design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 789 FIGURA 1FIGURA 2FIGURA 3FIGURA 4FIGURA 5FIGURA 6FIGURA 7FIGURA 8FIGURA 9FIGURA 10FIGURA 11FIGURA 12FIGURA 13FIGURA 14FIGURA 15FIGURA 16FIGURA 17FIGURA 18FIGURA 19FIGURA 20FIGURA 21FIGURA 22FIGURA 23FIGURA 24FIGURA 25FIGURA 26FIGURA 27FIGURA 28FIGURA 29FIGURA 30FIGURA 31FIGURA 32FIGURA 33FIGURA 34FIGURA 35FIGURA 36FIGURA 37FIGURA 38FIGURA 39FIGURA 40FIGURA 41FIGURA 42FIGURA 43FIGURA 44FIGURA 45FIGURA 46FIGURA 47FIGURA 48FIGURA 49FIGURA 50FIGURA 51FIGURA 52FIGURA 53FIGURA 54FIGURA 55FIGURA 56FIGURA 57FIGURA 58FIGURA 59FIGURA 60FIGURA 61FIGURA 62FIGURA 63FIGURA 64FIGURA 65FIGURA 66FIGURA 67FIGURA 68Figura 69FIGURA 70FIGURA 71FIGURA 72FIGURA 73FIGURA 74FIGURA 75FIGURA 76FIGURA 77FIGURA 78FIGURA 79FIGURA 80FIGURA 81FIGURA 82FIGURA 83FIGura 84FIGURA 85FIGURA 86FIGURA 87FIGURA 88FIGURA 89FIGURA 90FIGURA 91FIGURA 92FIGURA 93FIGURA 94FIGURA 95FIGURA 96FIGURA 97FIGURA 98FIGURa 99FIGURA 100FIGURA 101FIGURA 102FIGURA 103FIGURA 104FIGURA 105FIGURA 106FIGURA 107FIGURA 108FIGURA 109FIGURA 110FIGURA 111FIGURA 112FIGURA 113FIGURA 114FIGURA 115FIGURA 116FIGURA 117FIGURA 118FIGURA 119FIGURA 120FIGUra 121FIGURA 122FIGURA 123FIGURA 124FIGURA 125FIGURA 126FIGURA 127FIGURA 128FIGURA 129FIGURA 130FIGURA 131FIGURA 132FIGURA 133FIGURA 134FIGURA 135FIGURA 136FIGURA 137FIGURA 138FIGURA 139FIGURA 140FIGURA 141FIGURA 142FIgura 143FIGURA 144FIGURA 145FIGURA 146FIGURA 147FIGURA 148FIGURA 149FIGURA 150FIGURA 151FIGURA 152FIGURA 153FIGURA 154FIGURA 155FIGURA 156FIGURA 157FIGURA 158FIGURA 159FIGURA 160FIGURA 161FIGURA 162FIGURA 163FIGURA 164FIGURA 165FIGURA 166FIGURA 167FIGURA 168FIGURA 169FIGURA 170FIGURA 171FIGURA 172FIGURA 173FIGURA 174FIGURA 175FIGURA 176FIGURA 177FIGURA 178FIGURA 179FIGURA 180FIGURA 181FIGURA 182FIGURA 183FIGURA 184FIGURA 185FIGURA 186FIGURA 187FIGURA 188FIGURA 189FIGURA 190FIGURA 191FIGURA 192FIGURA 193FIGURA 194FIGURA 195FIGURA 196FIGURA 197FIGURA 198FIGURA 199FIGURA 200FIGURA 201FIGURA 202FIGURA 203FIGURA 204FIGURA 205FIGURA 206FIGURA 207FIGURA 208FIGURA 209FIGURA 210FIGURA 211FIGURA 212FIGURA 213FIGURA 214FIGURA 215FIGURA 216FIGURA 217FIGURA 218FIGURA 219FIGURA 220FIGURA 221FIGURA 222FIGURA 223FIGURA 224FIGURA 225FIGURA 226FIGURA 227FIGURA 228FIGURA 229FIGURA 230FIGURA 231FIGURA 232FIGURA 233FIGURA 234FIGURA 235FIGURA 236FIGURA 237FIGURa 238FIGURA 239FIGURA 240FIGURA 241FIGURA 242FIGURA 243FIGURA 244FIGURA 245FIGURA 246FIGURA 247FIGURA 248FIGURA 249FIGURA 250FIGURA 251FIGURA 252FIGURA 253FIGURA 254FIGURA 255FIGURA 256FIGURA 257FIGURA 258FIGURA 259FIGura 260FIGURA 261FIGURA 262FIGURA 263FIGURA 264FIGURA 265FIGURA 266FIGURA 267FIGURA 268FIGURA 269FIGURA 270FIGURA 271FIGURA 272FIGURA 273FIGURA 274FIGURA 275FIGURA 276FIGURA 277FIGURA 278FIGURA 279FIGURA 280FIGURA 281Figura 282FIGURA 283FIGURA 284FIGURA 285FIGURA 286FIGURA 287FIGURA 288FIGURA 289FIGURA 290FIGURA 291FIGURA 292FIGURA 293FIGURA 294FIGURA 295FIGURA 296FIGURA 297FIGURA 298FIGURA 299FIGURA 300FIGURA 301FIGURA 302FIGURA 303FIGURA 304FIGURA 305FIGURA 306FIGURA 307FIGURA 308FIGURA 309FIGURA 310FIGURA 311FIGURA 312FIGURA 313FIGURA 314FIGURA 315FIGURA 316FIGURA 317FIGURA 318FIGURA 319FIGURA 320FIGURA 321FIGURA 322FIGURA 323FIGURA 324FIGURA 325FIGURA 326FIGURA 327FIGURA 328FIGURA 329FIGURA 330FIGURA 331FIGURA 332FIGURA 333FIGURA 334FIGURA 335FIGURA 336FIGURA 337FIGURA 338FIGURA 339FIGURA 340FIGURA 341FIGURA 342FIGURA 343FIGURA 344FIGURA 345FIGURA 346FIGURA 347FIGURA 348FIGURA 349FIGURA 350FIGURA 351FIGURA 352FIGURA 353FIGURA 354FIGURA 355FIGURA 356FIGURA 357FIGURA 358FIGURA 359FIGURA 360FIGURA 361FIGURA 362FIGURA 363FIGURA 364FIGURA 365FIGURA 366FIGURA 367FIGURA 368FIGURA 369FIGURA 370FIGURA 371FIGURA 372FIGURA 373FIGURA 374FIGURA 375FIGURA 376FIGUra 377FIGURA 378FIGURA 379FIGURA 380FIGURA 381FIGURA 382FIGURA 383FIGURA 384FIGURA 385FIGURA 386FIGURA 387FIGURA 388FIGURA 389FIGURA 390FIGURA 391FIGURA 392FIGURA 393FIGURA 394FIGURA 395FIGURA 396FIGURA 397FIGURA 398FIGURA 399FIGURA 400FIGURA 401FIGURA 402FIGURA 403FIGURA 404FIGURA 405FIGURA 406FIGURA 407FIGURA 408FIGURA 409FIGURA 410FIGURA 411FIGURA 412FIGURA 413FIGURA Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 790 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 414FIGURA 415FIGURA 416FIGURA 417FIGURA 418FIGURA 419FIGURA 420FIGURA 421FIGURA 422FIGURA 423FIGURA 424 TABELA 1TABELA 2TABELA 3TABELA 4TABELA 5TABELA 6TABELA 7TABELA 8TABELA 9TABELA 10 QUADRO 1QUADRO 2QUADRO 3QUADRO 4QUADRO 5QUADRO 6QUADRO 7QUADRO 8QUADRO 9QUADRO 10QUADRO 11QUADRO 12QUADRO 13QUADRO 14QUADRO 15QUADRO 16QUADRO 17QUADRO 18QUADRO 19QUADRO 20QUADRO 21QUADRO 22QUADRO 23QUADRO 24QUADRO 25QUADRO 26QUADRO 27QUADRO 28QUADRO 29QUADRO 30QUADRO 31QUADRO 32QUADRO 33QUADRO 34QUADRO 35QUADRO 36QUADRO 37QUADRO 38QUADRO 39QUADRO 40QUADRO 41QUADRO 42QUADRO 43QUADRO 44QUADRO 45QUADRO 46QUADRO 47QUADRO 48QUADRO 49QUADRO 50QUADRO 51QUADRO 52QUADRO 53 Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 9 791 DESIGN INDUSTRIAL E DIVERSIDADE CULTURAL: A CONTEXTUALIZAÇÃO DOS REQUISITOS DE USO A diversidade cultural tem se manifestado no design industrial, em aspectos relacionados aos requisitos de uso, tais como, por exemplo: componentes comunicação visual dimensionamento acessórios divisão de compartimentos durabilidade ergonomia (conveniência, eficiência, segurança, etc.) gestão ambiental resistência outros As versões básicas de carros brasileiros, por exemplo, possuem menos itens de série e opcionais, comparativamente aos japoneses, norte-americanos e europeus. O Quadro 54 apresenta uma comparação entre de utilitários esportivos do Brasil, Estados Unidos, Japão e Suécia. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 792 QUADRO 54 - ITENS DE SÉRIE E OPCIONAIS DOS UTILITÁRIOS ESPORTIVOS FORD ECOSPORT (BRASIL, 2004), FORD EXPLORER (EUA, 2004), HONDA PILOT (JAPÃO, 2004) E VOLVO (SUÉCIA, 2004) Itens Airbag para o motorista Ford EcoSport Ford Explorer Honda Pilot Volvo XC90 Opcional p/ as versões XL e XLS 1.6 S S S De série somente na versão XLT Airbag para o passageiro dianteiro - S S S Airbags laterais para o motorista e o passageiro dianteiro - - S S Alarme antifurto - - S - Âncoras mais baixas e ajustes para crianças no banco traseiro - - S - Ar-condicionado Opcional para a versão XL S S S De série nas versões XLS 1.6 e XLT Banco dianteiro direito rebatível na horizontal - - S S Banco do motorista com ajuste de altura O S S S Banco do motorista com regulagem elétrica - Obs: elétrico - De série somente na versão EX Não disponível para as demais versões S Obs: Também do banco do passageiro dianteiro Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 793 (Cont.) Itens Bancos dianteiros com aquecimento elétrico Ford EcoSport Ford Explorer Honda Pilot Volvo XC90 - De série somente nas versões Eddie Bauer e Limited De série somente na versão EX com bancos em couro S Não disponível para as demais versões Não disponível para as demais versões Barras de proteção lateral S S S S CD Player O S S S S S S - Obs: Sob os bancos frontais Obs: No compartimento de bagagem Obs: No compartimento de bagagem Computador de bordo - - - S Console central integral S S S S Controle automático de temperatura - De série nas versões Eddie Bauer e Limited S S Obs: básico ou c/ viva-voz para celular Compartimento de carga escondido Não disponível para as demais versões Cortinas infláveis - O - S Desembaçador do vidro traseiro S S S S Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 794 (Cont.) Itens Ford EcoSport Ford Explorer Honda Pilot Volvo XC90 Dispositivo de monitoramento da temperatura da pista, que adverte quando há risco de “gelo negro” (“black ice”) - - - S Dispositivo de sinalização sonora de auxílio para estacionamento em marcha-ré - - - S DVD - Opcional para as versões XLT, XLT Sport, Eddie Bauer e Limited Opcional somente para a versão EX com bancos em couro - Não disponível para as demais versões Não disponível para as demais versões Espelhos retrovisores externos elétricos - Faróis de neblina - S S S Obs: Com timer e aquecimento Obs: Com aquecimento O S S Obs: Dianteiros e traseiros Filtragem de Ar - - S S Freios ABS - S S S Homelink Remote System (Homelink Universal Transmitter) - De série somente nas versões Eddie Bauer e Limited Opcional somente para a versão EX com bancos em couro - Não disponível para as demais versões Limpador do vidro traseiro S Não disponível para as demais versões S S S Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 795 (Cont.) Itens Ford EcoSport Ford Explorer Honda Pilot Volvo XC90 Portacopos/garrafas S S S S Porta-moedas - S S - Porta-objetos junto aos bancos traseiros - S De série somente na versão EX S Obs: Console Obs: Bandeja retrátil Radio AM/FM Stereo - S Obs: De série somente préequipamento p/ instalação de som (chicotes) S Obs: Bandeja retrátil S Obs: Com tocafitas, CD-player, 7 auto-falantes e subwoofer na versão EX Radio satélite opcional Regulador de velocidade - S - S Sistema de lavagem dos faróis principais - - - S Sistema de proteção contra o efeito chicote - - - S Sistema de navegação via satélite - - Opcional somente para a versão EX com bancos em couro S Telefone GSM Integrado - - - S Obs: com autofalante e microfone embutidos, e sistema SMS de envio e recepção de mensagens Toca-fitas - O S S Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 796 (Cont.) Itens Ford EcoSport Ford Explorer Honda Pilot Volvo XC90 Travas elétricas De série, exceto para versão XL S S S Vidros com sistema elétrico de abertura e fechamento De série, exceto para versão XL S S S NOTAS: Não se encontram, neste quadro, todos os itens de série e opcionais dos modelos apresentados, mas apenas exemplos representativos; (-) Não Disponível; (O) Opcional; (S) De série As corporações do setor automobilístico de um modo geral têm variado os itens de série e opcionais dos modelos, de acordo com os mercados onde são comercializados. É o caso, por exemplo, das versões do Scénic que têm sido comercializadas nos mercados brasileiro e francês. No que se refere à questão de segurança, as versões comercializadas na França possuem itens de série como airbags laterais, sistemas de Assistência à Frenagem de Urgência e Antiarranque, e opcionais como o controle dinâmico de condução (Controle de Estabilidade Dinâmica ESP + Antipatinagem ASR + Controle de Capotagem), dentre outros, que as versões RT, o Alizé e o RXT, comercializadas no Brasil, não possuem.245 Verificam-se, também, em um mesmo segmento, diferenciações entre modelos de veículos de marcas de corporações de origens culturais distintas, dentro de categorias similares, como se observa comparando-se itens de série e opcionais de automóveis comercializados no Brasil pela Fiat (de origem italiana), Ford (de origem norte-americana), Honda (de origem japonesa) e Volkswagen (de origem germânica) (ver Quadros 55 ao 57). 245 Informações disponíveis em: <http://www.renault.fr>; <http://www.renault.com.br>. Acesso em: 18 set. 2003. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 797 QUADRO 55 - ITENS DE SÉRIE E OPCIONAIS DOS AUTOMÓVEIS FIAT NOVO PALIO, FORD NOVO FIESTA E VOLKSWAGEN FOX (BRASIL, 2004) Acessórios de série Fiat Novo Palio Ford Novo Fiesta Volkswagen Fox EX 1.0 8V duas portas HLX 1.8 8V - 4 portas 1.0L Personnalité - 4 portas 1.6L Class 4 portas 1.0 City Total Flex duas portas 1.6 Sportline Total Flex duas portas Preço sugerido ao público, da versão básica (para São Paulo/SP, em 03 mar. 2004) R$ 21.780,00 R$ 29.590,00 R$ 23.260,00 R$ 26.250,00 R$ 23.328,90 R$ 29.717,00 c/ frete incluso c/ frete incluso c/ frete incluso c/ frete incluso Air bag motorista O O O O - - Air bag passageiro dianteiro O O O O - - Side-bags dianteiros - O - - - - Alarme antifurto - - S S O O Ar condicionado O O O O O O Ar quente - - S S O O Banco do motorista com regulagem de altura - O - - S S Banco traseiro rebatível - O S S S S Obs: Bipartido Obs: Bipartido Obs: Bipartido Barras de proteção lateral S S S S - - Câmbio automático - - - - - - CD player O O - - O O Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 798 (Cont.) Acessórios de série Fiat Novo Palio Ford Novo Fiesta Volkswagen Fox EX 1.0 8V duas portas HLX 1.8 8V - 4 portas 1.0L Personnalité - 4 portas 1.6L Class 4 portas 1.0 City Total Flex duas portas 1.6 Sportline Total Flex duas portas Coluna de direção ajustável na altura O O - - O O Computador de bordo - S - - - - Console central com porta-copos - S O O S S Desembaçador O O S S - - Direção hidráulica O O O O O S Espelho retrovisor com comando elétrico - O O O O - Faróis de neblina dianteiros O O O O O S Freios ABS O O O O Imobilizador eletrônico antifurto - - S S S S Lanterna traseira de neblina - - - - - S Lavador / Limpador de vidro traseiro S S S S - S Rodas de liga leve - O O O O S Travas Elétricas O S O O Vidros elétricos O O O O O O O O Obs: dianteiros NOTA: Versões a gasolina; (-) Não Disponível; (O) Opcional; (S) De série Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 799 QUADRO 56 - ITENS DE SÉRIE E OPCIONAIS DOS AUTOMÓVEIS FIAT STILO, FORD FOCUS, HONDA FIT E VOLKSWAGEN POLO (BRASIL, 2004) Acessórios de série Fiat Stilo Ford Focus Hatch Honda Fit Volkswagen Polo 1.8 8V Abarth 2.4 20V GL Ghia LX LXL Automát ico CVT 1.6 2.0 Sportline Preço sugerido ao público, da versão básica (para São Paulo/SP, em 03 mar. 2004) R$ 39.030 R$ 74.620 R$ 38.100 R$ 51.790 R$ 36.315* R$ 43.100* R$ 35.272 R$ 43.015 Air bag motorista O S - S S S O O Air bag passageiro dianteiro O S - S O S O O Side-bags dianteiros - O - - - - - - Side-bags traseiros - O - - - - - - Alarme antifurto O O - S O S O S Ar condicionado - O S S S S O S S S S S S S - - Obs: Automático Banco do motorista com regulagem de altura S Banco do passageiro dianteiro rebatível na horizontal O S - Obs: e lombar S S Obs: e lombar, c/ regulagem elétrica - - Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 800 (Cont.) Acessórios de série Fiat Stilo Ford Focus Hatch Honda Fit Volkswagen Polo 1.8 8V Abarth 2.4 20V GL Ghia LX LXL Automát ico CVT 1.6 2.0 Sportline O S S S S S S S Obs. Bipartido Obs. Bipartido Obs. Bipartido Obs. Bipartido Barras de proteção lateral S S S S - Câmbio automático - O O S - - Banco traseiro rebatível CD player O S - S O S O O Coluna de direção ajustável na altura S S S S S S - S Obs: e profundidade Obs: e profundidade Obs: e profundidade Obs: e profundidade Computador de bordo S S - S - - - S Console central com portaobjetos/portacopos S S S S S S - - Espelho retrovisor com comando elétrico - - - S - - O O Desembaçador S S S S S S S S Direção hidráulica - - S S - - S S Direção eletricamente assistida S S - - S S - - Faróis de neblina dianteiros - - - S - - O S Obs: e profundidade Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 801 (Cont.) Acessórios de série Freios ABS Fiat Stilo Ford Focus Hatch Honda Fit Volkswagen Polo 1.8 8V Abarth 2.4 20V GL Ghia LX LXL Automát ico CVT 1.6 2.0 Sportline O S - S O S O O Obs: c/ EBD e Controle de tração Obs: c/ EBD e Controle de tração Obs: c/ EBD Obs: c/ EBD S - Imobilizador eletrônico antifurto S S Lanterna traseira de neblina S S S S - - O S Lavador / Limpador de vidro traseiro S S S S S S S S Piloto automático (vinculado ao ABS) - O - - - - - - Revestimento de bancos em couro O S - O O - - O Rodas de liga leve O S - S O S O S Travas Elétricas S S O S S S O S Vidros elétricos O S O S S S O S NOTA: Versões 4 portas a gasolina; * Preço em 29. fev. 2003, com pintura metálica ou perolizada e frete incluso para as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil; (-) Não Disponível; (O) Opcional; (S) De série Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 802 QUADRO 57 - ITENS DE SÉRIE E OPCIONAIS DOS AUTOMÓVEIS FIAT MAREA, FORD FOCUS SEDAN, HONDA CIVIC 2000 E VOLKSWAGEN POLO SEDAN 2.0 COMFORTLINE (BRASIL, 2004) Acessórios de série Fiat Marea Ford Focus Sedan Honda Civic 2000 Volkswagen Polo Sedan SX 1.8 16V 4C 4 portas HLX 2.4 20V 5C 4 portas GLX Ghia LX EX 2.0 2.0 Comfortl ine Preço sugerido ao público, da versão básica (para São Paulo/SP, em 03 mar. 2004) R$ 42.790 R$ 68.990 R$ 42.840 R$ 59.900 R$ 45.960* R$ 60.115* R$ 42.860 R$ 44.425 Air bag motorista O S O S S S O O Air bag passageiro dianteiro O S O S S S O O Side-bags dianteiros - O - - - - - - Side-bags traseiros - O - - - - - - Alarme antifurto - S O S S S O S Alerta sonoro de velocidade S S - - - - - - Alerta sonoro de faróis acesos - - S S S S Alerta luminoso de porta aberta - - S S Alerta luminoso e sonoro de cintos de segurança - - S S Ar condicionado O S S S S S - - S S Obs: Automático Ar quente - - S S Obs: Automático S S Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 803 (Cont.) Acessórios de série Fiat Marea Ford Focus Sedan Honda Civic 2000 Volkswagen Polo Sedan SX 1.8 16V 4C 4 portas HLX 2.4 20V 5C 4 portas GLX Ghia LX EX 2.0 2.0 Comfortl ine Barras de proteção lateral - - S S S S - - Banco do motorista com regulagem de altura S S S S S S S S Banco do motorista com regulagem lombar - S - S Banco traseiro rebatível O S S S S S S S Obs. Bipartido c/ apóiabraço Obs. Bipartido c/ apóiabraço Obs. Bipartido c/ encosto de cabeça Obs. Bipartido c/ encosto de cabeça Obs. Bipartido Obs. Bipartido Câmbio automático - S O S - - CD player O S S S O O S S - S Obs: C/ sistema elétrico opcional O S Obs. Bipartido Obs: c/ viva voz Coluna de direção ajustável na altura S Computador de bordo - Console central com porta-copos - S S S Obs: e profundidade Obs: e profundidade - S S - - - S - S S S S - - Obs: e profundidade Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 804 (Cont.) Acessórios de série Fiat Marea Ford Focus Sedan Honda Civic 2000 Volkswagen Polo Sedan SX 1.8 16V 4C 4 portas HLX 2.4 20V 5C 4 portas GLX Ghia LX EX 2.0 2.0 Comfortl ine S S S S S S S S Obs: Temporizado Obs: Temporizado Obs: c/ desligamento automático Obs: c/ desligamento automático Direção hidráulica S S S S S S S S Espelho retrovisor com comando elétrico S S S S - - O O Faróis de neblina dianteiros O S - S - - S S Filtro antipólen O S - - - - - - Obs: Associado ao arcondicionado Obs: Associado ao arcondicionado O O O S - S O O Obs: c/ EBD Obs: c/ EBD Imobilizador eletrônico antifurto - - S S S S S S Lanterna traseira de neblina - - S S - - O S Lavador / Limpador de vidro traseiro - - - - - - - - Desembaçador Freios ABS Obs: c/ EBD Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 805 (Cont.) Acessórios de série Fiat Marea SX 1.8 16V 4C 4 portas Ford Focus Sedan HLX 2.4 20V 5C 4 portas GLX Ghia Piloto automático Honda Civic 2000 Volkswagen Polo Sedan LX EX 2.0 2.0 Comfortl ine - S - - Obs: C/ controle no volante Porta-moedas - - - - S S - - Porta-revista atrás do banco - - - - S S - - Obs: motorista Obs: motorista e passageiro Revestimento interno em couro - O - O - S - O Rodas de liga leve - S O S S S S S Sistema de prevenção de incêndio (FPS – Fire Prevention System) S S - - - - - - Teto solar elétrico - O - O - - - - Travas Elétricas S S S S S S O S Obs: Com sistema de trava automática a 7km/h Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 806 (Cont.) Acessórios de série Vidros elétricos NOTA: Fiat Marea Ford Focus Sedan Honda Civic 2000 Volkswagen Polo Sedan SX 1.8 16V 4C 4 portas HLX 2.4 20V 5C 4 portas GLX Ghia LX EX 2.0 2.0 Comfortl ine S S S S S S O S Obs: C/ sistema antiesmagamento Obs: C/ sistema antiesmagamento Obs: C/ temporizador Obs: C/ temporizador Obs: C/ sistema antiesmagamento no vidro do motorista Versões com 4 portas a gasolina; * Preço em 29. fev. 2003, com pintura metálica ou perolizada e frete incluso para as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil; (-) Não Disponível; (O) Opcional; (S) De série Os mercados brasileiro, norte-americano e europeu diferenciam-se, em termos de requisitos de uso do automóvel, quanto ao controle de temperatura, tipo de transmissão (manual / automático), equipamento de som, dentre outros aspectos. Vender-se um carro, hoje, no Brasil, de mais de 30 mil reais sem ar-condicionado... Vender, até se vende, mas o cara que comprar, se tentar vendê-lo de novo, não consegue. O brasileiro já associou carro acima de 30, 35 mil reais com ar-condicionado. Se não tiver ar-condicionado e trio elétrico, para ele está faltando alguma coisa. Já na Europa é diferente. E, nos Estados Unidos, carro maior tem que ser automático. No Brasil, praticamente não se tem oferta de carro automático. Tem-se, hoje, no mercado, o Honda, que é automático, a Scénic automática, o Vectra automático, o Marea automático, e estão lançando o Focus automático. Vê-se que é só o top de gama de cada um deles. Nos Estados Unidos, é o contrário: de médio para cima, se não for automático, não vende. [...] Existe uma infinidade de acessórios que são feitos para regiões muito frias, que não são disponibilizados no Brasil, como aquecedor de banco, que na Europa e nos Estados Unidos é muito comum [...]; pneus com pregos, etc. [...] No Brasil, vê-se que as fábricas não investem muito em som de carro, porque o brasileiro tem o hábito de pegar o som do carro, tirar e colocar outro. [...] Não adianta. Por mais que o carro venha com som, com CDplayer, ele tira, compra outro da Pionner, da Daiwoo, da Alpine e tal, e coloca esse outro lá. Então, para quê as fábricas vão investir nisso, que é um acessório caro, se os brasileiros ficam trocando? Nos Estados Unidos e na Europa, ninguém muda o som (KRAMER, 2002). [sem grifo no original] Com relação a equipamentos de som, os consumidores da Argentina possuem um comportamento distinto aos do Brasil, país vizinho. Na versão básica do automóvel Fiat Palio Fire, por exemplo, o Radio AM/FM com CD-player é item de série, enquanto que, no Brasil, é item opcional. