Anais do IX Encontro do CELSUL
Palhoça, SC, out. 2010
Universidade do Sul de Santa Catarina
OS SINALÁRIOS NA LÍNGUA DE SINAIS: COMO SURGEM OS SINAIS?
Carolina Comerlato SPERB*
Maria Cristina Viana LAGUNA**
ABSTRACT: The paper deals with the signs of LIBRAS created and agreed by deaf and hearing. From the
linguistic difference and observations of reality deaf present a reflective analysis. While participants in the deaf
community, we have noticed the emergence of new signs, but we have noticed a certain artificiality in creating,
and a deep study in other. Searching in the intermingling with the deaf and academic experiences in a new look
at the creation of signs. We bring to this work, the look of our deaf and interpreter of LIBRAS and also shared
our reflexions on how and why signs are created. Is it possible to clearly understand what we're dealing from the
statements in writing of signals, we selected signs and want it to be discussed.
KEYWORDS: linguistics, sign language, signs.
1. Introdução
Numa visão antropológica, o individuo surdo é compreendido no seu todo, por sua
identidade e cultura, e a língua de sinais é reconhecida como sua língua natural. A Língua
Brasileira de Sinais (LIBRAS) é uma modalidade visuo-espacial utilizada por surdos e
ouvintes1 e foi oficializada na Lei 10.436 de 24 de Abril de 2002. E a partir dela, surdos e
ouvintes lutam pela garantia de respeito e o direito de uso dela em todos os lugares. A
comunidade surda imagina, reflete e significa o mundo a sua volta e por isso é importante o
estudo da lingüística da LIBRAS. Nessa área, o reconhecimento da língua de sinais como
língua natural se deu no inicio de 1960, nos Estados Unidos com William Stokoe, no inicio de
década de 80 com Ted Supalla, Carol Padden e outros2 no Brasil em 1980 até hoje com
Lucinda Brito, Ronice Quadros, Lodenir Karnopp, Marianne Stumpf e Ana Regina e Souza
Campello.
Além destes vários estudos lingüísticos focados na língua de sinais, ainda há muitas
pesquisas a serem feitas. Por isso, em nosso artigo ousamos fazer uma possível analise em
relação aos sinalários3. Nos perguntamos como foi a criação dos sinalários? Quem inventou
os sinalários? Surdos? Ouvintes? Caso foram os ouvintes, quem foram esses ouvintes? Os
surdos aceitaram? Como estes sinalários chegaram a comunidade surda? Em que se baseia a
*
Graduada em Letras – Português/Literatura pela Centro Universitário Lassale; graduanda em Letras/ Libras ...
pólo UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), Mestranda em Educação pelo Programa da Pós-Graduação
em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGEDU/UFRGS), na linha de pesquisa dos
Estudos Culturais em Educação, bolsista CAPES. Orientanda da prof.ª Dr.ª Adriana da Silva Thoma.
**
Graduada no Curso Normal Superior – Licenciatura para os anos iniciais do Ensino Fundamental pela
Faculdade Porto-Alegrense do RS e intérprete de LIBRAS da Fundação de Articulação e Desenvolvimento de
Politicas Públicas para PcD e PAH do RS (FADERS) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS).
1
A LIBRAS não é usada somente pelos surdos, pois há ouvintes que nasceram de famílias surdas e também
aqueles que convivem com comunidade surda, e são também usuários de LIBRAS.
2
Há outros lingüistas em língua de sinais nos outros países.
3
Para Stumpf (2005), sinalário é o conjunto de expressões que compõe o léxico de uma determinada língua de
sinais.
1
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criação de sinais? No conceito? Há pesquisas dos significados de cada palavra? Temos muito
a discutir e refletir sobre estes questionamentos.
A LIBRAS foi reconhecida oficialmente, mas para que esta língua atinja o status que
têm outras línguas orais, ela ainda está em processo de ser padronizada4. A LIBRAS tem
origem na língua de sinais francesa, ela chegou ao Brasil em 1857 com o professor surdo
francês E. Huet. Mas por quase cem anos, a LIBRAS foi proibida pela sociedade ouvintista5.
