ORGANIZAÇÃO DO ACERVO LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL1
Lucas Martins da Costa Cunha2
Introdução
Dadas as características biográficas que um acervo literário possui e evoca e,
mais além, seguindo os princípios de Almuth Grésillon para a crítica genética – “a
origem [do texto] não está no Verbo, mas no ‘imaginário’”—, parece-nos necessário
fazer aqui um rápido esboço biográfico do autor, discutindo seus anos de formação e
sua carreira como escritor. Apresentaremos também um breve comentário sobre a obra,
temas e abordagens do escritor. Logo após, trataremos exclusivamente do projeto de
organização de seu acervo.
Esboço biográfico
Luiz Antonio de Assis Brasil e Silva nasceu na cidade de Porto Alegre a 21 de
junho de 1945. Sua família é de origem açoriana – fato que marcará profundamente
tanto sua obra quanto sua vida: “sou descendente de açorianos por parte de pai e de
mãe. Assim, o que era um interesse genealógico acabou em interesse pelos Açores,
minha segunda pátria, e onde tenho excelentes e fraternais amigos” (entrevista a José
Pinheiro Torres).
Contando apenas cinco anos, a família do escritor muda-se para o município de
Estrela, região central do estado do Rio Grande do Sul. Lá, o escritor realiza seus
estudos primários, além de tomar contato com a cultura alemã, decorrente do grande
número de imigrantes na região.
Em 1957, os Assis Brasil retornam para a capital. O autor irá concluir o Curso
Clássico no tradicional Colégio Anchieta, administrado pelos padres jesuítas, no ano de
1
Projeto de organização do acervo de Luiz Antonio de Assis Brasil coordenado pela profa. Dr. Helenita
Rosa Franco. E-mail: [email protected].
2
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Rio Grande do Sul – Brasil.
1963. Data da mesma época o início de sua educação em música clássica, com o
professor e violoncelista Roberto Bastos André. Assis Brasil aprenderá o violoncelo.
Sobre esse período de formação intelectual e cultural, Assis Brasil declarou certa
vez em entrevista (IEL, 1995):
Pensando em formação escolar, esta foi de excelente qualidade. Estudei com
os jesuítas, que possuem um colégio centenário em Porto Alegre. Os padres
da Companhia estimulavam os estudos clássicos, a filosofia e a língua
portuguesa. Já na adolescência eu lia Cervantes, Chateaubriand e Milton no
original - e isso não é vantagem alguma, porque todos os colegas faziam o
mesmo. Creio que esse foi o grande impulso para a literatura, embora em
casa o ambiente não fosse estranho às letras. Tive a oportunidade, também,
de estudar música: aprendi violoncelo e fui músico da Orquestra Sinfônica de
Porto Alegre. Todo esse conjunto de fatores, creio, já preparava o futuro
romancista. (Entrevista a José Pinheiro Torres)
Posteriormente, em 1964, ocorre sua entrada no exército brasileiro, mais
especificamente no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de Porto Alegre, para o
serviço militar obrigatório, onde irá exercer uma série de trabalhos burocráticos.
