UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PARÁ CURSO PARFOR LETRAS DISCIPLINA LÍNGUA PORTUGUESA ESCRITA PARA SURDOS PA 2013 Fernando Capovilla: a educação dos surdos A atual gestão fez progressos em diversas frentes, mas há um ajuste crucial que precisa ser feito, como revelado pelo maior programa de pesquisas do mundo sobre desenvolvimento escolar de surdos. Em 22 de maio de 2009, convidado pelas federações de surdos a comentar sobre a descontinuação das escolas bilíngües para surdos que estava estremecendo a comunidade surda, publiquei um breve artigo na Revista Pátio (ano XIII, maio-julho 2009, número 50, pp, 2425) intitulado: Avaliação escolar e políticas públicas de Educação para os alunos não ouvintes. Nele comento o Pandesb-Usp, que, com o apoio do CNPq, da Capes, da FAPESP, e do Inep, de 1999 a 2009, avaliou o desenvolvimento de competências cognitivas, lingüísticas e escolares em mais de 8000 surdos de 6 a 40 anos de idade (durante cerca de 20 h por avaliando) de 15 estados brasileiros e descobriu que eles aprendem melhor em escolas de surdos, as mesmas que vêm sendo descontinuadas. Essa pesquisa rigorosa mostra que, enquanto as crianças com deficiência auditiva aprendem melhor sob inclusão em escolas comuns, as crianças surdas aprendem muito melhor em escolas bilíngües para surdos, onde a comunicação e o ensino se dão na língua mais apropriada para elas. Esses resultados vêm sendo publicados em meu recém-lançado Dicionário de Libras e nos diversos volumes de minha Enciclopédia de Libras, bem como em diversos artigos e publicações, parte dos quais se encontra disponíveis para download de meu site. Estou concluindo um tratado de educação de surdos onde sumario os resultados de uma década de estudos intensos na área, com conclusões sérias e claras para a orientação das políticas públicas. A dupla matrícula, iniciativa do Ministro Fernando Haddad, é uma conquista importante para contribuir para a inclusão escolar, mas, em se tratando de surdos, apenas se o contra-turno se der em escola bilíngüe e não em “sala de recursos” com “atendimento educacional especializado”. As crianças surdas não precisam de “atendimento escolar especializado” em meio a outras crianças com os mais variados tipos de deficiência e distúrbios (incluindo deficiência intelectual, transtorno invasivo do desenvolvimento ou autismo, paralisia cerebral, deficiência visual, dentre tantas outras) que desconhecem sua língua e sob um professor que tem de se dividir para atender as diferentes necessidades especiais e que também está pouco familiarizado com sua língua. Precisam, isso sim, de escolas bilíngües que oferecem educação em Libras por sinalizadores fluentes em meio a sinalizadores fluentes no caldo de cultura da língua de sinais. Crianças surdas não são definidas por sua deficiência auditiva apenas, mas sim, principalmente, por sua língua materna própria (a Libras) e por sua cultura própria. O respeito a essa diversidade é essencial para a cidadania e a educação de qualidade adequada às suas necessidades especiais, direito da criança reconhecido pela UNESCO. A atual gestão fez progressos em diversas frentes, mas é preciso proceder aos ajustes revelados pela pesquisa científica. O próprio ministro, em comunicação pessoal, declarou que reconhece a necessidade de manter as escolas especiais em diversos casos, como o de crianças surdas e o de crianças com quadros mais severos. É mister proceder aos ajustes revelados pela pesquisa científica rigorosa que identifica as condições mais propícias para o aprendizado de crianças diferentes. Com efeito, ao cabo de uma década, depois de ter avaliado mais de 8 mil alunos surdos de 6 a 40 anos de idade, o Pandesb revelou que a inclusão em escola comum é boa para a criança com deficiência auditiva, mas que a criança surda aprende e se desenvolve mais e melhor em escolas bilíngues que oferecem educação em Libras por sinalizadores fluentes em meio a sinalizadores fluentes no caldo de cultura da língua de sinais. Mais detalhes podem ser obtidos em minhas muitas publicações. Atendimento educacional especializado: o que é? Por quê? Como fazer? A escola para todos não exclui, acolhe de forma incondicional todo e qualquer aluno. Não os inclui por uma questão meramente filosófica, de solidariedade ou compaixão, mas especialmente por uma questão de direito, que deve ser preservado por pais, professores e por todos nós, cidadãos conscientes de nossos deveres relativos à infância. Sendo a educação um direito indisponível e do aluno, ele está alinhado a uma série de outros princípios de ordem constitucional e educacional. Há no momento uma grande preocupação relativa à inclusão escolar, dado que existem várias interpretações sobre o que é uma escola para todas as crianças, sobre a exclusão escolar, sobre a inserção dos alunos com deficiência e com altas habilidades nas escolas comuns e sobre o papel da educação especial, como uma das garantias da inclusão desses alunos.Há também muitas versões equivocadas do que a inclusão representa em termos de melhoria da qualidade do ensino das escolas. A inclusão trouxe a idéia de uma escola para todos e também a consideração do que é a igualdade e as diferenças na escola. Este é um ponto que deve interessar muito aos professores, pois não devemos continuar nos sustentando na máxima aristotélica de “tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais”. Tratar desigualmente os desiguais pode cair no “ele não é igual a mim, então pode merecer outro tipo de tratamento”. Por essa máxima, justificam-se as estratificações dentro da sociedade, os agrupamentos, as categorizações existentes no Brasil, no mundo inteiro e que implicam em ações discriminatórias. Uma escola só para crianças pobres, um projeto só para crianças que têm um determinado tipo de problema, uma escola só para alunos com nível elevadíssimo de inteligência, uma só para alunos com deficiência - todas essas iniciativas discriminam e diferenciam para excluir. As pessoas com deficiência e de outras minorias estão todas resguardadas pela Convenção da Guatemala que é muito clara ao dizer que não podemos diferenciar uma pessoa por uma deficiência e, se temos que fazê-lo, que seja para incluí-la e não para excluí-la. Por exemplo: tenho uma aluna cega que está na pós-graduação fazendo doutorado e precisa de um computador para acompanhar as aulas. Os outros alunos da sala não têm computadores à disposição. Ali existe uma ação discriminatória, mas afirmativa, com vistas a incluí-la no grupo, para que ela possa estar presente e freqüentando as aulas com aquela turma. Se um aluno permanece na sala de aula, com os demais colegas, mas tendo um professor para trabalhar com ele, à parte, faz atividades diferentes da turma, tem um currículo adaptado às suas necessidades, temos caracterizado um caso de diferenciação que o exclui. Essa é uma ação discriminatória que diferencia esse aluno pela deficiência, mas não para incluir, pois ele está no mesmo ambiente, mas não está tendo as mesmas oportunidades que os demais alunos estão tendo nessa mesma sala de aula. Diferente da minha aluna da pós-graduação que, mesmo sendo cega, tem os mesmos textos que estão sendo trabalhados pelos outros colegas e ainda pode escolher como o texto deve ser apresentado: em Braille ou digitalizado. Estas são nuances muito difíceis de serem diferenciadas na cabeça do professor, que entende ensino de qualidade como sendo ensino diferenciado. Ensino escolar é igual para todos, oferecido para um mesmo coletivo e, portanto, não pode ser diferenciado para alguns alunos, na mesma sala de aula. Mas, como os professores querem que a aprendizagem seja homogênea, e que os seus alunos alcancem um mesmo nível de conhecimento, ao finalizarem a 1a, 2aséries etc, a saída que encontram é, no geral, separar os alunos que não conseguem esse feito e submetê-los a um currículo adaptado, a uma avaliação diferente, elaborada para alguns e não para todos os demais da turma. As nuances, repito, são sutis e perigosas e precisamos percebê-las. Se muitos pais e professores não as percebem ainda, nós temos de ensiná-los a fazer essas distinções e a atuar, pedagogicamente, sem discriminações. Direito à igualdade e à diferença Temos de saber andar no fio da navalha, assegurando o direito à igualdade quando as diferenças inferiorizam nossos alunos e assegurar o direito à diferença quando a igualdade os descaracteriza. Isso é muito diferente de tratar igualmente os iguais e desigualmente os diferentes.Trata-se de uma máxima importantíssima que se aplica não só à escola, como a qualquer agrupamento humano. Ela sustenta inúmeras ações que estão sendo desenvolvidas internacionalmente em favor do direito das pessoas a serem diferentes e do direito à igualdade quando há necessidade que essas pessoas sejam protegidas de qualquer ação discriminatória que possa inferiorizá-las. Como professores que somos, é fundamental que adotemos essa máxima ao pensarmos em nosso projeto pedagógico, na gestão da escola, quando selecionamos as atividades que vamos desenvolver com nossos alunos nas salas de aulas, nas formas de avaliar o aproveitamento escolar. É preciso que se tenha muito claro que tanto o direito à igualdade quanto à diferença devem estar presentes, daí aprendermos a andar no fio da navalha, ou seja, equilibrando-nos entre a igualdade e a diferença, porque há momentos em que a igualdade tem que ser considerada e em outros que a diferença precisa ser vista e atendida, mas sem inferiorizações e discriminação. Não é fácil conseguir esse equilíbrio na escola, hoje, Acompanho o movimento em favor de uma escola para todos, da inclusão na sociedade e na educação desde os seus primeiros tempos. É no cotidiano escolar, dentro da sala de aula que percebemos todos esses movimentos e que podemos entender bem o que significa a consideração de igualdade e das diferenças dentro de um projeto educacional inclusivo. Caminhamos muito devagar, nessa direção. Sinto que os pais, professores, gestores têm muita dificuldade para entender a legislação em vigor, que favorece a inclusão, pois há documentos que divergem, que se contradizem no modo de expressar o que significa uma escola para todos. Parece que eles têm a intenção de, por um lado, enfatizar a importância da escola para todos e considerar as diferenças não como alguma coisa que diminui, inferioriza, mas alguma coisa que tem ser considerado, um benefício para o próprio desenvolvimento da escola, e, por outro lado, existe muita dificuldade desses mesmos documentos compatibilizarem esses propósitos com práticas de ensino que dêem conta de operacionalizar, na sala de aula, os princípios da inclusão escolar. Tanto isso é verdade que levamos um bom tempo para redigir um documento de apoio aos professores e pais e igualmente dirigido aos promotores, procuradores e juizes para que pudessem ter um acervo de contribuições no momento de pensar sobre um caso de exclusão escolar e entender melhor uma reivindicação, tomar uma atitude, julgar uma situação. Esse documento que já tem mais de três anos e foi pouco discutido na sua verdadeira essência. Ele garante igualdade, quando a diferença inferioriza e assegura a diferença, quando a igualdade descaracteriza os alunos em geral. Trata-se da cartilha “Acesso de alunos com deficiência nas classes e escolas comuns de ensino regular” www.prsp.mps.gov.br. A esse documento seguiram-se diretrizes e portarias governamentais, que contradiziam e de certa forma neutralizavam todos os desafios e desequilíbrios postos pela tarefa de educar a todos, como a inclusão propõe. Tivemos um período muito difícil nos primórdios da inclusão porque havia um descompasso grande entre o que se entendia como fundamentos de uma escola para todos, e o que se entende ainda como escola comum com programas compensatórios para alguns alunos, escolas especiais segregadas para alunos com deficiência. Idéias