X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS, SURDEZ E A LÍNGUA DE SINAIS: UMA QUESTÃO PARA A PSICOLOGIA DO CONHECIMENTO E PARA A EDUCAÇÃO MATEMÁTICA Maria Helena Fávero Universidade de Brasília [email protected] Resumo: Descartando as célebres dicotomias e o modelo médico que é assumido na prática educativa e de pesquisa quando se trata das pessoas com necessidades educacionais especiais, propomos considerar as peculiaridades do seu desenvolvimento e centrar as investigações sobre a aquisição dos conceitos, através do procedimento de intervenção psicopedagógica, focando a atividade mediada. Relatamos um estudo sobre a resolução de problemas matemáticos, com surdos entre 18 e 33 anos, alunos de uma escola pública do DF, desenvolvido em três fases: avaliação das competências matemáticas dos sujeitos sobre a lógica do sistema de numeração e sua notação; pesquisa em LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais – para as expressões “n a mais que” e “n a menos que” em situação de comparação de conjuntos; investigação da resolução de problemas matemáticos de comparação em duas situações: a resolução individual sem intervenção e com intervenção. Os resultados evidenciam que a dificuldade dos surdos frente a problemas de matemática advém do processo de escolarização que prima pela aquisição de regras de procedimentos de resolução, em detrimento da aquisição conceitual e pelo uso inadequado da LIBRAS como instrumento para a organização de significados semióticos e aquisição de conhecimentos. Palavras-chave: Surdo; Resolução de Problemas; Educação atemática; LIBRAS. Introdução A aquisição conceitual na situação de ensinar e de aprender é um processo complexo que demanda ao mesmo tempo, duas tarefas não menos complexas: a análise do processo de seu desenvolvimento e a transposição dos dados dessa análise para a prática das situações de ensinar e aprender. Ambas, requerem uma abordagem psicológica na perspectiva do que temos defendido para a Psicologia do conhecimento que fundamentamos no consenso dos grandes teóricos da Psicologia do Desenvolvimento Piaget, Wallon, Baldwin e Vygotsky-, no aporte de George Mead, Bakhtin, Geertz e Lotman e dos contemporâneos como Bourdieu, Bruner e Moscovici (FÁVERO, 2009 a). Com base neste consenso sustentamos a tese segundo a qual o ser humano se desenvolve através da construção dialética da interação e adaptação com o meio Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 1 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 sociocultural, sustentada pelos processos de internalização e externalização que engendram a tomada de consciência e para os quais os sistemas de signos são especialmente importantes (FÁVERO, 2005a; 2009b). Esta tese por sua vez, pressupõe a consideração de quatro aspectos teórico-conceituais: 1) as interações entre as regulações cognitivas e sociais; 2) o papel da mediação semiótica no desenvolvimento psicológico; 3) os efeitos dos sistemas de signos neste desenvolvimento, na cognição das comunicações individuais e na interação entre práticas institucionais e funcionamento mental; 4) a tomada de consciência de que as ações humanas não são aleatórias; trata-se de práticas sociais com um conteúdo que lhes dão fundamento (FÁVERO, 2005b). Estes dois parágrafos iniciais são importantes quando se trata de abordar as questões relacionadas às pessoas com necessidades educacionais especiais. Isto porq ue a posição que defendemos nestes parágrafos, expõe um paradoxo: tem-se no meio educacional um discurso muito difundido em favor da idéia do construtivismo e, ao mesmo tempo, quando se trata das pessoas com necessidades educacionais especiais, a tendência geral - seja na prática educacional como na prática da pesquisa - é voltar-se para o modelo médico e, consequentemente, centrar-se na lesão, de modo que o discurso construtivista não tem mais lugar e a referência é sempre em relação às diferenças e incapa cidades. Com este foco, se obtém poucos dados sobre as particularidades do desenvolvimento psicológico e do desenvolvimento cognitivo destas pessoas. Mais que isto, com este foco, o sujeito cognoscente desaparece e, portanto perde-se o sujeito