ALTERIDADE E AMIZADE NA EDUCAÇÃO: A SALA DE AULA COMO ESPAÇO
ÉTICO E POLÍTICO
Alonso Bezerra de Carvalho i Resumo Este trabalho tem o objetivo de apresentar algumas reflexões sobre o tema da amizade, problematizando‐o na perspectiva do espaço escolar, especialmente nas relações que se estabelecem na sala de aula entre alunos e professores e entre alunos e alunos. De caráter teórico, queremos pensar sobre o que somos e como devemos nos orientar em nossas decisões e ações, o que exige levar em conta as contribuições dos mestres da filosofia. Embora a filosofia não nos dê soluções prontas, ela nos oferece temas e questões para que nós mesmos nos esforcemos para abrir caminhos e aprofundar nossas idéias e atitudes. Portanto, refletir sobre a educação a partir dos clássicos é compreender de maneira mais completa a função ou o papel da ética e da política em nossos dias. Palavras‐Chave: amizade, ética, relações humanas, diálogo, sala de aula, alteridade. Resumen Este trabajo pretende presentar algunas reflexiones sobre el tema de la amistad, problematizando desde el punto de vista del espacio en las escuelas, especialmente en las relaciones en las clases entre los alumnos y maestros y entre alumnos y alumnos. De naturaleza teórica, queremos pensar en lo que somos y cómo debemos orientar nuestras decisiones y acciones, que requiere que se tengan en cuenta las contribuiciones de los amestros de la filosofía. Aunque la filosofía no nos da soluciones, ofrece temas y cuestiones para que nosotros nos esfuercemos por abrir caminos y profundizar nuestras ideas y actitudes. Por lo tanto, reflexionar sobre la educación a partir de los clásicos puede ser una comprensión más completa de la función del papel de la ética y de la política en nuestros días. Palabras claves: amistad, ética, relaciones humanas, diálogo, aula, alteridad. 2
Introdução
Quando se pensa no tema da educação em nossos dias, é recorrente o surgimento de
uma discussão que nos conduz a pensar para além dos conteúdos que devem ser ensinados. O
desafio que se coloca é se estamos formando bem os nossos alunos. Que tipo de cidadão serão
eles no futuro? Na base dessa questão está o tema da convivência humana. Indagamos sobre
quais os valores devem ser respeitados para se estabelecer um convívio sadio, sem violência,
em que a liberdade de cada um seja garantida.
O nosso cotidiano, seja dentro ou fora da escola, é marcado por situações conflituosas,
onde as pessoas tendem a ser indiferentes uma com as outras, visto que os interesses
individuais prevalecem sobre os da coletividade. Para tanto, todo um discurso é elaborado e
proferido visando orientar as escolhas e decisões de cada um de nós. Se isso pode parecer
indubitável na história da humanidade, em nossos tempos a experiência nos mostra que cada
vez mais e cada dia mais nos tornamos escravos de desejos alheios à nossa própria natureza. E
a consequência direta é o confronto. E na escola, ou melhor dizendo, dentro dela, vemos as
coisas se passarem da mesma maneira e as notícias veiculadas diariamente confirmam isso. A
frustração tornou-se a palavra de ordem.
O ideal de uma educação que forme homens dignos, justos, livres, enfim, cidadãos,
parece que tem encontrado dificuldade de subsistir. Essa cantilena, que muitas vezes pode nos
levar ao desânimo, nos oferece a possibilidade de construir um novo modo de pensar e de
agir. Frases feitas, clichês e idéias dèja vu tornaram-se ineficazes, isto é, palavras mortas para
uma realidade viva, pulsante e que nos questiona a todo instante.
Nesse sentido, pretendemos trazer com este texto algumas reflexões que, ao nosso ver,
poderá nos instigar a olhar, ouvir, escutar estes acontecimentos de maneira renovada,
problematizando-os a partir do espaço escolar, especialmente nas relações que se estabelecem
na sala de aula entre alunos e professores. A amizade no seu sentido mais filosófico,
sobretudo o exame feito por Aristóteles, poderia ser tomada como uma prática e uma maneira
de transformar a sala de aula num espaço aberto a relações intersubjetivas renovadas,
edificando novas possibilidades de existência relacional. As salas de aulas e a relações
professor-aluno bem como entre os alunos são espaços e situações de encontro das
multiplicidades, onde novas maneiras de se conviver são construídas.
