design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial
789
FIGURA 1FIGURA 2FIGURA 3FIGURA 4FIGURA 5FIGURA 6FIGURA 7FIGURA 8FIGURA 9FIGURA 10FIGURA
11FIGURA 12FIGURA 13FIGURA 14FIGURA 15FIGURA 16FIGURA 17FIGURA 18FIGURA
19FIGURA 20FIGURA 21FIGURA 22FIGURA 23FIGURA 24FIGURA 25FIGURA 26FIGURA
27FIGURA 28FIGURA 29FIGURA 30FIGURA 31FIGURA 32FIGURA 33FIGURA 34FIGURA
35FIGURA 36FIGURA 37FIGURA 38FIGURA 39FIGURA 40FIGURA 41FIGURA 42FIGURA
43FIGURA 44FIGURA 45FIGURA 46FIGURA 47FIGURA 48FIGURA 49FIGURA 50FIGURA
51FIGURA 52FIGURA 53FIGURA 54FIGURA 55FIGURA 56FIGURA 57FIGURA 58FIGURA
59FIGURA 60FIGURA 61FIGURA 62FIGURA 63FIGURA 64FIGURA 65FIGURA 66FIGURA
67FIGURA 68Figura 69FIGURA 70FIGURA 71FIGURA 72FIGURA 73FIGURA 74FIGURA
75FIGURA 76FIGURA 77FIGURA 78FIGURA 79FIGURA 80FIGURA 81FIGURA 82FIGURA
83FIGura 84FIGURA 85FIGURA 86FIGURA 87FIGURA 88FIGURA 89FIGURA 90FIGURA
91FIGURA 92FIGURA 93FIGURA 94FIGURA 95FIGURA 96FIGURA 97FIGURA 98FIGURa
99FIGURA 100FIGURA 101FIGURA 102FIGURA 103FIGURA 104FIGURA 105FIGURA
106FIGURA 107FIGURA 108FIGURA 109FIGURA 110FIGURA 111FIGURA 112FIGURA
113FIGURA 114FIGURA 115FIGURA 116FIGURA 117FIGURA 118FIGURA 119FIGURA
120FIGUra 121FIGURA 122FIGURA 123FIGURA 124FIGURA 125FIGURA 126FIGURA
127FIGURA 128FIGURA 129FIGURA 130FIGURA 131FIGURA 132FIGURA 133FIGURA
134FIGURA 135FIGURA 136FIGURA 137FIGURA 138FIGURA 139FIGURA 140FIGURA
141FIGURA 142FIgura 143FIGURA 144FIGURA 145FIGURA 146FIGURA 147FIGURA
148FIGURA 149FIGURA 150FIGURA 151FIGURA 152FIGURA 153FIGURA 154FIGURA
155FIGURA 156FIGURA 157FIGURA 158FIGURA 159FIGURA 160FIGURA 161FIGURA
162FIGURA 163FIGURA 164FIGURA 165FIGURA 166FIGURA 167FIGURA 168FIGURA
169FIGURA 170FIGURA 171FIGURA 172FIGURA 173FIGURA 174FIGURA 175FIGURA
176FIGURA 177FIGURA 178FIGURA 179FIGURA 180FIGURA 181FIGURA 182FIGURA
183FIGURA 184FIGURA 185FIGURA 186FIGURA 187FIGURA 188FIGURA 189FIGURA
190FIGURA 191FIGURA 192FIGURA 193FIGURA 194FIGURA 195FIGURA 196FIGURA
197FIGURA 198FIGURA 199FIGURA 200FIGURA 201FIGURA 202FIGURA 203FIGURA
204FIGURA 205FIGURA 206FIGURA 207FIGURA 208FIGURA 209FIGURA 210FIGURA
211FIGURA 212FIGURA 213FIGURA 214FIGURA 215FIGURA 216FIGURA 217FIGURA
218FIGURA 219FIGURA 220FIGURA 221FIGURA 222FIGURA 223FIGURA 224FIGURA
225FIGURA 226FIGURA 227FIGURA 228FIGURA 229FIGURA 230FIGURA 231FIGURA
232FIGURA 233FIGURA 234FIGURA 235FIGURA 236FIGURA 237FIGURa 238FIGURA
239FIGURA 240FIGURA 241FIGURA 242FIGURA 243FIGURA 244FIGURA 245FIGURA
246FIGURA 247FIGURA 248FIGURA 249FIGURA 250FIGURA 251FIGURA 252FIGURA
253FIGURA 254FIGURA 255FIGURA 256FIGURA 257FIGURA 258FIGURA 259FIGura
260FIGURA 261FIGURA 262FIGURA 263FIGURA 264FIGURA 265FIGURA 266FIGURA
267FIGURA 268FIGURA 269FIGURA 270FIGURA 271FIGURA 272FIGURA 273FIGURA
274FIGURA 275FIGURA 276FIGURA 277FIGURA 278FIGURA 279FIGURA 280FIGURA
281Figura 282FIGURA 283FIGURA 284FIGURA 285FIGURA 286FIGURA 287FIGURA
288FIGURA 289FIGURA 290FIGURA 291FIGURA 292FIGURA 293FIGURA 294FIGURA
295FIGURA 296FIGURA 297FIGURA 298FIGURA 299FIGURA 300FIGURA 301FIGURA
302FIGURA 303FIGURA 304FIGURA 305FIGURA 306FIGURA 307FIGURA 308FIGURA
309FIGURA 310FIGURA 311FIGURA 312FIGURA 313FIGURA 314FIGURA 315FIGURA
316FIGURA 317FIGURA 318FIGURA 319FIGURA 320FIGURA 321FIGURA 322FIGURA
323FIGURA 324FIGURA 325FIGURA 326FIGURA 327FIGURA 328FIGURA 329FIGURA
330FIGURA 331FIGURA 332FIGURA 333FIGURA 334FIGURA 335FIGURA 336FIGURA
337FIGURA 338FIGURA 339FIGURA 340FIGURA 341FIGURA 342FIGURA 343FIGURA
344FIGURA 345FIGURA 346FIGURA 347FIGURA 348FIGURA 349FIGURA 350FIGURA
351FIGURA 352FIGURA 353FIGURA 354FIGURA 355FIGURA 356FIGURA 357FIGURA
358FIGURA 359FIGURA 360FIGURA 361FIGURA 362FIGURA 363FIGURA 364FIGURA
365FIGURA 366FIGURA 367FIGURA 368FIGURA 369FIGURA 370FIGURA 371FIGURA
372FIGURA 373FIGURA 374FIGURA 375FIGURA 376FIGUra 377FIGURA 378FIGURA
379FIGURA 380FIGURA 381FIGURA 382FIGURA 383FIGURA 384FIGURA 385FIGURA
386FIGURA 387FIGURA 388FIGURA 389FIGURA 390FIGURA 391FIGURA 392FIGURA
393FIGURA 394FIGURA 395FIGURA 396FIGURA 397FIGURA 398FIGURA 399FIGURA
400FIGURA 401FIGURA 402FIGURA 403FIGURA 404FIGURA 405FIGURA 406FIGURA
407FIGURA 408FIGURA 409FIGURA 410FIGURA 411FIGURA 412FIGURA 413FIGURA
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790
design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial
414FIGURA 415FIGURA 416FIGURA 417FIGURA 418FIGURA 419FIGURA 420FIGURA
421FIGURA 422FIGURA 423FIGURA 424
TABELA 1TABELA 2TABELA 3TABELA 4TABELA 5TABELA 6TABELA 7TABELA 8TABELA 9TABELA 10
QUADRO 1QUADRO 2QUADRO 3QUADRO 4QUADRO 5QUADRO 6QUADRO 7QUADRO 8QUADRO
9QUADRO 10QUADRO 11QUADRO 12QUADRO 13QUADRO 14QUADRO 15QUADRO
16QUADRO 17QUADRO 18QUADRO 19QUADRO 20QUADRO 21QUADRO 22QUADRO
23QUADRO 24QUADRO 25QUADRO 26QUADRO 27QUADRO 28QUADRO 29QUADRO
30QUADRO 31QUADRO 32QUADRO 33QUADRO 34QUADRO 35QUADRO 36QUADRO
37QUADRO 38QUADRO 39QUADRO 40QUADRO 41QUADRO 42QUADRO 43QUADRO
44QUADRO 45QUADRO 46QUADRO 47QUADRO 48QUADRO 49QUADRO 50QUADRO
51QUADRO 52QUADRO 53
Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso
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design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial
9
791
DESIGN INDUSTRIAL E DIVERSIDADE CULTURAL: A
CONTEXTUALIZAÇÃO DOS REQUISITOS DE USO
A diversidade cultural tem se manifestado no design industrial, em aspectos relacionados aos
requisitos de uso, tais como, por exemplo:

componentes

comunicação visual

dimensionamento

acessórios

divisão de compartimentos

durabilidade

ergonomia (conveniência, eficiência, segurança, etc.)

gestão ambiental

resistência

outros
As versões básicas de carros brasileiros, por exemplo, possuem menos itens de série e
opcionais, comparativamente aos japoneses, norte-americanos e europeus. O Quadro 54 apresenta
uma comparação entre de utilitários esportivos do Brasil, Estados Unidos, Japão e Suécia.
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design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial
792
QUADRO 54 - ITENS DE SÉRIE E OPCIONAIS DOS UTILITÁRIOS ESPORTIVOS FORD ECOSPORT (BRASIL,
2004), FORD EXPLORER (EUA, 2004), HONDA PILOT (JAPÃO, 2004) E VOLVO (SUÉCIA, 2004)
Itens
Airbag para o
motorista
Ford EcoSport
Ford Explorer
Honda Pilot
Volvo XC90
Opcional p/ as
versões XL e XLS
1.6
S
S
S
De série somente
na versão XLT
Airbag para o
passageiro
dianteiro
-
S
S
S
Airbags laterais
para o motorista e o
passageiro
dianteiro
-
-
S
S
Alarme antifurto
-
-
S
-
Âncoras mais
baixas e ajustes
para crianças no
banco traseiro
-
-
S
-
Ar-condicionado
Opcional para a
versão XL
S
S
S
De série nas
versões XLS 1.6 e
XLT
Banco dianteiro
direito rebatível na
horizontal
-
-
S
S
Banco do motorista
com ajuste de
altura
O
S
S
S
Banco do motorista
com regulagem
elétrica
-
Obs: elétrico
-
De série somente
na versão EX
Não disponível para
as demais versões
S
Obs: Também do
banco do
passageiro
dianteiro
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793
(Cont.)
Itens
Bancos dianteiros
com aquecimento
elétrico
Ford EcoSport
Ford Explorer
Honda Pilot
Volvo XC90
-
De série somente
nas versões Eddie
Bauer e Limited
De série somente
na versão EX com
bancos em couro
S
Não disponível para
as demais versões
Não disponível para
as demais versões
Barras de proteção
lateral
S
S
S
S
CD Player
O
S
S
S
S
S
S
-
Obs: Sob os
bancos frontais
Obs: No
compartimento de
bagagem
Obs: No
compartimento de
bagagem
Computador de
bordo
-
-
-
S
Console central
integral
S
S
S
S
Controle
automático de
temperatura
-
De série nas
versões Eddie
Bauer e Limited
S
S
Obs: básico ou c/
viva-voz para
celular
Compartimento de
carga escondido
Não disponível para
as demais versões
Cortinas infláveis
-
O
-
S
Desembaçador do
vidro traseiro
S
S
S
S
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design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial
794
(Cont.)
Itens
Ford EcoSport
Ford Explorer
Honda Pilot
Volvo XC90
Dispositivo de
monitoramento da
temperatura da
pista, que adverte
quando há risco de
“gelo negro” (“black
ice”)
-
-
-
S
Dispositivo de
sinalização sonora
de auxílio para
estacionamento em
marcha-ré
-
-
-
S
DVD
-
Opcional para as
versões XLT, XLT
Sport, Eddie Bauer
e Limited
Opcional somente
para a versão EX
com bancos em
couro
-
Não disponível para
as demais versões
Não disponível para
as demais versões
Espelhos
retrovisores
externos elétricos
-
Faróis de neblina
-
S
S
S
Obs: Com timer e
aquecimento
Obs: Com
aquecimento
O
S
S
Obs: Dianteiros e
traseiros
Filtragem de Ar
-
-
S
S
Freios ABS
-
S
S
S
Homelink Remote
System (Homelink
Universal
Transmitter)
-
De série somente
nas versões Eddie
Bauer e Limited
Opcional somente
para a versão EX
com bancos em
couro
-
Não disponível para
as demais versões
Limpador do vidro
traseiro
S
Não disponível para
as demais versões
S
S
S
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795
(Cont.)
Itens
Ford EcoSport
Ford Explorer
Honda Pilot
Volvo XC90
Portacopos/garrafas
S
S
S
S
Porta-moedas
-
S
S
-
Porta-objetos junto
aos bancos
traseiros
-
S
De série somente
na versão EX
S
Obs: Console
Obs: Bandeja
retrátil
Radio AM/FM
Stereo
-
S
Obs: De série
somente préequipamento p/
instalação de som
(chicotes)
S
Obs: Bandeja
retrátil
S
Obs: Com tocafitas, CD-player, 7
auto-falantes e
subwoofer na
versão EX
Radio satélite
opcional
Regulador de
velocidade
-
S
-
S
Sistema de
lavagem dos faróis
principais
-
-
-
S
Sistema de
proteção contra o
efeito chicote
-
-
-
S
Sistema de
navegação via
satélite
-
-
Opcional somente
para a versão EX
com bancos em
couro
S
Telefone GSM
Integrado
-
-
-
S
Obs: com autofalante e microfone
embutidos, e
sistema SMS de
envio e recepção
de mensagens
Toca-fitas
-
O
S
S
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design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial
796
(Cont.)
Itens
Ford EcoSport
Ford Explorer
Honda Pilot
Volvo XC90
Travas elétricas
De série, exceto
para versão XL
S
S
S
Vidros com sistema
elétrico de abertura
e fechamento
De série, exceto
para versão XL
S
S
S
NOTAS:
Não se encontram, neste quadro, todos os itens de série e opcionais dos modelos apresentados,
mas apenas exemplos representativos; (-) Não Disponível; (O) Opcional; (S) De série
As corporações do setor automobilístico de um modo geral têm variado os itens de série e
opcionais dos modelos, de acordo com os mercados onde são comercializados. É o caso, por exemplo,
das versões do Scénic que têm sido comercializadas nos mercados brasileiro e francês. No que se
refere à questão de segurança, as versões comercializadas na França possuem itens de série como
airbags laterais, sistemas de Assistência à Frenagem de Urgência e Antiarranque, e opcionais como o
controle dinâmico de condução (Controle de Estabilidade Dinâmica ESP + Antipatinagem ASR +
Controle de Capotagem), dentre outros, que as versões RT, o Alizé e o RXT, comercializadas no Brasil,
não possuem.245
Verificam-se, também, em um mesmo segmento, diferenciações entre modelos de veículos de
marcas de corporações de origens culturais distintas, dentro de categorias similares, como se observa
comparando-se itens de série e opcionais de automóveis comercializados no Brasil pela Fiat (de origem
italiana), Ford (de origem norte-americana), Honda (de origem japonesa) e Volkswagen (de origem
germânica) (ver Quadros 55 ao 57).
245
Informações disponíveis em: <http://www.renault.fr>; <http://www.renault.com.br>. Acesso em: 18 set. 2003.
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797
QUADRO 55 - ITENS DE SÉRIE E OPCIONAIS DOS AUTOMÓVEIS FIAT NOVO PALIO, FORD NOVO FIESTA
E VOLKSWAGEN FOX (BRASIL, 2004)
Acessórios de
série
Fiat Novo Palio
Ford Novo Fiesta
Volkswagen Fox
EX 1.0 8V duas portas
HLX 1.8 8V
- 4 portas
1.0L
Personnalité - 4
portas
1.6L Class 4 portas
1.0 City
Total Flex duas portas
1.6 Sportline
Total Flex duas portas
Preço sugerido
ao público, da
versão básica
(para São
Paulo/SP, em 03
mar. 2004)
R$
21.780,00
R$
29.590,00
R$
23.260,00
R$
26.250,00
R$
23.328,90
R$
29.717,00
c/ frete
incluso
c/ frete
incluso
c/ frete
incluso
c/ frete
incluso
Air bag motorista
O
O
O
O
-
-
Air bag
passageiro
dianteiro
O
O
O
O
-
-
Side-bags
dianteiros
-
O
-
-
-
-
Alarme antifurto
-
-
S
S
O
O
Ar condicionado
O
O
O
O
O
O
Ar quente
-
-
S
S
O
O
Banco do
motorista com
regulagem de
altura
-
O
-
-
S
S
Banco traseiro
rebatível
-
O
S
S
S
S
Obs: Bipartido
Obs: Bipartido
Obs: Bipartido
Barras de
proteção lateral
S
S
S
S
-
-
Câmbio
automático
-
-
-
-
-
-
CD player
O
O
-
-
O
O
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798
(Cont.)
Acessórios de
série
Fiat Novo Palio
Ford Novo Fiesta
Volkswagen Fox
EX 1.0 8V duas portas
HLX 1.8 8V
- 4 portas
1.0L
Personnalité - 4
portas
1.6L Class 4 portas
1.0 City
Total Flex duas portas
1.6 Sportline
Total Flex duas portas
Coluna de
direção ajustável
na altura
O
O
-
-
O
O
Computador de
bordo
-
S
-
-
-
-
Console central
com porta-copos
-
S
O
O
S
S
Desembaçador
O
O
S
S
-
-
Direção hidráulica
O
O
O
O
O
S
Espelho
retrovisor com
comando elétrico
-
O
O
O
O
-
Faróis de neblina
dianteiros
O
O
O
O
O
S
Freios ABS
O
O
O
O
Imobilizador
eletrônico
antifurto
-
-
S
S
S
S
Lanterna traseira
de neblina
-
-
-
-
-
S
Lavador /
Limpador de vidro
traseiro
S
S
S
S
-
S
Rodas de liga
leve
-
O
O
O
O
S
Travas Elétricas
O
S
O
O
Vidros elétricos
O
O
O
O
O
O
O
O
Obs:
dianteiros
NOTA:
Versões a gasolina; (-) Não Disponível; (O) Opcional; (S) De série
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QUADRO 56 - ITENS DE SÉRIE E OPCIONAIS DOS AUTOMÓVEIS FIAT STILO, FORD FOCUS, HONDA FIT E
VOLKSWAGEN POLO (BRASIL, 2004)
Acessórios de
série
Fiat Stilo
Ford Focus Hatch
Honda Fit
Volkswagen Polo
1.8 8V
Abarth
2.4 20V
GL
Ghia
LX
LXL
Automát
ico CVT
1.6
2.0
Sportline
Preço sugerido
ao público, da
versão básica
(para São
Paulo/SP, em 03
mar. 2004)
R$
39.030
R$
74.620
R$
38.100
R$
51.790
R$
36.315*
R$
43.100*
R$
35.272
R$
43.015
Air bag motorista
O
S
-
S
S
S
O
O
Air bag
passageiro
dianteiro
O
S
-
S
O
S
O
O
Side-bags
dianteiros
-
O
-
-
-
-
-
-
Side-bags
traseiros
-
O
-
-
-
-
-
-
Alarme antifurto
O
O
-
S
O
S
O
S
Ar condicionado
-
O
S
S
S
S
O
S
S
S
S
S
S
S
-
-
Obs:
Automático
Banco do
motorista com
regulagem de
altura
S
Banco do
passageiro
dianteiro rebatível
na horizontal
O
S
-
Obs: e
lombar
S
S
Obs: e
lombar,
c/ regulagem
elétrica
-
-
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800
(Cont.)
Acessórios de
série
Fiat Stilo
Ford Focus Hatch
Honda Fit
Volkswagen Polo
1.8 8V
Abarth
2.4 20V
GL
Ghia
LX
LXL
Automát
ico CVT
1.6
2.0
Sportline
O
S
S
S
S
S
S
S
Obs. Bipartido
Obs. Bipartido
Obs. Bipartido
Obs. Bipartido
Barras de
proteção lateral
S
S
S
S
-
Câmbio
automático
-
O
O
S
-
-
Banco traseiro
rebatível
CD player
O
S
-
S
O
S
O
O
Coluna de
direção ajustável
na altura
S
S
S
S
S
S
-
S
Obs: e
profundidade
Obs: e
profundidade
Obs: e
profundidade
Obs: e
profundidade
Computador de
bordo
S
S
-
S
-
-
-
S
Console central
com portaobjetos/portacopos
S
S
S
S
S
S
-
-
Espelho
retrovisor com
comando elétrico
-
-
-
S
-
-
O
O
Desembaçador
S
S
S
S
S
S
S
S
Direção hidráulica
-
-
S
S
-
-
S
S
Direção
eletricamente
assistida
S
S
-
-
S
S
-
-
Faróis de neblina
dianteiros
-
-
-
S
-
-
O
S
Obs: e
profundidade
Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso
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design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial
801
(Cont.)
