos de um acontecimento ou da vida de uma
personagem têm o mesmo valor que uma sequência e são totalmente
narrativos, com a narrativa a requerer não tanto uma duração tangível, mas
sim um princípio de ordem e de sucessão dos acontecimentos (GOLIOTLÉTÉ et al, 2011, p. 264).
A imagem está relacionada de alguma forma a uma temporalidade, mesmo
sem ser ela mesma temporalizada. A narrativa, assim, se desenvolve tanto no espaço
como no tempo. Na fotografia, o episódio e as pessoas retratadas ligam-se
diretamente à representação de uma ação ou de uma diegese3. Neste sentido, qualquer
imagem figurativa contém em si os elementos da narratividade, possibilidade que
aparece plenamente em determinadas representações.
Em uma narrativa estática, como na fotografia, por exemplo, o recorte
fotográfico é fixo, mas os olhos e a mente do espectador e do narrador fazem o
movimento. Sherline Pimenta e Ravi Poovaiah (2010) defendem que a mente humana
pode imaginar e realizar exercícios mentais sem muito esforço, reunindo imagens da
memória, da imaginação ou do cotidiano. Logo, elas podem fluir rapidamente no
movimento que o intelecto faz ao ver uma representação – e desencadear outras tantas
no pensamento. Segundo Tânia Pellegrini (2003, p. 22), são jorros de memória que
acontecem quando o fotógrafo recorre a lembranças no momento de compor a foto.
Ana Maria Mauad corrobora essa ideia e acrescenta:
Ao fixar a imagem da experiência humana de diferentes maneiras, as
fotografias se tornam o substrato material das memórias contemporâneas.
Nesse mundo de instantâneos e incertezas, reabilitar a ideia de tempo como
duração nos permite atribuir uma dimensão narrativa ao ato fotográfico,
por meio do qual se reunifica a capacidade criativa do sujeito social e sua
técnica (2008, p. 39).
Sendo assim, se a ação é vista como movimento, todas as formas narrativas
estão de alguma maneira articuladas em continuidades temporais, não interessa se
lineares, se incompletas, inversas ou interpostas. As sequências, no caso da narrativa
fotográfica, se realizam por meio de representações imagéticas. O tempo da memória,
das imagens do pensamento não coincide com as medidas temporais objetivas, “trata3
Dimensão ficcional da narrativa, à parte da realidade externa de quem a vê.
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se do tempo entendido como duração, o tempo da mente” (PELLEGRINI, 2003, p.
21).
O espaço, neste caso a cidade, está integrado ao tempo e também associado às
figuras retratadas e ao narrador, pois é dele o ponto de vista, o olhar, e o aparato
técnico (a câmara fotográfica) que “enfoca e recorta a realidade” (PELLEGRINI,
2003, p. 25). O fotógrafo utiliza os elementos que constroem a imagem, como as
possibilidades de luz, temas e enfoques, para situar personagens e dar vida ao lugar. É
o olho através da câmera que conduz a narração.
Por conseguinte, o pensamento de que a narrativa pode ser plenamente
objetiva e delinear-se sem a intervenção de alguma pessoa, é substituído pela
fragmentação, e pela imagem fotográfica. Pellegrini complementa que “(...) a câmera
não é neutra. Há sempre alguém por trás dela que seleciona, recorta e combina,
extraindo uma nova síntese do material desordenado que o mundo visível oferece”
(2003, p. 27).
Esta noção do fotógrafo como narrador, como autor da imagem, permite
pensar nas maneiras como ele se revela nos próprios registros fotográficos. Mesmo
que estes tenham sido produzidos para fins de documentação ou informação
jornalística, não existe uma objetividade completa. Tal perspectiva compreende a
fotografia como uma expressão visual baseada em uma linguagem própria – a
linguagem fotográfica. Desse modo, se a fotografia é uma escrita, o que ela diz sobre
o fotógrafo-narrador?
A ideia da imagem fotográfica como resultado de uma ação do autor
constituiu ampla discussão na aceitação da fotografia como possibilidade expressiva.
