II Lua de Iara
Quebra do feitiço
Celso Prei
Uma vez ouvi falar de alguém com talento invejável, que andava sempre descalço com uma
magia de Deus semeava amor e morte. Havia um castelo de muralhas desmoronadas onde
habita o perigo. Para esse pé descalço não existia o perigo, ele tinha um coração forte com
diamantes dourados com um brilho especial. O castelo existia num mundo ruralizado onde a
força de inchada e da forquilha permitia suicidar o maior inimigo. As pessoas eram
carrancudas, contudo ele tinha um sorriso especial que um dia se perdeu numa aurora glorial e
a força da aurora rosada elevou o espírito com o punhado de uma pena que escreve poesia. As
pessoas da região e arredores olhavam para ele com secretismo, ele tem magia um poeta sem
lei, nem rei, nem governo. Ele gostava de calor dor amor que nunca encontrava o próximo ou
nas mulheres mais próxima. O poeta tinha um nome especial: Gagulo das Males Amadas,
como alcunha. Gagulo, era uma criança-homem bonita de alma catita, que conquistava todo
os corações, até das piores víboras. Mas essas cobras cuspiam o prato que comiam, elas vêm
seguras e contentes. Para elas o Gagulo era apenas magia que aguçava a imaginação, pois
quem não tem coração, não sente o coração e não ama alguém que valha um bilião de tostões
de ouro, Contudo o Gagulo é homem sem sorte, mas com mulheres desertas para o amarem
com complexidade e com beldade, almas da vida insegura ou de uma pureza firme sem
secura.
Um certo dia de 15 de Agosto já tinha completado vinte anos de existência, foi à fonte
ver as mulheres cantarem a cantiga da madrilena para distrair enquanto lavavam as roupas
suja pelo suor de um esforço nobre para com os seus pais ou maridos e filhos. Passo a passo
desceu o caminho e avistou uma cobra ao sol, uma cobra verde que se confundia com a
paisagem, e deixou estar esse verme de animal descansar, todos nos merecemos descanso até
os vermes da cobras que mentem medo e no fundo só fazem mal quando lhe fazem algum
medo e receio, esses animais são perigosos pelo veneno. Continuou e deixou essa cobra verde
e feia, ou má (!) para quem lhe pisa o calos rastejantes , mas no fundo esses animais tem alma
de demónio, por isso que são tão odiados e mal-amados. Ele olha para a cobra sem receio,
contudo era melhor afastá-la, e volta atrás pra que ela fosse retiradas do cenário das
lavadeiras. Gagulo agarrou num pau, e com a força de desprezo atirou um pau grosso, de um
modo pesado, e ela fugiu, aquele pequeno demónio também ganhou medo, não viu o Gagulo,
e fugiu com sete mil demónios à cruz! O coração do jovem papita de alivio e sente-se pela
primeira vez um herói, contudo um herói desconhecido, o Gagulo não gostava de esbandulhar
de heróis, era um herói de moda, um herói de silencio de coração firme. Quando a cobra saiu
sentiu um alívio, parecendo que a atmosfera arrefeceu. E desceu de pé ante pé até à fonte das
lavadeiras de uma só cantiga – a cantiga do trabalho. Ao chegar à fonte viu uma lavadeira
jovem com o cabelos engaranhado e preso por travessões, ela tinhas as mãos delicadas e seus
olhos choravam a dor daquele ofício. Todas disseram em coro.
- Bom dia senhor doutor!
- Doutor eu só se for por Deus!
Uma mulher de cabelos ruivos disse:
- Assim seja amigo, que o teu coração seja melhor que ontem!
O Gagulo sorriu e olhou para o céu e para aquela jovem lavadeira que despertou atenção, por
seu desconhecimento, depois aproximou-se dela e indagou:
- Como vais? Essa roupa está fácil de lavar ou tem muitas nódoas?
- Engraçado, tu! Mas quem és afinal, para lançar tal gracinha!? - Disse a jovem mulher
- Eu sou o nada, o nada que é tudo!
- Afinal gostas de brincar! Não queres ir lavar o resto da roupa! – Disse a mulher de
cabelos ruivos.
- Obrigado Alice, para esse é vosso ofício, eu sou engenheiros de obras feitas! Mas só
nas horas vagas sou oleiro! Já vou para o meu trabalho, só vim para aqui saber como estão do
fundo do coração!
- Queres que eu apresente a Maria!?
- Quem é Maria?
- A Maria, sou eu! Aquela que falas há pouco.
- Então apresento-me. Sou o Gagulo, o homem carpinteiro de engenho e arte.
- Que arte faz?
- Eu vivo na arte do sorriso, e arte de um bom amigo.
- Então que sejas meu amigo! – Ela sorriu com timbre de afecto e amor.
- Agora tenho de ir obrigado por tal graça! Que viva sorrindo sobre a plenitude do
olhar.
- Olha o poeta a falar, que também tenhas o mesmo. – Proferiu Alice.
Gagulo sobe as escadas – dirige-se à indústria de artesanato. Ao subir até à estrada, vê um
carro de bois, a passar lentamente, ele acenou para as pessoas que estão no carro, é seu
padrinho e a esposa e seu padrinho, que vão para a roça.
- Como vai, afilhado?
- Estou bem caro padrinho.
- Vamos ao trabalho!?
- Têm de ser, e ser é viver!
O carro de bois passou, e Gagulo foi para o trabalho-artesanal. Ao entrar no estabelecimento
de produção de peças de barro, vê seu amigo José e cumprimenta-lo.
- Bom dia, José, como vai isso? – Indaga Gagulo.
- Vai bem, então vamos dar arte ao trabalho. A vida não é só poesia.
- A vida é magia josé! Uma magia tão forte, que as vezem nem sabemos por onde
viver! – Afirma Gagulo.- Mas vamos ao trabalhar o barro e a fantasia da emoção. A vida é mais
que escravidão, também é contemplação!
- Vamos contemplar o trabalho, que é aqui que vive malhão-malhão e o trabalhão! Até
rima, não é só tu o poeta desta terra.
- Sim é verdade, parece que por momentos a poesia te correu nas veias. – Diz Gagulo
com as mãos nos no barro.
Naquela trica do oleiro, ele moldava lindos pratos e taças e barro, é sua função,
contudo ele também é pintor das peças, ora essa, é preciso saber ilustrar as peças. É como
teatro de marionetas, é preciso ilustrar a acção para haver contemplação do comprador, os
olhos também comem, e comem e se perdem pelas peças de barro. Gagulo assobiavam
enquanto molda os pratos nessa tricana, de dar o pé em mil voltas pelas as mãos ao barro. O
barro com água molda-se, é nisso que se baseia a transformação juntamente com as voltas do
aro para a transcrever nas mãos a paixão do oleiro, que artesão é não só por profissão, mas
também pela dignidade do ganha-pão. Num passo de magia o prato moldou-se, e aconchega,
ao lado, o barro é como o pão primeiro se molda depois se coze-se.
- Esta já está moldada. Um lindo prato. – Diz Gagulo
- É bem, assim é que se pede. Vamos a minha cantiga. Vamos lá – e assim canta.
De um pé, roda a tricana
Vamos fazer um barro a cabana
Dá alegria no coração
Vamos lá à arte com paixão
E assim repetiu três vezes.
- Esta já está ta pronta, aqui vai um jarro para tu pintares, que bela graça dou-te nesta
arte e paixão. Disse José enquanto canta a cantiga que ele inventou de coração.
Gagulo observa e conclui.
- Que lindo jarro, até parece moldado por mil mãos com o coração, aquele que fizeste.
Poisa a peça de barro que vamos dar ao Zé para cozer.
José pousa a peça, que com volume desenhou com as suas mãos, lindas flores de artesão,
parece que a música que cantava dá uma força enorme para a criação desse e de outras peças,
quanto mais se escreve com o coração, mais rima-se a emoção. Gagulo resolve que o prato
fosse diferente dos outros, que está fazer, e pegou numa agulha, desenhando lentamente,
flores num curioso tracejar. Mas o pouco é valorizado. O ser Homem desejam comprar ou
adquirir pelo mais barato, aparecendo que vivemos no mundo do barateiro, os oleiros e artista
vivem no mundo de Fuck You. É um mundo que se compreende em derreter o mais próximo
em pedaços de nada, infelizmente para Gagulo, o poeta Preu, esse mundo era um vazio de
incompreensão, ele molda o barro com tristeza mas contemplando a profissão com fulgor e
amor. Quem mais ama mais semeia dentro de si – é assim a lei da vida, todos perguntam o que
semeaste hoje? No final de contas quer dizer, o que fizeste hoje? O mundo está tracejado pela
importância do dinheiro, e todos vêem os oleiros como fazendo maravilhas que devem ser
compradas por nada. No Gagulo, veio a criatividade a flor da pele e canta:
Em mil maravilhas a este prato dou
Mas quem comprar-te o preço tem de pagar
Em mil maravilhas de levo-te para o mundo
Colorido a emoção que é mais razão e sentimento
Afinal o que arde dentro do Homem
Que explode e quer tudo a preço injusto
Assim presumo, é a maré que leva o Ser
Sem nunca o compreender.