Acessórios de
série
Freios ABS
Fiat Stilo
Ford Focus Hatch
Honda Fit
Volkswagen Polo
1.8 8V
Abarth
2.4 20V
GL
Ghia
LX
LXL
Automát
ico CVT
1.6
2.0
Sportline
O
S
-
S
O
S
O
O
Obs: c/
EBD e
Controle de
tração
Obs: c/
EBD e
Controle de
tração
Obs: c/
EBD
Obs: c/
EBD
S
-
Imobilizador
eletrônico
antifurto
S
S
Lanterna traseira
de neblina
S
S
S
S
-
-
O
S
Lavador /
Limpador de vidro
traseiro
S
S
S
S
S
S
S
S
Piloto automático
(vinculado ao
ABS)
-
O
-
-
-
-
-
-
Revestimento de
bancos em couro
O
S
-
O
O
-
-
O
Rodas de liga
leve
O
S
-
S
O
S
O
S
Travas Elétricas
S
S
O
S
S
S
O
S
Vidros elétricos
O
S
O
S
S
S
O
S
NOTA:
Versões 4 portas a gasolina; * Preço em 29. fev. 2003, com pintura metálica ou perolizada e frete
incluso para as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil; (-) Não Disponível; (O) Opcional;
(S) De série
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802
QUADRO 57 - ITENS DE SÉRIE E OPCIONAIS DOS AUTOMÓVEIS FIAT MAREA, FORD FOCUS SEDAN,
HONDA CIVIC 2000 E VOLKSWAGEN POLO SEDAN 2.0 COMFORTLINE (BRASIL, 2004)
Acessórios de
série
Fiat Marea
Ford Focus Sedan
Honda Civic 2000
Volkswagen Polo
Sedan
SX 1.8
16V 4C
4 portas
HLX 2.4
20V 5C
4 portas
GLX
Ghia
LX
EX
2.0
2.0
Comfortl
ine
Preço sugerido
ao público, da
versão básica
(para São
Paulo/SP, em 03
mar. 2004)
R$
42.790
R$
68.990
R$
42.840
R$
59.900
R$
45.960*
R$
60.115*
R$
42.860
R$
44.425
Air bag motorista
O
S
O
S
S
S
O
O
Air bag
passageiro
dianteiro
O
S
O
S
S
S
O
O
Side-bags
dianteiros
-
O
-
-
-
-
-
-
Side-bags
traseiros
-
O
-
-
-
-
-
-
Alarme antifurto
-
S
O
S
S
S
O
S
Alerta sonoro de
velocidade
S
S
-
-
-
-
-
-
Alerta sonoro de
faróis acesos
-
-
S
S
S
S
Alerta luminoso
de porta aberta
-
-
S
S
Alerta luminoso e
sonoro de cintos
de segurança
-
-
S
S
Ar condicionado
O
S
S
S
S
S
-
-
S
S
Obs:
Automático
Ar quente
-
-
S
S
Obs:
Automático
S
S
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803
(Cont.)
Acessórios de
série
Fiat Marea
Ford Focus Sedan
Honda Civic 2000
Volkswagen Polo
Sedan
SX 1.8
16V 4C
4 portas
HLX 2.4
20V 5C
4 portas
GLX
Ghia
LX
EX
2.0
2.0
Comfortl
ine
Barras de
proteção lateral
-
-
S
S
S
S
-
-
Banco do
motorista com
regulagem de
altura
S
S
S
S
S
S
S
S
Banco do
motorista com
regulagem
lombar
-
S
-
S
Banco traseiro
rebatível
O
S
S
S
S
S
S
S
Obs. Bipartido
c/ apóiabraço
Obs. Bipartido
c/ apóiabraço
Obs. Bipartido
c/
encosto
de
cabeça
Obs. Bipartido
c/
encosto
de
cabeça
Obs. Bipartido
Obs. Bipartido
Câmbio
automático
-
S
O
S
-
-
CD player
O
S
S
S
O
O
S
S
-
S
Obs: C/
sistema
elétrico
opcional
O
S
Obs. Bipartido
Obs: c/
viva voz
Coluna de
direção ajustável
na altura
S
Computador de
bordo
-
Console central
com porta-copos
-
S
S
S
Obs: e
profundidade
Obs: e
profundidade
-
S
S
-
-
-
S
-
S
S
S
S
-
-
Obs: e
profundidade
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(Cont.)
Acessórios de
série
Fiat Marea
Ford Focus Sedan
Honda Civic 2000
Volkswagen Polo
Sedan
SX 1.8
16V 4C
4 portas
HLX 2.4
20V 5C
4 portas
GLX
Ghia
LX
EX
2.0
2.0
Comfortl
ine
S
S
S
S
S
S
S
S
Obs:
Temporizado
Obs:
Temporizado
Obs: c/
desligamento
automático
Obs: c/
desligamento
automático
Direção hidráulica
S
S
S
S
S
S
S
S
Espelho
retrovisor com
comando elétrico
S
S
S
S
-
-
O
O
Faróis de neblina
dianteiros
O
S
-
S
-
-
S
S
Filtro antipólen
O
S
-
-
-
-
-
-
Obs:
Associado ao
arcondicionado
Obs:
Associado ao
arcondicionado
O
O
O
S
-
S
O
O
Obs: c/
EBD
Obs: c/
EBD
Imobilizador
eletrônico
antifurto
-
-
S
S
S
S
S
S
Lanterna traseira
de neblina
-
-
S
S
-
-
O
S
Lavador /
Limpador de vidro
traseiro
-
-
-
-
-
-
-
-
Desembaçador
Freios ABS
Obs: c/
EBD
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(Cont.)
Acessórios de
série
Fiat Marea
SX 1.8
16V 4C
4 portas
Ford Focus Sedan
HLX 2.4
20V 5C
4 portas
GLX
Ghia
Piloto automático
Honda Civic 2000
Volkswagen Polo
Sedan
LX
EX
2.0
2.0
Comfortl
ine
-
S
-
-
Obs: C/
controle no
volante
Porta-moedas
-
-
-
-
S
S
-
-
Porta-revista
atrás do banco
-
-
-
-
S
S
-
-
Obs:
motorista
Obs:
motorista e
passageiro
Revestimento
interno em couro
-
O
-
O
-
S
-
O
Rodas de liga
leve
-
S
O
S
S
S
S
S
Sistema de
prevenção de
incêndio (FPS –
Fire Prevention
System)
S
S
-
-
-
-
-
-
Teto solar elétrico
-
O
-
O
-
-
-
-
Travas Elétricas
S
S
S
S
S
S
O
S
Obs:
Com
sistema
de trava
automática a
7km/h
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(Cont.)
Acessórios de
série
Vidros elétricos
NOTA:
Fiat Marea
Ford Focus Sedan
Honda Civic 2000
Volkswagen Polo
Sedan
SX 1.8
16V 4C
4 portas
HLX 2.4
20V 5C
4 portas
GLX
Ghia
LX
EX
2.0
2.0
Comfortl
ine
S
S
S
S
S
S
O
S
Obs: C/
sistema
antiesmagamento
Obs: C/
sistema
antiesmagamento
Obs: C/
temporizador
Obs: C/
temporizador
Obs: C/
sistema
antiesmagamento no
vidro do
motorista
Versões com 4 portas a gasolina; * Preço em 29. fev. 2003, com pintura metálica ou perolizada e
frete incluso para as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil; (-) Não Disponível; (O)
Opcional; (S) De série
Os mercados brasileiro, norte-americano e europeu diferenciam-se, em termos de requisitos de
uso do automóvel, quanto ao controle de temperatura, tipo de transmissão (manual / automático),
equipamento de som, dentre outros aspectos.
Vender-se um carro, hoje, no Brasil, de mais de 30 mil reais sem ar-condicionado... Vender, até se vende, mas o
cara que comprar, se tentar vendê-lo de novo, não consegue. O brasileiro já associou carro acima de 30, 35
mil reais com ar-condicionado. Se não tiver ar-condicionado e trio elétrico, para ele está faltando alguma
coisa. Já na Europa é diferente.
E, nos Estados Unidos, carro maior tem que ser automático. No Brasil, praticamente não se tem oferta de
carro automático. Tem-se, hoje, no mercado, o Honda, que é automático, a Scénic automática, o Vectra
automático, o Marea automático, e estão lançando o Focus automático. Vê-se que é só o top de gama de cada um
deles. Nos Estados Unidos, é o contrário: de médio para cima, se não for automático, não vende.
[...] Existe uma infinidade de acessórios que são feitos para regiões muito frias, que não são
disponibilizados no Brasil, como aquecedor de banco, que na Europa e nos Estados Unidos é muito
comum [...]; pneus com pregos, etc.
[...] No Brasil, vê-se que as fábricas não investem muito em som de carro, porque o brasileiro tem o hábito
de pegar o som do carro, tirar e colocar outro. [...] Não adianta. Por mais que o carro venha com som, com CDplayer, ele tira, compra outro da Pionner, da Daiwoo, da Alpine e tal, e coloca esse outro lá. Então, para quê as
fábricas vão investir nisso, que é um acessório caro, se os brasileiros ficam trocando?
Nos Estados Unidos e na Europa, ninguém muda o som (KRAMER, 2002). [sem grifo no original]
Com relação a equipamentos de som, os consumidores da Argentina possuem um
comportamento distinto aos do Brasil, país vizinho. Na versão básica do automóvel Fiat Palio Fire, por
exemplo, o Radio AM/FM com CD-player é item de série, enquanto que, no Brasil, é item opcional.
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807
Os automóveis dos Estados Unidos normalmente possuem locais para se colocar alimentos e
recipientes de bebida, em virtude do hábito que os norte-americanos têm de beber e comer enquanto
trafegam no trânsito. “Carro sem porta-copo não vende nos Estados Unidos”. Já, no Brasil, este item
que não é requisito essencial, segundo Kramer (2002) (ver Figura 425).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 425 - DETALHES DE INTERIOR DO UTILITÁRIO ESPORTIVO FORD EXPLORER LIMITED E DO
AUTOMÓVEL LINCOLN TRAVEL (EUA, 2004)
___________________________________________________________________________________________
Os norte-americanos “gostam muito de ter uma porção de dispositivos para colocar
canequinha, latinha de coca-cola, para tudo quanto é lado, etc. Eles são muito exigentes neste
sentido”, também no caso de caminhões, segundo Jahnke (2001). Os brasileiros, por sua vez,
demandam outros requisitos.
Os brasileiros estão começando a exigir mais porta-objetos nos carros, mas seu uso é distinto,
em relação aos norte-americanos, como esclarece Ramos.
o brasileiro está começando a exigir também [...carro com] mais locais para colocar as coisas, porque o motorista
fica muito mais no trânsito e quer ter um carro com muito mais locais para ele colocar coisas. Isso é uma coisa
que o americano já usa há muito tempo. Mas, o brasileiro não quer locais, necessariamente, para coisas
comestíveis como o americano, que come muito no carro, no trânsito. Ele não toma café da manhã. Ele já
sai comendo, e, então, vêem-se, no trânsito, pessoas comendo, tomando com jarras, e por isso o carro é
preparado para isso: para viagens longas, para comer dentro do carro, e aquela coisa toda. Já o brasileiro, não. O
brasileiro é muito comodista e gosta de conforto. Ele pára muito mais em estradas, em restaurantes,
senta-se para comer, etc. E o americano, não. Ele compra e vai comendo. São culturas diferentes. Então,
um carro, às vezes, é mais preparado para um tipo de situação do que outro. Então, às vezes, a pessoa compra
um carro de origens diversas e olha certas coisas e fala "mas, eu não uso isso", porque foi uma coisa
muito focada em um outro mercado, e o brasileiro pede outras coisas (RAMOS, 2001). [sem grifo no original]
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808
A diversidade cultural se expressa, deste modo, também na composição dos espaços internos
dos veículos, que diferem entre determinados mercados, em vista de diferentes hábitos de uso (ver
Figuras 426 e 427).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 426 - DETALHES DE INTERIOR DOS AUTOMÓVEIS MERCEDES-BENZ CLK (ALEMANHA, 2004),
FIAT MÚLTIPLA (ITÁLIA, 2004) E RENAULT SCÉNIC TENTIER (FRANÇA, 2004)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 427 - DETALHES DE INTERIOR DO UTILITÁRIO ESPORTIVO FORD ECOSPORT E DO AUTOMÓVEL
VOLKSWAGEN FOX (BRASIL, 2004)
___________________________________________________________________________________________
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809
As transformações no perfil da população e nos modos de vida têm gerado novos requisitos de
uso para produtos do setor automobilístico.
No Brasil, por exemplo, como uma alternativa ao sistema de transporte urbano convencional,
surgiram os popularmente chamados “perueiros”, que aumentaram o consumo de “vans”, utilizadas,
neste caso, em algumas linhas do transporte público de grandes centros urbanos como São Paulo,
dentre outros, paralelamente aos ônibus de linha, sendo mais ágeis e confortáveis do que estes últimos
e mais baratos do que os táxis (ver Figura 428).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 428 - ESTAÇÃO VILA MADALENA, EM SÃO PAULO / SP, E RUA DE BELO HORIZONTE / MG, COM
VANS DE “PERUEIROS” (BRASIL, 2002; 2001)
___________________________________________________________________________________________
A diversidade cultural e as transformações sociais têm alterado também os requisitos de uso
dos produtos, no âmbito das relações entre gênero e design.
Há certos requisitos de uso, por exemplo, que têm sido considerados no design de automóveis,
tendo em vista a mulher como usuária, conforme relatam Ramos e Barone.
Hoje, a Ford, principalmente, se preocupa muito com o mercado feminino, porque, atualmente, a mulher
tem muito poder de decisão. Primeiro, porque a mulher, hoje, está muito mais presente no mercado de trabalho
e tem muito mais poder aquisitivo para comprar um veículo, sem depender de um marido, ou depender de alguém,
como um pai e tal. Ela tem o dinheiro dela, vai comprar e escolhe. E a própria esposa, hoje, determina muito
mais a compra do que o marido. Se o carro é dele, ele quer ter um pouco mais de poder na escolha, mas se o
carro é da família, a mulher tem um peso muito grande na compra, porque, muitas vezes, o carro da família fica
com ela, no dia a dia, e não com o marido. O marido vai trabalhar com o ônibus da empresa, e o carro fica com
a esposa, que é quem vai usar o carro.
Então, a Ford foca muito, hoje, isso. Só o fato de se ter um espelho no lado do motorista, de se ter um acesso
mais confortável, ou mais próximo dos instrumentos, certos confortos muito peculiares, ou muito mais
direcionados à mulher. [...] é um mercado muito importante, o feminino, da consumidora, e no qual temos
prestado muita atenção (quais são os requisitos, o que ela está querendo?). [...] a gente não pode
descuidar mais disso (RAMOS, 2001). [sem grifo no original]
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810
... Nós uma vez desenvolvemos um console [para um automóvel da Volkswagen], para o qual foi feito um tipo de
ferramenta, que era muito porosa. A gente injetava e não percebia isso. [...] Na hora em que colocamos o console
no carro, percebeu-se que a meia de nylon das mulheres desfiava. Então, isso faz parte, agora, de um standard
da Volkswagen, que tem que se fazer teste onde se tem contato, por exemplo, com as pernas, e não se podem
usar certos materiais, porque vão danificar as meias [...]. Isso é uma coisa que realmente interferiu na concepção
da forma [...]. Nós procuramos fazer aquela região não tão contundente, porque é uma região onde as pessoas
encostam as pernas. Outra coisa é a unha das mulheres. O gol tinha um fecho, que tinha pouca profundidade e
quebrava muito a unha. E a mulherada reclamava. Então, hoje, na hora de fazer, por exemplo, uma fechadura de
um porta-luvas, a gente verifica: "ah, uma unha deve ter tanto por tanto...” Então, esse é um dos nossos
standards. [...] além de termos as manequins, que são utilizadas pela engenharia de segurança, nós usamos
pessoas para testar, para sentir o carro. [...] E isso acontece com muitas coisas no carro.
Outra coisa, por exemplo, é o desenvolvimento de espelhos. No passado, não havia espelho para o motorista.
Então, há um pouco de machismo, neste caso, porque, afinal, é só o homem que dirige? O homem não
costumava se olhar muito no espelho. Hoje, já é diferente. [...] desenvolvemos espelhos para os dois lados do
carro, cores de ambientes que satisfaçam realmente a mulher e o homem, e mesmo a pessoa de idade (BARONE,
2001).
O comportamento dos consumidores de um mesmo gênero também varia entre culturas
distintas. Segundo Ramos:
... apesar da mulher brasileira estar mais exigente, a mulher americana ainda é mais participativa e
detalhista; mais técnica, digamos, na hora da compra. Em janeiro, eu estive no Salão de Detroit, e pude
observar isso. Eu não observava só os carros, mas também os consumidores, como eles discutiam sobre o carro.
E eu via muitos casais conversando sobre itens mais complexos do carro, como o acesso, ou isso, ou aquilo,
sobre coisas como eu nunca vi aqui no Brasil. Quando se vai ao Salão do Automóvel, às vezes a mulher é uma
simples acompanhante. Ela não vai para discutir (RAMOS, 2001).
Variam também os requisitos de uso dos produtos entre mercados diversos em função das
diferentes condições ambientais, exigindo uma diferenciação dos veículos para os mesmos. Barone
relata que:
Às vezes os alemães dizem, por exemplo: "Ah, nós fizemos isso aqui e não funciona". E os brasileiros falam:
"Funciona! No Brasil, não é preciso por aquecimento de banco, e lá, em duas ou três semanas em um ano, faz um
frio abaixo de 10 graus. Na maioria das vezes, é de 20 para 40. Então, por que vamos por aquecimento em um
banco, que custa uma fortuna?". Acontece esse tipo de coisa. É a questão do tal do carro globalizado: não é
por um elemento global, não adianta se por um aquecimento muito violento para uma pessoa que mora no
Nordeste. Vai se vender algum carro com aquecimento central lá? Não. Ninguém compra, ou, se compra,
não vai usar. Então, para quê? Estaria-se vendendo um carro mais caro, com um detalhe que é inútil. Então,
esses aspectos é que são diferentes de um carro para outro. Esses inputs vêm das bases, e o "papa", alemão,
aprova o que vamos fazer (BARONE, 2001). [sem grifo no original]
Variam os requisitos de uso dos produtos, em termos de dimensionamento, entre culturas
diversas.
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811
Um aspecto comum que se verifica no Brasil é o porte dos automóveis do tipo pequeno, com
plataformas mais compactas. Incluem-se neste perfil automóveis de segmentos variados: hatches,
sedans, picapes, peruas, utilitários esportivos e monovolumes.
Os norte-americanos geralmente apreciam carros maiores, comparativamente aos europeus e
sul-americanos (ver Tabelas 11 e 12).
TABELA 11 - DIMENSÕES DOS AUTOMÓVEIS LINCOLN TOWN CAR (EUA, 2004), HONDA ACCORD SEDAN
(JAPÃO, 2004), MERCEDES-BENZ C-KLASSE (ALEMANHA, 2004) E VOLKSWAGEN SANTANA
(BRASIL, 2004)
Dimensões (cm)
Comprimento
Largura
Altura
FONTE:
NOTA
Lincoln Town Car
Honda Accord
Sedan
Mercedes-Benz CKlasse
VW Santana
547,1 / 562,3*
481,3
452,6
460,7
219,4
181,6
196,8
170,0
148,8 / 149,0*
145,0
142,6
142,3
Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em: <http://www.lincoln.com>;
<http://www.mercedes-benz.de>; <http://www.volkswagen.com.br>. Acesso em: 25 fev. 2004
* Versões Ultimate L e Executive L
TABELA 12 - DIMENSÕES DOS UTILITÁRIOS ESPORTIVOS FORD ECOSPORT (BRASIL, 2004), FORD
EXPLORER (EUA, 2004) E FORD EXCURSION (EUA, 2004)
Dimensões (cm)
Ford EcoSport
Ford Explorer
Ford Excursion
Comprimento
422,8
481,33
575,8
Largura
173,4
183,13
202,9
Altura
162,2
181,35
204,2
FONTE:
Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em:
<http://www.gustacar.hpg.ig.com.br>; <http://www.fordvehicles.com>. Acesso em: 25 fev. 2004
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812
Há, inclusive, empresas norte-americanas que transformam automóveis, jipes e picapes em
limusines, a exemplo do jipe Hummer H2, da General Motors, que vem sendo transformado por oficinas
especializadas em limusine, com 10 metros de comprimento e capacidade de transporte de 20 pessoas
(ver Figura 429).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 429 - FORD “EXCURSION 200”, ADAPTAÇÃO DE PICAPE FORD PARA LIMUSINE, DA EMPRESA
ULTRA (EUA, 2001) E LINCOLN TOWN CAR 100”, ADAPTAÇÃO DO AUTOMÓVEL LINCOLN
TOWN CAR PARA LIMUSINE, DA EMPRESA AMERICAN CUSTOM COACH (EUA, 1998)
___________________________________________________________________________________________
As dimensões do Ford Escort para os mercados norte-americano e brasileiro, por exemplo, são
diferentes (ver Tabela 13).
TABELA 13 - DIMENSÕES DO AUTOMÓVEL FORD ESCORT PARA O MERCADO NORTE-AMERICANO E
BRASILEIRO (1990)
Ford Escort (EUA)*
Ford Escort (BRASIL)
Comprimento
431,8
402,2
Largura
169,4
164.0
Altura
133,4
132,2
490
290
Dimensões (cm)
Capacidade do porta-malas
FONTE:
NOTA:
Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em: Revista QUATRO RODAS, ano
30, n. 06, São Paulo, 1990, p. 100
* Modelos Poly e LX
Em vista das diferenças antropométricas existentes entre usuários de mercados diversos, as
empresas em geral têm desenvolvido dispositivos que permitem a regulagem de seus veículos, de tal
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813
modo a atender a variação de perfis antropométricos e, ao mesmo tempo, manter uma certa
padronização no desenvolvimento dos veículos.
... nós usamos esses perfis de 50 percentil até o 90. Nós somos obrigados a atender todos eles. Como vendemos
lá no Rio Grande do Sul e até lá em cima, em Belém do Pará, somos obrigados a adequar isso aí. A gente faz
assentos pneumáticos, que equilibram e regulam o peso, dando a estabilidade correta; os volantes são
escamoteáveis... (JAHNKE, 2001).