que combatemos hoje, tais como “esse menino é pobre, de família desajustada, vai para escola e precisa ser submetido a programas compensatórios” têm origem no entendimento de que é preciso assimilar a cultura dominante, ou seja, um acervo de conhecimentos que todos devem ter, porque é imprescindível para “subir na vida”, ter sucesso na profissão etc. A seleção de alguns conhecimentos que seriam os dominantes e a idéia de que o conhecimento científico é o único que dá conta das explicações e soluções dos problemas do mundo de hoje, isso tudo precisa mudar. A ciência evoluiu. Antes achávamos que uma pessoa com Síndrome de Down não aprenderia a ler e, porque nós determinávamos isso, nada mais tínhamos a fazer por esses alunos, nas escolas comuns e especiais! . Determinismo A afirmação de que pessoas com deficiência grave não podem ter acesso à escola, às salas de aulas, não aprendem, vão se sentir excluídas decorre da nossa atribuição de limitações a certos alunos, que nada têm a ver com o aluno em si, mas que marcam sua trajetória escolar e até mesmo o excluem dela. Conheço uma turma em que um aluno a freqüenta de maca. Ele só abre e fecha os olhos. Mas os colegas percebem o que ele está ou não entendendo, pois já sabem os sinais pelos quais ele se comunica. A turma inventou com a professora uma maneira de ele perceber melhor o que está escrito na lousa - uma espécie de tela com os pontos fundamentais da aula. Esse aluno muitas vezes vai à escola em uma cadeira e se alimenta e é medicado por sonda o dia todo. Houve quem questionasse o que ele estaria fazendo na escola. Mas essa não é uma pergunta que temos que fazer. A pergunta seria: por que ele não vai à escola? Isso depende da visão que temos da situação desse aluno e de suas possibilidades/restrições, dificuldades. Se temos uma visão determinista, que vai justamente na direção de predefinir o que o nosso aluno vai ser, pode ser, futuramente - e fazemos muito isso - é melhor que ele fique em casa!Tenho outro caso de dois irmãos que têm uma doença muscular degenerativa. Um deles já está no fim de sua vida e sabe que vai morrer, assim como os seus colegas já sabem. Mas ele adora ir à escola. Ele não escreve mais e tem um colega que escreve para ele. Ele está falando muito mal, mas tem uma colega que sabe o que ele quer dizer e fala por ele. Isso não é compaixão apenas, o que já seria muito bom, mas é respeito por uma vida humana que está ali e que precisa ser atendida em seus anseios e direitos. Os documentos em vigor, a própria LDBEN, consideram o ensino especial uma modalidade, mas também o entendem como sendo um sistema paralelo com seus níveis e etapas de ensino. Se o ensino especial é uma modalidade, como pode ter níveis? Se o sujeito está em uma escola especial, que certificação ele tem de seus estudos? A escola especial, mesmo sendo regularizada, tem que oferecer ensino especial e ensino especial não é ensino comum! Muitos acham que os pais podem escolher para o filho com deficiência uma escola comum ou uma escola especial. Ocorre que a educação é um direito que os pais têm que preservar para seus filhos e esse direito só é assegurado, nas escolas comuns. Temos de ter bem claro esse direito indisponível dos alunos para que, de fato, se assegure a todos o acesso, a participação o prosseguimento dos estudos nas escolas comuns, de acordo com a capacidade de cada um, como prescreve a nossa Constituição. Não se exige de cada um de nós, professores, fazer milagres, pois quem aprende são os alunos! Nós ensinamos e os alunos aprendem e o que eles aprendem não é determinado pelo que nós ensinamos. Eles aprendem segundo suas capacidades e interesses. É uma outra visão determinista essa que nos faz achar que o ensino faz o sujeito aprender o que queremos que ele saiba e no nível de entendimento que estipulamos. Livre-arbítrio O melhor ensino do mundo vai passar sempre por um crivo na cabeça do aluno, ou seja, temos algo que devemos preservar que é o seu livre-arbítrio de concordar ou não, gostar ou não, selecionar, guardar, abandonar o que lhe é ensinado, porque isso é próprio da nossa liberdade de ser e de agir, como seres humanos. Eu gosto de dar aula, eu estudo, me preparo, especialmente quando vou oferecer uma disciplina nova. Eu posso dar a melhor aula, mas eu não posso garantir que ela tenha, na cabeça dos meus alunos, a repercussão que almejei para ela. Gosto muito de um texto do Prof. Jorge Larrosa, da Universidade de Barcelona, sobre a lição. Ele compara a lição a uma carta que ele quer enviar a alguém muito querido, contando-lhe aquilo que para ele é importante; ele quer compartilhar essa mensagem com o outro e espera do outro uma resposta. Mas ele não pode garantir que essa resposta venha e nem mesmo que ela concorde com o remetente. Em outro texto, o mesmo autor recorre à história de “Agamenon e o porqueiro”. Agamenon é o dono do porqueiro e dos porcos. Quando Agamenon diz alguma coisa, acha que está falando a única verdade. Como ele é o “dono do porqueiro e dos porcos”, pensa que o porteiro vai acolher a sua verdade. Mas ao porqueiro - que não tem nem nome – resta sempre a liberdade de estar ou não convencido dela! As grandes barreiras para a aceitação da inclusão escolar decorrem do que entendemos das histórias precedentes. Nós achamos que todas as “cartas” que escrevemos serão respondidas por nossos alunos com as palavras que nós queremos ouvir e imediatamente. Se a resposta não vem como esperamos, significa que a “carta” não agradou, ou eu não consigo escrever para aquela pessoa, ou ainda que ela não se correspondeu comigo, por não ter alcance para me entender. Nosso grande desejo como professores é que nossos alunos reproduzam o que nós sabemos. Mas isso é impossível. Eles são livres e, mais do que isso, nós não devemos querer que eles nos reproduzam, pois recalcariam o velho. Nós temos que dar condições para que o novo penetre na escola e o novo pode ser o posicionamento de uma criança de nível mais baixo ou mais alto que a média, mas que faz com que o desequilíbrio aconteça nas turmas e as torne mais ricas, ativas, diante de um conhecimento em construção. E como corremos contra o desequilíbrio e não a seu favor; não queremos um ambiente escolar onde as idéias se entrechocam e admitimos que os alunos sejam diferentes só quando entram em uma série escolar, pois têm de estar igualados em conhecimentos para que saiam dela, não podemos admitir o dissenso, que é natural e desejável na escola ou em qualquer outro lugar de aprendizagem. A escola tem de ser esse lugar em que as crianças têm a oportunidade de ser elas mesmas e onde as diferenças não são escondidas, mas destacadas. Todas essas considerações são importantes para que possamos levar adiante nossos propósitos de tornas as escolas abertas às diferenças e elas implicam na criação de estratégias, de práticas de ensino que mudam a maneira de ser dos professores e alunos, diante dos conteúdos escolares. Dificuldades No ensino regular é ainda difícil atuar de modo includente, pois todos esses assuntos de que estou tratando aqui não entram nas nossas cabeças de professores com facilidade e nem mudam as escolas, em seguida. Na minha concepção e por tudo que tenho pesquisado, estudado, observado diretamente em sala de aula, o que torna o ensino regular de qualidade tem a ver com mudanças na sua organização pedagógica, nas suas práticas e esse desafio, infelizmente, não tem sido enfrentado com freqüência por professores, gestores das escolas comuns, públicas e privadas. Não há descontinuidade no desenvolvimento dos seres humanos, não voltamos para trás por repetência. Esses equívocos, contudo, persistem na nossa cultura escolar. Achamos que sabemos quando um aluno pode ou não aprender um determinado conteúdo, o tempo dessa aprendizagem e até a atividade ideal para esse fim. Como predeterminamos tudo isso, nós mesmos colocamos barreiras ao ensino e à aprendizagem que depois irão se reverter contra nós próprios. Aí vêm as frustrações, os professores acham que não estão preparados, não conseguem fazer com algumas crianças aquilo que conseguem com outras etc. Mas eles não se perguntam: será que estou conseguindo mesmo tudo isso com alguns alunos ou esses meninos estão fazendo o “jogo do contente” para me agradar? Quem de nós, professores, pode sustentar que um aluno está aprovado, por meio de testes e.provas, cujas notas definem o que aluno realmente aprendeu de tudo o que neles foi questionado? Se a resposta é fechada em um “x”, ou em uma idéia que o professor selecionou antecipadamente, fica ainda mais difícil e complicado. Eu não posso invadir a cabeça dos meus alunos, não posso atestar o que eles realmente aprenderam. A prova é algo muito impreciso, precário mesmo. A avaliação tem de recair sobre outras situações e analisar a aprendizagem de outros ângulos, por outros caminhos e não apenas pela reprodução do conhecimento, como acontece rotineiramente, causando enormes preocupações aos pais e professores. No meu tempo de escola primária, se você aprendesse o “Dado Mágico” na primeira série do Instituto de Educação Caetano de Campos, você era considerado um bom aluno. O “Dado Mágico” não passava de 25 folhas de cartilha, mas era aquilo que se entendia como estar alfabetizado. Hoje uma criança que está na Educação Infantil já sabe entrar nos programas do computador e dizer à sua mãe o que ela quer aprender ou o que descobriu, navegando na Internet. Escola especial? O meu foco sempre foi a escola comum, mas, de repente, eu resolvi que era preciso que eu me voltasse para a educação especial, em sua nova interpretação, como modalidade de ensino e complemento da formação do aluno com deficiência e com altas habilidades. Minha intenção é tentar, por este atalho, chegar cada vez mais perto da inclusão escolar. Muitos acharam que eu tinha “virado a casaca”!. Percebi que este novo caminho seria uma boa estratégia. De fato, o que faz a escola comum se mobilizar para atender a todos os alunos, indiscriminadamente, existindo um ensino especial substitutivo para alunos com deficiência e altas habilidades? O que a tira do lugar acomodado em que se encontra, existindo uma classe especial para a qual esse aluno pode ser encaminhado, caso ele não dê conta da escola comum? Havendo uma escola especial para a qual esses alunos podem ser encaminhados, um professor itinerante que entra na sala de aula para ensiná-los à parte com um currículo adaptado, um especialista para avaliar seu desempenho em sala de aula,o que o ensino comum tem como razões para que enfrentar a inclusão? Se tenho a possibilidade de afastar aqueles alunos que me atrapalham, que contestam a minha maneira de entender o processo escolar, se eu tenho a neutralização desses desafios e perturbações o que me resta a dizer é que eu não estou preparado para ensinar esses alunos. E que eles sofrem nas nossas salas, porque não acompanham a turma. Novamente temos o foco na dificuldade do aluno e não na avaliação daquilo que o professor oferece como ensino. Eu diria, sendo professora como vocês, que a gente persiste muito tempo em uma situação que não está dando certo. Continuamos batendo na mesma tecla, sem ir ao encontro de outras saídas. Por isso resolvi lutar em favor de uma nova política de Educação Especial. Penso que definir o que é a Educação Especial, a partir do que preceitua a nossa Constituição, é um passo importante e que pode ser uma alternativa para se chegar à escola inclusiva. Se fecharmos todos os buracos de uma casa onde um rato penetrou, anularemos a possibilidade de ele se esconder em um deles e conseguiremos capturá-lo. Enquanto houver um buraco ele se esconderá... A questão é tapar os buracos, verificar onde estamos escondendo nossos problemas, onde estão os escapes que evitam o seu enfrentamento. Enquanto a Educação Especial continuar sendo substitutiva do ensino regular para alunos com deficiência, nada