O José diz olhando para tal compreensão na incompreensão, pois também sente paixão por
esta profissão, às vezes desonrada
- Está boa, Gagulo, és um poeta e tal, que não tenho medida. Reinaste com paixão a
bermas desta profissão!
- Sabes quem por amor canta-se por amor de deita! – Afirmou o Gagulo.
A noite ainda não veio e a plenitude do olhar subiu há muito por ele. Gagulo era o
poeta das mil fontes, por gostar de ouvir a cantadeiras afluir sobre a pele aquelas cantigas de
entrega à escravidão dos mais ricos para com o mais pobres, a quem paga tudo com sorriso
postiço. E voltou para casa, onde está seu amigo Felipe está à sua espera para contar a
novidade! Que novidade seria essa, depois daqueles beijos de Amor à Iára, onde o sexo
transcendeu de iluminação no coração. Passo a passo foi cumprimentando as pessoas, que via, mas elas só mostravam sorriso traficado por Gagulo, que é um ser amigo de quem tem lei, e
é também muito amigo de Felipe e de Duarte. Há no Homem a arte do fingir palpitando o ser
mungido pelo Demónio de Sete Saias, esses demónios vivem entre o Homens, àqueles
enganam e mentem, afinal nem um rebuçado de açúcar tem em vez no seu coração, até
parece que levam pedras dentro de si em vez de coração. A noite estava a fluir e as lavaredas
das chama de luz, existem à volta da vila que com muralhas, que são escravas do tempo, de
um tempo ciumento, que não deixava persistir as pedras dentro das muralhas, e de vez
enquando as vezes solta uma para a liberdade. São as pedras de uma vila que só vão virar
famosa quando o rei ser maior entre os Homens, a monarquia são reinados de grandeza
impura, pois visam conquistar o mundo com a luxúria do momento, têm peças de Luis XIV e
fama de algo mais. Chega a taberna e pede um copo de vinho, o empregado de balção, que era
o chefe do estabelecimento que chama-se Quadrilha, deu com muita honra, visando o cliente,
e um cliente preenchido é negócio garantido! Sai do bar, e observar o ar à noite com uma
chama de prostituição. Foi para casa, que é ao lado do bar. Ao entrar em casa, sente uma
corrente de energia em sua volta, uma vontade fulminante de amar a poesia. Pegou num
papel e lápis, escreve:
“Uma voz do vazio enche-me em plena contemplação, a final este mundo é escravo de si
mesmo, umas pessoas parecem o Sol outras a Lua, todos mascaram-se de algo, vejo mas não
revejo-me nesta constatação social, onde não há interajuda e a ligação social é apenas crítica,
num mundo que mascara-se de amor. Que bandido é este mundo, onde o amor é pleno por
seu umbigo. Criticar é fácil, mas amar de verdade o próximo, cada um a seu jeito e melhor que
possa, é complicado. Eu amo o mundo, mas odeio por acharem louco, até parece o mundo da
correria, sem magia, que existia no há anos atrás, pelo menos existia a interajuda. Agora existe
um mundo de cão e os cães sem pulgas são postos de lado, como um mundo traficado da
cocaína pelo poder de vencer. Quem tem poder é mais presado, e o poder que gere o mundo é
o poder da riqueza material, onde ficaram os afectos, onde existe os memoriais de umas vidas
perdem-se à deriva na buscar de semear, contudo a sinceridade não mexe com a mão,
vivemos num Terra rarefeita de razão onde tudo parece falso, mas será assim?”
E continuou imaginado o amor de Filipe. Queria fazer algo para seu amigo que vinha para sua
casa. Com dedos mágicos escrevem.
Sobre o luar – um fogo
A imensidão do escaldão
Na busca da ventura torrencial
E incendiária de um afecto ternurento
Onde se comem corpos
Como num prato de pato
Ou de lobos ferrugentos de uivo solitário
Fazem suscitar enormidade
De uma felicidade
De comerem-se aos beijos
De um calor tão especial quanto torrencial
De um bem-amado
E bem enchidos de afectos mexidos
Numa loucura que sabe a bem
Sem imprudência mas amando
Na loucura demente de um amor
De almas gemias
Tão enriquecidas pelo eclipse da lua
Com o compósito do sol amoroso
Que belo jantar de amantes poderosos.
Nesse momento alguém bate à porta, Gagulo pergunta, quem é? E um eco responde.
- Sou eu teu camarada de aventuras, o Felipe!
Gagulo abre a porta – e vê seu amigo todo desajeitado, e indaga curioso, naquele look de
espantar pardais.
- O que te aconteceu?
- Devo estar desajeitado foi a Iára, hoje começamos a namorar!
- Já agora posso perguntar por quantos dias? Mulherengo és tu!
- Não sou nada, era apenas, pois não tinha encontrado o grande amor.
Eles sentaram-se sobre as cadeiras da casa de Gagulo, e sorri felipe com ar amoroso, e com
substância elevada de Amor pleno.
- A Iára é a mulher da minha vida!
- Caro amigo não te iludas, até a nossa alma gémea temos dificuldades, primeiro a
encontrar, depois a amar. – Diz ele com o punho fechado dando mais força a expressão
naquela decoração.
- Até podes ter razão, mas eu amo-a do fundo do coração!
Gagulo olha para ele e declara.
- O Amor cego, não é bom, pois mais cego ficas a cada dia. Olha quero que
possas ler este poema, foi inspirados em vocês, por a paixão açucarada!
- Vou ler, poeta Preu, eu te admiro a tua poesia imenso, não sabes o prazer que me
dás! – Sorrindo, conclui. - Vamos ver isso!
Gagulo olhava expectante enquanto li- a o poeta, Filipe sorri, no fim de ler diz.
- Então parece mesmo que retrataste o primeiro encontro com Iára!, está lindo, podes
fazer uma copia para lhe mostrar.
Gagulo estende a mão e diz com um gesto de coração.
- Podes o levar eu sei de cor o poema, podes o levar! Mas o que vieste fazer a minha
casa?
- Sabes o meu pai voltou a beber. - Disse Felipe com sofrimento.
- Isso é que é mau, não sabes porquê?
- Não sei!
- Tenta perguntar, é no perguntar que está o ganho. - Olha para ele e fixamente –
queres um pedaço de queijo e de vinho?
- É bom, o estômago bate a horas, e eu preciso de comer, a Iára dá cabo de mim, ela é
uma ninfomaníaca. – Comendo um pouco de queijo concluiu – É preciso alimentar para tal
ninfa.
- Se gostas dela ela te amará!
- Assim, eu espero! – Diz comendo o queijo. – Espero que não aconteça o que
aconteceu as minhas amadas! Ela parece a minha alma gémea.
Felipe foi para casa, e viu o pai numa lástima e todo arranhado, parecia que ele tinha sido
arranhado por um gato, e para agravar estava bêbado, completamente perdido sem o que
fazer à vida. Que será que ele fez? Iara estava no chão da cozinha, toda despida, nua como
veio ao mundo, o pai chorava. Como ela morresse naquele momento, contudo ela estava viva,
e com as roupas todas desfeitas de rasgos e impelida pela força. Olha para os dois, e meio
confuso pergunta.
- Pai o que aconteceu? Iara estás bem? Estás bem pai, o que aconteceu aqui.
- Nada, filho só apenas Iara e eu tivemos uma discussão, que grande filha da mãe!
- O que passa aqui? Não entendo. Iara despojo-se sobre mim para fazer a amor sexual.
E eu não resisti, e fizemos, não vês as roupas minha e dela toda rasgada, a causadora foi ela,
que aproveitou-se de mim.
- Não acredito Pai, tu violaste?
- Não foi assim, filho ela aproveitou-se da bebedeira! – Diz a gritar
Dirige até Iára e ela estava morta-viva de porrada, sentindo uma dor por completo, afinal o
que tinha acontecido? Havia aqui uma história dos horrores e medonha. Iara estava nua com a
camisa de dormir rasgada. Felipe entra em parafuso frouxo, pega na face de Iara e aperta.
