Um paulista no Paraná provincial Machado d´Oliveira....não satisfeito com servir e amar ao Brasil, inventara um nome para tê-lo no lar e no coração: Brasilio Machado foi o primeiro de uma série de brasileiros assim chamados. Afranio Peixoto. Brasilio Augusto Machado de Oliveira era natural de São Paulo, terra onde estudou as primeiras letras, bacharelou-se em Direito, exerceu seus primeiros cargos profissionais, públicos e de magistério, casou e faleceu. Dos anos de formação, marcaram-lhe a fé religiosa, que manteve ao longo de toda a sua vida como católico, e o pensamento liberal, pelo qual se bateu como político desde a década de 1870, e que, nesse momento, pode ser interpretado como uma visão de mundo em defesa da liberdade como direito natural de todo indivíduo e da idéia de que toda autoridade deve ser limitada por esse direito. Para sua conformação política de caráter liberal foi de suma importância a figura de José Bonifácio, o Moço (1827-1886), assim chamado por ser sobrinho daquele outro José Bonifácio, patriarca da Independência. Professor da Faculdade de Direito de São Paulo quando nela ingressou Brasilio, em 1868, fez do ensino um eficaz instrumento de pregação liberal pelo tempo que aí lecionou, entre 1858 e 1870. Era uma época em que despontavam nesse ambiente educacional nomes que um pouco mais tarde seriam personagens centrais da passagem do Império para a República, como os então estudantes Afonso Pena, Rui Barbosa, Castro Alves e Joaquim Nabuco. O professor José Bonifácio era considerado “grande poeta, orador empolgante, político de idéias liberais e desassombro nas atitudes (...) amabilidade no trato com os discípulos; a amizade com que premiava os mais distintos, acolhendo-os em sua casa, e coisa espantosa naquela época, passeando com eles pelas ruas da cidade (...).” (MACHADO, Alcântara: 1937, pp. 11/12). Foi justamente por indicação de José Bonifácio que Brasilio Machado, já tendo exercido cargos públicos na sua província natal e concorrido, sem sucesso, para cargos eleitorais, foi nomeado como presidete da província do Paraná, por Carta Imperial de 29 de julho de 1884. Politicamente, o cargo de presidente de província era de livre escolha e nomeação por parte do imperador seguindo alguns critérios de época, sendo um deles o pertencer ao partido político de situação. Quando da nomeação de Brasilio Augusto Machado de Oliveira para o cargo de presidente da província do Paraná, o Gabinete ministerial presidido pelo conselheiro Dantas é que estava dando as coordenadas políticas, assentadas sobre idéias liberais e antiescravagistas. Sabidamente liberal, inclusive tendo criado e participado de vários jornais de divulgação da doutrina liberal e pela revisão da Constituição do Império, e ligado ao movimento abolicionista, surgido com força no final da década de 1870 (em 1880, Joaquim Nabuco e André Rebouças criaram a Sociedade Brasileira contra a Escravidão), o nome de Brasilio Augusto foi bem aceito pelo Gabinete do conselheiro Dantas e sua atuação política na província do Paraná girou em torno, justamente, da questão da libertação da mão-deobra escrava. A emancipação dos escravos, ao lado da instrução pública serão os temais principais da administração do presidente Brasilio Augusto Machado de Oliveira (gestão: 21/8/1884 a 21/8/1885). A solenidade de inauguração da Escola Oliveira Bello, em Curitiba, no dia 28 de setembro de 1884, resume as principais preocupações deste presidente, quando entregou centenas de cartas de alforria para que os ex-escravos tivessem acesso ao ensino publico como pessoas livres, uma vez que foi iniciativa da província do Paraná a execução da lei geral de obrigatoriedade do ensino primário. Outras ações marcaram a presidência de Brasilio Augusto no Paraná, como a conclusão e inauguração da Estrada de Ferro Paranaguá-Curitiba, em fevereiro de 1885, a retomada, mediante novo projeto, das obras da matriz de Curitiba, a elaboração de projeto, junto à Câmara Municipal da capital, de abastecimento de água potável e a construção de casas escolares nas cidades de Paranaguá, Lapa e Antonina. Nesta última, a municipalidade homenageou o presidente Brasilio dando o seu nome para o estabelecimento escolar por ele mandado construir. No jogo político imperial entre liberais e conservadores, quando as forças estavam ao lado destes últimos, o seu nome foi retirado da escola, e somente no período republicano