AYRTON SENNA E SUA TRAJETÓRIA MÍTICA
COMO ÍDOLO DO AUTOMOBILISMO
José Carlos Marques
A idéia de analisar a trajetória de Ayrton Senna a partir de certos pressupostos do
personagem mítico provém do status singular que ele adquiriu como ídolo do esporte
brasileiro (herói, para muitos), construído em grande parte por nossa imprensa e
sedimentado com a morte trágica do piloto, em 1o de maio de 1994.
Isto pode ser constatado ao verificarmos a cobertura jornalística dos quatro
principais jornais brasileiros (a saber, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo
e Jornal do Brasil) face aos acontecimentos que sucederam a morte de Senna: as
investigações sobre o acidente, o traslado do corpo do piloto da Itália para o Brasil, o
velório na Assembléia Legislativa paulista, o cortejo fúnebre e o sepultamento, realizado no
dia 5 de maio.
De segunda-feira (2 de maio) a sexta-feira (6 de maio) todos estes jornais abriram
sua primeira página, durante os cinco dias da semana, com manchetes principais
referenciando Senna. Os jornais cariocas preferiram uma cobertura mais passional, em que
não faltaram adjetivos e imagens para dimensionar a tragédia; os diários paulistanos optaram
por uma linha objetiva, registrando os fatos com mais distanciamento. Em nenhum dos
casos, contudo, a emoção e a tentativa de mitificar o herói deixaram de estar presentes.
Vejamos a seguir estas manchetes:
2 de maio - segunda-feira
O Globo: BRASIL PERDE SENNA
Jornal do Brasil: BRASIL CHORA A MORTE DE UM HERÓI
Folha de São Paulo: ACIDENTE MATA AYRTON SENNA
O Estado de São Paulo: MORTE
DE
SENNA ABALA PAÍS
E
CAUSA INDIGNAÇÃO
SEGURANÇA NA F1
3 de maio - terça-feira
O Globo: POLÍCIA ITALIANA SUSPEITA DE FALHA E DECIDE INVESTIGAR MORTE DE SENNA
Jornal do Brasil: WILLIAMS CULPA SENNA PELO ACIDENTE
Folha de São Paulo: CORPO DE SENNA CHEGA AMANHÃ
O Estado de São Paulo: BRASIL PREPARA O ADEUS A SENNA
4 de maio - quarta-feira
O Globo: FIA ESCONDEU MORTE DE SENNA NA PISTA
Jornal do Brasil: JUSTIÇA NOTIFICA 7 POR MORTE DE SENNA
Folha de São Paulo: SENNA MORREU NA PISTA, DIZ LAUDO
O Estado de São Paulo: SÃO PAULO HOMENAGEIA SEU ÍDOLO
5 de maio - quinta-feira
O Globo: BRASIL VELA O SEU HERÓI
Jornal do Brasil: FIA ESCONDE FILME DO CARRO DE SENNA
Folha de São Paulo: DESPEDIDA DE SENNA PÁRA SP
O Estado de São Paulo: MAIS DE 1 MILHÃO DÃO ADEUS A SENNA
6 de maio - sexta-feira
O Globo: ADEUS
Jornal do Brasil: SENNA VIRA MITO E TEM MAIOR ENTERRO DA HISTÓRIA DO PAÍS
Folha de São Paulo: SENNA TEM HONRAS DE PRESIDENTE NO ENTERRO
O Estado de São Paulo: PILOTOS SE REVOLTAM NO ENTERRO DE SENNA
C/
A manchete do Jornal do Brasil de 6 de maio, por si só, já poderia justificar a
validade de se pensar em Senna como um herói mítico. Ainda na primeira página, o diário
carioca continua:
O piloto Ayrton Senna começou ontem sua carreira de mito na história do país
e do automobilismo mundial: às 12h06, foi sepultado com honras de chefe de
Estado no Cemitério do Morumbi, em São Paulo, na maior despedida que o
Brasil já proporcionou a um ídolo.
Mas por que Ayrton Senna pode ser lido como mito? O que há de tão peculiar em
sua história para podermos incluí-lo nesta categoria? E por que sua morte é merecedora de,
nada menos, 20 manchetes principais, em cinco dias, dos quatro principais jornais
brasileiros? Para entender melhor estas questões - e até para tentar respondê-las -, será
preciso verificar como o mito foi tratado até hoje por alguns mitólogos e sob quais variantes
ele aparece em nossos dias.
Algumas definições sobre o mito
Mircea Eliade (1) define o mito como o relato de uma história sagrada, o relato de
um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso dos começos.