Pensar a relação entre professor e aluno, na perspectiva da sala de aula, tomando o
tema amizade como elemento provocador de reflexão, pode colaborar na formulação de saídas
significativas para a violência e os conflitos que habitam o ambiente escolar, favorecendo,
3
inclusive, uma postura alternativa à questão do saber que ali circula. De caráter teórico, a
reflexão sobre o que somos e sobre como devemos nos orientar em nossas decisões e ações
não pode desconsiderar as contribuições dos mestres da filosofia. Embora a filosofia não nos
dê soluções prontas, ela nos oferece temas e questões para que nós mesmos nos esforcemos
para abrir caminhos e aprofundar nossas idéias e atitudes. É por estar sempre no domínio do
possível que a filosofia clássica permanece atual, permitindo-nos pensar as coisas da
educação. Isto é imaginável, em razão do tema da educação percorrer os questionamentos a
respeito da vida feliz, da amizade, da condição finita do homem. É, talvez, tomando a sala de
aula como um dos lugares fundamentais de relação ética e política que podemos propiciar ou
edificar um horizonte de possibilidades didáticas, de formação e de construção de novas
relações, que talvez não esteja sendo utilizado em todo o seu potencial.
Se a ética é uma ação na direção de um bem (ou do Bem), ou se consiste na
possibilidade de criar uma vida mais feliz, ou mesmo se ela se determina conforme um “fazer
o que se deve”, o simples reconhecimento da alteridade precisa ser ampliada e experimentada.
E a amizade, revestida de sua dimensão política nos levar a pensar sobre novas formas de
existir. Portanto, refletir sobre a educação a partir dos clássicos é compreender de maneira
mais completa a função ou o papel da ética e da política em nossos dias. Se não vale
completamente para a política, é sabido que o tema da ética cada vez mais tem se tornado
objeto de reflexões e de proposições no domínio da educação, bem como de outras esferas de
atuação humana. Essa preocupação revela, quase que exclusivamente, a necessidade de
estabelecer parâmetros para as nossas condutas na vida social, pois muitas vezes nos
deparamos diante de impasses, conflitos e até mesmo uma completa ausência de sentido que
persiste em nos incomodar ao não encontrarmos respostas satisfatórias. A suspeita a que
chegamos, a despeito de tantas meditações, é de que o mundo insiste em continuar dilemático,
o que talvez seja a expressão de um projeto inacabado, mas que pode ser pensado de forma a
nos proporcionar momentos novos de práxis educativas, abrindo caminhos para ações
intersubjetivas.
Sala de aula: lugar ambíguo e pulsante
A experiência em sala de aula, seja como professor ou aluno, é algo que às vezes
parece indescritível. De fato, é um espaço onde acontece, onde se passa e aonde chega
situações impossíveis de serem reduzidas a um sistema de conceitos. Com isto quero dizer
4
que as teorias, as idéias e os juízos de qualquer natureza captam ou tentam compreender
apenas uma parte da realidade ali constituída.
Pensar a educação, particularmente a sala de aula, somente a partir da relação entre a
ciência e a técnica ou entre a teoria e a prática, dificulta abarcarmos outras dimensões que
constituem também o campo pedagógico. Seria empobrecedor reduzirmos o processo
educativo a um conjunto de técnicas e procedimentos que passam longe de questões
fundamentais da existência humana. Avaliação, conteúdo, didática, planejamento, etc,
discutidos em si mesmos só faz com que seja perdida a vitalidade e a energia que habita e
circula no ambiente escolar.