psicológico ativo como defendemos nos parágrafos iniciais. A literatura sobre as dificuldades na aquisição do conhecimento matemático, por exemplo, descreve várias formas de distúrbios no cálculo, justificando-as pela neuropsicologia: alexia e agrafia, definidas como a incapacidade de ler e escrever os números e de realizar cálculo, e explicadas pela dificuldade na manipulação simbólica do sistema numérico e atribuídas a uma disfunção do hemisfério esquerdo do cérebro (?); discalculia espacial, definida como a incapacidade de respeitar as relações espaciais nas operações de cálculo (por exemplo, colocar os números em colunas), referida em relação à lesão no hemisfério direito. Portanto, segundo tal modelo, os quatro aspectos teórico-conceituais que consideramos nos parágrafos iniciais perdem seu sentido, porque retornam em cena as clássicas dicotomias do pensamento ocidental, entre os quais aquela relacionada ao pensamento e linguagem. Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 2 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 Temos proposto uma mudança radical nesse foco, segundo dois eixos principais: considerar o desenvolvimento das pessoas com necessidades educacionais especiais e as peculiaridades deste desenvolvimento, o que é diferente de focar apenas suas dificuldades; centrar as investigações sobre a aquisição dos conceitos, tendo por método de investigação, o próprio procedimento de intervenção psicopedagógica, o que significa considerar a atividade mediada (FÁVERO, 2003). Para sustentar esta mudança de foco, temos recorrido ao consenso referido no nosso primeiro parágrafo, para situar a rejeição da dua lidade mente-corpo, que, por implicação, fundamenta a rejeição às dicotomias entre pensamento e linguagem e entre indivíduo e sociedade. Assim, temos defendido a tese segundo a qual a construção do conhecimento envolve muito mais do que a construção de estratégias cognitivas; envolve também a questão do como e quais são os valores sociais que permeiam as informações, os procedimentos e as atividades em geral, sejam elas de natureza educacional ou não (ver, por exemplo, BRUNER, 1990; FÁVERO, 2005a). É assim que retomamos a questão da mediação semiótica no desenvolvimento psicológico e insistimos na importância da compreensão de que toda e qualquer atividade é mediada. Tal compreensão é fundamental para a defesa de um sujeito ativo, por meio do qual, recuperamos o sujeito cognoscente, no sentido de Habermas (1987), isto é, o sujeito que constrói sem o qual não haveria sentido fazer referência a uma Psicologia do Desenvolvimento, ou à tese da construção do conhecimento (FÁVERO, 2003; 2005a; 2005b 2009a). Assim, quando se trata de considerar o sujeito que é surdo, e essa é a tese que temos defendido, a via compatível com o exposto acima, é aquela que se descentra da deficiência neurossensorial auditiva para se centrar no sujeito e no seu desenvolvimento. Tal proposta implica retomar a questão da relação pensamento/linguagem sob um outro aspecto, isto é: aquele que vai além da idéia da oralização do pensamento. Nossa proposta tem respaldo suficiente, tanto dos autores clássicos, como Mead (1910), segundo o qual o pensamento é a interiorização da conversação por gestos, como das pesquisas atuais na área. Estas nos ensinam que o surdo, por meio da língua espaçovisual, se utiliza de sistemas culturais e lingüísticos para construir um sistema de significados, da mesma forma que os ouvintes se utilizando da língua oral auditiva. Em outros termos, isto significa que podemos afirmar que existe um consenso entre os pesquisadores: embora a língua de sinais seja uma modalidade lingüística diferenciada, Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 3 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 uma vez que utiliza o espaço para estabelecer a comunicação, isto não é empecilho para que ela seja considerada, assim como a oral auditiva, um instrumento semiótico, por meio do qual os sujeitos humanos, como diz Bruner (1990), partilham e negociam significados. Do mesmo modo, as pesquisas da Psicologia do Desenvolvimento evidenciam que os primeiros gestos do bebê, considerados diretos, como o abrir e