Segundo afirma André Rouillé (2009), a foto como documento está ligada à sociedade
industrial, aos seus valores e paradigmas técnicos e econômicos, por isso responde
mal às condições da sociedade da informação. Ainda de acordo com o autor, a
representação fotográfica se transformou e se expandiu para outras áreas, passando a
se relacionar de novas maneiras com a arte, o que levou a fotografia-documento a
abrir espaço para a fotografia-expressão.
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No início dos anos 1980, acentuam-se os limites da fotografia-documento,
suas dificuldades em assumir as tarefas documentais do tempo atual. Era preciso
inventar novas visibilidades, não bastava apenas designar, constatar ou descrever.
Nesse caso, o documento demanda uma escrita, um formato assumido inteiramente
por um autor. Segundo tal processo, as visibilidades não se formam diretamente a
partir das coisas, mas estas são produzidas indiretamente, trabalhando a forma, a
imagem e a escrita fotográficas (ROUILLÉ, 2009, p. 163).
A máxima de Rouillé apresenta-se adequada para pensar a fotografia não
apenas como um documento, mas um meio de expressão de ideias e sentimentos. Por
isso a fotografia-expressão tem alta consciência da forma e de explorar seus infinitos
componentes visuais, pois é a escrita que determina o sentido da foto. Trata-se de
considerar o fotógrafo como narrador, como autor e produtor de sentidos. Pode-se
dizer que há uma interação e interpretação dialética daquilo que se vê/lembra e
daquilo que se fotografa; os olhos que narram estão diretamente envolvidos na
narração.
Nada obstante, é possível ampliar ainda mais esta percepção, pois a imagem,
mesmo como resultado da prática/ação de um indivíduo, não constitui produto apenas
deste sujeito individual, mas de um contexto. Sua construção realiza-se de acordo
com a época na qual o autor está inserido. Essa relação acontece por meio dos
posicionamentos do fotógrafo em relação às reflexões de seu tempo, os partidarismos
que acolhe ou rejeita, os diálogos que estabelece com outras produções culturais, as
técnicas e ferramentas disponíveis e as articulações que o repertório simbólico de seu
tempo permite.
Vida e obra: para conhecer a prática fotográfica de Luis Humberto
Vale fazer, antes de uma reflexão sobre seu trabalho, um breve recorte na
história de Luis Humberto – o que facilitará o entendimento da mistura entre vida e
obra do narrador. O fotógrafo saiu do Rio de Janeiro, em 1962, para integrar o grupo
de professores fundadores da Universidade de Brasília (UnB), primeiro como docente
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de arquitetura e urbanismo e depois de fotografia. Nesta última disciplina foi o
primeiro professor titular em uma universidade brasileira, em 1992.
Setor Comercial Sul, década de 1970.
Superquadra Sul, 1970.
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Luis formou-se em arquitetura, mas trocou a profissão pela fotografia, em
1966, destacando-se, sobretudo, nas revistas Veja (1968/1978) e Isto É (1978/1982).
Foi diretor de arte e editor de fotografia do Jornal de Brasília (1973); colaborou
igualmente com as revistas Quatro Rodas, Cláudia e Realidade. Foi diretor-executivo
da Fundação Cultural do Distrito Federal, assumindo em seguida a direção da Divisão
de Foto-Imagem da Fundação das Pioneiras Sociais, passando a se dedicar
integralmente ao ensino a partir da década de 1990.
As imagens de Luis Humberto se destacam dentre as narrativas visuais de
Brasília principalmente porque fazem parte da história da cidade, configuram o olhar
de quem presenciou o surgimento e a concretização da capital. Isto porque o fotógrafo
desenvolveu trabalhos de expressão pessoal por meio de documentação da paisagem
urbana e de sensíveis ensaios intimistas de postura autobiográfica.
Luis Humberto é autor dos livros Fotografia: Universos & Arrabaldes, e
Fotografia, a poética do banal. Lançou também a Coleção SENAC de Fotografia; e
publicou ainda Brasília, Sonho do Império, Capital da República (1981). Sendo
assim, a visão deste fotógrafo pode abordar a capital sob perspectivas mais
abrangentes, considerando que o referido autor-narrador trabalha em campos de
atuação diferentes.
É importante ressaltar que Luis Humberto atuou como fotojornalista, mas seu
trabalho extrapola em muito aquilo que os jornais se interessam em publicar. Assim, é
analisado enquanto autor que tem uma “visão de mundo”, traduzida nas próprias
fotografias sobre Brasília.
