PARENTALIDADE : TORNAR-SE PAIS Maria Cecília Schiller Sampaio Fonseca (SBPSP - SBPRJ) Ao pensar sobre o tema dentro desse Encontro surgiram em minha mente vários pontos de partida e várias reflexões. É um tema difícil, pouco explorado por Winnicott, sendo a sua teoria, de aguçada observação clínica, basicamente centrada na dupla mãe-bebê. Esse fato leva Winnicott muitas vezes a pedir desculpas aos pais, pedindo que não se sintam excluídos e na verdade não o são. Apela para que entendam e suportem não serem o personagem principal nessa relação, principalmente quando nos seus primórdios. Vai, no entanto mostrar como são importantes e vitais para que uma boa relação possa se desenvolver entre a mãe e seu bebê. Seu papel é fundamental como integrante do ambiente favorável ao bom desenvolvimento de um filho.Em seu artigo “ A construção da confiança “ ao falar da mãe- ambiente diz: “ Isso inclui, é claro, tudo o que você reúne à sua volta....e também inclui o homem que resulta ser o pai do bebe...” O tema aqui é "tornar-se pais", ou seja, como um casal chega a esse momento e vive as vicissitudes desse caminho. O meu foco será nesse movimento, nessa transformação, que mais agudamente se apresenta no primeiro filho, mas se renova a cada filho que é gerado. Após refletir por algum tempo, cheguei a uma premissa, baseada em minha experiência clínica e que penso encontrar eco e correspondência na teoria Winnicottiana. Vale ressaltar que a teoria de Winnicott cresceu e se apoiou em sua rica experiencia de pediatra, psiquiatra e psicanalista O que proponho para discutirmos é que "tornar-se pais" é um movimento humano que pode ser caracterizado como um paradoxo.Os paradoxos que para Winnicott são inerentes ao desenvolvimento do self não são para serem resolvidos e sim para serem vividos. O paradoxo aqui é que ao mesmo tempo em que a paternalidade é uma tarefa inerente ao processo do amadurecimento, é também um "acidente" na vida do casal. A idéia de acidente penso ser bastante original dentro da teoria psicanalítica. Dentro da área de conhecimento médico já é sabido que a implantação do óvulo provoca rejeicão pelo corpo da mãe, que o sente como estranho e reage a ele. O relato dos sentimentos que surgem na mulher e no homem, principalmente quando em terapia, quando vem a saber que vão "tornar-se pais" é outra forma de confirmação. Cito Winnicott em seu livro"Os bebês e suas mães" (1966) no capítulo sobre as "Origens do Indivíduo": "Há de fato muitas coisas a serem ditas a favor da teoria da concepção como um pequeno acidente, que deixa os pais inicialmente surpresos,quando não aborrecidos,devido aos imensos disturbios que tal fato traz para as suas vidas. É um desastre, que só se transforma em seu contrário em circunstancias favoráveis, quando os pais, rápida ou lentamente, chegam à conclusão de que este é exatamente o desastre de que precisam " Estas circunstâncias favoráveis significam, a meu ver, o momento do processo do amadurecimento que permitiu aos dois, cada um por si e tambem ao casal, abrir espaço para a entrada de um terceiro na vida deles. Esse processo começaria pelo ato de conceberem mentalmente o filho.Esse conceber já vem se desenvolvendo desde que eram crianças, menino ou menina, ao brincar, se renovando nos sonhos através do crescimento. Chega a seu ápice na idade adulta, quando um casal se une e geralmente após algum tempo, pensa em realizar essa concepção. Aqui estou falando de "tornar-se pais" não como geradores apenas, mas em poderem assumir a identidade de pai e mãe. É necessário para isso que tenham atingido um grau de amadurecimento que inclua terem suas identidades definidas, dando lugar a um casal que viva criativamente. Só quando se considera que “ a vida vale a pena ser vivida” é que se pode pensar maduramente em gerar filhos . Um casal esteve em terapia comigo por sentir que estavam vivendo uma vida fútil,voltada para conquistas financeiras e sociais, com muitas brigas, não conseguindo mais se comunicar. Numa sessão de muita emoção entre os dois, falam que vem adiando há muito ter um filho por não desejarem que este viesse a viver dentro desse clima que viviam. Choraram muito, sentindo-se impotentes quanto a mudar e frustrados por não realizarem o que era desejo de ambos.Tinham essa vivencia de uma vida inútil e sem criatividade. Sentiam que não deveriam oferecer isso a um filho. De certo modo, esses pais tinham um aspecto saudável, pois através da psicoterapia buscavam a integração e a maturidade desejada no casal para a chegada de um filho . Buscavam um viver criativo. Penso que os filhos representam a capacidade criativa maior de um casal. É necessário ter atingido um grau de maturidade para se colocarem diante dessa opção de um modo responsável. "Crescei e multiplicai-vos" não é uma tarefa simples.Crescer não é apenas atingir a maturidade sexual, com capacidade reprodutiva. Precisa, com diz Winnicott estar "unida com o gostar e os amplos significados da palavra "amar" "(Tudo começa em casa) Multiplicar-se é um ato de continuidade do ser ,uma identificação com a sociedade. Constituir familia é uma importante função pessoal e social. Só pais maduros podem abrir espaço para essa função plena. Emergem no casal memórias relativas ao seu passado, o que viveram como filhos através de recordações ou mesmo sonhos. As lembranças de terem sido cuidados também levam ao