Um ano mais tarde – em 1965 – o escritor ingressa na Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul, instituição que irá desempenhar um papel capital em sua
trajetória como acadêmico e escritor. Cursará primeiramente a Faculdade de Direito,
graduando-se em 1970, e advogando por dois anos. Em 1975 Assis Brasil tornou-se
parte do membro docente da Universidade:
Encontrei-me no trabalho universitário. Tenho, ali, a possibilidade de
conviver, de maneira mais palpável, com a literatura e seus autores. Não
poderia fazer outra coisa. À parte disso, minha Universidade me propicia
ministrar a Oficina de Criação Literária, que teve início em 1985 e que segue
até hoje. Orgulho-me de meus ex-alunos, que por ali passaram, e que hoje são
escritores reconhecidos pela crítica e pelo público. (Entrevista a José Pinheiro
Torres)
Sua entrada na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre acontecerá um ano após sua
entrada no exército, em 1965. O autor irá permanecer na orquestra por quinze anos, no
caráter de violoncelista, com um breve intervalo em 1971:
Foram quinze anos dedicados à Orquestra da minha cidade; uma experiência
importante, por vários motivos. Em primeiro lugar, pela consciência de que,
em uma orquestra, o músico é um executante no sentido próprio do termo. A
emoção e a paixão são do maestro e do compositor. Em segundo lugar,
enquanto experiência social, esta é riquíssima. Vive-se, na orquestra, um
ambiente bastante neurótico, porque se trata de um pequeno grupo no qual há
muita competição em torno dos postos. Postos melhores significam salários
maiores, e a partir desse fato se estabelece uma pesada hierarquia dentro da
orquestra. E eu vivi esse clima durante a ditadura militar, quando havia
enorme verticalização do poder. As coisas eram bem mais graves do que se
pensa. (1995)
O autor irá lançar seu primeiro livro em 1976. Um quarto de légua em quadro
foi escrito durante uma longa permanência em hospital porto-alegrense. Recebeu o
prêmio Ilha de Laytano de melhor romance:
Em 1974 tive uma doença gravíssima, que implicou e internamento hospital,
cirurgia, risco de vida, etc. Na convalescença comecei a escrever aquilo que
seria meu primeiro livro, Um quarto de légua em quadro. Não tinha idéia do
que se tratava. Minha intenção original era escrever uma obra histórica sobre
o povoamento açoriano no Rio Grande do Sul. Pois virou romance, e desde aí
não parei mais. (Entrevista a José Pinheiro Torres)
Nesse mesmo ano começa sua carreira de administrador cultural, primeiramente
no título de Chefe da Secção de Atividades Artísticas da Prefeitura de Porto Alegre.
Depois, ocupará o cargo de Diretor do Instituto Estadual do Livro, no Governo do
Estado do Rio Grande do Sul. Permanecerá até 1983.
Seguindo a publicação de Bacia das almas (1981) e Manhã transfigurada
(1982), Assis Brasil, após receber uma bolsa de estudos do Goethe-Institut, viaja à
Alemanha, onde permanece de 1984 até 1985. Nesta data, com as comemorações do
sesquicentenário da Revolução Farroupilha, a Sociedade Anônima Moinhos Riograndense (Samrig) requisita-lhe a redação de um texto que será usado em seu relatório
anual. No mesmo ano, As virtudes da casa é lançado pela editora Mercado Aberto.
Segundo o próprio escritor, trata-se: “[d]o romance que melhores lembranças me traz da
época de sua escrita. Não sei se é o melhor, literariamente falando, mas é certo pertence
ao inventário das minhas obras inesquecíveis”.
A formação da Oficina de Criação Literária ocorreu nesse período.
Primeiramente, foi criada como parte do Curso de Pós-graduação em Lingüística e
Letras da PUCRS. Com o intuito de formar futuros escritores e discutir a técnica
narrativa, a Oficina alcançará um renome notável nas letras nacionais, revelando
grandes autores em suas classes e recebendo o Prêmio Fato Literário em 2005, data de
seu vigésimo aniversário.
Em 1987, tendo lançado O homem amoroso no ano anterior, o autor obtém o
grau de Doutor em Letras, pela PUCRS. Para tanto, valeu-se de um método pouco
ortodoxo: usa a obra Cães da província como tese, obtendo da banca a nota máxima.
Nos agradecimentos do referido livro, o autor escreveu:
(...) o A. quer agradecer e louvar a atitude intelectual da direção e professores
da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, que abre espaços
para a apresentação de um trabalho de doutorado inédito em nosso meio, o
que sem dúvida marca uma atitude corajosa no entendimento de que o
educacional/acadêmico possui uma dimensão cultural abrangente e criadora.
(1987, p. 1)
Em 1988 dá-se a publicação em folhetim, no jornal Diário do Sul, de Breviário
das terras do Brasil, romance que versa sobre a inquisição portuguesa em terras
brasileiras. O Prêmio Literário Nacional, concedido pelo Instituto do Livro, juntamente
com o Prêmio Literário Erico Verissimo, da Câmara Municipal de Vereadores de Porto
Alegre, são entregues ao autor nesse mesmo ano.