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Filhos de Luis Humberto. Supremo Tribunal Federal, 1995.
Eixo Monumental, década de 1970.
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O homem e o espaço de Luis Humberto
As imagens que compõem o livro Luis Humberto: do lado de fora da minha
janela, do lado de dentro da minha porta foram registradas com objetivos e situações
pessoais distintas, muitas vezes ao mesmo tempo. Resultam em cinco universos,
combinados por uma visão particular da vida: Liturgia do Poder, O Cerrado, O
homem e o espaço, Paisagem doméstica e Tempo veloz são títulos de exposições
realizadas por Luis Humberto ao longo de sua trajetória.
Em sua obra, percebe-se o papel que a foto desempenha de propor a reflexão,
de instigar o pensamento, e de contestar as formas naturalizadas do olhar. Ele
fotografou a política, o espaço urbano, o cerrado, a família, o abstrato, dentre uma
enorme variedade de temas. Estas questões fornecem um valioso significado para o
conjunto da narrativa porque fazem parte do espírito criativo do fotógrafo.
É nesse sentido que as narrativas visuais produzidas por Luis Humberto têm
um ponto em comum, que se traduz na maneira como o referido livro foi organizado:
a ausência de separação entre os capítulos (entre as séries fotográficas) demonstram
que, para ele, tudo está misturado: a família, o trabalho, o espaço urbano, a natureza,
todos os elementos estão de alguma forma presentes em sua obra e na própria vida.
Para Luis Humberto era difícil separar os assuntos, e por isso mesmo, o
fotógrafo saía para trabalhar com duas câmeras: uma para registro pessoal e outra
como instrumento de trabalho. “A personalidade inquieta só se satisfazia na
multiplicidade de temas. De certa forma, a fotografia estimulava calma e disciplina,
dois substantivos que ajudavam no controle dos nervos” (MACIEL, 2008, p. 30).
Em 1965, em consequência da Ditadura Militar e de uma demissão coletiva na
Universidade de Brasília – onde Luis Humberto era docente –, ele parou de lecionar,
fato marcante em sua produção visual. A nova condição o forçou a descobrir outras
áreas. Desempregado, ele saía mais para fotografar e caminhar pela Praça do Três
Poderes em companhia dos filhos e da máquina fotográfica.
Luis Humberto percorreu Brasília registrando assuntos diferentes e unindo
vários de seus temas preferidos em imagens despretensiosas e sem um objetivo
determinado. A cidade registrada é imensa, na maioria da vezes plana, sem muros, e
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aquela imensidão de quase vazio prendia a atenção do olhar do fotógrafo. Assim
nasceu o ensaio O homem e o espaço. No livro aqui analisado, esta série é composta
por 30 imagens, sendo metade em preto e branco e a outra colorida:
O homem e o espaço é uma abordagem visual própria e original, que
transita entre o preto e branco e o mundo das cores, entre o monumental e
o playground da superquadra. Uma nova cidade surge diante de seus olhos
de urbanista e arquiteto. Espaço urbano novo, radicalmente distinto de sua
Rio de Janeiro natal (CYTRYNOWICZ apud HUMBERTO, 2010, p. 8).
Arquiteto, Luis Humberto deixa transparecer seu olhar de formação. “LH é,
não apenas mais um arquiteto na fotografia, ou um fotógrafo de arquitetura. É,
fundamentalmente, um arquiteto da fotografia” (MACIEL, 2008, p. 16). O resultado
aparece em suas composições e usos da luz e no elaborado tratamento plástico.
Também está presente no arranjo das linhas e planos propostos pelo espaço e na
maneira como ele insere o homem nesse arranjo fotográfico, que imprime a percepção
de imensidão do ambiente urbano de Brasília.
Sua formação em arquitetura lhe permitiu tal compreensão do espaço, que ele
consegue representar em uma fotografia, no plano bidimensional, as quatro dimensões
sugestivas ao espaço arquitetônico. Porém, o olhar fotográfico é definitivo em Luis
Humberto, de tal modo que ele se revela por meio da própria escrita fotográfica,
sendo a foto um elemento de expressão, e não apenas uma faceta do arquiteto.