- Iara acorda! Iara acorda!
Com os olhos semi-serrados diz.
- O que foi que em aconteceu, não me lembro, quem es tu, é tão feio pegar numa
mulher despida, sai daqui!
- Oh! Saí tu estas na minha casa! O que aconteceu?
- Iara tu e o meu pai se envolveram?
- Foi esta cabra, que atirou-se a mim! – Diz o Duarte apontando um dedo e continua. –
Foi ela que fez sexo comigo!
- Parém por favor, afinal o que aconteceu aqui. Que merda é esta! Afinal o meu pai e a
minha namorada fizeram sexo, não há respeito! Vão para o inferno, já não quero saber de vós!
Vocês são uma nódoa juntos, vou para o quarto e façam o que fizerem, não me chatem mais.
Filipe foi a correr para o quarto, entra de rompante e bate com a porta, mas que
miséria tinha acontecido à sua família, isto não é de pai nem de alma gémea, são uns porcos,
feios e maus. E continuou a chorar por esta vergonha atribuída por estes filhas da mãe, sem
coração nem vergonha, agarrou na almofada e grita um berro infernal, desejando a morte a
ambos, felipe estava à beira do abismo. Olhou para a lua, e disse que não queria ser assim,
preferia os matar, contundo aquela dor nunca morreria mas alastrava, e perguntou a Deus, o
porquê desta condenação impressiva e invulgar. Continua agarrar na almofada como quisesse
devorar aquelas duas almas que se tinham perdido, a alma da Iara e de Felipe, num
desencontro monstruoso. E de repente dá-lhe na telha e sai a correr pela cozinha vendo aos
gritos Iara e Duarte, mas de nada ligou, o pai ainda tentou pará-lo, mas ele está com muita
raiva, sai a correr para pega no Faísca, mas ao montá-lo ele cai e desmaia no estábulo. E uma
nova história começa.
Felipe sonha, sonha a história de um grande herdeiro de um novo reino do mar como
um momento futurista se retrata, ele não sabe o que é o mar e nunca percebe essa viagem
que faz com uma imagética implausível, ele tem o poder de viver nas almas do futuro, não o
dele, mas o da manhã. Filipe é Manuel, e a Iára é Joana. E pela segunda voltamos a um sonho
que não compreendia bem. Mas eu, Gagulo, sou o narrador, e contovos desde do principio,
pois Filipe ou Manuel vive só a parte final com Mariana, o seu amor de infância, uma menina
linda e rica de sentimentos que teve as suas primeiras relações amorosas. Esta história é
descrita no passado por ser um sonho passado.
Vamos contar a história no passado pois Filipe Manuel, Manuel é como o Duarte chamava
quando era um jovem menino e portava-se mal, talvez possa ser presságio, um sono bíblicos
que ele registou no diário, e foi no diário dele que inspirei-me, eu sou Gagulo, e quero dizer
que vivo as histórias do meu amigo Filipe, ou vivia, esta é uma homenagem que faço a ele,
perante os seus sonhos estranhos: sonho que parecem futurista ou é uma viagem no tempo,
por isso vivamos as aventuras sonhadoras do meu amigo, este é uns dos sonhos que ele teve
durante a viagem para salvar a Joaninha. Infelizmente o ódio dele fez que ele falece-se. Mas
que vivamos os seu sonhos descritos por mim, vamos ao sonho mágico que Filipe teve. Que é
descrito no passado por ser um verão ultrapassado.
Ainda não tinha rompido o sol no horizonte, nesse local que onde ele concentrava
todas as suas forças para emergir dentro do oceano azu- ultramarino, entrelaçado por uma
renda de espuma lançada no marulhar das ondas. O mar parecia um paraíso tranquilo e
pacífico. Ouvia-se o enrolar da ondas num eco sublime que naufragavam na praia de areia
branca talvez é por isso que lhe chama “Praia da Areia Branca”. Toda a vida, chamarem-lhe por
esse nome tão simples e designativo. Nesse momento estava sem sono, sentei-me nas dunas
cobertas de vestígios marinhos e vidas vegetais, ou seja, algumas plantas e ervas que o vento
trouxe nas suas mãos, algumas delas eram ervas daninhas que coloriam o areal de verde
durante a primavera. Os primeiros raios estavam quase a brotar naquele cárcere negro, eu
palpava terreno pouco depois o breu foi mitigado por alguns raios que nesse momento
impeliam as trevas para o abismo e arrancando uma venda de cegueira. Tudo o que acontecia
nesse instante era rotineiro, contudo cada dia era diferente. Existiam sensações que por vez
não se repetiam, eu sentia que essa renovação levava nas suas contas um dia melhor para os
pescadores. As suas mulheres, enquanto as trevas corroíam os céus, permanecia a
preocupação rotineira e constante que em cada dia se renovava e diminuía, mas aumentavam
as expectativas depois dos seus maridos largarem-se naquele mar infiel.
As suas vidas
dedicadas aos maridos que estavam à acabar nesse dia, cada dia era uma incógnita, a certeza
nunca permanecia, só há esperança de ver os seus maridos de novos vivos. As suas mulheres
chegaram quando o sol há muito tempo raiava, subindo devagar, como os ponteiros do
relógio, elas conversavam deixando o tempo passar enquanto os seus amados pescadores não
davam sinal de vida e exercitavam essa interrogação, será que esse dia tudo acabava bem? De
repente uma delas aponta para o horizonte. Elas olham para o céu agradecendo a Deus, que
abrandou as suas palpitações, a mulher mais velha tinha rugas encravadas na sua face há
décadas e no ano passado o mar roubou o seu marido, pai de Joana, depois de uma furiosa
tempestade. O barco tremia e agitava-se ao sabor da fúria bravia do mar quando de repente
uma onda gigantesca elevou-se e abateu sobre o barco. Era um barco tradicional, que diz “a fé
é a sorte”, essas famílias da Figueira de Foz acreditavam muito no poder de Deus e em todas as
noites as suas mulheres rezavam um Pai Nosso, esperando que no outro dia a recompensa
dessa reza, como diziam “a esperança nunca morre, mas apenas envelhece” era nessa
expressão que aquele povo regia a sua fé. Os pescadores estavam quase a chegar à costa,
outros pescadores chegaram um pouco atrasados à praia, um deles vinha descalço e areia
branca embrenhava-se nossos seus pés lívidos que quase se confundiam com a areia, uma
mulher conduzia um tractor-mecânico, dirigiu-se até à costa depois preparam o tractor para
puxar as redes, esse era um ritual que sempre repetia-se, embrenhado de suor, mas nesse ano
era quase sempre compensador, as redes exibiam sempre uma boa pescaria. O senhor José
era o mais brincalhão e caricato elevando em seu redor o humor, não conhecia ninguém como
ele. Ele era único e por isso especial, mas aquele humorista nato que não conseguia elevar o
espírito melancólico de Manuel, ele era o mais enfadado da vida e caminhava sempre de
cabeça rebaixada, os seus passos eram cabisbaixos e escorria numa imensa tristeza, contudo
algo mágico alteraria a sua vida. Manuel já foi um dia feliz, durante a sua infância, que decorria
entre a praia e o cais eram nesses locais que ele conseguia sorrir, ele estava sempre bem
acompanhado por uma bela moça de cabelo louros e olhos verdes, esses olhos eram a proa e o
mastro da sua felicidade, essa moça era conhecida por Joaninha, a conhecida Joana que
perdeu o seu pai no mar. Foi com ela que Manuel teve a sua primeira noite de paixão, as suas
almas era ainda muito inocentes, mas o pecado carnal fervia, mas o maior pecado talvez eram
as trocas de carinhos e de olhares sempre constantes. O tempo moldou esses corpos e Joana
numa metamorfose exibia um corpo de Cinderela, ela foi a rapariga mais cobiçada daquela
região, Manuel orgulhava-se de ela ser só sua, mas era ela quem comandava aquela relação!