Pensar não é somente ‘raciocinar’ ou ‘calcular’ ou ‘argumentar’, como nos têm sido
ensinado algumas vezes, mas é, sobretudo, dar sentido ao que somos e ao que nos
acontece. E isto, o sentido ou o sem-sentido é algo que tem a ver com as palavras. E,
portanto, também tem a ver com as palavras o modo como nos colocamos diante de
nós mesmos, diante dos outros e diante do mundo em que vivemos. E o modo como
nos relacionamos com tudo isso (LARROSA, 2010, p. 1).
Isto significa que não basta nomear e atribuir palavras às coisas que se passa ou que se
deve acontecer na sala de aula, restringindo o que fazemos meramente a uma questão
terminológica. É preciso reconhecer que as palavras não são palavrórios, mas elas devem e
podem ser tomadas como revestidas de um caráter muito mais amplo, visto que a realidade
não é um objeto morto e terminado. Alunos e professores vivem situações inenarráveis,
circunstâncias alheias às suas vontades, mas que nem sempre são consideradas no momento
de pensar e refletir sobre a educação. Se pudéssemos fazer uma comparação, a idéia de
inconsciente nos ajuda a aproximar do que pretendemos dizer. Como sabemos, o inconsciente
é, segundo Freud, algo que a consciência desconhece e sobre o qual nunca poderá refletir
diretamente sobre ele e que esse algo desconhecido determina tudo quanto a consciência e o
sujeito sentem, querem, fazem, dizem e pensam.
A ressignificação do que seja pensar e ser consciente nos termos aqui tratados, nos
leva a retomar a idéia de experiência, como abordada por Larrosa, Benjamin e Agamben.
Diferente de experiência como experimento, isto é, como método de apropriação e domínio
do mundo, a “ex-per-ientia significa sair em direção ao exterior e ultrapassá-lo. Em alemão,
Erfahrung, experiência, tem a mesma raiz de Fahren que se traduz normalmente por viajar”
(Larrosa, 1998, p. 92). É nesse aspecto que podemos tomar a experiência como uma maneira
de se conduzir, de expressar a nossa personalidade, a nossa sensibilidade, o nosso estilo; uma
vida que não inclua somente a satisfação das necessidades, mas também e, sobretudo, as
5
atividades que transcendem a futilidade da vida mortal 1 . E a sala de aula pode ser o espaço
para essa tentativa. O saber que brota dessa viagem nos ensina saborear a “excelência” (areté)
em todos os domínios da vida, e não dominá-la como quer o método científico moderno, de
matriz bacon-cartesiana, em que experiência significa fazer acumulação progressiva de
verdades objetivas externas ao homem. A influência que essa concepção de mundo e de
ciência provoca na educação é evidente. A pedagogia moderna se funda na busca permanente
da construção de uma didática que garanta a transmissão e a divulgação do conhecimento
objetivamente formulado, um conhecimento “estéril e desligado dessa vida em que já não
pode encarnar-se”. O saber oriundo daí não compreenderia o aspecto particular, subjetivo,
relativo, contingente e pessoal que lhe constitui, mas se põe como uma etapa no caminho
seguro e previsível da ciência (Cf. Larrosa, 2009).
A minha proposta aqui é pensarmos talvez aquém, talvez além, das reflexões, com
suas exigências de rigor, que na maioria das vezes suplanta as experiências que marcam a
vida de todo indivíduo. Para tanto, cumpre desfazermos de evidências, certezas, crenças e
preconceitos que fundam as práticas pedagógicas, dificultando perceber o não percebido até
então. E isto vale também para a noção que temos de sala de aula, quando fazemo-la perder
sua vitalidade, sua diversidade e seu caráter contingencial e plural. Assim o professor Von
Zuben nos impulsiona:
O tema, “sala de aula”, é antiqüíssimo e literalmente “quadrado”. Pouco importa o
conceito, a palavra, a forma ou a geometria da instituição. Busco o “evento”, quero
pensá-lo naquilo que ele sugere, esconde, dissimula; a que horizontes indica. O
evento enquanto tal evoca e provoca. É notado, senão não seria evento. “Sala de
aula”: para muitos, espaço geométrico onde se faz de conta que se ensina aquele que
imagina que está “aprendendo” alguma coisa ... jogo de máscaras! Papéis, papéis,
papéis! (1996, p. 124).