Determinado ângulo e composição escolhidos pelo fotógrafo ressaltam ainda
mais o olhar de arquiteto, que sabia registrar e expressar as escalas arquitetônicas. Ao
apontar a câmera para cima, em 5 imagens desse ensaio, enfatizou a grandiosidade
dos prédios, das curvas e da beleza da arquitetura de Brasília. Luis Humberto mudava
a posição da câmera para mostrar outros pontos de vista, mas seu olhar fotográfico
ainda era voltado para vastidão do cerrado, do quase vazio, característico dos
primeiros anos da capital.
Logo que chegou a Brasília, o arquiteto não se intimidou pelas obras e a terra
vermelha que dominavam a paisagem. Da janela, por meio do visor da câmera, ele
registrou o espaço geométrico e humano que aos poucos se estabelecia. As formas do
cerrado lhe pareciam fascinantes, e é assim que aparecem nos recortes fotográficos: as
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cores, as composições, os restos de obras, tudo permanece harmonioso na narrativa
visual de Luis Humberto.
Por conseguinte, uma característica que salta das imagens desse ensaio é o
contraste entre a presença humana e o espaço em volta. As pessoas configuram pontos
muito pequenos ao lado dos monumentos ou em meio às linhas do cerrado. Nos seus
primeiros anos, a cidade ainda não tinha shoppings e os prédios eram poucos. A
Esplanada dos Ministérios parecia interminável se percorrida por um pedestre.
Em 19 imagens, Brasília é a personagem principal. Mesmo quando alguns
habitantes fazem parte da composição da foto, a tonalidade das cores obscurece os
indivíduos de modo que só́ é possível ver as silhuetas, mas não identificá-los. As
fotografias revelam mais a cidade que seus habitantes. Estes, claro, estão ali, porém, o
enquadramento da maioria das fotos valoriza os vazios, a capital planejada.
As linhas contínuas e exatas compõem o registro da paisagem brasiliense. As
fotografias passam a sensação de isolamento em meio a uma cidade monumental, de
céu marcante, horizonte aberto e ainda pouco habitada. A pequenez humana não
preenchia o vazio monumental, e talvez por isso a percepção de solidão, sublinhada
pelo ângulo que o fotógrafo escolheu: em 12 fotografias, percebe-se que elas foram
registradas do alto, da janela do próprio apartamento. Esta escolha acentua a distância,
a amplitude do verde, e o contraste entre a escala humana e a monumental.
O homem e a enorme urbe, a infância dos filhos e da própria cidade, um
grande canteiro de obras e esqueletos, que cresciam e tomavam forma diante das
lentes do fotógrafo. As crianças dividam o espaço com a política e a
monumentalidade de Brasília, como pode ser visto em 5 fotografias da série – e em
tantas outras que compõem o livro. Na Praça dos Três Poderes, escorregavam sobre o
concreto, caminhavam ao lado de cúpulas ou subiam e desciam rampas para compor
as imagens registradas pelo pai.
Dessa forma, Luis Humberto criou um clima intimista, de quem acaba se
misturando entre as próprias imagens ao envolver os filhos em seus comentários
visuais. As fotografias poderiam compor um álbum de família, assim como
documentam a Brasília dos anos 1960 a 1990. Enquanto as gerações iam mudando,
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prédios eram construídos, estradas eram pavimentadas, lojas eram estabelecidas, e o
fotógrafo compunha seus registros e crônicas fotográficas com todos esses elementos
juntos.
Sendo assim, pode-se dizer que cada imagem de O homem e o espaço afirmase como contribuição à memória de Brasília. Lembranças de uma capital em
construção, marcadas pelas imagens de canteiros de obras ou de operários
trabalhando. Reminiscências de uma época em que a cidade não impunha tantas
regras, em que era possível circular livremente pelos ditos espaços do poder, como
andar pelas cúpulas do Congresso ou subir nas pilastras dos Palácios de Oscar
Niemeyer. Recordações de anos em que a natureza e a terra vermelha ocupavam mais
espaço que os prédios, shoppings e estacionamentos lotados de carros.
Os habitantes da capital não foram excluídos dessas memórias, eles aparecem
aqui e ali dando a escala humana às obras fotografadas. Embora o que se vê, muitas
vezes, é uma cidade deserta. Uma urbe que ainda não precisava de tantas pontes e
cruzamentos, que nascia sob os olhos de quem acreditou em suas promessas.