No início da década de 1990, o autor é convidado pela Universidade dos Açores
para lecionar a disciplina de Literatura Brasileira, como catedrático convidado. Dois
anos depois, Assis Brasil irá realizar a investigação de pós-doutoramento no mesmo
local, sobre a obra do escritor açoriano José Martins Garcia.
No ano de 1994 há o lançamento do livro Senhores do século, última parte da
trilogia Um castelo no pampa, iniciado com Perversas famílias (1992) e Pedra da
memória (1993). Sobre essas obras, o autor irá proferir uma série de conferências em
Berlim, Eichtstätt e Heidelberg, no final do mesmo ano, a convite da Casa das Culturas
do Mundo.
Concerto campestre, Breviário das terras do Brasil (anteriormente publicado
apenas como folhetim) e Anais da Província-boi saem em 1997, ano em que o autor é
eleito patrono da 43ª Feira do Livro de Porto Alegre.
Duas universidades norte-americanas convidam o escritor para que realize uma
série de palestras em seus campi: a Brown University em 1998 e a Berkeley University
em 2000 (onde Assis Brasil participa do programa Distinguished brazilian writer in
residence).
Seus últimos livros recebem uma série de prêmios: o Prêmio Machado de Assis,
da Fundação Biblioteca Nacional, por O pintor de retratos, em 2001; o Prêmio Portugal
Telecom de Literatura Brasileira, bem como o Prêmio Jabuti e Prêmio Açorianos de
Literatura, por A margem imóvel do rio; Música perdida, de 2006, é indicado ao Prêmio
Jabuti.
Assis Brasil publicou em 2008 o livro Ensaios íntimos e imperfeitos, uma
coleção das colunas que publicadas no jornal Zero Hora (aonde ainda escreve). Em
2010, proferiu conferências nas Universidades de Paris-Sorbonne e na Universidade de
Toronto. No dia 5 de maio desse mesmo ano, doou ao Delfos seu acervo literário. No
dia 26 de outubro, Tarso Genro, recém-eleito governador do estado do Rio Grande do
Sul, indicou o nome do escritor para que ocupasse o cargo de Secretário de Cultura do
Estado, o que foi aceito por Assis Brasil.
Ao longo de 35 anos de carreira, foram lançados: Um quarto de légua em
quadro (1976); A prole do corvo (1978); Bacia das almas (1981); Manhã transfigurada
(1982); As virtudes da casa (1985); O homem amoroso (1986); Cães da Província
(1987); Videiras de cristal (1990); Perversas famílias (1992); Pedra da memória
(1993); Os senhores do século (1994); Concerto campestre (1997); Anais da ProvínciaBoi (1997); Breviário das terras do Brasil (1997); O pintor de retratos (2001); A
margem imóvel do rio (2003); Música perdida (2006); Ensaios íntimos e imperfeitos
(2008).
Note-se que não foram listadas as participações em antologias (como, por
exemplo, a realizada anualmente por sua Oficina de Criação Literária), ou mesmo obras
mais obscuras, como alguns contos esparsos publicados na imprensa, ou até mesmo
trabalhos feitos sob encomenda, como o Relatório Anual da Samrig em comemoração
aos 150 anos da Revolução Farroupilha.
Mesmo assim, temos aqui uma obra incomparável não só na literatura sul riograndense, como também na brasileira.
No que podemos caracterizar como sua primeira fase, vemos como os temas da
imigração açoriana e o passado do Rio Grande do Sul, com suas figuras históricas que
muitas vezes beiram o lendário e o fantasioso são caras ao autor. Sobre isso, a crítica
literária Léa Masina, em seu estudo sobre a obra de Assis Brasil intitulado “O códice e o
cinzel”, notou:
Num primeiro momento, a obra de Assis Brasil propõe, no plano ficcional, a
revisão da História do Rio Grande do Sul. Sobretudo nos três romances
iniciais, que a crítica denomina “trilogia dos mitos”, o leitor se depara com a
abordagem romanesca de episódios que invertem o foco dos relatos. Não
obstante, a própria História é sua matriz, fonte que possibilita ao escritor a
inovação temática, emprestando-lhe o eixo cronológico, ordenador da sintaxe
narrativa. Diversas leituras possíveis remetem, pois, à função propriamente
formadora da literatura, ressaltando a figura do escritor, sua responsabilidade
e o papel que lhe cabe numa sociedade em desenvolvimento. (1996, p. 16)
Ou seja, temos nessa fase de sua obra a História como ordenadora do fluxo
narrativo, mesmo que para o autor haja nisso apenas um importante fator de crítica
social. Está consciente dos males causados a uma sociedade por uma excessiva
mitificação do passado. Novamente, Masina constata:
Assis Brasil é um homem sensível e sabe que a História é repleta de falácias.