Observam-se diferentes graus de preocupação entre os países, com relação aos portadores de
necessidades especiais. No Japão, por exemplo, há automóveis, cujo banco de motorista gira para o
lado da porta, a fim de facilitar o acesso e a acomodação do portador de necessidades especiais,
dispositivos que facilitam a colocação da cadeira de rodas no bagageiro, comandos de marchas e freio
acoplados ao volante, etc. (ver Figuras 430 e 431).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 430 - AUTOMÓVEL TOYOTA, COM DISPOSITIVOS DE AUXÍLIO A PORTADORES DE
NECESSIDADES ESPECIAIS (JAPÃO, 2003)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 431 - DETALHES DE INTERIOR DO AUTOMÓVEL NISSAN CEDRIC, MOSTRANDO DISPOSITIVOS
DE COMANDO DE MARCHAS E FREIO ESPECIAIS PARA PESSOAS PORTADORAS DE
NECESSIDADES ESPECIAIS (JAPÃO, 2004)
NOTA:
Itens opcionais
___________________________________________________________________________________________
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814
No Brasil, a Honda tem liderado as vendas de carros para pessoas portadoras de deficiência
física, com os modelos Honda Civic e Honda Fit. Além da redução de preço, através do Programa
Honda Conduz, que, após a publicação da Lei 10.754, de 31 de outubro de 2003, tem concedido o
direito a esse público de adquirir veículos movidos à gasolina com isenção de IPI (Imposto sobre
Produtos Industrializados), somando-se o ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e
Serviços), estes automóveis apresentam certos elementos de design facilitadores do uso para as
mesmas, a exemplo do Honda Fit, que possui mais de dez opções de configurações de bancos,
transmissão automática Honda CVT e sistema de direção eletricamente assistida, dentre outros.246
Os requisitos de uso, quanto ao conforto e segurança das crianças também varia entre culturas
distintas.
A Honda, por exemplo, oferece, como item opcional, banco para bebê, acoplável ao banco
traseiro dos veículos, que segue as normas de segurança da ISO (ver Figura 432).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 432 - PÁGINA DA HONDA NA INTERNET, COM INFORMAÇÕES SOBRE ASSENTOS PARA BEBÊS
(DENTRO DAS NORMAS ISO) DO UTILITÁRIO ESPORTIVO HONDA MDX (JAPÃO, 2004)
___________________________________________________________________________________________
246
Disponível em: <http://www.quadranews.com.br>. Acesso em: 01 mar. 2004.
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815
O veículo utilitário esportivo Volvo XC90 oferece, como item opcional, um banco traseiro
deslizável para criança, o qual permite uma maior aproximação aos bancos dianteiros, facilitando o
atendimento da criança pelos adultos (ver Figura 433).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 433 - PÁGINA DA VOLVO CARS NA INTERNET, COM INFORMAÇÕES SOBRE O BANCO
DESLIZÁVEL PARA CRIANÇA DO VEÍCULO UTILITÁRIO ESPORTIVO VOLVO “XC90” (SUÉCIA,
2004)
___________________________________________________________________________________________
Os requisitos de uso dos produtos variam entre culturas distintas também quanto à segurança.
Air-bag para o motorista, por exemplo, ainda não é exigido como item de série no Brasil,
diferentemente da Europa, Estados Unidos e Japão, dentre outros. E há certos modelos, inclusive, que
sequer oferecem-no como acessório opcional no Brasil (ver Quadros 54 ao 58).
O pisca lateral também é outro item obrigatório em automóveis, na Europa, o que não ocorre
no Brasil (NAKAMURA, 2001). A General Motors, por exemplo, não o fornece como item de série nas
versões do Corsa, comercializadas no Brasil, enquanto que, na Alemanha, sim (ver Figuras 434 e 435).
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QUADRO 58 - ITENS DE SÉRIE E OPCIONAIS DO AUTOMÓVEL HONDA FIT PARA O MERCADO
BRASILEIRO E JAPONÊS (2004)
Itens
Honda Fit
Honda Fit
(BRASIL)
(JAPÃO)
LX
LXL
Automático
CVT
1.5T
W
A
Y
Air bag motorista
S
S
S
S
S
S
Air bag
passageiro
dianteiro
O
O
S
S
S
S
Side-bags
dianteiros
-
-
S
S
S
O
NOTA:
(-) Não Disponível; (O) Opcional; (S) De série
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 434 - OPEL CORSA (ALEMANHA, 2004)
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FIGURA 435 - CHEVROLET CORSA (BRASIL, 2003)
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817
O fato dos consumidores europeus serem “extremamente exigentes”, com relação à segurança
dos veículos, tem feito com que os caminhões Mercedes-Benz que têm sido comercializados no Brasil
possuam, como na Europa, dispositivos como o freio ABS e a planetária no cubo de roda, por exemplo,
que são itens de série nos caminhões desta marca, de acordo com Jahnke (2001).
O japonês “... é muito mais exigente em questão de segurança", comparativamente ao
brasileiro, segundo o mesmo.
O japonês faz do veículo dele quase que a sua moradia. Os catálogos e informações que recebo deles é
impressionante. Eles são muito ligados à segurança, haja visto que o caminhão japonês, por exemplo, se ele
exceder o limite de velocidade, que é de 70 a 80 km/hora, as luzes delimitadoras do teto acendem, ficando
vermelhas... Então, elas acendem, e o camarada, de fora, já vê que ele excedeu a velocidade. São detalhes que o
japonês, nesse ponto, cuida muito (JAHNKE, 2001). [sem grifo no original]
Em países onde os consumidores são mais exigentes, como no caso do Japão e Suécia, por
exemplo, as características de “segurança” dos veículos têm sido salientadas, inclusive, através de
meios de comunicação como a Internet (ver Figuras 436 a 438).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 436 - PÁGINA DA NISSAN DO JAPÃO NA INTERNET, COM INFORMAÇÕES SOBRE AS
CARACTERÍSTICAS DE “SEGURANÇA E ECOLOGIA” DO AUTOMÓVEL NISSAN CEDRIN
(2004)
NOTA:
A foto mostra o interior do veículo com os air-bags acionados
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FIGURA 437 - PÁGINA DA HONDA NA INTERNET, COM INFORMAÇÕES SOBRE AS CARACTERÍSTICAS DE
“SEGURANÇA” DO UTILITÁRIO ESPORTIVO HONDA PILOT E SOBRE OS AIR-BAGS DO
AUTOMÓVEL HONDA FIT (JAPÃO, 2004)
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FIGURA 438 - PÁGINA DA HONDA NA INTERNET, COM INFORMAÇÕES SOBRE O VEHICLE STABILITY
ASSIST (VSA) - SISTEMA DE AUXÍLIO À ESTABILIDADE DO VEÍCULO - DO UTILITÁRIO
ESPORTIVO HONDA MDX (JAPÃO, 2004)
___________________________________________________________________________________________
A Volvo tem considerado a questão de segurança um requisito fundamental no
desenvolvimento de seus veículos. O utilitário esportivo Volvo XC90, por exemplo, possui dispositivos
de segurança preventiva (exemplos: assento colocado em posição elevada; sistema antipatinagem DSTC; sistema de estabilidade ativa - DST; dentre outros) e de proteção (compartimento do passageiro
com reforço de aço boro; sistema de proteção contra impacto lateral - SIPS; sistema de proteção contra
capotamento – ROPS; airbags de duplo estágio para o motorista e passageiro dianteiro; cortina inflável
– IC; sistema de proteção contra efeito chicote – WHIPS; interior preparado para absorção de
impacto247). Além disso, seu pára-choque foi projetado mais baixo (ver Figura 439), com o objetivo de
aumentar a proteção de terceiros (pedestres, ciclistas e passageiros de outros carros), em vista do
problema que tem ocorrido em acidentes envolvendo veículos utilitários esportivos e carros pequenos,
quando os primeiros tendem a sobrepor-se aos últimos, devido à diferença de altura, causando danos
não raro graves.
247
Todos os painéis e laterais das portas são recheados com materiais de absorção de energia para ajudar a reduzir o risco de
acidente nos ocupantes do carro (Disponível em: <http://www.volvocars.com.br/Showroom/XC90/Experience/Safety/ProtectiveSafety/>.
Acesso em: 25 fev. 2004).
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FIGURA 439 - PÁGINA DA VOLVO CARS NA INTERNET, COM INFORMAÇÕES SOBRE A MAIOR PROTEÇÃO
A TERCEIROS (PEDESTRES E PASSAGEIROS DE OUTROS VEÍCULOS), ATRAVÉS DO
PÁRA-CHOQUE MAIS BAIXO DO UTILITÁRIO ESPORTIVO VOLVO XC90 (SUÉCIA, 2004)
___________________________________________________________________________________________
A Fiat da Índia fornece mais informações sobre as características de segurança do Fiat Palio,
através de seu ambiente de interface gráfica da Internet, do que a Fiat do Brasil (ver Figura 440).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 440 - PÁGINA DA FIAT DA ÍNDIA NA INTERNET, COM INFORMAÇÕES SOBRE A SEGURANÇA DO
FIAT PALIO (2004)
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Os painéis de caminhões ilustram as diferenças de requisitos ergonômicos, em vista da
diversidade cultural entre mercados. Os motoristas de caminhões brasileiros, por exemplo, demandam
diferentes posicionamentos do freio da carreta e do rádio, em relação aos europeus.
O painel tem que ser adequado para o brasileiro. Nós estamos, inclusive, tendo um pouquinho de conflito no
momento, no desenvolvimento de um painel, porque o brasileiro já criou uma imagem de um painel para ele, e
não adianta querer fazer diferente, porque ele não aceita. O freio da carreta, por exemplo, tem que estar
atrelado ao volante, logo abaixo do volante, para que o motorista, com o dedo, possa ir dosando o freio bem
gradativamente. O brasileiro gosta de uma dosagem bem suave. Já o europeu tem um outro botão que ele aperta,
que vai travando, quase que repentinamente, a carreta.
No acesso às coisas, por exemplo, o europeu concorda que o rádio esteja em cima, no teto, enquanto que o
brasileiro já não quer mais lá no teto. Nós já fizemos isso, e caímos do burro. O brasileiro quer o radio embaixo, no
painel, porque senão ele se distrai muito, e dirigir um caminhão de quarenta e cinco toneladas não é muito fácil.
Então, são situações diferentes para o cliente brasileiro (JAHNKE, 2001). [sem grifo no original]
Variam, também, os requisitos ergonômicos dos veículos, quanto à textura e anatomia dos
bancos, tipos de funções das cabines e conforto termo-acústico, dentre outros aspectos.
No acabamento interno, os norte-americanos usam muito material soft. Eles têm até banheiro (toalete)
internamente. Usam muitas paredes termo-acústicas, com bastante espessura, e os bancos são bem mais
macios que os nossos, que são de uma anatomia mais dura. Até hoje eu não entendo como eles não
reclamam do conforto deles, por problemas de coluna, em virtude de o banco ser bem mais macio. A gente aqui
faz muito poltrona anatômica, mais rígida (JAHNKE, 2001). [sem grifo no original]
Os norte-americanos “têm aqueles caminhões com cabines, onde eles moram. No Brasil
também é comum dormir-se dentro do caminhão. Na Europa, já não é”. Em vista disto, os caminhões
norte-americanos costumam ter suas cabines bem maiores e com mais equipamentos (têm banheiro,
armários, mesa, TV, forno de microondas, refrigerador, fogão, etc.) que os europeus, sul-americanos e
asiáticos. “Lá eles querem uma coisa, e aqui os caras querem outra”, afirma Holzmann (2001) (ver
Figuras 441 a 445).
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FIGURA 441 - CAMINHÃO NORTE-AMERICANO FREIGHTLINER “CLASSIC XL” (2003)
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FIGURA 442 - CAMINHÃO VOLVO “VN”, COMERCIALIZADO NO MERCADO NORTE-AMERICANO (2003)
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FIGURA 443 - CAMINHÃO VOLVO “NH12”, COMERCIALIZADO NA EUROPA (2003)
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FIGURA 444 - CAMINHÃO VOLVO “NH12”, COMERCIALIZADO NA AMÉRICA DO SUL E AUSTRÁLIA (2003)
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FIGURA 445 - CAMINHÃO JAPONÊS ISUZU “FSR” (2002)
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O posicionamento do volante dos veículos difere entre determinados mercados. Na Inglaterra e
Japão, por exemplo, o volante encontra-se posicionado no lado direito do painel, ao contrário do Brasil,
onde se encontra posicionado do lado esquerdo (ver Figura 446).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 446 - DETALHES DE INTERIOR DO AUTOMÓVEL HONDA FIT COMERCIALIZADO NO BRASIL E NO
JAPÃO (2004)
___________________________________________________________________________________________
A questão de segurança acaba influenciando os hábitos de uso dos veículos. O motorista
europeu, por exemplo, pode estacionar seu caminhão no acostamento da estrada e dormir, enquanto
que, para o brasileiro, isto não é aconselhável, devido ao risco de ser assaltado. Normalmente, o
motorista brasileiro tem que estacionar o caminhão em um posto, que seja um local seguro.
O motorista de caminhão do Brasil dirige em média 10 a 12 horas por dia, o que corresponde à
cerca de 14 a 15 mil km por mês, enquanto que o europeu dirige menos. Na Europa, o uso dos
caminhões é controlado; grava-se em disquete o quanto o motorista dirige, havendo incidência de
multa e contagem de pontos, quando se ultrapassa o limite permitido.
Variam também os requisitos de conforto, em vista do tempo de permanência dos motoristas
nos caminhões. Jahnke (2001) afirma: “A questão do conforto do espaço de dormir da cabine é
também um assunto muito exigido pelo nosso pessoal daqui. Eles fazem da cabine a sua casa. Tem
muito motorista que volta depois de 30 dias para casa”.
De acordo com Holzmann (2001), o grau de exigência, em termos de qualidade dos veículos,
varia entre as diversas culturas e mercados de consumo. Os motoristas de caminhões europeus
possuem um nível de instrução mais elevado e “estão acostumados a um nível de qualidade mais alta”,
comparativamente aos brasileiros, que “normalmente são pessoas bem desqualificadas, muitas vezes
até analfabetas”.
Diferenças como estas tem se refletido, por exemplo, no uso de recursos tecnológicos, como
os de informática, por exemplo, que vêm sendo disponibilizados em caminhões.
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825
Os motoristas brasileiros geralmente encontram mais dificuldades no uso de recursos
tecnológicos avançados, tais como os computadores de bordo, comparativamente aos europeus.
O caminhão tem um computador de bordo que dá uma série de informações sobre o consumo imediato, sobre o
desgaste, performance, curva de utilização de motor, e uma série de coisas. O caminhão pode ser ligado
diretamente com a frota. O caminhão é cheio de sensores e, no Brasil, são poucos os que utilizam esses
recursos. Estão lá disponíveis, mas os caras não usam, não sabem trabalhar com esses dados. Já nos
Estados Unidos e na Europa, são muito utilizados, porque eles tentam otimizar tudo. Lá o motorista é
muito mais profissional (HOLZMANN, 2001). [sem grifo no original]
Verifica-se uma tendência ao emprego de plataformas globais e modularização de
componentes no desenvolvimento de veículos, que afetam significativamente o atendimento dos
requisitos de uso das pessoas.
O design de caminhões da Volvo, por exemplo, tem seguido um princípio “modular”, que
permite uma série de variações, a partir de modelos básicos.
Nós temos centenas, eu não sei precisar a quantidade, mas as combinações são infinitas, desde acessórios até
combinações de power&trim. Cada cliente tem uma necessidade bem específica. Existem até programas,
softwares, para o cara vender o caminhão. Nós vemos a parte mais operacional, como, por exemplo, a
kilometragem que o cara vai rodar, as condições da estrada onde ele vai rodar, a carga que ele vai levar, as
condições climáticas. Tudo isso aí vai determinar uma configuração ideal para ele. Então, nós temos caminhões
básicos, mas existem centenas de variações (6x4, 4x2, variam os tipos de transmissão, tipos de caixas, tipos
de motor, etc.); na parte de cabine, existem centenas de alternativas de acessórios (HOLZMANN, 2001). [sem
grifo no original]
Estratégias deste tipo, porém, não atendem plenamente os requisitos de mercados diversos.
Verifica-se, em muitos casos, nos quais o design é tratado de uma forma mais genérica e
global, uma interferência na composição dos produtos por parte dos próprios usuários. Isto ocorre com
uma freqüência significativa no setor automobilístico, onde, inclusive, tem-se desenvolvido uma forte
rede de indústrias paralelas de acessórios. Estas fabricam uma série de produtos, que abrangem, por
exemplo: calotas, balizas, estribos, polainas, tapas-sol, climatizadores de ar, calhas de portas,
defletores de capô, pára-choques, terminais de escapamentos cromados, pára-barros, protetores
frontais, sofás-cama, tapetes, capas de banco, cortinas e revestimentos de piso, dentre outros (ver
Figuras 447 a 450).
... nós não temos disponível, como item de série, o revestimento liso brilhante. Por quê? Porque ele não é
considerado de bom gosto e porque a qualidade não atende os requisitos da Volvo. Só que todo mundo
quer e usa, e, então, eles vão lá no "Zé da Esquina" e fazem. E horrível, mas acontece que o cara pára o
caminhão em um posto, cheio de barro, e sobe dentro da cabine. E muitos dirigem de sandália. Se ele
sobe em um tapete normal de borracha, com aquela textura toda, fica tudo sujo! E com aquele plástico
liso, ele passa um paninho, e fica limpo.
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Os revestimentos internos de cabine [dos caminhões da Volvo] são super sofisticados, mas muitas vezes o cara
suja. E, dependendo da aplicação, não serve. [...] tem que ser um vinil, no qual o cara passa um paninho e limpa
(HOLZMANN, 2001). [sem grifo no original]
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 447 - DETALHES DE INTERIOR DE CAMINHÕES SCANIA 113H 360, VOLVO 340 E MERCEDESBENZ 1313, MOSTRANDO ACESSÓRIOS QUE NÃO SÃO ITENS DE SÉRIE: 1)
REVESTIMENTOS DE PISO, ASSENTO E CÂMBIO; 2 E 3) REVESTIMENTOS DE PISO E
TAPETES (BRASIL, 2002)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 448 - DETALHES EXTERNO E INTERNO DE UM CAMINHÃO VOLVO NL10 340 E DETALHE
EXTERNO DE UM CAMINHÃO SCANIA 112 HS, MOSTRANDO ACESSÓRIOS QUE NÃO SÃO
ITENS DE SÉRIE: BALIZA, ADESIVO, CORTINA E ESCADA (BRASIL, 2002)
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FIGURA 449 - DETALHES EXTERNOS DE UM CAMINHÃO SCANIA 1115, MOSTRANDO ACESSÓRIOS QUE
NÃO SÃO ITENS DE SÉRIE: PÁRA-SOL E RESERVATÕRIO DE ÁGUA (BRASIL, 2002)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 450- DETALHE DE INTERIOR DE UM CAMINHÃO MERCEDES-BENZ 1114, MOSTRANDO
ACESSÓRIO QUE NÃO É ITEM DE SÉRIE: COLETE DE BOLINHAS DE MADEIRA PARA
BANCO (BRASIL, 1995)
___________________________________________________________________________________________
No Brasil, cerca de 50% dos caminhões tem “climatizador de ar”, um acessório cuja
necessidade surgiu neste país, mas que ainda não foi incorporado como item de série nos modelos de
caminhões em geral, salvo exceções como o caminhão de série especial Volvo NH12 420 Série Top
Class 25 anos. Consiste em um dispositivo para ventilação interna de cabines, que mantém a umidade
do ambiente, com baixo consumo de energia (ver Figuras 451e 452).
[O climatizador de ar] é uma solução tupiniquim excelente, que nós temos chance até de emplacar
mundialmente. [...] nós temos um calor muito maior no Brasil, e não se pode deixar ligado o arcondicionado durante a noite, porque acaba com a bateria. O consumo é muito alto. Já o climatizador, que
foi desenvolvido aqui, pode ser deixado ligado a noite inteira, porque o consumo dele é muito baixo. Ele
não é um ar-condicionado; é um climatizador. Deixa fresquinho, umidifica. [...]é uma caixa que vai no teto
do caminhão. É um produto bem simples, mas seu princípio é genial. É uma necessidade que surgiu no
Brasil. Na Suécia não existe esta situação de calor. Em alguns países, usa-se o ar-condicionado normal, e
o cara não dorme muito na cabine, enquanto que aqui isso é muito comum (HOLZMANN, 2001). [sem grifo
no original]
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Trata-se de um produto de domínio público, e várias empresas o têm produzido no Brasil.
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 451 - CAMINHÃO VOLVO “NH12”, COM CLIMATIZADOR DE AR QUE NÃO É ITEM DE SÉRIE
(BRASIL, 2000), E CLIMATIZADOR DE AR DA MARCA BEPO (BRASIL, 2001)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 452 - CAMINHÃO VOLVO NH12 420 SÉRIE TOP CLASS 25 ANOS, COM CLIMATIZADOR DE AR DE
SÉRIE (BRASIL, 2002)
NOTA:
Na foto à direita, detalhe do interior da cabine, mostrando climatizador no teto.
___________________________________________________________________________________________
O desenvolvimento expressivo da indústria paralela de acessórios e empresas que realizam
adaptações em veículos evidencia como a padronização do design, seja ao nível “global”, “nacional”,
ou outro genérico qualquer, não costumam atender suficientemente as necessidades e anseios das
pessoas, que acabam buscando soluções alternativas, muitas vezes paliativas e inadequadas, quando
os produtos básicos que lhes são oferecidos pelas empresas não os atendem a contento.
Observam-se adaptações de veículos para usos diversos. No Brasil, por exemplo, há
adaptações de carros para produção e comercialização de caldo-de-cana, açougue ambulante, dentre
outros usos (ver Figuras 453 e 454).
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FIGURA 453 - VOLKSWAGEN KOMBI E PICAPE FORD - ADAPTADAS PARA PRODUÇÃO E
COMERCIALIZAÇÃO DE CALDO-DE-CANA (BRASIL, 2001)
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FIGURA 454 - CAMINHÃO FIAT, ADAPTADO PARA USO COMO AÇOUGUE (BRASIL, 2001)
___________________________________________________________________________________________
O comportamento do consumidor, quanto ao uso dos produtos, varia entre culturas distintas.
De acordo com Nakamura (2001), o uso de carros “no Brasil é mais geral, enquanto que na
Europa e no Japão é mais racional”. “[...] o carro aqui tem que servir para tudo”, em parte devido ao
poder aquisitivo mais baixo dos brasileiros, que, em geral, os impede de comprar mais de um veículo.