Manuel gostava do seu jeito autoritário que aquecia aquela paixão tão próspera. Mas num dia
atroz o seu pai morreu numa atroz tempestade, a mãe de Joana desesperava e Joana estava
embalada por João-pestana, dormia num turbilhão pacífico sem se aperceber que acontecia no
mundo real, ela sonhava com o pai nesse momento, talvez o momento de despedida, pois os
sonhos recreiam o mundo e embalam o espírito. Quando amanheceu a mãe de Joana foi até á
costa, o tempo nunca mais passava, ela desejava fazer um genocídio ao tempo, mas os
ponteiros do seu relógio oscilava cada vez mais lentamente como brincasse com aquela
situação que gelava toda a felicidade. A Joana chegou em passos de esperança e agarrou a
mão da mãe, Isabel, nesse momento um corpo aparece na costa, um corpo desnudo, elas
dirigiram-se até ele como alguma angústia sem cair no desespero. Chegaram perto desse
cadáver lívido, com alguma expectativa olharam para a sua face e o inferno abateu-se sobre
elas, era o pai de Joana, Isabel chorou desesperada, não percebendo que a sua filha sai em
retirada com o seu coração destroçado. As suas lágrimas jorradas voam aterrando na areia,
Joana estava com ódio do mundo e toda a felicidade que viveu até esse momento fora
dizimada ou destruída por aquele facto, tudo era irreversível, pensava ela, ela gritava num
caminho à beira da entrada da praia, gente amiga chegava perto dela tentando aclamá-la e
perceber o porquê dessa cena dramática. Ela fugia como não conhecesse ninguém, Joana saiu
em retirada até à sua casa na aldeia dos pescadores, a mãe de Manuel viu Joana arrasada a
correr quase sem destino e sem trilho predefinido, ela até atropelou um homem que percorria
nesse momento a estrada principal da aldeia. Os seus destinos cruzaram-se nesse momento,
os dois caem no chão, ela ergue-se e sem hesitar corre em direcção à sua casa, próxima daí, a
sua casa era caiada de branco e rente ao solo as paredes exibiam uma faixa azul-marinho. A
mãe de Manuel tentou chamá-la num dos lances da escada e Joana não olhou para atrás, a
Júlia foi chamar o seu único filho que nesse momento ouvia um objecto cantante que filipe
designou por Rádio, ela compreendeu que alguma coisa tinha ocorrido e esse momento
delicado talvez o seu filho fosse a pessoa mais correcta para esse momento delicado, Manuel
quando a sua mãe disse o que tinha visto, Manuel percebeu que algo estranho ocorria,
contudo ele nunca pensou ver a sua namorada daquela forma, achava a discrição da sua mãe
muito exagerada, para uma pessoa tão pacifica. Manuel saiu de casa lançado numa correria
com fugisse duma prisão, ele estava muito aflito, tinha descobrir o que tinha acontecido. O
Manuel passou na rua com a cara fixada na casa de Joana, mas algo mudaria de avesso a sua
vida. Quando Manuel chegou à casa de Joana o primeiro estimulo foi bateu à porta, e ninguém
respondeu, de repente viu uma mancha de sangue a escorrer por entre a brecha da porta o
chão é coberto ladrilhos azuis, pequenos quadrados que calçavam o chão, ele tentou abri-la
com aflição, mas porta estava fechada e com uma grande força arrombou a porta, o som da
queda da porta ouviu-se em algumas casa contíguas à casa de Joana, Manuel entrou e viu o
inesperado Joana jorrava algum sangue, ela suicidou-se, e ele não percebia porquê, de repente
chorar e a gritar como pedi-se a felicidade de volta, foi desde desse momento que Manuel
ficou destroçado de infelicidade. A perda da sua amada foi a sua destruição, ele tinha grandes
planos para o futuro com ela. Dois dias passaram desde dessa fatalidade que corroeu a alma e
apodreceu o coração de Manuel, Isabel chorou todas as noites até acabarem as reservas de
lágrimas, Isabel estava contagiada de amargura foi por isso que ela estava inflamada de de
chãs calmantes, Isabel já não tinha razão de viver, perdera as pessoas que mais amava, a sua
vida era regida por eles. Durante essa noite ecoavam gritos de Isabel cheios de dor, ela estava
rodeada pelas suas amigas que a tentavam acalmá-la, mas sem sucesso, quando elas falavam
algo sobre a sua vida as suas lágrimas corroíam os azulejos desgastos e impermeáveis, uma
pequena lagoa que alagava um pequeno espaço da sala, se essas lágrimas era compostas de
água fosse levada para um jarrão que nele colocassem flores, as flores secavam, perdiam a
viva no mesmo instante, as lágrimas eram mais salgadas que o mar e gritavam de amargura.
Chegou o dia daquele piedoso funeral, os ecos dos sinos rasgavam essa abobada celestial, que
é o céu,, que nesse dia emergia umas atrozes nuvens pálidas e negras só apenas existia um
orifício por onde o sol exibia os seus raios que iluminavam nesse momento a casa de Isabel,
esse orifício de luz eclodia e sinalizava o caminho para esses dois corpos caminharem em
direcção ao paraíso, assim fosse. Uma enorme fila com mais de um quilómetro perseguia o
charrete funerária até ao cemitério, um lugar silencioso onde permaneciam a paz e a dor das
famílias que homenageavam os seus familiares mortos com simples velas ou por humildes
ramos de flores pouco exuberantes tal como a morte. Manuel não foi ao funeral, ele vivia
solitário e há dois dias não conseguia se alimentar, apenas bebia alguma água que pudesse
saciar a sua tristeza, ele impôs uma guerra à vida, uma guerra contra si próprio e seu destino,
onde ele não era a única vitima, enquanto decorria os funerais, ele alucinava enquanto ouvia o
ecoar e o passear de um som de morte que, quase preparava-se para anunciar. Manuel não
ficou anestesiado com esse eco, a loucura há muito assombrava-o e nesse momento ele
presenciava e vi-a uma miragem de Joana, ele sorriu, ela disse.
– Estou à tua espera aqui no céu, vem ter comigo.
Filipe caminhava à tona da vida com um percurso serpenteado e em ziguezague, cada passo
era infiel e turbulento, por não se alimentar o seu corpo estava fraco, caminhando como varas
verdes. Manuel saiu do quarto e caminhou no corredor abraçado às paredes, ele entrou na
cozinha mas no momento que abre a porta, e caminhou como fosse num desfiladeiro frio, o
corredor era local daquela casa mais frio e quase não existia vida apenas alguns aranhões que
nesse momento preparavam as sua teias para caçar pequenos insectos, o local era um espaço
de morte pré-anunciada, ele empurra a porta da cozinha, que estava encostada, e
instantaneamente as suas forças esgotam-se e ele cai como um boneco de trapos, depois
ergue-se fragilmente com um ímpeto de eliminar aquela angústia com um tamanho de um
gigante que faz cócegas as nuvens, ele cai outra vez no chão e arrasta-se até à mesa, numa
prodigiosa caminhada. Manuel pega uma faca aguçada e pontiaguda enquanto com a outra
mão se segurava na mesa, Manuel ergueu-se exibido toda a sua altura, um jovem de estatura
mediana, gritou como tivesse um momento de gloria mas afinal só expeliu um bramido de
raiva fundido com agonia, enquanto apontava a faca ao peito, mas no momento que ele
tentou se suicidar na tentativa e acabar com a sua vida sem gosto nem sabor, ele ouviu uma
melodia, num canto, era a harmonia que explodia no mar, foi nesse momento que ele
lembrou-se que a vida não acabaria naquele momento e de repente ele deixa cair a faca e
desmaia. Eu ainda foi ver de onde provinha aquele canto estranho que ninguém conseguiu
ouvir até aquele momento, a aldeia estava desértica e só as casas davam sinal que ainda
existia vida naquele local solitário. Ao longe vi o mar ecoando o seu o som das ondas
confrontavam-se contra os rochedos de um pequeno cabo que rompia por mar dentro, essa
melodia continuava e pacificava a alma, de repente ela cessou, e eu vi um corpo feminino com
um rabo de peixe, nesse momento que percebi que estava a enlouquecer, esfreguei os olhos e
depois abri-os e só vi o ondular firme do mar e pensei para mim, este mar dá vida mas
também a tira! Uma expressão que já nasceu muito antes do meu bisavô, essa frase foi
transmitida de geração em geração e ninguém sabe de onde é proveniente. O caixão do
marido foi colocado, e Isabel quase desmaiava, ela já não vertia nenhuma lágrima, estava
assombrada e dominada por drogas do chá que não permitiam expressar nenhum sentimento
só talvez a dor expelia da sua face muito expressiva, o caixão de Joana foi para a mesma cova,
e no momento que o caixão foi colocado na cova, a Isabel num manifestou um grito, talvez ela
pensasse que a sua filha e o seu marido iram acordar daquele sonho ou era um grito de raiva.
A realidade abateu-se sobre ela, a morte é o sono eterno, ela cai de joelhos naquela terra
manchada de defuntos, marcando território para essa dor inconsolável e cozendo a certeza
que eles nunca mais viriam acalentar a sua vida.