A ficção torna-se, para ele, instrumento de desmistificação. Se a grandeza
heróica sustentara, até então, grande parte das obras regionalistas, dedicadas
a narrar a epopéia das guerras, fixando hábitos de vida, usos e costumes da
campanha, o que o escritor agora propõe é a denúncia da intolerância. A
Revolução Farroupilha, luta ferrenha entre duas oligarquias elevada a
símbolo de heroicidade do povo gaúcho, ressurge então, em seus aspectos
mais sombrios, acentuando com nitidez a oposição entre grupos sociais.
(1995, p. 17)
É a partir de Manhã transfigurada que há uma inovação no tocante à temática
histórica. Desta vez, o autor preocupa-se em ter como principal motor narrativo as
próprias ações dos personagens, em vez de basear sua trama na representação de fatos
históricos. Ele, nas palavras de Léa Masina, “irá buscar seus motivos nos aspectos mais
inéditos da experiência humana”. Sobre Cães da província, ela também conclui: “o eixo
desloca-se, pois, do contexto às personagens, já não mais com o intuito de desmitificar.
Importa ao escritor iluminar as paixões humanas”. A partir desses dois livros, percebese que o autor optou claramente por essa última abordagem dos fatos históricos: são
pano de fundo para os personagens e suas ações, que passam a ser a verdadeira
engrenagem da trama.
Outra temática interessante em sua obra é a questão da música. Violoncelista de
formação clássica, tendo até mesmo tocado na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, o
autor tem na música um dos principais pilares narrativos de pelo menos três de suas
obras: O homem amoroso, Concerto campestre e Música Perdida. No primeiro,
acompanhamos o cotidiano de um músico de orquestra na sua luta para justificar sua
vida e sua arte; no segundo, há um maestro como um dos personagens principais da
trama, além do que é a criação de uma orquestra que dá início ao enredo; no terceiro, há
novamente a figura de um maestro, desta vez como protagonista.
É inegável o fato de que muito disso deve-se ao fato do escritor possuir
formação musical clássica, o que se dá através das muitas descrições ao longo das
referidas obras sobre o tema e seus efeitos nos ouvintes. Tome-se, por exemplo, este
trecho de Música perdida:
Era uma cantiga infantil, com vinte e duas notas. O balbucio triste de uma
criança. Era belo. Disse: “Agora a primeira variação”. Acionando o segundo
teclado com a mão esquerda, a mesma frase voltou, ainda delicada, fazendo
um contraste com a anterior; era a mesma frase sim, mas era outra, adensada
e colorida, que conversava com a primeira. Disse: “Segunda variação”. A
frase tornou-se mais ríspida, com o contraponto em filigranas de perguntas e
respostas entre os dois teclados. “Terceira variação”. A melodia ganhava uma
complexidade sonhadora, diluindo-se em arpejos, evocando bosques e
caçadas. “Quarta”. Ninguém mais reconheceria a canção do tema: um
compasso estranho transformara-o numa escala que ondulava como panos ao
vento. A frase iniciada pela mão esquerda era completada pela mão direita.
(2006, p. 33).
Temos aqui coisas que são apenas perceptíveis para um músico treinado e
transmiti-los com tal nível de detalhamento só seria possível para um amante da música,
para um ouvido treinado (sem contar o inegável talento como escritor).
