AD NOBILEM VIRUM:
nobreza, nobilitação e produção do ethso aristocrático na poesia
laudatória francesa quinhentista.
Marcello MOREIRA
Prof. Dr. de Literatura Brasileira – UESB
[email protected]
RESUMO: objetiva-se apresentar proposta de pesquisa com vistas a estudar a relação
entre as representações da aristocracia francesa, na poesia laudatória produzida no
Estado monárquico francês, nos séculos XVI e XVII, e a estruturação jurídica do Estado
francês. Objetiva-se verificar, primeiramente, como a poesia laudatória é regrada por
preceitos da retórica demonstrativa e, em segundo lugar, como as representações da
aristocracia são hierarquizadas a partir da hierarquização das personae que são matéria
do louvor.
PALAVRAS-CHAVE: louvor; representação; retórica demonstrativa.
O texto que ora apresentamos é uma proposta a ser ulteriormente desenvolvida,
conquanto relacionada à pesquisa que vimos desenvolvendo sobre as relações entre
poesia, memória e política nos Estados monárquicos francês e português, sobretudo a
partir dos primeiros anos do século XVI, cujos resultados iniciais já vêm sendo
publicados.
Falar do caráter memorativo da poesia remete àquela que, em âmbito europeu,
desde Homero, é uma de suas funções primordiais, pois embora não encontremos na
Ilíada nem na Odisséia a explicitação da tópica exegi monumentum, associada ao nome
de Horácio e ao seu quarto livro de Odes, o registro das res gestae nos poemas
homéricos parece ser o indício mais seguro de que a poesia já era ajuizada o melhor
antídoto contra o aforismo, já em sua forma latina, tempus omnia vincit.
Transmitida topicamente à Europa do Ocidente, a idéia de que a poesia é mais
resistente do que os próprios monumentos e de que estes últimos só podem ter a
pretensão de resistir à voragem do tempo caso sejam, por seu turno, monumentalizados
pelo texto poético, recorre em praticamente todos os poetas, a ponto de um "poeta
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diversidade na Antiguidade e no Medievo.
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menor" da América portuguesa, Manoel Botelho de Oliveira, produzir um soneto
intitulado A hum illlustre edifício de colunas, & arcos[1], em que atualiza a referida
tópica.
Que edificação é comemorada pelo poeta em seu soneto? Não sabemos, porque o
edifício por ele cantado é marcado pelo mais completo anonimato, contrariamente
àqueles outros poemas dos séculos XVI e XVII que se propõem ser êmulos verbais de
edifícios que de fato existiram, como Du Bellay, Anet, e Ronsard, Saint Cosme. Ou
melhor, não deveríamos depreender do anonimato do edifício por ele descrito que tal
edifício é anônimo porque não equivale a nenhuma edificação empiricamente dada?
Edifício cujos tijolos são as palavras estruturadas pelo poeta? Sabemos, pela leitura do
segundo quarteto, que o edifício por ele comemorado: "Fadiga da arte foy, que a
Natureza/ inveja de seus brios mal segura;/ E cada pedra, que nos arcos dura,/ He lingoa
muda da fatal empresa." Considerando-se a estrutura elocutiva do poema, como
deveríamos interpretar a metáfora "cada pedra...He lingoa"? A metáfora parece remeter
à equivalência entre "pedra" e "palavra", sendo, por conseguinte, o poema, considerado
em sua totalidade "Essa de illustre maquina bellesa," referida no primeiro verso do
soneto. "Maquina", palavra empregada nos tratados de arquitetura dos séculos XVI e
XVII para designar de forma genérica as edificações, dela o poeta faz uso para
significar o soneto que escreve, estrutura cujas partes, assim como uma máquina
perfeita, em perfeita interdependência funcional, não podem ser eximidas sob pena de
que todo o edifício rua vindo abaixo.
É ao edifício erguido com palavras, é ao edifício erguido pela força da poesia, tal
como as muralhas erigidas por Anfião, que está associada a resistência ao tempo e a
perenidade, pois "Contra a fortuna tem colunas fortes,/ Contra o tempo fabrica Arcos
triunfantes."
É justamente a resistência, ou melhor, a resistibilidade da poesia frente ao tempo
que a recomenda, nos séculos XVI e XVII, aos patronos desejosos de ter sua memória
perpetuada, tal como aquelas cujos ecos a Fama não se cansa de apregoar, apesar de
fautores terem morrido há tanto tempo, pois, é preciso não se esquecer, o poeta apenas
imortaliza o que o homem obrou e, por conseguinte, sem res gestae não há memória
possível.