fechar a mão para pedir algo que não está ao seu alcance, relaciona-se a uma conseqüência social por meio do qual a criança desenvolve esquemas de comunicação. Assim, o ato de apontar é estimulado pelo contexto no qual a criança está inserida e faz parte da construção de esquemas de comunicação, do mesmo modo que o “gugunar”, o sorrir, o chorar, o balbuciar. Trata-se de sinalizadores para que a comunicação seja estabelecida, de modo que os gestos são apoiados no contexto da interação familiar ou de outro contexto mais próximo, sendo vinculados à ação, às mímicas e às repetições da função do objeto (CASELLI, 2002). Portanto, não somente as crianças se utilizam de gestos no início da sua construção verbal, como os adultos utilizam os gestos como suporte para a comunicação oral, o que é compatível com a referência que fizemos acima a George Mead. Em suma, as pesquisas salientam pelo menos quatro aspectos consensuais importantes para o debate sobre o desenvolvimento psicológico do surdo e para o relato do estudo que vamos expor em seguida: 1/ os gestos fazem parte do desenvolvimento da linguagem, e que eles, aos poucos, cedem lugar para a palavra, no caso dos ouvintes, ou para os sinais, no caso dos surdos; 2/ nos dois casos – ouvintes e surdos – os sinais não desaparecem por completo, ou seja: os gestos na língua de sinais são menos perceptíveis do que nas línguas orais, pois compartilham do mesmo espaço visual onde a comunicação é estabelecida, enquanto os gestos na língua oral são mais perceptíveis, pois dão suporte à comunicação oral; 3/ no processo inicial de aquisição da linguagem, a criança pequena, seja surda ou não, utiliza os gestos para expressar suas necessidades e para estabelecer vínculos sociais, o que nos permite a afirmação de que as experiências lingüísticas da criança surda, exposta à língua de sinais desde o seu nascimento e processadas, portanto, na modalidade espaço-visual, podem ser comparadas à aquisição das línguas orais; 4/ o contexto lingüístico no qual a criança surda está inserida, influencia diretamente sua aquisição da linguagem, do mesmo modo como ocorre com a criança ouvinte (ver, por exemplo, BELLUGI, O´GRADY E LILLO-MARTIN, 2002). Assim, a criança surda quando exposta à língua de sinais desde o seu nascimento, participa de uma “cultura Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 4 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 visual” como um primeiro meio de comunicação, denominado na literatura de viso-gestual (ver ERTING; COLS, 2002, por exemplo). Dito em outros termos, e como defendido por Virole (2000), os surdos que utilizam a língua de sinais reagem rapidamente a estímulos visuais direcionados ao campo periférico, possuindo melhor desenvolvimento potencial da região occipital, evidenciando a ativação das áreas primárias visuais, quanto à detenção dos movimentos. No estudo que relataremos, partimos da tese já exposta e da defesa da língua de sinais como a língua materna dos surdos (CAPOVILLA, CAPOVILLA; SUITER, 2004, FLAHERTY; MORAN, 2004; entre outros). Isto significa entender a língua de sinais como instrumento de mediação para a aquisição da segunda língua. Isto porque a evidência das pesquisas nos permite afirmar que o uso do espaço na língua de sinais, funciona como discurso sintático, onde os níveis lingüísticos como nome, pronome referencial, referência espacial, léxico, significado, parâmetros da língua (ponto de articulação, movimento, posição das mãos, orientação e direção), são coordenados e estruturados. Cabe ressaltar, no entanto que, apesar destas evidências, de um modo geral, tanto no contexto social mais amplo, como no contexto escolar, a corrente oralista influenciou e influencia a forma de se perceber o surdo, porque além da defesa do treinamento da fala ou da reeducação do campo residual auditivo, ela interfere na prática social, na perspectiva pedagógica e na representação sobre a capacidade cognitiva dos surdos (ver SKLIAR, 1998). Assim, de um modo geral, o meio escolar continua mantendo afirmações contraditórias tais como “os surdos têm dificuldades nas atividades intelectuais em geral”; “os surdos têm mais facilidade para a aprendizagem