Portanto, pensar a sala de aula é se aproximar apaixonadamente de algo que não está
lá, mas que de repente percebemos. É interpelar, é revolver os escombros, as paredes, as vidas
para encontrar uma força que parecia fugidia. Quando a criança vai à escola ela se mobiliza
para algo novo, mas ao chegar lá a tendência é já encontrar tudo feito e acabado, bastando-lhe
apenas uma adaptação, que as técnicas e os métodos não terão dificuldades para fazer e
aperfeiçoar com eficiência. Se assim é, a sala de aula que seria umas das primeiras grandes
buscas que empreendemos torna-se o lugar em que se vive o fim da liberdade.
É a inclusão ou a retomada do pathos, da paixão, que podemos pensar, deste modo,
numa ruptura ou alternativa e numa redescrição da experiência da sala de aula. Lugar
1
Num texto publicado recentemente o filósofo italiano Giorgio Agamben é categórico em dizer que “todo
discurso sobre a experiência deve partir atualmente da constatação de que ela não é mais algo que ainda nos seja
dado a fazer... O homem contemporâneo foi expropriado de sua experiência: aliás, a incapacidade de fazer e
transmitir experiências talvez seja um dos poucos dados certos de que disponha sobre si mesmo (2005, p. 21). 6
ambíguo, mas lugar que pulsa forças desconsideradas pelas investigações científicas e
calculantes e pelas práticas que a submete e a trata como um “dado” a ser apenas analisado e
conceituado. A sala de aula pode e deve ser um “território de passagem”, onde, nós, os
sujeitos da experiência – alunos e professores – estamos abertos ao novo, ao inusitado, a algo
que está fora de nós, a algo que não somos e que por isso, justamente, é capaz de nos fazer
apaixonar. E mais: “há na paixão um assumir os padecimentos, como um viver, ou
experimentar, ou suportar, ou aceitar, ou assumir o padecer que não tem nada que ver com a
mera passividade” (LARROSA, 2010, p.5). É no entrecruzamento da heteronomia e da
autonomia que a sala de aula se reveste de sentido.
É nesse “espaço de ação”, que é a sala de aula, que se desenrolam mais intensamente as articulações e contradições entre o eu e o outro, entre o passado e o futuro, entre a tradição e a revolução, entre a criatividade e o conformismo, entre a fala dialógica e a fala impositora, entre a difusão de idéias entre pessoas e a infusão de idéias sobre as pessoas (VON ZUBEN, 1996, p. 125) Sala de aula: evento a que todo indivíduo está submetido durante uma parte
substancial de sua existência. Lugar de doutrinação, de submissão, de coação, de poder, de
repressão? Ou lugar de emancipação, de liberdade, de alegria? Podemos pensar que a sala de
aula é lugar de busca, de uma procura altiva pela vida, que se torna possível se reconhecermos
o sentimento de angústia que ali habita. Esse desejo de realização de horizontes possíveis nos
evoca e provoca uma incessante violação de espaços. Isso é na vida, e também deveria ser na
vida escolar.
A “sala de aula” é, antes da emergência do conceito, o horizonte dos meus
possíveis, o instante inovador na vida do indivíduo, lugar existencial que compõe
com outras dimensões do existir a trama da história social dos indivíduos. Sala de
aula: espaço revolucionário, espaço plural de liberdade e de diálogo com o mundo e
com os outros. (VON ZUBEN, 1996, p. 127).
É a idéia do diálogo que nos parece a mais importante aqui para refletirmos sobre o
discurso filosófico da amizade que trataremos a seguir. É esse caráter plural e dialógico da
sala de aula que se manifesta a sua dimensão ética e política.
A sala de aula me parece extremamente significativa para uma reflexão sobre as
questões que orientam o debate por ser um espaço que favorece o encontro com o
outro. Na sala de aula há, necessariamente, diálogos entre os diferentes, com suas
diferenças. Diálogos atravessados por consensos, confrontos, acordos, conflitos.