Um exemplo é o carro popular de 1000 cilindradas daqui, que tem uma limitação, comparado ao carro de 2000
cilindradas. Tem diferenças de potência... E o que acontece? As pessoas compram um carro de 1000
cilindradas e viajam pelo Brasil afora, com cinco pessoas, bagagem dos cinco, carregam um monte de
coisas... A idéia do carro pequeno de 1000 cilindradas é a de um carro mais urbano; seria para se utilizá-lo
em uma condição mais de cidade, que é o que acontece na Europa e no Japão. Vê-se que as pessoas que
têm os carros menores, usam-nos só para aquele dia a dia. Claro que tem também as diferenças sócioeconômicas, de dinheiro, que nós temos menos, para ter dois carros, por exemplo. Então, o carro aqui tem que
servir para tudo. Acho que esta é a principal característica: carro aqui tem que servir para tudo (NAKAMURA,
2001). [sem grifo no original]
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830
São exemplos de designs desenvolvidos com base nessa característica de uso mais geral de
veículos no Brasil: Fiat Strada Cabine Estendida, Ford EcoSport e Volkswagen Fox Cross, dentre
outros, que foram concebidos para serem utilizados tanto na cidade como no campo.
Há requisitos de uso específicos a certos mercados, que demandam um design de produtos
direcionado aos mesmos. O conceito de picape “com cabine estendida”, por exemplo, é algo típico do
Brasil, relata Nakamura (2001). Por este motivo, a picape Fiat Strada com cabine estendida foi
desenvolvida pela subsidiária brasileira, e não pelo Centro de Estilo da Itália, como costuma ocorrer.
Ela tem 30 cm a mais dentro da cabine, que serve não para levar pessoas, porque é um espaço pequeno, mas
para levar alguma carga, bagagem, alguma coisa mais delicada.
[...] Foi detectada a necessidade dessa picape Strada, porque os usuários de picape o usavam como carro.
Poucas pessoas usam a picape no uso normal, como veículo comercial. As pessoas compravam a picape
e raramente carregavam alguma coisa lá atrás. O que eles carregavam? Quando viajavam, carregavam
mala. Mas, então, o que se faz com a mala? Deixa-se do lado de fora, que é aberto? Então, esta era uma
necessidade que existia, e que, com essa picape Strada, acabou. Pode-se carregar a mala dentro, sem nenhum
problema.
Hoje são uns 50% dessa e 50% da outra picape normal, com uma tendência para aumentar com a cabine
prolongada (NAKAMURA, 2001). [sem grifo no original]
A picape Fiat Strada com cabine estendida tem sido fabricada somente no Brasil, desde 1999,
e foi desenvolvida com base em uma pesquisa de mercado, que identificou que raramente se utilizava
a caçamba em sua capacidade total e que havia uma demanda dos usuários por maior espaço interno
na cabine. Diminuiu-se, então, 30 cm da caçamba, para se dispor de 280 litros de capacidade de carga
atrás dos bancos, além de possibilitar reclinar os bancos até embaixo248 (ver Figura 455).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 455 - FIAT STRADA LX - COM CABINE ESTENDIDA E INTERIOR DA CABINE (1999)
___________________________________________________________________________________________
248
No ano de 2000, a picape Fiat Strada com cabine estendida assumiu a primeira posição nas vendas do segmento de
comerciais leves, até então liderada pela picape Volkswagen Saveiro. (GRIECCO, Adriano. Fiat Strada Adventure: trivial simples com
algo mais. Disponível em: <http://quatrorodas.abril.com.br/carros/testes/0702strada_001.shtml>. Acesso em: 16 fev. 2004.)
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Este tipo de uso urbano de carros utilitários, observado no Brasil, não é comum, por exemplo,
no Japão. “... o conceito de off-road, de picape, para o americano é muito mais parecido com o do
brasileiro que o do japonês. [...] o japonês não compra muito picape que não seja para ser utilitário
mesmo. Se for para ficar passeando, ele vai comprar um carro pequeno”, relata Kramer (2001).
A Volkswagen tem ampliado significativamente sua participação no mercado brasileiro de
caminhões. E um dos fatores determinantes para tal tem sido o desenvolvimento do design dos
mesmos com base em pesquisas realizadas pela empresa junto aos consumidores. Um exemplo disto
é o caminhão Volkswagen Titan Tractor 18.310, lançado no ano de 2000, cuja configuração de cabine,
potência de motor e distribuição de carga foram definidos, levando-se em conta requisitos identificados
em pesquisas de mercado.
O Volkswagen Titan Tractor 18.310 é um caminhão do segmento dos pesados, voltado a
percursos que não demandam que o motorista durma no caminhão durante os mesmos. Em vista disto,
optou-se por utilizar cabine simples, oferecendo-se um colchonete que pode ser estendido sobre os
assentos (ver Figura 456), enquanto que os modelos concorrentes em geral têm cabine leito, pelo
menos como opcional. Em relação à distribuição de carga, possibilita capacidade de carga combinada,
através do ajuste da quinta roda, com duas posições de altura e avanço de até 100 mm. Suporta até 10
toneladas, sendo a única do segmento com esta capacidade.
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 456 - CAMINHÃO VOLKSWAGEN “TITAN TRACTOR 18.310” E INTERIOR DA CABINE, COM
COLCHONETE SOBRE OS ASSENTOS (2002)
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Um dos fatores que têm influenciado o design de automóveis para o Brasil tem sido o fato das
famílias brasileiras serem, em média, mais numerosas, comparativamente às européias, exigindo um
bom aproveitamento de espaço interno dos veículos.
O Volkswagen Fox, por exemplo, automóvel compacto desenvolvido pela Volkswagen do
Brasil, sob a coordenação de Luiz Alberto Veiga, reflete esta preocupação, tendo sido desenvolvido a
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832
partir do conceito "Designed Around the Passengers" (desenvolvido “de dentro para fora, ao redor do
passageiro”), que prioriza o planejamento do espaço interno (ver Figura 457).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 457 - AUTOMÓVEL VOLKSWAGEN “FOX” (2004) E ILUSTRAÇÃO DE ESTUDOS DE SEU INTERIOR
(DESIGN STUDIO BRASIL DA VOLKSWAGEN - ILUSTRADOR: MÜHLETHALER)
___________________________________________________________________________________________
Entre as várias regiões do Brasil, a diferenciação dos veículos tem se limitado, basicamente,
aos tipos de acessórios ofertados. As empresas em geral não têm desenvolvido veículos com um
design diferenciado, de acordo com requisitos mais específicos das mesmas.
Há muito poucas variações regionais. [...] Na verdade, não se fazem adaptações regionais; são
disponibilizados opcionais, e, de acordo com cada região, consegue-se vender mais um ou outro. Um
exemplo típico: que carro você acha que vende mais no Mato Grosso: a Palio Weekend ou a Palio Adventure? É a
Palio Adventure, porque ela é mais alta e tem borrachão embaixo. Mas, não é necessariamente uma adaptação
regional.
O que o pessoal consegue fazer hoje para vender mais carros no Nordeste? A primeira coisa é integrar o arcondicionado, senão não se consegue vender. Mas, principalmente, lá se vende carro 1.0, com financiamento.
[...] O gaúcho, por exemplo, precisa de aquecimento, enquanto que o nordestino precisa de ar-condicionado no
carro (KRAMER, 2002). [sem grifo no original]
Nos últimos anos, a maior abertura ao desenvolvimento de produtos pelos centros de design
das subsidiárias brasileiras das multinacionais tem ampliado as oportunidades para um melhor
atendimento dos requisitos dos produtos, incluindo-se os de uso.
O Ford EcoSport, por exemplo, foi desenvolvido para que cumprisse a função de um veículo
utilitário esportivo para ser utilizado tanto em áreas rurais, quanto urbanas. Para tanto, deveria ser
confortável, potente e com desempenho satisfatório tanto em pisos de asfalto, quanto de terra, a fim de
atender requisitos identificados em pesquisas sobre o perfil do público-alvo dos mercados brasileiro e
sul-americano e de acordo com a categoria em que se enquadra o veículo. Desenvolveu-se, assim, o
primeiro utilitário esportivo compacto produzido no Brasil, sendo também apropriado para o uso em
centros urbanos (ver Figura 458).
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833
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FIGURA 458 - FORD ECOSPORT (BRASIL, 2003)
___________________________________________________________________________________________
Apesar de incorporarem visíveis influências estrangeiras, estas experiências inauguram uma
nova fase do design industrial no Brasil, que demanda um maior aprofundamento da pesquisa sobre a
questão da diversidade cultural, contextos ambientais, econômicos e sociais, características e
requisitos de uso das pessoas deste país, com vistas ao desenvolvimento de produtos de qualidade
para a sociedade.
No setor moveleiro, variam os requisitos de uso dos produtos para usuários com culturas
distintas, em aspectos tais como: composição de espaços internos, dimensionamento, dispositivos e
acessórios, divisão de compartimentos, durabilidade, ergonomia (praticidade, conveniência, segurança,
etc.), gestão ambiental, resistência, sistemas de montagem, dentre outros.
O dimensionamento dos móveis tem variado entre determinados mercados. Os móveis
espanhóis e norte-americanos, por exemplo, costumam ter dimensões maiores, comparativamente aos
brasileiros, refletindo a diversidade cultural, as diferenças de características dos espaços arquitetônicos
e de legislação, dentre outros fatores (ver Tabelas 15 a 17).
Nos Estados Unidos, eles têm quarto de vestir, mas entram camiseiros, gavetas, camas, cômodos, criados... O
quarto, mais ou menos, já tem um estilo. Nos Estados Unidos existem fábricas de casas pré-fabricadas, que
são standard também, cujas dimensões são amplas. Normalmente têm dois pisos, sendo um para dormitórios.
Então, realmente os móveis de lá têm dimensões boas e são bem aproveitados. Aqui, não. No mercado
brasileiro, às vezes tem que se fazer até porta de correr para as pessoas poderem passar no quarto. Não
dá para se fazer porta de abrir normal (TORRESAN, 2001). [sem grifo no original]
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834
TABELA 14 - DIMENSÕES DE CAMAS DE CASAL DAS EMPRESAS: MÓVEIS CARRARO S.A. (BRASIL,
2004), MÓVEIS RUDNICK S.A., KIMBALL HOME FURNISHINGS (EUA, 2004) E ISAMIYA INC.
LTD (JAPÃO, 2004)
Dimensões (mm)
Altura
Largura
Profundidade
FONTE:
NOTA:
Camas de Casal da
Móveis CARRARO
S.A.
Camas de Casal da
Móveis RUDNICK
S.A.
Camas de Casal da
KIMBALL Home
Furnishings
Camas de Casal da
ISAMIYA Inc. Ltd.
(BRASIL)
(BRASIL)
(EUA)
1050
900 / 920 / 940 /
1040
1371,60 / 1422,40 /
1498,60 / 1905,50
180* / 700 / 720 /
740
1460 / 1470 / 1600
1400 / 1460 / 1470 /
1510 / 1600 / 1660 /
2400
1625,60 / 1651 /
1727,20 / 1752,60 /
2057,40 / 2159
1650
1960
1900 / 2000 / 2070 /
2080
2209,80 / 2184,40 /
2260,60 / 2286 /
2311,40 / 2336,80 /
2423 / 2438,40 /
2969,20
2060
(JAPÃO)
Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em: Catálogos da CARRARO
MÓVEIS S.A.; Catálogos da MÓVEIS RUDNICK S.A.; <http://www.kimballhome.com>;
<http://www.isam-net.co.jp>. Acesso em: 12 mar. 2004
* Cama sem cabeceira
TABELA 15 - PROFUNDIDADES DE ROUPEIROS DAS EMPRESAS: MÓVEIS CARRARO S.A. (BRASIL,
2004), MÓVEIS RUDNICK S.A., KIMBALL HOME FURNISHINGS E RIVERSIDE FURNITURE
(EUA, 2004)
Dimensões
(mm)
Profundidade
Roupeiros da
Móveis
CARRARO S.A.
Roupeiros da
Móveis
RUDNICK S.A.
Roupeiros da
KIMBALL Home
Furnishings
Roupeiros da
RIVERSIDE
Furniture
Roupeiros da
ISAMIYA Inc.
Ltd.
(BRASIL)
(BRASIL)
(EUA)
(EUA)
(JAPÃO)
463 / 465 / 475 /
477 / 478 / 541 /
550
510* / 520* /
550*
609,60 / 635
609,60 / 615,95
/ 660,40
610 / 625
520** / 610**
FONTE:
NOTA:
Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em: Catálogos da CARRARO
MÓVEIS S.A.; Catálogos da MÓVEIS RUDNICK S.A.; <http://www.alpesmoveis.com.br/>;
<http://www.kimballhome.com>; <http://www.riverside-furniture.com>; <http://www.isam-net.co.jp>.
Acesso em: 12 mar. 2004
* Profundidades de roupeiros da marca Alpes; ** Profundidades de roupeiros da marca Rudnick
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TABELA 16 - DIMENSÕES DE CADEIRAS DAS EMPRESAS: METALÚRGICA BERTOLINI LTDA, MÓVEIS
RUDNICK S.A., KIMBALL HOME FURNISHINGS E THOMASVILLE FURNITURE (EUA, 2004)
Dimensões (mm)
Cadeiras da
Metalúrgica
BERTOLINI Ltda
(BRASIL)
Cadeiras da Móveis
RUDNICK S.A.
Cadeiras da
KIMBALL Home
Furnishings
(BRASIL)
(EUA)
Cadeira da
THOMASVILLE
Furniture Industries
Inc.
(EUA)
Altura
850 / 865
1000 / 1040 / 1080
1168,4
1020
Largura
405 / 500
450 / 465 / 470
558,80
550
Profundidade
415 / 480
500 / 700
558,80
600
FONTE:
NOTA:
Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em: Catálogo da METALÚRGICA
BERTOLINI LTDA; <http://www.kimballhome.com>; <http://www.thomasville.com>. Acesso em: 12
mar. 2004
Cadeiras sem braços
Em parte pela concorrência entre empresas, com base na redução de preços, e também pela
inexistência de normas mais específicas que estabeleçam dimensionamentos mínimos para os móveis,
verificam-se, no Brasil, casos de redução exagerada de medidas utilizadas.
... a gente ou os concorrentes normalmente acabam reduzindo os móveis, para ter preços melhores de
venda. Hoje se tem roupeiro com 45 cm de profundidade, onde não cabe um cabide dentro! O normal de
um roupeiro é 60 cm, e estão cada vez reduzindo mais. As portas de 60 já estão com 30 cm. Uma porta de
roupeiro antiga equivale a duas de hoje (TORRESAN, 2001). [sem grifo no original]
Há casos em que se tem uma regulação mais rígida, como nos Estados Unidos, por exemplo,
onde a legislação “não permite que se faça um roupeiro com 45 cm de profundidade, ou uma cômoda
com menos de 50 cm de profundidade. As gavetas têm que estar sobre rodízios...”, observa Torresan
(2001).
No Japão, o dimensionamento dos espaços e elementos arquitetônicos, baseia-se em múltiplos
e submúltiplos do antigo sistema de medida padrão, denominado “Kanejaku”, proveniente da China.
Este sistema possui três unidades básicas de medida: o “Shaku”, o “Sun” e o “Ken”, sendo que um
“Shaku” possui aproximadamente 30,030 cm249. As portas simples possuem 90 cm de largura, e as
duplas 180 cm. O módulo básico do “tatami” japonês possui 90 x 180 cm e a “sala de tatami” possui
tradicionalmente 180 cm de altura. Outros elementos, tais como a folha padrão de compensado, por
249
In: KANSAI INTERNATIONAL PUBLIC RELATIONS PROMOTION OFFICE.
Disponível em: <http://www.kippo.or.jp/culture/build/measure_e.htm>. Acesso em: 19 mar. 2004.
Measures in Japanese architecture.
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836
exemplo, possui 90 x 180 cm. Tal característica acaba se refletindo também no design de móveis deste
país, influenciando seu dimensionamento e composição, que incorporam a modularização (ver Figura
459).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 459 - SALA DE JANTAR DA ISAMIYA INC. LTD. (JAPÃO, 2004)
NOTA:
Dimensões da mesa: largura: 180 cm, profundidade: 90 cm, altura: 35 cm; dimensões dos
assentos: largura: 60 cm, profundidade: 63 cm, altura: 38 cm
___________________________________________________________________________________________
Os requisitos de uso dos móveis, quanto à ergonomia, variam entre determinados mercados.
No Japão, por exemplo, o hábito das pessoas se sentarem junto ao chão tem levado ao
desenvolvimento de móveis com alturas adequadas para tal (ver Figura 459).
O grau de exigência, em relação à segurança dos móveis, varia entre pessoas de culturas
distintas.
“... comparando-se o Brasil com a Europa, por exemplo, eles têm um compromisso muito mais
forte com a lei. Se uma pessoa, por exemplo, cai e quebra a perna, se paga por isso. E aqui não se
paga. Aqui se faz meia nota, se vende sem nota...”, observa Trevisan (2001).
Há o caso do uso do vidro temperado, sobre o qual existem leis que regem em questões de
segurança, mas que as empresas moveleiras não as costumam seguir no Brasil.
... Se, digamos, uma pessoa se machucar, pode até correr um processo e pagar-se uma pequena
indenização. Mas, lá fora, não. Lá fora, a exigência é muito grande. [...] Lá fora, fazem inúmeros testes,
antes de colocar uma cadeira no mercado. Aqui, normalmente as empresas fazem o protótipo, fotografam
e vão colocando a cadeira no mercado, sem fazer teste nenhum (RODRIGUES, 2001). [sem grifo no original]
Na Inglaterra, há duas normas com relação à segurança de vidros em móveis em geral: BS
7449 (segurança do vidro nos armários) e BS 7376 (segurança do vidro nas mesas e carrinhos), e os
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móveis de cozinha são atualmente controlados pela norma européia EN 1153, “que especifica que
qualquer vidro entre 900 mm do chão dever ser vidro de segurança ou vidro testado contra impactos”
(AITKENHEAD , 2002, p. 80).
A Escriba, que atua no segmento de móveis para escritório, foi obrigada a seguir normas
internacionais de segurança, em virtude de sua atuação no mercado externo. A empresa precisou
solicitar o “Selo UL”250, dos Estados Unidos, que homologa produtos sobre itens de segurança. E o
sistema DIN tem influenciado muito o dimensionamento de seus móveis (CALEJO, 2001).
O maior grau de exigência dos consumidores quanto à qualidade dos móveis, por parte do
mercado europeu, tem levado as empresas a informarem-nos sobre os ensaios de qualidade a que são
submetidos os produtos, tais como os de resistência estrutural, segurança, acabamento e resistência
superficial, especificações e características funcionais, dentre outros (ver Figura 460).
A empresa moveleira espanhola Hermanos Vaquer S.A., por exemplo, traz as seguintes
informações sobre os padrões de qualidade de seus produtos, em seu ambiente de interface gráfica na
Internet:
A qualidade dos produtos de Hermanos Vaquer S.A. vem avalizada pela etiqueta de qualidade da AIDIMA
(Instituto Tecnológico del Mueble y Afines). Todos os nossos artefatos superaram satisfatoriamente os requisitos
exigidos para a concessão da E.C.C (Etiqueta de Calidad Controlada), segundo normas UNE: controle dos
produtos acabados sobre matérias primas e de nosso sistema organizacional de produção.
Ensaios: Resistência estrutural, armários e similares: UNE 11016; Requisitos de segurança de móveis: UNE EN
1727; Acabamento de móveis de madeira. Resistência superficial: UNE 11019; Especificações e características
funcionais, armários: UNE 11023; Resistência estrutural, camas: UNE EN 1725.
Com o objetivo de alcançar a maior eficiência, Hermanos Vaquer S.A. conta com um Departamento de Controle
de Qualidade, que busca assegurar a satisfação dos consumidores.
Hermanos Vaquer está comprometida ativamente com a conservação do meio ambiente e por este encontra-se
vinculado ao sistema integrado de gestão de caixas e resíduos de caixas de ECOEMBALAJES ESPAÑA S.A.251
(ver Figura 460)
250 A sigla UL refere-se a “Underwriters Laboratories Inc.”, organização fundada em 1894, independente, não-lucrativa, para
teste e certificação de segurança de produtos (Informação disponível em: <http://www.ul.com/about/index.html>. Acesso em: 15 mar.
2004).
251
Disponível em: <http://www.hermanosvaquer.com/>. Acesso em: 14 mar. 2004.
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FIGURA 460 - PÁGINA DA EMPRESA MOVELEIRA HERMANOS VAQUER S.A. NA INTERNET, COM
INFORMAÇÕES SOBRE OS ENSAIOS DE QUALIDADE A QUE SÃO SUBMETIDOS SEUS
PRODUTOS (ESPANHA, 2004)
___________________________________________________________________________________________
Informações mais detalhadas sobre testes de qualidade, como se observa no exemplo anterior,
não têm sido prestadas pelas empresas brasileiras de móveis aos consumidores.
De acordo com a ABIMÓVEL / PROMÓVEL (1999), uma das falhas apontadas pelos
consultores americanos, em relação aos móveis brasileiros, refere-se ao encosto das cadeiras, que
deveriam possuir ângulos ergonomicamente corretos.
Segundo Calejo (2001), a Escriba foi obrigada a solicitar para seus produtos, em vista de sua
atuação no mercado externo, o “Selo UL”, homologado por um laboratório dos Estados Unidos. Para
tanto, foi necessária a vinda de técnicos norte-americanos, que permaneceram na empresa durante um
certo período.
Os Estados Unidos possuem normas de embalagens mais rígidas, comparativamente ao
Brasil, porque lá há lojas que entregam a mercadoria através do correio, o que não costuma ocorrer
neste país, onde as lojas geralmente utilizam transportadora própria ou terceirizada para as entregas.
Outro exemplo de implicações da diversidade cultural nos requisitos de uso dos móveis é o
sistema de montagem dos mesmos. Enquanto que, nos Estados Unidos, Japão e Europa, o sistema
“monte você mesmo” (Ready-to-Assemble (RTA) = Self Assembly) já se encontra relativamente bem
difundido, a sua assimilação tem sido lenta e ainda bastante restrita no Brasil.
