A8 CORREIO POPULAR CIDADES Campinas, quarta-feira, 27 de abril de 2011 MALHA VIÁRIA ||| GARGALOS Expansão urbana estrangula rodovias Condomínios ampliam tráfego em estradas das regiões Leste e Norte e congestionam acessos Fotos: Augusto de Paiva/AAN CALVÁRIO NO ASFALTO Trecho tem ônibus vazios e carros com uma só pessoa Henrique Beirangê DA AGÊNCIA ANHANGUERA [email protected] Expansão imobiliária contínua, rodovias que funcionam como avenidas e aversão ao uso do transporte coletivo. A terceira reportagem da série sobre os gargalos do trânsito em Campinas mostra como os ingredientes para uma combinação viária explosiva já fazem parte do dia-a-dia do tráfego das regiões Leste e Norte de Campinas. O Correio percorreu a Rodovia Adhemar Pereira de Barros (SP-340) no trecho entre Jaguariúna e Campinas, a Avenida Miguel Burnier e a Rodovia Heitor Penteado na manhã de ontem e acompanhou como o crescente número de novos condomínios na região do distrito de Sousas e o processo de conurbação acelerada entre Jaguariúna e Campinas já afetam os motoristas nessas regiões. Trânsito parado na Avenida Miguel Burnier, próximo ao entroncamento que dá acesso ao Taquaral Entradas para o bairro Taquaral e para Sousas concentram problemas Por volta das 7h, na saída de Jaguariúna, o trânsito flui com certa facilidade. A pista possui três faixas e, em boa parte do percurso, embora o tráfego de caminhões seja intenso nesse horário, a reportagem consegue seguir a maior parte do trajeto sem problemas de lentidão. O carro chega a percorrer 17 quilômetros em um intervalo de tempo de 17 minutos. Na medida em que a pista se aproxima de Campinas, a cerca de 9 quilômetros do Centro, as primeiras alças de acesso que canalizam o tráfego de bairros próximos à rodovia, iniciam os primeiros estrangulamentos do trecho. A região é formada por muitos condomínios e o tráfego da rodovia, quando desemboca na Avenida Miguel Burnier, já apresenta sinais de congestionamento. Quem usa o trecho todos os dias, como o oficial de manutenção Alício Trindade, de 54 anos, diz que a situação costuma ser pior que a registrada ontem no trecho. “Quando quebra algum carro aqui, para tudo. E só vai piorando, na medida em que afunila até o Taquaral”, disse. A reclamação é confirmada pelo empresário Fábio Fernandes, de 33 anos. “O problema começa na alça de acesso ao Parque Tecnológico e, no entrocamento do Taquaral, piora muito”, conta. Segundo a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec), a avenida é a terceira com o maior volume diário médio de veículos (59.250). A velocidade média do veículo, que em grande parte do percurso foi acima dos 70km/h, cai para 40km/h já no entrocamento do Taquaral. Com a aproximação dos semáforos, o trânsito já conta com sinais de congestionamento e quem trabalha próximo diz que o problema vai além dos horários de pico. “É neste horário, no fim da tarde, o dia todo. Tem muita gente que passa por aqui para acessar a rodovia para Mogi Mirim. Aí piora ainda mais”, conta o comerciante Heraldo Fernandes, de 64 anos. O próximo trecho da viagem segue sentido o distrito de Sousas, pela Rodovia Heitor Penteado. A região é uma das que apresentam o maior crescimento populacional do município. A explosão no número de novos condomínios é revelada pelo crescimento demográfico da região. Em Sousas, a urbanização foi crescente desde a década de 70 quando o aumento populacional foi de 55,49%. Nos anos 80, o percentual chegou a 57,4%, passando para 93,6% e 93,7% nas décadas seguintes. Em Joa- U m detalhe que chama a atenção durante o percurso que segue até Sousas, nos dois sentidos, é o trajeto quase que exclusivo de carros de passeio. Os poucos ônibus que trafegam pelo trecho passam quase que vazios e, os automóveis, com apenas uma pessoa. Segundo a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec), sete linhas diferentes atendem o distrito. “Trata-se de uma região adensada por condomínios de médio e alto padrão, portanto, o transporte coletivo tem como público os trabalhadores desses empreendimentos (domésticas, seguranças e porteiros, entre outros), uma vez que a motorização dos moradores é visível”, diz nota divulgada pela empresa. O professor do Departamento de Transporte e Geotecnia da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Carlos Alberto Bandeira Guimarães explica que, em locais de maior poder aquisitivo, há uma tendência pela aversão ao transporte público. “Existe uma imagem de que o transporte público é para pessoas de baixa renda. Há uma tendência de opção pelo conforto e conveniência do automóvel”, afirma. Ele explica que o impacto deste grande volume de veículos aumenta o estrangulamento na região central da cidade. “A médio prazo pode-se pensar em pedágios urbanos e sistemas de rodízio em Campinas. Em relação às cidades próximas, é preciso pensar