ENDEMIAS E O DESENVOLVIMENTO DA AMAZÔNIA Maria da Conceição N. Pinheiro25 Maria Denise R. Bacelar25 Sintia S. de Almeida25 Luiz Carlos L. Silveira 1,2 Introdução As doenças infecciosas têm seu destaque na história da humanidade por constituírem grandes problemas de saúde pública. Malária, cólera, febre tifóide, hanseníase, peste, entre outras, tiveram uma grande incidência em todo o mundo durante todo o século passado. A melhoria da qualidade de vida nos países do hemisfério norte, bem como os efeitos da Revolução Industrial e, particularmente, os fenômenos de urbanização e aceleração tecnológica, restringiram essas doenças às “áreas pobres” do mundo, dentre essas as zonas tropicais (Sá et al., 1992). No Brasil, o quadro epidemiológico atual caracteriza-se pela coexistência de doenças degenerativas e endêmicas, e o retorno de velhas doenças infecciosas. Malária, leishmaniose, hanseníase, tuberculose, entre outras, representaram e ainda representam grandes problemas de saúde, particularmente na região amazônica. Na década de 1930, a mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias ocorria em mais da metade dos casos atendidos. Nas últimas décadas, graças à aplicação do conhecimento científico, as doenças infecciosas reduziram muito a sua participação na mortalidade, enquanto a morbidade parece ter sofrido redução menos expressiva e mais variável, de acordo com a doença em questão. Assim, algumas doenças passíveis de prevenção, como a febre amarela, a poliomielite e o sarampo, passam por períodos de redução significativa em decorrência de coberturas vacinais, enquanto outras, como a própria febre amarela e a doença de Chagas, em decorrência do bloqueio na transmissão de vetores. Outras doenças não têm apresentado sinais de redução, algumas demonstrando sinais importantes de expansão, como é o caso da malária, hepatite B, hepatite C, tuberculose, hanseníase e leishmaniose. Associa-se a este cenário a reintrodução do cólera e da dengue. A presença do Aedes aegypti em aglomerados urbanos, associada à persistência da febre amarela silvestre, coloca como um problema real a possibilidade de retorno desse vírus na circulação urbana. A doença de Chagas, endêmica no Sudoeste do Brasil, vem contribuindo com índices de 1 2 Núcleo de Medicina Tropical, Universidade Federal do Pará, Brasil. Departamento de Fisiologia, Universidade Federal do Pará, Brasil. prevalência na Amazônia e, atualmente, tem sido uma preocupação para as autoridades de saúde. Fatores associados às endemias na Amazônia Ao lado das reservas naturais e do potencial de desenvolvimento, a Amazônia tem convivido com sérios problemas de saúde decorrentes de uma política econômica e social inadequada para a região. A implantação de projetos agropecuários, a exploração de minérios, dentre os quais a garimpagem de ouro, têm exercido grande impacto ambiental que vem repercutindo sobre as condições de vida na região. Além das condições sócio-econômicas e culturais, a própria característica geográfica e demográfica da Amazônia tem contribuído para manutenção de endemias e o aparecimento de epidemias. Malária, leishmaniose, hanseníase, tuberculose, arboviroses e outras doenças infecciosas apresentam os índices de prevalência mais elevados da Amazônia brasileira, cujos programas de controle ainda não conseguiram reduzir o impacto sobre a saúde das populações aí existentes. Vários fatores influenciam as condições de vida e saúde das populações amazônidas, contribuindo para a manutenção dessas endemias. Citamos abaixo alguns dos mais importantes. Migração descontrolada O desenvolvimento de grandes projetos agropecuários e industriais, de mineração, particularmente a garimpagem de ouro, têm proporcionado uma migração acelerada e desordenada, resultando em elevadas taxas de crescimento populacional, com formação de aglomerados