mudará. As Diretrizes da Educação Especial no Ensino Básico (que está sendo contestada, por ferir a nossa Constituição) refere que alguns alunos podem ser inseridos nas escolas comuns e outros, não. Quem somos nós para dizer que um aluno pode ou não ter garantido o seu direito à educação, se este é um direito indisponível de todas as pessoas, com e sem deficiência? Dizemos aos pais, com toda facilidade: “esse caso é muito difícil, é melhor você procurar um professor especializado, pois não estou preparado para atende-lo”, ou “ele só vai ficar aqui por ficar, pois agora é lei”. A questão está acima da lei, pois respeitar o direito à educação tem a ver com uma ética educacional, que não admite exclusões, restrições, quando se trata de acolher os alunos, nas escolas. Desde 2003, coordeno um projeto na UNICAMP.Trata-se do TODOS NÓS – Unicamp Acessível. Oferecemos, no “Laboratório de Acessibilidade” da Biblioteca Central César Lattes, atendimento educacional especializado a alunos com deficiência, que estudam em nossa universidade.A atendimento educacional especializado deve estar localizado, preferencialmente, dentro das escolas comuns de nível básico e superior, e contar com professores especializados em alunos com cegueira, surdez e outras deficiências, pois esses alunos têm, por lei, direito à diferença, na igualdade de direitos. Eles precisam de orientação, de material didático específico. Esse atendimento não oferece aulas especializadas de Química, Matemática etc a esses alunos. Os professores especializados estão lá para atender às necessidades específicas desses alunos relacionadas às suas deficiências e não às suas necessidades diante dos planos de curso, dos trabalhos acadêmicos que se desenvolvem nas salas de aulas das Faculdades e Institutos da Unicamp. Cito um exemplo. Temos um aluno com surdez total, que é oralizado, mas que também se comunica por sinais e que não quer intérprete na sala de aula. Lê muito bem e está trabalhando no Instituto de Química, mas tem muita dificuldade de escrever - o que é normal, pois a Língua Portuguesa para uma pessoa com surdez é uma segunda língua que tem uma estrutura diferente da língua de sinais. Se ele escreve mal, isto não significa que seja um aluno que entende mal o conteúdo do seu curso ou é uma pessoa prejudicada intelectualmente.Um de seus professores procurou o nosso atendimento, no Laboratório de Acessibilidade, referindo-se ao fato de que ele não conseguia entender o que o aluno escrevia, mas como ele é oralizado, pedia para que ele explicasse, falando. Mas ele também tinha dificuldade de se exprimir oralmente. Esse professor queria saber como fazer diante dessa situação. Notem que ele não estava perguntando como ele teria de dar aula para uma pessoa surda e sim que conduta deveria adotar diante da dificuldade de entender a resposta do aluno. Ele se referia a erros de Português, dificuldade de expressão, dado que no conteúdo de Química este aluno ia muito bem. O atendimento educacional especializado não trabalha com as áreas curriculares, não trabalha com o que é da escola, ou seja, a Educação Especial, hoje, como modalidade de ensino que é transversal a todos os níveis de ensino, desde o básico ao superior, não é especializada no ensino de matérias curriculares para alunos com deficiência, porque senão teríamos de oferecer um professor de Química especializado em alunos surdos na UNICAMP, um outro professor de Cálculo para alunos com cegueira e assim por diante. No ensino básico ainda é comum se entender que o professor especializado é o que sabe ensinar o conteúdo curricular para alunos que têm dificuldade de aprendizagem escolar, sejam ou não pessoas com deficiência. Basta não estarem acompanhando a turma. Esta é para mim a grande questão que temos de enfrentar na Política de Educação Especial, na perspectiva inclusiva. Qual, então o novo papel da Educação Especial? É nisso que estamos trabalhando, na nova Política. Nosso, propósito, é definir seus serviços e, principalmente, o que é o atendimento educacional especializado. É absolutamente necessário que a escola comum tenha como certo que o ensino é para todos e que só alguns poderão ser encaminhados para o ensino especial, onde aprenderão conteúdos, uso de ferramentas que têm a ver com o que é próprio de suas deficiências e necessário para que possam enfrentar as exigências da escola comum. Se um aluno tem deficiência visual, ele vai para escola comum e em outro horário e com um professor especializado aprende o uso da máquina Perkins, a utilizar leitores de texto no computador, a lidar com o ábaco para fazer contas, ou seja, com aquilo que não é conteúdo da escola, mas é fundamental para que ele possa aprender a tabuada e fazer cálculo, escrever, ler aprender, como e com os demais colegas da turma. Eu tinha uma aluna chamada Josefina, que era professora de alunos com cegueira e com deficiência visual e um dia ela disse estar com problemas com uma professora de classe comum de sua escola. Ela queria que Josefina ensinasse a tabuada para um aluno com cegueira. A Josefina disse que ensinava o uso do ábaco para ele e a outra professora, ficaria com a tabuada. O que essa professora da classe comum queria, na verdade, era que a professora especializada ensinasse a tabuada no ábaco para o aluno cego! Quem sabe lidar com o ábaco, tendo uma boa aula de tabuada vai ter condições de aprendê-la, na classe comum. Não existe um método para ensinar tabuada para alunos com cegueira e sim uma ferramenta para que ele possa fazer cálculos e aprender a Matemática e quem ensina o uso dessa ferramenta é o professor especializado. A professora comum não precisa aprender a trabalhar com o ábaco, mas precisa saber como ensinar a tabuada para os seus alunos. O mesmo ocorre com os alunos com deficiência física, de locomoção, de fala, e comunicação. A tecnologia assistiva, não é conteúdo escolar, mas é da responsabilidade da escola comum oferecer essa ferramenta e o ensino de como usá-la a alunos que precisam dessa tecnologia para terem acesso e participação nas salas de aula. Por uma nova Política Nacional de Educação Especial É necessário que as escolas comuns não tenham mais escapes para encaminhar alunos que ela não dá conta de ensinar e que fique bem claro que o professor especializado não é expert em alfabetizar alunos com surdez, com deficiência visual, mental, com dificuldade de aprendizado. Ele não é o professor que recupera, dá reforço aos alunos que não vão bem nas classes comuns. Uma vez aprovada e instituída, a nova Política de Educação Especial vai esclarecer as redes estaduais e municipais de educação sobre o que deverão oferecer como serviços especializados nas suas escolas comuns, preferencialmente. Já estamos formando professores, na modalidade ensino a distância, em todo o Brasil, para que essas redes possam criar seus serviços de ensino especial, na perspectiva inclusiva.A formação continuada para o atendimento educacional especializado está sendo financiada pelo MEC. Dez professores de cada um dos 147 municípios-pólos do programa Educação Inclusiva Direito à Diversidade da Secretaria de Educação Especial – SEESP/MEC já participaram da primeira edição do curso. Vamos para a sua segunda edição, em 2008. Pretendemos, até o final do atual governo, fazer várias outras. Temos ainda muito a fazer para que a educação brasileira adquira a qualidade que tanto almejamos, depois de termos conseguido que ela se democratizasse. A educação inclusiva é exigente e implica em uma organização pedagógica que difere da que tradicionalmente existe em nossas escolas, assim como a Educação Especial, em sua nova interpretação, como modalidade de ensino. As tarefas estão aí para serem cumpridas e, como bons educadores que somos, vamos assumi-las com empenho e responsabilidade cidadã. Maria Teresa Eglér Mantoan é doutora em Educação e professora dos cursos de graduação e de pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp/SP e coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diversidade – LEPED – FE/Unicamp [email protected]. É autora do livro Inclusão escolar - O que é? Por quê? Como fazer? pela Moderna. LETRAMENTO PARA SURDOS – UM NOVO OLHAR SOBRE AS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS Introdução O histórico das pessoas surdas, no Brasil, é algo que vem merecendo destaque no meio educacional e gerando polêmicas bastante plausíveis. O que antes era visto como "deficiência" e ausência de capacidade, hoje é considerado como sendo "diferente", ou seja, os surdos têm outros métodos de aprendizado, por meio da Língua Brasileira de Sinais, tornando-os aptos a exercer seus direitos de cidadãos. A luta para que a LIBRAS seja implementada nas escolas é uma realidade inquestionável, pois o que se observa é que o uso do oralismo ainda é muito difundido, mesmo após desastrosos resultados. A imposição aos surdos para que estes desenvolvam a fala é algo corriqueiro e este "falar" que se impõe é apenas artificial, pois o surdo não conhece esta particularidade que pertence aos ouvintes. O surdo pode até mencionar algumas palavras, todavia, isso dificilmente significa que ele aprendeu e que sabe realmente o que está falando. Quando o surdo não tem acesso à sua língua materna, geralmente se mostra melindroso, desconfiado, julgando-se fraco por não saber falar, por não ouvir. Percebe-se que eles (surdos) se escondem em seus mundos silenciosos e temem a rejeição, levando-os a fazer de conta que aprenderam porque sentem-se envergonhados por não saberem, lançando fora os questionamentos aos professores, porque acham que, se perguntarem ou responderem errado, serão considerados incapazes, inferiores. O Letramento surgiu para tornar eficaz o aprendizado dos surdos, pois prioriza a LIBRAS em todas as situações, sendo o português escrito, ensinado como segunda língua.No letramento, o uso de ilustrações nos textos faz com que a leitura torne-se agradável, pois dessa forma, o aluno surdo pode visualizar não só o texto, mas as figuras que representarão o que todas aquelas palavras querem dizer, daí surgirão as interpretações. Para que o letramento seja plenamente eficaz, é de imprescindível importância que as salas de aula sejam compostas somente por alunos surdos, compartilhando uma mesma linguagem, um mesmo mundo. A educação bilíngüe para surdos (LIBRAS / português) tem sido exemplo de sucesso, todavia, ainda precisa ser adotada em várias instituições de ensino. O letramento tem suas particularidades, o ensino é diferenciado daquele em que costumamos observar nas escolas regulares, pois a língua em questão é a de sinais. O surdo letrado passa a compreender a língua portuguesa escrita, todavia, ele escreve textos e afins de forma diferenciada da dos ouvintes, pois na LIBRAS não existem algumas regras comuns como no português. Assim como Chomsky (1981) percebeu, mesmo em contextos normais de aquisição, o input não é completo, no sentido de oferecer todos os elementos que compõem uma determinada língua. Mesmo assim, a criança é capaz de, a partir desses estímulos, atingir uma língua com todas as possibilidades que apresenta. Então, o que parece ativar a aquisição da linguagem é o que está por trás da expressão lingüística, ou seja, são princípios que regem a aquisição da linguagem. Assim, os estudos da linguagem podem ser desenvolvidos a partir dos estudos da aquisição da linguagem em diferentes contextos lingüísticos. Chomsky chama a atenção para o fato de que mesmo havendo um input dito normal, ele ainda assim pode ser inconsistente e apresentar diferentes níveis de complexidade. Estudos realizados com crianças diante destes diferentes contextos lingüísticos mostram que mesmo assim a criança desenvolve a linguagem com uma forma diferente e mais complexa do que aquela apresentada no seu input. O que se propõe é que as escolas valorizem a língua de sinais em seus currículos, oferecendo