É quarta-feira e já passou uma semana, e durante esse tempo aquela aldeia continuava
a corroeu de dor salitrosa, uma psicológica nuvem negra abateu-se e cravava as garras nas
almas dessa pobre gente, que até ao momento era imunes as dores melancólicas. Manuel
continuava cabisbaixo, já se alimentava, durante aquela semana a Júlia, mãe de Manuel,
colocava o almoço sempre quando a tarde rompia, um simples prato de sopa que ele
recusava-se comer, a sua cabeça estava muito fatigada e uma grande dor abatia-se sobre ele
como batessem dois martelos sincronizados pela falta de alimento. O desejo obstinado pela a
morte desde da sua primeira tentativa de suicídio o dominava e Júlia percebeu desse
sentimento, escondeu todos os objectos cortantes impedindo o seu filho cair na fachada da
morte como Joana. O seu quarto estava envolvido por uma grande mancha negra provocada
pela falta de luz, não havia espaço para pernoitar alguma sombra, as paredes do quarto
pintadas de branco emergiam quase invisíveis naquela mancha de escuridão que corroía a
alma de Manuel. Ele tinha uma enorme vontade de se isolar do mundo e tudo o que a dele
pertencia. Manuel queria ser Deus para construir o seu próprio destino e nunca sofrer, pois o
destino tinha roubado Joana, a sua eterna amada, os pescadores diziam, não há amor como o
primeiro. Nesse dia Manuel abriu o estore da janela devido à persistente Júlia que dizia-he
todos os dias, a vida não acaba aqui tens de continuar a vive-la. Já diz o ditado é velho, água
mole em pedra dura tanto bate até que fura, foi assim que aconteceu, mas a pedra de Manuel
ainda não tinha um grande buraco, ainda a há cisma da morte fluía na sua inconsolável alma. O
Manuel redescobrir a paisagem que há muito ocultava a sua janela por detrás daquela cortina,
ele quando os raios de sol entraram o seu quarto, a luz calçou as paredes lívidas de felicidade.
Manuel fechou os olhos por causa daqueles franzinos raios de sol que nesse momento faziam
cegar, aquele momentos banhados pela escuridão fizeram descobrir uma nova força que
rompia do Sol, ele teve de baixar ligeiramente o estore e de novo as sombras vagabundavam
errantes pelo seu quarto, Manuel olhou para as ondas do mar incriminando-as pelas as
aquelas duas mortes. No mar ecoava uma voz, enquanto enrolavam as ondas, que dizia em
cada vaga com uma voz amaldiçoada.
– Viver é sofrer... viver é sofrer...
Manuel pela primeira vez impôs-se contra a sua vida e recusava-se matar o vulto de Joana,
enquanto era recordada por si, ela nunca morreria, a morte é lei do esquecimento. Júlia foi ver
a Isabel que permanecia sentada e silenciosa na varada que dava acesso à porta de entrada,
ela estava a tricotar talvez ruminando essa fatalidade e em desespero tentando engoli-la,
todas as mulheres e mães ficam com um punhal encravado no coração e uma dor inconsolável
que funde-se com a saudade. Júlia aproximou-se dela enquanto ela com uma falsa paz
tricotava calmamente, ela agarra-lhe numa mão parando aquele ciclo vicioso do tricô e
pergunta-lhe quase desnecessariamente.
– Estás mais conformada?
Ela acena a cabeça em sinal de aprovação, era clarificante que não no momento que escorre
no seu rosto grosseiro várias lágrimas. Júlia agarra-lhe nas mãos e tentando acalmá-la diz.
– Pensa que eles estão no céu a viver em paz.
Essa frase provocou gestos mais expressivos da sua dor inconsolável. Ela puniu-se por aquela
visita e por talvez não conseguir diz algo que pacificasse esse sofrimento, ela foi à cozinha
buscar um copo de água e um chá calmante, quando chegou voltou ao local de partida disse.
– Toma um calmante, vai-te fazer sentir melhor.
Isabel agradeceu e quando agarrou no copo disse pausadamente.
– Só a volta da minha filha e do meu marido faziam voltar a sorrir.
– Tem de te conformar, pois a vida continua.
– Mas agora não tenho ninguém! – Isabel diz movendo os braços em gestos de
loucura.
– Tens a nós, as tuas amigas e os teus amigos.
E com essas palavras retirou-se acenado, mas nunca exibindo um sorriso, contudo estava feliz
pela a sua amiga que num tempo quase instantâneo, se fez conformar um pouco com aquele
quase genocídio provocado pelo destino, pelo menos genocídio da sua família. Um mês passou
e Manuel continuava inconformado no conformismo, ele continuava desacreditado na vida,
ele pensava que o leito do destino fora perverso, mas quando ele imaginava a vida da mãe de
Joana talvez ainda tive alguma razão de sorrir! Ainda existiam pessoas que ainda o amavam,
um amor eterno, um amor dos seus pais, apesar do seu pai, Sérgio, ser um pouco severo e
rígido. Manuel já não pescava desde daquela fatalidade, tinha ainda raivas do mar, mas algum
dia muito breve não por sua iniciativa mas, porque o seu trabalho era a sua única fonte de
rendimento, o obrigava lavrar as ondas do mar. Nesse dia Manuel sentou-se à beira da praia e
viu duas crianças a lançar um papagaio, elas juntavam as suas forças para erguerem no céu
aquele papagaio, foi nele que Manuel ganhou vida quando a sua vida estava quase perdida, a
sua família conseguiu o erguer no céu, mas nesse momento voava rasamente ao sol. Estava
quase a anoiteceu e Manuel retirou-se do areal da praia, ele nunca tinha saído da Figueira da
Foz e pensava que aquele pôr-do-sol era único, Manuel tinha sorte por ainda o conseguir ver, a
vida é preciosa e são os pormenores que valorizam a vida. A areia desembrenhava-se e
desenrolava pelas as suas calças, ele carimbava os seus passos no areal que fervia de frio,
marcas que apenas pernoitavam essa noite e ao amanhecer o vento alisava o areal como fosse
o seu dever esconder os trilhos e encruzilhadas derramadas pelo Homem. Quando ele chegou
a casa já as lavaredas iluminavam toda a cidade, ele nem ousou abrir a porta, pois os seus pais
estavam a discutir, quando o seu pai disse.
– Ele não pode andar assim, ele tem de se distrair e para isso é melhor ir pescar
comigo.
Ele percebeu imediatamente que essa discussão foi provocada pela sua situação, tão
deprimente. Ele saiu em retirada pisado de novo o negro asfalto, de repente começa a chover
pequenos fragmentos e chuva que mal molhariam um pardal, ele caminhava por entre os
grosseiros intervalos olhando fixamente para as estrelas que o perseguiam naquele trilho sem
rumo, cada passo havia alguns segundos, Manuel parou, os seus ouvidos começaram-se a
alimentar com o sons atrozes do ressonar do mar enquanto o vento estalava na sua face foi
nesse momento que ele tomou uma decisão na sua vida, morria na melancolia à beira da praia
sentado no areal ou caminhava em pé firme nessa vida dos filhos de pescadores. Nessa terra
os filhos normalmente seguiam o ofício dos pais e ele não fora excepção, a sua vida era o mar,
as redes de pesca e o perfume de sal e de peixe, que encravava no corpo depois de uma
pescaria, talvez o seu pai tivesse razão, ele não podia continuar assim a sua vida tinha de
tomar um novo rumo. Quando Manuel chegou a casa, os ânimos estavam acalmados pelo
menos foi a sua especulação, só ouvia o locutor da do objecto falante, Manuel entrou em casa
quase sem manifestar um único só o som, os passo eclodiam naquele chão, o seu pai estava à
sua espera e no momento que Sérgio ouviu os passos a brotarem no interior da sua casa
perguntou com cautela.
– És tu Manuel Filipe?
Manuel hesitou em responder, por que quando o seu pai designava o seu nome desta
maneira, num timbre ameaçador, uma nuvem negra o incomodava, e com ela provinha uma
discussão ou apenas uma grossa conversa sempre protagonizada por ele, antigamente durante
a sua infância culminava num severo castigo por algo errado que ele cometesse. Manuel
chegou à cozinha e perguntou com uma voz baixa.
– O que queres pai?
O Sérgio ergueu-se e tentou iniciar aquela conversa que Manuel tinha quase a certeza que era
sobre o dia de amanhã, mas antes de Sérgio dizer qualquer palavra, ele teve a iniciativa de
falar primeiro, pela primeira vez.