Noutros termos, o mito conta como, graças aos feitos dos Seres Sobrenaturais,
uma realidade passou a existir. (...) É sempre, portanto, a narração de uma
'criação': descreve-se como uma coisa foi produzida, quando começou a
existir. O mito só fala daquilo que realmente aconteceu, daquilo que se
manifestou plenamente. (2)
Uma personagem que integra o mundo mítico, logicamente, não pode pertencer ao
mundo vulgar: ela será sempre um ser sobrenatural, de atividade criadora e sacralizante. Daí
o mito, e também sua personagem, terem como função revelar modelos exemplares das
atividades humanas. Para Everardo Rocha (3), o mito é uma narrativa por meio da qual a
sociedade que o criou se expressa. "O mito é, pois, capaz de revelar o pensamento de uma
sociedade, a sua concepção da existência e das relações que os homens devem manter entre
si e com o mundo que os cerca." (4) Ao enxergar o mito com os olhos da interpretação
psicanalítica, Everardo o verá como uma forma de expressão do inconsciente: o mito seria o
conteúdo e manifestação do inconsciente coletivo. Já Roland Barthes, em sua obra
Mitologias (5), alarga os horizontes da interpretação mítica, com suas análises de diversos
aspectos cotidianos da vida contemporânea francesa (para ele, o mito pode ser visto - e
desmitificado - numa luta de catch, no strip-tease, nas propagandas de detergentes e
saponáceos, no rosto de Greta Garbo etc.):
O mito é um sistema de comunicação, é uma mensagem..(...) Já que o mito é
uma fala, tudo pode constituir um mito, desde que seja suscetível de ser
julgado por um discurso. O mito não se define pelo objeto da sua mensagem,
mas pela maneira como a profere: o mito tem limites formais, mas não
substanciais. Logo tudo pode ser mito? Sim, julgo que sim, pois o universo é
infinitamente sugestivo. (6)
Segundo Barthes, o mito não é necessariamente uma fala oral, mas pode ser formado
por outras representações, como a fotografia, o cinema, a publicidade, os espetáculos e o
esporte: todos eles podem servir de suporte à fala mítica. Por se tratar de um sistema
semiológico, o mito é também um sistema de valores: mas seu consumidor o lê como
sistema de fatos, em que o significante e o significado mantêm relações naturais. Por não se
dar conta do sistema semiológico do mito é que o leitor pode consumi-lo inocentemente.
Estes conceitos já nos são muito úteis na tentativa de entender a imagem mítica da trajetória
de Ayrton Senna. Pode-se incluí-lo em qualquer uma das exposições anteriores, de uma ou
de outra forma.
O mito Senna
Nas definições de Mircea Eliade, Senna pode ser visto como o "Ser Sobrenatural",
criador de um modelo de conduta a ser seguido. Os recordes alcançados pelo piloto, os
títulos e as vitórias (e, mais do que isso, sua vontade e obsessão pelas conquistas) o tornam
também genitor de uma criação. Senna, não sem freqüência, foi referenciado como Deus,
como figura vencedora: suas voltas mais rápidas em treinos de classificação (marca que ele
ostenta absoluto, como veremos mais adiante) concederam-lhe o mérito de piloto mais
rápido do mundo. Segundo o próprio Eliade, poderíamos ver em Senna o comportamento
mítico da obsessão pelo sucesso, algo "tão característico da sociedade moderna, e que
traduz o desejo obscuro de transcender os limites da condição humana." (7)
Ao entrar em seu bólido, com o macacão e capacete, qualquer piloto de
automobilismo parece incorporar uma dimensão mítica. Trata-se, no fundo, da mesma
análise feita por Eliade do mito do Superman. Enquanto esse herói dos quadrinhos e do
cinema vive uma dupla identidade (os poderes ilimitados de Superman convivem com a
figura modesta e terrena do jornalista Clark Kent), os pilotos (e não só eles, mas também
artistas, cantores, atletas e outras personalidades públicas) também convivem com o duplo:
sua atividade singular enquanto corredores não é a mesma de quando estão fora das pistas,
instante em que se tornam seres comuns, padecedores dos mesmos males inerentes à
humanidade. Mas, durante a representação de seu papel, de sua pantomima tecnológica,
assumem a imagem do ser sobrenatural, não mais pertencente ao mundo vulgar. Daí a
relação com o mito do Superman: ambos satisfazem "as nostalgias secretas do homem
moderno que, sabendo-se condenado e limitado, sonha revelar-se um dia como uma
"personalidade excepcional', um 'herói'." (8)
Se nos confrontarmos com os pressupostos de Everardo Rocha, talvez fique mais
clara a importância que Senna adquiriu perante nosso público. O "mito Senna", como
revelador do pensamento de sua sociedade, reflete o prazer inconsciente do telespectador
brasileiro em ver seu piloto, saído de um país dito “terceiro-mundista”, brilhar num mundo
dominado pela tecnologia de ponta dos países chamados “desenvolvidos”. Como afirmou
Roberto DaMatta em entrevista à Revista Veja de 14 de maio de 1994 (logo após o acidente
que vitimou Senna):
Os esportes individuais concentram milhares de pessoas em torno de uma só,
que é o ídolo, o craque. No automobilismo há ainda um elemento incrível: de
repente se vê um brasileiro dominando uma máquina extremamente moderna.