aos surdos novos métodos de ensino para que possam assumir suas identidades. Propõe-se que o oralismo seja substituído pelo letramento, dessa forma, os alunos poderão aprender melhor, por meio da sua natureza visual – espacial, não lhes sendo imposto algo por convencionalismo, conforme algumas pesquisas indicaram, referindo-se a linguagem oral – auditiva. A partir dessa problemática, pode-se indagar: -Qual a magnitude do oralismo sobre a educação dos surdos? -Até que ponto os métodos orais – auditivos afetam os surdos e quais os benefícios do letramento bilíngüe? Breve Histórico A história dos surdos denota preconceito, indiferença e negligência por parte de alguns educadores, do governo e da sociedade. Antigamente, as pessoas que nasciam surdas eram consideradas incapazes de se desenvolver, de aprender, de ser como "os outros", por isso, eram excluídas da sociedade, privadas de se casar, de adquirir ou herdar bens. Injustamente, eram esquecidas, abandonadas em seus mundos silenciosos que, por dentro, ansiavam em poder gritar, mas em vão. Embora haja poucos documentos sobre a surdez, foi constatado que, antigamente, as crianças surdas que nasciam em lares com condições financeiras mais favoráveis, tinham a oportunidade de tentar desenvolver a fala, a leitura e a escrita. Mas o mais importante não era ensinado: a língua de sinais. Como a repressão era muito grande, os surdos ficavam solitários com suas lutas interiores, sendo que só mais tarde puderam se unir e solicitar seus direitos. A sociedade francesa, por volta do século XVIII, era totalmente voltada aos costumes e não pretendia modificar o status quo[2] que a envolvia. A fala era imposta aos surdos, ou seja, eles tinham que desenvolver a oralidade[3] a todo custo, nem que para isso ficassem frustrados, desamparados e se sentindo ineficientes. Ainda no mesmo século, surgiram estudiosos que passaram a entender que os surdos tinham a sua própria linguagem, tratava-se dos gestos que traduziam a sua natureza visual. De acordo com Cristina B.F. de Lacerda (1998),o "método francês" de educação de surdos é o mais notável no que se refere a abordagem gestual. O pioneiro a estudar a língua de sinais foi o abade Charles M. De L'Epée que, procurando se ater às características dessa nova linguagem pôde observar nos grupos de surdos que os mesmos desenvolviam a comunicação visual - gestual, obtendo êxito com esse método natural, espontâneo. De L'Epée, baseando-se na linguagem gestual, teve a excelente idéia de criar um método educacional visando a linguagem de sinais da comunidade surda, fazendo alguns adendos de sinais, que tornavam sua estrutura mais próxima à do francês e denominou esse sistema de "sinais metódicos". Juntamente com essa nova proposta educacional, priorizou-se também que os professores deveriam aprender tais sinais para se comunicar com os surdos. Era uma relação de ganha – ganha, podendo professores e alunos aprender simultaneamente, sendo a língua falada e escrita pertencente ao grupo majoritário - o dos surdos. É interessante ressaltar, em conformidade com a citação de Lacerda que, diferentemente de seus contemporâneos, De L'Epée não teve problemas para romper com a tradição das práticas secretas e não se limitou a trabalhar individualmente com poucos surdos. Em 1775, fundou uma escola, a primeira em seu gênero, com aulas coletivas, onde professores e alunos usavam os chamados sinais metódicos. Divulgava seus trabalhos em reuniões periódicas e propunha-se a discutir seus resultados. Em 1776, publicou um livro no qual divulgava suas técnicas. Seus alunos manejavam bem a escrita, e muitos deles ocuparam mais tarde o lugar de professores de outros surdos. Nesse período, alguns surdos puderam destacar-se e ocupar posições importantes na sociedade de seu tempo. O abade mostrava-se orgulhoso de que seus discípulos não só liam e escreviam em francês, mas que podiam refletir e discutir sobre os conceitos que expressavam, embora houvesse avaliações contrárias que indicavam haver profundas restrições nesse suposto êxito (...) (Cristina B.F. de Lacerda, 1998) Ainda sob a análise de Cristina B.F. de Lacerda (1998), em decorrência das práticas pedagógicas aplicadas aos surdos, concretizou-se, em 1878, em Paris, oI Congresso Internacional sobre a Instrução de Surdos, onde se tornou possível realizar debates mais profundos sobre as metodologias de ensino aplicadas naquela época à comunidade surda. Nesse Congresso, os surdos puderam se manifestar, assinando documentos que lhes eram favoráveis, mas ainda não era o suficiente para livrar-lhes do preconceito vigente. Não demorou muito para que o II Congresso Internacional fosse realizado, pois o mesmo ocorreu no ano de 1880, em Milão, trazendo novidades significativas e tornando-se um marco histórico na educação de surdos. O método oralista passava a adquirir mais adeptos, utilizando inclusive, exemplos de alguns surdos que conseguiam se comunicar bem fazendo uso da linguagem oral. Neste Congresso, a maioria participante dos debates defendia com veemência o método oralista, defendendo que a língua de sinais não era relevante, fato que levou o Congresso a optar pelo método oral, banindo a língua de sinais por considerá-la prejudicial ao desenvolvimento da fala, fator essencial para que uma pessoa possa tornar-se parte de uma sociedade (segundo a maioria das pessoas). Ainda na concepção de Cristina B. F. de Lacerda, o único opositor ao oralismo foi Gallaudet, dos Estados Unidos, que desenvolvia um trabalho baseado nos sinais metódicos do abade De L'Epée e que obteve resultados satisfatórios por parte de seus alunos. O método oralista, oriundo da Alemanha, estava ganhando força a partir do Congresso de Milão e sendo adotado em vários países da Europa e, mais tarde, sendo utilizado no mundo todo. Sabe-se que a LIBRAS[4] passou a ser utilizada no Brasil a partir dos anos 90, então, a comunidade surda pôde respirar mais aliviada, podendo se comunicar por meio da linguagem que lhe pertencia, uma linguagem latente. Antes desse período, a preocupação dos estudiosos era descobrir um modo para que os surdos desenvolvessem a linguagem, utilizando, para tal, métodos orais - auditivos que não contribuíram para o sucesso da pessoa surda, principalmente, aquela que se encaixa no contexto da surdez profunda. A linguagem é, sem dúvida nenhuma, algo essencial, todavia o que não se notava ou o que se negligenciava, era a veracidade dos fatos: o surdo profundo não pode aprender o português nem quaisquer outras matérias, sendo instruído como se fosse ouvinte, pelo método usual em escolas regulares que lhe priva de utilizar a língua de sinais para a obtenção de melhores resultados. Para um aluno que tem certo grau de audição, não haverá problemas tão graves (e ainda assim, é aconselhado ensinarlhe a LIBRAS) se for instruído com o intuito de oralizá-lo, porém, a grande maioria dos surdos (e não menos capazes que um ouvinte), precisa estar em constante contato com a LIBRAS, com o seu mundo, para que então, alcancem a tão desejada subjetividade. Como uma forma de expressar seus sentimentos, as comunidades surdas foram surgindo, com o intuito de mostrar que a identidade surda é de suma relevância e o contato com pessoas surdas é absolutamente necessário. O surdo passa a sentir parte do grupo, podendo compartilhar pontos de vista, contrariedades, afinidades, enfim, passa a vislumbrar capacidades que lhe eram ocultas, mas que, por meio do contato com o seu mundo peculiar (que é muito semelhante a de outros surdos), encontra-se a si mesma para então, ir de encontro ao outro. Com a percepção dos estudiosos acerca do ensino para surdos, foram surgindo, paulatinamente, pontos de vista mais coerentes com a realidade dos alunos surdos. Passou-se a reconhecer que o mais correto é que o ensino seja oferecido por meio de uma linguagem visual – espacial (língua de sinais). É sabido que as escolas devem desenvolver esta metodologia de ensino em turmas homogêneas, para que os alunos possam estar no mesmo grau de aprendizado, enfrentando as mesmas situações e aprendendo a vencê-las. Mas em contrapartida, a heterogeneidade (surdos e ouvintes) nas turmas, faz com que o surdo não acompanhe a maioria ouvinte, ficando sempre para trás e se auto – julgando impotente diante das adversidades encontradas em seu caminho. Para que essa realidade seja mudada é importante que os professores que atenderão à esses alunos tenham domínio da Libras, pois assim poderão ter um trabalho e contato efetivos com tais alunos. A LIBRAS no Brasil, passou a ser reconhecida oficialmente no ano de 2002, então, temos 5 anos em que a mesma passou do status "estranho" para "conhecido". Apesar dos anos que se passaram, ainda é comum ver pessoas que nem ao menos sabem o que quer dizer LIBRAS, sendo corriqueira a resposta de que LIBRAS refere-se a moeda de ouro inglesa ou ainda, a antiga moeda portuguesa. Será que não deveríamos ter enraizada em nossa cultura o respeito pelo diferente e como lidar com isso? A partir do momento em que o meio televisivo passar a mostrar seus programas não somente na linguagem oral – auditiva, mas também mostrando a LIBRAS num canto / espaço da televisão, as pessoas irão se familiarizando com a linguagem de sinais e os surdos poderão assistir os programas televisivos e compreendê-los. Em algumas igrejas e programas de televisão, já podemos notar a presença de um intérprete para os surdos, e isso é relevante. Recursos como legendas também auxiliam bastante, mas para que haja uma efetiva recepção das informações recebidas é importante que o surdo tenha passadopor um processo de letramento, pois devido às falhas vocabulares há uma perda significativa de informações e ligação dos significados aos contextos.Essas mudanças facilitam muito a vida daqueles que não ouvem, fazendo com que se sintam parte de um todo onde a maioria ouve, todavia, respeita as diferenças. A surdez, o preconceito e o medo de fracassar Em tese, os surdos brasileiros passaram, e ainda passam, por períodos muito difíceis, tanto nas escolas (especiais ou não), tanto na sociedade. Os estabelecimentos de ensino regulares não oferecem o que o surdo precisa para se desenvolver, ou seja: uma língua compartilhada em sala de aula, onde todos possam se comunicar livremente, sem precisar fingir que entendeu e que sabe o que é desconhecido. A língua de sinais é a ferramenta essencial para que o surdo obtenha êxito em suas atividades, sejam elas familiares, sociais, culturais ou profissionais. As escolas especiais para surdos necessitam de professores que dominem inteiramente a LIBRAS, utilizando o currículo mais conveniente, estando a língua de sinais como "mãe" de todas as outras procedentes desta. O português deve ganhar nova roupagem, sendo para o surdo, uma segunda língua, tal qual funciona com os ouvintes quando aprendem um idioma estrangeiro. Muitos surdos "tentam" aprender em escolas regulares, o que os ouvintes aprendem, ou melhor: apreendem. A oralidade os confunde e a escrita é quase que um sacrifício, pois raramente conseguem expor suas idéias e tampouco explicá-las. O fato é que o aluno surdo sente vergonha em não saber o que a maioria ouvinte sabe, ele se julga incapaz, deficiente em suas habilidades cognitivas. Mesmo sentindo estar fazendo parte de um mundo estranho, eles fingem aprender, pois temem a rejeição e o abandono. Os professores, com o intento de amenizar a situação acabam agravandoa, gerando conflitos internos para o aluno surdo, que passa de uma fase escolar para outra sem ter adquirido preparo para tal. Nesse caso, o "empurrãozinho" dos professores para que o discente passe de um ano para o outro, sem estar preparado, tem conseqüências bastante desagradáveis no futuro. Conforme destaca Goffman, In BOTELHO, O estigma cria tensões e embaraços porque está fundado na crença de que o sujeito estigmatizado não é completamente humano, e a pessoa