Outro ponto a se destacar quando se aborda a obra de Luiz Antonio de Assis
Brasil é a evolução de sua linguagem. Pode-se dizer que o que na verdade ocorreu foi
uma “simplificação”, um “cinzelamento” do texto. No princípio, podíamos identificar
características quase barrocas em suas descrições de personagens e ambientes. Em
Manhã transfigurada há, por exemplo, a seguinte passagem que descreve as
reminiscências de um jovem padre por uma moça:
Camila. A idéia penetrava os interstícios da alma, como uma lembrança de
coisa já antiga, quando a viu entre as pessoas que se juntavam ao fundo da
igreja. Por que pertubara-se tanto? Lembrava-se, Camila brilhou como um
astro entre todos, o sorriso que tudo prometia, tudo oferecia, não havia
dúvidas. Mas não, quem sabe era apenas uma gentileza, ou aprovação pelas
verdades religiosas que ouvia? (...) Assustou-se pelo que pensava, pois desde
que viera do Reino, nunca lhe lançaram um olhar tão denso e carregado,
nenhuma mulher chegara-se tanto, nem havia demonstrado tanta solicitude.
(1995, p. 22)
Basta dizer que a recordação continua por mais duas páginas para que se tenha
uma idéia do estilo de então do autor. Além da construção frasal cheia de
questionamentos e alterações, que parecem dar voltas intermináveis na cabeça do
protagonista, há a constante presença de palavras grandiloqüentes (“interstícios”,
“solicitude” etc.).
Confrontado com a mesma tarefa – rememorar um antigo amor de infância – o
autor optou, em Música perdida, pela concisão:
Durante o longo e elaborado Amen, desses que duram mais de um minuto,
seu olhar ficou preso a uma menina de longos cabelos, ajoelhada junto a um
senhor. Não estavam bem vestidos. A menina tinha o rosto cheio, cor de cuia.
Ela batia com a polpa dos dedos na madeira do banco, marcando o compasso.
Jamais se perdia. Nunca mais a enxergou, só muito depois, quando era moço.
O que o intrigava e atraía eram as sobrancelhas negras, quase unidas. (2006,
p. 19)
Note-se aí o uso de frases curtas (“Não estavam bem vestidos”, “Jamais se
perdia” etc.) e, nelas, a ordem direta e a ausência de interrogações. Trata-se de um texto
brutalmente descritivo em que o sentimento do personagem só é expresso na última
oração.
O acervo e sua organização
Luiz Antonio de Assis Brasil doou seu acervo literário à PUCRS no dia 5 de
maio de 2010 (data da assinatura dos documentos). O corpus é composto
essencialmente de documentos textuais. Com base nesse material, o projeto de
organização tem por finalidade elaborar estratégias para pesquisas teóricas e práticas do
acervo em questão.
O Delfos – Espaço de Documentação e Memória Cultural
(localizado na Biblioteca Central Ir. José Otão), é o espaço determinado para o
arquivamento de acervos culturais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do Sul. Trata-se do local onde agora se encontra abrigado o acervo do escritor. Além
deste, há mais de trinta coleções, de áreas como literatura, arquitetura, comunicação e
história.
Com base nas relações que se possam estabelecer entre a diversidade desse
material, deseja-se propor, com rigor metodológico, a elaboração de um instrumentodocumento que opte por apresentar todas as fontes existentes no acervo, quaisquer que
sejam seus estados, e considerando também sua diversidade, estabelecendo interrelações entre elas. Desta forma, ao mesmo tempo em que a pesquisa desvenda o
conteúdo do acervo, cria-se um instrumento pronto para ser usado por novos estudiosos.
Diante do fato de que o acervo já possui certo nível de organização por parte do
próprio
autor,
o
projeto
visa
a
organização,
tombamento,
catalogação
e
acondicionamento dos documentos recebidos, preparando-os para a transferência dos
dados ao sistema de catalogação digital adotado pelo Delfos. Este projeto é etapa
importante para a pesquisa das fontes documentais reunidas no acervo. Possui o sentido
de criar, a partir da exploração e da tomada de conhecimento de seus materiais, um
instrumento valioso de trabalho: o inventário digital, atividade de caráter exaustivo e
minucioso, que permite construir um diálogo com outros pesquisadores, outros centros
de estudo e outros acervos literários e culturais, da própria Universidade ou mesmo fora
dela.