Hoje em dia, nota-se que a política e o movimento dos surdos vêm se destacando nos espaços
sociais. Com o fracasso do oralismo, a comunidade surda vem mostrando o porquê sua língua
precisa ser respeitada e o quanto ela constitui autonomia e independência para os sujeitos
surdos. O que temos percebido, seja uma relação de poder ou não, é que os sinalários, no Rio
Grande do Sul, estão surgindo na perspectiva da visualidade e não mais da oralidade.
A linguagem, por meio da oralidade, desenvolvida por eles desconsidera o
território da visualidade, substituindo-o pelo território do som que é estranho
para o mundo do sujeito Surdo, sua interpretação de como vê, sente e
compreende. Não nascemos para ouvir e sim nascemos para “ver”.
(CAMPELLO, 2008, p. 117).
Sabemos que muitos indivíduos sinalizantes estão, cada vez mais, se expressando
naturalmente em LIBRAS, devido ao vocabulário que aos poucos se agrega a vivência da
comunidade surda, especialmente o vocabulário acadêmico. Porém, o que notamos foi um
aumento de “interferência consciente” um dos dois fenômenos mencionados por McCleary
(2008, p. 30), no qual o bilinguismo traz idéias que são expressadas por meio do uso de duas
línguas no caso dos surdos que utiliza recursos de sua segunda língua (português) no meio de
sua língua natural (LIBRAS) como um empréstimo para compreensão do assunto. Por esta
razão muitos dos sinais existentes entre os surdos do meio acadêmico são soletrados ou se
utilizam da primeira letra datilológica da palavra. Entendemos que o motivo desta forma de
expressão se deve a chegada tardia do bilingüismo na década de 90, então, só há pouco os
sinalários começaram a ganhar força. No entanto, questionamos o porquê não há uma criação
de sinais naturais que explorem a visualidade. Então, se o conceito pode ser explicado em
língua de sinais, porque deve ele ser convencionado com a primeira letra da segunda língua?
Ao afirmarmos que existem sinálarios sendo criados no mundo acadêmico,
percebemos que não há uma mobilização de pessoas surdas e ouvintes para discutirem e
convencionarem os sinalários de termos científicos.
Por essa razão, sentimos necessidade de aprofundar, discutir e refletir sobre os
sinalários, já que a área de lingüística no Brasil é nova. Devemos olhar atentamente os
sinalários, pois além das nossas experiências escolares e profissionais, sentimos artificialidade
nos sinais criados com o empréstimo do alfabeto datilológico6, sentimos que isto pouco
contribui para refletir termos abstratos.
Nosso trabalho não traz soluções ou respostas prontas, mas nossa convivência e a
relação de mais de cinco anos que iniciou numa sala de aula universitária e passa pelo
Mestrado, enquanto intérprete de LIBRAS e acadêmica surda, discutimos e refletimos sobre
os acontecimentos e transformações da LIBRAS no meio acadêmico e na comunidade surda.
Queremos compartilhar nossas observações e com isso esperamos que outras novas pesquisas
surjam.
4
Usamos o termo padronizada no sentido de tornar os novos sinais conhecidos nacionalmente.
Segundo Skliar (2005 p. 15), ouvintismo é “conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o surdo
está obrigado a olhar-se e a narrar-se como se fosse ouvinte”.
6
Também conhecido como alfabeto manual.
5
2
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2. Politização e reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais
Wilcox e Wilcox (2005 p 106) citam Shenk e Cokely (1980) em relação aos valores e
características na cultura surda. Eles colocam que existem quatro fatores fundamentais para
reconhecer os membros da cultura surda: audiológico, social, político e lingüístico. O
primeiro fator se refere a alguém que tem perda auditiva; o segundo é quando os surdos vão
para as associações, escolas de surdos, casam com outros surdos, participam em eventos da
comunidade surda; terceiro é aquele que possui influência nos assuntos da comunidade surda,
como a presença de interpretes nos concursos, etc; e por ultimo é aquele que utiliza a língua
de sinais que é um dos aspectos centrais da cultura surda.