não pode romper com a crença porque aprendeu a se ver com os mesmos olhos. (GOFFMAN, 1982, p. 15, In Paula Botelho, 2002. p. 26). As pessoas surdas são visuais: elas aprendem com as imagens e a leitura se torna menos difícil ou, pelo menos, há tentativas de ligar uma coisa a outra, através de ilustrações e do próprio entendimento do texto. É uma outra estratégia e nada tem a ver com as instruções que os alunos ouvintes obtêm em seus estudos. O surdo aprende seguindo a língua de sinais, imprescindível para a constituição de suas convicções e da própria identidade. O não – saber disfarçado em entendimento Conforme analisa Botelho, a sociedade, sempre pré - disposta a aceitar o que é padrão e a rejeitar o diferente, acaba gerando no indivíduo considerado fora das normas tradicionais, o medo de aprender, de perguntar, de se descobrir e até de viver com mais plenitude. O medo da rejeição e até da humilhação, faz com que o dessemelhante (aos olhos da maioria), se recolha em seu mundo por temer as diferenças que, de modo algum, são anomalias, no caso dos surdos. Existem alunos surdos que acreditam que suas conclusões são corretas, ignorando a verdadeira resposta, pois crêem que suas convicções refletem o acerto, não o erro. Mas diferente daquele que pensa que sabe, enquanto desconhece, encontramos aquele que sabe que não sabe, mas que quer passar a impressão de que entende, se encaixando na análise de Paula Botelho (2002, p. 32), mostrando que, dessa forma, o aluno passa a negar, copiosamente, as dificuldades que lhe são apresentadas, acometido pela alienação que refletirá o seu estado de negação da realidade. A necessidade de "ser como os outros" (ouvintes), faz com que o aprendiz surdo se camufle ao querer dar a impressão de que sabe tudo, mas que, na verdade, pouco aprendeu por causa das diferenças acentuadas em sala de aula. Ele quer saber como os outros, mas enquanto sua educação na escola for dada junto aos ouvintes, privando-lhe da sua língua materna, apenas agravará sua situação e o colocará, freqüentemente, em posição inferior.No aprendizado, a língua de sinais é essencial, devendo esta ser compartilhada por todos, num ambiente homogêneo e sem preconceitos. O surdo torna-se "atrasado", segundo Paula Botelho, Não porque não ouve ou porque usa língua de sinais e, sim, porque a escola e as políticas educacionais não levam em conta a necessidade de um ensino baseado na percepção visual. Houvesse escolas de fato bilíngües, com professores preocupados com a aquisição da língua materna e da língua escrita pelo surdo, como língua estrangeira, investimento na produção de recursos didático visuais, oferta plena de programas televisivos legendados, entre outras condições, e nenhuma informação seria perdida.(2002. p. 94). Oralismo – experiência frustrada O oralismo é ainda muito praticado no Brasil, intentando desenvolver na pessoa surda, a audição, de forma terapêutica, assim como a fala. Após algumas experiências com o método oral – auditivo, percebeu-se que os surdos não conseguem desenvolver a fala de modo satisfatório, nem tampouco a escrita. Quando se pratica o oralismo, a língua de sinais não é utilizada, denotando uma espécie de imposição de uma linguagem estranha para o surdo, trazendo-lhe mais dificuldades de comunicação e crise de identidade. Sacks, In QUADROS, expressa perfeitamente a questão do oralismo, destacando que: O oralismo e a supressão do Sinal resultaram numa deterioração dramática das conquistas educacionais das crianças surdas e no grau de instrução do surdo em geral. Muitos dos surdos hoje em dia são iletrados funcionais. Um estudo realizado pelo Colégio Gallaudet em 1972 revelou que o nível médio de leitura dos graduados surdos de dezoito anos em escolas secundárias nos Estados Unidos era equivalente apenas à quarta – série; outro estudo, efetuado pelo psicólogo britânico R. Conrad, indica uma situação similar na Inglaterra, com os estudantes surdos, por ocasião da graduação, lendo no nível de crianças de nove anos (...). (Sacks, 1990, p.45, citado por QUADROS, 1997, p. 22). O que se percebe é que o oralismo pretende ensinar os surdos a falar, ou seja, a desenvolver uma aptidão que não lhes pertence. O que acontece, em tese, é que o aluno aprende a pronunciar as palavras e acaba nem ao menos sabendo o que está falando. A pessoa surda adulta, após anos de investimento em sua fala, vai percebendo gradualmente que não é entendida pelos ouvintes e que também, não compreende totalmente o que os últimos querem lhe transmitir. É algo, no mínimo, desanimador. É algo parecido com "nadar, nadar e morrer na praia", pois cada vez que tiram da pessoa surda o direito de serem instruídas em sua língua materna (LIBRAS), elas acabam desistindo do processo por não serem compreendidas, por se sentirem rejeitadas, não respeitadas. A não observância das necessidades dos surdos é um fator preocupante, pois só quem está envolvido com esta causa sabe o quanto é triste a realidade que envolve o ensino voltado para a surdez: um ensino atrasado, com métodos inadequados, uma redução significativa nos conteúdos infelizmente por idéias deturpadas com relação às metodologias de ensino para surdos e estrutura deficiente para proporcionar uma melhoria significativa. Faltam professores habilitados em LIBRAS; carecemos de materiais didáticos pedagógicos para suprir as necessidades dos surdos e ensiná-los de acordo com o que necessitam; falta estrutura governamental para investir na educação surda. Faltam muitas coisas que torna-se difícil enumerar, todavia, sobra preconceito e negligência face às necessidades prementes do surdo. O Letramento e as ascensões do aluno surdo O Letramento[5] é a prática mais acertada para o ensino do aluno não – ouvinte. A língua de sinais é preponderante em todas as situações, para o aprendizado do português, em sua modalidade escrita. Com a adesão de figuras ilustrativas em cada texto, o aluno poderá fazer conexões entre o que vê, de forma ilustrada, e o que lê. A leitura irá se tornar mais prazerosa por dois motivos: em sala de aula, haverá uma só língua compartilhada (a de sinais), deixando o aluno mais seguro e menos melindroso face à mínima percepção de erro. Outra razão é que o aprendiz poderá consultar a sua memória fotográfica, onde estão armazenadas as formas ortográficas de algumas palavras e seus respectivos significados, conforme as instruções e correlações aprendidas em sala de aula e no próprio meio social. Um problema bastante perceptível é que as escolas regulares, por serem constituídas, em sua maioria, por alunos ouvintes, fazem uso freqüente de leituras, interpretações textuais, seminários e alguns trabalhos de cunho científico, ou seja, colocam os alunos a pensar, a pesquisar. Por outro lado, as escolas para surdos não oferecem tais atividades de leitura e escrita, não estimulam o aluno a querer saber mais, a ir além daquilo que se julga ser o limite. O modelo que as escolas especiais para surdos precisam aderir, proveniente das escolas regulares, é a prática de se ler e escrever, todavia, utilizando a LIBRAS na sua amplitude. A princípio, o dicionário do aluno surdo deve ser formado com termos que ele conheça e que possa reconhecer em seus estudos. O professor, imbuído de cuidado, deve ir ajudando o aluno surdo a abrir seu leque lexical. Por ser extremamente visual, o discente surdo é atraído pelo que ele vê, então, quanto mais ilustrativos forem os elementos textuais dados em sala de aula, maiores serão as probabilidades de apreensão do conteúdo. O letramento bilíngüe (LIBRAS-português), proporcionará ao aluno surdo, com a imprescindível ajuda do professor, a reconhecer as peculiaridades da língua portuguesa, como pontuações, regras gramaticais, etc. Em tese, as dificuldades surgirão, todavia, o ensino continuado e eficaz irá contribuir de forma essencial para o êxito dos surdos. Os alunos se interessarão muito mais pelas interpretações de textos se o docente tiver fluência em LIBRAS, assim, o grau de dificuldade diminuirá e o professor poderá interagir de forma mais satisfatória com os alunos. Agindo dessa forma, o professor poderá questionar elementos que se encontram no texto, debater e criar hipóteses, até que obtenha a resposta desejada, que significará absorção do conteúdo. Outro ponto significativo é que o texto deve estar intimamente ligado com o cotidiano do aluno, ou seja, que possa lhe ser útil. Como bem exemplifica Sueli F, Fernandes: (...) Escrever uma lista de compras, ler uma bula de remédio ou uma reportagem no jornal, saber como fazer funcionar um eletrodoméstico seguindo instruções de um manual, entender as regras de um game, preencher uma ficha funcional ou fazer um currículo para emprego são atividades de leitura e escrita significativas para o aluno. Há que se pensar de forma crítica as coisas que pedimos aos nossos alunos para escrever. (2006, p. 2). Educação bilíngüe para surdos – uma questão de identidade Todos os seres humanos, desde a mais tenra idade, criam em seu meio (primeiramente, familiar) uma forma de comunicação. Podemos observar que nos primeiros meses de idade, as crianças são regidas por sinais em decorrência da fala ainda não adquirida , então, passam a fazer uso de expressões faciais e até corporais e, quando desejam alguma coisa, mostram para os pais o que desejam e se fazem entender. Gradualmente, a criança ouvinte vai aprendendo as primeiras palavras, conseqüência da sua percepção ao que os outros falam e ela, graças a sua audição, absorve e memoriza as palavras, repetindo-as e ligando o significado ao significante. A criança surda, filha de pais surdos, possuirá menos dificuldades de comunicação em seu lar, especialmente se os pais souberem a LIBRAS de forma ampla, podendo assim, inserir o novo membro da família no mundo a que lhe pertence. O bebê surdo aprende, nos primeiros meses, coisas similares aos dos ouvintes: faz uso de expressões faciais, corporais, gesticulam. O que os diferencia é que o bebê ouvinte logo começa a falar as primeiras palavras que lhe foram ensinadas, ao passo que o surdo continuará utilizando os gestos e expressões supracitadas, pois é uma forma de substituir a língua oral – auditiva. Se os pais da criança surda forem ouvintes é muito relevante que os mesmos aprendam a LIBRAS e usem-na em casa, com o seu filho, isso oportunizará o desenvolvimento da linguagem de sinais e das propriedades intelectuais do aprendiz. Essa forma de agir irá determinar como a criança enfrentará dois mundos distintos: dos ouvintes e dos surdos. Tendo a LIBRAS como língua primária em casa, os surdos irão se sentir mais à vontade e seguros, desenvolvendo suas aptidões com a certeza de que são parte integrante de uma sociedade que pode entendê-los e até mesmo, ajudá-los. A educação bilíngüe para surdos é um processo que deve ser ministrado na escola e em casa, assegurando assim, o sucesso da metodologia. Cabe ressaltar que o português (no caso do Brasil), não deve ser ensinado simultaneamente com a língua de sinais, não dá certo e gera confusões para o aluno. Tornar-se letrado, na análise de Paula Botelho, Numa abordagem bilíngüe pressupõe a utilização de língua de sinais para o ensino de todas as disciplinas. Proporcionada como primeira língua (L1), o aprendizado da língua de sinais é oferecido aos surdos em situações significativas, como jogos, brincadeiras e narrativas de estórias, mediante a interação com outros surdos adultos competentes em língua de sinais. Faz também parte do projeto bilíngüe que todo o corpo de funcionários da escola, surdo e ouvintes, e os pais, aprendam e utilizem a língua de sinais (2002, p. 112). Observa-se que todos devem se empenhar para o sucesso do modelo bilíngüe, praticando a LIBRAS em tempo integral na escola e dando continuidade em casa. É dessa forma que os surdos aprenderão o português escrito, sendo primeiramente, fluentes na LIBRAS em direção a novos