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 807 Os automóveis dos Estados Unidos normalmente possuem locais para se colocar alimentos e recipientes de bebida, em virtude do hábito que os norte-americanos têm de beber e comer enquanto trafegam no trânsito. “Carro sem porta-copo não vende nos Estados Unidos”. Já, no Brasil, este item que não é requisito essencial, segundo Kramer (2002) (ver Figura 425). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 425 - DETALHES DE INTERIOR DO UTILITÁRIO ESPORTIVO FORD EXPLORER LIMITED E DO AUTOMÓVEL LINCOLN TRAVEL (EUA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Os norte-americanos “gostam muito de ter uma porção de dispositivos para colocar canequinha, latinha de coca-cola, para tudo quanto é lado, etc. Eles são muito exigentes neste sentido”, também no caso de caminhões, segundo Jahnke (2001). Os brasileiros, por sua vez, demandam outros requisitos. Os brasileiros estão começando a exigir mais porta-objetos nos carros, mas seu uso é distinto, em relação aos norte-americanos, como esclarece Ramos. o brasileiro está começando a exigir também [...carro com] mais locais para colocar as coisas, porque o motorista fica muito mais no trânsito e quer ter um carro com muito mais locais para ele colocar coisas. Isso é uma coisa que o americano já usa há muito tempo. Mas, o brasileiro não quer locais, necessariamente, para coisas comestíveis como o americano, que come muito no carro, no trânsito. Ele não toma café da manhã. Ele já sai comendo, e, então, vêem-se, no trânsito, pessoas comendo, tomando com jarras, e por isso o carro é preparado para isso: para viagens longas, para comer dentro do carro, e aquela coisa toda. Já o brasileiro, não. O brasileiro é muito comodista e gosta de conforto. Ele pára muito mais em estradas, em restaurantes, senta-se para comer, etc. E o americano, não. Ele compra e vai comendo. São culturas diferentes. Então, um carro, às vezes, é mais preparado para um tipo de situação do que outro. Então, às vezes, a pessoa compra um carro de origens diversas e olha certas coisas e fala "mas, eu não uso isso", porque foi uma coisa muito focada em um outro mercado, e o brasileiro pede outras coisas (RAMOS, 2001). [sem grifo no original] Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 808 A diversidade cultural se expressa, deste modo, também na composição dos espaços internos dos veículos, que diferem entre determinados mercados, em vista de diferentes hábitos de uso (ver Figuras 426 e 427). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 426 - DETALHES DE INTERIOR DOS AUTOMÓVEIS MERCEDES-BENZ CLK (ALEMANHA, 2004), FIAT MÚLTIPLA (ITÁLIA, 2004) E RENAULT SCÉNIC TENTIER (FRANÇA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 427 - DETALHES DE INTERIOR DO UTILITÁRIO ESPORTIVO FORD ECOSPORT E DO AUTOMÓVEL VOLKSWAGEN FOX (BRASIL, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 809 As transformações no perfil da população e nos modos de vida têm gerado novos requisitos de uso para produtos do setor automobilístico. No Brasil, por exemplo, como uma alternativa ao sistema de transporte urbano convencional, surgiram os popularmente chamados “perueiros”, que aumentaram o consumo de “vans”, utilizadas, neste caso, em algumas linhas do transporte público de grandes centros urbanos como São Paulo, dentre outros, paralelamente aos ônibus de linha, sendo mais ágeis e confortáveis do que estes últimos e mais baratos do que os táxis (ver Figura 428). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 428 - ESTAÇÃO VILA MADALENA, EM SÃO PAULO / SP, E RUA DE BELO HORIZONTE / MG, COM VANS DE “PERUEIROS” (BRASIL, 2002; 2001) ___________________________________________________________________________________________ A diversidade cultural e as transformações sociais têm alterado também os requisitos de uso dos produtos, no âmbito das relações entre gênero e design. Há certos requisitos de uso, por exemplo, que têm sido considerados no design de automóveis, tendo em vista a mulher como usuária, conforme relatam Ramos e Barone. Hoje, a Ford, principalmente, se preocupa muito com o mercado feminino, porque, atualmente, a mulher tem muito poder de decisão. Primeiro, porque a mulher, hoje, está muito mais presente no mercado de trabalho e tem muito mais poder aquisitivo para comprar um veículo, sem depender de um marido, ou depender de alguém, como um pai e tal. Ela tem o dinheiro dela, vai comprar e escolhe. E a própria esposa, hoje, determina muito mais a compra do que o marido. Se o carro é dele, ele quer ter um pouco mais de poder na escolha, mas se o carro é da família, a mulher tem um peso muito grande na compra, porque, muitas vezes, o carro da família fica com ela, no dia a dia, e não com o marido. O marido vai trabalhar com o ônibus da empresa, e o carro fica com a esposa, que é quem vai usar o carro. Então, a Ford foca muito, hoje, isso. Só o fato de se ter um espelho no lado do motorista, de se ter um acesso mais confortável, ou mais próximo dos instrumentos, certos confortos muito peculiares, ou muito mais direcionados à mulher. [...] é um mercado muito importante, o feminino, da consumidora, e no qual temos prestado muita atenção (quais são os requisitos, o que ela está querendo?). [...] a gente não pode descuidar mais disso (RAMOS, 2001). [sem grifo no original] Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 810 ... Nós uma vez desenvolvemos um console [para um automóvel da Volkswagen], para o qual foi feito um tipo de ferramenta, que era muito porosa. A gente injetava e não percebia isso. [...] Na hora em que colocamos o console no carro, percebeu-se que a meia de nylon das mulheres desfiava. Então, isso faz parte, agora, de um standard da Volkswagen, que tem que se fazer teste onde se tem contato, por exemplo, com as pernas, e não se podem usar certos materiais, porque vão danificar as meias [...]. Isso é uma coisa que realmente interferiu na concepção da forma [...]. Nós procuramos fazer aquela região não tão contundente, porque é uma região onde as pessoas encostam as pernas. Outra coisa é a unha das mulheres. O gol tinha um fecho, que tinha pouca profundidade e quebrava muito a unha. E a mulherada reclamava. Então, hoje, na hora de fazer, por exemplo, uma fechadura de um porta-luvas, a gente verifica: "ah, uma unha deve ter tanto por tanto...” Então, esse é um dos nossos standards. [...] além de termos as manequins, que são utilizadas pela engenharia de segurança, nós usamos pessoas para testar, para sentir o carro. [...] E isso acontece com muitas coisas no carro. Outra coisa, por exemplo, é o desenvolvimento de espelhos. No passado, não havia espelho para o motorista. Então, há um pouco de machismo, neste caso, porque, afinal, é só o homem que dirige? O homem não costumava se olhar muito no espelho. Hoje, já é diferente. [...] desenvolvemos espelhos para os dois lados do carro, cores de ambientes que satisfaçam realmente a mulher e o homem, e mesmo a pessoa de idade (BARONE, 2001). O comportamento dos consumidores de um mesmo gênero também varia entre culturas distintas. Segundo Ramos: ... apesar da mulher brasileira estar mais exigente, a mulher americana ainda é mais participativa e detalhista; mais técnica, digamos, na hora da compra. Em janeiro, eu estive no Salão de Detroit, e pude observar isso. Eu não observava só os carros, mas também os consumidores, como eles discutiam sobre o carro. E eu via muitos casais conversando sobre itens mais complexos do carro, como o acesso, ou isso, ou aquilo, sobre coisas como eu nunca vi aqui no Brasil. Quando se vai ao Salão do Automóvel, às vezes a mulher é uma simples acompanhante. Ela não vai para discutir (RAMOS, 2001). Variam também os requisitos de uso dos produtos entre mercados diversos em função das diferentes condições ambientais, exigindo uma diferenciação dos veículos para os mesmos. Barone relata que: Às vezes os alemães dizem, por exemplo: "Ah, nós fizemos isso aqui e não funciona". E os brasileiros falam: "Funciona! No Brasil, não é preciso por aquecimento de banco, e lá, em duas ou três semanas em um ano, faz um frio abaixo de 10 graus. Na maioria das vezes, é de 20 para 40. Então, por que vamos por aquecimento em um banco, que custa uma fortuna?". Acontece esse tipo de coisa. É a questão do tal do carro globalizado: não é por um elemento global, não adianta se por um aquecimento muito violento para uma pessoa que mora no Nordeste. Vai se vender algum carro com aquecimento central lá? Não. Ninguém compra, ou, se compra, não vai usar. Então, para quê? Estaria-se vendendo um carro mais caro, com um detalhe que é inútil. Então, esses aspectos é que são diferentes de um carro para outro. Esses inputs vêm das bases, e o "papa", alemão, aprova o que vamos fazer (BARONE, 2001). [sem grifo no original] Variam os requisitos de uso dos produtos, em termos de dimensionamento, entre culturas diversas. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 811 Um aspecto comum que se verifica no Brasil é o porte dos automóveis do tipo pequeno, com plataformas mais compactas. Incluem-se neste perfil automóveis de segmentos variados: hatches, sedans, picapes, peruas, utilitários esportivos e monovolumes. Os norte-americanos geralmente apreciam carros maiores, comparativamente aos europeus e sul-americanos (ver Tabelas 11 e 12). TABELA 11 - DIMENSÕES DOS AUTOMÓVEIS LINCOLN TOWN CAR (EUA, 2004), HONDA ACCORD SEDAN (JAPÃO, 2004), MERCEDES-BENZ C-KLASSE (ALEMANHA, 2004) E VOLKSWAGEN SANTANA (BRASIL, 2004) Dimensões (cm) Comprimento Largura Altura FONTE: NOTA Lincoln Town Car Honda Accord Sedan Mercedes-Benz CKlasse VW Santana 547,1 / 562,3* 481,3 452,6 460,7 219,4 181,6 196,8 170,0 148,8 / 149,0* 145,0 142,6 142,3 Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em: <http://www.lincoln.com>; <http://www.mercedes-benz.de>; <http://www.volkswagen.com.br>. Acesso em: 25 fev. 2004 * Versões Ultimate L e Executive L TABELA 12 - DIMENSÕES DOS UTILITÁRIOS ESPORTIVOS FORD ECOSPORT (BRASIL, 2004), FORD EXPLORER (EUA, 2004) E FORD EXCURSION (EUA, 2004) Dimensões (cm) Ford EcoSport Ford Explorer Ford Excursion Comprimento 422,8 481,33 575,8 Largura 173,4 183,13 202,9 Altura 162,2 181,35 204,2 FONTE: Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em: <http://www.gustacar.hpg.ig.com.br>; <http://www.fordvehicles.com>. Acesso em: 25 fev. 2004 Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 812 Há, inclusive, empresas norte-americanas que transformam automóveis, jipes e picapes em limusines, a exemplo do jipe Hummer H2, da General Motors, que vem sendo transformado por oficinas especializadas em limusine, com 10 metros de comprimento e capacidade de transporte de 20 pessoas (ver Figura 429). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 429 - FORD “EXCURSION 200”, ADAPTAÇÃO DE PICAPE FORD PARA LIMUSINE, DA EMPRESA ULTRA (EUA, 2001) E LINCOLN TOWN CAR 100”, ADAPTAÇÃO DO AUTOMÓVEL LINCOLN TOWN CAR PARA LIMUSINE, DA EMPRESA AMERICAN CUSTOM COACH (EUA, 1998) ___________________________________________________________________________________________ As dimensões do Ford Escort para os mercados norte-americano e brasileiro, por exemplo, são diferentes (ver Tabela 13). TABELA 13 - DIMENSÕES DO AUTOMÓVEL FORD ESCORT PARA O MERCADO NORTE-AMERICANO E BRASILEIRO (1990) Ford Escort (EUA)* Ford Escort (BRASIL) Comprimento 431,8 402,2 Largura 169,4 164.0 Altura 133,4 132,2 490 290 Dimensões (cm) Capacidade do porta-malas FONTE: NOTA: Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em: Revista QUATRO RODAS, ano 30, n. 06, São Paulo, 1990, p. 100 * Modelos Poly e LX Em vista das diferenças antropométricas existentes entre usuários de mercados diversos, as empresas em geral têm desenvolvido dispositivos que permitem a regulagem de seus veículos, de tal Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 813 modo a atender a variação de perfis antropométricos e, ao mesmo tempo, manter uma certa padronização no desenvolvimento dos veículos. ... nós usamos esses perfis de 50 percentil até o 90. Nós somos obrigados a atender todos eles. Como vendemos lá no Rio Grande do Sul e até lá em cima, em Belém do Pará, somos obrigados a adequar isso aí. A gente faz assentos pneumáticos, que equilibram e regulam o peso, dando a estabilidade correta; os volantes são escamoteáveis... (JAHNKE, 2001). Observam-se diferentes graus de preocupação entre os países, com relação aos portadores de necessidades especiais. No Japão, por exemplo, há automóveis, cujo banco de motorista gira para o lado da porta, a fim de facilitar o acesso e a acomodação do portador de necessidades especiais, dispositivos que facilitam a colocação da cadeira de rodas no bagageiro, comandos de marchas e freio acoplados ao volante, etc. (ver Figuras 430 e 431). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 430 - AUTOMÓVEL TOYOTA, COM DISPOSITIVOS DE AUXÍLIO A PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS (JAPÃO, 2003) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 431 - DETALHES DE INTERIOR DO AUTOMÓVEL NISSAN CEDRIC, MOSTRANDO DISPOSITIVOS DE COMANDO DE MARCHAS E FREIO ESPECIAIS PARA PESSOAS PORTADORAS DE NECESSIDADES ESPECIAIS (JAPÃO, 2004) NOTA: Itens opcionais ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 814 No Brasil, a Honda tem liderado as vendas de carros para pessoas portadoras de deficiência física, com os modelos Honda Civic e Honda Fit. Além da redução de preço, através do Programa Honda Conduz, que, após a publicação da Lei 10.754, de 31 de outubro de 2003, tem concedido o direito a esse público de adquirir veículos movidos à gasolina com isenção de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), somando-se o ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços), estes automóveis apresentam certos elementos de design facilitadores do uso para as mesmas, a exemplo do Honda Fit, que possui mais de dez opções de configurações de bancos, transmissão automática Honda CVT e sistema de direção eletricamente assistida, dentre outros.246 Os requisitos de uso, quanto ao conforto e segurança das crianças também varia entre culturas distintas. A Honda, por exemplo, oferece, como item opcional, banco para bebê, acoplável ao banco traseiro dos veículos, que segue as normas de segurança da ISO (ver Figura 432). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 432 - PÁGINA DA HONDA NA INTERNET, COM INFORMAÇÕES SOBRE ASSENTOS PARA BEBÊS (DENTRO DAS NORMAS ISO) DO UTILITÁRIO ESPORTIVO HONDA MDX (JAPÃO, 2004) ___________________________________________________________________________________________ 246 Disponível em: <http://www.quadranews.com.br>. Acesso em: 01 mar. 2004. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 815 O veículo utilitário esportivo Volvo XC90 oferece, como item opcional, um banco traseiro deslizável para criança, o qual permite uma maior aproximação aos bancos dianteiros, facilitando o atendimento da criança pelos adultos (ver Figura 433). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 433 - PÁGINA DA VOLVO CARS NA INTERNET, COM INFORMAÇÕES SOBRE O BANCO DESLIZÁVEL PARA CRIANÇA DO VEÍCULO UTILITÁRIO ESPORTIVO VOLVO “XC90” (SUÉCIA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Os requisitos de uso dos produtos variam entre culturas distintas também quanto à segurança. Air-bag para o motorista, por exemplo, ainda não é exigido como item de série no Brasil, diferentemente da Europa, Estados Unidos e Japão, dentre outros. E há certos modelos, inclusive, que sequer oferecem-no como acessório opcional no Brasil (ver Quadros 54 ao 58). O pisca lateral também é outro item obrigatório em automóveis, na Europa, o que não ocorre no Brasil (NAKAMURA, 2001). A General Motors, por exemplo, não o fornece como item de série nas versões do Corsa, comercializadas no Brasil, enquanto que, na Alemanha, sim (ver Figuras 434 e 435). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 816 QUADRO 58 - ITENS DE SÉRIE E OPCIONAIS DO AUTOMÓVEL HONDA FIT PARA O MERCADO BRASILEIRO E JAPONÊS (2004) Itens Honda Fit Honda Fit (BRASIL) (JAPÃO) LX LXL Automático CVT 1.5T W A Y Air bag motorista S S S S S S Air bag passageiro dianteiro O O S S S S Side-bags dianteiros - - S S S O NOTA: (-) Não Disponível; (O) Opcional; (S) De série ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 434 - OPEL CORSA (ALEMANHA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 435 - CHEVROLET CORSA (BRASIL, 2003) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 817 O fato dos consumidores europeus serem “extremamente exigentes”, com relação à segurança dos veículos, tem feito com que os caminhões Mercedes-Benz que têm sido comercializados no Brasil possuam, como na Europa, dispositivos como o freio ABS e a planetária no cubo de roda, por exemplo, que são itens de série nos caminhões desta marca, de acordo com Jahnke (2001). O japonês “... é muito mais exigente em questão de segurança", comparativamente ao brasileiro, segundo o mesmo. O japonês faz do veículo dele quase que a sua moradia. Os catálogos e informações que recebo deles é impressionante. Eles são muito ligados à segurança, haja visto que o caminhão japonês, por exemplo, se ele exceder o limite de velocidade, que é de 70 a 80 km/hora, as luzes delimitadoras do teto acendem, ficando vermelhas... Então, elas acendem, e o camarada, de fora, já vê que ele excedeu a velocidade. São detalhes que o japonês, nesse ponto, cuida muito (JAHNKE, 2001). [sem grifo no original] Em países onde os consumidores são mais exigentes, como no caso do Japão e Suécia, por exemplo, as características de “segurança” dos veículos têm sido salientadas, inclusive, através de meios de comunicação como a Internet (ver Figuras 436 a 438). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 436 - PÁGINA DA NISSAN DO JAPÃO NA INTERNET, COM INFORMAÇÕES SOBRE AS CARACTERÍSTICAS DE “SEGURANÇA E ECOLOGIA” DO AUTOMÓVEL NISSAN CEDRIN (2004) NOTA: A foto mostra o interior do veículo com os air-bags acionados ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 818 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 437 - PÁGINA DA HONDA NA INTERNET, COM INFORMAÇÕES SOBRE AS CARACTERÍSTICAS DE “SEGURANÇA” DO UTILITÁRIO ESPORTIVO HONDA PILOT E SOBRE OS AIR-BAGS DO AUTOMÓVEL HONDA FIT (JAPÃO, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 819 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 438 - PÁGINA DA HONDA NA INTERNET, COM INFORMAÇÕES SOBRE O VEHICLE STABILITY ASSIST (VSA) - SISTEMA DE AUXÍLIO À ESTABILIDADE DO VEÍCULO - DO UTILITÁRIO ESPORTIVO HONDA MDX (JAPÃO, 2004) ___________________________________________________________________________________________ A Volvo tem considerado a questão de segurança um requisito fundamental no desenvolvimento de seus veículos. O utilitário esportivo Volvo XC90, por exemplo, possui dispositivos de segurança preventiva (exemplos: assento colocado em posição elevada; sistema antipatinagem DSTC; sistema de estabilidade ativa - DST; dentre outros) e de proteção (compartimento do passageiro com reforço de aço boro; sistema de proteção contra impacto lateral - SIPS; sistema de proteção contra capotamento – ROPS; airbags de duplo estágio para o motorista e passageiro dianteiro; cortina inflável – IC; sistema de proteção contra efeito chicote – WHIPS; interior preparado para absorção de impacto247). Além disso, seu pára-choque foi projetado mais baixo (ver Figura 439), com o objetivo de aumentar a proteção de terceiros (pedestres, ciclistas e passageiros de outros carros), em vista do problema que tem ocorrido em acidentes envolvendo veículos utilitários esportivos e carros pequenos, quando os primeiros tendem a sobrepor-se aos últimos, devido à diferença de altura, causando danos não raro graves. 