da matemática do que para a aprendizagem do português” e, ao mesmo tempo, “o surdo tem muita dificuldade para resolver problemas de matemática”. Com o intuito de enfrentar esta contradição, assumimos, como exposto antes, focar o sujeito surdo e o seu desenvolvimento psicológico. Metodologicamente, defendemos um trabalho sistematizado de articulação entre intervenção e pesquisa, que permite o e studo das aquisições conceituais por meio da produção do sujeito, considerando-se a filiação entre competências e dificuldades. Isto permite situar todo caso individual e, ao mesmo tempo, permite a análise dos processos mediacionais ocorridos na interação interpessoal, o que inclui o tipo de material utilizado e a natureza das atividades propostas (FÁVERO, Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 5 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 2003). Método Nosso estudo foi desenvolvido em três fases. Na primeira procedemos a uma avaliação das competências numéricas dos sujeitos surdos; na se gunda, pesquisamos os termos em língua de sinais para comparação de conjuntos e, na terceira, propusemos aos sujeitos surdos, uma situação de resolução de problemas escritos. Cada fase foi desenvolvida com surdos adultos, entre 18 e 33 anos, alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) de uma escola pública do DF, situada no Plano Piloto de Brasília. Nem todos participaram das três fases, por causa do rodízio de alunos e da evasão. Eles tinham em média, oito anos de história escolar, considerando-se os períodos em escolas do ensino regular e aqueles em escola para surdos. Os dados obtidos nas três fases descritas serão apresentados uns em relação aos outros, uma vez que cada uma fundamentou a seguinte. Na 1a fase três sujeitos surdos do sexo masculino foram avaliados individualmente por meio de uma adaptação da Prova Conceitual de Resolução de Problemas NuméricosECPN (grupo CIMETE, 1999), utilizando-se a LIBRAS. A ECPN é um instrumento por meio do qual, utilizando-se de pequenas quantidades de objetos concretos (fichas, botões, etc.) e sem o recurso à escrita, verifica-se as competências e dificuldades dos sujeitos, por meio de diferentes contextos numéricos: situações de descrição e comparação, igualdade, quantificação da relação de ordem e pesquisas de estado iniciais ou de transformação. Os dados obtidos nesta fase evidenciaram que os sujeitos apresentavam os conceitos de adição e de subtração associados à idéia de unir ou separar conjuntos e a compreensão da igualdade relacionada à correspondência termo a termo, associando operações às situações, mesmo quando estas não estavam claramente explícitas. Nas tarefas que envolviam a transformação por soma na descoberta de estado inicial ou final, os sujeitos demonstraram compreender as relações entre os números, utilizando as duplas de contagem para frente e para trás, controladas com a seqüência de palavras- número. Nas tarefas que envolviam a comparação do tipo “n a mais” com estados iniciais idênticos e diferentes, os sujeitos apresentaram dificuldades em diferenciar as relações estáticas das medidas estáticas. Ou seja, embora os sujeitos compreendessem a medida estática e a Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 6 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 relação entre elas, suas respostas evidenciavam que eles não compreendiam de imediato, a situação de comparação em si. Assim, embora tivessem as ferramentas matemáticas, evidenciadas nas outras tarefas, não as utilizavam naquelas que envolviam a comparação do tipo “n a mais”. Um dos sujeitos resolveu este tipo problema, igualando os conjuntos, antes de adicionar o “n a mais”. Trata-se de uma estratégia descrita em estudos com crianças ouvintes, como um procedimento espontâneo de resolução frente a problemas de comparação e como uma estratégia pedagógica para facilitar a compreensão das relações entre as medidas estáticas e medidas de transformação. Adotou-se, então, tal estratégia com os outros dois sujeitos. Em suma, desta primeira fase, concluímos que os sinais da LIBRAS utilizados no momento da tarefa talvez não tivessem correspondido aos conceitos expressos na situação de