Diálogos buscados; diálogos que não se deseja travar; diálogos que se prefere
esquecer; diálogos que as palavras não podem mediar; diálogos
interrompidos/constituídos por intensos ruídos, por longos silêncios, por breves
olhares, por gestos contraditórios. Diálogos monológicos e ainda assim tecidos por
muitos outros diálogos (ESTEBAN, 2006, p. 8)
Se convivemos com o diferente, mas mantenho com ele uma situação de encontro,
penso que, assim garantimos um espaço não apenas para a experiência da liberdade mas
também para a amizade. Redescrever a sala de aula como algo novo é condição essencial para
7
a minha interação com os outros. Sem os outros não há liberdade, ou ainda melhor, sem
amizade não posso fazer a experiência de ser e estar livre.
Amizade: um modo de ser e de agir
Philía: amizade, viva afeição, amor (sem idéia de sensualidade), sentimento
de reciprocidade entre os iguais. O verbo philéo significa: sentir amizade por
alguém, amar com amizade, tratar como amigo, ajudar, auxiliar, amar de
coração, dar sinais de amizade, acolher com prazer; procurar, buscar,
perseguir para encontrar; agradar-se com, ter agrado em; estar quites com,
relacionar-se de igual para igual (CHAUÍ, 1994, p. 357)
A partir das definições acima podemos observar que a existência humana se forma, se
movimenta, se estrutura e se desenrola por meio da amizade. Ela pode nos ajudar a
compreender de maneira mais profunda como nós conduzimos a nossa vida e a nossa relação
com os outros e consigo mesmo. A amizade seria um sentimento, um afeto que
compartilhamos com os outros e essa relação de alteridade não nos colocaria em condição de
superioridade e nem de inferioridade. Ter ou tratar o outro como amigo significa o
estabelecimento de uma situação onde se observa a colaboração, a ajuda e o auxílio mútuo.
Com ela, construímos uma experiência de cordialidade, de acolhimento, de satisfação e de
busca permanente daquilo que agrada e dá prazer. Enfim, viver a amizade é fazer a
experiência do encontro. Repito: encontro consigo mesmo e com o outro.
Emerge dessa visão de amizade algo que já encontramos entre os gregos. Ela pode ser
posta como estando situada dentro de duas dimensões humanas: a ética e a política. Se a ética
pode ser entendida como dizendo respeito à maneira de ser, ao caráter, à índole natural e ao
temperamento de um indivíduo, fica evidente a possibilidade de construirmos um homem que
esteja de acordo consigo mesmo. É partir do conjunto das disposições físicas e psíquicas de
uma pessoa que podemos notar o quanto ela é capaz de estabelecer uma conduta virtuosa. E a
amizade é uma virtude. Estar aberto à amizade é trilhar um caminho em busca de
compreendermos a nós mesmos. Seríamos mais sendo e tendo amigos.
Decorrente dessa caminhada, saímos de nós mesmos em direção ao outro. Nesse
aspecto, dialogamos com a cidade, com a pólis. É na diversidade e na pluralidade que compõe
o mundo social e o mundo político que podemos aprimorar o nosso caráter – nos tornamos
8
cidadãos. Ethos e pólis são dois lados da mesma realidade. O nosso modo de ser está
articulado ao nosso modo de agir. Se assim é, só é possível ser ético quem é ser político 2 .