Entendemos que quem pertence ou conhece a cultura surda possui conhecimentos
peculiares da língua espaço-visual e não estamos falando aqui dos aspectos lingüísticos, pois
muitos dos sinais existentes na comunidade de surdos surgiram pelo entendimento visual. De
todos os níveis existentes na comunidade surda percebemos entre os grupos de surdos, com
quem convivemos, os mais antigos se apóiam em sinais visuais e icônicos enquanto que os
acadêmicos se apóiam em sinais com uso da datilologia ou a primeira letra da palavra. Então
perguntamos o que mudou nestes grupos, que estão aderindo ao uso de sinais que se
distanciam, cada vez mais, da visualidade? Infelizmente não sabemos a resposta.
Quando falamos de sociedade sabemos que a LIBRAS possui muitos dialetos,
entretanto é importante discutir sobre os novos vocabulários que se agregam a língua de sinais
e que são compartilhados, especialmente os termos específicos. Para McCleary (2008)
existem alguns agentes de padronização da variedade: o estabelecimento desta como língua
oficial; o uso dela em todos os documentos oficiais; o estabelecimento como língua para a
educação; a publicação de gramáticas normativas baseadas na variedade; a publicação de
dicionários; o uso da variedade em revistas e jornais; nos meios de comunicação; e na
literatura (p 17). Percebemos que estes agentes de padronização são também necessários na
LIBRAS, onde cada um contribui um pouco. Tanto o poder político quanto o poder
econômico podem influenciar nesta padronização. Recordamos que na lista de discussão do
grupo BrasILS dos tradutores e intérpretes de LIBRAS do Yahoo Grupo, muitos sinalários
são compartilhados, e há muitas discussões sobre a origem destes sinais, muitos intérpretes e
surdos participam destes fóruns, para além de discutirem sobre assuntos polêmicos e
divulgação de uma série de eventos, também buscam ajuda para saber determinados sinais ou
apresentam novos sinais tentando padronizá-los. Recentemente foram apresentados os sinais
dos futuros candidatos à Presidência da República e um dos candidatos José Serra recebeu um
sinal que foi muito discutido porque este sinal, no nosso entendimento, não foi devidamente
pensado, refletido, nos pareceu que foi criado porque o nome lembra um objeto ou uma ação
conhecida. A seguir mostramos o sinal criado para o candidato José Serra em escrita de
sinais7, que é o mesmo sinal de “serrar”:
7
Estamos utilizando escrita de sinais para mostrar os sinalários por que acreditamos que “a escrita e a impressão
tipográfica são as tecnologias que mais têm promovido a padronização de línguas e a dominância cultural de um
centro de poder sobre outras regiões”. (McCLEARY, 2008, p 17). Ela é importante para poder fixar uma
variedade no papel. O registro de escrita de sinais contribui para lembrar ou visualizar determinado conceito.
3
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Sinal dado ao candidato José Serra
O que queremos dizer é que a tentativa de padronização deveria ser algo a discutir com
o restante dos surdos brasileiros e não simplesmente divulgado como sinais oficiais.
É preciso reconhecer que hoje em dia, estão em toda parte visões realmente ‘surdas’,
principalmente através de discursos que a comunidade surda cria em relação aos sinalários,
não há muita discussão sobre sinais existentes, sabemos que muitos dos sinais religiosos e
escolares foram criados na sua maioria por ouvintes, mas se percebe um crescente número de
surdos que estão começando os sinalários, porém ainda muito dependentes da primeira letra
do português. Mesmo estando no meio acadêmico, parece que ainda carregam consigo, talvez
de forma inconsciente, a influência ouvintista.
Embora existam níveis lingüísticos na língua de sinais como fonológico, morfológico,
sintático, semântico e pragmático, percebemos que os sinalários de alguns surdos acadêmicos
são criados sem ao menos buscar um fundamento para aquela criação, estas situações estão
presentes desde a educação. Na escola e no ensino superior, os conceitos surgem e a
necessidade de sinais específicos vão surgindo, assim professores, surdos e intérpretes
necessitam criar ou convencionar sinais para o entendimento de um determinado conteúdo. O
que acontece é que a escola de surdos não está trabalhando a lingüística de língua de sinais, e
talvez esta realidade mude com os novos profissionais que estão se formando no
Letras/Libras, pois repensar o currículo é repensar a cultura e a experiência visual dos surdos.