em um plano viário que crie novas ligações entre municípios, não deixando que as rodovias continuem sendo avenidas.” Dos três trechos percorridos pela reportagem do Correio durante a série sobre os gargalos no trânsito, o percurso de ontem foi o menos tumultuado, apesar do grande volume de veículos. A primeira matéria da série percorreu as principais rodovias que ligam cidades vizinhas e identificou muita lentidão e congestionamento na Via Anhanguera, entre Sumaré e o distrito de Barão Geraldo, e também na Rodovia Santos Dumont. Ontem, a série revelou a situação caótica de avenidas como a John Boyd Dunlop e a Amoreiras. (HB/AAN) SERVIÇO Envie seu relato Caminhões e carros dividem espaço na SP-340, altura do Jd. Miriam Pelo Portal RAC, os leitores podem enviar relatos sobre os problemas que enfrentam no trânsito de Campinas e também sugerir coberturas em trechos específicos. O e-mail para contato é o [email protected] A ideia da série sobre os gargalos do trânsito campineiro é mostrar a dificuldade de quem passa por trajetos considerados críticos todos os dias e apresentar propostas de soluções feitas por especialistas no tema. Filas também são rotina para os motoristas na Rodovia Heitor Penteado, entre Sousas e Campinas Editoria de Arte/AAN TESTE DE PACIÊNCIA Lentidão em trechos percorridos pela reportagem Trechos apresentados em reportagens anteriores Rod. Campinas / Paulínia Rod. Campinas / Mogi Mirim Trecho apresentado hoje Rod. Anhangüera Rod. Adhemar de Barros Volume de veículos no Estado ficou acima do suportado durante a Páscoa Av. Miguel Burnier Rod. Campinas / Monte Mor Rod. Heitor Penteado as eir or m .A Av Av. John Boyd Dunlop Rod. D. Pedro I Trecho percorrido: 29Km Tempo de percurso, excluído paradas para fotos e entrevistas: 48min Av. Ruy Rodriguez Av. Lix da Cunha Rod. Santos Dumont Rod. dos Bandeirantes quim Egídio, o percentual foi de 28,7% na década de 70, passando para 34%, 40,5% e 30,5% nas décadas de 80, 90 e 2000, respectivamente. Atualmente são cerca de 50,5 mil veículos que trafegam pela via todos os dias, o que causa congestionamentos. A rodovia é o trajeto mais curto até a região central de Campinas e praticamente o único acesso. A única opção existente até o momento para evitar o trecho é pegar a Rodo- Rod. Adhemar de Barros / Trecho: 20km Tempo: 30min Av. Miguel Burnier / Trecho: 4km Tempo: 8 min Rod. Heitor Penteado /Trecho: 5km Tempo: 10min Total percorrido pela série: 169Km Tempo total de percurso: 3h38 via D. Pedro I, em um trajeto quase duas vezes mais longo. O trecho também costuma ter lentidão aos finais de semana. A alternativa com a qual a Prefeitura trabalha até o momento para aliviar o problema são as obras de prolongamento da Avenida Mackenzie. No entanto, a obra continua aguardando uma avaliação judicial do montante a ser pago para desapropriações na área. Segundo o secretário de Comércio, Indústria, Serviços e Tu- Concessionárias confirmam tráfego acima do limite rismo, Rui Rabelo, o gargalo no trecho precisa de uma solução rápida. “A obra de prolongamento da Avenida Mackenzie é fundamental para o desenvolvimento sustentável e a melhoria da mobilidade urbana na região”, disse. Assista vídeo Concessionárias que administram algumas das principais rodovias do Estado de São Paulo, como as do sistema Anhanguera/Bandeirantes, Castelo Branco e Raposo Tavares — ligações importantes entre a Capital e o Interior —, admitem que o limite de tráfego que elas suportam foi excedido no último final de semana prolongado, segundo reportagem divulgada ontem pelo jornal Folha de S. Paulo. O movimento acima do esperado foi, segundo as empresas, provocado pela “característica do feriado de Páscoa”, definido por elas como uma comemoração “familiar”, que faz com que as pessoas busquem a família, geralmente estabelecida no Interior. Conforme as concessionárias (AutoBAn e ViaOeste), a característica diferencia o fluxo registrado neste feriado do ocorrido no Carnaval, por exemplo. Em todos os casos o movimento foi maior que o pre- visto. Nas vias Anhanguera e Bandeirantes eram esperados 800 mil veículos pela AutoBAn, mas foram registrados 810 mil no feriado. Na Castelo e Raposo Tavares o fluxo foi de 620 mil veículos contra expectativa de 580 mil. No sistema Anhanguera/Bandeirantes chegou a ser registrado um total de 6,3 mil veículos por hora (das 8h às 9h de quinta-feira, entre São Paulo e Campo Limpo Paulista), quando a capacidade máxima é de 6 mil — 1,5 mil em cada uma das quatro faixas. As concessionárias, no entanto, informaram que não há necessidade de ampliação das estradas pelo fato de o excesso de veículos registrado ser um efeito pontual. A Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) afirmou que a avaliação de capacidade das rodovias é baseada no movimento do ano todo, e não de um feriado. (Da Folhapress)