Quem primeiro formulou essa noção, de maneira mais completa, foi o filósofo grego
Aristóteles. A sua filosofia moral se articula com o que podemos chamar de sua filosofia
política. A ética e a política são um saber prático. Isto significa que é no reino das ações
humanas, quer dizer, no mundo da práxis que temos condições de saber e reconhecer o jeito
de ser e de existir de cada homem. Somos aquilo que fazemos. “Deliberamos e decidimos
sobre o possível, isto é, sobre aquilo que pode ser ou deixar de ser, porque para ser e
acontecer depende de nós, de nossa vontade e de nossa ação” (CHAUÍ, 2003, p. 312)
Para Aristóteles, ser virtuoso é agir em direção à pólis, à comunidade dos cidadãos, a
partir de nosso ethos, indicando que a ética e a política se articulam e se complementam, em
que a práxis individual e a práxis social garantem a realização da eudaimonia, como telos da
vida humana. Embora não seja possível pensá-las fora do platonismo, que considerava as
Idéias como elementos constitutivos do domínio do inteligível e da ação, em Aristóteles, com
a noção de práxis, saímos de uma situação que busca a univocidade ou a universalidade para
uma outra que presssupõe a plurivocidade ou a pluralidade, o que significa considerar que o
ser pode ser dito e agir de muitas maneiras. Como saber prático a ética não investiga,
portanto, o que é em si a virtude, o bem, mas como nos tornamos bons – ou eudaimones – ,
praticando-a. Enfim, tomamos o que nos traz Aristóteles para pensar os problemas que fluem
de nossa natureza ou condição como seres racionais e livres: problemas do agir, do bem, da
excelência e dos fins da vida humana, em suma, os problemas postos pela simples questão
socrática – como convém viver? – da qual nasceu a Ética. É nesse contexto que aparece o
conceito de amizade como um sentimento e uma prática capaz de nos fazer seres virtuosos e
de conviver com o outro, com o diferente.
Ao pensarmos sobre a amizade ou sobre o amigo, a idéia do outro se reveste de
realidade, de materialidade, deixando de aparecer como uma palavra perdida, um signo vazio
e abstrato. Pois afinal o que é, ou quem é o outro? Diríamos que o amigo será, para nós, o
outro que de fato chega a ser ética e politicamente considerado (de modo efetivo e conforme
uma experiência real, e não apenas conforme a experiência possível de um outro
universalmente dado, mas talvez existencialmente ausente), que chega a ser afetivamente
recoberto, e emocionalmente investido.
2
Embora não seja necessário, mas cabe ressaltar que o político aqui não compreende apenas a questão do poder,
das leis e da coerção ou monopólio legítimo da violência, por meio do Estado. 9
Para os limites deste trabalho, queremos retomar uma idéia que é basal no pensamento
aristotélico: que a amizade é necessária à vida, que ela supõe a reciprocidade e diz respeito
apenas às relações humanas – à vida social - e que por meio dela pode ser manifesto a
excelência do homem virtuoso.
A idéia que podemos sobrelevar da concepção aristotélica é considerar que na base da
amizade está a igualdade. Quando as relações tornam-se perversas, instaura-se a tirania,
impossibilitando as afeições recíprocas. Experimentar a amizade é considerar a possibilidade
de uma vida justa e virtuosa, fundada no compartilhar do que é agradável, no desejo de fazer
bem ao outro e de se exercitar na direção de atitudes não baseadas nos interesses individuais,
fonte de conflitos permanentes, mas nos colocando como membros de uma comunidade,
como pertencentes a uma coletividade. E não há lugar melhor para se viver essa experiência
do que a sala de aula
É recorrente no pensamento aristotélico considerar a prudência (phronésis) como uma
das condições para o estabelecimento dessa vida justa e virtuosa. No caso do sentimento de
amizade, ela deve estar associada ao bom-senso, à moderação, à circunspecção e à
ponderação, permitindo deliberarmos corretamente acerca do que é bom para nós e agirmos
de acordo com isso 3 . Sem essa disposição teremos dificuldades em escolher e realizar atos
que garantam a amizade. Portanto, exercitar a justa medida é fundamental: ela restabelece
entre os desiguais a igualdade, preservando o sentimento de amizade e o equilíbrio da
comunidade política. O exercício da amizade funda-se, assim, numa deliberação que reflete o
que é benéfico, sobre o que é certo, de forma correta e no tempo certo, enfim, a boa
deliberação garante alcançar o bem que dura. Em todas as situações da vida, o melhor é agir
com equilíbrio.