[...] É evidente que, pela sua importância, os currículos de LIBRAS devem
merecer uma atenção e uma reflexão maiores, para seu aperfeiçoamento, para
que atendam efetivamente a um maior desenvolvimento lingüístico das
crianças surdas, possibilitando a criação de identidades surdas e o incremento
de sua cultura. (HESSEL, 2006, p. 51)
Acreditamos que a partir do estudo da lingüística de LIBRAS nas escolas, os alunos
surdos chegam a universidade refletindo conceitos e expressando-os através da LIBRAS de
forma natural.
Por outro lado, acreditamos que os ouvintes e os próprios surdos criam sinalários por
pressuporem que os alunos surdos terão dificuldades de compreender conceitos abstratos, mas
discordamos disso, acreditamos que por ser uma língua natural, os sinalários criados podem e
devem ser pensados numa perspectiva viso-espacial, e não tão dependente da primeira letra do
português. Muitos dos sinais criados em sala de aula escolar e no ensino superior são
praticamente empréstimos lingüísticos da primeira letra do português como, por exemplo:
4
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Sinal de história
Sinal de Livro
Sinal de Tema
Sinal de Reunião
Sinal de Avaliação
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Sinal de Representação
Sinal de Identidade
Quando falamos de criação de sinalários e a padronização destes, não estamos
desrespeitando as variações regionais, pelo contrário, queremos mostrar que a realidade
regional é determinante na criação dos sinalários, não podemos criar sinais para realidades do
Nordeste, não queremos interferir na criação de sinais para “Bumba-meu-boi”, por exemplo,
mas discutir o vocabulário que é comum a todos. Compreendemos e respeitamos a
diversidade lingüística e ao nos equiparar com as línguas orais, podemos perceber que a
Língua de sinais possui sua diversidade regional, mas também precisa haver uma
padronização.
No nosso estado, no Rio Grande do Sul, temos alguns sinais que são específicos da
nossa terra, e questionamos os sinais daqui quando surgem, temos um exemplo de uma cidade
da região metropolitana de Porto Alegre, a cidade é Gravataí, não sabemos quem criou ou por
que criou o sinal, mas o fato que a cidade recebeu o nome Gravataí por ter origem numa
espécie de bromélia conhecida como gravatá, que em tupi-guarani, a palavra gravatahy
significa “rio dos gravatás”8. O sinal desta cidade será demonstrado em escrita de sinais.
Sinal de Gravatai
8
Informação encontrada no site <http://www.apontador.com.br/local/RS/gravatai.html>.
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É possível perceber que não existe nenhuma relação do sinal com a origem do nome
do município. Criaram este sinal por que associaram Gravataí a palavra gravata.
Assim questionamos alguns sinais que nos promovem a uma discussão, vejam os
sinais abaixo e sua origem:
Sinal de Garantia
Este sinal foi criado por que é parecido com a palavra “garganta”.
Sinal de Bhabha
Homi K. Bhabha é um autor muito citado nos estudos culturais, seu sinal foi criado,
porque é parecido com “babar”, em nosso entendimento este sinal não é adequado, nos parece
ofensivo.
Sinal de Hall
Stuart Hall também um autor citado nos estudos culturais, seu sinal foi criado por
lembrar as balas drops “halls”. Percebemos aqui, que não há nenhuma relação com o autor ou
seus estudos e teorias.
Infelizmente, estes sinais estão, cada vez mais, sendo usados por surdos, embora ainda
usamos a datilologia para identificar os autores citados, estamos encontrando dificuldades
para aceitação de outros sinais para identificá-los, alguns surdos acham que os sinais criados
são originais e criativos, nós os achamos sem fundamento e ofensivos.