foi restabecida a homenagem. Foi a campanha da oposição conservadora paranaense, representada principalmente por lideranças do litoral, notadamente da cidade de Paranaguá, que enfraqueceu a gestão de Brasilio Augusto, que deixou o cargo de presidente da província para o vice, Antonio Alves de Araújo. Autor de poesias, Brasilio Augusto Machado de Oliveira fez parte da última geração de liberais do Segundo Império, homens de letras que defendiam idéias políticas mediante brilhantes discursos. Apesar de monarquista, exerceu importantes funções públicas no período republicano, fazendo parte do Conselho de Instrução Pública de São Paulo Conselho Superior de Ensino da República. Seu filho, o também escritor e político paulista José de Alcântara Machado de Oliveira, mais conhecido como Alcântara Machado (1875-1941), deixou uma biografia do pai, na qual ressalta a importância da eloqüência das palavras no jogo político de então: Brasilio tinha tudo para impressionar as multidões. Quando ele se erguia na tribuna, alto , magro, pálido, elegante nas maneiras e no trajar, cabeça magnífica de inteligência e de energia, e fitava nos circunstantes os olhos magnéticos, já o auditório lhe sentia o poder de fascinação. Começava a falar. A voz melodiosa completava a obra de encantamento.” (MACHADO, Alcântara: 1937, p. 45). A recuperação da presença de Brasilio Machado em terras paranaenses contribui para a conformação histórica do Segundo Império, quando, apesar das dificuldades de comunicação, o que parecia distante estava na verdade bastante próximo: os conflitos políticos entre liberais e conservadores, entre abolicionistas e contrários à emancipação dos escravos, a preocupação com a instrução pública e com projetos de urbanização, enfim, ações que confirmam o não isolamento de regiões fisicamente mais afastadas do centro político imperial, e por isso tidas como pacatas e “provincianas”, como muitos ainda definem o Paraná; ações que tinham, como pano de fundo, a formação nacional. Referências bibliográficas: CARNEIRO, David. História do período provincial do Paraná; galeria de presidentes, 1853-1889. Curitiba: Tipografia Max Roesner, 1960. IVAN, Milton. A conjuntura abolicionista. IN: REVISTA PANORAMA, Ano 30, n. 304, 22/5/1981. MACHADO, Alcântara. Brasilio Machado; 1848-1919. Rio de Janeiro: José Olympio, 1937. (Coleção Documentos Brasileiros, 9). Referência das imagens: - Litografia retratando o personagem extraída da obra de Alcântara Machado. - Fachada da escola Oliveira Bello, reproduzida do Relatório da Província do Paraná, 1895. Pesquisa e texto Tatiana Dantas Marchette – Coordenadora da Divisão de Documentação Permanente do Arquivo do Paraná O chicote e a escravidão i * Por que nos reunimos? Para afirmar.... E o que afirmamos? Uma homenagem. Mas quem pressuroso acode a recebê-la? Ninguém! ii Pois que! O eminente cidadão, em cuja honra se organiza esta homenagem, não pôde vencer as travadas linhas de solidão e da modéstia, em que se isolou, e destarte se esquiva às aclamações que o esperam?! Pois que! O imaculado patriota que há sabido revestir sua palavra dos primores da eloqüência e das vibrações da verdade, para fulminar o tráfico da justiça nos mercados da lei, da verberar o contrabando do homem, feito mercadoria, sob a bandeira do Império, reduzida a pano de anúncios de escravos fugidos ... o imaculado patriota se ausenta desta festa, que é uma afirmação, porque o direito não transige?! Não! O que afirmamos não é um homem, é um princípio; não é a estátua, é a significação; não é o foco, mas a irradiação; não é a pessoa, é a propaganda. Ausente, José Bonifácio se distancia, mas pela elevação. A luz quando mais sobe, mais ilumina. A idéia quanto mais domina, mais se eleva. Senti-lo ausente é mais significativo do que saudá-lo de perto. Deixemos em paz o grande solitário da liberdade. Não perturbemos em seus Patmos o evangelista dos escravos. As grandes afirmações da liberdade nunca necessitaram de encarnar-se na matéria para se tornarem evidentes. Essa contingência melhor assenta nas negações do direito. Onde quer que a tomemos, sob a clâmide grega ou na pretexta romana, na túnica de Cristo ou na blusa do povo, a liberdade é sempre a liberdade. Afirmou-se sob todas as formas, através de todos os tempos, pelo livro ou pela espada. Não tomou símbolos. Rejeitou divisas. O direito humano é tão largo que não há pirâmides que o perpetuem, nem