247 Todos os painéis e laterais das portas são recheados com materiais de absorção de energia para ajudar a reduzir o risco de acidente nos ocupantes do carro (Disponível em: <http://www.volvocars.com.br/Showroom/XC90/Experience/Safety/ProtectiveSafety/>. Acesso em: 25 fev. 2004). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 820 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 439 - PÁGINA DA VOLVO CARS NA INTERNET, COM INFORMAÇÕES SOBRE A MAIOR PROTEÇÃO A TERCEIROS (PEDESTRES E PASSAGEIROS DE OUTROS VEÍCULOS), ATRAVÉS DO PÁRA-CHOQUE MAIS BAIXO DO UTILITÁRIO ESPORTIVO VOLVO XC90 (SUÉCIA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ A Fiat da Índia fornece mais informações sobre as características de segurança do Fiat Palio, através de seu ambiente de interface gráfica da Internet, do que a Fiat do Brasil (ver Figura 440). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 440 - PÁGINA DA FIAT DA ÍNDIA NA INTERNET, COM INFORMAÇÕES SOBRE A SEGURANÇA DO FIAT PALIO (2004) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 821 Os painéis de caminhões ilustram as diferenças de requisitos ergonômicos, em vista da diversidade cultural entre mercados. Os motoristas de caminhões brasileiros, por exemplo, demandam diferentes posicionamentos do freio da carreta e do rádio, em relação aos europeus. O painel tem que ser adequado para o brasileiro. Nós estamos, inclusive, tendo um pouquinho de conflito no momento, no desenvolvimento de um painel, porque o brasileiro já criou uma imagem de um painel para ele, e não adianta querer fazer diferente, porque ele não aceita. O freio da carreta, por exemplo, tem que estar atrelado ao volante, logo abaixo do volante, para que o motorista, com o dedo, possa ir dosando o freio bem gradativamente. O brasileiro gosta de uma dosagem bem suave. Já o europeu tem um outro botão que ele aperta, que vai travando, quase que repentinamente, a carreta. No acesso às coisas, por exemplo, o europeu concorda que o rádio esteja em cima, no teto, enquanto que o brasileiro já não quer mais lá no teto. Nós já fizemos isso, e caímos do burro. O brasileiro quer o radio embaixo, no painel, porque senão ele se distrai muito, e dirigir um caminhão de quarenta e cinco toneladas não é muito fácil. Então, são situações diferentes para o cliente brasileiro (JAHNKE, 2001). [sem grifo no original] Variam, também, os requisitos ergonômicos dos veículos, quanto à textura e anatomia dos bancos, tipos de funções das cabines e conforto termo-acústico, dentre outros aspectos. No acabamento interno, os norte-americanos usam muito material soft. Eles têm até banheiro (toalete) internamente. Usam muitas paredes termo-acústicas, com bastante espessura, e os bancos são bem mais macios que os nossos, que são de uma anatomia mais dura. Até hoje eu não entendo como eles não reclamam do conforto deles, por problemas de coluna, em virtude de o banco ser bem mais macio. A gente aqui faz muito poltrona anatômica, mais rígida (JAHNKE, 2001). [sem grifo no original] Os norte-americanos “têm aqueles caminhões com cabines, onde eles moram. No Brasil também é comum dormir-se dentro do caminhão. Na Europa, já não é”. Em vista disto, os caminhões norte-americanos costumam ter suas cabines bem maiores e com mais equipamentos (têm banheiro, armários, mesa, TV, forno de microondas, refrigerador, fogão, etc.) que os europeus, sul-americanos e asiáticos. “Lá eles querem uma coisa, e aqui os caras querem outra”, afirma Holzmann (2001) (ver Figuras 441 a 445). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 822 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 441 - CAMINHÃO NORTE-AMERICANO FREIGHTLINER “CLASSIC XL” (2003) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 442 - CAMINHÃO VOLVO “VN”, COMERCIALIZADO NO MERCADO NORTE-AMERICANO (2003) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 823 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 443 - CAMINHÃO VOLVO “NH12”, COMERCIALIZADO NA EUROPA (2003) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 444 - CAMINHÃO VOLVO “NH12”, COMERCIALIZADO NA AMÉRICA DO SUL E AUSTRÁLIA (2003) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 445 - CAMINHÃO JAPONÊS ISUZU “FSR” (2002) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 824 O posicionamento do volante dos veículos difere entre determinados mercados. Na Inglaterra e Japão, por exemplo, o volante encontra-se posicionado no lado direito do painel, ao contrário do Brasil, onde se encontra posicionado do lado esquerdo (ver Figura 446). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 446 - DETALHES DE INTERIOR DO AUTOMÓVEL HONDA FIT COMERCIALIZADO NO BRASIL E NO JAPÃO (2004) ___________________________________________________________________________________________ A questão de segurança acaba influenciando os hábitos de uso dos veículos. O motorista europeu, por exemplo, pode estacionar seu caminhão no acostamento da estrada e dormir, enquanto que, para o brasileiro, isto não é aconselhável, devido ao risco de ser assaltado. Normalmente, o motorista brasileiro tem que estacionar o caminhão em um posto, que seja um local seguro. O motorista de caminhão do Brasil dirige em média 10 a 12 horas por dia, o que corresponde à cerca de 14 a 15 mil km por mês, enquanto que o europeu dirige menos. Na Europa, o uso dos caminhões é controlado; grava-se em disquete o quanto o motorista dirige, havendo incidência de multa e contagem de pontos, quando se ultrapassa o limite permitido. Variam também os requisitos de conforto, em vista do tempo de permanência dos motoristas nos caminhões. Jahnke (2001) afirma: “A questão do conforto do espaço de dormir da cabine é também um assunto muito exigido pelo nosso pessoal daqui. Eles fazem da cabine a sua casa. Tem muito motorista que volta depois de 30 dias para casa”. De acordo com Holzmann (2001), o grau de exigência, em termos de qualidade dos veículos, varia entre as diversas culturas e mercados de consumo. Os motoristas de caminhões europeus possuem um nível de instrução mais elevado e “estão acostumados a um nível de qualidade mais alta”, comparativamente aos brasileiros, que “normalmente são pessoas bem desqualificadas, muitas vezes até analfabetas”. Diferenças como estas tem se refletido, por exemplo, no uso de recursos tecnológicos, como os de informática, por exemplo, que vêm sendo disponibilizados em caminhões. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 825 Os motoristas brasileiros geralmente encontram mais dificuldades no uso de recursos tecnológicos avançados, tais como os computadores de bordo, comparativamente aos europeus. O caminhão tem um computador de bordo que dá uma série de informações sobre o consumo imediato, sobre o desgaste, performance, curva de utilização de motor, e uma série de coisas. O caminhão pode ser ligado diretamente com a frota. O caminhão é cheio de sensores e, no Brasil, são poucos os que utilizam esses recursos. Estão lá disponíveis, mas os caras não usam, não sabem trabalhar com esses dados. Já nos Estados Unidos e na Europa, são muito utilizados, porque eles tentam otimizar tudo. Lá o motorista é muito mais profissional (HOLZMANN, 2001). [sem grifo no original] Verifica-se uma tendência ao emprego de plataformas globais e modularização de componentes no desenvolvimento de veículos, que afetam significativamente o atendimento dos requisitos de uso das pessoas. O design de caminhões da Volvo, por exemplo, tem seguido um princípio “modular”, que permite uma série de variações, a partir de modelos básicos. Nós temos centenas, eu não sei precisar a quantidade, mas as combinações são infinitas, desde acessórios até combinações de power&trim. Cada cliente tem uma necessidade bem específica. Existem até programas, softwares, para o cara vender o caminhão. Nós vemos a parte mais operacional, como, por exemplo, a kilometragem que o cara vai rodar, as condições da estrada onde ele vai rodar, a carga que ele vai levar, as condições climáticas. Tudo isso aí vai determinar uma configuração ideal para ele. Então, nós temos caminhões básicos, mas existem centenas de variações (6x4, 4x2, variam os tipos de transmissão, tipos de caixas, tipos de motor, etc.); na parte de cabine, existem centenas de alternativas de acessórios (HOLZMANN, 2001). [sem grifo no original] Estratégias deste tipo, porém, não atendem plenamente os requisitos de mercados diversos. Verifica-se, em muitos casos, nos quais o design é tratado de uma forma mais genérica e global, uma interferência na composição dos produtos por parte dos próprios usuários. Isto ocorre com uma freqüência significativa no setor automobilístico, onde, inclusive, tem-se desenvolvido uma forte rede de indústrias paralelas de acessórios. Estas fabricam uma série de produtos, que abrangem, por exemplo: calotas, balizas, estribos, polainas, tapas-sol, climatizadores de ar, calhas de portas, defletores de capô, pára-choques, terminais de escapamentos cromados, pára-barros, protetores frontais, sofás-cama, tapetes, capas de banco, cortinas e revestimentos de piso, dentre outros (ver Figuras 447 a 450). ... nós não temos disponível, como item de série, o revestimento liso brilhante. Por quê? Porque ele não é considerado de bom gosto e porque a qualidade não atende os requisitos da Volvo. Só que todo mundo quer e usa, e, então, eles vão lá no "Zé da Esquina" e fazem. E horrível, mas acontece que o cara pára o caminhão em um posto, cheio de barro, e sobe dentro da cabine. E muitos dirigem de sandália. Se ele sobe em um tapete normal de borracha, com aquela textura toda, fica tudo sujo! E com aquele plástico liso, ele passa um paninho, e fica limpo. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 826 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial Os revestimentos internos de cabine [dos caminhões da Volvo] são super sofisticados, mas muitas vezes o cara suja. E, dependendo da aplicação, não serve. [...] tem que ser um vinil, no qual o cara passa um paninho e limpa (HOLZMANN, 2001). [sem grifo no original] ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 447 - DETALHES DE INTERIOR DE CAMINHÕES SCANIA 113H 360, VOLVO 340 E MERCEDESBENZ 1313, MOSTRANDO ACESSÓRIOS QUE NÃO SÃO ITENS DE SÉRIE: 1) REVESTIMENTOS DE PISO, ASSENTO E CÂMBIO; 2 E 3) REVESTIMENTOS DE PISO E TAPETES (BRASIL, 2002) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 448 - DETALHES EXTERNO E INTERNO DE UM CAMINHÃO VOLVO NL10 340 E DETALHE EXTERNO DE UM CAMINHÃO SCANIA 112 HS, MOSTRANDO ACESSÓRIOS QUE NÃO SÃO ITENS DE SÉRIE: BALIZA, ADESIVO, CORTINA E ESCADA (BRASIL, 2002) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 827 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 449 - DETALHES EXTERNOS DE UM CAMINHÃO SCANIA 1115, MOSTRANDO ACESSÓRIOS QUE NÃO SÃO ITENS DE SÉRIE: PÁRA-SOL E RESERVATÕRIO DE ÁGUA (BRASIL, 2002) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 450- DETALHE DE INTERIOR DE UM CAMINHÃO MERCEDES-BENZ 1114, MOSTRANDO ACESSÓRIO QUE NÃO É ITEM DE SÉRIE: COLETE DE BOLINHAS DE MADEIRA PARA BANCO (BRASIL, 1995) ___________________________________________________________________________________________ No Brasil, cerca de 50% dos caminhões tem “climatizador de ar”, um acessório cuja necessidade surgiu neste país, mas que ainda não foi incorporado como item de série nos modelos de caminhões em geral, salvo exceções como o caminhão de série especial Volvo NH12 420 Série Top Class 25 anos. Consiste em um dispositivo para ventilação interna de cabines, que mantém a umidade do ambiente, com baixo consumo de energia (ver Figuras 451e 452). [O climatizador de ar] é uma solução tupiniquim excelente, que nós temos chance até de emplacar mundialmente. [...] nós temos um calor muito maior no Brasil, e não se pode deixar ligado o arcondicionado durante a noite, porque acaba com a bateria. O consumo é muito alto. Já o climatizador, que foi desenvolvido aqui, pode ser deixado ligado a noite inteira, porque o consumo dele é muito baixo. Ele não é um ar-condicionado; é um climatizador. Deixa fresquinho, umidifica. [...]é uma caixa que vai no teto do caminhão. É um produto bem simples, mas seu princípio é genial. É uma necessidade que surgiu no Brasil. Na Suécia não existe esta situação de calor. Em alguns países, usa-se o ar-condicionado normal, e o cara não dorme muito na cabine, enquanto que aqui isso é muito comum (HOLZMANN, 2001). [sem grifo no original] Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 828 Trata-se de um produto de domínio público, e várias empresas o têm produzido no Brasil. ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 451 - CAMINHÃO VOLVO “NH12”, COM CLIMATIZADOR DE AR QUE NÃO É ITEM DE SÉRIE (BRASIL, 2000), E CLIMATIZADOR DE AR DA MARCA BEPO (BRASIL, 2001) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 452 - CAMINHÃO VOLVO NH12 420 SÉRIE TOP CLASS 25 ANOS, COM CLIMATIZADOR DE AR DE SÉRIE (BRASIL, 2002) NOTA: Na foto à direita, detalhe do interior da cabine, mostrando climatizador no teto. ___________________________________________________________________________________________ O desenvolvimento expressivo da indústria paralela de acessórios e empresas que realizam adaptações em veículos evidencia como a padronização do design, seja ao nível “global”, “nacional”, ou outro genérico qualquer, não costumam atender suficientemente as necessidades e anseios das pessoas, que acabam buscando soluções alternativas, muitas vezes paliativas e inadequadas, quando os produtos básicos que lhes são oferecidos pelas empresas não os atendem a contento. Observam-se adaptações de veículos para usos diversos. No Brasil, por exemplo, há adaptações de carros para produção e comercialização de caldo-de-cana, açougue ambulante, dentre outros usos (ver Figuras 453 e 454). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 829 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 453 - VOLKSWAGEN KOMBI E PICAPE FORD - ADAPTADAS PARA PRODUÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO DE CALDO-DE-CANA (BRASIL, 2001) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 454 - CAMINHÃO FIAT, ADAPTADO PARA USO COMO AÇOUGUE (BRASIL, 2001) ___________________________________________________________________________________________ O comportamento do consumidor, quanto ao uso dos produtos, varia entre culturas distintas. De acordo com Nakamura (2001), o uso de carros “no Brasil é mais geral, enquanto que na Europa e no Japão é mais racional”. “[...] o carro aqui tem que servir para tudo”, em parte devido ao poder aquisitivo mais baixo dos brasileiros, que, em geral, os impede de comprar mais de um veículo. Um exemplo é o carro popular de 1000 cilindradas daqui, que tem uma limitação, comparado ao carro de 2000 cilindradas. Tem diferenças de potência... E o que acontece? As pessoas compram um carro de 1000 cilindradas e viajam pelo Brasil afora, com cinco pessoas, bagagem dos cinco, carregam um monte de coisas... A idéia do carro pequeno de 1000 cilindradas é a de um carro mais urbano; seria para se utilizá-lo em uma condição mais de cidade, que é o que acontece na Europa e no Japão. Vê-se que as pessoas que têm os carros menores, usam-nos só para aquele dia a dia. Claro que tem também as diferenças sócioeconômicas, de dinheiro, que nós temos menos, para ter dois carros, por exemplo. Então, o carro aqui tem que servir para tudo. Acho que esta é a principal característica: carro aqui tem que servir para tudo (NAKAMURA, 2001). [sem grifo no original] Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 830 São exemplos de designs desenvolvidos com base nessa característica de uso mais geral de veículos no Brasil: Fiat Strada Cabine Estendida, Ford EcoSport e Volkswagen Fox Cross, dentre outros, que foram concebidos para serem utilizados tanto na cidade como no campo. Há requisitos de uso específicos a certos mercados, que demandam um design de produtos direcionado aos mesmos. O conceito de picape “com cabine estendida”, por exemplo, é algo típico do Brasil, relata Nakamura (2001). Por este motivo, a picape Fiat Strada com cabine estendida foi desenvolvida pela subsidiária brasileira, e não pelo Centro de Estilo da Itália, como costuma ocorrer. Ela tem 30 cm a mais dentro da cabine, que serve não para levar pessoas, porque é um espaço pequeno, mas para levar alguma carga, bagagem, alguma coisa mais delicada. [...] Foi detectada a necessidade dessa picape Strada, porque os usuários de picape o usavam como carro. Poucas pessoas usam a picape no uso normal, como veículo comercial. As pessoas compravam a picape e raramente carregavam alguma coisa lá atrás. O que eles carregavam? Quando viajavam, carregavam mala. Mas, então, o que se faz com a mala? Deixa-se do lado de fora, que é aberto? Então, esta era uma necessidade que existia, e que, com essa picape Strada, acabou. Pode-se carregar a mala dentro, sem nenhum problema. Hoje são uns 50% dessa e 50% da outra picape normal, com uma tendência para aumentar com a cabine prolongada (NAKAMURA, 2001). [sem grifo no original] A picape Fiat Strada com cabine estendida tem sido fabricada somente no Brasil, desde 1999, e foi desenvolvida com base em uma pesquisa de mercado, que identificou que raramente se utilizava a caçamba em sua capacidade total e que havia uma demanda dos usuários por maior espaço interno na cabine. Diminuiu-se, então, 30 cm da caçamba, para se dispor de 280 litros de capacidade de carga atrás dos bancos, além de possibilitar reclinar os bancos até embaixo248 (ver Figura 455). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 455 - FIAT STRADA LX - COM CABINE ESTENDIDA E INTERIOR DA CABINE (1999) ___________________________________________________________________________________________ 248 No ano de 2000, a picape Fiat Strada com cabine estendida assumiu a primeira posição nas vendas do segmento de comerciais leves, até então liderada pela picape Volkswagen Saveiro. (GRIECCO, Adriano. Fiat Strada Adventure: trivial simples com algo mais. Disponível em: <http://quatrorodas.abril.com.br/carros/testes/0702strada_001.shtml>. Acesso em: 16 fev. 2004.) Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 831 Este tipo de uso urbano de carros utilitários, observado no Brasil, não é comum, por exemplo, no Japão. “... o conceito de off-road, de picape, para o americano é muito mais parecido com o do brasileiro que o do japonês. [...] o japonês não compra muito picape que não seja para ser utilitário mesmo. Se for para ficar passeando, ele vai comprar um carro pequeno”, relata Kramer (2001). A Volkswagen tem ampliado significativamente sua participação no mercado brasileiro de caminhões. E um dos fatores determinantes para tal tem sido o desenvolvimento do design dos mesmos com base em pesquisas realizadas pela empresa junto aos consumidores. Um exemplo disto é o caminhão Volkswagen Titan Tractor 18.310, lançado no ano de 2000, cuja configuração de cabine, potência de motor e distribuição de carga foram definidos, levando-se em conta requisitos identificados em pesquisas de mercado. O Volkswagen Titan Tractor 18.310 é um caminhão do segmento dos pesados, voltado a percursos que não demandam que o motorista durma no caminhão durante os mesmos. Em vista disto, optou-se por utilizar cabine simples, oferecendo-se um colchonete que pode ser estendido sobre os assentos (ver Figura 456), enquanto que os modelos concorrentes em geral têm cabine leito, pelo menos como opcional. Em relação à distribuição de carga, possibilita capacidade de carga combinada, através do ajuste da quinta roda, com duas posições de altura e avanço de até 100 mm. Suporta até 10 toneladas, sendo a única do segmento com esta capacidade. ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 456 - CAMINHÃO VOLKSWAGEN “TITAN TRACTOR 18.310” E INTERIOR DA CABINE, COM COLCHONETE SOBRE OS ASSENTOS (2002) ___________________________________________________________________________________________ Um dos fatores que têm influenciado o design de automóveis para o Brasil tem sido o fato das famílias brasileiras serem, em média, mais numerosas, comparativamente às européias, exigindo um bom aproveitamento de espaço interno dos veículos. O Volkswagen Fox, por exemplo, automóvel compacto desenvolvido pela Volkswagen do Brasil, sob a coordenação de Luiz Alberto Veiga, reflete esta preocupação, tendo sido desenvolvido a Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 832 partir do conceito "Designed Around the Passengers" (desenvolvido “de dentro para fora, ao redor do passageiro”), que prioriza o planejamento do espaço interno (ver Figura 457). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 457 - AUTOMÓVEL VOLKSWAGEN “FOX” (2004) E ILUSTRAÇÃO DE ESTUDOS DE SEU INTERIOR (DESIGN STUDIO BRASIL DA VOLKSWAGEN - ILUSTRADOR: MÜHLETHALER) ___________________________________________________________________________________________ Entre as várias regiões do Brasil, a diferenciação dos veículos tem se limitado, basicamente, aos tipos de acessórios ofertados. As empresas em geral não têm desenvolvido veículos com um design diferenciado, de acordo com requisitos mais específicos das mesmas. Há muito poucas variações regionais. [...] Na verdade, não se fazem adaptações regionais; são disponibilizados opcionais, e, de acordo com cada região, consegue-se vender mais um ou outro. Um exemplo típico: que carro você acha que vende mais no Mato Grosso: a Palio Weekend ou a Palio Adventure? É a Palio Adventure, porque ela é mais alta e tem borrachão embaixo. Mas, não é necessariamente uma adaptação regional. O que o pessoal consegue fazer hoje para vender mais carros no Nordeste? A primeira coisa é integrar o arcondicionado, senão não se consegue vender. Mas, principalmente, lá se vende carro 1.0, com financiamento. [...] O gaúcho, por exemplo, precisa de aquecimento, enquanto que o nordestino precisa de ar-condicionado no carro (KRAMER, 2002). [sem grifo no original] Nos últimos anos, a maior abertura ao desenvolvimento de produtos pelos centros de design das subsidiárias brasileiras das multinacionais tem ampliado as oportunidades para um melhor atendimento dos requisitos dos produtos, incluindo-se os de uso. O Ford EcoSport, por exemplo, foi desenvolvido para que cumprisse a função de um veículo utilitário esportivo para ser utilizado tanto em áreas rurais, quanto urbanas. Para tanto, deveria ser confortável, potente e com desempenho satisfatório tanto em pisos de asfalto, quanto de terra, a fim de atender requisitos identificados em pesquisas sobre o perfil do público-alvo dos mercados brasileiro e sul-americano e de acordo com a categoria em que se enquadra o veículo. Desenvolveu-se, assim, o primeiro utilitário esportivo compacto produzido no Brasil, sendo também apropriado para o uso em centros urbanos (ver Figura 458). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 833 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 458 - FORD ECOSPORT (BRASIL, 2003) ___________________________________________________________________________________________ Apesar de incorporarem visíveis influências estrangeiras, estas experiências inauguram uma nova fase do design industrial no Brasil, que demanda um maior aprofundamento da pesquisa sobre a questão da diversidade cultural, contextos ambientais, econômicos e sociais, características e requisitos de uso das pessoas deste país, com vistas ao desenvolvimento de produtos de qualidade para a sociedade. No setor moveleiro, variam os requisitos de uso dos produtos para usuários com culturas distintas, em aspectos tais como: composição de espaços internos, dimensionamento, dispositivos e acessórios, divisão de compartimentos, durabilidade, ergonomia (praticidade, conveniência, segurança, etc.), gestão ambiental, resistência, sistemas de montagem, dentre outros. O dimensionamento dos móveis tem variado entre determinados mercados. Os móveis espanhóis e norte-americanos, por exemplo, costumam ter dimensões maiores, comparativamente aos brasileiros, refletindo a diversidade cultural, as diferenças de características dos espaços arquitetônicos e de legislação, dentre outros fatores (ver Tabelas 15 a 17). Nos Estados Unidos, eles têm quarto de vestir, mas entram camiseiros, gavetas, camas, cômodos, criados... O quarto, mais ou menos, já tem um estilo. Nos Estados Unidos existem fábricas de casas pré-fabricadas, que são standard também, cujas dimensões são amplas. Normalmente têm dois pisos, sendo um para dormitórios. Então, realmente os móveis de lá têm dimensões boas e são bem aproveitados. Aqui, não. No mercado brasileiro, às vezes tem que se fazer até porta de correr para as pessoas poderem passar no quarto. Não dá para se fazer porta de abrir normal (TORRESAN, 2001). [sem grifo no original] Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 834 TABELA 14 - DIMENSÕES DE CAMAS DE CASAL DAS EMPRESAS: MÓVEIS CARRARO S.A. (BRASIL, 2004), MÓVEIS RUDNICK S.A., KIMBALL HOME FURNISHINGS (EUA, 2004) E ISAMIYA INC. LTD (JAPÃO, 2004) Dimensões (mm) Altura Largura Profundidade FONTE: NOTA: Camas de Casal da Móveis CARRARO S.A. Camas de Casal da Móveis RUDNICK S.A. Camas de Casal da KIMBALL Home Furnishings Camas de Casal da ISAMIYA Inc. Ltd. (BRASIL) (BRASIL) (EUA) 1050 900 / 920 / 940 / 1040 1371,60 / 1422,40 / 1498,60 / 1905,50 180* / 700 / 720 / 740 1460 / 1470 / 1600 1400 / 1460 / 1470 / 1510 / 1600 / 1660 / 2400 1625,60 / 1651 / 1727,20 / 1752,60 / 2057,40 / 2159 1650 1960 1900 / 2000 / 2070 / 2080 2209,80 / 2184,40 / 2260,60 / 2286 / 2311,40 / 2336,80 / 2423 / 2438,40 / 2969,20 2060 (JAPÃO) Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em: Catálogos da CARRARO MÓVEIS S.A.; Catálogos da MÓVEIS RUDNICK S.A.; <http://www.kimballhome.com>; <http://www.isam-net.co.jp>. Acesso em: 12 mar. 2004 * Cama sem cabeceira TABELA 15 - PROFUNDIDADES DE ROUPEIROS DAS EMPRESAS: MÓVEIS CARRARO S.A. (BRASIL, 2004), MÓVEIS RUDNICK S.A., KIMBALL HOME FURNISHINGS E RIVERSIDE FURNITURE (EUA, 2004) Dimensões (mm) Profundidade Roupeiros da Móveis CARRARO S.A. Roupeiros da Móveis RUDNICK S.A. Roupeiros da KIMBALL Home Furnishings Roupeiros da RIVERSIDE Furniture Roupeiros da ISAMIYA Inc. Ltd. (BRASIL) (BRASIL) (EUA) (EUA) (JAPÃO) 463 / 465 / 475 / 477 / 478 / 541 / 550 510* / 520* / 550* 609,60 / 635 609,60 / 615,95 / 660,40 610 / 625 520** / 610** FONTE: NOTA: Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em: Catálogos da CARRARO MÓVEIS S.A.; Catálogos da MÓVEIS RUDNICK S.A.; <http://www.alpesmoveis.com.br/>; <http://www.kimballhome.com>; <http://www.riverside-furniture.com>; <http://www.isam-net.co.jp>. Acesso em: 12 mar. 2004 * Profundidades de roupeiros da marca Alpes; ** Profundidades de roupeiros da marca Rudnick Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 835 TABELA 16 - DIMENSÕES DE CADEIRAS DAS EMPRESAS: METALÚRGICA BERTOLINI LTDA, MÓVEIS RUDNICK S.A., KIMBALL HOME FURNISHINGS E THOMASVILLE FURNITURE (EUA, 2004) Dimensões (mm) Cadeiras da Metalúrgica BERTOLINI Ltda (BRASIL) Cadeiras da Móveis RUDNICK S.A. Cadeiras da KIMBALL Home Furnishings (BRASIL) (EUA) Cadeira da THOMASVILLE Furniture Industries Inc. (EUA) Altura 850 / 865 1000 / 1040 / 1080 1168,4 1020 Largura 405 / 500 450 / 465 / 470 558,80 550 Profundidade 415 / 480 500 / 700 558,80 600 FONTE: NOTA: Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em: Catálogo da METALÚRGICA BERTOLINI LTDA; <http://www.kimballhome.com>; <http://www.thomasville.com>. Acesso em: 12 mar. 2004 Cadeiras sem braços Em parte pela concorrência entre empresas, com base na redução de preços, e também pela inexistência de normas mais específicas que estabeleçam dimensionamentos mínimos para os móveis, verificam-se, no Brasil, casos de redução exagerada de medidas utilizadas. ... a gente ou os concorrentes normalmente acabam reduzindo os móveis, para ter preços melhores de venda. Hoje se tem roupeiro com 45 cm de profundidade, onde não cabe um cabide dentro! O normal de um roupeiro é 60 cm, e estão cada vez reduzindo mais. As portas de 60 já estão com 30 cm. Uma porta de roupeiro antiga equivale a duas de hoje (TORRESAN, 2001). [sem grifo no original] Há casos em que se tem uma regulação mais rígida, como nos Estados Unidos, por exemplo, onde a legislação “não permite que se faça um roupeiro com 45 cm de profundidade, ou uma cômoda com menos de 50 cm de profundidade. As gavetas têm que estar sobre rodízios...”, observa Torresan (2001). No Japão, o dimensionamento dos espaços e elementos arquitetônicos, baseia-se em múltiplos e submúltiplos do antigo sistema de medida padrão, denominado “Kanejaku”, proveniente da China. Este sistema possui três unidades básicas de medida: o “Shaku”, o “Sun” e o “Ken”, sendo que um “Shaku” possui aproximadamente 30,030 cm249. As portas simples possuem 90 cm de largura, e as duplas 180 cm. O módulo básico do “tatami” japonês possui 90 x 180 cm e a “sala de tatami” possui tradicionalmente 180 cm de altura. Outros elementos, tais como a folha padrão de compensado, por 249 In: KANSAI INTERNATIONAL PUBLIC RELATIONS PROMOTION OFFICE. Disponível em: <http://www.kippo.or.jp/culture/build/measure_e.htm>. Acesso em: 19 mar. 2004. Measures in Japanese architecture. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 836 exemplo, possui 90 x 180 cm. Tal característica acaba se refletindo também no design de móveis deste país, influenciando seu dimensionamento e composição, que incorporam a modularização (ver Figura 459). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 459 - SALA DE JANTAR DA ISAMIYA INC. LTD. (JAPÃO, 2004) NOTA: Dimensões da mesa: largura: 180 cm, profundidade: 90 cm, altura: 35 cm; dimensões dos assentos: largura: 60 cm, profundidade: 63 cm, altura: 38 cm ___________________________________________________________________________________________ Os requisitos de uso dos móveis, quanto à ergonomia, variam entre determinados mercados. No Japão, por exemplo, o hábito das pessoas se sentarem junto ao chão tem levado ao desenvolvimento de móveis com alturas adequadas para tal (ver Figura 459). O grau de exigência, em relação à segurança dos móveis, varia entre pessoas de culturas distintas. “... comparando-se o Brasil com a Europa, por exemplo, eles têm um compromisso muito mais forte com a lei. Se uma pessoa, por exemplo, cai e quebra a perna, se paga por isso. E aqui não se paga. Aqui se faz meia nota, se vende sem nota...”, observa Trevisan (2001). Há o caso do uso do vidro temperado, sobre o qual existem leis que regem em questões de segurança, mas que as empresas moveleiras não as costumam seguir no Brasil. ... Se, digamos, uma pessoa se machucar, pode até correr um processo e pagar-se uma pequena indenização. Mas, lá fora, não. Lá fora, a exigência é muito grande. [...] Lá fora, fazem inúmeros testes, antes de colocar uma cadeira no mercado. Aqui, normalmente as empresas fazem o protótipo, fotografam e vão colocando a cadeira no mercado, sem fazer teste nenhum (RODRIGUES, 2001). [sem grifo no original] Na Inglaterra, há duas normas com relação à segurança de vidros em móveis em geral: BS 7449 (segurança do vidro nos armários) e BS 7376 (segurança do vidro nas mesas e carrinhos), e os Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 837 móveis de cozinha são atualmente controlados pela norma européia EN 1153, “que especifica que qualquer vidro entre 900 mm do chão dever ser vidro de segurança ou vidro testado contra impactos” (AITKENHEAD , 2002, p. 80). A Escriba, que atua no segmento de móveis para escritório, foi obrigada a seguir normas internacionais de segurança, em virtude de sua atuação no mercado externo. A empresa precisou solicitar o “Selo UL”250, dos Estados Unidos, que homologa produtos sobre itens de segurança. E o sistema DIN tem influenciado muito o dimensionamento de seus móveis (CALEJO, 2001). O maior grau de exigência dos consumidores quanto à qualidade dos móveis, por parte do mercado europeu, tem levado as empresas a informarem-nos sobre os ensaios de qualidade a que são submetidos os produtos, tais como os de resistência estrutural, segurança, acabamento e resistência superficial, especificações e características funcionais, dentre outros (ver Figura 460). A empresa moveleira espanhola Hermanos Vaquer S.A., por exemplo, traz as seguintes informações sobre os padrões de qualidade de seus produtos, em seu ambiente de interface gráfica na Internet: A qualidade dos produtos de Hermanos Vaquer S.A. vem avalizada pela etiqueta de qualidade da AIDIMA (Instituto Tecnológico del Mueble y Afines). Todos os nossos artefatos superaram satisfatoriamente os requisitos exigidos para a concessão da E.C.C (Etiqueta de Calidad Controlada), segundo normas UNE: controle dos produtos acabados sobre matérias primas e de nosso sistema organizacional de produção. Ensaios: Resistência estrutural, armários e similares: UNE 11016; Requisitos de segurança de móveis: UNE EN 1727; Acabamento de móveis de madeira. Resistência superficial: UNE 11019; Especificações e características funcionais, armários: UNE 11023; Resistência estrutural, camas: UNE EN 1725. Com o objetivo de alcançar a maior eficiência, Hermanos Vaquer S.A. conta com um Departamento de Controle de Qualidade, que busca assegurar a satisfação dos consumidores. Hermanos Vaquer está comprometida ativamente com a conservação do meio ambiente e por este encontra-se vinculado ao sistema integrado de gestão de caixas e resíduos de caixas de ECOEMBALAJES ESPAÑA S.A.251 (ver Figura 460) 250 A sigla UL refere-se a “Underwriters Laboratories Inc.”, organização fundada em 1894, independente, não-lucrativa, para teste e certificação de segurança de produtos (Informação disponível em: <http://www.ul.com/about/index.html>. Acesso em: 15 mar. 2004). 251 Disponível em: <http://www.hermanosvaquer.com/>. Acesso em: 14 mar. 2004. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 838 __________________________________________________________________________________________ FIGURA 460 - PÁGINA DA EMPRESA MOVELEIRA HERMANOS VAQUER S.A. NA INTERNET, COM INFORMAÇÕES SOBRE OS ENSAIOS DE QUALIDADE A QUE SÃO SUBMETIDOS SEUS PRODUTOS (ESPANHA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Informações mais detalhadas sobre testes de qualidade, como se observa no exemplo anterior, não têm sido prestadas pelas empresas brasileiras de móveis aos consumidores. De acordo com a ABIMÓVEL / PROMÓVEL (1999), uma das falhas apontadas pelos consultores americanos, em relação aos móveis brasileiros, refere-se ao encosto das cadeiras, que deveriam possuir ângulos ergonomicamente corretos. Segundo Calejo (2001), a Escriba foi obrigada a solicitar para seus produtos, em vista de sua atuação no mercado externo, o “Selo UL”, homologado por um laboratório dos Estados Unidos. Para tanto, foi necessária a vinda de técnicos norte-americanos, que permaneceram na empresa durante um certo período. Os Estados Unidos possuem normas de embalagens mais rígidas, comparativamente ao Brasil, porque lá há lojas que entregam a mercadoria através do correio, o que não costuma ocorrer neste país, onde as lojas geralmente utilizam transportadora própria ou terceirizada para as entregas. Outro exemplo de implicações da diversidade cultural nos requisitos de uso dos móveis é o sistema de montagem dos mesmos. Enquanto que, nos Estados Unidos, Japão e Europa, o sistema “monte você mesmo” (Ready-to-Assemble (RTA) = Self Assembly) já se encontra relativamente bem difundido, a sua assimilação tem sido lenta e ainda bastante restrita no Brasil. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 839 Lá [nos Estados Unidos], praticamente a família compra peças de móveis e acaba fazendo como passatempo, no fim de semana. O nível das pessoas é bem diferente, assim como na Europa. É o "compre e monte". Compra-se prateleira, o tampo da cozinha, e se monta muita coisa em casa, em fins de semana. Então, o mercado é diferente. Aqui tem alguma coisa disso. A Tok Stok está começando nisso daí e a Wall Mart também, e em algumas lojas grandes de São Paulo já tem alguma coisa, mas muito pouco. Está começando no Brasil, mas muito lentamente (TORRESAN, 2001). Vale lembrar a experiência da poltrona da linha de móveis “Peg Lev” (ver Figura 136), desenvolvida por Michael Arnoult, em 1972, com base no conceito “monte você mesmo”, que não obteve o sucesso comercial no Brasil, sobretudo pela baixa absorção deste tipo de sistema de montagem pelas pessoas deste país. Várias empresas norte-americanas, japonesas e européias têm comercializado móveis do tipo “monte você mesmo” (ver Figuras 461 a 463). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 461 - MESA DE COMPUTADOR E ESTANTE DA MARKS & SPENCER, DO TIPO “MONTE VOCÊ MESMO” (INGLATERRA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 462 - CAMA DE CASAL E CÔMODA DA ARGOS, DO TIPO “MONTE VOCÊ MESMO” (INGLATERRA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 840 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 463 - ARMÁRIO GUARDA-LOUÇA E CÔMODA DA MUJI, DO TIPO “MONTE VOCÊ MESMO” (JAPÃO, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Nos centros urbanos, os norte-americanos preferem receber os móveis já montados, para não perderem seu tempo livre e não terem que gastar com mão-de-obra, dentre outros fatores. No Brasil, por sua vez, os móveis são geralmente transportados desmontados e montados por montadores nos locais de entrega. A capacitação dos montadores de móveis também tem influenciado o design dos mesmos. No Brasil, por exemplo, o sistema de montagem dos móveis tem que ser o mais simples possível, em vista falta de instrução e capacitação profissional da maioria de seus montadores. ... no caso do móvel brasileiro, tem que se estudar um sistema de montagem muito bom, porque, normalmente, as pessoas que montam não são nem alfabetizadas, e não resolve fazer um esquema de montagem, nem escrever, porque eles nem sequer lêem. Eles vão no intuito e vão fazendo... Então, o estudo do móvel é bem complicado. Já na Europa, não. Na Europa está escrito que tem que se usar determinado parafuso, e é o que eles usam. E aqui, não. O montador faz o que acha que deve ser feito (TORRESAN, 2001). [sem grifo no original] Variam os componentes e acessórios dos móveis entre mercados diversos. No Brasil, as cozinhas industrializadas em geral oferecem menos acessórios, comparativamente às européias. Na Alemanha, onde as pessoas são exigentes, em relação à gestão ambiental e à ergonomia, os móveis de cozinha possuem vários dispositivos facilitadores das atividades de trabalho (ver Figura 464). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 841 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 464 - MÓDULO COM GABINETES PARA SEPARAÇÃO DE LIXO E MÓDULO QUE SE DESLOCA PARA FORA E GIRA 170º, DE ARMÁRIO DE COZINHA DA NOBILIA INTERNATIONAL (ALEMANHA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ A divisão de compartimentos dos móveis varia entre determinados mercados, em vista da diversidade cultural. Um exemplo disto é a subdivisão interna dos roupeiros brasileiros e espanhóis, que se diferenciam entre si, em vista dos hábitos de uso (ver Figura 465). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 465 - INTERIOR DE UM ROUPEIRO DE 4 PORTAS DA CARRARO (BRASIL, 2004) E INTERIOR DE UM ROUPEIRO DE 4 PORTAS DA HERMANOS VAQUER (ESPANHA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Os roupeiros e cômodas norte-americanos também apresentam subdivisões distintas, em relação aos modelos comumente encontrados no Brasil (ver Figuras 466 a 472). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 842 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 466 - ROUPEIROS DA CARRARO (BRASIL, 2004 E 2001) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 467 - LINHA DE CÔMODAS DA CARRARO (BRASIL, 2001) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 843 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 468 - DORMITÓRIO DA CARRARO (BRASIL, 2004) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 469 - DORMITÓRIO “PLUS” DA RUDNICK E INTERIOR DE ROUPEIRO DE 6 PORTAS (BRASIL, 2001) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 470 - ROUPEIROS DA KIMBALL HOME FURNISHINGS (EUA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 844 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 471 - CÔMODAS DA KIMBALL HOME FURNISHINGS (EUA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 472 - PENTEADEIRAS DA KIMBALL HOME FURNISHINGS (EUA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ A diversidade de hábitos culturais reflete-se na configuração dos móveis e modos de uso dos mesmos pelas sociedades. Há, nos Estados Unidos, armários que servem tanto como roupeiros como suportes para TV, diferentemente do Brasil, onde este tipo de associação de funções não costuma ocorrer (ver Figura 473). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 845 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 473 - PÁGINAS DA RIVERSIDE FURNITURE NA INTERNET, MOSTRANDO ARMÁRIO MULTI-USO ROUPEIRO / SUPORTE DE TV (EUA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Outro exemplo de característica cultural norte-americana, que se reflete no design de móveis, é que “móvel de banheiro lá é móvel de banheiro (ver Figura 474). Aqui [no Brasil] se usa o mesmo móvel de banheiro em áreas de serviço e talvez até em cozinha”, observa Torresan (2001). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 846 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 474 - MÓVEIS PARA BANHEIRO DA CARRARO, EXPORTADOS PARA OS ESTADOS UNIDOS (2001) ___________________________________________________________________________________________ Os norte-americanos têm o hábito de trabalhar eles próprios no jardim de suas residências, onde costumam reunir-se em família e entre amigos, o que já não é tão comum no Brasil e na Europa. Em vista disto, eles consomem muito mais equipamentos e móveis de jardim, comparativamente aos brasileiros e europeus. ... mesmo mais para o Norte dos Estados Unidos, em dias de sol, não interessa nem se está frio; eles vão para o jardim, comem no jardim e se reúnem no jardim. Gostam do sol e, para eles, o jardim faz parte da casa. Já nós temos um jardim em frente da casa, umas florzinhas, a grama, e acabou. Lá [nos Estados Unidos], não. Eles fazem a casa mais na frente e atrás aproveitam muito bem. Aproveitam para convidar os amigos. [...] E o móvel de jardim hoje já é bastante disputado, inclusive em design e qualidade. É claro que esse móvel tem que ser resistente, porque fica lá fora, na neve, nas intempéries... Lá também existe muito design. Hoje, até uma partezinha de madeira que esconde o vaso, para eles é decoração. Como aquela treliça para segurar trepadeiras, tudo é fabricado e tem uma venda muito boa. Cercas, normalmente eles não usam lá, mas, como detalhe de decoração, sim. Então, tudo isso está muito desenvolvido nos Estados Unidos, assim como na Europa. Só que na Europa isso não é tão forte como nos Estados Unidos, mesmo porque nos Estados Unidos o inverno é menor do que na Europa, onde o pessoal é mais família, mais dentro de casa. O sistema americano é bem diferente do europeu (TORRESAN, 2001). Nos Estados Unidos, há lojas e departamentos especializados em jardim, que comercializam vários tipos de produtos, incluindo-se móveis. No Brasil, por outro lado, este segmento ainda se encontra incipiente e muito fraco. As características de modularização e compartimentação se encontram muito presentes no mobiliário japonês, a exemplo dos roupeiros, que possuem espaços separados para camisas, gravatas e outros vestuários (ver Figura 475). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 847 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 475 - PÁGINA DA ISAMIYA CO.,LTD. NA INTERNET, MOSTRANDO ROUPEIRO E DETALHES DE GAVETAS PARA GRAVATAS, CAMISAS E OUTRAS ROUPAS; MÓDULO DE ROUPEIRO (JAPÃO, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Os requisitos de uso de móveis para cozinha também refletem as diferenças de hábitos culturais existentes entre as sociedades. No Brasil, as cozinhas são mais valorizadas em seu uso cotidiano, comparativamente aos Estados Unidos, segundo TORRESAN. Hoje, no Brasil, uma cozinha é uma sala de visita, nas classes média e média baixa. As pessoas, basicamente, ficam na cozinha. E mesmo as visitam ficam na cozinha. Então, elas gastam mais dinheiro em móveis de cozinha. Já nos Estados Unidos, por exemplo, o uso da cozinha é rápido. Ela é muito pequena, porque eles têm o microondas e o essencial para comprar a comida congelada no supermercado, e nela chegar, esquentar e comer. Já a sala de estar, nos Estados Unidos, é bem maior. E aqui é o inverso: a cozinha é maior e a sala de estar é menor. O Brasil tem diversas raças; é uma miscelânea de raças, e cada raça tem seu gosto. Mas, a predominância maior é mais européia. Então, a cozinha é maior. [...Já] nos Estados Unidos, não. Lá é uma área de serviço mesmo. [...] No Brasil, já se senta e se fala na cozinha. A área de estar ficou praticamente na cozinha. E as fábricas de cozinha têm uma venda muito boa, e as pessoas já estão escolhendo lojas que planejam móveis, enquanto que, em outros tipos de móveis, como os nossos, só determinados tipos de segmentos são planejados. O resto é preço. Eles dizem o seguinte: "Na cozinha, eu recebo visita. No quarto, posso ter até a cama no chão. Ponho o colchão no chão...". Na cozinha, como se recebe visita, o móvel é planejado, e normalmente gastam 2, 3, 4 mil reais em uma cozinha, mas não gastam 500 reais em um quarto (TORRESAN, 2001). [sem grifo no original] A mobília de cozinha tem sido a prioridade, na ordem de compra no Brasil. Em segundo lugar, vem o dormitório de casal, e, em terceiro lugar, a sala de estar. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 848 A primeira coisa que a pessoa compra é a cozinha. [...] Sem isso, tem gente que não se muda. Tem gente que tem uma casa menor, e construiu a maior, com esforço e tal, e não se muda se não tiver a cozinha bonita, certa, do sonho. Mas, a pessoa se muda se tiver um colchão no chão. Então, a cozinha é a primeira, e a segunda é mais o dormitório de casal, e a terceira é a mobília de estar, principalmente a estante para a televisão, e a última coisa é o estofado (TREVISAN, 2001). Há, no Brasil, móveis específicos para bar (ver Figura 476) para residências, apesar de que, com as transformações da sociedade, no perfil da população e modos de vida, o uso e a produção industrializada deste tipo de móvel decresceu consideravelmente no país. Na Espanha, geralmente o bar para residências encontra-se conjugado à estante de sala de estar (ver Figura 477). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 476 - BAR DA RUDNICK (BRASIL, 2004) ___________________________________________________________________________________________ ‘ FIGURA 477 - DETALHES DE BARES CONJUGADOS A ESTANTES, DA LINHA “MOBILIARIO CLÁSSICO”, DA PUCHADES MOBILIARIO (ESPANHA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ E, nos Estados Unidos, há pequenos armários de vinho para salas de visitas (ver Figura 478). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 478 - ARMÁRIO DE VINHOS PARA SALA DE VISITAS (“HOSPITALITY WINE CABINET”) DA KIMBALL HOME (EUA, 2004) Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 849 ___________________________________________________________________________________________ Observa-se, ao longo da história, que o design de móveis tem apresentado vários pontos de convergência com a arquitetura, no que tange aos requisitos principalmente simbólicos e de uso, embora, em muitos casos, apresentem divergências, em termos de linguagem. A inter-relação entre o móvel e a arquitetura encontra-se presente também na hierarquização social que os móveis assumem no cotidiano da sociedade, nos espaços arquitetônicos, cuja concepção revela, a exemplo das residências, “... uma tradição intrínseca, um sentido de permanência na setorização, inclusive em valores segregacionistas” (VERÍSSIMO; BITTAR, 1999, p. 19), apesar da dinâmica das transformações sofridas na sociedade e na cultura material ao longo do tempo. As modificações na arquitetura das habitações252, espaços de trabalho e lazer, decorrentes das transformações da sociedade, no perfil da população e modos de vida, que incluem, por exemplo, os divórcios, as mudanças de locais de moradia, em função do trabalho e das condições econômicas, têm trazido implicações significativas ao design de móveis. (ver Figura 479) Nós seguimos muito a construção civil, conforme o segmento de mercado. [...] hoje, o apartamento está muito reduzido, e temos que fazer móveis que se adaptem a isso, e até com multiversatilidade. Tem que ser versátil para isso. Às vezes, temos que fazer uma estante que vira cristaleira, rack para o som, e que tenha espaço para o computador. Então, isso está se misturando muito, em função das dimensões da construção civil. E, pela própria pressão do mercado, a gente está sempre em constante mudança aqui dentro. ... o número de divórcios também é muito grande, e as separações acabam formando dois apartamentos, bem diferentes do que se tinha anteriormente. São apartamentos menores, com móveis mais práticos. Isto é muito forte no Brasil. Existe também outro problema comum no Brasil, que é o seguinte: as pessoas de certo poder aquisitivo estão morando fora da cidade, e têm um apartamento alugado, pequeno, no centro da cidade, onde vêm para trabalhar durante a semana. No final de semana vão morar fora. [...] E também existe, por problemas em função de emprego, a pessoa que está sendo demitida, ou que está sendo transferida pela fábrica para outro local, e que tem que ir para outra cidade, o que está muito forte aqui no Brasil. Outra coisa forte no Brasil, além disso, é que a pessoa acaba vendendo o apartamento grande, porque está custando caro, e comprando um menor. E, então, a pessoa compra os móveis novamente. Estão se adaptando às dimensões menores mesmo as pessoas da classe média alta. Não têm mais apartamentos de 600 m2. Para elas, 250 m2 já está bom (TORRESAN, 2001). ___________________________________________________________________________________________ 252 Este assunto não está sendo focalizado nesta pesquisa e não se encontra nela aprofundado. Para maiores esclarecimentos sobre o tema, ver: TRAMONTANO, 1993; _____. Habitação, hábitos e habitantes: tendências contemporâneas metropolitanas. Artigo disponível em: <http://www.eesc.usp.br/nomads/livraria_artigos_online_habitos_habitantes.htm>. Acesso em: 20 abr. 2004; TRAMONTANO; VILLA, 2000; dentre outros. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 850 FIGURA 479 - ESTANTE - COM CRISTALEIRA, PORTA-CDS, RACK PARA SOM, TV E DVD – E MÓVEL DE ESCRITÓRIO RESIDENCIAL (HOME OFFICE) – COM MESA PARA COMPUTADOR E ESTANTES PARA IMPRESSORA, SCANNER, APARELHO DE SOM E LIVROS - DA RUDNICK (BRASIL, 2003) ___________________________________________________________________________________________ Os móveis de sala de jantar e de bar decresceram em grau de importância, porque as pessoas em geral recebem menos visitas em suas residências ultimamente. Antigamente se fazia noivado em casa, festa em casa, aniversário... Quem não se lembra da casa do pai e da mãe cheia de parentes e tal. E hoje a gente leva, como eu, faço na associação da Rudnick, ou em outra, pago lá dez reais para limpar tudo, e pronto! Então, não levo para casa a família, e, assim, não preciso de sala de jantar (TREVISAN, 2001). Assim como variam os espaços arquitetônicos, em termos de linguagem, dimensionamento, comunicação, tecnologia da construção, organização, sendo uns mais, e outros menos flexíveis, também os móveis precisam adequar-se às necessidades e anseios das pessoas, destacando-se a importância do desenvolvimento contínuo e aprofundado de pesquisas sobre o perfil e os modos de vida da sociedade. Trevisan relata o caso do redesenho de um móvel da Rudnick, que não obteve sucesso no mercado, devido à falta de uma pesquisa prévia de mercado mais acurada. Tem coisas, [...] que temos quase certeza de que serão um sucesso. Tínhamos uma sala famosa [, a San Marino], por exemplo, que tinha nove anos de mercado (isso há 8 anos atrás) e pediu-se para substituí-la, porque todo mundo, inclusive empresas da região, já a tinham copiado. Como se viu que as pessoas gostavam de porta curva, desenhei um móvel totalmente diferente, mas com o mesmo impacto formal (do espelho, da mesa, da cadeira). Mas, quando olhávamos um e outro, dava para dar um novo nome ao móvel redesenhado. Tinha as mesmas dimensões, mas quando a primeira série foi para o mercado, não foi..., não foi..., e eu não conseguia acreditar. E o gerente, então, disse: Vá para São Paulo ver o que está acontecendo. Então, eu fui conversar com os vendedores: "Por que a San Marino continua vendendo? Porque vocês já estão acostumados a vendê-la e já sabem que o cliente gosta dela? E por que é que a Inglesa não está vendendo?". E um vendedor respondeu: "O que o pessoal diz é que o brasileiro tem criança, e a quina é viva e o da outra linha é curva". E na cadeira havia entrado a moda do espaldar, que hoje é estofada, e eu inventei de por estofado no encosto e de fazê-lo mais quadrado [no modelo de sala Inglesa]. E a mesa antiga tinha um chanfrado, e eles gostavam dela, porque ninguém batia nela. Então, depois de visitar umas oito lojas, eu concluí que esse vendedor havia matado a charada. Um vendedor e uma vendedora falaram que o que acontecia era que eles gostavam da arca e queriam mostrá-la ao consumidor, mas achavam que a cadeira atrapalhava a visão da arca. Então, eu tive que voltar a por ripado na cadeira, do qual já estava enjoado, e tive que voltar a pôr o tampo chanfrado na mesa (TREVISAN, 2001) (ver Figura 480). ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 851 FIGURA 480 - SALA DE JANTAR “INGLESA” DA RUDNICK (BRASIL, 1994) ___________________________________________________________________________________________ Salienta-se, portanto a necessidade de se direcionar mais o design aos usuários e contextos em que vivem, a fim de cumprir as funções requeridas. Não é mais possível desenvolver, conceber e realizar idéias em laboratório, só dentro de estúdios. Hoje, é muito fácil se ter acesso à tecnologia, a informações, a tudo que se precisa para projetar um produto, e realizá-lo quase sem contato com quem vai usá-lo. [...] hoje os designers e os arquitetos precisam estar muito mais voltados para o usuário e para os ambientes em que as pessoas vivem. Os objetos não precisam ser geniais, no sentido naïf, fraco do termo. Os produtos precisam ser bons e cumprir o que se espera deles (CALEJO, 2001). [sem grifo no original] O design de mobiliário das empresas em geral atuantes no Brasil tem sido desenvolvido com uma abordagem mais genérica, em âmbito nacional, com base, principalmente, nos mercados das regiões Sul e Sudeste, apesar da grande diversidade cultural existente entre suas regiões. Não há, por exemplo, no caso da Rudnick, móveis desenvolvidos especificamente para a região Nordeste do Brasil. A Entrevistada “AD”, Designer desta empresa, relata: ... nós aqui [da Rudnick] ainda não conseguimos fazer uma pesquisa, por exemplo, lá no Nordeste, para desenvolvermos um móvel que tenha mais a ver com o que eles estão sentindo e precisando lá, porque tem diferenças de clima, de comportamento... A gente ainda não conseguiu fazer isso, e, então, fica muito ainda com uma visão do que o Sul e o Sudeste estão querendo (ENTREVISTADA “AD”). [sem grifo no original] Um dos fatores que tem dificultado o desenvolvimento de produtos mais específicos para os mercados locais tem sido a falta de flexibilização do sistema produtivo. No Nordeste, por exemplo, trabalha-se muito com móveis com pezinhos, porque, até pelo fato de ser muito quente, eles têm e lavam o piso de cerâmica. E, já com rodapé, a gente tem algumas dificuldades. Apesar disso, nós vendemos o mesmo produto que é vendido no Rio Grande do Sul em Manaus, porque também o mercado é muito grande no Brasil. É claro que poderíamos estar atendendo um mercado muito maior, só que teríamos que estar desenvolvendo produtos específicos para esses mercados. Então, vem a questão da flexibilidade de produção. Como as fábricas não são tão flexíveis, então... (RODRIGUES, 2001) [sem grifo no original] Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 852 A maioria das empresas tem trabalhado com linhas de produtos direcionadas a determinados segmentos de mercado, com o emprego de plataformas básicas, variando componentes, cores e acessórios. No Brasil, o mercado, por regiões, tem características distintas. Está segmentado de uma forma bem típica. O produto varia para cada segmento, em termos de cor (que, para cada segmento é diferente). Os materiais, de forma geral, são os mesmos. Têm a mesma base. Variam mais na parte de acessórios e complementos. O mercado do Sul pede produtos mais aconchegantes, até em função da própria temperatura. Mas, [...] pela característica da nossa empresa, nós não podemos nos ater a um determinado nicho, a uma determinada característica regional. Então, temos realmente que fazer uma síntese de tudo isso e colocar no produto. No exemplo dos pés, às vezes tem produtos que teriam que ir com pés, e nós não colocamos. Infelizmente, a gente tem que colocar rodapé, porque é o que as outras regiões pedem. E isso é uma característica bem típica. A questão das dimensões dos móveis também é bem característico por região. No Rio de Janeiro pedem muitas mesas menores, do tipo 1 por 1m. Já outras regiões pedem mesas maiores. Variam até os nomes dos produtos, como, por exemplo, a "sala de jantar", que em algumas regiões chamam de "varanda", principalmente no Nordeste. E as características dos produtos também variam. Que bom se a gente pudesse realmente fazer um desenho por região! Isso seria o ideal, até falando como designer. Mas, falando como empresa, tem as limitações (RODRIGUES, 2001). [sem grifo no original] Pesquisas de mercado demonstram que nem sempre o uso planejado para um determinado produto é aquele que se tem na prática. Rodrigues relata experiências da Rudnick, que confirmam este fato. Muitas vezes nós desenvolvemos um produto para um determinado uso, para um determinado consumidor, e depois vemos situações totalmente opostas às que foram previstas. Fizemos uma pesquisa através de todos os nossos vendedores, que foram nas casas de consumidores, para fotografar situações de uso, sem aviso prévio, para que as pessoas não arrumassem. E, no dia-a-dia, a gente acabou encontrando situações bem diferentes das previstas. Em um exemplo, o consumidor usou a área de cabides para guardar cobertores. É uma característica interessante, e talvez, tivesse que ter um armário para o Sul, com muito mais espaço para cobertores. E não tem. E, no Nordeste, o armário poderia ser menor, porque eles quase não precisam de roupa. Na pesquisa sobre racks, em um exemplo, na área reservada para TV, com tampo giratório, a pessoa colocou planta, antena, etc. Em outro exemplo, a pessoa comprou um rack para televisão, e, então, comprou um suporte suspenso para a TV, ocupando o rack com outras coisas... É claro, o cliente usa de acordo com o que ele quer (RODRIGUES, 2001) [sem grifo no original] As desigualdades sociais têm se refletido no desenvolvimento de móveis, cuja qualidade diferencia-se, conforme as classes sociais às quais se destinam. Os móveis de cozinhas mais populares, por exemplo, possuem materiais e acabamentos de qualidade inferior, com menor durabilidade e resistência, dimensionamento mais reduzido e com menos dispositivos e acessórios facilitadores das atividades de trabalho, comparativamente aos modelos direcionados às classes sociais de maior poder aquisitivo (ver Figuras 481 a 483). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 853 Esta realidade confirma o entendimento de Bourdieu (1979; 1983), com relação à questão da distinção social, a partir da diferenciação dos bens de consumo. Cabe lembrar que há uma parte expressiva da população brasileira, que vive em condições de extrema pobreza, que sequer tem tido acesso aos mercados de consumo de móveis, sendo, muitas vezes, obrigada a reaproveitar e adaptar produtos descartados para seu uso no cotidiano.253 O uso dos produtos é essencialmente dinâmico e assume modos e significados diversos e variáveis, no tempo e no espaço, para pessoas de culturas distintas. Trata-se de uma questão de fundamental importância no design de produtos, e salienta-se a necessidade de um esforço conjunto das indústrias, designers, instituições de ensino e pesquisa, no sentido de promover uma maior flexibilização da produção e diversificação do design de móveis, com base em pesquisas contínuas e aprofundadas sobre as características e necessidades dos usuários. 