Fazer uso de empréstimos lingüísticos é natural durante uma situação momentânea em
que não há um sinal especifico, mas ao acontecer isso, é importante pensar imediatamente
sobre a criação do sinal para aquela palavra. Se não houver uma reflexão sobre estes
empréstimos lingüísticos, podemos estar contribuindo para o uso excessivo disso, e
prejudicando a criação natural por meio de sinais que poderiam explorar a visualidade e
espacialidade que são artefatos lingüísticos importantes da cultura surda.
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Muitas vezes, vemos que os sinais cujos conceitos são abstratos são criados usando a
primeira letra do português, por exemplo, o sinal de “Deus” é a configuração de mão9 em “D”
apontado para o céu, e deriva da Língua de Sinais Francesa (LSF). É um sinal bem antigo,
mas perguntamos porque este sinal não poderia ser a configuração de toda a mão apontada
para o céu? Talvez a configuração em “D” fosse mais fácil lembrar.
Durante o curso de Educação a Distância de Língua de Sinais Americana (ASL) e
Sinais Internacionais10 (SI)11, também observamos muitos sinais que se apóiam no alfabeto
manual da Língua Inglesa Americana, apresentamos alguns exemplos:
Sinal de ALL (em português: tudo/ou todo)
Sinal de Education (em português: educação)
Vemos que isso não é exclusividade brasileira. Em todos os países, inclusive naqueles
que iniciaram a educação de surdos, também fazem uso excessivo da datilologia ou da
primeira letra da palavra da língua oral.
Mas também precisamos discutir quem são as pessoas que criam os sinalarios, há
alguns anos, um grupo de intérpretes e surdos no RS se reuniram para convencionarem alguns
sinais e discutiram os conceitos. Um dos surdos sugeriu um sinal para “conseqüência” que
mostramos a seguir:
9
A explicação sobre as configurações de
mão podem ser encontradas no site
<http://www.lsbvideo.com.br/product_info.php?products_id=129>.
10
Há alguns anos era conhecido como Gestuno e era usado pelos surdos em eventos internacionais como
conferencias. Não possui gramática, então não é considerada uma língua. Informação disponível em:
<http://www.alfabetosurdo.com/ptsign/gestunoorigins.asp>. Acesso em 20 de Junho de 2010.
11
Este curso está disponível em http://www.asl-si24h.com.br.
8
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Sinal de Conseqüência
É possível perceber que o sinal é uma experiência visual-espacial, natural e muito
adequado ao conceito.
Quem usa este sinal? Só os que o aceitaram, o restante dos surdos continuam usando o
sinal de “acontecer”.
Ressaltamos que não podemos desconsiderar os sinais criados por ouvintes que
discutem e buscam sinais que representem a palavra visualmente ou que seja conceitualmente
adequada, lembramos de um fato em que num determinado fórum sobre políticas públicas
para pessoas com deficiência, realizado em Porto Alegre, duas intérpretes se reuniram para
convencionar alguns sinais:
Sinal de Autismo
Sinal de Sindrome de Down12
Sinal de Superdotado
Mais tarde estes sinais passaram a ser usados pela comunidade surda. Estas intérpretes,
na época, nunca revelaram a identidade de quem os havia criado para a comunidade surda,
mas é fato que eles foram aceitos por serem muito apropriados. É possível perceber que a
universalidade da linguagem complexa é a primeira razão para suspeitar que a linguagem
“não é apenas invenção cultural qualquer, mas o produto de um instinto humano especifico”
(PINKER, 2002).
12
As intérpretes que criaram o sinal para síndrome de down usaram apenas o dedo indicador puxado no olho,
com o tempo houve modificação e passaram a identificar com o dedo indicador e mindinho como mostra a ES.
9
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Os conceitos abstratos deveriam expressar-se, na LIBRAS, de forma natural,
favorecendo a percepção visual. Apresentamos um breve estudo lingüístico baseado em
Quadros e Karnopp (2004).