Senna articulava, simbolicamente, o sonho brasileiro de ser uma nação
moderna.
É mais ou menos a superação do "complexo de vira-latas", ao qual se refere Nélson
Rodrigues em suas crônicas futebolísticas, ao analisar o sentimento de inferioridade do
brasileiro na disputa dos jogos com equipes européias. Senna mostrava, ainda que
debilmente pelas vias do esporte, a viabilidade de o país afirmar-se como nação digna de
respeito no exterior. Tudo isso numa entressafra de conquistas importantes do esporte
brasileiro: após o tricampeonato do futebol no México, em 1970, as conquistas mais
relevantes de competidores brasileiros se deram no automobilismo. E, coincidentemente, é
após a morte de Senna que o futebol volta a conquistar um Mundial, desta vez nos EUA, em
1994.
O mito sob outras formas na modernidade
É consenso hoje que as sociedades que suportaram os mitos já não mais subexistem,
proclama Joseph Campbell (9):
A teia onírica do mito ruiu.O fascínio do passado, o cativeiro da tradição
foram abalados com firmes e certeiros golpes. (...) já não há sociedades do
tipo a que os deuses um dia serviram de suporte. A unidade social não é um
portador de conteúdo religioso, mas uma organização econômica-política. (10)
Nossa civilização ocidental perdeu a noção do mito: o rigor científico, o "telescópio
e o microscópio perscrutantes", nos dizeres de Campbell, assumiram papel preponderante na
análise da realidade. Todos "os últimos vestígios da antiga herança humana do ritual, da
moralidade e da arte se encontram em pleno declínio." (11). Campbell vai além na análise do
herói mítico dos dias de hoje. Para ele, o problema do homem moderno é exatamente oposto
ao do homem das sociedades míticas.
Naqueles períodos, todo o sentido residia no grupo, nas grandes formas
anônimas, e não havia nenhum sentido no indivíduo com a capacidade de se
expressar; hoje, não há nenhum sentido no grupo - nenhum sentido no mundo:
tudo está no indivíduo. (12) (daí a importância mítica de Senna num esporte em
que o piloto - com sua máquina - é o centro do espetáculo.)
No entanto, se temos a ruína da teia onírica do mito, não é menos verdade de que o
mito assumiu outras formas para comunicar-se com o homem moderno. Seu lugar foi
ocupado, durante muito tempo, pela prosa narrativa, e, mais especificamente, pelo romance,
que serviu como substituto à recitação dos mitos e contos nas sociedades tradicionais e
populares (13). Nos dias de hoje, parece claro que o mesmo papel desempenhado pelo
romance é ocupado pela mídia, a partir de outras manifestações: o cinema, a televisão, a
propaganda e o esporte, como nos mostram as análises de Roland Barthes, cuja extensão da
análise mítica vem a ilustrar esse novo comportamento. O sentido dessa exploração
permanece, no homem moderno, como herança mítica de seus ancestrais. Afinal, o que
explica nossa premente necessidade de diversão, ao buscar momentos de fuga, seja no lazer,
na leitura, ou nos espetáculos? "O tempo que se 'vive' quando se lê um romance não é,
evidentemente, o mesmo que se reintegra numa sociedade tradicional, quando se ouve o
mito. Mas, tanto num caso como no outro, 'sai-se' do tempo histórico e pessoal e mergulhase num tempo fabuloso, trans-histórico." (14)
Essa definição vale não apenas ao romance, mas também para o indivíduo que hoje
vai a um parque de diversões, à exibição de uma peça de teatro ou a um jogo de futebol:
busca-se, em última instância, um tempo imaginário, diferente do tempo histórico,
perseguidor, que estará à espera desse mesmo indivíduo do lado de fora do parque, na
calçada em frente à sala do teatro ou na praça do estádio de futebol, tão logo acabem os
espetáculos.
Para Eliade, tudo aponta para a insolubilidade desse conflito, para essa revolta contra
o tempo histórico: "Resta saber se este desejo de transcender o seu próprio tempo, pessoal
e histórico, e de mergulhar num tempo 'desconhecido', seja ele extático ou imaginário, será
alguma vez suprimido. Enquanto esse desejo subsistir, podemos dizer que o homem
moderno conserva ainda pelo menos certos resíduos de um comportamento mitológico'."