Nos capítulos finais do Livro IX, Aristóteles sintetiza o que considera como
fundamental para a experiência da amizade. A amizade (philia) é um sentimento que o
homem, como ser político, deve cuidar; um exercício útil e agradável que fundado na virtude
nos conduz à felicidade. A abertura ao outro é a condição plena para uma vida feliz: o amigo
sendo um outro si mesmo nos proporciona uma satisfação completa. O homem feliz necessita,
portanto, de amigos, pois seria absurdo possuir todos os bens e gozá-los solitariamente,
sobretudo porque estamos destinados a viver em sociedade. Dessa forma, a felicidade é o
resultado desse exercício de contemplação das condutas virtuosas dos nossos amigos: o
homem virtuoso se sentirá alegre e feliz quando convive com as belas ações e se aflige com
3
No quadro das virtudes aristotélicas, a amizade é meio termo ou a justa medida entre a indiferença, o tédio e a
condescendência. 10
aquelas que são inspiradas no vício. Numa palavra, amizade e felicidade são experiências que
estão ligadas.
Portanto, o fundamento para a experiência da amizade está em compartilhar uma vida
em comum. Viver entre amigos é uma ação política. A amizade, como virtude, ou melhor,
tendo em vista a vida feliz e virtuosa, é o meio para compartilhar a prosperidade e suportar as
adversidades. A presença de amigos é preciosa, seja na alegria, seja na tristeza, tornando as
dores leves e toleráveis.
Considerações finais
Quando se investiga o tema amizade e colocando-o em diálogo com a educação,
observa-se que os mais diversos pensadores, clássicos ou contemporâneos, têm escrito alguma
coisa sobre o assunto. De fato, eu penso que para exercitar bem a vida do espírito, podemos
tomar a philia como um elemento que nos põe de volta na nossa condição humana. A amizade
torna-se mais do que um conceito num discurso filosófico. E fazer sua articulação com a sala
de aula, um espaço de relações, nos parece frutífero como recurso para se pensar numa
educação que não se restrinja aos ditames racionais. Uma educação que inclua de maneira
consistente e profícua a ética e a política.
Se a epistemologia tem contribuído para refletirmos, calcularmos e elaborarmos
métodos e técnicas úteis à pratica pedagógica, cumpre agora ver o que seria da sala de aula e
da aula se pensássemos também do ponto de vista da ética e da política. Ética porque faríamos
a experiência de ouvir e olhar o outro. Política porque reconheceríamos que a vida é plural.
A criança ao chegar à escola amplia, aprofunda e até mesmo pode transgredir o espaço
e os valores domésticos. Ela sai do mundo da casa (oikós) em direção ao mundo da pólis e do
ethos. Portanto, é na escola e na sala de aula que ocorre “o evento onde se dá o começo da
ação política [e ética] pela qual se instaura a confirmação do eu pelo outro e deste por aquele,
em suma: o diálogo” (VON ZUBEN, 1996, p. 128). Portanto, essas dimensões, junto com a
epistemologia, podem garantir a formação mais plena do indivíduo.
A política e a ética não são mais essenciais ou exclusivamente, a que se refere ao
poder e aos valores, respectivamente. Elas tornaram-se tudo aquilo que, sem ter metro prévio,
exige uma ação criativa, pressuposto da paidéia. Agir política e eticamente é moldar a própria
vida sem seguir uma regra anterior.
Não existem mais regras pré-definidas sobre como agir na profissão, no amor, nos
tratos e contratos que firmamos, e que, sendo cumpridas, assegurariam o sucesso, ou
pelo menos a certeza moral de haver cumprido. Precisamos, constantemente,
11
inventar novas formas de ação e de associação. Deparamo-nos, sem número de
vezes, com a dificuldade, o imprevisto, o fracasso. Temos à nossa frente o alcance
devastador da fortuna sobre nossas vidas, e o espaço sem nenhuma garantia em que
tentamos fazer uso da virtú, da ação criadora que procura moldar o futuro”
(RIBEIRO, 2004, p. 84).