espontâneos em áreas sem nenhuma infra-estrutura sanitária, econômica ou de serviços urbanos que possibilitem uma boa qualidade de vida. A migração seguida de urbanização acelerada gera necessidade crescente de serviços de natureza social, escolas, infraestrutura médico-hospitalar, saneamento, eletrificação, colheita de lixo, tratamento e abastecimento de água potável, etc., exigindo também a implantação de serviços e oferta de empregos. Ausência de uma política eficaz de assistência às localidades distantes da sede administrativa A alta imigração na região e seu conseqüente crescimento populacional desordenado criaram, ao longo das artérias hídricas e dos eixos rodoviários, inúmeras comunidades que ali permanecem, convivendo com dificuldades de acesso aos serviços e bens necessários à saúde e à melhoria das condições de vida, pois a falta de infra-estrutura para circulação, como a manutenção das rodovias, construção de hidrovias, oferta de embarcações adequadas, ou ainda a abertura de aeroportos para pouso de aviões de porte médio, dentro das exigências técnicas de segurança e conforto, acarretam a essas comunidades uma situação de isolamento regional. A degradação ambiental Resultantes do processo de garimpagem de ouro dos projetos agropastoris e mesmo dos grandes projetos mínero-metalúrgicos e hidrelétricos, o desmatamento e as queimadas são acompanhados, geralmente, da poluição ambiental, do assoreamento de rios e lagos da região, fatos que afetam a biodiversidade e o equilíbrio ecológico, comprometendo a saúde da região. Sabese que as grandes reservas minerais encontram-se em áreas tradicionalmente habitadas por grupos indígenas e a ocupação por garimpeiros continua sendo particularmente um problema preocupante à saúde dessas populações sensíveis, cuja baixa resistência às grandes doenças infecciosas, como a tuberculose, tem culminado com o aumento da morbidade e mortalidade desses povos. Escassez de recursos financeiros para a região com ausência de infraestrutura adequada para atenção primária à saúde A falta de saneamento básico, a escassez de recursos humanos treinados para o controle de endemias e as deficientes condições de trabalho, ao lado da ausência de programas de educação em saúde e meio ambiente destinados às comunidades nativas e índios e outras expostas, representam talvez os fatores mais importantes na manutenção das endemias na região. As principais endemias na Amazônia brasileira Desde a descoberta do Brasil, várias doenças infecciosas de caráter endêmico têm sido registradas. Algumas foram controladas, outras extintas da região, a exemplo da febre amarela urbana, cólera e filariose. Outras, apesar dos programas de controle, permanecem ainda até o presente como sérios problemas de saúde pública. Entre essas estão a malária, as leishmanioses, a hanseníase, a tuberculose e as hepatites virais. Malária A malária é uma das principais doenças infecciosas. Ela é responsável por um elevado índice de morbidade em áreas tropicais do mundo, afetando cerca de 300 a 500 milhões de pessoas a cada ano, e contribuindo com uma elevada mortalidade, estimada em cerca de um milhão de óbitos anualmente. Representa importante endemia na Amazônia brasileira, registrando alta prevalência e incidência em praticamente todos os estados da região, configurando um dos mais importantes problemas de saúde pública, principalmente em zonas rurais (Ferreira, 1996). Vários fatores, alguns inatos, outros de natureza sócio-econômica, contribuem para o alto índice de morbidade, para o risco de adquirir formas graves e, conseqüentemente, para o aumento da mortalidade. Constituem grupos de riscos: crianças menores de cinco anos, gestantes e pessoas não-imunes, recém-chegadas a áreas endêmicas, tais como trabalhadores rurais, garimpeiros de ouro e colonizadores. Segundo o boletim