As autoras nos apresentam sobre a formação dos sinais, que se dá a partir da
combinação do movimento das mãos através de configurações de mão. Os articuladores
primários das línguas de sinais são as mãos, que se movimentam no espaço em frente ao
corpo e articulam sinais em determinados pontos (locações) neste espaço. Ao combiná-las,
podemos identificar quais são realmente relevantes na língua de sinais, assim identificamos os
“fonemas” da LIBRAS. A língua de sinais se constitui em outros parâmetros importantes:
orientações e expressões não manuais.13 No entanto, estamos tratando aqui de questões
lingüísticas que não ficam dissociadas da semântica e pragmática que acreditamos serem
imprescindíveis para dar sentido ao sinal formado e ao contexto apresentado. Assim como
nossa língua portuguesa possui um amplo vocabulário derivado de outras línguas como o
latim, o grego e o tupi guarani que deram origem a várias palavras que significavam algo,
trazemos o exemplo de palavras como “bis14”, “etica15” e “arara16”, que em suas respectivas
línguas possuem um significado. A língua de sinais como status de língua também deveria
passar por este processo, ou seja, o sinal precisa ser pensado de forma que visualmente
represente o conceito. Assim como abordam Gorski e Freitag:
A teoria da língua como estrutura postulada que as diferentes línguas naturais
dispõem de um sistema composto por signos, distintos entre si por contrastes
e oposições, organizados em níveis hierarquicamente dispostos: o nível
fonológico, o nível gramatical (ou morfossintático) e, em alguns modelos,
também o nível discursivo. (2008, p. 18).
Atualmente os surdos lingüistas como Supalla estão implementando o empoderamento
e enriquecimento das Línguas de sinais que antes eram estudados e pesquisados por ouvintes,
e hoje se tornam foco de estudo de seus próprios usuários. Supalla faz menção sobre este
assunto.
(...) história de 40 anos da pesquisa em línguas de sinais modernas inclui
tanto as conquistas importantes que fizeram avançar nosso conhecimento,
quanto as pautas de pesquisa que delimitaram nosso foco e limitaram o nosso
conhecimento. Durante esse período, a gênese e a evolução das línguas de
sinais se constituíram como uma área desconsiderada em nosso foco de
pesquisa. Essa negligência pode ser atribuída à crença que as línguas de
sinais em desenvolvimento eram freqüentemente “contaminadas” por práticas
pedagógicas opressivas que tentavam moldar a língua de sinais para se
adaptar à língua falada majoritária. Além disso, os itens lexicais das línguas
de sinais estrangeiras eram freqüentemente importadas na medida em que
novas escolas eram instaladas em países em desenvolvimento. Essa noção de
línguas de sinais “impuras” significou que os pesquisadores de lingüística
histórica se depararam com o fato de que processos históricos “naturais”
eram provavelmente ofuscados ou destruídos pelo imperialismo lingüístico17.
(2006, p. 25).
13
Se quiser aprender mais sobre a estrutura de Libras, sugerimos “Língua de Sinais Brasileira: Estudos
lingüísticos” da Quadros e Karnopp, 2004.
14
A palavra Bis em latim significa duas vezes, disponível em <http://www.multcarpo.com.br/latim.htm#B>.
15
A palavra ética deriva de ethos que em grego significa hábito, costume ou maneira de se comportar, disponível
em <http://ocanto.esenviseu.net/lexicon/etica.htm>.
16
A
palavra
Arara
em
tupi-guarani
significa
grande
ave,
disponível
em
<http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/indios-brasileiros/dicionario-tupi-guarani.php>.
17
Nosso Grifo.
10
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Hoje em dia há estudos surdos, trazendo poder na decisão de tudo que se relaciona a
sua cultura, como afirma o pensamento de Skliar:
Aproximar a surdez de uma questão epistemológica nos leva a problematizar
a normalidade ouvinte e não a alteridade surda, ou seja, nos leva a inverter o
problema: em vez de entender a surdez como uma exclusão e um isolamento
no mundo do silêncio, definí-la com uma experiência e uma representação
visual; em vez de submeter os surdos a uma etiqueta de deficientes da
linguagem, compreendê-los como formando parte de uma minoria lingüística
(...). (1999, p 23).