Nesse sentido, a escola do pluralismo é, no sentido forte, uma escola onde habita a
dimensão ética e a dimensão política. O que significa dizer que a lei não é mais dada à escola,
ela está por se fazer. Esta lei a construir é a fonte e o meio de legitimar o vivre-ensemble na
escola. A escola não é somente objeto da política, ela é, sobretudo, experiência e elaboração
do político; ela é o que o explicita os sujeitos em suas histórias e seus encontros, sobre a base
da relação e da solidariedade. Mas isso é possível no mundo das incertezas? “É precisamente
porque há a incerteza que a educação torna-se pensável e possível” na realidade
contemporânea. Que dê o nome que se queira, individualismo, concorrência, leis arbitrárias,
desconstrução, pós-modernidade, etc, o desafio da escola, da educação é encontrar, pois
sempre trata-se de encontro, um caminho, sendo que hoje, parece-nos, que ele está a construir
(Cf. Bourgeois & Costa-Lascoux, 2004, p.135-8).
Enfim, pensar a alteridade e a amizade como sentimentos e práticas é, ao nosso ver,
esse caminho a ser construído. Revolucionar por meio das relações o ato educativo é não
seguir as balizas mas anteceder todo empreendimento cognoscitivo. Pois é na interação e no
encontro com o outro que podemos superar ou no mínimo suportar a doutrinação sectária e
que muitas vezes pode castrar a nossa capacidade de pensar, de agir, de ser e de começar algo
novo. Essa preocupação revela, quase que exclusivamente, a necessidade de estabelecer
parâmetros para as nossas condutas na vida social, pois muitas vezes nos deparamos diante de
impasses, conflitos e até mesmo uma completa ausência de sentido que persiste em nos
incomodar ao não encontrarmos respostas satisfatórias. A suspeita a que chegamos, a despeito
de tantas meditações, é de que o mundo insiste em continuar dilemático, o que pode ser
expressão de um projeto inacabado, mas que pode ser pensado de forma a nos proporcionar
momentos novos de práxis educativas, abrindo caminhos para ações intersubjetivas. Essa foi a
minha tentativa nesse texto.
Referências Bibliográficas
AGAMBEN, Giorgio. Infância e História: destruição da experiência e origem da história,
Belo Horizonte : Editora da UFMG, 2005
BOURGEOIS, Bernard & COSTA-LASCOUX, Jacqueline e outros. Éthique et éducation:
l’école peut-elle donner l’exemple? Paris : L’Harmattan, 2004.
12
CHAUÍ, Marilena. Introdução à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. São
Paulo : Brasiliense, 1994.
ESTEBAN, Maria Teresa. Sala de aula – dos lugares fixos aos entrelugares fluidos In Revista
Portuguesa de Educação, 2006, 19(2), pp. 7-20.
LARROSA, Jorge. Apprendre et être: langage, littérature et experiénce de formation. ESF :
Paris, 1998.
_____.
Notas
sobre
a
experiência
e
o
saber
da
experiência.
In:
http://www.anped.org.br/rbe/rbedigital/RBDE19/RBDE19_04_JORGE_LARROSA_BONDI
A.pdf. Acesso dia 19/01/2010. 21.47.
RIBEIRO, Renato Janine. Ética, ação política e conflitos na modernidade In: MIRANDA,
Danilo Santos (org.). Ética e cultura. São Paulo Perspectiva, 2004, pp. 65-88
VON ZUBEN, Newton A. Sala de aula: da angústia de labirinto à fundação da liberdade In:
MORAIS, Régis de (org.). Sala de aula: que espaço é esse? Campinas: Papirus, 1996, pp.
123-129.
i
Alonso Bezerra de Carvalho é doutor em Filosofia da Educação pela USP. Atualmente é professor do
Departamento de Educação da Unesp/Assis e do Programa de Pós-Graduação em Educação da
Unesp/Marília. É membro do GEPEF (Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação e Filosofia) e do
GEPEES (Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação, Ética e Sociedade), ambos cadastrados no
CNPq. Desenvolve o projeto intitulado A dimensão ética e política na educação: a experiência da
amizade na sala de aula. Entre as publicações encontra os seguintes livros: Max Weber: modernidade,
ciência e educação (Vozes, 2005) e Educação e Liberdade em Max Weber (Unijuí, 2004), além de
capítulos de livros. E-mails para contatos: [email protected] e [email protected]
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alteridade e amizade na educação