(15) A superação do tempo histórico (que nos dita ritmos temporais próprios, na vida e no
trabalho) por um tempo que liberte "miticamente" o homem de sua realidade é, em suma, a
reprodução do universo mítico dos primórdios.
É exatamente essa a dimensão que Senna assume nesta análise. O espectador de
provas de Fórmula 1, sentado confortavelmente num domingo em sua poltrona para assistir
à corrida pela TV (ou então presente num autódromo, acompanhando o movimento
inimaginável dos bólidos), procura antes de mais nada a superação de seu "tempo histórico".
Durante a corrida, na ocasião das disputas e ultrapassagens, nas paradas nos boxes e até a
bandeirada final, a realidade que se cria é outra, nada semelhante ao ritmo cotidiano que esse
mesmo espectador leva ao longo dos demais dias da semana. Assim como no espetáculo do
catch, uma prova de Fórmula 1 também transforma seus pilotos em deuses, acima do Bem e
do Mal. E quando um desses Deuses, em busca do Olimpo, cai tragicamente em sua arena
de disputa, o sentido trágico de sua aventura origina outra importância, que supõe uma
análise mítica do herói. É diante desta importância que tentaremos ver o percurso de Ayrton
Senna à luz da trajetória do herói mítico.
A trajetória do herói
Esse percurso, logicamente, não pode circunscrever-se apenas à questão do acidente
que vitimou Senna. Para que possamos analisar o personagem à luz do herói mítico, deve-se
levar em conta o conjunto das variantes que compõem a trajetória do piloto: é preciso ler o
mito como uma partitura musical, sincronicamente. (17) O mito vai acabar explicando-se
não apenas na leitura linear de sua história, mas também quando comparado a outros mitos e
quando analisado segundo a idiossincrasia inerente à sociedade na qual ele está inserido.
Portanto, há uma série de acontecimentos ligados à história do mito, precedendo-o e
sucedendo-o, que não podem ser negligenciados: para uma melhor compreensão do mito,
deve-se enxergá-lo em sua plenitude, em sua totalidade.
Ayrton Senna da Silva nasceu na cidade de São Paulo às 2h35 do dia 21 de março de
1960. Seu "début" no automobilismo deu-se, como costuma ser praxe na vida de vários
pilotos, dirigindo um kart. Seus registros biográficos dão conta de uma já obsessão marcante
por carros e por vitórias durante a adolescência. Sua trajetória vitoriosa no kart o leva,
invariavelmente, a competir nas categorias menores do automobilismo inglês, para depois
projetar-se nos torneios europeus. Nos campeonatos que disputou, Senna sempre
colecionou vitórias, recordes e títulos. Dotado de tal "handicap", era natural que ingressasse
no mundo milionário da Fórmula 1.
É nesse ingresso ao mundo da Fórmula 1 que identifico o que Campbell denomina de
"chamado da aventura": o herói é convocado pelo destino e se transfere para longe dos
caminhos do homem comum, adentrando uma região desconhecida e mirífica. Obviamente,
no caso de Senna, o herói não recusa esse chamado; pelo contrário, aceita-o e assume diante
dele uma simples e eterna tarefa: transcender os limites da condição humana (nos dizeres de
Eliade), ou melhor, transcender os limites de piloto de Fórmula 1.
O comportamento mítico da obsessão pelo sucesso, característico da sociedade
moderna, não é assumido de imediato por Senna tão logo ele se inicia na Fórmula 1, em
1984, na inexpressiva escuderia Toleman. Mas já em 1985, quando ele obtém as duas
primeiras vitórias em Grandes Prêmios com a Lotus (em Portugal e na Bélgica, ambas as
oportunidades sob intensa chuva), nota-se perfeitamente que o herói já havia realizado a
passagem do limiar.