Wrigley (1996 apud HESSEL, 2006, p. 65) nos traz a idéia de que os educadores e lingüistas
forçam “construções artificiais de vocabulário” da língua de sinais para que os surdos se
adaptem a uma padronização baseada numa gramática da língua oral. A quebra destas
construções artificiais está na formação da nova geração de surdos que estão nos cursos de
Letras/ LIBRAS trazendo mudanças e refletindo sobre a criação de sinalários, e também
muitos sinais estão sendo recriados.
Hessel (2006) coloca que os estudos surdos surgiram a partir dos estudos culturais e
atualmente estes estudos surdos tornaram-se uma das ramificações dos estudos culturais, pois
enfatizam as questões das culturas, das práticas discursivas, das diferenças e das lutas por
poderes e saberes.
Paralelamente aos movimentos surdos e às suas lutas por direitos, é
necessário desenvolver os Estudos Surdos, para empoderar e quebrar a visão
clínica das últimas décadas, em que surdos eram vistos como doentes, como
não-humanos. Estudos Surdos são um campo de estudos com muitas
perspectivas para pesquisar, não só cultura deles, mas também como é a
língua, visão, identidade, comunidade, espaço, poder, etc (...). (IDEM, 2006,
p.31)
É importante saber que as questões de língua, educação, currículo, prestigio cultural e
poder social são inseparáveis e o campo da língua na educação exige não somente uma analise
lingüística, mas uma ampla analise histórica e social. (STUBBS, 2002,p 87). Tratando de
questões da língua, lembrando dos momentos da criação de sinalários na área de língua
portuguesa no espaço escolar, com alunos surdos, buscamos formar, com eles, sinalários
específicos da disciplina que fossem visualmente e espacialmente compreendidos.
Percebemos que, mais tarde, ao retomar os conteúdos usando os sinalários criados, os
alunos lembravam dos significados e conseguiam conceituar. Essa compreensão foi graças à
experiência visual citada por Strobel(2008, p. 38), em que “os sujeitos surdos percebem o
mundo de maneira diferente, a qual provoca as reflexões de suas subjetividades”. Ela ainda
coloca que a língua de sinais “marca as experiências visuais dos surdos, por contribuir como
conhecimento universal aos surdos” (IDEM). Mostraremos alguns exemplos de gramática
trabalhados nessa sala de aula:
11
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Sinal de Formação das palavras
Sinal de Derivação
Sinal de Derivação Prefixal
Derivação Sufixal
Composição
Composição Justaposição
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Composição Aglutinação
LIBRAS enquanto língua viso-espacial pode ser claramente vista no sinal da palavra
“mundo” a seguir:
Sinal de Mundo
Silveira (2002, p 20) diz que “nenhuma linguagem é neutra, nenhuma linguagem
‘brota da natureza’ (...) Ela é marcada pelas contingências pragmáticas, pelas práticas dos
sujeitos que a criam e recriam continuamente”. Isto tem muito haver com os sujeitos surdos
que podem recriar os sinálarios visando a suas implicações lingüísticas. Talvez, há alguns
anos, não tivessem percebido que a língua era um sistema lingüístico e agora estão
modificando suas visões e acreditamos que isto gera muitos discursos através da comunidade
surda. Os discursos são ações sociais (MOITA-LOPES, 2002, p. 91) em que “os sujeitos
sociais são formados por praticas discursivas, contudo são capazes de remodelarem e
reestruturem estas práticas”. Por isto, é possível ver que os estudantes de Letras LIBRAS e
lingüistas poderão modificar as praticas discursivas, sejam eles surdos ou ouvintes.
É importante ressaltar que as diferenças não são uma obviedade cultural nem uma
marca de pluralidade, mas elas se constroem historicamente como as filosofias educacionais
que influenciaram os sinalários; socialmente em que os surdos não trocavam os
conhecimentos gerais por faltarem sinais e; politicamente com surgimento das leis, decretos e
do curso de Letras/ LIBRAS que poderão melhorar a realidade dos usos da Língua de sinais.