O acervo (ao ser capaz de colher, preservar, organizar e explorar fontes
primárias) propicia um trabalho com a especificidade e heterogeneidade das fontes, bem
como seu cruzamento e interação. Este projeto busca oferecer aos pesquisadores
informações de caráter geral e abrangente dos planos do material em estudo.
O processo de descrição do acervo envolve a elaboração de instrumentos de
pesquisa que permitem aos pesquisadores identificar, rastrear, localizar dados, seja pela
via sumária, seja pela analítica, já que os documentos armazenados não são de livre
acesso. São estes instrumentos de pesquisa que permitem que a massa de informações
seja difundida junto aos usuários.
Desse modo, a informatização do acervo possibilita a sua divulgação junto aos
meios acadêmicos, escolares, administrativos, culturais e outras instituições afins,
abrindo-se assim uma potencialidade informacional (valor secundário do documento)
mais ampla.
As atividades estão baseadas em bibliografia de cada uma das áreas envolvidas
com o projeto. A área literária demanda conhecimentos relativos à Historiografia e à
Crítica Literária e à Teoria da Literatura, tendo-se referenciado autores representativos
em suas especialidades, para cotejar com a matéria dos documentos na definição dos
campos que constituirão a ficha catalográfica, base para qualquer pesquisa sobre o
autor.
Os acervos com elevado número de peças, como o presente, devem receber
tratamento informatizado, sendo que a indexação será feita por meio de ficha
catalográfica, com entradas relativas aos campos definidos para compor o banco de
dados. As atividades ligadas à construção e utilização de bancos de dados a exemplo
dos demais projetos do Delfos, serão fundamentadas em tecnologia voltada ao
armazenamento, tráfego e processamento digital de documentos, que propicia facilidade
e velocidade na recuperação de documentos, segurança e confiabilidade.
Para gerenciamento desse banco de dados, em conformidade com o sistema da
Biblioteca Central da PUCRS, onde se localiza o Delfos, optou-se pelo software Aleph.
Esse trabalho estará sob a responsabilidade dos técnicos da Biblioteca, que também
treinarão e acompanharão o trabalho dos bolsistas.
O primeiro momento exige um trabalho mecânico de higienização, tombamento,
e acondicionamento dos documentos doados. O segundo momento implica a preparação
e sistematização para a digitação das fichas catalográficas, hoje em suporte de papel,
transferindo os dados para o meio digital. Isto implicará, também, ajustes à nova
política de informatização e gerenciamento dos Acervos Culturais da PUCRS,
preservando a especificidade do Acervo Luiz Antonio de Assis Brasil e sua base
informativa atual. O terceiro momento é de investigação e implica o levantamento e a
organização das informações referentes ao Acervo Luiz Antonio de Assis Brasil, os
quais serão descritos possibilitando aos pesquisadores a visão de um panorama geral,
completo e claro das fontes existentes no arquivo.
Ao iniciar o trabalho de organização de um acervo, a primeira proposta é a de
higienizar os documentos, tombá-los e catalogá-los. Considera-se de pleno êxito o
projeto aqui proposto, se todos os documentos passarem por esse processo.
Referências
ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de. Cães da província. Porto Alegre: L&PM, 1987.
ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de. Manhã transfigurada. Porto Alegre: L&PM, 1982.
ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de. Música perdida. Porto Alegre: L&PM, 2006.
ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de. Sobre sua carreira [sem data]. José Pinheiro Torres.
Porto Alegre: site pessoal de Luiz Antonio de Assis Brasil. Disponível em:
<http://www.laab.com.br/bio.html>. Acesso em: 25 out. 2010.
GRÉSILLON, Almuth. Elementos de crítica genética. Porto Alegre: UFRGS, 2007.
MASINA, Lea. O códice e o cinzel, Autores Gaúchos: Luiz Antonio de Assis Brasil, nº
18, p. 16- 21. 1995.
AUTORES GAÚCHOS: LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL. Porto Alegre: Instituto
Estadual do Livro, 1995.
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organização do acervo de Luiz Antonio de Assis Brasil