Mas o caráter político da poesia adviria somente do fato de ela preservar e
transmitir aos pósteros a memória de alguns, porque o procedimento de monumentalizar
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nomes e feitos está restrito a membros de grupos sociais específicos nos séculos XVI e
XVII – procedimento de exclusão, em primeiro lugar, embora, desde o século XVI, a
gloire esteja também destinada aos homens pertencentes ao que, somente no século
XVII, será conhecido como robe, altos funcionários do Estado em vias de expansão,
detentores de cargos, offices, transmitidos de pai a filho, graus universitários, bens de
raiz e dinheiro – sinal claro de intersecção entre valores ligados tradicionalmente a uma
sociedade de classes e aqueles de uma sociedade que se quer juridicamente estamental.
O caráter político da poesia adviria, sobretudo, da atividade retórica indissociável
da atividade poética, pois esta última, em sua vertente laudatória, apresenta uma clara
intersecção com a retórica epidítica ou demonstrativa cujos preceitos chegam à Europa,
nos séculos XVI e XVII, por meio dos tratados retóricos da Segunda Sofística.
O que propomos, aqui, por ora, é estabelecer a hipótese, que esperamos seja
maximamente produtiva, de que a estrutura elocutiva dos poemas laudatórios
produzidos na França, nos séculos XVI e XVII, varie de acordo com a persona a quem
o louvor se destina, ou melhor, de acordo com a persona que o louvor toma como
matéria. Assim sendo, por meio da aplicação do preceito collatio personarum, a
estrutura elocutiva precisaria variar na medida em que deveria ser apropriada, pelo
menos teoricamente, à explicitação das diferenças jurídicas, que se externam
socialmente como direitos de precedência que se evidenciam, por exemplo, no
vestuário, nas moradias, nos adornos et cetera.
A estrutura elocutiva associada ao uso de tópicas apropriadas à produção de
louvores diferenciados e hierarquizados, funcionalmente, serviria para naturalizar as
representações dóxicas da sociedade, na medida mesma em que as propõe porque as
concebe como naturais.
BIBLIOGRAFIA:
OLIVEIRA, Manoel Botelho de. MUSICA/DO/PARNASSO/DIVIDIDA EM
QUATRO COROS/DE RIMAS/PORTUGUESAS, CASTELHA-/nas, Italianas,
& Latinas./COM SEU DESCANTE COMICO REDUSI-/do em duas
Comedias,/OFFERECIDA/AO
EXCELLENTISSIMO
SENHOR
DOM
NUNO/Alvares Pereyra de Mello, Duque do Cadaval, &c./E
ENTOADA/PELO CAPITAM MOR MANOEL BOTELHO/de Oliveyra,
Fidalgo da Caza de Sua/Magestade. Lisboa: Miguel Manescal, 1705.
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[1] O
soneto é o que se segue:
Essa de illustre maquina bellesa,
Que o tempo goza, & contra o tempo atura;
He soberbo primor da arquitectura,
He prodigo milagre da grandesa.
Fadiga da arte foy, que a Naturesa
Inveja de seus brios mal segura;
E cada pedra, que nos Arcos dura,
He lingoa muda da fatal empresa.
Não teme da fortuna os varios cortes,
Nem do tempo os discursos por errantes,
Arma-se firme contra as leis das sortes.
Que nas colunas, & arcos elegantes,
Contra a fortuna tem colunas fortes,
Contra o tempo fabrica Arcos triunfantes.
Veja-se OLIVEIRA, Manoel Botelho de. MUSICA/DO/PARNASSO/DIVIDIDA EM
QUATRO COROS/DE RIMAS/PORTUGUESAS, CASTELHA-/nas, Italianas, &
Latinas./COM
SEU
DESCANTE
COMICO
REDUSI-/do
em
duas
Comedias,/OFFERECIDA/AO EXCELLENTISSIMO SENHOR DOM NUNO/Alvares
Pereyra de Mello, Duque do Cadaval, &c./E ENTOADA/PELO CAPITAM MOR
MANOEL BOTELHO/de Oliveyra, Fidalgo da Caza de Sua/Magestade. Lisboa: Miguel
Manescal, 1705, p. 87.
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