panteões que o contenham. As violações do direito ... elas sim! Elas precisam que os olhos da carne as palpem, porque a razão não as concebe; e necessitam da lei positiva que as imponha, porque a justiça as repugna. Elas, sim! Multiplicam os colossos de Nero, levantam os castelos do feudalismo, somam bastilhas sobre cárceres, soerguem moles gigantes que se agarram às entranhas da terra, como se trêmulas de medo de que, ao grito das consciências violadas, acudissem as convulsões da própria natureza. Assim, a escravidão. Oriunda da lança, continuada pela vera pirata, encaminhada pela bússola dos negreiros, fecundada no repugnante contubernium da lei e do interesse imoral, essa nunca poderia vingar sem um símbolo. Mas um símbolo que a refletisse em toda a sua hediondez descomposta; mas um símbolo que exprimisse, com desusada clareza, a essência da instituição; um símbolo único, poliglota, cosmopolita, universal, que suprimisse todas as resistências, atravessasse todos os espaços, sem que por isso perdesse uma só de suas fibras ou estalasse um só de seus músculos. Por mais que se remontem as estradas do tempo e mais fundo se cavem os minérios da história, na Índia ou em Roma, em Luanda ou Brasil, onde quer que a negra instituição tenha operado a grande iniqüidade, ela se impõe, fala, reduz, escraviza o homem com um instrumento único: - o chicote! Em Esparta o chicote era a memória da escravidão: os ilotas eram diariamente açoitados para que tivessem consciência de que escravos eram. Em Roma, Plauto chamava o escravo verberea statua, estátua de açoites; em Roma, o lotaruis era uma instituição doméstica; e ..., para que mais? Depois de mil anos, ainda nas cadeias do Império, o carcereiro, em nome da soberania nacional, imprime pelo giro do chicote, a órbita do direito para o senhor, a sensação do dever para o escravo. iii Sim, senhores! A escravidão jamais poderia encontrar para os seus pergaminhos um selo, nem mais saliente, nem tão digno! O chicote é a figura da deformidade, e o cativeiro deforma o homem; é o instrumento da injúria, e a escravidão é a injúria do direito; é a divisa da perversidade, solda o mal físico às dores morais, e a escravidão arranca mais brios do que sangue, menos lágrimas do que sentimentos: é o instrumento que doma os brutos, e o cativeiro embrutece a humana criatura; é o cetro de saltimbanco, o emblema do mestre de circo, e assim como este costuma encher, com as crianças que a miséria vende ou que o furto apanha, o seu elenco, assim os senhores de ontem alinhavam as fileiras de seus eitos, com o escravo que o tráfico comprava, que o contrabando roubou e que a lei anistia. Suprimir o chicote é matar a escravidão. Apagada a marca, desaparece a propriedade. É sempre esse o destino do arbitrário fundamentando o direito, do fictício alimentando as instituições. Entretanto, quão diversa a fortuna da justiça! Pode a força arrancar-lhe a venda, quebre-se-lhe embora a balança: nunca ela saberá distinguir o direito pela cor, a liberdade pelo volume. Assim, não precisamos de símbolos nesta festa. Afirmamos o princípio e concluímos por um protesto. O princípio dirá: a escravidão é a negação de Deus, a apostasia do direito, a heresia da razão, a traição do patriotismo, o delíquio da lei, a imoralidade da família, a vergonha suprema da pátria. O protesto acrescentará: a liberdade não consente transaçõesiv: e, porque não concorre à herança acumulada pelo suor escravo, pede imediata reparação do crime secular. O princípio venceu com Rio Branco. Vingue o protesto com José Bonifácio. Está aberta a sessão. * Reprodução de discurso proferido por Brasilio Augusto Machado de Oliveira, extraído da obra de Alcântara Machado, publicada em 1937. A grafia foi atualizada para facilitar a compreensão do texto. Note que tal discurso foi proferido pouco tempo depois de Brasilio ter deixado o cargo de presidente da província do Paraná, o que demonstra a força das suas convicções abolicionistas. i Discurso de abertura da sessão cívica promovida pelos abolicionistas de S. Paulo em homenagem a José Bonifácio (2 de dezembro de 1885). ii O senador José Bonifácio mandou escusa do seu não comparecimento. iii A pena de açoites só foi abolida em 1886. [No Brasil.] iv Alusão à Lei de 28 de setembro de 1885. [Nessa data, o governo imperial promulga a Lei SaraivaCotegipe, conhecida como Lei dos Sexagenários, que liberta os escravos com mais de 65 anos.]