253 Este assunto não é objeto específico desta pesquisa e não se encontra nela aprofundado. Para maiores esclarecimentos sobre este tema, ver: SANTOS, M. C. L. dos. 1996; 1998; 1999; dentre outros. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 854 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 429FIGURA 430FIGURA 431FIGURA 432FIGURA 433FIGURA 434FIGURA 435FIGURA 436 FIGURA 437 FIGURA 438 FIGURA 439FIGURA 440FIGURA 441FIGURA 442FIGURA 443FIGURA 444FIGURA 445FIGURA 446FIGURA 447FIGURA 448 FIGURA 449 FIGURA 450 FIGURA 451FIGURA 452FIGURA 453FIGURA 454FIGURA 455FIGURA 456FIGURA 457FIGURA 458FIGURA 459FIGURA 460FIGURA 461FIGURA 462FIGURA 463 FIGURA 464 FIGURA 465 FIGURA 466FIGURA 467FIGURA 468FIGURA 469FIGURA 470FIGURA 471FIGURA 472FIGURA 473FIGURA 474FIGURA 475 FIGURA 476 FIGURA 477 FIGURA 478FIGURA 479FIGURA 480FIGURA 481FIGURA 482FIGURA 483 QUADRO 1 QUADRO 2QUADRO 3QUADRO 4QUADRO 5 QUADRO 6 QUADRO 7QUADRO 8QUADRO 9QUADRO 10 QUADRO 11 QUADRO 12QUADRO 13QUADRO 14QUADRO 15 QUADRO 16 QUADRO 17QUADRO 18QUADRO 19QUADRO 20QUADRO 21 QUADRO 22QUADRO 23QUADRO 24QUADRO 25 QUADRO 26 QUADRO 27QUADRO 28QUADRO 29QUADRO 30QUADRO 31 QUADRO 32QUADRO 33QUADRO 34QUADRO 35 QUADRO 36 QUADRO 37QUADRO 38QUADRO 39QUADRO 40QUADRO 41 QUADRO 42QUADRO 43QUADRO 44QUADRO 45 QUADRO 46 QUADRO 47QUADRO 48QUADRO 49QUADRO 50QUADRO 51 QUADRO 52QUADRO 53QUADRO 54QUADRO 55 QUADRO 56 QUADRO 57QUADRO 58 TABELA 1 TABELA 2 TABELA 3 TABELA 4 TABELA 5 TABELA 6 TABELA 7 TABELA 8 TABELA 9 TABELA 10 TABELA 11 TABELA 12 TABELA 13 TABELA 14 TABELA 15 TABELA 16 Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 855 No setor de eletrodomésticos, variam os requisitos de uso para usuários com culturas distintas, em aspectos tais como: componentes, dimensionamento, dispositivos e acessórios, divisão de compartimentos, durabilidade, ergonomia (conforto, conveniência, segurança, etc.), gestão ambiental, recursos tecnológicos, resistência, dentre outros. Os eletrodomésticos da Whirlpool, por exemplo, para diferentes mercados, “são bem específicos, porque os hábitos são muito distintos”, afirma o Entrevistado “K” (1998). No caso de refrigeradores, por exemplo, “... a gente é muito parecido com o europeu, mas, na Europa, os refrigeradores que mais vendem são os ‘combinados’, que têm o refrigerador em cima e o freezer embaixo”. A Multibrás comercializa este tipo de produto no Brasil, mas o mesmo representa somente “2% do segmento de mercado”, enquanto que, na Europa, ”são os produtos comuns de linha”, relata o mesmo (ENTREVISTADO “K”, 1998) (ver Figura 484). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 484 - COMBINADO REFRIGERADOR / FREEZER (BOTTOM FREEZER) WHIRLPOOL “ARC” (INGLATERRA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Na Suécia, de 62 modelos de refrigeradores de duas portas da Electrolux, 56 são do tipo “combinado” com refrigerador em cima e freezer embaixo, dois são do tipo Side by Side, e dois são do tipo com freezer em cima e refrigerador embaixo, tipo também denominado de “duplex” e “biplex” no Brasil (ver Figuras 485 e 486).254 254 Informação disponível em: <http://www.electrolux.se>. Acesso em: 07 abr. 2004. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 856 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 485 - COMBINADOS REFRIGERADOR / FREEZER ELECTROLUX “ER7422B” E “ERB3510AC” (SUÉCIA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 486 - REFRIGERADORES BRASTEMP “DUPLEX FROST-FREE 440 ELETRÔNICO” E ELECTROLUX “DFF44” (BRASIL, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Os requisitos de uso dos produtos diferem mesmo entre mercados vizinhos, como os da Argentina e do Brasil, por exemplo. Bertola relata que, na Argentina, para quem a empresa fabrica vários produtos, tem-se uma preferência quase que total pelas lavadoras do tipo Front-Load255 (ver Figura 487), assim como na Europa, ao contrário do Brasil, onde a maioria das pessoas prefere as TopLoad256 (ver Figuras 488 a 490), chegando até mesmo a rejeitar as Front-Load. 255 Termo inglês que se refere ao tipo de abertura localizada na face frontal de lavadoras e secadoras de roupa. 256 Termo inglês que se refere ao tipo de abertura localizada na face superior de lavadoras e secadoras de roupa. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 857 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 487 - LAVADORAS DE ROUPA FRONT-LOAD ELECTROLUX “EW757”, “EW750” E “EW501T”, COMERCIALIZADAS NA ARGENTINA (2004) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 488 - LAVADORAS DE ROUPA TOP-LOAD ELECTROLUX “TOP8S” E “LM08A” (2003) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 489 - LAVADORAS DE ROUPA TOP-LOAD BRASTEMP “8KG TIRA MANCHAS ADVANTECH WASH” E “INTELLIGENT 7 KG TIRA MANCHAS” (BRASIL, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 858 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 490 - LAVADORAS DE ROUPA TOP-LOAD CONSUL “AUTOMÁTICA 5KG” E “AUTOMÁTICA 7KG” (BRASIL, 2000) ___________________________________________________________________________________________ A Electrolux do Brasil atualmente comercializa onze modelos de lavadoras de roupa, sendo que apenas uma delas é do tipo Front-Load. E a Brastemp comercializa doze modelos de lavadoras de roupa, todas elas do tipo Top-Load.257 De acordo com Gama Júnior (2001), as lavadoras do tipo Front-Load representam apenas 6% do total de vendas no mercado brasileiro, enquanto que, na Argentina, ocorre justamente o contrário. Uma discussão curiosa que surgiu, há alguns anos atrás, foi sobre lavadoras de roupa para as quais nós estávamos definindo plataformas para o Brasil e Argentina (nós temos fábrica na Argentina também). E foi difícil, em uma discussão com o pessoal dos Estados Unidos, para eles entenderem que o Brasil e Argentina são completamente diferentes. Para a percepção deles, é tudo a mesma coisa; que aqui é tudo pertinho, somos todos parecidos e falamos igual. E para explicar para eles que, no Brasil, só se vende lavadora Top Load, com tampa por cima, e que na Argentina só se vende Front Load... O gringo olhava e dizia: "Vocês estão loucos! Para que nós vamos ter duas diferentes? Vamos fazer uma só.". E, então, eu dizia: "Você quer vender aonde? Lá na Argentina? Então está bem, vamos lançar a Front Load, mas no Brasil não vai vender. No Brasil, 6% do mercado é Front Load, e lá é o contrário" (GAMA JÚNIOR, 2001). Esta preferência pelas lavadoras Top-Load deve-se, no caso do Brasil, à influência da cultura norte-americana, segundo os Entrevistados “A” (1998) e “I” (1998). As primeiras lavadoras “vieram [ao Brasil] dos Estados Unidos, através da White-Westinghouse, através de venda de tecnologia”, e “a própria Prosdócimo já fabricava, nos anos 60, lavadoras com tecnologia comprada dos Estados Unidos”. E, da mesma forma, a Brastemp passou a empregar e utiliza até hoje a tecnologia da 257 Informações disponíveis em: <http://www.electrolux.com.br>; <http://www.brastemp.com.br>. Acesso em: 21 mar. 2004. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 859 Whirlpool. Deste modo, “a consumidora brasileira acostumou-se a ver na casa da mãe, da avó, da tia, a lavadora que abre por cima [...]”, lembra a Entrevistada “A”. No início, só havia, no Brasil, lavadoras do tipo Top-Load, e a Front-Load “entrou bem depois, com a evolução tecnológica e, inclusive, com a preocupação com a economia de água, em criar sistemas mais eficientes de lavagem”, observa o Entrevistado “I” (1998). Em um certo momento, a Enxuta, a Continental, dentre outras empresas, introduziram a FrontLoad, tendo em vista que este tipo de lavadora é, tecnicamente, melhor que a Top-Load. Entretanto, a lavadora Front-Load faz parte de uma cultura européia, e, especificamente no caso de lavadoras de roupa, o público consumidor brasileiro possui uma cultura mais próxima à norte-americana. “... no Brasil ficou-se com aquela idéia de que lavadora tem que ser grande, robusta, pesada, de aço e de colocar a roupa por cima”, do tipo das americanas. “... Elas têm que encher de água, possibilitar olhar a roupa girando lá dentro, e têm que ter aquele agitador no meio (que, em vez de melhorar a lavagem, piora, pois acaba estragando as roupas mais delicadas)” (ver Figura 491). “... o mercado exige que se tenha esse tipo de máquina”, afirma o Entrevistado “I” (1998). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 491 - DETALHE ESQUEMÁTICO DE UMA LAVADORA DE ROUPA TOP-LOAD, MOSTRANDO O DISPOSITIVO AGITADOR (BRASIL, DÉCADA DE 1970) ___________________________________________________________________________________________ Percebe-se, no entanto, que a influência norte-americana sobre os brasileiros, em relação às lavadoras de roupa, atualmente já não é tão forte como outrora. O entrevistado “D” (1998) relata o caso de uma lavadora norte-americana que foi testada e não se adaptou ao mercado brasileiro, por ser um produto demasiadamente “grande” e “robusto”. Segundo o entrevistado, existe atualmente uma relação maior do mercado brasileiro e sul-americano com o mercado europeu, quanto à preferência por produtos mais compactos. “No Brasil, as pessoas gostam do produto mais prático, mais fácil de guardar, menos volumoso”, afirma o Entrevistado “E” (1998). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 860 O público consumidor da lavadora Front-Load caracteriza-se por ser mais exigente e analítico, “porque depois que fechou a tampa da lavadora, fechou e a gente não abre mais. Só na hora em que terminar o ciclo!. [...] Para quem está acostumado a abrir uma tampa e jogar tudo para dentro, e, se esquece mais alguma coisa, abre a tampa e joga, e, se esquece mais alguma coisa, abre a tampa e joga..., nessa não é mais assim”, afirma a Entrevistada “A” (1998). Para os europeus, “a Front-Load é perfeita”, porque estão habituados a se organizar, a se programar para por as roupas dentro da máquina, e a colocá-la para funcionar, observa o Entrevistado “J” (1998). (ver Figura 492) De um total de vinte e sete modelos de lavadoras de roupa Electrolux comercializadas na Suécia, somente duas são do tipo Top-Load. As demais são Front-Load.258 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 492 - LAVADORAS DE ROUPA FRONT-LOAD ELECTROLUX “EWF1235” E “EWF1445” (SUÉCIA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Na opinião da Entrevistada “A” (1998), a lavadora do tipo oriental, que funciona por tombamento, mas tem abertura superior, “seria o ideal para o mercado brasileiro” (ver Figura 493). Uma das vantagens apresentadas por este modelo é que seu dimensionamento é menor, porém possui uma grande capacidade. Entretanto, até o momento, não se tem observado, no Brasil, um investimento no sentido de se criar um desejo de compra para este tipo de lavadora, já bastante consumido também pelos europeus. 258 Informação disponível em: <http://www.electrolux.se>. Acesso em: 22 mar. 2004. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 861 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 493 - LAVADORA DE ROUPA TOP-LOAD TOSHIBA “TW80TA”, DO TIPO, E ILUSTRAÇÃO MOSTRANDO SISTEMA DE LAVAGEM POR TOMBAMENTO (JAPÃO, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Logo após a incorporação da Refripar pela Electrolux, esta substituiu uma lavadora Front-Load – cujo painel de comandos havia sido desenvolvido pelos designers da Refripar e que já vinha sendo comercializada, com boa aceitação no mercado brasileiro - por um modelo italiano. Este, no entanto, sofreu rejeição, em parte pelo fato do mesmo apresentar botões de comando salientes, enquanto que, no modelo da Refripar, os mesmos eram embutidos. Bertola esclarece que, no Brasil, as pessoas preferem botões embutidos nas lavadoras FrontLoad, porque as áreas de serviço são geralmente pequenas, e “a pessoa não gosta de bater a coxa nos botões” (ver Figura 494). Na Europa, por sua vez, as pessoas “gostam de botão saltado, porque fica com a pega mais proeminente, uma coisa maior”, sendo que um dos motivos para tal é a característica antropométrica das pessoas (“a mão das pessoas de lá é mais avantajada”), de acordo com o Entrevistado “F” (1998) (ver Figura 495). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 494 - DETALHE DO PAINEL DA LAVADORA DE ROUPA ELECTROLUX “LE750” (BRASIL, 2002) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 862 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 495 - DETALHE DO PAINEL DA LAVADORA DE ROUPA HUSQVARNA “MÄSTERTVÄTT 1250 VIP” (SUÉCIA, 1996) NOTA: A marca Husqvarna pertence à corporação Electrolux ___________________________________________________________________________________________ Os requisitos de uso, quanto ao tipo de comunicação gráfica dos eletrodomésticos, também variam em função da diversidade cultural dos usuários. O painel das lavadoras de roupa, por exemplo, têm que ter um grafismo que se destaque como um “cartaz” para o mercado brasileiro, porque o público usuário é muito diverso, compreendendo, inclusive, pessoas analfabetas. Assim, “o corpo tem que ser maior, o grafismo tem que ser atrativo e chamar a atenção. Tem que ter um texto possível de identificar a função. Tem que fazer link de cor com programas, de ícones com as fases...” Além disso, não se pode esperar que a dona de casa vá consultar o manual e dar uma aula para a empregada, ou a outra pessoa, de como utilizar a lavadora de roupa, por exemplo, observa a Entrevistada “A” (1998). Os brasileiros geralmente têm dificuldades para interpretar “pictogramas”, como os utilizados em produtos suecos (ver Figuras 496 e 498), por exemplo, em virtude de possuírem um repertório de signos distinto e, principalmente, pela falta de hábito de leitura de manuais de instrução de uso. Por este motivo, utiliza-se, preferencialmente, o máximo de “textos” na comunicação gráfica de produtos comercializados no Brasil (ver Figuras 497, 499 e 500). Pelo fato dos brasileiros não costumarem ler manual, pois não têm paciência para tal, o Serviço de Atendimento ao Consumidor da Electrolux do Brasil solicita que se coloque o máximo de informações possível no painel de produtos como as lavadoras e os fornos de microondas, dentre outros. Nestes, “a leitura tem que ser rápida, porque o cara está lá cozinhando e não vai parar para ler o manual. [...] Então, é uma tecla para assar carne, uma para pipoca, uma para massas, etc. Não adianta ficar lá com ‘1 minuto’, ‘2 minutos’, ‘3 minutos’...”, relata a Entrevistada “G” (1998) (ver Figuras 499 e 500). “Dependendo do país, tem que se tomar cuidado com o grafismo, que tem que se relacionar com o que as pessoas se alimentam. No Brasil, por exemplo, come-se peixe e carne, e a carne que se Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 863 come aqui é mais de gado e não carnes mais exóticas como a do javali, por exemplo”, adverte o Entrevistado “C” (1998). No caso do forno de microondas desenvolvido em parceria com a empresa coreana LG, o mesmo teve que sofrer algumas alterações para o mercado brasileiro, devido a diferenças de hábitos alimentares. No Brasil, por exemplo, “não consumimos um frango de 800 gramas” como na Coréia, onde, além disso, as pessoas “consomem caça”, o que também não é um hábito no Brasil. Em vista de tais diferenças, a Electrolux do Brasil teve que solicitar “um programa completamente diferente” para o forno de microondas a ser comercializado no mercado brasileiro, conforme relata a Entrevistada “A” (1998). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 496 - DETALHE DO PAINEL DE COMANDOS DA LAVADORA DE ROUPA ELECTROLUX “EW1555FE” (SUÉCIA, 1996) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 497 - DETALHES DO PAINEL DE COMANDOS DA LAVADORA DE ROUPA ELECTROLUX “LE750” (BRASIL, 2002) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 864 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 498 - PAINEL DE COMANDOS DO FORNO DE MICROONDAS ELECTROLUX “HEATWAVE AUTOCOOK & GRILL”(SUÉCIA, 1996) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 865 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 499 - PAINÉIS DE COMANDOS DOS FORNOS DE MICROONDAS ELECTROLUX “ME27S” (BRASIL, 2003) E PANASONIC “JUNIOR BROWNER” (BRASIL, 2002) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 866 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 500 - PAINÉIS DE COMANDOS DOS FORNOS DE MICROONDAS BRASTEMP “27 LITROS JET DEFROST” (BRASIL, 2002) E CONSUL (BRASIL, 2004) FONTE: Fotos de Maristela M. ONO, 2004 ___________________________________________________________________________________________ O norte-americano “gosta de coisa grande, exagerada; às vezes, joga comida fora”, enquanto que o “europeu, não”, afirma a Entrevistada “H” (1998). No caso de refrigeradores japoneses, por exemplo, “o layout interno é muito diferente, porque o hábito alimentar é muito diferente”, observa o Entrevistado “K” (1998). Dependendo dos hábitos culturais das pessoas, pode surgir a necessidade de compartimentos específicos para determinados tipos de alimentos e bebidas nos eletrodomésticos. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 867 Os refrigeradores europeus “costumam ter uma prateleira só para vinhos”, devido ao hábito de consumo mais acentuado deste tipo de bebida, relata o Entrevistado “F” (1998) (ver Figura 501). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 501 - REFRIGERADOR HUSQVARNA “OPAL PLUS” E FREEZER HUSQVARNA “SAFIR PLUS”, E DETALHE, MOSTRANDO PORTA-VINHOS DO REFRIGERADOR (SUÉCIA, 1998) ___________________________________________________________________________________________ Tanto no caso da Electrolux do Brasil, quanto da Multibrás, as diferenciações dos produtos para os vários mercados da América do Sul e Latina têm sido relativamente poucas. Ainda assim, identificam-se exemplos de diversidade significativas, como no caso dos fogões da Argentina, que necessitam de um tipo de chama e compartimento específicos para o preparo da “Parrilla”, um alimento típico consumido no país. “... o fogão, na Argentina, tem que ter a ‘parrillera’259 [...]. Se não tiver, pode botar lá no mercado, pode ser lindo, que eles vão olhar [e dizer:] ‘Ah, que lindo!’, e não vão comprar”, afirma o Entrevistado “L” (1998). O “aquecedor de pratos” para o preparo da “Parrilla” (componente denominado de “calienta platos / parrilla”, em espanhol) é, portanto, requisito essencial em fogões para o mercado argentino, como se pode observar, por exemplo, na linha comercializada pela Electrolux (ver Quadro 59). 259 Tipo de aquecedor de pratos, apropriado para o preparo da “Parrilla”. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 868 QUADRO 59 - CARACTERÍSTICAS DE FOGÕES ELECTROLUX, COMERCIALIZADOS NA ARGENTINA (DÉCADA DE 1990) NOTA: Importados da Itália Destacam-se, portanto, os hábitos alimentares, dentre as convenções culturais que estruturam o cotidiano e o comportamento de consumo, dentre as principais barreiras à homogeneização dos produtos, conforme o entendimento de Usunier (1992). Os requisitos de uso, quanto à divisão de compartimentos e componentes dos eletrodomésticos também varia entre determinados mercados, em vista de particularidades de hábitos culturais. Na China e no Japão, por exemplo, “entram as coisas menores e mais compartimentadas”, enquanto que, na Europa, as pessoas “gostam de espaços maiores”, relata a Entrevistada “H” (1998) (ver Figura 502). Há componentes diferenciados, a exemplo das bandejas rotatórias das prateleiras do refrigerador japonês Sanyo, apresentado na Figura 502, que facilitam o manejo dos alimentos acondicionados ao fundo das prateleiras. Os requisitos de uso dos eletrodomésticos variam entre mercados diversos, quanto ao seu dimensionamento. Os eletrodomésticos de linha branca norte-americanos, por exemplo, possuem dimensões maiores, comparativamente aos europeus, asiáticos e sul-americanos em geral (ver Tabelas 17 e 18). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 869 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 502 - REFRIGERADOR SANYO “SR-41ZR” E DETALHE DA GAVETA INFERIOR (JAPÃO, DÉCADA DE 1990), E REFRIGERADOR SHARP “SJ-PV50H” (JAPÃO, 2004) ___________________________________________________________________________________________ TABELA 17 - DIMENSÕES DE FOGÕES DAS MARCAS: BOSCH (ALEMANHA, 2004), BRASTEMP (BRASIL, 2004), ELECTROLUX (SUÉCIA, 2004) E FRIGIDAIRE (EUA, 2004) Dimensões (mm) Altura Largura Profundidade FONTE: NOTA: Fogão AEG “Competence” 4 bocas / elétrico / sem tampa Fogão Brastemp “Quality” 4 bocas / a gás / com tampa Fogão Brastemp “Quality” 6 bocas / a gás / com tampa Fogão LG “G-809WP” 4 bocas / a gás / sem tampa Fogão Frigidaire “PLCF489AC” 6 bocas / a gás / sem tampa (ALEMANHA) (BRASIL) (BRASIL) (CORÉIA) (EUA) 850 860* 860* 850 1187,45 500** / 600*** 560 770 600 1019,175 600 660 660 600 641,35 Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em: <http://www.aeghausgeraete.de>; <http://www.brastemp.com.br>; <http://www2.lge.co.kr/>; <http://www.frigidaire.com>; <http://national.jp>. Acesso em: 21mar. 2004 * Altura com tampa fechada; ** Fogão AEG “Competence 41005 VD-mn”; ** Fogão AEG “Competence 61016 VI-an” Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 870 TABELA 18 - DIMENSÕES DE COMBINADOS FREEZER/REFRIGERADOR DAS MARCAS: BRASTEMP (BRASIL, 2004) ELECTROLUX (BRASIL, 2004), ELECTROLUX (CHINA, 2004), AEG (ALEMANHA, 2004) E FRIGIDAIRE (EUA, 2004) Dimensões (mm) Combinado Freezer/ Refrigerador Brastemp “Duplex Frostfree 440 Eletrônico”* Combinado Freezer/ Refrigerador Electrolux “DFW45”* Combinado Freezer/ Refrigerador Electrolux “BCD291El” Combinado Freezer/ Refrigerador AEG “SANTO 70 398 DT” Combinado Freezer/ Refrigerador Frigidaire “FRT21H8CS” (BRASIL) (BRASIL) (CHINA) (ALEMANHA) (EUA) Altura 1869 1865 1880 1650 1752,6 Largura 700 698 601 695 752,47 Profundidade 720 710 659 706 863,60 FONTE: NOTA: Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis em: <http://www.brastemp.com.br>; <http://www.electrolux.com.br>; <http://www.electrolux.co.cn>; <http://www.aeg-hausgeraete.de>; <http://www.frigidaire.com>. Acesso em: 21mar. 2004 * Modelos do tipo “duplex” de maiores dimensões das empresas em questão (em 21 mar. 2004) A diversidade cultural manifesta-se, também, com relação aos modos de vida e tipos de locais em que são dispostos os produtos, o que afeta o design dos mesmos, em termos de configuração, dimensionamento, tipos de manejo, recursos tecnológicos, dentre outros aspectos. No Brasil, por exemplo, os refrigeradores geralmente são dispostos na cozinha e somente os modelos mais sofisticados das marcas possuem sistema frost-free. Já nos países asiáticos em geral, quase todos os refrigeradores e freezers têm sistema frost-free, e não são utilizados somente na cozinha, mas também na sala. No Japão, há modelos de refrigeradores, cujas portas tanto podem ser abertas tanto por cima, quanto por baixo (para quando se está sentado124) e que podem ser utilizados como bancada (ver Figura 503). 124 Devido ao hábito dos japoneses de sentarem-se ao chão. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 871 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 503- AMBIENTE COM REFRIGERADOR SANYO “ARC CUBE” (JAPÃO, DÉCADA DE 1990) ___________________________________________________________________________________________ Não se costumam ter áreas de serviço nas residências e apartamentos da Europa, e a lavadora de roupa normalmente fica no banheiro, na cozinha, ou em outros ambientes. E alguns de seus mercados demandam eletrodomésticos de dimensões reduzidas, pela necessidade de instalá-los em ambientes pequenos. Para estes casos, há opções de lavadoras de roupa, por exemplo, com 400 mm de largura (ver Figura 504). ... máquina de lavar roupa, na Itália, vai dentro do banheiro, porque a maioria das construções de lá são de mil e setecentos e não têm áreas de serviço. Então, as máquinas de lavar roupa têm que ser estreitinhas, pequenas, e, antes de entrar no banho, a pessoa tira a roupa e põe na máquina de lavar. [No Brasil,] a maioria das casas têm área de serviço, onde ficam as máquinas de lavar roupa, ou ficam para fora. Às vezes ficam para fora do espaço e ficam apanhando chuva... e, então, a máquina tem capa ou coisa assim (ENTREVISTADO “K”). No Brasil, por sua vez, a lavadora de roupa geralmente é instalada na área de serviço das casas e apartamentos (ver Figura 505), ou fora das casas, quando não há área de serviço interna. Neste mercado, não têm sido comercializados modelos tão estreitos. As lavadoras de roupa mais estreitas da Multibrás, por exemplo, possuem 560 mm, e as mais estreitas da Electrolux possuem 590 mm. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 872 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 504 - DETALHE DE BANHEIRO, COM LAVADORA DE ROUPA ZANUSSI (ITÁLIA, 1997), LAVADORA DE ROUPA REX “RT600”(ITÁLIA, 2004) E LAVADORA DE ROUPA ELECTROLUX “EWT1201” (SUÉCIA, 2004) NOTA: Largura = 400 mm; as marcas Zanussi e Rex pertencem à corporação Electrolux ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 505 - ÁREAS DE SERVIÇO DE RESIDÊNCIAS DE CLASSES “A” E “B”, COM: 1) LAVADORA E SECADORA DE ROUPA GENERAL ELECTRIC (IMPORTADAS DOS ESTADOS UNIDOS), 2) LAVADORA DE ROUPA BRASTEMP (BRASIL, 1998) ___________________________________________________________________________________________ Na Europa, encontram-se também opções de fogões com larguras mais reduzidas (ver Figura 506). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 873 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 506 - FOGÕES AEG “41035 VD-WC” (ALEMANHA, 2004) E ELECTROLUX “EWT1201” (SUÉCIA, 2004) NOTA: Larguras = 50 mm (AEG) e 497 mm (Electrolux) ___________________________________________________________________________________________ O freezer, como observa o Entrevistado “K” (1998), “a gente traz para dentro da cozinha no Brasil, e, nos Estados Unidos, vai na garagem”. As transformações vivenciadas pelas sociedades, em termos de perfil da população e modos de vida, têm trazido implicações significativas ao design de produtos, como se pode observar no desenvolvimento de linhas de eletrodomésticos mais compactos no Brasil, em vista da necessidade de adaptar os produtos à redução de espaços arquitetônicos, sobretudo de apartamentos, em decorrência de fatores diversos, culturais, econômicos e sociais, dentre outros. São exemplos os refrigeradores e freezers da linha “Slim”, da Consul, que são mais estreitos do que o padrão médio de produtos deste segmento no Brasil (ver Figura 507). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 507 - FREEZERS CONSUL DA LINHA “SLIM” (BRASIL, DÉCADA DE 1990) NOTA: Largura = 476mm ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 874 “O produto americano é [...] grandão, ‘caixona’! Aqui já não comporta esse tipo de produto; não cabe na casa da pessoa. Então, tem que se atender a realidade local, porque senão não tem mercado”, salienta a Entrevistada “M” (2001). Exemplos disto são os Side by Sides (combinados refrigerador/freezer), importados pela Multibrás, Electrolux e outras empresas. De acordo com o Entrevistado “L” (1998), o Side by Side é “imenso”, e a Multibrás tem tido cuidado ao importar esses produtos, pois os mesmos “têm, normalmente, mais de 80 centímetros de profundidade”, e geralmente ”não entram na porta” (ver Tabela 19 e Figura 508). TABELA 19 - DIMENSIONAMENTO DE REFRIGERADORES SIDE BY SIDE, IMPORTADOS DOS ESTADOS UNIDOS PELA ELECTROLUX DO BRASIL E MULTIBRÁS (2004) Dimensões (mm) Side by Side Side by Side ELECTROLUX SS680 BRASTEMP 700 (importado dos EUA) (importado dos EUA) Altura 1783 1782 Largura 917 914 Profundidade 864 904 FONTE: NOTA: Elaborado por Maristela M. ONO, a partir de dados disponíveis <http://www.electrolux.com.br>; <http://www.brastemp.com.br>. Acesso em: 17 mar. 2004 Dimensões sem embalagem em: ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 508 - REFRIGERADORES SIDE BY SIDE BRASTEMP “700 INOX” E ELECTROLUX “SS680”, COMERCIALIZADOS NO BRASIL (IMPORTADOS DOS ESTADOS UNIDOS, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 875 O Side by Side da Frigidaire (importado pela Electrolux do Brasil), apesar dos consumidores da “classe A” terem a cozinha “super grande”, normalmente “não passa na porta, não cabe no elevador [...]. A embalagem260, quando se vai tirá-la para cima, já pega no teto... É difícil de ajustar...”, relata a Entrevistada “G” (1998). O Entrevistado “D” (1998) acrescenta que, para se ter condições de se instalar um produto desses em uma casa, ou em um apartamento, tem que se derrubar paredes e se fazer um projeto apropriado para isso. Por esta razão, acredita que tais produtos não terão uma boa aceitação no mercado. Além da questão do dimensionamento, os Side by Side apresentam um “fabricador de gelo” (ice-maker) (ver Figura 509) que atende a uma especificidade cultural do norte-americano, distinta neste aspecto à do brasileiro. “Eles querem o gelo quebradinho no copo. A gente não os vê colocando ‘cubinhos’ de gelo como no Brasil”. No Brasil, costuma-se deixar as bebidas gelarem no refrigerador, e por isso não se acrescenta tanto gelo261. “Tanto é que brasileiro diz que se acrescentar gelo fica ‘aguado’”. Deste modo, “trazer um refrigerador que tem um moedor de gelo na porta” trata-se, culturalmente, de “uma imposição de um hábito que o brasileiro não tem”, afirma a entrevistada “A” (1998). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 509 - DETALHE MOSTRANDO ICE-MAKER DO SIDE BY SIDE BRASTEMP “700” (IMPORTADO DOS ESTADOS UNIDOS, 2002) E DETALHE MOSTRANDO FREEZER COM FORMAS DE GELO DO REFRIGERADOR ELECTROLUX “DC47” (BRASIL, 2002) ___________________________________________________________________________________________ 260 As dimensões, com embalagem, do Side by Side 700, importado pela Multibrás dos Estados Unidos, são as seguintes: altura = 1869 mm, largura = 1024 mm e profundidade = 1004 mm (Informação disponível em: <http://www.brastemp.com.br>. Acesso em: 17 mar. 2004). 261 No Brasil, costuma-se utilizar gelo conformado em formas geométricas. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 876 Em relação ao ice-maker, os europeus também não têm o hábito de usá-lo, assim como os brasileiros também não, diferentemente do norte-americano, que o considera essencial, por consumir muita bebida com gelo, observa o Entrevistado “D” (1998). Exemplos como este destacam a necessidade, já mencionada por IIDA (1990), dentre outros, de se considerar as diferentes características de cada povo, quando se realiza a exportação e a importação de produtos, de modo a adequá-los aos contextos e usos específicos. No Japão, a grande necessidade de racionalização no aproveitamento dos espaços tem se refletido na redução do dimensionamento dos eletrodomésticos em geral, como se pode observar, por exemplo, no caso dos fogões (ver Figura 510). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 510 - FOGÕES ELÉTRICOS NATIONAL “KZ-SHSW32A” E “KZ-K221C” (JAPÃO, 2004) NOTA: Dimensõres: 1) largura = 749mm, profundidade = 563, altura = 230; 2) largura = 590mm, profundidade = 521, altura = 180 ___________________________________________________________________________________________ A diversidade de tipos de embalagens de produtos utilizados ao longo da história e nos vários mercados tem levado também à diferenciação do design industrial para os mesmos. Observam-se, nas sociedades, transformações nos hábitos alimentares, nas embalagens de bebidas e alimentos, que, por sua vez, demandam alterações no design de produtos. Os compartimentos internos dos refrigeradores do Brasil, por exemplo, foram sofrendo modificações em seu design, com a entrada de novos tipos de embalagens, como as garrafas de refrigerantes pet, de 1,5 e 2 litros, as latas de cerveja e refrigerante, dentre outras (ver Figuras 511 a 513). Variam também os tipos de embalagens entre mercados diversos. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 877 As embalagens, nos Estados Unidos, são diferentes. O compartimento de porta, por exemplo, tem o tamanho para se colocar galão de suco de laranja, etc., enquanto que, aqui, não se usa galão, mas garrafas de 2 litros, etc., que ficam dançando na porta. E assim por diante [...] É curioso que, quando se faz uma pesquisa assim pelo mundo, apesar de existir um acompanhamento global das novas tecnologias de embalagens, por exemplo, em cada região, o leite, por exemplo, é vendido em embalagens de diferentes litragens, porque em cada país existe um hábito de consumo diferenciado. E a cultura faz com que as pessoas tenham uma diferente percepção dos produtos... (GAMA JÚNIOR, 2001). [sem grifo no original] ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 511 - REFRIGERADORES PROSDÓCIMO (BRASIL, DÉCADA DE 1960), PROSDÓCIMO “SPAZIO PLUS” (BRASIL, 1988) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 512 - REFRIGERADORES ELECTROLUX “RDE37” E “DFF37” (BRASIL, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 878 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 513 - REFRIGERADORES BRASTEMP “DUPLEX ICE MAGIC 440” (BRASIL, 1978) E “DUPLEX FROST-FREE 440 ELETRÔNICO ICE MAGIC” (BRASIL, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Há necessidade de inserção de componentes específicos no design de produtos para determinados mercados, em vista da diversidade cultural, a exemplo do “porta-ovos” em refrigeradores do Brasil (ver Figuras 514 e 515). O Brasil, por exemplo, tem características muito próprias. Um exemplo é o hábito de consumir ovos. Nenhum país do mundo consome tantos ovos quanto o Brasil. Talvez pela herança cultural portuguesa, os brasileiros também gostem de ovos. Muitas pesquisas nossas mostraram que, a decisão no ponto de venda, na compra de refrigerador, muitas vezes é feita pelo tamanho do porta-ovos. Às vezes a gente fica pensando, "Ah, isso é besteira!", mas às vezes ganha-se uma venda, porque a dona de casa, na hora que vai comprar o refrigerador, ela chega e diz "Ah, adorei esse refrigerador, porque cabem 24 ovos!". Já na Argentina, por exemplo, a mulher não quer saber de porta-ovos, porque lá ela compra os ovos naquela embalagem de isopor ou de papelão, e guarda assim no refrigerador. E a brasileira, de um modo geral, não guarda na embalagem. Ela tira, ovinho por ovinho, e os coloca no porta-ovos GAMA JÚNIOR, 2001). [sem grifo no original] Um componente que surgiu no Brasil nos últimos anos foi o porta-latas de refrigerante e cerveja (ver Figuras 512 a 514). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 879 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 514 - DETALHES DOS REFRIGERADORES ELECTROLUX “DC47” E “DFF44”, MOSTRANDO PORTAOVOS E PORTA-LATA (BRASIL, 2002) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 515 - DETALHES DOS REFRIGERADORES CONSUL “CRC 23 C” (BRASIL, 1997) E “330” (BRASIL, 2001) ___________________________________________________________________________________________ Potes, embalagens de refrigerantes e sucos, tetrapacks, dentre outras coisas, são um pouco diferentes na Argentina em relação ao Brasil. O pote de suco argentino, por exemplo, “tem uma base maior, é mais baixinho e mais estável, e ocupa mais espaço na prateleira”, observa a Entrevistada “A” (1998). Além disso, acrescenta o Entrevistado “F” (1998), no caso de refrigeradores, o mercado argentino solicita a colocação de uma prateleira específica para se colocar vinhos, hábito não tão difundido no Brasil. Apesar de diferenças, como as mencionadas, a Electrolux do Brasil não tem desenvolvido, até o momento, salvo raras exceções, produtos com design específico para a Argentina, devido ao limitado volume de venda. Desta forma, segundo a Entrevistada “A” (1998), o mercado argentino tem que buscar soluções paliativas para as suas necessidades particulares, e, por exemplo, “se aquele pote de dois litros de suco da Argentina não cabe na porta, tem que ficar na prateleira”. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 880 Somente em alguns casos excepcionais, como o da lavadora de roupa, tem-se um produto produzido pela Electrolux do Brasil especificamente para a Argentina, porém resultante de uma composição de peças e ferramental já existentes na empresa (ENTREVISTADA “A”, 1998). Outra exceção é a enceradeira da marca Lux, desenvolvida pela Electrolux do Brasil para o mercado argentino. Diferente dos modelos comercializados no Brasil, “... tem até polidor de pedra. E a enceradeira tem várias escovas para se trocar, inclusive uma que chega a lixar pedra. Além disso, tem um líquido apropriado para dar brilho em granito, tem embalagem especial...”, relata o Entrevistado “E” (1998). Salienta a necessidade de diferenciação no design de produtos, face às funções específicas de uso dos mesmos. Conforme afirma a Entrevistada “A” (1998), “o design também passa pelo uso, pelo hábito local. O fato de se ter mais botões ou menos botões, mais programas ou menos programas, também faz parte do tipo de uso, da identificação, do contato com o consumidor...”. Um exemplo de diferenciação de requisitos de uso dos produtos, em decorrência da diversidade cultural e transformações da sociedade, é o condicionador de ar. Na maioria dos países do mundo, se está migrando ou migrou-se completamente para condicionador de ar do tipo Split-air (ver Figuras 516 e 517), que só tem um painel fixado à parede e cujo sistema de funcionamento é todo remoto. No Brasil, por outro lado, costuma-se utilizar condicionador de ar do tipo Window (ver Figura 518), que é fixado na parede, junto com o motor e o compressor, como observa a Entrevistada “A” (1998). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 516 - CONDICIONADOR DE AR NATIONAL “KIREI”, DO TIPO “SPLIT AIR” (JAPÃO, 2004) NOTA: Dimensões: altura = 298 mm, largura = 870 mm, profundidade = 199 mm ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 881 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 517 - CONDICIONADOR DE AR ELECTROLUX “SPLIT1 5TR” (ÍNDIA, 2004) E ELECTROLUX “KFR35GWHS-S” (CHINA, 2004), DO TIPO “SPLIT AIR” ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 518 - CONDICIONADORES DE AR BRASTEMP “ELETRÔNICO 12.000” E ELECTROLUX “7.500”, DO TIPO “WINDOW” (BRASIL, 2000) NOTA: Dimensões: 1) altura = 400 mm, largura = 660 mm, profundidade = 705 (Brastemp); 2) altura = 320 mm, largura = 470 mm, profundidade = 570 mm (Electrolux) ___________________________________________________________________________________________ No Brasil, costuma-se usar controle remoto para comandar o ar condicionado, e “quem compra um condicionador de ar está alinhando esse valor de compra com produtos eletrônicos, como aparelhos de som, televisor, etc. Então, ele tem que ter essa semântica; tem que ser esse o resultado de resposta, principalmente pela facilidade de uso”, porque o ar condicionado costuma ser instalado na parede a uma altura tal, que dificulta o acesso direto aos botões de comando. Nos Estados Unidos, por sua vez, não se tem essa necessidade, porque o ar condicionado é normalmente instalado na janela. Trata-se de “uma condição bem específica do nosso mercado”, decorrente de uma necessidade de uso; não é um luxo, segundo o Entrevistado “K” (1998). Há mercados, como da Coréia, por exemplo, que utilizam também condicionadores de ar do tipo autoportante (ver Figura 519). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 882 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 519 - CONDICIONADOR DE AR LG “LPC151WPR”, DO TIPO AUTOPORTANTE (CORÉIA, 2004) NOTA: Dimensões: altura = 1750 mm; largura = 480 mm; profundidade = 290 mm ___________________________________________________________________________________________ O condicionador de ar ilustra também a relação entre design, gênero e tecnologia. Antigamente, por exemplo, para o brasileiro, “o condicionador de ar era um produto para o público masculino, porque mexer no aparelho era quase como regular um motor”, lembra o Entrevistado “K” (1998). Com o controle remoto, estendeu-se o uso do mesmo às mulheres e crianças. Muitas inovações tecnológicas têm contribuído para a melhoria da qualidade de produtos e promovido a incorporação de novas funções nos mesmos, a exemplo das lavadoras de roupa, que apresentam, atualmente, um maior número de funções, comparativamente aos modelos mais antigos (ver Figuras 520 e 521). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 883 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 520 - DETALHES DO PAINEL DE COMANDOS DA LAVADORA DE ROUPA BRASTEMP “AUTOMÁTICA” (BRASIL, 1961) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 521- DETALHE DO PAINEL DE COMANDOS ELETRÔNICO DA LAVADORA DE ROUPA BRASTEMP “ADVANTECH WASH 6 KG” COM ÁGUA QUENTE (BRASIL, 2002) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 884 O desenvolvimento da tecnologia, no entanto, não ocorre de modo uniforme nas várias sociedades, variando também os requisitos de uso dos produtos, em termos de recursos tecnológicos, entre pessoas de culturas distintas. O Side by Side “GRD-267DTU” (ver Figura 552), por exemplo, da empresa coreana LG, possui sistema multimídia digital, que possibilita assistir TV, acessar Internet e ouvir música. Este produto já vem sendo comercializado na Inglaterra, dentre outros mercados, mas não há, ainda, nenhum modelo com sistema similar sendo comercializado no Brasil.262 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 522 - SIDE BY SIDE SAMSUNG “GDR-267DTU” (CORÉIA DO SUL, 2004) FONTE: Disponível em: <http://www.lge.co.uk>. Acesso em: 09 abr. 2004 ___________________________________________________________________________________________ No Japão, há modelos de lavadoras de roupa que possuem sistema de deodorização antibacteriana com Prata ionizada, para desinfecção de roupas. Há, também, refrigeradores com sistema para desinfecção do ar do ambiente, por meio de ionização germicida, e, ainda, painel de cristal líquido, com funções de timer, indicação de período de retenção de comida, mensagem de voz, agenda, calendário, dentre outras, ainda não incorporadas nos produtos desenvolvidos para o mercado brasileiro e outros (ver Figuras 523 e 525). 262 Informações disponíveis em: <http://www.lge.co.uk>. Acesso em: 09 abr. 2004 Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 885 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 523 - ILUSTRAÇÃO SOBRE O SISTEMA DE DEODORIZAÇÃO ANTIBACTERIANA COM PRATA IONIZADA DA LAVADORA DE ROUPA SHARP “ES-KG83V” (JAPÃO, 2004) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 524 - ILUSTRAÇÃO SOBRE O SISTEMA DE DESINFECÇÃO DO AR EXTERNO POR IONIZAÇÃO GERMICIDA DO REFRIGERADOR SHARP “ES-PV50H” (JAPÃO, 2004) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 525 - ILUSTRAÇÃO DO PAINEL DE CRISTAL LÍQUIDO DO REFRIGERADOR SHARP “ES-PV50H”, COM TIMER, AGENDA, CALENDÁRIO, DENTRE OUTRAS FUNÇÕES (JAPÃO, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 886 A lavadora de roupa Whirlpool “6th Sense”, comercializada na Europa, possui sensores eletrônicos que monitoram e ajustam automaticamente a lavagem, utilizando o mínimo de tempo e consumo de energia e água necessário.263 E a lavadora de roupa Electrolux Kelvinator “Washy Talky”, lançada na Índia, em 2004, possui sistema com “comandos de voz” (pioneiro no mundo em lavadoras de roupa), com noventa instruções diferentes em inglês e hindi. Seu software avalia o peso da roupa, a quantidade ideal de água e sabão, e a duração da lavagem 264 (ver Figura 526). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 526 - LAVADORA DE ROUPA WHIRLPOOL “6TH SENSE” (INGLATERRA, 2004); LAVADORA DE ROUPA ELECTROLUX KELVINATOR “WASHY TALKY” (ÍNDIA, 2004) ___________________________________________________________________________________________ As empresas não têm desenvolvido refrigeradores e lavadoras com esses sistemas no Brasil. Persistem determinados elementos no design de produtos, vinculados à herança cultural da sociedade, mantendo o elo entre o “velho” e o “novo”. No Brasil, por exemplo, há um tipo peculiar de lavadora de roupa, conhecido como “tanquinho”, que possui uma parte similar à tradicional tábua de lavar roupas (ver Figura 527). 263 Informações disponíveis em: <http://www.whirlpool.co.uk>. Acesso em: 10 abr. 2004. 264 Informações disponíveis em: <http://www.electrolux.com.br>. Acesso em: 25 mar. 2004. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 887 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 527 - DETALHE DE LAVADORA DE ROUPA MULLER “POP TANK” (BRASIL, 2004) ___________________________________________________________________________________________ Os requisitos de uso dos produtos também variam em questões de segurança, em vista da diversidade cultural e de legislação entre mercados. A Europa, por exemplo, é “muito mais cuidadosa” neste aspecto do que o Brasil. “Às vezes, em um país de lá, que é mais rigoroso em termos de segurança, principalmente no que se trata da criança, tem que ter lock265 [nos produtos], além de outros detalhes”, afirma a Entrevistada “H” (1998) (ver Figuras 528 e 529). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 528 DETALHE DE DISPOSITIVOS DE SEGURANÇA (PROTEÇÃO DE BOTÕES DE COMANDO E BARRA PROTETORA DA ÁREA DE PANELAS) DE UM FOGÃO DA AEG (EUROPA, 1997); DETALHE DE FOGÃO WHIRLPOOL, MOSTRANDO SISTEMA DE SEGURANÇA DE FORNO, CUJA TEMPERATURA MÁXIMA EXTERNA DO VIDRO É DE 55OC (EUROPA, 1997) ___________________________________________________________________________________________ 265 [Lock é um termo em inglês que se refere, no texto, à “trava”.] Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 888 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 529 - FOGÃO ELECTROLUX “EK 6173”, COM TRAVA DE SEGURANÇA NAS PORTAS (SUÉCIA, 1998) ___________________________________________________________________________________________ Os produtos diferenciam-se significativamente, “de região para região, em função das diferenças de “hábitos de uso e de segurança”. Os fogões que vão para a Argentina, por exemplo, “têm que ter um dispositivo na parte de trás, que permite que a pessoa aparafuse o fogão na parede, para evitar, por exemplo, que uma criança pise na tampa, e o fogão bascule para frente e caia, ou que as coisas queimem a pessoa”, relata o Entrevistado “K” (1998). No caso da Multibrás, por atuar de uma maneira ampla na América Latina, acabam-se incorporando certos dispositivos de segurança também em produtos direcionados ao mercado brasileiro. E a abertura de mercado e o Mercosul têm contribuído para a equalização de padrões de segurança (ENTREVISTADO “K”, 1998). Mesmo no caso de dispositivos de segurança que já estão sendo implantados em produtos desenvolvidos para o mercado brasileiro, variam os requisitos de uso, em vista da diversidade cultural. O Entrevistado “E” (1998) relata que foi desenvolvido um liquidificador para o mercado brasileiro, que “tem um sistema de segurança que, quando a pessoa tira a tampa, ele desliga. Isso para evitar que a criança tire a tampa e enfie a mão dentro, por exemplo. Todas as lavadoras de roupa do Brasil têm esse sistema; quando a pessoa abre a tampa, ela desliga”. O problema é que as pessoas às vezes burlam o sistema de segurança; “... enfiam um negócio no buraquinho, para acioná-la e vê-la funcionando, etc”. E “é por isso que estão sendo feitas com tampa de vidro” (ver Figuras 530 e 531). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 889 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 530 - DETALHES DAS LAVADORAS DE ROUPA CONSUL “AUTOMÁTICA 5KG” E BRASTEMP “ADVANTECH WASH 8KG”, MONSTRANDO OS TAMPOS COM JANELA (BRASIL, 2002) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 531 - DETALHES DAS LAVADORAS DE ROUPA ELECTROLUX “TURBO LIMPEZA 8KG” E “PREMIUM ELETRÔNICA AUTO-AQUECIMENTO 8KG”, MOSTRANDO OS TAMPOS COM JANELA (BRASIL, 2002) ___________________________________________________________________________________________ “... o povo brasileiro tem o hábito de não reclamar, de não ser tão exigente. Já o europeu é mais exigente, e o americano, principalmente, qualquer coisa, processa...”, afirma o Entrevistado “E” (1998). E a influência destes povos tem contribuído para que os brasileiros se conscientizem mais acerca da questão de segurança. A durabilidade dos produtos também varia entre os mercados. O Entrevistado “L” (1998) relata que produtos de marcas como a Bauknecht (marca de topo da Whirlpool na Europa), Siemens, Mielle, Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 890 dentre outras européias, “custam caro uma barbaridade, mas têm garantia de vários anos. Duram quinze sem dar problemas, e tem gente que tem o produto há cinqüenta anos...”. Em mercados como da Suécia, por exemplo, percebe-se uma maior atenção com relação a pessoas idosas e deficientes físicos. Isto tem se refletido no desenvolvimento de produtos mais “fáceis de manipular, de visualizar...”, como observa o Entrevistado “F” (1998). Um exemplo é o combinado freezer/refrigerador Electrolux Sensa Hand266, dentre outros produtos, cujos puxadores foram desenvolvidos com uma ergonomia adequada ao uso por esse tipo de pessoas (ver Figura 532). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 532 - COMBINADO REFRIGERADOR/FREEZER ELECTROLUX “SENSA HAND” E DETALHE DE PUXADOR DE REFRIGERADORES E FREEZERS VERTICAIS ELECTROLUX (SUÉCIA, 1998) ___________________________________________________________________________________________ A gama de produtos ofertados também varia, de acordo com os mercados. A América do Sul, por exemplo, tem “uma linha muito enxuta”, segundo Bertola (1998; 2001). “... na Europa, para cada marca se tem, por exemplo, uns quinze modelos de fogão. Eles vão mudando o botão, os puxadores, o design de alguma coisa, e mesmo a função (uns fogões são a gás, outros são elétricos, outros usam vidro cerâmico, etc)”. Na América do Sul, a linha local “é muito pequena”. E, no caso do Brasil, a dificuldade de acertar é maior, porque, além de não se ter uma oferta muito grande, e existir “uma tendência muito forte de se fazer um produto com poucas coisas”, os modelos ofertados têm que atender também as necessidades de outros mercados da América do Sul, como o argentino, por exemplo. 266 Este produto recebeu o Prêmio Handtaget de Design, da Rainha Silvia da Suécia, em 1998. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 891 Para se ter uma idéia, a Electrolux do Brasil comercializa, atualmente, 20 modelos de refrigeradores, incluindo-se os importados, enquanto que, na Suécia, somente da marca Electrolux, são comercializados 102 modelos. Existem produtos tipicamente utilizados por determinados mercados. Um exemplo é o liquidificador, que, segundo a Entrevistada “A” (1998), “quase só vende no Brasil”. Enquanto a maioria dos outros mercados “compra mixer e outras coisas”, “as brasileiras gostam de bater tudo no liquidificador; até massa de bolo!”. As pesquisas realizadas sobre o uso dos eletrodomésticos salientam a necessidade de uma maior atenção, por parte dos designers, em relação às características, necessidades e anseios particulares das pessoas de culturas diversas, no desenvolvimento de produtos. De vez em quando a gente faz, na área de design, estudos do comportamento da dona de casa comum. Uma pessoa nossa vai e entra na casa e pede para fotografar a geladeira, de porta aberta. E fotografa também alguns detalhes da casa, da cozinha, da lavanderia, e depois a gente analisa. E a gente vê que o que está dentro da geladeira da pessoa da Bahia é totalmente diferente do que a da pessoa de Manaus, de Belém... Em Belém, Manaus, naquela região, as pessoas comem muitas coisas da Amazônia; aqueles produtos que só existem lá. [...] têm sabores diferentes, são preparados de forma diferente. O açaí é um exemplo. O paraense comum é muito mais forte. Ele não vive sem o açaí. Ele usa aquilo para fazer suco, doce, o molho da carne... Ele usa tanto para o doce, quanto para o salgado. [...] Lá, quando se abre a geladeira, e os produtos são todos diferentes. É claro que sempre vai ter um ou outro produto que vai ser nacional, mas a base da alimentação é bem diferente. Então, será que nós não deveríamos fazer um fogão, uma geladeira, específicos para esse povo, que se identifique mais com os seus hábitos? Eu acredito que sim (GAMA JÚNIOR, 2001). [sem grifo no original] O planejamento de uso para os eletrodomésticos nem sempre coincide com a prática, em vista da diversidade cultural existente entre as pessoas e grupos sociais. Na realidade, para um mesmo tipo de eletrodoméstico, existem inúmeras possibilidades de usos, de acordo com os hábitos culturais de cada um e a dinâmica das transformações do indivíduo e da sociedade. Pesquisas de mercado, como as realizadas pelo Laboratório de Avaliação de Produto da Multibrás, confirmam esta questão. ... às vezes a pessoa desconhece algo que o produto tem, e, por isso, não o utiliza. Às vezes, a pessoa usa um compartimento para uma outra coisa, mesmo sabendo que se destina a algo diferente, para adaptar à sua necessidade. [...] Desenvolvi um trabalho de observação de um mesmo produto em diversas regiões. [...] Foram fotografados, por exemplo, em São Paulo, como são utilizados os compartimentos. As verduras e legumes nem sempre ficam só nos compartimentos destinados aos mesmos. Muitas vezes eles sobem para outras prateleiras. [...] Na gaveta de baixo ficam acondicionados melhor, mas tem-se o uso em cima. Então, temos que começar a pensar em soluções que venham ao encontro do uso. Em Salvador, por exemplo, o consumo de líquido é muito grande. Alguns exemplos são muito expressivos e a gente começa a mapear e fazer uma leitura dos usos. E, se a gente tem esse panorama nacional, fica muito mais interessante. A gente vê como as pessoas se apropriam dos espaços. Tem um exemplo em que a pessoa cortou a embalagem de ovos, para facilitar o pegar, em que ela desenvolveu uma embalagem própria para ela. Há exemplos uso em Manaus, onde se observa o acondicionamento galões de água no refrigerador. Há exemplos em que a pessoa retira alguns componentes, como, por exemplo, alguma prateleira, o compartimento para colocar gelo, etc. O relatório fala que a maioria não Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 892 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial sabia que esse compartimento servia para colocar gelo. A questão de embalagens também é observada. Há casos que nos levam a ter que repensar, por exemplo, se o compartimento para frutas deveria ficar mais acima. Há casos em que a pessoa muda o local de acondicionamento dos ovos. [...] Às vezes, metade do refrigerador é preenchida por verduras. É uma questão de hábito alimentar. Então, por isso é que a gente tem que parar para pensar... O uso é que dá o input. [...] Tem coisas que são clássicas; que são observadas em toda parte. Tem compartimentos que são convidativos para se colocar, por exemplo, a metade de um limão, a metade de uma cebola. Tem gente que coloca panela dentro do refrigerador... Há exemplos de refrigeradores de Joinville, onde encontram-se muitos doces, porque os alemães consomem muito doce, muita geléia... Em Manaus, encontram-se muitas frutas (Entrevistada “M”) [sem grifo no original] (ver Figuras 533 a 536). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 533 - CENAS DE USO DE REFRIGERADORES BRASTEMP NA CIDADE DE MANAUS / AM (BRASIL, 2000) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 534 - CENA DE USO DE REFRIGERADOR BRASTEMP NO ESTADO DA BAHIA (BRASIL, 2000) ___________________________________________________________________________________________ Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 893 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 535 - CENAS DE USO DE REFRIGERADORES BRASTEMP NA CIDADE DE SÃO PAULO / SP (BRASIL, 2000) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 536 - CENAS DE USO DE REFRIGERADORES BRASTEMP NA CIDADE DE JOINVILLE / SC (BRASIL, 2000) ___________________________________________________________________________________________ O reconhecimento da qualidade do trabalho dos designers brasileiros tem levado as corporações a delegarem aos mesmos o desenvolvimento de determinados produtos para outros mercados, além do brasileiro. A Multibrás, por exemplo, além de ser responsável pelo desenvolvimento de produtos para a América Latina, tem desenvolvido alguns para a Índia, China, Europa, e, inclusive, Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 894 para os Estados Unidos, onde se encontra sediada a matriz da Whirlpool, que possui seu próprio centro de design. A Entrevistada “M”, Designer de ergonomia e usabilidade da Multibrás, relata a experiência de desenvolvimento, pela Multibrás, de um refrigerador para a Índia, com a participação de designers e outros profissionais brasileiros, e mais três indianos, das áreas de Engenharia e Marketing. Esse refrigerador que foi desenvolvido para a Índia, por exemplo, só é comercializado lá. Não tem mercado para cá, apesar de muitas pessoas terem-no achado interessante. Ele é todo focado nos hábitos alimentares de lá. Eles não consomem carne. O que vai lá dentro, no mínimo em 50%, é água. Eles quase não colocam nenhum tipo de carne. Frutas e água é praticamente o que vai lá dentro. Então, eles precisam de mais espaço para colocar garrafas. A prateleira que temos aqui é a mesma, só que aqui nós temos uma prateleira para água, e lá eles têm duas. É um produto global, porque é feito com a mesma plataforma, só que lá tem que se ter, por exemplo, chave na porta, para que os macacos não roubem alimentos, enquanto que aqui não é preciso ter. Lá se tem o costume de utilizar pezinhos altos nos refrigeradores, para facilitar a limpeza do chão. Aqui o refrigerador não tem pé. Então, são necessárias adaptações, porque senão não vende. Se fizermos um único produto, que mais ou menos atenda um pouquinho aqui e lá, não vai agradar nem um, nem outro, porque eles não vão ter a sua identidade no produto (Entrevistada “M”, 2001). [sem grifo no original] (ver Figura 537) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 537 - DETALHES DE EXTERIOR E INTERIOR DE UM REFRIGERADOR DA WHIRPOOL (INDIA, 2001) NOTA: Design desenvolvido pelo Centro de Design da Multibrás, com a participação de indianos das áreas de engenharia e marketing; a prateleira superior possui uma parte removível, para o acondicionamento de vasilhas maiores com água. ___________________________________________________________________________________________ Nesta experiência, “os designers que trabalharam foram diversas vezes para a Índia, para fazer pesquisa, ir à casa de consumidores, para entender mais aquele mundo, que é muito diferente”, lembra Gama Júnior (2001). Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 895 O fato de não existir, de um modo geral, uma diferenciação dos produtos para os diferentes mercados internos de cada país, como no caso do Brasil, por exemplo, “é um problema” para os designers e para a indústria, em função da “diferença cultural” que se tem entre as várias regiões, conforme salienta o Entrevistado “D” (1998). A abordagem genérica no design de produtos tem levado a certas adaptações informais realizadas pelos próprios usuários, a fim de melhor atender suas necessidades específicas. No Nordeste do Brasil, por exemplo, o freezer horizontal tem sido utilizado de uma forma distinta, em relação ao Sul do país, onde se costuma acondicionar sorvetes, bebidas e carnes, dentre outros produtos. De acordo com o Entrevistado “D” (1998), os nordestinos “utilizam-no para resfriar coco, para fazer barra de gelo”. Assim, há situações em que enchem o freezer de água para fazer barra de gelo, e outras em que enchem-no de água de coco “e fazem um furo no gabinete do produto, para servir esse côco gelado na praia”. Exemplos como este confirmam a visão de Certeau (1994), segundo a qual a criatividade popular consegue compor maneiras diversas de utilizar os produtos, ainda que estes sejam impostos de uma forma padronizada pela ordem econômica dominante. Da mesma forma, compreende-se que a “produção de massa” e o “consumo de massa” de produtos não resultam, necessariamente, em uma “cultura de massa”, ou seja, na absorção passiva dos bens de consumo e na homogeneização das culturas. Conforme o entendimento de Baudrillard (1993) e Braudel (1969), dentre outros, percebe-se o caráter ativo da relação dos indivíduos com os objetos, que ganham significados particulares, no processo cultural em que se inserem. Os requisitos de uso dos produtos fazem parte de um processo dinâmico, e a diversidade cultural precisa ser considerada com muita atenção no design industrial, a fim de se buscar atender os anseios e as necessidades fundamentais das pessoas, nos contextos plurais e no seio das transformações culturais, sociais, ambientais e econômicas, dentre outras, vivenciadas pelas mesmas na sociedade. Design industrial e diversidade cultural: a contextualização dos requisitos de uso Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004