horizontes. Faz-se interessante mencionar, conforme destacou Botelho (2002, P. 113), que países como a Dinamarca e a Suécia têm formado pessoas surdas bastante qualificadas em língua de sinais, escrita e leitura. Nota-se que na Suécia, o bilinguismo foi implantado em 1981, ou seja, o país investiu na educação para os surdos e, atualmente, muitos deles trabalham em áreas em que é necessário o ensino superior. Nos países em que a língua de sinais foi devidamente aceita e instaurada, gerou confiança nas pessoas surdas, ou seja, elas acreditam fazer parte de uma cultura que merece reconhecimento e que a sua linguagem tem valor, construindo assim, uma positiva percepção de si mesmo. O modelo sueco para a formação de surdos é muito interessante, abrindo os olhos dos governantes de outros países para o seu acertado modelo educacional, fazendo com que passem a ver o quanto as pessoas surdas são capazes de aprender e progredir mas, que para tal, precisam da imprescindível ajuda governamental para que a utopia passe a ser realidade. O investimento em profissionais intérpretes na LIBRAS também é um aspecto importante, dessa forma, ouvintes e surdos poderão compartilhar seus pontos de vista, suas curiosidades e compreender mundos diferentes (entende-se: pessoas diferentes). A contratação de professores surdos também é um aspecto de relevância, levando-se em consideração que os mesmos têm fluência na LIBRAS e certamente passaram por situações similares aos alunos surdos, o que os levará a se identificar com o professor e a criar, automaticamente, uma auto – imagem positiva. No caso do Brasil, ainda incipiente na LIBRAS, demorará um tempo significativo para que a Comunidade Surda obtenha o sucesso e o respeito almejados. Conforme analisa Botelho (2002, p. 116), a Suécia adotou, para o modelo bilíngüe, a cooperação das organizações de pais surdos, ou seja, os pais refletiram sobre o ensino das escolas regulares e concluíram que não era um local apropriado para as crianças surdas. Como toda transição oferece alguma resistência, não foi diferente com a instauração da língua de sinais sueca. O bimodalismo era aplicado com frequência e foi sendo abolido paulatinamente, já que era um método que não dava resultados positivos, mas superficiais. O que se pretende é valorizar a leitura como foco principal para o aprendizado da escrita, em contato com a língua de sinais, utilizando a tradução. O texto é aplicado em sala de aula, traduzido para a língua de sinais e daí advêm as interpretações textuais. O que se intenciona destacar é que o surdo precisa estar em constante contato com a língua de sinais para que não perca a sua identidade, mas solidifique-a. A esse respeito, Paula Botelho analisa que, com relação à língua de sinais, aprende-se por intermédio dela e sobre ela. Há, ainda, valorização intensa da atividade de narrar: os surdos contam e vêem outros contarem estórias, reais e imaginárias, em línguas de sinais, a partir ou não de textos escritos. E aprendem a não conceber o aprendizado da língua escrita como uma ameaça à supressão da língua de sinais e, por conseguinte, à sua identidade. Aprendem a dar valor equivalente à língua escrita, à língua oral e à língua de sinais (2002. p. 94). No Brasil, ainda existe o preconceito descabido com relação a LIBRAS, na aceitação desta ser uma língua verdadeira, embora diferenciada. A resistência ainda é grande e não pode ser negligenciada, pois muitas escolas para surdos utilizam o oralismo como método de ensino, outras, aderiram a comunicação total, isto é, todas as formas utilizadas para se comunicar são válidas. O que acontece é que o método da comunicação total é tudo e nada, ao mesmo tempo. Mistura-se português sinalizado, leitura labial, gestos para a compreensão das mais diversas situações, etc. Enquanto o foco está em tudo, fica difícil desenvolver um aprendizado mais consistente, mais reativo e menos passivo. Tornando a prática pedagógica para surdos mais eficaz Após comprovada a ineficiência dos métodos orais – auditivos para a educação dos surdos, torna-se imprescindível algumas sugestões para a melhoria da metodologia de ensino envolvendo a comunidade surda, intentando sedimentar a LIBRAS nas escolas especiais para proporcionar a esta comunidade o direito de se desenvolver, de aprender por intermédio da sua própria linguagem e, a partir desse pressuposto, obter sucesso. O Brasil, mesmo que incipiente na educação para surdos, está dando os primeiros passos em busca de uma melhor formação para crianças, adolescentes e adultos surdos, todavia ainda resta o preconceito que insiste em não enxergar a necessidade das pessoas surdas de utilizarem sua língua materna. A imposição do português, utilizando-se o método oral – auditivo, ainda acontece muito e impede que o letramento bilíngüe e as práticas pedagógicas visuais sejam plenamente aplicadas aos surdos, atrasando significativamente o êxito do projeto. O surdo não quer usar aparelhos auditivos e tornar-se semelhante ao ouvinte; ele quer a sua identidade, sua língua, seus direitos reconhecidos. Faz-se importante citar algumas metodologias educacionais relevantes para os surdos, envolvendo a sua inquestionável natureza visual, sejam elas: Produções textuais dos surdos As produções textuais dos surdos são diferenciadas e merecem destaque, além de um entendimento mais profundo dos professores, não só daqueles que ministram aulas para surdos, mas os que corrigem provas de surdos em concursos e afins, para que estejam atentos aos textos e as suas peculiaridades. Na maioria das vezes, a pessoa surda tem uma ótima memória visual das palavras e as decoram globalmente, porém, ocorre de inverter a posição das letras, como por exemplo: froi (frio). A ortografia errada não quer dizer que o aluno surdo não saiba o seu significado, o que acontece é que ele pode confundir algumas letras, trocando-as (s, z, ç / ã, na), isso se deve ao fato dele não poder ouvir os sons e onde se encontram as sílabas tônicas. Por exemplo: exército. Como ele não ouve o som, o "e" continua inalterado, portanto, pode acontecer de não inserir o acento. Na hora da correção de textos dos alunos surdos, os professores devem ter conhecimento da pontuação utilizada. Por não possuir a capacidade de ouvir, o aluno não acentua corretamente as frases, pois pontuá-las de forma acertada, fazendo uso de entonação, ritmos e afins, está intimamente ligada a natureza do ouvinte, que ao falar, percebe onde deve inserir ponto final, vírgula, aspas, etc. As pessoas surdas não identificam os artigos feminino e masculino, por isso em suas produções textuais estes gêneros podem estar trocados. Exemplo: "O menina ganhou presente pai". Nessa frase, além do artigo "o" estar inapropriado, faltou o elemento de ligação (do), pois na LIBRAS não há conectivos. Na LIBRAS, não há o uso dos verbos ser, estar e ficar, então, os textos dos alunos surdos não mostrarão tais verbos e aparentarão estar errados mas, é apenas mais uma característica diferenciada da língua de sinais. Ao analisar dados, percebeu-se que os alunos, surdos ou ouvintes, tem tido poucas oportunidades de uso da língua portuguesa em situações realmente significativas, os textos sugeridos em sala de aula denotam pouco seu dia a dia, são descontextualizados e repetitivos. Para os alunos surdos o simples processo de reescrita destes textos tem surtido poucos resultados no aprimoramento do português escrito, além do descontentamento em reescrever algo que, de início, decorrente da descontextualização, ele pouco compreendeu, simplesmente preencheu as linhas solicitadas pelo professor. Umas das formas de tornar os textos dos surdos mais eficientes é a utilização de um "diário" em sala de aula, ou seja, os alunos escrevem todos os dias, o que faz com que seu contato com a linguagem escrita seja constante. Partindo desse pressuposto, notou-se que quando o aluno detalha suas experiências e acontecimentos do dia a dia a linguagem flui com maior facilidade, e principalmente, há uma notável mudança de postura diante da linguagem escrita, possibilitando-lhes que passem a dominar alguns aspectos formais das convenções que regulamentamo uso social da língua. Para desenvolvimento de tal atividade, é importante que o professor esteja em constante contato com o que for produzido por seus alunos, faça as adequações dos elementos coesivos e auxilie no enriquecimento lexical. É de suma importância também que essas correções sejam sempre relidas por eles e justificadas pelo professor já no processo de adequação, que é interessante que seja feito com o acompanhamento do aluno e que sejam feitas no próprio texto, pois a partir da natureza visual do surdo ele perceberá nas próximas descrições os elementos que lhe faltam. Se nas primeiras vezes ele utiliza aspectos da Libras, o que é comum, nas próximas vezes em que escrever, procurará adequar a linguagem escrita às formalidades da língua portuguesa. Para resultados efetivos é imprescindível que haja um real comprometimento tanto do professor, que deverá corrigir semanalmente tais diários, como dos alunos que deverão escrever diariamente e comprometer-se a ler as correções. É importante também que seja aberto um espaço das aulas para que o professor possa sentar-se com cada aluno e juntos, no diário possam perceber as progressões e as falhas que ainda devem ser supridas. Através dessa prática, notou-se um real progresso nas composições dos alunos de uma forma geral, a perda do temor de escrever sempre temendo não se adequar ao proposto pelo professor e uma relativa confiança e valorização de suas idéias, pois estes constantemente trocam os "diários" com os colegas, mostram para outros professores, o que antes não ocorria com outros tipos de produções, pois a escrita era lhes como um tabu, habituados a crer que o que escreviam era visto como sem valor por crerem estar sempre "errado". Passos para tornar o aprendizado mais atraente para os surdos Como já foi constatado, o surdo é visual, isto é, para que ele possa entender as mais diversas situações cotidianas, faz uso de sua aguçada capacidade de interpretação visual, seja por meio de figuras, expressões corporais e faciais e afins. É interessante que as ofereçam atividades que possam auxiliar no aprendizado dos mesmos, fazendo uso constante da LIBRAS em suas atividades cotidianas. Abaixo, algumas atividades que podem ajudar no ensino de surdos: -Teatro: por ser uma arte totalmente voltada à expressão facial e corporal, é algo que agrada o surdo e pode lhe dar prazer em executar, pois estará utilizando os seus dons naturais e por meio deles, poderá aprender com mais facilidade em virtude da satisfação de estar fazendo algo que vai de encontro ao seu "eu". É interessante que os professores provoquem no aluno o desejo de querer aprender mais, de abrir seus horizontes. O teatro ajudará a pessoa surda e pensar, a conhecer-se melhor e a utilizar os seus dons intrínsecos. -Palestras ministradas por surdos: A escola precisa palestras que sejam ministradas por outros surdos, isso vai ajuda-los a acreditar em suas potencialidades ao se deparar com um exemplo de sucesso de alguém parecido com eles, em se tratando da audição. Investir em palestras e seminários contando com a presença de pessoas surdas, será de grande valia para o aluno surdo. É interessante, de igual forma, a presença de intérpretes (LIBRAS / Língua Portuguesa) para que o sentimento de valorização da LIBRAS seja cada vez mais forte, dentro e fora da comunidade surda. -Momento "descontração": O momento descontração é para que os surdos possam se sentir mais à vontade, podendo contar experiências de vida uns para os outros, criando assim um ambiente de amizade e afinidades. -Encontros de surdos: Partindo-se do pressuposto de que as escolas irão adotar os métodos de ensino específicos para os surdos, é muito relevante que as mesmas possam manter contato com outras escolas que tenham surdos e, eventualmente, promover passeios unindo as escolas a fim de tornar a troca de experiências entre eles, algo mais natural, mais corriqueiro. Essa prática fará com que se sintam mais felizes em poder conhecer pessoas novas, aprender mais e trocar informações. Uma vez na semana, hora do conto e da piada: A hora do conto ou da piada, o que faz parte da Cultura Surda e são muito apreciadas por eles, são contadas em LIBRAS, pode ser algo muito proveitoso para os surdos, é o momento em que poderão contar estórias utilizando todas as possibilidades que a língua de sinais oferece (alfabeto manual, números, expressões facial e corporal). Isso os ajudará a desenvolver ainda mais suas percepções com relação à língua falada e escrita. -Professores Bilíngües: Contratação de professores fluentes na LIBRAS e em Português, dessa maneira, haverá maior número de alunos surdos inclusos no projeto bilíngüe. A contratação de docentes surdos deve ser priorizada pelas escolas. -Bibliotecas visuais: investir em livros, revistas e materiais didáticos que sejam ilustrativos e de fácil acesso à comunidade surda. Estes são apenas alguns métodos que o professor e a escola podem utilizar para tornar a prática do ensino para surdos mais prazerosa e eficaz. O direito dos surdos aprenderem em sua língua materna não pode ser retirado, a maioria ouvinte precisa proporcionar à comunidade surda a chance de conquistar seus objetivos, demonstrar suas capacidades. Nesse sentido, vale citar o sábio texto de Couto – Lenzi, citado por BOTELHO: Será que alguém pode, licitamente, negar aos surdos seu legítimo direito de utilizar sua audição, de aprender a língua falada em seu país, de integrar-se à sociedade? [...]