da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA, Ministério da Saúde), os estados do Pará, Rondônia, Amapá e Amazonas contribuem com o maior número de casos notificados, sendo o Plasmodium vivax e o Plasmodium falciparum os agentes etiológicos mais freqüentes (Marques, 1994, 1995). Nos anos de 1997 e 1998 foram registrados mais de 400 mil casos de malária, dos quais mais de 80% estavam na Amazônia (Tabela 1). O P. vivax é a espécie responsável pela maioria dos casos registrados na região, embora o P. falciparum tenha contribuído com importante cifra nos últimos anos. O índice de lâminas positivas (ILP) no estado do Pará foi de 26,9% e 26,3% em 1997 e 1998, respectivamente, colocando-o em terceiro lugar no registro de casos de malária na região, sendo superado pelos estados do Amapá e do Amazonas. O índice de lâminas positivas para P. falciparum foi de 23,6% e 21,7% nos anos de 1997 e 1998, respectivamente. O P. malarie tem sido registrado em menos de 5% do total de lâminas positivas, sendo o Pará o estado que tem o maior número de casos registrados. O coeficiente de mortalidade específica no estado do Pará vem decrescendo. Segundo dados epidemiológicos do GECEN/FNS/SESPA, o coeficiente de mortalidade foi de 2,65% em 1994, 1,5% em 1995 e 0,85% em 1996. Não há registros oficiais sobre a prevalência de malária em grupos específicos de risco, como gestantes e crianças. Os estudos realizados por Pinheiro et al. (2002a), no Hospital da FUNASA, em Itaituba (PA), sobre malária grave na infância, mostraram que, das 294 crianças hospitalizadas no período de janeiro/1984 a dezembro/1990, a malária foi responsável por 55,8% dos casos graves da doença, acometendo a faixa de 0 a 4 anos, com índices de óbitos de 5,8% desses casos hospitalizados. O P. falciparum foi a espécie responsável pela maioria dos casos hospitalizados (57,5%), sendo que, desse total, houve óbitos em 73,9%. Sabemos que o registro de casos e óbitos por malária na região amazônica não reflete a totalidade dos casos realmente existentes, em função da localização geográfica destes, a maioria ocorrendo em áreas sem infra-estrutura de habitação, higiene e saúde, e distantes dos centros que podem oferecer assistência médica, ocorrendo sem notificação aos órgãos de saúde (Pinheiro et al., 2002a). O controle da malária na região está na dependência direta da atuação e determinação das autoridades de saúde, considerando-se que essa endemia está associada à ocupação de novos espaços da Amazônia, aos assentamentos, à exploração mineral e a outras iniciativas que expõem o homem à ação dos mosquitos transmissores da doença. A falta de conhecimento e de ação deixa essa população à margem dos serviços de saúde e de outros programas de natureza assistencial e educacional. Leishmanioses São doenças parasitárias endêmicas na Amazônia, onde as condições de vida humana oferecem íntima aproximação com hospedeiros animais (cachorros, preguiça, gambá) e o transmissor. Duas formas distintas da doença são conhecidas: a leishmaniose tegumentar americana e a leishmaniose visceral. Em ambas estão envolvidos os flebotomíneos, que são os vetores do parasita e de difícil controle. Existe um número muito grande de espécies de flebotomíneos transmissores de leishmaniose, como também grande número de espécies de Leishmania, o parasita, entre elas a L. (L.) braziliensis, que pode acometer também mucosas, comumente encontrada no estado do Maranhão e a Leishmaniose (L.) guyanensis, predominando no estado do Amazonas (Gomes, 1992). Além dos vetores, os reservatórios do parasita encontram-se disseminados por toda a região, daí o difícil controle da doença. O gambá (Didelphys marsupialis) e a preguiça real (Choteopus didactylus) são os reservatórios mais comuns. No homem, a Leishmania provoca uma forte reação celular produzindo lesões que evoluem