– Eu já sei o que vais falar, e já tomei uma decisão, eu amanhã vou pescar contigo.
– Bravo, filho! Finalmente tomaste a iniciativa, não podias andar melancólico pelos
quatro cantos da casa. Então vai-te deitar que amanhã tens de acordar cedo.
Manuel abraça o pai e foi-se deitar com a alma vazia, pela primeira vez. O seu pai foi acordá-lo
antes do sol romper, mas ele persistia em ficar na cama, Sérgio abanava-o de um lado ao outro
como um barco no alto mar, ele por imposição do pai sai da cama levianamente. O sono
apertava-o e só algumas léguas marinhas faziam desaparecer aquela soneira. Os dois saíram
numa motorizada e foram até ao cais, onde estavam à espera outros pescadores, quando
chegaram perto do barco, José contava algumas piadas e os sorrisos brotavam naquele
pequeno grupo de pescadores, só Manuel não consegui rir, a sua vida era mais para choro e
não havia razão de sorrir. José bate nas costas de Manuel lança um sorriso e diz.
– Então voltaste! A vida continua em frente homem.
Todos os pescadores já tinham entrado e José e Manuel continuavam no cais, emergiu-se uma
voz sonante que galgaram aos seus ouvidos.
– É hoje ou amanhã? Quando é que entram? Temos peixe para pescar!
Os dois entraram, o barco iniciou a sua rota. O Manuel à muito tempo não navegava o mar e
os badalares da ondulação faziam eclodir uma ligeira dor de cabeça, mas ele era um jovens do
mar, não era isso que o iria o impedir de pescar. Quando chegaram em alto mar o sol à muito
tinha rasgado o horizonte, eles lançaram as redes nessa água que podia congelar o corpo de
qualquer homem, e num momento pouco lúcido subiu a lembrança de Joana na sua cabeça a
grita.
– Volta para mim!
Aquele mar fez emergir a loucura de Manuel que nesse momento corre até ao limite do barco
e tentou saltar, mas no momento do salto José agarra-o tentando impedir de cometer uma
loucura, segurou com firmeza, ele berrava num timbre louco, todos os pescadores agarram-no
até se acalmar. Ele acalmou-se passado um quarto de hora, José e Sérgio levam-no até um
quarto que o barco tinha no seu interior e Sérgio pergunta a Manuel numa voz imperial.
– O que te deu? Estás a ficar maluco?
Manuel respondeu com gestos nervosos.
– Eu farto de viver, sem a Joana a minha vida é nada.
O José retorquiu num tom imperativo, olhando fixamente para os seus olhos.
– Olha para mim, estás a ouvir-me? Agora a tua vida é a tua família e só voltarás a
pescar se entrar essa noção dentro da tua cabecinha, está a perceber.
Olhando fixamente para os seus olhos Manuel abana a cabeça e sinal de aprovação, com uma
face triste, uma face de rendição perante aquele acto de loucura. A tarde à muito tinha
anunciado a chegada, e eles já estavam perto da costa a repetir aquele ritual, um labor
monótono, mas sempre com o desejo de trazer para casa uma boa pescaria, o carro dos boi
puxava as redes que nesse dia anunciavam uma má pescaria, contudo amanhã seria um novo
dia, um dia melhor e nesse dia talvez Manuel conseguisse conter o seu desejo de morte. Todos
chegaram a casa depois de um dia desgastante. A família de Manuel reuniu-se na mesa da
cozinha para comer e Sérgio contou aquele delírio de loucura de Manuel à Júlia, ela ficou
preocupada, Júlia era uma mãe dedicada, e perguntou a Manuel num tom de raiva, mas com
toda a ternura.
– Porque que fizeste isto?!
Manuel olhou quedo como tivesse a levar com uma repreensão, Júlia sem levantar a voz disse.
– Tu matas-me do coração, se continuares assim. Jura que não voltas a fazes isto.
Manuel jurou, a sua palavra era sua honra, depois se levantou dirigindo até à porta de saída,
no momento que ele abre a porta, a voz do seu pai saiu da cozinha, saindo uma pergunta com
preocupação.
– Para onde vais?
Manuel diz irritado, pois já era bem grande para se cuidar sozinho e não precisava dar
satisfações aos seus pais.
– Vou ao bar Borga!
Ele saiu e pegou na sua motorizada em direcção à cidade, pois esse bar ficava numa ruela
perto do centro da cidade. A motorizada voava no asfalto, o vento batia no peito manifestando
uma vontade de o empurrar, mas ele continuava firme como uma parede, Manuel foi muito
rápido e já estava quase a chegar ao seu destino, agora ele percorria as ruas das cidade
calmamente, esse caminho não precisava da luz da moto, a cidade era completamente
iluminada por lavaredas electrónicas amarelas, nos passeios em calçada para os peões,
deambulavam prostitutas à procura de dinheiro oferecendo uma hora de prazer, uma dela era
muito jovem aparentava uns quinze anos, exibia umas meias negras de rede que escondiam as
suas pernas esguias e lívidas. Manuel chegou ao seu destino desse breve itinerário, estacionou
a moto e entrou nessa ruela onde acenava uma placa com luzes de vermelhas compostas por
uma tela em forma de balão que dizia “Bar Borga”, uma seta amarela indicava a entrada do
bar, Manuel entrou, sentou-se numa e colocou as mãos numa mesa quadricular, o empregado
aproximou-se dele, estava com umas calças de ganga negras e uma camisa branca e pergunta.
– A bebida habitual?
Joca é o nome do empregado e amigo fiel de Manuel, desta vez ele confessa que não era a
habitual cerveja que duas a três vezes por semana bebia nesse bar, hoje ele queria algo mais
forte e pediu um whisky simples. O empregado trouxe-o numa bandeja o seu pedido, Manuel
bebia para esquecer daquele desgosto, ele bebia lentamente ao som de uma música ritmada,
em sua frente estava de costa uma mulher morena, ele conseguia ver o seu rosto num espelho
negro, numa faixa estática colocada ao longo dessa parede, uma música romântica difundiu-se
por todo bar com dois epicentros, as duas colunas suspensas na parede oposta à parede do
espelho, de repente ela ergue-se, e caminha em sua direcção, essa mulher exibia um vestido
negro colado à pele, que mostrava metade das coxas, ela tinha um belo corpo e as suas pernas
eram compostas por fibras musculares e sem um pingo de celulite. Ela chegou perto dele e
com uma voz rouca, mas muito feminina, pergunta-lhe.
– Posso-me sentar?
Manuel respondeu afirmativamente, com uma expressão gélida, ela sentou-se e teve a
iniciativa de falar primeiro e indagou.
– Qual é o teu nome?
Manuel respondeu com pouco interesse.
– É Manuel. E o teu?
– É Diana.
Depois ela bebe o seu whisky, que trouxe consigo da mesa, um whisky vagabundo misturado
com água da torneira. Manuel estava fixando nos seus lábios, porque um canto esquerdo era
defeituoso, tinha uma queimadura superficial, esse canto tinha um movimento aleatório,
quase independente, ele começava a achar algum interesse nela, talvez por aquele defeito o
atraia. A Diana tinha uma conversa agradável. Ela bebera o último trago, Manuel andou trazer
mais um whisky na expectativa que aquela conversa prologasse, passou uma hora e chegou a
hora de retirada de Diana, ela despediu-se mas com a promessa que eles voltariam a
encontrarem na noite seguinte. Quando Diana saiu agitando as suas curvas delineadas e quase
esculpidas, ele bebeu o último gole de um whisky que parecia nunca mais acabar e voltou para
casa.