. Que as pessoas que [...] de algum modo interferem na vida de um surdo, pensem na enorme responsabilidade que têm em relação a eles. Que pensem que uma oportunidade tirada ou não oferecida poderá implicar em um prejuízo irreparável em sua vida e em sua integração (Couto – Lenzi, 1997, In BOTELHO, 2002, p. 20). A história dos surdos demonstra um grande preconceito proveniente da sociedade em que, a todo custo, rejeitou (e muitos ainda rejeitam) a surdez, obrigando a pessoa surda a ser instruída pelo método oral – auditivo, intentando desenvolver-lhe a fala, mesmo que artificial. O que se provou ao longo dos anos é que pouco ou nada se aproveitou com este método pedagógico, pois os alunos não absorveram os conteúdos, ficaram atrasados em sua escolaridade e prostrados em suas reais habilidades. Somente no ano de 2002 a LIBRAS passou a ser reconhecida no Brasil, todavia, ainda existem escassas escolas que se dedicam ao ensino da mesma, assim como também há escassez de cursos que possam habilitar professores a dar aulas utilizando a língua de sinais. O primeiro passo já foi dado: a LIBRAS não é somente uma junção de sinais, mas sim, uma língua própria da comunidade surda, assim como o português caracteriza o meio de comunicação entre brasileiros ouvintes. Para que o letramento bilingüe possa ter o devido resultado, são necessárias algumas mudanças no cenário educacional para surdos, como por exemplo: Os professores (fluentes em LIBRAS), devem tornar o ensino mais agradável aos alunos, fazendo uso de métodos visuais, de textos que ofereçam gravuras, de filmes legendados, de dramatizações em língua de sinais e até de debates em sala de aula (sobre um texto, sobre uma encenação, etc), onde os alunos poderão descobrir coisas novas e tirar suas dúvidas. O que se pretende demonstrar é o quanto a pessoa surda pode se desenvolver quando faz uso contínuo da LIBRAS, o que lhe possibilitará o aprendizado de outras línguas (não somente o português), o ingresso em universidades e, principalmente, a conquista de sua tão sonhada subjetividade. Constatando a importância a da aquisição precoce da língua de sinais pelo surdo como primeira língua. As crianças surdas usuárias da língua de sinais estão entrando no mundo da escrita, sem passar necessariamente pela oralidade. Portanto, como está ocorrendo a apropriação da escrita da língua portuguesa, como segunda língua, por surdos usuarios da língua de sinais. Atualmente, vários estudiosos tem se preocupado com a melhor forma da criança surda adquirir o domínio da modalidade escruta da língua oral, como segunda língua. A partir dos anos 80, no Brasil os estudos referentes a surdez e a língua de sinais adquirindo um espaço bastante significativo, especialmente no contexto escola, reafirmando o papel da dessa língua no processo de desenvolvimento linguísticos, cognitivo e social do surdo, bem como da aprendizagem da escrita oral, como segunda língua. SISTEMA DE TRANSCRIÇÃO DE LIBRAS (adaptado de Felipe et al., 2001) 1) Os sinais da LIBRAS, para efeito de simplificação, serão representa-dos por itens lexicais da Língua Portuguesa (LP) em letras maiúsculas. Exemplos: CASA, ESTUDAR, CRIANÇA. 2) Um sinal, que é traduzido por duas ou mais palavras em língua portuguesa, será representado pelas palavras correspondentes se-paradas por hífen. Exemplos: CORTAR-COM-FACA 'cortar', QUERER-NÃO 'não querer', MEIODIA 'meio-dia', AINDA-NÃO 'ainda não'. 3) Um sinal composto, formado por dois ou mais sinais, que será representado por duas ou mais palavras, mas com a idéia de uma única coisa, serão separados pelo símbolo . Exemplo: CAVALO LISTRA 'zebra'. 4) A datilogia (alfabeto manual), que é usada para expressar nome de pessoas, de localidades e outras palavras que não possuem um sinal, será representada pela palavra separada, letra por letra, por hífen. Exemplos: J-O-Ã-O, A-N-E-S-T-E-S-I-A. 5) O sinal soletrado, ou seja, uma palavra da língua portuguesa que, por empréstimo, passou a pertencer à LIBRAS por ser expressa pelo alfabeto manual com uma incorporação de movimento próprio desta língua, será representado pela soletração ou parte da soletração do sinal em itálico. Exemplos: R-S 'reais', N-U-N-C-A, 'nunca'. 6) Na LIBRAS não há desinências para gênero (masculino e feminino) e número. O sinal, representado por palavra da língua portuguesa que possui essas marcas, será terminado com o símbolo @ para re-forçar a idéia de ausência e não haver confusão. Exemplos: AMiG@ 'amiga ou amigo', FRI@ 'fria ou frio', MU1T@ 'muita ou muito', TOD@ 'toda ou todo', EL@ 'ela ou ele', ME@ 'minha ou meu'. 7) Para simplificação, serão utilizados, para a representação de fra-ses nas formas exclamativas e interrogativas, os sinais de pontuação utilizados na escrita das línguas orais-auditivas, ou seja: !, ?, ?! Aquisição de segunda língua Conforme mencionado, três propriedades se manifestam na aquisição de língua materna (ou L1): • a universalidade, que corresponde ao fato de que, em condições normais, todas as crianças adquirem uma língua natural; • a uniformidade, que se refere às semelhanças no processo de aquisição a despeito das consideráveis diferenças nos estímulos do ambiente; • a rapidez, que se define em comparação com a manifestação de outras habilidades como o raciocínio com números, entre outras. As três propriedades sugerem que a aquisição da linguagem não é um processo de entativa e erro, ou de imitação, mas antes a manifestação de um conhecimento lingüístico inato a faculdade de linguagem em face da exposição a dados lingüísticos primários. Com relação à aquisição de segunda língua (ou L2), uma possibilidade seria supor que se assemelha à aquisição de habilidades como dirigir carros, tocar violão, que são aprendidas por meio de algum tipo de instrução, por meio de estratégias de resolução de proble-mas, não em função de capacidades de domínio específico, como na aquisição de LI. De fato, um sistema de resolução de problemas explicaria características que se sobressaem na aquisição de L2, citadas em Liceras (1996) (traduzidas e adaptadas): • a falta freqüente de êxito; • a variação individual tanto no nível do êxito como no processo, nas estratégias e nos objetivos; • a fossilização (um fenômeno que não ocorre na aquisição de LI e que consiste na estabilização do processo em certos estágios com a obtenção de certos objetivos comunicativos); • a indeterminação das intuições (em relação ao que permitido ou não na gramática alvo); • a influência dos fatores afetivos. No entanto, o fato de que os falantes não-nativos são capazes de adquirir propriedades da segunda língua que não estão suficiente-mente especificadas nos dados a que são expostos, ou da própria língua materna, sugere que não se trata apenas de aprendizagem por resolução de problemas (cf. White, 1989, entre outros). Sabe-se que, na investigação das diferenças na aquisição de LI e L2, são relevantes fatores como personalidade, socialização, motivação e ou-tros aspectos afetivos e psicossociais. Isso, porém, não exclui a hipóte-se de que exista um sistema mental de domínio específico, a faculdade de linguagem, que determina a aquisição de L2. Embora, como ressalta Liceras(op. cit.), seja razoável considerar que o "órgão da linguagem' não cresce duas vezes (o que se relaciona a fenômenos como o período crítico), su-põe-se que a aquisição de L2 resulta em representações mentais, cujo ponto de partida são os princípios e as categorias estabelecidos pela experiência lingüística prévia. Assim, pode-se dizer que a aquisição de L2, como a aquisição de L1, potencialmente converge na representação da gramática nuclear de L2. De fato, considerando-se que tempo, moti-vação e ambiente de aprendizagem são diversos, é natural que existam aprendizes de L2 que atingem alto grau de proficiência e outros em que a não-convergência é flagrante, a que se associa a fossilização. Segundo Klein & Martohardjono (1999), os estudos gerativos superaram o debate sobre acesso vs. Não acesso à Gramática Universal e, em face do acesso, passaram a investigar a possibilidade de refixação de parâmetros e as propriedades do estado inicial de L2. Em relação à interferência de L1, consideram que não pode ser vista como a causa única de dificuldades e erros produzidos pelos aprendizes. O fato de o aprendiz estar ativamente envolvido sugere que ele utiliza a língua materna como uma estratégia para apoiar ou apressar o desenvolvimento da aprendizagem, embora não esteja clara a extensão da interferência de L1 no estado mental inicial, na aquisição de L2. Supondo-se que o estado mental estável de L1 não é o mesmo de L2, essa diferença poderia ser atribuída a falhas no mecanismo de aprendizagem na tentativa de convergir para a gramática alvo. Além de se observarem os diferentes estados do conhecimento lingüístico, é preciso investigar os fatores que propiciam as mudanças nas representações intermediárias da gramáti-ca, ou seja o que constitui gatilho no input de L2. A formulação teórica dos problemas e fenômenos apresentados poderia estar enquadrada em diferentes tradições de investigação científica. Uma hipótese de trabalho que se distingue crucialmente da abordagem gerativa é a de que a cognição humana envolve processos de domínio geral, biologicamente determinados. É o caso do construtivismo piagetiano, no qual o indivíduo (ou aprendiz) é visto como o construtor ativo de informação a partir de um conjunto de reflexos e de três processos funcionais básicos: a assimilação, a acomodação e o equilíbrio. Conforme destacado em Karmiloff Smith (1995), o construtivismo piagetiano enfrenta a dificuldade de explicar os fatos relativos aos distúrbios da cognição, bem como as questões relativas à pobreza do estímulo, embora ofereça elementos para a investigação acerca da plasticidade do cérebro (nos estágios iniciais do desenvolvimento ou não) e da criatividade. De fato, as teorias se desenvolvem a partir de conjecturas e hipóteses a respeito dos fenômenos observados, havendo sempre a possibilidade de que novas descobertas surjam, exigindo reformulações e, às vezes, mudanças de paradigma. A avaliação de uma teoria se faz em função de sua capacidade de fazer predições e da plausibilidade