comparação. Desse modo, o objetivo da 2ª fase, que denominamos de Prova Adicional de Comparação de Conjuntos foi o de sistematizar uma situação que permitisse pesquisar, por meio da LIBRAS, qual tradução seria a mais adequada para as expressões “n a mais” e “n a menos” em situação de comparação de conjuntos. Desta 2 a fase, participaram cinco sujeitos surdos, sendo quatro novos e um da fase anterior. Na Prova Adicional de Comparação de Conjuntos procedeu-se à distribuição de conjuntos desiguais de bombons, de tal forma que o número de elementos de um conjunto não correspondesse ao número de elementos do outro, e a diferença entre eles fosse sempre de um elemento. A partir desta situação e por meio da LIBRAS várias questões eram propostas: Está igual? Está diferente? O que tem de diferente? Por que é diferente? Quanto é diferente? Quem tem mais? Quem tem menos? Quantos esse tem mais? Quanto esse tem menos? Falta quanto? Sobra quanto? Em seguida os bombons eram distribuídos de tal forma que a diferença entre os conjuntos fosse maior que um elemento. Diante desta nova situação solicitava-se que os sujeitos comparassem e igualassem os conjuntos, e acrescentasse “n a mais” ou retirasse “n a menos” do conjunto referência. Da análise dos dados obtidos nesta fase se concluiu que para propor este tipo de atividade aos surdos, 4 passos deveriam ser considerados: 1/ quantificar os conjuntos; 2/ representar “qual o conjunto tem mais elementos e qual o conjunto tem menos elementos” por meio da posição que as mãos ocupam no espaço; 3/ igualar os conjuntos e 4/ adicionar o “n a mais.” Esta fase também nos forneceu os seguintes dados: 1/ os termos mais adequados em LIBRAS, são aqueles que indicam a similaridade e a diferença entre os Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 7 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 conjuntos: “Está igual? Está diferente? Por que diferente? O que é diferente? Quanto diferente?”; 2/ a expressão facial em LIBRAS é fundamental e por meio dela, podemos utilizar dois outros termos que traduzem as expressões “n a mais” e “n a menos”: falta quanto? Sobra quanto? Obtivemos, portanto indícios de que, era possível utilizar certas estratégias que, respeitando a estrutura da LIBRAS, favorecesse a compreensão da situação problema. Do ponto de vista psicológico, podemos dizer que estas estratégias maximizam a experiência do sujeito com as diferentes funções do número, isto é, como medida estática, como medida de transformação e como relações estáticas, e que não se trata, portanto, de uma estratégia trivial. Ao contrário, trata-se de uma estratégia didática compatível com a análise de Vergnaud (1991) no que se refere aos ouvintes: o conceito de número envolve sua compreensão como medida, como relação e como transformação, considerando que, tal conceito e as competências associadas a ele, formam uma rede complexa parcialmente ordenada e constituída de uma parte estável e de avanços instáveis, estando intimamente relacionado às situações, às operações e às relações que o próprio conceito suscita. Podemos dizer que as estratégias didáticas suscitadas pela 2ª fase do estudo e tendo por base a LIBRAS dão sentido às propriedades do número. Em suma, isto significa dizer que para favorecer o desenvolvimento psicológico do surdo a prática psicopedagógica deve considerar três aspectos articulados: 1) o professor (ou outro profissional) que lida com surdos deve ter fluência em LIBRAS; 2) as estratégias de ensino de matemática devem favorecer experiências significativas para o aluno; 3) o aluno deve ter, no seu processo de escolarização, a oportunidade de lidar com as diferentes funções do número. Com base nestas considerações desenvolvemos a 3a e última fase do estudo, focada no nosso objetivo principal: a resolução de problemas matemáticos textuais, do tipo utilizado na escola, envolvendo a comparação de conjuntos na relação “n a mais” e “n a menos.” Dela participaram seis sujeitos: os quatro anteriores e mais dois do sexo masculino, com 24 e 29 anos, respectivamente. Utilizamos seis problemas inspirados na literatura sobre resolução de problemas em matemática (CARPENTER; MOSER,1983, KINTSCH; GREENO, 