Durante essa três dias ele manteve um relacionamento, apenas de cortesia, mas neste
dia seria diferente, pois ao longo deste tempo uma relação sólida construía-se, aliás pouco
sólida, nesse dia eles saíram do bar onde sempre conviviam, era o seu ponto de encontro,
dirigiram-se até à casa dela e tiveram uma noite de amor, mas isso só aconteceu apenas,
porque ele estava muito embriagado, ela já tinha provocado em diferentes ocasiões essa
situação, mas Manuel recusava-se trair a memória de Joana, foi nesse dia que ela levou
Manuel para a cama, aquela mulher era um demónio que encarava o sexo como prazer
absoluto. Quando acabou aquela noite, os sentimentos de prazer fluíam à flor da pele, ele saiu
da casa de Diana enquanto ela sorria de fadiga por aquela noite que algum tempo foi
desejada, ela desde da primeira vez desejou Manuel, talvez pela sua beleza, mas também
desejava ter aquele homem como um troféu. Manuel pegou na motorizada, o escape cuspia
uma nuvem de fumo enquanto ele percorria aos ésses o asfalto sempre iluminado pelo
lavaredas mágicas que nunca cessavam até ao amanhecer, a sua alma estava feliz e não
conseguia pensar em nada, pois o seu espírito e o seu corpo estavam cansados, alguns
motoristas buzinavam e surgia no ar frio da noite alguns nomes e desabafos pouco impróprios
numa chuva de insultos. Manuel ainda conseguiu chegar à ponte que exibia imponente ao
cimo do rio Mondego, mas ele foi bater contra o raid que dividia as duas faixas, ele voa e
ultrapassa o raid caindo no alcatrão da outra faixa, a queda foi abrupta e violenta, Manuel
jorrava sangue que fez eclodir uma mancha vermelha, ele ficou inconsciente e o seu corpo
parecia estar morto, Manuel teve sorte, porque não passou nenhum veiculo motorizado no
momento daquele brutal acidente que poderia pôr fim à sua vida. Meia hora depois passou
naquela faixa uma moto, a luz libertada pela moto centrou-se naquele corpo que não
conseguira lapidar o chão, a moto parou e foi ver o ferido, quando esse homem toma
consciência no momento que viu o rosto de Manuel, seu amigo. Ele foi à cabine telefónica,
próxima da ponte, marcou o 115 para chamar uma ambulância, a sua respiração era ofegante
e soletrava nervosamente as palavras de ajuda. A ambulância chegou rapidamente, marcando
as trevas com uma constante e intercalada luz vermelha. Os paramédicos colocaram Manuel
numa maca, repentinamente, a ambulância voou até às urgências do hospital da Figueira da
Foz. A notícia chegou rapidamente à aldeia e os pais de Manuel correram, aliás ganharam asas
e voaram até ao hospital, Júlia perguntou imediatamente a um funcionário, em desespero.
– Onde está o Manuel Duarte?
O funcionário entendeu a agonia e respondeu sem hesitara.
– Foi para o quarto 205.
O funcionário entregou os cartões de visitas e indicou o local do quarto, numa correria
desenfreada dirigiram-se até lá, um local ameno com quatro camas, entraram e ao lado de
Manuel estava um enfermeiro que perguntou.
– Quem são vocês? Não tem autorização para entrar aqui!
A sua mãe muito aflita diz.
– Calma senhor enfermeiro, nós somos os pais de Manuel e queremos saber como ele
está.
– O seu filho está bem, fisicamente não tem nada, talvez amanhã já tenha alta.
Os dois deram um suspiro de alívio, o Sérgio despediu-se com um carinho, pois hoje ainda
tinha de ir pescar e a Júlia ficou de vigília á sua cria. A noite parecia eterna e a esperança do
seu filho recuperar-se ileso dessa fatalidade também, ela enquanto acariciava a face
inconsciente de Manuel derramou duas lágrimas salgadas de tristeza, mas nunca criminosas,
pois a dor de uma mãe é um sentimento muito forte e indescritível. Júlia deixou-se adormecer
numa cadeira de alumínio almofadada e revestida com cabedal preto, o Manuel acordou,
parecia estar tudo bem, só não se lembrava o que tinha acontecido e como chegou ao
hospital, quando ele olhou para o seu lado direito viu a sua mãe que dormia numa posição
pouco confortável e quase o seu corpo estava a desmoronar e em qualquer momento podia
cair no chão, ele levemente chamou ela pelo seu nome, ela acordou daquele sono
imprevisível, Júlia abre os olhos repentinamente em busca do seu único filho e repara que ele
estava acordado, um enfermeiro parou de dar comeu a um senhor idoso e ausentou-se para
chamar um médico, menos de cinco minutos passaram e o enfermeiro trouxe com ele um
homem vestido com uma bata branca, devia ser o médico, um homem de média idade com
cabelo e barba grisalha exibindo um corpo esguio e face carrancuda, aproximou-se de Manuel
e disse.
– O Manuel sente-se bem?
Manuel respondeu
– Sim, mas não compreendo como fui parar aqui!
O médico disse com uma face carrancuda, que ele teve um acidente na ponte, que provocou
amnésia e ele iria ser analisado por um psicólogo. O médico saiu, ele mostrava não gostar
muito daquela profissão e a simpatia era sua maior qualidade, a Júlia preocupada começou o
interrogatório e abriu uma com a pergunta fatal como o destino.
– Lembrastes da morte de Joana?
Ele pensava que aquela pergunta era absurda e respondeu.
– Joana está viva e quando sair do hospitalar vou encontrar-me com ela.
Júlia compreendeu imediatamente que ele tinha apagado a memória a morte de Joana, e
antes que ele descobrisse sozinho a verdade, ela começa a contar aquela fatalidade
escondendo alguns factos, num acto de protecção. O psicólogo chegou, um homem jovem que
exibia um sorriso de orelha a orelha, e ele começa fazer algumas perguntas e concluiu, que o
seu cérebro tinha apagado aquelas memórias para se proteger, mas que algum dia tinha de as
enfrentar. O médico deu alta pela tarde como tinha dito o enfermeiro. Três dias passaram e
Manuel continuava sem sair de casa abatido e não conseguia ingerir aquela morte, agora ele
passava melhores momentos, nessa noite saiu e foi para o bar, pois ainda não tinha perdido os
hábitos da sua curta vida. Quando entrou no bar sentou-se no balcão e pediu uma cerveja, ele
foi imediatamente servido, no bar só estavam três pessoas, uma mulher que ele não conseguia
reconhecer aproximou-se dele e indaga.
– Está tudo bem contigo? Há dias que tu não apareces cá.
Ele olha estupefacto responde com outra pergunta.
– Quem és tu? Como é que me conheces?
– Depois daquela noite já não me conheces! Eu sou a Diana.
Ele abre os olhos pois nunca tinha visto aquela mulher e diz.
– Eu estou com amnésia. Não te conheço!
E com essas palavras ele retira-se do bar, pois pensava que ela era uma prostituta, deixando a
Diana falar sem receptor. Enquanto percorria a estrada, ele ria-se daquela situação
embaraçosa, mas ele soube fugir, talvez não fosse a melhor solução, talvez ela o conhecesse, a
dúvida permanecia, mas ele não deu um voto de confiança à Diana.
Passou dois meses e Manuel já pesca, a felicidade eclodia permanentemente na sua
alma, na sua casa voltou a sorrir, mas a amnésia num dia desses quebrar-se e ele voltou a
recordar-se daquele dia negro machado de sangue e a felicidade num golpe mágico
esvaneceu, a ocultada amargura voltou a dominar aquela mente como um fantasma, um
espectro negro que corroeu o espírito até hoje, aquela redescoberta fez povoar de novo
aquele sentimento de morte, um espectro que não adormece.
Hoje Manuel acordou cedo, para preparar as coisas para ir trabalhar, aquela hora era
coberta de monotonia, pois repetia sempre os mesmos gestos e acções, mas hoje seria
diferente, porque o seu pai hoje não podia ir pescar consigo, o Sérgio tinha uma consulta
marcada no dentista, há dois dias que ele tinha um dente infectado, ele levou aquela infecção
até às últimas consequências e hoje era o seu limite. Há muito o barco de pesca partiu e nada
podia prever o que uma hora depois iria acontecer, o mar estava ameno e a ondulação suave,
mas quando chegaram a alto mar uma frota de nuvens e rebenta o uma feroz tempestade
povoou o céus, o vento começou a correr em vertigens que rasgavam as ondas, as ondas
emergiam no céu como gigantes, o barco parece uma caixa de fósforos a navegar naquela
tempestade, de repente uma corda prende o pé de Manuel e o vento empurra-o para fora do
barco, ele cai no mar, Manuel imergiu para o fundo do mar, enquanto ele tinha ar tentou
desprender da corda, mas ele não consegue o seu enforco não serve para nada, a tripulação
do barco excepto Manuel continuava ilesa, mas nesse momento é cada um por si, não havia
hipótese possível de o salvar. Nesse momento rasgava no mar um ser estranho, uma mulher
com rabo de peixe, passado momentos surge-me o nome, é uma sereia, enquanto eu pensava
ela depreendeu o Manuel e beijou-o. A tempestade amainou depois uma hora e a
preocupação do José aumenta quando descobriu que Manuel tinha caído no mar, pouco havia
para fazer. A sereia levou até à uma ilha, a sereia deitou-o à beira de uma praia e durante uma
hora olhou para ele lançando lindo sorrisos enquanto acariciava, ela tem no seu peito um lindo
colar de pérolas reluzentes, de repente ela começa a cantar e ele acorda com o som
harmónico daquele canto, um canto mais belo que os pássaros, um canto muito gracioso, ele
abre os olhos lentamente e pergunta.