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839
Lá [nos Estados Unidos], praticamente a família compra peças de móveis e acaba fazendo como passatempo, no
fim de semana. O nível das pessoas é bem diferente, assim como na Europa. É o "compre e monte". Compra-se
prateleira, o tampo da cozinha, e se monta muita coisa em casa, em fins de semana. Então, o mercado é
diferente. Aqui tem alguma coisa disso. A Tok Stok está começando nisso daí e a Wall Mart também, e em
algumas lojas grandes de São Paulo já tem alguma coisa, mas muito pouco. Está começando no Brasil, mas muito
lentamente (TORRESAN, 2001).
Vale lembrar a experiência da poltrona da linha de móveis “Peg Lev” (ver Figura 136),
desenvolvida por Michael Arnoult, em 1972, com base no conceito “monte você mesmo”, que não
obteve o sucesso comercial no Brasil, sobretudo pela baixa absorção deste tipo de sistema de
montagem pelas pessoas deste país.
Várias empresas norte-americanas, japonesas e européias têm comercializado móveis do tipo
“monte você mesmo” (ver Figuras 461 a 463).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 461 - MESA DE COMPUTADOR E ESTANTE DA MARKS & SPENCER, DO TIPO “MONTE VOCÊ
MESMO” (INGLATERRA, 2004)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 462 - CAMA DE CASAL E CÔMODA DA ARGOS, DO TIPO “MONTE VOCÊ MESMO” (INGLATERRA,
2004)
___________________________________________________________________________________________
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___________________________________________________________________________________________
FIGURA 463 - ARMÁRIO GUARDA-LOUÇA E CÔMODA DA MUJI, DO TIPO “MONTE VOCÊ MESMO” (JAPÃO,
2004)
___________________________________________________________________________________________
Nos centros urbanos, os norte-americanos preferem receber os móveis já montados, para não
perderem seu tempo livre e não terem que gastar com mão-de-obra, dentre outros fatores.
No Brasil, por sua vez, os móveis são geralmente transportados desmontados e montados por
montadores nos locais de entrega.
A capacitação dos montadores de móveis também tem influenciado o design dos mesmos. No
Brasil, por exemplo, o sistema de montagem dos móveis tem que ser o mais simples possível, em vista
falta de instrução e capacitação profissional da maioria de seus montadores.
... no caso do móvel brasileiro, tem que se estudar um sistema de montagem muito bom, porque,
normalmente, as pessoas que montam não são nem alfabetizadas, e não resolve fazer um esquema de
montagem, nem escrever, porque eles nem sequer lêem. Eles vão no intuito e vão fazendo... Então, o
estudo do móvel é bem complicado. Já na Europa, não. Na Europa está escrito que tem que se usar
determinado parafuso, e é o que eles usam. E aqui, não. O montador faz o que acha que deve ser feito
(TORRESAN, 2001). [sem grifo no original]
Variam os componentes e acessórios dos móveis entre mercados diversos.
No Brasil, as cozinhas industrializadas em geral oferecem menos acessórios,
comparativamente às européias.
Na Alemanha, onde as pessoas são exigentes, em relação à gestão ambiental e à ergonomia,
os móveis de cozinha possuem vários dispositivos facilitadores das atividades de trabalho (ver Figura
464).
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FIGURA 464 - MÓDULO COM GABINETES PARA SEPARAÇÃO DE LIXO E MÓDULO QUE SE DESLOCA
PARA FORA E GIRA 170º, DE ARMÁRIO DE COZINHA DA NOBILIA INTERNATIONAL
(ALEMANHA, 2004)
___________________________________________________________________________________________
A divisão de compartimentos dos móveis varia entre determinados mercados, em vista da
diversidade cultural. Um exemplo disto é a subdivisão interna dos roupeiros brasileiros e espanhóis,
que se diferenciam entre si, em vista dos hábitos de uso (ver Figura 465).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 465 - INTERIOR DE UM ROUPEIRO DE 4 PORTAS DA CARRARO (BRASIL, 2004) E INTERIOR DE
UM ROUPEIRO DE 4 PORTAS DA HERMANOS VAQUER (ESPANHA, 2004)
___________________________________________________________________________________________
Os roupeiros e cômodas norte-americanos também apresentam subdivisões distintas, em
relação aos modelos comumente encontrados no Brasil (ver Figuras 466 a 472).
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FIGURA 466 - ROUPEIROS DA CARRARO (BRASIL, 2004 E 2001)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 467 - LINHA DE CÔMODAS DA CARRARO (BRASIL, 2001)
___________________________________________________________________________________________
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FIGURA 468 - DORMITÓRIO DA CARRARO (BRASIL, 2004)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 469 - DORMITÓRIO “PLUS” DA RUDNICK E INTERIOR DE ROUPEIRO DE 6 PORTAS (BRASIL, 2001)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 470 - ROUPEIROS DA KIMBALL HOME FURNISHINGS (EUA, 2004)
___________________________________________________________________________________________
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FIGURA 471 - CÔMODAS DA KIMBALL HOME FURNISHINGS (EUA, 2004)
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FIGURA 472 - PENTEADEIRAS DA KIMBALL HOME FURNISHINGS (EUA, 2004)
___________________________________________________________________________________________
A diversidade de hábitos culturais reflete-se na configuração dos móveis e modos de uso dos
mesmos pelas sociedades.
Há, nos Estados Unidos, armários que servem tanto como roupeiros como suportes para TV,
diferentemente do Brasil, onde este tipo de associação de funções não costuma ocorrer (ver Figura
473).
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FIGURA 473 - PÁGINAS DA RIVERSIDE FURNITURE NA INTERNET, MOSTRANDO ARMÁRIO MULTI-USO ROUPEIRO / SUPORTE DE TV (EUA, 2004)
___________________________________________________________________________________________
Outro exemplo de característica cultural norte-americana, que se reflete no design de móveis, é
que “móvel de banheiro lá é móvel de banheiro (ver Figura 474). Aqui [no Brasil] se usa o mesmo
móvel de banheiro em áreas de serviço e talvez até em cozinha”, observa Torresan (2001).
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FIGURA 474 - MÓVEIS PARA BANHEIRO DA CARRARO, EXPORTADOS PARA OS ESTADOS UNIDOS (2001)
___________________________________________________________________________________________
Os norte-americanos têm o hábito de trabalhar eles próprios no jardim de suas residências,
onde costumam reunir-se em família e entre amigos, o que já não é tão comum no Brasil e na Europa.
Em vista disto, eles consomem muito mais equipamentos e móveis de jardim, comparativamente aos
brasileiros e europeus.
... mesmo mais para o Norte dos Estados Unidos, em dias de sol, não interessa nem se está frio; eles vão para o
jardim, comem no jardim e se reúnem no jardim. Gostam do sol e, para eles, o jardim faz parte da casa. Já nós
temos um jardim em frente da casa, umas florzinhas, a grama, e acabou. Lá [nos Estados Unidos], não. Eles
fazem a casa mais na frente e atrás aproveitam muito bem. Aproveitam para convidar os amigos. [...] E o móvel de
jardim hoje já é bastante disputado, inclusive em design e qualidade. É claro que esse móvel tem que ser
resistente, porque fica lá fora, na neve, nas intempéries... Lá também existe muito design. Hoje, até uma
partezinha de madeira que esconde o vaso, para eles é decoração. Como aquela treliça para segurar trepadeiras,
tudo é fabricado e tem uma venda muito boa. Cercas, normalmente eles não usam lá, mas, como detalhe de
decoração, sim. Então, tudo isso está muito desenvolvido nos Estados Unidos, assim como na Europa. Só que na
Europa isso não é tão forte como nos Estados Unidos, mesmo porque nos Estados Unidos o inverno é menor do
que na Europa, onde o pessoal é mais família, mais dentro de casa. O sistema americano é bem diferente do
europeu (TORRESAN, 2001).
Nos Estados Unidos, há lojas e departamentos especializados em jardim, que comercializam
vários tipos de produtos, incluindo-se móveis. No Brasil, por outro lado, este segmento ainda se
encontra incipiente e muito fraco.
As características de modularização e compartimentação se encontram muito presentes no
mobiliário japonês, a exemplo dos roupeiros, que possuem espaços separados para camisas, gravatas
e outros vestuários (ver Figura 475).
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FIGURA 475 - PÁGINA DA ISAMIYA CO.,LTD. NA INTERNET, MOSTRANDO ROUPEIRO E DETALHES DE
GAVETAS PARA GRAVATAS, CAMISAS E OUTRAS ROUPAS; MÓDULO DE ROUPEIRO
(JAPÃO, 2004)
___________________________________________________________________________________________
Os requisitos de uso de móveis para cozinha também refletem as diferenças de hábitos
culturais existentes entre as sociedades.
No Brasil, as cozinhas são mais valorizadas em seu uso cotidiano, comparativamente aos
Estados Unidos, segundo TORRESAN.
Hoje, no Brasil, uma cozinha é uma sala de visita, nas classes média e média baixa. As pessoas,
basicamente, ficam na cozinha. E mesmo as visitam ficam na cozinha. Então, elas gastam mais dinheiro em
móveis de cozinha. Já nos Estados Unidos, por exemplo, o uso da cozinha é rápido. Ela é muito pequena, porque
eles têm o microondas e o essencial para comprar a comida congelada no supermercado, e nela chegar,
esquentar e comer. Já a sala de estar, nos Estados Unidos, é bem maior. E aqui é o inverso: a cozinha é maior e
a sala de estar é menor.
O Brasil tem diversas raças; é uma miscelânea de raças, e cada raça tem seu gosto. Mas, a predominância
maior é mais européia. Então, a cozinha é maior. [...Já] nos Estados Unidos, não. Lá é uma área de serviço
mesmo. [...] No Brasil, já se senta e se fala na cozinha. A área de estar ficou praticamente na cozinha. E as
fábricas de cozinha têm uma venda muito boa, e as pessoas já estão escolhendo lojas que planejam móveis,
enquanto que, em outros tipos de móveis, como os nossos, só determinados tipos de segmentos são planejados.
O resto é preço. Eles dizem o seguinte: "Na cozinha, eu recebo visita. No quarto, posso ter até a cama no chão.
Ponho o colchão no chão...". Na cozinha, como se recebe visita, o móvel é planejado, e normalmente gastam 2, 3,
4 mil reais em uma cozinha, mas não gastam 500 reais em um quarto (TORRESAN, 2001). [sem grifo no original]
A mobília de cozinha tem sido a prioridade, na ordem de compra no Brasil. Em segundo lugar,
vem o dormitório de casal, e, em terceiro lugar, a sala de estar.
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848
A primeira coisa que a pessoa compra é a cozinha. [...] Sem isso, tem gente que não se muda. Tem gente que
tem uma casa menor, e construiu a maior, com esforço e tal, e não se muda se não tiver a cozinha bonita, certa,
do sonho. Mas, a pessoa se muda se tiver um colchão no chão. Então, a cozinha é a primeira, e a segunda é
mais o dormitório de casal, e a terceira é a mobília de estar, principalmente a estante para a televisão, e a
última coisa é o estofado (TREVISAN, 2001).
Há, no Brasil, móveis específicos para bar (ver Figura 476) para residências, apesar de que,
com as transformações da sociedade, no perfil da população e modos de vida, o uso e a produção
industrializada deste tipo de móvel decresceu consideravelmente no país.
Na Espanha, geralmente o bar para residências encontra-se conjugado à estante de sala de
estar (ver Figura 477).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 476 - BAR DA RUDNICK (BRASIL, 2004)
___________________________________________________________________________________________
‘
FIGURA 477 - DETALHES DE BARES CONJUGADOS A ESTANTES, DA LINHA “MOBILIARIO CLÁSSICO”, DA
PUCHADES MOBILIARIO (ESPANHA, 2004)
___________________________________________________________________________________________
E, nos Estados Unidos, há pequenos armários de vinho para salas de visitas (ver Figura 478).
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FIGURA 478 - ARMÁRIO DE VINHOS PARA SALA DE VISITAS (“HOSPITALITY WINE CABINET”) DA KIMBALL
HOME (EUA, 2004)
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Observa-se, ao longo da história, que o design de móveis tem apresentado vários pontos de
convergência com a arquitetura, no que tange aos requisitos principalmente simbólicos e de uso,
embora, em muitos casos, apresentem divergências, em termos de linguagem.
A inter-relação entre o móvel e a arquitetura encontra-se presente também na hierarquização
social que os móveis assumem no cotidiano da sociedade, nos espaços arquitetônicos, cuja concepção
revela, a exemplo das residências, “... uma tradição intrínseca, um sentido de permanência na
setorização, inclusive em valores segregacionistas” (VERÍSSIMO; BITTAR, 1999, p. 19), apesar da
dinâmica das transformações sofridas na sociedade e na cultura material ao longo do tempo.
As modificações na arquitetura das habitações252, espaços de trabalho e lazer, decorrentes das
transformações da sociedade, no perfil da população e modos de vida, que incluem, por exemplo, os
divórcios, as mudanças de locais de moradia, em função do trabalho e das condições econômicas, têm
trazido implicações significativas ao design de móveis. (ver Figura 479)
Nós seguimos muito a construção civil, conforme o segmento de mercado. [...] hoje, o apartamento está
muito reduzido, e temos que fazer móveis que se adaptem a isso, e até com multiversatilidade. Tem que ser
versátil para isso. Às vezes, temos que fazer uma estante que vira cristaleira, rack para o som, e que tenha
espaço para o computador. Então, isso está se misturando muito, em função das dimensões da construção civil.
E, pela própria pressão do mercado, a gente está sempre em constante mudança aqui dentro.
... o número de divórcios também é muito grande, e as separações acabam formando dois apartamentos, bem
diferentes do que se tinha anteriormente. São apartamentos menores, com móveis mais práticos. Isto é muito
forte no Brasil. Existe também outro problema comum no Brasil, que é o seguinte: as pessoas de certo poder
aquisitivo estão morando fora da cidade, e têm um apartamento alugado, pequeno, no centro da cidade, onde vêm
para trabalhar durante a semana. No final de semana vão morar fora. [...] E também existe, por problemas em
função de emprego, a pessoa que está sendo demitida, ou que está sendo transferida pela fábrica para outro
local, e que tem que ir para outra cidade, o que está muito forte aqui no Brasil. Outra coisa forte no Brasil, além
disso, é que a pessoa acaba vendendo o apartamento grande, porque está custando caro, e comprando um
menor. E, então, a pessoa compra os móveis novamente. Estão se adaptando às dimensões menores mesmo as
pessoas da classe média alta. Não têm mais apartamentos de 600 m2. Para elas, 250 m2 já está bom
(TORRESAN, 2001).
___________________________________________________________________________________________
252 Este assunto não está sendo focalizado nesta pesquisa e não se encontra nela aprofundado. Para maiores esclarecimentos
sobre o tema, ver: TRAMONTANO, 1993; _____. Habitação, hábitos e habitantes: tendências contemporâneas metropolitanas. Artigo
disponível em: <http://www.eesc.usp.br/nomads/livraria_artigos_online_habitos_habitantes.htm>. Acesso em: 20 abr. 2004;
TRAMONTANO; VILLA, 2000; dentre outros.
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FIGURA 479 - ESTANTE - COM CRISTALEIRA, PORTA-CDS, RACK PARA SOM, TV E DVD – E MÓVEL DE
ESCRITÓRIO RESIDENCIAL (HOME OFFICE) – COM MESA PARA COMPUTADOR E
ESTANTES PARA IMPRESSORA, SCANNER, APARELHO DE SOM E LIVROS - DA RUDNICK
(BRASIL, 2003)
___________________________________________________________________________________________
Os móveis de sala de jantar e de bar decresceram em grau de importância, porque as pessoas
em geral recebem menos visitas em suas residências ultimamente.
Antigamente se fazia noivado em casa, festa em casa, aniversário... Quem não se lembra da casa do pai e da
mãe cheia de parentes e tal. E hoje a gente leva, como eu, faço na associação da Rudnick, ou em outra, pago lá
dez reais para limpar tudo, e pronto! Então, não levo para casa a família, e, assim, não preciso de sala de jantar
(TREVISAN, 2001).
Assim como variam os espaços arquitetônicos, em termos de linguagem, dimensionamento,
comunicação, tecnologia da construção, organização, sendo uns mais, e outros menos flexíveis,
também os móveis precisam adequar-se às necessidades e anseios das pessoas, destacando-se a
importância do desenvolvimento contínuo e aprofundado de pesquisas sobre o perfil e os modos de
vida da sociedade.
Trevisan relata o caso do redesenho de um móvel da Rudnick, que não obteve sucesso no
mercado, devido à falta de uma pesquisa prévia de mercado mais acurada.
Tem coisas, [...] que temos quase certeza de que serão um sucesso. Tínhamos uma sala famosa [, a San Marino],
por exemplo, que tinha nove anos de mercado (isso há 8 anos atrás) e pediu-se para substituí-la, porque todo
mundo, inclusive empresas da região, já a tinham copiado. Como se viu que as pessoas gostavam de porta curva,
desenhei um móvel totalmente diferente, mas com o mesmo impacto formal (do espelho, da mesa, da cadeira).
Mas, quando olhávamos um e outro, dava para dar um novo nome ao móvel redesenhado. Tinha as mesmas
dimensões, mas quando a primeira série foi para o mercado, não foi..., não foi..., e eu não conseguia acreditar. E o
gerente, então, disse: Vá para São Paulo ver o que está acontecendo. Então, eu fui conversar com os
vendedores: "Por que a San Marino continua vendendo? Porque vocês já estão acostumados a vendê-la e já
sabem que o cliente gosta dela? E por que é que a Inglesa não está vendendo?". E um vendedor respondeu: "O
que o pessoal diz é que o brasileiro tem criança, e a quina é viva e o da outra linha é curva". E na cadeira havia
entrado a moda do espaldar, que hoje é estofada, e eu inventei de por estofado no encosto e de fazê-lo mais
quadrado [no modelo de sala Inglesa]. E a mesa antiga tinha um chanfrado, e eles gostavam dela, porque
ninguém batia nela. Então, depois de visitar umas oito lojas, eu concluí que esse vendedor havia matado a
charada. Um vendedor e uma vendedora falaram que o que acontecia era que eles gostavam da arca e queriam
mostrá-la ao consumidor, mas achavam que a cadeira atrapalhava a visão da arca. Então, eu tive que voltar a por
ripado na cadeira, do qual já estava enjoado, e tive que voltar a pôr o tampo chanfrado na mesa (TREVISAN,
2001) (ver Figura 480).
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FIGURA 480 - SALA DE JANTAR “INGLESA” DA RUDNICK (BRASIL, 1994)
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Salienta-se, portanto a necessidade de se direcionar mais o design aos usuários e contextos
em que vivem, a fim de cumprir as funções requeridas.
Não é mais possível desenvolver, conceber e realizar idéias em laboratório, só dentro de estúdios. Hoje, é
muito fácil se ter acesso à tecnologia, a informações, a tudo que se precisa para projetar um produto, e realizá-lo
quase sem contato com quem vai usá-lo. [...] hoje os designers e os arquitetos precisam estar muito mais
voltados para o usuário e para os ambientes em que as pessoas vivem. Os objetos não precisam ser
geniais, no sentido naïf, fraco do termo. Os produtos precisam ser bons e cumprir o que se espera deles
(CALEJO, 2001). [sem grifo no original]
O design de mobiliário das empresas em geral atuantes no Brasil tem sido desenvolvido com
uma abordagem mais genérica, em âmbito nacional, com base, principalmente, nos mercados das
regiões Sul e Sudeste, apesar da grande diversidade cultural existente entre suas regiões. Não há, por
exemplo, no caso da Rudnick, móveis desenvolvidos especificamente para a região Nordeste do Brasil.
A Entrevistada “AD”, Designer desta empresa, relata:
... nós aqui [da Rudnick] ainda não conseguimos fazer uma pesquisa, por exemplo, lá no Nordeste, para
desenvolvermos um móvel que tenha mais a ver com o que eles estão sentindo e precisando lá, porque
tem diferenças de clima, de comportamento... A gente ainda não conseguiu fazer isso, e, então, fica muito
ainda com uma visão do que o Sul e o Sudeste estão querendo (ENTREVISTADA “AD”). [sem grifo no
original]
Um dos fatores que tem dificultado o desenvolvimento de produtos mais específicos para os
mercados locais tem sido a falta de flexibilização do sistema produtivo.
No Nordeste, por exemplo, trabalha-se muito com móveis com pezinhos, porque, até pelo fato de ser muito
quente, eles têm e lavam o piso de cerâmica. E, já com rodapé, a gente tem algumas dificuldades. Apesar
disso, nós vendemos o mesmo produto que é vendido no Rio Grande do Sul em Manaus, porque também
o mercado é muito grande no Brasil. É claro que poderíamos estar atendendo um mercado muito maior, só
que teríamos que estar desenvolvendo produtos específicos para esses mercados. Então, vem a questão
da flexibilidade de produção. Como as fábricas não são tão flexíveis, então... (RODRIGUES, 2001) [sem grifo
no original]
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A maioria das empresas tem trabalhado com linhas de produtos direcionadas a determinados
segmentos de mercado, com o emprego de plataformas básicas, variando componentes, cores e
acessórios.
No Brasil, o mercado, por regiões, tem características distintas. Está segmentado de uma forma bem
típica. O produto varia para cada segmento, em termos de cor (que, para cada segmento é diferente). Os
materiais, de forma geral, são os mesmos. Têm a mesma base. Variam mais na parte de acessórios e
complementos.
O mercado do Sul pede produtos mais aconchegantes, até em função da própria temperatura.
Mas, [...] pela característica da nossa empresa, nós não podemos nos ater a um determinado nicho, a uma
determinada característica regional. Então, temos realmente que fazer uma síntese de tudo isso e colocar
no produto.
No exemplo dos pés, às vezes tem produtos que teriam que ir com pés, e nós não colocamos. Infelizmente, a
gente tem que colocar rodapé, porque é o que as outras regiões pedem. E isso é uma característica bem típica.