de pápula à úlcera, persistindo anos numa forma crônica e altamente deformante. O comprometimento de mucosas a produzir mutilações desfigurantes pode ocorrer em decorrência de algumas espécies, como a Leishmania (V.) braziliensis. Uma forma difícil de cura e deformante que existe no velho e novo mundo é a Leishmaniose cutâneo difusa anérgica. (Falqueto et al., 1996) A Leishmaniose visceral ou Calazar é causada pela Leishmania chagasi e tem a raposa e o cão como reservatórios. Alguns estados da Amazônia, como o Pará e o Maranhão, têm registros de números importantes de casos, acometendo principalmente crianças. (Falqueto et al., 1996) Segundo estatísticas oficiais, a doença continua Registrando índices endêmicos, constituindo-se importante problema médico-social na região. A doença afeta também a mão-de-obra, prejudicando programas de agricultura, floricultura, mineração e outros projetos. O Calazar contribui ainda para o aumento da morbidade e da mortalidade, principalmente na infância. Um dos aspectos sócio-econômicos decorrentes da Leishmaniose é o comprometimento da mão-de-obra envolvida em programas agropecuários, mineração, construção de estradas, usinas etc. Para o tratamento dessa doença, os antimoniais pentavalentes permanecem ainda como a droga de primeira escolha, apesar da administração parenteral, do alto custo por paciente e de seu potencial de toxicidade. Outras drogas de reconhecida eficácia no tratamento dessa doença são a anfotericina B e a pentamidina, compostos farmacológicos de indicação restrita aos casos de falha terapêutica aos antimoniais devido à dificuldade do manuseio e de seus efeitos tóxicos. Vários estudos, tentando buscar um tratamento com eficácia igual ou superior aos antimoniais, de fácil manuseio e menos onerosos, têm sido realizados em áreas endêmicas sem o sucesso esperado. O uso da mefloquina, uma droga antimalárica, mostrou resultados próximos em ensaio clínico realizado por cientistas da região (Pinheiro et al 2002) no tratamento da leishmaniose cutânea. Hanseníase Doença crônica causada pelo M. leprae, caracteriza-se clinicamente por leões cutâneas e de nervos periféricos, culminando geralmente com a incapacidade física permanente do indivíduo. Possui um coeficiente de prevalência elevado no Brasil, com cerca de 72 casos por 10000 habitantes, e 105520 casos em registro ativo, colocando-a em segundo lugar no mundo, em número absoluto de casos, sendo superado apenas pela Índia. A doença é contagiosa e pode manifestar-se por quatro diferentes formas clínicas: Forma indeterminada – caracterizada por manchas hipocrômicas hipoestéticas ou anestésicas, baciloscopia negativa e histopatológica, mostrando inflamação crônica inespecífica envolvendo nervos e anexos. Forma tuberculóide – representada por lesões cutâneas circunscritas nodulares, atrofias e deformidades, baciloscopia negativa e forma histopatológica, evidenciando inflamação granulomatosa a envolver nervos e anexos cutâneos, raramente com bacilos evidentes. Forma dismorfa – caracteriza-se por uma variação entre os pólos tuberculóide e o Virchoviano. O pólo tuberculóide apresenta poucas lesões assimétricas, menor número de bacilos e maior comprometimento dos nervos. O pólo Virchoviano apresenta grande número de lesões simétricas e maior número de bacilos. Forma Virchowiana – caracterizada por lesões nodulares, infiltrativas e de natureza mutilante. Forma altamente contagiosa, baciloscopia positiva e histopatológico mostrando reação inflamatória com freqüentes histiócitos esponjosos contendo bacilos isolados e em globias (Marchese, 1996). Essa doença, embora passível de ser controlada e prevenida, não tem alcançado o sucesso esperado dentro dos programas, conforme pode-se observar na Tabela 3. Tuberculose Dentre as doenças bacterianas de importância epidemiológica está a