No ano em que morreu, Senna ostentava dois recordes históricos na Fórmula 1: o de
poles-positions (voltas mais rápidas em treinos para definição do grid de largada) e o de
mais voltas na liderança durante as provas. São duas marcas que nos dão conta exatamente
de sua obsessão em estar sempre na frente, de liderar tanto a seqüência de treinos como a
seqüência das corridas. Mas isso não significava exatamente que ele, pelo fato de andar na
frente, era o que sempre terminava em primeiro. Vejamos os quadros a seguir, referentes a
números alcançados até maio de 1994:
Poles Positions
Voltas na liderança
Vitórias na F1
Voltas mais rápidas
Ayrton Senna
65
Ayrton Senna
3024 Alain Prost
51
Alain Prost
41
Alain Prost
33
Alain Prost
2710
Ayrton Senna
41
Nigel Mansell
30
Jim Clark
33
Nigel Mansell
2059
Nigel Mansell
30
Jim Clark
28
Nigel Mansell
31
Jim Clark
2039
J. Stewart/Niki Lauda
27 Niki Lauda
Juan M. Fangio
28
Jackie Stewart 1893
Juan M. Fangio/J. Clark 25
Nélson Piquet
23
Nélson Piquet
24
Niki Lauda
Juan M. Fangio
24
Moss
20
Niki Lauda
24
Nélson Piquet 1572
Nélson Piquet
23
Ayrton Senna
19
1616
Pontos obtidos/GPs disputados
Média de pontuação p/ prova
Alain Prost
798,5 pts. em 199 GPs
média: 4,00
Ayrton Senna
614,0 pts. em 161 GPs
média: 3,81
Nélson Piquet
485,5 pts. em 204 GPs
média: 2,40
Nigel Mansell
479,0 pts. em 181 GPs
média: 2,65
Niki Lauda
420,0 pts. em 171 GPs
média: 2,46
Se continuasse a correr em 1994 e em 1995 pela escuderia Williams, é muito
provável que Senna ultrapassasse Alain Prost no número de vitórias de GPs e na média de
pontos por prova. A superação absoluta do número de pontos também seria exeqüível em
mais um ou dois anos, tempo suficiente para ele obter seu pentacampeonato, igualando-se a
Fangio e superando mais uma vez Prost (tetracampeão em 1993). A marca mais intrigante
desses recordes, contudo, é a de voltas mais rápidas ao longo da corrida: Senna ostentava
apenas 19, contra 41 de Prost. Se Senna era o mais rápido em treinos (sinal de sua louca
obsessão pela velocidade e por sair na frente) e o que mais liderava Grandes Prêmios (sinal
de sua obsessão pela vitória), não era o mais rápido durante as corridas, o que demonstra
uma falibilidade do herói. Isso era superado, porém, sob diferentes condições adversas e sob
circunstâncias hiperbolicamente desenvolvidas. Senna talvez tenha sido o piloto que melhor
guiou um carro em corridas disputadas sob chuva, quando o risco e o perigo perseguem o
25
piloto de maneira mais abismal; e seus títulos conquistados (e perdidos) rechearam-se
sempre de episódios dramáticos.
Nos anos de 1992 e 1993, Senna é obrigado a assistir ao triunfo de seus
antagonistas: a escuderia Williams, infinitamente mais equipada do que as concorrentes,
permite primeiro a Nigel Mansell e depois a Alain Prost a conquista dos campeonatos mais
fáceis dos últimos 12 anos. O casamento entre Williams-Senna, prometido para 1994,
possibilitaria enfim a superação total de todos os recordes. É a própria superação de seus
limites pessoais: enquanto Senna cruza limiar após limiar, conquistando dragão após dragão,
ele também aumenta "a estatura da divindade que ele convoca, em seu desejo mais exaltado,
até subsumir todo o cosmo." (18)
É sob essa perspectiva que o brasileiro inicia a temporada de 1994. No entanto, as
primeiras evidências dão mostra de que um novo rival formava-se nas pistas. Desta vez é o
alemão Michael Schumacher, pilotando uma Benneton, que consegue surpreender a todos,
colocando em xeque a outrora superioridade da equipe Williams. Na corrida de 1o de maio
em Ímola, no Grande Prêmio de San Marino, Senna liderava a corrida. Buscava loucamente
a vitória, uma vez que não havia pontuado nas outras duas provas disputadas anteriormente
no campeonato. O acidente fatal, na sétima volta, põe fim a seu projeto maior na Fórmula 1:
superar todos os recordes e sagrar-se pentacampeão, tornando-se o maior piloto de todos os
tempos.
O percurso do herói mítico e a trajetória de Senna
Para ilustrar melhor a trajetória de Senna, recupero a análise de Campbell: o Autor
resume o percurso padrão da aventura mitológica do herói no trinômio separaçãoiniciação-retorno:
Um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios
sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o
herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos
seus semelhantes. (21)
O herói mitológico, diante do limiar da aventura, ultrapassa essa primeira barreira e
penetra com vida no reino das provas. Iniciada sua jornada, o destino é a obtenção do
prêmio maior, o objeto do desejo. Alcançada a recompensa, tem-se o caminho da volta, tão
penoso quanto o inicial: o herói deve agora retornar sob as bênçãos alcançadas e, com o
elixir da vitória, restaurar o mundo inicial, ao qual ele pertencia antes de iniciar a aventura.
Este percurso pode ser dividido, na análise da trajetória de Senna, em cada
campeonato que ele disputou, ou seja, em cada temporada. É como se, a cada ano, ele
cumprisse uma micro-jornada de separação-iniciação-retorno. Mas seu projeto central (a
superação dos grandes recordes) só seria possível com a união de todas essas pequenas
aventuras, o que comporia uma macro-jornada de plena glorificação. O diagrama maior
dessa aventura de herói mítico compõe-se portanto de pequenos diagramas, todos eles
iguais entre si, nos quais o percurso de ida e vinda pelo limiar da aventura é sempre
cumprido.