A questão das dimensões dos móveis também é bem característico por região. No Rio de Janeiro pedem muitas
mesas menores, do tipo 1 por 1m. Já outras regiões pedem mesas maiores. Variam até os nomes dos produtos,
como, por exemplo, a "sala de jantar", que em algumas regiões chamam de "varanda", principalmente no
Nordeste. E as características dos produtos também variam.
Que bom se a gente pudesse realmente fazer um desenho por região! Isso seria o ideal, até falando como
designer. Mas, falando como empresa, tem as limitações (RODRIGUES, 2001). [sem grifo no original]
Pesquisas de mercado demonstram que nem sempre o uso planejado para um determinado
produto é aquele que se tem na prática. Rodrigues relata experiências da Rudnick, que confirmam este
fato.
Muitas vezes nós desenvolvemos um produto para um determinado uso, para um determinado
consumidor, e depois vemos situações totalmente opostas às que foram previstas.
Fizemos uma pesquisa através de todos os nossos vendedores, que foram nas casas de consumidores, para
fotografar situações de uso, sem aviso prévio, para que as pessoas não arrumassem. E, no dia-a-dia, a gente
acabou encontrando situações bem diferentes das previstas. Em um exemplo, o consumidor usou a área de
cabides para guardar cobertores. É uma característica interessante, e talvez, tivesse que ter um armário para o
Sul, com muito mais espaço para cobertores. E não tem. E, no Nordeste, o armário poderia ser menor,
porque eles quase não precisam de roupa.
Na pesquisa sobre racks, em um exemplo, na área reservada para TV, com tampo giratório, a pessoa colocou
planta, antena, etc.
Em outro exemplo, a pessoa comprou um rack para televisão, e, então, comprou um suporte suspenso para a TV,
ocupando o rack com outras coisas... É claro, o cliente usa de acordo com o que ele quer (RODRIGUES, 2001)
[sem grifo no original]
As desigualdades sociais têm se refletido no desenvolvimento de móveis, cuja qualidade
diferencia-se, conforme as classes sociais às quais se destinam. Os móveis de cozinhas mais
populares, por exemplo, possuem materiais e acabamentos de qualidade inferior, com menor
durabilidade e resistência, dimensionamento mais reduzido e com menos dispositivos e acessórios
facilitadores das atividades de trabalho, comparativamente aos modelos direcionados às classes
sociais de maior poder aquisitivo (ver Figuras 481 a 483).
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853
Esta realidade confirma o entendimento de Bourdieu (1979; 1983), com relação à questão da
distinção social, a partir da diferenciação dos bens de consumo.
Cabe lembrar que há uma parte expressiva da população brasileira, que vive em condições de
extrema pobreza, que sequer tem tido acesso aos mercados de consumo de móveis, sendo, muitas
vezes, obrigada a reaproveitar e adaptar produtos descartados para seu uso no cotidiano.253
O uso dos produtos é essencialmente dinâmico e assume modos e significados diversos e
variáveis, no tempo e no espaço, para pessoas de culturas distintas. Trata-se de uma questão de
fundamental importância no design de produtos, e salienta-se a necessidade de um esforço conjunto
das indústrias, designers, instituições de ensino e pesquisa, no sentido de promover uma maior
flexibilização da produção e diversificação do design de móveis, com base em pesquisas contínuas e
aprofundadas sobre as características e necessidades dos usuários.
253 Este assunto não é objeto específico desta pesquisa e não se encontra nela aprofundado. Para maiores esclarecimentos
sobre este tema, ver: SANTOS, M. C. L. dos. 1996; 1998; 1999; dentre outros.
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429FIGURA 430FIGURA 431FIGURA 432FIGURA 433FIGURA 434FIGURA 435FIGURA 436
FIGURA 437 FIGURA 438 FIGURA 439FIGURA 440FIGURA 441FIGURA 442FIGURA
443FIGURA 444FIGURA 445FIGURA 446FIGURA 447FIGURA 448 FIGURA 449 FIGURA 450
FIGURA 451FIGURA 452FIGURA 453FIGURA 454FIGURA 455FIGURA 456FIGURA 457FIGURA
458FIGURA 459FIGURA 460FIGURA 461FIGURA 462FIGURA 463 FIGURA 464 FIGURA 465
FIGURA 466FIGURA 467FIGURA 468FIGURA 469FIGURA 470FIGURA 471FIGURA 472FIGURA
473FIGURA 474FIGURA 475 FIGURA 476 FIGURA 477 FIGURA 478FIGURA 479FIGURA
480FIGURA 481FIGURA 482FIGURA 483
QUADRO 1 QUADRO 2QUADRO 3QUADRO 4QUADRO 5 QUADRO 6 QUADRO 7QUADRO 8QUADRO
9QUADRO 10 QUADRO 11 QUADRO 12QUADRO 13QUADRO 14QUADRO 15 QUADRO 16
QUADRO 17QUADRO 18QUADRO 19QUADRO 20QUADRO 21 QUADRO 22QUADRO
23QUADRO 24QUADRO 25 QUADRO 26 QUADRO 27QUADRO 28QUADRO 29QUADRO
30QUADRO 31 QUADRO 32QUADRO 33QUADRO 34QUADRO 35 QUADRO 36 QUADRO
37QUADRO 38QUADRO 39QUADRO 40QUADRO 41 QUADRO 42QUADRO 43QUADRO
44QUADRO 45 QUADRO 46 QUADRO 47QUADRO 48QUADRO 49QUADRO 50QUADRO 51
QUADRO 52QUADRO 53QUADRO 54QUADRO 55 QUADRO 56 QUADRO 57QUADRO 58
TABELA 1 TABELA 2 TABELA 3 TABELA 4 TABELA 5 TABELA 6 TABELA 7 TABELA 8 TABELA 9 TABELA 10
TABELA 11 TABELA 12 TABELA 13 TABELA 14 TABELA 15 TABELA 16
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No setor de eletrodomésticos, variam os requisitos de uso para usuários com culturas
distintas, em aspectos tais como: componentes, dimensionamento, dispositivos e acessórios, divisão
de compartimentos, durabilidade, ergonomia (conforto, conveniência, segurança, etc.), gestão
ambiental, recursos tecnológicos, resistência, dentre outros.
Os eletrodomésticos da Whirlpool, por exemplo, para diferentes mercados, “são bem
específicos, porque os hábitos são muito distintos”, afirma o Entrevistado “K” (1998).
No caso de refrigeradores, por exemplo, “... a gente é muito parecido com o europeu, mas, na
Europa, os refrigeradores que mais vendem são os ‘combinados’, que têm o refrigerador em cima e o
freezer embaixo”. A Multibrás comercializa este tipo de produto no Brasil, mas o mesmo representa
somente “2% do segmento de mercado”, enquanto que, na Europa, ”são os produtos comuns de linha”,
relata o mesmo (ENTREVISTADO “K”, 1998) (ver Figura 484).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 484 - COMBINADO REFRIGERADOR / FREEZER (BOTTOM FREEZER) WHIRLPOOL “ARC” (INGLATERRA,
2004)
___________________________________________________________________________________________
Na Suécia, de 62 modelos de refrigeradores de duas portas da Electrolux, 56 são do tipo
“combinado” com refrigerador em cima e freezer embaixo, dois são do tipo Side by Side, e dois são do
tipo com freezer em cima e refrigerador embaixo, tipo também denominado de “duplex” e “biplex” no
Brasil (ver Figuras 485 e 486).254
254
Informação disponível em: <http://www.electrolux.se>. Acesso em: 07 abr. 2004.
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FIGURA 485 - COMBINADOS REFRIGERADOR / FREEZER ELECTROLUX “ER7422B” E “ERB3510AC” (SUÉCIA, 2004)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 486 - REFRIGERADORES BRASTEMP “DUPLEX FROST-FREE 440 ELETRÔNICO” E ELECTROLUX
“DFF44” (BRASIL, 2004)
___________________________________________________________________________________________
Os requisitos de uso dos produtos diferem mesmo entre mercados vizinhos, como os da
Argentina e do Brasil, por exemplo. Bertola relata que, na Argentina, para quem a empresa fabrica
vários produtos, tem-se uma preferência quase que total pelas lavadoras do tipo Front-Load255 (ver
Figura 487), assim como na Europa, ao contrário do Brasil, onde a maioria das pessoas prefere as TopLoad256 (ver Figuras 488 a 490), chegando até mesmo a rejeitar as Front-Load.
255
Termo inglês que se refere ao tipo de abertura localizada na face frontal de lavadoras e secadoras de roupa.
256
Termo inglês que se refere ao tipo de abertura localizada na face superior de lavadoras e secadoras de roupa.
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FIGURA 487 - LAVADORAS DE ROUPA FRONT-LOAD ELECTROLUX “EW757”, “EW750” E “EW501T”,
COMERCIALIZADAS NA ARGENTINA (2004)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 488 - LAVADORAS DE ROUPA TOP-LOAD ELECTROLUX “TOP8S” E “LM08A” (2003)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 489 - LAVADORAS DE ROUPA TOP-LOAD BRASTEMP “8KG TIRA MANCHAS ADVANTECH WASH”
E “INTELLIGENT 7 KG TIRA MANCHAS” (BRASIL, 2004)
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FIGURA 490 - LAVADORAS DE ROUPA TOP-LOAD CONSUL “AUTOMÁTICA 5KG” E “AUTOMÁTICA 7KG”
(BRASIL, 2000)
___________________________________________________________________________________________
A Electrolux do Brasil atualmente comercializa onze modelos de lavadoras de roupa, sendo
que apenas uma delas é do tipo Front-Load. E a Brastemp comercializa doze modelos de lavadoras de
roupa, todas elas do tipo Top-Load.257
De acordo com Gama Júnior (2001), as lavadoras do tipo Front-Load representam apenas 6%
do total de vendas no mercado brasileiro, enquanto que, na Argentina, ocorre justamente o contrário.
Uma discussão curiosa que surgiu, há alguns anos atrás, foi sobre lavadoras de roupa para as quais nós
estávamos definindo plataformas para o Brasil e Argentina (nós temos fábrica na Argentina também). E foi difícil,
em uma discussão com o pessoal dos Estados Unidos, para eles entenderem que o Brasil e Argentina são
completamente diferentes. Para a percepção deles, é tudo a mesma coisa; que aqui é tudo pertinho, somos
todos parecidos e falamos igual. E para explicar para eles que, no Brasil, só se vende lavadora Top Load, com
tampa por cima, e que na Argentina só se vende Front Load... O gringo olhava e dizia: "Vocês estão loucos! Para
que nós vamos ter duas diferentes? Vamos fazer uma só.". E, então, eu dizia: "Você quer vender aonde? Lá na
Argentina? Então está bem, vamos lançar a Front Load, mas no Brasil não vai vender. No Brasil, 6% do mercado
é Front Load, e lá é o contrário" (GAMA JÚNIOR, 2001).
Esta preferência pelas lavadoras Top-Load deve-se, no caso do Brasil, à influência da cultura
norte-americana, segundo os Entrevistados “A” (1998) e “I” (1998). As primeiras lavadoras “vieram [ao
Brasil] dos Estados Unidos, através da White-Westinghouse, através de venda de tecnologia”, e “a
própria Prosdócimo já fabricava, nos anos 60, lavadoras com tecnologia comprada dos Estados
Unidos”. E, da mesma forma, a Brastemp passou a empregar e utiliza até hoje a tecnologia da
257
Informações disponíveis em: <http://www.electrolux.com.br>; <http://www.brastemp.com.br>. Acesso em: 21 mar. 2004.
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Whirlpool. Deste modo, “a consumidora brasileira acostumou-se a ver na casa da mãe, da avó, da tia, a
lavadora que abre por cima [...]”, lembra a Entrevistada “A”.
No início, só havia, no Brasil, lavadoras do tipo Top-Load, e a Front-Load “entrou bem depois,
com a evolução tecnológica e, inclusive, com a preocupação com a economia de água, em criar
sistemas mais eficientes de lavagem”, observa o Entrevistado “I” (1998).
Em um certo momento, a Enxuta, a Continental, dentre outras empresas, introduziram a FrontLoad, tendo em vista que este tipo de lavadora é, tecnicamente, melhor que a Top-Load. Entretanto, a
lavadora Front-Load faz parte de uma cultura européia, e, especificamente no caso de lavadoras de
roupa, o público consumidor brasileiro possui uma cultura mais próxima à norte-americana. “... no Brasil
ficou-se com aquela idéia de que lavadora tem que ser grande, robusta, pesada, de aço e de colocar a
roupa por cima”, do tipo das americanas. “... Elas têm que encher de água, possibilitar olhar a roupa
girando lá dentro, e têm que ter aquele agitador no meio (que, em vez de melhorar a lavagem, piora,
pois acaba estragando as roupas mais delicadas)” (ver Figura 491). “... o mercado exige que se tenha
esse tipo de máquina”, afirma o Entrevistado “I” (1998).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 491 - DETALHE ESQUEMÁTICO DE UMA LAVADORA DE ROUPA TOP-LOAD, MOSTRANDO O
DISPOSITIVO AGITADOR (BRASIL, DÉCADA DE 1970)
___________________________________________________________________________________________
Percebe-se, no entanto, que a influência norte-americana sobre os brasileiros, em relação às
lavadoras de roupa, atualmente já não é tão forte como outrora. O entrevistado “D” (1998) relata o caso
de uma lavadora norte-americana que foi testada e não se adaptou ao mercado brasileiro, por ser um
produto demasiadamente “grande” e “robusto”. Segundo o entrevistado, existe atualmente uma relação
maior do mercado brasileiro e sul-americano com o mercado europeu, quanto à preferência por
produtos mais compactos. “No Brasil, as pessoas gostam do produto mais prático, mais fácil de
guardar, menos volumoso”, afirma o Entrevistado “E” (1998).
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O público consumidor da lavadora Front-Load caracteriza-se por ser mais exigente e analítico,
“porque depois que fechou a tampa da lavadora, fechou e a gente não abre mais. Só na hora em que
terminar o ciclo!. [...] Para quem está acostumado a abrir uma tampa e jogar tudo para dentro, e, se
esquece mais alguma coisa, abre a tampa e joga, e, se esquece mais alguma coisa, abre a tampa e
joga..., nessa não é mais assim”, afirma a Entrevistada “A” (1998).
Para os europeus, “a Front-Load é perfeita”, porque estão habituados a se organizar, a se
programar para por as roupas dentro da máquina, e a colocá-la para funcionar, observa o Entrevistado
“J” (1998). (ver Figura 492)
De um total de vinte e sete modelos de lavadoras de roupa Electrolux comercializadas na
Suécia, somente duas são do tipo Top-Load. As demais são Front-Load.258
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 492 - LAVADORAS DE ROUPA FRONT-LOAD ELECTROLUX “EWF1235” E “EWF1445” (SUÉCIA,
2004)
___________________________________________________________________________________________
Na opinião da Entrevistada “A” (1998), a lavadora do tipo oriental, que funciona por
tombamento, mas tem abertura superior, “seria o ideal para o mercado brasileiro” (ver Figura 493).
Uma das vantagens apresentadas por este modelo é que seu dimensionamento é menor, porém possui
uma grande capacidade. Entretanto, até o momento, não se tem observado, no Brasil, um investimento
no sentido de se criar um desejo de compra para este tipo de lavadora, já bastante consumido também
pelos europeus.
258
Informação disponível em: <http://www.electrolux.se>. Acesso em: 22 mar. 2004.
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FIGURA 493 - LAVADORA DE ROUPA TOP-LOAD TOSHIBA “TW80TA”, DO TIPO, E ILUSTRAÇÃO
MOSTRANDO SISTEMA DE LAVAGEM POR TOMBAMENTO (JAPÃO, 2004)
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Logo após a incorporação da Refripar pela Electrolux, esta substituiu uma lavadora Front-Load
– cujo painel de comandos havia sido desenvolvido pelos designers da Refripar e que já vinha sendo
comercializada, com boa aceitação no mercado brasileiro - por um modelo italiano. Este, no entanto,
sofreu rejeição, em parte pelo fato do mesmo apresentar botões de comando salientes, enquanto que,
no modelo da Refripar, os mesmos eram embutidos.
Bertola esclarece que, no Brasil, as pessoas preferem botões embutidos nas lavadoras FrontLoad, porque as áreas de serviço são geralmente pequenas, e “a pessoa não gosta de bater a coxa
nos botões” (ver Figura 494).
Na Europa, por sua vez, as pessoas “gostam de botão saltado, porque fica com a pega mais
proeminente, uma coisa maior”, sendo que um dos motivos para tal é a característica antropométrica
das pessoas (“a mão das pessoas de lá é mais avantajada”), de acordo com o Entrevistado “F” (1998)
(ver Figura 495).
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FIGURA 494 - DETALHE DO PAINEL DA LAVADORA DE ROUPA ELECTROLUX “LE750” (BRASIL, 2002)
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FIGURA 495 - DETALHE DO PAINEL DA LAVADORA DE ROUPA HUSQVARNA “MÄSTERTVÄTT 1250 VIP”
(SUÉCIA, 1996)
NOTA:
A marca Husqvarna pertence à corporação Electrolux
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Os requisitos de uso, quanto ao tipo de comunicação gráfica dos eletrodomésticos, também
variam em função da diversidade cultural dos usuários. O painel das lavadoras de roupa, por exemplo,
têm que ter um grafismo que se destaque como um “cartaz” para o mercado brasileiro, porque o
público usuário é muito diverso, compreendendo, inclusive, pessoas analfabetas. Assim, “o corpo tem
que ser maior, o grafismo tem que ser atrativo e chamar a atenção. Tem que ter um texto possível de
identificar a função. Tem que fazer link de cor com programas, de ícones com as fases...” Além disso,
não se pode esperar que a dona de casa vá consultar o manual e dar uma aula para a empregada, ou
a outra pessoa, de como utilizar a lavadora de roupa, por exemplo, observa a Entrevistada “A” (1998).
Os brasileiros geralmente têm dificuldades para interpretar “pictogramas”, como os utilizados
em produtos suecos (ver Figuras 496 e 498), por exemplo, em virtude de possuírem um repertório de
signos distinto e, principalmente, pela falta de hábito de leitura de manuais de instrução de uso. Por
este motivo, utiliza-se, preferencialmente, o máximo de “textos” na comunicação gráfica de produtos
comercializados no Brasil (ver Figuras 497, 499 e 500).
Pelo fato dos brasileiros não costumarem ler manual, pois não têm paciência para tal, o Serviço
de Atendimento ao Consumidor da Electrolux do Brasil solicita que se coloque o máximo de
informações possível no painel de produtos como as lavadoras e os fornos de microondas, dentre
outros. Nestes, “a leitura tem que ser rápida, porque o cara está lá cozinhando e não vai parar para ler
o manual. [...] Então, é uma tecla para assar carne, uma para pipoca, uma para massas, etc. Não
adianta ficar lá com ‘1 minuto’, ‘2 minutos’, ‘3 minutos’...”, relata a Entrevistada “G” (1998) (ver Figuras
499 e 500).
“Dependendo do país, tem que se tomar cuidado com o grafismo, que tem que se relacionar
com o que as pessoas se alimentam. No Brasil, por exemplo, come-se peixe e carne, e a carne que se
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come aqui é mais de gado e não carnes mais exóticas como a do javali, por exemplo”, adverte o
Entrevistado “C” (1998).
No caso do forno de microondas desenvolvido em parceria com a empresa coreana LG, o
mesmo teve que sofrer algumas alterações para o mercado brasileiro, devido a diferenças de hábitos
alimentares. No Brasil, por exemplo, “não consumimos um frango de 800 gramas” como na Coréia,
onde, além disso, as pessoas “consomem caça”, o que também não é um hábito no Brasil. Em vista de
tais diferenças, a Electrolux do Brasil teve que solicitar “um programa completamente diferente” para o
forno de microondas a ser comercializado no mercado brasileiro, conforme relata a Entrevistada “A”
(1998).
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FIGURA 496 - DETALHE DO PAINEL DE COMANDOS DA LAVADORA DE ROUPA ELECTROLUX “EW1555FE”
(SUÉCIA, 1996)
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FIGURA 497 - DETALHES DO PAINEL DE COMANDOS DA LAVADORA DE ROUPA ELECTROLUX “LE750”
(BRASIL, 2002)
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FIGURA 498 - PAINEL DE COMANDOS DO FORNO DE MICROONDAS ELECTROLUX “HEATWAVE
AUTOCOOK & GRILL”(SUÉCIA, 1996)
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FIGURA 499 - PAINÉIS DE COMANDOS DOS FORNOS DE MICROONDAS ELECTROLUX “ME27S” (BRASIL,
2003) E PANASONIC “JUNIOR BROWNER” (BRASIL, 2002)
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FIGURA 500 - PAINÉIS DE COMANDOS DOS FORNOS DE MICROONDAS BRASTEMP “27 LITROS JET
DEFROST” (BRASIL, 2002) E CONSUL (BRASIL, 2004)
FONTE:
Fotos de Maristela M. ONO, 2004
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O norte-americano “gosta de coisa grande, exagerada; às vezes, joga comida fora”, enquanto
que o “europeu, não”, afirma a Entrevistada “H” (1998).
No caso de refrigeradores japoneses, por exemplo, “o layout interno é muito diferente, porque o
hábito alimentar é muito diferente”, observa o Entrevistado “K” (1998).
Dependendo dos hábitos culturais das pessoas, pode surgir a necessidade de compartimentos
específicos para determinados tipos de alimentos e bebidas nos eletrodomésticos.
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Os refrigeradores europeus “costumam ter uma prateleira só para vinhos”, devido ao hábito de
consumo mais acentuado deste tipo de bebida, relata o Entrevistado “F” (1998) (ver Figura 501).
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FIGURA 501 - REFRIGERADOR HUSQVARNA “OPAL PLUS” E FREEZER HUSQVARNA “SAFIR PLUS”, E
DETALHE, MOSTRANDO PORTA-VINHOS DO REFRIGERADOR (SUÉCIA, 1998)
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Tanto no caso da Electrolux do Brasil, quanto da Multibrás, as diferenciações dos produtos
para os vários mercados da América do Sul e Latina têm sido relativamente poucas.