Para sintetizar, vale aproveitar as palavras do diretor de fotografia Walter
Carvalho sobre Luis Humberto:
Ele inaugurou a ideia de que a fotografia não era mera ilustração, que ela
se prolongava como informação visual, além do código verbal vigente.
Sempre me encantou o espaço diferenciado de Brasília. Mas eu não sabia o
porquê. Luis Humberto me fez perceber, através de suas fotos, a proporção
do homem em relação àquele espaço (apud MACIEL, 2008, p. 46).
Sendo assim, o fotógrafo não só considera a fotografia como um
conhecimento visual, quanto soube passar esta ideia por meio dos próprios recortes
fotográficos. Como o próprio nome do ensaio analisado sugere, as imagens de Luis
Humberto narram, sem auxílio de qualquer outra linguagem, sobre o homem inserido
no espaço urbano de Brasília. As fotos comunicam por si sós a maneira como esse
indivíduo ocupava o cerrado brasiliense e quais elementos dividiam lugar com ele.
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Considerações finais
O arquiteto, professor e fotojornalista explorou uma Brasília distante de um
cartão-postal, em grande parte, lembrança de seu desenho urbano e da visão utópica
modernista da época de sua criação. O próprio Luis Humberto deixou transparecer
utopia em suas imagens, ao ver beleza na terra vermelha, ao acreditar na poesia de
uma cidade construída a fim de ser exemplo para o país.
Ao entender a fotografia como forma de expressão e o olhar individual como
marca de uma obra fotográfica, denota-se que os fragmentos de vida, consciência
ética, política, e profissional se confundem e dialogam com o conjunto do próprio
universo cultural, sensível e criativo de Luis Humberto. Do mesmo modo que
representam uma época da cidade, identificam um autor.
As imagens surgem a partir de tais influências, que são subjetivas e
particulares. A partir delas, evocam uma memória de Brasília que é própria do
fotógrafo e ao mesmo tempo inerente à história da cidade. Além de exprimir-se, Luis
Humberto se coloca na própria escrita fotográfica. Sua fotografia é, além de tudo, ele
próprio, sua personalidade desvendada em ideias, conceitos e visões de mundo. É
cronista visual inconfundível e determinante do momento que presenciou em Brasília.
Referências bibliográficas
BENTES, Duda. Fotojornalismo: o olhar interpretado. In: Sindicato dos Jornalistas
Profissionais do Distrito Federal (coord.). Jornalismo de Brasília: impressões e
vivencias. Brasília: Lantana Comunicação, 1993, pp. 147-157.
GOLIOT-LÉTÉ, Anne et al. Dicionário da Imagem. Lisboa: Lexis 70, 2011.
HUMBERTO, Luis. Luis Humberto: do lado de fora da minha janela, do lado de
dentro da minha porta. Fortaleza: Tempo d’Imagem, 2010.
________________. Fotografia: a poética do banal. Brasília: Editora Universidade de
Brasília. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2000.
________________. Fotografia: Universos e arrabaldes. Rio de Janeiro: Funarte,
1983.
KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
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MACIEL, Nahima. Luis Humberto: A luz e a fúria. Brasília: Coleção Brasilienses,
2008.
MAUAD, Ana Maria. O olhar engajado: Fotografia contemporânea e as dimensões
políticas da cultura visual. In: ArtCultura, Uberlândia, v. 10, n. 16, p. 33-50, jan.-jun.
2008.
MOTTA, Luiz Gonzaga. Análise Crítica da Narrativa. Brasília: Editora Universidade
de Brasília, 2013.
PELLEGRINI, Tânia. Narrativa Verbal e Narrativa Visual: possíveis aproximações.
In: Literatura, cinema e televisão. São Paulo: Editora Senac, 2003.
PIMENTA, Sherline; POOVAIAH, Ravi. On Defining Visual Narratives. In: Design
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Agosto
2010,
Mumbai,
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Acessível
em:
http://www.idc.iitb.ac.in/resources/design-thoughts.html
ROUILLÉ, André́ . A fotografia: entre documento e arte contemporânea. Tradução de
Constancia Egrejas. São Paulo: Senac, 2009.
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