3.3. Correios Figura 01: Vista dos Correios da cobertura do Edifício Martinelli. Fonte: Foto da autora, 05.03.05. A história do prédio central dos Correios em São Paulo começou no início do século XX, quando, no governo Epitácio Pessoa (1919-1922), sendo Ministro de Viação e Obras Públicas José Pires do Rio e Presidente do Estado Washington Luiz Pereira de Souza, a empresa estatal brasileira de Correios e Telégrafos resolveu construir sua primeira sede própria em São Paulo, pois a cidade crescia aceleradamente e, conseqüentemente, também aumentava o fluxo dos serviços postais. Os terrenos cujo aproveitamento foi sugerido situavam-se entre a recém alargada Avenida São João e a Rua do Seminário, e a cerimônia de lançamento da 172 pedra fundamental teve lugar em 7 de outubro de 1920 (ARQUIVO BIBLIOTECA DO CONDEPHAAT). Assim, o edifício dos Correios e Telégrafos ocupou um quarteirão entre as Avenidas Prestes Maia s/nº, São João s/nº; Praça Pedro Lessa nº 31 e Rua Abelardo Pinto s/nº. Projeto e execução da obra foram solicitados ao Escritório Técnico Ramos de Azevedo, a principal empresa de arquitetura e construção de São Paulo na época, que recebia a maioria das encomendas oficiais; e os responsáveis pelo projeto dentro do escritório foram dois profissionais de origem italiana, seu sócio Domiziano Rossi 9, o qual faleceria logo depois, e Felisberto Ranzini 10. A obra teve início em outubro de 1920 e sua conclusão foi em outubro de 1922, ou seja, em dois anos, o que foi considerado um prazo recorde na época. Como outras obras do Escritório Ramos de Azevedo, o edifício foi projetado em linguagem arquitetônica eclética, de tônica neorenascentista – tanto Ramos de Azevedo como Rossi eram seguidores do tratado de Vignola - com rica ornamentação externa e interna. Tem quatro pavimentos mais porão, e o material usado foi alvenaria de tijolos sobre estrutura em concreto. 9 Domiziano Rossi nasceu em Gênova em 1865, e diplomou-se em arquitetura pela Universidade de Gênova. Imigrou para o Brasil, passou a trabalhar em São Paulo com Ramos de Azevedo e foi contratado em 1894 como professor da Escola Politécnica, nas disciplinas de Desenho à Mão Livre, Desenho Geométrico e Composição Decorativa. Ministrava algumas aulas na própria sede do Escritório Ramos de Azevedo. Também foi professor de desenho do Liceu de Artes e Ofícios dirigido por seu mentor. Participou dos principais projetos do Escritório Técnico Ramos de Azevedo entre o início da década de 1900 e seu falecimento em 1920: o Teatro Municipal (em parceria com Claudio Rossi), o Palácio das Indústrias, o Colégio Sion, o pavilhão paulista na Exposição do Rio de Janeiro de 1908, entre vários outros. In:<http://www.piratininga.org/correios/correios.htm>. Acesso 10.06. 2006. 10 Felisberto Ranzini nasceu em San Benedetto Po (Itália) em 1881 e faleceu em São Paulo em 1976. Chegou criança a São Paulo, onde estudou no Liceu Coração de Jesus e no Liceu de Artes e Ofícios, no qual se tornou professor. Foi convidado a trabalhar no Escritório Técnico Ramos de Azevedo por Domiziano Rossi; após a morte deste em 1920 foi seu sucessor como projetista-chefe do escritório e também na cadeira de Composição Decorativa da Escola Politécnica. Após 1920 foi o responsável por muito dos grandes projetos do Escritório Ramos de Azevedo: o Mercado Municipal, o Palácio da Justiça e o Clube Comercial no Anhangabaú (demolido) são de sua autoria. Além de professor, era desenhista e aquarelista. In: < http://www.piratininga.org/correios/correios.htm>. Acesso 10.06. 2006. 173 Apesar das repartições dos correios e dos telégrafos estarem dentro do mesmo edifício, ocupavam duas alas sem ligação entre si - a primeira com entrada pelo Vale do Anhangabaú, e a segunda junto à Avenida São João. O desenho das elevações seguiu a divisão clássica entre embasamento, destacado por bossagem, corpo principal, com ordem colossal de pilastras, e coroamento com frontões triangulares e curvos; a elevação principal sobre a nova Praça dos Correios ostentava marquise metálica sobre a entrada e um relógio no alto, ladeado por figuras alegóricas. As fachadas ostentam um grande número de aberturas; além das janelas, clarabóias e forros translúcidos ajudavam a iluminar os interiores. Toda a serralheria foi executada pelo Liceu de Artes e Ofícios. Figura 02: Abertura das valas das fundações junto e Figura 03: Construção da estrutura de concreto à Avenida São João. Fonte: Acervo da biblioteca da FAU / USP. Em seu livro Os correios e telégrafos no Brasil: Um patrimônio histórico e arquitetônico, Margareth da Silva Pereira descreve o edifício: "No corpo central, as janelas do segundo e terceiro pavimentos eram enquadradas por pilastras monumentais cortadas pela linha horizontal do entablamento. Nos corpos laterais, os pavimentos eram claramente individualizados e marcados por fiadas de janelas estreitas, com tratamento diferenciado nas vergas e sobrevergas em cada andar. No ângulo da praça e da Avenida São João, o corpo lateral recebeu um tratamento chanfrado, e a divisão tripartida e o ritmo foram repetidos na avenida, garantindo a continuidade visual do conjunto. Nessa fachada, devido ao desnível do terreno, o embasamento era menor e apenas uma porta garantia o acesso aos serviços