Ainda assim, identificam-se exemplos de diversidade significativas, como no caso dos fogões
da Argentina, que necessitam de um tipo de chama e compartimento específicos para o preparo da
“Parrilla”, um alimento típico consumido no país. “... o fogão, na Argentina, tem que ter a ‘parrillera’259
[...]. Se não tiver, pode botar lá no mercado, pode ser lindo, que eles vão olhar [e dizer:] ‘Ah, que lindo!’,
e não vão comprar”, afirma o Entrevistado “L” (1998).
O “aquecedor de pratos” para o preparo da “Parrilla” (componente denominado de “calienta
platos / parrilla”, em espanhol) é, portanto, requisito essencial em fogões para o mercado argentino,
como se pode observar, por exemplo, na linha comercializada pela Electrolux (ver Quadro 59).
259
Tipo de aquecedor de pratos, apropriado para o preparo da “Parrilla”.
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QUADRO 59 - CARACTERÍSTICAS DE FOGÕES ELECTROLUX, COMERCIALIZADOS NA ARGENTINA (DÉCADA
DE 1990)
NOTA:
Importados da Itália
Destacam-se, portanto, os hábitos alimentares, dentre as convenções culturais que estruturam
o cotidiano e o comportamento de consumo, dentre as principais barreiras à homogeneização dos
produtos, conforme o entendimento de Usunier (1992).
Os requisitos de uso, quanto à divisão de compartimentos e componentes dos
eletrodomésticos também varia entre determinados mercados, em vista de particularidades de hábitos
culturais.
Na China e no Japão, por exemplo, “entram as coisas menores e mais compartimentadas”,
enquanto que, na Europa, as pessoas “gostam de espaços maiores”, relata a Entrevistada “H” (1998)
(ver Figura 502).
Há componentes diferenciados, a exemplo das bandejas rotatórias das prateleiras do
refrigerador japonês Sanyo, apresentado na Figura 502, que facilitam o manejo dos alimentos
acondicionados ao fundo das prateleiras.
Os requisitos de uso dos eletrodomésticos variam entre mercados diversos, quanto ao seu
dimensionamento. Os eletrodomésticos de linha branca norte-americanos, por exemplo, possuem
dimensões maiores, comparativamente aos europeus, asiáticos e sul-americanos em geral (ver
Tabelas 17 e 18).
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FIGURA 502 - REFRIGERADOR SANYO “SR-41ZR” E DETALHE DA GAVETA INFERIOR (JAPÃO, DÉCADA
DE 1990), E REFRIGERADOR SHARP “SJ-PV50H” (JAPÃO, 2004)
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TABELA 17 - DIMENSÕES DE FOGÕES DAS MARCAS: BOSCH (ALEMANHA, 2004), BRASTEMP (BRASIL,
2004), ELECTROLUX (SUÉCIA, 2004) E FRIGIDAIRE (EUA, 2004)
Dimensões
(mm)
Altura
Largura
Profundidade
FONTE:
NOTA:
Fogão
AEG
“Competence”
4 bocas /
elétrico /
sem tampa
Fogão
Brastemp
“Quality”
4 bocas /
a gás /
com tampa
Fogão
Brastemp
“Quality”
6 bocas /
a gás /
com tampa
Fogão
LG
“G-809WP”
4 bocas /
a gás /
sem tampa
Fogão
Frigidaire
“PLCF489AC”
6 bocas /
a gás /
sem tampa
(ALEMANHA)
(BRASIL)
(BRASIL)
(CORÉIA)
(EUA)
850
860*
860*
850
1187,45
500** / 600***
560
770
600
1019,175
600
660
660
600
641,35
Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em: <http://www.aeghausgeraete.de>;
<http://www.brastemp.com.br>;
<http://www2.lge.co.kr/>;
<http://www.frigidaire.com>; <http://national.jp>. Acesso em: 21mar. 2004
* Altura com tampa fechada; ** Fogão AEG “Competence 41005 VD-mn”; ** Fogão AEG
“Competence 61016 VI-an”
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TABELA 18 - DIMENSÕES DE COMBINADOS FREEZER/REFRIGERADOR DAS MARCAS: BRASTEMP
(BRASIL, 2004) ELECTROLUX (BRASIL, 2004), ELECTROLUX (CHINA, 2004), AEG
(ALEMANHA, 2004) E FRIGIDAIRE (EUA, 2004)
Dimensões
(mm)
Combinado
Freezer/
Refrigerador
Brastemp
“Duplex Frostfree 440
Eletrônico”*
Combinado
Freezer/
Refrigerador
Electrolux
“DFW45”*
Combinado
Freezer/
Refrigerador
Electrolux
“BCD291El”
Combinado
Freezer/
Refrigerador
AEG
“SANTO 70
398 DT”
Combinado
Freezer/
Refrigerador
Frigidaire
“FRT21H8CS”
(BRASIL)
(BRASIL)
(CHINA)
(ALEMANHA)
(EUA)
Altura
1869
1865
1880
1650
1752,6
Largura
700
698
601
695
752,47
Profundidade
720
710
659
706
863,60
FONTE:
NOTA:
Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em: <http://www.brastemp.com.br>;
<http://www.electrolux.com.br>; <http://www.electrolux.co.cn>; <http://www.aeg-hausgeraete.de>;
<http://www.frigidaire.com>. Acesso em: 21mar. 2004
* Modelos do tipo “duplex” de maiores dimensões das empresas em questão (em 21 mar. 2004)
A diversidade cultural manifesta-se, também, com relação aos modos de vida e tipos de locais
em que são dispostos os produtos, o que afeta o design dos mesmos, em termos de configuração,
dimensionamento, tipos de manejo, recursos tecnológicos, dentre outros aspectos.
No Brasil, por exemplo, os refrigeradores geralmente são dispostos na cozinha e somente os
modelos mais sofisticados das marcas possuem sistema frost-free. Já nos países asiáticos em geral,
quase todos os refrigeradores e freezers têm sistema frost-free, e não são utilizados somente na
cozinha, mas também na sala.
No Japão, há modelos de refrigeradores, cujas portas tanto podem ser abertas tanto por cima,
quanto por baixo (para quando se está sentado124) e que podem ser utilizados como bancada (ver
Figura 503).
124
Devido ao hábito dos japoneses de sentarem-se ao chão.
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FIGURA 503- AMBIENTE COM REFRIGERADOR SANYO “ARC CUBE” (JAPÃO, DÉCADA DE 1990)
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Não se costumam ter áreas de serviço nas residências e apartamentos da Europa, e a
lavadora de roupa normalmente fica no banheiro, na cozinha, ou em outros ambientes. E alguns de
seus mercados demandam eletrodomésticos de dimensões reduzidas, pela necessidade de instalá-los
em ambientes pequenos. Para estes casos, há opções de lavadoras de roupa, por exemplo, com 400
mm de largura (ver Figura 504).
... máquina de lavar roupa, na Itália, vai dentro do banheiro, porque a maioria das construções de lá são de mil e
setecentos e não têm áreas de serviço. Então, as máquinas de lavar roupa têm que ser estreitinhas, pequenas, e,
antes de entrar no banho, a pessoa tira a roupa e põe na máquina de lavar. [No Brasil,] a maioria das casas têm
área de serviço, onde ficam as máquinas de lavar roupa, ou ficam para fora. Às vezes ficam para fora do espaço e
ficam apanhando chuva... e, então, a máquina tem capa ou coisa assim (ENTREVISTADO “K”).
No Brasil, por sua vez, a lavadora de roupa geralmente é instalada na área de serviço das
casas e apartamentos (ver Figura 505), ou fora das casas, quando não há área de serviço interna.
Neste mercado, não têm sido comercializados modelos tão estreitos. As lavadoras de roupa mais
estreitas da Multibrás, por exemplo, possuem 560 mm, e as mais estreitas da Electrolux possuem 590
mm.
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FIGURA 504 - DETALHE DE BANHEIRO, COM LAVADORA DE ROUPA ZANUSSI (ITÁLIA, 1997), LAVADORA DE
ROUPA REX “RT600”(ITÁLIA, 2004) E LAVADORA DE ROUPA ELECTROLUX “EWT1201”
(SUÉCIA, 2004)
NOTA:
Largura = 400 mm; as marcas Zanussi e Rex pertencem à corporação Electrolux
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 505 - ÁREAS DE SERVIÇO DE RESIDÊNCIAS DE CLASSES “A” E “B”, COM: 1) LAVADORA E
SECADORA DE ROUPA GENERAL ELECTRIC (IMPORTADAS DOS ESTADOS UNIDOS), 2)
LAVADORA DE ROUPA BRASTEMP (BRASIL, 1998)
___________________________________________________________________________________________
Na Europa, encontram-se também opções de fogões com larguras mais reduzidas (ver Figura
506).
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FIGURA 506 - FOGÕES AEG “41035 VD-WC” (ALEMANHA, 2004) E ELECTROLUX “EWT1201” (SUÉCIA, 2004)
NOTA:
Larguras = 50 mm (AEG) e 497 mm (Electrolux)
___________________________________________________________________________________________
O freezer, como observa o Entrevistado “K” (1998), “a gente traz para dentro da cozinha no
Brasil, e, nos Estados Unidos, vai na garagem”.
As transformações vivenciadas pelas sociedades, em termos de perfil da população e modos
de vida, têm trazido implicações significativas ao design de produtos, como se pode observar no
desenvolvimento de linhas de eletrodomésticos mais compactos no Brasil, em vista da necessidade de
adaptar os produtos à redução de espaços arquitetônicos, sobretudo de apartamentos, em decorrência
de fatores diversos, culturais, econômicos e sociais, dentre outros. São exemplos os refrigeradores e
freezers da linha “Slim”, da Consul, que são mais estreitos do que o padrão médio de produtos deste
segmento no Brasil (ver Figura 507).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 507 - FREEZERS CONSUL DA LINHA “SLIM” (BRASIL, DÉCADA DE 1990)
NOTA:
Largura = 476mm
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“O produto americano é [...] grandão, ‘caixona’! Aqui já não comporta esse tipo de produto; não
cabe na casa da pessoa. Então, tem que se atender a realidade local, porque senão não tem mercado”,
salienta a Entrevistada “M” (2001).
Exemplos disto são os Side by Sides (combinados refrigerador/freezer), importados pela
Multibrás, Electrolux e outras empresas. De acordo com o Entrevistado “L” (1998), o Side by Side é
“imenso”, e a Multibrás tem tido cuidado ao importar esses produtos, pois os mesmos “têm,
normalmente, mais de 80 centímetros de profundidade”, e geralmente ”não entram na porta” (ver
Tabela 19 e Figura 508).
TABELA 19 - DIMENSIONAMENTO DE REFRIGERADORES SIDE BY SIDE, IMPORTADOS DOS ESTADOS
UNIDOS PELA ELECTROLUX DO BRASIL E MULTIBRÁS (2004)
Dimensões (mm)
Side by Side
Side by Side
ELECTROLUX SS680
BRASTEMP 700
(importado dos EUA)
(importado dos EUA)
Altura
1783
1782
Largura
917
914
Profundidade
864
904
FONTE:
NOTA:
Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis
<http://www.electrolux.com.br>; <http://www.brastemp.com.br>. Acesso em: 17 mar. 2004
Dimensões sem embalagem
em:
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 508 - REFRIGERADORES SIDE BY SIDE BRASTEMP “700 INOX” E ELECTROLUX “SS680”,
COMERCIALIZADOS NO BRASIL (IMPORTADOS DOS ESTADOS UNIDOS, 2004)
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O Side by Side da Frigidaire (importado pela Electrolux do Brasil), apesar dos consumidores da
“classe A” terem a cozinha “super grande”, normalmente “não passa na porta, não cabe no elevador
[...]. A embalagem260, quando se vai tirá-la para cima, já pega no teto... É difícil de ajustar...”, relata a
Entrevistada “G” (1998). O Entrevistado “D” (1998) acrescenta que, para se ter condições de se instalar
um produto desses em uma casa, ou em um apartamento, tem que se derrubar paredes e se fazer um
projeto apropriado para isso. Por esta razão, acredita que tais produtos não terão uma boa aceitação
no mercado.
Além da questão do dimensionamento, os Side by Side apresentam um “fabricador de gelo”
(ice-maker) (ver Figura 509) que atende a uma especificidade cultural do norte-americano, distinta
neste aspecto à do brasileiro. “Eles querem o gelo quebradinho no copo. A gente não os vê colocando
‘cubinhos’ de gelo como no Brasil”. No Brasil, costuma-se deixar as bebidas gelarem no refrigerador, e
por isso não se acrescenta tanto gelo261. “Tanto é que brasileiro diz que se acrescentar gelo fica
‘aguado’”. Deste modo, “trazer um refrigerador que tem um moedor de gelo na porta” trata-se,
culturalmente, de “uma imposição de um hábito que o brasileiro não tem”, afirma a entrevistada “A”
(1998).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 509 - DETALHE MOSTRANDO ICE-MAKER DO SIDE BY SIDE BRASTEMP “700” (IMPORTADO DOS
ESTADOS UNIDOS, 2002) E DETALHE MOSTRANDO FREEZER COM FORMAS DE GELO DO
REFRIGERADOR ELECTROLUX “DC47” (BRASIL, 2002)
___________________________________________________________________________________________
260 As dimensões, com embalagem, do Side by Side 700, importado pela Multibrás dos Estados Unidos, são as seguintes:
altura = 1869 mm, largura = 1024 mm e profundidade = 1004 mm (Informação disponível em: <http://www.brastemp.com.br>. Acesso em:
17 mar. 2004).
261
No Brasil, costuma-se utilizar gelo conformado em formas geométricas.
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Em relação ao ice-maker, os europeus também não têm o hábito de usá-lo, assim como os
brasileiros também não, diferentemente do norte-americano, que o considera essencial, por consumir
muita bebida com gelo, observa o Entrevistado “D” (1998).
Exemplos como este destacam a necessidade, já mencionada por IIDA (1990), dentre outros,
de se considerar as diferentes características de cada povo, quando se realiza a exportação e a
importação de produtos, de modo a adequá-los aos contextos e usos específicos.
No Japão, a grande necessidade de racionalização no aproveitamento dos espaços tem se
refletido na redução do dimensionamento dos eletrodomésticos em geral, como se pode observar, por
exemplo, no caso dos fogões (ver Figura 510).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 510 - FOGÕES ELÉTRICOS NATIONAL “KZ-SHSW32A” E “KZ-K221C” (JAPÃO, 2004)
NOTA:
Dimensõres: 1) largura = 749mm, profundidade = 563, altura = 230; 2) largura = 590mm,
profundidade = 521, altura = 180
___________________________________________________________________________________________
A diversidade de tipos de embalagens de produtos utilizados ao longo da história e nos vários
mercados tem levado também à diferenciação do design industrial para os mesmos.
Observam-se, nas sociedades, transformações nos hábitos alimentares, nas embalagens de
bebidas e alimentos, que, por sua vez, demandam alterações no design de produtos.
Os compartimentos internos dos refrigeradores do Brasil, por exemplo, foram sofrendo
modificações em seu design, com a entrada de novos tipos de embalagens, como as garrafas de
refrigerantes pet, de 1,5 e 2 litros, as latas de cerveja e refrigerante, dentre outras (ver Figuras 511 a
513).
Variam também os tipos de embalagens entre mercados diversos.
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As embalagens, nos Estados Unidos, são diferentes. O compartimento de porta, por exemplo, tem o tamanho para
se colocar galão de suco de laranja, etc., enquanto que, aqui, não se usa galão, mas garrafas de 2 litros, etc., que
ficam dançando na porta. E assim por diante [...] É curioso que, quando se faz uma pesquisa assim pelo mundo,
apesar de existir um acompanhamento global das novas tecnologias de embalagens, por exemplo, em cada
região, o leite, por exemplo, é vendido em embalagens de diferentes litragens, porque em cada país existe um
hábito de consumo diferenciado. E a cultura faz com que as pessoas tenham uma diferente percepção dos
produtos... (GAMA JÚNIOR, 2001). [sem grifo no original]
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 511 - REFRIGERADORES PROSDÓCIMO (BRASIL, DÉCADA DE 1960), PROSDÓCIMO “SPAZIO
PLUS” (BRASIL, 1988)
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FIGURA 512 - REFRIGERADORES ELECTROLUX “RDE37” E “DFF37” (BRASIL, 2004)
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FIGURA 513 - REFRIGERADORES BRASTEMP “DUPLEX ICE MAGIC 440” (BRASIL, 1978) E “DUPLEX
FROST-FREE 440 ELETRÔNICO ICE MAGIC” (BRASIL, 2004)
___________________________________________________________________________________________
Há necessidade de inserção de componentes específicos no design de produtos para
determinados mercados, em vista da diversidade cultural, a exemplo do “porta-ovos” em refrigeradores
do Brasil (ver Figuras 514 e 515).
O Brasil, por exemplo, tem características muito próprias. Um exemplo é o hábito de consumir ovos. Nenhum
país do mundo consome tantos ovos quanto o Brasil. Talvez pela herança cultural portuguesa, os brasileiros
também gostem de ovos. Muitas pesquisas nossas mostraram que, a decisão no ponto de venda, na compra de
refrigerador, muitas vezes é feita pelo tamanho do porta-ovos. Às vezes a gente fica pensando, "Ah, isso é
besteira!", mas às vezes ganha-se uma venda, porque a dona de casa, na hora que vai comprar o refrigerador, ela
chega e diz "Ah, adorei esse refrigerador, porque cabem 24 ovos!". Já na Argentina, por exemplo, a mulher não
quer saber de porta-ovos, porque lá ela compra os ovos naquela embalagem de isopor ou de papelão, e
guarda assim no refrigerador. E a brasileira, de um modo geral, não guarda na embalagem. Ela tira, ovinho
por ovinho, e os coloca no porta-ovos GAMA JÚNIOR, 2001). [sem grifo no original]
Um componente que surgiu no Brasil nos últimos anos foi o porta-latas de refrigerante e
cerveja (ver Figuras 512 a 514).
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FIGURA 514 - DETALHES DOS REFRIGERADORES ELECTROLUX “DC47” E “DFF44”, MOSTRANDO PORTAOVOS E PORTA-LATA (BRASIL, 2002)
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FIGURA 515 - DETALHES DOS REFRIGERADORES CONSUL “CRC 23 C” (BRASIL, 1997) E “330” (BRASIL,
2001)
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Potes, embalagens de refrigerantes e sucos, tetrapacks, dentre outras coisas, são um pouco
diferentes na Argentina em relação ao Brasil. O pote de suco argentino, por exemplo, “tem uma base
maior, é mais baixinho e mais estável, e ocupa mais espaço na prateleira”, observa a Entrevistada “A”
(1998). Além disso, acrescenta o Entrevistado “F” (1998), no caso de refrigeradores, o mercado
argentino solicita a colocação de uma prateleira específica para se colocar vinhos, hábito não tão
difundido no Brasil.
Apesar de diferenças, como as mencionadas, a Electrolux do Brasil não tem desenvolvido, até
o momento, salvo raras exceções, produtos com design específico para a Argentina, devido ao limitado
volume de venda. Desta forma, segundo a Entrevistada “A” (1998), o mercado argentino tem que
buscar soluções paliativas para as suas necessidades particulares, e, por exemplo, “se aquele pote de
dois litros de suco da Argentina não cabe na porta, tem que ficar na prateleira”.
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Somente em alguns casos excepcionais, como o da lavadora de roupa, tem-se um produto
produzido pela Electrolux do Brasil especificamente para a Argentina, porém resultante de uma
composição de peças e ferramental já existentes na empresa (ENTREVISTADA “A”, 1998).
Outra exceção é a enceradeira da marca Lux, desenvolvida pela Electrolux do Brasil para o
mercado argentino. Diferente dos modelos comercializados no Brasil, “... tem até polidor de pedra. E a
enceradeira tem várias escovas para se trocar, inclusive uma que chega a lixar pedra. Além disso, tem
um líquido apropriado para dar brilho em granito, tem embalagem especial...”, relata o Entrevistado “E”
(1998).
Salienta a necessidade de diferenciação no design de produtos, face às funções específicas de
uso dos mesmos. Conforme afirma a Entrevistada “A” (1998), “o design também passa pelo uso, pelo
hábito local. O fato de se ter mais botões ou menos botões, mais programas ou menos programas,
também faz parte do tipo de uso, da identificação, do contato com o consumidor...”.
Um exemplo de diferenciação de requisitos de uso dos produtos, em decorrência da
diversidade cultural e transformações da sociedade, é o condicionador de ar.
Na maioria dos países do mundo, se está migrando ou migrou-se completamente para
condicionador de ar do tipo Split-air (ver Figuras 516 e 517), que só tem um painel fixado à parede e
cujo sistema de funcionamento é todo remoto.
No Brasil, por outro lado, costuma-se utilizar condicionador de ar do tipo Window (ver Figura
518), que é fixado na parede, junto com o motor e o compressor, como observa a Entrevistada “A”
(1998).
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FIGURA 516 - CONDICIONADOR DE AR NATIONAL “KIREI”, DO TIPO “SPLIT AIR” (JAPÃO, 2004)
NOTA:
Dimensões: altura = 298 mm, largura = 870 mm, profundidade = 199 mm
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FIGURA 517 - CONDICIONADOR DE AR ELECTROLUX “SPLIT1 5TR” (ÍNDIA, 2004) E ELECTROLUX “KFR35GWHS-S” (CHINA, 2004), DO TIPO “SPLIT AIR”
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FIGURA 518 - CONDICIONADORES DE AR BRASTEMP “ELETRÔNICO 12.000” E ELECTROLUX “7.500”, DO TIPO
“WINDOW” (BRASIL, 2000)
NOTA:
Dimensões: 1) altura = 400 mm, largura = 660 mm, profundidade = 705 (Brastemp); 2) altura = 320
mm, largura = 470 mm, profundidade = 570 mm (Electrolux)
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No Brasil, costuma-se usar controle remoto para comandar o ar condicionado, e “quem compra
um condicionador de ar está alinhando esse valor de compra com produtos eletrônicos, como
aparelhos de som, televisor, etc. Então, ele tem que ter essa semântica; tem que ser esse o resultado
de resposta, principalmente pela facilidade de uso”, porque o ar condicionado costuma ser instalado na
parede a uma altura tal, que dificulta o acesso direto aos botões de comando. Nos Estados Unidos, por
sua vez, não se tem essa necessidade, porque o ar condicionado é normalmente instalado na janela.