Após cruzar o limiar, o herói deve sobreviver a uma sucessão de provas - a fase
favorita do mito-aventura, segundo Campbell. Repetidas vezes terá o herói de ultrapassar
barreiras e matar dragões. "Enquanto isso, haverá uma multiplicidade de vitórias
preliminares, êxtases que não se podem reter e relances momentâneos da terra das
maravilhas". (22)
Ao longo dessa jornada, vislumbra-se também a necessidade de o herói ir de
encontro à deusa (encarnada em toda a mulher), como demonstração de que o talento que
ele possui também lhe permite atingir a bênção do amor. Como forma de humanizar-se
diante da aventura, é preciso que o herói tenha o "coração gentil", merecedor dos amores da
mulher. Isto nada mais é do que a própria representação do pretenso namoro entre Senna e
Xuxa (outra personagem também digna de uma análise mítica). Para um piloto como ele,
seria difícil imaginarmos um namoro com Xuxa antes de ela tornar-se apresentadora de
programa infantil (a "rainha dos baixinhos"), quando ainda posava nua para revistas
masculinas. É a mulher assexuada, escrava do trabalho e bem-sucedida, que interessa
naquele momento ao herói.
A necessidade de humanizar-se diante da união com a mulher é o que força o herói a
aparecer freqüentemente rodeado de modelos. Para alguns, os supostos namoros de Senna
(inclusive a mal-explicada aventura com Adriane Galisteu, a namorada com quem ele estaria
tendo um relacionamento em 1994) continham um esforço em desfazer perante o público
uma pretensa homossexualidade do herói.
Talvez a questão central diante da sexualidade de Senna estivesse em outra esfera.
Suponho que seria mais pertinente olharmos o herói também como um "ser assexuado", cuja
comunhão espiritual estaria no plano da união homem-máquina. No fundo, o mais
importante para ele era poder entender-se com todo o sistema eletrônico e de engrenagens
de seus carros: seu orgasmo maior era encontrado a cada vitória, a cada conquista.
Seguindo a trajetória concebida por Campbell, há também o momento de confronto
com o pai, "o sacerdote iniciador por meio do qual o jovem ser faz sua passagem para o
mundo mais amplo." (23) Após a iniciação, porém, o pai simboliza também um elemento de
rivalidade, já que o herói poderá representar agora o papel de iniciador. Trata-se do próprio
conflito deflagrado entre Senna e seus antecessores vitoriosos na Fórmula 1, com quem ele
cultivou desavenças, rivalidades e conflitos (mais notadamente, com Alain Prost, Nélson
Piquet e Nigel Mansell).
Mas é no retorno do herói, no limiar do retorno, que Senna incorpora a exata
definição da trajetória mítica. O talento do mestre é exatamente esse: ir e vir continuamente
pela linha que divide os dois mundos. É preciso que o herói retorne a seu mundo de origem
e sobreviva ao impacto do retorno, oferecendo a seus semelhantes o elixir conquistado no
reino das aventuras, para além do limiar; e isto Senna soube fazer como poucos.
Terminada a busca do herói, (...) o aventureiro deve ainda retornar com seu
troféu transmutador da vida. O círculo completo, a norma do monomito,
requer que o herói inicie agora o trabalho de trazer os símbolos da sabedoria
(...) de volta ao reino humano, onde a bênção alcançada pode servir à
renovação da comunidade, da nação, do planeta ou dos dez mil mundos. (24)
O simples fato de Senna usar um capacete amarelo com traços verdes já é
simbolicamente forte: é como se ele vestisse a mística da camisa canarinho da seleção
brasileira de futebol. O choro diante das vitórias também mostrava, ambiguamente, seu
sofrimento e sua humanização. E outra de suas marcas registradas, a de desfilar com a
bandeira brasileira no carro após cada vitória, demonstra bem sua filiação, que ele jamais
quis rejeitar: essa era a maneira que ele tinha para mostrar mundo afora que sua conquista
individual também era coletiva, também pertencia a todos os brasileiros, os "mandantes" (na
definição de Propp) da aventura.
Logicamente, há muito de marketing pessoal por trás de tudo isso; mas penso que,
para Senna, o sentido inicial dessas atitudes permanecia também imutável. Apesar de
capitalizar ganhos importantes, não se tratava simplesmente de usar a máscara: Senna tinha
consciência da validade desse marketing mas também o promovia com autenticidade. Não é
a toa que seu público cativo não era apenas o masculino, costumaz admirador de
competições esportivas: Senna tinha talvez mais apelo junto aos públicos infantil e feminino,
que viam no herói a figura frágil e dócil do bom moço, do ursinho de pelúcia dengoso e
singelo sempre à espera de um abraço acolhedor.
