DA DESCONSTRUÇÃO DE TEXTOS À ANÁLISE CRÍTICA:
aprendendo a aprender
Marilza Mestre*
KERN, Arno Alvarez. Os textos teóricos
sobre a História: análise crítica e
interpretações. Histórica: Revista da Associação dos Pós-Graduandos em História –
PUCRS. No 5. Porto Alegre: APHG,PUCRS, 2001. p. 09-20.
Kern
é professor dos curso de graduação e pós-graduação em História da
PUCRS. Além de historiador e arqueólogo é pós-doutor em Arqueologia. O texto
em análise foi criado com o objetivo de uso no ensino de seus discentes na
tarefa de análise e interpretação de textos teóricos de historiadores.
O autor faz uma reflexão sobre a baixa qualidade dos trabalhos
e a falta
de leitura crítica e interpretativa de documentos históricos. A dificuldade aumenta
quando a análise é de textos
produzidos pelos próprios historiadores. A análise
crítica de textos históricos se tornou
História
tanto mais importante à medida que a própria
sofreu mudanças epistemológicas. Uma gama de novos temas e novas
interpretações de antigos temas apareceram nas últimas décadas
Também novas metodologias e
do século XX.
novas teorias históricas surgem. O autor cita
HILDESHEIMER “... a História tem uma história”1 e lembra assim da necessidade
de, ao analisar e interpretar textos, seja de História ou de qualquer outra ciência, o
leitor deve estar atento a cronologia e aos valores da época e daquele que escreve,
bem como daquele que lê.
A preocupação de Kern é com o ensino da História, mas seus ensinamentos
poderiam ser estendidos ao ensino de
interpretar textos teóricos é uma
qualquer
das ciências sociais. Analisar e
tarefa difícil e requer do analisando juízo crítico
além de um bom quadro teórico.
O texto é construído em
dois grandes tópicos:
o primeiro que trata dos
princípios gerais sobre análise e interpretação de textos teóricos históricos
*
Psicóloga Clínica - CPEM; professora de Psicologia na UTP e PUCPR; Mestre em Psicologia USPSP e doutoranda em História - UFPR
e o
segundo que
fala sobre a produção de comentários analíticos sobre os textos
teóricos históricos.
Ao falar dos princípios gerais para uma boa análise, e aí a possibilidade de
interpretação
em História,
ele elenca
alguns quesitos que poderiam evitar erros
comuns.
Os estudantes tendem a cometer falhas que passa de um polo de reprodução
simplória do texto lido ao exercício de uma crítica negativa que depõem muito mais
contra quem as faz do que às eventuais falhas que o autor lido possa ter cometido.
Outra falha
é o de tentar “economizar”
tempo com leituras superficiais.
Mesmo numa primeira leitura o autor recomenda que se foque atenção a alguns
detalhes que irão ajudar a compreensão do texto, tais como data de elaboração e não
só da publicação do texto.2 Dados sobre o autor devem ser investigados e o título
bem compreendido.
As leituras posteriores3 trarão maior compreensão dos dados expostos, mas
às
vezes
leituras
complementares ao
texto
deverão
ser
feitas na
busca
de
entendimento de conceitos chaves mencionados no decorrer do mesmo.
O autor recomenda que se desconstrua o texto, recompondo o plano geral de
sua escrita: itens, sub-itens e a articulação entre esses.
Só então
se poderá
selecionar o tópicos mais importantes para serem reagrupados e analisados.
Além de se destacar os temas tratados por ordem de importância dever-se-ia
estar atento também ao que falta ser tratado nele. O autor alerta que o silêncio pode
ser
revelador.
Feito isso então se pode partir para a escolha de aspectos relevantes à
compreensão do texto, para serem interpretados.
1
KERN, Arno A . Os textos teóricos sobre a História: análise crítica e interpretações. Histórica:
Revista da Associação dos Pós-Graduandos em História – PUCRS. No 5. Porto Alegre: APHG,PUCRS,
2001. p. 11
2
a data de elaboração do texto de Kern não se acha explicitamente dita, mas fica explícito que o
texto foi produto de experiência acumulada em docência em História na PUCRS. Portanto, se ele
licenciou-se em História em 1965, é de presumir que já acumulou experiência docente de quase três
décadas.
3
A colocação plural de leitura posterior implica que para analisar , e aí interpretar, um texto muitas
leituras serão necessárias, tanto mais novato seja o leitor no tema de análise.
O segundo tópico apontado diz respeito aos comentários analíticos
que o
leitor possa fazer ao texto lido e a argumentação escrita e/ou oral que seja solicitado
ao aluno leitor.
Três fases são comumente apresentadas num texto científico: a) a introdução,
em
que se apresenta o tema, dando-se uma explicação sobre esse, delimita-se a
problemática a ser respondida e quais caminhos serão seguidos no desenvolvimento
que possibilitem chegar a alguma conclusão, enfim aponta-se para o plano de
raciocínio do autor. É nela que se evidencia o objetivo da mensagem, bem como
sua natureza e lista-se os temas a serem tratados. b) O desenvolvimento, é a parte
que irá tratar da comprovação da problemática.
Dois caminhos são possíveis aí.
Um é o de seguir a “explicação temática” apresentada pelo autor. Nela as idéias
do autor são apresentadas por temas agrupados por afinidade. Outro caminho pode ser
o de “explicação seqüencial”, que é o que ocorre quando cada idéia é explicada na
seqüência em que o autor as apresentou.
É assim que um novo texto nasce,
comentando o anterior de forma “avessa”, isto é, desconstrói-se o anterior pela sua
análise.
c) A conclusão
é o fecho da interpretação e ela deverá sintetizar as
principais idéias analisadas, isso quer dizer que ela não deve apresentar idéias
novas, mas arrematar as principais idéias vistas no desenvolvimento.
Considerações finais
O texto de Kern, além de servir de modelo para o processo de aprendizagem
de compreensão de textos em estudo, serve também como
roteiro
de como
escrever trabalhos originais, de como expor a construção de conhecimento produzido
pelo historiador e/ou
outros cientistas sociais. Nesse sentido
ele é duplamente
interessante e rico. Ensina a ler, analisar e interpretar, tanto quanto ensina a redigir
textos com planejamento e riqueza de detalhes importantes à ciência.
Referências Bibliográficas
KERN, Arno Alvarez. Os textos teóricos sobre a História: análise crítica e interpretações. Histórica:
Revista da Associação dos Pós-Graduandos em História – PUCRS. No 5. Porto Alegre: APHG,PUCRS,
2001. p. 09-20.
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