– Quem és tu?
Ela tenta fugir, Manuel vê metade do corpo, a parte humana, e diz um tom imperial, mas
muito de mansinho.
– Não fujas mulher!
Ela não fugiu, ele reparou que era mais que uma mulher quando viu a rabo, Manuel não ficou
espantado, pois o seu avô tinha contado fantásticas histórias sobre esse animal lendário, e
hoje estava perante um, ele ficaram estando com a sua beleza feminina, os seus cabelos
compridos louros, os seus olhos azuis e os seus seios bem moldados, pareciam dois ninhos
redondinhos. Eles conversaram toda a tarde, o seu nome é Mariana, ela tem uma voz doce que
parece eclodir no fundo do oceano e um rir promissor muito agudo, a conversa estava
agradável, mas ele pergunta.
– Sabes como posso voltar à Figueira da foz?
Ela respondeu exibindo um sorriso escondendo a tristeza pela aquela pergunta, mas ela
respondeu com seriedade.
– Eu tenho um amigo que de te levar até lá.
Manuel ficou preocupado, pois não voltaria a encontrá-la e pergunta.
– Como posso ver te de novo.
Mariana foi buscar um apito mágico e disse.
– Sempre que soprares neste apito, estás chamar-me.
O seu amigo chegou, era um golfinho de cor cinza, Manuel coloca o apito no interior da calças
e caminha em direcção ao golfinho, antes de abraçar o golfinho despede-se com um adeus.
Manuel chegou à costa da Figueira muito cansado a viagens foi longa, ele percorreu mais de
sete milhas. As saudade abateu-se sobre ele, a saudade daquele belo sorriso que lhe
transmitiu alegria que à muito tempo não sentia. Quando Manuel chegou à aldeia dos
pescadores, as ruas estão desertas e abatidas como uma tempestade abatesse sobre aquele
lugar, ele caminha em passos largos, e rapidamente chega a casa, a porta estava encostada, no
momento que ele empurra-a e ouve um chorou de agonia, a sua mãe chorava como perdesse
alguém, Júlia está muito nervosa e mal consegue respirar e não ouviu os passos que eclodiam
do chão da entrada, aliás ninguém ouviu, Júlia lamenta-se por aquele flagelo. Mas quando ele
entra na cozinha diz com os braços abertos como o Cristo Rei.
– Mãe! Eu estou vivo.
Ela quando ouve aquele timbre de voz que reconheceria a quilómetros, ergue-se da cadeira e
corre para abraçar o filho, depois pergunta enquanto as três amigas estão no seu redor, elas
ficaram estupefactas arregalando os olhos como vissem um fantasma.
– Estás vivo filho! Com chegaste até aqui?
Manuel não podia contar a verdadeira história, pois ninguém iria acreditar então retorquiu.
– Fui levado pelas ondas, até à praia?
A roupa de Júlia ficou molhada nesse abraço a Manuel, a roupas completamente inundadas de
água que escorria e alagava o chão da cozinha, ao ver aquela situação a Júlia disse num tom
imperativo de uma mãe preocupada.
– Vai tomar banho e depois muda de roupa.
Manuel foi tomar banho e a consequente mudança de roupa, bem precisa, enquanto toma
banho os ecos daquele grupo de amigas fluía pela casa em perguntas retóricas, mas Júlia
queria estar só com o seu filho e pediu a elas com delicadeza que fossem embora, elas
compreenderam e retiraram-se. Quando Manuel chega de novo à cozinha, ele é bombardeado
por perguntas com um epicentro de preocupação materna. Na noite seguinte ele foi à praia e
soprou aquele apito, mas dele não extraía qualquer som, apitou sete vezes e de repente surge
uma voz que desenrolavam as ondas.
– Calma estou aqui!
Ele reconhecia aquela voz doce em qualquer lugar e uma hora passou e a conversas
desenrolava parecendo que não iria acabar, mas Manuel teve de pôr fim, pois amanhã iria
pescar. Durante seis dias ele ia à praia e conversavam, mas no sétimo dia ocorreu um
desenlace amoroso, um grande beijo como nos teatros. Manuel foi para casa e agora estava a
sentir de novo o fruto da paixão, uma paixão impossível. No dia seguinte a Mariana mergulhou
bem fundo até chegar a um lugar negro, nesse reino de trevas marinhas onde reinava uma
bruxa, ela entrou numa caravela afundada há séculos, é nesse local que vive aquela bruxa
desdentada e com uma horrível cara que assusta qualquer demónio, Marina quando entra nos
seus aposentos ela diz com uma voz rouca e maléfica.
– Sabia que virias cá. O que tu queres de mim?
Ela responde um pouco assustada.
– Quero me tornar humana.
Com uma cara rancorosa a bruxa foi até uma bancada onde estavam todas as poções mágicas,
agarra numa e diz.
– Aqui está! Mas para a teres terá de me dar esse colar.
Esse colar era mágico, permitia falar com todos os amimais, o colar foi passado de geração em
geração foi com grande pena que ela o entregou, porque aquele amor é maior que os oceanos,
pensava ela. Depois de entregar o colar a bruxa malvada disse.
– Durante seis dias passará enormes dores e no só no último dia é que o teu rabo se
transformará em duas lindas pernas.
Ela foi para a ilha e na superfície bebe aquela poção, passado um hora as dores surgiram como
esfaqueassem o seu corpo, ela grita em desespero. Nessa noite Manuel foi até à praia, o lugar
de sempre onde se encontravam, ele sopra o apito mais que um quarto de hora até que
desiste e não compreende, porque ela não apareceu, só tinha uma resposta válida, aquele
beijo tinha destruído aquela relação, mas ela parecia tão segura quando o beijou, nos dias
seguintes ele continuava a ir à praia, mas ela nunca aparecia, até que no sétimo dia, o último
dia da transformação, pois ele prometeu a si próprio se ela não aparecesse não voltava a
soprar naquele apito. A Mariana depois de seis dias sem comer e sem beber suportando
aquelas e o seu rabo transformou-se numa metamorfose mágica em duas lindas pernas, com
as suas pouca forças nada até à praia onde sempre se encontravam, ela nadou o dia todo, mas
conseguiu chegar ao seu destino, no momento chave ele apita no assobio, mas ela já não
consegue ouvir, ela perdeu os seus poderes, então ele numa última tentativa invoca o seu
nome.
– Mariana... Mariana... Mariana...
Ela ouve e sai do mar gélido e caminha em sua direcção, quando chega próximo dele ela
abraça-o com veemência.
Passou cinco anos depois deste episódio mágico, os dois se casaram-se numa
felicidade imensa e terão um bonito rapaz, Manuel continua a ser aquele homem sonhador
que realizou o seu sonho: ser feliz. Os sonhos nunca são impossíveis, basta crer e lutar por eles
e com uma vontade veemente se realizarão.
Este foi o sonho antes de conhecer Iara, antes de ir àquela floresta, que trouxe tanto
prejuízo. Hoje é dia de Funeral, a Iara foi expulsa da casa de Duarte, e nunca ninguém
percebeu o que tinha acontecido a Filipe, nem eu, pois Filipe, não registou isso num dos seus
diários. Espero que tenham gostado desse sonho que ele viveu no passado, eu… Gagulo o
descrevi porque amo Filipe como o meu fiel amigo de aventuras na cascata, quando perdemos
um amigo verdadeiro o nosso coração fica mais vazio, assim digo com uma lágrima no canto
do olho, quem sabe que conto futuramente o seu sonho de infância, o sonho da felicidade,
pois felipe morreu como um infeliz, senti isso no coração. As almas mais bondosas partem
sempre cedo, ou tem uma missão maior na vida, a cada fatalidade. Onde está o amo- perfeito,
penso que só no céu, nem Romeu o teve, e o Filipe é um Romeu, das histórias e poemas que
escrevo, ele foi a minha maior inspiração, as aventuras dele me proponho a escrever até
morrer. O meu nome é Celso eu sou o Gagulo, o poeta contador de histórias, eu sou o Preu,
mas podem chamar-me de Prei, não percam o próximo capitulo e ultimo desta trilogia onde se
vai resgatar o sonho da felicidade e da infância de Felipe.
Fim
Download

II Lua de Iara Quebra do feitiço