telegráficos. O último pavimento era homogeneamente tratado com janelas de arco pleno, que se diferenciavam apenas pela maior ou menor abertura. Uma proeminente cornija definia o fechamento do conjunto, coroado por frontões decorados e balaústres, 174 enfatizando o eixo central de cada fachada, delimitando e ornamentando os volumes ligeiramente salientes dos corpos laterais. Ladeando o relógio, que coroava a composição da fachada principal, duas figuras de "vulto" completavam o conjunto, funcionando muito mais como complemento da decoração do que alegorias propriamente ditas”. (PEREIRA, 1999, p. 92) Figura 04: Janeiro de 1922: estrutura da cobertura pronta para receber o telhado e Figura 05: 30 de setembro de 1922: acabamentos da fachada e retirada dos andaimes. Fonte: Acervo da biblioteca da FAU / USP. Figura 06: Edifício na inauguração. Fonte: Acervo da biblioteca da FAU / USP. Figura 07: Foto interna de 1922. Fonte: Acervo dos Correios. Após ultrapassar uma das três grandes portas de entrada a partir da Praça do Correio no Vale do Anhangabaú, acessadas por alguns degraus, os usuários chegavam a um grande hall com pé-direito elevado, ornado por colunas, que abrigava o setor de atendimento ao público da agência central, com balcões e guichês de 175 madeira trabalhados pelos artesões do Liceu. Ao lado do edifício, uma área anexa seria acessada por trilhos pra facilitar a carga e a descarga de encomendas e remessas. Figura 08: Planta do pavimento térreo elaborado pelo Escritório Técnico Ramos de Azevedo. Fonte: Biblioteca da FAU / USP. Em suas oito décadas de existência o edifício sofreu diversas transformações internas, sendo as principais em 1950 e 1979-1980, por necessidades administrativas e de modernização de seus serviços. A reforma de 1950 foi considerada necessária à 176 época em conseqüência do volume ampliado de serviços e também pelo desgaste natural ocasionado pelo uso do edifício. A aprovação e o início da reforma foram em julho de 1950 e as obras se estenderam até dezembro. Por sua vez, a reforma de 1979/1980 também teve o objetivo de modernizar o edifício, com projeto foi elaborado pela empresa Tetraeng Sociedade Engenharia Ltda (ARQUIVO BIBLIOTECA DO CONDEPHAAT). Figura 09: Desenho de 1922 – Fachada para a Avenida São João. Fonte: Biblioteca da FAU / USP. Além do valor arquitetônico, a importância histórica do edifício dos Correios acaba sendo maior devido à sua localização urbana. É impossível separar o valor do patrimônio do seu contexto. Conforme o Jornal Folha de São Paulo de 05.01.1981, independentemente do processo de tombamento que estava sendo elaborado pelo CONDEPHAAT, em 1975 os arquitetos Carlos Lemos e Benedito de Lima de Toledo 177 elaboraram para a Cogep uma relação de 94 prédios paulistanos considerados expressivos para a memória paulistana, e o edifício dos Correios estava nesta lista, a partir da qual foi promulgada a Lei n° 8.328/75, criando as Z8-200, ou seja, o tombamento em nível municipal, que proibia reformas e demolições que pudessem descaracterizar os edifícios de interesse patrimonial (FOLHA DE SÃO PAULO, 1981). O edifício dos Correios teve preservadas suas fachadas e o hall principal de entrada, que ainda mantinha muitos dos elementos arquitetônicos e decorativos originais, apesar das reformas e alterações ocorridas em vários momentos da história do prédio - que incluíram, entre outras, o acréscimo de um pavimento suplementar para aproveitar o elevado pé-direito ampliar a área útil; um forro que encobriu a antiga cobertura de vidro e a simplificação dos capitéis das colunas. 178 Figura 09: Planta do pavimento térreo segundo levantamento da ECT em 1996. Fonte: Biblioteca da FAU / USP. Nos anos 1970, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos passou por novo ciclo de desenvolvimento e expansão. Então um novo edifício-sede foi projetado em São Paulo, ocupando uma área de 30.000 m2 na Vila Leopoldina, para concentrar o setor de triagem e as atividades administrativas da empresa, distribuídas numa torre de 28 andares. Construído em linguagem moderna, o material utilizado foi o concreto aparente e o objetivo era atender à escala industrial da demanda que a empresa passara a atender (URBS, 1998). A partir da criação da nova sede na Vila Leopoldina, teve-se de tomar uma decisão sobre o futuro do edifício do Anhangabaú. Dentre algumas manutenções feitas no edifício podemos destacar uma em 1992, a qual restaurou a fachada. Figuras 10 e 11: Planta do mezanino segundo levantamento da ECT em 1996 e foto do mesmo. Fonte: Biblioteca da FAU / USP e acervo dos Correios. No início dos anos 1990, disseminava-se no Brasil a prática de transformar imóveis históricos em centros culturais, como ocorreu no Rio de Janeiro com a Casa 179 França-Brasil, o Banco do Brasil e a sede carioca dos Correios. Em São Paulo, também se afirmava essa tendência, e a ECT decidiu então realizar um concurso público destinado a escolher o melhor projeto arquitetônico de adaptação do prédio para abrigar um grande centro cultural. Figura 12: Planta do primeiro pavimento segundo levantamento da ECT em 1996. Fonte: Biblioteca da FAU / USP. Figura 13: Planta do segundo pavimento segundo levantamento da ECT em 1996. Fonte: Biblioteca da FAU / USP. 180