Cada um destes itens vem acompanhado de diferenças políticas, diferenças formais, textuais
ou lingüísticas. (SKLIAR, 1999, p 22). É preciso entender que a língua “perpassa todas as
áreas do conhecimento. Essa é, sem dúvida, uma das principais formas de
interdisciplinaridade: a atuação da linguagem na mediação do conhecimento”. (GORSKI e
FREITAG, 2008, p.44).
13
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É necessário repensar a escola de surdos pois “a própria escola não reconhece a
situação bilíngüe do surdo e rejeita de forma intolerante qualquer manifestação lingüística
diferente, tratando muitas vezes os alunos surdos como ‘deficientes lingüísticos’.
(KARNOPP, 2002 apud STÜRMER, 2008 p. 99). Acreditamos que a escola é formadora de
opiniões e mediadora do conhecimento, os profissionais que nela atuam deveriam buscar
primeiramente conhecer a cultura surda, para depois se titularem professores bilíngües. Ser
professor de surdos tão somente não lhes dá o status de professores bilíngües. O verdadeiro
professor bilíngüe é aquele que junto com seu aluno reflete sobre os conceitos ensinados e
oportuniza a criação e recriação dos sinalários específicos. Ainda estamos esperando por estes
acontecimentos.
3 Algumas considerações sem concluir...
Como dissemos anteriormente as formações de sinalários começam na escola, e por
esta razão é por ela que se deve refletir sobre a padronização de sinais. Embora existam as
diferenças regionais lingüísticas o mesmo não poderia acontecer entre escolas da mesma
região visto que os alunos ficam confusos ao trocarem de escola.
É necessário ocorrer estudos em áreas especificas por profissionais que atuem nas
mesmas regiões geográficas e assim em conjunto com surdos acadêmicos do curso de Letras
LIBRAS poderiam repensar sobre os sinais utilizados buscando uma produção cultural
legitima com base na experiência visual. Acreditamos que a aprendizagem seria garantida se
houvesse um reflexão por parte dos professores e até mesmo dos surdos para que os sinalários
sejam criados a partir do entendimento dos conceitos. O vocabulário de Língua portuguesa é
extenso, e a LIBRAS pode ter a mesma imensidão se for seriamente refletida.
Sabemos que a LIBRAS é uma língua em expansão, por ser uma língua viva, ela
ganha cada vez mais sinais novos conforme mais surdos vão ganhando espaço na sociedade.
Porém, é preocupante a quantidade de sinais existentes sem a devida reflexão, ou a quantidade
de empréstimos lingüísticos. Não podemos desconsiderar a importante participação dos
intérpretes de LIBRAS e de pesquisadores da área da lingüística no processo de discussão e
reflexão dos sinalários. Surdos e ouvintes que convivem na comunidade surda podem e
devem repensar sobre os sinalários.
E pensando sobre os sinais existentes perguntamos é possível mudar sinais que
encontramos há tanto tempo na comunidade surda? Se sua resposta é não, lhe afirmamos que
sim, você lembra como era o sinal de “surdo”? Você sabe o porquê desta mudança?
Acreditamos que nada é impossível se tivermos bons argumentos que explicam e explanam
motivos aceitáveis pela comunidade surda. O próprio McCleary (2008, p. 32, 33) fala sobre a
mudança lexical em que conforme a cultura se dinamiza e o conhecimento cientifico e
tecnológico cresce, as línguas também mudam, pois acompanham as idéias e este fenômeno
apresentado pelo autor não são tranqüilas, entre aqueles que resistem a mudanças, no entanto
são naturais e necessárias.
Portanto, sabemos que novos conceitos surgem de uma cultura em que as línguas
precisam ser recombinadas, mas se continuarmos esta discussão este modesto artigo se
tornaria uma extensa dissertação. Deixamos apenas a certeza de que os sinalários podem e
devem sofrer mudanças desde que haja a unificação coerente de três fatores importantes: o
conhecimento conceitual, gramatical e a experiência visual.
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Anais do IX Encontro do CELSUL
Palhoça, SC, out. 2010
Universidade do Sul de Santa Catarina
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Carolina Sperb