tuberculose, em conseqüência da resistência do bacilo às drogas utilizadas no tratamento da doença e pelo crescente aumento com o advento da AIDS. Ao lado das condições de pobreza e das doenças associadas à imunodepressão, a tuberculose representa mais uma das doenças prevalentes, constituindo uma importante doença causada pelo Micobacterium tuberculosis e que afeta principalmente o pulmão, podendo evoluir com formas localizadas ou disseminadas. A incidência da doença está relacionada às baixas condições sócioeconômicas e a situações de imunodeficiências, particularmente em indivíduos com HIV. Estima-se que cerca de 3 milhões de pessoas morram de tuberculose a cada ano, esta sendo, assim, importante fator de incapacidade física e morte em muitas zonas do mundo, inclusive no Brasil. O processo infeccioso está relacionado ao número de microorganismos no escarro expectorado, na extensão da doença pulmonar e na freqüência da tosse. A transmissão ocorre por ocasião da exposição ao bacilo em gotículas de saliva suspensas no ar, eliminada por pessoas com tuberculose pulmonar ou laringes. O risco de infecção pelo bacilo de tuberculose guarda relação direta com a magnitude da exposição, não décorrendo, ao que parece, de fatores genéticos, nem de outras características do hospedeiro. O risco de apresentar a doença é máximo nas crianças menores de três anos, adolescentes e adultos jovens. Nas pessoas infectadas, a susceptibilidade aumenta extraordinariamente quando têm infecção pelo HIV ou outras formas de imunodepressão. Também é maior em pessoas de baixa renda e desnutridas, indivíduos com doença debilitante (Ferreira, 1999) Tabela 4. Hepatites Virais No Brasil não existem dados suficientes sobre a prevalência da infecção pelo VHB e VHC na população em geral. Em determinados grupos de risco, a taxa de infecção pelo VHC tem se mostrado elevada, por exemplo: 0,5 a 2% dos doadores de sangue, 30% em hemodialisados, 50 a 80% em viciados em drogas injetáveis e 60 a 90% em hemofílicos (Ferreira, 1999). A prevalência de marcadores do HBV sugere uma distribuição heterogênea na região, embora haja referência de média de 8% de prevalência de HbsAg, colocando a região em nível de alta endemicidade de acordo com a taxa de mortalidade estimada em 0,6/100.000 habitantes (Bensabath et al., 1983; Goyotto et al., 1984; Garbes-Netto, 1995). O vírus da hepatite C (HCV) é o grande responsável pelas infecções pós-transfusionais (90% a 95%), em usuários de drogas endovenosas e hemolisados (Ferreira, 1999), podendo haver, em menor freqüência, a transmissão vertical e sexual. As formas clínicas variam desde as oligossintomáticas a formas assintomáticas, podendo em até 90% dos casos evoluir com infecção persistente, dos quais 60% com hepatite crônica entre 10 e 20 anos, sendo que 20% para cirrose. O carcinoma hepatocelular é uma das evoluções mais temidas dessa infecção. A hepatite delta (VHD) é causada por um vírus defectivo que somente produz lesões hepáticas quando associado ao VHB antígeno de superfície, da hepatite B (AgHBs). A infecção crônica mostra maior potencial de lesão histopatológica, evoluindo com freqüência para hepatite crônica ativa e cirrose hepática. A hepatite delta tem distribuição mundial, ocorrendo de forma endêmica na Amazônia, onde foi descrita em 1983 por Bensabath, Carrilho e Silva, que relataram uma prevalência de cerca de 30% de anticorpos antidelta em portadores crônicos assintomáticos do VHB, assim como 20% de hepatites agudas e em 80% a 100% das hepatites crônicas (Ferreira, 1999). Outras doenças infecciosas e parasitárias têm também contribuído para a elevação do índice de morbidade na região, como dengue, doença de Chagas, leptospiroses, salmoneloses e as parasitoses intestinais, afetando principalmente as crianças. Este cenário constitui um dos fatores que dificultam o