de suas conclusões, além de outros critérios como elegância e simplicidade. Nesse sentido, considera-se que a teoria gerativa traz contribuições importantes para o entendimento do problema lógico da aquisição e, em última análise, da cognição humana, oferecendo possibilidades de aplicações em diferentes campos, em particular no desenvolvimento de tecnologias educacionais para o ensino. Cabe destacar que, de acordo com os pressupostos gerativistas, o módulo da linguagem interage com outros domínios cognitivos integrantes do sistema central de conhecimento, o que remete à complexidade dos problemas colocados pela aquisição da linguagem e justifica o tratamento dos mesmos em uma perspectiva multidisciplinar, aliando-se fundamentos de psicologia e antropologia social, formulados na interface com a lingüística. Em particular, deseja-se ressaltar que a abordagem inatista e modular da linguagem não exclui que se considere o papel das dimensões funcionais, pragmáticas e sociais do uso linguagem. Essa concepção encontra respaldo em vários autores, como se depreende da citação de Assis-Peterson (1998: 30): 'De acordo com os vários estudiosos da área (Ellis, 1985, Lightbown & Spada, 1993), uma teoria geral de aquisição de segunda língua precisará abarcar os fatores internos (os processos cognitivos e os aspectos afetivos gerais e individuais), os externos (os diferentes contextos de aprendizagem) e sua interrelação. Diante dessa nova perspectiva educacional, surge um novo modelo a Educação Bilíngue, favorecida agora por uma legislação que assegura e garante a sua funcionalidade, e tem como principal objetivo garantir o mesmo desenvolvimento psicolinguístico das crianças ouvintes. Segundo Sanchez o bilinguismo na comunidade surda parte da ideia: O modelo bilíngüe parte do reconhecimento de que os surdos estão em contato com duas línguas e que uma delas é a língua de sinais. (Sanchez, 1991: 4) E: ...quando o bilinguismo afirma que a língua de sinais dos surdos são línguas naturais, reivindica para língua de sinais o mesmo status linguístico de todas as línguas naturais. (Sanchez, 1991:6) Possíveis propostas educacionais voltadas a uma educação bilíngüe começam a estruturar-se com o Decreto 5626/05 que regulamenta a Lei de LIBRAS1, ele prevê a organização de turmas bilíngues, constituídas por alunos surdos e ouvintes, onde as duas línguas, LIBRAS e língua portuguesa são utilizadas no mesmo espaço educacional. Define que para alunos com surdez a primeira língua é a LIBRAS e a segunda é a língua portuguesa na modalidade escrita. Cummis (2002), ao ressaltar a importância da língua materna na educação de crianças bilíngues, imigrantes residentes no pais onde se emprega uma segunda língua L2, questiona como poderão as escolas fornecer uma instrução apropriada para criança cultural e linguisticamente diversas. Considerou-se que esses questionamentos também se aplicam á situação da criança surda usuária de uma língua de sinais, que esta aprendendo uma língua da comunidade ouvinte, no país onde reside. Cummis afirma que um primeiro passo seria atender o que a pesquisa indica sobre a importância do papel da língua materna das crianças em seu desenvolvimento educacional. Os métodos de ensino tradicionais em L2 enfatizam a eliminação de erros, no entanto, mais recentemente, sob orientação de linguistas e psicolinguistas, os professores tem tratado dos erros como características do sistema de uma IL, isto é, parte da gramática da (IL), não sendo considerados como erros. Para tanto, podemos conceituar interlíngua como a língua de transcrição do aluno entre a língua nativa (LN) e a língua-alvo (LAL) em determinada altura de aprendizagem. P. 288 Bialystok (1987), citado por Spolsky (1990),ao estudar as condições de aprendizagem de uma segunda língua, propôs um modelo para se lidar com diferenças no desenvolvimento de habilidades. Seu modelo é dividido em três níveis, input (exposição á língua), conhecimento ( a forma como o conhecimento é usado em produção ou compreensão). A distinção principal ocorre no nível do conhecimento, onde Bialystok postula três construções hipotéticas: conhecimento explicito da linguagem – os fatos conscientes que o aprendiz tem sobre a linguagem; sobre a qual o aprendiz opera em razão de produzir respostas compreensíveis (ou produção) na língua1 Lei 10436/02 alvo; e outros conhecimentos- conhecimento da língua nativa e de outras línguas, conhecimento de mundo etç. Pode-se concluir dizendo que a produção do conhecimento da escrita da L2 se dá num processo constante de interação entre aspectos internos e contextuais. Assim, apresentam-se algumas sugestões para que as ações pedagógicas enfatizem as interações em sala de aula, na tentativa de aproximar esse ambiente de aprendizagem ás situações natural, tendo como requisito fundamental o domínio da língua de sinais entre profissionais e alunos. Para isso, a sala de aula interativa deverá apresentar as seguintes características ( Brown, 1994, apud MEC/SEESP, 2002: 107) 1- Realização de uma quantidade razoável de trabalhos em grupo ou em pares; 2- Fornecimento de informações autenticas’ em contextos do mundo real; 3- Produção visando a uma verdadeira comunicação; 4- Realização de tarefas que preparam os alunos para o uso autentica da língua “no mundo lá fora”; 5- Pratica da comunicação oral por meio da negociação e da espontaneidade de conversa reais; 6- Produção escrita visando a um publica real, não um publico inventado; 7- Em suma, associar o ensino da língua com o uso que ela tem fora de sala de aula. O processo de apropriação da L2, a teoria da linguística Interdependente com uma forma aplicável, sem ignorar os conhecimentos linguísticos internos e aproximando-se da interlíngua que muito tem a nos informar sobre o que ocorre no processo dos aprendizes de uma L2, nesse caso, da escrita da língua portuguesa por crianças surdas. A seguir apresenta-se uma relação de materiais didáticos, selecionados entre tantos outros existentes. Alguns são comercializados, outros, distribuídos gratuitamente: • vídeos de poesias, histórias infantis, fábulas de Esopo (sinalizadas) e números em LSB, produzidos pela LSB vídeo produções; • vídeos produzidos pelo INES: Histórias Infantis em Língua de Sinais: Introdução às Operações Matemáticas; O Verbo em Português e em LIBRAS; Hino Nacional; • CD-ROM Coleção Clássicos da Literatura em LIBRAS/Português, volume I (Alice no País das Maravilhas de Lewis Carol), editado por Clélia Regina Ramos, Editora Arara Azul; • Material distribuído pelo MEC - Comunicar - proposta de adequação curricular para alunos com necessidades especiais: vídeo I: dicionário visual LIBRAS; vídeo II - parte 1; Formulação de frases em LIBRAS; parte 2: pidgin; vídeo III: instalação dos fonemas e aquisição de fala; • Vídeo: Independência e vida: prevenção ao abuso de drogas. MEC/ INES; • Vídeo: Prevenção de HIV - AIDS/DST para pessoas surdas produção AJA, com recursos do Projeto Unesco, www.aja.org.br/aids: • Vídeo: A ilha dos sonhos (filme legendado - conteúdos de geografia e matemática), disponível nas edições paulinas; • 17 programas infantis da série Vejo Vozes, veiculados e produzidos na TV Cultura; • Livros diversos de LIBRAS, entre os quais: LIBRAS em Contexto, distribuído pelo MEC e comercializado pela FENEIS. • Dicionários de LIBRAS: a. Capovilla, E C, Raphael, W D. (2001a). Dicionário Enciclopédico Ilus trado Trilíngüe da Língua de Sinais Brasileira. Volume I: Sinais de A a L (Vol 1, p. 1834). São Paulo, SP: Edusp, Fapesp, Fundação Vitae, Feneis, Brasil Telecom. (ISBN: 85-314-0600-5). Capovilla, F. C, Raphael, W. D. (2001b). Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngüe da Língua de Sinais Brasileira. Volume II: Sinais de M a Z (Vol. 2, p. 835-1620). São Paulo, SP: Edusp, Fapesp, Fundação Vitae, Feneis, Brasil Telecom. (ISBN: 85-314-0603-X). b. Dicionário Digital Bilíngüe - Português x LIBRAS e LIBRAS x Português, em CD-Rom, produzido pelo INES, organizado por especialistas sur dos, filólogos, lexicógrafos e lingüistas, com oito mil sinais/vídeos animados, em ordem alfabética, gravado e distribuído gratuitamente pelas secretarias estaduais de Educação. c. Dicionário Digital da Língua Brasileira de Sinais, desenvolvido pelo Programa Acessa São Paulo, produzido em CD-Rom, com oito mil palavras, três mil vídeos, 4,5 mil sinônimos e cerca de 3,5 mil ima gens. Entre os livros com estórias de/ou para surdos, encontram-se: Uma menina chamada Kauana (já escrito em signwriting por Marianne Stumpf), Mitaíde Jaime Sautchuk, editora Verano, Brasília, 1992; O vôo da gaivo-ta de Emmanuelle Laborit, publicado pela Best Seller, São Paulo, 1994; Como é ser surdo, de Vera Strnadová, traduzido por Daniela Richter Teixeira e publicado pela Editora Babel, RI, em 2000. É interessante também apresentar uma breve relação de alguns dos filmes que envolvem a temática da surdez e que auxiliam ouvintes a perceberem um pouco mais da realidade do surdo, e surdos a se identificarem pelas estórias, muitas vezes semelhantes à sua: Filhos do Silêncio; O Milagre de Anne Sullivan, Meu Adorável Professor, Pontes do Silêncio, A Música e o Silêncio; Ariel, A Estrela do Mar dos Desejos (desenho animado, Walt Disney, coleção Princesas). Não são filmes ainda dirigidos por surdos, no entanto tratam de forma interessante a questão da surdez e como ela foi e vem sendo encarada pelo surdo independente de uma comunidade, pela Comunidade Surda propriamente dita e pela sociedade ouvinte. ATIVIDADE A DISTÂNCIA: Cada discente com base nas assertivas descritas na apostila e no texto em anexo referente à escrita dos surdos a proposta de atividade para vivenciar a pratica da escrita do aluno em suas interações no ambiente social ou escolar e suas dificuldades. Cada um precisa trazer um texto escrito por um aluno surdo de seu município ou das proximidades pode ser qualquer texto acompanhado de sua percepção da modalidade de escrita às dificuldades, seu desenvolvimento e sobre as influencias para a escolha do tema para a escrita do texto. Atividade a ser entregue no primeiro dia da aula presencial. Segue exemplo abaixo de um texto: REFERÊNCIAS BOTELHO, Paula. Linguagem e Letramento na educação dos surdos – ideologias e práticas pedagógicas. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2002. FERNANDES, Sueli F. Práticas de letramento na educação bilingüe para surdos. Curitiba: SEED, 2006. GOTTI, Marlene de Oliveira. Português para deficiente auditivo. Brasília: Edunb, 1991. LACERDA, Cristina B. F. de. Um pouco da história das diferentes abordagens na educação dos surdos. Cad. CEDES vol.19 n.46 Campinas, Set. 1998. QUADROS.Ronice Müller de. Educação de surdos: A aquisição da linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. Formação em Letras,Especialista em Educação Especial – IBPEX, Professora da Rede Pública de Ensino do Estado do Paraná de Língua Portuguesa para alunos surdos. E-mail: [email protected] Empregado aqui no sentido de não querer mudar as coisas mas, conservá-las, deixá-las como são. Oralizados refere-se aos que têm razoáveis ou boas habilidades de fala e de leitura labial, enquanto os "não oralizados apresentam precárias habilidades. (PAULA BOTELHO, 2002, p. 30) Letramento é o estado daquele que não só sabe ler e escrever, mas que também faz uso competente e freqüente da leitura e da escrita, e que, ao tornar-se letrado, muda seu lugar social, seu modo de viver na sociedade, sua inserção na cultura. (Soares, 1998, citado por BOTELHO, 2002, p. 63). Ao usar este artigo, mantenha os links e faça referência ao autor: LETRAMENTO PARA SURDOS – UM NOVO OLHAR SOBRE AS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS publicado 21/06/2009 por Alexandra Albano em http://www.webartigos.com Fonte: http://www.webartigos.com/articles/20088/1/LETRAMENTO-PARA-SURDOS-UM-NOVO-OLHAR-SOBRE-AS-PRATICAS-PEDAGOGICAS/pagina1.html#ixzz1GhN9qvkF Anexo