Muitos heróis sucumbiram ao retorno do reino místico para a terra cotidiana - a
paradoxal e supremamente difícil passagem pelo limiar do retorno, pelo choque do retorno.
Nélson Piquet, por exemplo, tricampeão do mundo assim como Senna, não conseguiu
realizar a passagem de volta, para o reino dos mortais. Suas conquistas não eram repartidas
com seu público, o herói sempre foi arredio à imprensa; nunca esforçou-se em parecer
simpático aos que o admiravam, mas mesmo assim (e talvez por isso) cultivou inúmeros
admiradores.
Com Ayrton Senna, porém, a dimensão era outra. Na conquista do primeiro título,
concedendo entrevista à rede de televisão que o projetou e que também o mitificou, dizia ele
que a conquista não significava tudo, pois ele ainda precisava melhorar muito como pessoa.
Tem-se aqui a perfeita volta do limiar da aventura: o herói iguala-se a seus semelhantes, no
mundo dos mortais. Completada a busca e feito o retorno, ele insere-se de novo no mundo
que o remete à aventura. É o mesmo conceito de desfilar em carro aberto e percorrer a
cidade de São Paulo para dividir as glórias de tricampeão. É exatamente o que fizemos,
desta vez por iniciativa de nós, mandantes, ao trazer seu corpo para nosso mundo, a fim de
velar sua morte.
A morte como agente mitificador do herói
Campbell afirma que o mistério crucial de nossos dias é o próprio homem, com todas
as ciências que se ocupam dele neste século (a antropologia e a psicologia, por exemplo).
Enquanto o sonho é o mito individual, o mito representa o sonho coletivo. A outra diferença
é que, nos sonhos, "as formas são distorcidas pelos problemas particulares do sonhador, ao
passo que, nos mitos, os problemas e soluções apresentados são válidos diretamente para
toda a humanidade." (25) Nesse sentido, o herói será aquele que conseguirá vencer suas
limitações históricas e alcançar formas humanas.
Outra particularidade do mito reside no fato de que, enquanto a poesia é uma forma
de linguagem difícil de ser traduzida, ele pode persistir a despeito de sua pior tradução:
Qualquer que seja nossa ignorância da língua e da cultura da população onde foi colhido,
um mito é percebido como mito por qualquer leitor, no mundo inteiro. A substância do
mito não se encontra nem no estilo, nem no modo de narração, nem na sintaxe, mas na
história que é relatada. (26) Isso explica porque Senna cultivou fãs não só no Brasil, mas
no mundo todo. Mais do que isso, explica porque a comoção com sua morte não foi sentida
apenas aqui, mas com grande intensidade também na Europa e, mais acentuadamente, no
Japão, país em que ele era igualmente venerado.
Como imaginou Barthes, a função específica do mito é transformar um sentido em
forma, "transformar uma intenção histórica em natureza, uma contingência em eternidade"
(27). Diante de tal afirmação, podemos entender melhor o que o Jornal do Brasil, em sua
edição de 6 de maio de 1994, pretendeu (talvez inconscientemente) perpetuar: ao dizer que
Senna iniciava sua carreira como mito, quis-se no fundo eternizar sua imagem vencedora,
mesmo diante da morte. Poucos mereceriam um enterro com honras de Estadista neste país;
menos ainda teriam o acompanhamento de dezenas de milhares de pessoas a chorar sua
despedida.
Se a morte tem o poder de evidenciar a tristeza da perda - nem que para isso seja
necessário ignorar os defeitos e impropriedades do personagem -, tem também o poder
indelével da eternização de suas glórias e virtudes. Ao dar a Senna o epíteto de herói ou de
ídolo brasileiro, a imprensa brasileira quis superlativizar um juízo que subexistia latente para
muitos. Mas não cabe a nós sublimar o herói; é ele que irá nos propiciar a redenção. Como
diz Campbell, "Não é a socidade que deve orientar e salvar o herói criativo; deve ocorrer
precisamente o contrário. Dessa maneira, todos compartilhamos da suprema provação todos carregamos a cruz do redentor -, não nos momentos brilhantes das grandes vitórias
da tribo, mas nos silêncios do nosso próprio desespero." (28)
Nosso desespero, diante da morte do herói, reproduziu certamente silêncios
inauditos mas também eloqüentes; e a cruz do redentor que carregamos representou a
expiação de todos os seus defeitos. Se Ayrton Senna tivesse se acidentado tragicamente num
acidente doméstico, guiando seu automóvel particular numa auto-estrada européia, o
sentimento de perda talvez fosse o mesmo - mas não a comoção. Se ele tivesse falecido
depois de abandonar as pistas, após conquistar todos os recordes que perseguia, nem a
perda nem a comoção seriam as mesmas.