1985): dois de diferença desconhecida, dois de qualidade desconhecida e dois de referência desconhecida. Eles foram propostos aos sujeitos em 3 (três) sessões diferentes, de 2 em 2, perfazendo um total aproximado de seis horas, Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 8 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 registradas em vídeo. Os problemas foram entregues à cada sujeito da dupla, digitados em folha de papel A4. Em cada uma das três sessões, foi adotado um mesmo procedimento : primeiro era solicitado que os problemas fossem resolvidos individualmente; em seguida, se solicitava que os sujeitos lessem os problemas utilizando a língua de sinais; depois os sujeitos eram auxiliados na compreensão textual dos problemas, por meio da LIBRAS. Em nenhum momento era fornecida uma resposta para aos sujeitos; o procedimento era o de induzi- los a confrontar suas respostas, caracterizando-se assim, uma intervenção psicopedagógica centrada na comparação de conjuntos, principalmente no que se refere à diferenciação do número como medida estática e do número como relação estática. Os dados obtidos nesta fase sugerem um padrão de estratégias que no geral, não se diferenciam daquele encontrado em outros estudos com adultos ouvintes, como por exemplo, utilizar os números que aparecem no enunciado e na seqüência em que aparecem, associando a eles os sinais convencionais de uma operação aritmética (FÁVERO, 1999, FÁVERO; MAURMMANN; SOUZA 2003). Do mesmo modo, os sujeitos surdos do nosso estudo não traduziam em suas notações, a representação da situação proposta pelo problema, tentando solucioná- la por meio de operações aritméticas desvinculadas da questão proposta, o que pode explicar o registro de mais de uma solução para uma mesma questão. Este tipo de procedimento, não se distancia daqueles apresentados pelos sujeitos adultos ouvintes do estudo de Fávero e Soares (2002), que também não demonstraram saber estabelecer relações entre a notação das operações e uma situação problema. Para estas autoras os referidos adultos não apenas apresentavam dificuldades no reconhecimento da notação convencional, como também tinham dificuldade e m perceber esta notação como forma de registrar situações que podem ser quantificadas. Ou seja, os nossos dados evidenciaram que a produção dos sujeitos surdos do nosso estudo não é pobre do ponto de vista do uso de diferentes sinais para a notação; o que é pobre é a relação entre o uso destes sinais, seu significado e uma situação particular. Conclusão Na resolução de problemas matemáticos a compreensão da situação vai além do domínio das palavras e das operações aritméticas. Isso implica em desmistific ar a afirmação de que o surdo tem dificuldade em resolução de problemas textuais devido à Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 9 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 dificuldade do domínio do português. De fato, qualquer que seja o aluno, surdo, ouvinte, criança, adulto, em processo alfabetização ou não, terá que lidar com a questão da leitura funcional e com a questão da lógica do sistema numérico e de medidas. Assim, podemos dizer que não é somente a estrutura sintática e textual do problema que interfere na compreensão do mesmo, mas uma questão muito mais grave. Em primeiro lugar e de um modo geral, trata-se de considerar o modo como a escola media o conhecimento matemático e os significados nela implícitos. Em segundo lugar e particularizando para os surdos, trata-se de atentar para a importância da proficiência em LIBRAS do professor e da professora nesta mediação. Por isso mesmo, defendemos que as chamadas construções atípicas da escrita do surdo, são fruto de uma prática de alfabetização destinada ao surdo que, ainda hoje, negligencia o status da língua de sinais como instrume nto semiótico e utiliza com as crianças, adolescentes e adultos surdos um processo similar de alfabetização ao de sujeitos ouvintes, cuja língua materna é o português (FÁVERO, PIMENTA, PACIFICI, 2007). Referências BELLUGI, U., O´GRADY, L., e LILLO-MARTIN, D. Enhancement of spatial cognition in Deaf Children. 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