Trata-se de “uma condição bem específica do nosso mercado”, decorrente de uma necessidade de
uso; não é um luxo, segundo o Entrevistado “K” (1998).
Há mercados, como da Coréia, por exemplo, que utilizam também condicionadores de ar do
tipo autoportante (ver Figura 519).
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FIGURA 519 - CONDICIONADOR DE AR LG “LPC151WPR”, DO TIPO AUTOPORTANTE (CORÉIA, 2004)
NOTA:
Dimensões: altura = 1750 mm; largura = 480 mm; profundidade = 290 mm
___________________________________________________________________________________________
O condicionador de ar ilustra também a relação entre design, gênero e tecnologia.
Antigamente, por exemplo, para o brasileiro, “o condicionador de ar era um produto para o público
masculino, porque mexer no aparelho era quase como regular um motor”, lembra o Entrevistado “K”
(1998). Com o controle remoto, estendeu-se o uso do mesmo às mulheres e crianças.
Muitas inovações tecnológicas têm contribuído para a melhoria da qualidade de produtos e
promovido a incorporação de novas funções nos mesmos, a exemplo das lavadoras de roupa, que
apresentam, atualmente, um maior número de funções, comparativamente aos modelos mais antigos
(ver Figuras 520 e 521).
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FIGURA 520 - DETALHES DO PAINEL DE COMANDOS DA LAVADORA DE ROUPA BRASTEMP
“AUTOMÁTICA” (BRASIL, 1961)
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FIGURA 521- DETALHE DO PAINEL DE COMANDOS ELETRÔNICO DA LAVADORA DE ROUPA BRASTEMP
“ADVANTECH WASH 6 KG” COM ÁGUA QUENTE (BRASIL, 2002)
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O desenvolvimento da tecnologia, no entanto, não ocorre de modo uniforme nas várias
sociedades, variando também os requisitos de uso dos produtos, em termos de recursos tecnológicos,
entre pessoas de culturas distintas.
O Side by Side “GRD-267DTU” (ver Figura 552), por exemplo, da empresa coreana LG, possui
sistema multimídia digital, que possibilita assistir TV, acessar Internet e ouvir música. Este produto já
vem sendo comercializado na Inglaterra, dentre outros mercados, mas não há, ainda, nenhum modelo
com sistema similar sendo comercializado no Brasil.262
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 522 - SIDE BY SIDE SAMSUNG “GDR-267DTU” (CORÉIA DO SUL, 2004)
FONTE:
Disponível em: <http://www.lge.co.uk>. Acesso em: 09 abr. 2004
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No Japão, há modelos de lavadoras de roupa que possuem sistema de deodorização
antibacteriana com Prata ionizada, para desinfecção de roupas. Há, também, refrigeradores com
sistema para desinfecção do ar do ambiente, por meio de ionização germicida, e, ainda, painel de
cristal líquido, com funções de timer, indicação de período de retenção de comida, mensagem de voz,
agenda, calendário, dentre outras, ainda não incorporadas nos produtos desenvolvidos para o mercado
brasileiro e outros (ver Figuras 523 e 525).
262
Informações disponíveis em: <http://www.lge.co.uk>. Acesso em: 09 abr. 2004
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FIGURA 523 - ILUSTRAÇÃO SOBRE O SISTEMA DE DEODORIZAÇÃO ANTIBACTERIANA COM PRATA
IONIZADA DA LAVADORA DE ROUPA SHARP “ES-KG83V” (JAPÃO, 2004)
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FIGURA 524 - ILUSTRAÇÃO SOBRE O SISTEMA DE DESINFECÇÃO DO AR EXTERNO POR IONIZAÇÃO
GERMICIDA DO REFRIGERADOR SHARP “ES-PV50H” (JAPÃO, 2004)
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FIGURA 525 - ILUSTRAÇÃO DO PAINEL DE CRISTAL LÍQUIDO DO REFRIGERADOR SHARP “ES-PV50H”,
COM TIMER, AGENDA, CALENDÁRIO, DENTRE OUTRAS FUNÇÕES (JAPÃO, 2004)
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A lavadora de roupa Whirlpool “6th Sense”, comercializada na Europa, possui sensores
eletrônicos que monitoram e ajustam automaticamente a lavagem, utilizando o mínimo de tempo e
consumo de energia e água necessário.263 E a lavadora de roupa Electrolux Kelvinator “Washy Talky”,
lançada na Índia, em 2004, possui sistema com “comandos de voz” (pioneiro no mundo em lavadoras
de roupa), com noventa instruções diferentes em inglês e hindi. Seu software avalia o peso da roupa, a
quantidade ideal de água e sabão, e a duração da lavagem 264 (ver Figura 526).
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FIGURA 526 - LAVADORA DE ROUPA WHIRLPOOL “6TH SENSE” (INGLATERRA, 2004); LAVADORA DE
ROUPA ELECTROLUX KELVINATOR “WASHY TALKY” (ÍNDIA, 2004)
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As empresas não têm desenvolvido refrigeradores e lavadoras com esses sistemas no Brasil.
Persistem determinados elementos no design de produtos, vinculados à herança cultural da
sociedade, mantendo o elo entre o “velho” e o “novo”. No Brasil, por exemplo, há um tipo peculiar de
lavadora de roupa, conhecido como “tanquinho”, que possui uma parte similar à tradicional tábua de
lavar roupas (ver Figura 527).
263
Informações disponíveis em: <http://www.whirlpool.co.uk>. Acesso em: 10 abr. 2004.
264
Informações disponíveis em: <http://www.electrolux.com.br>. Acesso em: 25 mar. 2004.
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FIGURA 527 - DETALHE DE LAVADORA DE ROUPA MULLER “POP TANK” (BRASIL, 2004)
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Os requisitos de uso dos produtos também variam em questões de segurança, em vista da
diversidade cultural e de legislação entre mercados. A Europa, por exemplo, é “muito mais cuidadosa”
neste aspecto do que o Brasil. “Às vezes, em um país de lá, que é mais rigoroso em termos de
segurança, principalmente no que se trata da criança, tem que ter lock265 [nos produtos], além de outros
detalhes”, afirma a Entrevistada “H” (1998) (ver Figuras 528 e 529).
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FIGURA 528 DETALHE DE DISPOSITIVOS DE SEGURANÇA (PROTEÇÃO DE BOTÕES DE COMANDO E BARRA
PROTETORA DA ÁREA DE PANELAS) DE UM FOGÃO DA AEG (EUROPA, 1997); DETALHE DE FOGÃO
WHIRLPOOL, MOSTRANDO SISTEMA DE SEGURANÇA DE FORNO, CUJA TEMPERATURA MÁXIMA
EXTERNA DO VIDRO É DE 55OC (EUROPA, 1997)
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265
[Lock é um termo em inglês que se refere, no texto, à “trava”.]
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FIGURA 529 - FOGÃO ELECTROLUX “EK 6173”, COM TRAVA DE SEGURANÇA NAS PORTAS (SUÉCIA, 1998)
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Os produtos diferenciam-se significativamente, “de região para região, em função das
diferenças de “hábitos de uso e de segurança”. Os fogões que vão para a Argentina, por exemplo, “têm
que ter um dispositivo na parte de trás, que permite que a pessoa aparafuse o fogão na parede, para
evitar, por exemplo, que uma criança pise na tampa, e o fogão bascule para frente e caia, ou que as
coisas queimem a pessoa”, relata o Entrevistado “K” (1998).
No caso da Multibrás, por atuar de uma maneira ampla na América Latina, acabam-se
incorporando certos dispositivos de segurança também em produtos direcionados ao mercado
brasileiro. E a abertura de mercado e o Mercosul têm contribuído para a equalização de padrões de
segurança (ENTREVISTADO “K”, 1998).
Mesmo no caso de dispositivos de segurança que já estão sendo implantados em produtos
desenvolvidos para o mercado brasileiro, variam os requisitos de uso, em vista da diversidade cultural.
O Entrevistado “E” (1998) relata que foi desenvolvido um liquidificador para o mercado
brasileiro, que “tem um sistema de segurança que, quando a pessoa tira a tampa, ele desliga. Isso para
evitar que a criança tire a tampa e enfie a mão dentro, por exemplo. Todas as lavadoras de roupa do
Brasil têm esse sistema; quando a pessoa abre a tampa, ela desliga”. O problema é que as pessoas às
vezes burlam o sistema de segurança; “... enfiam um negócio no buraquinho, para acioná-la e vê-la
funcionando, etc”. E “é por isso que estão sendo feitas com tampa de vidro” (ver Figuras 530 e 531).
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FIGURA 530 - DETALHES DAS LAVADORAS DE ROUPA CONSUL “AUTOMÁTICA 5KG” E BRASTEMP
“ADVANTECH WASH 8KG”, MONSTRANDO OS TAMPOS COM JANELA (BRASIL, 2002)
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FIGURA 531 - DETALHES DAS LAVADORAS DE ROUPA ELECTROLUX “TURBO LIMPEZA 8KG” E “PREMIUM
ELETRÔNICA AUTO-AQUECIMENTO 8KG”, MOSTRANDO OS TAMPOS COM JANELA
(BRASIL, 2002)
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“... o povo brasileiro tem o hábito de não reclamar, de não ser tão exigente. Já o europeu é
mais exigente, e o americano, principalmente, qualquer coisa, processa...”, afirma o Entrevistado “E”
(1998). E a influência destes povos tem contribuído para que os brasileiros se conscientizem mais
acerca da questão de segurança.
A durabilidade dos produtos também varia entre os mercados. O Entrevistado “L” (1998) relata
que produtos de marcas como a Bauknecht (marca de topo da Whirlpool na Europa), Siemens, Mielle,
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dentre outras européias, “custam caro uma barbaridade, mas têm garantia de vários anos. Duram
quinze sem dar problemas, e tem gente que tem o produto há cinqüenta anos...”.
Em mercados como da Suécia, por exemplo, percebe-se uma maior atenção com relação a
pessoas idosas e deficientes físicos. Isto tem se refletido no desenvolvimento de produtos mais “fáceis
de manipular, de visualizar...”, como observa o Entrevistado “F” (1998). Um exemplo é o combinado
freezer/refrigerador Electrolux Sensa Hand266, dentre outros produtos, cujos puxadores foram
desenvolvidos com uma ergonomia adequada ao uso por esse tipo de pessoas (ver Figura 532).
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FIGURA 532 - COMBINADO REFRIGERADOR/FREEZER ELECTROLUX “SENSA HAND” E DETALHE DE PUXADOR DE
REFRIGERADORES E FREEZERS VERTICAIS ELECTROLUX (SUÉCIA, 1998)
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A gama de produtos ofertados também varia, de acordo com os mercados. A América do Sul,
por exemplo, tem “uma linha muito enxuta”, segundo Bertola (1998; 2001). “... na Europa, para cada
marca se tem, por exemplo, uns quinze modelos de fogão. Eles vão mudando o botão, os puxadores, o
design de alguma coisa, e mesmo a função (uns fogões são a gás, outros são elétricos, outros usam
vidro cerâmico, etc)”. Na América do Sul, a linha local “é muito pequena”. E, no caso do Brasil, a
dificuldade de acertar é maior, porque, além de não se ter uma oferta muito grande, e existir “uma
tendência muito forte de se fazer um produto com poucas coisas”, os modelos ofertados têm que
atender também as necessidades de outros mercados da América do Sul, como o argentino, por
exemplo.
266
Este produto recebeu o Prêmio Handtaget de Design, da Rainha Silvia da Suécia, em 1998.
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Para se ter uma idéia, a Electrolux do Brasil comercializa, atualmente, 20 modelos de
refrigeradores, incluindo-se os importados, enquanto que, na Suécia, somente da marca Electrolux, são
comercializados 102 modelos.
Existem produtos tipicamente utilizados por determinados mercados. Um exemplo é o
liquidificador, que, segundo a Entrevistada “A” (1998), “quase só vende no Brasil”. Enquanto a maioria
dos outros mercados “compra mixer e outras coisas”, “as brasileiras gostam de bater tudo no
liquidificador; até massa de bolo!”.
As pesquisas realizadas sobre o uso dos eletrodomésticos salientam a necessidade de uma
maior atenção, por parte dos designers, em relação às características, necessidades e anseios
particulares das pessoas de culturas diversas, no desenvolvimento de produtos.
De vez em quando a gente faz, na área de design, estudos do comportamento da dona de casa comum. Uma
pessoa nossa vai e entra na casa e pede para fotografar a geladeira, de porta aberta. E fotografa também alguns
detalhes da casa, da cozinha, da lavanderia, e depois a gente analisa. E a gente vê que o que está dentro da
geladeira da pessoa da Bahia é totalmente diferente do que a da pessoa de Manaus, de Belém... Em Belém,
Manaus, naquela região, as pessoas comem muitas coisas da Amazônia; aqueles produtos que só existem lá. [...]
têm sabores diferentes, são preparados de forma diferente. O açaí é um exemplo. O paraense comum é muito
mais forte. Ele não vive sem o açaí. Ele usa aquilo para fazer suco, doce, o molho da carne... Ele usa tanto para o
doce, quanto para o salgado. [...] Lá, quando se abre a geladeira, e os produtos são todos diferentes. É claro que
sempre vai ter um ou outro produto que vai ser nacional, mas a base da alimentação é bem diferente. Então, será
que nós não deveríamos fazer um fogão, uma geladeira, específicos para esse povo, que se identifique
mais com os seus hábitos? Eu acredito que sim (GAMA JÚNIOR, 2001). [sem grifo no original]
O planejamento de uso para os eletrodomésticos nem sempre coincide com a prática, em vista
da diversidade cultural existente entre as pessoas e grupos sociais. Na realidade, para um mesmo tipo
de eletrodoméstico, existem inúmeras possibilidades de usos, de acordo com os hábitos culturais de
cada um e a dinâmica das transformações do indivíduo e da sociedade.
Pesquisas de mercado, como as realizadas pelo Laboratório de Avaliação de Produto da
Multibrás, confirmam esta questão.
... às vezes a pessoa desconhece algo que o produto tem, e, por isso, não o utiliza. Às vezes, a pessoa usa
um compartimento para uma outra coisa, mesmo sabendo que se destina a algo diferente, para adaptar à
sua necessidade. [...] Desenvolvi um trabalho de observação de um mesmo produto em diversas regiões. [...]
Foram fotografados, por exemplo, em São Paulo, como são utilizados os compartimentos. As verduras e legumes
nem sempre ficam só nos compartimentos destinados aos mesmos. Muitas vezes eles sobem para outras
prateleiras. [...] Na gaveta de baixo ficam acondicionados melhor, mas tem-se o uso em cima. Então, temos que
começar a pensar em soluções que venham ao encontro do uso. Em Salvador, por exemplo, o consumo de
líquido é muito grande. Alguns exemplos são muito expressivos e a gente começa a mapear e fazer uma leitura
dos usos. E, se a gente tem esse panorama nacional, fica muito mais interessante. A gente vê como as pessoas
se apropriam dos espaços. Tem um exemplo em que a pessoa cortou a embalagem de ovos, para facilitar o
pegar, em que ela desenvolveu uma embalagem própria para ela. Há exemplos uso em Manaus, onde se observa
o acondicionamento galões de água no refrigerador. Há exemplos em que a pessoa retira alguns componentes,
como, por exemplo, alguma prateleira, o compartimento para colocar gelo, etc. O relatório fala que a maioria não
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sabia que esse compartimento servia para colocar gelo. A questão de embalagens também é observada. Há
casos que nos levam a ter que repensar, por exemplo, se o compartimento para frutas deveria ficar mais acima.
Há casos em que a pessoa muda o local de acondicionamento dos ovos. [...] Às vezes, metade do refrigerador é
preenchida por verduras. É uma questão de hábito alimentar. Então, por isso é que a gente tem que parar
para pensar... O uso é que dá o input. [...] Tem coisas que são clássicas; que são observadas em toda parte.
Tem compartimentos que são convidativos para se colocar, por exemplo, a metade de um limão, a metade de uma
cebola. Tem gente que coloca panela dentro do refrigerador... Há exemplos de refrigeradores de Joinville, onde
encontram-se muitos doces, porque os alemães consomem muito doce, muita geléia... Em Manaus, encontram-se
muitas frutas (Entrevistada “M”) [sem grifo no original] (ver Figuras 533 a 536).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 533 - CENAS DE USO DE REFRIGERADORES BRASTEMP NA CIDADE DE MANAUS / AM (BRASIL, 2000)
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FIGURA 534 - CENA DE USO DE REFRIGERADOR BRASTEMP NO ESTADO DA BAHIA (BRASIL, 2000)
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FIGURA 535 - CENAS DE USO DE REFRIGERADORES BRASTEMP NA CIDADE DE SÃO PAULO / SP (BRASIL,
2000)
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FIGURA 536 - CENAS DE USO DE REFRIGERADORES BRASTEMP NA CIDADE DE JOINVILLE / SC (BRASIL, 2000)
___________________________________________________________________________________________
O reconhecimento da qualidade do trabalho dos designers brasileiros tem levado as
corporações a delegarem aos mesmos o desenvolvimento de determinados produtos para outros
mercados, além do brasileiro. A Multibrás, por exemplo, além de ser responsável pelo desenvolvimento
de produtos para a América Latina, tem desenvolvido alguns para a Índia, China, Europa, e, inclusive,
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para os Estados Unidos, onde se encontra sediada a matriz da Whirlpool, que possui seu próprio centro
de design.
A Entrevistada “M”, Designer de ergonomia e usabilidade da Multibrás, relata a experiência de
desenvolvimento, pela Multibrás, de um refrigerador para a Índia, com a participação de designers e
outros profissionais brasileiros, e mais três indianos, das áreas de Engenharia e Marketing.
Esse refrigerador que foi desenvolvido para a Índia, por exemplo, só é comercializado lá. Não tem mercado
para cá, apesar de muitas pessoas terem-no achado interessante. Ele é todo focado nos hábitos alimentares
de lá. Eles não consomem carne. O que vai lá dentro, no mínimo em 50%, é água. Eles quase não colocam
nenhum tipo de carne. Frutas e água é praticamente o que vai lá dentro. Então, eles precisam de mais espaço
para colocar garrafas. A prateleira que temos aqui é a mesma, só que aqui nós temos uma prateleira para água,
e lá eles têm duas. É um produto global, porque é feito com a mesma plataforma, só que lá tem que se ter,
por exemplo, chave na porta, para que os macacos não roubem alimentos, enquanto que aqui não é
preciso ter. Lá se tem o costume de utilizar pezinhos altos nos refrigeradores, para facilitar a limpeza do
chão. Aqui o refrigerador não tem pé. Então, são necessárias adaptações, porque senão não vende. Se
fizermos um único produto, que mais ou menos atenda um pouquinho aqui e lá, não vai agradar nem um,
nem outro, porque eles não vão ter a sua identidade no produto (Entrevistada “M”, 2001). [sem grifo no
original] (ver Figura 537)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 537 - DETALHES DE EXTERIOR E INTERIOR DE UM REFRIGERADOR DA WHIRPOOL (INDIA, 2001)
NOTA:
Design desenvolvido pelo Centro de Design da Multibrás, com a participação de indianos das
áreas de engenharia e marketing; a prateleira superior possui uma parte removível, para o
acondicionamento de vasilhas maiores com água.
___________________________________________________________________________________________
Nesta experiência, “os designers que trabalharam foram diversas vezes para a Índia, para fazer
pesquisa, ir à casa de consumidores, para entender mais aquele mundo, que é muito diferente”, lembra
Gama Júnior (2001).
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O fato de não existir, de um modo geral, uma diferenciação dos produtos para os diferentes
mercados internos de cada país, como no caso do Brasil, por exemplo, “é um problema” para os
designers e para a indústria, em função da “diferença cultural” que se tem entre as várias regiões,
conforme salienta o Entrevistado “D” (1998).
A abordagem genérica no design de produtos tem levado a certas adaptações informais
realizadas pelos próprios usuários, a fim de melhor atender suas necessidades específicas. No
Nordeste do Brasil, por exemplo, o freezer horizontal tem sido utilizado de uma forma distinta, em
relação ao Sul do país, onde se costuma acondicionar sorvetes, bebidas e carnes, dentre outros
produtos. De acordo com o Entrevistado “D” (1998), os nordestinos “utilizam-no para resfriar coco, para
fazer barra de gelo”. Assim, há situações em que enchem o freezer de água para fazer barra de gelo, e
outras em que enchem-no de água de coco “e fazem um furo no gabinete do produto, para servir esse
côco gelado na praia”.
Exemplos como este confirmam a visão de Certeau (1994), segundo a qual a criatividade
popular consegue compor maneiras diversas de utilizar os produtos, ainda que estes sejam impostos
de uma forma padronizada pela ordem econômica dominante.
Da mesma forma, compreende-se que a “produção de massa” e o “consumo de massa” de
produtos não resultam, necessariamente, em uma “cultura de massa”, ou seja, na absorção passiva
dos bens de consumo e na homogeneização das culturas. Conforme o entendimento de Baudrillard
(1993) e Braudel (1969), dentre outros, percebe-se o caráter ativo da relação dos indivíduos com os
objetos, que ganham significados particulares, no processo cultural em que se inserem.
Os requisitos de uso dos produtos fazem parte de um processo dinâmico, e a diversidade
cultural precisa ser considerada com muita atenção no design industrial, a fim de se buscar atender os
anseios e as necessidades fundamentais das pessoas, nos contextos plurais e no seio das
transformações culturais, sociais, ambientais e econômicas, dentre outras, vivenciadas pelas mesmas
na sociedade.
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