desenvolvimento regional. Exposição mercurial na Amazônia Além das doenças infecciosas e parasitárias, a Amazônia vem convivendo nas últimas décadas com os riscos decorrentes da poluição ambiental pelo mercúrio, como conseqüência da utilização desse metal na atividade garimpeira de ouro e do desmatamento da região. Doenças decorrentes da exposição ao vapor do mercúrio têm sido relatadas em garimpeiros da Amazônia (Branches, 1993; Cardoso, 1994; Couto, 1998). A grande preocupação repousa agora na exposição ao metilmercúrio em ribeirinhos por meio da ingestão de peixes contaminados, uma vez que a tradução clínica dessa exposição é potencialmente grave, com repercussões neurológicas, na maioria das vezes irreversíveis (Harada, 1995, 1997). Alguns estudos realizados em comunidades ribeirinhas da Amazônia têm revelado teores elevados de mercúrio na carne de peixes consumida por essas populações (Santos et al., 2000), e outros têm demonstrado índices de mercúrio total e de metilmercúrio em amostras de cabelo (Pinheiro et al., 2000a, b; Brabo et al., 2000), configurando a exposição permanente nessas comunidades. Os acidentes ambientais por metilmercúrio, ocorridos em diferentes partes do mundo, envolvendo inclusive mulheres grávidas e crianças recém-nascidas, despertaram a preocupação de pesquisadores do país e estrangeiros para o risco dessa exposição na Amazônia. A ingestão de mercúrio durante a gravidez pode afetar o feto e estar associada a retardo mental, paralisia cerebral e convulsões em crianças recémnascidas. Essas lesões podem desenvolver-se no feto, ainda que as mães não apresentem evidência clínica de intoxicação mercurial (Harada, 1995). Na Amazônia, particularmente na região do rio Tapajós, várias comunidades de pescadores e ribeirinhos têm exposição confirmada ao metilmercúrio, apresentando índices acima do limite de segurança estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (WHO, 1990), que é de 10mm/g de cabelo, sendo o pescado da região a fonte dessa exposição. Assim sendo, há necessidade de avaliar-se a exposição materno-fetal através da análise do teor de mercúrio em amostras de cabelo das mães, e do cordão umbilical em recém-nascidos das áreas expostas. Apesar do conhecimento já existente dos efeitos tóxicos do mercúrio sobre o homem, há ainda algumas questões que não foram elucidadas, a exemplo do índice de mercúrio mínimo necessário para determinar alterações tóxicas no feto e recém-nascidos, os fatores envolvidos na patogênese e as primeiras manifestações clínicas dessa intoxicação. A academia e a saúde na Amazônia O Brasil tem grande tradição em pesquisa médica e biológica. Já no final do século XIX e no início do século XX, foram formados centros geradores de conhecimento nesta área, como a instituição fundada no Rio de Janeiro por Oswaldo Gonçalves Cruz e que hoje leva o seu nome: Instituto Oswaldo Cruz. Apesar dos recursos sempre aquém do desejado para o ensino e a pesquisa científica no país como um todo e nos centros fora do eixo Rio – São Paulo, em particular, a Amazônia não perdeu o compasso da atuação em medicina e biologia, de tal forma que surgiram no Pará instituições de grande respeitabilidade, como o Museu Paraense Emílio Goeldi, o Instituto Evandro Chagas e a Faculdade de Medicina do Pará. Hoje, a Universidade Federal do Pará possui três unidades médico-biológicas dedicadas à docência e à investigação científica: o Centro de Ciências da Saúde, onde a antiga Faculdade de Medicina está inserida, o Centro de Ciências Biológicas e o Núcleo de Medicina Tropical. Estas unidades possuem um corpo de docentes-pesquisadores em contínua formação, recebem financiamento de agências nacionais e internacionais, possuem laboratórios bem equipados, onde perguntas científicas relevantes são respondidas, e realizam ensino de graduação e pós-graduação. Seus discentes nelas desenvolvem teses de doutorado, dissertações de mestrado, monografias de especialização e trabalhos de conclusão de curso de graduação, que são publicados nas melhores revistas internacionais da área. Referências BENSABATH, G., BOSHEL, J. Presença do antígeno Austrália (Au) em populações do interior do estado do Amazonas, Brasil. Ver. Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 5, 284-288, 1973. BENSABATH, G. et al. Características sorológicas y epidemiológicas de la hepatitis virica aguda en la cuenca Amazonica del Brasil. Bol. Of. Sanit. Panam. 103, 351-362, 1987. BRANCHES, F. R. Y., ERICKSON, T. B., AKS, S. E., HRYHORCZUK, D. O. He prime of Void: mercury exposure in the Amazonian Rain forest. Journal of Toxicology 295-306, 1993. CARDOSO, B. S., PINHEIRO, M. C. N., et al. Manifestações clínicas em pacientes com intoxicação mercurial procedente da região dos garimpos do Tapajós. In: Resumos do Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, 30, 1994. 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Tabela 2 – Leishmaniose visceral (calazar) por região no período de 1997 a 2001 Região Norte Nordeste Sudeste Centro-Oeste TOTAL 1997 1998 1999 2000 2001* 152 138 335 284 267 2257 1840 3199 4014 2092 140 107 202 319 208 21 68 81 227 169 2.570 2.153 3.817 4.844 2.736 Fonte: MS/FUNASA/CENEPI/CGVEP. *Dados sujeitos a correção. Tabela 3 – Hanseníase: casos por região no período de 1997 a 2001 Região 1997 1998* Norte 9.695 6.543 Nordeste 1.4312 10.049 Sudeste 11.000 6.199 8.979 6.658 Sul 2.034 1.312 1.973 1.540 Centro-Oeste 7.517 6.341 6.892 6.250 44.558 30.444 TOTAL 1999 2000 2001 10.533 6.720 12.693 12.930 41.070 34.098 Fonte: MS/FUNASA/CENEPI/CGVEP. *Dados sujeitos a correção. Tabela 4 – Tuberculose: distribuição de casos notificados no período de 1997 a 2001 Região Norte Nordeste Sudeste Sul Centro- 1997 1998 1999 Pulmonar Pulmonar Pulmonar OF OF OF 3252 1846 11071 8755 1339 835 3796 3315 1636 3773 1673 9393 7915 1378 808 2985 2506 1588 3971 773 - 2000 TF 5.901 23.19 6 38.69 0 9.291 2001* TF Oeste TOTAL 1376 1524 - 3.522 21094 16127 19117 14426 31301 8942 80.60 0 Fonte: MS/FUNASA/CENEPI/CGVEP. *Dados sujeitos a correção. Pulmon: tuberculose pulmonar. OF: outras formas de tuberculose. TF: todas as formas de tuberculose. Tabela 5 – Concentrações de mercúrio em amostras de cabelo em comunidades ribeirinhas do Tapajós no período de 1994 a 1998 Média + DP Amostras de Cabelo Comunidade Hg Total (µg/g-1 MeHg Hg Total % de MeHg Min-Máx Mês / Ano Mar / 1994 N 26 20,5 + 12,1 18,5 + 11,0 90,2 + 5,3 7,2 – 62,9 Mar / 1995 52 17,7 + 12,1 15,8 + 11,1 87,8 + 6,6 0,6 – 50,6 Out / 1996 46 16,3 + 12,5 – 2,2 – 56,3 Agô / 1996 33 18,5 + 12,5 – 4,1 – 71,5 Nov / 1998 76 16,4 + 10,6 – 1,8 – 53,8 Mar / 1994 16 19,3 + 9,7 18,3 + 8,5 96,0 + 4,6 5,5 – 39,0 Mar / 1995 13 15,9 + 6,2 14,3 + 6,1 89,1 + 3,8 7,1 – 26,5 Nov / 1998 12 14,2 + 9,3 – 3,1 – 34,5 São Luiz do Tapajós Ago / 1996 30 25,3 + 12,5 – 3,0 – 48,3 Nov / 1998 44 20,6 + 10,5 – 5,1 – 42,2 Paraná Mirim Agô / 1996 21 9,2 + 2,9 – 2,9 – 14,9 Barreiras Rainha Fonte: Pinheiro et al. (2000a). Figura 1 – Itaituba, às margens do Rio Tapajós, é um exemplo de grande crescimento populacional, decorrente da ocupação recente da Amazônia. Aqui, a atuação da Academia é relevante para a compreensão dos problemas que decorrem desse crescimento, assim como os programas desenvolvidos pelos serviços de saúde é fundamental para a melhoria da qualidade de vida da população. Figura 2 – São Luiz do Tapajós, comunidade ribeirinha que vem sendo estudada pelo Núcleo de Medicina Tropical da UFPA e monitorada para verificação da exposição ao mercúrio. O estudo das condições de saúde da população, inclusive o monitoramento de parâmetros relacionados à poluição ambiental antrópica, são fatores importantes para a melhoria da saúde na Amazônia.