desejo de terem filhos, de formar uma família. É necessário abrir mão do narcisismo com seus aspectos regressivos para incluir uma outra pessoa que vai se apoderar deles, impiedosamente e só muito lentamente ser capaz de reconhece-los como pessoas e não objetos subjetivos. Ao ser gerado um filho, o paradoxo de imediato se apresenta. Junto à enorme satisfação, surgem ansiedades, indagações, medo. Uma paciente ao ter confirmada sua primeira gravidez, desejada pelo casal, me diz:"E agora !?..não tem mais jeito. Eu queria tanto e estou apavorada. E senti que meu marido tambem! Ele me olhava com uma expressão que ora era de alegria, ora de espanto e pânico..Chorava e ria..Me abraçava e se afastava, olhando para mim com essas expressões!!!" Em todo casal há sempre a presença de sentimentos ambivalentes, em que o aspecto agressivo, principalmente nas fantasias ligadas à sexualidade provocam ansiedades de terem provocado feridas, danos um ao outro, mesmo que isso não esteja consciente. Durante a gravidez isso se potencializa, gerando o temor de filhos anormais, monstruosos, medo de abortos,etc..Então, o nascimento de um bebê vivo , saudável é um fator de integração do casal, aplacando suas culpas, mesmo que fantasiosas.. A parentalidade vai se instalando aos poucos, chegando ao seu máximo no nascimento. Já durante a gravidez há contato, através do crescer do ventre, dos movimentos dentro do útero cada vez mais possiveis de serem sentidos. Hoje em dia isso se torna ainda mais real. A ultrassonografia tridimensional permite uma visualização quase completa do bebe que está se formando. Mostra o sexo, feições, o corpo e sua forma, etc... Creio que antecipam essas realizações, assim como ajudam a amenizar os temores. Mas, a meu ver, presenciando vários partos, onde muitas vezes o pai está presente ,o nascimento é a realização máxima. A emoção de ter gerado, concebido e agora ver nascer outro ser humano é visivelmente presente em seu apogeu. O desejo de contato, a angústia pela reafirmação da normalidade, o deslumbramento, são a meu ver fatores que confirmam essa idéia. A partir desse momento abre-se uma outra etapa de realização do "tornar- se pais". A maturidade do casal sofre importantes provas, principalmente nos primeiros mêses. A mãe vai entrar em estado de tal devoção, que Winnicott compara a um adoecer necessário para atender às necessidades do seu bebê, que se encontra em estado de dependencia absoluta. Para poder suportar essa dependência absoluta Winnicott nos propõe um conceito muito especial, que cabe aqui assinalar:o Medo à Mulher.Com isso ele se refere ao que chama de um débito infinito de todos os seres humanos a uma mulher, a mãe com a qual viveram esse estado de dependencia absoluta. Todos vieram de uma mulher, cresceram num útero e foram paridos. O que define como Mulher (com maiúscula) é esta mãeambiente dos primeiros estágios da vida de todo homem e de toda mulher. O medo à mulher surgiria então por não reconhecer esta dependência .O ter filhos para a mulher seria uma ocasião para elaborar essa dependencia. Já para o homem, se não estiver bem integrado pode ter dificuldade em tornar-se pai, ajudar à mãe, abrir espaço para o filho. Se bem integrado pode reconhecer em sua mulher, agora mãe, a importância desse momento. E assim podem atender ao que Winnicott diz: "Ela (mãe) tambem necessita da devoção de um marido" Um pai maduro suporta ficar na posição de apoio a esta, defendendo e proporcionando à mãe a proteção em relação ao que possa interferir negativamente na relação com seu bebê. Parafraseando: "Atrás de uma grande mãe sempre há um grande pai".Hoje em dia, com a possibilidade de programar a gravidez, com a inserção crescente da mulher no mercado de trabalho,entra em ação também a necessidade de divisão de tarefas inclusive no cuidado dos filhos. Os elementos masculinos e femininos, tanto do pai como da mãe devem estar suficientemente integrados para poderem dar conta dessas funções , que em outras épocas eram mais definidas. O homem vem sendo cada vez mais requisitado e mesmo posto à prova nas suas condições de atender a essas necessidades. Tem que poder usar mais os elementos femininos de sua personalidade exercendo funções maternas, o que pode ser tanto um fator de integração como de ruptura no casal, na conquista de " tornar-se pais". Para finalizar vamos retornar ao paradoxo, citando Vinicius de Moraes em seu "Poema Enjoadinho": "Filhos ...Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos Como sabe-lo?" Bibliografia: 1-Winnicott,D,S- Conversando com os pais. Cap 11:A construção da confiança Ed. Martins Fontes SP -1993 2- ---------------- Os bebes e suas mães. Cap 5:Origens do individuo Cap 9: A comunicação entre o bebe e a mãe e entre a mãe e o bebe Ed. Martins Fontes SP -1988 3------------------ A criança e seu mundo- Cap 1: Um homem encara a maternidade Cap 17: E o pai? Ed .Zahar RJ -1966 4- ----------------Pensando sobre criança .Cap 5: A influencia do desenvolvimento emocional sobre os problemas de alimentação Cap 10: Uma abordagem clinica dos problemas familiares. Ed .Artes Médicas PAlegre 1997 5- ---------------Home is where we start from- Cap: This feminism (parte 3) Ed.Penguin Books Londres - 1983 6- Vinicius de Moraes- Antologia Poetica. Poema Enjoadinho Ed .do Autor RJ 1960 São Paulo, 14 de setembro de 2009 Maria Cecilia Schiller Sampaio Fonseca