A idéia principal a que volto a recorrer nesta análise é justamente a seguinte: o fato
de se interromper uma obra (não concluída) foi crucial para o personagem e seus leitores; a
obsessão por todos os recordes absolutos não chegou a seu fim por causa da derrocada do
herói para o inimigo - ela deixou de ser alcançada pela simples contingência da tragédia,
neste caso tão fatal para o piloto e ao mesmo tempo tão eternizante para o herói. A obra em
curso teve um fim trágico, acompanhado ao vivo por milhões de telespectadores sentados
em sua casa, no mundo inteiro, com toda a simbologia que um domingo em família pode ter
- e não só a simbologia do domingo mas também a do 1o de maio (data internacional do
trabalhador).
A tragédia de Senna foi tão espetacular que milhões de brasileiros puderam assistir,
via satélite, à sua agonia durante horas. O herói teve a morte na arena, vestido com seu
macacão e capacete, ou seja, em pleno exercício de seu "métier"; e o sangue esparramado na
pista dava conta de que o herói humanizara-se indelevelmente. A bolha em que estava
contido o percurso de sua aventura mitológica se rompera, esvaziando todo o conteúdo. A
obra em curso fora abortada pelo ofício e pela obsessão da própria busca. E parece que foi
necessário a Senna morrer tragicamente nas pistas para divinizar-se por completo, para
consubstanciar-se como mito. E ao mito, pois, resta nossa contemplação (ilustrada pela
imprensa), como dádiva oferecida pelos deuses dos autódromos.
NOTAS
(1) ELIADE, Mircea. Aspectos do mito. Lisboa: Edições 70, 1989.
(2) Ibidem, p. 12-13.
(3) ROCHA, Everardo. O que é mito. 6a. edição. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1994.
(4) Ibidem, p. 12.
(5) BARTHES, Roland. Mitologias. 9a. edição. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 1993.
(6) Ibidem, p. 131.
(7) ELIADE, Mircea. Op. cit., p. 156.
(8) Ibidem, p. 155.
(9) CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. 2a. edição. São Paulo: Pensamento, 1992.
(10) Ibidem, p. 372.
(11) Ibidem, p. 372.
(12) Ibidem, p. 372.
(13) ELIADE, Mircea. Op. cit., p. 159.
(14) ELIADE, Mircea. Op. cit., p. 160.
(15) ELIADE, Mircea. Op. cit., p. 160.
(16) BARTHES, Roland. Op. cit., p. 20.
(17) LÉVI STRAUSS, Claude. "A estrutura dos mitos". in Antropologia Estrutural. Rio de
Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975.
(18) CAMPBELL, Joseph. Op. cit., p. 178.
(19) PROPP, Vladimir. Morfologia do Conto Maravilhoso. Rio de Janeiro: Ed. Forense,
1984.
(20) SEGOLIN, F. Personagem e Anti-Personagem. São Paulo, Ed. Cortez e Moraes, 1978,
p. 44.
(21) CAMPBELL, Joseph. Op. cit., p. 36.
(22) Ibidem, p. 110.
(23) Ibidem, p. 133.
(24) Ibidem, p. 195.
(25) Ibidem, p. 28.
(26) LÉVI STRAUSS, Claude. Op. cit., p. 242.
(27) BARTHES, Roland. Op. cit., p. 163.
(28) CAMPBELL, Joseph. Op. cit., p. 376.
BIBLIOGRAFIA
BARTHES, Roland. Mitologias. 9a. edição. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 1993.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. 2a. edição. São Paulo: Pensamento, 1992.
ELIADE, Mircea. Aspectos do mito. Lisboa: Edições 70, 1989.
GREIMAS, A.J. "Os atuantes, os atores e as figuras", in Semiótica Narrativa e Textual, São
Paulo, Cultrix, Ed. da Universidade de São Paulo, 1977.
LÉVI STRAUSS, Claude. "A estrutura dos mitos". in Antropologia Estrutural. Rio de
Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975.
PROPP, Vladimir. Morfologia do Conto Maravilhoso. Rio de Janeiro: Ed. Forense
Universitária, 1984.
ROCHA, Everardo. O que é mito. 6a. edição. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1994.
RODRIGUES, Nélson. À sombra das chuteiras imortais. São Paulo: Ed. Cia das Letras,
1993.
SEGOLIN, Fernando. Personagem e Anti-Personagem. São Paulo, Ed. Cortez e Moraes,
1978.
VIDA DE SENNA. Suplemento do jornal Folha de São Paulo, São Paulo, 08/05/94.
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